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Palavras chaves do autor: Índios, Jesuítas, expedições, colonos,

aldeamentos.
Palavras chaves para a equipe: resistência, colonos, apresamentos, guerra
justa, resgate.

Principais marcos espaciais geográficos: A região da Amazônia era uma


localidade que se concentrou em torno de três quartos das populações
indígenas no Brasil do período dos índios da terra, perdendo seus territórios
com o desenvolvimento da colonização e ocupação produtiva de exploração.
As expedições de exploração indígena começaram a serem intensas na
Amazônia legal, em especial próximos aos rios da Amazônia, mas também no
Tocantins em que se encontrava populações de Tupi. Os sertões eram as
regiões interioranas do país onde a produção de cana de açúcar se
desenvolveu, com mão de obra indígena descida dos litorais.

Principais marcos temporais: Século XVI inicia-se a colonização dos


portugueses sob os indígenas da terra, diretamente articulado com a expansão
açucareira.
Século XVII se intensifica as formas de resistências indígenas, como as fugas e
destruição de propriedades senhoriais.
Século XVIII Os índios passam a tomar consciência dos seus pequenos direitos
sobre liberdade e condições de dignidade humana, e produzem suas primeiras
petições.
Problemática central:
O índio, esse desconhecido

Monteiro inicia o artigo falando a respeito do mito dos bandeirantes enquanto


heróis civilizadores do Brasil e sua contraparte, também problemática, da
contra-história do bandeirante exterminador de índios. Enquanto a segunda
tradição historiográfica cumpre o papel de fazer a crítica do mito do europeu
civilizador, esta peca por também retirar a agência dos índios, ambas as
leituras descrevem os índios como seres sem vontade própria, vítimas
passivas. Tal leitura escamoteia o papel crucial que a escravidão indígena teve
na formação socioeconômica da colônia e não toca na questão do
deslocamento populacional dos povos originários e a recomposição social que
ele traz.

A início o autor demonstra essa agência falando a respeito da dupla função da


escravidão indígena do ponto de vista produtivo e militar. O primeiro choque
cultural se apresenta na diferença da natureza do cativeiro para os índios, que
tinha fins rituais, e para os portugueses, para fins de servidão. Tal choque
explica a resistência indígena à comercialização de escravos. Os portugueses,
então, têm de lançar mão de expedições de apresamento de indígenas para
suprir a necessidade de mão de obra.

Evidentemente, tais expedições levantaram acalorados debates morais e


jurídicos. Tais debates resultaram na organização de novas formas de
campanha de apresamento e legislações que regulamentavam as condições do
devido processo legal para o cativeiro, devendo as campanhas e guerras de
conquistas passarem pelo aval da coroa. Tais mecanismos jurídicos, no
entanto, ampliaram o mecanismo das guerras. Tal mecanismo foi essencial
para a expansão da indústria açucareira quando o tráfico de escravos africanos
ainda era incipiente.

Tais guerras foram responsáveis por provocar um largo despovoamento dos


litorais, no século XVI, em direção aos sertões onde a produção da cana
acontecia. Apesar das guerras levarem dezenas de milhares de índios ao
cativeiro, a grande maioria destes morria no caminho aos sertões, não só pelos
maus tratos, mas também pelas epidemias causadas pela imunidade baixa dos
nativos contra as doenças introduzidas pelos colonizadores. Tais práticas,
muitas vezes, violavam os preceitos jurídicos da lei colonial vigente e muitas
campanhas eram travadas de forma ilegal e privada. Quanto mais indígenas
morriam, mais campanhas se faziam de captura de novos escravizados, até tal
prática se tornar economicamente inviável.

Mas estas guerras não tiveram apenas efeitos demográficos. Esse contato
opressivo também abriu caminho a novas formas de cultura de resistência
indígena, que não só se livravam da opressão através do negócio de
capturados de outras aldeias, mas também de revoltas violentas, fugas
coletivas e restabelecimento das aldeias em regiões fora do alcance dos
brancos.

No século XVII, conforme os colonos avançavam em direção ao interior,


especialmente após o restabelecimento do Maranhão, vários índios foram
aprisionados. Saindo de São Vicente acima, fazendas com centenas de índios
se constituíram. Estas campanhas de apresamento foram bem sucedidas em
multiplicar a força de trabalho escrava, análoga ao que também ocorreu com o
tráfico negreiro dos séculos XVII e XVIII. Ao sul, o caráter militar dessas
campanhas é acentuado. Tais campanhas militares recompuseram as relações
comerciais, à medida que estas se tornavam empresas individuais. Os índios
foram cruciais no processo produtivo da economia açucareira, mas seu papel
fundamental foi no transporte das mercadorias. Não tendo experiência em se
locomover pelos territórios sertanejos, os portugueses delegam aos índios o
transporte das cargas e o desbravamento dos sertões.
Se, por um lado, os índios eram supostamente livres da escravidão à medida
que as guerras justas eram minoria das campanhas de apresamento, as leis
consuetudinárias da colônia constantemente se sobrepunham às da coroa,
como a lei cristã da servidão em troca do abrigo, agasalho e alimento. Os
brancos se achavam no direito de escravizar os índios por se justificarem ao
dizer que lhes davam bons tratos e ensinavam o cultivo da terra.

Nas capitanias amazônicas, o apresamento dos índios era justificada pelos


colonos como campanhas de resgate em que diziam estar salvando os índios
de tribos inimigas. As capitanias amazônicas, em colaboração com as do
nordeste, prosperaram na captura destes indígenas. Mas essa prosperidade
teve um alto preço para os povos indígenas. Os colonos das regiões
amazônicas tinham pouco cuidado com seus cativos por julgarem ser a
Amazônia uma fonte inesgotável de força de trabalho. Suas populações foram
dizimadas.

