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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

FACULDADE DE DIREITO

CÉLIO JULIÃO EMUA


DIANA MARQUES PAWANDIWA
JOEL ERNESTO PACULE
MUANADE SIMBA
QUITÉRIA ARMANDO
TONICHA NEUSA FELISBERTO

FRAUDE À LEI

NAMPULA
2019
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE
FACULDADE DE DIREITO

CÉLIO JULIÃO EMUA


DIANA MARQUES PAWANDIWA
JOEL ERNESTO PACULE
MUANADE SIMBA
QUITÉRIA ARMANDO
TONICHA NEUSA FELISBERTO

FRAUDE À LEI

Trabalho de carácter avaliativo da


cadeira de Direito Internacional
Privado, referente ao 1º semestre, 3º
Grupo B, curso de Direito, 4º ano,
período laboral. orientado pelo docente:
M/A. Nelson Chapananga

NAMPULA
2019
ÍNDICE
Introdução ................................................................................................................................... 1

1 Capítulo I: Fraude à Lei ...................................................................................................... 2

1.1 Fraude à Lei como elemento subjectivo ................................................................... 2

1.2 Fraude à Lei como elemento objectivo .................................................................... 2

1.3 Fraude à Lei e Fuga à Lei ......................................................................................... 2

2 Capítulo II: Configuração do problema .............................................................................. 3

2.1 Doutrina que afasta o conceito de fraude à lei no campo de DIP ............................ 4

2.1.1 A Incredibilidade do Conceito de Fraude a lei em DIP .................................... 4


2.1.2 Face a Pessoas Colectivas ................................................................................. 4
2.1.3 Admissibilidade da noção de fraude a lei em DIP ............................................ 5
2.1.4 Admissibilidade da doutrina da fraude a lei em DIP ........................................ 5
2.2 Doutrina Segundo a qual a Fraude a lei é um Problema Particular de Violação da
Ordem Pública. ................................................................................................................... 6

2.2.1 Consequência .................................................................................................... 6


2.3 Orientação preconizada ............................................................................................ 7

3 Capítulo III: A fraude à lei e a ordem pública .................................................................... 8

3.1 Pressupostos da fraude à lei ..................................................................................... 8

3.2 Causas da Fraude à Lei............................................................................................. 9

3.3 Consequências da fraude à lei ................................................................................ 10

3.4 Fraude à lei no Ordenamento Jurídico Moçambicano ........................................... 11

Conclusão ................................................................................................................................. 12

Referências bibliográficas ........................................................................................................ 13


Introdução

O presente trabalho com o subordinado tema “Fraude à Lei” constitui uma abordagem
bastante relevante para efeitos de estudo da disciplina do Direito Internacional Privado, uma
vez que maior parte dos profissionais de Direito, tem pouco domínio das matérias desta área,
havendo dificuldade na resolução dos conflitos emergentes de relações privadas estabelecidas
no âmbito internacional, provocando deste modo, a morosidade processual que é um outro
problema que afectam a Justiça.
A fraude aa Lei traduz-se na conduta de um particular que, valendo-se uma norma
estrangeira, procura defraudar a lei interna do pais, neste tipo de fraude utiliza a lei como
instrumento de fraude. Ora, para percepção deste problema, surge a necessidade de elaboração
deste trabalho, que o grupo irá abordar todos aspectos imprescindíveis para compreensão
desta matéria, tais como: conceito de Fraude à Lei, os elementos, a configuração do problema,
onde o grupo, irá trazer vários posicionamentos dos autores mais influentes no Direito
Internacional Privado, que discutem em torno do tema em alusão, bem como, as varias
doutrinas que defendem a questão de Fraude à Lei, bem como as doutrinas que afastam ou
refutam a Fraude à Lei.
No âmbito da abordagem deste trabalho, iremos trazer a posição preconizada no que
tange aos aspectos de Fraude à Lei, bem como, fraude à Lei e a ordem pública, pressupostos
da Fraude à Lei e as Consequências de Fraude à Lei.
O trabalho encontra-se organizado em três capítulos, nomeadamente:
 Capítulo I: Fraude à Lei;
 Capítulo II: Configuração do Problema; e
 Capítulo III: A fraude à lei e a ordem pública.
Para elaboração do trabalho, o grupo tem como objectivo geral estudar a Fraude à Lei. E
tem como objectivos específicos: conceituar a Fraude à Lei; descrever a Configuração do
problema; demonstrar as doutrinas que discutem este problema; e perceber as consequências
deste problema.
Quanto aos procedimentos metodológicos, importa referenciar que o grupo optou pelo
método dedutivo, e tipo de pesquisa qualitativa e bibliográfica.

