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INTRODUÇÃO

SALMOS
Autoria
A descoberta dos chamados Rolos do Mar Morto, nas cavernas do monte Qunram, é considerada
a maior descoberta arqueológica do século XX, e deu origem a uma série de pesquisas e relatórios
científicos que colaboram, até hoje, para melhor compreensão dos manuscritos bíblicos, além de
atestar a autenticidade de muitas cópias historicamente mais recentes.
A primeira coletânea pré-exílica de salmos foi organizada na época de Davi, quando a liturgia do
culto a Javé (Yahweh o nome santo e impronunciável de Deus, em hebraico  transliterado muitas
vezes em Jeová, Iavé ou Adonai – o Eterno – é em geral traduzido por Senhor) começava a tomar
forma.
Os primeiros salmos a serem agrupados, e que mais tarde dariam origem ao Saltério, foram deno-
minados “Orações de Davi, filho de Jessé” (72.20). Outros foram compostos durante o exílio. Contu-
do, foi durante o reinado do seu filho Salomão (um dos reis considerados “davídicos”) e o exercício
do serviço litúrgico e religioso no primeiro templo, que os salmos, definitivamente, passaram a fazer
parte da tradição judaica. Assim, o livro dos salmos é a compilação de várias coletâneas da fina obra
literária bíblico-canônica-judaica (poemas, hinos e cânticos espirituais) e representa a etapa final de
um processo que demandou séculos de vívida história. Foram os mestres e servos pós-exílicos do
templo, entretanto, que completaram e concluíram a coletânea final de 150 salmos (número com o
qual concordam a Septuaginta e o Texto Hebraico, ainda que cheguem a essa cifra de modo dife-
rente), ao final do séc. III a.C.
As expressões “Salmos” e “Saltério” provêm da Septuaginta (a primeira e mais notável tradução
grega do AT, elaborada por um grupo de eruditos de Alexandria, por volta do ano 285 a.C.) e, a princí-
pio, referiam-se aos instrumentos de cordas usados nas liturgias da época (harpa, lira, alaúde etc...).
Mais tarde, passaram a designar não apenas os instrumentos mas, igualmente, os cânticos que
acompanhavam os cultos. Os títulos hebraicos originais tehilim (louvores) e tephillot (orações) deram
origem ao termo que usamos hoje: Salmos. É costume, nas sinagogas em todo o mundo, recitar uma
oração anterior e em preparação reverente à leitura devocional dos salmos, cujo primeiro parágrafo
aqui transliteramos: lehi ratson milefanêcha Adonai Elohênu velohê avotênu, habocher bedavid avdo
uvezar’o acharav, vehabocher beshirot vetishbachot, shetefen berachamim el keriat mizmorê tehilim
sheecrá keilu amaram David hamélech alav hasshalom beatsmo, zechuto toguen alênu. “Ó Eterno,
nosso Deus e Deus de nossos pais, que com amor acolheste Teu servo David e seus descendentes,
e que Te deleitas com cânticos e louvores, possam ser de Teu agrado os Salmos que vou pronunciar.
Considera-os como se pelo próprio rei David – de abençoada memória – tivessem sido recitados.”
De acordo com os títulos (parte integrante do texto bíblico que, na Bíblia King James e, posterior-
mente, em outras traduções, aparece como subtítulo ou junto ao primeiro versículo), Davi foi autor ou
fonte de inspiração de 73 salmos. O próprio Senhor Jesus Cristo afirmou categoricamente a validade
do título do Salmo 110 e a autoria de Davi (Mc 12.36).
Devido à fraseologia hebraica empregada nos manuscritos, que significa, de modo geral, “perten-
cente a”, surge uma dificuldade na precisão das autorias, pois essa expressão pode ser igualmente
interpretada no sentido de “concernente a”, “para uso de”, ou ainda “dedicado a”. Portanto, o nome
pode referir-se ao título de uma coleção de salmos que havia sido reunida em torno de determinada
personagem (como “de Asafe” ou “dos coraítas”, por exemplo). Contudo, especialmente depois
dos estudos sobre os Rolos do Mar Morto, não há dúvida entre os mais renomados biblistas, de
que houve um Saltério composto por esse notável compositor, músico e cantor; coletânea que pode
ter incluído hinos e escritos a respeito de alguns dos reis “davídicos” posteriores, ou ainda salmos
escritos “à moda de Davi”. O nome “Davi” também é usado no Saltério, em sua forma original, como
substantivo coletivo, a fim de representar os reis de sua dinastia. Nos livros hebraicos de orações,
a memória de Davi é tradicionalmente reverenciada como “o doce cantor de Israel”, cujos Salmos
manifestam sua exaltação, esperanças, tristeza e alegria, temor e angústias, perseverança e amor a
Am Israel, o Povo de Israel, sempre invocando a ajuda do Eterno (Adonai) e, mesmo nos momentos
mais difíceis, manifestando sua confiança absoluta no socorro dEle!”
Sendo assim, Asafe foi autor de 12 salmos, os filhos de Corá compuseram 11, Salomão foi autor de
dois, e Moisés e Etã foram autores de um salmo cada. Cerca de 50 salmos não têm autor definido,
embora a Septuaginta apresente Ageu e Zacarias como autores de cinco salmos.
Os mais recentes relatórios baseados nos Papiros ou Rolos do Mar Morto e, portanto, em averigua-
ções e estudos apurados em relação aos mais antigos manuscritos do AT, atestam que a maioria dos
salmos foi escrita por volta do ano 1000 a.C. e que não há um único salmo canônico que tenha sua
composição datada depois do ano 300 a.C.

Propósitos
Qualquer tentativa de estudo, sistematização ou esboço do Livro dos Salmos deve ser geral e
considerar dois aspectos fundamentais da sua constituição: o Saltério é oração, devoção e poesia,
do começo ao fim. E a teologia que perpassa os Salmos deve ser analisada em sua essência con-
fessional e doxológica; jamais de forma abstrata ou, de outro extremo, como um mero catecismo de
doutrinas. Alguns pregadores, na tentativa de sistematizar a teologia inerente ao Saltério, transforma-
ram obras de arte canônica, teológica e de louvor a Deus, em pílulas pragmáticas de doutrina e, não
raro, propagaram muitas heresias. Portanto, cada salmo deve ser analisado e compreendido à luz
da coletânea e, evidentemente, do todo das Escrituras, pois que uma verdade bíblica isolada deve
corresponder e harmonizar-se à Verdade geral das Escrituras Sagradas.
Portanto, a essência teológica dos Salmos, o centro gravitacional da História e de toda a criação,
seja a filosofia, a ética, a moral e a fé, ou ainda os mistérios da terra e dos céus, resume-se em Deus
(Yahweh – Javé ou Iavé – o Senhor). É muito sintomático que o mais respeitado e imponente rei dos
judeus tenha-se curvado, humildemente, diante do Rei dos reis, o Senhor dos senhores, clamando
por sua misericórdia e reconhecendo a soberania, a justiça e o amor leal de Deus.
O Saltério é dividido em cinco livros, cada um dos quais encerrado com uma doxologia. Portanto,
no estudo dos salmos, mais significativo que algum diagrama geral é a classificação deles, de acor-
do com os assuntos tratados.
Cerca de metade dos salmos é de Davi ou de algum dos seus descendentes (davídicos) e, conforme
seus títulos, vêm quase todos do período áureo de Israel, isto é, de aproximadamente 1.000 a.C. E, sem
dúvida, alguns deles foram compostos mais tarde, até mesmo no tempo do cativeiro, como o salmo
137, por exemplo. A grande virtude dos cânticos espirituais, hinos e, portanto, dos salmos, é atingir –
simultaneamente – espírito, razão e coração, provando que conhecimento intelectual não é o bastante:
o âmago do espírito humano deve também ser tocado pelo poder da Graça remidora de Deus.
É importante frisar, especialmente para os leitores ocidentais, de língua portuguesa, que a poesia
milenar hebraica não consiste em rima, nem obedece a um sistema métrico semelhante ao nosso,
mas consiste principalmente em repetição de pensamento (idéias) numa cláusula paralela. Como
neste exemplo: “Não nos trata segundo os nossos pecados nem nos retribui de acordo com as
nossas culpas” (Sl 103.10). A simples observação a essa regra do paralelismo hebraico pode nos
ajudar a interpretar palavras obscuras e, algumas vezes, certos enigmas bíblicos, ao lermos com
atenção o paralelo mais claro. Ou seja, uma frase ajuda na compreensão da outra e do sentido geral
da mensagem, pela associação ou esclarecimento da idéia central que está sendo comunicada.
Outro recurso lingüístico observado com freqüência nos poemas hebraicos é a dramatização, assim
como as figuras de linguagem (símiles e metáforas, em profusão). Davi escrevia como quem sentia
o coração dos seus leitores e ouvintes. Quando interpretamos os salmos messiânicos, é importante
ficarmos alertas para o fato de que, nesse caso, Davi também escreveu na primeira pessoa, ainda
que exiba, com vívidos detalhes, as experiências do Mestre e Messias (Sl 22).
Cerca de metade dos salmos pode ser classificada como “orações de fé em tempos de crise”.
Quantas pessoas atravessaram guerras, longos períodos de graves enfermidades, calamidades, de-
pressões profundas, falências, desilusões, traições, amarguras terríveis, dor e medo, orando, com
fé e persistência lendo os salmos bíblicos. Alguns desses salmos passaram para a História como
ícones universais de devoção, piedade e confiança em Deus. É comum ver a Bíblia aberta em um
desses salmos, como um símbolo de reverência e convite à leitura (Sl 23; 91 e 121). Aproximada-
mente outros 40 salmos foram consagrados especialmente ao tema da adoração e louvor (Sl 100 e
103, por exemplo), os quais deveriam ter uma participação em nossas leituras e meditações diárias.
Considerando que uma classificação detalhada dos salmos é uma tarefa extremamente difícil e,
de certa forma, sempre imprecisa, o Comitê de Tradução da Bíblia King James deixa aqui apenas
uma sugestão didática de reunião dos salmos, para estudo: Salmos do Homem Sábio (Sl 1; 15; 101;
112 e 113); Salmos Reais (Sl 2; 21; 45; 72; 110 e 132); Orações Pessoais (Sl 3,7,8); Louvor Salvífico
(Sl 30,34); Louvores Comunitários (Sl 12; 44; 79); Louvor Pela Salvação da Comunidade (Sl 66; 75);
Expressão de Fé (Sl 11; 15; 52); Hinos à Majestade de Deus (Sl 8; 19; 29; 65); Hinos à Soberania de
Deus (Sl 47; 93 – 99); Cânticos de Sião (Sl 46; 48; 76; 84; 122; 126; 129 e 137); Cânticos de Pere-
grinação (Sl 120 – 134); Cânticos Litúrgicos (Sl 15; 24; 68); Cânticos Didáticos (Sl 1; 34; 37; 73; 112;
119; 128; 133); Salmos Penitenciais (tradicionalmente assim chamados, e que incluem partes dos
salmos 38; 130 e 143, além dos conhecidos Sl 51 e 32); Salmos Vindicativos (Sl 69; 101; 137 e certas
porções dos salmos 35; 55 e 58); Salmos Históricos (Sl 78; 81; 105 e 106); Salmos de Revelação
(19; 119); Salmos Messiânicos (Sl 2; 8; 16; 22; 40; 41; 45; 68; 69; 89; 102; 109; 110; 118); Salmos
Messiânicos Proféticos (2; 45; 110). É importante notar as revelações feitas, por meio dos salmos,
em relação ao Messias (Cristo, em grego). No Sl 45.6, o Cristo aparece como Deus; no salmo 110,
Ele é o Rei-Sacerdote e Senhor de Davi; no salmo 2, Ele é o Filho de Deus, digno de todo louvor e
adoração. Outros salmos anunciam: os sofrimentos do Messias (Sl 22), seu sacrifício vicário (Sl 40),
e sua ressurreição miraculosa (Sl 16.10, 11). O salmo 89 nos apresenta o Cristo como Aquele que
completará o pacto davídico (Aliança), em cumprimento às esperanças garantidas pelo Senhor a
Israel e a todo o povo de Deus.

Data da primeira publicação


Ao questionarmos a data da publicação dos salmos, uma primeira pergunta se faz necessária: de
qual salmo especificamente estamos falando? Porquanto o Saltério é composto de salmos que vão
desde a época pré-exílica, passando por todo o tempo de cativeiro, até o pós-exílio. Como já vimos,
o processo de descobrimento, seleção e formação da coletânea canônica dos salmos levou vários
séculos, e foi concluído somente no final do século III a.C. Os salmos eram reverenciados e usados
como “Livro de Orações” – o que significava, também, ensino, louvor e adoração – nos cultos re-
alizados no templo de Zorobabel e Herodes, portanto, na reconstrução do templo de Salomão, ou
no chamado “segundo templo”, bem como para uso litúrgico em todas as sinagogas (Lc 20.42; At
1.20). No primeiro século da era cristã, já era conhecido como o “Livro dos Salmos”, o que significa
também todo o cânon do Antigo Testamento Hebraico ou “Escritos” (Lc 4.24-44).
Como já vimos, muitas coletâneas antecederam a formação final dos Salmos, e as primeiras cole-
ções surgiram pelas mãos de Davi, na época dos primeiros cultos no templo construído por determi-
nação de seu filho com Bate-Seba, o terceiro rei de Israel, Salomão (971 – 931 a.C.).
Considerando que metade de todo o Saltério é de autoria de Davi (ou davídicos), e que quase to-
dos foram originados no período áureo de Israel e alguns até mais tarde, podemos datar as primeiras
publicações dos Salmos por volta do ano 1000 a.C.

Esboço Geral dos Salmos

LIVRO I
Como vencer os momentos de crise, angústia e depressão (Sl 1 – 41)
Louvando e adorando ao Senhor Deus Yahweh (8; 24; 29; 33)
Exaltando a majestade e o amor leal do Senhor (2; 21)
Reverenciando a justiça misericordiosa e severa de Deus (1; 15)
Confessando e abandonando o pecado (32)
Crendo, absolutamente, na revelação do Senhor (19)

LIVRO II
Como orar com fé, em meio às adversidades da vida (Sl 42 – 72)
Louvando e adorando ao Senhor – Adonai (47; 48; 50; 65 – 68)
Exaltando a majestade e o amor leal do Senhor (45; 72)
Confessando e abandonando o pecado (51)
Entregando nossos adversários à justiça divina (58 e 59)

LIVRO III
Como manter a fé em Deus diante das aflições nacionais (Sl 73 – 89)
Louvando e adorando a Deus Todo-Poderoso (75; 76)
Observando o mover de Deus na História (78; 81)
Analisando o amor leal de Deus por Sião e pelo Templo (84; 87)
Suplicando a repreensão de Deus contra os ímpios (82)

LIVRO IV
Como descobrir a força que Deus dá para vencer as crises (90 – 106)
Cultivando uma fé inabalável diante dos obstáculos (90; 91; 94)
Observando o mover de Deus na História (105; 106)
Reconhecendo a justiça amorosa e certeira do Senhor (101)

LIVRO V
Como manter plena confiança em Deus diante das provações (107 – 150)
Crendo e exaltando a majestade soberana do Senhor (110; 132)
Esperando pelo socorro do Altíssimo nas aflições nacionais (129; 137)
Agarrando-se com toda a fé ao amor e à justiça de Deus (112; 116)
Agarrando-se com todo amor e confiança à Palavra de Deus (119)
Analisando o amor leal de Deus por Jerusalém (112)
Encontrando consolo, paz e forças no Espírito de Deus (120 – 134)
Dando sempre graças a Deus – Halel (113 – 118; 136 e 146 – 150).
SALMOS
PRIMEIRO LIVRO Julgamento, nem os pecadores na con-
Salmos de 1 a 41 gregação dos justos.4
6 Pois conhecer o SENHOR é o caminho
Os dois únicos caminhos dos justos; o caminho dos ímpios, po-
1 Abençoado com felicidade1 é o ho-
mem que não segue o conselho dos
ímpios,2 não se deixa influenciar pela
rém, conduz à destruição.5

O triunfo do reino do Messias


conduta dos pecadores, nem se assenta na
reunião dos zombadores.
2 Ao contrário: sua plena satisfação está
2 Por que os gentios se amotinam1 e os
povos intrigam em vão?
2 Os reis da terra preparam seus ardis e,
na lei do SENHOR,3 e na sua lei medita, dia unidos, os governantes conspiram con-
e noite! tra o SENHOR e contra o seu Cristo,2 pro-
3 Ele é como a árvore plantada à margem clamando:
de águas correntes: dá fruto no tempo 3 “Façamos em pedaços os seus laços, sacu-
apropriado e suas folhas não murcham; damos para longe de nós seus vínculos!”3
tudo quanto realiza prospera! 4 Do seu trono celeste, o SENHOR põe-se a
4 Não é o que ocorre com os ímpios! Ao rir e a ridicularizá-los.
contrário: são como a palha que o vento 5 E no seu devido tempo os repreenderá
carrega. com ira, e em seu furor os confundirá de
5 Por isso os ímpios não sobreviverão ao pavor,4 declarando:

1 Abençoado com felicidade: ou, como no original hebraico  “Quão verdadeiramente feliz”. A chave da felicidade é a
obediência à Palavra de Deus (A Tôrâ, Lei em hebraico, no AT). Os Salmos 1 e 2 são o prefácio do Saltério (conjunto de poemas
e hinos hebraicos de adoração a Deus). Como guardiães da Sabedoria apontam para os únicos dois caminhos possíveis ao ser
humano: a “roda dos zombadores” ou a “congregação dos justos” (v.5).
2 Ímpios: pessoas sem piedade, cruéis, desumanas, sem o devido respeito a Deus e à sua Palavra, incrédulas, auto-suficientes,
arrogantes, que não enxergam seus erros e não se arrependem. O termo hebraico  chataim significa a perversidade franca,
impiedosa e permanente.
3 Senhor: em hebraico YHWH (o nome sagrado e impronunciável de Deus, mais tarde transliterado para Yahweh ou Javé), é o
mais significativo nome de Deus no AT. Tem um sentido duplo: o Ser auto-existente, pois a palavra no original é relacionada ao
verbo “ser” (Êx 3.14), e o Redentor de Israel (Êx 6.6). Esse nome ocorre 6.823 vezes no AT, especialmente associado à santidade
de Deus (Lv 11.44-45), a seu ódio contra o pecado (Gn 6.3-7) e a sua misericordiosa provisão de redenção (Is 53.1-10).
A tradição judaica e cristã considera este Salmo como messiânico, da mesma forma que o Sl 110. Suas perspectivas são
messiânicas e escatológicas.
Na expressão original “conhecer o Senhor” ou, literalmente, “conhecendo o Senhor”, o particípio hebraico yôdêa está no estado
construto, que rege o objeto direto. Portanto, “Senhor” é objeto do verbo “conhecer” e não, sujeito. Na frase, está subentendido
o sujeito de totalidade.
4 Os pagãos e perversos não suportarão a ira de Deus no dia do Juízo Final (76.7; 130.3; Ed 9.15; Ml 3.2; Mt 25.31-46; Ap 6.17).
A expressão original “comunidade” refere-se à “assembléia” dos crentes em Deus (justos); os adoradores que se reúnem no
santuário para o culto e serviço espiritual dedicado ao Senhor (15.1,2; 22.25; 26.12; 35.18; 40.9,10; 111.1; 149.1).
5 O resultado final de uma vida dedicada à impiedade, sob a influência do maligno, é a punição eterna (Ap 20.11-15).
Capítulo 2
1 Amotinam: revoltam-se ou se enfurecem como na LXX (Septuaginta, tradução para o grego pré-cristão de todo o AT, realizada
por um grupo de 70 eruditos de Alexandria em 285 a.C.).
2 Cristo: ou Cristos, em grego, transliterado da forma aramaica Mashíah, que deu origem às palavras Messias e Cristo, ambas
significando o Ungido de Deus – Jesus.
3 A humanidade insana fugindo dos “laços” e “vínculos” do amor de Deus. Uma profecia do Calvário, onde os reis e governan-
tes estão representados por Herodes e Pilatos, e os povos, pela população de Israel, todos unidos contra Jesus Cristo, o Ungido
do Senhor (At 4.25-28 e 1Co 2.8).
4 O motivo do riso de Deus é a arrogância daqueles que se acham sábios e, não, o sofrimento humano. Deus tem prazer em
confundir (apavorar) os falsos sábios (1Co 1.20; Cl 2.15; Ap 11.18; 18.20).
7 SALMOS 2, 3

6 “Fui Eu que consagrei o meu Rei sobre O socorro vem do Senhor


Sião, meu monte sagrado!”5 Um salmo de Davi quando teve de fugir de
7 Proclamarei6 o decreto do SENHOR. Ele Absalão, seu filho
me disse: “Tu és meu Filho; Eu hoje te
gerei.
8 Pede, e Eu te darei as nações como he-
3 SENHOR, como se avoluma o número
dos meus opressores, numerosos os
que se rebelam contra mim!1
rança, os confins da terra como tua pro- 2 São muitos os que dizem a meu respei-
priedade. to: “Deus jamais o socorrerá!”
9 Tu as regerás com cetro de ferro,7 como (Pausa)2
um vaso de oleiro as espatifarás”. 3 Mas tu, SENHOR, és o escudo que me
10 Por isso, ó reis, sede prudentes; aceitai protege, minha glória e o que me ergue
a correção, magistrados da terra! a cabeça.
11 Servi ao SENHOR com temor, e vivei 4 Em alta voz eu clamo ao SENHOR, e do
nele com alegria e tremor. seu monte sagrado ele me responde.
12 Rendei ao Filho8 adoração sincera, (Pausa)
para que não se ire e vos sobrevenha re- 5 Eu me deito e logo adormeço. Desperto
pentina destruição, pois a sua ira se acen- de novo, pois é o SENHOR que me sustém.
de depressa. Verdadeiramente felizes são 6 Não temo os milhares de inimigos que
todos os que nele depositam sua plena me cercam por todos os lados.
confiança.9 7 Ergue-te a meu favor, SENHOR! Salva-me,

5 O primeiro “monte sagrado de Deus” foi o Sinai (Êx 3.1; 18.5), onde Moisés recebeu de Deus a Lei ( Êx 24.12-18; Dt 33.2; cf.
1 Rs 19.8). Quando Davi edificou o Templo sobre a colina de Sião (2 Sm 5.9), ela tornou-se o único monte (residência) de Deus,
para onde as pessoas “subiam” a fim de ouvi-lo e adorá-lo. Sião deu seu nome a toda a cidade de Jerusalém, cidade do Rei
messiânico, em que se reunirão todos os povos e nações (Sl 48.1; Is 2.1-3; 11.9; 24.23; 56.7; Jl 3.6; Zc 14.16-19, cf. Hb 12.22;
Ap 14.1; 21.2).
6 Depois dos rebeldes (v.3) e de Yahweh (v.6), o Messias (Cristo) toma a palavra. O decreto desenvolve a promessa de adoção
dada ao herdeiro de Davi em 2Sm 7.14. Estas palavras eram pronunciadas como oráculos pelo rei, no rito de coroação, para
marcar o momento em que o novo soberano formalmente assumia sua herança e títulos (Dt 17.18; 1Sm 10.25; 2Rs 11.12). A
conexão entre esta proclamação e a ressurreição, em At 13.33 (cf. Rm 1.4), é duplamente significativa. Na ocasião do batismo
de Cristo e na sua transfiguração, o Pai O proclamou Filho e Servo, usando palavras extraídas deste versículo e de Isaías 42.1
(Mt 3.17; 17.5; 2Pe 1.17).
7 O livro de Apocalipse cita estas palavras três vezes; uma vez, a respeito do cristão vitorioso (2.27) e duas vezes, a
respeito do seu Senhor (12.5; 19.15). A LXX usa o verbo “reger” (literalmente, em hebraico, pastorear) em vez de “que-
brar”, utilizado em algumas versões. Isso permite percebermos o largo alcance da promessa. Contemplando, inicialmente,
uma disciplina de ferro e, em seguida, a derrota final dos incorrigíveis (cf. Jr 19.10-11). O cetro (ou vara) de ferro tinha as
funções de um cajado para o pastoreio e uma arma contra os assaltantes (Lv 27.32; Ez 20.37). Veio, assim, a ser símbolo
de governo.
8 Filho: em aramaico,  Bar, e em hebraico pode ser entendido também como “puro” ou “pureza, sinceridade”. Os versículos
11 e 12 permitem traduções alternadas.
9 A tradução da Bíblia King James Atualizada contou com a cooperação de um grupo com cerca de 60 eruditos de vários
países e denominações cristãs, que tiveram acesso aos mais antigos e melhores manuscritos, especialmente após as últimas
publicações dos estudos sobre os Rolos do Mar Morto. Essa é a razão pela qual alguns textos bíblicos, especialmente em língua
portuguesa, diferenciam-se da maioria das versões tradicionais, mesmo das novas edições da King James em inglês.
Capítulo 3
1 Este salmo (dirigido ao chefe dos cantores para ser musicado) faz parte dos salmos históricos de Davi (3, 7, 18, 30, 34, 51, 52,
54, 56, 57, 59, 60, 63, 142). Davi teve de fugir da revolta de seu próprio filho, Absalão (2Sm 15.13), e estava rodeado de inimigos
e sofrimento (2 Sm 15.26; 18.33).
2 Os salmos (em hebraico, meez-mohr ou mizmôr) são poemas acompanhados de música e eram usados no louvor
e adoração a Deus. Por isso, os salmos apresentam alguns termos técnicos, como “Pausa” ( Selal ou Selah, palavra
derivada da raiz hebraica slh e que corresponde ao verbo aramaico “curvar”), um sinal de reverência ainda maior e uma
notação musical para indicar interlúdio, mudança de acompanhamento musical ou uma indicação, para o regente do coro,
sobre a entoação de uma frase do respectivo versículo, em voz cantada para servir de antífona (recitação) responsória dos
fiéis. Outro termo comum é “Ao mestre de canto”, em salmos que faziam parte de uma coleção de poemas reservados para
ocasiões especiais.
SALMOS 3–5 8

Deus meu! Quebra o queixo de todos os fleti em vosso leito e acalmai-vos.


meus inimigos, e arrebenta os dentes dos (Pausa)
ímpios.3 5 Oferecei sacrifícios4 justos como Deus
8 Do SENHOR vem a salvação! E sobre aque- requer e depositai toda a vossa confiança
les que são teus, a tua bênção! no SENHOR.
(Pausa) 6 Numerosos são os que dizem: “Quem nos
fará ver a felicidade?” Faze, ó SENHOR, res-
A segurança do fiel a Deus plandecer sobre nós a luz da tua face!5
Ao mestre de música, com instrumentos de 7 Colocaste em meu coração mais alegria
corda. Um salmo de Davi. do que a daqueles que têm fartura nas
4 Quando te invoco, responde-me, ó
Deus, minha justiça! Na angústia tu
me aliviaste:1 tem misericórdia de mim e
épocas de trigo e vinho.
8 Em paz me deito e logo adormeço, por-
que só tu, ó SENHOR, me fazes viver segu-
ouve as minhas súplicas!2 ro e sem medo.6
2 Ó filhos dos homens, até quando difa-
mareis minha honra? Até quando estareis Oração da manhã
amando ilusões e procurando a falsidade? Ao mestre de música: para flautas.
(Pausa) Um salmo de Davi.
3 Sabei que o SENHOR faz maravilhas para
o seu fiel; o SENHOR me ouve quando eu
o invoco.
5 Dá ouvidos, ó SENHOR, às minhas pa-
lavras, considera os meus pensamen-
tos íntimos.1
4 Estremecei de ira,3 mas não pequeis; re- 2 Concede tua atenção ao meu clamor2

3 Davi, arrependido e perdoado, buscou com fé o livramento de Yahweh, que o abençoou com sua graça, misericórdia e poder.
Deus tinha a reputação histórica de desferir poderosos golpes nos maxilares dos homens arrogantes e rebeldes.
Capítulo 4
1 Literalmente: “Tu, que no aperto me abriste espaço”.
2 Salmo de confiança e gratidão para com Deus, do qual unicamente vem a felicidade. Também conhecido como oração da
tarde com origem no passado (Gn 48.15-16).
3 Estremecei de ira, como, literalmente, em hebraico, ou “irai-vos”, como em algumas versões. Os sentimentos de insatisfa-
ção e cólera jamais devem dar ocasião a qualquer tipo de violência ou agressividade. O conselho aqui é, literalmente: “durma,
meditando no caso, antes de agir”. Paulo vai além e nos exorta a acabar com o sentimento de revolta e indignação antes do
pôr-do-sol (Ef 4.26).
4 O sangue de um animal inocente e sem mácula (defeito) era o ritual (símbolo) requerido para a expiação dos pecados de um
coração quebrantado e sinceramente arrependido. Deus não aceita sacrifícios, ofertas e rituais hipócritas como os oferecidos por
Absalão (2 Sm 15.1-14). Sacrifícios justos ou de justiça são aqueles oferecidos de acordo com a Lei (Ml 1.6-14) e, acima de tudo,
com verdadeiro amor ao Senhor (Mc 12.33). Em Cristo, toda a necessidade de sangue como holocausto cessou; e a fé genuína
no Filho de Deus e o amor cristão passaram a ser os sacrifícios exigidos pelo Senhor para a plena redenção (Sl 51.17; Pv 15.8;
Os 6.6; Rm 12.1; Ef 5.2; Hb 10.5; 1 Pe 2.5).
5 Face, ou fisionomia. Expressões freqüentes no Saltério (Salmos), que indicam a bondade de Deus e dos reis quando permi-
tiam que seus súditos os olhassem no rosto. É a face que demonstra os pensamentos e sentimentos e designa a personalidade.
Embora o homem não possa ver a face de Deus (Êx 33.20; 34.29-35), é possível ter um vislumbre da sua glória por meio da
comunhão com seu Espírito, o que faz dissipar todo temor e aflição.
6 Uma tradução do aramaico e siríaco: “Em felicidade me deito e logo pego no sono, pois vós, ó Senhor, me fazeis permanecer
em segurança, na solidão”. A palavra hebraica  – lebadad indica que só o Senhor nos pode proporcionar toda a segurança
de que precisamos para descansar confiantes e em paz. (Dt 12.10; 33.28). O temor gera preocupação que nos tira o sono, mas
o que confia no Senhor pode descansar em paz e sem receio (Pv 1.33).
Capítulo 5
1 Este é um salmo em que Davi pede a Deus que responda a sua oração da manhã. Seu lamento íntimo é contra a propaganda
fraudulenta dos inimigos que o rodeiam. Descreve o ódio divino ao pecado e pede que o Senhor o guie na justiça. A expressão
mais literal, “pensamentos íntimos”, pode também ser traduzida como “meditação”, como aparece na antiga KJ (1611). Outras
versões usam a palavra “gemido”.
2 Davi não gritou como se o fizesse aos ouvidos de quem não ouve; mas toda a sua tristeza e o ímpeto de sua angústia in-
terior jorravam num choro abafado e sofrido. O verbo hagah, do qual deriva o substantivo hagig (discurso), significa tanto falar
distintamente como sussurrar ou murmurar. Uma antiga versão hebraica traduziu “ao meu clamor por socorro” assim: “aos meus
lamentos como o de pombo” (Is 38.14).
9 SALMOS 5, 6

por socorro, meu Rei e meu Deus, pois é mulo aberto, e com suas línguas sedu-
a ti que eu suplico. zem e enganam.7
3 Pela manhã, ó SENHOR, ouves a minha 10 Condena-os8 ó Deus! Caiam eles em
voz; logo cedo te apresento o meu sacri- suas próprias tramas. Expulsa-os por
fício3 e aguardo com esperança.4 causa dos seus muitos pecados, porque
4 Porque tu, ó Deus, não tens prazer na in- se rebelaram contra ti.
justiça, e contigo não pode habitar o mal. 11 Mas alegrem-se todos os que em ti
5 Os arrogantes não são aceitos na tua colocam a sua fé; cantem de felicida-
presença; odeias todos os que agem com de para sempre! Estende sobre eles a
maldade. tua proteção. Rejubilem-se em ti os que
6 Destróis os mentirosos; os que têm sede amam o teu Nome!
de sangue e os fraudulentos são abomi- 12 Em verdade, SENHOR, tu abençoas o
náveis ao SENHOR . justo e, como escudo, o cercas9 da tua be-
7 Quanto a mim, graças à tua grande nevolência.
misericórdia,5 poderei entrar em tua
casa; e me prostrarei em direção ao teu Súplicas durante a provação
sagrado templo, com reverência e ado- Para o mestre de música.
ração. Com instrumentos de cordas. Em oitava.
8 Conduze-me, ó SENHOR, na tua justiça, Um salmo de Davi.
por causa dos que me espreitam.6 Aplaina
à minha frente o teu caminho!
9 Na boca deles não há palavra sincera,
6 SENHOR, não me castigues na tua ira
nem me corrijas no teu furor!1
2 Tem piedade de mim, ó SENHOR, pois
suas mentes tramam continuamente o estou perdendo as forças. Cura-me, SE-
mal. Suas gargantas são como um tú- NHOR! Pois estremecem meus ossos.

3 O hebraico não tem substantivo aqui, só o verbo anterior “preparar”, que pode ser usado para apresentar algo em uma festa
ou cerimônia (23.5). É um termo sacerdotal para preparar o fogo do altar e dispor os pedaços do holocausto (Lv 1.6-7). Uma
alusão ao sacrifício diário, à porta do tabernáculo de Deus, local marcado por Deus para falar com seu ungido (Êx 29.42). Davi
ora nesse sentido, expressando sua certeza de perdão (expiação) e fé na resposta do Senhor.
4 Deus marcou um encontro com Davi na tenda da congregação (templo; no NT, nosso corpo) e certamente viria. Não apenas
para ouvir, mas também para falar ao coração amargurado e temeroso de Davi. A expressão “aguardando com esperança” nos
remete aos profetas que ficavam esperando (vigiando) os primeiros sinais do cumprimento da Palavra do Senhor (Is 21.6,8;
Mq 7.7; Hc 2.1). A palavra hebraica , tsapah (esperança), tem o sentido de depositar diante de Deus as aflições e esperar a
resposta libertadora do Senhor.
5 Davi reconhece que, se Deus fosse julgar simplesmente seu caráter e não sua causa, seria arruinado. A palavra hebraica
hesed, traduzida por “misericórdia” tem o sentido de “amor leal e interminável” (Os 2.19-20).
6 Os que me espreitam , segundo a derivação do original hebraico, traz a idéia de vigilância em relação aos adversários que não
perderão uma oportunidade para destruir os que estão no Caminho do Senhor (Lc 11.53-54). Davi não é apenas um adorador,
mas um peregrino fiel que, a cada passo, encontra resistência. Sua oração por um “caminho plano” não busca conforto, mas,
sim, o progresso legítimo e o livramento dos ardis de seus inimigos.
7 “Os que têm sede de sangue e os fraudulentos” usam todos os recursos da comunicação para efetivar suas maldades. Os
métodos são os da Serpente no Éden e de seus filhotes: o Sedutor e o Difamador. A expressão “túmulo aberto” indica o sofrimen-
to a que todos estamos expostos, pelo fato de vivermos em um mundo hostil à realidade espiritual (Rm 3).
8 O termo hebraico asam significa “cortar” ou “destruir”, sendo uma palavra única para expressar o oposto de “justificar” (34.21-
22) neste grande julgamento em que toda a humanidade está envolvida: desmascaramento dos ímpios, colapso dos maus e
expulsão (ou rejeição) dos que se insurgem contra Deus e seu Reino (2 Sm 15.31).
9 As expressões hebraicas katsinah “como um escudo” e ratson “favor ou benevolência” são combinadas para assegurar ao
fiel (justo ou justificado) o cerco protetor de Deus. A expressão “o cercas” ocorre uma única outra vez em 1Sm 23.26-29, para
descrever a força hostil que rodeava Davi até que o Senhor providenciou o livramento (pedra de escape), evidenciando que é
Deus quem, de fato, ampara seus filhos. O escudo da época tinha uma grande saliência que se erguia de seu centro, encimada
por uma adaga, o que o fazia uma eficiente arma de defesa e ataque.
Capítulo 6
1 Este é o primeiro dos “Salmos Penitenciais de Davi” (6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143). É um salmo de alguém profundamente
perturbado. As orações e as lágrimas derramadas diante de Deus não foram em vão, pois, ao final do saltério, há louvor pela
resposta do Senhor. Este salmo traz palavras para aqueles que não encontram ânimo sequer para orar.
SALMOS 6, 7 10

3 E a minha alma está extremamente Deus defende o justo


apavorada.2 Até quando, SENHOR! Até Canto de confissão de Davi. Entoado ao
quando?3 SENHOR, acerca de Kush, o benjamita.
4 Volta-te, SENHOR, e liberta minha
alma;4 salva-me por teu amor miseri-
cordioso!
7 SENHOR, meu Deus, eu me abrigo em
ti! Salva-me de todos os meus perse-
guidores. Liberta-me!1
5 Porque entre os mortos5 não há adora- 2 Que não me agarrem, como leões e,
ção a ti; no túmulo, quem poderá te ren- levando-me para longe, me estraçalhem,
der louvores? sem haver quem me livre.
6 Estou esgotado de tanto gemer, todas as 3 SENHOR, meu Deus, se procedi como me
noites eu choro na cama, banhando meu culpam, se em minhas mãos há injustiça
leito com lágrimas. e iniqüidade,
7 Meus olhos derretem-se de tristeza pela 4 se paguei com o mal ao amigo que me fez o
insolência6 dos meus opressores. bem, se de tudo despojei meus adversários,2
8 Afastai-vos de mim, malfeitores todos; 5 que o inimigo me persiga até alcançar,
porque o SENHOR escutou a voz do meu que me pisoteie vivo sobre a terra e ar-
pranto! raste a minha honra3 no pó!
9 O SENHOR ouviu a minha súplica; o SE- (Pausa)
NHOR respondeu a minha oração! 6 Levanta-te, SENHOR, na tua indignação!
10 Serão humilhados e aterrorizados7 to- Ergue-te contra o excesso de fúria dos
dos os meus inimigos; cobertos de vergo- meus opressores. Desperta-te, meu Deus!
nha se retirarão depressa! Estabelece o teu juízo designado!4

2 As palavras no original hebraico  nibhalah meod apontam para as emoções altamente perturbadas do ser em geral
(alma e corpo) e são muito semelhantes àquelas pronunciadas por Jesus Cristo em sua agonia (Mt 26.38).
3 Os salmos nos ensinam que todas as demoras de Deus são para amadurecimento do tempo apropriado (37) ou da pessoa (119.67).
4 Liberta minha alma é a forma mais literal de se traduzir a expressão hebraica no original. O termo hebraico nefesh (Gn 2.7)
designa a respiração vital dos seres viventes e que se retira por ocasião da morte. A expressão “minha alma” equivale freqüente-
mente ao pronome reflexivo “eu próprio, mim mesmo, minha face, minha vida, minha glória”. Esses diferentes sentidos de “alma”
permanecerão vivos no NT como “psiqué”, do grego, psiché (Mt 2.20; 10.28; 16.25-26; 2Co 4.16; 15.44).
5 Entre os mortos, lugar dos mortos, além, sepulcro ou túmulo, são algumas das traduções do termo hebraico Sheol, que indica o
estado dos seres sem vida e a tragédia da morte como aquilo que silencia a adoração do ser humano, na terra, a seu Criador (Is 38.18-
19). Os gritos do salmista proclamam que o tempo de vida é curto demais, tudo passa muito depressa, e a morte é inexorável e certa
(Jo 9.4; Hb 9.27). Davi sabe que o Senhor tem acesso ao Sheol, e que haverá ressurreição (139.8; Pv 15.11; Is 26.19; Dn 12.1-3), mas
pede a Deus que o poupe para que ele recorde (louve e adore), ainda nesta vida, os grandes feitos do Senhor (Is 63.7).
6 A KJ traduz: “envelhecem por causa dos meus inimigos”, mas a palavra hebraica ‘ategah significa “insolência”; e ‘atgah “en-
velheceu” é conjetura. Os opressores não são apenas os inimigos e adversários, mas também os remorsos e tormentos mentais
(31; 35; 38; 69 e os amigos de Jó).
7 A mesma expressão usada no original já comentada (nibhalah meod) para descrever a extrema perturbação no ser de Davi
(vv. 2,3) agora é aplicada aos inimigos do Senhor em sua derrocada e expulsão.
Capítulo 7
1 A justiça será a salvação, pois as duas coincidem quando Deus julga a causa do oprimido. Deus é o juiz de toda a terra e a
maldade derrota a si mesma. Este é o primeiro dos salmos imprecatórios, que pedem juízo ou maldição contra os inimigos de
Deus. O termo hebraico Shiggaion, traduzido neste salmo por “canto”, significa uma canção arrebatadora, que ajudava a expres-
sar a confissão dos pecados de Davi, seu arrependimento e sua fidelidade ao Senhor. Quanto ao nome Kush (Cuxe, Cuch ou
ainda Cush), o benjamita, que aparece no título, não é mencionado em nenhum outro texto bíblico. Sabemos que em Benjamim,
a tribo de Saul, havia alguns inimigos mortais de Davi (2Sm 16.5-14).
2 Pior que a perseguição é a calúnia (Jó 31). Davi revela algo do seu código de honra (conduta, caráter) com Deus e que fazia
parte da tradição judaica dos fiéis (Êx 23.4-5; Lv 19.17-18; 1Sm 24.10-11; Pv 25.21).
3 A palavra hebraica  kebod significa literalmente “minha glória”, mas também se refere aos órgãos onde os antigos semi-
tas acreditavam localizar-se os sentimentos e emoções (fígado, ventre, rins, entranhas). Um termo que, como no caso, também
pode designar a alma, quando usado em paralelo com os elementos vitais do ser humano. Davi estava disposto a ter seu nome
(reputação) enxovalhado, mesmo após a morte (pó ou túmulo), caso seus inimigos provassem sua culpa diante de Deus.
4 Em paralelo aos apelos de Davi por vindicação pessoal, há uma revelação maior sobre a justiça universal de Deus. A justiça
e o juízo não são uma preocupação, mas sim uma convicção (At 17.31). A expressão hebraica  urah, “desperta-te”, tem o
sentido mais amplo de construir ou estabelecer o direito.
11 SALMOS 7, 8

7 Reúna-se ao teu redor a assembléia dos 16 Assim, sua maldade se voltará contra
povos. Das alturas reina sobre todas as ele e sobre a própria cabeça cairá sua vio-
nações da terra.5 lência.
8 O SENHOR é quem julga os povos. Julga- 17 Eu, porém, darei graças ao SENHOR por
me, SENHOR, conforme a minha justiça, se- sua justiça, salmodiarei e cantarei louvo-
gundo a inocência que há em mim! res ao Nome do SENHOR, o Altíssimo!9
9 Deus justo, que sondas as mentes e
entranhas,6 dá fim à maldade dos ímpios, A glória do Criador
e ao justo dá segurança e paz. Para o mestre de música.
10 Deus é o escudo que me cobre, o salva- Conforme a melodia Os lagares.1
dor dos corações retos. Hino de louvor de Davi
11 Deus é o justo juiz! Deus que demons-
tra, a cada dia, seu extremo zelo.
12 Caso o homem não se converta, Deus
afiará sua espada; pois já armou seu arco
8 SENHOR, nosso soberano Deus,2 como
é majestoso o teu Nome por toda a
terra! Tu cuja glória é cantada acima dos
e o aponta, céus!3
13 preparou para si armas de morte e 2 Pela boca4 das crianças e dos recém-
produziu suas flechas flamejantes. nascidos instruíste os sábios e poderosos,
14 Todo aquele que gera maldade conce- silenciando os inimigos e maldosos, por-
be o sofrimento e dá à luz a desilusão.7 que são adversários teus.
15 Quem cava um buraco como armadi- 3 Quando admiro os teus céus, obra
lha cai em fossa profunda, que ele mes- dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali
mo fez.8 estabeleceste,5

5 Calvino, em seu comentário, lembra que Davi sugere que Deus se manteve quieto e, por algum tempo guardou silêncio, para, no
momento certo, erguer-se tão alto que não só uma ou duas, mas todas as nações da terra pudessem contemplar sua glória.
6 Deus tem o poder de sondar e pôr à prova os pensamentos mais racionais e os sentimentos mais apaixonados e complexos
da nossa alma. Literalmente: “pões à prova o coração e os rins”.
7 Deus é o sujeito das ações narradas no v.13, ao passo que o v.14 descreve as atitudes do ímpio, cuja fertilidade para o mal é
comparada ao processo da gestação e parto. O raciocínio é o mesmo usado por Jesus Cristo a respeito da árvore má e do tesouro
mau (Lc 6.43-45). Metáfora semelhante é usada por Paulo ao explicar sobre o ciclo da tentação: cobiça–pecado–morte (Tg 1.15).
8 O mal sempre se voltará contra quem o pratica, mesmo que leve tempo. O efeito que uma atitude maldosa tem sobre a pessoa
que a acalenta e destina é mais desastroso para ela própria do que qualquer sofrimento que possa causar a outras pessoas (1Jo
2.11). Calvino e Lutero concordaram em que “aprofundar a cova” significava, no original, construir um tipo de armadilha para
caçar leões e outros animais selvagens, muito comum no oriente, e que consistia na escavação de um grande buraco que era
superficialmente coberto com ramos e pequenos galhos de árvore.
9 O verbo hebraico zamar (em grego: psallein) traz o sentido de salmodiar, tocando instrumentos musicais e cantando os feitos
de Deus. O título “Altíssimo” (em hebraico: Élyôn ) aparece raras vezes fora dos Salmos. Surge, pela primeira vez, na história de
Melquisedeque e Abrão (Gn 14.18). As religiões cananitas davam um título semelhante ao deus Baal, mas tanto Abrão como Davi
explícita e claramente, reivindicaram esse título, para o Senhor.
Capítulo 8
1 Este salmo é um dos mais belos exemplos de como um hino de louvor a Deus deve ser composto: celebra a glória e a graça
de Deus, enquanto descreve a natureza e os feitos do Senhor, bem como o mundo em relacionamento com Ele. Davi expressa
sua admiração diante da majestade do Senhor, que usa os fracos para destronar os poderosos. A palavra lagares (em hebraico,
 gittith) é derivada de Gate e indica uma melodia associada a essa cidade.
2 A primeira palavra é o nome incomunicável de Deus; a palavra seguinte, em hebraico,  Adonenu, nosso Soberano ou
Senhor, é derivada da raiz  dan, que significa governar, julgar, suportar.
3 O uso do verbo hebraico  tenah (colocar ou pôr) faz que possamos ler literalmente: “Puseste a tua glória acima dos céus”
(Is 6.3).
4 Contra os poderosos, pretensos sábios, vingadores, adversários e inimigos, Deus apresenta o simples louvor que brota “da
boca” (em hebraico  mephi) dos mais fracos deste mundo. Entretanto, conforme a Entrada Triunfal haveria de demonstrar (Mt
21.15-16), a livre confissão de amor e fé é uma resposta devastadora ao acusador.
5 Entre todas as criaturas da terra, somente o ser humano é capaz de olhar com admiração (refletir ao contemplar algo). Deus
ensina que, ao olhar os céus, não devemos pensar num Criador ordeiro, mas distante e, sim, no Deus que cuida de cada detalhe
e visita os seus como o mais amoroso dos pais (Is 40.26-31). O universo criado por Deus não é destituído de significado, frio e
vazio, mas um lar aconchegante para sua grande família (Is 45.18; 51.16).
SALMOS 8, 9 12

4 pergunto: Que é o homem6 para que 4 Pois defendeste o meu direito e a minha
com ele te importes? E o filho de Adão demanda: sentaste em teu trono como
para que venhas visitá-lo? justo juiz.2
5 Tu o fizeste um pouco menor do que os  Guimel
anjos7 e o coroaste de glória e de honra. 5 Corrigiste as nações, destruíste os ím-
6 Tu o fizeste dominar sobre as obras das pios; por toda a eternidade apagaste o
tuas mãos; tudo sujeitaste debaixo dos nome deles.3
seus pés: 6 O adversário foi totalmente derrotado
7 todos os rebanhos e manadas e os ani- para sempre; arrasaste as suas cidades e
mais selvagens também, já não há quem delas se lembre.
8 as aves do céu, os peixes do oceano e tudo 7 O SENHOR reina para sempre; para o jul-
o que percorre as correntes marítimas. gamento firmou o seu trono.
9 SENHOR, nosso soberano Deus, como é  He
majestoso o teu nome por toda a terra! 8 Ele julga o mundo com justiça, governa
os povos com retidão.
Graças a Deus: Justo Juiz!  Vav
Do mestre de música. Para oboé e harpa. 9 O SENHOR é abrigo seguro para os opri-
Um salmo de Davi.1 midos, uma fortaleza nos tempos de an-
 Alef gústia.

9 SENHOR, quero render-te graças de


todo o meu coração, e proclamar to-
das as tuas maravilhas.
10 Em ti confiam todos os que conhecem
o teu nome, porque tu, SENHOR, jamais
abandonas aqueles que Te buscam.
2 Em ti quero alegrar-me e exultar; tocar  Zayin
e cantar louvores ao teu nome, ó Altís- 11 Tocai, cantai e louvai ao SENHOR, que
simo. reina em Sião; proclamem entre as na-
3 Meus inimigos, retrocedendo, tropeça- ções as suas façanhas:
ram em tua presença e pereceram. 12 Ele busca os assassinos4, lembra-se do
 Bet sangue derramado e os vinga, não se es-

6 Segundo a tradição judaica, a palavra  enosh (homem) expressa a fragilidade humana em razão de seu doloroso estado
resultante do pecado. A segunda expressão, traduzida como “homem”, é   ben Adam, literalmente, “o filho de Adão”. Como
o designativo Adão significa “homem”, formado de Adamah (pó e terra), “o filho do homem” é uma referência à descendência
humana, terrena, caída e apóstata. Uma forma de conscientizar o homem sobre sua origem e fim (Gn 2.7; 3.19). Entretanto, a
forma ben Adam é superior à simples enosh e, usada pelos monarcas, indica o homem em sua melhor condição humana (quando
demonstra características divinas como bondade, lealdade, amor e justiça). Nesse caso, a frase “o filho de Adão” poderia ser,
literalmente, “o melhor dos homens” ou “o maior príncipe do mundo”, segundo defende Calvino.
7 Em hebraico  Elohim (Deus ou divindade), nome algumas vezes aplicado aos seres celestiais. Os melhores e mais
antigos textos judaicos, bem como a Septuaginta e as sucessivas revisões da KJ, traduzem Elohim, nesta frase, como “anjos”.
Capítulo 9
1 Davi louva ao Senhor, o justo Juiz, por destruir os ímpios. O termo “exultar”, em hebraico,  E-eltsah, significa literalmen-
te “saltar de alegria”. Em algumas versões aparece Muth-Labben (nome de uma melodia de significado desconhecido). A partir
deste salmo, serão observadas algumas diferenças entre as versões da Bíblia quanto à numeração dos salmos, sendo que a
Septuaginta e a Vulgata (seguidas mais de perto pela Igreja Católica Romana) contam os Salmos 9 e 10 como um poema único,
enquanto as igrejas evangélicas herdaram a forma de contagem hebraica. Entretanto, neste caso, a ausência de título para o Sl 10
e a presença de um acróstico fragmentário que se inicia no Sl 9 e termina no Sl 10 justificam o entendimento de ser uma peça po-
ética que se complementa, pois falam da dupla realidade de um mundo caído: o triunfo certo e futuro de Deus e o sucesso atual e
passageiro dos ímpios. O Sl 9 tem a maioria das primeiras 11 letras do alfabeto hebraico (com 22 letras ao todo), como iniciais de
versículos alternados; o Sl 10, no entanto, depois de começar com a 12ª letra, abandona o esquema alfabético até os versículos
12-18, onde aparecem as quatro últimas letras. Isso ocorre devido ao mau estado do Textus Receptus e de outros originais.
2 O AT considera o julgamento divino como já realizado, sendo que o “Dia do Senhor” o trará à luz. Esse tema escatológico é
freqüente nos salmos.
3 Embora a maioria das versões traduza alguns verbos hebraicos no tempo passado como presente, na realidade esses verbos
são “perfeitos proféticos”, formando uma característica vital para o correto entendimento do AT, pois descrevem acontecimentos
futuros como se já tivessem acontecido, tão certo é o cumprimento deles e tão clara a visão.
4 Literalmente, no original: “Ele busca o sangue derramado e exige contas”.
13 SALMOS 9, 10

quece jamais do clamor do necessitado. terra, que não são mais do que seres hu-
 Het manos.
13 Misericórdia, SENHOR! Vê minha afli- (Pausa)
ção! O sofrimento causado pelos que
me odeiam. Salva-me das portas da Deus ouve a oração do aflito e vence o mal
morte,
14 para que, junto às portas da cidade5 de
Sião, possa eu cantar louvores a ti e ali
10 Por que, SENHOR, permaneces
afastado e te ocultas no tempo da
aflição?
exulte em teu livramento.  Lamed
15 Os povos caíram na cova que com as- 2 Com arrogância os ímpios perseguem
túcia abriram; no laço que ocultaram, o indefeso; que fiquem emaranhados em
seus pés se prenderam. suas próprias tramas!
 Tet 3 O infiel se gaba de sua própria ambição,
16 O SENHOR é conhecido pela justiça que o avarento menospreza1e insulta a Deus.
exerce; os ímpios caem em suas próprias 4 O ímpio é soberbo, não quer saber des-
tramas. se assunto. “Deus não existe!” é tudo o
Interlúdio6 (Pausa) que de fato pensa.
 Yud 5 Seus negócios têm contínuo sucesso;2
17 Voltem os ímpios para o inferno,7 to- muito além da sua compreensão está a
dos os povos que se esquecem de Deus! tua Lei, por isso ele faz pouco caso dos
 Kaf seus adversários,
18 Mas os necessitados jamais serão esque- 6 pensando consigo mesmo: “Eu sou ina-
cidos, nem será frustrada a esperança dos balável! Desgraça alguma me atingirá,
pobres e humildes. nem a mim nem aos meus descendentes”.
19 Ergue-te, SENHOR! Não permitas que  Pê
um simples mortal vença! Julgados se- 7 Sua boca está sempre cheia de fraudes,
jam todos os povos na tua presença. maldições e ameaças; violência e todo
20 Coloca em seus corações o terror,8 ó tipo de maldade estão em sua língua.
SENHOR! Para que saibam as nações da 8 Põe-se de emboscada próximo aos vi-

5 Cidade ou filha, em hebraico. Davi descobre que o melhor antídoto contra o sofrimento está no louvor ao Senhor. Assim, as
portas da morte não poderão impedi-lo de atravessar as portas de Sião.
6 Interlúdio ou Higaiom, no original hebraico. Momento solene, apropriado para a meditação, recitação de textos bíblicos em
voz baixa, com ou sem acompanhamento de instrumentos suaves (arpejo).
7 Os perversos (ímpios e infiéis) voltarão para o inferno. Eles não apenas “partirão” ou “serão lançados”, como traduzido
em algumas versões, mas retornarão ao seu estado natural de morte e de atos de morte (maldade). A palavra hebraica 
Sheol ou Sheolah, traduzida aqui como “inferno”, também pode ser entendida como “sepultura”, “volta ao pó” e “profundezas
da morte”.
8 É notório como Deus tem permitido o terror entre as nações como mais uma chance para que o homem observe o produto
de seu egoísmo e ambição. É necessário que o homem se humilhe e reconheça sua pequenez e a necessidade da direção
divina. Mas a humanidade, em sua arrogância, tem se rebelado ainda mais contra Deus e, por isso, passará por mais aflições e
sofrimentos, entristecendo sobremaneira o coração do Criador.
Capítulo 10
1 No original hebraico, esta palavra tem o sentido mais apropriado de “ignorar “ e “desprezar”. Não crer na participação pessoal
de Deus em nossas vidas, relacionamentos e negócios é uma forma de blasfêmia, termo empregado semelhantemente em 1Rs
21.10; Jó 1.5. Em algumas versões essa expressão foi traduzida por “maldiz ou amaldiçoa” interpretando o eufemismo usado
para o termo literal: “abençoar” em seu sentido amplo: “despedir-se de”.
2 Deus, nesse intervalo de tempo, coloca-se distante, permitindo que o tirano ganancioso prospere muito bem às custas dos
pobres. A palavra hebraica  significa “sucesso”. É uma missão dos Salmos tocar no âmago desse problema, conservando
viva a sua dor, em contraste com nossa passividade, familiaridade e, às vezes, triste cumplicidade com um mundo corrupto. É
importante lembrar que Deus é favorável ao progresso, sucesso e a todo o bem-estar humano. Mas esses desejos só serão
legítimos e honestos quando realizados na companhia de Deus, evitando assim a exploração do homem pelo homem. Mas o
soberbo e avarento estão presos às coisas da terra (pó e terra têm muita afinidade) e ocupados demais no chão para dar atenção
à grandiosidade do que paira sobre eles.
SALMOS 10, 11 14

larejos3 e às escondidas massacra o ino-  Tav


cente. 17 Tu, SENHOR, ouves a oração dos neces-
 Ayin sitados; tu lhes fortalecerás o coração e
9 Fica à espreita como leão escondido; atenderás ao seu clamor.
coloca-se de tocaia para apanhar o ne- 18 Defende o que não tem pai e o oprimi-
cessitado; agarra o pobre e o arrasta em do, a fim de que o homem, que é pó, já
sua rede. não provoque o terror.5
10 Ele espreita, se agacha, se encurva, e o
infeliz cai em seu poder.4 Refúgio em Deus
11 Imagina consigo mesmo: “Deus se es- Para o mestre de música. Um salmo de Davi.
queceu; escondeu seu rosto e nunca dará
atenção a isto”.
 Qof
11 No SENHOR eu me refugio. Como
podeis dizer-me: “Foge como um
pássaro para os montes?
12 Levanta-te, SENHOR! Ergue a tua mão, 2 Vê! Os ímpios preparam os seus arcos,
ó Deus! Não te esqueças dos desampara- ajustam com precisão as flechas nas cor-
dos. das, para atirar ocultamente contra os
 Resh retos de coração.
13 Por que o ímpio despreza a Deus, di- 3 Se os fundamentos estão destruídos,
zendo em seu íntimo: “Tu não me pedi- que pode o justo fazer?”
rás contas”? 4 Mas o SENHOR está no seu templo sa-
14 Mas tu vês o sofrimento e a dor; e to- grado, o SENHOR tem seu trono nos céus.
mas esses sentimentos em tuas mãos. O Seus olhos observam tudo; vê atenta-
sofredor se entrega a ti, pois tu és o pro- mente os filhos de Adão.
tetor do órfão. 5 O SENHOR prova o justo, mas o ímpio e
 Shin aqueles que amam a injustiça são odia-
15 Quebras o braço do ímpio e do mal- dos por Ele.
doso, pedes contas de sua crueldade, até 6 Sobre os ímpios Deus fará chover bra-
que dela nada mais seja visto. sas ardentes e enxofre incandescente;
16 O SENHOR reina todos os dias e eter- vento causticante é o que terão.
namente; da sua terra desapareceram os 7 Porquanto justo é o SENHOR, e ama a
outros povos. justiça; os íntegros verão a sua face!1

3 Algumas versões traduzem, neste versículo, a palavra hebraica haçirîm como “juncos”, como em Is 35.7, mas aqui a palavra
correta é  haçerîm, que significa “vilarejos”, “povoados” ou “recinto”. Jerônimo traduziu a expressão hebraica  como
um particípio: “Põe-se de espreita perto das fazendas”. O sentido no original é o de uma raposa que durante a noite se coloca de
tocaia junto ao curral e espera por uma presa.
4 Este versículo mostra as artimanhas que o tirano usa para enganar e devorar suas vítimas, consideradas como pobres,
desamparadas e infelizes em suas mãos. A expressão hebraica qerê, literalmente, “se rebaixa” e, em grego, ketib “rebaixado”,
ilustram o quanto de falsidade e demagogia é usado pelos poderosos para iludir os incautos.
5 Algumas revisões usam a expressão “defendes o órfão” ou “fazes justiça ao órfão”; a expressão no original usa a metáfora
da orfandade, para trazer à luz o desejo de Deus de ser reconhecido, como Pai, pela humanidade. Assim, o homem deixaria
sua condição de simples “criatura de pó e terra” e herdaria as características divinas do seu Pai e Criador. Entretanto, por mais
distante que seja o dia da justiça, a promessa do Pai não é adiada: Ele fortalecerá os corações (v. 17). Os arrogantes e perversos
serão lembrados em sua humana insignificância e não mais causarão terror aos pobres e mais fracos. Esse é o sentido do verbo
hebraico  arots. A graça do Senhor é a nossa força (2Co 12.8-10).
Capítulo 11
1 A expressão hebraica “contemplar a face de Deus” é freqüentemente usada nos Salmos, no sentido de estar em pé ante sua
presença, como servos diante de um Senhor misericordioso e amável, que autoriza seu servo a assumir essa postura. (16.8-11;
17.15; 23.6; Is 38.11). Evidentemente, não há qualquer contradição em relação à impossibilidade de o ser humano ver a face de
Deus (Êx 33.20). Este salmo termina como começou: com o Senhor, cuja natureza é justa, apresentado como a resposta para o
medo e a frustração (v. 3). A primeira frase do salmo revelou onde está a segurança daquele que crê; a última linha mostra onde
deve estar seu coração. Os salmistas podiam ver a Deus com os olhos da alma (ser), e aguardavam o dia da ressurreição, quando
poderiam, então, olhar para a face do Senhor sem que fossem destruídos.
15 SALMOS 12–14

O mundo falso encobrirás de mim tua face?


Para o mestre de música, em oitava. 2 Até quando sofrerei com preocupações e
Um salmo de Davi. tristeza no coração, dia após dia?1Até quan-
12 Socorro, SENHOR! Já não há quem
seja leal; já não é possível confiar
em ninguém entre os seres humanos.
do prevalecerá o inimigo contra mim?
3 Olha para mim e responde, SENHOR,
meu Deus. Renova o brilho da vida nos
2 Cada qual mente ao seu companheiro; meus olhos, caso contrário me entregarei
seus lábios bajuladores falam com se- ao sono da morte;
gundas intenções. 4 e o meu inimigo virá a dizer: “Eu ven-
3 Que o SENHOR golpeie todas as bocas ci”; e os meus adversários festejarão o
fraudulentas e a língua arrogante meu fracasso.
4 dos que proclamam: “Venceremos pelo 5 Contudo, eu confio em teu amor; o
poder do nosso falar; nossos lábios são meu coração se enche de alegria e satis-
como lâminas cortantes! Quem poderá fação em tua salvação.
mandar em nós?” 6 Desejo cantar ao SENHOR por todo o
5 “Por causa da opressão do necessitado bem que me tem feito.2
e do clamor do pobre, agora me levan-
tarei”, diz o SENHOR.“Eu os protegerei e O tolo não crê em Deus
salvarei a quem por isso anseia.”1 Para o mestre de música. Um salmo de Davi.1
6 As palavras do SENHOR são verdadeiras,
são puras como a prata purificada num
forno, sete vezes refinada.
14 Diz o tolo em seu coração: “Deus
não existe”. Todas as suas atitudes
são corruptas e abomináveis: não há um
7 SENHOR, tu nos guardarás seguros, e desse que faça o bem.
tipo de gente nos livrarás para sempre. 2 Dos céus o SENHOR se inclina sobre a
8 Os ímpios vagueiam soberbos por toda humanidade, para ver se há alguém que
parte, quando a corrupção é exaltada na tenha juízo e sabedoria, alguém que bus-
sociedade.2 que a Deus de coração.
3 Todos se desviaram, igualmente se cor-
Oração de livramento romperam; não há ninguém que faça o
Para o mestre de música. Um salmo de Davi. bem, não há um sequer.2
13 Até quando me esquecerás, SE-
NHOR? Para sempre? Até quando
4 Será que os maldosos nunca aprendem?
Eles devoram o meu povo, como se co-

1 No original hebraico, “anseia” é, literalmente, “ofega”. Deus virá em socorro de todo aquele que de todo o coração o busca.
2 Quando as pessoas de um povo (sociedade) começam a valorizar positivamente as atitudes ardilosas e desonestas de ho-
mens maldosos (Jz 9.4), a corrupção se instala como estilo de vida daquela geração e todos passam a viver se enganando, numa
neurose coletiva, em busca de vantagens pessoais. No original, a expressão “vagueiam” sugere um modo, bem público e sem
receio da lei, de perambular pela cidade, com más intenções.
Capítulo 13
1 A palavra hebraica yomam tem o sentido de uma dor que volta dia após dia. Davi, ao repetir quatro vezes “até quando”,
demonstra toda a sua aflição no que diz respeito a seu relacionamento com Deus, com os inimigos e consigo mesmo. No AT “en-
cobrir a tua face” ou “ocultar o rosto” significava a recusa da ajuda prática de Deus. As expressões “olha para mim”, “lembra-te”
ou “desperta-te” não têm a ver com estados de consciência de Deus, mas, sim, são prelúdios à intervenção poderosa do Senhor
na vida de seus filhos (Êx 2.24-25).
2 Por maior que seja uma pressão emocional, tentação ou dor, a escolha de confiar em Deus é do fiel, não do inimigo. A aliança
de amor com Deus deve prevalecer em qualquer aflição. Assim o salmista lembra o pacto de amor de Deus, reafirma sua confiança
nesse amor e passa a concentrar sua atenção, não na qualidade da sua fé, mas no objeto dela – o Senhor – e em seu resultado final:
a vitória. Davi crê de tal forma na providência divina, que a frase em que aparece “todo o bem que me tem feito” tem, no original
hebraico, o sentido de agradecer a Deus por haver concedido muito mais do que o salmista desejava. Davi tem certeza de que ainda
cantará esse louvor a Deus, olhando para trás e contemplando o dia de dores, quando o Senhor ouviu sua oração e o salvou.
Capítulo 14
1 Este salmo é muito semelhante ao 53, no qual o profeta revela um detalhe a mais sobre como Deus protege os justos (53.5);
literalmente: “Pois Deus espalhará os ossos daqueles que se acampam contra ti, tu os confundirás; porque Deus os rejeitou”.
2 O espírito de impiedade se revela de duas maneiras: pelo desrespeito público às leis de Deus (1-3) e pela exploração do Seu
SALMOS 14–16 16

messem pão, e não clamam pelo SENHOR? 4 A seus olhos, o ímpio é desprezível; mas
5 Agora todos estão tomados de terror, por- dedica honra aos que temem o SENHOR.
que Deus está presente a favor dos justos. Mantém a palavra empenhada3 e, mesmo
6 Vós, malfeitores, tentais frustrar a es- saindo prejudicado, não volta atrás;
perança dos humildes, mas o refúgio do 5 não empresta seu dinheiro com usura,4
pobre é o SENHOR. nem aceita suborno contra o inocente.
7 Que a salvação de Israel venha de Sião! Quem assim conduz sua vida caminhará
Quando o SENHOR restaurar o seu povo,3 seguro e em paz.
Jacó exultará e Israel celebrará com grande
alegria! A fidelidade de Deus
Um canto silencioso de Davi.
O homem de Deus
Um salmo de Davi. 16 Defende-me, ó Deus, pois eu me
abrigo em ti.

15 SENHOR, quem poderá hospedar-


se em teu tabernáculo?1 Quem há
de morar no teu santo monte?2
2 Ao SENHOR declaro: “Tu és o meu Se-
nhor; não tenho bem maior além de ti”.1
3 Quanto aos fiéis que há na terra, eles é
2 Aquele que é íntegro em sua conduta que são os notáveis nos quais tenho todo
e pratica a justiça, que de coração fala a o meu prazer.
verdade 4 Muitos serão os sofrimentos dos que
3 e não usa a língua com maledicência, deixam o SENHOR e buscam outros deuses;
que nenhum mal faz a seu semelhante eu não tomarei parte nos seus sacrifícios
nem lança calúnias e afrontas contra seu de sangue, e os meus lábios sequer men-
companheiro. cionarão seus nomes.

povo (4-6). A palavra hebraica para “tolo” ou “insensato” é nābāl  (1Sm 25.25) que, neste salmo, significa um tipo de perversi-
dade violenta, injusta e sem piedade. No NT, Paulo demonstra os malefícios de não se crer em Deus (Rm 1.18-32).
Como na ocasião que precedeu o Dilúvio, Deus observa a raça humana e não vê ninguém que “tenha juízo e sabedoria” em
suas atitudes, tampouco encontra “um que faça o bem”. O sentido original do v.3 indica uma degeneração moral entre os seres
humanos, mais literalmente, um apodrecimento das virtudes divinas que fazem de uma pessoa um ser humano (Rm 3.10-12).
3 A KJ (1611) traz: “Quando o Senhor fizer voltar os cativos do seu povo”. Estudos sobre os melhores e mais antigos originais
reforçam a fidelidade da tradução usada aqui. O apóstolo Paulo nos ensina a orar com a expectativa de redimidos por Deus para
a grande celebração que se aproxima (Rm 8.19-25). No início do Sl 126 há outro exemplo desse antegozo.
Capítulo 15
1 Há duas idéias na palavra tabernáculo: uma, de adoração formal e sacrifício (Êx 29.42), e a outra, demonstrando a generosi-
dade e a hospitalidade de Deus, que aguarda a chegada do peregrino (adorador e hóspede ansioso) a seu lar. Algumas versões
apresentam as palavras “santuário” ou “tenda”, à imagem do antigo santuário do deserto (Êx 23.19).
2 Davi descreve o caráter de uma pessoa qualificada para viver (literalmente: tabernacular) com Deus. As perguntas paralelas e
sinônimas do v.1 são respondidas nos versículos seguintes por uma descrição de onze pontos vitais que distinguem uma pessoa
justa, correta, em ação, palavra, atitude e finanças. Essas qualidades não são naturais no homem (que é pó); são virtudes divinas,
concedidas por Deus.
3 O homem e a mulher de Deus devem orar e refletir no Senhor antes de empenhar sua palavra, sabendo que uma pessoa de
Deus não deve agir como aqueles que, não tendo o Espírito de Deus, tratam levianamente seus compromissos e, muitas vezes,
usam a palavra firmada apenas para enganar e tirar alguma vantagem do seu próximo. Entretanto, ao perceber o erro cometido
em determinado contrato ou palavra afiançada, o fiel a Deus pode corretamente implorar sua desobrigação (Pv 6.1-5), desde que
aceita pela outra parte. No caso de recusa da desobrigação e de impossibilidade de uma renegociação, a palavra dada deverá
ser cumprida (2Co 1.15-23).
4 A Palavra de Deus não desaprova o ato de se receberem juros e correção monetária por dinheiro emprestado (Dt 23.20; Mt
25.27). O que Deus condena é a exploração financeira (usura) do aflito e necessitado, no sentido de tirar proveito das desgraças
do próximo e obter lucro abusivo (Lv 25.35-38; Dt 23.19). O AT proíbe a venda de alimentos, com lucro, para os necessitados. No
contexto da família, o membro em situação difícil deveria ser sustentado por seus parentes até se reerguer financeiramente. Fora
da família, a Lei permitia o ganho de juros moderados, ao mesmo tempo que proibia a extorsão e encorajava a generosidade (Êx
23.9; Lv 19.33-34). Davi vai além neste salmo, e não faz diferença entre um irmão e um desconhecido necessitado.
Capítulo 16
1 Neste cântico de confiança, que deveria ser entoado de forma silenciosa para não provocar a ira dos pagãos que dominavam
Jerusalém na época, Davi declara que assim como confiou no Senhor como sua suficiente porção nesta vida (vv.1-8), da mesma
maneira confiará em Deus para preservá-lo na morte (vv.9-11).
17 SALMOS 16, 17

5 SENHOR, tu és a minha parte na herança 2 Que minha sentença favorável venha da


e o meu cálice; és tu que garantes o meu tua face; vejam os teus olhos onde está a
futuro. justiça!
6 As divisas das terras caíram para mim 3 Podes sondar-me o coração, examinar-
em lugares agradáveis; tenho uma mara- me a consciência durante a noite, provar-
vilhosa herança!2 me com fogo, e iniqüidade alguma encon-
7 Darei louvores ao SENHOR, que me acon- tras em mim; pois minha boca não é falsa
selha; na calada da noite o meu coração diante de ti,
me ensina! 4 como costuma agir a humanidade. Eu
8 Tenho sempre o SENHOR diante de mim. observei a palavra dos teus lábios e evitei
Com Ele à minha direita, não serei aba- o caminho dos maldosos.
lado. 5 Meus passos seguem firmes nas tuas ve-
9 Essa é a razão da alegria que trago no redas; meus pés não escorregam.
coração e, no íntimo, exulto de prazer; e 6 Eu clamo a ti, ó Deus meu, pois tu me
assim meu corpo repousará em paz, por- respondes; inclinas para mim os teus ou-
que tu não me abandonarás nas profun- vidos e ouves a minha oração.
dezas da morte, 7 Demonstra as maravilhas2 do teu amor
10 nem permitirás que o teu santo sofra leal, Tu, que com a tua destra salvas os
decomposição.3 que em Ti buscam refúgio e defesa con-
11 Tu me fizeste conhecer o caminho da tra seus agressores.
vida, a plena felicidade da tua presença e 8 Protege-me como a pupila dos teus
o eterno prazer de estar na tua destra.4 olhos,3 abriga-me à sombra das tuas asas
protetoras,
Oração do oprimido 9 longe dos ímpios que me oprimem, dos
Uma oração de Davi. inimigos mortais que me rodeiam.

17 Ouve, ó SENHOR, meu justo lamen-


to; dá atenção ao meu clamor.
Responde a minha oração, que não pro-
10 Eles enchem seus corações de insen-
sibilidade, e suas bocas transbordam de
arrogância.
cede de lábios mentirosos.1 11 Seguem-me os passos, e já me cercam;

2 Davi expressa que Deus é sua maior e melhor herança e que jamais pensaria em seguir outros deuses, ou em compartilhar
louvores que não fossem dirigidos ao Senhor. Davi lembra que o fato de ter sido deserdado é uma honra e uma indicação de que
ele só depende do Senhor, pois Deus também não dera a seus sacerdotes qualquer porção de terra, assegurando-lhes somente:
“Eu sou a tua porção e a tua herança” (Nm 18.20). A tribo mais favorecida na partilha das fronteiras (divisas) não possuiu herança
mais rica do que a que coube a Davi (Js 19.51; Fl 1.21; 3.8).
3 Davi faz uma alusão messiânica que será mais tarde, no NT, enfatizada pelos apóstolos Pedro e Paulo (At 2.29ss.; 13.34-37).
4 Andar nos caminhos do Senhor é viver em plenitude (25.10; Pv 4.18). A presença de Deus ou “a face do Senhor” são expres-
sões que no original que indicam felicidade total e eterna. Um tipo de gozo que o sistema mundial, sob o qual vivemos, não pode
proporcionar. A palavra hebraica para “alegria” ou “felicidade” (literalmente: alegrias) refere-se a delícias e satisfação (plenitude,
derivada da mesma raiz que “satisfação” em 17.15). O Senhor concede as alegrias da sua face (o significado de presença) e
da sua mão direita (destra). O refugiado do v.1 se vê, agora, herdeiro, e sua herança é maior do que jamais poderia imaginar. A
expressão correta, no final do versículo, é “na tua destra” e não “à sua direita”, pois o sentido, diferente do v.8, é mostrar que da
mão direita (destra) de Deus procedem todas as bênçãos e dádivas (Gn 48.14ss.; Pv 3.16).
Capítulo 17
1 Davi não está afirmando que é um homem sem falhas ou pecados. Está defendendo sua integridade de fé, assim como Deus
defendeu a honestidade espiritual de Jó (Jó 1.8; 42.8). Nem Jó muito menos Davi eram isentos de pecados, mas foram homens
sinceros diante de Deus, que amaram o Senhor de todo o coração e preferiram o Senhor a todos os demais bens da terra. Davi
filtra seus sentimentos e conclui que sua religiosidade não é fingida (1Jo 3.18-21) e por isso apela a Deus para que pronuncie a
sentença favorável.
2 A mesma expressão usada por Deus na repreensão à falta de fé de Sara (Gn 18.14). O fiel não pode esquecer que nada
é impossível (literalmente: maravilhoso) para Deus. O termo “amor leal”, como já foi visto, refere-se à bondade interminável do
Senhor; à fidelidade de Deus a uma aliança feita com um homem que, confiando sua vida nas mãos do Senhor, crê que essa
aliança jamais será quebrada por Ele, mesmo considerando a infidelidade do homem (Os 2.19-20).
3 Pupila ou “a menina dos olhos” é figura de linguagem que, ao lado de outras expressões como “asas protetoras”, demonstra
de forma clara e eloqüente, o quanto Deus é sensível às nossas necessidades, e com que carinho nos protege. Os olhos são
SALMOS 17, 18 18

seus olhos estão fitos em mim, prontos servo do SENHOR. Ele cantou as palavras deste
para derrubar-me. hino de louvor ao SENHOR, quando este o livrou
12 São como um leão ávido pela presa das mãos de todos os seus inimigos e das garras
escolhida, como feras sanguinárias sali- de Saul. Assim se expressou Davi:1
vando pela vítima, na tocaia.
13 Levanta-te, SENHOR! Confronta-os! Arrasa-
os! Com tua espada, livra-me dos ímpios.
18 Eu te amo2 com todo o meu ser, ó
SENHOR, minha força.
2 O SENHOR é o meu penhasco3 e minha
14 Com tua mão, SENHOR, livra-me das pes- fortaleza, quem me liberta é o meu Deus.
soas mundanas, dos homens maldosos des- Nele me abrigo; meu rochedo, meu escu-
ta terra, cuja recompensa está nesta vida. do e o poder que me salva, minha torre
Enche-lhes o ventre de tudo o que lhes re- forte e meu refúgio.
servaste; fartem-se disso os seus filhos, e o 3 O SENHOR seja louvado! Pois clamei a
que sobrar fique para suas crianças de colo. Deus por livramento e estou salvo dos
15 Eu, contudo, graças à tua justiça, verei a meus inimigos.
tua face; quando despertar, terei a plena sa- 4 As cordas da morte me enredaram; as
tisfação de ver tua semelhança em mim.4 torrentes da destruição me aterrorizaram.
5 Os laços do inferno me envolveram,4 e
Deus soberano salvador as ciladas da morte me atingiram.
(2Sm 22.1-51) 6 No meu desespero clamei ao SENHOR;
Para o mestre de música. Um salmo de Davi, gritei por socorro ao meu Deus. Do seu

os órgãos mais sensíveis do corpo humano. A presença de qualquer cisco nos olhos é imediatamente comunicada ao cérebro
que ordena sua pronta remoção. Assim também, qualquer situação que venha a causar preocupação ao servo de Deus é digna
da atenção especial do Senhor, que nos cobre com suas poderosas asas, como a águia protege seus filhotes (Rt 2.12; Sl 36.7;
57.1; 63.7; 91.4).
4 No versículo anterior, Davi diz para Deus que não quer ter nada a ver com os perversos, que só buscam prazeres da carne,
ostentação, vaidade, orgulho e os bens materiais deste mundo (sistema econômico, político, social e religioso). Davi chega ao
ponto de pedir a Deus que dê aos mundanos abundância do que eles mais amam; assim eles naufragarão em sua própria lama.
O fiel de coração, porém, tem prazer no Senhor e nas coisas celestiais. Sabe que suas necessidades materiais serão supridas
diretamente pelo Pai e se alegra com aquele grande dia em que verá o Senhor face a face. Davi sabia que só os semelhantes
podem se comunicar mutuamente (Tt 1.15 com Mt 5.8). Temos a promessa de que o veremos como Ele é e de que seremos
semelhantes a Ele! (1Jo 3.2; 2Co 3.18). Conhecer a face de Deus foi um privilégio de Moisés (Nm 12.6-8; Dt 34.10). Moisés não
viu a face de Deus como num sonho, mas acordado. Assim, os fiéis verão a Deus na ressurreição e desfrutarão desse prazer por
toda a eternidade (Is 26.19; Dn 12.2). A hora do despertar, a aurora, é o momento privilegiado da generosidade divina e simboliza
a salvação (Is 8.20; 9.1; 33.2; Lm 3.22-23; Sf 3.5; Jo 1.4-5; 8.12).
Capítulo 18
1 É importante lembrar que estas notas, impressas em letras menores, logo abaixo do título da maioria dos Salmos, fazem parte do
texto canônico da Bíblia Hebraica (diferentemente das notas marginais acrescentadas pelos massoretas e que não constam na KJ), e
se incluem na numeração dos versículos desta. Quase a metade dos Salmos tem a anotação: ledáwîd (de Davi) e 55 salmos trazem a
expressão: lam-e-natssêah (Ao mestre de música). Em muitos salmos, os versículos no texto hebraico têm sua numeração desencontra-
da em relação aos publicados em nossas Bíblias, devido ao fato de o versículo número 1 ser atribuído a essas notas (como em algumas
edições católicas). O Novo Testamento reafirma a autenticidade bíblica e canônica desses títulos (Mc 12.35-37; At 2.29-34; 13.35-37).
Neste hino de louvor a Deus, por grande vitória alcançada, Davi relata o que o Senhor fez por ele (vv.1-3), relembra o livramento
de Deus (vv.4-19), apresenta o fundamento para o livramento (vv.20-30), relembra uma vez mais a vitória (vv.31-48) e se compro-
mete a viver continuamente louvando a Deus (vv.49-50). Esse cântico também é encontrado em 2Sm 22, tendo sido escrito após
a morte de Saul e o estabelecimento do reino davídico. Como afirmava Calvino, muitas verdades neste salmo aplicam-se melhor
a Jesus Cristo (o Messias) do que a Davi (Rm 15.9).
2 A palavra no original em hebraico racham,  é rara, muito emotiva e expressiva. Significa amar com as mais profundas e
veementes afeições do coração, com a comoção de todas as entranhas (como era na época, a típica forma oriental de se referir
aos sentimentos). Uma tradução literal e antiga: “Eu te amarei com todos os anelos do afeto, ó Jehovah”.
3 A palavra hebraica sela , usada aqui, significa aqueles precipícios íngremes que oferecem refúgio a homens e animais;
onde as abelhas fazem colméias e de onde o mel era coletado em grande abundância (Dt 32.13). Esse é um termo diferente
daquele traduzido nos versículos seguintes por “rocha”, significando “penhasco” ou “rochedo” (1Sm 23.25-28; 24.22), apesar de
essas palavras serem menos comunicativas do que “rocha” para o leitor ocidental nos dias de hoje.
4 Embora Davi fosse rei e, como tal, pudesse falar em nome de seu povo, todo o salmo está no singular para expressar a
emoção da experiência pessoal. Davi foi abençoado porque Deus teve “amor leal a mim”, ou como em algumas traduções “se
19 SALMOS 18

templo Ele ouviu a minha voz; minhas roso, de todos os meus inimigos, muito
súplicas chegaram à sua presença e seus mais fortes do que eu.
ouvidos me deram atenção. 18 Eles me atacaram no dia da minha in-
7 Então, toda a terra estremeceu e agitou- felicidade, mas o SENHOR foi o meu abri-
se5 e os fundamentos dos montes se abala- go e protetor.
ram; tremeram por causa da ira de Deus. 19 Ele me concedeu plena libertação;
8 Das suas narinas subiu fumaça; da sua livrou-me por causa do seu amor leal a
boca saíram brasas vivas e fogo devorador. mim.
9 Ele rompeu os céus e desceu; nuvens 20 O SENHOR me tratou conforme o meu
escuras estavam sob seus pés. justo coração; conforme a honestidade
10 Montou um querubim e voou,6 desli- das minhas mãos, recompensou-me.
zando sobre as asas do vento. 21 Pois tenho andado nos caminhos do
11 Fez das trevas um manto no qual se SENHOR; não tenho agido como ímpio,
ocultou; das nuvens escuras, carregadas afastando-me do meu Deus.
de água, o abrigo que o envolvia. 22 Todos os seus mandamentos estão
12 Com o fulgor da sua presença, as nu- presentes em meu ser; não me desviei
vens se desfizeram em granizo e raios, dos seus decretos e preceitos.
13 quando dos céus trovejou o SENHOR e 23 Tenho sido irrepreensível para com ele
fez ressoar a voz do Altíssimo. e não me permiti praticar qualquer mal.
14 Atirou suas flechas e afugentou meus 24 O SENHOR me recompensou segundo
inimigos, com os seus raios os arrasou. a minha justiça, conforme a pureza que
15 O fundo do mar apareceu e os alicer- seus olhos viram em minhas mãos.
ces da terra foram expostos por causa da 25 Ao fiel e bondoso te revelas fiel e
tua severa repreensão, ó SENHOR, com o bondoso,8 ao irrepreensível te revelas ir-
sopro forte das tuas narinas. repreensível,
16 Das alturas estendeu a mão e me agarrou;7 26 ao puro te revelas puro, mas com o
arrancou-me das águas profundas. perverso reages à altura.
17 Livrou-me do meu adversário pode- 27 Salvas os pobres9 e os que são humil-

agradou” dele (v.19), e não só porque, como monarca, representava seu povo. Vemos Deus movendo o mundo, usando armas
devastadoras contra a morte e as hostes do inferno, por amor a um insignificante ser humano. (Belial, como aparece em algumas
versões, é a palavra registrada no original, mas de difícil tradução, estando ligada sempre à descrição de coisas malignas ou des-
trutivas. Forma sinônimo com as palavras morte e Sheol, sendo ainda um dos nomes de Satanás, em 2Co 6.15). O salmo ensina
que grande é o valor do indivíduo para o Senhor, bem como a dívida da pessoa humana para com seu Deus.
5 Davi utiliza esplendorosamente as metáforas para revelar a teofania (manifestação de Deus) que relembra o grande livramento
do mar Vermelho, por meio do fogo, da nuvem e da separação das águas (v.15), assim como os fenômenos ocorridos no monte Si-
nai, que “tremia violentamente” e “estava coberto de fumaça”, pois Deus “havia descido sobre ele em chamas de fogo” (Êx 19.18).
6 Os versículos anteriores revelaram a ira contra os poderes do mal. A “fumaça”(Is 6.4) dramatiza a reação da santidade do
Senhor diante do pecado, e “narinas”, em hebraico, têm a ver com o “órgão da ira”. O “fogo devorador” (Dt 4.24) representa o
zelo de Deus, e a lista continua enquanto a tempestade se aproxima, escurecendo a terra para o julgamento divino (Ez 10.2). Em
Ez 1.4-14, o temporal com raios e trovões terríveis forma o cenário para o surgimento de seres sobrenaturais que prenunciam a
presença santa e justa do Senhor Deus. Esses “seres viventes” (querubins, conforme Ez 9.3) surgem em contextos que enfatizam
a santidade inviolável de Deus: guardam a árvore da vida (Gn 3.24), o Santo dos Santos (Êx 26.31,33), o propiciatório (Êx 25.18-
22), e carregam o carro-trono sobre o qual Deus cavalgava para exercer julgamento (Ez 1.15-25; 10.1-8).
7 Deus não apenas socorre, busca e segura seus filhos, mas literalmente os “agarra”, não permitindo que nem o mundo nem o
diabo os arranque de Suas amorosas “garras” (Jo 10.28; Rm 8.35). Este salmo é rico em alusões ao êxodo, assim como ocorre
em Jz 5.4-5 e Hc 3.
8 A palavra hebraica hasîd, benignidade, ou “bondoso”, relaciona-se à expressão hesêd “amor fiel” ou “amor leal”, amor em
que se comprometem, fielmente, parceiros de uma aliança e que passou a ser, nos Salmos, um termo que representa os servos
de Deus como “piedosos” e “santos”(50.5).
9 Davi pede a intervenção de Deus em favor dos desprotegidos e necessitados. Eles são as vítimas sociais que freqüentemente
aparecem nos Salmos. A palavra hebraica anî tem o sentido de pobreza material. Neste versículo, Davi refere-se à situação de
desamparo social do povo antes de falar da virtude daqueles que reconhecem sua condição humana (pó e terra) dependente
de Deus (o Espírito da vida).
SALMOS 18, 19 20

des, mas humilhas os soberbos e altivos. quem os livrasse; clamaram até pelo SE-
28 Tu, SENHOR, conservas brilhando a mi- NHOR, mas Ele não lhes respondeu.
nha luz; o meu Deus transforma em luz 42 Eu os reduzi a pó, poeira que o ven-
as minhas trevas. to carrega. Pisei-os como quem pisa na
29 Com a tua ajuda posso atacar uma lama das estradas.
tropa; com o meu Deus posso transpor 43 Tu me livraste de um povo rebelado;
muralhas. fizeste-me o grande chefe das nações; um
30 Este é o Deus cujo caminho é perfeito; povo que não conheci coloca-se ao meu
a palavra do SENHOR é comprovadamente serviço.
verdadeira. Deus é um escudo para todos 44 Assim que me ouvem, me obedecem;
aqueles que nele buscam abrigo. são estrangeiros que se curvam a mim.
31 Pois quem é Deus além do SENHOR?10 E 45 Todos perderam a coragem; enfraque-
quem é a Rocha a não ser o nosso Deus? cidos e apavorados saem dos seus redu-
32 O SENHOR é o Deus que me reveste de tos.
poder e faz o meu caminho perfeito. 46 O SENHOR vive! Bendita a Rocha da
33 Torna os meus pés ágeis como os da minha vida! Exaltado seja Deus, o meu
corça, sustenta-me firme nas alturas. Salvador!
34 Exercita minhas mãos para a batalha e 47 Este é o Deus que pelo meu bem exe-
fortalece meus braços para vergar o arco cutou vingança,11e que faz as nações me
de bronze. servirem.
35 Tu me dás o teu escudo da salvação; 48 Tu me salvaste dos meus inimigos;
tua mão direita me garante a vitória; des- sim, fizeste-me vencer os meus adversá-
ces ao meu encontro para dignificar-me. rios, e dos meus agressores violentos me
36 Aplainaste o meu caminho, para que, livraste.
andando livre, meus tornozelos não se 49 Por isso, eu te bendirei entre todas as
torçam. nações, ó SENHOR; cantarei louvores ao
37 Persegui os meus inimigos e os alcan- teu santo Nome.
cei; e não regressei enquanto não foram 50 Deus dá grandes vitórias ao seu rei; e
destruídos. age por seu Ungido com amor fiel,12 por
38 Arrasei-os, e não conseguiram reer- Davi e por toda a sua descendência, para
guer-se; morreram debaixo dos meus sempre.
pés.
39 Deste-me poder para a batalha; sub- Deus do universo e da alma
jugaste os que me traíram e se voltaram Para o mestre de música. Um salmo de Davi.
contra mim.
40 Colocaste os meus inimigos em fuga e
exterminei os que me odiavam.
19 Os céus revelam a glória de Deus,
o firmamento proclama a obra de
suas mãos.
41 Gritaram por salvação, mas não houve 2 Um dia discursa1 sobre isso a outro dia,

10 Davi se inspira no Cântico de Moisés (Dt 32.4, 31) para exaltar ao Deus Único e Todo-Poderoso: a Rocha (no original he-
braico: sûr).
11 Não é permitido ao fiel se vingar, mas, sim, entregar essa difícil e delicada tarefa a Deus, que o fará com justiça e amor
corretivo pelo ser humano (Dt 32.35; Rm 12.19, 13.4).
12 O apóstolo Paulo cita o v.49 deste salmo como a primeira de uma série de profecias que demonstram que Jesus Cristo veio
para os gentios e não somente para os judeus (Rm 15.8-12). Embora Davi exalte a fama de Javé como conhecida em todo o
mundo, a compreensão integral de suas palavras retrata o Ungido do Senhor, como o próprio Cristo (Messias), louvando a Deus
entre seus irmãos, adoradores gentios. Embora todo rei davídico pudesse apropriar-se destas verdades, este salmo pertencia es-
pecialmente a Davi, de quem era o próprio testemunho, e a Jesus Cristo, seu “descendente” (no original, um substantivo singular
e coletivo ao mesmo tempo) por excelência, assim como era o descendente supremo de Abraão (Gl 3.16).
Capítulo 19
1 Davi usa alguns dos temas preferidos pelos assírio-babilônicos (os astros, os ciclos do sol e da lua) para exaltar o Senhor,
o Criador. Os antigos tinham o costume de “beijar as mãos” em reverência ao sol, à lua e às hostes celestiais (Jó 31.26-27; 2Rs
21 SALMOS 19

e uma noite compartilha conhecimento 9 O temor do SENHOR é puro, e perma-


com outra noite. nece eternamente. As ordenanças4 do SE-
3 Não há termos, não há palavras, ne- NHOR são verdadeiras e todas igualmente
nhuma voz que deles se ouça; justas.
4 entretanto, sua linguagem é transmitida 10 São mais desejáveis do que o ouro,
por toda a terra, e sua mensagem, até aos mais do que muito ouro refinado; são
confins do mundo. Nos céus, Ele armou mais doces do que o mel, do que as gotas
uma tenda para o sol2 do favo.
5 que é como um noivo que sai de seu 11 Por suas ordenanças teu servo é escla-
aposento, como feliz herói, a caminhar recido; e existe grande recompensa em a
em sua jornada. elas obedecer.
6 Parte de uma extremidade dos céus e 12 Quem pode perceber os próprios er-
percorre o seu caminho até o outro ex- ros? Purifica-me dos que ainda não me
tremo; nada escapa ao seu fulgor. são claros.5
7 A lei do SENHOR é perfeita, e revigora 13 Da mesma forma livra o teu servo do
todo o ser. As palavras que vêm do SE- orgulho, para que ele nunca me domine;
NHOR são dignas de confiança, e transfor- então experimentarei a integridade, e se-
mam os mais humildes em sábios.3 rei inocente de grande transgressão.
8 Os preceitos do SENHOR são justos, e 14 Que as palavras da minha boca e o me-
proporcionam alegria ao coração. Os ditar do meu coração sejam aceitáveis6 na
mandamentos do SENHOR são cristalinos tua presença, SENHOR, minha Rocha e meu
e iluminam o entendimento. vingador!

