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O

ADERNO

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PUBLICAÇÃO DO SECRETARIADO
NACIONAL DE DEFESA DA FÉ
http://www.obrascatolicas.com /

ASTROLOGIA, QUIROMANCIA E QUEJANDOS


VOZES EM DEFESA DA FÉ
C a d e r no 35

FREI BOAVENTURA, O.F.M.

Astrologia, Quiromancia
e Quejandos

PUBLICAÇÃO DO
SECRETARIADO NACIONAL DE DEFESA DA FE1
EDITORA VOZES LIMITADA
1959
I M P R I M A T U R
POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO.
E REVMO. SR. DOM MANUEL PEDRO
DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PE-
TRÓPOLIS. FREI DESIDÉRIO KALVER-
KAMP, O. F. AI. PETRÓPOLIS, 30-V-1959.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


As Adivinhações Supersticiosas
Ei-los, os modernos hierofantes, a caminhar, sole­
nes e soberbos, numa inédita procissão: Astrólogos,
quiromantes, cristaloscopistas, magos, pitões, carto­
mantes, videntes, adivinhos, bruxos, necromantes, um-
bandistas, babalaôs, médiuns, ocultistas, teósofos, eso-
teristas, rosaeruzes, kabalistas, mentalistas. . . Não
triunfam apenas entre a gente humilde dos crédulos,
ingênuos, simples e papalvos: “Conheço ministros e
diplomatas, políticos e advogados, médicos e engenhei­
ros, homens de letras e de negócios, que vivem sob a
tutela de médiuns ou de simples cartomantes”. 1
’) A. da S i l v a Me l o , Mistérios e Realidades deste e do
mtro Mundo. Ed. José Olímpio, Rio 1950, p. 16. Por ocasião
da publicação da primeira edição dêste livro, o autor recebeu
muitas cartas relatando prejuízos ocasionados por práticas
ocultistas. Numa delas, vinda de Santos, lemos: “Quero-me
referir a essa multidão, que pretende obter a felicidade, a
saúde e resolver tódas as dificuldades, apelando para car­
tomantes, adivinhas, etc., etc. Anteriormente, eu supunha que
somente freqüentavam êsses oráculos pessoas tôlas e rústicas,
até que ocasionalmente, veio residir, nas proximidades de
minha casa, um indivíduo de nacionalidade lituana, que se
ocupava exclusivamente de cartomancia. Desejo acrescentar
que resido próximo da Av. Ana Costa, uma das principais
vias de Santos. O nosso homem adquiriu uma pequena casa,
em trecho da rua ainda não calçada, distante uns 60 motros
de minha residência. Posso lhe asseverar que a afluência
de pessoas que o iam consultar era muito grande e prolonga­
va-se das 6 da manhã às 24 horas. Como santista que sou,
sei distinguir as famílias desta terra e tive oportunidade de
reconhecer muita gente importante, ingressando na casa do
adivinho. Em dias de chuva, vi pessoas de alta sociedade
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O desejo de desvendar o futuro e conhecer o oculto


não é exclusivo dos tempos modernos, nem é coisa
própria do Brasil. E’ uma tentação antiga como a hu­
manidade. Surgiram assim numerosas formas de prá­
ticas divinatórias:
Aeromancia, pelo ar Conchomancia, pelos búzios
Alectromancia, pelo galo (conchas)
Aleuromancia, pela farinha Cranologia, pelo crânio
Alfitomancia, por alimentos Cristalomancia, pelo cristal
Alveromancia, pelo som Cromiomancia, pela cebola
Apontomancia, pelos encontros Cubomancia, pelos dados
Armomancia, pela juntura Dactilomancia, pelos anéis
Astrafalomancia, pelos dados Dafnomancia, pelo couro
Aritmomancia, pelos números Ebanomancia, pela fuligem
Aruspício, pelas vísceras Eromancia, pelo vaso de água
Astrologia, pelos astros Garosmancia, pelas chamas
Batracomancia, pelas rãs Gastromancia, pelo estômago
Belomancia, pelas flechas Grafologia, pela escrita
Bibliomancia, pela Bíblia Halomancia, pelo sal
Botanomancia, pelas plantas Hepatoscopia, pelo fígado
Brizomancia, pelos sonhos Hiromancia, pelo sacrifício
Cafeomancia, pela bôrra do Hipomancia, pelos cavalos
café Lampadomancia, pela lâmpada
Cansisnomancia, pela chama Lebanomancia, pelos perfumes
Capnomancia, pela fumaça Lecanomancia, pelo diamante
Cartomancia, pelas cartas Litomancia, por pedras
Cartofomancia, pelo espelho Minomancia, pelos ratos
Cefalomancia, pela cabeça de Necromancia, por mortos
asno Oniromancia, pelos sonhos
Ceromancia, pela cêra Oomancia, pelo ôvo
Cledonismancia, pelas pala­ Onicomancia, pelas unhas
vras Ornitomancia, pelos pássaros
Cleromancia, pelas favas Piromancia, pelo fogo
descalçarem os sapatos para transporem o lamaçal que se
formava no local. De certa feita, por engano, veio bater-me
à porta um alto funcionário da polícia, pessoa minha conhe­
cida. Indiquei-lhe a casa e fiquei presumindo que o homem
ia ser intimado. Na volta, achando-me no terraço, dirigiu-se
a mim: E’ um colosso o seu vizinho! até me forneceu uma
tabela para ganhar no bicho... Interpelei-o, se a polícia não
proibia essa coisas, respondendo-me que o homem tinha alta
proteção!. . . ”
Quiromancia, pelas mãos Sitomancia, pelo trigo.
Rabdomancia, pela vara Scianomancia, pela sombra
Nem todas estas práticas estão em uso entre nós. As
mais comuns são: Apontomancia (pelos encontros, por
ex.: com um gato prêto, coruja, padre, mulher idosa,
etc.) Aritmomancia (ou Numerologia), Astrologia, Bi-
bliomancia, Cafeomancia, Cartomancia, Conchoman-
cia (o famoso “jôgo dos búzios”, entre os umbandis-
tas), Cristalomancia, Cubomancia, Eromancia, Grafo-
logia, Necromancia, Oniromancia, Quiromancia e Rab­
domancia.
Veremos agora mais pormenorizadamente algumas
destas curiosas formas de prever e predizer o futuro.
Vejamos como procedem os exploradores das linhas
das mãos (Quiromancia), dos ganchos das letras (Gra-
fologia), da posição das cartas (Cartomancia), do jô­
go dos números (Numerologia) e da posição dos astros
(Astrologia).
A Quiromancia.

A Quiromancia, do grego cheír (mão) e mantéuo


(adivinhar), pretende conhecer o caráter, o destino, o
futuro, as doenças, a morte, e as condições morais e
mentais da pessoa por meio da análise e interpretação
da estrutura, forma e aspecto da mão, de suas partes
e das linhas, pontos e outras figuras que aparecem na
palma da mão. Já os antigos Caldeus, Egípcios, Gre­
gos e Romanos conheciam a leitura das mãos. Aris­
tóteles, Platão, Ptolomeu, os imperadores César e Au­
gusto praticaram ou apoiaram êste método divinató­
rio. Hoje êle é exercido não apenas pelos ciganos, mas
também por muitas outras “Madamas” e “Professôras”.
Pode-se conceder sem discussão que a estrutura, os
movimentos e a posição das mãos oferecem indicações
gerais sobre o caráter e a alma da pessoa. Como ins­
trumento de trabalho a mão é indiscutivelmente uma
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das grandes o.bras dà' natureza. Muitas vêzes seus jei­


tos e gestos são um espelho da alma. E’ eloquente
e fala por si a mão que trabalha, escreve, reza, supli­
ca, abençoa, acaricia, ameaça e castiga. A mão rude,
pesada e grande do operário nos fala da força, da ener­
gia e do amor pelo trabalho. Não menos reveladora
é a mão fina, delicada e cuidada de um músico ou ar­
tista. Não queremos discutir também o significado da
mão pontuda, quadrada, ovóide, espatulada, lisa, no-
dosa ou seminodosa. Parece-nos bem possível que tu­
do isso permita conclusões para o tipo do caráter ou
da personalidade de um indivíduo. Concedemos mesmo
a possibilidade de conhecer certas enfermidades na
forma e estrutura da mão. Ainda recentemente um mé­
dico da Universidade de Chicago, o Dr. Eugênio Schei-
mann, depois de longas observações, julgou ter encon­
trado relações entre a formação da mão e dos dedos
e o sistema das glândulas e dos hormônios. Não dis­
cutiremos tudo isso, porque a Quiromancia, essa arte
divinatória que agora nos ocupa, é coisa muito dife­
rente e pretende ir incomparavelmente mais longe.
Parece-nos que a melhor crítica da Quiromancia es­
tará na própria exposição desta estranha arte de adi­
vinhar. Porque, como se verá, tudo aí é arbitrário, fan­
tástico e tão sem base que não há possibilidade nem
mesmo de encontrar um fundamento objetivo que pos­
sa servir de ponto de partida para uma crítica pon­
derada.
A terminologia dos quiromantes lembra o vocabulá­
rio dos astrólogos. Segundo alguns, a Quiromancia se­
ria apenas uma Astrologia em miniatura: a mão ôca
como que representaria a abóbada celeste com os mes­
mos planetas a traçar inexoràvelmente o destino do
homem. Como os cálculos do astrólogo devem atender
à complicada ação e interferência dos planêtas, signos,
casas e ângulos, assim o bom quiromante terá que cal­
cular a ação das linhas, dos sinais, das formas e das
figuras da mão, dos dedos e das unhas. Não se sabe
por quê, mas o polegar e seu monte é o dedo e o mon­
te de Vênus, o indicador e sua saliência ou monte é o
dedo e o monte de Júpiter, o dedo médio é Saturno, o
anular Apoio ou Sol e o dedo mínimo é de Mercúrio.
A parte centra! da mão é atribuída a Marte e a protu-
berância na parte later-al, que se estende desde o dedo
mínimo até o pulso é o território da Lua. E aí temos
os sete clássicos planêtas da não menos clássica As­
trologia. E porque na Astrologia Saturno é o terrível
planêta da fatalidade e do destino, o nosso dedo mé­
dio passou a ser o dedo do destino. E o inocente po­
legar, identificado como Vênus, é o dedão do amor. . .
O quadro completo fica assim:
Polegar=Vênus=amor, vontade, saúde...
Indicador=Júpiter==generosidade, henras...
Médio = Saturno ^destino, fatalidade...
Anular=Apo!o ou Sol = ideal, a rte ...
Mínimo=Mercúrio== ciência, intuição, habilidade...
Parte Central=Marte = atividade, energia, expansão...
Parte lateral = Lua^imaginação, geração, crescimento...
A parte mais importante e mesmo central da Quiro-
mancia está nas linhas das mãos, seu percurso, seu com­
primento, sua grossura e sua côr. Os quiromantes dis­
tinguem oito linhas principais:
1) A linha do destino ou de Saturno: parte do dedo
médio, atravessa veríicalmente toda a mão e vai ter­
minar no pulso. Indica os acontecimentos e as mudanças
da vida. E’ influenciada por Vênus e pela Lua em bai­
xo e por Júpiter e Apoio em cima. Em bom estado in­
dica grandes bens materiais, dignidade, êxito nas em-
prêsas, destino feliz e sorte nos negócios. Em mau es­
tado produz perda de posição, embaraços na vida,
fim miserável. Pode indicar doenças crônicas e de di-
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fícil cura (reumatismo, má circulação, cárie de ossos)


e morte por queda, submersão, asfixia, esmagamento. ..
2) A linha da arte ou do Sol (ou Apoio): parte do
anular e dirige-se para baixo, podendo encontrar-se com
o polegar ou o pulso. E’ influenciada por Vênus e Mar­
te em baixo, por Mercúrio e Saturno em cima. Em
bom estado promete glória, renome, dignidades, dá
amizades poderosas e celebridade depois da morte.
Em más condições denota inimizades, má reputação, in­
sucesso nas emprêsas. As doenças produzidas pelo Sol
são as palpitações, doenças dos olhos, síncope, etc.
Causa a morte por síncope, doença epidêmica, pelo
fogo ou por ordem de pessoas poderosas.
3) A linha da intuição ou do Mercúrio: parte do mí­
nimo, dirige-se para o pulso, indo terminar quase no
mesmo nível que a li­
nha do Saturno. E’ in­
fluenciada pela Lua em
baixo e por Apoio em
cima. Em bom estado
favorece as emprêsas e
os negócios comerciais,
dá numerosas relações e
amizades, promete lu­
cros. Em mau estado
acusa decepções nos ne­
gócios, produz instabi­
lidade na posição, in­
clina ao roubo. Suas
doenças são do sistema
nervoso e da mente.
Produz a morte por as­
sassinato, envenena­
mento, sífilis, suicídio.
4) A linha do com-

10
• - .
ção ou de Júpiter: parte do seu monte, dirige-se hori­
zontalmente para o dedo mínimo. E’ a linha da pai­
xão, do devotamento, da ambição, dos sentimentos no­
bres e da cólera. Em bom estado dá distinções, hon­
ras, amizades sinceras, casamento feliz, riquezas e lu­
cro nos negócios. Em más condições denota dificulda­
des na posição, desgostos na família, prejuízos em ne­
gócios legais. As principais doenças causadas por Jú­
piter são corrupção do sangue, doenças do fígado, dos
pulmões e da garganta. Causa morte repentina por
doença, submersão ou na guerra.
5) A linha da cabeça ou de Marte: começa entre o
polegar e o indicador e atravessa horizontalmente to­
da a mão. Governa a atividade, a energia e a expan­
são. Bem conservada, dá posições militares, triunfo
sobre os obstáculos e inimigos, grande atividade. Mal
conservada, produz inimizades, perda de fortuna, ciú­
mes, dissipação, adultério. Causa febres, varíola, tifo,
doenças violentas. Indica morte por fogo, armas cor­
tantes, operações cirúrgicas, mordeduras de animais. ■

