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ANDRÉ CORREIA DE OLIVEIRA, 2019.

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UFPE – CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
FILOSOFIA DA NATUREZA. Professor: Thiago Aquino

Filosofia da Natureza em Kant: Como é possível a ciência Pura da Natureza?

Resumo: Este texto pretende tratar do problema "como é possível uma ciência pura da
natureza?", tendo como horizonte teórico a obra de Immanuel Kant: "Prolegômenos a toda
Metafísica Futura - que queira apresentar-se como ciência" entre outras obras do filósofo. Neste
contexto, haverá uma elucidação do contexto histórico - no sentindo de uma fomentação do
problema dentro do contexto da filosofia moderna vivido na época - , bibliográfico - no
sentindo de buscar outras obras de Kant para temperar a discussão - e Biográfica - no sentido
de contar um pouco a história de Kant, sua visão privilegiada dos problemas filosóficos em sua
época crítica e seus objetivos - do filósofo enquanto expomos partes de sua obra "prolegômena"
para a fundamentação teórica do assunto abordado - o problema da possibilidade de uma
ciência pura da Natureza - . A análise do discurso (hermenêutica) será o método escolhido para
abordar o desenvolver do problema dentro das obras kantianas apresentadas no texto e chegar
à resposta dada pelo filósofo alemão a esta questão.
Palavras-chave: Filosofia, Natureza, Kant, Prolegômenos.

INTRODUÇÃO

Immanuel Kant nasce em uma época conturbada pelo Problema do Conhecimento e


toma para si a missão de criar um novo método de análise das ciências que fica marcado por
toda história da humanidade, em principal, do pensamento ocidental. Em uma época de
divergências filosóficas que levavam a Filosofia para campo dogmático e cético, este pensador
de uma visão privilegiada traz a discussão filosófica a uma base firme a qual ela possa caminhar
e se desenvolver.
O problema trabalhado neste texto é sobre a possibilidade de uma ciência pura da
natureza aos moldes kantianos de uma filosofia transcendental. Tentando dar um parâmetro
histórico da modernidade, uma elucidação de sua biografia para fomentar a tese de uma visão
privilegiada que permitiu a Kant enxergar mais além do que David Hume em sua crítica a
metafísica e a filosofia como um todo sistemático.
A Filosofia da Natureza considerada percussora das ciências naturais como, por
exemplo a Física é a expressão usada para descrever o estudo da natureza, tanto do ponto de
vista de que hoje chamaríamos científica ou empírica, tanto do ponto de vista metafísico. As
várias ciências, que historicamente se desenvolveram a partir da filosofia, pode-se dizer que
surgiram mais especificamente da filosofia natural. Nas universidades de antiga fundação, as
cadeiras de filosofia natural estão, agora, ocupadas principalmente por professores de física.
As noções modernas de "ciência" e "cientista" remontam apenas ao século XIXː antes disso, a
palavra "ciência" significava simplesmente conhecimento, e não existia o rótulo de "cientista".
Por exemplo, o Tratado de 1687 de Newton é conhecido como Princípios Matemáticos da
Filosofia da Natureza.
Kant, um grande estudioso das teorias e avanços de Newtow e das ciências de sua época,
formula a partir delas, uma abordagem filosófica que abrange os conhecimentos “Sintéticos a
priori” como pressuposto de uma ciência que seja pura e avance em seus problemas para uma
solução objetiva. Neste âmbito de uma análise kantiana das ciências será apresentada A Crítica
da Razão Pura como uma luz a alguns pressupostos expostos neste texto. Entretanto, é a obra
Prolegômenos A Toda Metafísica Futura que irá fundamentar o problema central deste
trabalho, pois é nesta obra que Kant aborda de maneira mais lúcida e didática seu projeto de
produção de uma ciência ou de uma filosofia científica e de uma ciência da natureza...