23.5); os modernos tentam compreender personalidade e futuro por meio da astrologia. Mas somente o cristão pode compre-
ender a amplitude da alegria filial que sente, ao olhar para o firmamento e para os astros como criação do seu Pai (Rm 1.18-23;
Rm 1.20). O termo “discursa” sugere, no original, o borbulhar irreprimível de uma fonte. Os capítulos 37 e 38 de Jó desenvolvem
esse tema com lirismo e verdade.
2 Ao falar do movimento do sol, Davi usa expressões igualmente encontradas na mitologia babilônica. Contudo, Davi faz
questão de frisar que, embora magnífico, poderoso e exultante, o sol é obediente ao Senhor, pois Deus posicionou-o no espaço
e indicou a trajetória que deveria cumprir todos os dias (do ponto de vista do poeta e observador); o céu inteiro é apenas uma
“tenda” e trilho para que ele caminhe. E tudo isso é somente “a borda das suas obras” (Jó 26.14).
3 Davi usa o nome revelado de Deus, Javé (o Senhor) sete vezes; antes disso, empregou o nome específico de Deus (em
hebraico, El) apenas uma vez, e no v.1. O famoso filósofo Kant afirmou: “Duas constatações povoam a mente de admiração e
reverência sempre novas e crescentes: os céus estrelados por sobre nós, e o padrão ético e moral escrito em nosso íntimo”.
4 A expressão hebraica mispâtîm significa as decisões judiciais ou ordenanças que o Senhor registrou sobre as várias situ-
ações humanas. A Lei (em hebraico Tôrâ ou Torah) é a vontade revelada de Deus, enquanto edût tem a ver com o aspecto da
verdade atestada pelo próprio Deus (1Jo 5.9) e também com a declaração pactual do Senhor (Êx 25.16; Dt 9.9). “Preceitos” e
“mandamentos” revelam a maneira precisa e fiel com que Deus se dirige à humanidade, enquanto temor e reverência deve ser a
resposta humana à Palavra de Deus.
5 Foi a lei mosaica que estabeleceu certas distinções entre pecados; porém, foram elas também que enfatizaram que nenhum
pecado (tipo, qualidade ou dimensão) seria tolerado diante de Deus. O ser humano tem grande dificuldade para discernir e reco-
nhecer seus erros e pecados; ou porque imagina que ser humano é tentar acertar mediante a prática de muitos erros, ou porque
acha que, tendo chegado a determinada posição de maturidade ética e espiritual, seus erros são irrelevantes, comparados à mo-
ral de nossa sociedade. Porém, a Palavra de Deus revela o coração humano (Lv 18.5) e, por isso, não devemos confiar apenas em
nossas consciências, no que diz respeito à percepção de erros cometidos. Somos culpados diante de Deus não por uma falta ou
duas, mas por incontáveis pecados, os quais nos privam da plena bênção divina. O termo hebraico shegioth, aqui traduzido por
“erros”, além de significar faltas menores, também pode ser compreendido como a astúcia de Satanás em lidar com o egoísmo e
a vaidade humana, a ponto de neutralizar a capacidade de autocrítica das pessoas. Por esse motivo a grande maioria dos homens
não consegue ver “um por cento dos seus erros”, segundo afirmou Calvino. Davi usa o verbo hebraico nakan, oriundo de uma
palavra que significa “ser inocente”, ou seja, Davi reconhece a incapacidade humana de ser justo a ponto de enumerar todas as
suas faltas e confessá-las a Deus, mas suplica que o Senhor lhe revele os pecados cometidos e o “purifique” (torne-o inocente),
especialmente do pecado do orgulho, o qual é a porta de entrada para uma série de calamidades na vida humana.
6 Davi aprendeu que é impossível evitar o pecado, mas sabe que sacrificar a mente e o coração ao Senhor (Os 14.1-2; Rm
12.1-5) é agradável a Ele e a melhor maneira de se afastar da prática do pecado. Deus é visto por Davi não como juiz, pois se o
considerasse simplesmente assim, Davi seria destruído por causa dos seus pecados; mas ele considera o Senhor como “Rocha”
(refúgio, abrigo). E mais que isso, Davi exalta a Deus usando a palavra hebraica go’el, o vingador do sangue (Nm 35.19), redentor
SALMOS 20, 21 22

O dia da angústia 9 SENHOR, concede vitória ao rei; e respon-


Para o mestre de música. Um salmo de Davi. de-nos no dia em que a ti clamamos!
20 Que o SENHOR te responda no dia
da angústia, que o Nome do Deus
de Jacó te proteja!1
O dia da vitória
Para o mestre de música. Um salmo de Davi.
2 Do santuário te envie ajuda e de Sião
te sustenha.
3 Que recorde tuas ofertas de manjares e
21 O rei se alegra na tua força, ó SE-
NHOR! Como é grande a sua felici-
dade pelas vitórias que lhe proporcionas.
aprecie o teu holocausto!2 2 Tu lhe concedeste o desejo do seu co-
(Pausa) ração e não lhe rejeitaste as súplicas dos
4 Que te dê o que teu coração deseja e seus lábios.
realize todos os teus planos! (Pausa)
5 Saudaremos a tua vitória com bra- 3 Tu o recebeste dando-lhe ricas bênçãos,
dos de alegria e ergueremos as nossas e em sua cabeça puseste uma coroa de
bandeiras em Nome do nosso Deus. ouro refinado.
Que o SENHOR atenda a todos os teus 4 Ele te pediu vida, e tu a concedeste, vida
pedidos! longa e dias felizes sem fim.1
6 Agora sei que o SENHOR dará vitória ao 5 Pelas vitórias que lhe deste, grande é a
seu Ungido;3 dos seus santos céus lhe res- sua glória; de esplendor e majestade o
ponde com o poder salvador da sua mão cobriste.
direita. 6 Sim! Tu o constituis como grande bên-
7 Alguns confiam em carros e outros em ção perene e o enches de alegria com a
cavalos,4 mas nós confiamos no Nome tua presença.
do SENHOR, o nosso Deus. 7 Sim! O rei confia no SENHOR: por causa
8 Eles vacilam e caem, nós, porém, nos da lealdade do Altíssimo,2 ele jamais será
levantamos e ficamos de pé. abalado.

e campeão (Lv 25.25, 47-49; Jó 19.25; Jr 50.34; Is 41.14; 43.14; 44.6, 24; 49.7; 59.20). Javé que vinga, salva e tira da morte (das
mãos de Satanás) seus fiéis em todos os povos, tribos e nações (v.4).
Capítulo 20
1 Em Israel não se atribuía ao nome divino nenhuma potência mágica, como era costume de algumas religiões pagãs. Havia o
pacto de Deus com Jacó e sua descendência. Com a bênção sacerdotal de Nm 6.24-27, o Senhor permitiu que seu Nome fosse
colocado sobre os filhos de Israel, para distingui-los com a sua marca de possessão. A essa idéia foi acrescentada a de agirem
em prol de Deus (v.5), é o que fica expresso na declaração de Asa: “Em ti confiamos, e no teu Nome viemos contra a multidão”
(2Cr 14.11). Toda essa carga espiritual e cultural é transportada para o NT (Jo 14.14; 17.6; At 3.6; Ap 3.12).
2 As palavras “santuário” e “Sião” são as mesmas originalmente usadas para a expressão “santidade”, onde a arca de Deus
(mas ainda não seu Templo) significava sua presença (2Sm 6.17). Davi não coloca sua fé na arca, como nos dias de Eli, nem nos
holocaustos (sacrifícios de animais que eram totalmente queimados em louvor a Deus), como nos dias dos profetas, mas sim no
Nome e na Pessoa de Deus.
3 É importante voltar a frisar que a palavra hebraica, aqui traduzida por “Ungido”, significa “Messias” ou “Cristo” (Mt 1.17; Sl
2.2; Êx 29.7; 1Sm 9.16; 16.13) e que também se aplicava a Davi, rei legítimo e sagrado, de quem Deus testificara, pela unção
externa, ser ele o seu escolhido (ungido) para reinar sobre o povo do Senhor. E toda a nação foi testemunha ocular dos mara-
vilhosos feitos de Deus por meio de Davi. Todavia, o Ungido do Senhor, em quem toda a raça humana se personifica é também
chamado de “o fôlego da nossa vida”, “a sombra protetora” (Lm 4.20), “a lâmpada de Israel” (2Sm 21.17) - títulos que prenunciam
o Messias, o Cristo, o Filho de Deus. A própria palavra traduzida por “vitória” (vv.6 e 9), traduz palavras afins, derivadas da raiz
“salvar” (o nome de Jesus).
4 Devemos ter em mente que “carros e cavalos” eram as forças militares mais poderosas da antigüidade, mas que, para Israel,
traziam à memória as intervenções milagrosas de Deus junto ao mar Vermelho e no rio Quisom (Êx 14; Jz 4).
Capítulo 21
1 A expressão hebraica traduzida aqui, e em vários salmos, por “vitórias” é derivada da raiz “salvar” (o nome de Jesus) e quando
usada em contextos de batalha, acrescenta um significado positivo (triunfal) a “salvação”. Algumas versões usam simplesmente
a expressão “salvação”, com isso perdem o aspecto vitorioso da expressão.
2 A lealdade de Deus é comunicada no original pela expressão hebraica hesed (Os 2.19), que significa o amor fiel e inextinguível
de Deus por seus filhos. A expressão Elyon traduzida aqui por “Altíssimo” é um dos nomes de Deus em hebraico e expressa o
poder e a soberania do Senhor Deus.
23 SALMOS 21, 22

8 Tua mão alcançará todos os teus inimi- creram, e não se desapontaram.


gos; tua destra atingirá todos os que te 6 Quanto a mim, sou verme, e não mais
odeiam. um homem, motivo de zombaria do
9 No grande dia em que te manifestares povo, humilhado e desprezado pela hu-
farás deles uma fornalha ardente. O SE- manidade.
NHOR os engolirá em sua ira, o fogo os 7 Ridicularizam-me todos os que me
devorará. vêem; balançando a cabeça e gesticu-
10 Extirparás da terra sua geração, com lando, lançam insultos contra mim, di-
sua descendência, na humanidade. zendo:
11 Embora tramem o mal contra ti e elabo- 8 “Volte-se para o SENHOR! Que Ele o li-
rem ciladas terríveis, nada conseguirão; vre! Salve-o, se é que lhe quer bem!”3
12 pois tu os colocarás em fuga quando 9 Apesar de tudo, foste tu quem me ti-
mirar contra eles o teu arco. raste do ventre e preservaste-me junto ao
13 Exalta-te, SENHOR, na tua força! Nós seio de minha mãe.
cantaremos e tocaremos em teu louvor. 10 Desde o meu nascimento fui consa-
grado a ti; desde o ventre de minha mãe
O salmo da cruz tu és o meu Deus.
Para o mestre de música. Conforme a melodia 11 Não fiques longe de mim, pois a tri-
A Força da Manhã. Um salmo de Davi. bulação está perto e não há quem me

22 Meu Deus! Meu Deus! Por que


me desamparaste?1 Por que estás
tão distante de salvar-me, tão longe dos
ajude.4
12 Muitos bois selvagens me rodeiam;
como touros, os poderosos de Basã5 me
meus gritos de aflição? cercam.
2 Deus meu! Eu clamo de dia, mas não 13 Rugem como leões ferozes e escanca-
respondes; durante a noite, e não recebo ram a boca contra mim.
descanso! 14 Eu me derramo como água, e meus os-
3 Tu, contudo, és o Santo, és Rei, és o lou- sos todos se desconjuntam; meu coração,
vor de Israel.2 como a cera, se derrete dentro de mim.
4 Nossos antepassados confiaram em ti, 15 Meu vigor secou-se como caco de barro,
tiveram fé em ti, e os livraste. e a minha língua gruda no céu da boca; tu
5 Clamaram a ti e foram libertos; em ti me colocas no pó, à beira da morte.

1 A expressão “A Força da Manhã”, no subtítulo, vem do hebraico: ayeleth hashachar. Este é um típico salmo profético-messi-
ânico e um dos mais citados no NT. Jesus Cristo citou esta primeira frase enquanto estava na cruz (Mt 27.46) em aramaico: Eloí,
Eloí, Lemá sabactâni. Em alguns textos, o nome de Deus, Eloí, foi vertido para o hebraico Eli. Quando Jesus tomou sobre si o
pecado de toda a humanidade, sentiu a mais terrível das dores: o afastamento (abandono) do Pai (2Co 5.21), pois Cristo fez-se
maldição em nosso lugar (Gl 3.13).
2 Davi sente a retirada protetora, familiar, da doce comunhão de Deus, enquanto o inimigo se aproxima envolvendo a atmosfera
ao seu redor com toda a sorte de sentimentos angustiantes e aterradores. Contudo, Davi cessa de debater-se em suas próprias
mágoas, remorsos e tristezas, para não se afundar ainda mais numa diabólica melancolia, e busca auxílio na rocha da santidade
de Deus: canto de louvor dos adoradores do Senhor. Em algumas versões da KJ aparece: “entronizado entre os louvores de
Israel” (v.3). O sentido da expressão no original quer revelar o significado interior das instituições visíveis, ou seja, o palácio ou o
trono de Deus não está no Templo, monte ou nação, mas no coração do Seu povo, daqueles que o adoram sinceramente em fé e
prática (Is 66.1-2). Nosso louvor deve ser um trono para Deus e não uma plataforma para a vaidade humana.
3 O argumento filosófico daqueles que não conhecem a Deus é, de fato, sempre equivocado e utilitarista: “se Deus existe, por que
há tanto sofrimento?”, “por que as guerras e a fome?”, “por que os crimes e a violência?”, “por que a tragédia?”. Tais frases revelam
uma humanidade em busca de um “deus de conveniência” para serviços gerais de proteção, conforto e bem-estar. Evidentemente,
devemos combater o mal e buscar a justiça, a começar por nosso próprio coração. É importante salientar que os gestos e as pala-
vras dos vv.7 e 8 foram reproduzidos no Calvário (Mt 27.39,43) mais de mil anos depois de este salmo ter sido escrito.
4 A verdadeira confiança é mãe da segurança. Confiar em Deus é sentir-se seguro, mesmo em meio às mais severas tribula-
ções. Deus é o Senhor do universo, dono de todo ouro e prata e rico em amor por aqueles que nele aprenderam a confiar, seus
adoradores. Sem fé (confiança) no Senhor, qualquer lugar, por mais confortável que pareça ser, será um tormento (Jr 12.5b).
5 Região do norte da Transjordânia, famosa por suas criações de bovinos bem nutridos em suas colinas de pastos verdejantes
(Am 4.1). Basã ou Bashan, em grego, significa “animais gordos”.
SALMOS 22, 23 24

16 Uma multidão de cães me cercou, um na presença dos que o temem.


bando de malfeitores me envolveu!6 Tras- 26 Os pobres se alimentarão até ficarem
passaram7 minhas mãos e meus pés. satisfeitos; louvarão ao SENHOR aqueles
17 Posso contar meus ossos um a um, mas que o buscam: “Que vossa vida seja lon-
as pessoas me encaram com desprezo. ga e próspera!”
18 Dividiram as minhas roupas entre si e 27 Todos os confins da terra se lembra-
lançaram sortes pelas minhas vestes. rão e se converterão ao SENHOR, e todas
19 Tu, porém, ó SENHOR, não fiques lon- as famílias das nações se prostrarão
ge! Força minha, vem depressa em meu diante dele.
auxílio. 28 Pois ao SENHOR pertence o reino: Deus
20 Salva minha vida da espada, livra o governa as nações!
meu ser do ataque dos cães. 29 Todos os ricos e poderosos da ter-
21 Salva-me da boca dos leões e dos chifres ra se fartarão e o adorarão; haverão de
dos búfalos raivosos. Sim, tu me respondes. ajoelhar-se diante de Deus todos os que
22 Vou anunciar teu nome aos meus descem ao pó, até aquele que não pode
irmãos;8 cantar-te-ei louvores no meio da preservar a própria vida.
congregação: 30 Sua descendência a ele servirá; e anun-
23 “Vós que temeis ao SENHOR, louvai-o!” ciará o SENHOR às gerações futuras.
Glorificai-o, todos vós, descendentes de 31 E, a um povo que ainda não nasceu,
Jacó; reverenciai-o, descendência toda de testemunhará seus grandes feitos de
Israel! justiça, pois Deus tudo fez com poder
24 Pois não desprezou nem desdenhou e glória.10
o sofrimento do aflito; não ocultou sua
face do angustiado, mas ouviu seu cla- O bom Pastor
mor por ajuda. Um salmo de Davi.
25 De ti vem o meu louvor na grande
congregação; cumprirei os meus votos9 23 O Senhor é o meu pastor; nada
me falta.1

6 Este é o drama humano: os fortes contra os fracos, muitos contra um só, os maus contra os bons. A turba é retratada como
bestial (touros, bois, búfalos, leões, cachorros) e refere-se à turba humana, quando age com sutileza e falsidade, ou com a
brutalidade do Calvário. O contexto sugere alguns dos motivos pelos quais as pessoas são levadas a tramar o mal contra seus
semelhantes: a inveja (v. 8), a compulsão de agir motivada por um grupo (vv.12,16 ; cf. Êx.23.2), a ganância (v. 18), o gosto per-
vertido (v. 17), ódio e desejos destrutivos influenciados pelo Diabo (Jo 8.44).
7 A Bíblia hebraica cria uma polêmica ao traduzir a palavra caäru (traspassaram) por caäri (como um leão). O Comitê Inter-
nacional de Tradução da KJ para a língua portuguesa entende que no processo de transcrição dos originais a letra yod (‫ )י‬foi
substituída pela letra vav (‫ )ו‬por serem muito semelhantes. Esse pequeno descuido fez que muitos judeus não aceitassem o fato
de este salmo ser uma perfeita profecia da crucificação de Jesus Cristo. Entretanto, as traduções Septuaginta (compilada dois
séculos antes da crucificação), Vulgata, Siríaca, Arábica e Etiópica rejeitam as vogais massoréticas, acrescentadas às consoantes
hebraicas muito tempo depois de Cristo, e apresentam redação semelhante à KJ. Todos os autores dos Evangelhos também
citaram e aplicaram este salmo à crucificação de Jesus.
8 O autor de Hebreus faz referência a este versículo como sendo uma expressão do Messias de que “não se envergonha de
(nos) chamar irmãos” (Hb 2.11,12) e que, portanto, fica entre nós e não somente nas alturas. Em sua festa de ações de graças,
os pobres (humildes) são bem-vindos para se alimentar até ficarem plenamente satisfeitos (v. 26).
9 Davi se refere ao banquete da alegria, na chamada festa votiva. A lei mosaica encorajava aqueles que haviam prometido
algum serviço a Deus, no caso de serem atendidos nas suas orações e súplicas, a cumprirem seu voto com um sacrifício, a ser
seguido por uma festa que poderia durar até dois dias (Lv 7.16). A felicidade do contemplado nunca deveria ser reservada apenas
para si e seus familiares, mas, sim, compartilhada com seus amigos, servos, e especialmente com os levitas e necessitados (po-
bres). Todos comeriam, testemunhariam os feitos de Deus e cantariam salmos diante do Senhor (Dt 12.17-19).
10 Davi tem a visão da pregação da cruz às gerações de mil anos à sua frente. Vê também a grande festa do Senhor, quando
os ricos e poderosos se banquetearão com os pobres e humildes, pois todos serão um em Deus (Is 25.6). O salmo que começou
com um grito de aflição e desespero se encerra com um brado de glória a Deus que “tudo fez”. Uma declaração semelhante ao
clamor do Senhor: “Está consumado!” (Jo 19.30).
Capítulo 23
1 Este é considerado o mais belo e conhecido cântico de confiança de Davi em Deus. Neste salmo não se manifestam queixas
de aflição ou súplicas por livramento. É uma expressão poética e profética de gratidão ao Senhor (Yahweh). Um salmo de plena
25 SALMOS 23

2 Em verdes prados me faz descansar, e 5 Tu prepararás um banquete para mim


para águas tranqüilas me guia em paz.2 na presença dos meus inimigos; me hon-
3 Restaura-me o vigor e conduz-me nos ca- rarás, ungindo minha cabeça com óleo e
minhos da justiça por amor do seu Nome.3 fazendo transbordar o meu cálice.5
4 Ainda que eu ande pelo vale da sombra 6 A felicidade e a misericórdia certamen-
da morte, não temerei mal algum, pois te me acompanharão todos os dias da
tu estás comigo;4 a tua vara e o teu cajado minha vida; e habitarei na Casa do Se-
me protegem. nhor por dias sem fim.6

confiança e visão messiânica, ao mesmo tempo. Davi usa a metáfora preferida dos reis, e a mais compreensível e íntima, para
retratar o Senhor como o supremo Pastor que provê todas as necessidades de suas ovelhas (seu povo, seus filhos) e as protege
e defende. As figuras de linguagem até então usadas (rei, libertador, rocha, escudo) eram apropriadas, porém não transmitiam a
idéia de proximidade pessoal, companheirismo constante e amizade fraterna que a palavra “pastor” revela (Gn 48.15; Is 40.10;
49.10; Jr 17.16; 31.9-10; Ez 34; Sl 80.1; 95.7).
2 Os “verdes prados” eram remansos ou campinas de relvas com pequenas lagoas (em hebraico: , neoth) onde as ovelhas
podiam encontrar refrigério, segurança, paz e repouso (a mesma expressão, em hebraico: , rabats, usada ao descrever a Arca
da Aliança na busca por um lugar de descanso para Israel - Nm 10.33). Deus se coloca como Pastor para mostrar ao mundo que
não trata seu rebanho como um mercenário (Jo 10). Assim como um pai que compreende sua condição altruísta de homem de
família, o Senhor igualmente decidiu viver em família (em rebanho) para cuidar dos seus, por meio de uma relação permanente
de amor e ensino.
3 Em algumas versões aparece a tradução “refrigera-me a alma” no início deste versículo. Entretanto, essa expressão hebraica,
nos melhores e mais confiáveis originais disponíveis, traz o sentido literal de “conversão de todo o ser” ou “renascimento do fiel”.
Pode retratar, ainda, a ovelha desgarrada que é trazida de volta (Is 49.5; 60.1; Os 14.1-2; Jl 2.12 e Hb 2). Por outro lado, “restaura
o vigor” é muito mais do que simples refrigério. Significa a possibilidade de um novo começo de vida (físico ou psicológico Is
58.12; Pv 25.13; Lm 1.11,16,19).
Deus, por zelo (amor) ao seu Nome, nos converterá e transformará em pessoas cujos caminhos serão os do Senhor; e
nossos testemunhos demonstrarão ao mundo o poder e a misericórdia de Yahweh – o único e soberano Senhor do universo
(Ez 36.22-32).
4 Os “verdes prados” e “o vale da sombra da morte” são ambos “caminhos” do Senhor. Esse fato coloca em Deus
a responsabilidade última sobre tudo o que acontece em nossas vidas. Nossos inimigos podem tramar, o Diabo pode
tentar, nós podemos fraquejar, mas só Deus dirige as nossas vidas e permite, ou não, cada um de todos os eventos que
ocorrem conosco, com um propósito soberano, instrutivo e benéfico. Além disso, a presença do Senhor nos livra do pior
dos monstros: o medo. A palavra hebraica salmâwet, cujo significado literal é “sombra da morte”, que ocorre cerca de
20 vezes no AT, tem igualmente o sentido de “escuridão” e de fases críticas na vida, quando não conseguimos enxergar
a saída (Jó 38.17; Jr 2.6; Mt 4.16; Lc 1.79). Nosso Senhor é Deus e também Pastor e companheiro. Sempre que neces-
sário, ele caminha ao nosso lado e não só à nossa frente. O Senhor nos acompanha armado de “vara” (uma espécie de
cassetete carregado à cintura) e de “cajado” (para ajudar a caminhar e para conduzir o rebanho), que eram também arma
e instrumento de controle, pois a disciplina gera confiança e segurança (1Sm 17.35). Em última análise, só o Senhor
pode nos guiar através da morte; todos os demais guias, parentes e amigos recuam ou permanecem, e o viajante tem de
prosseguir sozinho.
5 A metáfora usada ganha tons mais íntimos, deixa de tratar os homens como ovelhas e revela o grande banquete do triunfo
eterno, onde o próprio Senhor é o Anfitrião. No Oriente antigo, um homem que fosse perseguido por seus inimigos precisava
entrar, ou ao menos tocar, na tenda do monarca em quem buscasse refúgio, para estar seguro. Seus inimigos eram obrigados
a deter-se e olhar de fora para dentro, sem nada poder fazer contra o perseguido, agora hóspede, e, portanto, protegido por
seu hospedeiro. Como era costume dos anfitriões mais hospitaleiros, a cabeça do hóspede era ungida (untada, umedecida
com substância oleosa e perfumada) e farta refeição era oferecida (41.9; Gn 31.54; Ob 7). O Anfitrião divino ultrapassa todas as
expectativas de hospitalidade. A refeição assume proporções de banquete, quando ungüentos de alto valor e perfumes suaves
são derramados sobre a cabeça do hóspede ilustre (45.7; 104.15; Êx 24.8-12; 2Sm 12.20; Sl 16.5; Ec 9.8; Dn 10.3; Lc 7.46; 1Jo
2.20). Todas as necessidades são supridas e todos os inimigos afastados, pois o Anfitrião é mais que um hospedeiro; é amigo
do hóspede. O quadro retrata tranqüilidade, segurança e fé em meio às aflições da vida. Um equivalente veterotestamentário
de Rm 8.31-39 ou 2Co 12.9-10.
6 A profecia é muito melhor que a perspectiva de uma grande festa. No mundo do AT, comer e beber na casa de alguém criava
um vínculo de compromisso, amizade e lealdade mútuas. Foi assim em Êx 24.8-12, onde os anciãos de Israel viram a Deus, e
comeram e beberam. O mesmo ocorreu na Última Ceia, quando Jesus anunciou ser aquele o cálice de uma nova Aliança em
seu sangue (1Co 11.25). Somos muito mais que simples convidados para uma festa, ou hóspedes por alguns dias. Deus deseja
conviver conosco por todo o sempre, literalmente “para a duração dos dias” (Mt 22.32). Nesse compromisso, a felicidade e as
misericórdias (amor leal) de Deus acompanham (literalmente: perseguem) os fiéis, assim como Seus juízos perseguem os ímpios
(83.15), hoje e sempre.
SALMOS 24, 25 26

O Rei da Glória e o seu Reino poderoso e valente. Deus forte, o bravo


Um salmo de Davi. das guerras.
24 Do SENHOR é a terra e tudo o que
nela existe, o mundo e os seus ha-
bitantes.1
9 Levantai, ó portas, os vossos frontões;
abram-se, ó antigos portais, para que en-
tre o Rei da Glória!
2 Ele próprio fundou-a sobre os mares e 10 Quem é o Rei da Glória? É o SENHOR
firmou-a sobre os rios.2 dos Exércitos: Ele é o Rei da Glória!4
3 Quem pode subir ao monte do SENHOR?
Quem pode ficar de pé no seu santo lu- Acróstico de súplicas1
gar? Um salmo de Davi.
4 Aquele que tem as mãos limpas e o co-
ração puro, e não se entrega à mentira,
nem age com falsidade.
25 A ti, SENHOR, elevo o meu ser.
            Alef
2 Em ti tenho confiado, ó meu Deus.
5 Este receberá do SENHOR a bênção, e Não permitas que eu seja humilhado,
Deus, o seu Salvador, lhe fará justiça. nem que meus inimigos escarneçam de
6 Estes são aqueles que o buscam, que mim!
procuram a tua face como Jacó, ó Deus.3  Bet
(Pausa) 3 Nenhum dos que acreditam em ti será
7 Levantai, ó portas, os vossos frontões; decepcionado; envergonhados ficarão
abram-se, ó antigos portais, para que en- aqueles que, sem motivo, agem como
tre o Rei da Glória! traidores.2
8 Quem é o Rei da Glória? É o Eterno, o  Guimel

1 Este é um salmo cantado tradicionalmente no Dia da Ascensão, o qual já inspirou grandes obras sacras. Este salmo foi ento-
ado para escoltar a arca, em cânticos, com harpas e alaúdes, de Quiriate-Jearim até o monte Sião (1Cr 13.8), o que, igualmente,
é comemorado nos salmos 68 e 132. Assim como Davi e a arca transformaram a fortaleza dos jebusitas em monte e cidade de
Deus, o Vencedor chegará para possuir a cidade que conquistou. Os salmos cantados naquela ocasião (96 e partes de 105 e 106)
têm a finalidade de exaltar a vinda final e permanente do Senhor (1Cr 16).
2 Esta expressão, no original, é clara e enfática ao dizer que tudo pertence ao Senhor. Ele é o Criador, Fundador, Estabelecedor
e Sustentador do universo; da terra em todos os seus aspectos: frutífera (1.a), habitada (1.b) e sólida (2). A expressão “tudo o
que nela existe” é a mesma palavra traduzida por “plenitude” em outras passagens. As riquezas e fertilidade da terra pertencem
prioritariamente ao Senhor, para santificação e posterior bênção à humanidade (Is 6.3). Os salmos reivindicam o mundo habitado
(1.b), para Deus como Criador (2), Rei e Juiz (9.7-8). O NT revela uma perspectiva ainda mais abrangente (Jo 3.16-17). O Senhor
criou a terra “sobre os mares” (literalmente: “acima dos mares”) como em 8.1, mas a figura poética retrata a terra sólida surgindo
das águas, com alusão a Gn 1.9-10, conforme 2Pe 3.5. No AT as profundezas dos mares relembram a falta de forma da terra (Gn
1.2), a ameaça iminente (46.5) e a falta de paz (Is 57.20). Entretanto, os mares, rios (literalmente: “correntes de águas abaixo”) e
toda a terra seca pertencem ao Senhor e a seu povo (46.2-4; 74.13; 96.10,11).
3 Os limpos de coração estarão em pé diante do trono, louvando ao Senhor (Ap 7.9). “Subir ao monte do Senhor” expressa o
desejo sincero de conhecer a Deus para verdadeiramente adorá-lo em todos os lugares (Gn 13.14; 19.27-28; Is 2.2-3; Mc 9.2). A
bênção do Senhor era compreendida no AT como o sorriso de aprovação de Deus ao caráter do fiel. Essa pessoa tem aceitação,
recebe ajuda divina para viver em retidão, é abençoada na saúde, família e negócios. A maioria dos manuscritos do Texto Masso-
rético registra a expressão: “a tua face, Jacó”. Ocorrendo a haplografia da consoante “” hebraica, a frase fica mais compreensí-
vel: “a tua face como Jacó”, numa referência à bênção e ao encontro de Deus com Jacó, em Peniel (Gn 32.29-30).
4 Os versículos de 7 a 10 falam profeticamente da ascensão de Cristo, o Senhor, depois de sua vitória sobre o pecado e a morte,
e também de seu Reino vindouro, quando sua soberania será reconhecida sobre toda a terra. “Portas” e “Portais” relembram o
regresso da arca a Jerusalém (Êx 15.1-18; Sl 46; 48; 76; 87; 132.8, 14; 68.7,8; Jz 5.4,5; Hc 3.3-7; Is 14.31; Mt 21.1-11) e a entrada
à Nova Jerusalém pelas doze portas (Ap 21.12). A palavra hebraica ‫ראשים‬, rashim, traduzida por “frontões” (cabeças), aparece
em algumas traduções derivadas da Septuaginta, como “príncipes”; mas, o pronome “vossos”, anexado a ela, demonstra que o
sentido mais apropriado e literal é este: que os portões ergam suas cabeças ao Rei da Glória, o Vencedor.
Capítulo 25
1 Neste salmo, Davi suplica ao Senhor proteção, orientação e perdão (vv.1-7), descreve alguns dos atributos de Deus (vv.8-14),
e ora por livramento (vv.15-22). Com pequenas exceções, cada verso deste acróstico (composição poética, muito usada pelos
escritores hebraicos, na qual o conjunto das letras iniciais dos versos forma, verticalmente, palavras ou frases) começa com letras
sucessivas do alfabeto hebraico.
2 Os “inimigos”, sempre presentes nos salmos davídicos, se opõem a Davi ideologicamente, e não apenas pessoalmente. A
27 SALMOS 25

4 Faze-me conhecer, ó SENHOR, os teus ca- 9 Dirige os humildes na justiça e os ins-


minhos, ensina-me a trilhar tua vereda. trui no seu caminho.4
 Dalet  Yud
5 Orienta-me a seguir a tua verdade e 10 Todos os caminhos do SENHOR são
ensina-me a mantê-la, pois tu és o Deus amor e fidelidade para os que obedecem
da minha salvação e a minha esperança aos preceitos da sua aliança.
está em ti todos os dias.3  Kaf
 He 11 Pela honra de teu nome, ó SENHOR,
6 Lembra-te, meu Deus, da tua misericór- perdoa minha grande iniqüidade.
dia e recorda-te da tua graça, que existem  Lamed
desde sempre. 12 Quem é aquele que teme ao SENHOR?
 Zayin Ele lhe ensinará o melhor caminho a se-
7 Não relembres os pecados e desobedi- guir.
ências da minha juventude, lembra-te de  Mem
mim, conforme teu infinito amor. 13 Sua alma viverá em plena felicidade e
 Het seus descendentes herdarão a terra.5
8 Misericordioso e justo é o SENHOR e, por  Nun
isso, aos pecadores reensina seu caminho. 14 A intimidade do SENHOR é para os que
 Tet o temem, aos quais Ele revelará os se-

vitória deles o desmoralizaria, mas principalmente tudo quanto representava: sua convicção de que a humanidade deveria viver
pela ajuda e comunhão de Deus, e não simplesmente por sua natural astúcia. Os versos 20 e 21 ajudam a esclarecer esse tema,
definindo a sinceridade e a retidão como sendo a defesa de Davi e de todo o que crê, virtudes essas consideradas ingênuas por seus
inimigos. Davi ainda confessa que, sem o amor misericordioso de Deus, sua defesa não resistiria às armas mundanas da traição (ci-
lada, armadilha, cf. 15) e do ódio (cf.19, o mesmo de Caim – Gn 4.1-9). Logo, não foram os inimigos que conseguiram ditar as regras
da batalha, mas, sim, o Deus de Davi. Todos aqueles que cantam ou recitam este salmo (poema) proclamam a mesma fé de Davi.
3 Em primeiro lugar, o servo de Deus pede a instrução geral de Deus (v.4: “teus caminhos”, “tua vereda”), após o que suas
faculdades de discernimento serão aperfeiçoadas (Hb 5.14). Esta oração altruísta (não interesseira, nem egoísta) tem algumas
características: 1) Persistência: ao ficar pacientemente alerta pelo “primeiro sinal das mãos do Senhor” nos vv.5, 15 e no Salmo
123.2. Era costume o servo ficar atento às mãos do seu senhor para lhe obedecer prontamente a seus sinais de comando. 2) Peni-
tência: palavra muito usada pela igreja Católica, cujo sentido é reconhecer-se como “pecador” (palavra que, no original hebraico,
identifica aqueles que erram o alvo – v.8), e não como um aluno capaz, aplicado e merecedor. 3) Obediência: a atitude dócil que
se compreende pelas palavras “humilde” e “paciente” (derivadas da expressão hebraica ‘ānāw v.9 e 18.27). 4) Reverência: o
Senhor honra com sua intimidade, graça e misericórdia aqueles que o respeitam (temem – vv.12,14) em amor como Deus – Único
e Soberano – sobre todo o Universo. A palavra hebraica sôd significa: amizade, intimidade, concílio, conselho, como em Jr. 23.18;
Am 3.7. Essa busca de orientação divina é muito diferente das consultas pagãs quanto a destino e futuro (Is 47.13).
4 Davi sabe que não é o tempo que cura uma mente culpada, mas a graça de Deus. Por isso, seu apelo à lembrança da Aliança
não é leviano nem uma forma de escapar ao castigo divino. Davi fala a verdade e pede que o Senhor olhe para a sinceridade do seu
coração. Deus “reensina” os pecadores e “dirige” os humildes, não apenas por sua bondade e misericórdia, mas porque Ele mesmo
é “misericordioso e justo” e deseja reproduzir seu caráter em seus filhos humanos. O salmista revela a manifestação da graça divina,
a qual o Senhor concede àqueles que, sendo subjugados por seu poder e trazidos debaixo de seu jugo, suportam espontaneamente
e se submetem a seu governo. Mas essa docilidade ou mansidão jamais será encontrada no ser humano, até que o coração, que
é naturalmente arrogante, egoísta e presunçoso, seja humilhado e vencido pelo Espírito Santo. Ao empregar, no original, a palavra
hebraica ‫ענדים‬, anavim, que significa: o pobre, infeliz ou aflito, cujo sentido metafórico refere-se àquele que se tornou manso, doce,
paciente e humilde, Davi nos revela as aflições que servem para restringir e subjugar tanto a obstinação da carne quanto a graça da
própria humildade. É Deus quem nos humilha e Ele mesmo é quem nos toma pelas mãos e nos guia por toda a vida.
5 A tradição dos sábios de Israel ensinava que o temor do Senhor produz uma bênção espiritual (a salvação e proteção de
Deus) e uma bênção material (família, terra e os bens), bênçãos cuja duração seria perene, uma vez que a descendência dos
servos de Deus herdaria suas posses na terra e seu testemunho de vida com Deus. Os servos gozariam da companhia do Senhor
na terra e ao longo da eternidade. No NT, o apóstolo Paulo também defende a idéia da plena bênção de Deus (1Tm 4.8), embora
entendendo que nem sempre Deus trata com os servos segundo seus desejos mais imediatos. Quando Deus retrai sua bênção de
seu próprio povo, é porque deseja despertá-los para o senso de sua condição e levá-los a descobrir o quanto se acham afastados
do perfeito amor e temor do Senhor. Entretanto, em comparação com a sociedade mundana em que vivemos e em relação às
pessoas que desprezam a Palavra de Deus, todos os servos são grandemente abençoados e se sentem felizes, visto que, mesmo
em meio a dificuldades financeiras ou nas aflições, sofrimento e dor, jamais perdem a certeza da presença pessoal de Deus e
podem usufruir das consolações e da paz que somente o Espírito Santo pode proporcionar ao salvo.
SALMOS 25, 26 28

gredos da sua aliança.6 22 Ó Deus, liberta Israel de todas as suas


 Samek atribulações!8
15 Os meus olhos estão sempre voltados
para o SENHOR, pois somente Ele livrará Pedido de justiça e livramento
meus pés da cilada. Um salmo de Davi.
 Ayin
16 Volta-te para mim e tem misericórdia de
mim, pois me sinto só e em muita aflição.7
26 Ó SENHOR, sê meu juiz! Pois com
integridade1 tenho caminhado
pela vida afora e não vacilei em minha
 Pê confiança no SENHOR.
17 As angústias do meu coração se multi- 2 Examina-me, SENHOR, e submete-me a
plicaram; liberta-me da minha desolação. provas2; sonda meus sentimentos e mi-
 Tsade nha mente.
18 Olha para minha agonia e sofrimento, 3 Diante dos meus olhos contemplo o
e perdoa todos os meus pecados. teu fiel amor, e continuamente sigo a tua
19 Considera como se multiplicam meus verdade.
inimigos e com que crueldade me odeiam. 4 Não me associo com pessoas falsas3,
 Resh nem caminho com os hipócritas.
20 Protege e salva minha vida! Que eu 5 Detesto a reunião dos malfeitores, e não
não seja envergonhado, pois em ti me me assento com os ímpios.
abrigo! 6 Lavo minhas mãos em sinal de inocên-
 Shin cia e, assim, poderei andar ao redor do
21 Que a sinceridade e a retidão me pre- teu altar, ó SENHOR.4
servem, pois em ti deposito toda a minha 7 Ergo minha voz para cantar hinos de
confiança. gratidão e proclamar todas as tuas ma-
 Tav ravilhas.

6 Davi tinha profetizado que o Senhor seria o mestre dos piedosos e humildes. Os segredos mais íntimos de Deus estão
reservados para os servos fiéis. A Aliança de Deus é seu segredo, mistério e conselho. Ao chamar a Lei de segredo, o Senhor
demonstra que sua doutrina vai muito além da letra e só poderá ser compreendida por quem verdadeiramente amar a Deus –
Único e Soberano - de todo o coração, alma, entendimento e força; e ao próximo como a si mesmo (Dt 6.5; Mc 12.29-31). Para
os perversos, ímpios, arrogantes, e para todos que se aproximam das Escrituras sem verdadeira humildade e temor do Senhor,
o conselho de Deus é como “um livro lacrado” (Is 29.11). As Sagradas Escrituras (os segredos de Deus) foram entregues pelo
Senhor para instrução do seu povo e não apenas para os eruditos. A prerrogativa básica para compreender a Palavra de Deus
não é erudição, mas santidade e amor ao Senhor.
7 A expressão hebraica usada nos originais, ‫יחיר‬, yachid, significa um estado de solidão e desolação. Ou seja, Davi não sentia
falta da companhia de pessoas, sentia falta da presença de Deus. Por isso, sentia-se destruído (desolado); no sentido hebraico:
empobrecido, infeliz.
8 Para Davi, “confiar” é “esperar em Deus”, o que significa “aceitar o tempo e a sabedoria do Senhor”. A fé de Davi está expressa
desde o v.2 e declarada nos vv.5, 8-10 e 14-15. Essa “fé esperançosa” marcava a diferença entre as atitudes de Davi e de Saul diante de
Deus (1Sm 26.10-11; 13.8-14), assim como entre Isaías e o povo de Israel (Is 30.15-18). A palavra originalmente empregada e traduzida
neste salmo, como “confiança” tem a ver com “confiança e zelo” mais do que simples e estática resignação. Ao final do salmo, essa “es-
perança” ainda não foi concretizada, mas Davi continua firme e corajosamente “crendo e esperando”. É por isso que este salmo torna-se
ainda mais relevante para aqueles que aceitam com alegria o encorajamento tranqüilo, certo e seguro, do Senhor, em Is 30.18 e 64.4.
Capítulo 26
1 No original hebraico, o sentido de “integridade” não se refere a isenção absoluta de pecados, erros ou defeitos, mas, sim, à
sinceridade de propósito e a uma certeza de devoção exclusiva e integral ao Senhor (1Rs 9.4).
2 A palavra hebraica ‫צרף‬, tsaraph, significa “pôr à prova”, como o refinador testa seu ouro, dissolvendo-o e fundindo-o. Nesse
sentido ela é usada também no Sl 66.10. Davi sabe que Deus observa o íntimo de cada ser humano e busca os verdadeiros ado-
radores. Por isso pede que o Senhor o veja por dentro e considere seu amor e lealdade. Deus não se comove com cerimônias,
rituais, ladainhas e palavras lisonjeiras. Deus vê “nossos rins e entranhas”, como aparece em algumas traduções mais literais.
Para os antigos hebreus, as entranhas controlavam as decisões, e os rins, os sentimentos mais íntimos e secretos.
3 Como no Sl 1, Davi sabe que as más companhias podem corromper boas pessoas. Por isso se afasta de todos que agem com
falsidade e astúcia fraudulenta. A expressão hebraica ‫נעל־מים‬, naälamim, significa: “encerrados e encobertos pela dissimulação” ou
“aqueles que se camuflam com a falsidade, para praticar o mal”.
4 A lavagem das mãos em solene demonstração de inocência (pureza), em ocasiões especiais, era ordenada pelo ritual mo-
29 SALMOS 26, 27

8 Eu amo, ó SENHOR, a casa em que habitas SENHOR garante a minha existência; o que
e o lugar onde tua glória permanece.5 eu haveria de recear?1
9 Não ceifes minha alma com a dos 2 Quando os perversos, meus inimigos,
ímpios, nem minha vida com a dos avançarem contra mim para dilacerar-
assassinos;6 me, eles é que tropeçarão e cairão por
10 suas mãos executam planos perversos, terra.2
e a prática do suborno lhes é peculiar.7 3 Ainda que um exército me cerque, meu
11 Mas eu vivo em integridade; livra-me e ser não se entregará ao temor; ainda que
tem misericórdia de mim. uma guerra estoure contra mim, mante-
12 Os meus pés estão firmes na verdade; rei minha fé inabalável.
e, perante a grande assembléia, bendirei 4 Um anseio manifestei ao SENHOR, e sua
o SENHOR.8 realização buscarei: que eu possa viver
na casa do SENHOR todos os dias da mi-
Minha luz e salvação nha vida, para contemplar a glória do
Um salmo da Davi. SENHOR e buscar sua orientação no seu

27 O SENHOR é a minha luz e a mi-


nha salvação: a quem temerei? O
templo.
5 Pois no dia da adversidade Ele me pro-

saico, e era comum entre os judeus (Dt 21.6,7). Era usual entre eles antes da oração; e os sacerdotes, em particular, não podiam
realizar qualquer ofício sacro no santuário enquanto não derramassem água limpa do lavatório, lavando suas mãos (Êx 40.30-33).
O termo hebraico original ‫נקיון‬, nikkayon, significa ao mesmo tempo “o ato de limpar algo” e o estado moral de pureza e inocência.
Davi faz uma alusão à prática dos sacerdotes que, quando ofereciam sacrifícios, andavam ao redor do altar; sua intenção era
demonstrar que, como primeiramente lavavam suas mãos e, então, exerciam seu sacro ofício no altar, os sacerdotes sentiam pro-
funda necessidade de pureza pessoal, para poderem se envolver-se no serviço divino. Com esse gesto, Davi igualmente lembra a
Festa dos Tabernáculos, na qual o povo, ao sétimo dia, circundava o altar sete vezes, levando ramos de palmeiras em suas mãos
e cantando hosanas, em memória à queda de Jericó. Cerca de 1000 anos mais tarde, Pilatos repetiria o gesto de “lavar as mãos”,
proclamando-se “inocente do sangue deste justo”. Procurava eximir-se de culpa, diante do povo judeu que clamava pela crucifi-
cação de Jesus Cristo (Mt 27.24), o Cordeiro de Deus sacrificado por nossos pecados e para nossa Salvação (Hb 10.1-14).
5 Davi entra no santuário, como sincero adorador, em busca da comunhão e proteção do Senhor. Os profanos e dissimulados
(falsos), até quando freqüentam assembléias sacras, cometem pecado, pois não vão em busca de perdão e reconciliação com
Deus, mas por interesse pessoal ou conveniência social e política. Algumas traduções mais literais trazem: “a habitação de tua
casa”, o que é um hebraísmo, uma maneira bem hebraica de se referir ao “lugar da tua habitação”. Essa expressão também era
o título dado ao tabernáculo (1Sm 2.29,32) e, posteriormente, ao templo de Salomão (2Cr 36.15). No deserto, a glória de Deus
permanecia visivelmente sobre o tabernáculo (Êx 40.34ss.); no judaísmo essa expressão que significa “habitação” (shekînah),
veio a ser o termo para definir fatos dessa natureza. Mas é em Jo 1.14 que temos a declaração integral da realidade prenunciada
na nuvem e no fogo. A expressão “habitou” ou, mais precisamente, “tabernaculou” nos remete ao Tabernáculo de Deus, que hoje,
somos nós, o Corpo de Cristo, onde o Espírito Santo habita. É impressionante que João tenha escolhido a palavra grega skēnē
(tenda), tão semelhante ao termo hebraico shekînah (habitação), na formação dos verbos usados.
6 A imagem visualizada por Davi é a de um grande ajuntamento (em hebraico: ‫ אסף‬asaph) de tudo o que deve ser destruído,
uma alusão a Abraão, em Gn 18.25, e à parábola do joio, em Mt 13.30. A expressão no original “homens de sangue” (vv.4,5),
aparece em algumas versões como “homens sanguinários”, o que em nossos dias corresponde àqueles por meio dos quais
vidas inocentes são aniquiladas.
7 O termo hebraico ‫זמה‬, zimmah, significa a habilidade em tramar o mal e planos ardilosos. Davi se reporta a Dt 16.19 e admo-
esta especialmente os notáveis da sociedade que, muitas vezes, são os que mais se dão a subornar e a serem subornados. Davi
lamenta que a justiça estivesse exposta à venda e de que tão facilmente pessoas vendessem sua honra e o temor a Deus.
8 A profissão de fé de um homem piedoso: 1) integridade e devoção (v.1). Davi está determinado a persistir no caminho do Senhor;
2) humildade (v.11), ao reconhecer que não poderia ser aceito sem o perdão e o acolhimento divino; 3) confiante certeza (v.12), pois
ninguém implora (v.11b), nem confia (v.1b), em vão. E, assim, o salmo que começou defensivo e apreensivo quanto aos inimigos,
termina com louvor e a alegria de juntar a voz aos companheiros de fé na grande assembléia dos salvos (justificados).
Capítulo 27
1 Nas mãos de Yahweh – O Senhor – estão o nosso passado, presente e futuro. Aquele que o ama, obedecerá à sua Palavra,
terá certeza da sua proteção, e poderá repetir, com coragem, a proclamação do apóstolo Paulo: “...Se Deus é por nós, quem
será contra nós?” (Rm 8.31).
“Luz” é a metáfora que simboliza tudo o que deriva da verdade e do amor, as mais belas virtudes, o poder e a alegria da vitali-
dade. (43.3; Is 5.20; 97.11; 36.9). O poder das forças do mal não é ignorado, mas está subjugado pela “luz de Yahweh” (Javé em
hebraico). Mesmo que nossa vida na terra se extinga, é o Senhor quem garante vida perene à alma fiel.
2 Algumas versões usam os verbos no pretérito, como se Davi estivesse se referindo ao passado. No entanto, essa ênfase é
SALMOS 27 30

tegerá, e estarei abrigado no recôndito teu amparo, ó Deus, meu Salvador!6


do seu tabernáculo. Acima dos altos ro- 10 Ainda que meu pai e minha mãe me
chedos serei colocado em segurança. abandonem, o SENHOR me acolherá.7
6 Então triunfarei sobre os adversários 11 Ensina-me o teu caminho, SENHOR;
que me rodeiam. Em seu tabernáculo guia-me pela vereda dos justos e protege-
oferecerei sacrifícios de triunfo e grati- me dos que me perseguem.8
dão; cantarei e louvarei ao SENHOR.3 12 Não me entregues ao apetite dos
7 Ouve a voz do meu clamor, ó SENHOR; meus adversários, pois são caluniado-
tem piedade de mim e responde às mi- res e se levantam contra mim, bufando
nhas súplicas. crueldade.
8 Meu coração compreendeu o teu man- 13 Eles me fariam desesperar, não fora
damento: “Buscai a minha face”, e por minha fé perseverante de que viverei
tua presença meu ser anela.4 para ver a bondade do SENHOR.
9 Não ocultes de mim a tua face, não me 14 Confia, pois no SENHOR! Assim, forta-
afastes de ti em ira;5 tu tens sido o meu lecerás teu coração, por depositares so-
Advogado. Não me negues tua ajuda, nem mente no SENHOR toda a tua esperança.9

desnecessária, pois o próprio contexto, nos melhores originais, é claro e forte o suficiente. O termo hebraico ‫ קרב‬karab é usado
aqui com o propósito de descrever uma alcatéia de lobos preparando-se e salivando para atacar e devorar a carne de sua presa.
Mas Davi é iluminado pelo Senhor para registrar que os filhos de Deus jamais serão “devorados” pelo inimigo. Ao contrário, a
ênfase “eles é que” reforça a idéia de que Deus nos livrará dos inimigos enquanto os veremos tropeçando em suas próprias
maldades e caindo pelo caminho. O Senhor, além de ser a Luz que nos conduz, é também a fortaleza, o refúgio que rechaça e
aniquila os perseguidores. (Êx 14.19-24; 1Sm 23.26-27; 2Rs 6.15).
3 Davi usa algumas variações da palavra “casa”, como templo (que é a palavra padrão para descrever a residência divina ou
real, cf. 45.15,16), mas isso não significa que o Templo de Salomão já existisse. Essa palavra, bem como “tabernáculo”, emprega-
se por suas associações religiosas e, não, pelos materiais de construção, pois não se podem interpretar as duas palavras literal-
mente. Assim como a expressão “recôndito”, que no original é “caverna do leão” (10.9; 76.2; Am 1.2; 3.8), tabernáculo fala do tipo
de proteção acolhedora com a qual um hóspede era agraciado por um monarca. Davi recorda-se do seu refúgio nas montanhas
e sabe que o Senhor o abençoará com paz ainda maior. Por isso, o oferecimento de ações de graça (2Sm 6.14-17; Sl 18.1-3,
26.6-8). Em latim Sacrificia jubili e, em francês, nas palavras de Calvino, Sacrifice de triomphe. Literalmente em hebraico: “Sacri-
fícios de aclamação e retumbância jubilosa”. Atos que se reportam à Lei - que apontava para as trombetas soando no momento
dos sacrifícios (Nm 10.10), cujo som principal era mais alto, jubiloso e triunfante - chamavam-se precisamente ‫ תרועה‬trughnah ou
truah, que no original hebraico quer dizer “triunfo” (Nm 10.5-7).
4 Segundo os melhores e mais antigos originais hebraicos, a expressão “Buscai a minha face” remete a Am 5.4ss. e significava
“ir consultar a Yahweh” em seu santuário (2 Sm 21.1). Esse termo assumiu um sentido mais geral: “procurar conhecê-lo, viver em
sua santa presença” e servir ao Senhor com sinceridade e fidelidade, apesar das nossas falhas (Dt 4.29; Sl 40.17; 69.7; 105.3).
5 Uma das primeiras características de uma pessoa afastada de Deus é seu estado contínuo e sistemático de ira. A expressão
hebraica original ‫ נטה‬natah traduz um abandono da presença do Senhor, abandono que lança o rebelde num estado de íntima e
constante murmuração, frustração, agonia, desespero e contrariedade irrompendo em manifestações de desprazer e ira. Davi
suplica pela constante companhia do Senhor, a fim de não perder a lucidez e a sabedoria divina para agir na segurança da
verdade, em busca da paz.
6 O sentido do termo hebraico ‫ לף‬leka é ambíguo, uma vez que a letra ‫ל‬, lamed, é freqüentemente usada como preposição “de”
ou “concernente a”. Mas o fato é que Davi está imerso em profunda reflexão sobre a Palavra do Senhor e em verdadeira oração,
que é o diálogo franco e aberto com Deus. A situação triunfante (v.6) está no futuro, na esperança certa de Davi quanto ao socorro
do Senhor. Entretanto, no presente, a realidade parece mostrar um afastamento de Deus. Mas Davi evoca sua confiança no “amor
ajudador” do Senhor, que sempre tomou a iniciativa de “estar ao lado” (em grego, paraklêtos; ou advocatus, em latim) dos seus
filhos, para socorrê-los (Zc 13.9; Jo 14.16).
7 Davi usa uma linguagem forte e hipotética para demonstrar ao Senhor toda a sua confiança no amor leal e misericordioso de
Deus para com seu povo. Não há qualquer evidência de que Davi tivesse sido desprezado por seus pais. Davi expressa que o
amor de Deus vai muito além dos sentimentos humanos e começa onde o amor humano se esgota. Deus não se esquece do seu
povo, assim como uma mãe que amamenta não se esquece do seu bebê (Is 49.15).
8 Davi não se tornou apenas um adorador que busca a presença de Deus (v.8), mas também um seguidor (discípulo) e
peregrino que se compromete a seguir o Caminho, ao longo do qual encontra obstáculos e resistências dos inimigos. Em sua
oração, não pede conforto (o caminho dos justos), mas progresso certo (protege-me dos que me perseguem). Os inimigos estão
representados pelos “que me perseguem” ou “os que me espreitam”, termos que no original hebraico trazem a mesma idéia de
vigilância em relação aos adversários que nos observam com o objetivo de encontrar um motivo para nos destruir (Lc 11.54).
9 O Comitê de Tradução da Bíblia King James optou por uma tradução mais próxima dos originais hebraicos, hoje disponíveis
para estudo dos exegetas. Portanto, os versos 13 e 14 diferem da própria tradução da King James de 1611 que, nesse caso,
31 SALMOS 28

A resposta vem do Senhor medida de suas ações e dá-lhes o que me-


Um salmo de Davi. recem.
28 A ti, ó SENHOR, eu suplico, Ro-
cha minha, não deixes de ouvir
o meu clamor. Pois, se permaneceres
5 Porque não desejam reconhecer os
feitos do SENHOR nem as obras de suas
mãos, Ele os destruirá e jamais permitirá
em silêncio, serei como os que voltam que se reergam.4
ao pó.1 6 Bendito seja o SENHOR, pois atendeu às
2 Ouve a voz das minhas súplicas, quando minhas petições.
clamo a ti por livramento, quando ergo 7 O SENHOR é a minha força e o meu es-
minhas mãos em direção ao Santo dos cudo. Nele confiou meu coração e do
Santos.2 SENHOR recebeu favor. Todo o meu ser
3 Não me juntes aos ímpios e maldo- muito se alegrou, e com meu cântico eu
sos, no castigo que a eles está reservado, o louvarei.5
pois falam como amigos com seus com- 8 O SENHOR é a força do seu povo; Ele é a
panheiros, mas, na realidade, abrigam fortaleza salvadora do seu ungido.6
crueldade no coração.3 9 Salva o teu povo e abençoa a tua he-
4 Retribui-lhes segundo seus feitos, con- rança! Apascenta-os como seu pastor e
forme suas más obras; responde-lhes na conduze-os para sempre.7

assemelha-se à tradução francesa de Calvino, baseada na Septuaginta (tradução grega do AT) na qual a expressão grega άνδρζου
“Sê varonil” ou, como na Vulgata - tradução em latim do AT, Viriliter age “Age como homem”, foi traduzida, em algumas versões
da Bíblia, por “Seja forte”, “Coragem!” ou ainda “Tenha bom ânimo”.
Capítulo 28
1 Davi estaria passando por alguma doença grave. Seu medo não era da morte em si, mas de morrer em meio à zombaria dos
inimigos e à vergonha injusta. Davi precisava da companhia perdoadora e restauradora do Senhor. A expressão “voltam ao pó”
tem a ver com o Seol (Sl 6.5), mas ao mesmo tempo sugere o isolamento das masmorras destinadas aos piores pecadores (Is
14.15-19; Ez 32.27-30). O silêncio de Deus é o pior dos castigos. E a pessoa que anda sobre a terra sem poder conversar com
Deus é como um zumbi (morto-vivo).
2 As mãos erguidas expressam diversos aspectos da oração: aqui o gesto tem a ver com a súplica de um livramento. O Salmo 63.4
expressa o anseio de buscar a Deus; Êx 17.9ss. refere-se à intercessão que roga o poder divino sobre outras pessoas. O apóstolo Paulo,
em 1Tm 2.8, dá instruções para que se levantem mãos “santas” e “em harmonia”. O termo hebraico ‫ דביר‬debir significa a sala interior do
tabernáculo ou do templo, podendo ser também o “lugar santíssimo”, onde se encontrava a arca do concerto. É sugestivo que esse ter-
mo seja derivado de ‫ דבד‬dabar que significa o ato de se expressar por meio de palavras. Ou seja, Deus criou o homem para dialogar com
ele. O ser humano não pode viver sem ouvir o Senhor. Ao mesmo tempo Deus deseja falar com o homem e revelar seus maravilhosos
segredos. O ser humano é convidado a abrir seu coração no Santo dos Santos (lugar santíssimo) e ouvir o coração de Deus. Davi via
no santuário o emblema do pacto de Deus e a graça prometida, exatamente como hoje os cristãos invocam o Senhor Jesus Cristo – que
desceu dos céus para que pudéssemos ser elevados ao Pai – sempre que desejam orar e abrir seus corações a Deus (Jo 14).
3 O verbo hebraico ‫משך‬, mashak, é melhor traduzido, a partir de seu contexto original, por “apreender” ou “apoderar-se de”,
como os soldados se apoderaram de Cristo para crucificá-lo (Jo 19.16). O sentido da palavra “junte” é o de “arrastar juntamente”.
Davi rogava que não fosse confundido e tomado com a multidão dos ímpios pela fúria avassaladora do juízo, pois seu coração era
sincero em seu amor pelo Senhor. A Septuaginta traduz essa expressão para o grego: Mὴ συνελκύση̣ς την ψυχήν μου, “não ajuntes
minha alma com”, e acrescenta: Κίαν μὴ συναπολέλη̣ς με, “e não me destruas juntamente com”. Davi expressa a indignação de
todos os fiéis quanto à injustiça que ainda reina na terra e quanto à convicção de que um dia de juízo torna-se uma necessidade
moral, pelo que devemos “clamar dia e noite”, pois a ira do Senhor já foi despertada (Lc 18.7).
4 Esta expressão também pode ser traduzida de forma mais literal: “que Ele os destrua, e não os edifique”. Essa era uma figura
de linguagem comum entre os hebreus, segundo podemos ver em Malaquias de Edom (literalmente): “eles edificarão, Eu, porém,
demolirei” (Ml 1.4).
5 É comum na literatura hebraica sagrada os profetas alterarem os tempos verbais com o objetivo de enfatizar o cumprimento
das promessas do Senhor. Este versículo obedece aos tempos verbais do hebraico original. Uma demonstração da certeza da
resposta divina (Sl 12.5,6).
6 Davi relembra sua condição de ungido; o escolhido do Senhor. Esse termo é, no original, a base da palavra Messias (con-
ceito que só seria melhor elaborado no NT – Ef.1.3-13) e, por paralelismo (estilo poético dos salmos), se refere ao povo ungido
(escolhido) de Deus.
7 Davi tinha plena consciência de sua missão, desde quando fora ungido por Deus pelas mãos de Samuel. Em diversas ocasiões
as Escrituras atribuem a Davi o título de pastor, mas ele mesmo atribui tal ofício ao Senhor, salvo no caso em que ele é ministro (ser-
vo) de Deus. Foi Calvino quem observou que “A humanidade é pisoteada pelos pés dos reis (governantes), uma vez que a maioria
rejeita e desdenha carregar a cruz de Cristo”. (Veu que la plus grand part rejette et desdaigne de porter le joug de Christ).
SALMOS 29 32

Louvai a majestade de Deus 6 O SENHOR faz o Líbano saltar como be-


Um salmo de Davi. zerro; e o monte Hermom, como cria de
29 Tributai ao SENHOR, vós, filhos dos
poderosos, rendei ao SENHOR gló-
ria e força.1
búfalo.4
7 A voz do SENHOR corta os céus com
raios flamejantes.
2 Tributai ao SENHOR a glória devida ao 8 A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o
seu Nome. Adorai ao SENHOR, por causa SENHOR faz tremer o deserto de Cades.
do esplendor da sua santidade.2 9 A voz do SENHOR faz tremer as corças e
3 A voz do SENHOR ressoa sobre o bramido desnuda os carvalhos nas florestas.5 E no
das águas. O Deus glorioso troveja, o SE- seu templo todos bradam: “Glória!”
NHOR está sobre a vastidão dos mares. 10 Acima do Dilúvio estabeleceu o Eterno
4 A voz do SENHOR expressa força; a voz seu trono. O SENHOR reinará para sem-
do SENHOR é majestosa. pre.
5 A voz do SENHOR quebra os cedros; o 11 O SENHOR concederá força ao seu povo;
SENHOR despedaçou os cedros do Líba- o SENHOR abençoará o seu povo com
no.3 paz.6

1 A palavra hebraica ‫‘ אלים‬ēlîm é plural de ‘ēl, sinônimo de ‘ễlōhîm, Deus. Em certas expressões compostas, ‘ēl significa “poder”
(Gn 31.29; Dt 28.32). A Septuaginta traduziu essa expressão para o grego, primeiramente no caso vocativo   “vós, filhos de
Deus”. As traduções Vulgata, Arábica e Etiópica a seguem literalmente. Jerônimo dá o mesmo sentido em latim Afferte Domino filios
arietum. As paráfrases caldaicas é que traduziram “A assembléia dos anjos, filhos de Deus”, significando anjos de Deus. Entretanto,
neste texto de Davi, não se trata de “anjos” (como ocorre no Sl 8.5,6), mas, sim, de “os poderosos da terra”. Assim, a melhor tradu-
ção para essa expressão é: “vós, filhos dos poderosos”. Davi não está convidando os seres celestiais para adorarem a Deus, pois
isso eles já fazem diuturnamente. Davi, sim, está sendo dirigido por Deus para conclamar os reis e governantes da terra, do mais
nobre ao mais vil, a se humilharem e se renderem em louvor e adoração ao Rei dos Reis e Senhor dos Senhores: Yahweh.
2 A soberba, o orgulho e a arrogância são os grandes obstáculos humanos à verdadeira e plena adoração a Deus – o Criador.
Davi exorta nobres e plebeus a terem a mesma atitude dos anjos, em sua devoção ao Senhor. As palavras “glória” e “santo” são
exatamente as mesmas usadas pelos serafins em Is 6.3 para expressar louvores a Deus: nesta passagem, “santo” se refere ao
que Deus é, e “glória” tem a ver com tudo quanto procede do Senhor. Sua glória como Criador – o Eterno – enche toda a terra,
como cantam os serafins, enquanto a “glória do seu nome” é a revelação explícita de quem Ele é, que é oferecida a seus servos
por meio de suas palavras e grandes feitos. A expressão hebraica ‫“ בהררת‬na beleza da sua santidade” (derivada da expressão ‫הרר‬
“honrar ou magnificar”) é a forma mais literal e tecnicamente correta de dar eloqüência à santidade de Deus.
3 Davi nos apresenta a mais dramática imagem do poder e da majestade de Yahweh – nosso Deus, Soberano e Juiz. O Nome
do Senhor (Yahweh – Javé – Jehovah, em hebraico) é mencionado dezenove vezes, reverenciado em glória e poder sobre todos
os elementos da terra: a natureza e a humanidade. As repetições relembram o estilo de alguns poemas hebraicos da antigüidade,
como o Cântico do Mar (Êx 15), os oráculos de Balaão (Nm 23 e 24) e o Cântico de Débora (Jz 5). Este poema profético de Davi
revela uma terrível tempestade que se levanta do oeste sobre o mar Mediterrâneo, passa por sobre toda a Canaã, desde o Líbano
e o Monte Hermom (Siriom), no extremo norte, a Cades (Cadesh), no extremo sul. Aí Israel permanecera por algum tempo com
Moisés, enquanto peregrinava pelo deserto. Num clímax sereno, os trovões vão desaparecendo e o Senhor surge entronizado,
em julgamento sobre seu mundo, mas também – e principalmente – para ser uma bênção entre aqueles que o amam: seus filhos,
seu povo. Os vv.5 e 6, quando comparados a Is 2.12-17, nos profetizam o Dia do Senhor, quando os “cedros do Líbano” (reis e
poderosos pagãos), bem como todos os arrogantes, ímpios e maldosos e todas as artes e edificações nas quais o ser humano
coloca seu orgulho e louvor, serão aniquilados pelo poder da glória do Senhor. Embora esse quadro sugira o terrível dia do juízo
final, neste salmo o tom dominante é o júbilo do crente, expresso no v.9: “todos bradam: Glória!”
4 Literalmente, em hebraico: “O Eterno os faz saltar como bezerros, os próprios montes do Líbano e Siriom, como filhotes”. Os
sidônios chamavam o monte Hermom de Siriom; os amorreus o chamavam de Senir (Dt 3.9).
5 Algumas versões trazem: “faz as corsas darem à luz”. Entretanto, o termo hebraico original ‫ יחיל‬yachil, às vezes traduzido
como “abortar”, neste caso significa “tremer”. Por outro lado, em aramaico, a expressão tem o sentido de “sacudir os animais da
floresta”. A expressão hebraica transliterada “os carvalhos” difere da expressão “faz darem cria as corças”. Entretanto, as majesto-
sas árvores (como o cedro e o carvalho), simbolizam a arrogância dos inimigos de Deus e do seu povo, e que serão humilhados a
ponto de reconhecer a glória do Senhor (Is 2.13; 10.18,33; 32.19; Jr 21.14; 46.23; Ez 21.2; Zc 11.2). Por isso, a expressão “todos
bradam” foi transliterada do original hebraico como “tudo grita”, enfatizando que “tudo” pertence a Deus. Portanto, Deus requer
um brado de “Glória!”, não apenas ao santuário material, mas principalmente dos “templos vivos” (1Co 3.16-17; 6.19).
6 A palavra hebraica traduzida por “Dilúvio” só aparece nos originais de Gn 6 a 11. Davi escolheu a expressão mais significativa
para mostrar ao mundo de sua época e a todas as gerações futuras: 1) Que o poder e a majestade do Senhor são sobre todas
as potestades: 2) O universo e tudo o que há pertencem ao Senhor. 3) Os ímpios, arrogantes e toda a glória humana serão ani-
quilados. 4) Assim como Deus primeiro julgou o mundo por meio do Dilúvio, mediante o fogo virá o juízo final (2Pe 3.3-10). 5) Os
33 SALMOS 30

A restauração vem do Senhor seus servos,5 e dai graças ao seu santo


Salmo e cântico de Davi para a dedicação da nome.
Casa ao Senhor.1 5 Pois sua fúria dura um só instante,

30 Eu te exalto, ó SENHOR, pois que


me reergueste e não permitiste
que meus inimigos2 escarnecessem de
mas sua misericórdia prolonga-se atra-
vés da vida. O pranto pode durar uma
noite, mas a alegria nasce ao romper do
mim. dia.6
2 SENHOR meu Deus, a ti clamei por livra- 6 Em meio a prosperidade, afirmei: Ja-
mento e tu me curaste.3 mais serei abalado!7
3 Ó SENHOR, tiraste-me4 do fosso da mor- 7 Foste tu, ó SENHOR, que por tua mercê,
te; pouco antes de descer à cova, devol- estabeleceste a minha força como uma
veste-me a vida. montanha; contudo, ao encobrires a tua
4 Cantai louvores ao Senhor, vós que sois face, fiquei aterrorizado.

salvos e fiéis devem bradar: Glória! Pois seremos abençoados com a paz do Senhor para sempre. Veremos o “arco da aliança do
Senhor” nos céus, como os salvos do Dilúvio testemunharam a graça de Deus, cujo sinal se perpetua até nossos dias. O salmo
que começou em Gloria in excelsis termina com in terra pax.
Capítulo 30
1 A expressão original em aramaico aqui traduzida por “Casa” é a mesma utilizada para “templo” ou “palácio” (2Sm 5.11; 6.9-14; 1
Rs 8.63). A tradição judaica aponta para a celebração – ainda hoje vigente – de Hanuká, comemoração da dedicação do altar do tem-
plo: ‫ רביר‬debir “sala interior do templo” ou “lugar santíssimo”. Davi consagra seu palácio real ao Senhor e ensina o povo a consagrar
suas vidas (seus templos) e suas casas ao Senhor. Pois sem ações de graças não existe qualquer uso puro e lícito dos bens que Deus
nos permite possuir por um tempo. Por isso, ao oferecerem as primícias a Deus, reconheciam que estavam oferecendo ao Senhor o
excedente do ano inteiro (essa é a idéia básica do dízimo, melhor compreendida no NT). De igual forma, ao consagrar a Deus suas
habitações, declaravam-se arrendatários de Deus, confessando-se estrangeiros, e que Deus era quem os hospedava e lhes concedia
a moradia. A cerimônia passou a ser levada tão a sério pelo povo de Deus, que uma família só declarava sua residência “consagrada”,
quando se sentia segura para afirmar que aquela “casa” podia ser considerada como um “santuário de Deus”, pois nela reinava
genuína piedade e imaculado culto a Deus – Yahweh. Embora o rigor dessas leis não prevaleça no NT, o apóstolo Paulo nos exorta a
que todas as coisas, as quais Deus nos concede a graça de conquistar, sejam ainda “santificadas pela palavra de Deus e pela oração”
(1Tm 4.4-5). Davi estava exultante pela dupla bênção recebida: havia recebido a restauração da própria vida e a restauração do reino.
Em algumas traduções da Bíblia, bem como no AT em hebraico, este subtítulo é considerado como o primeiro versículo do salmo.
2 Estando debilitado física e psicologicamente, Davi rogava a Deus que seus inimigos não vissem, em sua ruína, motivo para
zombar do poder e do cuidado que o Senhor dispensa aos que nele esperam. De modo semelhante, Ezequias, mais tarde,
buscaria no Senhor forças para que suas esperanças prevalecessem sobre seus inimigos (2Rs 19.3). No NT, o apóstolo Paulo
expressa sua preocupação positiva (At 20.24), e vê o cumprimento da graça do Senhor (2Tm 4.7). Mais importante do que co-
meçar bem é terminar bem.
3 O termo hebraico original ‫ רפא‬rapha significa “curar”, mas seu sentido é ainda mais amplo, podendo ser compreendido
também como “restaurar” ou “recompor”. Algumas vezes é aplicado à “reforma” de uma casa e em outros casos refere-se a um
“livramento” importante. Deus respondeu às orações de Davi e o abençoou com cura física, emocional, e o livrou de todos os seus
inimigos. Por isso Davi conclama todos os fiéis – de todas as épocas – a se unirem num brado de louvor ao Senhor.
4 Davi esteve muito doente, à beira da morte. Ao mesmo tempo foi perseguido cruelmente por seus inimigos que, como lobos,
procuravam destruí-lo e festejar sua derrota com seu próprio sangue. Esta expressão é a mesma usada em Êx 2.10, quando a
filha do faraó dá o nome de Moisés ao filho adotivo, dizendo: “Porque eu o tirei das águas”. Nos originais, em hebraico, o‫דליתני‬
“içar de um poço”. Literalmente seria: “Tu me tens içado para fora de um calabouço”. Davi se viu próximo do Sheol (sepulcro,
profundezas, pó ou lugar dos mortos) Ez 32.18-32; Jó 3.13-19; 10.22; Ec 2.16; Is 5.14; 14.13; 26.19; 38.18-19; Dn 12.1-3; Jn 2.2;
Hc 2.5; Mt 16.18; Jo 9.4; Hb 9.27.
5 O termo hebraico ‫ חסירים‬chasidin significa “mansidão”, mas com freqüência descreve os fiéis e sua adoção celestial, a qual
deve motivá-los à prática do bem em favor do próximo (Mt. 5.45).
6 O termo hebraico transliterado em “indignação” deve ser compreendido ao lado da expressão “pequeno intervalo de tempo”,
demonstrando a cólera ou ira momentânea do Senhor com sua repreensão e correção, severa e amorosa, e nunca desassociada
de sua eterna misericórdia e proteção para com os seus. O NT tornará mais claro esse conceito de “tristeza que produz alegria”
(2Co 4.17; Jo 16.20-22), bem como a correlação entre os problemas agudos, graves, mas passageiros, e o “eterno peso de
glória” (2Co 4.17).
Literalmente: “Ao entardecer, o choro pode chegar para passar uma noite...”.
7 A expressão hebraica ‫ שלוה‬shiluah tem a ver com um tipo de segurança que é fruto da fé nas circunstâncias favoráveis, as
quais podem nos induzir a crer que somos auto-suficientes, esquecendo-nos de nossa dependência constante de Deus. É saudá-
vel desenvolver uma elevada auto-estima e autoconfiança. Entretanto, quando essas virtudes se tornam em arrogância e soberba,
a queda está próxima (Pv 1.32-33; Jr 22.21).
SALMOS 30, 31 34

8 A ti, ó meu Deus8, clamei. Ao SENHOR Fortaleza na angústia


supliquei misericórdia: Um Salmo de Davi. Ao mestre de música.
9 Que proveito haverá em meu sangue,
se me fizeres descer à sepultura? Acaso
louvar-te-á o pó? Poderá ele proclamar a
31 Em ti busquei refúgio, ó SENHOR;
não permitas que eu jamais seja
frustrado. Por tua justiça, abriga-me.1
tua fidelidade?9 2 Inclina para mim teu ouvido e apressa-
10 Ouve, SENHOR, e tem misericórdia de te em resgatar-me. Sê minha Rocha ina-
mim; SENHOR, sê tu o meu socorro. balável, a fortaleza da minha salvação.
11 Converteste o meu pranto em dança; 3 Tu és meu rochedo e a minha fortaleza;
substituíste meu traje de luto por roupas pela honra do teu Nome, conduze-me e
de alegria.10 guia-me.
12 Para que todo o meu ser cante louvores 4 Livra-me da cilada que me armaram,
a ti e não se cale. Ó SENHOR, Deus meu, pois tu és o meu refúgio.
ações de graças te dedicarei por todo o 5 Nas tuas mãos entrego o meu espírito; tu
sempre.11 me resgataste, SENHOR, o Deus verdadeiro.2