O autor ainda discorre sobre a influência dos jesuítas no combate ao tráfico de


escravos indígenas, especialmente após a chegada do padre António Vieira em
1653, que questionava as ingerências cometidas contra os índios “descidos” do
sertão. Através de sua influência, leis mais rígidas foram estabelecidas, que
davam aos jesuítas o monopólio dos cuidados dos índios e o direito de
julgarem a justiça das campanhas de apresamento. Apesar de tais leis, aquela
década ainda veria um aumento no fluxo de índios dos sertões ao litoral.

Como forma de tentar controlar tal situação, os jesuítas acompanhavam as


expedições, em campanhas de apresamento de indígenas mansos e
campanhas de “resgate”. Aquele período veria, no entanto, um fluxo tão
violento quanto o dos bandeirantes paulistas. O estatuto jurídico dos indígena
era confuso, também, na diferenciação entre forros e escravizados, havendo
até situações de convivência em que gerações diferentes de forros e escravos
da mesma família conviviam no mesmo espaço. O conflito entre os jesuítas e
os colonos se acirra até o ponto da expulsão dos padres, em 1661. Um nova lei
de proibição do tráfico de índios se deu em 1680, que causou revolta entre os
colonos que expulsaram o governador em 1684, junto dos jesuítas, mais uma
vez.

Aquela revolta forçou a coroa a ser mais clara a respeito de suas leis
indígenas. Um novo código promulgado em 1686 retornou o poder dos jesuítas
no trato dos índios. Mas com a ressalva de que estes deveriam estabelecer
aldeias próximos aos povoados portugueses para dar acesso à mão de obra
indígena. Mas este regimento não atendia às grandes demandas dos colonos e
logo foi revogado, retornando as campanhas de apresamento a acontecer no
largo amazônico. Com a diferença de que agora o próprio estado dava conta
dos encargos das expedições, a fim de cobrar impostos sobre cada resgatado.
E, logo mais, afrouxam-se ainda mais as leis e os apresamentos privados logo
voltam a ser regra.

O regimento vem, então, não para tutelar os conflitos entre os missionários e


os colonos, mas reafirmar os direitos dos últimos. Os jesuítas permanecem na
luta contra esses apresamentos até sua definitiva expulsão em 1759. Os
colonos, por outro lado, só cresciam e entraram no século XVIII com larga
empresa de tráfico de indígenas.

O fluxo de escravos se tornou intenso nas regiões que originaram o Estado do


Maranhão, localidade de conflitos entre os colonos e jesuítas, que recebera um
novo rumo histórico com a chegada do padre Antônio Vieira, desenvolvendo
uma política de transferência de poder de posse sob os indígenas, da corte
para os jesuítas, pois Vieira atacava em todos os aspectos a escravização dos
colonos para com os indígenas. Para além dos jesuítas, todo ano se
organizava expedições com a participação do Estado e da iniciativa privada,
com caráter punitivistas, se tornando um empreendimento para mercantilizar os
índios, e “resgatar” escravos. Nesses momentos, a figura dos padres era muito
importante para evitar a escravização ilegal dos cativos pelos colonos que
mesmo conseguindo traficar esses indivíduos penetrando os rios da Amazônia,
passavam por conflitos desgastantes com os missionários.

Os índios no Brasil eram catequisados, e convertidos ao cristianismo, tornando-


se súditos do rei português. Os jesuítas então, ensinavam os mandamentos
religiosos, os rudimentos da civilidade, com o objetivo de catequizar para salvar
as almas dos cativos. No intuito de prender os cativos, os colonos
mecanizavam modos e formas de controle dos índios, para atenuar suas
resistências, porém os índios produziam estratégias que forjavam espaços para
terem locais mais higienizados com dignidade humana para moradia, e
resistiam das maneiras com as quais conseguiam, a partir de revoltas
organizadas e ataques aos baixos colonos. Fugiam das precárias moradias,
furtavam seus senhores, invadiam as propriedades buscando de diversas
maneiras uma independência diante a estrutura escravista. Mas, os atos de
resistência indígena eram inferiores diante da violência do apresamento.
Diversas expedições com ou sem autorização, participação ou não dos
jesuítas, possibilitaram o despovoamento dos rios da Amazônia.
Em 1647, a Câmara Municipal registra queixas denunciando roubos e
desordens em referência a comercialização dos negros da terra, orientando os
colonos que realizassem comércio apenas com os índios que tinham tutela
senhorial. Assim, posteriormente a Câmara Municipal afunilou essa
mercantilização e proibiu qualquer comércio com os índios, restringindo logo à
frente apenas com os negros da terra por valores inferiores a 200 réis. Isso
porque a Câmara não conseguiu coibir as atividades informais dos índios, que
se desenvolvia em virtude dos produtos de venda dos índios que muitos
provinham dos furtos de gado, e por esse comércio ser um mercado paralelo
do couro e da carne monopolista dos portugueses. No início do século XVIII, os
índios começaram a ter conhecimento da sua liberdade e seus poucos direitos
que a justiça colonial continha. Dessa forma, os índios passaram a buscar
liberdade pela legislação em vigor, realizando petições e litígios. Ressaltando
também que essa mesma justiça colonial que atribuía poucos direitos a
liberdade indígena era a mesma que oprimia, com a ajuda dos índios de São
Paulo que eram recompensados com liberdade. Logo, os frequentes surtos de
doenças contagiosas prejudicavam a situação insalubre do índio colonial, que
na época se encontrava em alta mortalidade suscitando na busca de novas
investidas de mão de obra escrava pelos sertões, que sem resistência
biológica, sofriam as mesmas crises epidemiológicas.