6) A tinha da vida ou de Vênus: começa também en­


tre o polegar e o indicador e rodeia o monte de Vê­
nus (do polegar). Em boas condições dá simpatia e
benevolência de todos, favorece os assuntos amorosos,
o casamento, os filhos. Em mau estado denota infeli-
cidades no amor e no casamento. Vênus causa doen­
ças venéreas e mal nos rins. Produz a morte em con­
sequência de excessos, abuso de prazeres, envenena­
mento, remédios errados. E’ principalmente nesta linha
que podem ser vistas todas as doenças.
1) A linha da Lua: são pequeninas e em grande nú­
mero, graduadas no lado externo da mão, desde o mí­
nimo até o pulso. A Lua preside a imaginação, a ge­
ração e o crescimento. Em boas condições dá renome,
riquezas, numerosa progênie, casamento feliz, popu-

II
laridade e êxito nas viagens. Em mau estado, a vida
será variável, ineert-a, cheia de dificuldades e obstá­
culos, com viagens infelizes.
8) Linhas de pulse, que se referem ao signo de Leo
e indicam sobretudo felicidade conjugal. Em boas con­
dições (por ex. três linhas paralelas), êxito e felici­
dade g-arantidos. Em más condições, indicam traba­
lhos penosos, sem esperança de adquirir fortuna.
Estas são as linhas principais. Há ainda linhas se­
cundárias: 1) a segunda linha de Vênus (acompanha
a vital, no monte de Vênus); 2) a linha do casamento
(nasce no território da Lua e atravessa o monte de
Mercúrio; 3) a linha da herança (no monte Vênus, en­
tre a raiz do polegar e a linha da vida); 4) o anel de
Vênus (nasce entre o indicador e o médio e termina
entre o anular e o_.mínimo).
Particular importância dão os quiromantes também
aos sinais, que modificam as influências das linhas e
que têm grande importância. Os principais são êstes:
1) Esírêlas: anunciam acontecimentos independen­
tes da vontade, mas podem ser combatidos.
2) Cruzes: pressagiam mudanças de posição.
3) Quadrados: indicam preservação de um infortú­
nio ou perigo.
4) Pontos: prenunciam ferimentos graves.
5) Triângulos1: vaticinam aptidão particular para a
política.
6) Raios: revelam muita vitalidade.
7) Manchas: predizem doenças.
Também as unhas possuem significado especial, prin­
cipalmente o sinal branco, o sinal prêto e as covas.
De modo geral aceita-se também esta regra funda­
mental: a mão direita indica preferentemente o passa­
do e questões familiares; a mão esquerda o futuro e
problemas pessoais.
/www

A Grafologia Divinatória.

A intensidade, forma, dimensão, direção, continui­


dade, ordem e harmonia das letras permitem certa­
mente conclusões acêrca de elementos gerais do caráter
de seu autor. Pode, por isso, a Grafologia ou a aná­
lise das letras ajudar-nos a conhecer certas qualida­
des fundamentais sobre o temperamento de uma pes­
soa. Certas moléstias, principalmente as que alteram
o sistema nervoso, podem modificar e caracterizar a
escrita do doente e, portanto, poderão ser também diag­
nosticadas pelo exame das letras. Existe, pois, indis­
cutivelmente, uma grafologia científica e séria.
Mas a grafologia popularizada, que anuncia pelos
jornais serviços seguros de informação sôbre as apti­
dões profissionais, o valor moral e intelectual das pes­
soas, esta parece transformar-se mais e mais em peri-
gosíssimos centros de falta de caridade e prudência,
em criminosos escritórios que irradiam a calúnia e a
difamação. Em nome da justiça, da caridade e da so­
lidariedade humana tais centros deveríam ser castiga­
dos e fechados. Pessoalmente sabemos de um rapaz,
educado e bom cristão, que deixou de casar só por­
que sua noiva recebera a seu respeito informações pou­
co lisonjeiras de um grafólogo criminoso e charlatão.
Que efeitos não poderá, por exemplo, produzir esta
informação, publicada num jornal do Rio, na secção
de consultas: “Pelos dados que mandou, sua noiva não
passa de uma aventureira de alto bordo. Ela se diz sol­
teira e, no entanto, já tem um filho, coisa que você ig­
norava até agora”. Será honestamente possível tirar
estas conclusões apenas da análise das letras? Ou es­
ta outra, publicada na mesma secção do mesmo nú­
mero: “Você precisa cuidar da saúde, principalmente
dos órgãos sexuais e da bexiga. Outra coisa: Trate
de vigiar o seu marido, se não quer ficar sem êle.

13
A coisa já vem desde há uns 4 meses e têm sido cons­
tantes os encontros. A sua rival reside nas imediações
de seu apartamento”. Imagine-se agora a situação des­
ta senhora. O grafólogo e o jornal que publica seme­
lhantes aleivosias deveríam ser processados e casti­
gados. Mas tudo isso continua impune, em nome da
“ciência” e da liberdade de imprensa. Na REB de 1957,
p. 972, denunciamos, outros exemplos dêste tipo de
criminosa exploração.
Temos diante de nós um manual de Grafologia, edi­
tado pela Emprêsa Editora “O Pensamento”, de São
Paulo (já em oitava edição), que pretende ensinar a
“arte de conhecer o caráter, as aptidões e as qualidades
da pessoa, pela forma da letra”. Pontos, traços, gan­
chos, cortes, floreados, curvas, inclinações da letra,
extensão da haste, tudo isso é minuciosamente explo­
rado não para conhecer certos traços gerais do cará­
ter (o que seria admissível até certo limite), mas pa­
ra adivinhar elementos especiais, particulares e parti-
cularíssimos acêrca da conduta da pessoa. Quando al­
guém escreve o A maiusculo em forma de a minús­
culo, já não há lugar para dúvidas: significa inércia,
disfarce, habilidade para atacar por trás, mentira. Se
o B maiusculo se apresenta com a haste elevada, é si­
nal de orgulho e arrogância; e quando o mesmo B
maiusculo forma uma espécie de barriga, denota ba­
nalidade, ênfase e falta de energia. O C fechado em
baixo e em cima exprime egoísmo e caráter pouco co­
municativo. Quando os anéis do d são muito exage­
rados denunciam imaginação desordenada, exaltação ce­
rebral, bizarria e pretensão, tendência à loucura. O
d terminado em curva para a direita mostra irrefle­
xão, caráter superficial, simulação, excentricidade. O
D barrigudo anuncia sensualidade, egoísmo, falta de
distinção. E maiusculo exagerado na base patenteia
positivismo, vulgaridade, falta de idéias, sensualidade
baixa. O h com a parte da direita encaracolada indi­
ca egoísmo, caráter pouco comunicativo e habilidade
em ocultar o pensamento. Não havendo ponto no i
temos falta de ordem e método, desdém e indiferença.
O / elevado sôbre sua base anuncia satisfação de si
mesmo, que pode chegar até a fatuidade. P maiusculo
ou minúsculo terminado por um gancho à esquerda
revela obstinação, exclusivismo, estreiteza de idéias.
Mas se o P formar barriga à esquerda mostra falta de
iniciativa, complacência consigo e sensualidade. Cor­
tado muito em cima, o t indica o hábito e a necessi­
dade de mandar, o despotismo, a vontade implacável,
a perseverança, uma energia indomável. O v minúsculo
simplificado sugere imaginação bizarra, sensualidade,
passiva. V terminado por um pequeno traço pontudo
marca a pessoa como irascível e m á ...
Querem que se tome tudo isso a sério?
Os charlatães da grafologia muitas vêzes costumam
exigir também, além da letra e do dinheiro, a fotogra­
fia, a data do nascimento e a profissão. São, é claro,
elementos muito mais preciosos do que a própria letra.

A Cartomancia.

A adivinhação pelas cartas é de todos os métodos


divinatórios o mais vulgarizado, no mundo inteiro. Des­
de o século XIII, quando apareceu o jogo das cartas,
surgiu também seu abuso para fins supersticiosos. Ge­
ralmente servem-se para isso do baralho comum, fran­
cês ou espanhol; mas os “grandes” cartomantes de pro­
fissão dispõem de naipes desenhados especialmente pa­
ra a adivinhação ( “tarot”). Os métodos e sistemas
variam muito, mas todos êles são igualmente fantás­
ticos e arbitrários, totalmente destituídos de base. Tam­
bém aqui, a única crítica que se poderia razoàvelmen-

15
te fazer, será a exposição sumária de um dêstes mé­
todos. Temos para isso à nossa disposição vários “Ma­
nuais” de Cartomancia.
Todos os métodos se fundam na significação espe­
cial que cada naipe ou figura do baralho teria para
a adivinhação. Todavia, nem mesmo para esta base exis­
te um código ou uma convenção internacionalmente
aceita pelos cartomantes. Parece, entretanto, segundo
os “manuais”, serem estas as “regras” mais comuns:
A escala dos valores obedece à seguinte ordem: Ás,
Rei, Rainha, Vaiete, Dez, Nove, Oito e Sete. Usam-se
geralmente 32 cartas. O valor dos naipes vai nesta
ordem: Paus, Copas, Ouros e Espadas.
O significado dos naipes: Pau prognostica felicidade
e mesmo em má configuração não será de mau agouro.
Copa significa alegria, liberalidade, boa disposição de
ânimo. Ouro exprime demora, desavenças e aborreci­
mentos. Espada, o pior dos naipes, indica pesar, doença
e perda de dinheiro.
O significado das figuras ou cartas:
Ás de Paus: alegria, dinheiro, boas notícias; inver­
tido significa que a alegria será de pouca duração.
Rei de Paus: homem franco, liberal, dado a servir;
invertido significa que dito homem sofrerá um desa­
pontamento.
Dama de Paus: mulher carinhosa, mas melindrosa
e irascível; invertida significa mulher ciumenta e ma­
liciosa.
Valete de Paus: jovem inteligente e empreendedor;
invertido significa um galanteador ou namorador ino­
fensivo.
Dez de Paus: sorte, sucesso ou grandeza; invertido:
insucesso em algo de pouca importância.
Nove de Paus: lucro inesperado, ou um legado; in­
vertido: um presente de pequeno valor.

16
Oito de Paus: afeição de uma pessoa escura, a qual,
se retribuída, será a causa de uma grande prosperi­
dade; invertido: afeição de uma pessoa insensata que
trará infelicidade.
Sete de Paus: pequena importância em dinheiro, ou
uma dívida inesperadamente salvada; invertido: soma
menor.
Ás de Copas: carta de amor, notícias agradáveis;
invertido: visita de um amigo.
— Mas para que continuar? Assim cada figura tem
(arbitràriamente) um significado convencional. Para
saber se uma carta está invertida, ou de cabeça para
baixo, deve-se marcar a parte superior com um lápis.
As figuras de Copas e Ouros em geral representam pes­
soas claras; as de Paus e Espadas, pessoas escuras.
Para botar a carta há muitos processos. O mais
comum é êste: Toma-se um baralho com 32 cartas e
escolhe-se primeiramente a figura que vai representar
o consulente: Para um cavaleiro de idade o Rei de
Ouros ou de Paus, conforme sua situação; para um jo­
vem um Valete de Espadas ou Copas, conforme sua côr;
etc. Esta primeira carta escolhida perde sua significa­
ção “esotérica” e representa apenas o consulente.
Baralha-se então o resto e deitam-se sôbre a mesa as
cinco primeiras cartas. Já pode então o cartomante
“ler a sorte” conforme o padrão acima exposto. Su­
ponhamos que aí estejam: Valete de Ouros, Rei de
Ouros, Sete de Espadas, Dama de Espadas e Sete
de Paus. A interpretação será: “O Valete de Ouros é
um belo rapaz de maus sentimentos, que está queren­
do fazer mal a um senhor vistoso, de uniforme (Rei
de Ouros) e de fato lhe causará algum desgosto (Sete
de Espadas), instigado por uma mulher rancorosa
(Dama de Copas). Felizmente, porém, com um pouco
de dinheiro tudo se arranjará fàcilmente (Sete de
A strologia — 2 17
Paus)”. — Ou, então, temos cinco cartas na seguinte
ordem: Dama de Copas, Valete de Paus, Oito de Co­
pas, Nove de Ouros e Ás de Paus. Lê-se então a se­
guinte sorte: “A Dama de Copas (isto é, a pessoa
cuja sorte estamos lendo) está, ou não tardará a estar
numa casa, onde se avistará com um rapaz moreno
(Valete de Paus), o qual lhe pedirá que intervenha
em seu favor junto a uma formosa môça (Oito de Co­
pas), pois tem sofrido, por causa dela, contratempos
e desilusões (Nove de Ouros). Uma carta, porém, está
para chegar (Ás de Paus), anunciando a posse do di­
nheiro, que resolverá tôdas as dificuldades”.
Se não fôr assim, há de ser mais ou menos isso. Per­
doem-me os cartomantes de profissão minha falta de
habilidades...
Um dos nossos “manuais” de Cartomancia faz ainda
a seguinte grave advertência: Muita gente gosta de pôr
as cartas uma segunda vez, para ver se elas confirmam
o que antes profetizaram. Aí exclama o manual: “Isso
é a confissão de descrença no que as cartas dizem, o
que vale por uma ofensa à Sorte, que na segunda vez
poderá apenas brincar com a pessoa, e dizer-lhe exa­
tamente o oposto do que antes elas predisseram. Con­
tente-se, pois, com uma única leitura, confie no que as
cartas lhe disseram, e há de ver como são exatas as
predições”.
Também, não pode mesmo haver motivos para des­
confiar. ..
Outro manual, de muita experiência, revela ao in­
cipiente cartomante tôdas as perguntas que os consu-
lentes irão fazer. Êle, pois, deverá estar preparado para
enfrentar tôdas as possíveis situações. E’ para nós
bem interessante saber as questões que levam nossa
gente aos antros dos modernos pitões: Viverei mui­
to tempo? A pessoa ausente está viva ou morta? Será
feliz a minha viagem? Será melhor minha saúde? Que
parte da minha vida será mais feliz? Ficarei rico?
Receberei o dinheiro emprestado? Obterei aumento de
ordenado? Concordarei com meus irmãos? Será bom
fazer uma pequena viagem? Quando posso viajar? O
que disseram de mim é bem ou mal? Posso comprar
uma casa ou propriedade? Qual é a qualidade da pro­
priedade? E’ bom mudar-me? Quando me mudarei?
Acharei a coisa perdida? Terei filhos ou não? Uma
mulher pergunta se está grávida ou não? A criança
viverá ou morrerá? Ganharei na loteria? E’ fiel o meu
empregado? Que parte do corpo está doente? Posso
fazer sociedade? Casar-me-ei? Casar-me-ei com o meu
atual namorado ou minha presente namorada? Serei
feliz no casamento? Qual é o caráter de meu marido
ou minha mulher? Haverá logo uma morte na família?
Quem da família morrerá primeiro? Serei feliz em
viagem por amor? Serei feliz no estrangeiro? Terei
êxito em negócios? Obterei promoção ou melhor or­
denado? Obterei o que espero? Tenho eu inimigos
ocultos? Qual é a aparência pessoal dos meus inimi­
gos ocultos?
Para tôdas estas eventualidades deverá o bom car­
tomante estar preparado. E — o que é bem mais sur­
preendente — para tudo isso o bom cartomante terá
sempre pronta e segura resposta. Eis aí alguns modos
de proceder:
Como dizer quantos filhos uma pessoa terá: Tire tôdas as
figuras do baralho. Embaralhe bem as cartas e corte-as três
vêzes, embaralhando-as depois de cada corte. Assim: se no
primeiro corte apareceu o Sete de Ouros, escreva 7; se no
segundo corte apareceu o Ás de Paus, escreva 1; se no ter­
ceiro corte apareceu o Quatro de Ouros, escreva 4. Some
então êstes números, que no exemplo dado perfazem 12, e
divida-o por 3, que no exemplo dado dá 4. A pessoa terá
quatro filhos. Se o total não fôr divisível por 3, divida mesmo
assim e despreze o resto. Assim: se o total dos três cortes fôr
2» 19
11, dividido por 3 dá 3, sobrando 2. Desprezamos o resto
e diremos que a pessoa terá três filhos.
Respostas prontas para quaisquer perguntas: Embaralhe
bem as cartas e faça de si para si uma pergunta qualquer.
Corte o baralho uma vez, e veja se a carta da bôca é vermelha
ou preta. Repita a operação de embaralhar e cortar três vê-
ze s... Se em duas das três vêzes houverem aparecido car­
tas vermelhas, a resposta é afirmativa. Todavia, se em duas
vêzes aparecerem cartas pretas, a resposta é uma afirmati­
va categórica, enfática. Se as três forem pretas, a resposta
será enfàticamente negativa.
— Canalhas!
Será a Cartomancia pecado ou apenas imbecilidade?
Será ofensa à lei de Deus ou injúria à razão do homem?
Decida-o o leitor.

