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Saúde Mental: Retrocessos ou Contra-Reforma?

As políticas públicas de saúde mental estão numa encruzilhada histórica,


onde seus trinta anos de construção estão sobre forte ameaça, a indústria de
leitos, baseada na mercantilização do sofrimento, voltam à cena central no país.

A reflexão aqui colocada se refere a que estágio nos encontramos de


desconfiguração, em um momento de retrocesso, onde a reforma psiquiátrica e
suas políticas públicas estão pontualmente, com iniciativas aqui e ali, sendo
desconstruídas, ou estamos numa nova fase de contra-reforma, onde uma
agenda e suas condições objetivas de serem instaladas estão dadas, como
chamou Laranjeiras uma fase de “uma segunda reforma”?

Buscando responder essa questão fundamental para construirmos táticas


e estratégias de ação que busquem garantir que nosso país possa retornar ao
caminho de uma política pública baseada no cuidado em liberdade, no
protagonismo e na autonomia dos usuários. Irei fazer uma cronologia do início
do processo de retrocessos na política nacional de saúde mental até o momento
atual.

11/12/2015: inicio da agenda de retrocessos

A mudança no Ministério da Saúde, na gestão da presidenta Dilma,


nomeando Marcelo Castro como Ministro da Saúde, trouxe uma ruptura
histórica com as nomeações da Coordenação de Saúde Mental. Todos os
coordenadores nomeados nos mais diversos governos, de matizes ideológicas
diferentes, desde a redemocratização, sempre foram profissionais alinhados
com a reforma psiquiátrica e com as orientações da Organização Mundial da
Saúde.

O Diário Oficial da União em sua edição de 11 de dezembro de 2015


nomeou para coordenador-geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas,
Valencius Wurch Duarte Filho, uma pessoa que desde a tramitação da Lei
10.216 era crítico e contrário aos pressupostos mais fundamentais da Reforma
Psiquiátrica e tinha como seu grande histórico a gestão do maior manicômio do
país.

A reação foi enorme em todo o país, com AbraçaRaps, ocupação do


Ministério e manifestações de entidades, movimentos e conselhos profissionais.
Naquele momento, a ABRASCO, a ABRASME e outras organizações assinaram
uma Nota Pública, contra a nomeação de Valencius Wurch Duarte Filho, que
afirmava: “anúncio realizado pelo Sr. Ministro da Saúde na mencionada
audiência contrapõe-‐se ao compromisso do governo federal com a continuidade
da Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, na perspectiva da
garantia dos direitos humanos e do cuidado territorial e comunitário.
Ressaltamos que os princípios aqui estabelecidos são ratificados pelas
deliberações da XV Conferência Nacional de Saúde e pelo Relatório Final e
Moções da XVIII Reunião do Colegiado Nacional de Coordenadores de Saúde
Mental” (https://www.abrasco.org.br/site/outras-noticias/institucional/nota-
publica-cgmadms/15248/.

A intensa mobilização social deixou insustentável a permanência de


Valencius e ele foi exonerado através da Portaria 916, de 06 de Maio de 2016 -
http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jornal=2&pagina=44
&data=09/05/2016

Apesar, da exoneração de Valencius, sua nomeação marca o início da


reação conservadora sobre a três décadas de construção e implementação da
Reforma Psiquiátrica brasileira.

10/02/2017: construindo a agenda de retrocessos

A PORTARIA Nº 434, DE 10 DE FEVEREIRO DE 2017, assinada pelo


Ministro da Saúde, Ricardo Barros, nomeou Quirino Cordeiro Junior para exercer
o cargo de Coordenador-Geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas.

Diferentemente, de Valencius, que não tinha uma forte base de apoio e


não tinha uma agenda claramente definida, a nomeação de Quirino, dá passos
firmes na construção articulada de uma agenda para os retrocessos no processo
de reforma psiquiátrica brasileira.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP,


Antônio Geraldo da Silva, “a nomeação deste técnico para a Coordenadoria-
Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde é uma
conquista para a saúde pública brasileira. Quirino Cordeiro Junior tem uma
invejável experiência acadêmica e vivência na assistência pública em saúde
mental, caracterizando-o como um profissional de grande força de vontade,
além de um excelente pesquisador e ser humano admirável”.