8 O termo usado no hebraico original é ‫ יהוה‬Yahweh,Yehovah ou Jehovah. Modernamente os textos judaicos traduzem como
Adonai (Javé) ou Eterno. Calvino traduziu por Dominus.
9 O sangue contém a vida (Gn 9.6; Lv 1.5; Sl 72.14; 106.38), portanto, Davi se refere à possibilidade da sua morte. Alguns
tradutores acham a expressão “proveito” um tanto comercial, mas qualquer sinônimo não poderá fugir ao sentido original de
“prejuízo”. Davi está refletindo sobre seu grave pecado de desobediência direta às ordens de Deus e à Lei, ao promover, em
Israel, um censo com finalidade militar e por vaidade pessoal (Êx 30.12-15; Nm 1.2-4, 47-49; 2Sm 24; 1Cr 21). Deus se enfurece
com a falta de obediência (que em última análise é traição) de Davi a Ele e à Lei, da qual deveria ser fiel guardião e promotor, e
permite que uma epidemia mate cerca de setenta mil israelenses; sendo Davi, como ungido do Senhor, o responsável direto por
essa desolação entre seu povo.
10 Davi cometera muitos erros e pecados, mas não nutria qualquer insensibilidade estóica (impassibilidade diante da dor e
dos infortúnios), como ocorria com os reis pagãos. Ao ver seu povo perecendo por sua causa, Davi prostrou-se e suplicou a
misericórdia e o perdão do Único que poderia socorrê-lo: Yahweh – o Senhor. Davi cobriu-se de cilício (em hebraico: ‫ שק‬sak),
uma pequena túnica feita de crina, lã áspera ou farpas de madeira, que por penitência os antigos usavam sobre a pele, sem
qualquer proteção. Era um sinal público de arrependimento e martírio por um pecado cometido. A tristeza leva o fiel ao arre-
pendimento e à sabedoria (2Co 7.10). Deus se compadeceu de Davi e reconheceu a sinceridade do seu arrependimento; pois
o Senhor não olha as lágrimas, mas vê o coração, e perdoou a Davi. O perdão liberta e promove alegria interior. Davi agora
podia ir ao templo, trocar a roupa de luto e tristeza por vestes de regozijo, fazer novos votos de fidelidade a Deus e oferecer
sacrifícios de louvor e gratidão ao Senhor com cânticos e danças espirituais, conforme a tradição judaica da época (2Sm 6.16;
Sl 26.6-7; 118.27-28).
11 O termo hebraico original ‫ כבור‬kebod significa “glória” e pode também ser usado no sentido abstrato de “plenitude do ser”,
o que no pensamento grego seria “alma” e para nós “coração”: o centro dos sentimentos, num sentido figurado. Os antigos
hebreus criam que o ser humano recebia a “Imago Dei” (Imagem de Deus) dentro de si, e que essa “glória” ia se intensificando e
dominando a natureza humana à medida que a pessoa se consagrasse em devoção a Deus. Davi vencera uma batalha, mas não
a guerra. Outros embates e fraquezas viriam, mas uma certeza permaneceu: a vitória será sempre daquele que, em obediência,
crer no Senhor (Rm 8.28-37).
Capítulo 31
1 Diversos homens de Deus fizeram uso deste salmo: Jeremias escreve suas confissões olhando para o v.13; Jonas faz uso do
v.6, e Jesus faz uso da primeira parte do v.5, suas últimas palavras, ao padecer na cruz do Calvário, cerca de mil anos mais tarde.
O próprio Davi, em sua velhice, começa uma de suas últimas orações, o salmo 71, retomando o conteúdo dos primeiros versos
deste salmo 31. Em algumas cópias gregas, surge a expressão “Liberta-me” que aqui foi traduzida por “abriga-me”, por estar mais
de acordo com os mais antigos e fiéis originais em hebraico. Davi buscou proteção no Senhor e a resposta de Deus é prova de sua
existência e de seu cuidado pessoal para com aqueles que nele crêem. O silêncio de Deus acarretaria a zombaria dos inimigos sobre
seu nome e a destruição de seu servo. Davi não pede porque é inocente ou mereça, mas, sim, porque é redimido (v.5).
2 Depois de presenciar a morte de milhares de pessoas do seu povo, Davi chega ao mais profundo entendimento sobre o que
é viver: é entregar sua força vital (o espírito) nas mãos do Senhor. Davi louva a Deus por seu resgate. A palavra hebraica original
transliterada em pāđâh raras vezes é empregada com respeito a expiação; o sentido mais comum e correto é o de libertação ou
resgate das aflições. O livramento aqui é tão certo como se já tivesse ocorrido (o verbo hebraico está no tempo perfeito, o que
corresponde ao pretérito perfeito em português), ou que os livramentos do passado motivam Davi a esse ato de completa entrega
do seu ser a Yahweh (em hebraico, ‫ – )יהוה‬Deus Único e Verdadeiro (Lv 6.4; 1Rs 14.27; Jr 36.20; Lc 23.46). Davi condena a idolatria
e aponta para o Único capaz de nos livrar das ciladas do inimigo e da morte eterna. Cerca de mil anos mais tarde, Jesus Cristo
repete a expressão de entrega de Davi, diante do seu povo. Agora não eram milhares de pessoas morrendo por causa do pecado
35 SALMOS 31

6 Repudio os que se mantêm em crenças vêem na rua fogem para longe da minha
vãs e enganosas. Eu, porém, confiarei só presença.
no SENHOR!3 12 Sou esquecido por eles como se esti-
7 Exultarei com grande alegria por tua vesse morto; sou considerado como um
misericórdia, pois viste a minha aflição e vaso quebrado.
compreendeste a angústia da minha alma. 13 Ouço muitos murmurando sobre mim;
8 Não me entregaste nas mãos do inimi- o pavor me cerca por todos os lados,6 pois
go, mas aplainaste um caminho para que sei que conspiram contra mim, tramando
meus pés passassem seguros.4 como tirar-me a vida.
9 Tem misericórdia de mim, ó SENHOR! 14 Mas em ti confiei, ó SENHOR, e procla-
Pois o desespero tomou conta da minha mei: “Tu és o meu Deus!”
alma e do meu corpo; os meus olhos se 15 Os meus dias estão em tuas mãos;
consomem em prantos. livra-me dos meus inimigos e daqueles
10 A minha vida tem transcorrido em que me perseguem.7
aflição, em lamentos, meus anos; devi- 16 Faze resplandecer sobre mim a tua
do à culpa, minhas forças se esgotaram e face;8 salva-me por tua benevolência.
meus ossos se enfraqueceram.5 17 Não seja eu decepcionado, pois com fé
11 Por causa da quantidade de inimigos te invoquei; humilhados e sem esperança
que me cercam, tornei-me um escândalo; deixa os ímpios; que calados, fiquem no
para meus vizinhos, objeto de desonra; e túmulo.9
terror, para os meus amigos. Os que me 18 Sejam emudecidos os seus lábios men-

de um ungido do Senhor, mas sim o Ungido de Deus que entregava seu fôlego de vida humana, seu espírito, em sacrifício ao Pai,
para a salvação de milhões e milhões de cristãos, pelos séculos dos séculos. Por isso, Estêvão o invoca para que seja seu refúgio,
ao clamar: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.59).
3 Davi tinha uma convicção inegociável: ele amava ao Senhor de todo o seu coração, e só no Senhor confiava como sendo o
Único e verdadeiro Deus – Criador do universo e da raça humana. Assim como creram Abel, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e
todos os demais profetas e homens de Deus (Hb 11). A expressão hebraica ‫ הבל‬hebel não se refere apenas a adoração a ídolos,
mas também inclui em seu amplo significado, as crenças em teorias fúteis, ilusórias e inverossímeis. Por isso, todos quantos
se deixam influenciar por cultos a ídolos, superstições, benzeduras, astrologia ou amuletos, assim como os animistas, deístas,
heréticos ou agnósticos precisam ouvir a voz de Deus, arrepender-se de seus pecados, e entregar-se ao Senhor (Cl 2.8). Algumas
versões trazem “tu detestas” ou “aborreces”, mas o termo no original hebraico indica que Davi é quem se expressa; “eu rejeito”
ou “eu detesto” podendo ser estas outras traduções plausíveis.
4 O verbo hebraico original, aqui traduzido por “entregaste” era, normalmente, usado para indicar a condenação de alguém à
prisão, contrastando com a liberdade declarada no v.8, o que dá à poesia hebraica beleza e significado ainda maiores. Deus usa
seu poder para amorosamente escutar o íntimo (alma) de cada um de nós, e nos responde segundo sua misericórdia infinita e
seu plano maravilhoso para cada indivíduo, por quem ele anseia ser chamado de Abba (papai ou pai querido, em aramaico Êx
3.6; Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6).
5 A expressão hebraica ‫ עון‬on tem um significado amplo e curioso para a cultura ocidental: tanto pode significar “pecado” como
castigo – especialmente na forma de culpa – que advém do erro cometido e persegue renitentemente o culpado, aterrorizando
sua mente, chegando a provocar depressões profundas e diversas reações psicossomáticas (cefaléias, dores musculares, diabe-
tes, alergias, bronquites, úlceras e até cânceres). Além disso, a forma hebraica usada aqui (‫ )וןע‬significa a “aflição” do remorso que
a iniqüidade (extrema injustiça) sempre produz (Gn 4.13; 1Sm 28.10; 2Rs 7.9; Is 53.6-11). Ocorre que não era Deus quem estava
condenando Davi, mas, sim, ele mesmo (a consciência), os homens (inimigos), e o diabo (o Inimigo), nossos maiores acusado-
res. Ao tirar os olhos do perdão de Deus, veremos um exército pronto a nos fuzilar. Jeremias conhecia esse assédio perverso (Jr
6.25; 20.3-10; 46.5; 49.29; Lm 2.22), a que chamou de “terror de todos os lados”.
6 A expressão hebraica “Magor- Missabib” (Terror-por-todos-os-lados) foi o mesmo nome que Jeremias deu a Pasur, o sacerdote
que havia mandado açoitar o profeta, significando que “ele seria terrível para si e para todos os seus amigos” (Jr 20.1-4).
7 Em meio aos rumores de morte e às ciladas dos inimigos, Davi recorre à sua mais poderosa arma: sua fé absoluta em Yahweh
– Nosso Único e Poderoso Deus. E afirma sua convicção no livramento do Senhor conjugando, no original hebraico, o futuro,
como se passado fora. Além disso, Davi enfatiza a soberania de Deus e sua intimidade e dependência do Senhor para viver cada
dia, antes de expressar suas petições.
8 Davi recorre à Palavra de Deus, como todos nós deveríamos proceder – especialmente em meio às tribulações da vida – e
suplica a bênção do Senhor (Nm 6.25), que se tornou marca e tradição do povo de Deus. Essa expressão hebraica traz, em seu
sentido original, a idéia de: “Senhor, mostra tua misericórdia e generosidade para com teu servo”.
9 Davi suplica que o Senhor demonstre, uma vez mais, que a fé daqueles que confiam em Deus não é vã; ao contrário dos
SALMOS 31, 32 36

tirosos, pois com arrogância e desprezo 23 Amai o SENHOR, vós todos os seus fiéis.
desonram os justos. O SENHOR defende os leais, mas aos arro-
19 Imensa é a misericórdia que destinas gantes retribui com largueza.12
àqueles que te temem e que, à vista de 24 Sede fortes e corajosos; Ele fortalecerá
todos, dispensas aos que em ti buscam o vosso ser, vós todos os que confiam e
refúgio. esperam no SENHOR!13
20 No recôndito da tua presença os abri-
gas das intrigas dos soberbos; na tua ha- O perdão que restaura
bitação, os proteges das línguas maledi- Um salmo didático de Davi.1
centes.
21 Bendito seja o SENHOR que me fez
conhecer sua misericórdia e lealdade
32 Bem-aventurado aquele que tem
suas transgressões perdoadas e
seus pecados apagados!
quando eu estava em uma cidade cer- 2 Como é feliz aquele a quem o SENHOR
cada.10 não considera iníquo e em cuja alma não
22 Em meu desespero, pensei: Fui excluí- há hipocrisia!2
do da tua presença! Contudo, tu ouviste 3 Enquanto mantive meus pecados in-
as minhas súplicas quando clamei por confessos, meu ossos se definhavam e
teu socorro.11 minha alma se agitava em angústia.3

caluniadores e ímpios, cuja astúcia e crueldade os conduzirá para o silêncio do Sheol (expressão hebraica para morte, túmulo,
sepulcro ou volta ao pó) e à completa falta de esperança. Os incrédulos e faladores serão obrigados a se calar diante da justiça
e do poder do Senhor – nosso salvador.
10 Davi exalta a proteção que o Senhor concede a seus fiéis, realizando seus feitos em público (“diante dos filhos dos homens”,
como traduziu Calvino). Por isso, com esse eulogium (louvor, em latim), o salmista proclama o poder da divina providência,
porquanto ela é suficiente para eliminar todos os males e promover o livramento e a justiça; enquanto brilha sobre os piedosos,
concedendo alívio, consolo e vitória, ela cega, cala e debilita as mãos dos perversos. A expressão hebraica ‫ ריבסים‬rikasim indica
que as pessoas perversas e malévolas são antes de tudo “soberbas”, pensam sobre si mesmas muito além do que convém e, por
isso, se julgam merecedoras do serviço e louvor dos mais humildes (v.20). Aos fiéis, entretanto, o Senhor os guarda, protegidos,
em seu recôndito; “seu mais oculto” ou “à sombra da tua presença”, como em alguns textos hebraicos.
11 A expressão hebraica ‫ חפז‬chaphaz, traduzida em algumas versões por “pressa” ou “espanto”, realmente tem um significado
mais amplo, refletindo o estado de ansiedade, pânico e desespero que conturbava o equilíbrio psicológico de Davi naquele
momento, assim como já havia ocorrido outras vezes (116.11). O termo hebraico ‫ אבן‬aken deve ser entendido aqui como palavra
adversativa, “todavia” ou “não obstante”, a fim de mostrar que apesar dos maus pensamentos e sentimentos de deserção, com
os quais todos nós somos tentados, a graça e a imensurável bondade do Senhor trouxeram Davi à sensatez da fé, venceram a
incredulidade, e moveram sua alma a conclamar seu povo para confiar em Deus e adorá-Lo.
12 A expressão hebraica original ‫ על־יתר‬al-yether aparece em algumas versões com o sentido de “dar ao ímpio o que ele me-
rece”. Entretanto, a expressão tem um sentido mais complexo e abrangente, mostrando que a justiça de Deus é extremamente
severa para com o incrédulo, podendo estender-se a seus filhos e netos.
13 Esta é uma tradução mais significativa do ponto de vista do conteúdo dos melhores originais hebraicos. Estamos diante
de uma garantia de ajuda e companheirismo de Deus, se tivermos a ousadia (coragem) de aceitar o convite do Senhor, em vez
de uma dupla exortação, como aparece em algumas versões. De qualquer forma, não se trata de uma promessa de pôr fim aos
problemas, mas de conceder capacidade para vencê-los (Lc 22.42,43).
Capítulo 32
1 Este salmo é uma seqüência do Salmo 51, e são chamados de “salmos penitenciais”. Neles Davi confessa seus pecados
cometidos a partir do momento em que se permitiu tentar e seduzir pelos encantos físicos de Bate-Seba. A expressão hebraica
 maskil, traduzida aqui como “didático”, significa um poema contemplativo e pedagógico, em que as duas partes (vv.1-7 e
8-11) de ritmo diferente se respondem. Tendo experimentado, no corpo e na alma, quão severa é a correção (o peso da mão divi-
na) do Senhor contra aqueles que fazem o que não é justo diante de Deus, proclama seu aprendizado: estar em íntima comunhão
com Deus é a verdadeira felicidade. Davi descreve a bênção do perdão do Senhor, que restaura plenamente o fiel, e que se seguiu
à disciplina e à confissão (vv.1-5); depois anima outros a buscarem o livramento divino em vez de teimosamente se recusarem a
segui-lo (vv.6-10), exortando-os, finalmente, a se alegrarem no Senhor (v.11).
2 No NT, o apóstolo Paulo fará uso deste texto para mostrar que a justiça em nós criada, não vem de nós mesmos, mas é uma
dádiva de Deus, concedida aos fiéis (Rm 4.6-8). Somente pela fé no Senhor, é possível apropriar-se da justificação e, portanto,
sentir-se plenamente restaurado (Gn 15.6). A expressão “alma” ou “espírito” traduz o sentido hebraico antigo de “entranhas” ou
“íntimo dos sentimentos e decisões humanas”.
3 O reconhecimento do erro, com a devida e sincera confissão ao Senhor, e o forte propósito de se afastar dele, incluindo,
quando possível, restituição do prejuízo causado, fazem parte de um processo terapêutico que conduz o pecador a libertação
37 SALMOS 32, 33

4 Pois dia e noite a tua mão pesava sobre no caminho a seguir; os meus olhos esta-
mim e minhas forças se desvaneceram rão sobre ti para aconselhar-te.
como a seiva em tempo de seca.4 9 Não sejais como o cavalo ou a mula,
Pausa que não possuem compreensão, mas
5 Confessei-te o meu pecado, reconhe- precisam ser controlados com o uso de
cendo minha iniqüidade, e não encobri as freios e rédeas, caso contrário não pode-
minhas culpas. Então declarei: Confessa- riam obedecer.
rei minhas transgressões para o SENHOR, e 10 Muitos são os sofrimentos do ímpio,
tu perdoaste a culpa dos meus pecados. mas a bondade do SENHOR protegerá
Pausa quem nele confia.
6 Dessa maneira, todos os que têm fé 11 Alegrai-vos no SENHOR, ó justos, e can-
orem a ti, enquanto podes ser encontra- tai bem alto, vós todos que sois retos de
do; quando as muitas águas se levanta- coração!7
rem, elas não os alcançarão.5
7 Tu és o meu abrigo seguro; tu me livras Louvai o Criador do Universo
das aflições e com cânticos de salvação
me envolves.6
Pausa
33 Ó justos, exultai no SENHOR! O de-
sejo dos retos é louvar a Deus.1
2 Celebrai ao SENHOR com harpa, ofere-
8 Diz o SENHOR: Instruir-te-ei e te guiarei cei-lhe música com lira de dez cordas.

e felicidade plenas. O verbo hebraico ‫חרש‬, na conjugação hiphil, significa: ponderar, considerar, estar em profunda meditação
e preocupação. No texto, seu sentido não é o de “cobrir” ou “calar”, como aparece em algumas versões, mas, sim, o de “não
confessar” ou “não declarar” ao Senhor – com genuíno arrependimento – os erros (pecados) cometidos. Em 1Co 11.30, o após-
tolo Paulo esclarece sobre o auto-exame das consciências diante de Deus, antes de se participar da comunhão dos fiéis. Muitas
doenças são fruto de consciências pesadas e em falta diante do Senhor, cuja cura estaria na confissão a Deus e na comunhão
com os irmãos de fé.
4 As expressões hebraicas transliteradas em lesaday “um feixe de palha ou um campo” e leshaddi “minha seiva” formam um
jogo de palavras poéticas de difícil decifração. Tanto que Jerônimo traduziu por: “revolvi-me em minha miséria enquanto se
inflamava a ceifa”.
O texto siríaco apresenta uma boa tradução: “minha dor se revolveu em meu peito até aniquilar-me”. Em aramaico: “minha
seiva se alterava com o ardor da seca”.
5 Davi se refere ao tempo da Graça, ou seja, hoje. Haverá um tempo em que a Graça do Senhor será recolhida da terra e, nesse
dia, não haverá mais possibilidade de se falar com Deus por meio da oração com a certeza de que ele está pronto para ouvir com
misericórdia e perdão (Is 55.6-7). Na versão Septuaginta (o AT em grego), a tradução é: “No tempo de achar favor”; na Arábica,
“Numa época de se ouvir”; e na Siríaca, “Num tempo aceitável”. A expressão “as muitas águas” tem a ver com a lembrança do
grande juízo do dilúvio e se refere a todos os perigos e sofrimentos dos quais parece não haver qualquer possibilidade de escape.
Entretanto, para aquele que coloca toda a sua confiança (fé) no Senhor – Yahweh, permanece a profecia de Joel: “E ocorrerá que
todo aquele que clamar o nome do Senhor será salvo” (Jl 2.32).
6 Os salmos de Davi são recitados até hoje nas casas judaicas e nas sinagogas em todo o mundo. Alguns judeus costumam ler
todo o livro uma vez por semana, outros completam a leitura e recitação em um mês. Este versículo é assim transliterado: Ata séter
li mitsar titserêni, ranê falet tessovevêni sêla. Como já foi explicado, o termo sêla ou selá foi traduzido como Pausa.
7 Davi confessou seus pecados ao Senhor e, tendo sido perdoado pelas misericórdias de Deus (1Jo 1.9), agora retoma sua
posição de rei e profeta ungido. Nos melhores textos hebraicos, aparece a tradicional intervenção do Senhor, quando fala por
meio do profeta: “Diz o Senhor:”(v.8), para todos nós, pois no texto original as instruções do Senhor estão no plural (v.9). Somos
exortados a cultivar uma alma (espírito) capaz de aprender e adquirir sabedoria. Se o perdão é bom, a comunhão é melhor. Se
já sentimos o “peso da mão” do Senhor, é melhor valorizarmos seu toque mais suave e seus conselhos. Somos convidados a
uma cooperação inteligente e amiga com Deus (Jo 15.15). Por mais que se adestre um cavalo, jamais se poderá ensiná-lo a
refletir sobre um conselho dado. Por isso, as expressões hebraicas ‫( רשע‬atitude indomável e impensada) e ‫( בטח‬atitude dócil e
reflexiva) são usadas em bela oposição poética para ilustrar o contraste dos irracionais em relação aos sábios. Cavalos e mulas
só aprendem a obedecer em função de pressões e condicionamentos físicos (Jr 8.6). Mas todos aqueles que amam o Senhor
com sinceridade podem bradar de alegria, expressando na adoração os cantos de livramento, já antecipados pelo salmista, em
meio à aflição (v.7).
Capítulo 33
1 Não há indicação de autoria neste salmo. Entretanto, a convocação inicial retoma a nota com a qual terminou o salmo anterior:
“exultai”, é da mesma raiz que “cânticos de salvação” e “cantai bem alto” (32.7,11). O termo hebraico ‫ אוה‬avah significa “querer”
ou “desejar”. Embora algumas versões o tenham traduzido por “ficar bem”, o sentido mais fiel da expressão original é mostrar que
os fiéis sentem naturalmente um forte desejo de louvar a Deus por meio de poemas, hinos e cânticos; notadamente em voz alta
SALMOS 33 38

3 Entoai-lhe um cântico novo, tocai com para sempre, os projetos do seu coração
arte e júbilo na ovação.2 por todas as gerações.
4 Porque a Palavra do SENHOR é verdadei- 12 Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR, o
ra; Ele é fiel em tudo o que realiza. povo que Ele escolheu para lhe pertencer!
5 Ele ama a justiça e o direito; a terra está 13 O SENHOR olha dos céus e observa toda
repleta da bondade do SENHOR.3 a humanidade;
6 Os céus foram criados mediante a pala- 14 do seu trono Ele contempla todos os
vra do SENHOR, e todos os corpos celestes, habitantes da terra;
pelo sopro de sua boca.4 15 Ele que forma o coração de todos, que
7 Ele recolhe as águas do mar num vaso, e conhece tudo o que fazem.
dos abismos faz reservatórios.5 16 Não há um monarca que se salve com
8 Toda a terra tema o SENHOR; tremam dian- a força dos seus exércitos; nem o guerrei-
te dele todos os habitantes do mundo. ro mais poderoso pode se livrar.
9 Pois ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou, 17 O cavalo é ilusão de livramento, e todo
e tudo surgiu. o seu vigor não ajuda a escapar.
10 O SENHOR desfaz os planos das nações 18 Eis que os olhos do SENHOR estão sobre
e frustra os intentos dos povos.6 os que o temem, sobre os que firmam
11 Mas os planos do SENHOR permanecem toda a esperança em suas misericórdias,

e com muita alegria espiritual. Os anjos são mestres nesse mister. Enquanto, no verso 3 o verbo “entoai” reflete com propriedade
os gritos de aclamação ao Rei (Nm 23.21), pede, também, três qualidades raramente encontradas juntas em músicas religiosas:
originalidade, perícia e santo fervor.
2 Quanto mais os fiéis são dedicados a fazer a vontade de Deus, mais belo e eloqüente é o louvor que produzem. A expressão
hebraica ‫ היטיב‬heytib é uma convocação a que se cante com força e harmonia; alto e afinado. Esse termo tem origem nos gritos de
guerra do passado (Êx 32.17; Js 6.5; Jz 7.20-21; 1Sm 17.20,52; Jr 4.19; 49.2; Os 5.8; Am 1.14). Era uma saudação a Yahweh – o
Senhor, como Rei e Comandante da guerra (Nm 23.21; Sf 1.14; cf. 1Sm 10.24), e à arca sagrada, seu baluarte (1Sm 4.5; 2Sm
6.15). Depois do Exílio esse “grito ritual” (ovação ou aclamação) toma um sentido cultural e litúrgico; ele exalta Yahweh, Rei de
Israel e dos gentios (Sl 47.2,6; 89.16; 95.1; 98.4,6), o Salvador (Is 44.23) e o Juiz (Jl 2.1), bem como seu Messias (Zc 9.9). Esse
brado de louvor é lançado nos dias de festa (Ed 3.11, cf. Jó 38.7), nos sacrifícios de ação de graças (Sl 27.6; 100.1; Jó 33.26) e
nas liturgias (Sl 95.1,2; 100.1 cf. Nm 10.5).
3 Os versículos 4 e 5 são o coração deste salmo: Deus é fidedigno em todas as suas palavras e obras, caracterizadas por
retidão, justiça e graça. O sofrimento e a injustiça que ainda cobrem a terra não provêm de Deus, são frutos de desobediência,
ignorância, arrogância e avareza humanas, insufladas pelos ideais destrutivos e perversos de Satanás. Olhemos, por exemplo,
a figura do deus grego Zeus, deus que odiava e guerreava com outros deuses e com a humanidade. Milhões de pessoas, ainda
hoje, crêem em deuses semelhantes, e o resultado dessa fé descabida é dor e ódio.
4 O salmista invoca o ato da criação (Gn 1) para exaltar o poder e o propósito de Deus para com a humanidade. Deus ordenou,
e as coisas vieram a existir do nada. Deus fez tudo o que existe mediante sua “palavra” e “sopro”, ou seja, seu “hálito”, cujo vo-
cábulo original hebraico é o mesmo para “espírito” (Jó 26.13). O sopro de Deus é o “verbo”, a “palavra”, o “logos eterno”: Jesus
Cristo – a expressão criadora exalada por Deus – o Pai (Jo 1.1-5). A palavra de Deus é sempre criadora e produtiva, jamais volta
vazia (Is 55.11). Por isso, devemos viver e pregar a Palavra. O salmista confirma a veracidade e originalidade do primeiro capítulo
de Gênesis, refuta qualquer teoria sobre a geração espontânea e casual do universo, e afirma – na seqüência – que todas as
pessoas da terra poderiam estar gozando de excelente condição de vida, se apenas, cressem, com sinceramente, no verdadeiro
Deus e Pai – Yahweh (Is 1.1-20).
5 A bondade de Deus para com a humanidade se revela na maneira amorosa e especial com que o Senhor colocou nosso pla-
neta em sua órbita elíptica e precisa, ao redor do Sol. Mais próximos não suportaríamos o calor, mais distantes a terra seria apenas
uma grande esfera congelada no espaço. O zelo de Deus para com sua criação levou-o a fazer da terra um grande jardim para os
seres humanos. A expressão hebraica transliterada em nō’đ significa odre – normalmente usado para conter o vinho – botija ou
vaso. As traduções antigas, lendo o Texto Massorético, traduziram equivocadamente a expressão nē’ď, que significa “montão”.
As versões antigas entendiam que as consoantes hebraicas significavam “odre”. Os textos hebraicos hoje usados nas sinagogas
trazem a expressão “vaso”, no sentido de “lugar” ou “recipiente” onde o Senhor, delicadamente, represou as águas dos mares e
oceanos para desenvolver nosso ecossistema planetário.
6 O salmista compara a glória obediente da natureza à rebeldia injusta do homem. Os planos do Senhor serão todos imple-
mentados e sua vontade permanecerá eternamente (Is. 40). Todos os projetos humanos e as próprias ciladas do diabo redundam
em nada e apenas servem para cumprir a Palavra de Deus (Is 44.25ss; 45.4-5) onde, aos escolhidos de Deus, são reveladas as
implicações da salvação (v.12; Is 41.8-13; 42.1). A tradução grega, Septuaginta, acrescenta uma frase que não está no original
hebraico nem nas versões Caldaicas e Siríaca, a saber: Καὶ άθετει βουλὰς άρχόντων, ou seja, “e frustra os conselhos dos príncipes”.
A Vulgata, Arábica e Etiópica, copiando a Septuaginta, cometem o mesmo equívoco e apresentam também esse acréscimo.
39 SALMOS 33, 34

19 para livrá-los da morte e garantir-lhes 2 Eu me gloriarei no SENHOR; que todos


a vida, mesmo em épocas de fome. os humildes e oprimidos ouçam e se ale-
20 Todo o nosso ser espera no SENHOR; grem.3
Ele é o nosso amparo e a nossa prote-  Bet
ção! 3 Proclamem a majestade do SENHOR co-
21 No SENHOR se alegrará nosso coração, migo, e todos a uma voz, exaltemos o
já que em seu santo Nome colocamos seu Nome.
toda a nossa fé.  Guimel
22 Derrama sobre nós tua bondade, ó SE- 4 Busquei o SENHOR e ele me respondeu,
NHOR, em proporção às esperanças que só e dos meus temores todos me livrou.
em ti depositamos.7  Dalet
5 Contemplai-o e sereis iluminados de
Graças pelo livramento felicidade; vossos rostos jamais experi-
Um salmo de Davi, quando se fingiu de louco mentarão a decepção.4
diante de Abimeleque, que o expulsou. E, assim  He
pôde escapar.1 6 Clamou este pobre homem, e o SENHOR

34 Bendirei o SENHOR em toda cir-


cunstância, seu louvor estará sem-
pre em meus lábios.2
o atendeu; e o libertou de todas as suas
tribulações.
 Zayin
 Alef 7 O Anjo do SENHOR acampa-se ao redor

7 O julgamento e a salvação ficaram evidentes, pois o poderoso domínio de Deus não é tirano. Baseia-se no perfeito conheci-
mento (vv.13-15), controle (vv.16-17) e amor (vv.18-19). A palavra hebraica para “todos”, no v.15, é “juntos”, o que assevera não sua
uniformidade, mas, sim, o discernimento que Deus tem de todos os seres humanos, como indivíduos. Os versos 18 e 19 são uma
afirmação de que o fiel, com Deus, é maioria, contrariando o antigo adágio secular, nascido no coração amargurado de Voltaire: “Di-
zem que Deus sempre favorece os grandes exércitos”. Mesmo em nosso mundo corrupto e violento, não é a força que tem a última
palavra. Quando ela prevalece, é por algum propósito divino, não por seu próprio poder (Is 10.15; Jr 27.5-6). Mas o olhar amoroso e
justo de Deus estará para sempre sobre seus fiéis, para protegê-los e os livrar de todo mal. Finalmente, a esperança está no “Nome
de Deus”, ou seja, em seu caráter revelado (Êx 34.5-7). Essa “esperança certa” não se concentra na dádiva – mesmo considerando
que há lugar para isso (Rm 8.18-25) – mas no Doador. Essa esperança (fé), jamais nos decepcionará (Rm 5.5).
Capítulo 34
1 Como já foi comentado, todos os textos iniciais dos Salmos, aqui apresentados em forma de subtítulos, fazem parte do texto
sagrado original em hebraico e compõem o primeiro versículo: Ledavid, beshanoto et tamo lifne Avimélech, vaigareshêhu vaielach.
Este é um salmo de gratidão pelo livramento milagroso de Davi das mãos de Aquis, cujo título monárquico era Abimeleque, rei
de Gate, e que significa “pai e rei”. O subtítulo indica a ocasião como sendo a de 1Sm 21.10ss, e que colocara em risco a vida
de Davi. É um acróstico, cujos versículos (menos o último) começam com as letras sucessivas do alfabeto hebraico (que aqui
aparecem antes do início dos versículos), excetuando-se waw ou vav. Passados mais de mil anos, o apóstolo Pedro faz menção
deste salmo em suas orientações à Igreja do Senhor (1Pe 2 e 3).
2 Davi tem mais uma experiência do poder e da atenção pessoal que Deus concede aos seus servos. O original hebraico nos
transmite a idéia de um contínuo louvor a Deus, independentemente das circunstâncias. Quando, enfim formos colocados em
terreno seguro e em melhores condições, poderemos comemorar o amor de Deus e testemunhar ao mundo, o valor de colo-
carmos toda a nossa esperança no Senhor e a Ele sermos fiéis. O NT é ainda mais explícito: “Em tudo dai graças” (1Ts 5.18;
conforme Rm 8.28,37).
3 Em sua humilhação, Davi louva ao Senhor e conclama todos os fiéis que passam por situações humilhantes e que estão se
sentindo oprimidos a erguerem louvores ao Senhor em todo o tempo, ou seja, sob qualquer condição. Assim como Paulo, que
também passou pela vergonha de ter de fugir do governador nomeado pelo rei Aretas, mas que se “orgulhou” nas fraquezas e
perseguições por causa do Senhor (2Co 11.30-33).
A expressão hebraica ‫ ענוים‬anavim descreve um tipo de pessoa que, ao passar por situações humilhantes ou aflitivas, não se
revolta, mas humildemente busca, com fé, uma solução divina.
4 O verbo hebraico ‫ נהרו‬naharu é derivado da raiz ‫ אור‬or e significa “iluminados”, como em Is 60.5, onde descreve o rosto
radiante da mãe que revê seus filhos, considerados perdidos para sempre. O mesmo termo se refere ao rosto de Moisés, em Êx
34.29, quando descia do monte, após falar com Deus. O NT também usa um termo semelhante, ao descrever o rosto do cristão
contemplando a glória de Jesus Cristo (2Co 3.18). Calvino faz a seguinte observação: “Iluminados são aqueles que anteriormente
se definhavam em trevas, ergueram seus olhos para Deus, como se a luz lhes surgisse repentinamente; os que se sentiram
oprimidos e submersos na humilhação, novamente revestirão seus rostos de jovial alegria”. A palavra “decepção” também pode
ser entendida como “vexame” ou “vergonha”.
SALMOS 34 40

dos que o temem, e os liberta.5  Nun


 Het 14 Aparta-te do mal, e pratica o bem; bus-
8 Provai e vede como o SENHOR é bom. ca a paz e empenha-te por conquistá-la.7
Como é feliz o homem que nele se abriga!  Samek
 Tet 15 Os olhos do SENHOR contemplam os
9 Temei ao SENHOR, vós os seus santos, justos, e seus ouvidos estão atentos ao
pois nada falta aos que o temem. seu clamor por socorro.
 Yud  Ayin
10 Os leões podem sofrer de fome, mas 16 A face do SENHOR está contra os que
para os que buscam o SENHOR nada lhes praticam o mal, para da terra apagar
faltará.6 qualquer lembrança deles.
 Kaf  Pê
11 Filhos vinde e escutai-me; eu vos ensi- 17 Suplicam os justos, e o SENHOR os ouve e
narei o temor do SENHOR. os liberta de todas as suas aflições.8
 Lamed  Tsade
12 Quem de vós quer ter prazer na vida, e 18 Perto está o SENHOR dos que têm o co-
deseja longos dias para viver em felicidade? ração quebrantado, e salva os de espírito
 Mem abatido.
13 Guarda tua língua do mal e teus lábios  Qof
de falarem falsamente. 19 O justo enfrenta muitas adversidades,

5 A expressão hebraica traduzida por “O Anjo do Senhor” e extraída do versículo em hebraico, aqui transliterado em Chone
mal’ach Adonai saviv lireav vaichaletsem, surge em várias partes das Sagradas Escrituras. Em muitos casos, esse termo se refere
ao próprio Deus vindo à Terra (Gn 12.7; Gn 16.7; Gn 18.22-33;). Outras vezes, refere-se também a Deus, mas na pessoa de Jesus
Cristo: o Príncipe do Exército do Senhor, como em Js 5.14; 6.2. A essas aparições de Deus e seu Filho se dá o nome de teofania.
Mas o termo “O Anjo do Senhor” também pode ser usado para identificar “um anjo” ou “legiões de anjos” que o Senhor destaca
para missões específicas e para nos acompanhar e zelar por nossas vidas. Esses “anjos” também são chamados de “principados
e potestades” e, por ordem do Senhor, estão sempre ao nosso redor (acampados e vigilantes), cuidando da preservação da
nossa vida e, às vezes, em luta contra as potestades do mal, evitando que o diabo possa cumprir em nós seu alvo destrutivo
(2Rs 6.8-20). São “espíritos ministradores” criados por Deus para servirem “aos que hão de herdar a salvação” (Hb 1.14). Dessa
forma, jamais estamos sós. Temos o Pai e o Filho, unidos ao Espírito Santo, que reside na alma dos cristãos. E dispomos de
uma multidão de anjos ministradores observando-nos diuturnamente. Não é comum vê-los ou ouvi-los, por causa dos planos de
Deus (que espera de nós, primeiramente, fé em sua Palavra – Jo 20.29; Hb 6.5; 1Pe 1.3-12), e devido à diferença de dimensões
nas quais vivemos, mas ao deixarmos essa vida nos encontraremos com eles para o início do eterno regozijo com Nosso Senhor
(Lc 16.22; At 23.9). Uma vez que “o Anjo do Senhor” deixa de aparecer depois da Encarnação, infere-se freqüentemente que “o
Anjo do Senhor”, na maioria das vezes em que o termo aparece no A.T, refere-se à Segunda Pessoa da Trindade: Jesus Cristo, A
Palavra (logos, em grego), o Verbo Eterno.
6 Se o discípulo de Eliseu viu e creu, muito melhor é crer em Deus primeiro e reservar os louvores para o momento da concre-
tização da esperança (Jo 20.29). Hb 6.5 e 1Pe 2.3 insistem em que o primeiro passo para ver é acreditar, pela fé. A defesa e as
provisões eram as necessidades de Davi nesse momento, registradas em 1 Samuel 21, que é o cenário deste salmo. O rei usa
algumas expressões (falta/faltará), relembrando as verdades do salmo 23. O Senhor permite a fome, mas supre as necessidades
(Dt 6.24; 8.3; Rm 8.28,37).
7 Este é um trecho escrito na antiga linguagem da sabedoria hebraica, como em Provérbios, como se um velho, sábio e amoro-
so pai estivesse ensinando seu amado filho a caminhar pela vida, com sucesso. A fórmula não mudou desde a criação do univer-
so e não mudará: o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. O bem que se ensina (v.12) vai de mãos dadas com o bem que
se pratica (v.14). Davi, numa primeira fase da vida, andava de acordo com esses princípios e os recomendava a todos, como faz
aqui (1Sm 24.7; 26.9,23). Pedro lê Davi e cita trechos deste salmo em suas mensagens à Igreja de Cristo (1Pe 2.1,22; 3.10-12).
8 Deus acompanha pessoalmente cada ser humano em sua trajetória sobre a terra. Essa companhia é tão pessoal que as
Escrituras revelam (v.15) que os olhos de Deus vêem o que nos é oculto, de modo que possa suprir nossas necessidades antes
de pensarmos em lhe pedir, mas seus ouvidos estão abertos para nós, o que significa que ele leva a sério nossas palavras e
orações e pode conversar conosco. A expressão hebraica ‫ צדיקים‬tsaddikim foi omitida de algumas versões, mas significa o clamor
dos justos. Entretanto, a triste situação das pessoas que deixam o mal lhes dominar o coração e as intenções colocam-se igual-
mente de forma pessoal, no sentido de o rosto de Deus se virar contra elas (v.16). Nós não sabemos o que se passa no íntimo
da alma humana, e muito menos quem são os escolhidos do Senhor, por isso a ninguém devemos julgar (essa não é a nossa
função). Devemos proclamar a Palavra de Salvação, pois mesmo a mais cruel das pessoas ainda tem uma chance de salvação
e reabilitação em Deus (v.18).
41 SALMOS 34, 35

mas de todas elas o SENHOR o liberta.  2 Veste a armadura e toma o escudo; le-
Resh vanta-te e vem em meu socorro!2
20 O SENHOR preserva-lhe todo o ser, ne- 3 Empunha a lança e o machado de guer-
nhum osso sequer é quebrado.9 ra contra os meus perseguidores; dize à
 Shin minha alma: Eu Sou a tua salvação.
21 Os ímpios serão destruídos por sua 4 Sejam humilhados e cobertos de vexa-
própria maldade, e os que odeiam os jus- me os que buscam tirar-me a vida; retro-
tos serão condenados.10 cedam envergonhados e sejam aniquila-
 Tav dos os que tramam a minha ruína.
22 O SENHOR resgata a vida dos seus ser- 5 Sejam como a palha que o vento carrega,
vos; todos os que nele buscarem refúgio quando o Anjo do SENHOR os espalhar.
serão absolvidos.11 6 Tornem-se-lhes os caminhos tenebro-
sos e escorregadios, quando o Anjo do
O Senhor é o vingador SENHOR os perseguir.3
Um salmo de Davi 7 Pois sem motivo prepararam uma ar-

35 Advoga minha causa, ó SENHOR,


contra os que me acusam; comba-
te contra os que me perseguem.1
madilha oculta para me apanhar; e sem
causa abriram uma cova para me tragar.
8 Que de súbito venha sobre os inimigos

9 Deus tem um cuidado todo especial para com seus filhos. Por isso, as metáforas usadas apontam para os detalhes desse
amor leal (Lc 12.7). Entretanto, este trecho da Escritura vai mais além e se revela uma profecia acerca do Messias, que se cumpre
em Jo 19.36, tendo como pano de fundo a história da libertação de Israel e a marca do sangue do cordeiro nos umbrais das
portas (Êx 12.46).
10 O termo hebraico ‫ רעה‬raäh pode ser traduzido por “maldade”, “malícia” ou “miséria”. Entretanto, o contexto do versículo
demonstra que a impiedade (com a qual os cruéis abastecem suas motivações) recairá sobre suas próprias cabeças. Tendo ensi-
nado não haver maior defesa e segurança que uma vida justa, piedosa e irrepreensível, Deus declara perversos (mesmo quando
ninguém ou coisa alguma parece se opor a eles) de repente as coisas se voltarão contra eles e os aniquilarão. Os ímpios são a
causa e o instrumento da própria destruição.
11 O termo “absolvidos” vem da expressão “não serão condenados” que advém do mesmo verbo hebraico que se traduz
“declara-os culpados” ou “condena-os!” (5.10 cf. Hb 11). É uma palavra que se associava fortemente a culpa e a sua devida
punição ou expiação (perdão e salvação) (Os 5.15; 10.2). Assim, Davi leva a interpretação para “nenhuma condenação” ou
plena absolvição daqueles que verdadeiramente se refugiam no Senhor (Rm 8.1, 33-34). Desse modo, o cristão pode cantar com
grande alegria este salmo, adicionando gratidão e louvores, por conhecer o custo inimaginável da salvação no verso 22a e o
alcance ilimitado do amor em 22b.
Capítulo 35
1 Este é um salmo da coleção dos denominados “imprecatórios” (Sl 7,35,55,58,59,69,79, 109,137 e 139). São salmos que
invocam juízo ou maldição sobre os inimigos do salmista. Entretanto, os propósitos dessas imprecações são: demonstrar o justo
e reto juízo de Deus contra os ímpios (58.11); demonstrar a autoridade de Deus sobre os ímpios (59.13); levar o ímpio a buscar
o Senhor (83.16); motivar os justos a louvarem a Deus (7.17). Por isso, encorajados por seu zelo para com Deus e sua repulsa
para com o pecado, os salmistas clamam a Deus para que puna o perverso e os vingue com sua justiça e sabedoria. A libertação
celebrada no Salmo 34 agora é vista como nem sempre imediata ou indolor, mas sujeita, de acordo com a vontade de Deus, a
atrasos (do nosso ponto de vista) e a momentos agonizantes. Davi, no entanto, jamais duvida em seu coração de que seu dia virá.
Cada pedido de socorro já prevê o momento da vitória e do livramento: todas as três grandes divisões deste salmo terminam com
esperança (35.1-10: discorre sobre as tramas; 35.11-18: revela o cerco dos cruéis e 35.19-28: a exultação maligna é aniquilada
pelo Senhor). Segundo recentes estudos, este salmo é da mesma época em que Davi estava sendo perseguido por Saul, sendo,
de certa forma, um desenvolvimento de 1Sm 24.15. A imprecação não é exatamente contra Saul (pois Davi mesmo havia poupado
a vida de Saul), mas contra aqueles que fomentavam a inveja doentia que Saul sentia por Davi.
2 A palavra hebraica traduzida por escudo é ‫ מגן‬maguen. Os recentes estudos sobre os chamados Rolos do Mar Morto, en-
contrados nas imediações do monte Qunram, revelaram que a expressão transliterada por Hachazec maguen vetsiná, vecúma
beezrati refere-se ao uso de uma proteção para o corpo e um escudo mais leve, no centro do qual se ergue uma forte saliência
encimada por uma adaga; arma de defesa e ataque usada especialmente pela cavalaria. Algumas versões traduziram essa
expressão por “pavês” ou “broquel”.
3 Este salmo é uma espécie de continuação do Salmo 34; justamente por isso foram colocados lado a lado pelo Cânon. O
contraste entre 34.5,7 e este verso demonstra claramente as bênçãos de buscar a face do Senhor e a maldição que está sobre os
ímpios e aqueles cujo coração não ama a Deus e seus princípios. As expressões “vexame, envergonhados, aniquilados, espalhar
e caminhos tenebrosos” têm a ver com a essência do castigo eterno (Dn 12.2), enquanto “o Anjo do Senhor” é a nossa salvação
e a condenação de todos aqueles que insistem em não render seus corações ao Senhor Deus, Yahweh (Êx 23.20-22).
SALMOS 35 42

a destruição: sejam enredados pela pró- por um amigo ou irmão; prostrei-me en-
pria cilada que me armaram, caiam na lutado, como quem chora por sua mãe.
cova que escavaram para me matar e lá 15 Contudo, assim que tropecei, eles se
se arruínem de vez.4 alegraram e contra mim se ajuntaram;
9 Então, todo o meu ser transbordará de reuniram-se às ocultas para me atacar e
gratidão ao SENHOR e se regozijará na sua agrediram-me sem cessar.
salvação. 16 Como ímpios zombando do meu refú-
10 Proclamarei ao mundo, de corpo e gio rangem os dentes contra mim.
alma: Quem poderá se assemelhar a ti, ó 17 Ó SENHOR! Até quando tolerarás essa
SENHOR? injustiça? Livra-me a alma das tramas
Tu livras os humilhados e fracos, do dos impiedosos; minha vida, dos que me
opressor, e os necessitados e pobres, dos atacam como leões.
exploradores.5 18 Render-te-ei graças perante a grande
11 Falsas testemunhas se levantam e me assembléia; louvar-te-ei diante das mul-
interrogam sobre atos que não cometi. tidões.8
12 Retribuem-me o bem com o mal, e 19 Que sobre mim não se rejubilem aque-
essa decepção enluta a minha alma.6 les que traíram minha amizade, nem
13 Da minha parte, entretanto, quando permitas que esses inimigos gratuitos
estiveram doentes, usei vestes de lamento; troquem olhares de escárnio.9
humilhei-me com jejum e derramei sobre 20 Não é de paz que se ocupam; ao con-
meu próprio peito muitas orações.7 trário, planejam falsas acusações contra
14 Andei vagueando e lamentando como os que vivem em paz na terra.

4 A expressão hebraica aqui traduzida por “sem motivo” e “sem causa”, e que também aparece no v.19 toca no próprio nervo da
dor de Davi, o que fica ainda mais claro nos versos centrais (v.11-18). O termo ‫ שואה‬shoah aqui traduzido por “destruição”, não tem
o sentido de “confusão”, como aparece em algumas versões. O salmista se revela extremamente sensível à mágoa da injustiça; é
o Evangelho que faz da injustiça uma situação a ser redimida, uma oportunidade para se amar como Cristo, e seguir seus passos
(1Pe 2.18-22). Quanto à “justiça poética” reivindicada no v.8, o Evangelho a aceita como tragédia que pode ser evitada dentro do
alcance miraculoso das orações e súplicas, e não como um fim desejado (Mt 5.44; 23.37-39).
5 A expressão “Quem poderá se assemelhar a ti, ó Senhor?” evoca o cântico de Moisés (cf. Êx 15.11), como lembrança de uma
crise ainda maior que a de Davi, e do seu resultado maravilhoso. O mesmo ocorre com o apóstolo Paulo em 2Co 1.8-10, que ao
chegar à beira do desespero, lembrou-se da gloriosa ressurreição dos mortos, e isso lhe foi grande motivo de alento e esperança.
Algumas versões trazem “meus ossos” ou “meu ser”, mas como já vimos, são formas de se referir ao indivíduo completo – ma-
terial e imaterial (corpo e alma).
6 Estas “testemunhas” não eram amigos próximos, mas pessoas a quem Davi havia tratado com respeito e solidariedade (Rm
12.15). Sua surpresa e profunda decepção é reconhecer essas pessoas entre seus algozes (em hebraico: ‫“ עריחמס‬testemunhas
injustas e violentas”). Outros salmos expressarão ainda mais dramaticamente os sentimentos de desolação (luto) da alma, ao se
deparar com a traição de pessoas íntimas e queridas (41.9; 55.12-14). Segundo a cultura da época, a dor que Davi sente é como
se o Bom Samaritano caísse em poder de assaltantes e, ao receber uma bofetada, identificasse o agressor como aquele a quem
salvara a vida tempos atrás (Lc 10.25-37).
7 O sentido geral deste desabafo de Davi revela que ele sofreu e intercedeu a Deus por seus supostos “amigos” (agora falsos
acusadores), não apenas nas ocasiões de doença, mas também em outras adversidades. No antigo Oriente, os judeus que ama-
vam a Deus, quando oravam em profunda dor, recolhiam-se para derramar suas lágrimas a sós com Deus, e reclinavam o rosto
sobre o peito em sinal de humilhação diante do Senhor.
8 Davi se refere aos louvores próprios da “festa votiva” (22.22-26) – uma cerimônia definida pela Lei e que regulava os atos de
gratidão daqueles que se comprometiam a prestar algum serviço especial a Deus, no caso de serem atendidos em suas petições
e suplicas. Deveriam cumprir seus votos com um sacrifício, a ser seguido por uma festa que poderia durar até dois dias (Lv 7.16).
Além disso, sua felicidade não poderia ser reservada a eles e a seus filhos; pelo contrário, deveriam convidar seus servos e os
pobres e necessitados, e especialmente os levitas, a comerem com eles diante do Senhor (Dt 12.17-19). Deveriam, ainda, relatar
pormenorizadamente à congregação aquilo que Deus fizera por eles (40.9-10; 116.14), convocando-a, finalmente, a participar na
proclamação de um salmo como este (cf. 34.3 e o testemunho que se segue).
9 O ódio gratuito, ou seja, sem motivo algum é a característica própria do diabo e do mal. Jesus via neste versículo (e em
69.4) não apenas um triste acontecimento na vida de Davi, mas uma profecia do que estava reservado para si (Jo 15.25). Era a
Palavra sendo cumprida cabalmente na vida de Jesus Cristo – o Messias, e de forma fragmentada em Davi e em nossas vidas (Jo
15.18ss.) A expressão hebraica ‫ קרץ‬karats aqui significa “piscar os olhos em sinal de zombaria em relação a uma terceira pessoa”
e, assim como em 22.8, denota também a atitude de menear a cabeça e espichar os lábios para frente, em sinal de desprezo.
43 SALMOS 35, 36

21 Com a boca escancarada riem de mim Deus vence todo o mal


e me acusam: “Agora o apanhamos! Vi- Ao mestre de música. Um salmo de Davi, servo
mos tudo com nossos próprios olhos!” do SENHOR.1
22 Tu, SENHOR, os vistes; não ignores seus
atos! Não te afastes de mim, ó SENHOR.10
23 Desperta! Levanta! Faze-me justiça!
36 Há em meu íntimo uma Palavra
do SENHOR sobre a maldade do
ímpio: Aos seus olhos não faz sentido te-
Defende a minha causa, meu Deus e meu mer a Deus.2
Senhor! 2 O ímpio é tão arrogante que não per-
24 SENHOR, meu Deus, tu és justo; restitui cebe e muito menos rejeita seu pecado.
o meu direito para que eles não se divir- 3 Suas palavras são maldosas, ardilosas e
tam à minha custa. traiçoeiras. Abandonou o bom senso, a
25 Não permitas que pensem: “É isso! justiça e a prática do bem.
Exatamente como queríamos!” Nem que 4 Antes de dormir, sua mente trama
digam: “Acabamos com ele!” ações cruéis; nada há de bom no cami-
26 Sejam humilhados e frustrados todos nho que escolheu, apega-se ao mal cada
os que se alegram com a minha desgraça! vez mais.3
Sejam cobertos de vexame e desonra os 5 Mas a tua benignidade, ó SENHOR, chega
que se levantaram contra mim. até os céus; a tua fidelidade, até as nu-
27 Cantem de júbilo e se alegrem os que vens.
desejam ver a prova da minha inocência, 6 A tua justiça é firme como as altas
e repitam continuamente: “Glorificado montanhas; e teus juízos, insondáveis
seja o SENHOR, que tem prazer na felici- como o fundo dos oceanos.4 Tu, ó SE-
dade do seu servo!” NHOR, preservas a raça humana e todos
28 E a minha língua proclamará a tua jus- os animais.
tiça e o teu louvor o dia inteiro!11 7 Quão precioso é teu amor, ó Deus! À

10 Davi usa um contraste perfeito para mostrar que o falso testemunho dos inimigos (“Vimos tudo...) será desmentido pela
verdade, total e abrangente, que está em Deus (“Tu, Senhor, os viste...), que tudo e a todos vê e julga (Êx 3.7; cf. 2Rs 19.14ss;
At 4.29).
11 Como no início deste salmo, o louvor está aguardando o momento certo para irromper. Davi demonstra ao Senhor que, ao
contrário dos inimigos, usará sua voz (língua) para proclamar a justiça de Deus na terra e cantar louvores ao Senhor, pois a verda-
de e a justiça sempre vencerão. É o que afirma o texto original transliterado: Ulshoni teguê tsidkêcha, col haiom tehilatêcha.
Capítulo 36
1 Este é um salmo de grandes contrastes. Num relance, descreve a maldade presente no coração de todos os seres humanos
em sua forma mais cruel; por outro lado, revela todo o esplendor e alcance da multiforme bondade divina. O termo “servo do
Senhor” utilizado para descrever Davi foi escolhido e atribuído pelo próprio Senhor, como rei e ungido de Deus (2Sm 3.18; 7.5,8).
Esta forma se acha apenas aqui e no título do Salmo 18, no qual é comentada.
2 Embora haja outras versões, esta tradução mais se aproxima dos melhores e mais recentes originais disponíveis. A expressão
“Palavra do Senhor” significa “oráculo”, ou seja, a comunicação expressa de Deus ao seu servo (Gn 22.16; 2Sm 23.1-2). Enquanto
o fiel faz do Senhor seu alvo maior, o ímpio nem sequer leva em conta o respeito e o temor do Senhor, que todos os seres hu-
manos devem nutrir em seus corações. Esse é o sintoma culminante do pecado, como revelado em Rm 3.9-20, passagem que
descreve a triste condição de toda a raça humana (salvo aqueles agraciados com a salvação de Deus).
3 O salmo revela a espiral descendente do pecado, as atitudes do pecador para consigo mesmo, contra Deus, e agora em re-
lação a seus relacionamentos interpessoais. Sua mente não se cansa de maquinar o mal (Mq 2.1). O pecador segue (para baixo)
em sua trajetória, por ter espontaneamente abandonado o bem, e progressivamente se encantado com o mal (v.3b), e não como
quem nunca teve oportunidade (Rm 1.28-32).
4 Davi volta-se rapidamente para o Senhor e nos revela “hesed”, expressão hebraica, transliterada, que significa, “o amor leal e
a misericórdia pactual” do Senhor para com todos aqueles que nele crêem de todo o coração. As dimensões do amor e da justiça
de Deus são incomensuráveis: inexauríveis (céus e nuvens), inexpugnáveis (montanhas) e insondáveis (fundo dos oceanos). En-
tretanto, apesar dessa imensidão, o Senhor nos acolhe com hospitalidade e carinho paternos. A inconstância do caráter corrupto
do ser humano forma os tristes contrastes com as qualidades altaneiras do amor de Deus, conforme sua bondade e lealdade
(v.5) que formam sua aliança perpétua. Os padrões pós-modernos de nossa sociedade, onde tudo é relativo, são um pântano,
comparados com as indestrutíveis “Montanhas de Deus”; assim como descreveu Calvino em seu comentário ao texto hebraico
“Montagnes de Dieu”, pois os hebreus costumavam descrever coisas eminentes, adicionando-lhes o nome de Deus; como “rio
de Deus” (65.9), “monte de Deus” (68.15), “cedros de Deus” (80.10), “árvores de Deus” (104.16). As corretas decisões (juízos) de
Deus são incompreendidas por nossa mente limitada, e nossa sabedoria obscurecida pelo pecado.
SALMOS 36, 37 44

sombra das tuas asas os filhos de Adão A passageira alegria dos ímpios
encontram refúgio.5 Ao mestre de música. Um salmo de Davi, servo
8 Eles se banquetearão na plenitude da do SENHOR.
tua casa; tu lhes saciarás a sede com as  Alef
águas puras do teu rio do Éden.6
9 Pois em ti está a fonte da vida; graças à
tua luz somos iluminados.
37 Não te indignes por causa das
más pessoas; nem tenhas inveja
daqueles que praticam a injustiça.1
10 Estende a tua benignidade aos que se 2 Pois eles em pouco tempo secarão como
consagram a ti, a tua justiça aos que são o capim, e como a relva verde logo mur-
puros de coração. charão.2
11 Não permitas que o soberbo pise sobre  Bet
mim, nem que a mão do ímpio me faça 3 Confia no SENHOR e pratica o bem; as-
retroceder. sim habitarás em paz na terra e te nutri-
12 Eis que tombaram todos os que prati- rás com a fé.3
caram o mal; foram lançados ao chão e 4 Deleita-te no SENHOR, e Ele satisfará os
jamais se levantarão!7 desejos do teu coração.

5 Da imensidão do cosmo e das dimensões do amor e da justiça de Deus, Davi é levado a observar o cuidado detalhado do
Criador com a humanidade e com todas as criaturas do planeta, assunto que se elabora em sua totalidade no Sl 104, e que será
retomado por Jesus Cristo, em Mt 6.25-34, para mostrar o alto valor que cada ser humano tem para Deus. No v.7, a figura de
linguagem “À sombra de tuas asas...” é uma evocação de Dt 32.11, igualmente usada por Boaz em relação a Rute (Rt 2.12), e por
Jesus Cristo (Mt 23.37), para mostrar um aspecto da salvação que embora exija humildade, oferece total segurança. A expressão
hebraica ‫ כן ארם‬Ben Adam, filho de Adão ou filho do homem, já vista no Sl 8.3, refere-se aqui aos “filhos dos homens”, uma vez
que ‫ אנוש‬enosh significa “homem frágil”, e miserável em seu estado de pecado, que é formado do pó da terra, “Adamah”. Por isso
é que se chamam “Adão ou filhos de Adão”, isto é, “terrenos”, todos criados a partir do pó da terra para onde voltarão (Gn 2.7;
3.19). Curiosamente, a expressão hebraica ‫אדם‬, Ben Adam, filho do homem, pertence à linguagem dos príncipes e, às vezes, se
refere ao “maior dos príncipes” como ao “maior dos homens”.
6 As experiências de Davi como refugiado iluminam este quadro sobre a participação nas riquezas de uma rica e grande casa:
a festa tantalizante de Nabal (1Sm 25) e a fartura em presentes oferecidos por Barzilai e seus amigos (2 Sm 17.27-29). As palavras
no original hebraico – ‫ נחל ערניך‬nachal adanecha, “o rio de teu Éden”, fazem alusão ao próprio jardim do ‫ערן‬, Éden, que significa
“jardim das delícias ou dos prazeres”. As referências ao grande banquete, e ao saciar da sede com águas puras são uma promes-
sa de plena satisfação e refrigério às almas cansadas e necessitadas dos peregrinos do Senhor, após longa jornada em meio a
escassez e provações. O homem tem uma sede dentro de si que só poderá ser saciada no jardim do Senhor (Jo 4.11-15).
7 A conclusão deste salmo comemora a vitória reivindicada pela fé; o texto no original está escrito no presente, como se a
súplica vislumbrada já estivesse acontecendo, de forma clara e concreta. Isso nos ajuda a entender o que é fé (Hb 11.1). Ou seja,
colocarmos plena confiança naquilo que esperamos e estarmos certos daquilo que ainda não pode ser visto. Davi estava disposto
a lutar contra o mal que o tentava; a louvar o Senhor em meio às provações; a suplicar com fé, pelo pleno livramento, a ponto de já
se sentir vitorioso, com os inimigos derrotados; usufruindo a graça completa e revigorante proporcionada por Deus no Éden.
Capítulo 37
1 Este é um salmo sapiencial de Davi , cujo arcabouço é um acróstico formado por letras do alfabeto hebraico introduzindo cada
par de versículos. Tertuliano o chamou de “O espelho da Providência”, sendo a melhor exposição da terceira Bem-aventurança
(Mt 5.5), na qual Jesus o citou (v.11). É, portanto, um salmo de sabedoria sobre a retribuição temporal dos justos e dos ímpios (Ec
8.11-14). Grandes hinos e muitos livros já foram escritos sobre este trecho das Escrituras.
2 O verbo hebraico ‫ אל־תחר‬al-tithechar significa literalmente “não te esquentes”, e nos encoraja a não perdermos a paciência ou
nos irritarmos com o aparente progresso das pessoas desonestas, que usam de todo tipo de engano e crueldade para conquistar
o sucesso que almejam. Nutrir raiva pelo sucesso do ímpio é dar chance ao coração para – ouvindo o Diabo – começar a con-
siderar que talvez Deus não esteja mais tão atento a certas injustiças neste mundo. O passo seguinte é desenvolver certa inveja
pela maneira como os infiéis conquistam o que querem; em seguida vem o distanciamento da obediência à Palavra de Deus e a
apostasia que pode transformar um servo de Deus num esquizofrênico espiritual, viciado no pecado, com saudade da santidade
e aterrorizado com a iminência do juízo (Pv 23.17-18; 24.1-2,19; Is 40.8; 1Jo 2.17).
3 A confiança (fé) no Senhor é nossa garantia de posse da terra (vitória ou sucesso total). Entretanto, estamos a caminho dessa
plenitude e, como peregrinos, seremos tentados e provados durante a viagem. Somos lembrados de que a estratégia de Deus
para vencer o “mal” é atacar com o “bem”; até porque a ira humana é incapaz de produzir a justiça divina (Tg 1.20 cf. Rm 12.21).
Jesus aprofunda esse princípio de sabedoria em Lc 6.27, cf. Pv 25.21. Para os contemporâneos de Davi e para o povo judeu de
todos os tempos e lugares, o texto fala da Terra Santa e da maneira sábia como os judeus deveriam tomar posse da terra e nela
viver em paz, alimentando-se da fé em Deus (25.13; Dt 16.20). O verbo hebraico ‫ רעה‬re-eh deve ser tomado no sentido passivo
“sê nutrido ou alimentado”. A expressão ‫אמונה‬, emunah, não apenas significa “veracidade” ou “fé”, mas também “prosseguimento
seguro por longo tempo”. Este verso fica assim transliterado: Betach badonai vaasse tov, shechan érets ur’e emuna.
45 SALMOS 37

5 Entrega o teu caminho ao SENHOR, con-  Het


fia nele, e o mais Ele fará.4 14 Os ímpios empunham a espada e re-
 Guimel tesam o arco, para abater o humilde e o
6 Ele exibirá a tua justiça como a luz, e o pobre, e trucidar os que seguem o cami-
teu direito como o sol ao meio-dia. nho reto.
 Dalet 15 Mas a espada lhes atravessará o cora-
7 Aquieta-te diante do SENHOR e aguarda ção e seus arcos serão quebrados.
por Ele com paciência; não te irrites por 16 Mais vale o pouco do justo que a opu-
causa da pessoa que prospera, nem com lência de muitos ímpios,
aqueles que tramam perversidades.5  Tet
 He 17 pois aos ímpios serão quebrados os
8 Deixa a ira e abandona o furor; não te braços, ao passo que o SENHOR sustenta
impacientes. Não te inflames, pois assim os justos.
causarás mal a ti mesmo.6  Yud
9 Pois os malfeitores serão exterminados, 18 O SENHOR zela pela vida das pessoas ín-
mas os que depositam sua esperança no tegras, e sua herança permanecerá para
SENHOR herdarão a terra. sempre.8
 Vav 19 Não ficarão decepcionados no tempo da
10 Mais algum tempo apenas, e já não desgraça, nos dias de fome serão saciados.
existirá o ímpio; tu o procurarás em seu  Kaf
lugar, porém não mais o encontrarás. 20 Sim, os ímpios perecerão, os inimigos
11 Os humildes herdarão a terra e se de- do SENHOR: desaparecerão como o es-
leitarão na plenitude da paz.7 plendor dos prados, como fumaça desa-
 Zayin parecerão.
12 O ímpio conspira contra o justo e ran- Lamed
ge contra ele os dentes. 21 O ímpio pede emprestado e não de-
13 O SENHOR, porém, dele se ri porque vê volve; o justo se compadece e dá com ge-
chegando seu dia. nerosidade.

4 Calvino, em seu comentário ao texto em hebraico, observa que o verbo ‫גלל‬, galal, literalmente significa “passar, rolar ou
transferir” (Js 5.9), e que, neste verso, a expressão “Entrega”, tem o sentido de “transferir para o Senhor” nossos anseios, pre-
ocupações, frustrações e todo tipo de carga emocional, física e psicológica, a fim de que ele nos supra todas as necessidades
(55.22; Pv 16.3). A expressão foi tomada da observação do camelo em sua atitude auxiliadora, ao deitar sobre as patas para que
a carga lhe seja transferida e acumulada sobre o dorso.
5 O termo hebraico aqui traduzido por “Aquieta-te” é ‫רום‬, dom, que tem o sentido de um silêncio altamente esperançoso quanto
à iminente intervenção de Deus (Is 30.15). Algumas versões trazem impropriamente a expressão “Descansa”, proveniente da
palavra hebraica ħŭl, semelhante graficamente a yāħal, mas com um sentido diferente. Esta palavra é traduzida para o grego pela
Septuaginta como ύποταγηθι que significa “estar sujeito”, o que não é uma tradução completa do termo, mas expressa bem o
sentido de um silêncio submisso à vontade de Deus, não emburrado ou murmurante. Não devemos alimentar inveja pelo sucesso
do próximo, muito menos por aquele que usa de desonestidade para alcançar seus intentos (Sl 125.3). Este verso fica assim
transliterado: Dom ladonai vehitcholel lo, al titchar bematsliach darco, beish osse mezimot.
6 A inveja é como um “câncer espiritual” que pode consumir a paz e a felicidade de um servo de Deus. A cura consiste em extir-
par as primeiras manchas de ciúme e inveja que surgirem em nossas almas; depois, evitar todo tipo de ira, furor e cólera, e jamais
desejar sucesso a qualquer custo (Sl 73.3). A melhor e maior das vitórias é aquela que vem das mãos do Senhor, em função da
nossa fé sincera e do trabalho perseverante e pacífico. A expressão hebraica que significa “não se deixe enfurecer” é traduzida –
como alerta – em diversos sinônimos ao longo do salmo: “não te indignes” (v.1), “não te irrites” (v.7), “não te impacientes” (v.8).
Esta é a transliteração hebraica deste versículo: Héref meaf vaazov chema, al titchar ach leharêa.
7 Algumas versões iniciam este versículo com a expressão “os mansos”; todavia essa palavra, especialmente na sociedade
ocidental atual, não comunica a idéia do termo hebraico original de “fé paciente e perseverante”, característica daqueles que
aprenderam a esperar pela ação de Deus, enquanto perseveram na fé e na prática do bem. Somente os “humildes” são “ensiná-
veis”, ou seja, podem aprender a ouvir e obedecer às orientações de Deus, crendo que esse é o caminho da felicidade perpétua.
O contexto indica que “a terra” se refere à Terra Prometida ou à área dada ao povo de Deus (Dt 34.1-4). Contudo, Nosso Senhor
Jesus Cristo, em Mt 5.5, amplia as dimensões dessa bênção: a herança recebida pelos “humildes” não será apenas de um terri-
tório ou região, mas o reino inteiro (Ap 21).
8 O verbo hebraico yãdha, traduzido aqui por “zelar”, tem o sentido de “conhecer profundamente”, “contribuir para o sucesso”.
SALMOS 37, 38 46

22 Sim, possuirão a terra os que Ele aben-  Qof


çoar, mas os que Ele amaldiçoar serão 34 Espera no SENHOR!10 E, confiante, se-
excluídos. gue sua soberana vontade. Ele te exaltará
23 O SENHOR firma os passos de todo dando-te a terra, por herança, e verás os
aquele cuja conduta lhe agrada! ímpios serem destruídos.
 Mem  Resh
24 Se cair, não ficará por terra, porque o 35 Vi uma pessoa ímpia, prepotente e cruel
SENHOR o segura pela mão. a expandir-se como a árvore frondosa.
 Nun 36 Tornei a passar, e já não estava; procu-
25 Fui jovem e já estou velho, e nunca vi rei-a, e não foi encontrada.
um justo abandonado nem seus descen-  Shin
dentes mendigando o pão. 37Medita no homem íntegro, considera a
26 Em todo o tempo exerce grande com- pessoa justa! Há uma prosperidade para
paixão e empresta com boa vontade, seus todo aquele que busca a paz;
filhos serão abençoados! 38 mas os impenitentes serão extermina-
27 Desvia-te do mal e faze o bem, e sem- dos todos juntos; não haverá qualquer
pre terás onde morar. sucesso futuro para os ímpios.
 Samek  Tav
28 Pois o SENHOR ama quem pratica a jus- 39 A salvação dos justos vem do SENHOR,
tiça, e não abandona os seus fiéis. Estes Ele é a sua fortaleza na hora da adversi-
serão resguardados para todo o sempre, dade!
mas a descendência dos ímpios será ex- 40 O SENHOR os ajuda e os liberta. Ele os
terminada. livra dos ímpios e os salva, porque nele
 Ayin se refugiam.
29 Os justos herdarão a terra e para sem-
pre nela habitarão.9 Oração do pecador arrependido
30 A boca do justo proclama a sabedoria, Salmo de Davi para a oferenda memorial.
e sua língua anuncia o direito.
 Pê
31 A Lei de Deus está no seu coração, e
38 SENHOR, não me repreendas em tua
ira, nem me corrijas com cólera!
2 Porquanto as tuas flechas cravaram-se em
seus passos não vacilam. mim, e a tua mão se abateu sobre mim.1
32 O ímpio espreita o justo, e procura 3 Por causa da tua ira, não há parte ilesa
maneira de matá-lo; em meu corpo; não há saúde nos meus
 Tsade ossos, em conseqüência do meu pecado.
33 mas o SENHOR não o abandona às suas 4 As minhas culpas me afogam; como
mãos, nem permite que o condenem, se fardo pesado, tornaram-se insuportáveis
for julgado. para mim.

9 A expressão hebraica yãrash, tem sentido muito mais amplo do que simplesmente “herdar” um bem de um parente que mor-
rera. Essa palavra revela a “partilha de bem prometido”, “um dom ou talento”. A herança eterna nos céus é um “dom oferecido
gratuitamente”: a vida eterna em Jesus Cristo (Rm 6.23).
10 A expressão hebraica aqui traduzida por “Espera no Senhor!” refere-se à atitude de “prosseguir trabalhando na plena con-
fiança da providência divina”. Possuir uma terra na qual pudessem viver em paz e liberdade era a concretização da promessa de
Deus a Abraão. Os israelitas sonharam com essa terra durante séculos de cativeiro no Egito ou vagueando pelo deserto do Sinai.
Assim como receberam Canaã de maneira extraordinária e maravilhosa, de igual forma foram incentivados a crer num milagre
ainda maior: receber gratuitamente a vida eterna nos céus, a “herança celestial” a qual a expressão “possuir a terra” passou a
significar (Hb 4.1).
Capítulo 38
1 O pecado sempre produz uma reação negativa das leis naturais (conseqüências) e um profundo desagrado de Deus, que
as Escrituras chamam de “ira” ou “indignação” (3,4). Na tradição da Igreja, este é um dos sete salmos davídicos penitenciais (os
demais são: 6; 32; 51; 102; 130 e 143). Davi, ao reconhecer seus erros e pecados, usa de uma vívida metáfora (flechas cravadas)
para suplicar ao Senhor que amenize sua repreensão, ou seja, a correção e a disciplina divina (2.5; 32.3-5; 39.3-11; Jó 6.4; 34.6;
Lm 3.12; Ez 5.16).
47 SALMOS 38, 39

5 Minhas feridas cheiram mal e supuram, por causa do meu sofrimento, tampou-
devido à minha insensatez. co triunfem sobre mim, quando meu pé
6 Ando encurvado e todo abatido; o dia escorregar!”
inteiro perambulo e pranteio. 17 Porquanto, estou a ponto de tropeçar,
7 Estou sendo consumido pela febre; e e a minha dor me acompanha sempre.
sinto todo o meu corpo enfermo. 18 Sim, confesso a minha culpa, estou
8 Estou esgotado e, ao extremo, alque- aflito em razão do meu pecado.3
brado; minha alma geme de angústia. 19 Sem motivo algum acumulei numero-
9 SENHOR, diante de ti estão todos os meus sos inimigos, e muitos injustamente me
anseios; nem mesmo o meu suspiro te é odeiam.4
oculto. 20 Os que me pagam o bem com o mal ca-
10 Meu coração palpita e as forças se afas- luniam-me, porquanto sigo o que é bom!
tam do meu corpo; até a luz dos meus 21 SENHOR, não me abandones! Meu Deus,
olhos me abandonou. não fiques tão distante!
11 Meus companheiros e amigos me evi- 22 Vem depressa em meu socorro, ó SE-
tam por causa da doença que me aflige; e NHOR, meu Salvador!
os meus vizinhos se mantêm à distância.2
12 Armam laços os que desejam atentar A frágil e fugaz vida humana
contra minha vida, os que me querem Salmo davídico ao regente do coro, para ser
mal proclamam a minha ruína; dedicam cantado no estilo de Jedutum.1
o dia todo a planejar calúnias.
13 Eu, todavia, como um surdo, não ouço;
como mudo, não abro a boca.
39 Eu declarei: Vigiarei os meus atos
e não pecarei em palavras; atarei
uma mordaça em minha boca enquanto
14 Fiz-me como um homem que não per- os ímpios estiverem próximos a mim.2
cebe o que ocorre à sua volta e sua língua 2 Emudeci, desisti de expressar o bem, e
não sabe replicar. minha angústia se agravou.
15 Em ti, SENHOR, espero: Tu me respon- 3 Meu coração ardia-me dentro do peito
derás, ó SENHOR meu Deus! e, enquanto eu meditava, minha alma se
16 Pois eu declarei: “Ouve-me, ó SENHOR, rompeu em chamas. Então, soltei a lín-
para que tais pessoas não se divirtam gua e bradei:3

2 Muitas vezes, quando mais precisamos de ajuda, compreensão e companheirismo, vemos não apenas nossos inimigos
ansiosos por nossa total falência e ruína, mas também até mesmo nossos antigos e bons amigos se afastarem ou se oporem a
nós. Nesses momentos de crise, o melhor é ficar calado e entregar toda a situação nas mãos de Deus. Não dar vazão à raiva, ódio
e decepção, nem alimentar desejos de vingança, pois o Senhor é o justo Vingador. O comportamento de Davi nesta passagem
tem muito a nos ensinar (11-15).
3 Davi não tenta justificar ou mitigar a gravidade dos seus pecados; ele faz uma profunda e honesta reflexão sobre seus atos e
conclui que errou; portanto, precisa mudar de rumo (converter-se – 2Co 7.10).
4 Este versículo foi traduzido a partir do texto Qunram (4QPsa), por ser mais antigo e fiel aos originais, não se optando aqui
pelos tradicionais textos “Receptus” ou “Majoritário”.
Capítulo 39
1 Jedutum é o Etã de 1Cr 6.44; 15.19, e representava a família de Merai, da mesma forma que Asafe, a família de Gérson e
Hemã, a família de Coate, sendo esses três filhos de Levi, os chefes das famílias. Jedutum era, portanto, um dos três mestres
de corais de Davi (1Cr 16.41,42; 25.1,6; 2Cr 5.12), conhecido como “o vidente de Davi” (2Cr 35.15; 1Cr 6.16-44; Sl 62; 77 e 89).
Este preâmbulo ao salmo, que em hebraico faz parte integrante do texto canônico, pode ser assim transliterado: Lamnastsêach
lidutun mizmor ledavid.
2 No Sl 38, Davi nos fala do silêncio diante do inimigo; aqui, fala do silêncio perante o Senhor. Duas orações em tempos de
enfermidade (compare os Salmos 40; 49 e 90). As duas reconhecem os erros e transgressões (pecados), ambas expressam
profunda fé em Deus (em hebraico antigo: “confiança”). Os sofrimentos decorrentes dos erros cometidos ensinaram a Davi que a
língua é uma das maiores ferramentas do pecado (Tg 3.1-12). A expressão hebraica original , machsom, tem o sentido de
“mordaça”, e não de freio como aparece em algumas versões (Dt 25.4).
3 Davi havia decidido manter-se absolutamente calado, pois sentia-se indigno de falar e não queria parecer rebelde diante dos
ímpios que o rodeavam (Sl 73). Entretanto, a angústia reprimida só causa mais frustração e revolta; o bem represado só contribui
para o mal (Jr 20.8-9).
SALMOS 39, 40 48

4 SENHOR, dá-me a conhecer o término 13Desvia de mim o teu olhar de censura,


da minha vida e a quantidade dos meus para que eu possa encontrar alívio, antes
dias, a fim de que eu compreenda quão que me vá deste mundo, e termine mi-
frágil sou! nha existência!5
5 Eis que fizeste meus dias da largura de
palmos, e a duração da minha vida é qua- Ação de graças e súplicas
se nada diante de ti; todo ser humano, seja Ao mestre de música. Um salmo de Davi.
quem for, não passa de um breve sopro.
(Pausa)
6 Como uma sombra fugaz passa o ser
40 Depositei toda a minha esperança
no SENHOR, e Ele se inclinou para
mim e ouviu meu clamor:
humano pela vida, e fútil é sua luta fa- 2 tirou-me do fosso fatal, do charco la-
tigante; acumula riquezas, todavia não macento, assentou meus pés sobre uma
sabe quem, de fato, delas usufruirá.4 rocha e orientou meus passos.1
7 E agora, SENHOR, que haverei de espe- 3 Em minha boca colocou uma nova
rar? Toda a minha confiança está depo- canção, um cântico de louvor ao meu
sitada em ti. Deus. Que muitos possam compreender
8 Livra-me de todos os meus pecados, o que me aconteceu e venham a adquirir
não me exponhas às zombarias dos in- confiança e temor no SENHOR.
sensatos. 4 Extremamente feliz é aquele que no SE-
9 Emudeci, minha boca não abri para re- NHOR deposita sua plena confiança e que
clamar de nada, pois tu fizeste tudo. não segue os arrogantes, nem aqueles
10 Afasta de mim o teu flagelo; porquan- que cultuam a mentira.2
to fui vencido pelo açoite poderoso da 5 Ó SENHOR, quantas maravilhas tens rea-
tua mão. lizado, bem como teus desígnios! Quisera
11 Como advertência, afliges a humani- eu poder proclamá-los e pregá-los todos,
dade por causa da sua iniqüidade; cor- mas são por demais numerosos.3
róis, como a traça, o que o ser humano 6 Fizeste-me compreender que nem ofe-
mais valoriza; quão vazia é a vida da pes- rendas e sacrifícios desejaste; não reque-
soa que não confia em ti! reste de mim holocaustos para remir
(Pausa) meus pecados.4
12 Ouve, SENHOR, minha oração, e aten- 7 Então declarei: Eis aqui estou! No per-
de a minha súplica; não ignores minhas gaminho está escrito a meu respeito.
lágrimas, porquanto, perante ti, sou um 8 Tenho imensa alegria em fazer a tua
estrangeiro, como foram todos os meus vontade, ó meu Deus; a tua Lei está no
antepassados. íntimo do meu ser.

4 Davi percebe quão frágil é (37.20; 78.39) e o quanto a vida é breve; o tempo é inexorável, e apenas viajamos nele. É preciso
sabedoria divina para aproveitar o tempo e construir o que é perene. Por isso, devemos focalizar nossa atenção no Pai da eterni-
dade e orar como o Sl 90.12. A nossa vida não passa de um sopro (v.11; 144.4; Jó 14.2; Ec 6.12).
5 Davi reconhece que o Senhor corrige e repreende seus filhos amados que a ele desobedecem. No entanto, a disciplina do Pai
dura pouco tempo, e logo podemos recuperar nossas forças e nos alegrarmos com Deus (Hb 12.6-11; Jó 7.17-19; 9.27; 10.21-22;
14.6). Este versículo pode ser assim transliterado do original hebraico: Hasha mimeni veavlíga, betérem elech veenêni.
Capítulo 40
1 Davi oferece ao Senhor ações de graças e louvores pelos livramentos que recebera em várias situações aflitivas no passado.
Seu testemunho e louvor levaram muitas pessoas a temer (amar com fé e reverência) a Deus (7.17; 9.1; 18.49; 22.22-31; 30.1;
34.8-14). Um salmo em que as lembranças das misericórdias e intervenções do Senhor no passado motivam o crente a confiar
totalmente no socorro de Deus em todas as horas (observe os Salmos 4 e 9).
2 Deus é benevolente para com todos aqueles que nele confiam. Bem-aventurado é aquele que aceita o convite da graça divina
e recebe o Senhor como Pai. É incomparável a felicidade conquistada pelo crente que obedece à Palavra do Senhor, pois ela é
eterna e não se desvanece ao longo dos embates diários desta vida (1.1; 31.23; 32.1-2; 146.5; Jr 17.7).
3 Os planos de Deus para seu povo são de acordo com seu propósito soberano e predeterminado (Is 25.1; 46.10-11).
4 Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do manuscrito original hebraico: Zévach uminchá lo chafáts’ta, oznáyim
caríta li, olá vachataá lo shaálita. Para o Senhor, o mais importante é a obediência à Lei geral e moral de Deus (1Sm 15.22; Is
49 SALMOS 40, 41

9 Às multidões anunciei os teus atos de Sofrimentos e bênçãos do crente


justiça, pois meus lábios não se puderam Para o regente do coro. Um salmo de Davi.
conter, como tu mesmo sabes, ó Eterno.
10 Não oculto em minhas entranhas a
tua justiça; falo da tua fidelidade e da tua
41 Bem-aventurado aquele que dá
atenção ao desvalido! No dia do
seu infortúnio, o SENHOR o livrará.1
salvação. Não escondo da grande assem- 2 O SENHOR o protegerá e preservará sua
bléia a tua lealdade e a tua verdade.5 vida; Ele o fará feliz na terra, e não o en-
11 SENHOR, não mantenhas longe de mim tregará à sanha dos seus inimigos.
a tua misericórdia: sempre me guardem 3 Na enfermidade, o SENHOR lhe dará ple-
o teu amor e a tua verdade! no amparo, e da doença o restaurará.
12 Pois incontáveis males me cercaram, 4 Eu roguei: Concede-me a tua graça, ó
minhas muitas culpas se apoderaram do Eterno, e cura minha alma, mesmo ten-
meu ser e me turvaram completamente a do eu pecado contra ti.
visão; desgraças mais numerosas que os 5 Meus inimigos só me desejam o mal
cabelos da minha cabeça e, por isso, meu e murmuram: “Quando ele morrerá? E
coração perdeu o ânimo. quando seu nome desaparecerá da face
13 Agrada-te, SENHOR, em libertar-me; da terra?”
apressa-te, SENHOR, em socorrer-me! 6 Sempre que alguém vem visitar-me
14 Sejam humilhados e frustrados todos com falsidade, enche o coração de men-
os que conspiram contra a minha vida; tiras, e depois as semeia por onde passa.
retrocedam humilhados os que desejam 7 Todos os que me odeiam se juntam para
a minha ruína. resmungar contra mim, conjeturando
15 Fiquem aturdidos com sua própria sobre o mal que poderá me ocorrer:
vergonha os que zombam de mim. 8 “Ah, ele está com aquela doença malig-
16 Entretanto, regozijem-se e alegrem-se na! Está acamado, e jamais se levantará”.
em ti todos os que te buscam. Proclamem 9 Até o meu melhor amigo, em quem eu
sempre aqueles que amam a tua salvação: confiava, e que partilhava do meu pão,
“Grande é o Senhor!” também me traiu!2
17 Quanto a mim, sou um pobre e neces- 10 Ainda assim, tu, ó SENHOR, tem miseri-
sitado, o Senhor, contudo, pensa em mim. córdia de mim; levanta-me, para que eu
Tu és meu amparo e meu Libertador: não lhes dê a resposta merecida.
tardes mais, ó Eterno, Deus meu! 11 Sei que me queres bem, porquanto o

1.10-17; Am 5.21-24; Mq 6.6-8), que se traduzem nos dez mandamentos da sua aliança (Êx 20.3-17; Dt 5.7-21). Deus fez Davi
entender seus propósitos a partir da graça de lhe “abrir a compreensão e o desejo de ouvir a Deus” (Pv 28.9; Is 48.8; 50.4,5). O
exemplo supremo desse amor e obediência ao Pai reside na pessoa de Jesus Cristo, o Messias (Hb 10.5-9). Devemos ser justos e
verdadeiros, antes de exigir que as outras pessoas o sejam. Os salmos de Davi sempre reconhecem a justiça, o amor, a lealdade,
a graça e a verdade do Senhor.
5 Todas as pessoas que tiveram um encontro autêntico e profundo com o Senhor, e que experimentam a ação poderosa do
Espírito de Deus reinando em suas almas e corpos, não conseguem deixar de testemunhar ao mundo o amor e a paz que agora
sentem da parte de Deus, mesmo em meio às circunstâncias mais difíceis da vida. Por isso, a evangelização na Igreja não é
apenas um programa, muito menos uma técnica, mas a expressão natural, real e viva da ação misericordiosa e transformadora
do Senhor, na vida dos crentes (1.5; 9.1; 38.13-16; 39.1; 68.11; 96.2; 1Rs 1.42; Is 40.9; 41.27; 52.7; 61.1).
Capítulo 41
1 Esta oração de louvor encerra o Livro I dos Salmos, que começa e termina com um salmo de bem-aventurança. Felizes são as
pessoas que estão sempre dispostas a ser uma bênção na vida dos enfermos, dos pobres e daqueles que passam por crises de
todo tipo. O exercício da compaixão, tão bem exemplificado na vida de Cristo, recebe a promessa do contínuo suprimento divino
e de bênçãos específicas: libertação, proteção e terna assistência do Pai, nas horas mais difíceis. Há uma correspondência entre
a maneira como tratamos as pessoas ao nosso redor e o modo como o Senhor age conosco (Mt 18.23-35).
2 Davi lamenta a atitude fria e desleal de uma pessoa muito especial, em quem havia depositado sua confiança; que partilhava
a intimidade de sua mesa; portanto, amigo honrado e confidente do rei (31.11,12). Alguém com quem selara um pacto de fideli-
dade (23.5). Cristo aplica essa passagem à sua própria experiência humana, ao cumprir o papel majestoso do seu antepassado,
como rei ungido por Deus sobre Israel. Assim, o Messias, o grande Filho de Davi, também sofreu a imensa dor da traição de um
grande amigo (Jo 13.18).
SALMOS 41, 42 50

meu inimigo não cantará vitória sobre rumo à Casa de Deus, com cantos de jú-
mim. bilo e louvor entre a multidão que feste-
12 São e salvo me sustentarás e em tua java.3
presença me manterás eternamente!3 5 Por que estás assim tão abatida, ó mi-
13 Louvado seja o Eterno, Deus de Israel, nha alma? Por que te angustias dentro de
para todo o sempre! Assim seja!4 mim? Deposita toda a tua esperança em
Deus! Pois ainda o louvarei por seu livra-
SEGUNDO LIVRO mento; Ele é o meu Salvador.
Salmos de 42 a 72 6 Ó meu Deus, esmorecida está a minha
alma; por isso em ti fixo o meu pensa-
Ao regente do coro. Um poema dos filhos de Corá.1 mento desde a terra do Jordão, das altu-
O crente tem sede de Deus ras do Hermom, desde o monte Mizar.