Kant e a Idade Moderna/Modernidade:

Immanuel Kant (1724* - 1804✞) nascido na cidade de Königsberg, na Prússia Oriental


é considerado por muitos estudiosos e pesquisadores como um dos maiores pensadores da
história da humanidade. Sua importância para história da filosofia ocidental e o
desenvolvimento do pensamento filosófico atingido com a ajuda das pesquisas, aulas e obras
deste filósofo é inegável nos quatro cantos do mundo. Kant representou o que seria, talvez, o
momento mais significativo da Filosofia Moderna e até hoje é grande influência de pensadores
de todas as áreas do conhecimento com suas obras.
A filosofia de Kant, mas especificamente a parte que mais tarde foi denominada
Criticismo, representa talvez, a crítica mais radical a proposta do pensamento Metafísico tal
qual desenvolvido na Idade Média. Na Idade Antiga e na Idade Média (aproximadamente entre
os anos 400a.C à 1400 da nossa era), prevaleceu o modo metafísico de pensar. Para os filósofos
desta época as coisas no mundo (ou os objetos no mundo) possuíam uma existência autônoma,
objetiva, independente da consciência humana. Estas existências eram essências que em
algumas reflexões filosóficas eram criadas por Deus ou existiam eternamente. Assim,
existiriam obras perfeitas dos objetos (por exemplo uma árvore perfeita) e os outros objetos da
mesma classe (árvores que percebemos com os nossos sentidos) são cópias imperfeitas desta
essência. O pensamento metafísico buscava conhecer os objetos atingindo a sua essência. Do
ponto de vista filosófico, a Idade Moderna é uma ruptura pois grande parte dos seus filósofos
acreditavam que todo o conhecimento somente poderia vir através da razão natural,
abandonando a metafísica e se inscrevendo nos vieses Racionalistas e Naturalistas do
pensamento.
No entanto, mesmo com esta ruptura, os filósofos ainda divergiam entre si, em especial
sobre o problema do conhecimento (Como é possível o conhecimento?), o que para filósofos
como Ernst Cassirer em sua obra O Problema do Conhecimento na Filosofia e nas Ciências
Modernas vai caracterizar como a principal característica do pensamento Moderno. Então, a
Idade Moderna traça sua linha de batalha entre duas escolas de pensamentos da época. O
Racionalismo (a crença de que o conhecimento verdadeiro se dar apenas através da razão, esta
escola de pensamento tem a razão como único e confiável viés para o conhecimento verdadeiro,
um dos grandes expoentes desta escola é o filósofo francês René Descartes) e o Empirismo (as
escolas de pensamento empiristas se fundam em suas crenças de que o conhecimento se dar na
razão mas através da experiência, sob um viés que afirma que o ser humano é uma “tábua-
rasa”, uma “folha-em-branco" e todo o conteúdo da mente se dar através da experiência
sensível - os cinco sentidos – e são cópias das apreensões deste sensível. Um dos grandes
expoentes desta linha de pensamento é o filósofo inglês David Hume).
Immanuel Kant, é o pensador que, não vai só dar uma resposta filosófica congruente a
esta disputa sobre o conhecimento verdadeiro como também vai nos apresentar uma
argumentação que nos remete a uma quase síntese entre as duas escolas de pensamento –
empiristas e racionalistas –. Kant trás reflexões filosóficas que ultrapassam o viés Moderno do
pensamento e nos remete a o início de um dos movimentos que dão significância aos
Pensamentos Contemporâneos, A Crítica à Metafísica e a exposição dos limites do
conhecimento humano. Os projetos críticos de Kant começam ou pelo menos começa a ser
publicado seu trabalho crítico, por volta do ano de 1781. Entretanto, segundo o professor Daniel
Omar Perez professor de Filosofia da Unicamp “- a filosofia kantiana, filosofia transcendental
ou filosofia crítica começa com um Kant maduro. Um senhor com mais de cinquenta anos de
idade”.
Anterior a este período há o que chamamos de período pré-crítico onde Kant já escrevia
obras bastante consistentes, que já mostravam um Kant a frente do seu tempo: Pensamento
Sobre Verdadeiro Valor das Forças Vivas (1749),História Universal da Natureza e Teoria do
Céu (1755), O Único Argumento Possível da Existência de Deus (1763), Observação Sobre o
Sentimento do Belo e do Sublime (1764). Entretanto, seria correto afirmar que a verdadeira
virada na filosofia de Kant se dar em 1781 na produção e publicação da sua primeira crítica A
Crítica da Razão Pura. Esta “virada” é tanto na filosofia do próprio Kant como na Filosofia
em geral e esta obra que procura responder “O que é possível conhecer” delimitando os limites
de possibilidades do conhecimento também vai servir como base para a formulação do
problema de uma Ciência Pura da Natureza quanto para a resolução deste problema.
KANT e a Problemática por trás dos Prolegômenos: Uma introdução a
Filosofia Transcendental e a relação da Crítica da Razão Pura com os
Prolegômenos