20/09/2017: articulação contra a RAPS

A nomeação de Quirino colocou em ação no país, um forte lobby em torno


da indústria de leitos de internação e da hegemonia do saber médico, contra
uma visão de uma rede intersetorial e baseada no cuidado em liberdade e de
base comunitária.

No dia 20 de setembro de 2017 a ABP (Associação Brasileira de


Psiquiatria) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) soltaram uma Nota Pública
voltada a apontar um conjunto de irregularidades e inconsistência na
implementação da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). A Nota foi articulada
com o relatório do Coordenador-Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas
do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro Júnior, apresentado na Comissão
Intergestores Tripartite (CIT) do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Essa nota construída em articulação com o relatório do Quirino tem um


grande propósito, jogar dúvidas e dar um passo a frente na consolidação de
uma “nova política de saúde mental no país”, conforme enfatiza: “Nesse
contexto, é coerente com sua responsabilidade a decisão do Ministério da Saúde
de, com base no relato apresentado, constituir Grupo de Trabalho, juntamente
com os Conselhos Nacionais de Secretários Estaduais e Municipais da Saúde
(CONASS e CONASEMS), para discutir e buscar soluções para os problemas
existentes na condução da atual Política de Saúde Mental no País”.

12/2017: pelas costas dos 30 Anos da Carta de Bauru

O “Encontro de 30 Anos da Carta de Bauru”, realizado entre 08 e 09 de


dezembro de 2017 em Bauru - SP, com uma ampla mobilização de mais de
2000 pessoas entre usuários, familiares, trabalhadores e trabalhadoras da
saúde mental e ativistas de direitos humanos, celebrou a história da construção
da política pública que criou, em todo território nacional, serviços substitutivos
de base comunitária, superando o modelo manicomial fundado no isolamento
social.

Mas, pelas costas dos 30 Anos da Carta de Bauru, estava se


engendrando, uma agenda de desconfiguração da Política Nacional de Saúde
Mental, Álcool e outras Drogas.

No dia 14 de dezembro de 2017, na reunião da Comissão Intergestores


Tripartite (CIT) foi aprovada a desconfiguração da Política Nacional de Saúde
Mental, colocando novamente a centralidade nos Hospitais Psiquiátricos
(manicômios) e na ampliação do financiamento e na legitimação das
Comunidades Terapêuticas.

No dia 22 de dezembro de 2017, última sexta feira antes do Natal, no


encerramento do ano e no meio do recesso legislativo e do judiciário, o
Ministério da Saúde publicou a Resolução 32 e a Portaria no. 3.588 que
oficializa as medidas que desconfiguram a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial),
e, em conjunto com o Ministério do Trabalho, Ministério do Desenvolvimento
Social e Ministério da Justiça, publicaram a Portaria Interministerial no. 2,
que inicia um redesenho nas políticas de drogas, baseada no financiamento e
na ampliação das comunidades terapêuticas.
2018: consolidação dos retrocessos

A agenda desenhada por Quirino em articulação com a ABP no ano de


2018 passou a enfraquecer e colocar dúvidas na RAPS e sua desconfiguração
com a Portaria 3588 onde, entre outras coisas, inclui o Hospital Psiquiátrico na
RAPS, aumento do valor da AIH (autorização de internação hospitalar),
aumento de 15% para 20% de Leitos em Hospital Geral com financiamento
somente a partir de 8 leitos, fortalecimento da lógica ambulatorial voltada a
internação e a criação do CAPS AD IV (CAPS Ad em cena de uso voltado a ser
um intermediador de internações, como visto, na experiência do CAPS de Lata
na “cracolândia”). Bem como, a desvinculação do número de leitos em relação
ao quantitativo populacional. Mantendo assim, a possibilidade de aumento de
leitos através de acordo entre as coordenações locais e a coordenação nacional.