1
1 Capítulo I: Fraude à Lei
A fraude à lei (evasion oflaw ou fraude à la loi) ou criação fraudulenta dos elementos de
conexão (fraudulent creation of points of contact) refere-se às partes de uma norma jurídica
internacional (civil e comercial) que aproveitam artificialmente uma norma de conflitos e
criam propositadamente um elemento de conexão para fugir à aplicação do direito interno que
devia ser aplicado, e por conseguinte, aplicam o direito estrangeiro que lhe beneficia.
Porque a designação da lei depende de elementos de conexão, e da vontade das partes, por
exemplo, nacionalidade, domicílio, lugar onde a pessoa se encontrar, etc. Se as partes, com
um determinado objectivo, abusarem da liberdade de criação e mudança do elemento de
conexão, obviamente não é vantajoso para a segurança da ordem jurídica, nem para a
implementação da política jurídica do direito interno.
Portanto, a mudança arbitrária de elemento de conexão para fugir à aplicação do direito
interno com o objectivo de aplicar o direito estrangeiro mais vantajoso para o agente, conduz,
a uma situação de invalidade.
1.1 Fraude à Lei como elemento subjectivo
A fraude à Lei como elemento subjectivo à Lei, vai consistir em alguém iludir a
competência da lei de aplicação normal a fim de afastar um preceito de Direito material dessa
lei, recorrendo a outra lei onde tais preceitos não convêm às partes ou uma delas não existir,
isto para substituir a lei de aplicação normal.
1.2 Fraude à Lei como elemento objectivo
A fraude à Lei como elemento objectivo, através de uma adequada manipulação da regra
de conflitos, normalmente do factor de conexão, a intenção fraudulenta é levada acabo, sendo
que este elemento pressupõe que possa depender da vontade dos interessados fixar a conexão
relevante à medida das suas convivências. E normalmente tem-se utilizado a Nacionalidade.1
1.3 Fraude à Lei e Fuga à Lei
A fraude à lei no direito internacional privado e “a fuga” à lei no direito material são
muito semelhantes o conceito do primeiro tem origem substancial no segundo, mas existem
diferenças nos meios e objectivos entre estes; “fugir” à lei no direito civil traduz-se na
aplicação fraudulenta de uma lei não aplicável através de meios lícitos. Porém, estes termos
apresentam as suas diferenças:

1
CORREIA, A, Ferrer, Lições De Direito Internacional Privado, 1ª Edição, Livraria Almedina, Coimbra, 2014,
pág. 421-424.
2
A fraude a lei no direito internacional privado é uma conduta que evita a aplicação do
direito material interno e tenta aplicar o direito estrangeiro favorável, através, por exemplo, a
mudança da nacionalidade, da residência habitual, do domicílio, do lugar do cumprimento da
obrigação, etc., escapar à lei no direito material por sua vez, a “fuga” consiste na fuga à
aplicação do direito imperativo no direito interno.
A fraude à lei muda o elemento de conexão para “fugir” à aplicação do direito interno
desfavorável, para aplicar o direito estrangeiro mais favorável a si próprio; escapar à lei é uma
conduta ilícita que utiliza meios tortuosos para cobrir os seus objectivos ilícitos, não estando
relacionados com a mudança do elemento de conexão, também não tem a ver com a aplicação
do direito estrangeiro.

