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PALAVRAS 12

Teste de avaliação – 12.º ano


Grupo I (100 pontos)
A (70 pontos)
Educação Literária
Grupo I

A.
Lê atentamente o seguinte poema de Ricardo Reis.

Cumpre a lei, seja ela vil ou vil tu sejas.


Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Não odeies nem creias.

5 Não tens mais reino do que a própria mente.


Essa, em que és dono, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde mora a vontade.

Aí, ao menos, só por inimigos


10 Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há dupla derrota
Da derrota e vileza.

Assim penso, e esta mórbida justiça


Com que queremos intervir nas coisas, .

Expilo, como um servo Apresenta, de forma clara


15
e Infiel da ampla mente. bem estruturada, as tuas
respostas aos itens que se
Se nem de mim posso ser dono, como seguem.
Quero ser dono ou lei do que acontece 1. Indica o modo das
Onde me a mente e corpo
formas verbais “Cumpre”
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Não são mais do que coisas?
(v.1), “Deixa” (v.3) e
Basta-me que me baste, e o resto mova-se “Governa (v.7) e refere o
Na órbita prevista, em que até os deuses respetivo valor expressivo.
Giram, sóis centros servos 2. Interpreta um dos
De um movimento imenso. efeitos de sentido da
Ricardo Reis, Poesia, Assírio & Alvim. pontuação na estrofe
cinco.
3. Explicita o sentido do segmento “Basta-me que me baste, e o resto mova-se/Na órbita
prevista” (vv.21-22), tendo em conta o contexto em que ocorre.
4. Apresenta, fundamentando-te no texto, três aspetos que comprovam a influência clássica na
poética de Ricardo Reis.

B (30 pontos)
Lê, com atenção, o texto a seguir transcrito.

Com os Voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa. Dizei-me,

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Voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo
Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar, e com nadar, e não queirais voar,
pois sois peixes. Se acaso vos não conheceis, olhai para as vossas espinhas, e para as
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vossas escamas, e conhecereis que não sois ave, senão peixe, e ainda entre os peixes não
dos melhores. Dir-me-eis, Voador, que vos deu Deus maiores barbatanas, que aos outros de
vosso tamanho. Pois porque tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer das
barbatanas asas? Mas ainda mal porque tantas vezes vos desengana o vosso castigo.
Quisestes ser melhor que os outros peixes, e por isso sois mais mofino1 que todos. Aos
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outros peixes do alto, mata-os o anzol, ou a fisga; a vós sem fisga, nem anzol, mata-vos a
vossa presunção, e o vosso capricho. Vai o navio navegando, e o Marinheiro dormindo, e o
Voador toca na vela, ou na corda, e cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome, e
engana-os a isca; ao Voador mata-o a vaidade de voar, e a sua isca é o vento. Quanto
melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha2, e viver, que voar por cima das antenas, e
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cair morto. Grande ambição é que sendo o mar tão imenso lhe não basta a um peixe tão
pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vede, peixes, o castigo da
ambição. O Voador fê-lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e permite o mesmo Deus que
tenha os perigos de ave, e mais os de peixe. Todas as velas para ele são redes como peixe,
e todas as cordas, laços como ave. Vê, Voador, como correu pela posta3 o teu castigo.
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Pouco há nadavas vivo no mar com as barbatanas, e agora jazes em um convés
amortalhado nas asas. Não contente com ser peixe, quiseste ser ave, e já não és ave, nem
peixe: nem voar poderás já, nem nadar. A Natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o
ar, e eu já te vejo posto ao fogo. Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se o
Voador não quisera passar do segundo ao terceiro, não viera a parar no quarto4. Bem
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seguro estava ele do fogo, quando nadava na água; mas porque quis ser borboleta das
ondas, vieram-se-lhe a queimar as asas.
À vista deste exemplo, Peixes, tomai todos na memória esta sentença: quem quer mais
do que lhe convém perde o que quer, e o que tem. Quem pode nadar, e quer voar, tempo
virá em que não voe, nem nade.
Padre António Vieira, Sermões, II (Obras Escolhidas, vol. XI), 2.ª ed., Lisboa: Sá da Costa, 1997. [“Sermão
de Santo António aos Peixes”, cap. V, pp.193-194.]

1 personagem da mitologia grega que tentou voar com asas de cera, mas estas derreteram e Ícaro caiu no oceano e afogou-se.

5. Refere as consequências da ousadia dos “Voadores”.


6. Explicita, exemplificando, o modo como se concretiza, neste excerto do “Sermão de Santo
António aos Peixes”, a alegoria de intuitos críticos.