A Aritmomancia ou Numerologia.

Bem sei que agora vou ocupar o leitor com a forma


mais perfeita e acabada da estupidez e imbecilidade.
Mas é preciso conhecer mais êste método de ilaquear
os papalvos. Eis como um autor inicia suas “Lições de
Numerologia” : “Ao têrmo de muitos anos de pesquisas
e estudo, aqui estou oferecendo a minha modesta con­
tribuição para a ciência (sic!) da Numerologia”. Pa­
ra êle é evidente “que os números exercem um papel
considerável na vida da maioria dos indivíduos”.
Para predizer o futuro com o auxílio dos números
é primeiramente necessário encontrar o número-chave
da pessoa, conjuntamente com o ano para o qual que­
remos a previsão. E isso se consegue somando a data
do dia, mês e ano do nascimento com o ano cujo fu­
turo desejamos conhecer. Fulano quer saber se o ano
de 1960 lhe será favorável. Fulano nasceu no dia 27
de maio de 1923. Todos êstes dados precisam ser re­
duzidos a um algarismo só e teremos o número-chave.
Eis como se procede: 2 + 7 + 5 + 1 + 9 + 2 + 3 = 2 9 =
p://www.oDrascatoncas.co
2+9=11 = 1+ 1=2; 1+ 9 + 6 + 0 = 16 = 1+6=7. Somam-
se agora os dois números finais: 2 + 7 = 9 . Nove será
o número-chave. Vai-se agora ao livro para saber o
significado do número 9 e o resultado será: “Êste ano
é um período em que será bom evitar ações irrefle-
tidas. Para obter sucesso material, você precisará de
muita coragem e iniciativa e de vencer a sua tendência
para desanimar fàcilmente. Talvez a sua situação ou
o seu ofício não correspondam atualmente à sua ex­
pectativa. Há, porém, claros indícios de melhoramen­
to, num futuro próximo. Êste período não é oportu­
no para fazer alterações no seu ambiente doméstico,
embora você sinta necessidade urgente de mudanças.
Talvez lhe apareça oportunidade de viajar, ou de to­
mar parte numa emprêsa de grande vulto. Você po­
derá completar, com probabilidade de êxito, o trabalho
interrompido. E o que você iniciar agora será levado
a têrmo mais fàcilmente do que noutro tempo. Novas
esperanças e ambições o ajudarão a executar novos
planos com sucesso”.
— Não creio nestas tolices; mas não gosto do nú­
mero 13!. ..
Qu-ando surgiram os primeiros aviões de passagei­
ros com as poltronas numeradas, faltava o n.° 13. Nos
hotéis falta muitas vêzes o quarto n.° 13 e em algu­
mas ruas o n.° 13 é substituído pelo n.° 12-a. Casar
num dia 13, começar uma viagem num dia 13, iniciar
um novo emprêgo num dia 13, ser o décimo terceiro
comensal num banquete... tudo isso inquieta e arre­
pia muita gente. E alguns dêles, quando se lhes per­
gunta se são cristãos, levantam os ombros com o mais
perfeito dos desprezos...

21
rwwwTobràscatoíicas.coi
Exploração e Mistificação.

Examinando os anúncios e folhetos da propaganda


ocultista, teremos já a descrição perfeita da vasta ex­
ploração e mistificação em que andam envolvidas as
artes divinatórias. Veremos: 1) quem promete, 2) o que
prometem, 3) como prometem e 4) como de fato cos­
tumam proceder.
1) Quem promete: Cada indivíduo, num vocábulo
paupérrimo, banalíssimo e supinamente idiota, depois
de declinada a sua qualidade de Vidente, Ocultista,
Quiromante, Astrólogo, Psicólogo, Grafólogo, Meta-
psiquista, Mago, etc., costuma emprestar a si próprio
os mais exaltados predicados e títulos: Professor (que
é o mais comum, porque não protegido pela lei), Dou­
tor, Famoso cientista, Célebre Professor, Grande Ocul­
tista, a Celebridade Mundial em Ocultismo, o Maior
Cientista do Universo, Professora Mme.. . . , a Célebre
e Benemérita Professora Madame, Célebre Cientista
Européia que acaba de chegar, a mais Extraordinária
Quiromante, a Quiromante mais reputada dos tempos
modernos; Mme. de Tal que não pode ser confundida
porque somente ela possui com exclusão de qualquer
outra pessoa a arte e o dom natural de poder infor­
mar, predizer e ajudar; a única na América que reol-
veu fixar residência particular nesta maravilhosa cidade;
a Célebre Cientista em Cartomancia, Quiromancia Cien­
tífica e Astrologia; Professora Mme. de Tal com ple­
nos conhecimentos desta ciência baseada nos célebres
segredos de Papus, Eliphas-Levi, etc. Não raro se apre­
sentam com documentos e diplomas comprovando seus
poderes, fornecidos por certas “Academias Científicas
Ocultistas”, ou por organizações esotéricas e rosacru-
cianas. Outros apresentam até documentos assinados
por médicos que confirmam a autenticidade de curas,
etc. Há também atestados de curas fornecidos pelos

22
próprios indivíduos por êles curados. Enfim, “confor­
me provam inúmeros atestados em nosso poder”, e o
modo mais comum de se credenciar. Alguns também
parecem ligar especial importância à questão de na­
cionalidade, pois julgam necessário fazer saber que se
trata de “parisiense”, “egípcia”, “romana”, “chilena”,
etc. Também os inúmeros países por onde teriam pas­
sado ou onde se teriam formado entram no progra­
ma publicitário: “Percorrendo diversas partes do Uni­
verso, “depois de percorrer as principais cidades da
Europa”, “com longos estudos na Arábia, Grécia,
índia”, etc.
2) O que prometem fazer: Com meia dúzia de co­
nhecimentos adquiridos em compêndios de Astrologia,
Cartomancia, Magia, Livros de Sorte, ou em cursos por
correspondência com o Círculo Esotérico da Comu­
nhão do Pensamento ou sociedades de Rosa-Cruz —
que tudo isso anda sôlto e livre entre nós — êles pro­
metem imensamente mais que os próprios políticos de­
m agogos... Dizem e garantem revelar os fatos mais
importantes da vida: passado, presente e futuro, com a
máxima exatidão; desvendar a vida de qualquer pessoa
que o desejar; desembaraçar quaisquer questões em
terrenos e propriedades; revelar os arcanos secretos;
diagnosticar sôbre qualquer sofrimento material ou es­
piritual; indicar o remédio certo para qualquer enfer­
midade; tirar o vício da embriaguez; fazer voltar um
ente querido; sobretudo ajudar em questões amorosas;
conseguir êxito na vida, na saúde, no amor, nos ne­
gócios e nas viagens; resolver dificuldades de vencer
a vida, infelicidades nos negócios, discórdia na família,
casamento difícil, questões em demanda; destruir al­
gum mal que nos perturbe; enfim, trabalhos de natu­
reza científica (sic!) sôbre quaisquer assuntos e para
qualquer fim que o cliente desejar.
3) Como prometem: Tão amplas promessas não são
feitas de modo incerto ou vago: Diagnóstico certo!
é o que prometem; e mais: garantia nos trabalhos!
serviços seguros! sem mistificação ou sofisma de qual­
quer espécie! e, sobretudo: não confunda com outras
que passaram por aqui! Pois esta Professora opera
com cartas de antigos e que só ela possui! Para ela
não há mistério presente ou futuro; e ela é perfeita,
absolutamente honesta nos trabalhos e declarada ini­
miga de qualquer espécie de charlatanismo. . . Ela la­
menta a existência dos charlatães e exploradores que
desta maneira difamam a “nobre ciência oculta”. “Se­
ja como S. Tomé: ver para crer! E’ favor não fazer
êste ou aquêle comentário antes de fazer sua consul­
ta”. E no mais: “Sigilo e discrição absoluta. Paga­
mento mediante resultado!” Ela também é católica...
“Bonde na porta”.
Tomemos, inteiramente ao acaso, um exemplo en­
tre os muitos:
“Participo ao distinto público desta bela Capital que aca­
ba de chegar a mais completa quiromante dos últimos tem­
pos, a professora de quiromante e ciências ocultas, com lon­
gos anos de estudos e prática, descreve com a maior faci­
lidade a vida humana, seus negócios, transações, questões
de amor, separações de pessoas íntimas e tudo que interessar
o consulente. Resolve os casos mais intrincados na vida con­
jugal: faz trabalhos para qualquer fim que o consulente so­
licitar dentro da ciência nobre que não é dado a qualquer
um conhecer. Quereis saber de vossas vidas? Tendes algum
desgosto íntimo? Quereis fazer voltar alguém que vos dei­
xou? Quereis saber por que os vossos negócios não vão
bem? Quereis curar algum vício? Ide consultar a grande cien­
tista que vos satisfará com uma só consulta e nunca mais
tereis aborrecimentos.
Ciência imensa pela sua profundidade, pelos seus mistérios
a ma;s importante de tôdas, pois ela resolve para o homem
o que mais o preocupa: O Futuro. Ela guiar-vos-á nesta
senda difícil que vos será penosa.
w w obrascatolicas.com/
Sua fama mundial de Ocultista e Quiromante ela conquistou
com sua carreira triunfal de Vidente, culta, privilegiada. Ela
vem do velho e milenário Oriente, nos confins da Ásia, do
berço das ciências ocultas, numa peregrinação através de to­
do Continente Europeu, e da América do Sul. Seus trabalhos
são rápidos e garantidos por meio da ciência Oriental”.
4) Veremos agora como procedem de fato. Alegam
constantemente trabalhar “com o auxílio da Ciência”,
“com o poder da Ciência Oculta”, “com o Poder As­
tral”, “por meios científicos”, etc. E para isso usam de
uma quantidade de objetos misteriosos: cristal, con­
chas, cartas, copo de água, números aparentemente
complicados, etc. Adiante analisaremos o modus pro-
cedendi com êstes objetos. Nas paredes há inscrições
cabalísticas, sinais misteriosos, figas monstruosas, ma-
nipansos, orações emolduradas, tudo misturado com
uma aluvião de cromos berrantes de folhinhas comer­
ciais, espelhos embaçados e penduricalhos de papel.
Geralmente costumam empregar vários métodos cru­
zados, como a Astrologia combinada à Quiromancia,
ou à Grafologia, às cartas do baralho ou outras com­
posições, como der na gana.
Tudo isso, entretanto, não passa de simples ence­
nação e de grosseira mistificação. O verdadeiro modo
de proceder se baseia nos seguintes expedientes:
a) 0 c o m p a d r e : O “consultório” deverá ter sua
sala de espera (e que pode ser um infecto e estreito
corredor, a varanda, ou também outras dependências
do terreiro). Este é o lugar dos cúmplices ou compa­
dres do hierofante. Conforme a freguesia e o renome,
êle terá dois ou mais dêstes preciosos auxiliares.
“Lá está a mulher idosa, de aparência miserável e doentia,
ou o sujeho maltrapilho e de fisionomia contristada. Com a
vez entrecortada, choramingando um nunca acabar de lamúrias
e de inauditas desventuras, o compadre ou a comadre acer­
ca-se dos visitantes fazendo-lhes ver e sentir a sua intermi­
nável série de desgraças, o Seu atroz caiporism® na vida,