2 Capítulo II: Configuração do problema


A fraude à Lei em Direito Internacional Privado, consiste na utilização das normas de
conflito para evitar a aplicação de uma lei.2
Um dos exemplos mais conhecido nessa questão, é o que sucedeu em 1874, quando a
princesa de Bauffremont separou-se de pessoa e bens do seu marido, porem o divórcio só
viria a ser introduzido em Franca dez anos mais tarde. Pouco depois, naturalizou-se na
Alemanha no Saxe-Altenburg, obteve nesse país o divórcio e logo voltou a casar-se, com o
príncipe de Bibesco.3 Porem, quer o divórcio quer o casamento foram considerados sem valor
em Franca por terem sido obtidos em fraude à lei francesa.4 Embora a nova lei nacional da
princesa de Beuffremont segundo a regra de conflitos francesa, o expediente permitiu à
interessada contrair imediatamente o segundo casamento.

Neste caso, o objecto da fraude foi a norma de conflitos que designava como aplicável
(lei francesa), justamente aquela de que a princesa pretendia evadir-se, e o instrumento da
fraude a norma que considerava aplicável a lei a que a interessada pretendia acolher-se. Foi
portanto, o fim da ilicitude do fim visado com a manobra e não a pura e simples alteração do
elemento de conexão da regra de conflitos, que provocou o malogro do pano.

2
RIBEIRO, Manuel Almeida, Introdução Ao Direito Internacional Privado, 2ª Reimpressão, Almedina,
Coimbra, 2009, pág. 62.
3
CORREIA, A, Ferrer, Lições De Direito Internacional Privado, Volume I, Livraria Almedina, Coimbra, 2014,
pág. 421-422.
4
RIBEIRO, Manuel Almeida, Introdução Ao Direito Internacional Privado, 2ª reimpressão, Almedina,
Coimbra, 2009, pág. 62.
3
Ninguém, pode ser privado do direito de mudar de nacionalidade, contanto que o
indivíduo proceda com intento sério de aceitar as consequências mais essenciais da condição
de nacional do Estado de naturalização.5
2.1 Doutrina que afasta o conceito de fraude à lei no campo de DIP
2.1.1 A Incredibilidade do Conceito de Fraude a lei em DIP
Alguns autores se opõem a relevância da fraude à lei em Direito Internacional Privado,
pois logo a prior questionam o conceito da Fraude à lei em DIP, dizendo que é o próprio
legislador que indica às partes o caminho através do qual estas podem escapar à aplicação das
suas leis internas.
Seria ilógico falar da fraude à lei imperativa interna quando essa mesma lei não é
aplicável, isto é, só pode haver fraude a lei desde que tal lei fosse aplicável, isto porque, a
determinação da esfera de aplicabilidade da lei interna, constitui um prius relativamente à
possibilidade de violação directa ou indirecta desta lei.6
2.1.2 Face a Pessoas Colectivas
Aprofundando a sua tese, estes ainda defendem que não pode considerar-se haver fraude
à lei, quando se trata de uma pessoa colectiva, mesmo sendo uma sociedade anónima cujos
fundadores deliberem fixar-lhe a sede em determinado pais por causa da lei daquele pais que é
menos severa em relação à daquele onde a sociedade pretende ou exerce a sua principal
actividade7, isto é, é difícil justificar a relevância da fraude à lei quando os fundadores de uma
pessoa colectiva escolhem para sede um pais que tem legislação mais favorável, desde que
essa sede seja a efectiva8. Isto porque, acha-se que neste domínio a fraude só será de
considerar nas situações que chamarão de internacionalização artificial da pessoa colectiva,
isto é, dá-se a pessoa colectiva, cor ou carácter internacional através da simples fixação da
respectiva sede em país estrangeiro.
Porque também não se pode deixar de se intender que é pressuposto da intervenção do
direito de conflitos a existência de uma situação propriamente internacional.9