Porém, ainda em sua passagem do período pre-crítico para o crítico, Kant já tinha uma
preocupação que aparece mais notoriamente em sua Crítica da Razão Pura. “Será que a
Metafísica é possível como ciência?”. O filósofo alemão compara a Metafísica com as Ciências
(matemática, aritmética, geometria e a física) percebendo que enquanto as ciências formulavam
um problema e as respondiam de forma objetiva gerando duas características do avanço das
ciências (1) a resolução objetiva que nos remete ao avanço das ciências e (2) a concordância
destes cientistas nas formulações e conclusões de suas teses. Na Metafísica (ou a filosofia em
geral) se formula um problema e as escolas de filosofia ao invés de resolvê-los de maneira
objetiva assim como nas ciências, eles se divergem entre si sobre este mesmo problema e não
avançam, tomando como parâmetro o fato de que pensadores metafísicos da Idade Antiga e
Média permanecem com os mesmos problemas (Deus, O Infinito, A Alma) sem nenhuma
resolução concordável entre si. Para Kant enquanto uma escola afirma o problema sobre um
resultado positivo (o que Kant vai chamar de Dogmatismo). Outra escola, nega o resultado
deste problema. E outra escola ainda afirma que o problema não tem o menor sentido (os
Céticos, ou o Ceticismo). Sendo assim, Kant encontra-se em uma briga entre Céticos e
Dogmáticos. E daí objetiva que a Filosofia, ela mesma, possa a ser uma ciência e ser tratada
como tal. Entretanto, antes de fazer uma “Filosofia Científica”, não seria necessário saber se a
Metafísica é possível enquanto ciência?
Para que a Metafísica possa ser científica, ela deve poder funcionar de modo igual
funcionam as ciências. As ciências por sua vez, se formam através do que Kant vai chamar de
Juízos (ou proposições) e expõe em sua obra que existem dois tipos de juízos. Os Juízos
Analíticos e Juízos Sintéticos:
[...] Ora, seja qual for a origem dos juízos ou a natureza da
sua forma lógica, existe neles, quanto ao conteúdo, uma
diferença em virtude da qual são ou simplesmente
explicativos, sem nada acrescentar ao conteúdo do
conhecimento, ou extensivos, aumentando o conhecimento
dado; os primeiros podem chamar-se juízos analíticos, e os
segundos, sintéticos.
Kant, Prolegômenos a toda Metafísica futura. 2003 (Título
original: Prolegomena zu einer jeden kiinftigen Metaphysik © Edições 70
Tradução de Artur Morão Capa de Jorge Machado Dias Todos os direitos
reservados para a língua português por Edições 70, Lda., Lisboa —
PORTUGAL pag 24 )

Sendo assim, os Juízos Analíticos são aqueles cujo o que se diz no predicado sobre o
sujeito já estava contido no significado do sujeito (ex: Todo corpo tem extensão), o que faz
com que não precisemos nos fundamentar na experiência empírica para validar ou não tal
proposição. Daí o enunciado que afirma que os juízos analíticos de nada acrescenta de novo ao
significado do sujeito pois o que se diz sobre ele já é sabido de antemão. No caso dos Juízos
Sintéticos, o que se diz sobre o sujeito no predicado não está contido no conceito do sujeito
(ex: O quadro é Branco). Pois não está contido no conceito de “quadro” o conceito de “branco”.
Desta forma, a problematização sobre estes juízos nos leva a consequências. os Juízos
Analíticos são “a priori” pois o que se fala sobre o sujeito no predicado já está contido de
antemão no significado do sujeito. E os Juízos Sintéticos são “a posteriori” pois o que se diz
do sujeito no predicado não estava contigo nele de antemão e necessita do auxílio da
experiência para validar ou não tal juízo (Ex: convocar a experiência empírica dos meus
sentidos – de preferência a visão - para confirmar se de fato “o quadro é realmente branco”).
Kant nos revela que os juízos que realmente ampliam o nosso conhecimento são os
Juízos Sintéticos, pois eles adicionam ao nosso conhecimento informações que não estavam
presentes “a priori”, adicionando novas informações sobre o objeto:

Pelo contrário, a proposição: alguns corpos são pesados,


contém no predicado alguma coisa que não está
verdadeiramente pensada no conceito geral de corpo,
aumenta pois o meu conhecimento, ao acrescentar algo ao
meu conceito; deve, portanto, chamar-se um juízo sintético.

(Kant. 2003 pag 25)

Porém, Kant nos apresenta enunciados científicos que são Juízos Empíricos que por
definição são sempre sintéticos que estão presentes nos objetos “a priori”, pois fazem parte da
constituição do objeto em si em todas as suas aparições dentro da nossa sensibilidade. Estas
seriam proposições fundamentais da Aritmética, da Física e da Geometria. Por exemplo: “Todo
Corpo é Pesado” (crítica da razão pura, Immanuel Kant, tradução de Manuela Pinto dos Santos
e Alexandre Fradique Morujão, Introdução e Notas de Alexandre Fradique Morujão 5ºedição
2001, A4). Vemos um enunciado que anuncia uma descoberta da física (ou seja, uma
descoberta sintética que não estava presente no significado de corpo) mas que serve para todo
e qualquer corpo que já tenhamos encontrado, que existe ou que ainda vão existir no futuro.
Ou seja, é a priori que todo corpo encontrado em nossa experiência sensível seja pesado. Com
isso, Kant nos chama a atenção para o que ele vai chamar de Juízos Sintéticos a priori, pois
estes não estão contidos no conceito do sujeito, mas estarão “a priori” presente neste sujeito
em qualquer circunstância espaço-temporal. E assim, Kant nos mostra que as ciências avançam
com seus Juízos Sintéticos “A Priori” portanto, a filosofia (e a metafísica) também devem
poder avançar em suas discussões (geralmente dogmáticas ou céticas) através de proposições
sintéticas a priori.
Para responder a tal questão, primeiramente Kant se ver sob o problema “Como são
Possíveis Proposições Sintéticas a priori”? Quais são as condições de possibilidade de uma
proposição como por exemplo “Todo corpo é pesado”? Para responder tal pergunta, (1) é
necessário ter em mente, representações do “todo”, “corpo” e do “é (verbo ser)” em conjunto
com (2) representações sensíveis de eu poder “ver” um corpo e poder medir ou de alguma
forma “sentir” o seu peso. Então, a partir daí, Kant chega à conclusão de que o conteúdo de
uma proposição é ao mesmo tempo Intelectual e Sensível e a relação entre as Representações
Intelectuais e as Relações Sensíveis devem poder ser conectadas através de princípios “puro da
razão”. Ou seja, deve haver um princípio que me faz conectar o objeto corpo ao conceito de
corpo e o conceito de peso ao objeto pesado, desta forma temos proposições sintéticas com
sentido racional.
Isso também serve de base para fundamentar seu pensamento fenomenológico
possivelmente herdado de David Hume. Kant vai defender ao distingüir Noumena (Coisa-em-
sim) do Pheanomena (aparência) a afirmação que só se podemos conhecer a aparência das
coisas e não sua essência. A coisa-em-si só se mostra pelo entendimento:
[...] No entanto, quando denominamos certos objetos,
enquanto fenômenos, seres dos sentidos (phaenomena),
distinguindo a maneira pela qual os intuímos, da sua
natureza em si, já na nossa mente contrapormos a estes
seres dos sentidos, quer os mesmos objetos, considerados na
sua natureza em si, embora não os intuamos nela, quer
outras coisas possíveis, que não são objetos dos nossos
sentidos (enquanto objetos pensados simplesmente pelo
entendimento) e designamo-los por seres do entendimento
(noumena)