25

y
misteriosos acontecimentos que os trazem em constante so­
bressalto, desgostos que, afinal, só a Madame X. ou o Pro­
fessor Z., em cujo consultório se acham, será capaz de des­
vendar. Fazem então a apologia do Ocultismo e enaltecem os
preciosos dotes morais e intelectuais da Madame, o seu ex­
traordinário dom de tudo predizer com o seu mágico tra­
balho. O visitante, a princípio desconfiado, acaba penalizando-
se diante de tantos padecimentos que lhe confessa o seu in­
terlocutor; fica sugestionado, cativo e deixa-se enlevar pelas
suas palavras trespassadas de dor e cheias de tanto
sentimento. Estabelece-se então uma espécie de momentâ­
nea intimidade, cabendo agora ao compadre a vez de ouvir
da própria bôca do paciente a narração completa dos mo­
tivos que o levaram à consulta. Termina aí o seu papel, que
consiste exatamente em colhêr dos consultantes todos os da­
dos e detalhes que dentro em poucos momentos vão ser trans­
mitidos por êle à Madame ou ao Professor, ficando êles,
assim, habilitados a adivinhar o passado e a desvendar o fu­
turo de cada paciente” (cf. Lázaro Augvin, Vozes de Petró-
polis, 1914, p. 173).
Outras vêzes os cúmplices elevem fazer o papel de
aleijados, cegos, etc., para simular as curas e fortale­
cer a fé e a confiança da freguesia nos poderes ex­
traordinários e sobrenaturais do curandeiro.
b) As s i n d i c â n c i a s p r é v i a s . Antes de ins­ %
talarem seus consultórios em determinada localidade,
certos videntes ou adivinhos procuram colhêr e anotar 4
informações sôbre as principais famílias do lugar, seus
problemas, suas relações de amizade ou inimizade, etc.
Para isto estudam atentamente o jornal local ou tor­
nam-se familiares das comadres mais faladeiras, que
nunca faltam. De insuperável auxílio será a lista, a
mais completa possível, dos doentes do lugar e dos que
lutam com dificuldades financeiras e com problemas
de amor. Feita esta sindicância e ordenado o fichário,
o consultório poderá começar a funcionar. . .
c) As r e s p o s t a s v a g a s . Sendo inteiramente
desconhecido o consulente, há o recurso às respostas
genéricas e vagas. Os manuais de astrologia e quiro-

26
maneia, etc., estão cheios de fórmulas mais ou menos
aplicáveis a quaisquer pessoas e circunstâncias. Neste
caso, naturalmeníe, o vidente deverá ter capacidade es­
pecial para exprimir-se e formar frases vagas e im­
precisas, de duplo sentido, que o consulente poderá
interpretar como quiser. Todo o mundo recebe ou es­
pera cartas, sofre contrariedades ou incompreensões,
espera em breve melhorar a vida, teme a vingança de
algum inimigo ou considera amigo quem não é, etc.
Referências à doença de algum parente ou amigo e
outras coisas dêste tipo sempre será bem acertado.
Sabe muito bem o esperto hierofante que o consulente
guardará somente o que está certo ou que lhe interessa
e vai esquecer e perdoar e mesmo desculpar o falho ou
o que não se realiza. E’ preciso contar também com o
estado especial de credulidade do cliente, que, por isso
mesmo, foi procurar o consultório. Quem não tem pro­
blemas não irá consultar um vidente. A experiência e a
psicologia do Professor ou da Madame facilitarão o
trabalho. Se o consulente é uma môça, o problema será
de namoro ou casamento; se fôr mulher de idade, será
doença (de senhoras, já se sabe) ou infidelidade do
esposo (uma vaga e desavergonhada alusão a um pro­
vocado aborto no passado acertará de cheio no ponto
mais sensível da consciência dela); se fôr homem, o
problema será de negócio ou finanças (com rápida re­
ferência a um empregado menos honesto, ou a um ami­
go que não é).
d) As r e a ç õ e s i n c o n s c i e n t e s do consu­
lente farão o resto. “Quem tem olhos para ver e ouvi­
dos para ouvir, disse Freud, há de comprovar que os
mortais são incapazes de ocultar segredos. Aquêle,
cujos lábios guardam silêncio, falará com a ponta dos
dedos”. Geralmente esta espécie de espertalhões que
aqui estamos estudando tem o dom de observação mui­
to bem desenvolvido através da longa experiência. Con­
seguem uma espécie de hiperestesia que lhes permite
perceber, mesmo sem ter consciência disso, sons, ima­
gens visuais, etc., que parecem imperceptíveis. Por
isso alguns adivinhos, pouco a pouco vão-se conven­
cendo a si mesmos e acabam acreditando sinceramen­
te em suas capacidades de desvendar o passado e pre­
dizer o futuro.
O “Fakir Birman" teve talvez a mais vasta experiência
de famoso vidente. Publicou depois Mes Souvenirs et mes
Secrets, com excelentes observações. “Que grande experiên­
cia dos homens se pode conseguir no consultório do ocultis-
1a! Até que eu fechei o meu, recebi as confidências de 502.000
franceses! Pode-se esperar encontrar um mais excelente obser­
vatório da vida contemporânea?... Cada um de meus clien­
tes estava persuadido que seu caso era o mais grave e o
mais inquietante que eu teria podido conhecer. Sua reserva
inicial se transformava logo numa revelação incrível de par­
ticularidades e num luxo assombroso de precisões sôbre os
aspectos mais dolorosos de sua existência”. O “Fakir Birman”
teve depois a paciência de classificar suas 502.000 fichas,
catalogando assim as principais tendências da clientela do
mistério. Verificou também que os homens são tão numerosos
como as mulheres. Uma classificação por profissão revelou
que os professores e mestres de escola ocupavam absoluta­
mente o primeiro lugar! Os médicos e os homens de negó­
cio eram também abundantes. A única profissão que não fi­
gura nas fichas do faquir era a de porteiro...
Passaremos agora a um estudo mais demorado da
Astrologia. Aparentando um aspecto mais sério e cien­
tífico, será necessária também uma crítica mais séria
e científica.
A Superstição da Astrologia.
A Astrologia nasceu provàvelmente na Mesopotâmia,
lá pelos anos 2500 A. C., mas ao serviço exclusivo
do Estado. Daí passou para a Grécia, já nas mãos do
povo. Depois estendeu-se ràpidamente pelo mundo in­
teiro e conquistou todo o vasto império romano. For­
temente combatida pelos cristãos dos primeiros sécu­
los, a superstição desapareceu pràticamente da Europa.
Com o advento dos filósofos árabes, no século XII,
ela reentrou na Europa medieval. O Humanismo do
século XV lhe ofereceu um ambiente ainda mais pro­
pício. Mas a fase mais florescente se deu no auge do
Renascimento, quando conquistou príncipes e cortes.
E nunca mais desapareceu da Europa. Segundo estatís­
ticas recentes, existem só em Paris 50.000 pitonisas,
adivinhos e astrólogos (um para cada 95 habitantes)
que diariamente recebem do público a fabulosa soma
de 75 milhões de francos.1 E um levantamento reali­
zado na Alemanha por um Instituto de Demoscopia
revelou que na parte ocidental cada décima pessoa
se deixa influenciar pela adivinhação, não havendo nis­
so diferença entre letrados e ignorantes.2 E nos Esta­
dos Unidos, segundo um inquérito de 1943, cinco mi­
lhões de americanos, homens e mulheres, consultam

l) Cf. Robert T o c q u e t, Tout 1’Octultisme Dévoilé, Paris


1952, p. 227, nota.
!) Cf. Philipp S c h m i d t, Dunkle Mãchte, Frankfurt a. M.
1955, p. 28 s.
adivinhos, e gastam anualmente 200 milhões de dó­
lares para conhecer o futuro. Naquela nação existem
30 mil astrólogos profissionais e vinte periódicos de­
dicados exclusivamente à Astrologia (um dêles com
500.000 exemplares) e para além de 200 jornais pu­
blicam regularmente sua rubrica astrológica. “São uns
animais estranhos” nossos contemporâneos — diria
Molière. Imbuídos de racionalismo científico, ávidos de
não ignorar nada da cibernética e desdenhosos e irri­
tados à menor alusão a Satanás, êles vão alegremente
encher a bôlsa de quantos, aproveitando-se da moda,
se converteram em mercadores de horóscopos e tra­
ficantes da influência oculta. E lá onde um pobre vi­
gário gasta quatro anos em erguer uma capela, em seis
meses se monta uma verdadeira oficina que despacha
anualmente seus vinte mil horóscopos”. 3
Não sabemos quantos são os astrólogos no Brasil
nem conhecemos o número de seus seguidores. Sa­
bemos apenas que é grande o exército de seus pro-
pagandistas. O Círculo Esotérico da Comunhão do
Pensamento com seu Almanaque d’0 Pensamento, nu­
ma tiragem de mais de meio milhão de exemplares, é
uma organização essencialmente astrológica4*, com
seus centros ou “tattwas” distribuídos amplamente por
tôda a nação. Astrológicas são também as organiza­
ções rosacrucianas ! e as sociedades teosóficas 6, tôdas
elas com seu sistema de propaganda, seus livros e suas
revistas especializadas. Também o Espiritismo de Um­
banda dá grande importância às práticas astrológicas
e divinatórias. Os centros kardecistas e as lojas ma-

a) Maurice C o 1i n o n, Faux Prophètes et Sedes d’Aujourd’


hui, Paris 1953, p. 35.
4) Cf. “O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento”,
n.° 9 desta coleção “Vozes em Defesa da Fé”.
s) Cf. “O Rosacrucianismo no Brasil”, n.° 10 desta coleção.
*) Cf. “As Sociedades Teosóficas”, n.° 11 desta coleção.
çônicas costumam encarar com muita simpatia tais su­
perstições. E, por último, não nos esqueçamos das or­
ganizações formalmente ocultistas e astrológicas, nem
dos inúmeros astrólogos isolados e independentes e
que fazem sua fortuna desta exploração da credulida­
de humana. E os nossos grandes jornais, mesmo os
sérios como O Globo, Correio da Manhã, etc., por
venalidade ou ignorância, publicam regularmente bole­
tins astrológicos, ajudando, assim, na difusão da cren­
dice.
Mas a Astrologia, como veremos, não é coisa tão
inócua assim e entra em conflito com os nossos mais
nobres sentimentos religiosos e cristãos. Esta é a ra­
zão principal por que não podemos deixar os fiéis sem
orientação e esclarecimento. Não basta dizer que é coi­
sa proibida: precisamos mostrar as razões por que o
cristão e o homem civilizado não devem orientar-se pe­
las normas da Astrologia. Paul C o u d e r c, conhecido
astrônomo francês, não quer defender apenas o bom
nome da Astronomia, mas a própria civilização, quando
reclama: “E’ dever dos astrônomos e de todos os edu­
cadores informar o público sôbre a verdadeira natu­
reza da Astrologia, mostrar que ela é um engodo, um
absurdo pseudo-científico e não uma ciência ao lado
da Astronomia”. ' Para podermos, pois, desenvolver as
nossas considerações críticas e tomar uma atitude cien­
tífica e cristã, veremos primeiro o que a Astrologia é7

7) Paul C o u d e r c , L’Astrologie (N.° 508 da coleção “Que


sa's-je?”) Paris 1957, p. 105. Recomendamos aos leitores que
quiserem aprofundar-se um pouco mais nesta questão êste
livrinho de 128 páginas. Grande parte das observações crí­
ticas que iremos desenvolver neste artigo foram sugeridas por
Couderc. Particular dever de gratidão temos também para
com o Pe. J o s é B e r n a r d, S. J., conhecido astrônomo do
Rio Grande do Sul (São Leopoldo) que prontamente nos for­
neceu as informações científicas sôbre as verdadeiras influên­
cias do sol, da lua, dos planêtas e dos astros em geral.
http://www.obrascatolicas.com/

ou pretende ser, quais seus princípios essenciais e o


mecanismo de suas predições.

Sumária Exposição da Astrologia.


-

Definimos a Astrologia como uma pretensa arte de


conhecer na posição ou na constelação das estréias
o destino, o futuro e mesmo o caráter do homem. “Não
somos pobres ou ricos, bons ou maus, inteligentes ou
bacocos (sic) por querermos; somos uma coisa ou
outra porque os astros assim determinaram no momen­
to do nascimento”. " Eis uma expressão típica das pre­
tensões doutrinárias e filosóficas da astrologia. “Em
vez de ser o homem que tece o seu destino, recebe-o
pronto e acabado. Quando nasce, os Astros põem-lho
às costas, já tecido, cosido e passado a ferro. Êle só
tem o trabalho de envergá-lo”. “ “Os Astros refletem
no ser humano, com a possível clareza, as caracterís­
ticas de temperamento, individualidade e caráter da­
queles que o destino, no momento preciso do nasci­
mento, marcou de forma indelével para toda a vida”. 6*10
Pois bem, estas qualidades do caráter e do tempera­
mento e tudo quanto o homem em sua vida terrestre irá
fazer ou empreender, o que há de gozar e sofrer, tu­
do isso — diz a Astrologia — não só já está minu­
ciosamente determinado pela direta influência dos as­
tros na hora do nascimento, mas também poderá ser

6) M. B o t e l h o d’A b r e u , Os Astros dominam e regem


o ser humano, Rio de Janeiro 1957, p. 26. Atenda-se ao pró­
prio título do livro que já é bem significativo e mostra que
a Astrologia tem por base uma doutrina filosófica, com um
fundo religioso. Eis por que afirmávamos que ela entra em
conflito com a religião cristã. E tais títulos não são raros.
Outro exemplo, também de um livro editado no Rio, em 1956
e compilado por S e l l e n J a z e r : A leitura do nosso des­
tino pelas estrelas.
’) M. B o t e l h o d’A b r e u, loc. cit., p. 58, em nota.
I0) R. Lapa, cit. por M. Botelho d’Abreu na p. 41.