Grupo II (50 pontos)

Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.


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PALAVRAS 12
Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.

Leitura | Gramática
O trabalho do tempo
Rodado ao longo de uma dúzia de anos – alguns dias por ano, seguindo um argumento
pré-escrito na sua esmagadora maioria – “Boyhood − Momentos de uma Vida” segue a vida
de Mason (Ellar Coltrane), da irmã Samantha (Lorelei Linklater) e dos pais (Patricia
Arquette e Ethan Hawke), divorciados ainda antes de o filme começar. Mason é um miúdo
5 pequeno, no início da vida escolar, quando o filme arranca; está a entrar na universidade,
quando o filme se conclui.
Se é verdade que um filme, qualquer filme, é uma forma de contrariar o trabalho da morte
(porque fixa gente viva, para sempre imutável, num momento da sua trajetória temporal),
“Boyhood” − Momentos de uma Vida” mostra-nos o contrário, mostra o trabalho do tempo,
10 em contínuo, imparável. Para mais, esse trabalho não vai na direção de um desfecho que
resolva conflitos (que é a lógica normal das narrativas de ficção cinematográfica), vai na rota
de incógnitas cada vez mais amplas (que é a regra normal da vida). E é verdadeiramente
extraordinário caminhar com as alterações físicas das personagens, não apenas dos miúdos,
mas também dos pais (corajosa é, neste campo, a atitude de Patricia Arquette, que expõe o
seu corpo numa fase da vida que ela afastara do olhar de outras câmaras) a que
15 correspondem fases da vida, encontros e derivas e o mundo em volta que vai mudando, (…)
– a esperança da campanha de Obama, o trauma do Iraque, até a febre “Harry Potter” por lá
passa e a discussão sobre se “Star Wars” pode ir além de “O Regresso de Jedi”.E, todavia,
vendo as personagens evoluir na nossa frente, jamais pensamos que estamos em presença da
vida como ela é.
Jorge Leitão de Barros, in Atual, Expresso, 29 de novembro de 2014, p. 26.

1. O texto apresenta
A. explicitação das fontes.
B. um discurso pessoal com prevalência da primeira pessoa.
C. uma descrição objetiva de um objeto, acompanhada de comentário crítico.
D. um discurso pessoal com prevalência da 3.ª pessoa.
2. O texto tem como objeto
A. um livro recentemente publicado.
B. um filme que foi um fracasso de bilheteira.
C. um livro sobre os filmes mais emblemáticos do inicio do século XXI.
D. um filme de 2014.
3. Os parênteses presentes no texto
A. assinalam citações de autor.
B. são formas de destaque de expressões conhecidas.
C. assinalam frases em sentido literal.
D. realçam comentários do narrador.

4. A frase: “esse trabalho não vai na direção de um desfecho que resolva conflitos (…), vai na rota de
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incógnitas cada vez mais amplas” (ll. 10-12) significa que
A. o filme tem um final fechado.
B. o filme resolve os conflitos interiores das personagens, logo no início.
C. o filme faz refletir os espetadores sobre a existência humana.
D. o filme acompanha a evolução das personagens.
5. O referente do vocábulo sublinhado em “a que correspondem fases da vida,” (ll.14-15) é
A. alterações físicas das personagens.
B. miúdos.
C. pais.
D. encontros e derivas.
6. Identifica a função sintática desempenhada pela expressão sublinhada na frase “E é
verdadeiramente extraordinário caminhar com as alterações físicas das personagens” (ll. 12-13).
7. Indica o tipo de coesão assegurado pelos seguintes vocábulos: “porque” (l. 8) e “todavia” (l.
18).
8. Na frase “Se é verdade que um filme, qualquer filme, é uma forma de contrariar o trabalho da
morte (porque fixa gente viva, para sempre imutável, num momento da sua trajetória temporal),
‘Boyhood – Momentos de uma Vida’ mostra-nos o contrário” (ll. 7-9), classifica a oração
sublinhada.

Grupo III (50 pontos)


Escrita
“Há muitas situações em que as pessoas reagem plenamente indiferentes em relação
aos semelhantes nas situações de fragilidade e incapacidade” (autor anónimo).

Tendo em conta o comentário apresentado, num texto bem estruturado, com um mínimo de
200 e um máximo de 300 palavras, defende um ponto de vista pessoal sobre a indiferença nas
relações humanas.
Fundamenta o teu ponto de vista, recorrendo a dois argumentos e ilustra cada um deles
com, pelo menos, um exemplo significativo.