(Kant, 2001, A 253)

A Metafísica, quando formula suas perguntas sobre Deus, da Alma, do Infinito não
consegue que seus conceitos possam ter referência objetiva com objetos dados ou construídos
pela sensibilidade pois o conceito de Infinito não se refere a nenhum objeto dado espaço-
temporalmente. O mesmo para o conceito de Deus e de Alma, portanto, o resultado da crítica
da razão pura, é que a metafísica não é possível como ciência. Além de desenvolver um método
de análise do “a priori” do conhecimento, a filosofia transcendental e usá-la como analise toda
filosofia.
No entanto, a Crítica da Razão Pura não foi aceita de braços abertos por todos os
pensadores da época como Kant objetivou primeiramente. Um dos motivos foi o fato de muitos
não terem avaliado como convém a própria problemática a qual a crítica nos chama a refletir
(já que muitos pensadores não de outras áreas do saber, mas que conseguiram seu sucesso
intelectual através da Metafísica, teria que colocá-la em “xeque” para analisá-la criticamente).
Houveram muitos apontamentos críticos a sua obra e alguns deles foram sobre sua
popularidade ou a escrita atraente (como a dos ingleses) e acabaram influenciando o filósofo
Alemão para a produção de uma nova obra:
[...] Não será avaliada como convém, porque não se compreende; não será
compreendida porque tem, sem dúvida, de se folhear o livro, mas sem prazer
em o repensar; e não se quererá dispender esse esforço porque a obra é árida,
obscura, contrária a todos os conceitos habituais e, além disso, extensa.
Confesso, no entanto, que não esperava ouvir da parte de um filósofo queixas
por causa da falta de popularidade, entretenimento e agrado, quando se trata
da existência de um conhecimento conceituado, indispensável à humanidade,
e que não pode estabelecer-se senão de acordo com as regras mais severas
da exactidão escolástica; poder-se-á, sem dúvida, vulgarizar com o tempo,
mas não desde o início. Só no tocante a uma certa obscuridade que, em parte,
provém da extensão do plano, na qual não se podem abranger os pontos
principais a que se chega neste estudo, é justificada a queixa e a isso queria
eu obviar com os presentes Prolegómenos.

(Kant 2003, pag 18)

E finalmente chegamos à problematização central deste trabalho. Sob uma perspectiva


Moderna e Criticista de Kant presente em sua obra Prolegômenos a toda Metafísica Futura,
como é possível uma ciência pura da natureza? Em suma, os Prolegômenos se fundamentam
na Crítica da Razão Pura e trazem uma abordagem mais didática dos problemas abordados na
Crítica tão importante para a filosofia ocidental.

PROLEGÔMENOS A TODA METAFÍSICA FUTURA: O problema


da possibilidade de uma ciência pura da natureza.