32
previsto e vaticinado atendendo à exata posição dos
corpos celestes. O estudo destas influências, a verifi­
cação precisa da constelação dos astros na hora do
nascimento, a formulação de seus efeitos sôbre a cons­
tituição e a natureza do recém-nascido e a predição
de seu futuro: eis o que é ou pretende ser a Astrologia.
Não concordam entre si os astrólogos sôbre numero­
sos pontos periféricos. Há mesmo várias escolas que
se hostilizam mútuamente. Alguns querem distinguir
também entre astrologia popular (que seria deplorável
exploração) e “científica”. Mas pode-se dizer que exis­
te um fundo comum de doutrinas e princípios, aceito
por todos, seja astrólogos populares, seja “cientí­
ficos”. Por exemplo: todos necessàriamente hão de ad­
mitir uma distinta influência de determinado astro sô­
bre Pedro ou Paulo. Vejamos, pois, êste fundo comum:
a) Os planetas (incluídos o sol e a lua) possuem,
segundo êles, qualidades e atributos próprios e espe­
cificados: uns são frios, secos, masculinos, outros quen­
tes, úmidos, femininos; uns são maus e violentos; ou­
tros indiferentes e outros benéficos; cada um tem sob
seu controle certas propriedades físicas, fisiológicas,
mentais e sociais. Exemplo: planêtas bons e benéfi­
cos: Sol, Lua, Júpiter, Vênus; violentos e maléficos:
Saturno e Marte.
Especificaremos algo mais as qualidades próprias de
cada planêta, recorrendo a qualquer manual de Astro­
logia, que nisso não são originais:
Marte representa o homem de guerra. Sua influência em
geral dá origem à guerra, ao combate, à destruição e também
à reconstrução e a tôdas as causas em que o entusiasmo e
o patriotismo são predominantes. Sem sua influência nosso
mundo não teria energia. Marte representa a atividade, o mo­
vimento, a energia e o lado positivo da natureza. As pes­
soas nascidas sob sua influência são ambiciosas, desejam
estar à frente de algum empreendimento, são aptas para fa­
zer projetos, sabem prever os resultados. Marte faz sobretudo

33
http://www.obrascatolicas.com/
-- ■ ■ --■
-> 3
os altos militares, químicos, cirurgiões hábeis, mecânicos en­
genhosos, dentistas...
Vênus é o planêta do amor, da música, da poesia, das be­
las artes. E’ a estréia mais feliz. Quem nasceu sob sua in­
fluência será sempre afortunado, mesmo quando vítima da
fatalidade: sua estréia brilhará sem pre...
Mercúrio sempre foi chamado o Mensageiro dos Deuses,
porque tem por tarefa trazer de outros planêtas mensagens
do Sol. Mercúrio governa a memória. Êle é o nosso gover­
nador mental. Sem sua influência seríamos destituídos de me­
mória e, provavelmente, da palavra e dos poderes de expres­
são. Mercúrio dá aos seus filhos inteligência viva, pensamen­
tos rápidos, resposta sempre pronta, ditos espirituosos...
Lua é um planêta (sic!) de excepcional importância. As
pessoas nascidas sob sua influência são de caráter bondoso,
brando e tranqüilo. A Lua dá longa vida e auxilia na conser­
vação dos bens. Os lunares são pessoas com tendência de
nunca cumprir o prometido.
Sol é o rei dos astros. Os nascidos sob sua influência são
de temperamento vital e leonino...
Saturno é o rei da selvageria e da noite. Causa fome, tra­
balho, caresiia, esterilidade. Traz sofrimento, prisão, acidentes
em trabalho, quedas, ruínas. Representa inquietações, tar-
dança, desapontamento e desconfiança. Domina os avaren­
tos, solitários, melancólicos e os magos.
Netuno é o planêta da sabedoria e da perfeição. Incentiva
sonhos, avisos, visões, clarividência. E’ o astro do espiritis­
mo. E’ o diretor do mundo espiritual.
Mais espirituoso e original, M. Botelho d’Abreu, astrólogo
da terra, apresenta os seguintes tipos planetários:
Mercuriano tem olhos de lince e vê o dinheiro até no fundo
de um poço . ..
Jupiteriano é jovial, acolhedor e paga as contas com che­
que. ..
Solariano tem sorrisos comedidos e não entra em ônibus...
Lunático pula canteiro e, por engano, vai dormir no quarto
do vizinho...
Saturnino é sêco e desconfiado, cara de poucos amigos e
traz o fígado atravessado nos gorgomdos...
Marciano é têso, arrogante e pela mínima coisa dá um tiro
na formiga...
Venusiano é polido, lava os dentes e usa o chapéu à banda. . .'

34
«ifr
Uraniano é explosivo, rebenta pedreiras e atira as pedras
no inferno...
Netuniano é crente, bisbilhoteiro e abstrato...
Plutoniano é imparcial como Salomão e não se mete em
política...
b) Os signos do Zodíaco possuem também virtudes
e fôrças próprias. Dividem-se em positivos e negati­
vos, ativos e passivos, paternais e maternais. Cada um
controla determinada parte do nosso corpo. Cada um
deles está também associado a um planêta e, conforme
a harmonia, produz efeitos ou influências diferentes.
Recordaremos resumidamente as influências de alguns
signos, como amostra:
Signo do Carneiro: dá grande tendência às mudanças, trans­
formações, desejo de alterar e reformar. Os nascidos sob
êsfe signo são impulsivos, entusiastas, violentos, indóceis e
inclinados aos extremos.
Signo do Touro: faz a consciência se interessar pelos pro­
dutos da natureza e da arte, flores, perfumes, belas fazendas,
jó ias...
Signo do Aquário: é a evolução. Os nascidos sob esta in­
fluência são cem anos mais evoluídos que os nascidos em ou­
tras casas planetárias...
c) As Casas. As doze casas têm afinidade com os
signos do mesmo número e com o planêta diretriz do
signo. Há casas afortunadas (sobretudo a I e X), re­
gularmente felizes (como II e V) e infelizes (VI e XII).
Cada casa tem também sob seu controle determinado
domínio da vida e do indivíduo ou da vida das nações.
Mas há muita discussão acêrca da divisão das Casas
Zodiacais.
d) Os Aspectos ou os ângulos que os astros fazem
entre si, dois a dois, no Zodíaco. E então temos: con­
junção, semi-sextil, sextil, semi-quadratura, quadratu-
ra, trígono e oposição. O sextil e o trígono são favo­
ráveis. A quadratura e a oposição desfavoráveis. A
conjunção com o sol ou a lua: excelente.
Alguns astrólogos mais escrupulosos consideram e
medem ainda a influência individual das principais es­
trelas zodiacais (Aldebarã, Régulo) e de algumas re­
nomeadas estréias extrazodiacais, como Sírius e Vega
ou das estrelas vizinhas do horizonte e do meridiano.
Para que o astrólogo possa fazer suas predições
êle deve primeiro verificar qual a estréia dominante
(pois há estréias ou planêtas “senhores da hora”)
no momento do nascimento e examinar o signo e os
planêtas que estão eventualmente na casa X. Em se­
guida será preciso consultar os signos ou planêtas
nos outros ângulos e, sobretudo, não esquecer a po­
sição do Sol e da Lua. O signo e a casa ocupados por
um astro trazem significação própria e às vêzes sen­
síveis modificações. Todo planêta que está no signo
em harmonia com êle ou com o ângulo aumenta sua
influência benéfica. Mas quando está no signo ou na
casa com significação oposta, perde sua influência e
fôrça. Assim o Sol e o Júpiter, de per si bons e favo­
ráveis, têm suas forças enfraquecidas ou até anula­
das quando na casa VI ou XII. Depois é necessário
estudar detidamente os “aspectos” : ver se os elementos
principais, o Ascendente, o Sol, a Lua, Júpiter não são
perturbados pela oposição ou a quadratura ou até por
um planêta nefasto como o Saturno; ou se há aspectos
favoráveis, como o sextil e o trígono ou um astro pro­
pício, que então irão exaltar as influências fávorá-
veis. Por exemplo o maléfico Saturno, que é frio e con­
servador, poderá ter efeitos bem diferentes no Escor­
pião (que é também hostil e mau) ou no Sagitário
(que é generoso e altruísta). Ou Marte, símbolo da
energia e da ambição, terá seu poder máximo no Car­
neiro ou no Escorpião, dois signos que harmonizam
com Marte na violência; e se êste signo ainda estiver
no Ascendente, sua fôrça será levada ao máximo. As­
sim, em resumo, é preciso pesar tudo, associar tudo,
transformar os valores absolutos em valores relativos,
confrontar os planêtas com seus rivais, com os signos,
com as c-asas, com os aspectos ou ângulos e estudar
a posição dos signos nas casas. Só então poderá o as­
trólogo pronunciar seu definitivo vaticínio.
O processo, como se vê, é complicado e apresenta
aspectos científicos. Joga com gráficos, sinais, nomes,
números e dados que o simples leigo não pode enten­
der nem controlar. Qual o seu valor real? Que dizem os
verdadeiros entendidos e peritos, os astrônomos, so­
bre tudo isso? Antes de passarmos à parte propria­
mente crítica, parece-nos oportuno conhecer a opinião
das pessoas que realmente estudam e conhecem os as­
tros. O já citado astrônomo, Paul Couderc, é categó­
rico: “Não existe, atualmente, sôbre a terra, um só as­
trônomo, grande ou pequeno, que crê na astrologia”. 11
E uma das mais conhecidas sociedades de Astronomia,
a “Astronomische Gesellschaft”, de caráter internacio­
nal, fêz no congresso realizado em Bonn, em 1949, a
seguinte declaração:
“Em nossos dias aquilo que se intitula Astrologia,
Cosmobiologia, etc., não passa de uma mistura de su-
pejstição, charlatanismo e comércio. Certamente nem
todos os astrólogos se limitam a fornecer simples im-
pressos-tipos, com análises do caráter ou conselhos sô­
bre tôdas as situações da vida. Há mesmo “círculos
astrológicôs” que opõem a tais tolices sua própria As­
trologia pretensamente científica. Entretanto, nem esta
espécie de Astrologia conseguiu fornecer a prova que
seja verdadeira ciência ou que seus métodos sejam de
fato científicos. E as predições que casualmente se
realizaram não modificam esta situação. A Astrologia
não passa de um sistema arbitrário de regras de jôgo”.
“ ) Paul C o u d e r c , L’Astrologie, Paris 1957, p. 52.
Tomemos um exemplo de nossos dias e do nosso meio.
Pouco antes das eleições de 3 de outubro ultimo, a revista
O Cruzeiro publicou uma grande reportagem sob êste titulo:
“Astrólogo Dorsan prevê: Auro será o próximo Governador
Paulista”. Com muita publicidade é primeiramente apresen­
tado o astrólogo Dorsan, “conhecido na Europa e nos E.U.A.,
tendo viajado pela índia e pelo Tibete, possui os horósco­
pos de dez mil personalidades conhecidíssimas, entre as quais
o Cardeal Spellman”. Esta última revelação era suficiente
para concluir: “Pode ver por isto que a astrologia não con­
traria a religião. Não se opõe também aos nossos princípios
cristãos”. Dorsan diz-se ainda membro da Federação Ameri­
cana dos Astrólogos e fundador do Instituto de Cosmobiolo-
gia e trabalha neste ramo desde 1937. “Sou, portanto, maior
de idade em astrologia. Tenho vinte e um anos de estudos,
falo de cátedra e os fatos nunca desmentiram as minhas pre­
visões”. E vai então anunciar o resultado das eleições de
3 de outubro em São Paulo. “Trabalhei mais de duzentas
horas nos horóscopos dos candidatos”. E os candidatos eram
três: Ademar de Barros, Auro M. Andrade e Carvalho Pinto.
Prediz que Ademar não pode ganhar: "Vários motivos téc­
nicos impedem a sua vitória”. Quanto ao Sr. Carvalho Pinto,
o seu horóscopo “não oferece também elementos sustenta-
dores para uma vitória” e passa a prová-lo com matemática
certeza: “Nascido em 15 de março, com o Sol a 23°48’54”
do Signo Pisces, recebendo uma quadratura (ângulo de 90
graus e o pior de todos) de Saturno, chamado o Grande
Maléfico”. E anuncia então a fácil vitória do Sr. Auro Moura
Andrade, “o único que possui, no seu horóscopo de nasci­
mento, não somente a ausência total dè aspectos negativos,
mas — e principalmente -—■ fatôres astrológicos absoluta­
mente positivos, extraordinários e matemàticamente exatos”.
Em seguida desenvolve três “motivos técnicos” de sua pre­
visão e acrescenta: “Eu poderia dar-lhe mais cinqüenta re­
ferências astrològicamente boas sôbre o Senador Auro”. —
E’ assim, com tanta certeza, que falam os astrólogos. Apre­
sentam-se com os mais retumbantes títulos e folhas de ser­
viço e com “fatos que nunca desmentiram as previsões”. Mas
na realidade, quais foram os resultados das eleições de 3 de
outubro? Auro M. de Andrade, tão espetacularmente secun­
dado pelos astros, recebeu 171.084 votos. E o Sr. Carvalho
Pinto, vitimado pela quadratura de Saturno, foi eleito com
1.303.463 votos. Mesmo Ademar de Barros, pouco favore-
cido pelo poder astral, recebeu 1.105.565 votos. Mas estamos
certos que amanhã o astrólogo Dorsan continuará a procla­
mar: “Os fatos nunca desmentiram as minhas previsões”.
Pois isso pertence à arte de prever pelos astros...

Realidade e Extensão das Influências Astrais.

