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A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA COMO ESTRUTURANTE NA

FORMAÇÃO DE VALORES SOCIAIS NACIONAIS

Laura Boesing

A Carta a El-Rei D. Manuel sobre o Achamento Do Brasil (ou Carta de


Pero Vaz de Caminha, caso prefira o destaque ao autor), é considerada a
primeira leitura obrigatória elementar na área da Literatura brasileira. A análise
proposta durante a Educação Básica, no entanto, não abarca diversas
questões evidentemente manifestadas ao longo da carta, uma vez tratada,
neste caso, apenas como registro histórico e não como social-estruturante.

Sendo um documento oficial, as marcas de formalidade e reverência à


autoridade (a Vossa Alteza Rei D.Manuel, o destinatário da carta) são incisivas,
porém não serão tratadas nesta leitura analítica do viés social-estruturante da
Carta. O aspecto mais relevante para tal leitura da Carta se encontra na
descrição da “Terra de Vera Cruz” – nomeada assim pelos invasores
estrangeiros, em uma espécie de apropriação de uma terra que não os
pertencia –, onde o autor revela uma caracterização encharcada de
perspectivas pessoais, mas que refletem, acima de tudo, a ótica hegemônica
da época.

A invalidação da cultura indígena anterior à chegada da frota de Cabral


já é sintomática por si só, porém, outros diversos traços manifestam valores
conservadores da Europa na “era dos descobrimentos”. Marcas de
objetificação de minorias raciais, sociais e de gênero, além de forte caráter
sexual e corruptivo são essenciais na leitura de mundo dos séculos XV e XVI.
Exemplifico:

Caminha, ao se referir aos nativos da “nova terra”, os trata quase como


alheios à condição humana. O autor, revelando indutivamente as intenções
imperialistas de Portugal e o choque entre culturas distintas, utiliza-se de juízos
como “sem nenhuma idolatria”, “inocentes”, “sem caso de cobrir suas
vergonhas”. Cria-se assim, através da Carta, uma espécie de “lugar-comum
indígena” de difícil desvinculação – nem depois de 500 anos os indígenas
deixaram de ser estereotipados e tratados de maneira quase animalesca como
descrito por Caminha.
Em um recorte mais específico, pode-se observar com muita criticidade
a forma de tratamento das mulheres indígenas encontradas pelos
colonizadores. Durante o contato com os nativos, o autor conta “[...] Ali
andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com
cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas,
tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito olharmos, não
tínhamos nenhuma vergonha.”. O excerto, embora retirado de um documento
escrito durante o início da Idade Moderna, é facilmente comparável às
violências de gênero vividas no núcleo urbano do século XXI.

Além disso, trechos como “Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância
por boa vontade [...]”, e “[...] se algum pouco me alonguei, Ela [a Vossa Alteza]
me perdoe [...]” demonstram um caráter exageradamente modesto, observado
ainda atualmente em fenômenos como o Complexo do Vira-lata, descrito pelo
dramaturgo Nelson Rodrigues e tratado com mais criticidade pelo ensaísta
Humberto Mariotti.

A leitura da chamada Carta de Descobrimento é indispensável para a


compreensão do Brasil contemporâneo, porém, deve ser feita sob uma luz de
minuciosidade e maturidade. O tratamento de não-brancos e não-homens
como objetos, além de outros pontos que são “pano de fundo” à descrição do
descobrimento do continente americano, revela padrões estruturantes da
sociedade atual. Cabe, no entanto, o questionamento: não seria a “Literatura
de descoberta” uma grande influenciadora da construção de valores nacionais?