42 Como a corça suspira pelas águas


correntes, assim, por ti, ó Deus,
anseia a minha alma.2
7 Do abismo as águas chamam as tor-
rentes no troar de suas cataratas, e to-
dos os vagalhões se precipitaram sobre
2 A minha alma tem sede de Deus, do mim.4
Deus vivo; quando poderei entrar para 8 Contudo, durante o dia o SENHOR me
apresentar-me a Deus? concede a sua misericórdia, e à noite
3 Minhas lágrimas têm sido o meu ali- comigo está sua canção de louvor. É a
mento de dia e de noite, porquanto me minha oração ao Deus da minha vida.
questionam o tempo todo: “Onde está o 9 Declaro a Deus, minha Rocha: Por que
teu Deus?” te esqueceste de mim? Por que razão ca-
4 Recordo-me dessas ocasiões, e dentro de minhar lamentando e sem direção, sob a
mim se me derrama a alma em profun- opressão dos meus inimigos?
do pranto, de como caminhava eu junto 10 Como uma espada, que perfura meu
à multidão, conduzindo-os em procissão corpo e atinge os ossos, é a aflição pro-

3 Este versículo pode ser assim transliterado dos originais hebraicos: Vaani betumi tamáchta bi, vatatsivêni lefanêcha leolam.
Quanto às expressões idiomáticas “permanecer na minha presença para sempre”, “a quem sirvo”, veja: 101.7; 1Sm 16.21,22;
1Rs 10.8; 17.1; 2Sm 7.15,16).
4 Este versículo em hebraico, transliterado: Baruch Adonai Elohe Yisrael mehaolam vead haolam, amen veamen. Essa é a doxo-
logia com que os crentes (a comunidade dos adoradores do Senhor) devem corresponder ao conteúdo das Sagradas Escrituras
e, portanto, aos ensinos que foram transmitidos por este primeiro Livro dos Salmos (72.18-19; 89.52; 106.48; 150).
Capítulo 42
1 Este salmo dá início ao Livro II do Saltério e forma uma unidade poética, e uma só grande oração com o Sl 43; ainda que
desde a Septuaginta (a mais antiga tradução grega do AT) apareçam separados e em seqüência, especialmente devido às suas
finalidades litúrgicas. Quem narra este salmo é um dos destacados descendentes de Corá, responsáveis pela liturgia no templo
(v.4, de acordo com Sl 32), membros do coro levítico nomeados por Davi para servirem como adoradores no templo. Os coraítas
(filhos de Levi) representavam a família levítica de Coate, cujo líder, nos dias de Davi, era Hemã (Sl 88); assim como Asafe dirigia
o coral dos gersonitas, e Jedutum (Etã) regia o coral dos meraritas (1Cr 6.31-47; Sl 39). Este é o primeiro dos sete salmos dos
“Filhos de Corá” (Sl 42-49; 84,85; 87,88 no Livro III).
2 Assim como a corça ou o cervo anseiam pelas águas frescas e tranqüilas, especialmente quando acossados pelos caçadores,
também a alma daquele que crê almeja a intensa comunhão com o Pai. O autor deste salmo desempenhava liderança espiritual
e litúrgica sobre o povo no templo, mas fora levado cativo pelos arameus numa de suas invasões de Judá, como a de Hazael
(2Rs 12.17-18; Js 21.4-19). As circunstâncias impedem que o salmista se reúna com seu povo, no templo, para adorar ao Senhor
(Êx 19.17; 29.42-43; 30.6,36; Dt 5.26; Sl 43.1,2). Assim como observou Jesus, todo o nosso ser clama pela presença do Espírito
de Deus (Jo 4.13-14; 7.37-39).
3 Esta passagem lembra o rei Davi em seu momento de glória, quando caminhou com seu povo amado em direção ao templo
de Jerusalém, conduzindo a arca do Senhor (2Sm 6.12-19). Em nossas orações é sempre bom recordarmos o que o Senhor já
fez por nós.
4 Todas as calamidades e tempestades da vida foram despejadas sobre o salmista e seu povo, mas em meio às adversidades
puderam observar, ainda melhor, o poder amoroso do Senhor para com seus filhos. Este texto hebraico pode ser transliterado
desta forma: Tehom el tehom core lecol tsinorêcha, col mishbarêcha vegalêcha alai aváru. Uma alusão literária às cachoeiras por
intermédio das quais os reservatórios de Deus derramam suas águas nos rios que deságuam nos mares (o abismo embaixo);
retratando, ao lado da figura das ondas e vagalhões, a correção e a provação divina (36.8; 69.1,2; 88.7; Jn 2.3-5; Sl 43.2; 44.77).
51 SALMOS 42–44

duzida pela zombaria dos meus adversá- O Deus do passado está presente
rios, questionando-me sem parar: “Onde Para o regente do coro. Um salmo didático dos
está o teu Deus?” filhos de Corá.
11 Por que estás assim tão triste, ó minha
alma? Por que martirizas o meu ser? Põe
a tua esperança em Deus! Porquanto ain-
44 Ó Deus, ouvimos com nossos
próprios ouvidos nossos antepas-
sados nos contaram os grandes feitos que
da o louvarei por tua presença salvadora, realizaste na época deles, nos dias do pas-
ó meu Deus!5 sado distante.1
2 Como, com tua própria mão, expulsas-
Súplicas ao Senhor nas aflições te nações inteiras para que nossos pais

43 Faze-me justiça, ó Deus! Defende


a minha causa contra gente infiel!
Livra-me do homem fraudulento e cri-
pudessem ser estabelecidos na terra, e
abateste povos para que se pudessem ex-
pandir e prosperar.
minoso! 3 Não foi por meio de espadas ou da sua
2 Pois tu, ó Deus, és minha fortaleza. Por força que herdaram a terra, mas tão so-
que me rejeitaste? Por que devo sair va- mente por intermédio da tua destra, teu
gueando e pranteando, oprimido pelo braço e a luz do teu semblante, com os
inimigo?1 quais os agraciaste.
3 Envia tua luz e tua verdade: que elas me 4 Tu és o meu Rei, ó Eterno. És tu que
guiem e me conduzam ao teu monte san- ordenas as vitórias de Jacó!
to e à tua morada!2 5 Graças a ti destroçamos nossos adver-
4 Então chegarei ao altar de Deus, ao Deus sários, pelo teu Nome pisoteamos os que
da minha alegria jubilosa; vou louvar-te nos atacam.2
com a cítara, ó Deus, meu Deus. 6 Minha confiança não está depositada
5 Por que estás abatida, ó minha alma? em meu arco, e sei perfeitamente que não
Por que te afliges sobremaneira dentro serei salvo por meio da minha espada.
de mim? Deposita toda a tua confiança 7 Mas tu nos concedes vitória sobre
em Deus! Pois ainda o louvarei; Ele é a nossos inimigos e humilhas os que nos
minha salvação e o meu Deus!3 odeiam.

5 O salmista pede ao Senhor uma compreensão quanto a estas adversidades, mas descobre que não tinha motivo para se quei-
xar, porquanto o Espírito do Senhor caminhava com ele, controlando todas as circunstâncias de modo que lhe produzissem um
coração verdadeiramente sábio e grato e contribuíssem para seu bem eterno (Rm 8.28). É interessante notar que neste segundo
Livro do Saltério, o nome hebraico original, usado para se referir a Deus, é Elohim (divindade única, criadora e suprema) enquanto
no primeiro Livro foi priorizado o uso do nome Yahweh (Iavé ou Jeová), o Deus verdadeiro, o Senhor.
Capítulo 43
1 Uma súplica que evoca a imagem forense do Sl 17 e ecoa 42.9.
2 A “Luz” e a “Verdade” são personificadas como mensageiras de Deus para conduzirem o coração humano à salvação (27.1),
aos cuidados paternais do Senhor (26.3; 30.9; 40.10) e, portanto, de volta à Casa do Eterno (2.6; 7.17).
3 A expressão hebraica literal yëšû‘ôt “salvação para mim” está no plural devido à relação genitiva com pānāy “para mim”; pěnê
como pronome oblíquo, em lugar do pronome possessivo, “minha salvação”, usa-se para evitar ambigüidade, pois quer dizer
“minha própria”, isto é, “minha auto-salvação”.
Capítulo 44
1 Este é um brado nacional por livramento. Israel fora praticamente destruído por um de seus muitos inimigos. Tudo indica que
esta é a narrativa de uma difícil provação passada pelo reino de Judá, nação que não rompeu sua aliança com o Senhor, senão
posteriormente na história. A oração segue a teologia veterotestamentária, na qual obediência e fidelidade a Deus correspon-
dem a imediata e proporcional soma de bênçãos e prosperidade na terra. O salmista expressa seu louvor a Deus pelas muitas
e grandes vitórias do passado (vv.1-8); a aflição da presente derrota e suas conseqüências (vv.9-16); a declaração de lealdade,
inocência – mérito – (vv.17-22), e concluindo, a súplica pelo socorro divino (vv.23-26). O poder salvador de Deus, do passado, é
invocado, no presente, por seu povo – com base na fé que tem em seu amor leal e permanente.
2 O Deus da história (Sl 30) é também o nosso Salvador pessoal em quem confiamos em todas as horas (Fp 4.13; 2Co 2.14;
10.4). Nossa força e inteligência nada podem contra todas as adversidades da vida, mas em Cristo, o Messias, somos mais que
vencedores (vv. 6-8; Rm 8.31-39).
SALMOS 44, 45 52

8 A ti louvamos o dia todo; a teu Nome nós um covil de chacais, e com densas
agradecemos continuamente. trevas nos cobriste.5
(Pausa) 20 Se, porventura, houvéssemos esqueci-
9 Agora, entretanto, nos rejeitaste e en- do o Nome do nosso Deus e tivéssemos
vergonhaste e já não marchas com os estendido nossas mãos a qualquer outro
nossos exércitos. deus,
10 Fizeste-nos retroceder ante o inimigo 21 não o teria Deus percebido tal afronta?
e permitiste que fôssemos saqueados por Pois Ele é quem conhece todos os segre-
nossos adversários. dos do coração!
11 Nos entregaste como um rebanho a 22 Entretanto, por amor de ti somos
ser devorado, e entre muitos povos nos entregues à morte todos os dias; fomos
dispersaste. considerados como ovelhas para o ma-
12 Por quase nada vendeste o teu povo; tadouro.6
nem mesmo valorizaste o preço. 23 Acorda, ó Senhor! Por que pareces
13 Tu nos converteste em motivo de ver- dormir? Desperta-te! Não nos abando-
gonha dos nossos vizinhos, objeto de nes para sempre.
zombaria e menosprezo dos que nos ro- 24 Por que nos ocultas a tua face e ignoras
deiam.3 a nossa desgraça e opressão?
14 Fizeste de nós um provérbio entre to- 25 Prostrada até o pó está a nossa alma;
das as nações; os povos meneiam a cabe- desfalecido sobre o chão jaz nosso corpo.
ça quando nos avistam.4 26 Levanta-te! Vem em nossa ajuda e nos
15 Padeço humilhação dia após dia, e o resgata por tua imensa benignidade!
meu rosto está coberto de vergonha
16 ante as injúrias e os insultos que me O casamento profético do Ungido
dirige o inimigo vingativo. Ao regente do coro, de acordo com a melodia
17 Tudo isso sobreveio a nós, sem que nos Os Lírios. Dos filhos de Corá. Poema didático.
tivéssemos esquecido de ti, nem houvés- Uma canção matrimonial.1
semos traído a tua aliança.
18 Nossos corações não retrocederam na
fé em ti, tampouco nossos pés se desvia-
45 Com o coração transbordando de
boas palavras, recito os meus ver-
sos em honra ao rei; seja a minha língua
ram da tua vereda. como a pena de um sábio escritor.
19 Contudo, tu nos esmagaste e fizeste de 2 És dos seres humanos o mais notável;

3 Israel reconhece que Deus é quem opera bênçãos e provações, de acordo com seu propósito soberano e sua misericórdia
infinita (veja o uso acentuado do verbo na 2ª pessoa (Deus) e (vv.10-14) e de pronomes de 2ª pessoa (vv.2-13). Nem sempre os
sofrimentos são derivados do pecado ou das falhas morais do sofredor (vv.17-18). O livro de Jó nos revela claramente que nem
toda aflição tem como causa o pecado, mas o ser humano revela seu caráter ao passar por dor, frustração e humilhação. O reino
israelita do norte foi literalmente espalhado pelo mundo conhecido da época (721 a.C.), e o reino do sul, no ano 587 a.C. Esse
episódio, relatado por Davi (entre 1011 e 971 a.C.), serve de palavra profética para nós e para Israel, que já passou por vários
momentos terríveis de dispersão de suas terras.
4 Foi esta a profecia que Moisés entregou a Israel como advertência, caso o povo de Deus viesse a desobedecer à Lei do Se-
nhor (Dt 28.37). O povo alegava não ter abandonado a Deus (vv.17-22), mas somente o Senhor, que sonda os corações de cada
indivíduo conhece a verdade e sabe como melhor nos corrigir (v.21).
5 O termo “chacal” referia-se aos nômades do deserto, que viviam de assaltar as caravanas de mercadores. Tudo indica que
houve uma grande batalha no deserto de Edom (2Cr 20), no reinado de Josafá (870-840 a.C.).
6 Se o ser humano precisa passar por sofrimentos, então que seja a favor da causa do Senhor e da maneira como Deus nos
ensina. Pois, nenhuma alegria vale a pena sem a aprovação do Espírito de Deus (1Pe 4.12-19). Jesus, o Messias, é nosso maior
exemplo, porquanto preferiu sofrer com o Pai a obter toda a glória e alegria contrariando a vontade de Deus (Is 53.7; Hb 5.8). O
sofrimento e a tristeza, quando encarados com sabedoria, levam o crente a orar mais e melhor.
Capítulo 45
1 Este salmo segue o padrão dos cânticos de louvor entoados nas cerimônias de casamento dos reis de Israel. Como a noiva
retratada aqui é uma princesa estrangeira (vv.10-12), este casamento reflete a imagem de um rei cujo poder é também reconhe-
cido em outras terras (v.9), e caracterizado por vitórias internacionais (vv.3-5; Sl 2; 110). Como filho régio de Davi, é uma prefigu-
ração de Cristo, o Messias, especialmente após o Exílio (vv.6,7; Hb 1.8,9). O cabeçalho indica que esta obra poética e musical
53 SALMOS 45, 46

derramou-se graça em teus lábios, visto teus ouvidos em atenção; esquece o teu
que o Altíssimo te abençoou para sem- povo e a casa paterna.
pre.2 11 E assim encantará tua beleza o Rei, e
3 Mantém a espada à cintura, ó herói! sendo Ele teu senhor, inclina-te em reve-
Cobre-te de esplendor e majestade. rência perante Ele.
4 Em tua majestade, cavalga vitoriosa- 12 A ti, filha de Tiro, os poderosos corte-
mente pela verdade, pela misericórdia e jarão com seus presentes.4
pela justiça; que a tua mão direita realize 13 Mais que em suas vestimentas reco-
feitos portentosos. bertas de ouro, está, em seu interior, a
5 Tuas flechas afiadas e certeiras atingem dimensão de sua honra.
o coração dos inimigos do Rei; e sob teus 14 Com trajes bordados com ouro é con-
pés caem as nações. duzida perante o Rei; as virgens de seu
6 O teu trono, ó Deus, permanece incólu- séqüito a acompanharão.
me por toda a eternidade; cetro de justiça 15 E, com regozijo e grande emoção, en-
é o cetro do teu reino. trarão no palácio do Rei.
7 Amas a justiça e abominas a impiedade 16 Os teus filhos sucederão no trono dos
e, por isso, o Eterno, teu Deus, escolheu- teus pais; por toda a terra os tornarás
te dentre todos os teus companheiros e príncipes.
ungiu-te com o óleo de júbilo.3 17 Por todas as gerações lembrarei o teu
8 Todas as tuas vestes exalam aroma de nome e eternamente hão de te louvar to-
mirra, aloés e cássia; nos palácios ador- das as nações!5
nados de marfim ressoam os instrumen-
tos de corda que te alegram. Deus é a nossa segurança e paz
9 As filhas dos reis te visitam, prestando Para o mestre de música. Dos filhos de Corá.
honras, e à tua direita se posta a noiva Um cântico para vozes de soprano.1
real ornamentada com jóias em ouro
puro de Ofir.
10 Escuta, ó filha, considera e inclina os
46 Deus é nosso refúgio e a nossa
fortaleza, auxílio sempre presente
na adversidade.

foi composta e apresentada por um membro do coro levítico do templo (que abrigava a sala do trono terrestre do Rei celestial de
Israel). O título da melodia é uma forma abreviada de “O Lírio da Aliança” citado nos cabeçalhos dos salmos 60 e 80.
2 O Noivo é apresentado com santo entusiasmo; e sua descrição, como o mais notável e varonil dos homens, aplica-se à pes-
soa de Cristo, o Messias e Rei (1Sm 9.2; 16.18; Pv 22.11; Ec 10.12; Is 50.4; Lc 4.22). O verso 16 revela que o Rei será perpetuado
nos seus filhos para sempre (v.6).
3 Cristo, o Messias e Rei, reina como Deus, com autoridade e sabedoria sem igual entre os seres humanos, pois, mesmo con-
siderando que Jesus Cristo viveu na terra como um homem, tendo homens por “companheiros”, mesmo os mais nobres da terra,
está muito acima deles, como verdadeiro e eterno Rei. Regressará à terra brevemente, com poder e glória, e todos reconhecerão
sua majestade e terão de adorá-lo (vv.3-5). Jesus ama a justiça e rejeita toda espécie de iniqüidade, e, portanto, julgará todos os
ímpios e maldosos. Cristo, o Noivo, é a grande revelação deste salmo (Mt 25.1-13; Hb 1.8).
4 Este versículo, no original hebraico, pode assim ser transliterado: Uvat tsor beminchá panáyich iechalú ashirê am. A expressão
literal “filha de Tiro” é uma personificação da “cidade de Tiro” e dos seus habitantes (2Rs 19.21). O rei de Tiro foi o primeiro go-
vernante estrangeiro a reconhecer a dinastia de Davi (2Sm 5.11). Salomão manteve grande amizade e bons negócios com esse
rico e grande centro comercial à beira do Mediterrâneo que, como diz a profecia, buscou em Israel os favores da bela esposa do
Rei (1Rs 5; 9.10-28; Ez 26.1 – 28.19).
5 A beleza do caráter dos crentes deve levar aqueles que ainda não crêem a adorar a Cristo, o Messias e Rei (vv. 12,13). Todos
quantos pertencem ao Noivo Celestial gozam de privilégios especiais. Portanto, a noiva de Cristo (a Igreja) dá mais valor e aten-
ção ao Noivo que aos laços tradicionais e culturais de parentesco, pois herda uma nova e eterna geração que implica na mais
sincera, íntima e dedicada comunhão com Cristo e com os irmãos na fé.
Capítulo 46
1 Este salmo celebra a segurança de Jerusalém (e do povo de Deus) como a cidade de Deus. Serviu de inspiração para
a composição do grandioso hino de exaltação ao Senhor, chamado Castelo Forte, escrito por Martinho Lutero (1483-1546).
Depois de excomungado e desterrado pelo Imperador da Alemanha, Carlos V, Lutero foi amparado por seu amigo Frederico da
Saxônia, refugiando-se no castelo de Wartburg, onde compôs diversos escritos e dedicou-se à tradução da Bíblia. O cabeçalho
em hebraico original pode ser transliterado dessa forma: Lamenatsêach livnê Côrah al alamot shir. Considerando que a palavra
SALMOS 46, 47 54

2 Portanto, nada temeremos, ainda que a Deus! Serei exaltado entre todas as na-
terra trema e os montes afundem no co- ções, serei louvado na terra!”4
ração do mar,2 11 O SENHOR dos Exércitos está conosco; o
3 ainda que se encrespem as águas e se Deus de Jacó é a nossa fortaleza segura.
lancem com fúria contra os rochedos. (Pausa)
(Pausa)
4 Há um rio cujos canais alegram a cida- Deus, o Rei de toda a Terra
de de Deus, o Santo Lugar onde habita o Ao mestre do canto. Um salmo dos filhos de Corá.1
Altíssimo.
5 Nela habita o Eterno e, por isso, não
poderá ser atingida! Ao romper da auro-
47 Povos todos, batei palmas, aclamai
a Deus com vozes de alegria!
2 Pois o SENHOR, o Altíssimo, inspira reve-
ra Ele virá em seu socorro.3 rência: é o grande Rei sobre a terra.
6 Nações se agitam, reinos se abalam; Ele 3 Ele submeteu os povos ao nosso poder
ergue a voz, e a terra se derrete. e as nações colocou sob nossos pés.2
7 O SENHOR dos Exércitos está conosco; o 4 Ele escolhe para nós a nossa herança,
Deus de Jacó é a nossa torre segura! para orgulho de Jacó, seu bem-amado.3
(Pausa) (Pausa)
8 Vinde e contemplai as obras do Eterno, 5 Deus subiu entre os brados de adora-
seus feitos estarrecedores por toda a terra. ção, ao som da trompa, Ele, o SENHOR.
9 Ele dá fim às guerras até os confins da ter- 6 Cantai louvores a Deus, cantai! Cantai
ra; quebra o arco e despedaça a lança; com louvores ao nosso Rei, cantai!4
chamas destrói os carros de combate. 7 Porque Deus é o Rei de toda a terra,
10 “Cessai as batalhas! Sabei que Eu Sou cantai louvores com harmonia e arte!

hebraica alamot significa também “donzelas”, o subtítulo pode indicar um cortejo de “donzelas tocando pandeiros cerimoniais” e
acompanhando os cantores na entrada litúrgica do templo (68.25; Sl 6; 30 e 42).
2 Cada uma das três partes do salmo reforça nossa confiança na presença e no cuidado constante de Deus para com todos
aqueles que nele crêem (vv. 1, 7 e 11; Rm 8.31-39).
3 Não há um rio em Jerusalém, mas haverá na Cidade Eterna (Ap 21.9 – 22.5). O rio mencionado no Sl 36.8 é uma metáfora em
relação ao contínuo derramar de bênçãos divinas que sustentam e fortalecem os crentes e transformam a cidade de Deus num
jardim tão lindo e aprazível quanto o Éden (Gn 2.10; Is 33.21; 51.3; Ez 31.4-9; Sl 48). A Salvação realizada por Deus (vv.1-3) é uma
das grandes provas daquilo que o Senhor é para nós: um antegozo do santuário eterno de Deus.
4 A voz de Deus irrompe no meio dos conflitos mundiais. Este versículo, no original hebraico, pode ser transliterado do seguinte
modo: Harpu ud’ú ki anochi Elohim, arum bagoyim arum baárets. Nesta frase, o Senhor ordena, literalmente, que toda a terra “fique
em silêncio”, assim como em 1Sm 15.16. Os atos poderosos de Deus a favor do seu povo farão que toda a terra se renda, em lou-
vores, a seus pés. Esse tema é enfatizado em todo o livro dos Salmos (22.27; 47.9; 57.5,11; 64.9; 65.8; 66.1-7; 67.2-5; 86.9; 98.2,3;
102.15), bem como em outras passagens do AT (Êx 7.5; 14.4,18; Lv 26.45; Nm 14.15-19; 1Sm 17.46; 1Rs 8.41-43; 2Rs 19.19; Ez
20.41; 28.25; 36.23; Hc 2.14). Assim como o poder de Deus se manifestou maravilhoso na encarnação, nascimento, vida, obra e
ressurreição de Cristo, também se manifestará no iminente e glorioso retorno de Jesus Cristo, o Messias e Rei.
Capítulo 47
1 Este salmo data da época da monarquia israelita e foi composto para uso na liturgia do templo, nos momentos das grandes
celebrações como a Festa dos Tabernáculos (Lv 23.34), ocasião em que Salomão dedicou o templo (1Rs 8.2), em grande cortejo
(v.5; Sl 24 e 68). Posteriormente, este mesmo salmo foi usado nas sinagogas, nas comemorações litúrgicas de Rosh Hashanah
(o Ano Novo judaico, normalmente comemorado, no Ocidente, durante o mês de setembro). A Igreja primitiva, de forma muito
apropriada, passou a louvar o Senhor com este salmo nas celebrações da ascensão de Cristo.
2 O Senhor de toda a terra determinou o destino do seu povo eleito (Sl 146.5-7). Este salmo está intimamente vinculado aos
46 e 48, e têm, os três, o objetivo de fixar didaticamente, na mente do leitor, a verdade máxima de que Deus é o Grande Rei que
chamará para si súditos de todas as nações e formará seu povo, com o qual viverá por toda a eternidade em paz e felicidade.
Portanto, somente Deus merece os louvores de todos os seres que vivem na terra (105.6; 135.4; Êx 9.29; 15.1-18; 19.5,6; Dt 7.6;
14.2; Is 41.8). O título “grande rei” foi empregado, impropriamente, por muitos governantes imperiais da Assíria (2Rs 18.19), pois
“Temível”, “Justo”, “Magnífico” e “Altíssimo” são títulos e atributos que só encontram perfeito significado na pessoa do Senhor
(2Sm 5.17-25; 8.1-14; 10; Gn 14.19; Sl 45.4; 68.35; 89.7; 99.3; 119.9).
3 A herança do povo de Deus é a Terra Prometida, tanto na figura terrena de Canaã, quanto em nossa morada eterna (Gn 12.7;
17.8; Êx 3.8; Dt 1.8; Jr 3.18; Sl 14.7).
4 O centro deste salmo retrata a ascensão litúrgica do Senhor ao templo, representada, na época, pela entrada da arca em
55 SALMOS 47, 48

8 Deus reina sobre as nações, Deus está torceram-se como a mulher no momen-
assentado em seu santo trono. to do parto.
9 Os príncipes dos povos reuniram-se 7 Foste como o vento oriental, quando
como povo do Deus de Abraão. Pois a destruiu os navios de Társis.
Deus pertencem os soberanos da terra: 8 Como já temos ouvido, agora também
Ele é soberanamente maravilhoso!5 temos visto na cidade de nosso Deus:
Deus a preserva inabalável para sempre.3
A cidade de Deus o louva (Pausa)
Um cântico; salmo dos coraítas. 9 No meio do teu templo, ó Deus, medi-

48
Deus.1
Grande é o SENHOR e digno de
todo louvor, na cidade de nosso
tamos em teu amor misericordioso.
10 Como o teu Nome, ó Deus, assim o teu
louvor se estende até os confins da terra;
2 Seu santo monte, belo e altaneiro, é a tua destra está repleta de justiça.
a alegria de toda a terra. O monte Sião 11 Rejubile-se o monte Sião, exultem as
tem, do lado norte, a cidade do grande cidades de Judá, por causa de todos os
Rei.2 teus santos julgamentos.
3 Em seus palácios, Deus se faz conhecer 12 Desfilai em torno de Sião, contai-lhe
como alto refúgio. as torres,
4 Por esse motivo, eis que os reis soma- 13 apreciai suas fortificações, contemplai
ram suas forças e juntos avançaram con- seus palácios para anunciar à geração
tra a cidade. vindoura:4
5 Contudo, quando a contemplaram, fi- 14 “Este é Deus, o nosso Deus para todo
caram pasmos e fugiram aterrorizados. o sempre; Ele é quem nos guiará mesmo
6 Ali mesmo o pavor os dominou; con- além desta vida”.5

cortejo para o templo – com o toque solene do Shofar – trombetas ou trompas feitas com o chifre do carneiro (98.6; Êx 19.16-19;
Js 6.4). A arca simbolizava o trono de Deus. O templo era a representação terrestre do perfeito e eterno palácio celestial (Sl 24 e
68). O verso 5 pode ser transliterado a partir do original hebraico desta forma: Alá Elohim bitruá, Adonai becol shofar.
5 Deus está assentado soberanamente no Santíssimo Lugar do templo celestial e controla o governo de todo o Universo (Jr
17.12). Essa verdade é enfatizada no último livro da Bíblia (Ap 4.9,10; 5.1,7-13; 6.16; 7.10-15; 19.4). No final dos tempos, todas
as nações da terra reconhecerão que o Deus de Israel é o Único Grande Rei da Terra (Sl 3.3; Is 2.2; 56.7), e assim se cumprirão
todas as promessas reveladas a Abraão e aos profetas (Gn 12.2,3; 17.4-6; 22.17,18).
Capítulo 48
1 Sião representa a inexpugnável e eterna cidade de Deus (vv.12,13). Nenhum de seus lados é frágil e suscetível a ataques
(vv.2,7,10,13). Os salmos 46 e 47 oferecem uma bela introdução à descrição da cidade do Grande Rei, e eram cantados pelo coral
levítico em nome de todos os adoradores reunidos no templo.
2 Embora não seja o cume mais elevado da cordilheira a que pertence, sua relevância vem da presença de Deus, o que o torna
o monte mais importante (alto) do mundo (68.15,16; Is 2.2). A rainha de Sabá expressou com propriedade a admiração que as
nações de todo o mundo têm pela cidade de Deus (1Rs 10.1-13).
3 O salmo traz à memória do povo de Deus a destruição das tropas inimigas que se confederaram contra Israel nos dias de
Josafá (2Cr 20), bem como a terrível debandada dos assírios que haviam cercado os muros de Jerusalém, nos dias de Ezequiel
(v.4-7; 2Rs 19.35,36). Atos de Deus que confirmaram o que os israelitas já haviam aprendido, lendo os Livros Sagrados de Moisés
(em hebraico, a Torá), relatando a misericórdia, a justiça e o poder de Deus que se revelam ao mundo, especialmente por meio
da história do seu povo (8; 44.1; 78.3).
4 O salmista leva o povo a meditar sobre a maravilhosa obra salvífica do Senhor, ao longo da história (2Cr 32.21-23). Portanto, o
templo é um lugar reservado para o povo ter calma, segurança, paz e instrução bíblica, a fim de ter inspiração para refletir sobre a
amplitude e a profundidade da misericórdia e do poder de Deus. Durante os cercos militares, os habitantes de Jerusalém se viam
limitados em suas liberdades de ir e vir (infelizmente, como ainda hoje acontece em alguns momentos). Contudo, agora o coro
canta e louva a Deus com entusiasmo, pela liberdade de se andar em paz pela amada cidade que quase perderam (vv.12-13).
A bondade de Deus para conosco não apenas deve ser celebrada (v.1), como também proclamada. Se desejamos que nossos
filhos reverenciem a Deus e o conheçam como Pai, devemos alimentar um estilo de vida pessoal que demonstre o quanto o
Senhor é precioso, de fato, para nós (v.13). É curioso notar que a expressão original e literal “a geração de trás”, aqui trazida por
“a geração vindoura”, é uma expressão idiomática hebraica, e uma referência sutil ao ponto cardeal “oeste”.
5 O salmista encerra este poema com uma bela confissão de fé, cujo texto original em hebraico pode ser assim transliterado:
Ki ze Elohim Elohênu olam vad, hu ienahaguênu al mut. (Sl 23).
SALMOS 49 56

O engano das riquezas tolo e o insensato e, para outros, deixam


Para o mestre de música. Salmo dos coraítas. todos os seus bens.
49
mundo,1
Ouvi isto, povos todos! Pres-
tai ouvidos, habitantes todos do
11 Pensam os ímpios que eternas seriam
suas casas, e por gerações sucessivas per-
sistiriam suas moradas; até deram seus
2 gente simples, gente ilustre, ricos e po- próprios nomes às suas terras.
bres, todos juntos! 12 O ser humano, ainda que muito im-
3 Minha boca proclamará sabedoria e a portante, não pode viver para sempre; é
meditação do meu íntimo trará entendi- como os animais que perecem.
mento.2 13 Este é o final dos que confiam em si
4 Inclinarei os meus ouvidos a um provér- mesmos, e dos seus seguidores, que apro-
bio; com harpa exporei o meu enigma:3 vam o que eles pregam.6
5 Por que temer, nos dias de infortúnio, (Pausa)
quando me cerca a iniqüidade de meus 14 Como ovelhas estão destinados à se-
agressores, pultura, e os justos terão domínio sobre
6 daqueles que confiam em sua fortuna eles; sua beleza e sua força se consumirão
e se vangloriam da abundância de suas e somente a profundeza do Sheol será sua
riquezas?4 morada!7
7 Ninguém é capaz de redimir seu pró- 15 Mas Deus redimirá a minha vida da
prio irmão, ou pagar a Deus o valor de sepultura e me levará para si.
sua vida, 16 Não te indignes, quando uma pessoa
8 porquanto o resgate de uma vida não se enriquece, quando aumenta a glória
tem preço. Não há pagamento que o li- de sua casa;
vre, 17 pois, ao morrer, nada levará consigo,
9 para que viva para sempre e não sofra a nem descerá com ela seu esplendor.
natural decomposição dos corpos.5 18 Ainda que, em vida, essa pessoa se pa-
10 Pois todos podem ver que os sábios rabenize, cogitando: “Todos te louvam,
morrem também, assim como perecem o porque prosperas!”,

1 Os princípios de vida ensinados neste salmo seguem a mesma linha doutrinária que vem sendo exposta desde o salmo 46.
Aqui se faz um alerta aos tolos ricos. Pessoas que depositam sua fé e confiança no poder econômico e intelectual que amealha-
ram (Sl 52). O autor levítico sabe o que é viver sem os privilégios das riquezas e já observou a arrogância e a soberba que domina
aqueles que se acham poderosos nesta terra. Sob o temor do Senhor, o salmista oferece, a todos nós, a sua sabedoria e previne
o estulto quanto a seu inexorável fim: a morte (v.14). Os justos, entretanto, alcançaram misericórdia, e, por meio do favor divino,
viverão eternamente. E essa segunda metade interminável da vida, lhes será indescritivelmente mais feliz (Mt 13.43).
2 A linguagem usada aqui pelo levita do Senhor é mais profética que sapiencial (de sabedoria, como nos provérbios). É um
aviso claro e objetivo, de Deus, quanto ao comportamento humano sob o olhar criterioso do Senhor (1Rs 22.28; Is 34.1; Mq 1.2;
Sl 34.11; Pv 1.8; 2.1; Mt 12.34).
3 A palavra de profecia e sabedoria que sai da boca do salmista deve ser ouvida e compreendida primeiro por ele mesmo, pois toda
a verdadeira sabedoria vem de Deus (Jó 28). A harpa indica o senso de inspiração que o autor possuía (1Sm 10.5,6; 2Rs 3.15).
4 A questão aqui é: por que o justo haveria de temer o tolo rico e suas maldades? As duas respostas que se seguem asseguram
que o justo deve temer apenas o Senhor, mais nada nem ninguém (vv.7-8; 13-20).
5 A primeira resposta afirma que as riquezas não podem comprar o livramento da mais terrível das desgraças: a morte; nem
mesmo um “parente influente e redentor” conseguiria tal proeza (Êx 21.30; Lv 25.47-49). Somente a pessoa do Senhor tem poder
para redimir uma vida da decomposição física e da destruição eterna (v.15; Ef 2.8,9; Gl 3.13-14; 4.3-5; 1Pe 1.18-21).
6 A segunda resposta revela que o justo não deve temer o rico e arrogante, pois, enquanto o futuro do rico sem Deus é de mi-
séria eterna (seus próprios túmulos, ricos e decorados, serão ironicamente suas casas eternas, Ec 12.5. O futuro dos que amam a
Deus e vivem em humildade de coração está reluzindo cada vez mais com a perspectiva da vida eterna no Reino.
7 O salmista emprega uma linguagem figurada da mitologia cananéia que define o deus Mot (morte), como um “devorador de
ovelhas”. Como diz um velho adágio cananeu: “Não te achegues demasiado ao deus Mot, caso contrário ele te devorará como
a um dos seus cordeiros”. O monstro da morte é o próprio guia e pastor dos arrogantes e presunçosos, aqueles para os quais o
Senhor não merece toda a atenção, muito menos os demais seres humanos (69.15; 141.7; Pv 1.12; 27.20; 30.15,16; Is 5.14; Jn
2.2; Hb 2.5). Contudo, os tolos ricos, ao morrerem, não levarão absolutamente nada consigo (Lc 12.19). Este versículo pode ser
transliterado do original Massorético desta maneira: Catson lisheol shátu, mavet yir’em, veyirdu vam iesharim labóker, vetsuram
levalot Sheol mizevul sêla.
57 SALMOS 49, 50

19 irá também para a geração de seus 9 Contudo, não tenho necessidade de ne-
pais, que nunca mais verão a luz. nhum novilho dos teus estábulos, nem
20 O homem que, na opulência, não refle- de bodes dos teus apriscos,
te, assemelha-se ao gado que se abate.8 10 pois todos os animais da floresta são
meus, como o são as cabeças de gado, aos
A essência da adoração a Deus milhares, nas colinas.
Salmo da família de Asafe. 11 Conheço todas as aves das montanhas,

50 O Todo-Poderoso, nosso Deus, se


pronunciou, convocando toda a
terra, desde o nascer do sol até o poente.
e os répteis do campo me pertencem.
12 Se Eu tivesse fome, não o diria a ti, pois
a mim pertence o mundo e tudo o que
2 Desde Sião, excelsa em beleza, Deus res- ele contém.
plandece.1 13 Por acaso comerei carne de touros e
3 É nosso Deus que se aproxima, rompendo beberei sangue de bodes?
o silêncio: precede-o um fogo devorador, e 14 Como sacrifício, oferece a Deus a tua
ao seu redor uma terrível tempestade. ação de graças e cumpre os teus votos
4 Ele convoca os céus, lá do alto, e a terra, para com o Altíssimo;
para o julgamento de seu povo:2 15 invoca-me no dia do perigo! Eu te li-
5 Congregai, junto a mim, meus fiéis vrarei, e tu me darás glória”.
que selaram aliança comigo através de 16 Entretanto, ao ímpio Deus afirma: De
sacrifício!3 que te serve repetires sem fim os meus
6 Os céus proclamam a sua justiça, por- preceitos e teres nos lábios a minha
que é o próprio Deus quem julga. aliança?5
(Pausa) 17 Tu, que detestas as minhas disciplinas
7 “Escuta, meu povo! Eu vou falar: vou e dás as costas às minhas palavras!
testemunhar contra ti, Israel. Eu Sou 18 Ao encontrar um ladrão, a ele te asso-
Deus, teu Deus: cias como amigo, e com adúlteros te mis-
8 não te repreendo pela falta de sacrifí- turas alegremente.
cios nem pelos holocaustos, pois trazes 19 Soltas facilmente a tua boca para o mal,
as tuas oferendas dia após dia.4 e tua língua é hábil para tramar mentiras.

8 Independentemente da tradição cultural, classe social e econômica, ou da capacidade intelectual de uma pessoa, sem uma
profunda conversão interior a Jesus Cristo, o Messias, em que se reverencie o Filho de Deus como Salvador pessoal, ninguém
encontrará a verdadeira, plena e eterna salvação; só lhe restará a separação definitiva de Deus, ou seja, a morte (1Jo 5.11-12).
Capítulo 50
1 Podemos observar que na transliteração do manuscrito original Massorético, aparecem, juntos, três nomes de Deus: “El
Elohim Adonai diber vayicrá árets, mimizrach shémesh ad mevoô. Mitsión michlal iofi Elohim hofía”. Outros quatro nomes de Deus
são registrados nos versículos 6,14,21 e 22. Neste salmo magnífico, a cena que contemplamos é uma teofania – o aparecimento
de Deus no meio do fogo e da tempestade, para conclamar o mundo todo para o grande tribunal do Senhor. Os nomes hebraicos
΄ēl - ´ēlõhim e jehõvã (Javé) significam Deus como “poderoso gerador de tudo o que há”; Deus, como “plural de majestade”, a
partir do que se compreende a Trindade revelada no NT; assim como o “Deus da Aliança”, que se apresenta pessoalmente ao seu
povo. Foi exatamente esse aspecto da divindade que Jesus Cristo veio revelar à humanidade.
2 Todo o universo é convocado para testemunhar o julgamento que o próprio Deus realizará contra seu povo, cujas respon-
sabilidades e faltas serão avaliadas em função dos muitos privilégios que o Senhor concedeu a seu povo durante a história da
humanidade (Am 3.2).
3 Os sacrifícios de animais faziam parte do ritual de sangue, no templo, que selava a Aliança, e continuavam a fazer parte
inseparável da expressão de fidelidade ao Senhor, dos crentes israelenses no AT (Êx 24.4-8).
4 Israel não deixara de cumprir seus rituais de sacrifício e celebrações formais (v.8), mas no seu íntimo não havia sincero e
verdadeiro espírito de gratidão e adoração a Deus, e essas são as qualidades que o Senhor mais procura nos seres humanos.
Cumprir rituais com o objetivo de apaziguar uma divindade irada era um conceito pagão que havia danosamente migrado para os
arraiais de Israel (40.6). Os legalistas são os primeiros a serem julgados: recebem crédito pelo que fazem (v.8), mas são repreen-
didos pelo espírito com que o fazem (vv.9-13) e, em seguida, são orientados a agir corretamente (vv.14-15). Portanto, a fé sincera
é o culto mais apreciável que se pode oferecer a Deus.
5 Um segundo grupo de faltosos a ser julgado refere-se aos ímpios (sem piedade ou fé), aqueles que desprezam a Lei de Deus,
mas não temem citá-la de forma hipócrita sempre a seu próprio favor (vv.16-21).
SALMOS 50, 51 58

20 Assentas-te à vontade para falar contra nhas transgressões, e trago sempre pre-
teu irmão, e és rápido para caluniar o fi- sente o horror do meu pecado.
lho de tua própria mãe! 4 Pequei contra ti, contra ti somente, e
21 Ficaria Deus calado diante de tudo pratiquei o mal que tanto reprovas. Por-
quanto tens feito? Pensavas que Eu era tanto, justa é a tua sentença, e incontes-
semelhante a ti? Eis, no entanto, que ago- tável, ao julgar-me condenado.2
ra Eu te acusarei veementemente, sem 5 Reconheço que sou pecador desde o
omitir falta alguma!6 meu nascimento. Sim, desde que me
22 Considerai, pois, nisso vós, que esque- concebeu minha mãe.3
ceis a Deus, senão vos faço em pedaços e 6 Sei que tu queres estabelecer a verdade
ninguém vos poderá libertar.7 no meu interior; e no meu coração mi-
23 Quem me oferece sua sincera gratidão nistras a tua sabedoria.
como sacrifício, honra-me, e Eu revelarei 7 Portanto, purifica-me com hissopo e
a salvação de Deus ao que anda nos meus ficarei limpo; lava-me, e mais branco do
caminhos!8 que a neve serei.4
8 Faze-me voltar a ouvir júbilo e alegria, e
Contrição e confissão de Davi os ossos que esmagaste exultarão.
Ao regente do coro. Salmo de Davi, quando o 9 Esconde o rosto do meu pecado e apaga
profeta Natã o confrontou, depois de haver ele todas as minhas iniqüidades.
cometido adultério com Bate-Seba. 10 Ó Deus meu! Cria em mim um cora-

51 Tem piedade de mim, ó Deus,


segundo a tua misericórdia; con-
forme a tua grande clemência, apaga mi-
ção puro, e renova dentro de mim um
espírito inabalável.
11 Não me afastes da tua presença, nem
nhas transgressões!1 tires de mim teu Santo Espírito!
2 Lava-me de toda a minha culpa e puri- 12 Restitui-me a alegria da tua salvação e
fica-me do meu pecado. sustenta-me com um espírito disposto a
3 Pois no meu íntimo reconheço as mi- obedecer.5

6 O silêncio misericordioso e paciente de Deus é interpretado de forma errônea e perversa pelos ímpios, com o objetivo de
construírem doutrinas que apóiem suas intenções e atos malévolos (Ec 8.11; Is 42.14; 57.11). O Senhor é o Criador e não pode
ser confundido com qualquer das suas criaturas (Êx 3.14).
7 Todos os povos do mundo devem considerar atentamente o dia do juízo final e o julgamento pessoal de cada ser humano
de todos os tempos. A palavra hebraica, aqui traduzida por “Deus” é relativamente rara nos originais dos Salmos, aparecendo
mais vezes no livro de Jó.
8 As Escrituras Sagradas, de forma geral, chamam constantemente atenção para a importância que há no falar das pessoas,
como uma indicação precisa do seu verdadeiro caráter e coração (Tg 3.1-12).
Capítulo 51
1 Este salmo é a oração humilde e sincera de um pecador consciente dos seus pecados, profundamente arrependido e dis-
posto a confiar plenamente na graça de Deus, para mudar de vida. Davi nos revela, por meio do seu próprio exemplo de vida,
a maneira correta de reagirmos à correção e disciplina que vêm da parte do Senhor contra um indivíduo ou mesmo sobre toda
uma nação (v.16 com Sl 50). Na tradição da Igreja, esta oração pertence aos chamados “sete salmos penitenciais” (veja Sl 3; 4;
6 e 25). Observe a profusão de semi-sinônimos de amor e salvação atribuídos à ação divina: piedade, misericórdia, clemência,
apagar, lavar, purificar (Lc 18.13). Quanto à tríade: transgressões, iniqüidade e pecado veja Sl 32.5.
2 Davi não tenta camuflar seu pecado, tampouco reduzir a hediondez de seus erros. Também não atribui suas faltas a causas ine-
vitáveis, ciladas da vida, outras pessoas, ou más influências. Estabelece o correto contraste entre o “tu” e o “eu” para revelar o Deus
santo e justo que observa atento o ser humano pecador. Essas conclusões levam Davi a pedir por misericórdia e não por justiça, ba-
seando sua oração no amor perdoador e purificador do Senhor (Sl 32.2). Fazer o mal é, acima de tudo, uma afronta à santidade e ao
amor de Deus. Davi evidencia profunda tristeza por ter pecado contra Deus, um sentimento de sincera frustração e arrependimento
por ter ferido o coração do Pai, não um simples desgosto e vergonha por causa das inevitáveis conseqüências do pecado.
3 Nós, humanos, somos naturalmente movidos por sentimentos pecaminosos (vontades contrárias à santidade de Deus) por
causa da nossa “natureza caída”, uma tendência inata, conhecida teologicamente como “pecado original”, e que só pode ser
controlada mediante a plenitude do Espírito Santo na vida daquele que experimenta o “novo nascimento” (Gn 3; Jo 1.12,13; 1Jo
1.9,10; Ef 2.3; Rm 3.23; 5.12).
4 O hissopo era um pequeno arbusto usado na tradicional cerimônia de purificação: com os seus ramos se espargia pelo altar de
Deus, o sangue do sacrifício e a água abençoada, como símbolo dos elementos purificadores (Êx 12.22; Lv 14.1-7; 1Rs 4.33).
5 Davi conclui que seu maior desejo na vida é reconquistar a santidade por meio da purificação que vem do Senhor. Só assim
59 SALMOS 51, 52

13 Então ensinarei os teus caminhos aos Davi entrara na casa de Abimeleque.


transgressores, para que os pecadores se
voltem também para ti.
14 Salva-me do pecado de sangue derra-
52 Por que, ó prepotente, te vanglo-
rias na maldade, para ultraje de
Deus, todo dia?1
mado, ó Eterno, Deus da minha salvação, 2 Engendras crimes; tua língua é lâmina
para que minha língua seja livre para afiada, é forjadora de intrigas.
cantar exaltando a tua justiça.6 3 Ao bem, preferes o mal; à palavra da
15 Ó Senhor, dá palavras corretas aos justiça, a mentira.
meus lábios, para que a minha boca pos- (Pausa)
sa proclamar o teu louvor. 4 Todas as palavras perniciosas te agra-
16 Não te deleitas em sacrifícios nem te dam, ó língua pérfida!2
comprazes em oferendas, pois se assim 5 O próprio Deus te destruirá para sem-
fosse, eu os ofereceria. pre; agarrando-te, te arrancará da tenda,
17 O verdadeiro e aceitável sacrifício ao para erradicar-te da terra dos vivos.
Eterno é o coração contrito; um coração (Pausa)
quebrantado e arrependido jamais será 6 Ao vê-lo, os justos, tomados de temor,
desprezado por Deus! dele escarnecerão:
18 Que te regozijes em abençoar a Sião e 7 “Eis o homem que não tomava a Deus
edificar as muralhas de Jerusalém. por seu refúgio! Porquanto, depositava
19 Então te agradarás dos sacrifícios sin- sua fé em suas muitas riquezas e, assim,
ceros, das ofertas queimadas e dos holo- tornou-se poderoso por seus crimes”.3
caustos; e novilhos serão oferecidos so- 8 Eu, porém, qual oliveira verdejante na
bre o teu altar.7 casa de Deus, confio no amor divino
para todo o sempre!
O ímpio será aniquilado por Deus 9 Eu sempre te louvarei pelo que fizeste;
Ao regente do coro. Um poema didático de Davi, na presença dos teus fiéis proclamarei o
quando Doegue, edomita, fez saber a Saul que teu Nome, porque Tu és bom!4

ele alcançará a verdadeira alegria, e isso não depende de melhor educação ou situação socioeconômica, mas sobretudo de um
“novo coração” (1Pe 1.3,23).
6 Só depois de passar pelo processo de purificação interior, mediante o perdão e o concerto de Deus, é que estamos habili-
tados a voltar a testemunhar de forma efetiva e agradável ao Senhor. Os rituais externos não são capazes de produzir o perdão
divino; Deus aguarda um verdadeiro e íntimo arrependimento, para com seu Espírito, vir socorrer e perdoar o penitente (2Sm
12.13). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta forma: Hatsilêni midamim, Elohim Elohê teshuati, teranen
leshoni tsidcatêcha.
7 Somente após o restabelecimento da íntima comunhão com Deus, mediante sincero arrependimento, perdão e propósito
santo de vida, é que a Cidade Santa e o culto no Templo passam a ter pleno valor para Deus, podendo então ser espiritualmente
restaurados e reedificados. No Sl 32, um cântico composto na época dessa restauração interior de Davi pode observar a expres-
são de alegria e louvor do coração do servo refeito, diante do seu Senhor amado.
Capítulo 52
1 Os crentes sinceros não devem sentir-se intimidados por nada e por ninguém. Os incrédulos são, quase sempre, arrogantes,
e agem sob influência do maligno. Davi nos ensina a ficar firmes na presença de Deus e, do alto dessa torre de refúgio, com uma
visão privilegiada da história e do gênero humano, lançar para baixo a denúncia profética (Is 22.15-19; 1Sm 17.45-47). Este poe-
ma, ainda que não seja exatamente um salmo de sapiência, tem muito a ver com o Sl 49. O retrato do inimigo soberbo contrasta
com a humildade do servo de Deus, no Sl 51.
2 As Escrituras Sagradas advertem para o fato de que o uso que fazemos das palavras é determinado por tudo quanto habita
no mais íntimo da nossa alma. O coração, portanto, é a fonte; e a linguagem é o rio caudaloso que parte das nossas entranhas
(Tg 3.11; Pv 4.23; Mc 7.21).
3 O inimigo arrogante terá o mesmo fim dos tolos ricos do Sl 49. Quando os justos observarem o juízo de Deus aniquilando
para sempre o perverso, temerão cair em semelhante castigo; mas acabarão se alegrando ao contemplar a vitória da causa de
Deus, da qual são participantes e herdeiros (Sl 2.4). Quem confia apenas em si mesmo está rejeitando a misericórdia e o amor
solidário de Deus.
4 O poema termina com uma nota solene de louvor; as ações de graça se referem ao passado: todos os grandes feitos de
Deus são rememorados. E a esperança projeta, para os crentes, um futuro com infinitas bênçãos que fluem da maravilhosa Fonte
Eterna, que é Deus.
SALMOS 53–55 60

A oração do pecador regenerado revelar a Saul: “Davi de fato está se escondendo


Ao mestre de música. De acordo com a me- entre nós!”
lodia solene de mahalat. Um poema sacro
de Davi.1 54 Ó Deus, salva-me por teu Nome, e
faze-me justiça por teu poder!

53 Imagina o tolo em seu íntimo:


“Deus não existe!” Corrompem-
se e praticam iniqüidade; já não há quem
2 Ouve esta minha oração, ó Deus meu;
dá atenção às palavras da minha boca.
3 Porquanto, contra mim se levantam os
faça o bem. arrogantes, e os violentos procuram ma-
2 Do céu, observa Deus os filhos dos seres tar-me; homens que desprezam a Deus.1
humanos, a fim de ver se há quem enten- (Pausa)
da, se há quem busque a Deus. 4 Verdadeiramente, Deus é o meu socor-
3 Todos se extraviaram, semelhantemente ro; é o Senhor que me sustém.2
se corromperam; não existe alguém que 5 Ele retribuirá o mal praticado pelos
pratique o bem, não existe nem mesmo meus opressores; por tua lealdade os ex-
uma só pessoa.2 terminarás!
4 Será que esses malfeitores não aprendem 6 Com grande júbilo te oferecerei sacrifí-
nunca? Eles devoram o meu povo como cios; cantarei em louvor ao teu Nome, ó
quem come pão e não respeitam a Deus? SENHOR, e proclamarei que Tu és bom!
5 Contudo, serão atingidos por um pa- 7 Pois Ele me livrou de todas as minhas
vor horrível, porém, não existirá, de fato, aflições; e os meus olhos contemplaram
motivo algum para temer! Porquanto, o a derrota dos meus inimigos!3
Eterno espalhará os ossos dos que te si-
tiaram, ó Jerusalém. Ele os humilhará e Súplica do perseguido
os tornará objeto de desprezo!3 Ao regente do coro: com instrumentos de corda.
6 Ah, se de Sião viesse a salvação para Isra- Um poema sacro de Davi.
el. Quando Deus restaurar a sorte do seu
povo, Jacó exultará e Israel se rejubilará! 55 Ó Deus, presta ouvido à minha ora-
ção e não ignores a minha súplica!
2 Atende-me e responde-me! Sinto-me
Apelo por socorro divino perplexo em minha queixa,1
Ao regente do coro: com instrumentos de corda. 3 conturbado com a gritaria dos meus
Um poema de Davi, quando os zifeus vieram inimigos e a opressão dos ímpios,

1 A expressão original hebraica mahalat, cujo significado está ligado ao “padecimento sob as zombarias dos ímpios” (Sl 88;
102), traz o sentido de solenidade litúrgica, à melodia. Este salmo é considerado como uma segunda edição do Sl 14.
2 O Espírito de Deus revela a Davi que, embora a sociedade humana faça distinção entre pessoas e pessoas, não existe um
só ser humano absolutamente justo e bondoso: todos nós somos pecadores e carecemos da graça misericordiosa e salvadora
do Senhor (Rm 1 a 3).
3 Se o amor e o perdão divinos, por meio da pessoa de Jesus Cristo, são rejeitados (Jo 14.6); então, infelizmente, nenhuma
alternativa existe, senão as duras conseqüências naturais do pecado, da humilhação e do afastamento eterno de Deus. Davi ora
para que Israel seja salva do destino dos ímpios (v.6). Este versículo pode ser transliterado a partir dos originais hebraicos desta
forma: Sham pachadu fáchad lo haia fachad, ki Elohim pizar atsmot chonach, hevishôta ki Elohim meassam.
4 Este versículo pode ser assim transliterado: Mi yiten mitsión ieshuót Yisrael, beshuv Elohim shevut amo, iaguel Iaacov
yismach Yisrael.
Capítulo 54
1 Típica oração do Saltério, na qual Davi pede a expressa intervenção de Deus contra seus inimigos que planejam assassiná-lo (Sl 3; 4
e 13). O título no original hebraico se refere ao evento ocorrido em 1Sm 23.19. Davi suplica que o Senhor julgue sua causa (Sl 17).
2 A confissão de plena confiança no Senhor é o ponto central deste poema de Davi (Sl 42.8).
3 A oração de fé é aquela em que o servo de Deus reconhece a soberania de Deus e tem absoluta certeza de que o Senhor fará
o melhor; nem sempre o que desejamos de imediato, mas sempre o que nos conduzirá a um bem maior e à felicidade eterna.
Portanto, em vez da dúvida, devemos alimentar a fé, por meio da expressão de louvor e sincera gratidão pela resposta do Pai
(Sl 3.8; 5.11; 7.17).
Capítulo 55
1 Davi busca forças e socorro em Deus para vencer uma poderosa conspiração que foi armada contra ele, em Jerusalém, sob
61 SALMOS 55, 56

porque descarregam sobre mim suas 17 De tarde, de manhã e ao meio-dia, lamen-


maldades e me atacam com fúria. to angustiado, e Ele ouve a minha súplica.
4 Em meu peito agita-se o coração, terro- 18 Ele me resgata ileso da batalha, sendo
res mortais caíram sobre mim. muitos os que estão contra mim.4
5 Temor e tremor me invadiram, e cobre- 19 Deus, que reina desde sempre, me ou-
me o pavor. virá e os humilhará!
6 Então, eu declarei: “Quem me dera ter (Pausa)
asas de pomba para voar e encontrar um Pois os ímpios jamais mudam seu modo
abrigo!” de agir e não têm o temor de Deus.
7 Sim, eu fugiria para longe, para ficar no 20 Quem estendeu as mãos contra os seus
deserto. aliados, profanou sua própria aliança.
8 Procuraria, às pressas, um refúgio segu- 21 Sua fala é mais macia que a manteiga,
ro contra a tormenta e as tempestades. contudo a guerra habita em seu íntimo;
9 Ó Senhor, destrói os ímpios; confunde suas palavras são mais suaves que o azei-
a língua deles, pois vejo violência e brigas te puro, todavia são afiadas e perigosas
na cidade.2 como o punhal.
10 Dia e noite, fazem ronda sobre mura- 22 Entrega tuas preocupações ao SENHOR!
lhas. Lá dentro, maldade e crimes. Ele te sustentará; jamais permitirá que o
11 A destruição impera dentro da cidade; justo venha a cair.5
a opressão e as fraudes jamais abando- 23 No entanto, tu, ó Deus, farás descer ao
nam suas ruas. abismo da destruição todos aqueles as-
12 Não é apenas um simples inimigo que sassinos e traidores, os quais não conse-
me insulta – eu o suportaria – não é um guirão viver nem a metade dos dias que
adversário que se levanta contra minha lhes estavam reservados. Eu, porém, de-
pessoa – eu dele me defenderia – posito toda a minha confiança em ti!
13 mas és tu, meu companheiro, meu
confidente e amigo mais chegado. Confiança em Deus na angústia
14 Justamente tu, com quem eu partilha- Ao regente do coro: segundo a melodia “Uma
va da mais agradável e íntima comunhão, Pomba em Carvalhos Longínquos”. Hino de
enquanto caminhávamos com a multi- Davi, quando os filisteus estavam para prendê-
dão festiva em direção à Casa de Deus!3 lo em Gate.
15 Portanto, que a morte apanhe meus
inimigos de surpresa! Que todos eles
desçam vivos à sepultura, pois entre eles
56 Tem piedade de mim, ó Deus! Por-
quanto há pessoas que me afligem.
Eles me atacam e me oprimem sem trégua.
o mal achou morada. 2 Esses caluniadores me agridem sem pa-
16 Eu, porém, clamo a Deus e o SENHOR rar; muitos se insurgem arrogantemente
me salvará! contra mim.

a liderança de um de seus amigos íntimos. Uma situação muito semelhante à traição de Absalão contra o rei (2Sm 15 a 17). Davi
aprende que não há lugar mais protegido e afastado das garras do mal que os braços do Senhor (vv.6,8,22; Jr 9.2-6).
2 Davi pede a Deus que produza confusão entre seus inimigos, assim como ocorreu em Babel (Gn 11.5-9; 2Sm 17.1-14).
3 Ofensas, tramas e violências de um inimigo são atitudes esperadas; no entanto, como suportar a traição de um amigo em
quem se confia (v.20; Sl 41.9)?
4 Davi clama, dia e noite, ao Senhor, por livramento e reparação (Dn 6.10). E que Deus abrevie os dias dos seus inimigos na
terra para que diminuam suas chances de arrependimento e perdão (v.23; Nm 16.29-33; Pv 1.12; Is 5.14). Davi confia totalmente
no resgate que vem do Senhor (Is 50.2; Jr 31.11).
5 É Deus quem julga e castiga os ímpios e malfeitores, aqueles que desprezam o verdadeiro ensino da Palavra, vivem pecando
e jamais aprendem a praticar o bem (Sl 14; 53 e 36.1). A expressão original hebraica traduzida por “aliado” significa literalmente:
“aqueles que estão em paz com o salmista”. Diante de todas as pessoas reunidas no Templo, Davi expressa sua total confiança
no auxílio do Senhor, por isso pode descansar de suas angústias e frustrações mais perturbadoras (vv.16-23; 1Pe 5.7). Este último
versículo, no original hebraico, pode ser assim transliterado: Veata Elohim toridem liveer sháchat, anshê damim umirmá lo iechetsú
iemehém, vaani evtach bach.
SALMOS 56, 57 62

3 Todavia, quando o medo me atacar, meus pés de tropeçarem, a fim de que eu


confiarei em ti!1 caminhe diante de Deus, na luz que ilu-
4 Em Deus, cuja Palavra eu louvo, em mina os vivos!3
Deus, eu deposito toda a minha confian-
ça, e nada temerei. O que poderá fazer- O perfeito refúgio está em Deus
me o simples mortal? Ao mestre de canto. De acordo com a melodia
5 Todo dia, escarnecem de minhas pala- “Não Destruas”. Um hino de Davi, quando
vras; seus pensamentos são todos contra fugiu de Saul e abrigou-se numa caverna.
mim, para o mal.
6 Eles iniciam as hostilidades, espiam-me,
vigiando meus passos. Porque atentaram
57 Tem misericórdia de mim, ó Deus,
tem piedade de mim! Pois em ti a
minha alma encontra refúgio. Eu me re-
contra a minha vida, fugiarei à sombra das tuas asas, até que
7 deixa-os escapar para a desgraça, der- passe o perigo que me persegue.1
ruba essa gente, ó Deus, em tua ira! 2 Clamo a Deus, o Altíssimo, ao Deus que
8 Tu mesmo anotaste o meu lamento; sempre me dispensou sua proteção.2
recolhe em teu odre as minhas lágrimas! 3 Dos céus Ele me enviará o seu livra-
Ora, acaso não registras tudo em teu mento e a salvação, me protegerá com
Livro?2 seu amor misericordioso e fará fracassar
9 Meus inimigos baterão em retirada todos os intentos daqueles que me perse-
no dia em que eu clamar por socorro. E guem impiedosamente.
assim ficará claro que Deus está a meu (Pausa)
favor! 4 A minha alma está cercada por leões
10 Em Deus, cuja Palavra eu exalto – no ferozes, tenho de repousar entre ho-
SENHOR, cuja Palavra eu proclamo – mens perversos, que por dentes têm
11 neste Deus, deposito toda a minha fé, lanças e flechas e, por língua, uma es-
e nada temerei: o que poderá fazer-me o pada afiada!3
ser humano? 5 Ó Deus, eleva-te sobre os céus e sobre
12 Assumo, ó Deus, os votos que te fiz; a Ti toda a terra, com tua glória!4
apresentarei as minhas ofertas de gratidão. 6 Estenderam uma rede para os meus
13 Porquanto me livraste da morte e os passos: isso abateu minha alma. Diante

1 O medo é sempre paralisante. Mas Davi confia no Senhor e em sua Palavra, e essa fé lhe dá forças e a liberdade de agir e
ver as maravilhas de Deus (1Sm 21.10-15; Sl 3; 4; 9; 34). A principal arma dos inimigos é a calúnia (Sl 5.9), e a arrogância lhes
dá a falsa impressão de poder, desconsiderando o Deus de Davi (Sl 10.11). Davi afasta o medo e a insegurança por meio da fé
na Palavra de Deus (vv.3,4).
2 Esta é uma forma figurada de expressar a onisciência e a atenção de Deus para conosco: que sonda nossos corações e
conhece todas as nossas intenções, conflitos e vontades. Deus é pelo crente, a cruz de Cristo é a maior prova, as Sagradas
Escrituras a maior revelação, e o Espírito Santo, a grande e definitiva confirmação (Rm 8.31-39).
3 Davi demonstra sua fé ao escrever como se sua oração já tivesse sido plenamente atendida pelo Senhor. Reconhece que
agora deve cumprir os votos que fez a Deus, quando estava passando por graves aflições (Sl 66.14; 7.17). O Espírito de Deus é a
grande luz que ilumina o caminho daqueles que recebem a bem-aventurança da verdadeira vida (Sl 36.9).
Capítulo 57
1 Davi suplica a proteção de Deus diante da perseguição implacável de seus inimigos (1Sm 24.1-3; Sl 142). Neste salmo Davi
usa a linguagem figurada dos elementos assustadores de uma noite no deserto e a esperança que nasce com o amanhecer.
Estabelece ainda muitas ligações com o Sl 56 e vários outros (Sl 30.5; 46.5; 59.6-16; 63.1-6; 90.14; 108.1-5).
2 Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta forma: Ecra lelohim elion, lael gomer alai.
3 Os salmistas freqüentemente usavam a metáfora de animais selvagens e predadores, para identificar seus inimigos humanos
mas impiedosos. O caráter dessas pessoas é sempre o mesmo: procuram caluniar e defraudar violentamente seu próximo, en-
gendrando ciladas e provocando todo o mal possível, a fim de alcançarem seus objetivos escusos; agem da mesma forma que
Satanás, seu mestre (1Pe 5.8).
4 A glória de Deus se revela sempre que resgata os justos e castiga os ímpios. Um maravilhoso exemplo dessa manifestação da
glória do Senhor ocorreu na formação da nação de Israel (Êx 12 e 20) cuja história percorre toda a Bíblia, passando pela glória da
nossa Salvação em Cristo, e culminando no estabelecimento definitivo do Reino de Deus e da Nova Jerusalém (Ap 21.1,2).
63 SALMOS 57, 58

de mim cavaram um fosso: porém, eles todos aqueles que vivem mentindo;3
mesmos nele caíram.5 4 seu veneno se assemelha ao de uma ter-
(Pausa) rível serpente; tapam os ouvidos como
7 Meu coração está disposto, ó Deus, meu uma víbora que se faz de surda
coração está livre do medo: quero cantar 5 para não dar atenção à música dos en-
e entoar louvores. cantadores, nem à voz daqueles que têm
8 Desperta, ó minha alma! Harpa e salté- a habilidade de dominá-las.4
rio, despertai! Quero despertar a aurora.6 6 Ó Eterno, arrebenta os dentes desses
9 Graças te darei, Senhor, entre as nações leões selvagens e arranca, ó SENHOR, as
te cantarei louvores, presas dessas feras!
10 pois teu amor se eleva até os céus e tua 7 Que desapareçam como água que es-
fidelidade, até as nuvens. corre! Quando empunharem o arco, que
12 Ó Deus, eleva-te sobre os céus e sobre suas flechas embotem e caiam ao chão
toda a terra, com tua glória! antes de serem disparadas.
8 Que andem como a lesma que se ar-
Deus destruirá todos os ímpios rasta até derreter; que sejam como feto
Para o mestre de música. Também conforme abortado, não vejam eles o sol!
a melodia “Não Destruas”. Um michtam de 9 Os ímpios serão varridos do mundo
Davi.1 pela fúria de Deus, antes que seus espi-

58 Acaso fazeis verdadeiramente jus-


tiça, ó poderosos da terra? Aca-
so julgais com eqüidade todos os seres
nhos peçonhentos se enrijeçam!
10 O justo se alegrará, ao contemplar o
castigo com o qual o Eterno os punirá,
humanos?2 ao ver sob seus pés escorrer o sangue dos
2 Não! Vossas mentes tramam continua- perversos.
mente iniqüidades e, com vossas próprias 11 Compreenderão e proclamarão, então,
mãos distribuís injustiça pelo mundo. os homens: “Verdadeiramente há recom-
3 Desde o nascimento se rebelaram os pensa para o justo; sim, Deus existe! Ele
ímpios e se desviaram do Caminho certo faz justiça sobre toda a terra!”5

5 Esta é uma das máximas bíblicas: todos quantos armarem ciladas e maldades contra seus semelhantes, mais cedo ou mais
tarde, serão apanhados em suas próprias redes.
6 Davi, pela fé, celebra o livramento que vem do Senhor (Is 51.9,17; 52.1). A expressão original hebraica, kābôd, significa
“alma”, quando usada em paralelo com os elementos vitais do ser humano. Todo crente que consegue sintonizar-se com a von-
tade de Deus terá motivos para cantar louvores a Deus, sejam quais forem as circunstâncias pelas quais estiver passando, pois o
Senhor cuida com carinho de todos, especialmente de seus filhos amados (Jo 1.12).
Capítulo 58
1 A expressão hebraica original michtam significa “um poema epigráfico”, ou hino elaborado a partir de “um poema de Davi”
(Sl 4; 9; 16; 57; 59; 75).
2 O poder judiciário era o principal recurso oferecido pelas sociedades do antigo Oriente Médio para proteção dos inocentes e
pobres contra o ataque dos inescrupulosos, geralmente ricos, influentes e poderosos; no original hebraico, esta expressão – po-
derosos da terra – tem o sentido de “deuses”, como que representantes (juízes) terrestres do tribunal celestial de Deus (Êx 21.6;
22.8,9; Dt 1.17; 2Cr 19.6). A sociedade israelita sofria com a corrupção dos altos representantes do poder judiciário desde os dias
do profeta Samuel, passando pela época de Davi, até o final da era monárquica (1Sm 8.3; 2Sm 15.1-4; Is 1.23; 5.23; 10.1,2; Ez
22.6,12; Am 5.7-13; Mq 3.1-11; 7.2).
3 Davi não faz esta afirmação em relação a todas as pessoas, mas especificamente contra os ímpios, aqueles cujo compor-
tamento maldoso e corrupto não é esporádico ou premido por necessidade extrema; ainda que, também, seja um grave erro
passível de punição, mas por causa de uma natureza pecaminosa, caída e depravada (Sl 10; 51.5; Jo 8.44).
4 O que sai da boca dos ímpios é tão malicioso, cruel e mortal como o veneno das serpentes mais peçonhentas. Não há argu-
mentos ou pessoa que os possa demover de seus intentos maléficos e destruidores (Sl 140.3; Mt 23.33; Tg 3.8). O texto original
hebraico dos vv.5 e 6 pode ser assim transliterado: Chamat lamo kidmut chamat nachash, kemo féten chéresh iatem ozno. Asher
lo yishmá lecol melachashim, chover chavarim mechucam.
5 O tempo passa muito depressa e, em breve, o Senhor julgará os “deuses” (os juízes e os poderosos da terra). Todo o mundo
verá o triunfo majestoso do direito sob o governo justo de Deus. O sentimento de indignação e frustração diante do atual estado
de injustiça mundial será plenamente saciado: o ímpio pecador receberá seu merecido pagamento (a morte eterna), e a grande
recompensa da glória eterna será plenamente outorgada aos crentes fiéis (Rm 6.23).
SALMOS 59 64

Oração do perseguido meus inimigos!


Ao regente do coro, de acordo com a melodia 11 Todavia, não os mates, ó Senhor, nosso
“Não Destruas”. Poema de Davi, quando Saul escudo, para que meu povo não esqueça
mandou que lhe sitiassem a casa para o matar.1 como nos salvaste. Em teu poder faze-os
59 Ó Deus, livra-me dos meus inimigos,
protege-me dos meus agressores!
2 Livra-me dos malfeitores, salva-me dos
vaguearem humilhados.
12 Por causa de suas palavras mentirosas
e seus lábios pecadores, sejam vitimados
homens sanguinários! por sua própria arrogância, e pelas mal-
3 Ei-los em emboscadas para tirar a mi- dições e calúnias que propagaram.
nha vida! Poderosos me espreitam, sem 13 Destrói-os em tua ira santa, dá-lhes fim
transgressão alguma da minha parte, ó para que não mais possam existir, e para que
SENHOR. até os confins da terra se possa saber que o
4 Mesmo que não pesem sobre mim ini- Eterno é quem reina sobre o povo de Jacó!
qüidades, eles se apressam em preparar- (Pausa)
se para agredir-me. Observa o que acon- 14 Eles retornam ao pôr-do-sol, rosnan-
tece e intervém em meu auxílio! do e rondando a cidade.
5 Ó Eterno, Senhor dos Exércitos, Deus 15 Em busca de comida perambulam e, se
de Israel, vem e julga o procedimento de não ficam satisfeitos, uivam pela noite.
todas as nações; não tenhas misericórdia 16 No entanto, eu cantarei louvores à tua
desses traidores perversos! fidelidade, porquanto tu és o meu alto
(Pausa) refúgio, abrigo seguro, especialmente nas
6 Eles voltam ao cair da tarde; rosnando épocas de crise.
como cães, rodam a cidade. 17 Ó minha Fortaleza, hinos cantarei em
7 Vê como de suas bocas provêm ame- teu louvor, pois tu és, ó Deus, a minha
aças mortais; palavras cortantes como suprema proteção, ó Deus cujo amor
espadas estão em seus lábios, e bramem: tem me abençoado!4
“Há alguém que nos ouça?”2
8 Contudo, tu, ó Eterno, deles te ris, zom- Uma oração em tempos de guerra
bas da arrogância de todas as nações! Para o mestre de música. Conforme a melodia
9 Ó minha Fortaleza, em ti espero! Tu, ó “Os Lírios da Aliança”. Poema de Davi, para
Deus, és o meu supremo refúgio.3 instrução. A história de Davi, quando lutou
10 Meu Deus misericordioso, certamen- contra os arameus da Mesopotâmia e, depois,
te, virá em meu resgate; Ele me propor- da Síria. E quando Joabe, regressando, derrotou
cionará a alegria de triunfar sobre os de Edom, doze mil guerreiros no vale do Sal.1

1 Esta oração, em forma de poema hebraico, foi escrita originalmente por Davi como está explícito no cabeçalho do Salmo.
Com o passar do tempo, seus régios filhos revisaram o texto deste hino de súplicas e louvor a Deus, aplicando-o às crises e,
especialmente, aos graves sítios militares pelos quais Jerusalém passou, enfrentando ataques de muitas nações, ao longo da
história (v.1). Como, por exemplo, na época do rei Ezequias, quando foi sitiada pelos assírios (2Rs 18.19). O próprio Neemias teria
adaptado e orado algumas vezes este salmo com o povo de Israel, quando da reconstrução dos muros de Jerusalém (Ne 4).
2 Davi usa a metáfora da “noite” como símbolo do perigo iminente e da “aurora” como prenúncio do livramento e da salvação
(vv. 6,14,16; Sl 57). O inimigo cria muitos ardis, mas sua arma mais importante é a “língua”, o poder das calúnias, difamações e
maldições. O salmista suplica a Deus que julgue os que fazem injustiça (Sl 58.11). O ataque contra Davi era, naquelas circunstân-
cias, uma poderosa investida contra a nação de Israel, tramada, inclusive, por gente que se dizia amiga de Israel; literalmente em
hebraico: traidores (1Sm 1.3; 19.11; Sl 5.10; 7.6).
3 Este trecho, no original hebraico, pode ser assim transliterado: Uszo elêcha eshmora, ki Elohim misgabi. O salmista usa a
expressão “esperar” como alguém que tendo padecido a noite toda, aguarda com ansiedade e esperança pelo amanhecer de
um novo dia e a chegada do livramento e da salvação (Sl 130.6).
4 Somente o crente que aprendeu a depositar toda a sua confiança em Deus consegue descansar e cantar hinos de gratidão
ao Senhor, em meio às mais difíceis crises e aflições. O apóstolo Paulo foi um desses crentes que aprendeu a atravessar noites e
noites de provações, certo de que com a aurora viria a salvação do Pai amoroso (At 16.23-26; Cl 3.15-17).
Capítulo 60
1 Este salmo foi originalmente composto e orado pelo próprio rei Davi (v.9), suplicando o perdão de Deus e a restauração de
65 SALMOS 60, 61

60 Ó Eterno, ao nos abandonares, Tu


nos alquebraste; Tu derramaste tua
ira contra nós; agora, pois, restaura-nos!2
minhas mãos, em Edom lanço a minha
sandália; sobre a Filístia proclamo o meu
brado de vitória!”7
2 Reintegra nossas forças; fizeste estre- 9 Quem me conduzirá à cidade fortifica-
mecer a terra e a fendeste; restaura esta da? Pudesse eu chegar agora até Edom!
brecha antes que desmorone. 10 Contudo, Tu nos rejeitaste, ó Eterno, e
3 Severidade demonstraste a teu povo; não marchas com nosso exército.
um vinho que nos tornou cambaleantes 11 Dá-nos a tua ajuda contra o inimigo,
nos deste a beber. porquanto inútil é o auxílio dos homens!
4 Concede aos que te reverenciam um estan- 12 Só com Deus conquistaremos a vitória,
darte a ser seguido, em nome da verdade.3 pois é Ele quem destrói todos os nossos
(Pausa) adversários!
5 Salva-nos com tua mão direita e res-
ponde às nossas súplicas, para que sejam Oração pela restauração do rei
libertos aqueles a quem amas.4 Ao regente do coro: com instrumentos de corda.
6 Do seu santuário Deus falou: “No meu Um poema de Davi.
triunfo dividirei Siquém e repartirei o
vale de Sucote.5
7 Gileade a mim pertence, assim como
61 Ouve, ó Eterno, a minha súplica e
atenta à minha prece.
2 Quando fraqueja meu coração, mesmo
Manassés; Efraim é meu capacete, Judá é dos confins da terra clamo a Ti, com o
o meu cetro.6 coração abatido; coloca-me a salvo sobre
8 Moabe é a vasilha sobre a qual lavo a rocha mais elevada e inexpugnável!1

sua santa comunhão com a nação de Israel, derrotada e afligida que fora pelos exércitos de uma nação gentia como Edom, que
soube tirar proveito da concentração do exército israelita no Norte e destruiu as fracas guarnições que vigiavam as fronteiras do
sul de Judá (2Sm 8; 10; 1Cr 18; 2Cr 20). O lamento de Davi liga este poema ao Sl 44 e reaparece no Sl 108.6-13, um dos muitos
hinos que visavam transmitir confiança em Deus, em tempos de ameaças e guerras (Dt 31.19-21; 2Sm 1.18).
2 Uma característica marcante da teologia do AT é entender qualquer derrota ou insucesso como demonstração da ira de Deus
contra algum pecado cometido. Davi está expressando a dor do seu povo e o sentimento geral de que Deus os havia punido com
severa derrota e a morte de muitos soldados. Entretanto, não há indicação real alguma de que Deus – em algum momento – tenha
quebrado seu vínculo de Aliança com Israel. As punições do Senhor são todas disciplinadoras e em benefício do seu povo, como
um Pai que sofre ao ter de ser severo na educação de seu filho (Dt 8.5; Jó 5.17; Pv 13.24; 1Co 11.32; Hb 12.10).
3 Este “estandarte” era uma bandeira usada como sinal para demarcar os locais onde as tropas deviam concentrar-se para
a batalha. Assim também, tais bandeiras eram usadas para guiar os exércitos durante as investidas contra os inimigos (Is 5.26;
11.10,12; 13.2; 18.3; 30.17; 49.22; 62.10; Jr 4.21; 50.2; 51.12,27). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta
forma: Natáta lireêcha nes lehitnosses, mipenê cóshet (Sêla).
4 A expressão “a quem amas” traduzida a partir dos melhores e mais antigos originais em hebraico, corresponde a uma palavra
de “carinho particular e especial”. Este versículo pode ser assim transliterado: Lemáan iechaletsun iedidêcha, hoshía ieminechá
vaanêni. Essa mesma expressão especial para identificar o amor indestrutível e sacrificial que Deus tem para com os seus aparece
em Sl 127.2; 2Sm 12.25 e Jr 11.15.
5 Palavra de poder e consolo que vem do Senhor Deus para seus filhos, relembrando os tempos da conquista de Canaã, e
preservada na história no “Livro das Guerras do Senhor” (Nm 21.14). O Senhor é o nosso Rei Triunfante (Êx 15.3-18). Ele dividiu,
entre seu povo, o território conquistado nas batalhas. Sucote e Siquém são lugares que exemplificam as terras conquistadas a
oeste e leste do Jordão (Gn 33.17,18; 1Rs 12.25).
6 De Judá havia chegado o regente que o Senhor pessoalmente escolhera para reinar sobre seu povo na terra (1Sm 16.1-13;
2Sm 7). Uma simbologia poderosa sobre a vinda de Jesus Cristo, o definitivo e perpétuo Rei e Leão da Tribo de Judá (Ap 5.5).
7 Aqui estão representados os inimigos de Deus, que espreitavam os israelitas nas fronteiras leste, sul e oeste (Êx 13.17 com
15.14,15 e Nm 20.14-21). A metáfora usada em relação a Moabe tem a ver com o fato de esse adversário viver ao longo da praia
leste do mar Morto (Gn 18.4). O ato de se atirarem as sandálias num local era tradicionalmente reconhecido como um gesto pú-
blico de reivindicação do direito de posse daquela terra (Rt 4.7). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta
forma: Moav sir rach’tsi, al Edom ashlich naali, alai peléshet hit’roái.
Capítulo 61
1 Davi compôs esta súplica poética a Deus, na época em que fugia de Absalão (2Sm 17.21-29). O tema deste salmo, como de
alguns que se interligam, é a expressão de plena confiança no amor e na ação poderosa do Senhor, em favor dos seus, mesmo
em meio às mais terríveis perseguições e crises da vida. Na frase “mesmo dos confins da terra”, a idéia de exílio tem um duplo
sentido: refere-se tanto ao afastamento forçado da terra natal, quanto à iminência da morte. O salmista encontrava-se à beira do
SALMOS 61, 62 66

3 Pois Tu tens sido o meu refúgio, uma 4 O maior objetivo deles é derrubá-lo de
fortaleza diante do meu inimigo. sua posição elevada; eles se deliciam com
4 Possa eu morar sempre sob tua tenda e mentiras. Bendizem-no com suas bocas,
abrigar-me à sombra das tuas asas. enquanto o amaldiçoam em seus cora-
(Pausa) ções.2
5 Ouviste, ó Eterno, os votos que te fiz; (Pausa)
assegura a herança de todos aqueles que 5 Contudo, somente no Eterno espera a
te reverenciam e temem o teu Nome.2 minha alma, em silêncio, pois Ele é que
6 Acrescenta dias aos dias de existência me traz a esperança!
do rei e que se estendam, por gerações, 6 Ele é minha Rocha, minha Salvação,
seus anos de vida.3 minha torre inexpugnável. Por isso não
7 Que lhe seja outorgado o direito de se desesperarei jamais!
assentar em seu trono, na presença de 7 A minha salvação e a minha honra de-
Deus; envia o teu temor e a tua lealdade pendem somente de Deus; Ele é a rocha
para protegê-lo! da minha fortaleza, a segurança do meu
8 Assim, com salmos, hinos e canções, abrigo!3
para sempre exaltarei o teu Nome, cum- 8 Confia sempre em Deus, ó povo meu!
prindo os meus votos cada dia. Perante sua presença derrama todo o co-
ração; Ele é o nosso refúgio seguro.
Exortação à confiança em Deus (Pausa)
Ao mestre de canto. Ao estilo da melodia de Je- 9 Vãs são as palavras dos homens, men-
dutum. Um salmo de Davi. tirosas são as afirmações dos poderosos;