O grande argumento dos astrólogos se fundamenta


nas irradiações e influências dos astros sôbre a terra.
Por conseguinte, para podermos fazer uma crítica jus­
ta da Astrologia, precisamos conhecer a realidade e a
extensão destas influências.
a) A influência do Sol. O Sol é uma enorme esfera
de gases (hidrogênio e hélio) muito quentes, com a
temperatura externa de 5.800°C e interna talvez de
20.000.000°C. Sua massa é 333.000 vêzes maior que
a terra. Assim se compreende que deve haver influência
poderosa do Sol sôbre o nosso planêta. A terra gira
incessantemente em redor do Sol e dêle recebe a luz
e o calor. A própria vida aqui se mantém só porque
não estamos nem perto demais nem distante demais
do Sol. Também todos os fenômenos meteorológicos
(ventos, nuvens, chuvas, clima) dependem do Sol. Nos­
sa alimentação animal e vegetal e seus subprodutos,
como também as energias (ventos, quedas de água,
carvão, petróleo, fôrça animal), tudo é influenciado
diretamente por êste poderoso astro. O Sol emite ondas
eletromagnéticas de todos os tamanhos: métricas, de-
cimétricas, centimétricas ( = ondas de rádio: curtas
e ultracurtas), milimétricas e até milésimos de mm
( = ondas infravermelhas, de calor) e meio milésimo
de mm (ondas de luz) e menores ainda, como os raios
ultravioletas, raios X, raios gama, que, providencial-
mente, por serem mortíferos, são quase todos absor­
vidos pela atmosfera. Êstes últimos raios ultracurtos
ionjzam a camada superior da atmosfera, chamada por
riódica de uns 11 anos e em cada um destes períodos
tem um “máximo de atividade”, caracterizado pela
aparição de muitas manchas solares, e um “mínimo”,
quando as manchas não aparecem. Estas manchas pro­
duzem campos magnéticos e vomitam para o espaço
íons e eléctrons. O Sol causa também perturbações
magnéticas na terra, periódicas (diárias, constatadas
por variadas posições da agulha da bússola) e irregu­
lares (como as tempestades magnéticas que podem du­
rar horas, impossibilitando as transmissões telegráfi­
cas e telefônicas, com ou sem fio). Afirmam os obser­
vadores ter constatado por estatísticas que os anos de
freqüentes manchas solares são mais quentes, mais
chuvosos e produzem variações climáticas, influindo as­
sim nas colheitas. — São, pois, numerosíssimas as in­
fluências do Sol. Entretanto, tôdas elas são gerais e
universais, sôbre tôda a terra e todos os homens, com
efeitos diferentes segundo os diversos climas e as va­
riadas disposições fisiológicas dos homens. Estes efei­
tos não podem ser previstos e medidos com precisão
e ninguém pode honestamente predizer os futuros in­
fluxos sôbre determinados indivíduos, porquanto os in­
fluxos são exatamente os mesmos para todos os
homens.
b) Influências da Lua: Ela ilumina a noite, alegra
os homens, excita a fantasia e desperta sentimentos
nostálgicos. Sua luz incerta pode causar enganos, fa­
zer ver coisas inexistentes (fantasmas), excitar a ima­
ginação e, provàvelmente, também o sistema nervoso
(lunáticos?). Neste último caso, como dizem os psi­
quiatras e especialistas, a causa parece ser o clarão
da lua, que pode ser reproduzido por semelhante luz
artificial. Sabe-se ainda que, pela atração, a Lua é a
causa principal das marés. Tudo o mais acêrca dos
influxos lunares é incerto e obscuro. Assim alguns
agricultores atribuem à Lua influência sôbre o cresci­
mento das plantas, afirmando que no período da Lua
Crescente a seiva começa a subir em abundância e
na Lua Decrescente a seiva diminui. Por isso susten­
tam também que a madeira cortada durante a Lua
Crescente “cria bicho”, porque tem muita seiva. Acon­
selham, então, cortar lenha na Lua Decrescente. Mas
os especialistas em agronomia, os astrônomos, meteo-
rólogos e biólogos jamais puderam constatar seme­
lhantes influxos. O único agente por ora conhecido
poderia ser a luz da Lua, mas esta, fria e fraca, não
pode influir de maneira tão perceptível. Nada se pro­
vou também, até hoje, sôbre o influxo no desenvolvi­
mento dos animais e homens. Também não há provas
sôbre modificações do tempo causadas por êste nosso
satélite: Dizem que a “Lua Forte”, cheia ou quase
cheia, afasta a chuva. Ainda outros afirmam, sem pro­
va, que com a mudança da Lua (depois da Lua Cheia)
também o tempo muda e que haverá chuva. Garante-
nos o astrônomo José Bernard, S. J., a quem expres­
samente perguntamos e de quem são estas informa­
ções, que para tudo isso não há provas que permitam
qualquer conclusão certa. Note-se, também, que as mu­
danças e fases da lua aparecem no mundo inteiro ao
mesmo tempo: Deveria, portanto, haver, também, no
mundo inteiro mudança de tempo no mesmo dia! Ou,
então, dever-se-á admitir o absurdo que a mesma Lua
Cheia causa chuva num lugar e bom tempo em ou­
tro ... Durante muitos anos o Instituto Meteorológico
de Oldenburg (Alemanha) comparou a mudança do
tempo com as fases da lua e não conseguiu descobrir
nem a mínima relação entre uma coisa e outra.
c) Os raios cósmicos são chamados assim porque
vêm do espaço cósmico. Foram descobertos por Vítor
Hess, Professor na Universidade de Innsbruck, erri
1912. Êstes raios são constituídos de corpúsculos (pró­
tons e eiéctrons) dotados de alta energia (velocidade).
Não sabemos se do espaço chegam também raios on-
dulatórios (raios gama). Os raios cósmicos são cha­
mados também “primários”. Quando entram na atmos­
fera, chocam-se com os átomos e eiéctrons aí existen­
tes, comunicando-lhes altas velocidades e produzindo
também raios gama. Êstes corpúsculos acelerados e os
raios gama são chamados “secundários” e só êles al­
cançam o solo. Embora já enfraquecidos, estão ainda
dotados de energias fantásticas, com bilhões (!) de
electrônio-volts. As maiores energias de aceleração pro­
duzidas até hoje pelos métodos científicos talvez nem
cheguem a 1 bilhão de electrônio-volts, o que já é ad­
mirável. Não temos ainda hipótese satisfatória para ex­
plicar a origem de tão altas energias. Contra êstes
raios poderiamos proteger-nos apenas sob uma camada
de 40 m de chumbo. Assim, a cada instante e onde quer
que estejamos, nosso organismo é atravessado por nu­
merosos raios cósmicos. Cada impacto destrói mi­
lhares de moléculas, ao todo milhões em cada segundo.
Mas o prejuízo é insignificante. E’ possível que cer­
tos impactos nos genes causem deteriorações heredi­
tárias. Os efeitos são os mesmos sôbre todos os ho­
mens e não há nem o mínimo vestígio que nos per­
mita afirmar influências particulares sôbre êste deter­
minado indivíduo. Muito menos tais efeitos podem ser
previstos.
d) Influências dos planêtas. Os planêtas são corpos
frios e relativamente pequenos. Sua luz é simples re­
flexo da luz solar, sem qualidades próprias e com quan­
tidade mínima e absolutamente desprezível. Esta luz
certamente não pode exercer influências especiais sô­
bre a criança ao nascer. As constantes variações da
luz solar deveriam ter influxos incomparavelmente su­
periores. Pois as manchas solares e as protuberâncias
modificam notàvelmente as irradiações. Mas com tais
coisas não se ocupam os astrólogos. Os horóscopos
não procuram saber se na hora do nascimento havia
protuberâncias solares e com que tamanho, intensidade
ou direção. As emissões dos planêtas são infraverme­
lhas e fraquíssimas por natureza. Não se pode nem
imaginar como os astrólogos serão capazes de me­
dir a influência precisa de irradiações tão insignifi­
cantes. Além do mais, estas fracas ondas infraverme­
lhas não passam por obstáculos materiais (muros, ves­
tidos, cobertores) e, portanto, a criança recém-nasci­
da, para poder receber ao menos um mínimo da irra­
diação própria de um determinado planêta, deveria ser
exposta sem vestidos à luz do astro. Por outro lado,
os próprios muros da casa, os móveis, a lâmpada e os
cobertores irradiam muito mais ondas infravermelhas
sôbre a criança que todos os planêtas juntos. Sabe­
mos também que a constituição dos planêtas é mais
ou menos igual (rochas e gases) e não há razão para
admitir que corpos iguais produzam efeitos tão di­
ferentes. A única diferença essencial entre os planê­
tas está nos nomes que receberam e que foram tira­
dos de contos de fadas. Nem se sabe por que duas
crianças, nascidas numa mesma maternidade e quase
na mesma hora, levam vidas tão diferentes como Esaú
e Jacob. . . O planêta, “senhor da hora”, era o mesmo,
o signo o mesmo, a casa a mesma, os aspectos ou ân­
gulos os mesmos — e, no entanto, um será desgraçado
e outro feliz. ..

Outras Considerações Críticas.

1) Extrapolação abusiva das relações entre os astros


e a terra. Do fato de haver real influência sôbre os

43
homens em geral e indistintamente — o que não ne­
gamos — não se pode concluir para esta determinada
influência sôbre esta particular- pessoa. Os astrólogos
argumentam falaciosamente quando dizem: “Se o sol é
capaz de produzir as estações do ano, então também
pode conseguir êste efeito sôbre Pedro. Se a lua con­
segue provocar as marés, então também pode influir
sôbre Paulo”. A falácia está em passar do geral, uni­
versal e indeterminado para o particular e determinado.
Não há dúvida de que o sol influi sôbre a vida na
terra, mas daí não se conclui que êle se preocupa com
os problemas do coração de Isabel; a lua participa
na produção das marés, mas daí não se deve inferir
que ela nos assiste na escolha do número de loteria.
A Astrologia erigiu em lei geral algumas coincidên­
cias fortuitas. Os astrólogos devem orientar-se sem­
pre por estas duas normas fundamentais para qual­
quer ciência experimental:
a) um êxito ou sucesso isolado nada prova. Pois
o astrólogo não há de ter o privilégio de enganar-se
sempre. Uma predição feita ao acaso poderá dar certo,
mas nada prova. O médico psiquiatra Luís Couderc
fêz a seguinte experiência: Publicou num jornal um
brutal anúncio, no qual se apresentava abertamente
como o novo Messias. 12 Pois êle recebeu enorme cor­

I2) Semelhantes declarações não são raras entre os que se


dedicam ao Ocultismo. Por exemplo na Gazeta do Brasil
(Rio), N.° 107, de 7-4-1957, p. 5, um indivíduo se apresen­
ta nestas palavras: “Eu sou a Voz da Verdade!... Êste tí­
tulo me pertence por natureza... E a Voz da Verdade re­
volucionará intelectualmente o Brasil e o mundo... Estamos
na era do Aquário. E a era do Aquário foi a era de Cristo.
Eu trago as chaves para abrir tôdas as portas, para a Gran­
de Restauração Universal”. — O mesmo jornal do Rio, no
N.° 103, apresenta logo na primeira página a fotografia do
“Messias da Era Aquária”. Na mesma página o “Profeta de
Tairetá”, Joaquim de Queirós, anuncia: “Os minerais fer-
respondência. A todos remeteu a mesma carta circular
com conselhos e prognósticos. Recebeu mais de 200
cartas entusiásticas: “Vós lêstes na minha vida como
um livro” ; “o que me dissestes do meu passado e do
meu caráter é absolutamente verdadeiro. . . ” Cada as­
trólogo poderá fàcilmente apresentar um álbum com
semelhantes declarações. Não provam nada, pois:
b) uma influência astral só poderá ser verificada
por uma estatística leal: é preciso recensear honesta­
mente todos os casos, e em grande número, calcular
a porcentagem do êxito que poderia ser concedido ao
acaso e aplicar então rigorosamente os princípios da
estatística e do cálculo de probabilidades. Exemplo: os
astrólogos atribuem ao signo do Carneiro (Libra) os
valores estéticos: as crianças nascidas sob êste signo
teriam qualidades artísticas superiores. Ora Farns-
worth teve a paciência de estudar o dia do nascimen­
to de mais de dois mil músicos e pintores célebres e
verificou que o signo da Balança não teve absoluta­
mente um influxo especial. Bart J. Bok estudou os
dias natalícios dos sábios inscritos no repertório Ame­
rican Men of Science e chegou à conclusão de que
a distribuição destas datas apresenta as características
de uma distribuição ao acaso e que as variações são
exatamente as mesmas que no resto da população em
geral. Não houve nem planeta, nem signo, nem casa,
nem aspecto que protegesse especialmente todo aquê-
le mundo de sábios.
2) Abuso do determinismo ou fatalismo. Tudo se­
ria determinado pelos astros: caráter, temperamento,
saúde, doença, felicidade, desgraça, dinheiro, pobreza,
inteligência, imbecilidade e até a hora da morte. Pre-
mentarão de tal maneira que tôda a terra estremecerá não fi­
cará pedra sôbre pedra e haverá incêndios terríveis, alaga­
mentos, explosões, inundações...”
http://www.obrascatolicas.com/

destinação absoluta. Não há Jugar para o livre arbí­


trio. Os astros decidiram! Os astros regem! São fre-
qüentes os anúncios astrológicos nestes termos: “Qual­
quer que seja o vosso problema: amor, dinheiro, ca­
samento, emprêgo, viagem, saúde, vocação, educação
dos filhos, alojamento — tudo receberá solução feliz
pela astrologia científica”. Logo no início citamos uma
declaração de um dos nossos astrólogos atuais e que
aqui queremos recordar: “Não somos pobres ou ricos,
bons ou maus, inteligentes ou bacocos por querermos;
somos uma coisa ou outra porque os astros assim de­
terminaram no momento do nascimento”. A vontade
humana é anulada e negada. Perde-se todo e qual­
quer fundamento para o senso da responsabilidade.
A ordem moral cai em ruínas. E’ o fatalismo absoluto.
Nem mesm.0 a Divina Providência vela sôbre seus fi­
lhos: são os Astros! Ora, semelhante princípio é insus­
tentável diante da sã filosofia. Qualquer psicologia
normal nos garante a realidade do livre arbítrio.
Experimentamo-lo, a cada hora, em nossa pró­
pria consciência. O determinismo dos astrólogos vai
diretamente contra os fatos cotidianos de nossa vida.
Poder-se-ia também perguntar: se o destino já está
determinado, se está claro pela indicação dos astros
que na manhã da próxima segunda-feira não devo via­
jar — o deixar de viajar, só porque o astrólogo mo
aconselhou, teria modificado tão ràpidamente o des­
tino? Se basta procurar um hierofante, pagar-lhe 50
cruzeiros pela consulta, o futuro tão claramente pre­
visto, só por isso, já estará mudado? Então, na ver­
dade, mui pouco poder os astros têm. .. Ademais: vin­
te pessoas que morreram num mesmo desastre de avião,
tiveram elas o mesmo fatídico horóscopo? Mas se nas­
ceram sob planêtas, signos e casas tão diferentes...