Acerca do orçamento, Quirino anuncia:

 Aos Hospitais Psiquiátricos foram anunciados 60 milhões e para as


Residências Terapêuticas 50 milhões;
 As Comunidades Terapêuticas vão receber 100 milhões (só do Ministério
da Saúde), e para toda a RAPS apenas 70 milhões;
 Para os novos dispositivos (ambulatórios e o novo CAPS AD em “cenas de
uso”) incluídos na RAPS na última portaria: 33 milhões.

O orçamento não deixa mentir que as prioridades são os hospitais


psiquiátricos e as comunidades terapêuticas. Um pacto heterogêneo e
conservador se consolidou, criando um novo bloco de forças na disputa das
políticas de saúde mental e drogas, a unidade de ação entre a ABP, CFM e as
comunidades terapêuticas.

No campo das políticas de drogas assistimos um novo edital com a


ampliação dos recursos públicos para as comunidades terapêuticas, aprovação
no TRF3 para a construção de um marco regulatório garantindo assim a
aplicação da Resolução do CONAD, 2015 e a Portaria n° 3.449/2018, do
Ministério da Saúde que Institui um Comitê com a finalidade de consolidar
normas técnicas, diretrizes operacionais e estratégicas no contexto da política
pública sobre o álcool e outras drogas, que envolvem a articulação, regulação e
parcerias com organizações da sociedade civil denominadas Comunidades
Terapêuticas.

A desconfiguração da lógica da reforma psiquiátrica fica evidente na edição


da Portaria nº 2434 de 15/08/2018 que promove um aumento de 60% nas
diárias pagas aos hospitais, para atendimento de pacientes internados por mais
de 90 dias ou que são reinternados em intervalo menos de 30 dias (de R$29,50
a R$41,20 para R$47,00 a R$66,00).
O princípio elementar de internações de curta permanência, realizado apenas
em meio a crises agudas e dentro de um projeto terapêutico singular, voltado
ao cuidado em liberdade e na inclusão social (reabilitação psicossocial) é
colocado em xeque. O retorno, a re-valorização das internações de média e
longa permanência e o círculo perverso de re-internações volta a centralidade
da política pública.

A publicação no final desse ano de duas portarias, que visam dar


materialidade na “incompetência”, na “inoperância administrativa”, da
implementação da RAPS no país fecha o ciclo da agenda de retrocessos e coloca
como “necessário” virar a página dessas últimas três décadas e construir uma
“nova política de saúde mental”.

A saber, a PORTARIA Nº 3.659, DE 14 DE NOVEMBRO DE 2018 que


suspendeu o repasse do recurso financeiro destinado ao incentivo de custeio
mensal de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRT), Unidades de Acolhimento (UA) e de Leitos de Saúde Mental
em Hospital Geral, integrantes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), por
ausência de registros de procedimentos nos sistemas de informação do SUS e a
PORTARIA Nº 3.718, DE 22 DE NOVEMBRO DE 2018, que publicou lista de
Estados e Municípios que receberam recursos referentes a parcela única de
incentivo de implantação dos dispositivos que compõem a Rede de Atenção
Psicossocial (RAPS), e não executaram o referido recurso.

Para coroar o fechamento do ciclo de retrocessos e a busca pelo salto de


qualidade, que é transformar a agenda de retrocessos (portarias, decretos) em
um novo marco legal, que se inicia em 2019, com um congresso nacional ainda
mais conservador e com a ascensão de um governo de extrema direita, se
realizou em Brasília no dia 27/11/2018 no Salão Nobre da Câmara dos
Deputados o Lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Nova
Política Nacional de Saúde Mental e da Assistência Hospitalar Psiquiátrica com a
seguinte composição, 226 deputados de diversos partidos e 4 senadores:
http://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=53841.