62 Só em Deus está o descanso, ó


minha alma: dele vem a minha
salvação.1
colocadas todas juntas numa balança
nada pesam!
10 Não depositeis na opressão, vossa con-
2 Só Ele é minha rocha e salvação, meu ba- fiança; nem no estelionato, a esperança;
luarte. Ele jamais me deixará desesperar! ainda que prosperem, não lhes deis aten-
3 Até quando atacareis, todos juntos e ção.
traiçoeiramente, um só homem, para 11 Uma vez declarou Deus e duas lições
abatê-lo, como se fora uma parede desa- ouvi: o poder pertence a Deus,4
prumada, uma cerca a desabar? 12 e a bondade é tua, ó Eterno, pois Tu

mundo do além (Sl 63.9). O lugar seguro e confortável almejado pelo salmista que padece é o ambiente e a presença soberana
do próprio Deus, nossa “rocha perpétua de refúgio” (Sl 18.2; 31.2; 62.2-7; 71.3; 94.22).
2 Davi recorre ao Senhor, pois Deus nunca lhe faltara: o salmista jamais ficou sem resposta, consolo e abrigo divino. Ainda
que seja diante da morte, o Senhor é nosso maior refúgio e segurança (Sl 14.7; 49.14-15; 68.20; Jó 33.22-24; Is 25.8; 28.15-16;
Jr 9.21; Os 13.14 com 1Co 15.26).
3 O salmista lança um olhar profético para além de sua própria pessoa, reinado e circunstâncias, vislumbrando seu descenden-
te divino, que ainda estava para vir e estabelecer, no final dos tempos, seu grande, inabalável e eterno Reino (Lc 1.32-33).
Capítulo 62
1 Ao ser perseguido e ameaçado pelos familiares de Saul, o rei Davi olha para a multidão dos conspiradores, mas fixa sua fé
no amor e no poder do Senhor. A plena confiança em Deus é a total exclusão de todas as esperanças menores oferecidas pelo
mundo em que vivemos. Nosso livramento e salvação, assim como todas as demais bênçãos, procedem de Deus, o Eterno (como
a ele se referem os originais hebraicos), que a todos dá generosamente (Tg 1.5,17). Nenhum outro salmo de Davi é mais eloqüen-
te em relação à expressão de uma fé inabalável e singela em Deus (Sl 31; 61). O texto deste versículo pode ser transliterado do
original hebraico da seguinte maneira: Ach el Elohim dumitá nafshi, mimênu ieshuati. A expressão “silêncio” é interpretada como
“descanso” ou “em repouso” (v.5).
2 A metáfora da parede ou muro instável e prestes a ruir é comum nos provérbios orientais. Os covardes, ardilosos e calunia-
dores encontram, na maldade, a perfeita expressão da sua natureza pecaminosa.
3 Temos grande necessidade de parar e meditar sobre tudo aquilo que Deus é e pode. Se o Senhor ainda não significa para
nós o que Davi declara aqui, então precisamos urgentemente nos aproximar do Pai com um coração humilde e penitente (v.8;
Lm 2.19; Jo 14.1-16).
4 Davi conclui seu hino de exortação à absoluta confiança em Deus, com a proclamação do poder, da graça e da justiça do
Senhor; declaração que deu origem às mais belas e poderosas doxologias do NT (Rm 16.25; Ef 3.20; Jd 24).
67 SALMOS 62–64

recompensas o ser humano, conforme truição serão lançados às profundezas da


seus atos! terra!4
10 A espada os ferirá e se tornarão pasto
Anseio da alma por Deus para os chacais.
Salmo de Davi, quando estava no deserto de Judá. 11 O rei, porém, se alegrará em Deus; to-

63 Ó Eterno, Tu és o meu Deus e a Ti


eu busco dia e noite; a minha alma
tem sede de Ti! Todo o meu ser anela
dos os que juram pelo Nome de Deus o
louvarão todavia, as bocas dos mentiro-
sos serão lacradas.5
pelo refrigério da tua presença numa ter-
ra árida, exausta e sem água.1 Proteção contra as injustiças
2 Recordo-me dos dias em que te con- Para o mestre de música. Um salmo davídico.
templei no santuário, para me embeber
de teu poder e de tua glória.2
3 Porquanto melhor que a própria vida
64 Ouve, ó Eterno, minha voz, quan-
do expresso meu lamento; protege
a minha vida do inimigo ameaçador.1
é o teu amor leal e misericordioso! Por 2 Defende-me da conspiração dos ímpios
isso, os meus lábios te exaltarão sobre- e da ruidosa multidão dos perversos.
maneira. 3 Eles afiam suas línguas como espadas,
4 Sim, por toda a minha vida eu Te ben- e como flechas disparam suas palavras
direi e erguerei meus braços invocando o cheias de veneno.
teu Nome. 4 E de suas trincheiras ocultas atiram con-
5 Como num rico banquete, assim minha tra o homem íntegro; atacam, de embos-
alma ficará plenamente satisfeita e, com cada, sem o menor receio da justiça.2
alegria nos lábios, te louvará minha boca. 5 Estão absolutamente dominados pela mal-
6 Em meu leito, durante as noites de vi- dade, conspiram para tramar ciladas e argu-
gília, lembrar-me-ei de Ti e meditarei so- mentam entre si: “Quem nos descobrirá?”
bre a tua bondade.3 6 Tramam a injustiça e declaram: “Fizemos
7 Porque tens sido meu socorro, e à sombra um plano perfeito!” A mente e o coração de-
das tuas asas canto louvores de alegria. les buscam legitimar os crimes cometidos.
8 Minha alma a Ti se une, e tua destra me 7 Entretanto, é Deus quem dispara con-
sustenta. tra eles uma flecha e, de pronto, os fere
9 Aqueles que procuram a minha des- de morte.3

1 Assim como o Sl 62, este poema do rei Davi (2Sm 15.23-28; 16.2-23) tem, implícita, uma oração e foi muito usado nas orações
públicas da igreja primitiva. O progresso a partir do ouvir e a metáfora da noite que simboliza as crises e os perigos em contraste
com a aurora de um novo dia, que traz a salvação do Senhor (vv. 2,6; 48.8; 57), são as marcas da sua estrutura, cuja expressão
inicial de anseio dá lugar à alegria triunfal daqueles que confiam em Deus.
2 As reflexões consoladoras de Davi evocam os sentimentos que experimentou na presença de Deus, no santuário, e que desper-
tam expectativas jubilosas de vitória (vv.2-5). Ainda que algumas de nossas atitudes sejam desabonadoras, a graça perdoadora do
Senhor pode nos alcançar em nosso deserto pessoal e conduzir-nos para o oásis da perfeita paz e abundância (Sl 84.4-7).
3 Davi descobriu a melhor maneira de aproveitar as horas de insônia. Quem busca ao Senhor encontra satisfação para a alma
(v.5), memórias agradáveis e de confiança em Deus (v.6) e segurança absoluta (v.7).
4 Os inimigos dos filhos de Deus que tentarem prejudicá-los ou atentarem contra suas vidas, receberão, do Senhor, justo cas-
tigo e poderão perder suas próprias vidas (Gn 9.5; Êx 21.23; Dt 19.21 com Sl 5).
5 Os que “juram pelo Nome de Deus” são todos aqueles que um dia fizeram o voto de entrega de suas vidas ao Senhor e que
confiam nele de todo o coração (Dt 6.13). Os que vivem de mentiras e falsidades serão anulados e aniquilados por Deus e seus
corpos insepultos se espalharão pela terra como símbolo da maior ignomínia (53.5; Ap 6.4).
Capítulo 64
1 O rei Davi ora para que sua vida seja colocada fora do alcance de conspiradores que tramam sua morte. As circunstâncias
gerais são semelhantes às do Sl 62.
2 A arma mais poderosa dos inimigos, covardes e atrevidos quando escondidos, é a língua que dispara maledicências. A intriga
e a calúnia podem arruinar muitas vidas (5.9; 10.7-9; 22.7; 52.2-4).
3 Nada detém o ímpio em sua insolência diabólica. Ele é completamente indiferente a qualquer senso de justiça ou temor a
Deus. Os inimigos de Davi haviam lançado mão de muitas “setas” com o objetivo de destruí-lo (vv. 3,5 e 6). Contudo, apenas uma
SALMOS 64–66 68

8 Sua própria língua lhes provocará o 7 Tu que acalmas o rugido dos oceanos, o
fracasso repentino; todos que assistirem bramido das ondas dos mares e o tumul-
a esse triste fim menearão a cabeça e to dos povos das nações.
zombarão deles. 8 Temor por teus portentosos feitos des-
9 Então, todos os seres humanos temerão pertas nos habitantes das terras longín-
e proclamarão as obras de Deus, meditan- quas, e júbilo trazes aos habitantes dos
do sobre esses grandes feitos de Deus. países do Oriente e do Ocidente.
10 Que se alegre o justo, no Eterno; e nele 9 Cuidaste da terra e a irrigaste, enrique-
busque refúgio; congratulem-se todos os cendo-a com cursos de água por Ti abas-
retos de coração!4 tecidos; provês os grãos para alimento do
ser humano, pois para isso a terra prepa-
Ações de graças pelas bênçãos raste.
Ao mestre de música. Salmo de Davi, um cântico. 10 Regas seus sulcos, fazes por seus canais

65 A ti, ó Deus, é dedicado todo o lou-


vor, em Sião, mesmo quando ínti-
mos e silenciosos, cumprem-se os votos
correr água; com as gotas da chuva a fa-
zes germinar e sua flora abençoas.
11 Com tua bondade a cobres por todo
diante de Ti.1 o ano e abundância extravasa de tuas
2 A ti, que acolhes as orações, virão todos veredas.
os seres humanos. 12 Pastagens brotam nos desertos e de jú-
3 Quando nossos pecados pesavam sobre bilo se cingem as colinas.
nossos ombros, tu mesmo fizeste propi- 13 As campinas se revestem de rebanhos,
ciação por nossas transgressões. os vales se vestem de trigais viçosos e
4 Bem-aventurados são todos aqueles que ecoam vozes uníssonas em jubilosos cân-
escolhes e trazes a Ti para viverem da tua ticos de louvor a Ti!3
Casa, do teu santo Templo!
5 Tu nos respondes com tremendos feitos Ofertas de gratidão
de justiça, ó Deus, nosso Salvador, que Ao regente do coro. Um salmo para cantar.1
sustentas a terra até seus confins e os ma-
res até o mais longínquo e profundo.
6 Tu que formaste as montanhas pela tua
66 Aclamai a Deus, terra inteira.
2 Entoai hinos à magnificência do
seu Nome; dai-lhe glória, mediante vos-
força criativa, por meio do teu infinito so louvor!
poder.2 3 Declarai ao Eterno: “Quão assombrosas

flecha do Senhor será o suficiente para exterminá-los (v.7). O que os inimigos planejavam fazer contra Davi, o próprio Deus lhes
ofereceu de volta. É a lei da retribuição divina (Sl 44.14; 63.9,10).
4 No original hebraico; a primeira palavra do salmo, “Ouve”, forma um jogo de palavras com a primeira expressão deste versí-
culo 10, “Que se alegre...”, a fim de reforçar a idéia de que ao confiarmos no Senhor, ele se inclina para ouvir nossas petições e,
porque Ele nos ouve, nada poderá frustrar nossa mais profunda alegria: sermos seus filhos amados.
Capítulo 65
1 Hino de louvor pela grande bondade e misericórdia do Senhor para com seu povo. A palavra hebraica dumiyã vem da raiz
dãmam, que significa “ser silencioso”, cujo substantivo nos remete à idéia de “silêncio” e “permanência confiante”. Esses sentidos
mais amplos e profundos do termo hebraico nos ajudam a compreender a idéia de que Deus é perfeitamente capaz de ouvir a
súplica mais secreta, feita no mais íntimo do nosso ser (v.2).
2 Uma referência ao poder e sabedoria de Deus, nosso Criador, que ordenou o caos e criou o Universo e a vida (Gn 1; Hb
1.3). Ele estabelecerá, na redenção definitiva do seu povo, uma ordem pacífica entre as nações (Is 2.4; 11.6-9; Mq 4.3,4), com o
objetivo de propiciar paz a Israel na Terra Prometida (Sl 33; 46). Os salmistas e profetas do AT costumavam comparar os atos de
Deus na criação com seus atos poderosos da redenção, visto que seu poder, no passado histórico, como Criador, era a maior
garantia da sua esperada ação final como Redentor absoluto e eterno de todos os que nele crêem (Sl 74.12-17; 89.9-18; 95.4,5;
Is 27.1; 40.6-31; 51.9-11).
3 Na linguagem poética e exuberante de Davi, toda a criação – inclusive seus elementos inanimados – forma um grande coral
para louvar a Deus por seu poder e misericórdia em seus atos criativos, nas bênçãos generosas e infinitas e, especialmente, no
portentoso ato da redenção definitiva (Sl 89.12; 96.11-13; 98.8,9; 103.22; 145.10; 148.3-10 com Jó 38.7; Is 44.23; 49.13; 55.12).
Capítulo 66
1 Um hino para a celebração do culto no templo, com uma parte destinada ao coro (vv. 1-12), e a parte final para o solista (vv. 13-20).
69 SALMOS 66, 67

são tuas obras! Pela grandeza do teu po- 16 Vinde ouvir vós todos que temeis a
der, teus inimigos a Ti se rendem. Deus! E contarei o que Ele realizou por
4 Prostra-se diante de Ti a terra inteira e mim.
entoa hinos em tua honra, canta louvo- 17 Invoquei-o com minha boca, e por mi-
res ao teu Nome”.2 nha língua foi enaltecido.
(Pausa) 18 Se eu, no coração, tivesse visado a mal-
5 Vinde ver as ações de Deus, os feitos dade, o Senhor não me teria escutado.4
que aos homens inspiram temor! 19 Contudo, Deus me ouviu e prestou
6 O mar ele transformou em terra firme, atenção à voz da minha súplica.
a pé atravessaram o rio; ali nos alegra- 20 Bendito seja Deus, que não afastou de si
mos nele. minha súplica, nem de mim o seu amor!5
7 Ele governa eternamente com seu po-
der, seus olhos vigiam as nações: não se Súplica pela bênção divina
vangloriem os rebeldes! Ao regente do coro: com instrumentos de corda.
(Pausa) Um salmo para cantar.
8 Povos, bendizei o nosso Deus, fazei res-
soar seu louvor!
9 Ele conserva com vida nossa alma e não
67 Que o Eterno nos conceda sua
graça e nos abençoe, e que faça
sobre nós resplandecer a sua face,1
deixa vacilarem nossos pés. (Pausa)
10 Pois Tu, ó Deus, nos puseste à prova, 2 para que sejam conhecidos na terra o
purificaste-nos como se purifica a prata.3 teu Caminho, a tua Salvação entre todas
11 Tu nos levaste para a armadilha, puses- as nações.
te um pesado fardo sobre nossas costas. 3 Ergam-te graças todos os povos. Que
12 Permitiste que, sobre nossas cabeças, todas as nações louvem a Ti.
homens cavalgassem; passamos pelo fogo e 4 Alegrem-se e exultem as nações, pois
pela água. Mas nos trouxeste ao refrigério! governas os povos com retidão e reges na
13 Venho à tua Casa, com holocaustos, terra todos os povos.
cumprir para contigo os meus votos. (Pausa)
14 Votos que meus lábios proferiram e mi- 5 Louvem-te os povos, ó Deus; que te
nha boca pronunciou na minha angústia. exaltem todas as nações!
15 Animais cevados te ofereço em holo- 6 Possa, então, a terra produzir em abun-
causto, com imolação de carneiros; pre- dância seus frutos, possa o Eterno, nosso
paro-te bois e bodes. Deus, nos abençoar.2
(Pausa) 7 Sim, possa Ele nos abençoar e ser reve-

2 Segundo conceituados historiadores e biblistas, este poema canta e exalta a Deus pela maneira prodigiosa como livrou Judá
dos assírios (2Rs 19). Este louvor foi oferecido no templo em cumprimento a um voto e conclama todos os crentes a reverencia-
rem o Nome do Senhor (vv.13,14; 7.17; 9.1). Deus rege a tudo e a todos com sua soberana justiça e misericórdia. Até o final dos
tempos todos terão de se submeter ao Senhor (Fp 2.9-11).
3 As crises, sofrimentos e provações, pelas quais todos nós passamos, contribuem para a formação do verdadeiro e piedoso
caráter do cristão sincero e humilde; assim como o fogo é usado, não para destruir, mas para purificar e valorizar a prata e o ouro
(1Pe 1.7; Hb 12.11).
4 Apenas um coração puro, amoroso e livre de maldades pode obter a resposta do Senhor às suas súplicas (Jo 15.7).
5 Davi sabia que suas orações haviam sido respondidas pelo Senhor, que observa e avalia os corações dos seres humanos. Entre-
tanto, esse gesto de Deus era fruto da sua graça, e não de qualquer obra ou sacrifício meritório do salmista. Oração e louvor são duas
disciplinas que caminham juntas na doutrina devocional do AT, conceito que foi incorporado à teologia do NT (Fp 4.6; 1Tm 2.1).
Capítulo 67
1 Oração comunitária, suplicando a bênção do Senhor. O texto no original hebraico reflete claramente a bênção sacerdotal
descrita em Nm 6.22-27. Todos aqueles que conhecem a Deus, o Eterno, devem torná-lo também conhecido de todos os povos.
Por isso, ao longo dos séculos este poema tem sido chamado de Salmo Missionário. Deus nos constituiu seus embaixadores
(2Co 5.18-21). A bênção que Deus outorga a seu povo assim como seus atos salvíficos em favor dos seus escolhidos, atrairão a
reverência de todas as nações e as conduzirão ao verdadeiro e sincero louvor (Sl 65.2; 98.4-6; 100.1).
2 O grande objetivo de Deus é que as nações da terra reconheçam sua soberania e misericórdia, assim como deveria fazê-lo o
SALMOS 67, 68 70

renciado e temido até os confins da terra! gotas d’água. Ante a presença do Eterno,
o Deus de Israel, tremeu o Sinai!
O triunfo de Deus sobre o mal 9 Derramaste, ó Deus, abundante chuva;
Ao mestre do coro, um salmo de Davi. Um cân- tua herdade, que estava ressequida, tu a
tico.1 restauraste.

68 Ao erguer-se o Eterno, dispersa-


ram-se seus inimigos, e da sua
presença fogem os que lhe são adversá-
10 Nela se fixaram tuas criaturas; bon-
dosamente a preparaste, ó Deus, para os
pobres.
rios.2 11 O Senhor anunciou a Palavra e muitos
2 Dissipa-os como fumaça que se esvai; mensageiros a proclamaram:4
assim como no fogo se derrete a cera, que 12 “Reis e exércitos fogem em debandada,
ante a presença divina pereçam os ímpios. e a dona-de-casa reparte os despojos.
3 Os justos, porém, que se alegrem; que 13 Entre fronteiras seguras vos haveis de
exultem diante de Deus e regozijem-se abrigar, enquanto sobre vós resplandecem,
com grande alegria! como prata, as asas esvoaçantes da minha
4 Cantai a Deus, salmodiai ao seu Nome, pomba, e brilham como ouro suas penas.5
exaltai aquele que cavalga nas nuvens! 14 Quando o Todo-Poderoso ali desbara-
Seu nome é SENHOR: exultai, pois, na pre- tava reis, era como se flocos de neve caís-
sença dele! sem sobre o monte Zalmom.
5 Pai dos órfãos, Defensor das viúvas; eis 15 Montanha altíssima é a montanha
o que é Deus na sua santa morada. de Basã, majestosos e escarpados são os
6 Aos rejeitados, Deus os recolhe em pá- montes de Basã!
trio lar; faz os cativos serem libertos para 16 Por que, ó montes de altos píncaros,
a prosperidade; só os rebeldes permane- olhais, com inveja, a montanha que Deus
cem na árida terra. escolheu para sua habitação, onde o pró-
7 Ó Deus, quando saíste à frente do teu prio SENHOR habitará para sempre?
povo, quando avançaste pelo deserto,3 17 São os carros de Deus milhares de mi-
(Pausa) lhares; incontáveis; neles o Senhor veio
8 tremeu a terra, os céus se derreteram em do Sinai para o seu Lugar Santo.6

povo escolhido. Essa, portanto, é a missão da Igreja até o Dia Final (Ap 7.9,10). Veja a transliteração destes dois últimos versículos, a
partir do original hebraico: Érets natena ievulá, ievarechênu Elohim Elohênu. Levarechênu Elohim, veyireú Oto col afsê árets.
Capítulo 68
1 Este salmo faz parte, até hoje, da liturgia israelense. Nos tempos antigos, o povo entoava este hino de louvor a Deus, em
cortejo, celebrando o governo glorioso e triunfante do Deus de Israel sobre toda a terra (Sl 4; 24; 30; 47; 118; 132).
2 Os versículos de 1 a 18 revelam detalhes poéticos da gloriosa marcha desde o monte Sinai (Nm 10.33-35), sob a liderança de
Moisés, até o monte Sião, já nos dias do rei Davi. Os eventos no monte Sinai definiram o surgimento do reino de Deus entre seu
povo na terra; momento histórico, especial, quando a Arca da Aliança, símbolo da presença e do trono de Deus, foi estabelecida
em Jerusalém, o que passou a representar o próprio estabelecimento do reino divino para a redenção de toda a terra, tendo
Jerusalém como cidade santa, de onde emana a majestade do Senhor. Desde os primórdios da Igreja, os primeiros cristãos as-
sumiram este salmo como profecia e prenúncio da ressurreição, ascensão e governo eterno do Senhor Jesus Cristo, bem como
do triunfo final da sua Igreja sobre todos os inimigos de Deus e o mundo hostil (Ef 4.8-13).
3 Aqui temos um breve resumo do livro de Números (vv. 7-10), exaltando o amor e o poder de Deus, porém não descrevendo
os muitos momentos em que o povo de Israel foi rebelde e desobedeceu ao Senhor, pois este poema foi escrito com o principal
propósito de exaltar a Deus. Somos relembrados da gloriosa marcha de Deus pelo deserto, a partir do Sinai até a Terra Prometida
(Js 5.4,5; Hc 3.3-6).
4 Deus já havia declarado que venceria os reis cananeus. Entretanto, os filósofos e poetas de Canaã, que adoravam o deus
Baal, debochavam dessas profecias e compunham canções e poemas afirmando que “Baal cavalga sobre as nuvens”. O salmista
então, usa a própria literatura dos cananeus para demonstrar que somente Yahweh (Javé, Jeová) é Deus, e faz das grandes
nuvens de tempestade seu carro de guerra (Sl 18.9; 33; 104.3; Is 19.1; Mt 26.64).
5 Israel é a “Pomba de Deus”. O salmista emprega um exagero poético (hipérbole) para realçar o fato de Deus ter derrotado
todos os reis hostis a Israel, muito antes de os exércitos israelenses terem iniciado qualquer confronto militar (Js 2.8-11; 5.1; 6.16;
2Sm 5.24; 2Rs 7.5-7; 19.35; 2Cr 20.22-30).
6 O inumerável exército celestial de Deus é comparado, pelo salmista, a uma enorme força de carros de guerra (2Rs 6.17; Hc
3.8,15). Na época do Império Romano, o próprio Senhor Jesus referiu-se às hostes de Deus como “legiões” (Mt 26.53).
71 SALMOS 68, 69

18 Subiste ao cume, levando os cativos; 29 desde teu templo, em Jerusalém, aonde


recebeste dádivas dentre os homens, até reis vêm trazer-te presentes!
mesmo dos que se rebelaram contra a 30 Repreende a fera entre os juncos, a
tua habitação.7 manada de touros entre os novilhos das
19 Bendito seja o Senhor, Deus, nosso nações, até que se curvem humildes,
Salvador, que cada dia nos dá forças para trazendo oferendas de prata; dispersa
que possamos levar as nossas cargas. os povos que se deleitam em praticar as
(Pausa) guerras.
20 Sim! Ele é para nós o Deus que nos li- 31 Embaixadores virão do Egito, e toda a
berta até mesmo dos grilhões da morte! Etiópia estenderá suas mãos para louvar
21 Com toda a certeza Deus arrebentará a a Deus!
cabeça de todos os seus inimigos, esma- 32 Reinos da terra, cantai para Deus, sal-
gará o crânio do que perambula envolto modiai ao Senhor
em iniqüidade. 33 que cavalga pelos céus, desde a eterni-
22 Proclamou o Senhor: “Eu os trarei de dade passada, fazendo ecoar sua voz po-
Basã! Eu os farei voltar, mesmo das pro- derosa e comandando o Universo!
fundezas do mar, 34 Reconhecei e honrai a soberania do
23 para que pises teu pé sobre as poças Eterno, cujo poder está na altura dos
do sangue deles, para que até a língua de céus e cuja majestade se derrama sobre
teus cães tenha uma porção de teus ini- Israel, seu povo.
migos para devorar. 35 De seu santuário emana o temor do
24 Já se avista a tua marcha triunfal, ó Eterno, o Deus de Israel, que concede
Eterno, a marcha do meu Deus e Rei força e grandeza a seu povo. Bendito seja,
adentrando o santuário! ó Deus!9
25 À frente marcham os cantores, depois,
os músicos; com eles caminham os jo- O lamento do Messias, o Cristo
vens tocando pandeiros. Ao regente do coro: segundo a melodia “Os
26 Congregai-vos para bendizer a Deus! Lírios”. Um salmo de Davi.
Abençoai ao SENHOR, todos vós que vin-
des da fonte de Israel.
27 Ali está a pequena tribo de Benjamim a
69 Ó Deus, salva-me! Porquanto as
águas chegaram até o meu pescoço.
2 Nas profundezas lamacentas estou afun-
conduzi-los, os príncipes de Judá acom- dando; não tenho como firmar meus pés;
panhados de seus exércitos, e os prínci- cheguei às águas profundas, e a forte cor-
pes de Zebulom e Naftali.8 renteza me arrasta!
28 Teu Deus dispensou o poder em teu fa- 3 De tanto clamar por socorro, ressecou-
vor: mostra teu poder, ó Deus, que usaste se minha garganta, se embaçaram meus
para o nosso bem, olhos e se fatigou sobremaneira o meu

7 O salmista faz uma analogia com os tributos e despojos recebidos pelo rei vitorioso na guerra. O apóstolo Paulo aplica este
versículo, como traduzido pela Septuaginta (a versão grega do AT), à ascensão de Jesus Cristo, fazendo-nos compreender que
a Ascensão do Senhor foi uma continuação histórica e cumprimento fiel do Reino que Deus estabelecera na sua cidade real de
Jerusalém (Ef 4.8-13).
8 Aqui estão representadas todas as tribos que formam Israel. Desde a menor e mais pobre, Benjamim, até a poderosa Judá,
incluindo as tribos do norte e do sul. A tribo de Benjamim foi encarregada de conduzir o grande cortejo, como alusão ao fato de
ter provido o primeiro rei de Israel (Saul), que deu início às vitórias dos reis de Israel sobre os inimigos do povo de Deus (1Sm
11.11; 14.20-23). O cortejo litúrgico aproxima-se do templo (vv. 24-27) e roga ao Senhor que continue a vencer e conquistar as
potências que ameaçam Israel (vv. 28-31), o que sugere que realmente não haverá plena e duradoura paz em Israel até o final
dos tempos e a Nova Jerusalém (Ap 21.1-4).
9 O apogeu do grande cortejo litúrgico chega com um apelo: que todos os reinos da terra louvem ao Deus de Israel como o
Senhor do Universo, reconhecendo que foi de sua soberana vontade estabelecer seu trono terrestre no Templo em Jerusalém (Sl
29.3-9; 47). O Senhor Deus fez de Israel o seu povo; e seu governo entre os seus os torna co-participantes do poder vitorioso ,
para todo o sempre (Êx 19.5,6; Sl 29.10,11).
SALMOS 69 72

corpo, enquanto aguardo pelo auxílio do 13 Todavia eu, SENHOR, no tempo opor-
meu Deus!1 tuno elevo a ti minha petição; responde-
4 São mais numerosos que os cabelos de me, por teu grande amor, ó Deus, com
minha cabeça os que me odeiam sem tua graça infalível!
causa; poderosos são os que me querem 14 Resgata-me do lamaçal, para que eu
aniquilar, são injustos meus inimigos: o nele não pereça; salva-me de meus detra-
que roubei, como hei de restituir? tores e das profundezas das águas.
5 Conheces, ó Deus, meus desatinos e o 15 Que eu não seja arrastado por seu tur-
quanto fui insensato; as minhas culpas bilhão, nem tragado pelo abismo, e que
não te são encobertas. tampouco se feche sobre mim a boca do
6 Contudo, não permitas que eu venha ser poço onde caí.
causa de humilhações para aqueles que 16 Responde-me, ó Eterno, pois inco-
têm fé em ti, ó Eterno, Deus das Legiões. mensurável é tua benevolência; volta-te
Que não sejam por mim envergonhados para mim com a grandeza de tua mag-
os que te buscam, ó Deus de Israel!2 nanimidade.
7 Porquanto por amor a ti suporto zom- 17 Não ocultes do teu servo a tua face;
barias, e a vergonha cobre-me o rosto. responde-me de pronto, pois estou mui-
8 Sou um estrangeiro para meus próprios to angustiado.
irmãos, um estranho até para os filhos da 18 Faze que de ti se aproxime a minha alma,
minha mãe; redime-a e salva-me de meus inimigos.
9 pois me consumiu o zelo que dedico à 19 Pois sabes da vergonha e do infortúnio
tua Casa, e sobre mim recaíram os vitu- que me fazem passar.
périos dos que te insultam.3 20 Meu coração se partiu ante tanta hu-
10 Com jejum e muitas lágrimas afligi milhação, e me sinto gravemente enfer-
minha própria alma, e isso ainda mais os mo. Procurei alguém que se compade-
enfureceu. cesse de mim e me confortasse, mas a
11 Com mortalha me cobri e perante eles ninguém encontrei.
fui objeto de zombarias.4 21 Ao contrário, puseram veneno em meu
12 Murmuram contra mim os que se alimento e vinagre me oferecem para mi-
ajuntam nas portas da cidade, e sou tema tigar minha sede.5
de chacotas nas canções dos bêbados. 22 Que, em retribuição, a mesa deles se

1 Davi descreve sua situação de profundo sofrimento da alma, dor física e terrível angústia, enquanto espera confiante pela
interveniência perdoadora e salvadora de Deus. É a sincera oração de um rei piedoso diante dos ataques maliciosos de uma
conspiração generalizada que se aproveitara de uma ocasião em que o próprio Deus já o havia castigado por um pecado come-
tido (v.5; 26). A igreja primitiva considerava este clamor como o prenúncio dos sofrimentos do Messias, Jesus Cristo; juntamente
com o Salmo 22 são os textos do Saltério mais citados no NT.
2 O salmista pede que sua disciplina não seja causa de escândalo para os que esperam em Deus. Este versículo pode ser transli-
terado do original hebraico desta forma: Al ievôshu vi covêcha Adonai Elohim Tsevaót, al yicalemu vi mevac’shêcha Elohê Yisrael.
3 O que se aplicava ao salmista era ainda mais realidade na vida de Jesus Cristo (Jo 2.17). Os que zombam de Deus, achin-
calham igualmente o servo do Senhor (74.18-23; 2Rs 18.31-35), situação que Cristo enfrentou sem que tivesse cometido um só
pecado (Rm 15.3).
4 Davi, num momento de fraqueza e falta de juízo, pecou contra Deus. Entretanto, isso não o desqualificou como filho e servo,
diante do Pai, pois seu coração fora entregue ao Senhor para o adorar e servir por toda a vida. Em seu profundo amor a Deus,
e arrependimento pelas faltas cometidas, o rei salmista não se nega a passar pela mais profunda dor e humilhação pública,
chegando a ser afrontado até pela escória da sociedade que, nesses momentos, sempre procura minimizar sua própria condição
desprezível evidenciando o erro da pessoa em foco (Sl 35.13 com Gn 37.34; 2Sm 12.16,17; Jl 1.13,14; 2.15-17; Jn 3.5).
5 Quando mais precisamos de abrigo, consolo e ânimo, é que conhecemos nossos poucos e leais amigos e os muitos e gran-
des inimigos. O salmista usa uma forte metáfora para mostrar que o alimento por que mais ansiava sua alma era a compreensão
e o perdão dos seus pecados. No texto hebraico original a palavra algumas vezes traduzida por “fel” é, literalmente, “veneno”:
Vayitenú bevaruti rosh, velits’maí iashcuni chômets. Os autores dos Evangelhos, especialmente Mateus, entenderam que os sofri-
mentos comunicados nestes versos se constituíam numa profecia quanto ao martírio de Jesus Cristo, o Messias e Nosso Senhor
(Mt 27.34,48; Mc 15.23,36; Lc 23.36; Jo 19.29).
73 SALMOS 69–71

lhes transforme em armadilha e sua paz, 34 Louvem-no os céus e a terra, os mares


em emboscada. e tudo o que neles se move!
23 Que se lhes escureçam os olhos para 35 Pois Deus salvará Sião e reconstruirá
que, de fato, não possam ver; faze-lhes as cidades de Judá; e haverá habitantes
tremer o corpo sem que haja como que a herdarão.
cessar!6 36 A descendência de seus servos a rece-
24 Despeja sobre eles a tua ira justa; que o berá em herança, e os que amam o seu
teu furor ardente os alcance. Nome farão nela sua morada!9
25 Que sejam destruídos os seus palácios
e que fiquem desertas as suas tendas. Súplica pelo socorro de Deus
26 Pois têm prazer em perseguir a quem Para o mestre de música. Uma oração em forma
tu puniste e acrescentam dor e sofrimen- de poema. De Davi.
to a quem feriste.
27 Agrega iniqüidade à iniqüidade deles
para que não mereçam usufruir da tua
70
me!1
Ó Deus, para minha libertação,
apressa-te, SENHOR, em socorrer-

justiça.7 2 Cubram-se de vergonha e confusão os


28 Que tenham seus nomes apagados do que me demandam a própria vida! Re-
Livro da Vida, e jamais sejam inscritos cuem, cobertos de desonra, os que se di-
entre os justos novamente.8 vertem com a minha desgraça!
29 Quanto a mim, grande é minha aflição 3 Recuem, cobertos de vergonha, os que
e minha dor! Protege-me, ó Deus. A tua maliciosamente murmuram: “Bem-feito!
salvação há de me elevar acima de qual- Bem-feito!”
quer sofrimento! 4 Contudo, que se alegrem e regozijem,
30 Em cânticos, então, louvarei o Nome por tua causa, todos os que te buscam!
do Eterno, e em meus agradecimentos “Deus é grande!” Proclamem sem cessar
exaltarei a ti Senhor! os que amam a tua salvação!
31 Serei mais agradável ao SENHOR do que 5 Sendo eu um pobre aflito, ó Deus,
a mais perfeita oferta de todo o passado! apressa-te em valer-me! Tu és meu auxí-
32 Alegrar-se-ão os humildes e animar- lio e meu Libertador: SENHOR, não tardes
se-ão os corações dos que buscam a mais!
Deus.
33 Porquanto todos verão que Deus ouve Oração de fé de um servo idoso
os necessitados e não despreza os alque-
brados. 71 Em ti, SENHOR, me refugio: que ja-
mais eu seja envergonhado!1

6 O apóstolo Paulo fez menção deste salmo, quando admoestava os judeus a reconhecerem Jesus Cristo, como o Messias e
Senhor de todo aquele que nele crer (Rm 11.9,10).
7 Uma das piores punições que o ímpio pode sofrer é que o Senhor o deixe seguir seu próprio caminho de iniqüidades e peca-
dos. Seu coração duro e arrogante, muito diferente da alma do salmista, não lhe permite ser tocado pelo Espírito de Deus, refletir
sobre seus erros e, arrependido, receber o perdão de Deus (Rm 1.18-32).
8 No AT, o “Livro da Vida” é compreendido como a lista divina régia dos justos, aos quais Deus abençoa na terra e na vida
eterna (1.3; 7.9; 11.7; 34.12; 37.17,29; 55.22; 75.10; 92.12-14; 140.13). No NT, o “Livro da Vida” refere-se à lista de Deus que
contém os nomes dos eleitos, destinados à vida eterna por meio da fé em Jesus Cristo, o Messias (Fp 4.3; Ap 3.5; 13.8; 17.8;
20.12,15; 21.27).
9 Alguns biblistas e comentaristas entendem que essas expressões têm a ver com a época do Exílio, ocorrida mais de quatro
séculos depois de Davi. Contudo, ao analisarmos a amplitude da visão teológica de Davi, não é difícil concluirmos que ele está
comunicando, em oração, o grande anseio de ver sua nação e o povo de Deus verdadeiramente edificado no amor, na fé, na
prática contínua e intensa da piedade, sob as preciosas bênçãos do Senhor de Israel (Sl 127).
Capítulo 70
1 Este salmo está presente nos trechos dos salmos 35.4,21,26 e 40.13-17. É uma pequena jóia de oração para se decorar e
guardar no coração. Um pedido eloqüente de socorro urgente a Deus, contra as artimanhas e ataques dos inimigos (Sl 4; 38).
Capítulo 71
1 Este salmo encerra uma coleção de salmos davídicos e revela a experiência de alguém que, na velhice, suplica a presença
SALMOS 71 74

2 Por tua justiça, me livrarás e me liber- 15 Minha boca narrará tua justiça e, em
tarás. Inclina para mim teus ouvidos e todos os dias da minha existência, os teus
salva-me! incontáveis atos de salvação!
3 Sê para mim a rocha de refúgio, sempre 16 Proclamarei os teus feitos poderosos,
acessível, pois decidiste salvar-me. Sim, ó Soberano SENHOR; divulgarei diante de
és o meu rochedo e minha fortaleza!2 todos a tua justiça.
4 Meu Deus, livra-me da mão do ímpio, 17 Desde a minha juventude, ó Deus, tens
das mãos dos criminosos e dos violentos! me ensinado, e até hoje eu anuncio as
5 Tu és minha esperança, ó Soberano SE- tuas maravilhas!
NHOR; deposito em ti toda a minha con- 18 Agora, porém, vejo que estou idoso, de
fiança, desde a minha juventude. cabelos brancos: não me desampares, ó
6 Ora, desde o ventre materno dependo Deus; para que eu possa pregar sobre as
de ti, das entranhas de minha mãe me grandes obras de teu braço, às gerações
separaste; dia após dia és motivo de todo presentes e futuras.4
o meu louvor. 19 Ora, tua justiça, ó Deus, chega até as
7 Para muitos tornei-me um prodígio, en- mais elevadas alturas. Grandes proezas re-
quanto eras tu meu refúgio fortificado. alizaste, ó Deus. Quem é semelhante a ti?
8 Minha boca está repleta do teu louvor, e 20 Tu, que me fizeste experimentar tantas
constantemente proclamo o teu esplendor! aflições e desgraças, de novo me farás vi-
9 Portanto, não me rejeites agora, na ve- ver, e das profundezas da terra me farás
lhice; quando as forças declinam, não me ressuscitar.5
abandones! 21 Aumentarás minha dignidade e, uma
10 Pois meus inimigos tramam contra mim, vez mais, me abençoarás com a tua pre-
confabulam entre si os que me espreitam sença confortante.
com a intenção de tirar a minha vida. 22 Então, acompanhado da harpa, te da-
11 Alegam: “Deus o abandonou: per- rei graças, meu Deus, por tua fidelidade;
segui-o, agarrai-o! Pois não há quem o cantarei louvores para ti, ao som da cíta-
possa salvar”.3 ra, ó Santo de Israel.
12 Ó Deus, não fiques longe de mim, meu 23 Ao cantarem teus louvores, exultarão
SENHOR, vem depressa em meu auxílio! de alegria meus lábios e minha alma, que
13 Sejam confundidos e abatidos os que resgataste.
me hostilizam! Cubram-se de opróbrio e 24 Igualmente, todos os dias, minha lín-
de vexame os que buscam meu dano! gua recitará tua justiça, porque se cobri-
14 Eu, todavia, sempre esperançoso, re- ram de vergonha e vexame os que busca-
dobrarei mais e mais teus louvores. vam minha desgraça!

e ajuda de Deus, diante das ameaças de seus inimigos (5.9). A falta do costumeiro cabeçalho indica que o Sl 70 representa sua
introdução e que, portanto, este é mais um salmo da autoria de Davi, já em idade avançada (vv.9,18), fato reforçado pela oração
do rei Salomão no Sl 72.
2 Um homem pode chegar ao final desta vida com uma grande alegria na alma: se no passado e, especialmente, no presente
tiver depositado no Senhor Deus toda a sua fé e confiança (vv.3,7). Não existe velhice sem provações, mas Deus é misericordioso
em nos socorrer em todas as nossas aflições e rapidamente nos confortar com sua presença libertadora e salvadora (vv.10-11).
Este trecho é uma boa recordação do Sl 31.1-3.
3 Os faltos de sabedoria olham para o justo sem prosperidade aparente, debilitado fisicamente e sem boa aparência, e o des-
prezam, procurando tirar alguma vantagem da sua humilde condição pessoal. Contudo, o justo jamais será pobre, ignorante ou
desamparado, pois sua riqueza e poder vêm da graça do Senhor. É Jesus Cristo quem nos concede todas as forças e a paz que
o mundo não pode oferecer (Jo 14.27).
4 Um servo de Deus, cuja vida espiritual foi provada por meio de vitórias e insucessos, pode na terceira idade dedicar-se ao
maravilhoso ministério do aconselhamento de jovens, provendo para esses construtores das novas sociedades uma sabedoria
bíblica que eles não poderiam ganhar tão rapidamente sozinhos, nas tentativas e erros da vida.
5 O mesmo Deus que nos abençoa com o privilégio da vida (v.6), nos renovará, por meio da Salvação, a fim de que estejamos
para sempre em sua companhia. As profundezas da terra (em hebraico: sheol) é a região dos mortos, cuja porta de entrada é a
sepultura (Sl 30).
75 SALMOS 72, 73

Prefiguração do reino de Cristo e dos humildes, e os salva da morte!


Um salmo para Salomão e os reis davídicos. 14 Ele os resgata da opressão e da violên-
72 Ó Deus, concede ao rei a tua justi-
ça, e ao filho do rei os teus juízos.
2 Que ele governe teu povo com retidão,
cia, pois, aos seus olhos, a vida que lhes
corre pelo sangue é por demais preciosa.
15 Que ele tenha longa vida, e lhe tragam
preservando o direito dos humildes! ouro de Sabá; por ele intercedam sem
3 Proporcionem as montanhas e colinas cessar e o bendigam, todos os dias!
paz ao povo, mediante justiça! 16 Que haja no país trigo em abundância,
4 Que ele faça resplandecer o direito dos ondulando-se até o topo dos montes; vi-
oprimidos, salve os filhos dos pobres e cejem os cidadãos como o fruto do Líba-
esmague o opressor!1 no e como a erva do campo!
5 A ti eles temam, à luz do sol e sob o luar, 17 Que seja eterno seu nome; diante do sol
de geração em geração! se propague seu nome, e sejam nele aben-
6 Seja ele como o cair da chuva sobre a relva, çoadas todas as nações que o bendizem!4
ou da garoa que rega suavemente a terra! 18 Bendito seja o Eterno, Deus de Israel, ab-
7 Em seus dias floresça a justiça e grande solutamente Único em suas maravilhas!
paz, até não mais haver lua! 19 Abençoado e exaltado seja para sempre
8 Governe ele de mar a mar, desde o rio seu Nome glorioso: que toda a terra seja
Eufrates até os confins da terra.2 repleta da sua glória! Amém e Amém!5
9 Curvem-se diante dele todas as tribos do 20 Terminam aqui as orações de Davi, fi-
deserto, e os seus inimigos lambam o pó. lho de Jessé.6
10 Que os reis de Társis e das regiões lito-
râneas lhe paguem tributos; e os reis de TERCEIRO LIVRO
Sabá e de Sebá lhe tragam presentes.3 Salmos 73 a 89
11 Inclinem-se diante dele todos os reis, e
sirvam-no todas as nações da terra! A prosperidade e o fim dos ímpios
12 Porquanto, ele liberta os oprimidos que Um salmo da família de Asafe.
clamam por socorro, assim como os pobres
que não têm quem lhes preste auxílio.
13 Ele tem compaixão dos enfraquecidos
73 Com toda a certeza Deus é bom
para Israel, ou seja, para todos
quantos cultivam um coração sincero!1

1 A tradição judaica sempre viu neste salmo uma alusão ao Messias (Cristo, em grego), assim como a Igreja primitiva via Jesus
neste poema profético. Este salmo reflete o conceito ideal do governante supremo e os efeitos maravilhosos do seu reinado,
assim como ocorreu no período em que o rei Salomão se manteve humilde e obediente à Palavra de Deus (1Rs 3.9-12; Pv 16.12).
Entretanto, mesmo alguns dos últimos reis davídicos (seus filhos) mereceram a repreensão do Senhor por meio do seu profeta
(Jr 22.2-15), que também anunciou ao povo a iminente chegada do verdadeiro Rei e o estabelecimento do governo messiânico
(Is 9.7; 11.4-5; Jr 23.5,6; 33.15,16; Zc 9.9). Nenhuma nação respeitará as leis, nem se desenvolverá em solidariedade, paz e pros-
peridade, sob a liderança de governos corruptos e injustos. O pleno estado de justiça é como a boa chuva que torna fértil a terra
de uma nação e alegra o coração do seu povo (vv. 6,7; Sl 5.12; 65.9-13; 133.3; Lv 25.19; Dt 28.8).
2 Profecia acerca do Rei que dominará toda a terra e sobre todos os povos, com o poder de Deus (vv. 9-11). Esperança bíblica
que se aplica somente a Jesus Cristo e seu reino (Zc 9.10).
3 Uma referência aos beduínos e tribos que peregrinam e vivem a leste, no deserto da Arábia, e que virão a se submeter ao
Messias, o Cristo (Mq 7.17). Os reis, cujas terras se estendem até as praias do mar Mediterrâneo, a oeste, haverão também de
reverenciá-lo, assim como os que dominam a Arábia do sul, ao longo da costa oriental da África. A cidade de Társis era um im-
portante porto, muito distante, a oeste no Mediterrâneo, onde hoje se localiza a Espanha. Sabá (Gn 10.28; 1Rs 10.1; Jl 3.8). Sebá,
que é citada também como Cuxe no AT (Gn 10.7; Is 43.3), refere-se à atual região do Sudão, ao sul do Egito.
4 A expressão hebraica bíblica “todas as nações” tem a ver com a promessa de Deus a Abraão (Gn 12.3; 22.18) e, nesse con-
texto, revela que seu cumprimento acontecerá com a chegada triunfal do filho régio de Davi: Cristo, o Messias.
5 Uma bela doxologia conclui o segundo livro do Saltério (Sl 4; 41.13), e o povo responde em duplo uníssono: “Assim seja!”
(Amém). O v.18 pode ser transliterado do original hebraico desta forma: Baruch Adonai Elohim Elohê Yisrael, osse niflaót levado.
6 Antiga anotação de copista, que se integrou aos originais, e que revela a oração de Davi por seu filho Salomão, nos dias da
sua coroação (1Rs 1.32-40). Os termos usados por Davi, embora perfeitamente justificados somente na pessoa de Cristo, têm a
ver com as bênçãos que o próprio Deus prometeu, e efetivamente concedeu, ao rei Salomão, como uma prefiguração humana do
Messias (2Sm 7.12-16). Esta frase pode ser transliterada do hebraico assim: Calu tefilót David bem Yishai.
Capítulo 73
1 Os primitivos copistas do Saltério escolheram este salmo, para abrir o Livro III, assim como colocaram o Sl 1 na abertura
SALMOS 73 76

2 Quanto a mim, os meus pés quase tro- sou repreendido, toda manhã?3
peçaram; por pouco não escorreguei. 15 Caso levasse a efeito me expressar as-
3 Porquanto eu acumulava inveja dos sim, eu teria renegado a linhagem de teus
arrogantes, ao ver a prosperidade desses filhos.
ímpios. 16 Todavia, quando busquei compreender
4 Eles não passam por crises e sofrimen- tudo isso, reconheci que estava diante de
tos, e têm o corpo esbelto e saudável. uma tarefa muito acima das minhas forças;
5 Estão livres dos fardos cotidianos impos- 17 até que entrei na Casa de Deus, e então
tos a todos os mortais, não são atingidos compreendi o destino dos ímpios.4
por doenças como a maioria das pessoas. 18 Na verdade, tu os colocas em terreno
6 Por isso, a soberba lhes serve de colar e, escorregadio e os fazes cair na destruição.
em seu orgulho, se vestem de violência.2 19 Como são destruídos de repente, abso-
7 Do seu íntimo brota a maldade, assim lutamente tomados de terror!
como da sua mente transbordam todos 20 São como um breve sonho que se vai
os ardis. assim que acordamos; quando te levan-
8 Eles zombam, e suas palavras são reple- tares, ó Senhor, tu os farás desaparecer.
tas de malícia; em sua arrogância exaltam 21 Quando meu coração estava amargu-
a própria corrupção. rado e no meu íntimo curtia a inveja,
9 Contra os céus dirigem as palavras de 22 era eu um insensato e ignorante; mi-
suas bocas, e pela terra fazem espalhar a nha atitude para contigo era semelhante
maldade de suas línguas. a de um animal irracional.5
10 Por isso, seu povo se volta para eles e se 23 Contudo, sempre estou diante de Ti;
delicia sorvendo suas palavras até saciar-se. portanto, tomas a minha mão direita e
11 Eles questionam: “Acaso poderá Deus me susténs.
saber disso? O Altíssimo se ocupará des- 24 Tu me diriges de acordo com os teus de-
ses assuntos?” sígnios, e no fim me acolherás em glória.6
12 Assim são os ímpios: sempre seguros, 25 A quem tenho nos céus senão a ti? E
acumulando riquezas. na terra, nada mais desejo além de estar
13 Pensando dessa forma, em vão con- junto a ti!
servei puro o coração e lavei as mãos em 26 Embora minha carne e meu coração
sinal de inocência? definhem, Deus é a rocha do meu cora-
14 Para que me atormento o dia todo, e ção e minha herança para sempre.7

de toda a coletânea Sagrada. Este é um salmo atribuído historicamente a Asafe, dirigente de um dos coros levíticos de Davi (Sl
39; 42; 50), e trata de um dos mais angustiantes dilemas do AT: Por que os ímpios muitas vezes prosperam, ao passo que os
fiéis sofrem tanto? (Sl 37; 49). O salmista fraquejou e por pouco não caiu de suas convicções quanto ao livramento do Senhor. A
batalha é mencionada no v.2, mas a vitória está expressa logo no v.1.
2 Ao observar a saúde que os ímpios demonstram, sua aparente despreocupação e soberba, o salmista se deixa envolver por
sentimentos invejosos (Jó 21).
3 O salmista se sente responsável como um filho que busca oferecer obediência e respeito ao pai, e que é punido, tantas
vezes quanto necessário, por esse pai amoroso e justo, para que se mantenha por toda a vida no caminho da verdade (Pv
3.12; 23.13,14).
4 Quando temos certeza de um assunto, podemos verbalizar nosso pensamento. Contudo, quando a dúvida nos assalta, é
melhor nos recolhermos à nossa insignificância e esperarmos pela ação de Deus, ao longo da história. O que o intelecto humano
não pode compreender deve ser humildemente levado a Deus em oração.
5 O que importa na vida não é como começamos, mas como vamos terminar nossa jornada na terra. O salmista faz uma avalia-
ção de suas considerações momentâneas, à luz da eternidade e da sabedoria de Deus, e se considera imprudente. A amargura
estraga nossa capacidade de pensar com amplitude e inteligência (v.22).
6 O salmista conclui que os ímpios acabam caindo do seu estado de arrogância e desonesta prosperidade. Enquanto os incré-
dulos passam para a eterna separação de Deus (v.27), os crentes são promovidos à comunhão plena e eterna com o Senhor. O
conselho divino venceu a tentação que consumia os pensamentos do salmista, e o guiará todos os dias até o momento de ser
recebido no Reino eterno (16.7; 32.8; 48.14; 49.15).
7 Sendo levita, o salmista considerava o Senhor como sua porção na terra prometida, pois vivia dos dízimos que o povo oferecia
a Deus. Mas o salmista aprendeu a ir além desse reconhecimento material e imediato, e passou a considerar o Senhor como sua
77 SALMOS 73, 74

27 Eis que perecerão os que de ti se afas- 9 Não mais vemos nossas insígnias, já
tam, tu exterminas a todos os que te re- não há profeta e não temos alguém, entre
jeitam. nós, que saiba até quando:
28 Eu, porém, tenho por felicidade estar 10 até quando, ó Deus, tripudiará o adver-
na presença de Deus. Em ti, Eterno Deus, sário? Blasfemará o inimigo teu Nome,
deposito minha plena confiança, para sem cessar?5
proclamar todas as tuas obras! 11 Por que retrais tua mão, e reténs tua
destra contra o peito?
Lamento sobre a ruína do templo 12 No entanto, Deus é rei desde sempre, é
Poema da família de Asafe. ele quem realiza vitórias na terra.
74 Por que, ó Deus, esta rejeição sem
fim, esta ardente cólera contra as
ovelhas de teus pastos?1
13 Com tua força fendeste o mar, e des-
pedaçaste, sobre as águas, as cabeças dos
monstros marinhos.
2 Lembra-te da comunidade que adqui- 14 Esmagaste as cabeças do Leviatã e o
riste desde a origem, da tribo que reivin- serviste de alimento aos habitantes do
dicaste como herança, do monte Sião, deserto.6
onde fizeste tua morada!2 15 Fizeste jorrar fontes e torrentes, e secar
3 Dirige teus passos para essas eternas rios impetuosos.
ruínas! O inimigo tudo devastou no san- 16 O dia é teu, é tua a noite; criaste a luz
tuário. e o sol.
4 Teus adversários rugiram no lugar de 17 Os limites da terra estabeleceste; verão
tua assembléia, erigiram seus estandartes e inverno foram por ti determinados.
como insígnias.3 18 Lembra-te, em teu poder, de que o ini-
5 Pareciam homens a brandir o machado migo te ultrajou, ó Eterno, e de que o povo
em mata espessa, infame contra teu Nome blasfemou.
6 ao despedaçarem todos os entalhos, a 19 Não permitas que seja entregue às feras
golpes de machado e malho. a alma de tua pomba, Israel, nem esque-
7 Atearam fogo ao teu santuário, derruba- ças para sempre a vida dos teus filhos!7
ram e profanaram a morada do teu Nome.4 20 Considera a aliança, pois os esconde-
8 Disseram em seu coração: “Juntos va- rijos do país encheram-se de covis da
mos oprimi-los!” E incendiaram, no país, violência.8
todos os lugares de encontro com Deus. 21 Não permitas que o oprimido se retire

razão maior para viver (Nm 18.21-24; Dt 10.9; 18.1,2). E termina seu salmo com um convite para louvarmos a Deus por todas as
suas misericórdias, inclusive aquelas que ainda não percebemos (Sl 7.17).
Capítulo 74:
1 Este salmo data da época do exílio, quando Israel tinha sido destruído como nação, a terra prometida havia sido comple-
tamente devastada, e o templo, reduzido a ruínas pelos caldeus (babilônios) por volta do ano 586 a.C. (Sl 79; Lm 2). Nesse
momento da vida nacional israelense, o relacionamento entre Deus e seu povo é visto à semelhança do que existe entre um rei,
bom e poderoso, e seus súditos.
2 A destruição súbita e implacável faz que o salmista e o povo indaguem se Deus havia abandonado o mesmo povo que res-
gatara do Egito, com poder e glória (Sl 9.11; Êx 15.13-18).
3 Os estandartes (bandeiras) simbolizavam o reagrupamento das tropas como um sinal de vitória (Nm 1.52; Is 31.9: Jr 4.21).
4 O “Nome de Deus” no santuário representava sua própria presença física no templo (Sl 5.7; Dt 12.5).
5 Não havia mais sinais miraculosos como ocorrera na época do êxodo (vv. 13-15; 78.43). E não havia mais profetas, pois
Jeremias tinha sido levado para o Egito e não se sabia do paradeiro de Ezequiel. Os zombeteiros se multiplicavam (Jr 43.4-7;
2Rs 18.32-35; Is 37.6,23).
6 Monstros marinhos e o deus Crocodilo (Leviatã), adorado no Egito antigo, servem de símbolos proféticos contra o Faraó, e para
celebrar o Deus de toda a criação e a libertação futura de Israel (Sl 89.10; Jó 9.13; 26.12-13; Is 51.9-13; 21.1; Ez 29.3-5; 32.2-6).
7 Israel é carinhosamente comparado a um pombo. Este versículo pode ser transliterado do original hebraico da seguinte
forma: Al titen lechaiat néfesh torêcha, chaiat aniiêcha al tishcach lanétsach (Ct 2.14; 5.12; 6.9; Sl 68.13).
8 Em sua Aliança com Israel, Deus prometeu que seria o Guardião do seu povo, que lhes daria segurança e bem-estar na terra
prometida (Êx 19.5,6; 23.27-31; 34.10,11; Lv 26.11-45; Dt 28.1-14; Sl 105.8-11; 106.45; 111.5,9; Is 54.10; Jr 14.21; Ez 16.60).
SALMOS 74–76 78

humilhado! Faze que o pobre e o neces- 6 Não é do Oriente nem do Ocidente,


sitado louvem o teu Nome. tampouco é do deserto, ao sul, ou das
22 Levanta-te, ó Eterno, e defende a tua montanhas ao norte que vem a vitória.5
causa; lembra-te de como os insensatos 7 É Deus quem julga: a um rebaixa, a ou-
zombam de ti dia e noite. tro eleva!
23 Não ignores o rugido dos opressores, 8 O SENHOR tem na mão uma taça, cujo
o alvoroço dos que se erguem contra ti, e vinho espuma, cheio de mistura; dele
destrói-os para sempre! dá a beber: sorvem-no até a última gota,
bebem-no todos os ímpios da terra.
Deus, o grande Juiz dos povos 9 Quanto a mim, para sempre proclama-
Ao mestre do coro, de acordo com a melodia Não rei esses feitos; cantarei louvores ao Deus
Destruas. Um salmo e cântico da família de Asafe. de Jacó.

75 Nós te exaltamos, ó Eterno; graças


a ti rendemos, e sentimos a pro-
ximidade de tua presença; todos procla-
10 O orgulho dos perversos abaterei, po-
rém exaltada será a honra dos justos.6

mam os teus feitos maravilhosos.1 Canto de vitória


2 Pois disseste: “Quando Eu escolher o tem- Ao mestre de música. Com instrumentos de cor-
po apropriado, farei justiça com retidão.2 das. Um salmo e cântico da família de Asafe.
3 Trema, entretanto, toda a terra com seus
habitantes. Eu lhe firmei as colunas.
(Pausa)
76 Deus é conhecido em Judá, seu
Nome é grande em Israel.1
2 Sua tenda está em Salém; em Sião, sua
4 Aos arrogantes ordenei: Não sejais in- morada.
solentes! E aos ímpios repreendo: Não 3 Ali quebrou as flechas do arco, o escu-
levanteis a vossa fronte.3 do, a espada e o aparato bélico.2
5 Não ergais com soberba a vossa voz (Pausa)
contra os céus; não faleis com insolência 4 Tu és deslumbrante, mais magnífico do
contra a Rocha”.4 que montanhas de despojos.

1 Salmo de conforto e confiança quando Israel se via na iminência de ser atacada pelas potências mundiais, como os assírios
(2Rs 18.13 – 19.37). Há claros paralelos temáticos com o cântico de Ana (1Sm 2.1-10), bem como outros cânticos compostos sob
a mesma melodia (Sl 4; 9; 30; 57; 58; 59).
2 A Palavra do Senhor é perene e o sentido profético pode ser aplicado àquela circunstância, assim como ao futuro iminente.
Deus não deixará passar em branco as atitudes nefastas dos incrédulos e maldosos, e exigirá a devida prestação de contas
(2Rs 19.21-34). A hora do julgamento será determinada exclusivamente pelo próprio Senhor, segundo sua graça e sabedoria
absolutas.
3 Em geral, os salmistas consideram que os ímpios são tanto soberbos e arrogantes (Is 37.8-13), quanto insensatos (Sl 10; 14.1;
31.23; 73.4-12; 74.18,22; 92.6; 94.4,8). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico dessa forma: Amárti laholelim al
tahôlu, velareshaim al tarímu cáren. O sentido da expressão literal “não levanteis o chifre” aqui traduzida por “não levanteis a vossa
fronte” tem a ver com uma metáfora muito usada no AT, para referir-se a “glória” e a “poder”, tendo como base o “vigor” e a “força”
dos touros e bisões, quando atacam (v.5,10; 18.2). Algumas traduções dessa expressão, literais e impróprias, influenciaram vários
artistas a pintar ou esculpir personagens bíblicos, como o Moisés, de Michelangelo, ostentando “chifres” e, portanto, sendo mal
compreendidos pela maioria dos observadores.
4 A “Rocha” simboliza a natureza inabalável de Deus e a segurança que o crente tem na pessoa de Cristo, a Rocha (Pedra)
fundamental (1Co 3.11).
5 Vindos do norte, os assírios ameaçavam Israel, e o povo buscava alianças políticas com as nações do Oriente e do Ocidente.
Os profetas condenavam essas tentativas e proclamavam que o grande socorro vem somente de cima, do Senhor.
6 Quem fala aqui não é o salmista nem mesmo um rei (Sl 101), mas a mesma pessoa que ao falar no v.9 relembra, à congrega-
ção, outra Palavra de Deus. A redação mais correta seria: “O Deus de Jacó” (declarando ao mundo): “o orgulho dos perversos
abaterei...” (vv.4,7; 1.5).
Capítulo 76
1 Mais um salmo da galeria de poemas e cânticos sagrados que celebram a libertação de Jerusalém da destruição planejada
pelo Império Assírio, comandada por Senaqueribe (2Rs 19; Is 37). O poder invencível do Senhor e seu amor perpétuo por seu
povo e cidade real ficam evidentes neste salmo e na relação temática com Sl 46; 48; 64; 87. Deus esmaga os inimigos de Sião ou
Salém, duas formas hebraicas de se referir à cidade de Jerusalém (v.2).
2 As armas e os inimigos a respeito dos quais o profeta Isaías profetizou que não conseguiriam atingir Jerusalém (Is 37.33).
79 SALMOS 76, 77

5 Foram espoliados os de coração indo- mão. Minha alma recusa ser consolada.
mável, tomados pelo sono, e nenhum dos 3 Lembro-me de Deus e gemo; medito, e
valentes pôde valer-se das próprias mãos. meu espírito desfalece.
6 Ante tua ameaça, ó Deus de Jacó, carros (Pausa)
e cavalos ficaram imobilizados.3 4 Manténs abertas minhas pálpebras; tão
7 Tu infundes temor: quem pode manter- perturbado estou, que nem posso falar.
se diante de ti durante a tua ira? 5 Relembro os dias passados, os anos de
8 Do céu enunciaste a sentença: a terra outrora.
fica paralisada de medo, 6 De noite, recordo minha cantiga; medi-
9 quando tu, ó Deus, te levantas para julgar, to-a no meu coração. O espírito indaga:
para salvar todos os humildes da terra. 7 “Acaso o Senhor nos rejeitará para sem-
10 Até a ira dos homens redundará em teu pre, e já não voltará a ser-nos favorável?2
louvor, e com os resquícios de furor tu te 8 Acaso de todo se esgotou sua fidelidade,
cinges.4 terminou sua promessa para as gerações?
11 Fazei votos ao SENHOR, vosso Deus, e 9 Acaso Deus se esqueceu de ter compaixão,
cumpri-os! Tragam-lhe presentes todas ou a cólera lhe enrijeceu as entranhas?”
as nações, e depositai-os em torno dele, (Pausa)
que inspira temor!5 10 Então pensei: “Apelarei para o que
12 Ele deixa sem alento os príncipes, aos há muito realizou a mão direita do
reis da terra faz tremer de medo. Altíssimo”.3
11 Recordo-me dos feitos do SENHOR, lem-
Deus rico em poder e misericórdia brado estou dos teus milagres de outrora;
Ao regente do coro, ao estilo de Jedutum. 12 penso em todas as tuas obras, e medito
Um salmo e cântico da família de Asafe. em teus prodígios.
13 Teu Caminho, ó Deus, é Santo: grande

77 Elevo a Deus minha voz, e clamo;


elevo a Deus minha voz, para que
me ouça.1
como Deus, outro deus não existe!
14 Tu és o Deus que fazes milagres, mos-
traste teu poder entre os povos.
2 No dia da minha angústia, procuro o Se- 15 Com teu braço resgataste teu povo, os
nhor; de noite, não me canso de erguer a filhos de Jacó e de José.4

3 Louvor à majestade temível do Senhor (18.15; 104.7; 106.9; Jó 26.11; Is 50.2; Is 51.20; 54.9; 66.15; Ml 2.3 com Sl 75), cujo
poderoso juízo aterroriza os inimigos de Israel e provoca reverente adoração (Na 3.18). Temos aqui uma evocação da vitória de
Deus contra os antigos egípcios no mar Vermelho (Êx 14.28,30; 15.5-10).
4 O povo de Deus considera a destruição dos opressores como um ato de livramento (salvação) e proteção do Senhor. Uma
expressão do seu amor justo (Na 1.4). A soberania e a graça de Deus ficam ainda mais evidentes quando a humanidade se
levanta em rebelião ou rejeita a correção divina (Rm 5.20).
5 Quem pode observar nas crises e dramas, pessoais e mundiais, a mão justa e misericordiosa de Deus, volta ao culto e à
adoração com redobrado vigor espiritual (Na 1.15; Sl 50.14).
Capítulo 77
1 Uma comparação deste salmo com Hb 3.8-10 indica eventos passados num período avançado da monarquia israelense. O
salmista vence uma árdua e assustadora escalada, partindo do desespero para a esperança certa (a certeza da fé), mediante uma
reflexão honesta sobre os atos de Deus no passado.
2 Os primeiros versículos narram a crise de depressão profunda que acomete o salmista. Ele se vê como uma pessoa muito
doente, apelando pelo socorro de alguém durante o silêncio frio e surdo da noite. Seu foco fica todo sobre seu próprio ser e o
desassossego lhe rouba o sono. Nesse ponto, até as recordações das antigas manifestações de misericórdia de Deus servem de
suplício para a alma angustiada (Sl 22.1-11).
3 A fé é a decisão pessoal e irrevogável de crer na intervenção do Senhor no centro das nossas crises, a fim de nos salvar de
forma plena e eterna. O salmista medita nos poderosos e inquestionáveis atos salvíficos de Deus para com seu povo, na antigui-
dade, e se rende à graça da majestade de Deus (Sl 63.2; Êx 14.19; 15.11).
4 É comum os autores do AT se referirem a “José” (ou Efraim, filho de José), querendo significar o Reino do Norte em contra-
posição ao Reino do Sul, ou seja, “Judá” (2Sm 19.20; 1Rs 11.28; Sl 78.67; Ez 37.16,19; Am 5.6,15; 6.6; Zc 10.6). Contudo, aqui
e em outros trechos, “José”, por ter sido elevado à condição de primogênito, representa todo o seu povo, bem como todos os
descendentes de Jacó (Sl 80.1; 81.5; Ob 18; Gn 48.5; Js 16.1-4; 1Cr 5.2; Ez 47.13).
SALMOS 77, 78 80

16 As águas te avistaram, ó Deus, as águas desse; e os filhos que haviam de nascer,


te tremeram e contemplaram; até as pro- quando maduros, o transmitissem igual-
fundezas estremeceram. mente a seus filhos,
17 As nuvens desfizeram-se em água, hou- 7 para que depositassem em Deus sua con-
ve trovões nos céus; também tuas flechas fiança e não se esquecessem dos feitos de
coruscavam em todas as direções. Deus, mas guardassem seus mandamentos,
18 Ao reboar do teu trovão na tempesta- 8 a fim de não se tornarem como seus
de, os raios iluminando o mundo; estre- pais, geração indócil e rebelde, geração
meceu a terra e abalou-se. de coração inconstante, de espírito infiel
19 A tua vereda atravessou o mar, e o teu a Deus.
Caminho, pelas águas poderosas. 9 Se os filhos de Efraim, arqueiros arma-
20 Guiaste o teu povo como a um reba- dos, retrocederam no dia do combate,3
nho pela mão de Moisés e de Arão. 10 é porque, não guardando a aliança de
Deus, recusaram seguir a sua Lei.
Ação divina na história de Israel 11 Esqueceram-se dos seus atos e dos
Um poema da família de Asafe. prodígios que lhes mostrara.

78 Escuta meu ensino, ó povo meu,


presta atenção às palavras da mi-
nha boca!1
12 Ele realizou maravilhas diante dos seus
antepassados, na terra do Egito, na região
de Zoã.
2 Em parábolas abrirei a minha boca, 13 Dividiu o mar para que pudessem pas-
proferirei enigmas do passado.2 sar; fez a água erguer-se como um muro.
3 O que ouvimos e aprendemos, o que os 14 Durante o dia guiava-os por meio de
pais nos contaram, uma nuvem e, a noite toda, por um cla-
4 não o ocultaremos aos filhos; transmi- rão de fogo.
tiremos à geração vindoura as gloriosas 15 Fendeu as rochas no deserto e deu-lhes
realizações do SENHOR, seu poder e as água em abundância, como a que flui das
maravilhas dos seus feitos. profundezas;
5 Ele estabeleceu uma lei em Jacó, deter- 16 do rochedo fez jorrar torrentes, fez
minou um código de conduta em Israel. correr a água como rios.4
Ordenou a nossos pais que o ministras- 17 Eles, porém, continuaram a pecar con-
sem a nossos filhos, tra Ele, rebelando-se contra o Altíssimo
6 para que a geração seguinte o apren- na estepe.

1 Este salmo expressa um conceito básico que permeia toda a Palavra de Deus: a confiança (fé) em Deus e a fidelidade ao
Senhor por parte do seu povo são questões relativas à Aliança, e não provêm de princípios abstratos. Resultam da lembrança
dos muitos milagres e atos salvíficos de Deus. Portanto, a incredulidade e infidelidade são atitudes ainda mais censuráveis, por-
quanto, quem assim procede desconsidera a realidade e a maravilha da intervenção divina em favor dos seus amados (Sl 105;
106). Este poema melódico e doutrinário faz parte do período da chamada monarquia dividida, na época do profeta Oséias que,
muitas vezes, assim como Isaías, usa o nome de Efraim significando todo o Reino do Norte, por ser a tribo líder daquele reino.
A deslealdade de Israel é sintetizada aqui no pecado de Efraim (v.9). O salmo é uma advertência aos judeus crentes, a Judá e
ao Reino do Sul (v.68), que viviam e adoravam a Deus em Jerusalém, a fim de não se deixarem desviar da fé como fizeram seus
irmãos do Norte (vv.59,60).
2 As parábolas (enigmas e metáforas sapienciais) deste salmo foram lembradas por Mateus como uma voz profética que pre-
nunciava a voz do Cristo (o Messias), sendo proclamada, com ênfase, pelo apóstolo Estêvão (Mt 13.35; At 7).
3 Conforme ressaltam os profetas, especialmente Amós e Oséias, o Reino do Norte não guardou as ordenanças estipuladas
na Aliança do Senhor, nem se recordou dos seus atos salvíficos, agindo sistematicamente com rebeldia à Palavra de Deus,
violando os compromissos de lealdade que firmara desde os tempos da peregrinação no deserto (vv.9-16; 32-39; 40-55). Efraim,
que liderava e representava o Reino do Norte, tinha uma tribo de exímios arqueiros e guerreiros; a metáfora aqui usada é melhor
compreendida à luz do v.57, em que o “arco frouxo” ou “defeituoso” significa o “afrouxamento da fé e do padrão de fidelidade do
povo em relação a Deus, de forma contínua e prolongada, ao longo da história” (v.10; Dt 33.17).
4 Uma coleção de citações bíblicas e históricas resume as conhecidas pragas do Egito e alguns milagres relacionados à água,
no mar Vermelho e no próprio deserto do Sinai. Em seguida, nos ciclos narrados nos vv. 17-39 e 40-64 mais pecados são agrega-
dos ao processo de julgamento de Israel (Êx 15.24; vv.35,56; Gn 14.19). Zoã era uma cidade situada na região nordeste do delta
do rio Nilo (v.43; Nm 13.22; Êx 14.1 – 15.21; Êx 17.6; Nm 20.8-11).
81 SALMOS 78

18 Em seu coração tentaram a Deus, exigin- 33 Por isso, Ele encerrou os dias deles
do alimento mais apetitoso ao seu paladar. como um sopro, e os anos deles em re-
19 Exclamaram contra o Senhor, questio- pentino pavor.
nando: “Será Deus capaz de servir-nos à 34 Sempre que Deus os castigava com
mesa no deserto? morte, eles o buscavam; com fervor se
20 É verdade, Ele bateu na rocha, e eis que voltavam de novo para Ele.
brotou água e jorraram torrentes; mas 35 Recordavam que Deus era a sua Rocha,
poderá também fornecer pão e prover de que era o seu Redentor, o Deus Altíssimo.
carne seu povo?”5 36 Com a boca tentavam enganá-lo, men-
21 Portanto, ao ouvir tais queixas do tiam-lhe com a língua;
povo, enfureceu-se e com fogo atacou a 37 de coração inconstante para com Ele,
Jacó, e sua ira se levantou contra Israel, não eram fiéis à sua aliança.
22 pois eles não creram em Deus nem 38 Entretanto, porque era misericordioso,
confiaram no seu poder salvador. perdoava a culpa deles, a fim de que não
23 Deu ordem às nuvens do alto e abriu fosse necessário que os destruísse; mui-
as comportas do céu:6 tas vezes, reprimiu sua cólera santa e não
24 fez chover maná sobre o povo para que acendeu todo o seu furor,
se alimentassem, deu-lhes trigo do céu!7 39 recordando-se de que eram seres frá-
25 Cada pessoa se alimentou do pão dos geis e meros mortais, brisas passageiras
anjos; enviou-lhes comida à vontade. que não retornam.
26 Mandou do céu o vento oriental, e por 40 Quantas vezes se mostraram rebeldes
meio do seu poder fez avançar o vento sul. contra Ele no deserto, e o entristeceram
27 Então, fez chover carne sobre eles na terra solitária!
como grãos de areia, bandos de aves 41 Quantas vezes puseram Deus à prova; ir-
como a areia da praia. ritaram profundamente o Santo de Israel.
28 Levou-as a cair dentro do acampa- 42 Não se lembravam da sua mão podero-
mento, ao redor de suas tendas. sa, do dia em que os redimiu do opressor,
29 Comeram até se fartarem, e assim Ele 43 do dia em que revelou as suas maravi-
satisfez o desejo do coração deles. lhas no Egito, os seus milagres na região
30 Contudo, antes de saciarem o apetite, de Zoã,
quando ainda mastigavam a comida que 44 quando transformou os rios e os ria-
lhes restava na boca, chos dos egípcios em sangue, e eles não
31 desencadeou-se a ira de Deus contra mais conseguiram beber das suas pró-
aquele povo, semeando a morte entre os prias águas;
mais valentes, abatendo os jovens de Is- 45 e mandou enxames de moscas que os
rael.8 molestaram, e rãs que os devastaram;9
32 Apesar disso, continuaram pecando; 46 quando entregou suas plantações às lar-
não creram nos seus milagres. vas; a produção da terra, aos gafanhotos,

5 O ser humano, incrédulo e pecaminoso chega a aceitar os milagres de Deus, mas não com a gratidão e a reverência devidas
e, sim, como apenas um ponto de partida para novas exigências e questionamentos. Aqui, o salmista faz uma junção de dois
episódios conhecidos (Êx 16.2,3; Nm 11.4).
6 Em Nm 11.1, vemos como a ira divina literalmente se acendeu. Várias metáforas permeiam este salmo, como recurso didático
para transmitir a história do amor de Deus para com seu povo, ao longo dos séculos (vv.31,49,50.58,59,62; Gn 7.11; 2Rs 7.2; Ml
3.10; Sl 2.5). Toda a obra de Deus, desde a Queda (Gn 3), tem como objetivo resgatar um povo formado por filhos amados que
no Senhor e Salvador depositassem toda a sua fé, gratidão e reverência (Jo 6.29).
7 Um dos significados mais profundos do termo hebraico “maná” é “pão do céu”, como descrito em Êx 16. Contudo, seu
sentido eterno fica evidente no sacrifício vicário e redentor de Jesus Cristo, o Messias (Jo 6.51).
8 A gula carnal do povo (egoísmo sórdido e desesperado) fez que as pessoas fixassem seus olhos na provisão, e não no
Provedor. Deus, em sua tristeza e decepção, castigou aqueles irreverentes e incrédulos com uma superabundância de provisão.
Sem os limites da sabedoria divina, muitos morreram de prazer (Nm 11.31-34).
9 A preocupação do salmista não é apresentar uma lista detalhada das pragas do Egito (Êx 7 – 12), mas, sim, deixar bem clara
SALMOS 78, 79 82

47 e destruiu as suas vinhas com a saraiva, cativeiro, e seu esplendor, nas mãos do
e as suas figueiras bravas, com a geada; opressor.
48 quando entregou o gado deles ao gra- 62 Abandonou à espada seu povo, irrita-
nizo, os seus rebanhos aos raios; do contra a herança.
49 quando os atingiu com sua ira ardente, 63 Um fogo devorou os jovens, e as don-
com furor, indignação e hostilidade, com zelas não tiveram canto nupcial.
muitos anjos destruidores. 64 Os sacerdotes tombaram sob a espada,
50 Abriu caminho para sua ira, não pou- e não os prantearam as viúvas.
pou da morte suas almas, mas entregou 65 Então, como de sonolência, despertou
suas vidas à peste. o Senhor, como um guerreiro aturdido
51 Feriu todos os primogênitos do Egito, as pelo vinho,
primícias da virilidade, nas tendas de Cam. 66 e golpeou os inimigos pelas costas,
52 Fez partir seu povo como um rebanho e infligindo-lhes infâmia eterna.
os conduziu como ovelhas pelo deserto. 67 Descartou a tenda de José, preteriu a
53 Guiou-os com segurança, sem temo- tribo de Efraim.
res, enquanto o mar cobria os inimigos. 68 Escolheu a tribo de Judá, o monte Sião,
54 Fê-los entrar em seu domínio sagrado, que Ele amava.12
até a montanha que sua destra conquistara. 69 Construiu seu santuário como no alto
55 Diante deles expulsou nações e, por céu, como a terra, que consolidou para
sorteio, repartindo o patrimônio, insta- sempre.
lou em suas tendas as tribos de Israel. 70 Escolheu Davi, seu servo, tirando-o
56 Eles, no entanto, puseram Deus à pro- dos apriscos do rebanho;
va e foram rebeldes contra o Altíssimo; 71 do cuidado das ovelhas, seu povo, Isra-
não obedeceram às suas prescrições. el, sua herança.
57 Desertaram e, como seus pais, o atraiçoa- 72 E ele os pastoreava com coração irre-
ram, envergando-se como um arco frouxo. preensível e, com a perícia de suas mãos
58 Com seus altares idólatras, eles o irri- os conduzia.
taram tremendamente; com seus ídolos
lhe provocaram ciúmes.10 O povo suplica o socorro de Deus
59 Deus ouviu e se indignou e, com vee- Um salmo da família de Asafe.
mência, repudiou Israel.
60 Abandonou o tabernáculo de Siló, a ten-
da onde fazia morada entre os homens.11
79 Ó Deus, as nações invadiram tua
herdade, profanaram teu santo
templo, reduziram Jerusalém a ruínas.1
61 Entregou o símbolo do seu poder ao 2 Lançaram os cadáveres de teus servos

a história de incredulidade, rebeldia, falta de gratidão e reverência sincera para com o Senhor, o Santo de Israel (Sl 71.22; 89.18;
Is 1.4). O v.55 oferece um resumo da história narrada em Josué. A rebeldia de Israel e a benignidade de Deus continuaram a ser
temas recorrentes na terra prometida, conforme o livro dos Juízes (1Sm 2.12 – 7.2; Jr 7.15).
10 Deus não divide sua glória com nada e com ninguém. Zelo e ciúmes são as expressões hebraicas originais para traduzir
o sentimento de indignação de Deus ao contemplar a deslealdade do seu povo amado, erguendo altares idólatras e cultuando
coisas e deuses (Êx 20.5).
11 A cidade de Siló era reconhecida como um centro de adoração a Deus desde os tempos de Josué (Js 18.1,8; 21.1,2; Jz
18.31), situava-se em Efraim, entre Betel e Siquém (Jz 21.19). Na época dos juízes, Siló abrigou o tabernáculo de Deus que,
mais tarde, tornou-se um templo (1Sm 1.3; Jr 7.12). Entretanto, por causa da incredulidade e rebeldia de Israel, esse templo foi
parcialmente destruído pelos filisteus, e completamente arrasado pelos assírios, no ano 721 a.C., quando a Arca da Aliança foi
seqüestrada e jamais voltaria para Siló (Jr 7.12). Os vv.62-64 descrevem o fim das tribos e do Reino do Norte.
12 O Santuário foi estabelecido em Jerusalém na pessoa do rei Davi, cuja majestade e messianato simbolizam – eternamente e
ao mesmo tempo – o Rei, o Profeta e o Sumo Sacerdote (ou Pastor): Jesus Cristo, ministrando no Tabernáculo Celestial, assen-
tado à direita da glória e majestade do Pai nos céus (Hb 8 e 9; Jo 10.1-17).
Capítulo 79
1 “Nação” é uma palavra bíblica de origem hebraica que significa “uma coletividade de pagãos”. Israel reconhece que Deus
usou “as nações” para castigar seu povo por sua incredulidade, rebeldia e demais pecados, de maneira que se rende e suplica
o perdão do Senhor. Contudo, Israel também sabe que os reinos pagãos têm agido por malignidade e desprezo contra Deus e
83 SALMOS 79, 80

como pasto às aves sarcófagas, a carne prisioneiros; com teu braço poderoso
dos teus fiéis, aos animais selvagens. preserva os sentenciados à morte.
3 Derramaram, como água, seu sangue 12 Devolve a nossos vizinhos, sete vezes
em torno de Jerusalém, e ninguém os mais, a afronta com que te insultaram,
sepultava. Senhor!
4 Tornamo-nos o escárnio dos vizinhos, 13 Então nós, o teu povo, as ovelhas das
objetos de riso e menosprezo para todos tuas pastagens; de geração em geração,
que vivem ao nosso redor. para sempre te adoraremos e cantaremos
5 Até quando, SENHOR? Estarás sempre os teus louvores.
irado, ardendo com fogo teu zelo?
6 Derrama teu furor sobre as nações pa- Oração pela restauração de Israel
gãs, sobre todos os reinos que não te ado- Ao regente do coro: segundo a melodia “Os lírios
ram, que não invocam teu Nome, da Aliança”. Um salmo da família de Asafe.
7 porquanto devoraram Jacó e assolaram
sua morada!
8 Não evoques contra nós as culpas dos
80 Escuta, ó Pastor de Israel, que
guias José como um rebanho! Tu,
que estás entronizado sobre os queru-
nossos pais! Venha logo ao nosso encon- bins, manifesta a tua glória,1
tro tua compaixão, pois estamos profun- 2 diante de Efraim, Benjamim e Manassés!
damente deprimidos.2 Desperta teu poder e vem salvar-nos!
9 Ajuda-nos, ó Deus, Salvador nosso, pela 3 Restaura-nos, ó Deus: faze brilhar tua
glória do teu Nome! Livra-nos e perdoa bondosa face, para que sejamos salvos.
nossos pecados, por causa do teu Nome! 4 Eterno, Deus dos Exércitos, até quando
10 Por que hão de dizer as nações: “Onde em tua ira santa ignorarás as preces do
está o seu Deus?” Diante de nossos olhos, teu povo?
mostra aos pagãos a tua vingança pelo 5 Deste-lhe a comer o pão das lágrimas, a
sangue dos teus servos!3 beber um pranto triplicado.2
11 Chegue à tua presença o lamento dos 6 Fizeste-nos objeto de contenda dos vi-

seu povo; esse fato justifica sua petição pelo juízo do Senhor contra tais nações (Is 10.5-11; 47.6,7). Em 586 a.C., os babilônios
invadiram e destruíram Jerusalém, massacrando os pobres e incultos, e levando para o cativeiro todas as pessoas com boa for-
mação cultural ou capacidade técnica. A oração de Daniel em muito se assemelha a este salmo em suas expressões de profundo
arrependimento (Dn 9.4-19; Sl 73;74). Aqui há uma referência explícita à pátria de Israel como domínio (templo) do Senhor (Sl
2.8; 78.62-71).
2 O salmista lembra o profeta Jeremias e consegue ver o amor do Pai mesmo sob repreensão severa (Jr 10.25). Jacó é usado
como sinônimo de Israel (Gn 32.28). A destruição de Jerusalém ocorreu após mais de um século em que o povo se desviou
do Senhor e preferiu seguir orientações pagãs (2Rs 17.7-23; 23.26,27; 24.3,4; Dn 9.4-14), pecados se avolumaram e não foram
reconhecidos, confessados e abandonados por amor a Deus. Aqui, os exilados suplicam que o Senhor leve em conta a Aliança
celebrada com seu povo e o sincero arrependimento daquela geração de crentes sofredores (Sl 23.6; 43.3).
3 Mais terrível que o desterro, a escravidão e a desgraça é ouvir dos pagãos: “Onde está o seu Deus?”, pois o incrédulo é o
primeiro a fazer uma relação direta entre “bênção divina” e “prosperidade”. A nova geração de fiéis israelitas pede que o Senhor
tenha compaixão deles, e que também não permita que seu Nome (a pessoa excelsa de Deus) seja difamado pelos ímpios. O
povo pede ressarcimento pelo sangue derramado, especialmente dos inocentes, e lembra a Deus que há uma maldição prescrita
sobre todo aquele que persegue um filho de Deus (Dt 32.35-43; Sl 3.2; 23.3; 65.3).
Capítulo 80
1 Esta é uma súplica pela restauração de Israel depois de ter sido arrasado por uma potência pagã. O salmo é dividido em
três partes, cada qual tendo um coro que exclama literalmente Elohim hashivênu, vehaer panêcha venivashêa – transliteração do
original hebraico que significa “Restaura-nos, ó Deus, e faze sobre nós resplandecer tua face, e então seremos salvos”. Segundo
descobertas arqueológicas, Jerusalém e sua região rural passaram nessa época por um aumento repentino e substancial de
população, certamente como resultado da chegada maciça de refugiados no Norte, que fugiam dos exércitos assírios. Esse fato
justifica a presença de “Efraim, Benjamim e Manassés”, no templo em Jerusalém, e sua oração em favor de uma restauração
nacional, já que essas tribos representavam o Reino do Norte - as dez tribos recebidas por Jeroboão, deixando apenas Judá para
Roboão, ainda que essa abrigasse a tribo de Simeão (1Rs 11.29-36; Js 19.1-9). Mesmo considerando que a pequena Benjamim
pertencesse ao Reino do Norte, parte dessa tribo viveu dentro das fronteiras de Jerusalém. Foi, portanto, a nação pagã dos assí-
rios que varreu o Reino do Norte da história (1Rs 12.21; 2Rs 17.1-6).
2 Por causa do pecado cometido no Éden (Gn 3), o ser humano foi condenado a obter seu alimento por meio do suor do seu
SALMOS 80, 81 84

zinhos, e de nós zombam os inimigos. conservarás a vida, e invocaremos o teu


7 Restaura-nos, ó Deus dos Exércitos, Nome.
faze resplandecer sobre nós o teu rosto, 19 Restaura-nos, ó Deus, SENHOR Todo-
para que sejamos salvos. Poderoso: faze brilhar tua face sobre nós,
8 A videira que retiraste do Egito, tu a re- e então seremos salvos!
plantaste, expulsando nações.3
9 Limpaste o terreno, e ela lançou suas Exortação ao culto e à obediência
raízes enchendo a terra toda. Ao regente do coro: segundo a melodia “Os la-
10 Sua sombra cobriu as montanhas, e gares”. Um salmo da família de Asafe.
seus ramos, os cedros altíssimos.
11 Suas ramagens se estenderam até o
Mar, e seus brotos, até o Rio.4
81 Cantai de júbilo a Deus, nossa for-
ça; celebrai o Deus de Jacó.1
2 Salmodiai e fazei soar os pandeiros, to-
12 Por qual motivo derrubaste suas cer- cai a lira e a harpa melodiosa.
cas, permitindo que todos os que passam 3 Fazei ressoar a trompa, na lua nova, na
tomem suas uvas? lua cheia, no dia de nossa festa!
13 O javali da selva a devasta, pastam nela 4 Porque é uma lei para Israel, um precei-
os animais do campo. to do Deus de Jacó,
14 Volta-te, ó Deus Todo-Poderoso, olha 5 uma regra que Ele impôs a José, quando
do céu e vê! Vem visitar esta videira saiu contra a terra do Egito. Ali ouvimos
15 da raiz que a tua mão direita plantou, uma língua que não compreendíamos.
o filho que para ti fortaleceste! 6 Ele declara: “Tirei o fardo dos teus om-
16 Ei-la incendiada, cortada. Pereçam bros, e tuas mãos ficaram livres dos ces-
eles, sob a ameaça do teu rosto! tos de cargas.
17 Pousa a tua mão sobre aquele homem 7 Quando clamaste na aflição, Eu te li-
que está à tua direita: o filho do homem bertei; Eu te respondi, oculto no trovão;
que para ti mesmo fizeste crescer.5 provei-te junto às águas de Meribá.2
18 Não nos afastaremos de Ti: Tu nos (Pausa)

rosto. E, em virtude dos sucessivos pecados individuais, é com lamento e lágrimas que muitas vezes faz suas refeições. No
momento, a que se refere este salmo, Deus vinha permitindo grande sofrimento a Israel, em vez do “pão dos anjos” e da “água
da rocha” (Sl 78.20-25).
3 A expressão hebraica original “videira-vinha” era uma maneira simbólica de se referir a Israel, mas só na pessoa de Jesus
Cristo nos é possível compreender a plenitude dessa metáfora: um ramo sem valor algum quando separado do tronco, que é
Cristo, o Messias (Jo 15.1-27; Sl 78.52; 40.2).
4 Aqui, o salmista faz uma referência à extensão do território santo, no tempo da prosperidade política de Israel (cerca de 950
a.C.): desde o “Mar” Mediterrâneo até o grande “Rio” Eufrates. A palavra hebraica traduzida por “Deus” e “Senhor” é, às vezes,
no original, usada no sentido de “Todo-Poderoso” ou “Deus dos Exércitos” (Sl 29.1). Os profetas também comparavam Israel à
Vinha do Senhor, florescente e transplantada por Deus (Is 3.14; 5.1-7; 27.2; Jr 2.21; 12.10; Ez 17.6-8; 19.10-14; Os 10.1; 14.7; Mq
7.1; Gn 49.22; Mt 20.1-16; Mc 12.1-9; Lc 20.9-16; Jo 15.1-5).
5 Quando está desamparada, a videira se enfraquece e acaba como um simples e inútil cipó. Entretanto, devidamente cultivada,
ela cresce à altura das grandes árvores, como o carvalho, que utiliza como esteio. O salmo inteiro relembra a Aliança e as bênçãos
divinas do passado, ao rogar pela salvação imediata. A expressão hebraica original “o filho do homem” era um título que Jesus
Cristo aplicava a si mesmo (Hb 1.13).
Capítulo 81
1 Motivo de júbilo festivo é a celebração da renovação da Aliança (2Cr 15.10-15). Jacó é sinônimo de Israel (Gn 32.28). Essa
solenidade tem ligação estreita com a festa da Páscoa (festa dos Pães sem Fermento – Êx 12.14-17), pois ambas constituem um
memorial da libertação do povo de Deus. Na Páscoa se evoca a libertação da agressão externa, ao passo que em Pentecostes
se celebra a libertação da divisão interna. O contexto histórico é o Êxodo dos israelitas em trajetória desde o Egito até o Sinai.
Outras festas judaicas podem usar este salmo em suas cerimônias: o Ano Novo (v.3; Lv 23.34; Nm 29.1); a festa dos Tabernáculos
ou Cabanas (Nm 29.12).
2 O autor levítico recebe a revelação do significado da “voz” (linguagem) do Senhor que se projetou dos “trovões”, na época
do juízo divino contra o Egito, a qual passa a interpretar com sua aplicação presente à congregação reunida em celebração
solene (vv.6-16; 114.1; Dt 28.49; Is 19.18; 33.19; Jr 5.15; Ez 3.5,6). A resposta de Deus à aflição que os inimigos impunham a
Israel fora uma tempestade que destruíra todo o exército perseguidor. O nome “Meribá” pode significar “rebelião” e “contenda”
(Êx 17.1-7).
85 SALMOS 81–83