5
CORREIA, A, Ferrer, Lições De Direito Internacional Privado, Volume I, Livraria Almedina, Coimbra, 2014,
pág. 422.
6
MACHADO, João Baptista, Lições de Direito Internacional Privado, 3ª Edição, Actualizada (Reimpressão),
Almedina, Lisboa, 2002, pág. 276.
7
CO RREIA, A, Ferrer, Ob. Cit. Pág. 423.
8
RIBEIRO, Manuel Almeida, Ob. Cit. Pág. 63.
9
CORREIA, A, Ferrer, Lições De Direito Internacional Privado, Volume I, Livraria Almedina, Coimbra, 2014,
pág. 423.
4
2.1.3 Admissibilidade da noção de fraude a lei em DIP
Outra objecção contra a admissibilidade da noção de fraude à lei em Direito Internacional
Privado, consiste na dificuldade de determinar em certos casos, qual o direito fraudado. Sendo
que os defensores da relevância da fraude à lei em DIP partem da ideia de que deve antes,
pela própria natureza das coisas haver uma ordem jurídica determinada, como única
competente. E considerando esse pensamento, o órgão aplicador do direito terá sem dúvida,
de considerar como fraudada aquela ordem jurídica que se apresentaria como competente se
as partes não tivessem montado a conexão fraudulenta, ou seja, se elas não tivessem realizado
a actividade fraudatória.
Ora, se a determinação da tal ordem jurídica competente, não oferece dificuldades, como
ficaríamos nos casos em que, por exemplo, um Americano, um Inglês e um Francês, depois de
haverem examinado as disposições pertinentes das leis Inglesa, Francesa, Suíça e
Liechtensteiniana, decidem constituir uma sociedade anónima no Liechtensteiniana, com o
fim de escapar dos preceitos que regulam as sociedades por acções e dos preceitos de natureza
fiscal vigentes nos outros países. Nestes casos as questões que se colocam são: qual o direito
fraudado: o Americano, o Inglês, o Francês ou o Suíço?
Qual destes direitos deve ser havido como competente e por que conexão o haverá de
determinar? Tendo em consideração de que a conexão que seria a normal ou natural não se
concretizou, e logo não pode funcionar, em virtude da própria actividade fraudatória.10
2.1.4 Admissibilidade da doutrina da fraude a lei em DIP
Esta é outra objecção de peso, pois traduz a insegurança quanto aos efeitos a derivar da
mesma fraude e a incerteza jurídica que provocaria a aplicação no direito de conflitos de uma
cláusula geral repressiva da fraude a lei. É notável a insegurança que se verifica no domínio
de DIP quanto as consequências da fraude a lei.
Alguns autores, inspirando-se no brocardo fraus amnia corrumpit, consideram que são
nulas tanto as relações ou efeitos jurídicos visados através da fraude, como os efeitos das
actuações fraudatórias, logo seria nulo o divórcio obtido por aplicação de um direito
estrangeiro como meio de tornar viável aquele fim. Mas para outros autores, somente os
efeitos jurídicos visados pelas partes (divórcio) seriam nulos. E ainda se sustenta uma terceira
opinião, segundo a qual o juiz deverá sempre ater-se ao direito fraudado, limitando-se a

10
MACHADO, João Baptista, Ob. Cit. pág. 277.
5
excluir os efeitos por estes proibidos ou fazer actuar os efeitos por ele imperativamente
estatuídos.11
Isto e, afasta-se o conceito de fraude a lei em DIP, quando a conduta fraudatória consistiu
na mudança de nacionalidade e o naturalizado se integrou seriamente na comunidade de
nacional.12
Por todas estas razões, e ainda porque a aplicação do conceito de fraude a lei criaria no
DIP uma insegurança jurídica (a incerteza sobre se o divórcio obtido no estrangeiro e
subsequente casamento são ou não validos). Logo conclui-se que a aplicação da doutrina da
fraude no direito de conflitual seria dogmaticamente ilógico e praticamente inconveniente13.
2.2 Doutrina Segundo a qual a Fraude a lei é um Problema Particular de Violação da
Ordem Pública.
Para muitos autores, a teoria de fraude à lei em DIP careceria de autonomia, nada mais
sendo que um caso particular de aplicação da teoria da ordem pública internacional. As duas
teorias, segundo Bartin, produzem os mesmos resultados, com a única diferença de que,
enquanto o efeito da ordem pública é desencadeado pela perturbação social, que produziria a
aplicação da lei estrangeira em razão do seu social que causaria tal aplicação em razão das
circunstanciais de facto que interviria. Na verdade, embora as disposições legais, fraudadas
não sejam necessariamente de ordem pública internacional, elas vêm a assumir tal carácter
por virtude das circunstâncias de facto, por efeito da própria intenção fraudulenta14.
Os próprios autores que aderem esta tese acentuam o carácter particular que reveste o
problema da fraude no âmbito da teoria da ordem pública15.
2.2.1 Consequência
A doutrina exposta tem consequência natural, a irrelevância da fraus legi extraneae facta,
de toda fraude que não vá dirigida contra uma disposição da lei interna do fórum, pois a
ordem pública, rigorosamente, só protege os interesses próprios da lex fori.
Na Alemanha, onde tal doutrina é a dominante, faz-se notar, em seu abono, que a fraude á
lei em DIP, tal como a ofensa a ordem pública, se traduz em última análise, na violação do
fim de uma lei (norma) interna.