Em matéria do dia 29/11/2018 o Jornal O Globo ao anunciar o lançamento


da Frente Parlamentar tem a seguinte chamada: “Deputados criam polêmica ao
lançar frente pró-internação psiquiátrica”, deixando bem claro, sua
centralidade. Na matéria, o coordenador da Frente, o Deputado Roberto
Lucena, de forma transparente aponta a estratégia de consolidar a agenda de
retrocessos através de um novo marco legal: “Criamos a frente para apoiar as
mudanças já apresentadas, e contribuir para aperfeiçoar a política” e completa:
“houve uma espécie de criminalização desses hospitais”.
Nota-se que o conjunto de portarias e iniciativas de desconfiguração da
RAPS combinaram três movimentos centrais:

 O ataque a capacidade de execução e implementação da RAPS;


 A mudança de prioridades orçamentárias;
 O retorno dos dispositivos e da lógica manicomial (a internação, o
isolamento social como estratégia central da política em saúde mental).
Ao apostar novamente no fortalecimento dos Hospitais Psiquiátricos, na
valorização das internações acima de 90 dias, na ampliação do
financiamento público das Comunidades Terapêuticas e no incentivo a
ambulatorização do cuidado.

Essas medidas de desconfiguração e de retrocessos nas políticas públicas de


saúde mental ocorreu através de “canetadas” da Coordenação Nacional de
Saúde Mental. Quirino instituiu um novo método para construir suas iniciativas,
“de dialogar”, apenas com os “amigos”, a ABP/CFM/Confederação de
Comunidades Terapêuticas e os gestores públicos. Instituindo assim, uma
democracia de baixa intensidade contrariando, nesse aspecto, o processo
histórico da reforma psiquiátrica, marcado por uma forte presença de
participação e mobilização social.

Em todas as suas iniciativas tem um traço em comum, seus grupos de


trabalho só tinham os “amigos” e os gestores públicos, e no Conselho Nacional
de Saúde, apenas o “diálogo” se deu na Comissão Intergestores Tripartite
(CIT), virando as costas, para CISM (Comissão Intersetorial de Saúde Mental).

Evidenciando, que num governo de baixa legitimidade, suas aprovações se


deram no âmbito das “canetadas” do executivo e sem participação social, pois
não passou pelo Plenário do Conselho Nacional de Saúde. As Portarias e
Decretos, consolidaram uma agenda de retrocessos na saúde mental, ainda
sem afetar o arcabouço legal, as legislações, mas desenharam as características
essenciais que serão as bases da Contra-Reforma Psiquiátrica.

2019: a contra reforma psiquiátrica

Os ecos de 2019 já se anunciaram nesse final de ano de 2018 com o


lançamento da nova frente parlamentar e com o anúncio de dois ministros, no
novo governo de extrema direita, que tem posições claramente a favor da
contra-reforma psiquiátrica, o da saúde e o da cidadania.

O deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), o novo Ministro da Saúde,


recém anunciado, teve como um de seus primeiros anúncios: “O que a saúde
oferece para essas pessoas? Ambulatórios de rua e CAPS. Qual o índice de
recuperação? Não chega a 5 ou 6% nos CAPS. Você tem 94% de recidiva. Onde
estão nossas cabeças? O que nos dá melhor chance estatisticamente para
retirar o indivíduo das drogas? É no CAPS? Não. O que eu sei é que essa política
do jeito que está eu vou jogar em questionamento mesmo. Onde que está o
erro? Não podemos mais deixar como está para ver como fica” (O Globo,
26/11/18).

A força do bloco ABP/CFM/Comunidades Terapêuticas, conseguiu levar o ex


Ministro de Desenvolvimento Social, um dos arquitetos dos retrocessos nas
políticas públicas de drogas e que fez a intensa ofensiva sobre o CONAD
(Conselho Nacional de Drogas), Osmar Terra, para o Ministério da Cidadania.
Que gerou inclusive intenso mal estar na bancada evangélica ao ponto de
Malafaia afirmar: “Gratidão é memória do coração”.