8 Escuta, povo meu! Quero admoestar-te.


Tomara que tu, Israel, me escutes!
9 Não haja no meio de ti deus estranho,
82 Deus, o supremo Juiz, levantou-se
na assembléia divina, no meio dos
poderosos abre o julgamento:1
não adorarás qualquer entidade diferen- 2 “Até quando dareis sentenças injustas,
te de mim! favorecendo os ímpios?2
10 Eu Sou o Eterno, teu Deus, que te fez (Pausa)
subir da terra do Egito; abre bem a tua 3 Sede juízes para o desvalido e órfão, fa-
boca, e Eu te satisfarei!3 zei justiça ao mísero e ao indigente;
11 Contudo, meu povo preferiu não me 4 libertai o fraco e o pobre, livrai-os das
dar ouvidos; Israel não quis obedecer-me. garras dos ímpios!
12 Por isso os entreguei a seu próprio co- 5 Eles nada compreendem, nem perce-
ração teimoso, a fim de que seguissem bem que vagueiam pelas trevas da igno-
seus intentos e desejos!4 rância e da insensibilidade; abalam assim
13 Ah! Se meu povo me escutasse! Se Isra- as bases que sustentam a própria terra.
el andasse pelos meus caminhos, 6 Eu declarei: vós, ó juízes, sois como os
14 prontamente, Eu mesmo venceria seus deuses; todos vós sois filhos do Altíssimo!
inimigos, voltaria a minha mão contra 7 No entanto, como seres humanos, mor-
todos os seus adversários; rereis e, como qualquer outro governan-
15 os que odeiam o SENHOR se renderiam te, caireis”.
diante dele, e receberiam uma punição 8 Levanta-te, ó Eterno, e julga tua ter-
perpétua. ra, porquanto a ti pertencem todas as
16 Então, Eu sustentaria Israel com o me- nações!3
lhor trigo e, com mel retirado da rocha,
Eu, pessoalmente, o satisfaria”. Deus peleja contra seus inimigos
Cântico. Salmo da família de Asafe
Os juízes devem agir com justiça
Para o mestre de música. Salmo e cântico da
família de Asafe.
83 Ó Deus, não emudeças; não fiques
como quem não pode falar nem te
detenhas, ó SENHOR!1

3 O crente deve confiar totalmente (sem qualquer sombra de dúvida) na provisão amorosa, certeira e completa de Deus, assim
como agira no deserto (Sl 78.23-29; 37.3,4; Dt 11.13-15; 28.1-4). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico da
seguinte forma: Anochi Adonai Elohêcha hamaalchá meérets Mitsráyim, harchev pícha vaamal’êhu. No NT, o discípulo amado
encerra sua primeira carta à Igreja, admoestando-nos a jamais desviarmos o Messias do foco absoluto da nossa fé (1Jo 5.21).
4 Nenhuma correção é mais justa e severa do que esta: entregar a alma humana à sua própria renitência (Rm 1.24-28).
Capítulo 82
1 O esplendor da justiça divina ofusca e envergonha todos os julgamentos iníquos e as procrastinações dos juízes e governan-
tes da terra em relação ao direito dos povos, especialmente dos pobres e incapazes de se defender. O autor levítico deste salmo
evoca uma visão de Deus presidindo seu tribunal, nos céus. Uma ilustração análoga às experiências dos profetas (1Rs 22.19-22;
Is 6.1-7; Jr 23.18,22; Jó 15.8; Sl 47; 94.2; 96.13; 98.9: 99.4; Gn 18.25; 1Sm 2.10). Na antigüidade hebraica, alguns rabinos de
grande prestígio costumavam ensinar que a expressão “os deuses” no texto sagrado se referia à presença de “governantes e
juízes perversos” em Israel e que estavam contrariando a vontade de Deus. Atualmente, a maioria dos estudiosos de renome
afirma que esse termo indica os “governantes pagãos e vizinhos a Israel” que procuravam convencer os povos acerca de sua
procedência extraterrestre e divina. Embora teoricamente, e em seus discursos, sempre fizessem apologia à justiça, na prática
suas atitudes eram freqüentemente desfavoráveis à solidariedade e ao direito dos povos, especialmente dos pobres. Seja como
for, o fato é que chegou a hora apocalíptica da confrontação entre o Juiz dos juízes e Rei dos reis, em relação aos poderosos e
governantes do mundo (Sl 58).
2 O salmista tem a nítida visão de uma grande assembléia no Superior Tribunal da Justiça Divina, onde os reis, juízes, governan-
tes e os poderosos da terra foram convocados para depor e prestar contas de suas ações (1Rs 7.7; 22.19; Jó 1.6; 2.1; Sl 89.5; Is
6.1-4). Na linguagem poética do antigo Oriente Médio, os reis, príncipes e juízes eram considerados procuradores do Rei celestial
e, portanto, dignos de receber o título de “deus” (Êx 9.16; 21.6; 22.8; Sl 2.7; 1Rs 3.9; Pv 8.14-16; Jr 27.6; Dn 2.21; 4.17,32; 5.18;
Is 11.2; 44.19,28; Jo 19.11; Rm 13.1).
3 O salmista eleva sua oração em nome de todos os justos da terra, suplicando que Deus venha sem demora e realize seu
julgamento sobre o mundo todo; literalmente: “tua herança” ou “teu domínio” (3.7; 79.1).
Capítulo 83
1 Este salmo é fruto de uma mensagem recebida pelo levita Jaaziel, descendente de Asafe, quando Israel esteve sob a ameaça
SALMOS 83, 84 86

2 Eis que teus inimigos se alvoroçam; vê 12 que aventaram: “Apoderemo-nos das


como empinam a cabeça em sinal de de- habitações de Deus!”
safio! 13 Meus Deus! Faze-os rodopiar como
3 De maneira astuta armam ciladas con- folhas secas no chão, como palha ao ca-
tra o teu povo; tramam maldades contra pricho do vento!
os teus protegidos. 14 Como o fogo que devora a floresta,
4 Conjeturam: “Vinde, exterminemo-los como a labareda que abrasa os montes,
da face da terra; a fim de que não haja mais 15 persegue-os com o teu vendaval, apa-
qualquer lembrança do nome de Israel!” vora-os com a tua tempestade.7
5 Eles deliberam de comum acordo, é 16 Cobre-lhes de vergonha o rosto até que
contra ti que estabelecem conchavos: decidam buscar teu Nome, ó Senhor!
6 as tendas de Edom e os ismaelitas, Mo- 17 Assim, humilhados e aterrorizados
abe e os hagarenos,2 para sempre, pereçam na mais absoluta
7 Gebal, Amom e Amaleque, a Filístia, desgraça.
com os habitantes de Tiro.3 18 Saberão, portanto, que só tu, cujo
8 Até a Assíria juntou-se a eles, e empres- Nome é Eterno, é Único, e que somente
tou sua força aos descendentes de Ló.4 tu, ó Altíssimo, és o SENHOR e soberano
(Pausa) de toda a terra!8
9 Age sobre eles como agiste contra Mi-
diã, como fizeste a Sísera, como trataste a Saudades da Casa de Deus
Jabim, no rio Quisom;5 Ao mestre de canto, de acordo com a melodia
10 os quais pereceram em En-Dor e vira- “Os Lagares”. Um salmo dos coraítas.
ram esterco para serem consumidos pela
terra.6
11 Faze com seus nobres o que fizeste
84 Como é amável o lugar da tua
morada, ó SENHOR dos Exércitos!
2 Minha alma se consome de ansieda-
com Orebe e Zeebe, e com todos os seus de pelos átrios do SENHOR, meu coração
príncipes, o que fizeste com Zeba e Zal- e minha carne vibram de alegria pelo
muna, Deus vivo.

de uma grande confederação de inimigos, e os aliados de Moabe, Amom e Edom estavam invadindo Judá (2Cr 20.1-30). Embora
essa Palavra de Deus tenha vindo para dar forças ao povo em momento específico da história de Israel, tudo indica que seja
também um sinal quanto às grandes e ameaçadoras movimentações contra o povo de Deus, que ocorrerão no final dos tempos.
Este salmo foi escrito depois do reinado de Salomão, mas antes dos terríveis ataques da Assíria nos dias do rei Manaém, o que
reforça seu caráter profético (1Rs 15.19).
2 Os hagarenos ou ismaelitas descendiam de Hagar e estavam misturados a uma confederação de arameus (1Cr 5.10-22; 27.31).
3 Gebal era uma importante cidade fenícia também conhecida por Biblos (1Rs 5.18; Ez 27.9).
4 Nesta época, a Assíria ainda não se constituía numa grande ameaça como nação inimiga, mas ao aliar-se a Moabe e Amom
(povos descendentes de Ló – Gn 19.36-38), passou a representar sério perigo. Os inimigos tendem a juntar-se (ainda que não
haja real amizade entre eles) contra o povo de Deus.
5 Assim como na antigüidade, no tempo dos juízes e em todas as épocas, o Senhor protege seu povo. Deus deu a Gideão
vitória sobre os midianitas (Jz 7), cujos principais líderes eram Orebe e Zeebe, Zeba e Zalmuna (v.11), bem como ajudou Baraque
contra a aliança cananéia de Sísera e Jabim (Jz 4).
6 Neste episódio histórico, até parte do exército que estava em fuga, a nordeste da linha de frente da batalha, foi perseguida
pelo povo do Senhor, e seus soldados, completamente dizimados (Js 17.11).
7 Descrição simbólica dos guerreiros celestiais do Senhor atacando os inimigos do povo de Deus do meio dos fenômenos
atmosféricos (Sl 18.7-15; 68.33; 77.17,18; Êx 15.7-10; Js 10.11; Jz 5.4,20,21; 1Sm 2.10; 7.10; Is 29.5,6; 33.3). As nuvens das
tempestades são figuras dos carros de guerra do Senhor (Sl 68.4).
8 Deus não tem prazer nas guerras nem na dor ou sofrimento dos seres humanos, mesmo que sejam seus inimigos. O motivo
pelo qual o Senhor milita com seus exércitos contra seus adversários e as nações pagãs é proporcionar uma última forma de
quebrar-lhes a arrogância, e criar, nesses povos, um coração capaz de reconhecer a Deus e buscá-lo como verdadeiros crentes
(v.16; 40.9; 47.9; 58.11; 59.13). Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Veiedeú ki ata shimchá
Adonai levadêcha, elion al col haárets (Gn 14.19).
Capítulo 84
1 Os levitas normalmente oficiavam o culto no templo. Nesse caso, porém, devido à invasão e assolação promovida por Sena-
87 SALMOS 84, 85

3 Até o pardal encontrou morada, e a an- 9 Ó Deus, que és o nosso Soberano; trata
dorinha um ninho para si, para abrigar com misericórdia o teu ungido!
seus filhotes, um lugar próximo ao teu 10 Pois um dia em teus átrios vale mais
altar, ó Eterno dos Exércitos, meu Rei e que mil em qualquer outro lugar; estar
meu Deus.2 recostado à porta da Casa do meu Deus é
4 Felizes os que habitam em tua Casa, melhor que morar nas tendas mais ricas
louvando-te sem cessar!3 dos ímpios.5
(Pausa) 11 Porquanto DEUs, o Eterno, é sol e escu-
5 Felizes os que em ti encontram sua for- do, o SENHOR concede graça e glória. Ele
ça, e todos aqueles que são peregrinos de nenhum bem recusa aos que vivem com
coração! integridade.6
6 Ao atravessarem o vale de lágrimas de 12 Ó SENHOR Todo-Poderoso, feliz é o ser
Baca, convertem-no num lugar de fon- humano que em ti confia plenamente!
tes, como a boa chuva de outono, que,
ainda o cobre de bênçãos. Súplica pelo perdão do Senhor
7 Caminhando com vigor sempre cres- Ao regente do coro. Salmo da família de Corá.
cente, apresentam-se perante Deus em
Sião.4
8 SENHOR, Eterno, Deus dos Exércitos,
85 Favoreceste, SENHOR, a tua ter-
ra; trouxeste Jacó de volta do
cativeiro!1
escuta minha oração, presta ouvido, ó 2 Perdoaste a culpa do teu povo e cobriste
Deus de Jacó! todos os seus pecados.2
(Pausa) (Pausa)

queribe contra Judá, o levita e autor deste salmo se vê separado da Casa do Pai, e expressa toda a sua saudade e anseio pelos
doces momentos passados em louvor, adoração, oração e comunhão com Deus (Sl 42; 2Rs 18.13-16).
2 O salmista observa a liberdade e o privilégio dos pequenos pássaros que, contemplados pela graça divina, podem se estabe-
lecer no templo e construir seus ninhos bem próximos do altar, honra que estava destinada a Israel e ao povo de Deus.
3 O mais importante na Casa de Deus é a presença do seu Espírito, que habita a alma e o corpo de todo crente sincero em
Jesus Cristo, o Messias (Mt 28.20).
4 Os verdadeiros peregrinos são aqueles que estão caminhando com Deus ao longo da vida, rumo à Terra Prometida (o eterno
Shabbath Shalom do Senhor). Uma tradução literal para a expressão “peregrinos de coração” pode ser “em cujo coração estão
os caminhos planos”, que lembram as estradas nas quais os israelitas andavam rumo a Jerusalém, na época das festas religiosas
(Sl 4.7). “Baca” significa ao mesmo tempo “choro” e “bálsamo”, e é o nome de um vale árido de localização incerta (Sl 23.4).
Essa expressão representa os trechos áridos e sofridos por onde os peregrinos tinham de passar até chegar em Jerusalém. As
expectativas felizes dos peregrinos ajudavam a transformar as travessias mais difíceis em momentos de consolo e aprendizado.
Assim, o vale do “choro” transformava-se, também, no vale do “bálsamo e do louvor a Deus” (2Cr 20.26), e os peregrinos, rumo
a Sião, experimentaram a mesma mão divina, poderosa e abençoadora, que conduziu Israel pelo monte Sinai à terra prometida.
Assim seus descendentes fizeram, ao sair do exílio na Babilônia, para suas casas em Sião (Sl 78.15,16; 105.41; 114.8; Is 41.17-
20; 43.19,20; 49.10).
5 Os filhos de Corá (levitas) tinham a obrigação de serem os porteiros solenes do templo. Nenhuma posição de honra no mun-
do (a casa dos ímpios) se compara à glória do mais humilde serviço prestado por amor ao Senhor.
6 O sol representa a fonte gloriosa de iluminação, revelando nossos erros e pecados e produzindo vida. O escudo nos protege
dos dardos mortíferos do Diabo (Ef 6.16). A luz e a força majestosa do Senhor são compartilhadas com seus filhos (Ap 19.6-8;
Gn 17.1; Sl 3.3; 15.2; 27.1).
Capítulo 85
1 Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Ratsíta Adonai artsêcha, shávta shevit Iaacov. A
expressão shávta shevit Iaacov (literalmente: tu te voltaste para Jacó” significa “a volta de Deus para o povo” (Jacó é sinônimo de
Israel – Gn 32.28) e, nas profecias sobre o exílio “a volta dos cativos” (Jr 29.14). Este salmo, portanto, é uma oração comunitária,
suplicando a renovação das misericórdias de Deus para com seu povo durante um período de crise no qual novamente Israel
se vê sob grandes aflições. Os versos 1 a 3 se referem à volta do exílio, e as provações são aquelas narradas por Neemias e
Malaquias. O verso 12 revela que uma terrível seca desolou Israel nessa época (Ag 1.5-11).
2 Deus responde à oração do salmista (e da congregação), com palavras que motivam e renovam a confiança de que seu povo
voltará a ser muito abençoado (v. 9; Nm 6.22-26), transmitidas por meio de um dos sacerdotes ou adoradores coraítas (2Cr 20.14;
Sl 12.5,6). Onde quer que o poder salvífico de Deus seja expresso, sua Glória é revelada (Sl 57.5,11; 72.18,19; Êx 14.4,17,18; Nm
14.22; Is 40.5; 44.23; 66.19; Ez 39.21).
SALMOS 85, 86 88

3 Puseste fim à tua indignação, retiraste sou um desvalido e estou muito aflito.
tua ardente cólera. 2 Conserva-me em vida, pois sou fiel.
4 Restaura-nos, ó Deus, nosso Salvador! Tu, meu Deus, salva teu servo, que em ti
Suprime teu rancor contra nós! confia!2
5 Estarás para sempre irritado contra nós, 3 Tem piedade de mim, SENHOR, pois a ti
prolongando tua ira, de geração em gera- clamo, todo o dia.
ção? 4 Alegra o coração do teu servo, porquan-
6 Acaso não nos renovarás a vida, a fim to a ti, SENHOR, elevo a minha alma.
de que o teu povo se rejubile em ti? 5 Pois tu és bondoso e perdoador, SE-
7 Revela-nos o teu amor, ó Eterno, e con- NHOR, rico em graça e misericórdia para
cede-nos a tua salvação! com todos os que te invocam.
8 Ouvirei atentamente o que Deus, o SE- 6 Escuta a minha oração, SENHOR; atenta
NHOR, tem a nos declarar; Ele promete para a minha súplica!
paz ao seu povo, aos seus devotos, desde 7 No dia do perigo clamo a ti, porque tu
que não retornem à insensatez!2 me respondes.3
9 Em verdade, próxima está a salvação 8 Ninguém, entre os deuses, é como tu, ó
que Ele trará aos que o temem, e sua gló- SENHOR, e nada existe que se compare às
ria habitará em nossa terra. tuas obras.
10 Então, o amor e a fidelidade se encon- 9 Todas as nações que fizeste virão pros-
trarão; a justiça e a paz se beijarão. trar-se diante de ti, SENHOR, e glorificarão
11 A lealdade germinará da terra, e a per- teu Nome,
feita justiça descerá dos céus! 10 pois tu és magnífico e realizas mila-
12 O SENHOR nos concederá a felicidade, e gres maravilhosos; em verdade só tu és
nossa terra produzirá farta colheita. Deus!
13 A justiça seguirá à sua frente com a fi- 11 Revela-me, SENHOR, teu Caminho, para
nalidade de preparar o caminho para seus que eu o siga em fidelidade para contigo.
passos!3 Orienta meu coração, para que tema teu
Nome!4
Oração em tempos de aflição 12 De todo o coração te exaltarei, SENHOR,
Uma prece de Davi.1 meu Deus, e glorificarei para sempre o
86 Ó Eterno, inclina para mim os teus
ouvidos e dá-me tua resposta, pois
teu Nome,
13 porquanto teu amor é tão generoso

3 O salmista personifica as expressões do caráter e do favor de Deus em relação a seu povo, como fruto da sua aliança leal e
indestrutível (vv.10-13). Portanto, a lealdade brotará da terra, assim como uma nova vida vegetal que surge para abençoar a huma-
nidade com seus frutos (Nm 6.26). A justiça atingirá a terra como os bons raios solares e, como uma guia experiente e arauto fiel
irá adiante, pelo caminho, demarcando como Deus deseja operar a favor dos seus, segundo sua aliança eterna (Sl 31.19; 4.1).
Capítulo 86
1 Inimigos pagãos e que desdenham de Deus estavam procurando, de todas as maneiras, destruir a vida de Davi (2Sm 7.5,8; Sl
18). O salmista recorre às misericórdias e ao poder libertador do Senhor. Este é o único salmo pós-exílico do livro III (Sl 73 – 89),
atribuído ao rei Davi ou a sua dinastia. Sua colocação entre os salmos coraítas tem a ver com a ligação temática que há entre o
verso 9 e Sl 87.4.
2 A expressão hebraica aqui traduzida por “fiel” é chassid, cujo sentido é de “sincera devoção, apesar das falhas humanas”.
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do original hebraico: Shamra nafshi ki chassid áni, hosha avdechá ata Elohai,
habotêach elêcha (Sl 4.3). A expressão “Tu, meu Deus...” não significa que Davi tivesse escolhido Deus, mas o reconhecimento
jubiloso de Davi de que fora escolhido pelo Senhor, para ser seu servo, ainda que seu ungido e rei de Israel (1Sm 13.14; 15.28;
16.12; 2Sm 7.8).
3 O Deus a quem Davi recorre é o Deus único e verdadeiro Yahweh (o Eu Sou do AT), criador do Universo e da Terra. Nenhum
outro “deus” age com tamanho amor, justiça e poder soberano. Um dia todas as nações da terra vão adorar a Deus por isso
(vv.8-10; Sl 46.10 115.3-7; 135.13-17).
4 Davi nos revela a maior aspiração do verdadeiro crente: não apenas ficar livre dos seus problemas imediatos e temporais, mas
ter seu coração em contínua e santa dependência do Espírito de Deus (Sl 4.7; 25.5; 51.7-10; Ez 11.19; 1Cr 12.33; 1Co 7.35). A
expressão “Nome” quando se refere a Deus, tem a ver com sua pessoalidade, e indica a presença divina (vv.9,12; 5.11). A profecia
do versículo 9 se cumpre em Jesus Cristo (Fp 2.9-11).
89 SALMOS 86, 87

para comigo, que livraste minha alma de 2 Ele ama os portais de Sião mais do que
todos os poderes da morte.5 todas as habitações de Jacó.
14 Ó Deus, os arrogantes se levantam 3 Ah! Maravilhas são contadas a teu res-
contra minha pessoa; um bando de pre- peito, ó Cidade de Deus!2
potentes atenta contra minha vida, gente (Pausa)
que não faz caso de ti. 4 “Entre os que me reconhecem incluirei
15 Entretanto tu, SENHOR, és Deus compas- o Egito e a Babilônia, além da Filístia, de
sivo e misericordioso, rico em paciência, Tiro, e também da Etiópia, como se tives-
amor leal e justiça; sem nascido em Sião.”3
16 volta-te para mim, tem compaixão de 5 Na verdade em Sião nasceram multi-
mim! Concede tua força a teu servo ne- dões que conhecem o Eterno e Ele, pes-
cessitado e salva o teu filho fiel!6 soalmente, a estabeleceu como a mais
17 Dá-me um sinal do teu favor, para nobre cidade.4
que todos os que me tratam com ódio o 6 Assim o SENHOR escreverá no registro
vejam e se sintam humilhados, ao con- dos povos: “Este nasceu ali”.
firmar que tu me acompanhas com teu (Pausa)
conforto e auxílio! 7 Músicos e compositores sobre ela afirma-
rão: “Todos os meus pensamentos e toda a
Cântico profético sobre Jerusalém minha inspiração provêm de ti, ó Sião!”5
Um salmo dos descendentes de Corá.

87 O SENHOR firmou as bases da sua


cidade sobre o monte santo;1
Oração em dias de grande aflição
Um hino dos coraítas para o mestre de música. Em

5 A palavra hebraica aqui traduzida por “poderes da morte” é Sheol. Pode significar – dependendo do contexto – “profundezas
da morte”, “região dos mortos”, “sepultura”, ou ainda “pó da terra”. Davi demonstra seu júbilo pela graça da salvação (livramento)
que vem do Senhor (Sl 3.8; 30.1).
6 Embora os textos massoréticos tragam a expressão “salva o filho da tua serva”, melhores manuscritos podem ser claramente
traduzidos por “salva o teu filho fiel”, compreendendo a palavra “fiel” como no v.2 (Sl 119.16). Os arrogantes desconsideram
o poder e a interferência do Guerreiro celestial que milita a favor dos filhos de Deus (Sl 10.11; Jr 20.11). Os vv.15 e 5 parecem
extraídos do coração da Lei (Êx 34.6,7).
Capítulo 87
1 Este é um salmo profético – cintilando no meio do Saltério (2Cr 32.21-23; Sl 86.9) – que antevê a colheita das nações em
Jerusalém (Sião – 2Sm 5.6,7) como concidadãs com Israel do pleno Reino de Deus (Is 2.2-4; 19.19-25; 25.6; 45.14-24; 56.6-8;
60.3; 66.23; Dn 7.14; Mq 4.1-3; Zc 8.23; 14.16). A análise desta peça literária sagrada precisa levar em conta a praxe da chamada
“sintaxe interrompida”, na antiga poesia hebraica, segundo a qual as referências às nações devam ser compreendidas como
vocativos (v.4). Dessa maneira, este salmo pode ser tematicamente harmonizado com os demais hinos que celebram o amor
especial de Deus por Sião, mesmo entre as demais cidades de Jacó ou Israel – Gn 32.28 - (Sl 46; 48; 76; 125; 129; 137). O próprio
Deus criou e estabeleceu os alicerces da fortaleza de Sião (Is 14.32) e do Templo como seu palácio real. A expressão “monte” em
hebraico está no plural, com a finalidade de ressaltar a majestade e imponência do lugar onde o Senhor instalou a representação
visível do seu trono na terra (Sl 48.2).
2 Celebração de Sião como a “Cidade de Deus” (Sl 46; 48; 76). Esse versículo pode ser assim transliterado, a partir do original
hebraico: Nichbadot medubar bach, ir haelohim (sêla).
3 Este salmo prevê o dia em que todas as nações da terra, inclusive os antigos e tradicionais inimigos de Israel, serão converti-
dos ao Senhor (Is 19.21; 26.18). Deus mantém um registro sistemático e atualizado de cada indivíduo que o aceita como Senhor
e Salvador pessoal mediante fé sincera (fiel), de maneira que essas pessoas passam a ser – independente da sua origem étnica
– cidadãos do Reino, com todos os direitos, privilégios e deveres reservados aos filhos de Deus (Jo 1.12; Os 6.3). Portanto, os
incrédulos são advertidos sobre o cuidado especial com o qual o Senhor zela pelos seus e as punições reservadas para todos
aqueles que se atreverem a lhes fazer qualquer mal (Is 14.28-32; Sl 105.15). O Egito (Raabe é o seu o nome poético, como “Nú-
bia”, em hebraico Kuš – Is 51.9) e a Babilônia representam todos os gentios e o poder civil da época.
4 Jerusalém restaurada – o povo de Deus – herdará todas as nações da terra (Is 54.1-3). Este versículo pode ser assim transli-
terado, a partir do original hebraico: Ultsión iemar ish veish iulad ba, vehu iechonenêha elion.
5 A verdadeira felicidade se encontra na presença de Deus. Hoje, podemos experimentá-la pela fé, na Cidade Celestial de
Sião, contudo, a teremos plenamente, como um “divino rio de delícias” (Sl 30; 36.8), cujos “canais alegram a Cidade de Deus”
(46.4). Os vv.6 e 7 podem ser assim transliterados a partir do original hebraico: Adonai yispor bichtov Amim, ze iulad sham (sêla).
Vesharim kecholelim, col maianai bach.
SALMOS 88, 89 90

melodia para o coração aflito: para responsório. 11 Será que teu amor é também procla-
Salmo didático de Hemã, o ezraíta.1 mado no túmulo, e a tua fidelidade no
88 Ó Eterno, Deus de minha salva-
ção, dia e noite clamo a ti!2
2 Chegue à tua presença minha oração,
Abismo da Morte?
12 Será teu sinal milagroso conhecido na
região das trevas, e tua justiça, na dimen-
presta ouvido ao meu clamor! são do esquecimento?
3 Minha alma está saturada de desgraças, 13 Contudo, eu, ó SENHOR, clamo a ti por
minha vida está à beira das profundezas socorro; já ao romper da alvorada a mi-
da morte. nha oração chega à tua presença.
4 Já sou contado entre os que baixam à 14 Por que, SENHOR, me rejeitas e escon-
sepultura, sou como uma pessoa absolu- des de mim a tua face?
tamente alquebrada; 15 Desde muito jovem tenho sofrido e
5 Sinto-me abandonado à minha própria ando próximo da morte; os teus terrores
sina, entre os mortos. Sou como os tru- levaram-me ao desespero.
cidados, que jazem na região dos mortos, 16 Sobre minha existência se abateu a tua
dos quais já não te lembras, pois estão ira; os pavores que me causas me consu-
apartados de tua mão.3 miram.
6 Tu me depositaste nas profundezas do 17 Cercam-me o dia todo como uma
fosso, nos lugares tenebrosos e abismais. inundação; fazem-me submergir em
7 Sobre mim pesa a tua cólera; com todas agonia.
as tuas grandes ondas do mar me afligiste. 18 Afastaste de mim os meus amigos e
(Pausa) todos os meus conhecidos de jornada; as
8 Afastaste de mim os meus conhecidos, trevas são a minha única companhia.
fizeste de mim um horror para eles. En-
clausurado, não vejo qualquer saída; Promessa messiânica a Davi
9 meus olhos anuviam-se de preocupa- Obra poética do ezraíta Etã.
ção. Todo dia te invoquei, SENHOR, esten-
dendo para Ti minhas mãos.
10 Farás, entretanto, um milagre para
89 Para sempre cantarei sobre o ines-
gotável amor leal do Eterno; mi-
nha boca proclamará a tua fidelidade a
aqueles que já se despediram da vida? todas as gerações!1
Porventura os mortos virão a se levantar 2 Sim, anuncio a todos que teu amor está
e te louvar? edificado para sempre; nos céus estabele-
(Pausa) ceste tua fidelidade:

1 Hemã ou Hêman (nome hebraico que significa “fiel”), filho de Zera, da descendência de Judá (1Cr 2.6; Sl 89), foi um dos prin-
cipais sábios da corte de Salomão (1Rs 4.31). Apesar de o salmista ter vivido desde a infância sob as agruras da vida e o iminente
perigo da morte, sua oração (em melodia mesta: triste, melancólica), começa com uma declaração de fé e confiança na salvação
eterna que vem do Senhor, e esse é seu maior consolo (v.1). O subtítulo deste salmo (literalmente, o título no original hebraico)
pode ser assim transliterado: Shir mizmor livnê Côrah, lamenatsêach al machalat leanot, maskil leheman haezrachi.
2 Por mais difícil que seja compreendermos a razão do sofrimento humano, as Sagradas Escrituras nos ensinam que as aflições
e angústias fazem parte do plano de Deus para o aperfeiçoamento de toda a humanidade (Cl 1.24; 1Pe 3.14). A história hebraica
está salpicada de exemplos: José sendo injustamente atirado na cova e mais tarde na prisão, para depois vir a ser salvador da
sua família e primeiro-ministro do faraó do Egito; Abraão lançado em densas trevas antes de receber a maravilhosa revelação
da aliança (Gn 15.12-18); Jonas lançado nas profundezas do mar antes de aprender a ser um fiel profeta de Deus; Jesus Cristo
padecendo e sendo aperfeiçoado por meio dos muitos sofrimentos pelos quais passou desde o nascimento, a fim de se confirmar
como pleno Autor da nossa salvação (Hb 2.10). Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do original hebraico: Adonai
Elohê ieshuati, iom tsaácti valaila negdêcha.
3 O salmista narra seu sofrimento a partir de uma perspectiva totalmente humana e cartesiana da morte: uma condição e local
em que não há mais qualquer possibilidade de intervenção divina em favor da restauração do necessitado (Sl 25.7; 74.2; 106.4).
Capítulo 89
1 O autor deste salmo é um levita, ezraíta mencionado em 1Rs 4.31, descendente de Jedutum, que se colocou como porta-voz
de Israel e completa a oração de Hemã, no salmo anterior (Sl 88). O salmo que começa cantando o amor e a lealdade de Deus
para com seu povo e por sua terra, transforma-se numa oração profundamente triste e aflita (v.38-45), contemplando a repentina
91 SALMOS 89

3 “Fiz aliança com meu eleito, jurando a 13 Tens o braço cheio de poder, a mão
Davi, meu servo: forte, a destra sempre erguida.
4 Estabelecerei tua descendência para 14 A justiça e o direito são as bases de teu
sempre, e firmarei o teu trono, de gera- trono; amor e fidelidade precedem a tua
ção em geração”. passagem.6
(Pausa) 15 Como é feliz o povo que aprendeu a
5 Os céus exaltam tuas maravilhas, SENHOR, honrar-te, SENHOR, e que se deixa conduzir
e tua fidelidade, na assembléia dos santos. pela maravilhosa luz de tua presença!
6 Quem, nos céus se compara ao SENHOR? 16 Dia e noite sabem exaltar o teu Nome
Quem é igual ao SENHOR entre os seres e se alegram em tua retidão,
celestiais? 17 pois tu és a nossa glória e o nosso poder,
7 No conselho dos santos, Deus é gran- e por tuas misericórdias reergues nossa
demente temido e inspira mais temor do fronte!7
que todos os que o cercam. 18 Sim, ó Eterno, Tu és o nosso escudo, o
8 Ó DEUs, ETERNO, SENHOR dOs EXÉRCITOs, Santo de Israel, Tu és o nosso Rei!
quem é igual a ti? Poderoso és tu, SENHOR, 19 Outrora, em visão, falaste assim aos
e tua fidelidade está ao teu redor.2 teus fiéis: “Dei meu apoio a um herói, do
9 Dominas a insolência do mar bravio; meio do povo exaltei um escolhido.8
quando suas ondas se sublevam, tu as 20 Encontrei Davi, meu servo, ungi-o
amansas.3 com meu óleo santo.
10 Mataste e aniquilaste o Monstro dos 21 A minha mão o susterá, e o meu braço
Mares, desbarataste os inimigos com o será a sua força.
poder do teu braço forte.4 22 Nenhum inimigo o humilhará sob pe-
11 O céu é teu, tua é a terra; fundaste o sados tributos; tampouco alguém poderá
mundo e tudo o que nele existe. oprimi-lo.
12 Tu criaste o Norte e o Sul. Os montes 23 Esmagarei diante dele os seus adver-
Tabor e Hermom entoam hinos de lou- sários e exterminarei todos os seus ini-
vor ao teu Nome.5 migos.

e violenta queda da dinastia davídica, provocada pela invasão dos exércitos de Nabucodonosor contra Jerusalém e o exílio do rei
Joaquim, em 597 a.C. (2Rs 24.8-17). A oração termina com um apelo urgente pelo livramento do Senhor, por amor leal a sua alian-
ça. O verso 52, portanto, não é apenas a conclusão desta poema sacro, mas de todo o “Terceiro Livro” do Saltério (73 – 89). Este é
um salmo messiânico e, portanto, seu pleno sentido só pode ser compreendido na pessoa e obra de Jesus Cristo (Ef 1.3-7).
2 Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do original hebraico: Adonai Elohê Tsevaót mi chamôcha chassin lá, ve-
emunatechá sevivitêcha. A fidelidade do Senhor o envolve, bem como à sua Palavra (1Sm 1.3; 17.45; Dt 33.2; Js 5.14; Sl 68.17;
Hc 3.8).
3 Para os judeus, o mar e seus mistérios sempre foram símbolos das forças rebeldes do Maligno. Entretanto, o Senhor abriu o
mar Vermelho para que Israel pudesse atravessá-lo sobre terra firme. Da mesma forma, a tempestade e o mar revolto acalmaram-
se mediante a ordem de Jesus (Lc 8.23-25).
4 O autor faz uso poético da antiga mitologia hebraica, como a lenda sobre o maior e mais terrível dos monstros marinhos,
também conhecido como Leviatã ou Raabe (32.6; 74.14; 87.4; 104.26). A última parte deste versículo pode ser também percebida
no NT (Lc 1.51).
5 Norte e Sul não se referem aos pontos cardeais, mas a dois montes conhecidos na época e que nesse hino formam um
paralelo poético com o Tabor e o Hermom (vv 16,24; 5.11; 48.2; Ct 4.8; Jz 4.6; Dt 3.8; Sl 65.13).
6 Da pessoa e do governo do Senhor, emanam amor leal e justiça, especialmente a favor do seu povo (todos os que nele crêem
sinceramente – seus filhos – Jo 1.12). Enquanto a retidão e o direito simbolizam a matéria-prima do trono de Deus, o amor e a
fidelidade são personificados como arautos angelicais que vão à frente do Senhor proclamando sua passagem real (v.16; 23.6;
4.1). Jesus, Deus-Filho, foi o principal e definitivo arauto do Senhor (Jo 1.14).
7 A palavra aqui traduzida como “poder” e “fronte” é, literalmente, “chifre”, em hebraico antigo; fato que levou muitos artistas
renascentistas a esculpir e pintar personagens bíblicos, com chifres, como é o caso das famosas obras de Michelangelo sobre
Moisés. Este versículo pode ser assim transliterado: Ki tiféret uzámo áta, uvirtsonechá tarum carnênu.
8 A visão se refere à revelação concedida aos profetas Samuel e Natã (1Sm 16.12; 2Sm 7.4-16). O Senhor escolhe Davi para
ser regente sobre seu povo, e estabelece com ele sua aliança eterna. Tanto Davi como seu descendente Jesus foram exaltados
entre o povo humilde e pobre (Hb 7.25).
SALMOS 89 92

24 Minha lealdade e meu amor estarão iluminação, fiel testemunha nos céus!”
sempre com ele; e em meu Nome se er- (Pausa)
guerá sua fronte! 38 Entretanto, Tu o rejeitaste, recusaste-o
25 Porei sua mão para dominar os mares e te enfureceste com o teu ungido.13
e comandar os rios.9 39 Renegaste a aliança com teu servo, profa-
26 Ele me invocará, declarando: ‘Tu és naste sua coroa, atirando-a ao pó da terra.
meu Pai, meu Deus, a Rocha que me 40 Derrubaste todas as suas muralhas,
salva’.10 desmantelaste suas fortalezas.
27 Eu também o constituirei meu primo- 41 Saquearam-no todos os transeuntes, e
gênito, supremo sobre todos os reis da ele tornou-se o ludíbrio dos vizinhos.
terra!11 42 Exaltaste a destra dos seus adversários
28 Manterei meu amor leal por ele para e alegraste todos os seus inimigos.
sempre, e minha aliança com ele jamais 43 Tiraste o fio de sua espada e não o
se quebrará. apoiaste na guerra.
29 Para sempre estabelecerei sua des- 44 Puseste fim a seu esplendor e derru-
cendência; e seu trono, como os dias do baste por terra seu trono.
céu.12 45 Abreviaste os dias de sua juventude e o
30 Se seus filhos abandonarem minha Lei cobriste de vergonha.
e não mais desejarem seguir meus man- (Pausa)
damentos, 46 Até quando, SENHOR? Para sempre te
31 se violarem minhas ordenanças e des- ocultarás, ardendo como fogo a tua ira?
denharem dos meus santos decretos, 47 Lembra-te da duração da minha vida!
32 virei sobre eles com a vara das aflições Criaste em vão todos os seres humanos?
e castigarei seu pecado e sua iniqüidade, 48 Viverá, sem ver a morte, algum valen-
com açoites; te, que possa esquivar-se das garras da
33 contudo, não afastarei dele meu amor sepultura?
benevolente e jamais lhe negarei minha (Pausa)
atenção pessoal e fiel. 49 Onde estão teus dons de amor que tão
34 Eu não violarei minha aliança, tam- maravilhosamente demonstraste outro-
pouco modificarei qualquer das promes- ra, ó Eterno, os quais prometeste a Davi
sas dos meus lábios. manter por causa da tua fidedignidade?
35 De uma vez para toda a eternidade 50 Lembra-te, ó SENHOR, das ofensas que
jurei por minha santidade, e não faltarei o teu servo tem sofrido, das zombarias
com a minha palavra a Davi: que na alma tenho de suportar, desferi-
36 sua descendência viverá para sempre, das por todos os povos,
e seu trono estará diante da minha face e 51 dos ultrajes dos teus inimigos, ó Eter-
durará como o sol, no, com que afrontam a cada passo o teu
37 como a lua, que não cessa de refletir sua ungido.14

9 As fronteiras originais de Israel vão desde o Mediterrâneo, de um lado (“mão”), até o outro lado dos rios Eufrates e Tigre.
Esses limites foram alcançados durante o reinado de Salomão, filho do rei Davi (72.8; 80.11; Êx 23.31).
10 Este é um fato extremamente marcante na vida de Jesus, e bênção legada exclusivamente a nós, cristãos. Ninguém no AT se
referia a Deus como “Pai”. Entretanto, essas foram as primeiras e as últimas expressões de Jesus, em sua língua natal, o aramaico
(Abba – Lc 2.49; Lc 23.46; Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6).
11 Na tradição israelita, o primogênito recebia uma parte dupla na divisão dos bens do patriarca da família (Dt 21.17), e exercia
autoridade sobre todos os irmãos e sobrinhos (2Cr 21.3). Nos primórdios de Israel, o primogênito era também separado (santo)
para ser dedicado ao sacerdócio (Nm 8.14-17). Mais tarde, entretanto, a tribo de Levi foi santificada para esse ministério.
12 Segue uma explicação sobre a aliança firmada por Deus com seu servo, o rei Davi (vv.29-37; 2Sm 7.12-17).
13 A presente rejeição do filho de Davi por Deus e todas as suas terríveis conseqüências desfazem tudo o que havia sido pro-
metido e garantido pela aliança divina (vv.19-29). A esperança de Etã, o ezraíta, está na lealdade eterna do Senhor à sua aliança
e, especialmente, à sua essência: a santidade. A expressão “ungido” se refere, em primeiro plano, aos reis da linhagem de Davi e,
depois, a Jesus, o Messias – a maior e derradeira demonstração do cumprimento cabal da Aliança de Deus com a humanidade.
93 SALMOS 89, 90

52Bendito seja para toda a eternidade o pam à luz da tua face.


SENHOR! Amém e amém! 9 Sim, todos os nossos dias dissipam-se
diante do teu furor, findamos os anos
QUARTO LIVRO como um suspiro.
Salmos 90 a 106 10 De fato, os dias de nossa vida chegam
a setenta anos, ou a oitenta para os que
A brevidade da vida têm mais saúde; entretanto, a maior par-
Oração de Moisés, homem de Deus.1 te dos anos é de labuta e sofrimentos,

90 Senhor, tu tens sido o nosso abrigo,


sempre, de geração em geração.2
2 Antes que se originassem os montes e for-
porquanto a vida passa muito depressa,
e nós voamos!
11 Quem é capaz de conhecer a força da
masses o universo e a terra, de eternidade a tua ira e de tua cólera, segundo o temor
eternidade, tu és Deus. que te é devido?
3 Tu reduzes o ser humano ao pó, afir- 12 Sendo assim, ensina-nos, pois, a con-
mando: “Retornai ao pó, filhos dos tar nossos dias, a fim de que possamos
homens!”3 alcançar um coração verdadeiramente
4 Verdadeiramente, mil anos aos teus sábio!5
olhos, são como o dia de ontem, que já 13 Volta-te para nós, ó Eterno! Até quan-
passou, e como as poucas horas das pri- do haveremos de esperar? Tem compai-
meiras vigílias da noite.4 xão dos teus servos!
5 Tu arrastas os homens na correnteza 14 Sacia-nos, desde o romper da aurora,
da vida; são breves como o sono; são com teu amor infinito, e exultaremos de
todos como a relva que brota com a al- alegria, todos os nossos dias.6
vorada, 15 Alegra-nos na proporção dos dias em
6 germina e floresce pela manhã, mas, ao que nos puniste, pelos anos em que pas-
pôr-do-sol, murcha e seca. samos sob grande sofrimento.
7 Porquanto somos consumidos por tua 16 Que as tuas realizações se manifestem
ira e perante tua indignação ficamos pas- aos teus servos, e a teus filhos, a tua ma-
mos! ravilhosa glória!
8 Tu conheces bem nossas iniqüidades; 17 Que a graça do Senhor, nosso Deus,
nossos pecados mais secretos não esca- pouse sobre nós; faze prosperar as obras

14 Apesar do ínfimo espaço de tempo da vida humana de Jesus na terra, da maligna e constante perseguição dos seus inimigos
desde seu nascimento, o Senhor gerou inúmeros filhos e filhas para a eternidade, por meio do seu sacrifício voluntário e vicário,
cumprindo, assim, toda a Lei e autenticando a Aliança (Ap 7.9).
Capítulo 90
1 A expressão original hebraica “homem de Deus” era normalmente aplicada aos profetas do Senhor no AT (1Sm 2.27; Js 14.6).
Nenhum outro salmo comunica de maneira tão clara e contundente o lamentável estado da humanidade diante do Criador, nosso
santo e eterno Deus. Moisés assume a dor dos homens e honestamente reconhece nossa culpa. A ira e o afastar-se de Deus são
perfeitamente justificáveis. Mas o Senhor incute fé no coração dos homens que descobrem o verdadeiro “amor reverente” a Deus
(v.14). Os 40 anos de sofrida peregrinação no “imenso e pavoroso” deserto, rumo à terra prometida, produziu uma oração desta
magnitude e profundidade (Dt 8.15; Nm 14.26-35).
2 Melhor é sofrer nos caminhos áridos da vida, mas na presença do Senhor, que no pseudoconforto e segurança do palácio
de Faraó (Hb 11.24-25; Sl 71.3; 91.9).
3 O ser humano vive, desde a Queda (Gn 3.19), sob a sentença divina da morte: “Tu és pó e ao pó retornarás”.
4 Deus não está sujeito ao tempo, pois ele é eterno. A vida humana, entretanto, é comparada a uma espécie de relva palestina
que surge promissora com o raiar do dia, porém murcha, sob o sol escaldante de Canaã e morre ao final da tarde, antes que se
encerre a segunda vigília da noite (Jz 7.19; Mt 14.25).
5 Qualquer pessoa que não se preocupe em avaliar seus planos e atitudes ao longo da vida, nem com a fatal prestação de
contas diante de Deus, quanto à forma como usou sem tempo na terra, é completamente insensata e carece urgentemente de
Salvação (Gn 20.11; Sl 73.4-12; Mc 8.35-38).
6 A oração de Moisés intercede pelo povo na terra prometida (Êx 33.14; Dt 12.9). Contudo, a resposta plena e eterna vem com
a ressurreição de Cristo, o Messias (Rm 5.2-5; 8.18; 2Co 4.16-18).
SALMOS 90, 91 94

das nossas mãos; sim, confirma a obra templarão a retribuição destinada aos
das nossas mãos!7 ímpios.
9 Porquanto afirmaste: “O SENHOR é o
Sob a eterna proteção de Deus meu refúgio” e fizeste do Altíssimo a tua

91 Aquele que vive na habitação do


Altíssimo e descansa à sombra do
Todo-Poderoso desfrutará sempre da sua
morada,
10 nenhum mal te alcançará, desgraça al-
guma chegará à tua tenda.5
proteção.1 11 Porque a seus anjos Ele dará ordens a
2 Sobre o Eterno declara: “Ele é meu re- teu respeito, para que te guardem em to-
fúgio e minha fortaleza, o meu Deus, em dos os teus caminhos;
quem deposito toda a minha confiança”. 12 com as mãos eles te susterão, para que
3 Ele te livrará do laço do inimigo ardilo- jamais tropeces em alguma pedra.6
so e da praga mortal.2 13 Poderás pisar sobre o leão e a víbora;
4 Ele te cobre com suas plumas, e debai- pisotearás o leão forte e a serpente mais
xo de suas poderosas asas te refugias; sua vil.7
fidelidade é escudo e armadura.3 14 “Porquanto ele me ama, Eu o resgata-
5 Não temas o terror que campeia na ca- rei; Eu o protegerei, pois este conhece o
lada da noite, tampouco a seta que pro- meu Nome.8
cura seu alvo durante o dia. 15 Sempre que chamar pelo meu Nome
6 Não temas a peste que se move sorratei- hei de responder-lhe; estarei sempre com
ra nas trevas, nem o demônio que devas- ele; nos momentos mais difíceis, quando
ta ao meio-dia.4 enfrentar tribulações, Eu o resgatarei e
7 Ainda que caiam mil ao teu lado e dez farei que seja devidamente honrado.
mil à tua direita; tu não serás atingido. 16 Eu o contemplarei com vida longa e
8 Somente teus olhos perceberão e con- lhe revelarei a minha Salvação”, assim

7 Por mais breves que sejamos, nossos esforços e obras podem ser abençoados com valor divino, quando depositamos nossa
vida nas mãos de Deus (Sl 3.7; 27.4; 111.2-5).
Capítulo 91
1 Testemunho entusiasmado sobre a segurança e a paz que todos aqueles que têm verdadeira fé no Senhor podem experimen-
tar, ao longo de suas vidas. Salmo escrito por um sacerdote hebreu no período pós-exílico, com o objetivo de encorajar a comuni-
dade dos fiéis. Esta tradução levou em conta os manuscritos da LXX (Septuaginta – a primeira e mais importante tradução do AT
para o grego) e as mais recentes análises sobre os Rolos do Mar Morto – os conhecidos originais de Qunram, em cotejo com o
Texto Massorético (TM). A habitação (tabernáculo) preferida de Deus é o coração dos seres humanos, a quem o Senhor promove
à condição de filhos (Jo 1.12; 14.17; At 7.48; Rm 8.9; 1Co 3.16; 2Co 6.16; Ef 3.17; Cl 3.16; Ap 21.3). O templo foi um símbolo da
proteção divina, onde os justos encontravam abrigo e segurança (Sl 23.6; 27.4,5; 31.20; 61.4; Gn 14.19; 17.1). Este versículo pode
ser transliterado, a partir dos manuscritos em hebraico, da seguinte forma: Ioshev besséter elion, betsel Shadai yit’lonan.
2 Metáfora que representa o perigo iminente, armado pelo Diabo e por algum outro adversário desleal e oportunista (vv. 5,6;
124.7). Segundo os manuscritos descobertos em Qunram, o autor sugere que seus leitores expressem sua fé no Senhor assim
como ele próprio tem feito. A expressão literal usada é “diz” (registrada no documento arqueológico 11 Q Os Apa ), em vez de
“digo”, como aparece no Texto Massorético.
3 É impressionante comparar esta afirmação com a declaração de Jesus Cristo em Mt 23.37.
4 Deus protege seus filhos dia e noite, ininterruptamente, ainda que não o percebamos ou reconheçamos esse fato. Deus é Pai
amoroso e onipotente (Mt 6.6,9; 7.11; 10.32; 11.27; 24.36; 28.19). A antiga expressão hebraica yāšûd que significa “assolador” ou
“destruidor” foi melhor traduzida na LXX (Septuaginta) por wệšēd “e o demônio”.
5 Encontramos neste salmo várias referências aos acontecimentos da primeira Páscoa (Êx 12). A expressão “tenda” significa
qualquer moradia simples e temporária, como o próprio corpo humano.
6 A promessa feita aos crentes piedosos de todos os tempos é perfeitamente aplicável a Jesus, o Filho de Deus. No NT (Mt
4.6-7), vemos a pessoa de Satanás, usando sua velha e insuperável técnica de torcer a verdade para atingir seus objetivos nefas-
tos, separar parte deste versículo do contexto geral da fé bíblica, expressa claramente nos versos de 1 a 9.
7 Os perigos da peregrinação pelo deserto são uma metáfora da nossa própria caminhada ao longo da vida (Dt 8.15).
8 O grande alvo da vida é a compreensão de que Deus é Pai e, portanto, digno de todo amor e respeito. No Senhor está toda
a nossa glória e vida eterna (Jo 17.3). O salmista usa uma forma de oráculo profético que apóia seu vigoroso testemunho e asse-
gura que todas as promessas do Senhor serão plenamente cumpridas nas vidas de seus filhos (vv.14-16).
95 SALMOS 91, 92

disse o Eterno!9 e florescem todos os malfeitores, é para


serem exterminados para sempre!4
Hino sabático de gratidão a Deus 8 Mas tu, ó SENHOR, eternamente és ex-
Salmo melódico para ser entoado no dia do celso.
Shabbath.1 9 Eis que teus inimigos, ó Eterno; sim, os

92 É muito bom exaltar ao SENHOR, ó


Eterno, e entoar salmos em honra
ao teu Nome, ó Altíssimo!
teus adversários serão aniquilados; todos
que praticam a malignidade serão dis-
persos!
2 Proclamar desde o amanhecer o teu amor 10 Tu reergueste, como chifre de búfalo,
leal e durante a noite a tua fidelidade, a minha fronte; derramaste, sobre mim,
3 ao som da lira de dez cordas e da cítara, óleo balsâmico e revigorante.
bem como da melodia com harpa. 11 Os meus olhos contemplam a derro-
4 Porquanto tu me alegras a alma, com os ta dos meus inimigos; os meus ouvidos
teus feitos; as obras das tuas mãos moti- escutaram a debandada dos malfeitores
vam-me a cantar jubiloso.2 que tramavam contra a minha vida.
5 Quão maravilhosas são as tuas obras, ó 12 Os justos florescerão como a palmeira,
Eterno, e insondáveis os teus desígnios!3 crescerão altaneiros como o cedro do Lí-
6 O insensato fica sem entender nada, e o bano;
néscio não percebe o menor sentido. 13 plantados na Casa do SENHOR, floresce-
7 Se os ímpios brotam como mato bravo, rão nos átrios do nosso Deus.5

9 Teremos paz e satisfação completas quando chegarmos à compreensão de que as respostas de Deus nem sempre são
concessões às nossas petições, mas sempre bênçãos ainda maiores. Paulo pediu cura, mas ganhou infinitamente mais: a pre-
sença do Espírito de Deus em sua vida diária; a poderosa graça de Deus que o levou a vencer todos os obstáculos do seu
tempo e a completar com galhardia a missão que o Senhor lhe havia proposto (2Co 12.7-10). Portanto, é impossível que o mal
vença o servo de Deus; as mais terríveis calamidades nada mais produzem do que encurtar a peregrinação do filho de Deus e
aproximá-lo do seu galardão. Todas as dificuldades, na verdade, são bênçãos ocultas supervisionadas atentamente pelo próprio
Senhor. Enxergando dessa forma, as perdas nos fazem ricos, as enfermidades nos tornam saudáveis de verdade, o desprezo
das pessoas nos fazem experimentar ainda mais da graça e da glória do Pai, a morte nada mais é que a porta de entrada para
o céu e a vida eterna.
Capítulo 92
1 No relato da criação não existe a palavra “sábado” (em hebraico shabbãth), mas ocorre a raiz de onde deriva esse vocábulo:
shãbhath (Gn 2.2). A obra da criação desenvolveu-se em seis dias (quer sejam períodos de vinte e quatro horas ou grandes eras) e, no
sétimo dia, Deus “descansou” (literalmente em hebraico wayyinnãphash “cessou obra específica e tomou alento”), ou seja, separou
(santificou) esse tempo como “período sabático”. A expressão “descansar” é antropomórfica, pois, evidentemente, Deus não precisa
repousar como um ser humano extenuado depois de sua jornada de trabalho. Entretanto, o Senhor deixou um exemplo prático e uma
orientação clara para que a humanidade dedicasse um dos dias da semana ao culto do seu Criador e Senhor. O sábado pertence
primariamente a Deus e, em segundo lugar, destina-se descanso humano (Êx 20.8-11; 31.17). Na liturgia pós-exílica do templo, este
salmo passou a ser entoado na hora do sacrifício matutino no sábado, sendo que em cada dia da semana se cantava um salmo dife-
rente: Sl 24, no primeiro dia da semana; Sl 48, no segundo; Sl 82, no terceiro; Sl 94, no quarto; Sl 81, no quinto; Sl 93, no sexto dia. A
idéia de cinco dias de trabalho nasceu na Babilônia com o nome de shabbatum, cujo sentido em nada se parecia com o “descanso”
bíblico, mas apenas como um tempo destinado a outras atividades. Em seu conflito com os fariseus, nosso Senhor Jesus, o Messias
(christos, em grego), enfatizou, perante os judeus, o fato de que eles entendiam muito mal os mandamentos do AT e procuravam
tornar a observância do sábado mais rigorosa do que o próprio Deus havia estabelecido, posto que não era errado debulhar os grãos
da espiga com as mãos, tampouco, obrigatório deixar de fazê-lo no dia de sábado. Afinal, o Senhor do sábado é misericordioso. No
primeiro dia da semana foi que o Senhor Jesus ressuscitou dentre os mortos, e nele os cristãos (o Corpo de Cristo – a Igreja) começa-
ram a se reunir, a fim de prestarem culto ao Cristo ressurreto. Esse é o Dia do Senhor e, como tal, é o sábado que Deus instituiu desde
a Criação. Os mandamentos referentes ao sábado nunca foram anulados e as bênçãos decorrentes da sua correta observação (culto
sincero e dedicado ao Senhor) têm implicações atuais e futuras (escatológicas).
2 Louvar e adorar a Deus com cânticos e poemas (salmos) não é somente uma questão de gosto ou talento musical: tem a ver
com os mais profundos sentimentos de gratidão e comunhão com o Espírito do Senhor (vv.1-4; 10-11).
3 É impossível ao ser humano compreender os pensamentos de Deus e a lógica divina, por isso é necessário ter fé para obe-
decer (Is 40.28; Sl 49.10; 94.8-11; Rm 11.33-36).
4 As Escrituras se referem ao mato e às ervas daninhas como símbolo do mal que hoje aparece, mas que amanhã não existirá
mais (Is 40.6-8), são passageiros tal como o próprio mundo (1Jo 2.17). Este versículo apresenta um resumo do que é exposto
com mais detalhe nos Sl 73 e 90.4-6.
SALMOS 92–94 96

14 Mesmo na velhice, cheios de seiva e berbos o que merecem!1


viço produzirão muitos frutos, 3 Até quando, Ó Eterno? Até quando os
15 para proclamar que o SENHOR é justo. Ele ímpios triunfarão?
é a minha Rocha; nele não há injustiça! 4 Proferem palavras de afronta, todos esses
malfeitores cheios de arrogância e empáfia
Louvor à majestade do Senhor 5 esmagam teu povo, SENHOR, e oprimem

93 Reina o Eterno, vestido de sobera-


na majestade; sim, toda a força e
poder o revestem! O Universo está segu-
tua herança;
6 matam a viúva e o migrante, e trucidam
os órfãos.2
ro e não se abalará.1 7 E comentam: “Deus nada vê, não se atém
2 Desde a antigüidade, o teu trono está aos detalhes da terra, o Deus de Jacó”.
firme: tu existes desde a eternidade! 8 Atendei vós, os mais néscios do povo!
3 Levantam os rios, ó SENHOR, levantam Insensatos, quando compreendereis?
a voz de suas águas fragorosas; levantam 9 É possível que quem criou o ouvido
os rios o seu bramido. não possa ouvir? Será que quem formou
4 Entretanto, o SENHOR nas alturas é mais os olhos nada veja?
poderoso do que a força das grandes águas, 10 Aquele que disciplina as nações os dei-
do que os poderosos vagalhões do mar.2 xará sem a devida retribuição punitiva?
5 Os teus mandamentos permanecem inal- Não tem conhecimento Aquele que con-
terados, e a tua fidelidade dura para sem- cede ao ser humano o saber?3
pre; a santidade é o ornamento eterno da 11 O SENHOR conhece muito bem todos os
tua Casa.3 pensamentos humanos, e sabe o quanto
são fúteis!
Apelo à justiça divina 12 Bem-aventurada a pessoa a quem dis-

94 Ó Eterno, SENHOR da vindicação,


Deus vingador, manifesta-te!
2 Levanta-te, Juiz da terra, paga aos so-
ciplinas, ó Eterno, aquele a quem ensinas
a tua Lei;
13 calmamente atravessará os dias maus,

5 Apesar de os ímpios brotarem como erva ruim ou mato bravo, sua destruição é certeira e iminente. Entretanto, os justos
(justificados pelo Senhor) estão plantados em terreno fértil e seguro (v.7; Sl 91). Por essa razão, o vigor da sua juventude ainda
continua durante a velhice, e se regozija nas bênçãos espirituais da casa do Altíssimo (v.15; 2Rs 21.5; 23.11,12; Sl 84.2,10).
Capítulo 93
1 Este é um dos muitos salmos compostos na era pré-exílica (Sl 93 – 100) com o objetivo de exaltar o poder e a majestade de
Deus sobre toda a ordem cósmica e, particularmente, em relação a Israel, seu povo escolhido na terra. Anualmente este hino era
entoado por toda a congregação no período das grandes festas e celebrações ao Senhor (Sl 47; 94; 95.3). A expressão “Reina
o Eterno” é a verdade suprema e a primeira declaração do credo judaico. Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do
original hebraico: Adonai malách, gueút lavesh, lavesh Adonai, oz hit´azar, af ticon tevel bal timot (Sl 96.10; 97.1; 99.1; Zc 14.9).
2 Os terríveis trovões e relâmpagos das eras caóticas e primevas são como sussurros da natureza, quando comparados à força e
ao poder da Palavra de Deus (v.2,3; 104.7-9). As trevas e o caos foram perfeitamente dominados e organizados ao som da voz cria-
dora do Senhor (Gn 1.6-10; Jó 38.8-11; Sl 33.7). Nada poderá se opor à vontade de Deus e ao cumprimento da sua Palavra (65.6,7;
74.13,14). A metáfora das “águas” e “rios” pode ser aplicada também aos três grandes impérios situados às margens de importantes
e caudalosos rios da época: Egito, Assíria e Babilônia, os quais se levantaram contra a nação escolhida de Deus e quase a inunda-
ram com seus exércitos e dominação. Contudo, o Senhor os venceu, e assim será, definitivamente, no futuro escatológico.
3 Deus tem o controle absoluto da História e, soberanamente, mantém a ordem do Universo segundo sua vontade, assim como
oferece, a seu povo, diretrizes seguras, estáveis e fiéis (19.7; 95.8-11), que devem ser obedecidas pelos de sua Casa (o templo
terrestre e também a família dos fiéis que o freqüentam).
Capítulo 94
1 Este salmo é a voz dos oprimidos clamando ao Senhor e Juiz da terra para que exerça seu justo poder e correção sobre todas
as injustiças cometidas contra os indefesos, por homens arrogantes e impiedosos que ocupam cargos de grande prestígio e
poder. Essa característica reivindicatória popular faz deste hino uma peça literária única na coletânea dos salmos 92 a 100.
2 A viúva, o estrangeiro e os órfãos, representam as três classes que no Oriente sempre passaram por grandes necessidades
de amparo material e emocional, pois não podiam contar com a presença de parentes que lhes oferecessem proteção ou que os
“vingassem” (pleiteassem por justiça). A Lei de Deus exige justiça com compaixão e lealdade (Tg 1.27).
3 O Senhor faz séria advertência aos ímpios, arrogantes, presunçosos e, portanto, insensatos (92.6-9), porquanto castiga todos
97 SALMOS 94, 95

enquanto que, para os ímpios, uma fossa sumidos por seus pecados; o Senhor, o
se abrirá! nosso Deus, os destruirá!
14 O SENHOR jamais desamparará seu povo;
nunca abandonará sua herança. Convite a cantar louvores a Deus
15 Voltará a haver justiça nos veredictos, e
todos os retos de coração a seguirão.
16 Quem se levantará a meu favor contra
95 Vinde, cantemos com júbilo ao
SENHOR, aclamemos a Rocha da
nossa Salvação!
os ímpios? Quem permanecerá ao meu 2 Apresentemo-nos diante dele com ações
lado combatendo os malfeitores?4 de graças, vamos adorá-lo com cânticos
17 Não fosse o socorro do SENHOR, eu já de louvor.1
estaria habitando na região do silêncio. 3 Pois o SENHOR é o grande Deus, o mag-
18 Quando declarei: “Os meus pés vaci- nífico Rei acima de todos os deuses!2
laram”, teu amor leal, SENHOR, me ampa- 4 Em suas mãos estão as profundezas da
rou! terra; são seus, os cumes dos montes.
19 Quando a angústia já controlava todo 5 Dele é o mar – foi Ele quem o criou – e
o meu ser, teu consolo trouxe tranqüili- a terra firme, que suas mãos formaram.
dade à minha alma.5 6 Vinde! Adoremos prostrados e nos ajoe-
20 Será, um governo corrupto, capaz de lhemos perante o SENHOR, o nosso Criador.
fazer aliança contigo? Um trono que pra- 7 Porque Ele é o nosso Deus, nós somos
tica injustiças em nome da lei?6 o povo do seu pastoreio e ovelhas condu-
21 Eles, contudo, tramam contra a vida do zidas por sua mão. Tomara que escuteis
justo e condenam os inocentes à morte! hoje a sua voz:3
22 Entretanto, o SENHOR é meu baluarte e 8 “Não endureçais o vosso coração, como
meu Deus, a torre inexpugnável em que em Meribá, e ainda como aquele dia em
me refugio. Massá, no deserto,4
23 O Eterno fará recair sobre os ímpios 9 quando vossos pais me desafiaram e me
a própria iniqüidade deles e serão con- puseram à prova, embora tivessem visto

quantos se afastam de seus princípios eternos (Lv 26.18; Jr 31.18; Is 28.26). O Senhor (o Cristo) conhece perfeitamente nossos
mais íntimos desejos e motivações (v.11; Jo 2.25).
4 Deus é o nosso único tribunal de recursos perfeitamente sensível, leal e justo. O salmista demonstra sua confiança na justiça
divina que se revelará absoluta, no fim. Sob essa perspectiva, agora pode aspirar à vindicação imediata do Senhor, para suas
causas presentes, pode suplicar por um sinal da presença e aquiescência de Deus. A resposta surge no v.17 (o livramento da
morte física naquele momento), e no v.18 (sustento da plena confiança do crente em meio às tribulações).
5 A expressão “meu ser” ou “íntimo” está registrada neste versículo, literalmente, como “alma” (Sl 6.3).
6 Aqui, além de o salmista se referir aos governos corruptos e iníquos do seu tempo, há uma conotação escatológica, quando
o centro de autoridade mundial será totalmente dominado pelo Maligno e se voltará contra os crentes (Ef 2.1,2). Um dos grandes
instrumentos da maldade tem sido o suborno. O pecado também faz da Lei de Deus um pretexto para condenar o ser humano
culpado (Rm 7.8-13).
Capítulo 95
1 O sacrifício que Deus realmente deseja e aceita é a expressão de verdadeiro agradecimento do coração humano, diante do
amor e da salvação que vem do Senhor.
2 Desde a antigüidade, todos os povos pagãos têm o hábito de acreditar em vários deuses e entidades divinas, um para cada
parte, das regiões cósmicas da terra, e dos aspectos da vida humana. Israel foi o único povo que sempre foi ensinado a depositar
toda a sua fé em Yahweh (o nome hebraico e impronunciável, do Senhor). O fato de o Deus de Israel cuidar de cada detalhe do
Universo, da vida de cada ser humano e de realizar grandes maravilhas, deixava todos os demais povos perplexos.
3 Os reis israelenses eram chamados de “pastores” do seu povo, e seus domínios, de “seu pastoreio” (23.1; 100.3; Jr 23.1;
25.36; 49.20; 50.45; Ez 34.20-23). Os sacerdotes e os levitas ensinavam o povo a “ouvir a voz de Deus” durante a liturgia das
festas e cerimônias religiosas no templo. O ápice do culto a Deus é ouvir e compreender sua Palavra, com humildade, fé e obe-
diência (Sl 50 e 78).
4 O ministro do louvor conduz a congregação a uma profunda reflexão sobre a época de sua rebelião no deserto do Sinai,
apesar dos grandes sinais e feitos do Senhor (Êx 17.7; Nm 20.13). Este versículo pode ser transliterado, a partir do original he-
braico, desta forma: Al tac’shú levavchem kimrivá, keiom massa bamidbar. A expressão “Massá” quer dizer “lugar de provação”
ou “tempo de teste”.
SALMOS 95–97 98

meus grandes feitos!5 7 Famílias de povos, tributai ao SENHOR,


10 Durante quarenta anos permaneci ira- rendei ao SENHOR glória e poder,
do contra aquela geração e declarei: ‘Este 8 Dedicai ao SENHOR a glória do seu
é um povo de coração ingrato, que não Nome! Trazei sua devida oferta, entrai
reconhece meus caminhos’. em seus átrios,
11 Por esse motivo jurei em minha re- 9 prostrai-vos diante do SENHOR no es-
volta: ‘Essas pessoas jamais entrarão no plendor da sua santidade! Tremei diante
lugar do meu repouso!’”6 dele, terra inteira!3
10 Anunciai entre as nações: “O SENHOR é
Tributo à majestade do Senhor rei. Sim, o mundo está firme e não será aba-
1 Cr 16.23-33 lado; Ele julgará os povos com retidão!”4
96 Erguei ao Eterno um cântico novo!
Cantai ao SENHOR a terra inteira!1
2 Cantai ao SENHOR, bendizei seu Nome;
11 Alegrem-se os céus e exulte a terra, es-
tronde o mar e tudo o que ele contém!
12 Esteja em festa a campina, e tudo
dia após dia, anunciai a sua salvação! quanto nela existe! Regozijem-se todas
3 Proclamai sua glória entre as nações, as árvores da floresta,
entre todos os povos as suas realizações 13 cantem diante do SENHOR, porque Ele
maravilhosas! vem. Sim, Ele vem julgar a terra; Ele go-
4 Pois o SENHOR é magnífico, digno de vernará o mundo com justiça e os povos
todo o louvor; Ele inspira mais temor com a sua fidelidade!5
que todos os deuses juntos!
5 Todos os deuses dos pagãos não passam Louvor à soberania do Senhor
de objetos feitos ídolos, mas o SENHOR
criou os céus.2
6 Majestade e magnificência estão diante
97 O SENHOR reina! Exulte a terra
toda, e alegrem-se até as pequenas
ilhas mais distantes!1
dele, poder e dignidade no seu santuário. 2 Nuvens inescrutáveis e espessas o cir-

5 Os profetas, sacerdotes e representantes oficiais do Senhor tinham permissão para proferir certas ordens espirituais, usando
a primeira pessoa do singular (Gn 16.7; Sl 50.5-15). Deus realizou maravilhas no Egito e no mar Vermelho, e supriu todas as
necessidades do seu povo no deserto (Êx 16; Nm 14.11-24). A principal afronta contra o Senhor ocorreu quando Israel se negou
a conquistar a terra prometida em o Nome de Deus e, pior, desejou retornar à vida de escravidão no Egito. Então o povo foi
condenado a vaguear pelo deserto por 40 anos, até que toda aquela geração de adultos, que foram libertos do Egito, perecesse
(Nm 14.1-34; 32.13).
6 O “descanso do Senhor” é um conceito dinâmico e está ligado ao “Shabbath Shalom perpétuo de Deus”. A terra (Nm 14.30) se
refere à Canaã, a terra da Aliança, a herança prometida aos descendentes físicos de Abraão (que haverá de se cumprir plenamen-
te na história). Mas também é uma profecia para todos os crentes, em relação à vida eterna nos céus (Hb 11.8; Rm 4.13-25).
Capítulo 96
1 Este salmo foi entoado pelo povo de Israel, quando Davi trouxe a Arca de Deus para o templo. É um hino de proclamação da
glória universal do Senhor. Uma convocação para todas as nações se humilharem diante da majestade do Eterno (em hebraico
Adonai) e o adorarem como único Deus. Temos aqui uma palavra profética sobre a missão da Igreja no NT (Mt 28.16-20), como
povo santo: o Israel de Deus (Sl 93; 95 a 100).
2 O motivo central pelo qual todo ser humano deve louvar a Deus é porque somente ele é Deus (Sl 115; Gn 20.11). O Senhor
é o próprio criador de todo o âmbito celestial, que do ponto de vista humano (de todos os tempos e raças) sempre foi a morada
dos deuses (Sl 97.7). Os ídolos não têm, de fato, poder algum, nem há realidade nas divindades que representam; quanto a Deus,
porém, os próprios céus proclamam a sua glória (v.6).
3 A radiante beleza de Deus é também sua qualidade mais sublime: a santidade. O profeta Isaías contemplou esse esplendor
tremendo do Senhor, e proclamou ao mundo: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). Todos devemos a Deus um
contínuo e reverente respeito (temor).
4 As nações perdem muito em não aceitar a direção de Deus para suas políticas sociais e econômicas; por isso há um estado
permanente e crescente de injustiça, miséria e conflitos minando as virtudes concedidas à raça humana.
5 Uma palavra profética quanto à vinda do Messias (o Cristo, em grego), com seu reino de justiça e retidão, conforme a profecia
de Isaías 11.1-9. Tudo de que o homem precisa é confessar seus erros e injustiças (pecados), e o Senhor está pronto (pelo amor
leal de Deus) a perdoá-lo e oferecer-lhe nova e eterna vida (1Jo 1.9).
Capítulo 97
1 A soberania e a justiça de Deus – o Criador e Rei do Universo – são proclamadas por toda a terra, até as mais longínquas
regiões costeiras (Sl 96.1; 99.1; 117.1; 1Rs 9.26-28; 10.22; Is 60.9; Jn 1.3).
99 SALMOS 97, 98

cundam, retidão e justiça são o alicerce


do seu trono. Jeová, o Rei Salvador
3 Diante dele alastra-se o fogo, devoran- Salmo.
do ao redor seus adversários.
4 Os relâmpagos clarearam o mundo, a
terra viu-o e estremeceu.
98 Cantai ao SENHOR um cântico
novo, pois Ele tem realizado ma-
ravilhas; sua mão direita e seu santo bra-
5 Como cera derreteram-se os montes, ço forte lhe deram a vitória!1
diante do Eterno, perante o SENHOR de 2 O SENHOR manifestou a sua Salvação;
toda a terra! aos olhos das nações revelou sua justiça.
6 Os céus proclamam a sua justiça e to- 3 Recordou-se do seu amor e da sua fideli-
dos os povos vêem a sua glória.2 dade pela casa de Israel. Todos os confins
7 Sejam decepcionados todos os adora- da terra contemplaram a Salvação do nos-
dores de objetos, que se vangloriam de so Deus.2
seus ídolos! Prostrai-vos diante do SE- 4 Aclamai o SENHOR, terra inteira! Lou-
NHOR, todos os poderosos!3 vem-no com cânticos de júbilo e ao som
8 Sião ouve e se rejubila, exultam as filhas de música!
de Judá por causa dos teus julgamentos, 5 Oferecei música ao SENHOR por meio da
SENHOR. harpa, com a cítara e a voz do canto!
9 Pois tu, ó Eterno, o Altíssimo sobre todo 6 Com trombetas e ao som da trompa exul-
o universo, de todos os deuses és o mais tai na presença do SENHOR, que é o Rei!
excelso. 7 Ruja o mar e tudo o que ele contém, o
10 Vós, que amais o SENHOR, odiai o mal! mundo e todos os seus habitantes!
Ele protege as almas de seus fiéis, livran- 8 Com palmas se manifestam os rios, e o
do-os da mão dos ímpios.4 cantar dos montes ressoa em uníssono,
11 A luz amanhece para o justo e, para os 9 para aclamar o Eterno que vem julgar
corações retos, o júbilo.5 toda a terra. Sim, Ele julgará o Universo
12 Alegrai-vos, justos, no SENHOR, e exal- com justiça e os povos com eqüidade!3
tai, lembrando sua santidade!
Louvor à santidade do Senhor

2 A ordem estável da imensidão cósmica declara e confirma que a sabedoria e a soberania de Deus sustentam, de modo seme-
lhante, a ordem moral do Universo (Sl 19.1-6; 96.10). Os versos 2 a 6 testemunham a revelação geral da glória do Senhor.
3 Versículo central, e o contraponto deste salmo, revelam os efeitos que a soberania de Deus (v.9) tem sobre a raça humana:
todo tipo de idolatria, superstição e paganismo se demonstram práticas vãs, ilusórias e ofensivas a Deus (v.7). Entretanto, o povo
de Deus é jubilosa e justamente vingado (v.8). O salmo conclama todos os poderosos dos céus e da terra a se dobrarem em
humilde adoração ao Senhor (Sl 29.1).
4 Quanto maior e mais dedicado nosso amor ao Senhor, tanto maior e mais radical será nossa aversão a tudo quanto estiver
relacionado ao Maligno e suas obras. Somente aqueles que odeiam o mal e a injustiça têm prazer no justo governo e se alegram
com a verdade. A ameaça dos pagãos entre o povo de Deus sempre acarretou perigo mortal aos fiéis (Sl 139.21-22).
5 A expressão usada no texto hebraico massorético transliterada em Or zarúa latsadic, uleyishrê lev simchá, é aqui traduzida
como “amanhece”. Literalmente, significa “semear”. O sentido, porém, é que Deus está “semeando” seus poderosos raios
de luz, com o objetivo de iluminar os passos de seus filhos. A sabedoria e a iluminação rompem todas as manhãs para os
crentes fiéis no Senhor. Esse é o significado que aparece igualmente na Septuaginta e em alguns manuscritos antigos (Jo
1.12; 1Jo 1.7).
Capítulo 98
1 O salmista convida o povo de Deus para celebrar com música e louvores o governo justo e universal do Senhor (Sl 9.1;
33.3). A congregação dos crentes é estimulada a expressar, com alegria, sua gratidão pelas muitas bênçãos recebidas das
mãos do Altíssimo. O louvor tem início no templo, influencia todos os povos da terra e atinge toda a natureza e o planeta (Sl
93; 95; 96).
2 O próprio Senhor é nosso maior exemplo de missionário, evangelista e pastor (Sl 46.10; Is 52.10). Os atos salvíficos de
Yahweh (Jeová é o nome hebraico e impronunciável de Deus) revelam, com toda clareza seu amor e sua justiça (Sl 4.1; 71.24). A
expressão hebraica original para “amor” significa “amor-e-fidelidade”, e isso nos ajuda a entender o conceito de “Aliança” firmado
por Deus com seu povo (Sl 3.7; 6.4; 36.5).
3 Este salmo é uma grande sinfonia que, iniciada por Deus numa pequena reunião de crentes, espalha-se pela vizinhança,
conquista outros povos e culturas, atinge todo o planeta e a natureza, e prossegue vigorosa, num ministério crescente de evan-
gelização até o gran finale: O Dia do Julgamento.
SALMOS 99–101 100

99 O SENHOR reina! As nações tre-


mem! O seu trono está sobre os
querubins! Estremeça toda a terra!1
to monte, porquanto o Eterno, o nosso
Deus, é Santo!
2 O Eterno é magnífico em Sião, excelso Vinde todos e louvai ao Senhor
sobre todos os povos.2 Um salmo para ações de graças.
3 Celebrem eles o teu Nome, que é grande
e inspira reverente adoração, pois é Santo!
4 É Rei poderoso, que ama a justiça: Tu es-
100 Aclamai com júbilo ao SENHOR,
todos os habitantes da terra!1
2 Rendei culto ao SENHOR com alegria,
tabeleceste a retidão; o direito e a eqüida- vinde à sua presença com cânticos de
de em Jacó, tu pessoalmente os instruíste! louvor.
5 Exaltai o SENHOR, o nosso Deus, pros- 3 Reconhecei que o SENHOR é Deus! Ele
trai-vos diante do estrado dos seus pés. nos fez, e somos seus: seu povo e rebanho
Ele é Santo!3 de seu pastoreio.
6 Moisés e Arão estavam entre os seus 4 Entrai por suas portas com ações de
sacerdotes; Samuel, entre os que invoca- graças e em seus átrios com hinos de ado-
vam seu Nome; eles clamavam pelo SE- ração; exaltai-o e bendizei o seu Nome!
NHOR, e Ele lhes respondia. 5 Porquanto o SENHOR é bom e seu amor
7 Da coluna de nuvem, lhes falava, e o leal dura para sempre; sua fidelidade
povo obedecia a seus decretos e à Lei que acompanha todas as gerações.2
lhes dera.4
8 SENHOR, nosso Deus, tu lhes respondias, Modelo do governante ideal
demonstrando ser Deus perdoador, ain- Um salmo de Davi.1
da que os tenhas disciplinado, por causa
de suas rebeliões.5
9 Exaltai o SENHOR, o nosso Deus; pros-
101 Quero cantar a misericórdia e a
justiça, entoar um hino de lou-
vor a ti, ó SENHOR!
trai-vos voltados em direção ao seu san- 2 Quero instruir-me no caminho da per-

1 Hino de aclamação a Deus como o grande Santo e Rei de Sião (o povo de Deus). O Senhor é entronizado em Sião e so-
berano sobre todas as nações da terra. Bem-aventurados todos aqueles que já reconhecem esse fato; um dia todos os povos
proclamarão que o Senhor é Deus e Rei absoluto do Universo (Sl 93.1). Uma representação de querubins folheados a ouro ficava
sobre a tampa da Arca, no santo dos santos, o santuário mais interior do templo, onde resplandecia a glória da presença de Deus
(Sl 80.1; Êx 25.18).
2 Deus é louvado e engrandecido em todos os lugares onde crentes sinceros se reúnem para adorá-lo, assim como fora em
Sião nos dias deste salmo.
3 O “estrado dos seus pés” é o escabelo régio de Deus (2Cr 9.18), e simboliza a ligação entre o trono celestial e o terrestre.
Quando o Senhor está assentado em seu trono nos céus, seu trono na terra se transforma, metaforicamente, em simples estrado
para apoio dos seus pés; neste salmo, “seu santo monte” (v.9; 132.7; 1Cr 28.2; Lm 2.1).
4 Durante a jornada do êxodo do Egito e na terra prometida, o Senhor providenciou intermediários sacerdotais a fim de receber
e ministrar a Israel as instruções que todos deveriam seguir, a fim de, guardando a Palavra, não fraquejarem na fé (v.6; Êx 17.11;
32.11-32; Nm 14.13-19; 21.7; 1Sm 7.5-9; 12.19,23; Jr 15.1). Moisés, Arão e Samuel representam a Lei, o Sacerdócio e a Profecia,
que somente na pessoa e obra de Jesus Cristo formam uma unidade perfeita.
5 Deus corrige e castiga seus filhos sempre que necessário, mas jamais quebra suas promessas eternas (Sl 89.30-33).
Capítulo 100
1 Convocação geral para que todos os povos da terra reúnam-se em torno do Espírito do Senhor para adorá-lo e servi-lo com
gratidão e muita alegria em seus corações (Sl 93, 95 e 117). Os crentes devem vir para o culto público não apenas para receber,
mas dispostos a fazer suas ofertas com alegria e generosidade (Sl 75.1; Lv 7.12). Tradicionalmente, este hino acompanhava os
atos de ação de graça e ofertas no templo.
2 O salmista dá um exemplo claro de como devemos oferecer nosso culto ao Senhor: com júbilo, alegria e cânticos espirituais
(vv.1-3); com um coração agradecido a Deus, mesmo sob provações, pois Deus é Amor (Sl 6.4). A expressão “O Nome” nas
Escrituras é uma indicação da presença divina (v.4,5; Sl 24.7; 84.2,10; 95.6,7; 2Rs 21.5; 23,11,12).
Capítulo 101
1 Vários biblistas e renomados historiadores acreditam que Davi tenha escrito este salmo, especialmente para a celebração
de posse do rei Salomão, seu filho que assumia o compromisso de governar seu povo com sabedoria celestial: retidão, amor
sincero e eqüidade (1Rs 2.2-4; 3.3-9; Sl 72). Contudo, somente Jesus Cristo, o Filho de Deus e descendente exemplar de Davi,
tem cumprido perfeitamente esse compromisso majestoso, ao longo da história (Sl 6.4; 99.4).
101 SALMOS 101, 102

feição: Quando virás ao meu encontro?