Bem, já expus que a Modernidade vive um cabo de guerra sobre a verdade sobre o
Conhecimento. Vimos que Imannuel Kant nasce como uma síntese desta guerra entre grandes
pensadores Modernos e tivemos um pouco de ideia sobre seu projeto para uma Filosofia
Científica. Lemos que para Kant, a ciência se desenvolve através de Juízos Sintéticos a priori
e, portanto, a filosofia também deveria seguir tal via. Expomos um sistema desenvolvido por
Kant de Investigação Crítica que não é cético e nem dogmático e que com o nome de Filosofia
Crítica, Filosofia Transcendental ou Filosofia Kantiana se dá através de uma investigação dos
princípios “a priori” do conhecimento. E vimos como, em parte, nasce a necessidade de uma
elucidação dos conhecimentos expostos na Crítica da Razão Pura e o nascimento dos
Prolegômenos.
Agora nos Prolegômenos, o filósofo alemão reproduz sua crítica sobre a possibilidade
de uma metafísica já presente na Crítica da Razão Pura com novos cortes. Em sua introdução
ele nos remete as críticas de Locke e Hume e nos conta como Hume o acordou de seu sonho
dogmático (pre-crítico). Exemplificando seu projeto anterior na Crítica da Razão Pura, Kant
escolhe a matemática para tematizar o problema “Como é Possível um conhecimento Científico
(em principal o matemático). E usar esta condição de possibilidade para fomentar que a
metafísica não é possível como ciência pois um conceito sem representação não pode ser
verificado e nem validado objetivamente. Porém, há nesta problemática da possibilidade do
conhecimento matemático chaves para o entendimento da possibilidade de uma ciência pura
da natureza a qual a filosofia possa refletir sobre.
O conhecimento matemático se dar através da Intuição Pura, pois este princípio a priori
da experiência subjetiva se conecta de alguma forma com a matemática:
[...] Chamo puras (no sentido transcendental) todas as
representações em que nada se encontra que pertença à sensação. Por
conseqüência, deverá encontrar-se absolutamente a priori no espírito a forma
pura das intuições sensíveis em geral, na qual todo o diverso dos fenômenos
se intui em determinadas condições. Essa forma pura da sensibilidade
chamar-se-á também intuição pura. Assim, quando separo da representação
de um corpo o que o entendimento pensa dele, como seja substância, força,
divisibilidade, etc., e igualmente o que pertence à sensação, como seja
impenetrabilidade, dureza, cor, etc., algo me resta ainda dessa intuição
empírica: a extensão e a figura. Estas pertencem à intuição pura, que se
verifica a priori no espírito, mesmo independentemente de um objeto real dos
sentidos ou da sensação, como simples forma da sensibilidade.

(Kant, 2001, B 35 - A 21)


Descobrimos, porém, que todo o conhecimento
matemático tem esta peculiaridade: deve
primeiramente representar o seu conceito na
intuição e a priori, portanto, numa intuição que
não é empírica, mas pura; sem este meio, não
pode dar um único passo; por conseguinte, os
seus juízos são sempre intuitivos, ao passo que a
filosofia pode contentar-se com juízos discursivos
a partir de simples conceitos e, sem dúvida
,explicar pela intuição as suas proposições
apodícticas, mas nunca daí as derivar. Esta
observação a respeito da natureza da matemática
fornece-nos já uma indicação acerca da primeira
e suprema condição da sua possibilidade: a saber,
importa que ela tenha como fundamento uma
intuição pura na qual ela possa representar todos
os seus conceitos in concreto e, no entanto, a
priori, ou, como se diz, construí-los (*). Se
pudermos descobrir esta intuição pura e a
possibilidade de uma tal intuição, facilmente se
explicará como é que as proposições sintéticas a
priori são possíveis na matemática pura,

(Kant, 2003, pag 48)

Sendo a Sensibilidade uma Intuição de pura receptividade, que recebe suas informações
constantemente e de maneira intuitiva de forma a sermos afetados pelo objeto que são
ressignificados pelo Entendimento ou um sistema de Conceitos que é espontâneo e
determinante às informações, seria correto inferir de ambas as obras kantianas que todo
conhecimento matemático se apoia numa intuição que não é empírica, mas pura a priori. Seus
juízos são intuitivos. Pela intuição pura a matemática representa in concreto seus conceitos a
priori, construindo-os. O juízo sintético a priori, encontra-se na intuição pura anterior à
experiência ou percepção particular.
O problema das percepções aparece novamente aqui. Se nossas intuições (sentidos) têm
acesso apenas aos fenômenos e não a “coisa-em-si" e este se apresenta para o Entendimento
em forma de conceitos se faz necessária uma análise transcendental do Entendimento. O
entendimento não pode fornecer a priori nenhuma regra das coisas em si. A experiência ensina
o que existe e como existe, pois, a natureza é a existência das coisas como leis universais
determinantes. Porém, a posteriori a experiência nunca mostra como a coisa deve ser
necessariamente e não de outra forma. Portanto, não se pode ensinar a natureza das coisas em
si.
A natureza é a existência das coisas enquanto esta é
determinada segundo leis universais. Se a natureza houvesse de
designar a existência das coisas em si, nunca poderíamos conhecê-
la nem a priori nem a posteriori.

(Kant, 2003, pag 65).