Conseguiu também garantir na mudança da SENAD (Secretaria Nacional de


Drogas) do Ministério da Justiça, que agora com Sergio Moro, terá o procurador
da Fazenda Nacional, Luiz Roberto Beggiora, com o foco central de gestão de
ativos sequestrados e confiscados do tráfico de drogas, que as demais
atribuições de fomento as políticas públicas de álcool e outras drogas sejam
transferidas para o Ministério da Cidadania, de Osmar Terra. Garantindo que
toda a política pública de álcool e drogas esteja na mão de Osmar Terra que
entre outras coisas avalia: “A maior parte da tragédia que se abate sobre a
nossa juventude hoje, na epidemia de drogas e violência, tem a assinatura dos
que se intitulam liberacionistas, ou antiproibicionistas, responsáveis por essa
política caótica vigente, de forte cunho ideológico, ineficaz e completamente
fora da realidade. A sociedade brasileira está pagando um preço muito alto por
isso, inclusive com a vida de milhares de seus filhos mais jovens”.

Para mim, o tempo dos retrocessos na reforma psiquiátrica já se consolidou


e abriu campo agora para uma nova fase: a da contra-reforma.

Para tal, queria fazer um paralelo, com o surgimento do conceito de contra-


reformas, que se realizou, no século XVI, quando a Igreja Católica, buscou frear
o sopro de modernização e de questionamento das estruturas da igreja-estado,
que se iniciou com Martin Lutero e que criou o que chamamos de Reforma
Protestante. Naquele momento, para frear a REFORMA (mudanças estruturais,
conceituais e de novas práticas) o Papa Paulo III convocou um concílio para a
cidade italiana de Trento. O Concílio de Trento foi realizado entre os anos de
1545 e 1563.

A contra-reforma iniciada após o Concilio de Trento teve como marca uma


reação dura que visava atingir, em cheio, as bases e os sentidos abertos pela
Reforma Protestante. A saber:

 Retorno da Inquisição;
 Criação do Índice de Livros Proibidos (Index Librorium Proibitorium);
 Criação da Companhia de Jesus.

Assim, a contra-reforma teve três macros iniciativas: 1. Garantir pela força


(através de seus espaços de poder) o avanço da Reforma, atacando assim, sua
capacidade de interação social (desacreditar, impor, utilizar o discurso do medo
social); 2. O controle da narrativa (controle do que se diz, do que se publica) ao
impedir que as “idéias” da Reforma se propagassem; e 3. Criação de uma
máquina de propagação das idéias e valores da contra-reforma, levando ao
máximo de países e comunidades, suas posições, valores e “verdades”.

Nesse aspecto, o conceito e o paralelo aqui apresentado, de abertura da


fase de uma Contra-Reforma Psiquiátrica, faz alusão à uma intensificação, a
mudança de gradiente, de condições objetivas, para transformar a agenda que
se iniciou em 11/12/2015 de retrocessos da política de saúde mental, que se
intensificou e consolidou durante a gestão de Quirino, em uma nova fase, onde
se busca impor uma Contra-Reforma.

A fase de Contra-Reforma se abre através da eleição, com legitimidade


social das urnas, de um governo de extrema direita e de um congresso nacional
mais conservador, tendo na eleição da bancada do PSL e de um forte
protagonismo político do DEM sua coroação. A eleição de maneira mais geral
abre uma crise de regime na nova república e nos valores e sentidos dela
aberto com a Constituição de 1988, a idéia central de progressividade e
universalidade dos direitos.

Para o campo da saúde mental e drogas dá as condições objetivas para


transformar qualitativamente a agenda de retrocessos em política de estado e
de um novo marco legal.