11
MACHADO, João Baptista, Lições de Direito Internacional Privado, 3ª Edição, Actualizada (Reimpressão),
Almedina, Lisboa, 2002, pág. 277-278.
12
RIBEIRO, Manuel Almeida, Introdução Ao Direito Internacional Privado, 2ª reimpressão, Almedina,
Coimbra, 2009, pág. 63
13
MACHADO, João Baptista, Lições de Direito Internacional Privado, 3ª Edição, Actualizada (Reimpressão),
Almedina, Lisboa, 2002, pág. 278.
14
Idem, pág. 278.
15
MACHADO, João Baptista, Ob. Cit. pág. 279
6
2.3 Orientação preconizada
Antes de mais, importa situar adequadamente o problema da fraude a lei no plano do
DIP. Assenta-se correctamente na ideia de que a fraude a lei em DIP, se traduz em defraudar-
se o imperativo de uma norma material de certo ordenamento, através da utilização de uma
norma de conflito como instrumento. Assim sendo, a fraude a lei em DIP, não se configura
como fraude de uma norma em DIP.
Logo segundo a concepção mais divulgada a fraude a lei em DIP, traduzir-se-ia na fuga
de uma norma material interna, a qual seria, portanto, a norma fraudada. A actividade
fraudatória das partes por outro lado, incidiria sobre a modelação do factor de conexão de
uma norma de conflitos, a qual caberia o papel da norma instrumental da fraude.
Mas esta maneira de ver as coisas situa-se o plano do Direito material e dele parte.16 Como
problema do DIP, o problema da fraude a uma norma de conflitos e das consequências que lhe
devem ser imputadas. Se não se deve permitir que o fraudante frustre o imperativo de normas
de conflitos porque com isso a noção de fraude à lei terá relevância no DIP e a objecção
lógica acima referida perde todo o alcance.
O facto de aqui não parecer claramente recortada a distinção entre a norma fraudada e
a norma-instrumento pode gerar uma dificuldade na configuração da fraude a uma norma de
conflitos. KEGEL, opina que objecto de fraude é aquela parte da norma de conflitos que
remete para o ordenamento a cuja aplicação se pretende escapar, e que a regra instrumental da
fraude é aquela outra parte da mesma norma de conflitos que designa o ordenamento jurídico
cuja aplicabilidade se pretende provocar.17
A norma de conflitos designa a sua consequência jurídica por forma genérica e que são
tantas as consequências jurídicas e, portanto, tantas as normas que se contem no esquema
abstracto de uma norma de conflitos quantas as ordens jurídicas existentes. Com isso teríamos
que a norma fraudada seria aquela que tem por consequência jurídica a aplicação da
legislação A, e a norma instrumental aquela cuja consequência jurídica consiste na aplicação
do ordenamento B.
Portanto, é possível a construção da fraude à lei em DIP.18