Sendo assim, sem conhecimentos a priori ou a posteriori também não haveriam juízos
sobre tais objetos fundamentados ou não em conceitos. O conhecimento puro da Natureza só é
possível através das categorias do entendimento, porém devem ser fundamentados também em
sua base empírica.
"Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado, e sem
entendimento nenhum seria pensado. Pensamentos sem conteúdo
são vazios, intuições sem conceitos são cegas” Immanuel Kant

Apresentados as proposições sobre o conhecimento puro sobre a natureza, Kant nos


infere que é totalmente possível uma ciência pura da natureza, pois:
[...] Ora, estamos realmente na posse de uma ciência pura da
natureza que apresenta a priori e com toda aquela necessidade, que
se exige das proposições apodícticas, leis a que a natureza se
encontra submetida. Permito-me aqui apelar apenas para o
testemunho dessa propedêutica da teoria da natureza que, sob o
título de ciência gerai-la natureza, precede toda a física (que se
funda em princípios empíricos). Encontra-se aí a matemática
aplicada a fenómenos, e também princípios puramente discursivos
(por conceitos), que constituem a *parte filosófica do conhecimento
puro da natureza”.

(Kant, 2003, pag 66)

O conhecimento Puro da Natureza se dar através dos princípios a priori da relação


empírica e conceitual. Quando uma ciência que se funda nos princípios a priori da Intuição
(matemática) se encontra com uma ciência que se funda nos princípios a priori das leis
empíricas (física, uma matemática aplicada a fenômenos) podemos ter resultados sintéticos, a
priori e válidos universalmente como “a água é constituída de dois átomos de hidrogênio e um
átomo de oxigênio”, “que nenhum corpo entra em movimento a não ser por ação de uma força”,
“que todos os corpos caem a uma aceleração específica”. Criamos assim uma conexão de uma
ciência dos conhecimentos a priori do sujeito (intuições puras), a saber, a matemática pura e
uma ciência dos princípios empíricos que aplica esta matemática aos fenômenos (o que se
apresenta a Intuição) são sintéticos (produzindo novos conhecimentos) a priori e que
constituem princípios puramente discursivos por conceito. Afirmando assim, uma condição de
possibilidade de uma ciência pura da natureza que produz Juízos Sintéticos a priori e se
desenvolve objetivamente através destes juízos nas ciências (matemática, física, geometria e
aritmética).

Importante também deixar mais claro o sentido de “Natureza” neste contexto e neste
caso em especial o sentido de Natureza pode seguir duas bases:
A estrutura Subjetiva do ser humano dar condições de possibilidade de o sujeito
conhecer o objeto. É possível sim, a partir de Kant, se pensar em uma Ciência Pura da Natureza.
O formal da natureza é a regularidade dos objetos da experiência a priori. As leis subjetivas
valem para as coisas como objetos de uma experiência material. Não se pode estudar a priori
a natureza, sem investigar as condições e as leis universais. Pretende-se mostrar como as
condições a priori são as fontes da possibilidade da experiência de onde derivam todas as leis
universais da natureza. Para Kant, as condições de possibilidade da experiência é a mesma
condição de possibilidade dos objetos da experiência. A experiência é legisladora do
conhecimento. A coisa-em-si não pode ser conhecida por mim. Mas há algo nela que me afeta,
que afeta a minha sensibilidade. Eis um elemento formal na natureza.

Bibliografia:
Vida e Obra de Kant (https://www.todamateria.com.br/immanuel-kant/) acesso em 04/06/2019.
A Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant, tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre
Fradique Morujão, Introdução e Notas de Alexandre Fradique Morujão 5ºedição 2001.
Kant, Immanuel, Prolegômenos a toda Metafísica futura. 2003 (Título original: Prolegomena zu einer
jeden kiinftigen Metaphysik © Edições 70 Tradução de Artur Morão Capa de Jorge Machado Dias
Todos os direitos reservados para a língua português por Edições 70, Lda., Lisboa — PORTUGAL
Cassirer, Ernst. El Problema del Conocimiento em la Filosofia y em la Ciencia Modernas, traduccion
direta de W. Roces, FONDO DE CULTURA ECONOMICA 1953.

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