Assim, as principais características dessa nova fase, da Contra-Reforma


serão: 1. Democracia de baixa intensidade: o método de passar por cima dos
conselhos e dos debates públicos, e da imposição, pelo uso da força de maiorias
nas casas legislativas e da caneta do executivo serão intensificados; 2. Uma
guerra de narrativas (info war) será realizada, buscando evidenciar como a
RAPS, é incapaz, má gerida, que não dá respostas, e como a “internação”, o
“isolamento social”, o “cuidado ambulatorial” são mais eficazes, tanto
economicamente, quanto socialmente; e 3. A ampliação e consolidação do bloco
social e político (ABP/CFM/Comunidades Terapêuticas) para construir máquinas
de guerra, para levar a frente seu “discurso”, “suas narrativas” e suas
“verdades”.

Isso, já esta anunciado com o lançamento da Frente Parlamentar com o


objetivo de avançar com a consolidação de um novo marco legal, uma “nova
política de saúde mental” e com o anúncio de dois ministros, saúde e cidadania,
que no âmbito do executivo irão garantir sua implementação e financiamento,
bem como, garantir os ataques necessários a reforma psiquiátrica.

A questão que se abre é: o Poder Judiciário vai ser instrumento da


Contra-Reforma? Qual o grau de reação dos Ministérios Públicos e das
Defensorias Públicas? Quais contradições serão abertas no poder legislativo com
a construção dessa agenda do novo marco legal para a saúde mental e drogas?
Os grandes meios de comunicação vão se alinhar em sua maioria, a agenda da
Contra-Reforma?

Deixo aqui uma reflexão que também faz alusões com processos de
Contra-Reforma na história, onde forças conservadoras buscam frear a roda da
história, buscam impor “longos invernos” a progressividade, a modernização e a
ampliação de direitos sociais: Os setores progressistas, que querem uma
democracia de alta intensidade, uma cidadania ativa, que querem os direitos
acima dos interesses de mercado conseguirão criar Frentes Únicas para
enfrentar a Contra-Reforma? Criar unidades de ação, de construir unidades na
diversidade? Ser caixa de ressonância de nossas experiências exitosas de mais
de 30 anos de reforma psiquiátrica no país? Ampliar nossa presença social em
conselhos por todo o país? Criarmos Frentes Parlamentares e iniciativas
legislativas que impeçam a consolidação da Contra-Reforma? E principalmente,
de expandir e fortalecer movimentos, coletivos e associações que garantam o
protagonismo social dos avanços e conquistas da reforma psiquiátrica?

Nessa fase de Contra-Reforma, a necessária unidade na diversidade, tem


que passar de vontade, de desejo à ATO. É hora de transformar os acúmulos e
as experiências exitosas de mais de 30 anos de história em um grande
movimento de ações práticas diversas, inovadoras, criativas em todo o país,
para derrotar as forças e as narrativas da Contra-Reforma.

Termino com um poema de Brecht, O Alfaiate de Ulm, que narra uma


história de um sonho, de uma potência criativa, do desejo do homem voar, mas
que na época foi derrotado, pois ainda não era possível, mas que tempos depois
esse sonho tornou-se realidade.

Nosso sonho, de voar, nessa encruzilhada histórica, nesse longo inverno


que se anuncia para as forças democráticas e populares no país, tem que se
afirmar em práticas transformadoras, nosso sonho em ATO.

Bertolt Brecht, poema: O ALFAIATE DE ULM (Ulm, 1592)

Bispo, eu sei voar


Disse ao bispo o alfaiate.

Olhe como eu faço, veja!

E com um par de coisas

Que bem pareciam asas

Subiu ao grande telhado da igreja.

O bispo não ligou.

Isso é um disparate

Voar é para os pássaros

O homem nunca voou

Disse o bispo ao alfaiate.

O alfaiate faleceu

Disseram ao bispo as pessoas.

Era tudo uma farsa.

Sua asa partiu

E ele se destruí

Sobre o duro chão da praça.

Façam tocar os sinos

Aquilo foi invenção

Voar só para os pássaros

Disse o bispo aos meninos

Os homens nunca voarão.

Leonardo Pinho – Vice Presidente da Associação Brasileira de Saúde


Mental (ABRASME), Presidente do Central de Cooperativas Unisol Brasil e
conselheiro do Conselho Nacional de Direitos Humanos