Quero proceder com coração íntegro den-
tro de minha casa.2
102 Ó SENHOR, ouve a minha ora-
ção! Chegue a ti o meu pedido
de socorro!1
3 Não colocarei diante dos meus olhos 2 Não escondas de mim a tua face, no dia
nada que seja pernicioso. Detesto a con- de minha angústia! Inclina para mim os
duta dos infiéis; tais atitudes jamais me teus ouvidos! Responde ao meu clamor
conquistarão!3 com urgência!
4 Longe de mim os perversos de coração; 3 Pois meus dias esvaíram-se como fu-
não me deixarei envolver pelo mal.4 maça; os ossos ardem como braseiro;
5 A quem difama os outros às ocultas, 4 meu coração está ressequido como erva
eu o farei calar! Assim como outros al- cortada; até me esqueço de comer meu
tivos de coração e arrogantes não su- pão.2
portarei. 5 Meus gemidos são tão veementes, que
6 Os meus olhos se agradam dos fiéis da meus músculos aderem aos ossos.
terra, e essas pessoas habitarão comigo. 6 Sou como a gralha da estepe, como a
Somente quem se dedica a viver com in- coruja das ruínas.3
tegridade me servirá! 7 Fico insone: tornei-me qual pássaro so-
7 Quem pratica obras fraudulentas não litário no telhado.
viverá no meu santuário; o mentiroso 8 Todo dia meus inimigos me ultrajam;
não habitará na minha presença! furiosos, contra mim praguejam.
8 Manhã após manhã destruirei os ím- 9 Pois alimento-me de cinza, como se
pios da terra, para livrar de todos os ma- fosse pão; e lágrimas misturo à minha
lévolos, a cidade do Eterno!5 bebida.4
10 Por causa da tua indignação e da tua ira,
Arrependimento e esperança tu me ergueste e me arrojaste ao chão.
Súplicas de um aflito à beira do desespero, der- 11 Meus dias são como a sombra que se
ramando seu lamento diante do SENHOR. alonga, estou secando como a erva.
12 Mas, tu, ó Eterno, estás entronizado

2 O rei implora que Deus venha ajudá-lo a cumprir seu mandato, com integridade. Quanta diferença benéfica haveria no
mundo, se os governantes e líderes em geral meditassem profundamente sobre essa atitude de sabedoria (Gn 17.1; 1Rs 3.7-9;
Sl 4.7; 72).
3 Este versículo pode ser transliterado, a partir do original hebraico, desta maneira: Lo ashit lenégued enai devar beliial, asso
setim sanêti, lo yidbac bi. Literalmente: “Não pousarei meus olhos sobre qualquer ação perversa; atos desonestos abomino e
deles não participarei” (Sl 119.37; Jz 14.1,2; 2Sm 11.2; 2Rs 16.10; Jó 31.1; Pv 4.25; 17.24; Nm 15.39; Jó 31.7; Pv 21.4; Ec 2.10;
Jr 22.17). A palavra hebraica aqui traduzida por “pernicioso” (qualquer ato que tenha parte com o “mal”) é, curiosamente, igual
ao nome Belial (v.4; Dt 13.13; 2Co 6.15).
4 O rei Davi, apesar de suas fraquezas humanas, buscou – de todo o coração – santificar-se ao Senhor. Um coração perverso
e uma língua mentirosa são, conforme a tradição sapiencial bíblico-hebraica, a raiz e o fruto (18.26; Pv 17.20; 11.20; 18.19; 19.1;
28.6). A soberba é o âmago do pecado, fazendo o ser humano adorar a si mesmo (v.5).
5 Era costume os reis julgarem as causas do povo, ao romper da aurora. A prática enérgica dos princípios divinos – manhã após
manhã, dia a dia – ensina os discípulos de Deus, até que a Cidade Santa se torne uma antecâmara dos Céus (Is 50.4).
Capítulo 102
1 Considerando a estreita relação que sempre houve entre o que acontecia com o rei e o destino da nação de Israel, e por
causa do tema comum aos salmos régios, conclui-se que esta é uma oração de um rei davídico, ou membro da linhagem e casa
real de Davi, durante o exílio na Babilônia (vv.1,17; 61.2; 77.3; 142.3; 143.4 conforme 107.5; Jn 2.7). A expressão “lamento”, que
aparece na epígrafe (que nos originais hebraicos se constitui no primeiro versículo), é traduzida também por “queixa” ou “aflição”
(64.1; 142.2; Jó 7.13; 9.27; 10.1; 21.4).
2 A erva carpida logo se abate e seca por não receber mais a seiva da vida. Aqui, as expressões “coração” e “ossos” (v.3) são
usadas poeticamente para refletir o ser humano como um todo; na visão hebraica, corpo e espírito (22.14; Pv 14.30; 15.30; Is
66.14; Jr 20.9; 23.9; Sl 121.6-8; 90.4-6).
3 Duas palavras diferentes são usadas no original hebraico para se referir a “aves de mau agouro que vivem no deserto” (Lv
11.16-18; Jr 50.39; Sf 2.14). A coruja era associada às áreas desérticas e às ruínas (Is 34.11,15). O salmista sente-se como um
pardal solitário, sem amigos e alvo dos ardis e ataques de inimigos cruéis.
4 Na profunda angústia e depressão, o prato mais saboroso não tem melhor paladar que a cinza.
SALMOS 102, 103 102

para sempre e serás lembrado, de geração 26 Eles perecerão, mas tu permaneces; to-
em geração.5 dos eles se desgastarão como um manto;
13 Tu te erguerás e terás misericórdia de Tu, como a roupa, os trocarás, e serão
Sião, porque já é tempo de teres piedade; abandonados.8
sim, o momento chegou. 27 Tu, porém, és o que és, e teus anos não
14 Pois teus servos amam até as pedras de têm fim.
suas cidades destruídas e a poeira de seus 28 Os filhos de teus servos se estabele-
caminhos arruinados.6 cerão, e seus descendentes se manterão
15 As nações temerão o Nome do Eterno, diante de ti!
e todos os reis da terra, tua glória,
16 quando o SENHOR reconstruir Sião e Hino à suprema graça de Deus
aparecer em sua glória,7 Um salmo davídico.
17 quando se voltar para a oração dos es-
poliados e deixar de rejeitar sua prece.
18 Que isso seja escrito para a geração fu-
103 Bendize, ó minha alma, ao Se-
nhor, e todas as minhas entra-
nhas, seu santo Nome!1
tura, para que um povo, que ainda será 2 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e
criado, louve o SENHOR, declarando: não te esqueças de nenhum dos seus be-
19 “O SENHOR se debruçou do alto do seu nefícios!
santuário, lá nos céus, e olhou para a terra, 3 É Ele quem perdoa todos os teus peca-
20 para ouvir o gemido dos cativos e li- dos e cura todas as tuas enfermidades.
bertar os condenados à morte, 4 Ele resgata da sepultura a tua vida e te
21 para que em Sião se proclame o Nome coroa de amor e misericórdia.
do SENHOR e seu louvor, em Jerusalém, 5 Ele sacia de bens a tua existência, de
22 quando se reunirem povos e reinos maneira que a tua juventude se renova
para servir ao SENHOR”! como o vigor de uma águia.2
23 Ele reduziu minhas forças em pleno 6 O Eterno realiza atos de justiça e de di-
caminho, abreviou meus dias. reito, em favor de todos os oprimidos.
24 “Meu Deus – disse eu - não me arre- 7 Ele revelou seus caminhos a Moisés e,
bates na metade dos meus dias, Tu, cujos aos israelitas, seus feitos maravilhosos.
anos duram por gerações!” 8 O SENHOR é misericordioso e clemente,
25 Outrora fundaste a terra, e os céus são lento para a cólera, mas paciente e gene-
obra de tuas mãos. roso em seu amor.3

5 Porque Deus é uma pessoa indestrutível, que reina para sempre com absoluto poder (tema da coletânea Sl 92 – 100), suas
misericórdias não falharão jamais, especialmente para os que nele depositam fé sincera para a salvação (v.27; 30.4 de acordo
com os salmos 111; 135; 145).
6 Sião (Jerusalém), a Cidade Santa, é muito amada pelos servos de Deus e, mais ainda, pelo próprio Senhor. O salmista sofre
por causa do exílio na Babilônia (586 a.C.), mas sabe que já é hora de a profecia do juízo e da libertação se cumprir (3.7; 46.4;
48.1-8; 75.2; 87.3; 101.8;132.13; Êx 9.5; 2Sm 24.15; Dn 11.27,35; ). Exercer fé no amor e na soberania de Deus é o melhor remédio
para todos os momentos de crise e tristeza.
7 Esta esperança profética encontra sua expressão mais plena na vinda da “Nova Jerusalém” (Ap 21; Sl 46.10; Is 40.1-5). Só o
Senhor pode atender, perfeitamente, a oração do coração humilde e desamparado (Sl 51.17).
8 Deus é indestrutível, incansável, absoluto e eterno. A terra e a primeira criação cederão lugar para uma nova criação, enquanto
o Senhor permanecerá o mesmo: imutável, fonte segura da verdade e da vida (Is 65.17; 66.22). Todo o Universo, obra do Criador,
é uma simples expressão da vontade divina, um símbolo físico da majestade de Deus; pode ser totalmente trocado como a roupa
que usamos (Ap 21.1; Sl 8.1-4; 19.1; 29.3-9; 104.1,31; Is 6.3; Jó 40.10).
Capítulo 103
1 Louvor intenso e profundo, fruto de vívida experiência pessoal do salmista com o amor leal de Deus. Convocações à adora-
ção do Senhor integram o prelúdio e poslúdio deste hino, bem como determinam seu tom (vv. 1,2,20-22; Sl 101). A expressão
hebraica original “minha alma” era a maneira típica de os hebreus se referirem ao próprio íntimo, às entranhas psicológicas e
emocionais (Sl 104.1,35; 116.7).
2 As forças, os sonhos e o dinamismo da juventude são restaurados a ponto de poderem ser comparados ao proverbial vigor
inesgotável das poderosas águias de Is 40.31.
3 Os grandes feitos de Deus ficaram marcados na história da humanidade e, muito especialmente, na história do povo judeu
(v.3; Dt 8.2-4; Êx 33.13; 34.6-8).
103 SALMOS 103, 104

9 Não nos castiga o tempo todo, nem 20 Bendizei ao SENHOR vós, seus anjos,
guarda rancor para sempre. forças poderosas de elite que amais a
10 Não nos trata segundo os nossos pe- sua Palavra e obedeceis a todas as suas
cados nem nos retribui de acordo com as ordens.
nossas culpas. 21 Bendizei ao SENHOR vós todos, seus
11 Pois, como os céus se elevam acima da exércitos; vós seus ministros, que cum-
terra, assim é imenso o seu amor para pris sua vontade!5
com os que o temem. 22 Bendizei ao SENHOR todas as suas
12 Quanto dista o Oriente do Ocidente, obras, em todos os lugares do seu domí-
assim também Ele afasta para longe de nio eterno! Bendize ao SENHOR, ó minha
nós as nossas próprias transgressões. alma!
13 Como um pai se enternece pelos filhos,
assim, semelhantemente, o SENHOR tem Hino a Deus, o Criador
compaixão de todos aqueles que o temem.4
14 Porquanto Ele conhece a nossa estru-
tura, lembra-se de que somos pó.
104 Bendize, ó minha alma, o Eter-
no: “SENHOR, meu Deus, Tu és
deveras grandioso! Estás vestido de ma-
15 A existência do ser humano é seme- jestade e magnificência!”1
lhante à relva; ele floresce como a flor do 2 Vestido de esplendorosa luz, como num
campo, manto, Ele estende os céus como uma
16 que se esboroa quando o vento sopra e tenda,
ninguém mais se lembra do lugar onde a 3 e deposita sobre as águas dos céus as
planta estivera firmada. vigas dos seus aposentos. Faz das nuvens
17 Mas o amor leal do SENHOR é, desde a sua carruagem, e cavalga nas asas do
sempre e para sempre, para aqueles que vento.2
o temem; e sua justiça, para os filhos de 4 Dos ventos faz seus mensageiros, e de
seus filhos, seus ministros, labaredas de fogo.3
18 com todos os que guardam a sua alian- 5 Criaste a terra, assentando-a sobre base
ça e se lembram de obedecer aos seus firme, para que seja para sempre indes-
mandamentos. trutível!
19 O SENHOR estabeleceu o seu trono nos 6 Como se estendesses sobre ela um
céus e, como Rei, domina sobre tudo o manto, assim a cobriste com os oceanos;
que existe. as águas cobriam as montanhas.

4 O povo de Deus não pode se esquecer de que o Senhor nos trata especialmente como seus filhos, não apenas como nosso
Rei e Senhor. A ternura do pai brota do seu amor paterno e do seu cuidado para com a fragilidade de seus filhos (Hb 4.14-16;
12.5-11; Sl 78.39; 109.12; Lc 1.50).
5 Apenas neste versículo e no Sl 148.2, a expressão original hebraica, aqui traduzida por “exércitos”, é masculina. Nesses
dois textos, os “exércitos” são compostos por “seres angelicais” (servos ou ministros). “Servo” é o particípio do verbo hebraico
traduzido por “servir” em 101.6 (Sl 91.11; 104.4; Hb 1.14).
Capítulo 104
1 O mesmo apelo do salmo anterior; porém, aqui, o poema sagrado reflete a contemplação das forças e das maravilhas da
natureza. O salmista canta a glória do seu Criador e Sustentador, oferece um vislumbre do mundo angelical (v.4) e, de passagem,
menciona o ser humano, pois seu foco é a criação dos elementos e de todos os seres vivos ao seu redor, que ele considera o
manto esplendoroso e original, com que o Criador se vestiu no princípio das eras, com o objetivo de revelar sua glória ao Universo
(v.6; 102.25,26; Gn 1.3-5; Jo 1.5).
2 O poeta do Senhor usa belas e significativas metáforas para demonstrar o poder, a criatividade e o amor de Deus. A palavra
hebraica original traduzida por “aposentos”, no singular, refere-se a um quarto especial, no andar superior da casa (cenáculo)
como em 1Rs 17.19; 2Rs 1.2; Mc 14.15; At 1.13). Segundo a linguagem figurada do AT, das águas acima da tenda, o Senhor der-
rama a chuva para rejuvenescer a terra (v.2,13; Gn 1.7; Sl 36.8). As nuvens são como suas carruagens adornadas de majestade
(Sl 18.7-15; 68.4; 77.16-19).
3 O poder justo, amoroso e criador de Deus é ilimitado: tanto pode transformar seus mensageiros em grandes forças cósmicas,
como pode usar essas forças a seu serviço e missão. A expressão original hebraica traduzida aqui por “mensageiros” pode
igualmente significar “anjos” ou “ministros”. Os ventos, raios e relâmpagos são aqui personificados como agentes dos propósitos
divinos (Sl 148.8; 103.21).
SALMOS 104 104

7 Diante da tua repreensão, as muitas noite, na qual rondam as feras da selva.


águas começaram a refluir, puseram-se 21 Os leões rugem por alguma presa, bus-
em fuga ao ribombar dos teus trovões;4 cando de Deus seu alimento;
8 subiram pelos montes e escorreram pe- 22 mas ao nascer do sol recolhem-se e vão
los vales, para os lugares que tu mesmo se deitar nos covis.
lhes designaste. 23 O homem sai para seu trabalho, para o
9 Estabeleceste um limite que não podem seu labor até o pôr-do-sol.
ultrapassar; nunca mais voltarão a cobrir 24 Quão numerosas são as tuas obras, ó
a terra.5 SENHOR! Fizeste-as todas com perfeita sabe-
10 É Ele quem faz jorrar as fontes nos va- doria. A terra está repleta de tuas criaturas.
les; elas correm por entre os montes;6 25 Eis o mar, vasto e profundo. Nele vi-
11 delas bebem todos os animais selva- vem inúmeras criaturas, seres vivos, mi-
gens, e os jumentos selvagens saciam sua núsculos e enormes!
sede. 26 Por ele singram os navios e também
12 As aves do céu fazem ninho junto às o Leviatã que criaste, para com ele se di-
águas e, entre os galhos, põem-se a can- vertir.8
tar. 27 Todos esperam em ti que lhes dês ali-
13 É Ele quem, dos seus altos patamares, mento no devido tempo.
rega as montanhas, e a terra se sacia do 28 Tu lhes dás, e eles o recolhem; abres a
fruto de suas obras; mão, e eles se fartam de bens.
14 faz brotar a erva para o gado, as plan- 29 Escondes a tua face, e eles se pertur-
tas que o homem cultiva, tirando da ter- bam; se retiras o seu alento, perecem e
ra o alimento, voltam a seu pó.
15 o vinho que alegra o coração, o óleo 30 Quando envias o teu fôlego, eles são
que dá brilho às faces e o pão que susten- criados, e renovas a face da terra.
ta o vigor dos seres humanos. 31 Perdure para sempre a glória do SE-
16 As árvores do SENHOR saciam-se e os NHOR! Alegre-se o SENHOR em suas reali-
cedros do Líbano que Ele plantou, zações maravilhosas!
17 nos quais os pássaros fazem seu ninho, 32 Ele olha para a terra, e ela treme; Ele
em cujos cimos a cegonha tem pousada. toca as montanhas, e elas fumegam.9
18 As altas montanhas pertencem às ca- 33 Enquanto eu viver, cantarei ao SENHOR;
bras montesas, os penhascos dão abrigo entoarei louvores ao meu Deus, enquan-
aos roedores de várias espécies. to eu existir.
19 Foi Ele quem fez a lua para marcar as 34 Que as minhas meditações lhes sejam
estações, e o sol conhece seu ocaso.7 agradáveis, pois no SENHOR depositarei
20 Quando desdobras as trevas, faz-se toda a minha satisfação!

4 Uma alusão ao terceiro dia da Criação e ao poder criador da Palavra de Deus (Gn 1.3; Jo 1.1-3; Sl 76.6).
5 Com segurança, Deus estabeleceu a porção seca em contraposição aos céus e aos oceanos (Gn 1.10; Sl 24.2; 93.1; 96.10).
O Senhor firmou um limite, a fim de que a terra habitável jamais seja dominada pelo mar (v.5; Sl 33.7; Gn 9.15).
6 A terra é o jardim florescente da vida criado por Deus, e o ser humano, o ápice da sua criação. O que fizemos do planeta
que Deus nos deu para cultivarmos e sermos felizes? Em seguida temos uma descrição do amor leal e cuidadoso de Deus em
sustentar todos os seres vivos no mundo que criou (vv.10-18). A dádiva das águas de baixo, irrigando as ravinas do Neguebe.
E a dádiva das águas de cima, irrigando as regiões altas de Israel, onde se estabeleceram os principais campos cultivados. O
Líbano com suas árvores gigantes, muitas aves e animais alpinos, formam uma sinopse do jardim de Deus na terra (Sl 72.16;
2Rs 14.9; 19.23; Is 10.34; 35.2; 40.16; 60.13; Jr 22.6; Os 14.7). Nenhuma criatura, por mais simples que seja, escapa ao cuidado
meticuloso de Deus (v.18; Mt 6.26).
7 Os principais astros cósmicos, o sol e a lua, foram criados para ordenar o ciclo da vida; o tempo, as épocas e as estações
(Ec 3.1-8; Gn 1.14).
8 O salmista reduz metaforicamente o enorme e terrível monstro dos mares, na mitologia hebraica, à condição de animalzinho
de estimação de Deus, que brinca inofensivo pelos oceanos do planeta (Jó 3.8).
9 Deus é maior que todo o Universo, sua criação (Gn 1.1,2). O Senhor pode desfazer absolutamente tudo o que criou com um
mero olhar ou simples toque de suas mãos. Deus é o Doador da Vida e o Renovador do nosso ser (Jo 3.5,16; 10.10; 11.25; 14.6).
105 SALMOS 104, 105

35 Que os pecadores desapareçam da ter- mero, apenas um punhado de peregrinos


ra, e os ímpios sejam extinguidos! Ben- na terra,3
dize, ó minha alma, ao SENHOR. Louvado 13 migrando de nação para nação, de um
seja o Eterno! Aleluia!10 reino para outro povo,
14 não deixou ninguém oprimi-los; casti-
As obras de Deus por Israel gou reis por sua causa, proclamando:
105 Louvai ao SENHOR, invocai o
seu Nome, proclamai seus fei-
tos entre os povos!1
15 “Não toqueis em meus ungidos, não
maltrateis meus profetas!”
16 Chamou a fome sobre aquelas terras,
2 Cantai para Ele, entoai-lhe hinos, con- cortando todo o suprimento de pão.
siderai todas as suas maravilhas! 17 Enviou à frente deles um homem, José,
3 Gloriai-vos em seu santo Nome! Exulte vendido como escravo.
o coração dos que buscam o SENHOR! 18 Prenderam-lhe os pés em grilhões, e
4 Procurai o SENHOR e seu poder, buscai seu pescoço rendeu-se aos ferros,
sempre a sua face! 19 até que se cumprisse sua predição e
5 Recordai as maravilhas e os julgamen- a Palavra do Senhor confirmasse o que
tos provenientes de sua boca, profetizara.
6 vós, descendência de Abraão, seu servo, 20 O rei mandou soltá-lo, o governante
vós filhos de Jacó, seus eleitos! maior dos povos o pôs em liberdade.
7 Ele é o SENHOR, nosso Deus; seus julga- 21 Constituiu-o senhor de sua casa, e ad-
mentos estão em toda a terra. ministrador de todas as suas posses,
8 Ele sempre se lembra de sua aliança, a 22 para orientar os oficiais como dese-
Palavra que ordenou para mil gerações,2 jasse, e ministrar sabedoria aos anciãos
9 aquela que Ele firmou com Abraão e do rei.4
confirmou por juramento a Isaque. 23 Entrou então Israel no Egito, e Jacó
10 Ele confirmou sua promessa como de- foi viver como estrangeiro na terra de
creto a Jacó, aliança eterna para Israel, ao Cam.5
declarar: 24 E Deus fez multiplicar seu povo, tor-
11 “Dar-te-ei a terra de Canaã como qui- nando-o muito mais poderoso que seus
nhão de tua herança”. inimigos.
12 Quando eram ainda poucos em nú- 25 A estes, mudou-lhes o coração, para

10 Uma vida de sincero e humilde louvor ao Senhor pode transformar em alegria todas as relações humanas (Cl 3.16). Que a
terra seja purificada do único elemento que a macula: o pecado em todas as suas formas e sutilezas (Ap 21.27).
Capítulo 105
1 Hino composto para ser ministrado a Israel, por um levita (1Cr 16.7-22), durante uma das principais festas solenes anuais, espe-
cialmente a Festa das Semanas (Êx 23.16; Lv 23.15-21; Nm 28.26; Dt 16.9-12; 26.1-11). O povo de Deus é admoestado e encorajado
a confiar no Senhor Jeová (Yahweh em hebraico), por causa de todos os seus maravilhosos atos salvíficos realizados em cumprimen-
to à sua Aliança com Abraão: a promessa de dar a seus descendentes a terra de Canaã. Os versos de 1 a 15 formam a primeira parte
do salmo cantado por Davi, quando trouxe a arca de Deus para Jerusalém; a outra metade se encontra no Sl 96.
2 As promessas de Deus são irrevogáveis (Gn 15.9-21; Rm 11.29). A Aliança do Senhor refere-se às promessas que são repetidas
na vida de cada Patriarca (Gn 22.17-18). Este versículo e o seguinte ecoam no NT, em Lc 1.72-73 (Êx 20.6; Dt 7.9; 1Cr 16.15).
3 Os versos 12 a 41 formam um recital dos atos salvíficos de Deus a favor do seu povo, desde o momento em que a Aliança
foi outorgada (v.11; Gn 15.9-20), até seu cumprimento (v.44; Js 21.43), de acordo com o recital ordenado por Moisés, juntamente
com a cerimônia de oferta das primícias (Dt 26.1-11).
4 Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, da seguinte forma: Leessor sarav benafsho, uzkenav
iechakem. A palavra “orientar, ou, instruir” é, literalmente, “amarrar”. Aquele povo, cujo pescoço (nafsho) havia sido preso com
ferros, agora recebeu autoridade para “amarrar” (benafsho) os príncipes do faraó, conforme a sua vontade. Os conselheiros do
faraó eram, normalmente, homens mais velhos, com ampla experiência de vida e notável cultura (Êx 3.16). Embora “ferros” (v.18)
não sejam mencionados em Gn 39.20-23, pois o ferro somente passou a ser de uso comum entre eles numa época histórica
posterior, o autor deste salmo toma a liberdade poética de usar os termos de seu tempo (Jó 13.27; 33.11). As correntes e grilhões
da antiguidade eram forjados em bronze (Jz 16.21).
5 Israel é o nome que o Senhor Deus concedeu a Jacó, e que foi herdado por seus descendentes. Em Gn 10.6, o povo do Egito
(Mizraim) consta como descendência de Cam, filho de Noé.
SALMOS 105, 106 106

que odiassem seu povo e tratassem seus lhes dar sombra como um toldo, e um
servos com perfídia.6 clarão de fogo para iluminar a noite.
26 O Senhor enviou Moisés, seu servo, e 40 Pediram, e Ele mandou codornizes, e
Arão, a quem tinha escolhido, os saciou com pão do céu.
27 por meio dos quais realizou os seus 41 Fendeu a rocha e dela brotaram águas
sinais miraculosos e seus maravilhosos puras, que correram qual torrente pelo
feitos na terra de Cam. deserto.
28 Mandou trevas, e fez-se escuridão; e 42 Porquanto estava lembrado da sua Pa-
não puderam contestar sua Palavra. lavra sagrada e de Abraão, seu servo.
29 Converteu a água em sangue e fez 43 E conduziu com alegria o seu povo e,
morrer os peixes. com jubiloso canto, os seus escolhidos.
30 Seu país fervilhou de rãs, até nos apo- 44 Concedeu-lhes as terras dos pagãos, e
sentos de seus reis. eles tomaram posse do fruto do trabalho
31 Ele ordenou e vieram insetos, mosqui- de outros povos,
tos em todo o seu território. 45 para que obedecessem aos seus decre-
32 Em vez de chuva deu-lhes granizo e tos e guardassem as suas leis. Aleluia!7
raios flamejantes sobre sua nação.
33 Arrasou-lhes os vinhedos e as figueiras, A ingratidão do povo de Deus
e destruiu as árvores de toda a sua terra.
34 Outra vez Ele ordenou, e vieram nu-
vens de gafanhotos e incontáveis enxa-
106 Aleluia!
Dai graças ao SENHOR, por-
quanto Ele é bom; o seu amor dura para
mes de larvas, sempre!1
35 que devoraram toda a vegetação e os 2 Quem poderá proclamar as proezas do
frutos daquela terra. SENHOR e apregoar todo o louvor que me-
36 Depois matou todos os primogênitos rece?
da terra deles, todas as primícias de sua 3 Felizes os que observam o direito e pra-
virilidade. ticam a justiça em todo o tempo!
37 O Senhor libertou Israel daquele povo, 4 Lembra-te de mim, ó Eterno, de acordo
que saiu cheio de prata e ouro. E não se com a tua benevolência para com teu povo;
encontrava em suas tribos quem fosse vem em meu socorro quando o salvares,
trôpego. 5 para que eu possa ver a felicidade dos
38 Todo o Egito muito se alegrou com a eleitos, alegrar-me com a felicidade de teu
saída de Israel, porquanto grande era o povo e gloriar-me com a tua herança!
pavor do povo de Deus. 6 Pecamos, como nossos antepassados, co-
39 Então, Ele estendeu uma nuvem para metemos iniqüidades, praticamos o mal.2

6 Os autores das Escrituras, especialmente no AT, demonstram compreensão teológica em relação à soberania de Deus sobre o
Universo e, particularmente, sobre o povo de Israel; tão completa e perene soberania, que governa até mesmo o mal que os homens
tentam e praticam contra Israel. Não que Deus mande o mal a alguém, mas que ele usa o mal a fim de ensinar à humanidade, e
especialmente aos seus, o que significa o temor do Senhor (Êx 4.21; 7.3; Js 11.20; 2Sm 24.1; Is 10.5-7; 37.26,27; Jr 34.22). Mais uma
vez Deus permite a desgraça aparente, com o propósito de prosseguir com os seus atos salvíficos e graciosos (Rm 8.28).
7 O motivo dos feitos portentosos e salvíficos de Deus é a preparação de um povo (judeus e gentios de todas as partes) que
adore e obedeça ao Senhor de todo o coração e para sempre (1Pe 2.9-10; Tt 2.11-14).
Capítulo 106
1 Poema davídico para ser cantado pela congregação, de autoria de um dos levitas que retornaram para Jerusalém, logo após o
exílio. O primeiro versículo e os dois últimos foram adotados de uma peça literária mais antiga (1Cr 16.34-36). A expressão hebraica
original 
   
 (transliterado em Alelu – yah ou Haleluiá) significa “Louvai ao Senhor!” (Sl 100; 107.1; 118.1,29; 136.1-3). “Aleluia!”
é o início e o final deste salmo convocatório à adoração, e nos revela o longo histórico de desobediência do povo de Israel, que sim-
boliza a rebeldia da própria raça humana, posto que o ser humano já nasça demonstrando todo o seu potencial rebelde e egoísta, e
tenda a viver assim até a morte. A não ser que aceite a graça reconciliadora de Deus e nasça de novo (Jo 3; Rm 5.20).
2 O salmista, como líder espiritual, não se exclui da responsabilidade dos pecados de seu povo (Ed 9.6,7). Ao mesmo tempo
faz-nos lembrar que a “alegria” é um dom divino concedido a todo crente. Ainda que sob provações e sofrimentos, jamais perde-
mos a convicção do amor leal e generoso do Senhor (Jo 14.27; Gl 5.22).
107 SALMOS 106

7 Nossos pais, no Egito, não deram a 20 trocaram Aquele que é a Glória deles
devida atenção a teus sinais milagrosos; pela imagem de um boi que se alimenta
esquecidos de teus inúmeros favores, de capim!5
rebelaram-se junto ao mar, o mar Ver- 21 Esqueceram-se de Deus, seu Salvador,
melho. que fizera portentos no Egito,
8 Entretanto, Ele os salvou por causa do seu 22 maravilhas na terra de Cam e realiza-
Nome, para deixar manifesto o seu poder. ções magníficas junto ao mar Vermelho.
9 Repreendeu o mar Vermelho, e este se- 23 Por isso, Ele ameaçou destruí-los; po-
cou; permitiu-lhes andar pelas profun- rém Moisés, seu escolhido, intercedeu
dezas, como por um deserto! em sua presença, a fim de evitar que sua
10 Salvou-os da mão daquele que os odia- ira os consumisse a todos.6
va; resgatou-os das garras do inimigo;3 24 Da mesma forma rejeitaram a terra
11 as águas cobriram seus adversários, aprazível do Senhor; não creram em sua
sem que um só deles restasse. Palavra,
12 Então creram em suas promessas, e a 25 mas murmuraram em suas tendas e
Ele entoaram cânticos de louvor. não obedeceram à voz do Eterno.
13 Muito depressa, porém, esqueceram 26 Então lhes jurou, de mão erguida, que
seus feitos e não quiseram esperar para os havia de abater no deserto,
conhecer mais de seus desígnios. 27 e prostraria todos os seus descendentes
14 Dominados pela fome no deserto, pu- entre as nações e os dispersaria por ou-
seram Deus à prova, nas regiões áridas. tras terras longínquas.
15 Concedeu-lhes tudo o que reclama- 28 Aderiram ao culto de Baal-Peor e co-
vam, mas, por sua gula, mandou-lhes meram dos sacrifícios pelos mortos.
uma doença horrível. 29 Assim, com seus atos, o provocaram
16 No acampamento eles invejaram Moi- à ira, e irrompeu entre eles uma peste
sés e Arão, o consagrado do SENHOR.4 mortal.
17 Então, abriu-se a terra e engoliu Datã, 30 Mas Finéias se interpôs para executar
e sepultou o grupo de Abirão. o juízo, e a praga foi interrompida.
18 Um fogo consumiu aquele bando, uma 31 Isso lhe foi creditado como um ato
chama tornou os ímpios em brasa. de justiça, de geração em geração, para
19 Em Horebe construíram um bezerro, sempre.7
adoraram uma estátua feita de metal; 32 Contudo, eles ainda provocaram a in-

3 A mesma voz poderosa que afugentou o caos e as trevas primevas, agora retira o obstáculo que fazia separação entre o povo
de Deus e a liberdade. Esse mesmo fenômeno divino pode ocorrer em nossas vidas, hoje, diante de todos os nossos obstáculos
(Sl 104.7; Gn 1.3). O povo estava na escravidão, e Deus “comprou” para si os que sempre foram seus. Esta expressão descreve
bem a obra de Cristo como nosso Redentor, pois que pagou cabalmente todo o custo do pecado da humanidade, a fim de nos
libertar para sempre das garras de Satanás, da nossa própria índole carnal, e da morte eterna (v.9; Ef 1.7; Êx 14.28).
4 A expressão hebraica original “consagrado”, aqui usada, também pode ser traduzida como “santo”. Ou seja, aquela pessoa
que o próprio Deus vocacionou e separou para a ministração da sua obra entre o povo. O sacerdócio fez parte do plano de Deus;
não foi uma invenção de Israel (Êx 28 com Zc 3).
5 O salmista, ironicamente, coloca diante dos idólatras o ridículo e aviltante culto a qualquer ser ou coisa criada por Deus. O
mais grave prejuízo causado pela idolatria é afastar as pessoas da esplendorosa e magnificente “Glória” de Yahweh (Jeová ou
Javé), o nome impronunciável de Deus, em hebraico (Rm 1.18-23). O Senhor se revelou como Salvador, através de toda a história
da humanidade e, particularmente pela peregrinação de seu povo. Portanto, Cristo, o Filho e a Glória de Yahweh, é o absoluto
Senhor e Salvador de todo o “verdadeiro Israel” (v.21; Gl 6.16).
6 Faz parte do plano de Deus, para o desenvolvimento espiritual da humanidade, que seus escolhidos (todos os crentes), parti-
cipem de coração compassivo e perdoador, fazendo súplicas e intercedendo, com fé, uns pelos outros (Êx 32.11-14).
7 O salmista parte de uma analogia para concluir que assim como a fé que Abraão demonstrou lhe foi atribuída como justiça
(Gn 15.6), também ocorreu com Finéias, devido ao seu zelo sacerdotal pela pessoa e obra do Senhor (Nm 25.7,8). A aliança do
sacerdócio perpétuo foi outorgada a Finéias como recompensa misericordiosa de Deus por sua dedicação sincera. A aliança de
Deus com Abrão foi outorgada após o Senhor lhe creditar fé como justiça (Gn 15.9-21); o mesmo aconteceu na celebração das
alianças entre Deus e Noé (Gn 9.9-17) e entre Deus e Davi (2Sm 7.5-16).
SALMOS 106, 107 108

dignação do Senhor junto às águas de 43 Ainda assim, Ele os tem libertado mui-
Meribá e, por causa deles, aconteceu um tas vezes, embora prosseguissem em seus
infortúnio a Moisés, planos de rebelião e afundassem cada vez
33 porquanto, sendo rebeldes contra o mais em sua malignidade.
Espírito de Deus, induziram Moisés a fa- 44 Contudo, Deus atentou para o sofrimen-
lar sem refletir.8 to deles, quando ouviu o seu clamor.11
34 Eles também não destruíram os pa- 45 Lembrou sua aliança com eles, e ar-
gãos, como o SENHOR havia ordenado,9 rependeu-se, por causa do seu imenso
35 em vez disso, misturaram-se com esses amor leal.12
povos e imitaram suas práticas. 46 Fez que obtivessem clemência de todos
36 Prestaram culto aos ídolos, que se tor- os que os haviam deportado.13
naram uma armadilha para eles. 47 Salva-nos, SENHOR, nosso Deus, e recolhe-
37 Chegaram ao ponto de sacrificar seus nos dentre as nações pagãs, a fim de que
filhos e filhas aos demônios. possamos dar graças ao teu santo Nome e
38 Derramaram sangue inocente, o san- fazer do teu louvor a nossa glória perene.
gue de seus próprios filhos e filhas, sacri- 48 Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel,
ficados aos ídolos de Canaã; e a terra foi desde sempre e para sempre! Que todo o
profanada pelo sangue deles. povo declare: “Amém!”
39 Tornaram-se impuros por meio dos Aleluia!
seus atos infames; prostituíram-se por
suas más ações.10 QUINTO LIVRO
40 Por tudo isso se inflamou a ira do SE- Salmos de 107 a 150
NHOR contra seu povo, e Ele sentiu repug-
nância por sua herança. Deus salva de todas as aflições
41 Entregou-os nas mãos dos pagãos, e os
seus adversários dominaram sobre eles.
42 Seus inimigos os oprimiram e os hu-
107 Rendei graças ao SENHOR, por-
que Ele é bom, e a sua miseri-
córdia dura para sempre.1
milharam com seu poder. 2 Que o digam os redimidos do SENHOR, os

8 O povo havia se tornado rebelde e caído no pecado de relativizar ou desprezar a perpétua e milagrosa salvação que Deus
concede. O mesmo erro foi cometido pelos sacerdotes e teólogos (fariseus) contra a pessoa e a obra do Filho de Deus, não
reconhecendo o amor e o poder de Deus expresso na vida e nos milagres de Cristo (Mt 12.22-32). Ao contrário de Jesus Cristo,
Moisés não conseguiu suportar com paciência a provocação de Israel no deserto, e em vez de proclamar a compaixão de Deus
em prover de água, o seu povo, desafiou-o (Nm 20.5-11). Embora a leitura de alguns manuscritos possa ser transliterada assim:
Ki himru et rucho, vaivate bisfatav, que significa literalmente “pois exasperaram seu espírito, levando-o a pronunciar palavras ás-
peras”, no entanto, à luz de uma melhor exegese e do contexto bíblico geral, o Comitê de Tradução da KJA optou por esta forma
de tradução (Is 63.10-14; Sl 78.40; Êx 31.3; Nm 11.17; 24.2; Ne 9.20).
9 A expressão hebraica, muitas vezes traduzida simplesmente pela palavra “nações”, tem o significado amplo de “pagãos”
(povos sem fé no Único Deus – Yahweh). Portanto, devemos expulsar das nossas vidas qualquer motivo de tentação ou “laço”
ou “armadilha” (v.36; Sl 101.5; 2Co 6.17). Paulo nos ensina que sacrificar (cultuar) a ídolos e imagens (marcas) é reverenciar os
próprios demônios (1Co 10.19-20). Os rituais pagãos incluíam o flagelo e o sacrifício físico de crianças (v.37).
10 A prostituição não nasceu simplesmente como forma de comércio sexual: sua origem tem a ver com a infidelidade religiosa,
que levou os crentes em Deus a se envolverem com os rituais idólatras, que incluíam sacerdotisas oferecendo seus corpos aos
homens, como uma forma de culto aos deuses pagãos (Os 1 a 3; Ap 19.1-10).
11 O olhar de Deus é algo poderoso e sublime. Somente o Senhor é capaz de contemplar e compreender o mais íntimo e
secreto da nossa alma e ministrar sua compaixão, cura e salvação (Lc 22.61-62; 1Jo 2.1,2).
12 Ficou provado que a humanidade não tem a menor esperança de viver em retidão para com Deus e em fraternidade nesta
terra. Portanto, a única chance real de salvação e nova vida repousam nas promessas (na Palavra) do próprio Deus, cuja plenitude
é a pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.1-14).
13 O amor leal de Deus fez que até os próprios pagãos fossem mobilizados para cuidar do seu povo no cativeiro, fossem esses
povos babilônicos (2Rs 25.27-30), ou persas (Ed 6.1-12).
Capítulo 107
1 Israel havia experimentado uma vez mais as poderosas e generosas misericórdias do Senhor em seu retorno do humilhante
exílio da Babilônia (v.3; Jr 33.11). Aqui, um levita responsável por reunir o povo para celebrar o amor leal e inesgotável de Deus,
109 SALMOS 107

que Ele resgatou da mão do inimigo 14 tirou-os da escuridão e das espessas


3 e reuniu dos países do Oriente e do trevas, e rompeu seus grilhões!
Ocidente, do Norte e das bandas do Sul!2 15 Dêem graças ao SENHOR por seu amor
4 Alguns andavam errantes pelo deserto, leal, por seus milagres em favor dos seres
por terras inóspitas, sem encontrar ca- humanos.
minho para alguma cidade habitada.3 16 Porquanto arrebentou as portas de
5 Passavam fome e sede, que a vida se lhes bronze e rompeu as trancas de ferro!
esvaía. 17 Alguns, embrutecidos por sua conduta
6 Então, na angústia, clamaram ao SENHOR, insana, sofriam por causa de suas iniqüi-
e Ele os livrou de suas tribulações: dades.
7 fê-los tomar um caminho reto, para 18 Todo alimento lhes provocava náuseas,
chegarem a uma cidade habitada. e já tocavam os portais da morte.5
8 Louvai, pois, ao Eterno por seu amor 19 Então, na sua angústia, clamaram ao
leal, por seus milagres em favor dos fi- SENHOR, e Ele os livrou de suas aflições:
lhos dos homens! 20 enviou sua Palavra para curá-los, para
9 Pois Ele dessedentou a alma sequiosa e salvá-los de sua extinção.6
cumulou de bens a alma faminta. 21 Rendam graças ao SENHOR por sua
10 Alguns habitavam na escuridão mor- bondade e pelas maravilhas que realiza
tal, prisioneiros da miséria e dos grilhões em favor de todo ser humano!
de ferro,4 22 Ofereçam-lhe sacrifícios de ação de
11 porquanto se revoltaram contra as or- graças e, com cânticos jubilosos, procla-
dens de Deus, desprezando o desígnio do mem suas obras!7
Altíssimo. 23 Os que se lançaram ao mar em navios,
12 Por isso, Ele os humilhou por meio de exercendo sua profissão nas grandes águas,
trabalhos pesados; sucumbiram, e não 24 esses viram as obras do SENHOR, seus
houve alguém que os socorresse. milagres em alto-mar.
13 Então, na sua grande aflição clamaram 25 A sua Palavra, levantou-se um vento
ao SENHOR, e Ele os livrou de todas as suas tempestuoso, que sublevava as ondas:8
tribulações: 26 subiam até o céu, desciam aos abismos;

especialmente para com todos aqueles que reconhecem seu poder e clamam por sua intervenção, ministra à congregação um
salmo de adoração, como parte do grande recital sobre “as divinas maravilhas em favor da humanidade” (Sl 104 a 107).
2 O salmista refere-se também aos dispersos e cativos em outras terras: Assíria (2Rs 17.6) e Babilônia (2Rs 24.14,16; 25.11,26;
Jr 52.28-30; Ne 1.8; Et 8.5-13; Is 11.12; 43.5,6; Ez 11.17; 20.34). Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais
hebraicos: Umearatsot kibetsam, mimizrach umimaarav, mitsafon umiyam.
3 O original hebraico apresenta aqui um verbo impessoal (“andavam” ou “andaram”) que se refere a todos os viajantes perdidos
no deserto, que apelam ao Senhor e encontram socorro e alívio para suas angústias. Israel já havia experimentado as agruras do
deserto em sua peregrinação a Canaã; além disso, fazia fronteira, a leste, com o grande deserto da Arábia, pelo qual caravanas
de mercadores viajavam, e, a oeste, com o mar Mediterrâneo (vv.23-32). A história de Israel é uma grande metáfora da própria
história da rebelião de toda a humanidade contra seu Criador, mas, ao mesmo tempo, a saga do livramento divino em atenção ao
apelo humano por salvação, paz e felicidade (Sl 105 e 106).
4 Criminosos condenados à prisão perpétua e à morte não são apenas os malfeitores que atentam contra as leis civis, senão
igualmente todos aqueles que ofendem a Palavra de Deus (Rm 13.1-7).
5 Aqui se trata de um doente, enfermidade tem a ver com certa aflição provocada por uma vida estulta e descontrolada, sem
o temor do Senhor (v.17).
6 A ordem de Deus (Sua Palavra) aqui é personificada como agente do seu propósito (147.15,18; 23.6). É o Logos divino
quem traz perdão, consolo e restauração ao coração humilde e arrependido (Jo 1.1-12). O Supremo Juiz do Universo “ab-roga”
(expressão jurídica, em latim, relativa à determinação expressa de cessar a exigência do cumprimento cabal de uma determinada
lei), a condenação do pecador à morte eterna.
7 A atitude de cultivar um coração grato a Deus e render-lhe louvores por sua paciência e inúmeros atos de bondade é, de fato, um
sacrifício do eu, normalmente altivo e egoísta (Sl 51.17). Segue-se ao louvor sincero, um testemunho autêntico e poderoso (At 3.8).
8 O povo de Israel sempre viu no mar uma metáfora das profundezas tenebrosas; a mitologia hebraica é recheada de histórias
de monstros marinhos e episódios horríveis passados ou provocados pelos oceanos. As Escrituras também registram muitas pro-
vações enfrentadas em meio às águas bravias dos mares (Jn 1 e 2; At 27.9-44). Contudo, o Senhor, cuja voz domina os oceanos
e as tempestades (Sl 29), concede a mesma autoridade à pessoa do seu Filho Jesus Cristo (Mc 5.35-41).
SALMOS 107, 108 110

no meio dessas angústias, desfalecia-lhes serto sem caminhos.10


a alma. 41 Entretanto, levanta da miséria os po-
27 Andaram e cambalearam como bêba- bres e necessitados, aumenta as suas fa-
dos, e perderam todo o juízo. mílias como rebanhos.
28 Então, em meio ao seu desespero, cla- 42 Os justos observam tudo isso e se ale-
maram ao SENHOR, e Ele os livrou de suas gram, mas todos os ímpios são emude-
tribulações: cidos.
29 reduziu a tormenta a silêncio, e emu- 43 Reflitam sobre isso os sábios e conside-
deceram as temíveis ondas. rem o amor leal do SENHOR!11
30 Alegraram-se, porque elas amainaram,
e Ele os conduziu ao porto ansiado. Deus dá vitória a seus filhos
31 Dêem graças ao SENHOR por seu amor Um cântico de louvor. Salmo davídico.
leal, por seus milagres em favor da raça
humana!
32 Exaltem-no na assembléia do povo e o
108 Ó Deus, meu coração está fir-
mado em ti! Por isso cantarei e
louvarei ao SENHOR, ó Glória minha!1
louvem no conselho dos anciãos. 2 Harpa e cítara, despertai! Quero acor-
33 Ele converteu rios, em desertos, e ma- dar a aurora!
nanciais, em terra seca;9 3 Ó Eterno, eu te darei graças entre todos
34 terra frutífera, em deserto salgado, por os povos, e entre as nações entoarei teus
causa da malignidade dos seus habitantes. louvores.
35 Transformou o deserto, em lençóis de 4 Pois teu amor leal é maior que os céus e
água, e a terra árida, em mananciais. a tua fidelidade vai até as nuvens.
36 Fez ali habitar os esfomeados, que fun- 5 Sê exaltado, ó Eterno, acima dos céus;
daram uma cidade habitável. estenda-se a tua glória sobre toda a terra!2
37 Semearam campos, plantaram vinhas 6 Salva-nos com teu braço forte e res-
e colheram os frutos de grande safra. ponde às nossas orações, para que sejam
38 Ele os abençoa, e eles se multiplicam; libertos aqueles a quem amas!3
e não permite que seus rebanhos dimi- 7 Em sua santidade, Deus declarou: “No
nuam. meu triunfo dividirei Siquém e repartirei
39 Quando, porém, reduzidos, são humi- o vale de Sucote.
lhados com opressão, desgraça e tristeza. 8 Gileade me pertence e Manassés tam-
40 Deus derrama desprezo sobre nobres bém; Efraim é o meu capacete, Judá é o
e ricos incrédulos e os faz vagar num de- meu cetro.

9 O salmista nos oferece uma descrição geral da soberania de Deus em guiar a raça humana (vv.33-41), e faz um alerta sobre o
castigo reservado aos idólatras (Is 42.15-17; Gn 19.23-29). No entanto, os remidos serão presenteados com a honra do galardão
do Senhor (Is 35.6,7; 41.18; 42.15; 43.19,20; 50.2).
10 Temos aqui um eco de Jó 12.21,24. A prosperidade, quando não administrada sob o temor do Senhor, exacerba a arrogância
e o egoísmo humano, fazendo que o homem relativize seu amor e fé em Deus, dando mais importância aos bens e ao dinheiro
ao que ao amadurecimento da sua relação com o divino e desprezando a fé sincera e simples em Deus (Dt 31.20; 32.15). Por
isso, o Senhor se vê forçado a devolver tais pessoas ao “deserto”, a fim de poderem continuar sua caminhada de tribulações e
aprendizado (Dt 32.10; Os 2.3,14).
11 A grande conclusão do salmista revela que os insensatos e arrogantes (perversos), não conseguem ver, ouvir e muito menos
sentir a Palavra do Senhor, e tão somente seguem sua lógica primária e seus instintos egoístas (vv.33-41; Jó 5.16; Pv 2.21,22;
11.6,7; 12.6; 14.11; 15.8; 21.18,19; 29.27). Os sábios e justos consideram e obedecem à instrução de Deus, louvando ao Senhor
por seu amor leal, poder e longaminidade (vv. 4-32; Dt 32.29; Os 14.9).
Capítulo 108
1 Um hino de Davi ou de seus descendentes, exaltando o amor leal de Deus e suplicando o auxílio divino contra os inimigos
(57.7-11; 60.5-12; 103.11; 1Cr 16.8-36). O coração do fiel está firmado no Senhor, e essa é a razão indestrutível de sua confiança
e esperança. Haja o que houver, o futuro será sempre melhor para o crente.
2 O amor leal e a misericórdia divina são maneiras de descrever a própria natureza do Senhor (1Jo 4.16).
3 A Palavra de Deus produz libertação completa e inabalável para o povo do Senhor, bem como salvação eterna pelo divino
poder de sua destra (mão direita ou braço forte).
111 SALMOS 108, 109

9 Moabe é a bacia em que me lavo, sobre 10 Andem errantes seus filhos, a mendigar,
Edom atiro a minha sandália, contra a a esmolar longe de suas casas em ruína!
Filistéia lanço meu brado de vitória!” 11 De tudo que é seu apodere-se o credor,
10 Quem me levará à cidade fortificada? e estranhos roubem seus ganhos!
Quem me conduzirá até Edom,4 12 Não mais lhe mostrem benevolência, e
11 se não fores tu, ó Deus, que nos rejei- ninguém se compadeça de seus órfãos!
taste; tu, ó Eterno, que já não sais com 13 Sua prosperidade seja completamente
nossas tropas? aniquilada, e na geração seguinte extin-
12 Vem em nosso socorro contra os ad- ga-se seu nome!
versários! Vã é a salvação que vem do ser 14 Seja lembrada ao SENHOR a culpa de
humano. seus pais, e o pecado de sua mãe não se
13 Com Deus faremos proezas, e Ele es- apague:
magará os nossos inimigos!5 15 estejam continuamente presentes ante
o Eterno, a fim de que risque da terra sua
Prece contra os caluniadores memória!
Ao regente do coro. Um salmo davídico. 16 Visto que nunca pensou em agir com

109 Ó Deus a quem adoro, não fi-


ques indiferente,
2 porquanto homens ímpios e falsos pro-
misericórdia, mas perseguiu o fragiliza-
do e o pobre, o aflito de coração, para lhe
desferir um golpe mortal.
pagam mentiras contra mim, e espalham 17 A maldição, que ele tanto amou, veio
calúnias a meu respeito.1 sobre ele; a bênção, a que ele não deu
3 Cercam-me com discursos de ódio e preferência, dele se afastou.4
combatem-me sem motivo. 18 Revestido de maldição, como de seu
4 Acusam-me, em paga de minha ami- manto, ela penetrou como água em suas
zade. Eu, contudo, dedico-me a orar por entranhas, e como óleo, em seus ossos:
eles.2 19 envolva-o, como uma veste mortuária
5 O bem retribuem-me com o mal, e mi- e aperte-o, sempre, como um cinto que
nha amizade, com ódio. continuamente se cinge!”
6 Sentenciam eles: “Suscita, a seu lado, o 20 Será essa a retribuição do SENHOR aos
maligno acusador, Satanás; que se ponha meus acusadores, e aos que falam contra
à sua direita!3 mim todo o mal.
7 Citado em juízo, seja declarado culpa- 21 Mas tu, ó Eterno, meu Deus, atua em
do, e fique sem efeito sua apelação! meu favor, pela honra do teu Nome! Pois
8 Sejam abreviados seus dias, e um outro teu amor leal é sublime, livra-me!
assuma seu cargo! 22 Sou pobre e necessitado e, no íntimo,
9 Fiquem órfãos seus filhos, e viúva, sua meu coração está abatido.
esposa! 23 Extingo-me como a sombra que de-

4 Oração costumeira de Davi, antes de suas vitórias contra Edom (2Sm 8.13-14).
5 Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos melhores manuscritos hebraicos: Belohim naasse cháyil, vehu
iavus tsarênu.
Capítulo 129
1 O salmista suplica a Deus que o livre de seus falsos acusadores: que o Senhor julgue com severidade todos que rejeitam o
caminho santo (vv.6-19), e que a misericórdia divina seja generosa para com os que se entregam nas mãos de Deus (vv.20-31).
O autor fala dos adversários, no singular, na primeira parte, que revela algumas das maldições lançadas por seus inimigos; a
segunda parte, discorrida no plural, mostra a aliança dos inimigos contra o servo do Senhor (Sl 35; 101).
2 Este é o sentido mais adequado à frase transliterada do original hebraico: Vaiassímu alai raá táchat tová, vessin’á táchat
ahavati (35.13,14).
3 Estes são alguns dos desejos, expressos, dos inimigos do salmista (vv.6-20). Pedro compreendia que essas palavras conde-
natórias se aplicavam ao traidor, Judas Iscariotes (v.8; At 1.20). Em hebraico, a expressão “satã ou satanás” significa “acusador”.
Veja como fica a transliteração deste versículo: Hafked alav rashá, vessatan iaamod al iemino (Jó 1.6).
4 O pecador ímpio e renitente procura cercar-se de trevas, cada vez mais fugindo da luz e da verdade (Jo 3.18-21).
SALMOS 109–111 112

clina, sou afugentado como um simples dia da convocação. Nos montes santos,
gafanhoto. mais numerosos do que gotas de orvalho
24 Os joelhos tremem de tanto que jejuo, no seio da aurora, tu terás teus exércitos
e o corpo definha de fraqueza. de jovens santos!2
25 Tornei-me, para meus difamadores, 4 O SENHOR jurou e não se arrependerá:
objeto de zombaria: assim que me vêem, “Tu és Sacerdote para sempre, segundo a
meneiam a cabeça.5 ordem de Melquisedeque”.3
26 Ajuda-me, SENHOR, meu Deus! Salva- 5 O Eterno está à tua direita; Ele esmaga-
me, segundo teu amor misericordioso! rá reis no dia da sua ira.
27 Que eles reconheçam que foi a tua boa 6 Julgará as nações, amontoando cadáve-
mão, que foste tu, SENHOR, que o fizeste. res e esmagando governantes em toda a
28 Que eles sigam amaldiçoando, contan- extensão da terra.4
to que tu me abençoes! Os que se insur- 7 Meu Rei encontrará refrigério no ribei-
gem sejam confundidos, enquanto teu ro em seu árduo caminho, e sua cabeça
servo seja contemplado com alegrias. estará sempre erguida!
29 Cubram-se de ignomínia os que me
acusam, emaranhem-se no próprio ve- Louvor a Deus por suas obras
xame, como num manto!
30 Proclamarei com minha boca muitas
graças ao SENHOR e o louvarei no meio da
111 Aleluia! De todo o coração,
louvarei ao SENHOR,1
 Alef
multidão, na congregação dos justos e na assem-
31 pois Ele se põe à direita do pobre para bléia dos que se reúnem para adorá-lo.
salvá-lo daqueles que o caluniam!  Bet
2 Portentosas são as obras do SENHOR,
O reino sacerdotal do Messias  Guimel
Salmo de Davi. dignas de profunda meditação para

110 Assim declarou o SENHOR ao


meu Senhor: “Assenta-te à mi-
nha direita e aguarda, enquanto de teus
quem as aprecia.
 Dalet
3 Os feitos do Eterno são magníficos e
inimigos faço um objeto de descanso majestosos,
para teus pés!”1  He
2 O SENHOR estenderá de Sião o poder do e sua justiça permanece para sempre.2
teu cetro: domina no meio dos teus ini-  Vav
migos! 4 Ele fez memoráveis as suas maravilhas;
3 Teu povo se apresentará generoso, no  Zayin

5 A expressão “meneiam a cabeça” revela um gesto físico de profundo desprezo, humilhação e zombaria. Foi assim que muitas
pessoas agiram, ao verem Jesus Cristo, o Messias, em seu sofrimento vicário na Cruz do Calvário (Mc 15.29).
Capítulo 110
1 Davi compôs este salmo para a coroação de seu filho Salomão, com profunda conotação profética em relação aos reis davídi-
cos e a seu grandioso Filho futuro (Sl 101). Os profetas do AT perceberam a mensagem profética deste hino somente muito tempo
depois de Davi, mas a Igreja do NT sempre o considerou a mais clara e direta obra messiânica do Saltério (Sl 2). Especialmente
pela maneira como fora interpretado pelo próprio Messias, Jesus (Mt 22.43-45; Mc 12.36,37; Lc 20.42-44), pelo apóstolo Pedro
(At 2.34-36) e pelo autor de Hebreus (Hb 1.13; 5.6-10; 7.11-28). Sentar-se à direita do rei significava ocupar um lugar de honra
sem igual e “estar com ele entronizado” (45.9; 1Rs 2.19). O NT está repleto de referências a Jesus Cristo exaltando essa posição
de primazia absoluta e definitiva (Mt 26.64; Mc 14.62; 16.19; Lc 22.69; At 2.33; 5.31; 7.55-56; Rm 8.34; Ef 1.20; Cl 3.1; Hb 1.3; 8.1;
10.12; 12.2). Os tronos eram acompanhados de um móvel para descanso dos pés do rei. Entretanto, nas pinturas e esculturas, os
reis mandavam que esse objeto fosse substituído pela imagem de seus inimigos vencidos (2Cr 9.18; 1Rs 5.3; Js 5.3; 1Co 15.25;
Ef 1.22). Este versículo, incluindo sua epígrafe, pode ser assim transliterado a partir dos melhores originais hebraicos: Ledavid
mizmor, neum Adonai, ladoni, shev limini, ad ashit oievêcha hadom leraglêcha.
2 O “Rei” e Ungido de Deus, o Senhor Jesus Cristo, terá um exército de voluntários, revestidos de santidade. O reino de Cristo
não é deste mundo e seus guerreiros não usam armas carnais (Jo 18.36; Ef 6.10-18).
113 SALMOS 111, 112

o SENHOR é misericordioso e compassi-  Resh


vo.3 todos os que cumprem seus preceitos
 Het demonstram bom senso.
5 Provê o sustento dos que o temem;  Shin
 Tet Ele será louvado por toda a eternidade!7
porquanto, tem sempre presente a lem-  Tav
brança da sua aliança.4
 Yud Os justos herdarão a vida eterna
6 Revelou a seu povo suas obras grandio-
sas,
 Kaf
112 Aleluia! Quão feliz é a pessoa
que teme ao SENHOR
 Alef
confiando-lhes as terras das nações. e tem grande prazer em seus manda-
 Lamed mentos! 1
7 As realizações de suas mãos são verda-  Bet
deiras e justas, 2 Sua linhagem será poderosa no país,
 Mem  Guimel
e todos os seus ensinamentos merecem abençoada geração de homens íntegros.
absoluta confiança:  Dalet
 Nun 3 Em sua casa haverá bens e riquezas,
8 são firmes para todo o sempre,  He
 Samek e sua justiça permanece para sempre.2
a fim de serem cumpridos fiel e retamen-  Vav
te.5 4 Desponta nas trevas como luz para os
 Ayin homens retos:
9 Ele trouxe redenção a seu povo,  Zayin
 Pê é benigno, piedoso e justo.3
promulgou para sempre sua aliança.  Het
 Tsade 5 Bem-aventurado quem se compadece e
Seu Nome é Santo e inspira temor!6 empresta com generosidade,
 Qof  Tet
10 O temor do SENHOR é o princípio da e com honestidade administra todos os
sabedoria; seus negócios!4

3 Jesus, o Messias prometido, é a única pessoa que acumula o poder e a responsabilidade de Sacerdote e Rei. Esse sacerdócio
firma-se nas promessas irrevogáveis e eternas de Deus, a fim de manter, perpetuamente, a linhagem de Davi (89.35-37; Hb 7.16-18).
Segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 7.11-22), os reis davídicos, como representantes principais do governo de Deus sobre Isra-
el e o mundo, realizaram muitas atividades que se baseavam no culto ao Senhor, como a supervisão da Arca da Aliança e do templo,
bem como a organização dos serviços sagrados dos sacerdotes e levitas (2Sm 6.1-15, 1Rs 5 – 7; 2Rs 12.4-7; 22.3-7; 23.4-7; 1Cr 6.31;
15.11-16; 16.4-42; 23.3-32; 25.1; 2Cr 15.8; 17.7-9; 19.8-11; 24.4-12; 29.3-31; 34.8; 35.15,16; Ed 3.10; 8.20; Ne 12.24,36,45).
4 A vitória absoluta, universal e eterna de Cristo e da sua Igreja (Ap 19.11-21).
5 Mesmo durante os séculos de implantação do seu reino, as terríveis batalhas no final dos tempos, o Ungido de Deus jamais
esmorecerá. As forças da natureza curvam-se para cooperar com o nosso vitorioso Salvador, Jesus Cristo (Mt 22.41-46). Este
versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Mináchal badérech yishte, al ken iarim rosh.
Capítulo 111
1 Este salmo e o próximo (112) formam um arranjo perfeito entre poesia, música sacra e instrução sapiencial. Essas obras
pós-exílicas introduzem uma série de salmos de Aleluia (Sl 111 – 118). A estrutura dos salmos 111 e 112 é chamada de acróstico
alfabético, por serem eles organizados em ordem alfabética, no original hebraico. Cada meio verso recebe uma das letras do alfa-
beto hebraico. A reunião dos justos (íntegros, retos e piedosos) refere-se a um grupo mais íntimo de adoradores comprometidos
com a Palavra do Senhor (112.2,4; 9.1; 11.7; 33.1; 49.14; 97.11; 107.42; 140.13).
2 As obras do Senhor revelam claramente o caráter e o poder do Criador. Felizes aqueles que sabem contemplar as obras do
Criador (v.2; Sl 19.1-4).
3 Misericórdia e compaixão (amor leal) são as qualidades de Deus que garantem a existência e a peregrinação da raça humana
para a eternidade (130.3-4; 2Pe 3.9).
4 A provisão de alimento para o crente é apenas uma exemplificação da generosidade do Senhor para com os seus (Mt 6.11; Sl
SALMOS 112, 113 114

 Yud de cabeça erguida será honrado e exalta-


6 O justo jamais será grandemente aba- do por muitos.5
lado;  Qof
 Kaf 10 Por isso, o ímpio o observa e fica irado,
para sempre suscitará boas recordações.  Resh
 Lamed range os dentes e se consome de ódio.
7 Não viverá temeroso, esperando más  Shin
notícias: A ambição dos ímpios os levará à des-
 Mem truição! 6
confiando plenamente no SENHOR, seu  Tav
coração estará sempre firme.
 Nun Só Deus é digno de todo louvor
8 Seu coração está seguro e nada temerá.
 Samek
Certamente, no final, testemunhará o
113
Eterno!1
Aleluia! Louvai, servos do
SENHOR, louvai o Nome do

fracasso dos seus inimigos. 2 Bendito seja o Nome do SENHOR, desde


 Ayin agora e para sempre!
9 Generosamente reparte o que possui 3 Desde o romper da aurora até o pôr-
com os pobres; do-sol, louvado seja o Nome do Eterno!
 Pê 4 Excelso é o SENHOR, acima de todas as
perene será sua benevolência; nações, e sua glória, acima dos céus.
 Tsade 5 Quem é como o Eterno, nosso Deus,

105.8-11). Este versículo pode ser transliterado, do original hebraico, da seguinte forma: Téref natan lireav, yizcor leolam berito.
5 As mais concretas e indestrutíveis realizações do Senhor são as virtudes e seus mandamentos eternos (119.89-90).
6 As alianças são as promessas da eterna redenção para todos aqueles que sinceramente amam e respeitam (temem) ao
Senhor (vv.5,6).
7 O grande ensino do AT resume-se no “temor do Senhor”; uma combinação perfeita de amor e obediência aos mandamentos
de Deus é a chave para o sucesso perene na Terra e no céu. O sábio, portanto, é aquele que aprende a dedicar seu amor obe-
diente (fiel) ao Senhor (Jó 28.28; Pv 1.7; 9.10, conforme Gn 20.11; Sl 19.7-9; 112.1).
Capítulo 112
1 Este poema, um acróstico, descreve os caminhos de uma pessoa sábia, cujo coração verdadeiramente adora ao Senhor e
alegremente se submete a seus princípios, enquanto complementa o salmo 111, que discorre sobre os caminhos de Deus.
2 Aquele que deposita sua confiança e felicidade na vontade do Senhor também é contemplado com alegrias humanas ines-
peradas (1Rs 3.10-14; Mt 6.31-33). O justo e piedoso produz bênçãos para seus filhos, e ele mesmo poderá ser contemplado
com o reflexo dessas bênçãos em sua descendência (v.6; 37.26; 127.3-5; 128.3; 109.12). Fartura e riqueza são promessas que
acompanham aqueles que temem ao Senhor (v.9; 1.3,5; 128.2).
3 Nesta metáfora sobre as horas difíceis e os tempos de crise, a que todos os seres humanos estão sujeitos, o salmista ressalta
a fé daqueles que pertencem ao Senhor, para os quais as próprias circunstâncias adversas são oportunidades de serem ilumina-
dos e consolados e de experimentar o poder amoroso de Deus (Êx 34.6,7; Sl 107.10-14).
4 O grande segredo da felicidade é dar, com sabedoria e generosidade, em o Nome (em hebraico, indicação da presença
divina) do Senhor (v.9; 34.8-14; 111.5,9). Quem serve a Deus com sinceridade e obediência não precisa temer qualquer inquérito
humano.
5 Este é um versículo difícil de ser traduzido na atualidade, pois há um jogo de palavras envolvendo a expressão hebraica “chi-
fre” como sinônimo de “poder”, cujo sentido era baseado na atitude altaneira e dominadora dos touros selvagens. Seus grandes
e poderosos chifres eram um símbolo de poder e autoridade diante de todo o rebanho. Dessa imagem surgiu o termo “erguer a
fronte” ou “levantar a cabeça”. Veja a transliteração deste versículo, a partir do original hebraico: Pizar natan laevionim, tsidcato
omédet laad, carno tarum bechavod. Assim como as belas e frondosas árvores são podadas a fim de darem mais flores e frutos,
da mesma maneira se desenvolve e produz aquele que dá com generosidade (2Co 9.7).
6 As ambições naturais da humanidade estão na contra mão da vontade declarada de Deus, por isso, a inveja e a avareza
movem os corações na direção da perdição. Os salvos devem buscar o caminho da piedade e da generosidade rumo à plena
felicidade (107.42; 111.10; 1.4-6; 10.2-11 conforme o Sl 37).
Capítulo 113
1 No antigo Oriente Médio o nome de alguém revelava sua própria natureza e caráter. Os “servos do Senhor” são todos os crentes,
aqueles que aceitam com prazer e voluntariedade a chamada de Deus, como na oração de Neemias em favor do seu povo (Ne 1.10).
Várias fontes indicam que este hino foi composto originalmente para a liturgia no templo, em ato de adoração à sublime majestade e
115 SALMOS 113–115

que reina nas mais elevadas alturas, vós, colinas, como carneiros do rebanho?
6 mas se inclina bondosamente para con- 7 Estremece, ó terra, diante do Eterno, na
templar o que se passa nos céus e na terra?2 presença do Deus de Jacó!4
7 Ele levanta do pó o necessitado e ergue 8 Que converte as pedras em lago, e o ro-
do lixo o pobre, chedo em manancial de água.5
8 a fim de estabelecê-los como príncipes
do seu povo.3 O único Deus verdadeiro
9 Oferece uma família à estéril, e dela faz
uma feliz mãe de filhos. Aleluia! 115 Não a nós, SENHOR, nenhu-
ma glória a nós, mas, sim,
ao teu Nome, por teu amor e por tua
Os milagres no Êxodo fidelidade!1
114 Quando Israel deixou o Egito,
e a casa de Jacó se retirou do
meio de um povo de língua estranha,1
2 Por que questionam as nações: “Onde
está o seu Deus?”2
3 Nosso Deus está nos céus; tudo o que
2 Judá tornou-se o santuário de Deus, e deseja, Ele tem o poder de realizar.
Israel, o seu domínio.2 4 Os ídolos deles são prata e ouro, obras
3 À vista disso, o mar fugiu, o Jordão vol- de mãos humanas.
tou para trás; 5 Têm boca, mas não são capazes de falar,
4 os montes saltaram como cabritos, e olhos mas não podem ver;3
como carneiros do rebanho, as colinas.3 6 têm ouvidos, mas não conseguem ou-
5 Que tens, ó mar, que assim foges? E tu, vir; nariz, mas não possuem olfato.
Jordão, por que retrocedes? 7 Suas mãos não apalpam; seus pés não ca-
6 Montes, por que saltais como cabritos? E minham; som nenhum emite sua garganta.

misericórdia do Senhor (138.6). Este salmo inicia o chamado “Halel Egípcio” (Sl 113 a 118), que veio a ser usado na liturgia judaica
durante as grandes festas religiosas (Páscoa, Semanas, Tabernáculos, Lua Nova, Dedicação – Lv 23; Nm 10.10; Jo 10.22). Na Pás-
coa, por exemplo, os Sl 113 e 114 eram cantados antes das refeições, e os Sl 115 a 118 logo depois das ceias (Sl 111).
2 Jesus Cristo é o Deus transcendental e imanente: separado de nós por causa da sua justiça santa e imaculada, mas próximo e
sensível aos nossos sofrimentos e fraquezas, por meio do amor e da compaixão encarnada na pessoa do Filho (Hb 6.7-10). Jesus
experimentou as angústias humanas e venceu-as como Filho do Eterno Deus, Autor da nossa eterna Salvação e reconciliação
com Deus (2Co 5.18).
3 Todos os renascidos em Cristo são parte de um novo povo, formado de príncipes (1Pe 2.9).
Capítulo 114
1 Magnífica obra poética e um dos mais belos hinos de louvor e adoração a Deus no Saltério. Sua datação encontra-se no
período da monarquia, algum tempo depois da divisão do reino. Foi composto tendo em vista a celebração do Êxodo (o grande
acontecimento remidor do AT) e sua execução litúrgica no templo, durante as grandes festas religiosas que ocorriam de ano em
ano, em Israel ou Casa de Jacó (Êx 19.3; Sl 113).
2 Judá e Israel, os reinos do sul e do norte, são considerados aqui como uma única nação, povo de Deus. A comemoração princi-
pal foi a aliança firmada no Sinai, onde Israel passou a ter comunhão íntima com o Senhor como “um reino de sacerdotes e uma na-
ção santa” (Êx 19.3-6). Deus manifestava sua presença ao mundo, simbolicamente por meio do Tabernáculo, durante a peregrinação
no deserto, e mais tarde no Templo. A própria “Terra Prometida” é chamada figuradamente de “santuário de Deus” (Êx 15.17).
3 Assim como outros profetas, o salmista evoca uma cena de grandes transformações geológicas, abalos sísmicos e fenôme-
nos naturais, (18.7-15; 68.7,8; 77.16-19; Jz 5.4,5; Hc 3.3-10).
4 Jacó como sinônimo de Israel (Gn 32.28).
5 Assim, o Senhor zela pela preservação dos seus filhos, em meio às provações (Êx 17.6; Nm 20.11).
Capítulo 115
1 As bênçãos divinas e o zelo de Deus para com seu povo são decorrência da sua fidelidade (aliança eterna – 6.4; 26.3). O Senhor
é invisível, mas Todo-Poderoso, sensível e imutável. Os ídolos pagãos são bem visíveis, feitos em pedra, madeira ou metais, mas
absolutamente desprovidos de poder real e comunicação; cabendo aos demônios e ao próprio ser humano emprestar-lhes qualquer
sentido ou manifestação. O “Nome” do Senhor é sempre a indicação da presença divina, de sua pessoa gloriosa (5.11).
2 Sempre que os filhos de Deus são provados, ou a nação de Israel é submetida a castigos, por meio dos fenômenos naturais
(Jl 2.17), guerras e destruição de toda espécie, surgem os zombadores pagãos (79.10; Mq 7.10; Mt 24).
3 Quando o povo de Israel é abençoado com vitórias e prosperidade é Deus quem age; quando é castigado ou chora, o templo
do Senhor é nivelado ao chão, é Deus quem executa o juízo (113.5). Nenhum outro deus ou ídolo tem qualquer poder que se
compare à vontade soberana do Senhor Yahweh (o Nome de Deus em hebraico).
SALMOS 115, 116 116

8 Sejam como eles quem os fabrica e to- 2 Porque inclinou para mim seu ouvido e,
dos os que neles depositam confiança!4 portanto, enquanto eu viver, o invocarei.1
9 Confia no SENHOR, ó Israel! Ele é o seu 3 Os laços da morte me envolveram e,
auxílio e o seu escudo. surpreendido pelas tribulações do infer-
10 Confiai no SENHOR, ó casa de Arão! Ele no, encontrava-me em profunda angús-
é o seu socorro e sua proteção.5 tia e tristeza.
11 Vós, que temeis o SENHOR, confiai no SE- 4 Invoquei o Nome do SENHOR: “Ó, SE-
NHOR! Ele é seu amparo e segurança.6 NHOR, liberta-me!”
12 O SENHOR lembra-se de nós; Ele nos 5 O SENHOR é benevolente e justo, nosso
abençoará! Derramará suas bênçãos sobre Deus é misericordioso.
os israelitas, abençoará seus sacerdotes. 6 O SENHOR cuida das pessoas simples;
13 Ele abençoa os que temem o SENHOR, quando já não tinha mais forças, Ele me
tanto pequenos quanto grandes. salvou.2
14 O SENHOR vos multiplique bênçãos e 7 Volta, minha alma, ao teu repouso, por-
mais bênçãos, sobre vós e vossos filhos! quanto o SENHOR tem sido generoso para
15 Sede abençoados pelo SENHOR que fez contigo!
os céus e a terra. 8 Visto que me livraste da morte; das lágri-
16 Os céus são os céus do SENHOR, mas a mas, meus olhos, e meus pés, da queda,
terra, deu-a aos filhos de Adão!7 9 andarei na presença do SENHOR, na terra
17 Não estão os mortos a louvar o SENHOR, dos vivos.3
nem os que descem à região do silêncio. 10 Conservei a confiança, mesmo quando
18 Mas nós bendiremos o SENHOR, desde dizia: “Estou sobremodo aflito”.4
agora e para sempre. Aleluia! 11 Eu dizia em minha consternação:
“Ninguém é digno de confiança!”5
Ações de graças pela salvação 12 Como poderei retribuir ao SENHOR to-

116
orações.
Eu amo o SENHOR, porque Ele
ouve minha voz e as minhas
dos os seus benefícios para comigo?
13 Elevarei o cálice da salvação e invoca-
rei o Nome do SENHOR.6

4 São fúteis, vazios e iludidos, todos os que depositam sua fé em qualquer ser ou matéria criada, em vez de confiar absoluta-
mente em Deus, o Criador (135.15-18; Is 44.9-20; 46.1-7; Rm 1.23).
5 Algumas versões usam a expressão “sacerdotes” em vez de “casa de Arão”, pois os manuscritos em hebraico se referem aos
descendentes do primeiro sumo sacerdote, responsáveis por todas as obrigações sacerdotais.
6 As repetições poéticas seguem uma convenção litúrgica e enfatizam o convite para confiarmos plenamente no Senhor, e
jamais temermos ou alimentarmos superstições ou qualquer tipo de adoração aos ídolos (96.1-3; 118.2-4; 135.19,20). Nenhuma
descendência genética (v.9) ou ordenação sacerdotal (v.10) é suficiente para que uma pessoa venha a pertencer ao grupo dos
que “verdadeiramente temem ao Senhor” (Jo 4.24; 1Rs 8.41-43; Ed 6.21; Ne 10.28).
7 Doxologia final por parte da congregação reunida em louvor ao Senhor (vv.16-18).
Capítulo 116
1 O salmista repete sua declaração de amor e fé no Senhor nos vv. 13 e 17. Esse testemunho individual nos revela que a adora-
ção, antes de ser uma expressão coletiva, é o testemunho pessoal de cada crente que aprendeu a amar o Senhor, reconhecendo
a grandeza do seu amor leal e perdoador por todos nós (Rm 5.8). Invocamos o Nome do Senhor, na certeza de que ele nos ouve
sempre (1Rs 18.24).
2 A expressão “simples” aqui, tem o sentido de “semelhante a uma criança”, em sua fé e senso de dependência e confiança
no Pai (19.7).
3 Andar com Deus é viver em comunhão (amizade leal e confiante) com o Senhor (Gn 5.22; 17.1).
4 Mesmo sob as mais terríveis e persistentes provações, o crente expressa sua confiança no amor leal e salvador do Senhor
(5.9; 10.7; 109).
5 Somente o Senhor pode nos oferecer seu amor leal e livramento incondicional. Todos os seres humanos, ainda que os vínculos
afetivos sejam os mais íntimos, são limitados e oferecem uma esperança de real ajuda bastante frágil e relativa (60.11; 118.8,9).
6 O copo de vinho, que faz parte da refeição festiva de ações de graças, chamado de “cálice da salvação” (Lv 7.11-21; Sl
22.26-29); da Páscoa (e também da Ceia de Cristo), e que relembra o dia da libertação dos israelitas da escravidão no Egito, é,
também, para o cristão, o memorial e a celebração do dia em que o Filho de Deus salvou todo aquele que nele crê, por meio do
seu sacrifício vicário na cruz (Mt 26.27).
117 SALMOS 116–118

14 Cumprirei meus votos para com o SE- 5 Em meio à tribulação invoquei o SE-
NHOR na presença de todo o seu povo. NHOR, e o SENHOR me respondeu, pondo-
15 Custa muito ao SENHOR ver morrer me a salvo!
seus fiéis.7 6 O SENHOR está comigo, nada temerei! O
16 Ah! SENHOR, bem que sou teu servo. que podem me fazer os homens?
Sim, sou teu servo, filho de tua serva; 7 O SENHOR está comigo; Ele é meu aju-
livraste-me dos meus grilhões. dador. Verei a derrota dos meus adver-
17 Eu te oferecerei um sacrifício de ação de sários!
graças, invocando o Nome do SENHOR. 8 Melhor é refugiar-se junto ao SENHOR
18 Cumprirei meus votos para com o SE- do que depositar qualquer confiança na
NHOR, na presença de todo o seu povo, humanidade.
19 nos átrios da Casa do SENHOR, no seu 9 Melhor é buscar refúgio no SENHOR do
interior, ó Jerusalém. que confiar em príncipes!
Aleluia! 10 Todas as nações se uniram contra mim;
mas em Nome do Eterno as rechacei.
O mundo deve adorar a Deus 11 Cercaram-me por todos os lados, mas

117 Nações todas, louvai o SENHOR;


povos todos, glorificai-o!1
2 Porquanto seu amor nos ultrapassa, e a
em o Nome do SENHOR eu as derrotei.
12 Cercaram-me como um enxame de
abelhas, mas logo se extinguiram como
fidelidade do SENHOR é para toda a eter- espinheiros secos, em chamas. Em Nome
nidade. Aleluia!2 do SENHOR eu as venci!
13 Com violência me empurraram para me
O júbilo dos que amam a Deus fazer cair, contudo o Eterno me amparou.