46
3) Fetichismo de nomes. Seus numerosos deuses-
planêtas, caprichosos e mutáveis, que lutam pela in­
fluência sôbre a terra, são ainda o tema principal da
Astrologia de hoje. As qualidades atribuídas aos pla-
nêtas são verdadeiros atributos das divindades pagãs
do panteão grego. Desde o dia em que um planêta
recebeu o nome de Saturno, o deus devorador das
crianças, êste enorme bloco de pedras e gases, que gira
ao redor do sol, passou a ser maléfico. Lendo as obras
dos astrólogos, a gente tem a impressão que o influxo
dos planêtas não é devido ao tamanho, à constituição
ou mesmo às irradiações, como seria de esperar, mas
pura e simplesmente ao nome que arbitràriamente re­
ceberam e que foram tirados de contos de fadas. Es­
tes nomes constituem o cerne da Astrologia. São os
nomes que decidem. Tanto a Astrologia antiga, como
a medieval e também a moderna está dominada in­
teiramente por um autêntico fetichismo de nomes. To­
das as normas e regras dos livros astrológicos nos con­
duzem a um tempo em que os planêtas eram tidos co­
mo deuses, como sêres pessoais. Mesmo as expressões
técnicas o exprimem: “senhor da hora”, “dono da ca­
sa”, “planêta maléfico ou benéfico”, “inteligência de
Mercúrio”, “mensageiro dos deuses”, etc.
4) A mutação dos equinócios. Quando os antigos se
convenceram que as estréias da V» Casa do Zodíaco
formavam a constelação de um leão, esta casa foi do­
tada de qualidades leoninas: determinação, coragem,
generosidade, orgulho, espírito dominador. Acontece,
porém, que o Zodíaco, tal como nós o conhecemos ho­
je, já foi estabelecido lá pelo século III A. C. e que
nestes dois mil e poucos anos se deu o recuo de uma
Casa inteira. Costumamos dizer ainda hoje que no dia
21 de março o Sol entra no signo do Carneiro (Áries),
mas na realidade já está na constelação dos Peixes

47
http://www.obrascatolicas.com
t :*:- ~ ■ - * 6 1 ^ _

(Pisces). Da mesma forma o Touro encerra as estre­


las do Carneiro e assim por diante. Em mais 2.200
anos os signos terão recuado mais uma Casa e a con­
fusão será maior. — Aliás, as próprias constelações
são puramente fortuitas e relativas. Não há, na reali­
dade, nenhuma relação entre os astros que formam
uma determinada constelação, como por exemplo o
Urso. Tais figuras foram apenas imaginadas (e nem
sempre com acêrto) simplesmente para orientar-se me­
lhor no imenso mar das estréias. Somente vistas dês-
te ângulo terrestre é que se deram tais agrupamentos.
Para o astrônomo existe uma constelação chamada
Touro, mas é apenas um nome para facilitar a posição
dos astros; para o astrólogo, porém, o Touro teria
irradiações “taurinas” . ..
5) O insulto à inteligência. Os horóscopos publica­
dos em jornais e revistas pressupõem leitores inteira­
mente imbecis: “As crianças nascidas neste dia serão
poetas” ! No dia em que Camões viu a luz do mundo só
teriarn nascido poetas? —■ “Mau dia para tratar de
negócios” ! Mau para quem? Então será bom ao me­
nos para seu antagonista... Não podemos nem ima­
ginar sinceridade em prognósticos como estes: “O
nato será ótimo financista e diretor de companhias” ;
“viverá em terra distante do lugar em que nasceu” ;
“deve vestir roupa, pela primeira vez, na Lua Nova” ;
“terá sucesso antes do fim da vida” ; “o nato possui
qualidades mas falta oportunidade para manifestá-las” ;
“terá talento tão agudo que lhe dará traços conco­
mitantes de loucura”. Ou conselhos assim: “Pode ca­
sar com pessoa marciana e ter proveito em tal casa­
mento” ; “mude de religião” ; “terá perigo de morte
na operação” ; “será alimentado por pessoa raivosa o
que produzirá desordens no estômago” . . . Tudo isso,
tôdas essas minúcias, e outras mil mais (pois os as-

48
http://www.obrascatolicas.com/

trólogos são fecundíssimos na produção de fais frases)


feriam sido determinadas pelos astros e poderiam ser
claramente previstas pelos cálculos astrológicos. E’
uma verdadeira diminuição da inteligência pública e
uma afronta à capacidade de pensar?..
6) Abre as portas a tôda sorte de exploração. “Man­
de-me as datas do seu nascimento com a importância
d e ... cruzeiros que eu bem urgente lhe mandarei um
Horóscopo Completo, dando o seu melhor ramo de vida
com todos os seus acontecimentos passados, presen­
tes e futuros”. Assim lemos num folheto de propagan­
da astrológica. E no mesmo pasquim: “0 amigo deseja
arranjar fortuna honestamente? Peça-me bem urgente
um Sagrado Amuleto, que terá tôdas as possibilidades
de ir enriquecendo aos poucos em troca do trabalho
honesto. Será rico, cobiçado pelas mulheres e respeita­
do por todo o mundo. Faço e mando por Cr$ 500,00”.
Também nos jornais e revistas damos frequentemente
com anúncios de “Talismãs Astrológicos” (com o sig­ . .' J
no do nascimento da pessoa), de “Perfumes Supremos
do Oriente” (o perfume do seu signo astrológico),
de “Horóscopos Astrais”, “Pêndulos Astrais”, “Defu-
madores Astrológicos”, etc.: Tudo simples e puríssi­
ma exploração sem nenhuma base científica. E nisso
se gastam milhões, diariamente. O Horóscopo Astral
já está, agora, a mil cruzeiros, no R io...
Analisemos um dêsses Horóscopos Completos para têrmos
uma idéia de seu conteúdo. O “Trabalho Astrológico” que
temos diante de nós foi feito numa cidade do interior do
Ceará. Temos a impressão que o astrólogo confeccionador
dêste horóscopo é da escola do Círculo Esotérico da Comu­
nhão do Pensamento. A pessoa horoscopizada — seu nome não
interessa — nasceu no dia 16 de março de 1910. Bastou
esta indicação para que o astrólogo lhe desse as seguintes
minuciosíssimas informações: Seu gênio protetor é Jabahmiah.
O astro protetor é Netuno. Seu dia feliz é sexta-feira: neste
dia há de fazer os negócios mais importantes. Os períodos

49
mais promissores durante o ano são: 20 de fevereiro a 20
de março, 21 de junho a 21 de julho, 23 de outubro a 21 de
novembro. As côres que melhor combinam com seu estado
planetário: branca, azul e verde! Seus perfumes serão: jas-
mim e rosa. Suas flores adaptáveis: malvaísco, amor-perfeito
e narciso. Se usar pedras preciosas, adquira: água-marinha
e ametista. Seu anel deverá ter estas pedras e ser usado no
dedo anular da mão esquerda. Êste anel será um pára-raios
contra tôdas as más influências. Sua casa deve ter a frente
virada para o nascente e você deve morar na parte baixa do
lugar. A placa de seu veículo e o número de sua casa deverá
dar a soma de 12, 13, 14, 15, 16, 18, 22, 26, 28, 32 ou 34.
Qualquer outro número trará desgraças. Deve casar com
uma pessoa nascida entre 23 de outubro a 21 de novembro!
Sua profissão ou atividade deve reladonar-se com líquidos:
sorveteria, fábrica de bebidas, perfumaria, etc. Seu número
feliz é 27: marque ou carimbe todos os seus pertences com
o mesmo e conserve-o numa pequena moldura para que q
tenha sempre à vista. Quando adquirir uma nota de dinheiro
cuja soma do seu número dê 27: guarde-a como mascote,
pois lhe dará sorte nos negócios. Você poderá ter as seguin­
tes doenças: doença nos olhos, coração, vermes, má função
dos intestinos, nervos, aparelho respiratório, calos, tumores,
peritonite, desinterias, febres violentas, defeitos no estômago,
rins, reumatismo e vícios do sangue! Seu anjo celeste é São
Rafael: não o esqueça em suas orações. — Eis, em resumo,
o que os astros mandaram. Depois seguem ainda algumas
páginas de conselhos e informações sôbre o caráter. Alguns
exemplos: já passou ou passará por dificuldades financeiras;
terá muitas dificuldades até os 40 anos; gosta de tomar resolu­
ções e determinações com energia; tem bom coração, etc., etc.
Não facilite com uniões amorosas secretas ou extrafamiliares
porque tudo indica que estará sempre sujeito a tôda sorte de
aborrecimentos financeiros e sociais neste particular. E’ possui­
dor de faculdades mediúnicas. Tenha cuidado com os amigos
mais aproximados porque um dêles, por sua culpa própria, se
já não o fêz, ainda lhe acarretará prejuízos financeiros e
sociais. Tome purgante 3 dias antes da Lua Nova!... Não
revela nem como nem quando vai morrer. Apenas anuncia
que o período mais crítico será dos 46 aos 68 anos de idade:
aí virão ataques do Astral inferior.. .

50
V • - '

Quem poderá fantasiar exploração mais ignóbil, mais


infame, mais indignante e mais sem-vergonha? — Já
imaginamos a resposta dos astrólogos que se dizem
“cientistas” : “Sim, nossa ciência é desacreditada por
charlatães e nós, os verdadeiros astrólogos, somos os
primeiros a protestar contra os exploradores”. Mas in­
felizmente êles não nos dão os critérios para poder­
mos discernir os astrólogos verdadeiros dos falsos. ..
Veja-se, como amostra, êste anúncio, com gramática
e ortografia respeitadas:
“Olho o que é de muito interêsse vosso! Leia com atenção!
O Professor, Cientista e Profeta O. Lucas Moreira
De um vasto conhecimento científico, para dizer e predizer
tôda Ramificação de Vossa Vida, com a maior clareza em
quaisquer assunto desejado. Qual seja o assunto de vossa vida
que dezejar saber, responderei com a maior clareza, man­
dando-me a data legitima em que você nasceu, dia, mês, ano e
lugar; nome e sobrenome de batismo.
O pedido de consulta, deverá vir por carta registrada com
valôr de Cr$ 200,00, p a ra ...
Aos jovens de tôdo o Brasil, não faça início de estudo
para se formar na profição que você tem na sua idéia, sem
ao menos recorrer o cientista com uma consulta, que êle dirá
qual a profição que você deverá seguir, de acôrcfo com os
astros do vosso nascimento.
Outrossim de importante aos doutores. Seja o melhor mé­
dico dèsse lugar, pedindo as 12 fichas humana, já está com­
pleta a vida da humanidade tôda, pelo preço de Cr$ 500,00.
Os farmacêuticos ficam os melhores; os médicos também,
possuindo as 12 fichas, que são muito úteis no ramo.
Com êste auxílio, na minha consulta tenho desmentido mé­
dicos especialistas, que dizem, que o cliente sofre do coração.
Enviarei as consultas às pessoas em geral, sem distinção
de clace ou raça. E que a paz de Deus esteja convoseo”.
7) Favorece a indolência e a indecisão. Para que
decidir se os astros já resolveram? Tomemos outra vez
o horóscopo que acabamos de analisar. Aquêle indiví­
duo não tem mais problemas: Quer um emprêgo? Só
no molhado. Quer viajar? Só na sexta-feira. Quer ca­

51
sar? Só com uma pessoa que nasceu de 23 de outubro
a 21 de novembro. Quer adquirir uma casa? Só se tem
a frente virada para o nascente. Precisa de perfumes?
Só jasmim e rosa. Deseja flores? Só malvaísco, amor-
perfeito e narciso. Quer um anel? Precisa dum terno?
Deseja um Santo para a sua devoção? A escolha já
está feita. Não se discute: os astros decidiram; será
aquilo mesmo. Há pessoas totalmente viciadas pelos
horóscopos: Não tomam uma iniciativa, não fazem
uma viagem sequer, nada decidem sem antes consul­
tar a vontade dos astros. E obedecem! Está escrito
no Almanaque: “Desfavorável para viagens”? não se
entra no ônibus! Não há nem discussão. A coisa é cla­
ríssima. Para cada dia do ano o Almanaque do Pensa­
mento traz indicações dêste tipo: “O dia é impróprio
para contratar ou realizar casamento; de manhã po­
des consultar médico ou dentista; à tarde podes tra­
tar de negócios de terras, casas, minas ou construções”.
Não é o médico nem a doença, é ainda o almanaque
que vai determinar: “Não se devem fazer operações
cirúrgicas durante a manhã dêste dia”. E lá estão in­
dicados os dias favoráveis ou desfavoráveis para tratar
de assuntos jurídicos ou financeiros, para pedir favo­
res, para iniciar ou continuar viagens, para fazer ex­
periências psíquicas, para fazer mudanças, tratar de
negócios novos ou arriscados, etc.
E’ assim que se leva pelo- nariz um povo indolente
e indeciso.
E o mais triste em tudo isso: Não há remédio; os
astrólogos não querem ser desintoxicados.
Astrologia é um vício.

Atitude da Igreja perante a Astrologia.