16
MACHADO, João Baptista, Lições de Direito Internacional Privado, 3ª Edição, Actualizada (Reimpressão),
Almedina, Lisboa, 2002. pág. 280
17
Idem, pág. 280
18
Ibidem, pág. 281
7
3 Capítulo III: A fraude à lei e a ordem pública
Não parece de forma alguma defensável a doutrina que considera a fraude à lei em
DIP como um caso particular de aplicação da teoria da ordem pública, tanto que esta longe de
ter um caracter mais especializado que a teoria da fraude, apresenta característica de maior
generalidade e indeterminação.19
As duas figuras jurídicas revelam certas diferenças bem marcadas.
Assim, a excepção de ordem pública limita-se a proteger o meio jurídico interno
contra os efeitos nocivos que poderiam resultar de aplicação de uma lei estrangeira
normalmente competente. O conteúdo da lei estrangeira em causa actua, sempre, por si ou em
combinação com as circunstâncias do caso, como factor determinante da intervenção da
ordem púbica. O recurso a fraude não é utilizado porque a aplicação da lei estrangeira seja
inconciliável com as concepções jurídicas do foro, ou por qualquer razão que se ligue com um
conteúdo.
Desta perspectiva resulta igualmente patente que, através da excepção da ordem
púbica, a justiça privada material do foro se sobrepõe à justiça do próprio DIP, ao passo que a
questão da relevância da fraude à lei é apenas uma questão de justiça de DIP.
Por último, a excepção da ordem pública apenas protege os interesses da Lex Fori, ao
passo que o expediente da fraude à lei serve ainda para reprimir a chamada fraude à lei
estrangeira.20
3.1 Pressupostos da fraude à lei
O objecto da fraude à lei do DIP é constituído por aquela norma cujo imperativo viria
a ser frustrado se a manobra fraudatória resultasse. Trata-se daquela norma de conflitos que
manda aplicar o direito material a que a fraudante, em último termo, pretende subtrair-se. O
que se poderá dizer é que o fim dessa norma de conflitos não será afectado na medida em que
o não seja também o fim da norma material a cuja aplicação o fraudante quis escapar.21
O outro pressuposto é a utilização de uma regra jurídica, como instrumento da fraude,
a fim de assegurar o resultado que a norma fraudada não permite. Essa regra é no DIP, a
norma de conflitos que indica como aplicável aquele direito que melhor se conforma com
intuitos do fraudante. Esta regra, através das manobras fraudatória, é desviada do seu fim
normal, por tal forma que o uso que as partes dela fazem representa antes um abuso.

19
MACHADO, João Baptista, Ob. Cit pág. 281
20
Idem, pág. 282
21
Ibidem, pág.283
8
A actividade fraudatória há-de traduzir-se no emprego de meios eficazes para a
consecução do fim visado pelas partes: o desencadeamento da consequência jurídica da
norma-instrumento e, conexamente, o da consequência jurídica da norma ou normas da lei
estrangeira.
Quanto a intenção fraudatória, ela é normalmente exigida pela generalidade dos
autores, no campo do DIP, como pressuposto necessário para o preenchimento do conceito da
fraude. Esta tese é geralmente fundada na ideia de que só a fraude intencional tem aptidão
bastante para provocar uma perturbação social capaz de desencadear medidas repressivas, de
que só ela é de molde a fazer perigar a autoridade e o valor imperativo da lei, por ser uma
manipulação consciente da mesma lei.22
3.2 Causas da Fraude à Lei
Para que uma lei aplicável corresponda aos princípios de igualdade e da justiça para
defender os interesses legítimos dos cidadãos e dos estrangeiros, todos os países ou regiões do
mundo estabeleceram o DIP para reger as relações jurídico-privada internacionais. Nesse
contexto, a aplicação do DIP tem de ter um objecto que é uma relação jurídica internacional, e
um caso relacionado com a relação jurídica internacional que depende da matéria concernente
ao exterior23.
A mesma relação no país D é uma relação jurídica interna, ao passo que no país Z é uma
relação jurídica internacional; uma relação jurídica que originalmente era uma relação jurídica
interna no país D, pode tomar-se numa relação jurídica internacional por causa da mudança do
elemento de conexão.

