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Ficha de trabalho 16

Educação Literária

Nome ____________________________________________ Ano ___________ Turma__________ N.o _________

Unidade 3 – Poetas contemporâneos: Miguel Torga

Lê o seguinte poema e responde às questões.

Bucólica

A vida é feita de nadas:


De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
5 Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais

10 De poeira; Camille Pissarro, Estrada de Saint-Germain, 1871.


De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga, Diário I, in Poesia Completa, Vol. I, Lisboa, Dom Quixote, 2007, pp. 96-97.
.

1. «A vida é feita de nadas»


1.1 Procede a um levantamento dos «nadas» a que se refere o sujeito poético.
1.2 Esclarece o sentido do verso acima transcrito.
2. Explica a importância que os «sinais / De ninhos que outrora havia / Nos beirais» (vv. 7-9)
assumem no poema.
3. Explicita o sentimento expresso pelo «eu» poético ao ver o pai «a erguer uma videira» (v. 13).
4. Refere o valor expressivo da comparação «Como uma mãe que faz a trança à filha» (v. 14),
considerando o contexto em que se integra.
5. Justifica o título do poema, tendo em atenção o respetivo conteúdo.

Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano 185


Ficha de trabalho 17
Educação Literária

Nome ____________________________________________ Ano ___________ Turma__________ N.o _________

Unidade 3 – Poetas contemporâneos: Miguel Torga

Lê o seguinte poema de Miguel Torga e responde às questões.

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão


E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
5 (Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso procurar
O velho paraíso
10 Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela


E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão Henri Le Sidaner, Casas do Porto sob o Luar, 1923.
15 Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga, Antologia Poética, 5.ª ed., Lisboa, D. Quixote, 1999.
.

1. Explicita a adequação do título ao poema.


2. Identifica os diferentes momentos da «Viagem» a que o título se reporta.
3. Relê a primeira estrofe.
3.1 Explica o valor simbólico que os elementos «barco» e «marinheiro» adquirem no contexto
deste poema.
3.2 Esclarece a possível intenção da utilização das reticências e dos parênteses nesta estrofe.
4. Relê a segunda estrofe.
4.1 Aponta os traços caracterizadores do sujeito poético.
4.2 Indica um recurso expressivo presente nesta estrofe, explicitando o respetivo valor
contextual.

186 Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano


Ficha de trabalho 18
Educação Literária

Nome ____________________________________________ Ano ___________ Turma__________ N.o _________

Unidade 3 – Poetas contemporâneos: Eugénio de Andrade

Lê o seguinte poema de Eugénio de Andrade e responde às questões.

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.


Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
5 de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente


o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
10 e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,


e silêncio
15 à roda dos seus passos. Edvard Munch, O Beijo, 1892.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Lisboa, Editorial Inova Limitada, 1980.

1. Explica de que forma se estabelece um contraste aparente entre a repetição anafórica presente
no poema e o título.
2. Indica a função sintática que o título desempenha em relação a todas as frases que se iniciam pela
referida referida repetição.
3. Comenta o valor do tempo verbal reiterado ao longo do poema.
4. Identifica, no poema, uma personificação e uma metáfora, esclarecendo os respetivos valores
expressivos.
5. Explicita o sentido dos três últimos versos e o valor do conector que os introduz.

Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano 187


Ficha de trabalho 19
Educação Literária

Nome ____________________________________________ Ano ___________ Turma__________ N.o _________

Unidade 3 – Poetas contemporâneos: Eugénio de Andrade

Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou


o retrato adormecido
5 no fundo dos teus olhos.

Tudo porque perdi as rosas brancas


que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,


10 talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;


esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
15 ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –


às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração


20 rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:


Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

25 Mas – tu sabes – a noite é enorme,


e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.


30 Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in Primeiros Poemas / As Mãos e os
Frutos / Os Amantes sem Dinheiro, Quasi Edições, 2006.
.
188 Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano
1. Indica o tema do poema e explicita a forma como ele é desenvolvido.
2. Explicita as causas do atual desencontro afetivo do sujeito poético e da sua mãe.
3. Interpreta as metáforas que expressam essas causas, centrando a tua atenção nas palavras
«retrato»/«moldura», «rosas brancas» e «aves».
4. O último verso parece anunciar uma escolha definitiva. Comenta-a.
5. Faz a análise da estrutura externa do poema.

Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano 189


Ficha de trabalho 20
Educação Literária

Nome ____________________________________________ Ano ___________ Turma__________ N.o _________

Unidade 3 – Poetas contemporâneos: Ana Luísa Amaral

Lê o seguinte poema de Ana Luísa Amaral e responde às questões.

Aniversário

Sentei-me com um copo em restos de


champanhe a olhar o nada.
Entre crianças e adultos sérios
Tive trinta em casa.
5 Será comovedor os quatro anos
e a festa colorida
as velas mal sopradas entre um rissol
no chão e os parabéns:
quatro anos de vida.

10 Serão comovedores os sumos de


laranja concentrados (proporções
por defeito) e os gostos tão
diversos, o bolo de ananás,
os pés inchados.

15 Será soberbamente comovente


toda a gente cantando, Paul Sérusier, Natureza Morta com Garrafa e Fruta, 1909.
o mau comportamento dos adultos
conversas-gelatinas e os anos
só pretexto.

20 Mas eu gostei. E contra mim gostei


mesmo no resto:
este prazer pequeno do silêncio
um sapato apertando descalçado
guardanapo e rissol por arrumar
25 no chão e um copo

olhando o nada
em restos de champanhe.
Ana Luísa Amaral, Poesia Reunida: 1990-2005, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2005.

190 Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano


1. Explicita o tema do poema e a forma como o conteúdo é desenvolvido.
2. Divide o poema em partes lógicas, explicitando o sentido de cada uma.
3. Evidencia e comenta a expressividade da dupla referência ao rissol dentro do que conheces das
temáticas de Ana Luísa Amaral.
4. Identifica os recursos expressivos evidentes nos três últimos versos e explicita o seu valor e
sentido.
5. Comenta a estrutura formal da composição poética.

Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano 191


Ficha de trabalho 21
Educação Literária

Nome ____________________________________________ Ano ___________ Turma__________ N.o _________

Unidade 3 – Poetas contemporâneos: Ana Luísa Amaral

Lê o seguinte poema de Ana Luísa Amaral e responde às questões.

Mais fácil é «a poet – it is that –»,


que a gramática nossa o não permite
e precisa dois gumes do estilete
– o que implicará sempre mais limite.

5 Mas, caso a regra for bem aplicada


(invertendo-se os termos da exceção),
porque não ler «poeta», feminino,
e masculino: ... vide conclusão?

Mas se poeta for quem mais repete


10 as quadras já ouvidas, recusando-
-as depois e repetidas, lembrando
utilidade imensa do estilete:

ou seja, a de espetar tais mil palavras


em cima de mil sílabas de mais,
15 sabendo que depois, uma palavra
é o que sobrará; e que das tais

mil e catorze sílabas só uma António Carneiro, Sinfonia Azul, 1920.


lá caberá (no verso, quero dizer),
que de tanto esforçar e se perder,
20 acaba por às vezes ser nenhuma.

E se poeta for nem paciente


nem ausente de tal, que a paciência
em demasia: coisa de serpente,
como é do seu contrário a sua ausência.

25 E se poeta for... inútil mais,


que de ridículo este definir
se perderá por versos mais e tais
que o verso às tantas poderá partir.

Mas quando se partir, aí o verso.


30 E quando se partir, aí o lume:
avançar muito além do definir,
não distinguir essência de perfume.

E na ausência de final dourado,


tal como na ausência de terceto,
35 a conclusão: nem homem, nem mulher,
ou então: a «poeta» e o «poeto»
Ana Luísa Amaral, Poesia Reunida: 1990-2005, Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2005.
.
192 Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano
1. Indica o tema do poema e explicita a forma como ele é desenvolvido.
2. Explicita a expressividade dos sinais gráficos utilizados no texto.
3. Esclarece de que modo o sujeito poético usa de uma certa ironia para desenvolver o tema do
formalismo literário associado ao significado da palavra «poeta».
4. Explica a importância da última quadra para a conclusão da temática desenvolvida ao longo do
poema, tendo em atenção as subtilezas do humor e da ironia.
5. Comenta a estrutura formal do poema.

Editável e fotocopiável © Texto | Mensagens 12.o ano 193