118 Louvai ao SENHOR, porque Ele é


bom, porque seu amor perma-
nece para sempre.1
14 O SENHOR é minha força e o meu cân-
tico; Ele é a minha Salvação!3
15 Jubilosos brados de vitória ressoam
2 Diga Israel: “Seu amor é para sempre!” nas tendas dos justos: “A destra do SE-
3 Declare a casa de Arão: “Seu amor é NHOR realiza maravilhas!
para sempre!” 16 A mão direita do SENHOR é exaltada! A
4 Proclamem todos os que temem o SE- destra do Eterno age com poder!”
NHOR: “Seu amor é para sempre!”2 17 Portanto, não morrerei, mas vivo per-

7 A expressão hebraica literal “Para o Senhor preciosa é a morte dos seus fiéis” tem o objetivo de comunicar o extremo valor
que Deus atribui à alma de qualquer dos seus filhos (72.14; Fl 1.21).
Capítulo 117
1 Este é o salmo mais breve do Saltério (e o capítulo mais curto de toda a Bíblia também). É considerado uma espécie de
“Aleluia” expandido e conclusão vitoriosa da coletânea dos salmos 111 a 116. Todos os povos, raças, nações e culturas são
conclamadas a louvar o Nome (a presença) do Senhor (47.1; 67.3-5; 96.7; 98.4; 100.1).
2 Esta canção retoma o “Aleluia” final do Sl 116, para salientar que o maior motivo de louvor dos seres humanos está no amor leal
(no original hebraico: amor-e-fidelidade), com o qual Deus tem abençoado seu povo por toda a terra (3.7; 6.4; 36.5). Paulo faz ques-
tão de citar este salmo para lembrar aos gentios (todos os não judeus) que a salvação deles e de todas as pessoas da terra, assim
como a conseqüente glorificação universal do Senhor, fora planejada por Deus desde a fundação dos tempos (Rm 15.11; Is 11.10).
Capítulo 118
1 Um rei davídico dirige a nação numa liturgia de ações de graças por um grande livramento e vitória contra os ataques de uma
confederação de nações inimigas. Um hino de louvor e adoração é entoado alegre e responsivamente pelo povo, durante suas
procissões solenes para a Casa de Deus (2Cr 20.27,28; Ed 6.16; Ne 12.37-43; Sl 113). Este, inclusive, pode ter sido o hino cantado
por Jesus e seus discípulos, após a Última Ceia (Mt 26.30).
2 A expressão hebraica original “a casa de Arão” refere-se aos “sacerdotes” (v.3). Aqui temos uma convocação litúrgica geral,
a todos os grupos de crentes, para proclamarem seu louvor ao Senhor (vv.2-4; 115.9-11). A tríplice repetição é característica
poética de alguns salmos (96.1-3).
3 Testemunho vivo, não apenas de Moisés e do rei Davi, mas de todo o povo de Israel que, ao longo da História tem sido cerca-
do e ameaçado por vários inimigos. Jamais foi totalmente destruído, e sempre assistiu aos poderosos e maravilhosos livramentos
providos pelo amor leal e redentor de Deus (Êx 15; Is 12.2).
SALMOS 118, 119 118

manecerei para proclamar as obras do 26 Bendito seja o que vem em Nome do


SENHOR. SENHOR. Da Casa do Eterno nós vos aben-
18 O SENHOR severamente me castigou, çoamos!
mas não me entregou à morte.4 27 O SENHOR é Deus, e Ele fez resplandecer
19 Abri-me as portas da justiça, pois de- sobre nós a sua luz. Trançai as guirlandas
sejo entrar para dar graças ao SENHOR.5 da festa até as pontas do altar!
20 Esta é a porta do Eterno, pela qual en- 28 Tu és o meu Deus, eu te louvarei; ó
trarão os justos. meu Deus, eu te exaltarei!
21 Eu te exalto, porque me respondeste e 29 Louvai ao SENHOR, porque Ele é bom,
foste minha salvação. porque seu amor leal dura eternamente!
22 A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular,6 A excelência da Palavra de Deus
23 pois assim determinou o Eterno. Ma-  Alef
ravilhoso é isso para nós!
24 Este é o dia com que nos presenteou
o SENHOR: festejemos e regozijemo-nos
119 Bem-aventurados aqueles cujos
caminhos são íntegros e que vi-
vem de acordo com a Lei do Eterno!1
nele! 2 Felizes os que guardam suas prescrições
25 Rogamos a ti, ó SENHOR, salva-nos e e o buscam de todo o coração;
faze-nos prosperar. 3 e, não se entregando à prática de ini-

4 A expressão “os justos” refere-se idealmente ao povo de Israel em geral (judeus e gentios que amam e servem ao único e ver-
dadeiro Deus – Yahweh ). Este é o testemunho dos que vivem na Casa de Deus (v.15), pois receberam a salvação (livramento) do
Senhor em suas próprias vidas (v.16) e, portanto, têm a certeza de estar caminhando para a vida eterna (v.17). Sabem, contudo,
reconhecer quando são disciplinados e corrigidos pelo Senhor (sempre para a vida), a fim de que seus corações se mantenham
humildes e obedientes ao Pai (v.18; 6.1; 38.1; 94.12; Dt 4.36; 8.5).
5 O grande cortejo dos adoradores começava fora da Cidade Santa, e o salmista refere-se às portas de Jerusalém, pelas quais
deveriam passar “os justos” (perdoados e salvos pelo Senhor). A procissão litúrgica aproximava-se do pátio interior do templo,
entoando hinos de louvor a Deus (24.7; Is 26.2). O v.20 pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Zé hasháar
ladonai, tsadikim iavôu vo.
6 Uma referência ao rei de Israel, que havia sido rejeitado e ridicularizado por reis mundanos que invadiram seus domínios. A ex-
pressão hebraica original “pedra angular” significa, literalmente, “cabeça de esquina” ou “pedra principal”, usada para ancorar e
alinhar a esquina de uma grande parede. Os vv.22 e 23 podem ser assim transliterados: Éven maassu habonim, haieta lerosh pina.
Meet Adonai háita zot, hi niflat beenênu. O salmista faz um jogo de palavras, criando uma metáfora para a expressão “cabeça”, ou
seja, “governante ou principal líder” (Is 19.13; Jz 20.2; 1Sm 14.38). O povo de Israel, desprezado por diversos impérios, por ser
uma nação pequena, e pelos filósofos pagãos, por ser um povo considerado de mente fechada (por crer em apenas um Deus), é
a parte mais gloriosa do magnífico edifício das realidades espirituais. Jesus Cristo aplicou esta passagem (vv.22 e 23) como profe-
cia sobre sua própria pessoa e obra, bem como sobre sua Igreja (Mt 21.42; Mc 12.10,11; Lc 20.17; At 4.11; Ef 2.20; 1Pe 2.7).
Capítulo 119
1 Este é um dos poucos salmos compostos como obra literária, para leitura e meditação, mais do que peça musical. O
salmista escreveu com o objetivo de ministrar instrução sacerdotal na prática da piedade e devoção religiosa (vv.23,57). O
autor foi um sacerdote israelita, pós-exílico, absolutamente convencido quanto à verdade e magnificência da Palavra de Deus
como Palavra da Vida. Diante do esplendor da Palavra, o salmista reconhece seu coração errante e agradece pelos castigos
e repreensões do Senhor, sem os quais, a natural arrogância humana não lhe teria permitido receber a graça de Deus para
compreender a Verdade. O salmo é acróstico, isto é, cada grupo de oito versículos segue uma letra do alfabeto hebraico (Alef,
Bet, Guimel, até Tav). Enquanto outros salmos destacam os atos poderosos de Deus na criação e na redenção, bem como
seu pleno poder (soberania), aqui o tema dominante é a total fé e devoção ao Deus da Palavra. O autor ressalta dois aspectos
dessa Palavra: os mandamentos de Deus para a vida e as promessas do Senhor – que pedem dos seus adoradores (crentes),
fé e obediência (os dois princípios da verdadeira piedade – 34.8-14). O salmista faz uso de vários termos hebraicos, todos
relativos às diretrizes e à Lei de Deus: torah ou torá (Lei); ‘edot (estatutos, prescrições, testemunhos); piqqudim (preceitos);
mitswot (mandamentos); mishpatim (ordenanças, decisões); huqqim (decretos) davar (palavra);´imarah (promessa). Este ver-
sículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Álef – Ashrê temimê dárech, haholechim berotat Adonai. 
Alef é a primeira letra do alfabeto hebraico (alefbets, com 22 letras), cujo som corresponde à nossa letra “A”, e é usada também
para representar o valor numérico 1. Entretanto, as civilizações ocidentais modernas adotaram alfabetos compostos por letras
romanas e algarismos arábicos. Os acentos massoréticos (pontinhos e outros sinais gráficos e vocálicos ao redor das con-
soantes hebraicas) foram criados somente por volta do séc.VII d.C. Até então, a língua hebraica era estritamente consonantal
(sem qualquer vogal ou acento gráfico).
119 SALMOS 119

qüidades, seguem seus caminhos no SE- 19 Sou um peregrino sobre a terra: não
NHOR.2 ocultes de mim teus mandamentos!
4 Promulgaste teus preceitos, para que 20 Minha alma se consome, desejando as
sejam observados com diligência. tuas ordenanças para cada instante.
5 Tomara se firme minha conduta, para 21 Ameaçaste os soberbos, os malditos,
que eu observe teus decretos!3 que de teus mandamentos se desviam.
6 Então, não terei de me envergonhar, se fi- 22 Livra-me da afronta e do desprezo,
car atento a todos os teus mandamentos. pois obedeço às tuas orientações.
7 Vou louvar-te com coração reto, ao 23 Mesmo que os príncipes se assentem
aprender tuas justas decisões. para conspirar contra mim, ainda assim o
8 Observarei os teus decretos: não me teu servo refletirá sobre os teus decretos.
abandones de todo! 24 Tuas ordenanças fazem as minhas delí-
 Bet cias, são minhas conselheiras.
9 Como pode um jovem conservar puro  Dalet
o seu caminho? Vivendo-o de acordo 25 Minha alma está abatida até o pó: rea-
com a tua Palavra.4 nima-me, segundo tua Palavra!6
10 De todo o coração eu te procurei: não 26 A ti relatei todas as minhas atitudes, e Tu
deixes que me afaste de teus manda- me respondeste. Ensina-me teus decretos!
mentos! 27 Faze-me discernir o caminho de teus
11 Em meu coração conservei tua pro- mandamentos, e meditarei em tuas ma-
messa para não pecar contra ti. ravilhas.
12 Bendito sejas, SENHOR! Ensina-me teus 28 Minha alma se consome na tristeza:
decretos! reergue-me, segundo a tua Palavra!
13 Com meus lábios tenho enumerado 29 Afasta-me do caminho enganoso, e
todas as decisões de tua boca. favorece-me com tua Lei.
14 No caminho de tuas prescrições encon- 30 Escolhi o caminho da felicidade, colo-
trei alegria, como em grandíssima fortuna. quei diante de mim as tuas decisões!
15 Em teus preceitos quero meditar, e fi- 31 Mantenho-me apegado às tuas orde-
car atento às tuas veredas. nanças: SENHOR, não me deixes passar
16 Encontro minhas delícias em teus de- vergonha!
cretos; não me esqueço de tua Palavra. 32 Corro pelo caminho de teus manda-
 Guimel mentos, pois me alargas o coração.
17 Em tua misericórdia acolhe teu servo,  He
para que eu viva e obedeça à tua Palavra!5 33 SENHOR, indica-me o caminho de teus
18 Abre meus olhos para que veja as ma- decretos, e a eles obedecerei até o fim.7
ravilhas que resultam de tua Lei. 34 Dá-me entendimento, para que eu

2 Bem-aventurados ou muito felizes são expressões que têm seu pleno significado na pessoa e obra de Jesus Cristo (Mt 5.1-12).
Os estatutos ou prescrições do Senhor, referem-se ao termo hebraico‘edot, expressão ligada à aliança de Deus, cujo sentido está
associado às estipulações determinadas pelo Senhor (Dt 4.45; Sl 4.7; 25.10).
3 Devemos almejar uma vida pura para compreender bem a Palavra de Deus; e obedecer a essa Palavra, para desfrutar de uma
vida plena. Os conselhos de Deus são imutáveis (Dt 6.2; 28.15,45; 30.10,16; 1Rs 11.11).
4 Uma pergunta vital e uma resposta infalível aos jovens de todas as épocas, segundo o estilo sapiencial dos mestres e sacerdo-
tes judaicos.  Bet é a segunda letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 2 e corresponde à nossa letra “B” (vv.9-16).
5 Os melhores conselhos devem ser buscados em oração e na leitura atenta da Bíblia.  Guimel é a terceira letra do alfabeto
hebraico, tem valor numérico 3 e corresponde à nossa letra “G” (vv.17-24).
6 A verdadeira oração ao Senhor não é apenas uma reza repetitiva ou um mantra sem fim, mas o abrir sincero do mais íntimo
do coração em diálogo com o Pai ( Abba, em aramaico, a forma como Jesus se referia a seu Pai – Mc 14.36), ou seja, expor
perante o Senhor “nossos caminhos” e aceitar dele as orientações de que necessitamos. A vida espiritual tem por princípio uma
escolha pessoal, livre, decidida e irrevogável (Ez 18.27,28; Jr 9.23-24).  Dalet é a quarta letra do alfabeto hebraico, tem valor
numérico 4 e corresponde à nossa letra “D” (vv. 25-32).
7 Somente uma pessoa verdadeiramente convertida ao Senhor pode compreender a alegria inefável de obedecer à Palavra
de Deus e assim glorificar seu Nome (1Co 9.19-23). Esse foi o principal pedido do maior de todos os reis da terra, Salomão (1Rs
SALMOS 119 120

observe a tua Lei e a guarde de todo o 47 Encontro todo o prazer em teus man-
coração! damentos; eu os amo sinceramente.
35 Encaminha-me na senda de teus man- 48 Levanto as mãos para teus manda-
damentos, pois nela encontro meu pleno mentos, que muito amo, e meditarei em
prazer. teus decretos.
36 Inclina meu coração para os teus esta-  Zayin
tutos e não para a ganância! 49 Lembra-te da tua Palavra ao teu servo,
37 Desvia meus olhos do fascínio da ilu- pela qual me encheste de esperança!9
são, faze-me viver em teu caminho. 50 Isto me consola na minha aflição: que
38 Mantém com teu servo a tua promessa tua promessa me vivifica.
feita aos que te temem! 51 Os arrogantes zombam de mim o tem-
39 Desvia o insulto que me amedronta, po todo, mas eu não me desvio da tua Lei.
pois são boas as tuas ordenanças. 52 Lembrei-me, SENHOR, de tuas decisões
40 Como anseio pelos teus preceitos! Pre- de outrora, e fiquei consolado.
serva a minha vida, por tua justiça. 53 Arrebatou-me a indignação contra os
 Vav ímpios que abandonaram tua Lei.
41 Venham sobre mim, SENHOR, os dons 54 Teus decretos tornaram-se meus cânti-
do teu amor; tua salvação, segundo a tua cos, na casa onde vivo como migrante.
promessa!8 55 Durante a noite lembro-me do teu
42 Então terei como responder àqueles que Nome, SENHOR, e faço guarda à tua Lei.
me afrontam, pois confio em tua Palavra. 56 Este tem sido meu estilo de vida: obe-
43 Jamais me tires da boca a palavra da decer aos teus preceitos!
verdade, pois espero em tuas ordenanças!  Het
44 Cumprirei, sem cessar, a tua Lei para 57 Tu és minha herança, SENHOR; prometi
todo o sempre. obedecer à tua Palavra!10
45 Andarei em verdadeira liberdade, por- 58 De todo o coração suplico o teu favor:
quanto tenho buscado os teus preceitos. sê-me propício, de acordo com a tua pro-
46 Diante de reis falarei dos teus testemu- messa!
nhos sem ficar envergonhado! 59 Refleti sobre os meus caminhos, e vol-

3.6-15). Entretanto, a “cobiça” foi o pecado que motivou Eva e seu marido Adão a quebrarem sua parte na aliança com Deus e
prejudicarem toda a raça humana, pela desobediência explícita à vontade declarada do Senhor (Gn 3.1-7; Js 7.1-12; Tg 1.13-15).
Junto à “cobiça” (v.36) e à vida libertina dos soberbos (v.21), nasce a “arrogância”, que é a luta frenética do “Eu” contra “Deus”.
A promessa de Deus é cumprida plenamente em Jesus Cristo (89.26-37; 130.4; 2Sm 7.25,26; 1Rs 8.39,40; Jr 33.8,9; Hb 1.1-5).
He é a quinta letra do alfabeto hebraico, pode ser utilizada como artigo definido (o,a,os,as), tem valor numérico 5 e corresponde
à nossa letra “H” (vv.33-40).
8 O salmista demonstra como devemos buscar ao Senhor de todo o coração: suplicando, antes de tudo, para que a miseri-
córdia e o poder da sua Palavra sejam sempre bênçãos presentes em nossas vidas. A presença de Deus (seu Nome) na vida do
crente lhe concede coragem e santa ousadia, até mesmo diante dos insultos dos maiores adversários (At 4.19-20; Jo 7.17; 1Pe
2.6; 3.14,15). A expressão “liberdade” pode ser aqui traduzida literalmente por “um espaço amplo”. É um grave erro imaginar que
ao obedecer verdadeiramente à Palavra corre-se o risco de estreitar a capacidade analítica e criativa. Em Cristo gozamos a ple-
nitude da liberdade (Gl 5.1). O crente jamais será escravizado ou derrotado pela aflição ou opressão (v.45; 18.19).  Vav é a sexta
letra do alfabeto hebraico, pode ser usada como vogal (o,u) ou como conjunção (e), tem valor numérico 6 e corresponde à nossa
letra “V” (vv.41-48). Alguns hebraístas transliteram essa letra como “Vav”, o que permitiu a certos pesquisadores afirmar que o
último e mais terrível anticristo (Ap 13.18) seria a rede mundial de computadores, conhecida como “internet” ou World Wide Web.
Dedução obtida a partir da simples tradução do valor numérico de cada letra “Waw” ou “Vav” (www ou 666). Entretanto, o número
misterioso relatado em Apocalipse é seiscentos e sessenta e seis, formado por diferentes letras hebraicas ou gregas.
9 Na Palavra de Deus encontramos todo o consolo e direção de que necessitamos, sejam quais forem as circunstâncias à
nossa volta (Hb 6.12). Nem mesmo a morte tem poder sobre a vida do crente (v.50; Ef 2.1; 1Pe 1.23). Satanás e seus adeptos
sempre se utilizam do sarcasmo e das zombarias para tentar desviar o crente de sua devoção ao Senhor (v.51; At 17.18). A vida
na terra é considerada como breve peregrinação e morada em tenda frágil, mas, para quem deposita sua fé no Senhor, a vida
é um perpétuo hino de louvor e vitória (2Co 2.14; 5.1-4)  Zayin é a sétima letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 7 e
corresponde à nossa letra “Z” (vv.49-56).
10 Deus (Yahweh – Jeová) se dá, ao crente, na pessoa de Jesus Cristo, a fim de ser o cumprimento perpétuo da nossa herança
121 SALMOS 119

to meus passos para a observância das 73 As tuas mãos me criaram e me forma-


tuas prescrições! ram; dá-me entendimento para aprender
60 Apressei-me, sem perder um instante, os teus mandamentos!12
em observar os teus mandamentos. 74 Ao me verem, alegram-se os que te te-
61 Os laços dos ímpios me envolveram, mem, pois espero em tua Palavra.
mas não me esqueci de tua Lei. 75 Reconheço, SENHOR, que tuas decisões
62 Levanto-me em plena noite para te são justas; foi com lealdade que me cas-
louvar, por causa de tuas justas decisões. tigaste!
63 Associo-me a todos os que te temem e 76 Seja meu consolo o teu amor, segundo
observam tuas ordenanças. a promessa a teu servo.
64 SENHOR, do teu amor a terra está reple- 77 Alcance-me a tua misericórdia para
ta: ensina-me teus decretos! que eu tenha vida, porque a tua Lei é o
 Tet meu grande prazer!
65 Trataste teu servo com extrema bon- 78 Sejam humilhados os arrogantes, pois
dade, segundo a tua Palavra, SENHOR.11 muito me prejudicaram sem motivo;
66 Ensina-me bom senso e entendimen- mas eu refletirei nos teus preceitos.
to, pois deposito toda a minha confiança 79 Venham apoiar-me aqueles que te te-
em teus mandamentos. mem, aqueles que compreendem os teus
67 Antes de ser humilhado, eu andava ex- estatutos!
traviado, mas agora aprendi a obedecer à 80 Que meu coração seja íntegro em teus
tua Palavra! decretos, para eu não ter de me envergo-
68 Tu és bom, e tudo o que fazes é muito nhar!
bom; ensina-me os teus decretos!  Kaf
69 Os insolentes mancharam o meu 81 Minha alma quase desfaleceu, aguar-
nome com calúnias contra mim; mas dando tua salvação; espero em tua Pala-
eu, de todo o coração, obedeço aos teus vra.13
preceitos. 82 Meus olhos se consumiam, aguardan-
70 O coração deles é absolutamente in- do tua promessa, e eu me perguntava:
sensível; eu, contudo, tenho prazer na “Quando me consolarás?”
tua Lei. 83 Apesar de ser como uma vasilha inútil,
71 Foi bom para mim ter sido castigado, não me esqueço dos teus decretos.
para que aprendesse os teus decretos. 84 Até quando o teu servo deverá aguar-
72 A Lei de tua boca vale, para mim, mui- dar para que castigues os meus persegui-
to mais do que milhões em ouro e prata. dores?
 Yud 85 Os insolentes cavaram fossos e cons-

(1Pe 3.4). A Palavra de Deus é o verdadeiro espelho no qual podemos ver refletidos nossos mais íntimos pensamentos e desejos
(v.62; Tg 1.23-25) x Het é a oitava letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 8, e seu som gutural (produzido na garganta)
corresponde ao nosso dígrafo aquele “RR” (vv.57-64).
11 Enquanto a absoluta confiança na Palavra de Deus nos leva à verdadeira e perene sabedoria, as aflições (provações) fazem
nosso coração maleável aos desígnios do Senhor (v.58; 4.7). A ambição do justo é conquistar os valores eternos (73.26; Mt 6.19-
21).  Tet é a nona letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 9 e corresponde à nossa letra “T” (vv.65-72).
12 O salmista nos exorta a reconhecer humildemente que aquele que nos criou tem todo o direito e poder de nos moldar à sua
vontade. Portanto, o Senhor repreende e castiga todos aqueles que adota como filhos amados (51.4; 2Co 7.10; Hb 12.4-11). Deve
haver uma fraterna comunhão entre todos aqueles que amam a Palavra de Deus em todo o mundo (At 2.42).  Yud é a décima
letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 10 e corresponde à nossa letra “Y” (ou “i”). É a menor das 22 letras que compõem
o alfabeto hebraico, e por se tratar de um pequeno traço gráfico; servindo às vezes, como vogal, Jesus usou-a para enfatizar o
total cumprimento de toda a Palavra de Deus na História (vv.73-80; Mt 5.18).
13 Mesmo enfrentando as mais adversas situações e enfermidades cruéis, o crente confia que a Palavra de Deus que lhe garante
a graça e a misericórdia do Senhor jamais se extinguirão e que a felicidade eterna é seu destino final (Sl 83; Hb 2.11-12; Jo 10.10). A
profecia contida neste salmo revela que Jesus Cristo, o Messias, foi vítima da falsidade e das armadilhas dos próprios mestres da Lei
de seu tempo (v.85; Mc 12.13; Êx 20.16). Quando a causa é justa, é legítimo e oportuno pedir a intervenção e o livramento divino.  
Kaf é a décima primeira letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 20, e corresponde à nossa letra “K” (vv.81-88).
SALMOS 119 122

truíram armadilhas para mim: eles não quanto estão sempre comigo.
respeitam a tua Lei. 99 Tornei-me mais perspicaz que todos
86 Todos os teus mandamentos são fide- os meus mestres, pois meditei em tuas
dignos: ajuda-me contra os que, injusta- prescrições.
mente, me perseguem! 100 Tenho mais discernimento que os an-
87 Por pouco não me eliminaram da terra, ciãos, pois obedeço aos teus preceitos.
eu, porém, não abandonei teus preceitos. 101 Desviei meus pés de todas as trilhas
88 Segundo o teu amor, reanima-me para do mal para guardar a tua Palavra!
que eu observe a instrução que procede 102 Não me afasto de tuas ordenanças,
de tua boca! pois tu mesmo me ensinas.
 Lamed 103 Quão doces são os teus decretos ao meu
89 Para sempre, SENHOR, está firmada a paladar! Mais que o mel à minha boca.
tua Palavra nos céus.14 104 Graças aos teus preceitos tenho en-
90 Tua fidelidade dura de geração em ge- tendimento; por isso, detesto todos os
ração: estabeleceste a terra, e ela perma- caminhos da mentira!
nece;  Nun
91 por tuas decisões permanecem até hoje, 105 Tua Palavra é lâmpada que ilumina
pois o Universo está a teu serviço. os meus passos e luz que clareia o meu
92 Se tua Lei não fosse o meu maior pra- caminho!16
zer, o sofrimento já me teria consumido! 106 Fiz um juramento, e o confirmo: obe-
93 Jamais esquecerei os teus preceitos, pois decerei às tuas justas ordenanças.
por eles me fizeste reviver. 107 Estou extremamente aflito: vivifica-
94 Salva-me, pois a ti pertenço e tenho me, SENHOR, segundo a tua Palavra!
procurado os teus preceitos! 108 Aceita, SENHOR, as ofertas de louvor de
95 Os ímpios estão à espreita para des- minha boca e ensina-me os teus juízos.
truir-me, mas eu estou atento aos teus 109 A minha vida está sempre correndo
testemunhos! perigo, mas não me esqueço da tua Lei.
96 Compreendi que toda perfeição tem 110 Os ímpios armaram-me uma cilada,
limite; entretanto, não há limite para a mas não me desviei de teus preceitos.
tua Lei, cuja grandeza é infinita! 111 Tuas prescrições serão sempre minha
 Mem herança; elas são a grande alegria do meu
97 Quanto amo a tua Lei! Sobre ela reflito ser!
o dia inteiro!15 112 Inclinei todo o meu coração a cumprir
98 Os teus mandamentos me fizeram teus decretos para sempre, até o fim.
mais sábio que meus adversários, por-  Samek

14 A Palavra de Deus, soberana e imutável, governa e mantém todo o Universo e a criação sob seu atento cuidado. Essa Palavra
(o Logos divino), mediante a qual Deus sustenta e dirige o mundo e tudo o que existe é eterna e fidedigna (v.90). Essa é a verdade
maior que garante ao crente sua confiança nas leis e promessas do Senhor (19.1-4; 33.4,6; 93.5; 96.10; 107.20; 147.15,18) 
Lamed é a décima segunda letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 30 e corresponde à nossa letra “L” (vv.89-96).
15 A busca desesperada e frenética da Filosofia, na busca da razão da existência humana e do absurdo da vida, só encontra
verdadeira e plena solução na Palavra de Deus. Todos aqueles que podem reagir afirmativamente a esta seção (vv.97-104)
demonstram que já resolveram essa questão em suas existências e passaram da morte para a vida eterna. Os “anciãos” eram
homens de idade avançada, experientes na vida e, especialmente, na aplicação prática e cotidiana da Palavra de Deus em suas
atitudes e relacionamentos (v.102; Is 50.4-5). A verdadeira vida devocional é amar a Deus de todo o coração e meditar em sua
Palavra (no original hebraico “leis ou decretos” – v.103)  Mem é a décima terceira letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico
40, e corresponde à nossa letra “M”.
16 Quando as maiores glórias humanas voltam ao pó, permanece gloriosa a Palavra de Deus (Is 40.6-8). O sacrifício da obe-
diência lúcida, sincera e voluntária que produz o verdadeiro louvor e ações de graças é mais valioso do que todas as oferendas,
cultos e ritos. É o sacrifício do próprio “Eu” em devoção ao Senhor (Hb 13.15). O mundo é articulado por Satanás, seus demônios
e correligionários, no sentido de levar o maior número de pessoas ao pecado e à morte (v.110; 1Pe 5.8-9). Viver em comunhão
eterna com o Senhor é o destino (legado, herança) dos escolhidos, daqueles que acolhem o dom da graça divina (v.111)  Nun é
a décima quarta letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 50, e corresponde à nossa letra “N” (vv. 105-112).
123 SALMOS 119

113 Detesto os inconstantes, mas amo a 125 Sou teu servo: dá-me discernimento,
tua Lei.17 para que eu conheça as tuas prescrições!
114 Tu és o meu abrigo e o meu escudo; 126 Já é tempo de agires, SENHOR, pois a
e na tua Palavra deposito toda a minha tua Lei está sendo desrespeitada.
esperança! 127 Por isso amo teus mandamentos mui-
115 Afastai-vos de mim, malfeitores! Que- to mais que o ouro purificado.
ro obedecer aos mandamentos do meu 128 Por isso considero totalmente retos
Deus! todos os teus preceitos e detesto todas as
116 Sustenta-me de acordo com a tua trilhas da falsidade!
promessa, e eu viverei; não permitas que  Pê
as minhas esperanças sejam frustradas! 129 Os teus testemunhos são admiráveis;
117 Ampara-me, e estarei seguro! Sempre por isso minha alma a eles obedece com
estarei atento aos teus decretos. alegria.19
118 Repudias todos os que se desviam de 130 A exposição das tuas palavras ilumina
teus ensinamentos, porquanto vivem em e dá entendimento aos inexperientes!
mentira e falsidade. 131 Abro a boca e suspiro, ansiando por
119 Reduziste a escória todos os ímpios teus ensinamentos.
da terra; por isso amo os teus decretos! 132 Volta-te para mim e tem misericór-
120 Por temor de ti, minha carne estre- dia de mim, como sempre fazes aos que
mece, e eu temo as tuas ordenanças. amam sinceramente o teu Nome!
 Ayin 133 Firma meus passos em tua promessa e
121 Tenho vivido com justiça e retidão; não permitas que mal algum me domine!
não me abandones nas mãos dos meus 134 Livra-me da opressão dos homens,
adversários!18 para que eu guarde teus preceitos!
122 Garante o bem-estar do teu servo; não 135 Que tua face se ilumine sobre o teu
permitas que os arrogantes me oprimam. servo, e ensina-me os teus decretos!
123 Os meus olhos fraquejaram, aguar- 136 Meus olhos vertem torrentes de lágri-
dando a tua redenção e o cumprimento mas, por não se guardar a tua Lei.
da tua promessa de justiça.  Tsade
124 Trata, pois, o teu servo, conforme o teu 137 Justo és, ó SENHOR, e corretas são to-
amor leal, e ensina-me os teus decretos. das as tuas decisões!20

17 O ser humano perdeu a capacidade de, naturalmente, caminhar com Deus, fazer o bem e cumprir a verdade (Gn 3). Esse
dom é restituído e ministrado apenas àqueles que aceitam, sinceramente, em seus corações, a graça salvadora do Senhor (Rm
7). A rejeição dos malignos é como a depuração do ouro, pelo fogo: o ouro fica mais puro e valioso, e a escória é abandonada
(Mt 13.24-43).  Samek é a décima quinta letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 60 e corresponde à nossa letra “S”
(vv.113-120).
18 Como é difícil encontrarmos um fiador idôneo hoje em dia. Nosso maior fiador é Jesus Cristo que pagou nosso resgate com
o valor do seu sangue na cruz (1Jo 2.1,2). A única medida de justiça que o crente pode pedir é a graça divina: o favor de Deus,
não merecido. Os profetas do Senhor são unânimes em afirmar que se aproxima o Dia do Senhor, no qual a justiça de Deus será
plenamente vindicada (Ap 6.16,17).  Ayin é a décima sexta letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 70, e não tem um som
característico, pois de fato não é lida, apenas serve de apoio para a vogal que normalmente a acompanha (vv.121-128).
19 A expressão “os inexperientes”, traduzida em algumas versões como “simples”, refere-se às pessoas cujos corações, do-
tados de humildade por Deus, são ensináveis (têm desejo de aprender). Jesus falava, por parábolas, com as crianças de seu
tempo e elas o compreendiam bem (Lc 18.17). Se contemplarmos, pela fé, a face do Senhor, seremos transformados para viver
de acordo com sua vontade (2Co 3.18).  Pê é a décima sétima letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 80, e corresponde
à nossa letra “P” (vv.129-136).
20 Deus é leal, em seu amor, e absolutamente infalível, em sua justiça. Portanto, todas as suas promessas se cumprirão ca-
balmente ao longo da História, conforme sua boa vontade e soberania (Hb 6.17-19). Foi o zelo pela Casa de Deus (que habita o
corpo dos crentes e, conseqüentemente, a Igreja de Cristo), que levou Jesus a enfrentar os teólogos e religiosos de seu tempo
(mestres fariseus) e, mais tarde, entregar-se a eles em sacrifício por toda a humanidade (v.139; Jo 2.13-22). O cuidado com a pu-
reza e a santidade da Igreja era o fardo mais pesado e extenuante que o apóstolo Paulo carregava todos os dias (2Co 11.28-29).
Mesmo que sejamos ou possamos nos sentir pequenos como Davi, é possível – pela fé e em o Nome do Senhor – vencer as maio-
res batalhas (v.141; 1Sm 17.41-51). Feliz é a pessoa que ama e confia na Palavra de Deus na hora das mais terríveis angústias e
SALMOS 119 124

138 Promulgaste com justiça as tuas pres- 151 Entretanto, tu estás perto de mim, SE-
crições; e com plena fidelidade. NHOR, e todos os teus mandamentos são
139 Meu zelo me consome, pois os meus verdadeiros!
adversários desdenham das tuas pala- 152 De tuas determinações sei, desde mui-
vras. to, que as estabeleceste para sempre!
140 A tua promessa foi absolutamente com-  Resh
provada, e, por esse motivo, o teu servo a 153 Vê minha aflição e liberta-me, pois
ama. não me esqueci de tua Lei.22
141 Sou insignificante e desprezado, con- 154 Advoga minha causa e defende-me;
tudo não esqueci teus preceitos. vivifica-me, segundo a tua promessa!
142 Tua justiça é justiça eterna, e a tua Lei 155 A salvação está longe dos ímpios, por-
é a verdade! que eles não buscam os teus decretos.
143 Sobrevieram-me angústia e tribula- 156 SENHOR, copiosa é a tua compaixão:
ção; todavia teus mandamentos são mi- vivifica-me, segundo as tuas decisões!
nha delícia. 157 Numerosos são meus perseguidores e
144 As tuas prescrições são justiça eterna: adversários, mas não me afastei de tuas
dá-me discernimento para que eu tenha prescrições.
vida! 158 Vi traidores da fé e senti desgosto,
 Qof porque não guardavam a tua promessa.
145 Clamo de todo coração: responde- 159 Vê quanto amo os teus preceitos: vi-
me, SENHOR! Quero obedecer a teus de- vifica-me, SENHOR, segundo o teu amor!
cretos.21 160 O princípio de tua Palavra é a ver-
146 Clamo a ti: salva-me, para que eu possa dade, e todas as tuas justas decisões são
observar as tuas prescrições! para sempre.
147 Antes da aurora me levanto para su-  Shin
plicar o teu auxílio; em tua Palavra depo- 161 Príncipes perseguiram-me sem moti-
sito toda a minha esperança! vo; mas é da tua Palavra que o meu cora-
148 Fico acordado nas vigílias da noite, a ção sente reverente temor.23
fim de refletir sobre as tuas promessas. 162 Encontrei alegria em tua promessa,
149 Ouve as minhas orações por teu amor como quem encontra grande tesouro.
leal; ajuda-me a viver, SENHOR, de acordo 163 Detesto e abomino a falsidade, mas
com as tuas ordenanças. amo profundamente a tua Lei.
150 Aproximam-se esses infames, meus per- 164 Louvo-te, sete vezes ao dia, por tuas
seguidores, que se afastaram da tua Lei. justas ordenanças.

sofrimentos; o céu e a vida eterna serão sua herança e glória (vv. 24,77,143). Tsade é a décima oitava letra do alfabeto hebraico,
tem valor numérico 90, e seu som corresponde ao nosso “TZ”, pronunciado com a língua junto aos dentes frontais (vv.137-144).
21 À medida que o salmo se aproxima de sua conclusão, as súplicas por livramento (salvação) tornam-se mais evidentes e
dominantes. A única fonte da verdadeira ética e moralidade é a Palavra de Deus (v.150; Jo 10.35).  Qof é a décima nona letra do
alfabeto hebraico, tem valor numérico 100, e corresponde à nossa letra “Q” (vv.145-152)
22 Quem se dedica a meditar na Palavra de Deus sabe como falar com o Senhor (v.153). Tudo o que pedirmos em o Nome de
Jesus nos será feito; isso significa: pedir o que Jesus pediria ao seu Pai nesse momento e em seu lugar (Jo 14.13). A expressão
original “em o Nome” tem o sentido da “própria presença excelsa do Espírito de Deus”. Os ímpios, todos que rejeitam a men-
sagem de salvação expressa na Bíblia, estão alienados de qualquer possibilidade de perdão e resgate divino (2Co 6.2). Deus
criou o Universo e a humanidade por meio da sua Palavra (o Logos eterno, Jesus Cristo). A verdade da Bíblia tem seu paralelo
na estrutura do Universo (Gn 1.3-9; Jo 1.1-3; Hb 1.3). Resh é a vigésima letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 200, e
corresponde à nossa letra “R”, pronunciada por meio do tremer da língua entre os dentes (vv.153-160).
23 Se aprendermos a pontuar nosso dia-a-dia com pequenos momentos de louvor e ações de graças (um cântico, uma peque-
na oração, um breve meditar com sentimento de sincera adoração ao Senhor), compreenderemos muito melhor o que significa
andar com Deus e manter comunhão com o Espírito Santo (v.23; 4.7). Paz e segurança pertencem àqueles que depositam toda a
sua fé nas mãos do Senhor (Mt 28.20).  Shin é a vigésima primeira letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 300, e corres-
ponde às nossas letras “SH”, soando com o efeito sonoro de “X”, como em nossa palavra “Xícara”. Essa letra tem uma variação
chamada  Sin, de mesmo valor numérico, cujo som corresponde ao nosso “S”, como na palavra “Sopa” (vv.161-168).
125 SALMOS 119, 120

165 Grande paz têm os que amam a tua 176 Eu, como ovelha desgarrada, me des-
Lei: para eles não há tropeço! viei e me perdi: vem em busca de teu
166 Espero de ti, SENHOR, a salvação, e pra- servo, pois jamais me esqueci dos teus
tico os teus mandamentos. mandamentos!
167 A minha alma tem observado as tuas
orientações; e amo-as ardentemente. Oração contra os maldizentes
168 Obedeço a todos os teus preceitos e Cântico de peregrinação.1
testemunhos, pois conheces todos os meus
pensamentos!
 Tav
120 Em minha aflição invoquei o SE-
NHOR, e Ele me respondeu.2
2 SENHOR, livra-me dos lábios caluniado-
169 Que meu clamor chegue à tua presen- res, da língua mentirosa e traiçoeira!3
ça, SENHOR: concede-me entendimento, 3 O que te dar em paga, o que te retribuir
de acordo com a tua Palavra!24 em dobro, ó língua pérfida?
170 Que minha súplica chegue à tua pre- 4 Contudo, Ele a castigará com as flechas
sença: livra-me, segundo a tua promessa! afiadas de um guerreiro, com brasas in-
171 Que meus lábios proclamem teu lou- candescentes de sândalo.4
vor, pois me ensinas teus decretos. 5 Infeliz de mim que vivo como forastei-
172 Cante minha língua tua promessa, pois ro em Meseque, que habito entre as ten-
todos os teus mandamentos são justos. das de Quedar!5
173 Venha tua mão em meu socorro, pois 6 Tenho passado tempo demais entre os
escolhi teus preceitos. que odeiam a paz.
174 Anseio por tua salvação, SENHOR, e tua 7 Sou um homem de paz; no entanto,
Lei é meu maior prazer! ainda que insista em falar de paz, eles
175 Viva minha alma para te louvar, e tuas preferem engendrar violências e bruta-
ordenanças me sustentem. lidades.

24 Deus havia prometido, na Antigüidade, que Ele mesmo falaria e ensinaria a seus filhos sobre o Caminho que deveriam seguir.
Essa profecia se cumpre com a vinda de Cristo e, mais tarde, com o envio do Espírito de Deus para habitar no coração de todo
crente sincero (Is 54.13; Jo 10.1-18, conforme Lc 15.4-7). O salmista reconhece que, apesar de toda a sua dedicação à Palavra de
Deus, repetidas vezes desgarrou-se para outros caminhos (todos enganosos e de perdição – Is 53.6) e, como ovelha fraca, cega
e perdida, somente poderia ser trazido de volta ao aprisco pelas mãos fortes e generosas do Pastor celestial. Não há lugar mais
seguro e aconchegante que a Casa do Pai eterno, e sua Palavra está sempre apontando para o bom e verdadeiro Caminho (Lc
15.11-32).  Tav é a vigésima segunda e última letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 400, e sua pronúncia corresponde
à da nossa letra “T” (vv.169-176).
Capítulo 120
1 Os salmos 120 a 134 formavam uma espécie de “hinário de bolso”, muito apreciado e intitulado “Cânticos de Romagem ou
Peregrinação”. São breves peças poéticas e musicais, sobre variados assuntos teológicos, formando uma coletânea de ensinos e
princípios bíblicos para serem decorados e cantados durante os afazeres cotidianos e as longas peregrinações anuais até a Cidade
Santa de Jerusalém (Sl 84.5-7; Êx 23.14-17; Dt 16.16; Mq 4.2; Zc 14.16), nas quais os adoradores chegavam, cantando ao monte
Sião, à Rocha de Israel (Is 30.29). A coletânea começa (Sl 120) narrando a experiência de um servo de Deus distante do seu lar e
acossado por bárbaros (brutos, ignorantes), e termina com um testemunho de louvor e um convite à adoração pública no santuário
(Sl 122 e 134). Evidentemente, esses salmos foram entoados nas liturgias do templo, conforme a disposição pós-exílica final dos
textos sagrados no Saltério, que juntamente com os salmos 135 e 136 ficaram conhecidos como o “Grande Halel” (Sl 42, 43 e 84).
2 Expressão de absoluta confiança formulada em frases, cujos verbos estão originalmente, em hebraico, no tempo “perfeito de
confiança”, com o sentido do presente: “invoco o Eterno e Ele me responde” (Sl 6.8-10).
3 O filho de Deus é advertido várias vezes nas Escrituras contra a maledicência que sempre o espreita (Ef 4.31; 5.4; 1Pe 2.1).
4 A madeira produzida pela pequena árvore do sândalo, zimbro ou giesta produz um fogo ardente, brasas muito vivas e du-
radouras, além de forte perfume característico. O óleo de sândalo era usado para curar feridas, assim como, suas brasas, para
cauterizar ferimentos de guerra, normalmente provocados por material cortante (Pv 16.27; Tg 3.6). A língua é arma perigosa e
destruidora (Pv 25.18; Jr 9.8; Sl 57.4; 64.3). Mas o castigo divino é resposta certa e à altura (Sl 7.11-13; 11.6; 63.9; 64.7,8).
5 Meseque ficava na região da Ásia Menor central (Gn 10.2) e Quedar, na Arábia (Is 21.16). Duas regiões de povos nômades
e pagãos (incivilizados e sem fé em Deus), que procuravam impedir que os israelitas restaurassem a Cidade Santa. O salmista,
acossado por caluniadores, sente-se inseguro, longe do afeto dos seus, e cercado por inimigos impiedosos e inflexíveis. Con-
tudo, no coração onde habita a paz do Senhor há sempre a certeza da libertação e do juízo de Deus (v.3; 1Sm 3.17; Jo 14.27;
At 9.31; 10.36; Rm 12.18; Cl 3.15).
SALMOS 121, 122 126

Oração pela proteção do Senhor Súplica pela paz em Jerusalém


Cântico de peregrinação. Cântico davídico, de peregrinação.

121 Levanto meus olhos para os


montes e questiono: de onde
me virá o socorro?1
122
Senhor”.1
Alegrei-me quando me con-
vidaram: “Vamos à Casa do
2 O socorro virá do meu SENHOR, o Cria- 2 Eis que nossos pés chegaram às tuas
dor dos céus e da terra! portas, ó Jerusalém!
3 Ele não deixará que teus pés vacilem; 3 Cidade construída em bases sólidas,
não pestaneja Aquele que te guarda.2 edificada para unir
4 Certamente não! De maneira alguma 4 todas as tribos do Eterno, em grande
cochila nem dormita o guarda de Israel. celebração de ação de graças ao Nome do
5 O Eterno é o teu protetor diuturno; SENHOR, conforme o mandamento dado
como sombra que te guarda, Ele está à a Israel.2
tua direita. 5 Lá estão os tribunais de justiça, a sede
6 Não te molestará o sol, durante o dia, da casa real de Davi.3
nem de noite, a lua.3 6 Rogai ao Eterno pela paz de Jerusalém:
7 O SENHOR te guardará de todo o mal, Ele “Prosperem os que te amam, ó Jerusalém!4
protegerá a tua vida! 7 Haja paz dentro das tuas muralhas e se-
8 Estarás sob a proteção do SENHOR, ao gurança em teus palácios.”
saíres e ao voltares, desde agora e para 8 Em favor dos meus irmãos e compa-
todo o sempre!4 nheiros, suplicarei: “A paz esteja contigo!”

1 Diálogo litúrgico, de confissão e testemunho de fé absoluta no controle divino do Universo em geral e na vida pessoal do
crente. Este desabafo e a expressão de louvor para com Deus podem ocorrer na intimidade do coração (como o refrão dos sal-
mos 42 e 43); nas caravanas de peregrinos que vinham de lugares distantes para celebrar ao Senhor no templo em Jerusalém;
ou na vida diária de todos nós, peregrinos rumo à glória eterna, na qual os crentes fiéis serão recebidos (Sl 33; 49.15; 73.24). Os
povos pagãos, vizinhos a Jerusalém (como os baalins), costumavam cultuar entidades que dominavam os montes (literalmente
no original hebraico: lugares altos) ao redor da região. Curiosamente, a cidade de Sião foi erguida sobre um desses montes (Sl
125.1,2; 87.1; 133.3). A vigilância amorosa e poderosa de Yahweh (Jeová) sobre seus filhos é um grande apelo para confiarmos
em Deus em todas as circunstâncias.
2 Nosso Deus, Yahweh, é o único e verdadeiro Rei de toda a criação e nosso Senhor (Sl 124.8; 134.3; 33.6; 89.11-13; 96.4,5;
104.2-9; 136.4-9). Ele jamais se cansa ou se distrai em seu cuidado zeloso para conosco, ao contrário de todos os demais seres
espirituais existentes (1Rs 18.27).
3 O salmista usa a metáfora dos luzeiros cósmicos para revelar a proteção ininterrupta de Deus – dia e noite – para com seus
filhos (Is 4.6; 25.4,5; 49.10; Jn 4.8).
4 Esta é uma expressão hebraica usada em contextos militares, cuja transliteração, a partir dos originais, é Adonai yishmor
tsetechá uvoêcha, meata vead olam (1Sm 29.6; 2Sm 3.25). Entretanto, o sentido mais amplo, nesse contexto, é a promessa da
bênção perpétua do Senhor a seus filhos, mesmo atravessando as situações mais difíceis e tristes desta vida terrena e passageira
(Dt 28.6).
Capítulo 122
1 Hino de regozijo e louvor a Deus por causa da Cidade Santa (Sl 42; 43; 46; 48; 84; 87; 137, especialmente em suas introdu-
ções), cantado por um peregrino da casa de Davi, ao chegar em Jerusalém por ocasião de uma das principais festas religiosas
do ano (Dt 16.16). Alegria por ter se unido ao grupo de peregrinos (Sl 120) a caminho da Casa de Deus, lugar onde a presença
de Yahweh / Jeová era percebida com grande esplendor: o templo, uma representação da residência de Deus na terra, o Taber-
náculo, a Igreja, o nosso próprio Corpo (Jo 2.21; Rm 8.11; 12.5; 1Co 6.15-20).
2 O verdadeiro culto a Deus é uma celebração na qual, além das nossas súplicas e petições, apresentamos ao Senhor nossa
gratidão por tudo que Ele nos concede (Sl 116.12). A expressão “ao Nome do Senhor” indica, originalmente, a presença clara
e real do Espírito de Deus naquele local ou circunstância. Este versículo pode ser transliterado, a partir dos originais hebraicos,
desta forma: Hine lo ianum velo yishan, shomer Yisrael (Sl 5.11; 81.3-5; Dt 16.1-17).
3 Jerusalém é considerada tanto a Cidade Santa quanto a cidade majestosa da sua dinastia escolhida, por meio da qual Deus
abençoa e protege todas as regiões de Israel e, idealmente, as demais nações da terra. Mesmo no período pós-exílico, continuou
sendo celebrada como a cidade de Davi, mas isso mediante a fé messiânica (Sl 2.2; 6.7; 89.3-37; 110; 2Sm 7.8-16).
4 No original hebraico (aqui transliterado), há um jogo de palavras, significando que a palavra “Paz” é um conjunto de bênçãos:
“perfeição, plenitude, contemplação, saúde e prosperidade”, ou seja, um estado de paz de espírito dinâmico e frutífero: Shaalu
shelom Ierushaláyim, shalva bearmenotáyich (Sl 133).
127 SALMOS 122–125

9 Por amor à Casa do Eterno, nosso Deus, 3 eles já nos teriam devorado vivos, quan-
buscarei sempre o teu bem. do se enfureceram contra nós.
4 Então, as águas nos teriam arrastado e
Prece por rápido auxílio divino furiosas torrentes teriam feito submergir
Cântico de peregrinação. nossas almas.2
123 Ergo meus olhos em tua dire-
ção, a ti que habitas nos céus.1
2 Como os olhos dos servos estão aten-
5 Sim, águas profundas e violentas nos
teriam afogado!
6 Bendito seja o SENHOR, que não nos
tos à mão de seus senhores, e os olhos da entregou para sermos dilacerados pelas
criada, à mão de sua senhora, assim nos- presas e garras ferinas do inimigo.3
sos olhos estão voltados para o SENHOR, 7 Como um pássaro, escapamos da cilada
nosso Deus, até que Ele expresse sua mi- do caçador; a armadilha foi destruída e
sericórdia para conosco. ficamos livres!
3 Piedade, SENHOR! Tem compaixão de 8 O nosso socorro está em o Nome do
nós! Porquanto estamos cansados de Eterno criador do céu e da terra.4
tanto desprezo.
4 Estamos fartos de tanta zombaria dos so- A verdadeira fé é indestrutível
berbos e da humilhação dos arrogantes!2 Cântico de peregrinação.

Ação de graças pela liberdade


Um cântico davídico de peregrinação.
125 Todos aqueles que depositam
absoluta fé no Eterno são ina-
baláveis como o monte Sião.1

124 Se o SENHOR não estivesse do nos-


so lado, que Israel o repita:1
2 Se o SENHOR não estivesse do nosso lado,
2 Assim como um colar de montanhas
que cerca Jerusalém, a proteção do SE-
NHOR envolve seu povo eternamente.2
quando os inimigos nos atacaram, 3 O cetro dos ímpios não prevalecerá so-

1 O mesmo Deus que reside no templo terrestre, em Sião, e nos corações dos crentes, habita os céus e todo o Universo. Sua
misericórdia e compaixão são ricas para com todos que o buscam com humildade e fé (Sl 2.4; 9.11; 11.4; 80.1; 99.1; 113.5;
122.5; 132.14).
2 Desprezo será uma das mais terríveis punições com que, no Juízo Final, Deus castigará as pessoas incrédulas (Mt 5.29; Lc
12.5; 2Pe 2.4; Ap 20.14). É um dos sofrimentos mais cruéis que um ser humano pode padecer. Especialmente quando é despreza-
do injustamente por seus parentes e amigos. O povo de Israel viveu historicamente vários momentos de desprezo e humilhação;
contudo, de todos o Senhor livrou Israel, como na reconstrução dos muros de Jerusalém na época de Esdras e Neemias (Ne
2.19; 4.1-9 e capítulo 6).
Capítulo 124
1 Um cântico de louvor e agradecimento ao Senhor pelo grande livramento de Israel. Um levita proclama os vv. 1-5 e, em se-
guida, a congregação ou um grupo de adoradores responde por meio dos vv. 5-8. Uma seqüência apropriada para o Sl 123. Um
salmo considerado davídico por causa dos ecos observados em outras composições de Davi (Sl 18; 69). Israel deve reconhecer
que somente o Senhor Yahweh o salvou (e salva) da total destruição (Sl 20.7; 94.17).
2 É interessante lembrar que as grandes civilizações e potências pagãs do passado, como os impérios do Egito, Assíria e Babi-
lônia, sempre prometeram inundar as terras do povo de Deus e afogá-lo no próprio sangue (Sl 32.6; 49.14; 69.1,2).
3 A preservação nacional de Israel sempre foi considerada uma prova evidente do amor leal e da aliança imutável de Deus
para com seu povo. Um antegozo da salvação eterna. A metáfora do pequeno pássaro que é liberto das armadilhas do caçador
refere-se à libertação de Israel das garras do cativeiro babilônico.
4 Como grand finale, temos a maravilhosa confissão da congregação, em uníssono. Este verso pode ser assim transliterado, a
partir dos manuscritos em hebraico: Ezrênu beshem Adonai, osse shamáyim vaárets. (Sl 121.2).
Capítulo 125
1 A grandeza e a segurança da Cidade Santa inspiram o peregrino levita a cantar, nas liturgias do tempo pós-exílico, sobre a
eterna e indestrutível confiança do crente (Gl 4.24-26). Este versículo, incorporando o subtítulo, pode ser transliterado, a partir dos
originais hebraicos, da seguinte forma: Shir hamaalot, habotechim badonai, kehar Tsión lo yimot, leolam ieshev.
2 A Igreja Cristã de hoje faz bem em refletir sobre o significado da antiga expressão hebraica “povo de Deus”. As características
dos crentes não se limitam às bênçãos que recebem do Senhor, mas igualmente a um caráter ilibado, fervoroso, piedoso e abso-
lutamente honesto. Por isso, as Escrituras os comparam aos “que fazem o bem”, “justos”, “que têm coração íntegro” (Sl 34.8-14;
46 e 48). Ainda que Jerusalém não esteja cercada por grandes picos, os escritores bíblicos sempre se referiram poeticamente à
região montanhosa que circunda a cidade, como o próprio monte Sião (2Rs 6.17; Zc 2.5).
SALMOS 125–127 128

bre a terra concedida aos justos; se assim assim como enches o leito dos ribeiros
fosse, até mesmo os justos se entregariam no deserto do Neguebe.
à prática da impiedade.3 5 Os que em lágrimas semeiam, em júbi-
4 Sê misericordioso, SENHOR, com os bons, lo ceifarão!
com todas as pessoas de coração íntegro!4 6 Aquele que parte chorando, enquan-
5 Mas aos que se desviam por caminhos to lança a semente, retornará entoando
inescrupulosos, que o SENHOR os expulse cânticos de louvor, trazendo seus fei-
da sua presença juntamente com todos os xes.4
ímpios. E que haja paz sobre Israel!5
Quando todo trabalho é inútil
Consolo para os que sofrem Cântico de peregrinação. De Salomão.
Um cântico de peregrinação.1

126 Quando o SENHOR trouxe no-


vamente restauração a Sião,
127 A não ser que o Eterno edifi-
que a Casa, trabalham em vão
os que desejam construí-la. Se o SENHOR
nos sentimos como num sonho! não proteger a cidade, inútil será a senti-
2 Então, se nos encheu de riso a boca, e a nela montar guarda.1
nossa língua de alegres expressões de lou- 2 Os obstinados que retardam seu sono
vor. Até nas outras nações se comentava: até alta noite, acordam antes do amanhe-
“O Eterno fez maravilhas por esse povo!”2 cer e idolatram o trabalho, não alcança-
3 Sim, realizações grandiosas fez o SENHOR rão os bens que o Eterno concede aos
por nós, por esse motivo estamos felizes! que o amam, mesmo quando estes estão
4 SENHOR, traze os nossos cativos de volta, repousando.2

3 Na história da humanidade, o “povo de Deus” sempre foi minoria. Governantes pagãos e ímpios vivem ao redor dos crentes
tentando influenciá-los e oprimi-los. Até mesmo os mais justos se vêem em perigo. Contudo, o Senhor preservará os seus dessas
ameaças corruptíveis. O texto aqui é uma evocação à época de Esdras e Neemias, quando os persas dominaram Israel (Ne 2.19;
4.1-8; 6.1-19; 9.36,37; 13.7-28).
4 Deus trata cada ser humano de acordo com seu coração e suas atitudes ao longo do tempo (Sl 18.25-27). Essa é a razão
teológica da confiança na oração (v.4) e numa afirmação igualmente confiante (v.5).
5 O salmista suplica pelo sustento do Senhor nos momentos de aflição e para que os ímpios sejam banidos para sempre (Jd
18,19). A expressão transliterada do original Shalom al Yisrael (que haja paz sobre Israel) é uma forma concisa da tradicional e
grandiosa bênção sacerdotal (Nm 6.24-26).
Capítulo 126
1 Um salmo de júbilo pelo triunfo alcançado mediante a boa e poderosa mão do Senhor. O povo de Deus fora contemplado,
mais uma vez, com a graça da restauração divina. O texto Massorético traz a expressão transliterada šûb΄et š bût significando,
literalmente, nos Salmos, “a volta de Javé para seu povo”, ao passo que, nas profecias referentes ao Exílio, a expressão deve ser
interpretada como “a volta dos cativos”.
2 A alegria dos que voltam à pátria e honram a Deus entre as nações (literalmente, no original hebraico: “entre os pagãos”).
Este versículo pode ser assim transliterado: Az yimalê sechoc pínu ulshonênu rina, az iomeru vagoyim higdil Adonai laassot im
êle. (Sl 46.10).
3 A região do Neguebe está localizada na parte sul de Israel, chegando até quase a fronteira com o deserto do Sinai. Numa
região inóspita e seca, especialmente no verão, encontrar um ribeiro (torrente) ou fonte de água potável é como reencontrar a
própria vida.
4 Assim como muitos israelitas que não permitiram que seus corações fossem contaminados no cativeiro, o crente que procura
viver com fé e em obediência à Palavra de Deus, ainda que atravesse momentos terríveis e incompreensíveis, há de contemplar
as maravilhosas realizações do Senhor em sua vida (20.5).
Capítulo 127
1 Embora nem todos os manuscritos hebraicos tragam claramente o nome de Salomão como autor deste hino, o fato é que seu
nome consta nos mais antigos e fiéis originais aos quais o Comitê Internacional de Tradução da KJ teve acesso. A transliteração
deste versículo, incluindo o subtítulo, é: Shir hamaalot Iishlomô, im Adonai lo yivne váyit, shav amelu vonav bo, im Adonai lo yishmor ir,
shav shacad shomer. O tema deste salmo é o valor eterno do que somos e fazemos, não um estímulo à ociosidade inconseqüente.
O princípio bíblico ensinado é que nenhum talento, carisma ou esforço valem a pena se não estiverem sob a bênção do Senhor (Sl
121.3-8; 2Sm 13.34; 18.24-27; Ct 3.3; 5.7). O arrogante confia apenas ou principalmente em si, enquanto o sábio luta e trabalha sob
a graça e as orientações do Espírito do Senhor (Dt 28.1-14). O humilde sabe que existe um Deus, e que esse Deus não é ele.
2 Um bom trabalho, uma grande conquista ou lucrativa colheita não são fruto de labuta insana e infinda, mas resultado direto
da graça e misericórdia de Deus (Dt 33.12; Jr 11.15; Pv 10.22; Mt 6.25-34; 1Pe 5.7).
129 SALMOS 127–129

3 Quanto a seus filhos, eles são herança 5 Que o SENHOR te abençoe desde Sião,
do SENHOR: o fruto do ventre é um pre- para que contemples a prosperidade de
sente de Deus.3 Jerusalém todos os dias de tua vida.
4 Como flechas na mão do guerreiro são 6 Que alcances a felicidade dos filhos de
os filhos nascidos na sua juventude. teus filhos, e vejas a paz sobre Israel!4
5 Bem-aventurado o homem cuja alja-
va deles está repleta! Será respeitado até Recordação dos dias de livramento
mesmo por seus inimigos quando pleite- Um cântico de peregrinação.
ar com eles junto às portas da cidade.4

Feliz o lar que ama a Deus


129 Desde a minha juventude, mui-
tas vezes fui oprimido; Israel
que o diga!1
Um cântico de peregrinação. 2 Muito me angustiaram desde a minha

128 Bem-aventurado aquele que


teme ao SENHOR e busca andar
em seus caminhos!1
mocidade, contudo não prevaleceram
contra mim.
3 Sobre as minhas costas passaram o ara-
2 Comerás do fruto do teu trabalho, serás do, e em minha alma calcaram longos
feliz e próspero.2 sulcos.2
3 Tua esposa será como videira frutífera 4 O SENHOR é justo! Ele me libertou das
em tua casa; teus filhos serão como bro- algemas dos ímpios.
tos de oliveira ao redor de tua mesa. 5 Sejam envergonhados e recuem todos
4 Eis como será abençoada a pessoa que os que detestam Sião!
teme o SENHOR! 6 Sejam como o capim que brota nas la-

3 Segundo as leis do AT, o Senhor concedia porções de terreno em Canaã aos filhos dos israelitas, para que nelas habitassem,
cultivassem e desenvolvessem suas famílias (Nm 26.53; Js 1.13; 11.23; Jz 2.6). Entretanto, sem filhos, a “herança” (a expressão
hebraica original significa “doação”) das terras seria perdida (Nm 27.8-11). Assim, “herança” passou a ser uma expressão com
duplo sentido, especialmente para as famílias judaicas.
4 Uma família numerosa é sempre uma chance de colaboração e bons testemunhos nas disputas da vida, principalmente numa
época e cultura como as que vemos no contexto original deste hino. Algumas versões trazem a expressão “não será humilhado
quando enfrentar seus inimigos no tribunal”, e isso tem a ver com o fato de as grandes disputas públicas se darem literalmente
“às portas da cidade”. A KJ optou pela forma mais literal neste versículo, que pode ser transliterado, dos originais hebraicos desta
forma: Ashrê haguéver asher mile er ashpato mehem, lo ievôshu ki iedabru et oievim basháar (Sl 128.3,4; Dt 17.5; 21.19; 22.15,24;
25.7; Rt 4.1; Is 29.21; Am 5.12).
Capítulo 128
1 Muito feliz a pessoa e a família que observam com amor e dedicação a Palavra de Deus (Sl 120; 127). A bênção final é um
sinal de que este salmo serviu originalmente de instrução levítica (ou sacerdotal) ao povo que vinha adorar em Jerusalém, em
tempos pré-exílicos.
2 Não devemos deixar de realizar o trabalho que Deus espera que façamos, nem tentar fazer o que somente a Deus compete.
Sempre haverá prosperidade para os que vivem uma vida piedosa (consagrada ao Senhor), quer seja no lar, no trabalho ou nos
relacionamentos sociais (1Tm 4.8).
3 A videira, no contexto da tradição judaica, sempre foi um símbolo de fertilidade (Gn 49.22), encantos sexuais (Ct 7.8-12), festi-
vidade e alegria (Jz 9.13). A oliveira é o símbolo da longevidade e da vitalidade. Os frutos da videira e da oliveira sempre estiveram
presentes à mesa das famílias judaicas, especialmente em tempo de liberdade e prosperidade nacional, e representam, juntas, a
beleza de um lar aconchegante e feliz (Êx 23.11).
4 A expressão “desde Sião” pode ser interpretada como: desde o lugar onde se erguia o Templo central em Jerusalém; desde
o lugar onde Jesus foi crucificado em nosso lugar, como sacrifício vicário único, suficiente e eterno; desde a morada celestial
do Senhor (Hb 12.22-24). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, desta maneira: Ur’e vanim
levanêcha, shãlôm al Yisrael. (Sl 125.5).
Capítulo 129
1 Este salmo é uma das orações de Israel para que seus inimigos mais poderosos e ameaçadores sejam destruídos pelo Se-
nhor. A fé é reforçada pelas muitas e grandiosas recordações que o povo tem dos livramentos promovidos por Deus, ao longo da
História, como a libertação do exílio na Babilônia (Os 11.1). A expressão literal “desde o tempo da minha juventude” refere-se aos
longos períodos em que o povo de Israel sofreu, escravizado pelo Egito e outras potências hostis (Sl 120; 124-128).
2 Os inimigos de Israel conseguiram ferir o povo (e a alma da nação), como se um arado abrisse profundos e longos cortes
em suas costas. Apesar de tantas e cruéis tentativas, Deus jamais permitirá que Israel (e seu povo) seja escravizado para sempre
ou completamente destruído.
SALMOS 129–132 130

jes das casas e seca antes de crescer,3 7 Israel, deposita toda a tua esperança no
7 que não completa um punhado na mão SENHOR! Pois no Eterno há misericórdia
do ceifeiro, nem uma braça para aquele sem fim, e com Ele vem plena redenção.3
que amarra os feixes. 8 Ele pessoalmente redimirá Israel de to-
8 E ninguém declare ao passar: “A bên- dos os seus pecados!
ção do SENHOR esteja convosco. Nós vos
abençoamos em Nome do SENHOR!”.4 Os filhos confiam no Pai celeste
Cântico de peregrinação. De Davi.
Confiança no perdão do Senhor
Cântico de peregrinação. 131 SENHOR, o meu coração não é
arrogante, e os meus olhos não
130 Das profundezas clamo a ti, ó
Eterno;1
2 Senhor, ouve a minha voz; teus ouvidos
vêem com soberba. Não há em meu ser
a pretensão de explicar todos os misté-
rios.1
estejam atentos ao clamor das minhas 2 De fato, acalmei e aquietei os meus sen-
súplicas! timentos. Como uma criança satisfeita
3 Se mantivesses diante de ti a imagem está para sua mãe, assim a minha alma
viva de todas as nossas iniqüidades, quem está para todo o meu ser.2
se livraria da condenação eterna? 3 Israel, deposita toda a tua fé no SENHOR.
4 Contudo, em ti está o perdão, pelo que Espera tranqüilo e confiante, desde agora
és reverenciado!2 e para sempre!3
5 Aguardo no SENHOR, espero com toda
a minha alma e tenho certeza quanto à A promessa de Deus a Davi
sua Palavra. Um cântico de peregrinação.
6 Todo o meu ser espera no SENHOR, mais
que as sentinelas pelo romper da alvora-
da.
132
ções.1
SENHOR, lembra-te a favor de
Davi, de todas as suas prova-

3 Os inimigos de Israel murcharão como o capim ou a erva frágil que costumava surgir nas lajes de barro seco, dos planos
terraços superiores das casas israelenses.
4 Os transeuntes não poderão saudar estes ceifeiros com a tradicional bênção sobre a colheita, pois as mãos dos ceifeiros
estarão vazias (Rt 2.4).
Capítulo 130
1 Este é o sexto de sete salmos considerados penitenciais (Sl 6; 69.2; 30.1; 32.6). O sábio autor deste poema viveu numa data
pós-exílica e soube perceber que não há um ser humano que esteja livre do pecado desde o seu nascimento (Gn 3). Entretanto,
descobriu que no amor leal de Deus há misericórdia para perdoar todos os nossos pecados e nos livrar da condenação eterna
(1Jo 1.9; Rm 3.23; 6.23; 8.1; 1Pe 1.18-21). Este versículo, incluindo o subtítulo, pode ser transliterado a partir dos melhores origi-
nais hebraicos, desta forma: Shir hamaalót, mimaamakim keratícha Adonai.
2 Diante de um mundo que caminha célere para a destruição, em todos os sentidos, nosso grande consolo é saber que o Senhor
nos prometeu seu perdão e o resgate eterno das almas dos crentes (Êx 34.6,7; Sl 57; 59.9; 127.1; 2Sm 13.34; 18.24-27; Ct 3.3; 5.7).
3 No sacrifício vicário de Jesus Cristo, o Messias, foi cumprida toda a expressão do amor leal de Deus para com a humanidade, e
seu perdão eterno. Essa foi a maior promessa do AT cumprida no NT (Jó 19.25; Jo 3.16; 5.24; 6.47; 10.10; 11.25; 14.6,23-27). Este
versículo pode ser assim transliterado dos originais hebraicos: Iachel Yisrael el Adonai, ki im Adonai hachéssed veharbê imó fedút.
Capítulo 131
1 Este não é um apelo à ignorância e passividade, mas ao bom senso e à humildade. Ninguém pode se comparar a Deus ou
ter seu entendimento, mas podemos confiar em receber a capacitação que Ele nos concede para vivermos e sermos felizes (Jo
10.10). O orgulho é que afasta o ser humano de Deus e o conduz às piores decisões (Sl 31.23; 2Sm 6.21,22). Segue uma transli-
teração, incluindo o sub-título, a partir dos originais hebraicos: Shir hamaalot, zechor Adonai ledavid et col unoto.
2 O adulto insensato deixa seus sentimentos dirigirem todo o seu ser. A criança em fase de amamentação estabelece uma
profunda dependência de sua mãe, que, além de lhe fornecer o alimento vital é fonte de todo o carinho e proteção. Assim, Israel
e o povo de Deus devem confiar e descansar no Senhor – Adonai – o Eterno (v.3).
3 Transliteração deste versículo: Iachel Yisrael el Adonai meata vead olam.
Capítulo 132
1 Este salmo difere dos demais “hinos de peregrinação” pela extensão do texto poético e profético, e por cuidar de temas
relacionados à Aliança (Promessa) feita entre Deus e seu servo Davi. Nesta oração, o salmista pede as misericórdias do Senhor
para o filho de Davi que reina sobre o trono de Davi (v.10). Na liturgia pós-exílica, tinha implicações messiânicas. Era também
131 SALMOS 132

2 Como fez votos solenes e juramentos ao 10 Por amor ao teu servo Davi, não rejei-
Eterno, o Poderoso de Jacó, declarando:2 tes o teu ungido.6
3 “Não entrarei na minha tenda e não me 11 O SENHOR determinou uma promessa
deitarei no meu leito; a Davi, um juramento firme que Ele não
4 não permitirei que meus olhos conci- revogará jamais: “Estabelecerei um dos
liem o sono nem que minhas pálpebras teus descendentes no teu trono.
repousem, 12 Se os teus filhos guardarem a minha
5 enquanto não encontrar um lugar para aliança e as prescrições que Eu lhes ensi-
o SENHOR, uma habitação para o Podero- no, também os filhos deles se assentarão
so de Jacó”. no teu trono por toda a eternidade!”7
6 Ouvimos falar que a arca poderia ser 13 Pois o SENHOR escolheu Sião com a
encontrada em Efrata, mas a encontra- vontade de constituí-la sua morada:
mos nos campos de Jaar:3 14 “Este será sempre o lugar do meu re-
7 “Entremos na sua habitação! Vinde e pouso, ali residirei, porque assim Eu o
adoremos ao Senhor diante do estrado desejei.
de seus pés! 15 Abençoarei copiosamente suas provi-
8 Levanta-te, ó SENHOR, e vem para o teu sões e de pão saciarei seus pobres.8
lugar de repouso, tu e a arca onde res- 16 Vestirei de salvação os seus sacerdotes, e
plandece a tua Glória!4 seus fiéis a celebrarão com grande júbilo!
9 Vistam-se de justiça os teus sacerdotes, 17 Lá eu promoverei o renascimento do
e rejubilem-se com cânticos de louvor os vigor de Davi e farei resplandecer a Luz
teus fiéis!”5 do meu Ungido.9

usado nos rituais de coroação dos reis davídicos (Sl 2; 20.3; 72; 110; 1Rs 11.12,13; 15.4,5; 2Cr 6.41,42). Muitas dificuldades foram
vencidas na conquista de Jerusalém como cidade do Templo (2Sm 5.6-8). A expressão “voto” é usada no sentido de “abnegação”
(vv.2-5; Nm 30.13).
2 Jacó é um dos sinônimos de Israel (Gn 32.28; 2Sm 6 e 7). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos
hebraicos, desta maneira: Asher nishba ladonai, nadar laavir Iaacov.
3 Este trecho do salmo refere-se à parte do salmo que o povo cantava depois da oração do líder do coro ou sacerdote. Efrata é
uma região localizada ao redor de Belém, cidade onde nasceu o rei Davi e morou Abinadabe sob a guarda de quem a arca ficou
durante vinte anos (1Sm 7.1; Rt 4.11; Mq 5.2). Campina do Bosque, Campos de Jaar ou Quireate-Jearim designa um distrito do
território de Judá (2Sm 6.2-5).
4 Considerando que a poesia hebraica costuma omitir palavras introdutórias, como “dizendo”, por exemplo, os vv.8,9 podem
ser compreendidos como declarações que emanam dos fiéis adoradores (Sl 24). Depois de acompanhar seu povo pelo deserto,
habitando num tabernáculo (uma tenda) que se movia rotineiramente, agora o Templo oferece a imagem da centralidade do trono
e do descanso (2Sm 7.6; 1Cr 28.2). Assim como a terra prometida foi o lugar do repouso ao final de longo período de peregrina-
ções e lutas (Nm 10.33; Js 1.13; Mq 2.10).
5 Os sacerdotes (no NT, todos os crentes sinceros em Cristo – 1Pe 2.9) devem ser exemplos de uma vida reta (Jó 29.14; Pv
31.25). Considerando que no v.16 a palavra hebraica original, correspondente, é “salvação”, mesma expressão usada pelo
autor de Crônicas ao citar este texto (2Cr 6.41), e que “salvação” e “retidão” são palavras, em alguns casos, decorrentes e
sinônimas, conclui-se que há uma evidente referência à “justiça” de Deus que produz a “salvação” (livramento) do seu povo
(Sl 4.1-3).
6 Os vv.8-10 foram incorporados à oração dedicatória do rei Salomão, filho de Davi e Bate-Seba (2Sm 12.24; 2Cr 6.41,42). A
oração pessoal do rei “teu ungido”, que apela a Deus por amor de seu antepassado Davi, que era um homem temente ao Senhor.
Da mesma forma, o cristão ora em o Nome de Cristo, “o Ungido”, o modelo e predecessor de cada filho de Deus.
7 Em várias passagens bíblicas, as “promessas” que Deus fez a Davi, recebem o nome de “alianças”, todas firmadas e cele-
bradas com “juramentos” (Sl 89.3,28,34,39; 2Sm 23.5; Is 55.3; Sl 110.4). A “Aliança no Sinai” era um conjunto de “estatutos ou
prescrições” a que todos os israelenses e seus filhos deviam obedecer em todas as épocas (1Sm 10.25; 1Rs 2.3,4).
8 A verdadeira prosperidade de uma nação é avaliada pela quantidade de seus pobres que passam a viver confortavelmente,
e não por um pequeno grupo de ricos que se tornam ainda mais ricos, arrogantes e dominadores. Deus elegeu Sião (Jerusalém)
como sua cidade santa e habitação na terra (v.13). Os desejos de Davi se harmonizaram à vontade do Senhor (Sl 78.68; Dt 12.5-
14). O povo de Deus encontrará pleno descanso, quando o Senhor estiver definitivamente entronizado e reverenciado em seu
trono em Israel (Dt 12.9; Js 1.13; 1Rs 5.4).
9 A expressão literal hebraica “chifre”, neste versículo significa “glória” ou “vigor”. A descendência de Davi florescerá como um
ramo forte que, no tempo certo, brota da velha videira (1Rs 11.36). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos
hebraicos desta maneira: Sham atsmíach keren ledavid, aráchti ner limshichi.
SALMOS 132–135 132

18 Cobrirei de ignomínia os seus ini- permaneceis servindo durante a noite, na


migos, mas sobre Ele florescerá a sua casa do SENHOR!1
coroa!”10 2 Erguei vossas mãos para o santuário e
bendizei o SENHOR!2
Feliz é a fraternidade dos crentes 3 De Sião te abençoe o SENHOR, que fez o
Cântico davídico de peregrinação. céu e a terra!
133 Como é feliz e agradável ob-
servar quando os irmãos vi- Cantai louvores ao Senhor
vem em fraternidade!1
2 É como um bálsamo precioso derrama-
do sobre a cabeça, que desce pela barba
135 Aleluia!
Louvai o Nome do Eterno, lou-
vai-o, servos do SENHOR,1
como se fosse a barba de Arão, até a gola 2 que permaneceis na Casa do SENHOR,
de suas vestes sacerdotais.2 nos átrios da casa de nosso Deus!
3 É como o orvalho do Hermom quando 3 Aleluia! O SENHOR é bom: cantai louvo-
desce sobre os montes de Sião. Porquan- res ao seu Nome, que é amável!
to ali o SENHOR oferece a sua bênção: vida 4 Pois o SENHOR escolheu Jacó para si, Is-
para hoje e por toda a eternidade!3 rael, por sua propriedade.
5 Pois eu sei: O SENHOR é grande, o Se-
Convite para o culto de vigília nhor supera todos os deuses.2
Um cântico de peregrinação. 6 Tudo quanto aprouve ao SENHOR, nos

134 Vinde, bendizei o SENHOR vós


todos, servos do SENHOR que
céus e na terra, nos mares e em todas as
profundezas, Ele o fez!

10 Este versículo pode ser assim transliterado do original hebraico: Oivav albish bóshet, vealav iatsits nizro. Ao longo da história
do povo de Deus, o Senhor permanece fiel à aliança que firmou com Davi (vv.13-18). A expressão literal hebraica “florescerá”
evoca de, modo sutil, a imagem de brotos crescendo, transformando-se em ramos fortes que sustentam muitos frutos.
Capítulo 133
1 A fraternidade (união vital entre irmãos de sangue e/ou credo), depende exclusivamente da união de cada irmão, pessoal-
mente, com o Senhor Deus. Somente assim, essa unidade de propósitos pode florescer e testemunhar eficazmente ao mundo
(Jo 15.1-9; 17.20-25; Sl 135.3; 147.1).
2 O salmista da casa de Davi faz uma comparação entre o ministério sublime do sacerdote Arão, cuja unção e ministério
visavam manter o povo em perfeita comunhão com Deus e entre si, e a sensação de conforto e segurança proporcionada pelo
derramar do óleo ungido sobre o corpo dos crentes israelitas (Êx 29.7; Lv 21.10). O óleo balsâmico saturava os cabelos, a barba,
e descia pelas vestes dos sacerdotes, em sinal de consagração absoluta de suas vidas ao serviço santo do Senhor.
3 O orvalho abundante que se projetava do monte Hermom fazia que os montes de Sião fossem ricamente frutíferos (Gn
27.28; Ag 1.10; Zc 8.12). Da mesma maneira, a união fraternal do povo de Deus faria de Israel uma nação rica e frutífera. Essas
metáforas revelam claramente que as bênçãos de Deus fluíam até os israelenses crentes, por meio das ministrações sacerdotais
no tabernáculo ou no templo (Êx 29.44-46; Lv 9.22-24; Nm 6.24-26), as quais são figuras das misericórdias de Deus na própria
redenção. O orvalho é uma evocação das bênçãos perenes do Senhor na ordem da criação. A vida é a principal das bênçãos,
segundo a Aliança (Dt 30.15-20; 32.47).
Capítulo 134
1 Cântico litúrgico de despedida da congregação, pouco antes de deixarem o culto vespertino no templo. Uma espécie de troca
de saudações entre os adoradores e os levitas que mantinham a guarda do templo. No saltério este é o último dos “cânticos de
peregrinação” ou “hinos de romagem” (Sl 120 a 134).
2 Os responsáveis pela liturgia, ao se despedirem, encomendam aos levitas que continuem, durante toda a noite, a realizar os
serviços no templo, com espírito de absoluta adoração ao Senhor (1Cr 9.33; Êx 17.12; Sl 63.4).
3 Um solo levita responde com uma bênção final, impetrada sobre o grupo de adoradores (Sl 121.2; 124.8; 128.5). Este versícu-
lo pode ser assim transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos: levarechechá Adonai mitsión, ossê shamáyim vaárets.
Capítulo 135
1 Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos: Haleluiá, helelu et shem Adonai, halelu avdê
Adonai. Temos neste salmo pós-exílico um grandioso convite para louvarmos ao Senhor, o Deus único e verdadeiro, Criador do
Universo, Senhor de todas as nações, o Redentor de Israel e de todos os seus filhos sobre a face da terra. Aqueles que recebem
o privilégio de assistir na Casa de Deus devem saber louvá-lo dignamente, não apenas com músicas e poesias, mas por meio
de um viver santo (Sl 120).
2 Nada e ninguém há que possa se comparar ao poder, amor e justiça do Senhor (vv.3,15-18; Jr 10.11-16; Sl 96.5; 97.7; 115.3).
O Senhor faz tudo que lhe agrada fazer, ao passo que todos os ídolos e deuses nada realizam; eles próprios são feitos por mãos
humanas (vv.16,17).
133 SALMOS 135, 136

7 Ele, que dos confins da terra faz subir as 20 Casa de Levi, bendizei ao SENHOR! Vós,
nuvens, fez os raios para a chuva, e tira de que temeis ao SENHOR, bendizei ao SE-
seus antros a ventania. NHOR.
8 Feriu os primogênitos do Egito, desde o 21 Desde Sião, bendito seja o SENHOR que
homem até o gado.3 habita em Jerusalém!
9 O Senhor realizou, em pleno Egito, si- Aleluia!5
nais e prodígios contra o faraó e todos os
seus sábios! As misericórdias do Senhor
10 Feriu numerosas nações, e a reis pode-
rosos tirou a vida:
11 Seam, rei dos amorreus, Ogue, rei de
136 Rendei graças ao SENHOR por-
que Ele é bom, porquanto seu
amor leal dura para sempre.1
Basã e todos os reinos de Canaã; 2 Louvai ao Deus dos deuses, porque a
12 e deu a terra deles como despojos, em sua misericórdia dura para sempre.2
herança a Israel, seu povo. 3 Dai graças ao SENHOR dos senhores, pois
13 SENHOR, teu Nome dura para sempre, o seu amor dura eternamente!
e tua lembrança, SENHOR, de geração em 4 Ao único que realiza grandes maravi-
geração! lhas. A sua misericórdia é perpétua:
14 O SENHOR defenderá seu povo, e terá 5 fez os céus com sabedoria, porque seu
compaixão dos seus servos. amor é para sempre,
15 Os ídolos pagãos são prata e ouro, obra 6 firmou a terra sobre as águas, porque
de mãos humanas: seu amor é para sempre.3
16 Têm boca, mas não podem falar, olhos, 7 Fez grandes luminares: porque seu
mas não conseguem ver; amor leal é para sempre,
17 têm ouvidos, mas são incapazes de ou- 8 o sol, para presidir o dia, porque seu
vir, nem mesmo qualquer alento de vida amor é para sempre,
há em seus corpos. 9 a lua e as estrelas, para comandarem a
18 Tornem-se, portanto, como eles, aque- noite, porque o seu amor é para sempre.
les que os fazem e todos os que neles 10 Feriu o Egito nos seus primogênitos,
confiam! porque seu amor justo é para sempre,4
19 Casa de Israel, bendizei ao SENHOR; 11 libertou Israel do meio deles, porque
Casa de Arão, bendizei ao SENHOR!4 seu amor é para sempre,

3 Deus revelou seu poder sobre a terra do Egito e seu amor leal para com Israel. As terras dos reis pagãos foram arrancadas de
suas mãos e entregues, como herança, ao povo de Deus (Êx 7 a 14; Nm 21.21-35 e todo o livro de Josué).
4 A expressão hebraica original “Casa de Israel” refere-se ao grupo dos israelitas. Os membros da “Casa de Arão” são todos os
sacerdotes (Sl 115.9-11; 118.2-4); e os da “Casa de Levi” formam uma classe especial de “adoradores” – os levitas, que tinham o
ministério de oferecer seus serviços não sacerdotais ao templo (Sl 134.1,2).
5 Este versículo pode ser assim transliterado: Baruch Adonai mitsión, shochen Ierushaláyim, halelu lá. Convocação final ao
louvor, dirigida a todos os crentes que se reúnem no templo. Jerusalém (Ierushaláyim) foi o grande centro da adoração a Deus
(Yahweh) no AT. Foi nessa cidade também que Jesus Cristo, o Messias, morreu e ressuscitou, motivo do louvor eterno de todos
os que verdadeiramente amam ao Senhor (Mq 4.2; Rm 10.4).
Capítulo 136
1 O líder levítico dirigia a recitação litúrgica deste salmo, enquanto um coro de adoradores respondia no refrão (1Cr 16.41; 2Cr
5.13; Ed 3.11; 2Cr 7.3,6; 20.21; Sl 106.1; 107.1; 118.1-4). Seu tema e vários versículos formam um paralelo significativo com boa
parte do Sl 135 (O paralelismo poético judaico é sempre em relação ao sentido e conteúdo das expressões e não melódico e
métrico, como na maioria dos poemas ocidentais).
2 A expressão literal hebraica aqui traduzida por “misericórdia” é muito ampla e ajuda a descrever a própria essência da nature-
za de Deus: benignidade, paciência, amor, lealdade, fidelidade, graça, favor, longanimidade. Ao longo da História podemos notar
esse amor persistente de Deus, culminando na pessoa de seu próprio Filho, Jesus Cristo, o Messias. Somente o Espírito de Deus
é capaz de desenvolver esse caráter divino em nossas vidas (Gl 5.22-23).
3 A criação do Universo, da terra e de tudo o que nela há, especialmente os seres humanos, é ato da vontade e sabedoria de
Deus (Pv 3.19-20; Rm 11.36).
4 Os atos salvíficos de Deus, bem como sua sabedoria, bondade e justiça, se expressam na preservação do seu povo e na des-
truição dos seus inimigos (muitos exemplos de livramentos divinos estão registrados no livro dos Juízes e no reinado de Davi).
SALMOS 136, 137 134

12 com mão forte e braço estendido, por- 26 Louvai o Deus dos céus! Porquanto, seu
que seu amor é para sempre. amor leal permanece pela eternidade.7
13 Dividiu ao meio o mar Vermelho, por-
que seu amor é para sempre, Lamentação dos exilados
14 fez passar Israel no meio dele, porque
seu amor é para sempre,
15 lançou Faraó e seu exército no mar Ver-
137 Junto aos rios da Babilônia sen-
tamo-nos a chorar, com sauda-
de de Sião.1
melho, porque seu amor é para sempre. 2 Nos salgueiros que lá existiam, pendu-
16 Conduziu seu povo pelo deserto, por- rávamos as nossas harpas,2
que seu amor é para sempre, 3 pois aqueles que nos levaram cativos nos
17 feriu grandes reis, porque seu amor é pediam para entoar belas canções, e os
para sempre, nossos opressores, que fôssemos alegres,
18 tirou a vida de governantes poderosos, exclamando: “Entoai-nos algum dos cân-
porque seu amor é para sempre: ticos de Sião!”
19 Seom, rei dos amorreus, porque seu 4 Como, porém, haveríamos de cantar as
amor é para sempre, canções do Eterno numa terra estranha?3
20 e a Ogue, rei de Basã, porque seu amor 5 Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém,
é para sempre. que se paralise minha mão direita!
21 Depois deu a terra deles como despo- 6 Pegue-se minha língua ao céu da boca, se
jos, porque seu amor é para sempre,5 não me recordar de ti; se não elevar Jeru-
22 em herança a Israel, seu povo, porque salém acima das minhas maiores alegrias.
seu amor é para sempre. 7 Contra os filhos de Edom, lembra-te,
23 Em nossa humilhação, lembrou-se de SENHOR, daquele dia em que Jerusalém foi
nós, porque seu amor é para sempre. destruída, como gritavam: “Desnudai-a,
24 Ele nos libertou dos nossos adversá- arrasai-a até os fundamentos!”4
rios, porque seu amor é para sempre. 8 Filha da Babilônia, devastadora, bem-
25 Dá alimento a toda criatura, porque aventurado aquele que te der a paga de
seu amor é para sempre. tudo quanto nos fizeste!5

5 As terras aqui mencionadas ficaram de posse das tribos de Rúben, Gade e Manassés.
6 O povo salvo (resgatado) pelo Senhor pode confiar em seu amor e justiça. Deus suprirá todas as nossas necessidades, con-
forme suas promessas, das quais Jesus Cristo é o apogeu e absoluto cumprimento (Is 61.1-3; Lc 4.16-21; Rm 8.32).
7 O título “Deus dos céus” era, costumeiramente, uma forma de expressão dos povos persas, que se encontra nos livros
de Esdras, Neemias e Daniel (Ed 1.2). Seu significado é semelhante à referência hebraica ao Nome do Senhor (vv.2,3). Este
versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, da seguinte maneira: Hodú leel hashamáyim, ki leolam
chasdo.
Capítulo 137
1 Os rios aqui mencionados são o Tigre, o Eufrates e seus muitos canais, que atualmente banham a região do Iraque. Israel fora
traído pelas nações pagãs vizinhas e seu povo levado como escravo para servir na Babilônia. A “saudade” (expressão tipicamente
portuguesa que comunica com propriedade o tipo de sentimento que assaltava o coração dos exilados à época) lhes tirava toda
a alegria de viver e os lançava em profunda depressão e lamento (Jó 2.8,13; Lm 2.10).
2 As árvores (salgueiros) que cresciam nas planícies úmidas e quentes da Babilônia eram muito diferentes da vegetação que flo-
rescia nas montanhas rochosas de Sião (Jerusalém). Os babilônicos, como dominadores insensíveis, desprezavam as tradições e
a cultura judaicas e forçavam os exilados a entoar músicas festivas e exóticas, sem compreender que até mesmo os instrumentos
musicais dos israelitas escravizados recebiam uma afinação própria a