Por exemplo, a mudança do elemento de conexão dos sujeitos: nacionalidade, domicílio,


através da mudança do elemento de conexão dos objectos: lugar da situação da coisa; a
mudança do elemento de conexão do lugar da prática do acto: lugar da celebração do contrato,
lugar do cumprimento do contrato; a mudança do elemento de conexão relacionado com a
vontade das partes: o consenso de ambas as partes do contrato.

Além disso, a aplicação da lei competente à relação jurídica internacional carece da


determinação do elemento de conexão; a mudança do elemento de conexão vai exercer
influência sobre a determinação da lei competente. Por outras palavras, a mudança do

22
MACHADO, João Baptista, Lições do Direito Internacional Privado, 3ª edição Actualizada (reimpressão),
Almedina, Coimbra, 2002 pág. 285
23
RAMOS, Rui Manuel Geus de Moura, Das Relacoes Privadas Internacionais: Estudo de Direito
Internacional Privada, Coimbra Editora. pág.. 62.
9
elemento de conexão influencia muito se uma relação jurídica é uma relação jurídica interna
ou é uma relação jurídica internacional; se for uma relação jurídica internacional, também a
lei aplicável será outra devido à mudança do elemento de conexão. Por isso, a mudança de
elemento de conexão exerce influência tanto sobre a natureza jurídica, como sobre a escolha
da lei competente.

Ademais, os problemas são diferentes. O primeiro problema pode causar o “problema


de fraude à lei no direito internacional privado”; enquanto ao segundo problema, se chama
“conflito de leis causado pelo factor do tempo”. Vejamos agora o problema da “fraude à lei”.
A mudança do elemento de conexão, é o resultado deliberado das partes, a mudança da
nacionalidade e (emigração), do lugar da celebração do contrato ou do lugar do cumprimento;
também há mudança do elemento de conexão que não é resultado deliberado das partes, por
exemplo, a redefinição das fronteiras de dois países, que resulta na mudança da nacionalidade
das partes ou do lugar da situação da coisa.

A mudança é natural na sua maioria, as partes não têm a intenção de evitar a lei ou
defraudar a lei, no entanto, não é sempre assim. Portanto, do ponto de vista do direito
internacional privado, as partes mudam de elementos de conexão para influenciar as relações
jurídicas. Se essas relações são relações internacionais, quais são as situações da aplicação da
lei competente a que temos de dar atenção de dar atenção, como se distingue a intenção
ilícita? Esse é um problema controvertido no direito internacional privado; esse problema é da
“fraude à lei”.24
3.3 Consequências da fraude à lei
A sanção da fraude da lei se traduz na aplicação da norma cujo imperativo a manobra
fraudulenta procurou iludir. Assim os actos jurídicos realizados e os direitos adquiridos em
fraude à lei do foro serão ineficazes neste ordenamento jurídico, conforme reza o artigo 21º
conjugado com artigo 22º, ambos do CC. Mas só nisto se traduz a sanção da fraude, e não
também na ineficácia absoluta dos actos praticados ou das situações constituídas com o fim de
viabilizar a fraude.25
Assim se alguém se naturaliza no estrangeiro com o fim de se subtrair a uma disposição
da lei nacional, do ponto de vista da disposição fraudada, não há qualquer motivo para negar a
eficácia em termos gerais à cidadania estrangeira adquirida pelo fraudante. A naturalização

24
RAMOS, Rui Manuel Geus de Moura, Ob. Cit. pág.62
25
MACHADO, João Baptista, Lições do Direito Internacional Privado, 3ª edição Actualizada (reimpressão),
Almedina, Coimbra, 2002 pág.286
10
será apenas ignorada na medida em que o toma-la em consideração redunde em prejuízo da
norma fraudada.26
O exposto não significa que por vezes as situações constituídas ou os actos jurídicos
praticados como meios de se fugir a uma lei e de conseguir o abrigo de outra não devam ser
apreciados autonomamente ou de por si à luz da doutrina da fraude à lei, para o efeito de
eventualmente serem havidos como ineficazes em razão da fraude.27
3.4 Fraude à lei no Ordenamento Jurídico Moçambicano
A problemática da fraude a lei, encontra-se prevista no art.21° do CC Moçambicano, que
nos trás a ideia de que, na aplicação das normas de conflito, são irrelevantes todas asa
situações de facto ou de direito criadas com intuito fraudulento de evitar a aplicabilidade da
lei que, noutras circunstâncias, seria competente.

Por exemplo, é o caso de um individuo se naturalizar cidadão de um certo Estado, apenas


para obter o divórcio ou tornar possível o seu casamento, ou, mais simplesmente ainda, de ele
deslocar a sua residência habitual, com simples intenção de alterar o seu estatuto pessoal.

Neste contexto o artigo exige, um intuito fraudulento. Se ao lado, pois, do objecto de se


divorciar ou de se casar, a pessoa quiser por outras razões mudar de nacionalidade ou de
residência, deixa de ser havido como fraudulento o acto, para se entrar no campo das
possibilidades que a lei confere aos indivíduos.
A reacção da lei contra a fraude é mais inteligente, por ser a que em termos mais simples
a consecução dos fins prosseguidos pelo agente. Logo, tudo se passa como se os actos
fraudulentos não existissem

26
MACHADO, João Baptista, Lições do Direito Internacional Privado, 3ª edição Actualizada (reimpressão),
Almedina, Coimbra, 2002 pág. 286
27
Ibidem, Pág. 286.
11
Conclusão
Depois da realização do trabalho, a doutrina pertinente permitiu ao grupo chegar as
seguintes conclusões:

No Direito Internacional privado, a Fraude à Lei, ocorre quando os interessados no


instituto escapam à aplicação de um preceito material de certa legislação criam um elemento
de conexão que tornará aplicável uma outra ordem jurídica mais favorável aos seus intentos,
logo, há assim uma norma instrumental de fraude.

Quanto a posição adoptada, assenta na ideia de que a fraude a lei em DIP, se traduz em
defraudar-se o imperativo de uma norma material de certo ordenamento, através da utilização
de uma norma de conflito como instrumento. O que nos leva, a concluir categoricamente que
a fraude à Lei em DIP, não é fraude de uma norma de conflito, mas sim de uma norma
material.

No que tange a fraude à lei e a ordem pública, não parece de forma alguma defensável a
doutrina que considera a fraude à lei em DIP como um caso particular de aplicação da teoria
da ordem pública, tanto que esta longe de ter um caracter mais especializado que a teoria da
fraude, apresenta característica de maior generalidade e indeterminação.

Para existência de Fraude à Lei, é preciso que haja certos pressupostos, como elemento
objectivo, que vai traduzir-se na utilização de uma regra jurídica com finalidade de assegurar
o resultado que a norma defraudada não permite. Isto é, as partes devem utilizar uma conexão
falhada. Por outro lado, deve existir um elemento subjectivo, que se traduz na intenção das
partes em querer defraudar.

A sanção da fraude da lei se traduz na aplicação da norma cujo imperativo a manobra


fraudulenta procurou iludir. Assim os actos jurídicos realizados e os direitos adquiridos em
fraude à lei do foro serão ineficazes neste ordenamento jurídico, conforme reza o artigo 21º
conjugado com artigo 22º ambos do CC. Mas só nisto se traduz a sanção da fraude, e não
também na ineficácia absoluta dos actos praticados ou das situações constituídas com o fim de
viabilizar a fraude.

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Referências bibliográficas
Legislação
 REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Código Civil, (1966), decreto-lei n. 47 344, de 25
de Novembro de 1966.

Doutrina
 CORREIA, A, Ferrer, Lições De Direito Internacional Privado, 1ª Edição, Livraria
Almedina, Coimbra, 2014.
 MACHADO, João Baptista, Lições de Direito Internacional Privado, 3ª Edição,
Actualizada (Reimpressão), Almedina, Lisboa, 2002.
 RAMOS, Rui Manuel Geus de Moura, Das Relacoes Privadas Internacionais:
Estudo de Direito Internacional Privada, Coimbra Editora
 RIBEIRO, Manuel Almeida, Introdução Ao Direito Internacional Privado, 2ª
Reimpressão, Almedina, Coimbra, 2009.

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