O Antigo Testamento interdisse rigorosamente e re­


petidas vêzes qualquer prática divinatória. “Não in-

52

HB
tp://www.obrascatoTicas7com/

terrogueis os adivinhos!” (Lev 19, 31), é a ordem in­


sistente do Senhor. “A pessoa que se dirigir a magos e
adivinhos e tiver comunicação com êies, eu porei o meu
rosto contra ela e a exterminarei do seu povo” (Lev
20, 6). O profeta Isaías ironiza os astrólogos: “Dei­
xa-te estar com os teus encantadores e com a multi­
dão dos teus malefícios, em que tens trabalhado desde
a tua mocidade, para ver se acaso te aproveita isso
alguma coisa, ou se podes tornar-te mais forte. Tu te
fatigaste à força de consultas. Apresentem-se agora e
salvem-te êsses agoureiros do céu, que contemplavam
as estrelas e contavam os meses para te anunciarem
por êles o que te devia acontecer. Êles tornaram-se co­
mo palha, o fogo os devorou. .. Tal será o resultado
de tôdas aquelas coisas pelas quais tanto te tinhas afa-
digado... não haverá ninguém que te salve” (Is 47,
12-15).
Os discípulos de Cristo ficaram com o mesmo rigor.
Por sua íntima ligação com a magia (e que continua
até hoje), a Astrologia era para os primeiros cristãos
uma “arte diabólica” e a negação da Divina Provi­
dência. Algumas seitas, influenciadas pelo ambiente
oriental, como os priscilianistas e alguns grupos gnós-
ticos, misturaram seus atos de culto com práticas as­
trológicas. Mas encontraram vivíssima oposição. O as­
sunto foi mesmo ventilado em vários Concílios. Assim
declarou o Concilio Plenário da Espanha, reunido em
Toledo, no ano 400: “Si quis astrologiae vel mathesiae
aestimat esse credendum, anathema sit” (Dz 35). Se­
melhantes anátemas foram repetidos várias vêzes. São
Leão aprovâ os capítulos do Bispo Turíbio contra os
priscilianistas e declara: “Undecima ipsorum blasphe-
m.ia est, qua fatalibus stellis, et animas hominum et
corpora opinantur obstringi”. E no Concilio de Braga,

53
,np://www.oDrascaioíicas.com/
em 561, o documento se tornou mais solene ainda (Dz
239 e 240):
9. Si quis animas humanas fatali signo credit adstringi,
sicut pagani et Priscillianus dixerunt, anathema sit.
10. Si quis duodecim signa vel sidera, quae mathematici ob-
servare solent, per singula animae vel corporis membra dissi-
pata credunt et nominibus Patriarcharum adscripta dicunt,
sicut Priscillianus dixit, anathema sit.
Aqui temos a condenação explícita, formal e solene,
da Astrologia.
Testemunho particulamente eloquente sôbre a luta
dos primeiros cristãos contra a Astrologia é o de S a n -
to A g o s t i n h o (354-430). Em suas Confissões nos
descreve como, pouco a pouco, conseguiu desvencilhar-
se dos laços da Astrologia. Seu depoimento é muito
instrutivo e mostra também o espírito crítico e os mé­
todos de observação usados naquele tempo. Leiamos
as passagens principais na tradução de J. Oliveira San­
tos, S. J . ,s:
Livro IV, cap. 3: A sedução da Astrologia. Não desistia,
por isso, totalmente, de consultar os embusteiros, a que cha­
mam matemáticos “ , por me parecer que não sacrificavam
nem dirigiam preces a nenhum espírito para adivinhar o fu­
turo: ação que, conseqüentemente, repele e condena a piedade
cristã e verdadeira. ( . . . ) Ora, êsses astrólogos procuram des­
truir o efeito salutar dêste conselho, quando dizem: “A cau­
sa inevitável de pecares vem-te dos céus”; ou então: “Foi
Vênus, ou Saturno ou Marte quem praticou esta ação” ; evi­
dentemente para que o homem, carne, sangue e orgulhosa
podridão, se tenha por irresponsável e atribua tôda a culpa
ao Criador e Ordenador do céu e dos astros... Ora, havia
nesse tempo, um homem sagaz, peritíssimo e celebérrimo na
arte da medicina (Vindiciano). Foi êste quem, por sua pró­
pria mão, me colocou na cabeça doentia, a coroa, o prêmio do
’3) Santo A g o s t i n h o , Confissões. Tradução do original
latino por J. Oliveira Santos, S. J., Pôrto 1955.
“ ) Aqui, como em outros documentos eclesiásticos antigos
já citados e que adiante ainda serão citados, “matemático”
é sinônimo de “astrólogo”. -

54
concurso. . . Logo que, por conversa, chegou ao conhecimen­
to de que me tinha dado à leitura dos livros dos genetlíacos,
admoestou-me, com paternal benevolência, a que os rejeitas­
se e, em tal quimera, não dispendesse cuidado e trabalho que
me seriam necessários para assuntos de utilidade. Acrescen­
tou que se tinha entregado também a êste estudo, a ponto
de, nos seus primeiros anos, ter tido o desejo de o adotar
como profissão para manter a vida. Já compreendia Hipócra-
tes; e assim poderia também entender aquêles livros; con­
tudo, abandonou-os, para seguir a medicina, só pelo motivo
de ter descoberto a sua falsidade absoluta; e como homem sé­
rio, não queria ganhar o pão a enganar os outros. “Mas tu,
disse-me êle, que tens a retórica para te manteres na socie­
dade, segues estas mentiras não por necessidade mas por
gôsto e de livre arbítrio. Para que mais confiadamente me
acredites, repara que quem to diz sou eu que estudei astro­
logia com tanto afinco, como quem dela somente queria vi­
ver”. Perguntei-lhe então o motivo por que saíam certos tan­
tos presságios. Respondeu-me, como pôde, que era pela fôrça
do acaso espalhado por tôda parte na natureza. Se alguém,
dizia êle, ao consultar casualmente as páginas de qualquer
poeta, que cante um assunto inteiramente diferente, depara
muitas vêzes com um verso, admiràvelmente adaptável à sua
preocupação, não é para admirar, se, em virtude de algum
instinto superior, soar, na alma humana, inconsciente do que
em si se passa, alguma palavra se harmonize, não por arte,
mas por acaso, com os gestos e os fatos do investigador...
Mas, por então, nem êste médico, nem o meu queridíssimo
Nebrídio, jovem tão bom e tão casto, que mofava de tôda
esta arte de adivinhar, me puderam persuadir a que a rejei­
tasse; porque, mais do que êles, movia-me a autoridade dos
seus autores e o não ter ainda encontrado prova evidente,
como procurava, por onde pudesse ver sem ambigüidade,
que os presságios consultados saíam certos por um acaso
ou sorte, e não pela arte da observação dos astros.
Livro VII, cap. 6: Os vaticinios dos Astrólogos. Também
já tinha rejeitado as enganadoras predições e os ímpios de­
lírios dos astrólogos... Fôstes Vós, meu Deus, que socorres­
tes a contumácia que eu opunha ao arguto velho Vindiciano
e a Nebrídio, jovem dotado de alma admirável. O primeiro
dizia-me com tôda a veemência e o segundo freqüentemente
— ainda que com certa hesitação — que nenhuma arte exis­
tia para prever o futuro; que as conjecturas eram fundadas
http://www.obrascatolicas.com/
na acaso e que, à fôrça de palavras, se vaticinavam muitas
coisas que aquêles mesmos que as diziam ignoravam se se
haviam de realizar, acertando nelas somente porque não as
calaram. Fôstes Vós que me suscitastes um amigo assíduo
em interrogar os astrólogos. Embora êle não fôsse muito ver­
sado na sua ciência, contudo, como já disse, curiosamente
consultava os astrólogos e sabia alguma coisa que afirmava
ter ouyido ao pai. Ignorava êle quanto isso valia para des­
truir a fama daquela a rte !... Contou Firmino que seu pai tam­
bém se interessava por semelhantes livros e que tivera um amigo
que, do mesmo modo e simultâneamente, acreditava em tudo
aquilo. Com igual unanimidade e com igual ardor se entre­
gavam a estas ninharias que lhes incendiavam o coração. Até
observavam os momentos do nascimento dos animais domésticos
que em casa viam a luz do dia, e notavam a posição das es­
tréias, para dêste modo fazerem deduções das experiências
da sua arte. Dizia, pois, ter ouvido referir ao pai que, quando
a mãe se ia predispondo para dar à luz Firmino, também uma
escrava daquele amigo paterno se achou grávida... E acon­
teceu que ambas se recolheram ao leite ao mesmo tempo; de
modo que, com igual minúcia foram obrigados a dar a mes­
ma estréia, um ao nascimento do filho, o outro ao nasci­
mento do escravozinho. Quando as mulheres começaram a
sentir as dores do parto, informaram-se êles mütuamente do
que em suas casas se passava. Prepararam criados para
mandarem um ao ouíro a anunciar, com igual rapidez, o
nascimento das crianças... e assim ambos observaram exa­
tamente as mesmas posições dos astros, nas mesmas fra­
ções de tempo. E contudo, Firmino, como filho de família
ilustre, seguia pelos caminhos mais explêndidos do mundo,
enriquecia continuamente e era cumulado de honras,; ao passo
que o escravo, sem jamais ser aliviado do jugo da sua con­
dição, servia a seu senhor... Donde com tôda a certeza se
conclui que as verdades preditas pela contemplação dos as­
tros, não se dizem por arte mas por acaso; e as falsidades
proferem-se, não por imperícia na arte, mas porque falhou
a sorte. Aberta esta estrada, ruminava tudo isso comigo,
para que nenhum dêsses loucos, que viviam de tal negócio e
que eu desejava atacar imediatamente e pôr a ridículo, me
pudesse resistir... desviei o fio do raciocínio para os que
nascem gêmeos... Os prognósticos não serão exatos por­
que, vendo o astrólogo os mesmos documentos, deveria di­
zer a mesma coisa de Esaú e Jacob. Mas os sucessos na vida

56
de um e de outro não foram os mesmos. Portanto ou êle
anunciaria falsidades ou, no caso de falar certo, não deve­
ria dizer a mesma co:sa de ambos, ainda que êsse astrólogo
visse as mesmas anotações. E então não era por arte, mas
por acaso, que dizia a verdade...
De então para cá passaram-se mais de mil e qui­
nhentos anos. E o mundo continua do mesmo jeito.
A exploração persiste, fundamentada exatamente nas
mesmas bases.
Alegam os astrólogos que S. T o m á s de A q u i n o
é do lado dêles. 15 Nem isso é verdade. O Doctor An-
gelicus estuda a questão da Astrologia na II/II, 95, 5:
“Utrum divinatio quae fit per astra sit illicita” (se a
adivinhação feita pelos astros é ilícita). Na resposta
êle distingue entre eventos futuros necessários ou na­
turais e contingentes ou livres. Concede que certas ocor­
rências necessárias (e o exemplo por êle dado é a
eclipse) podem ser previstas com certeza. E nega abso­
lutamente que os astros nos possibilitem a previsão
de acontecimentos contingentes ou livres. Insistindo so­
bretudo no livre arbítrio e no caráter incorpóreo da ati­
vidade intelectual e volitiva, declara: “Nullum autem
corpus potest imprimere in rem incorpoream. Unde im-
possibile est quod corpora caelestia directe imprimant
in intellectum et voluntatem”. O argumento é aprio-
rístico, mas mostra o que o Santo pensava sôbre a rea­
lidade dos influxos astrais. E tira mais êste corolário:
“Unde corpora caelestia non possunt esse per se causa

15) E’ um dos argumentos da propaganda astrológica. To­


dos ©s manuais desta arte divinatória são unânimes neste apoio
sôbre Santo Tomás. Exemplo: Diz o Sr. M. Botelho d’Abreu,
op. cit., p. 25: “Santo Tomás de Aquino, que sempre foi con­
siderado o maior teólogo de todos os tempos e veio ao mun­
do há 681 anos(?), deu a mais categórica resposta aos con­
temporâneos — e aos pósteros! — declarando que os astros
influíam sôbre o ser humano, razão pela qual não há neces­
sidade de aduzir mais razões” (sic!).


operum liberi arbitrii”. E sua conclusão e posição fi­
nal é clara e firme:
“E’ uma opinião falsa e vã querer tirar da consideração
dos astros conhecimentos para coisas futuras ou para acon­
tecimentos fortuitos ou ainda para conhecer com certeza as
futuras obras dos homens. Neste caso poderá imiscuir-se até
alguma operação diabólica. Por isso tal adivinhação é su­
persticiosa e ilícita. Mas se alguém usasse da consideração
dos astros apenas para conhecer as futuras influências dos
astros sôbre os corpos, como sêcas e chuvas e outras coi­
sas dêste gênero, não seria ilícito nem supersticioso”.
Quando, já em plena época renascentista, a Astro­
logia estava no auge, o Papa Sixto V publicou a Cons­
tituição Caeli et terrae Conditor (1585), condenando
mais uma vez a assim chamada “astrologia judiciária”,
que é exatamente esta com a qual nos ocupamos aqui.
Diz que é uma arte vã, falaz e perniciosa. Eis a parte
principal do grave documento pontifício:
Statuimus et mandamus, ut tum contra astrologos, mathe-
maticos, et alios quoscumque dictae iudiciariae astrologiae ar­
fem, praeterquam circa agriculturam, navegationem et rem
medicam in posterum exercentes, aut facientes iudicia et
nativitates hominum, quibus de futuris contingentibus, suc-
cessibus fortuitisque casibus aut actionibus ex humana vo-
luntate pendentibus aliquid eventurum affirmare audent, etiam
si id non se certo affirmare asserant aut protestentur, quam
contra alios utriusque sexus qui supradictas damnatas, vanas,
fallaces et perniciosas divinandi artes sive scientias exercent,
profitentur et docent aut discunt, quive huiusmodi illicitas
divinationes, sortilegia, superstitiones, veneficia, etc. faciunt,
aut in eis se quomodolibet intromittunt etc., diligentius in-
quirant, et procedant, atque in eos severius, canonicis poenis
et aliis eorum arbítrio animadvertant.
Perigos Gerais da Adivinhação
Na análise de algumas práticas divinatórias em par­
ticular tivemos ocasião de chamar a atenção para cer­
tos perigos latentes nestes usos supersticiosos. Dare­
mos agora um conspecto geral dos principais males
que podem ter sua causa na adivinhação. Com isso te­
remos também as razões de ordem moral e religiosa
por que nos devemos abster de semelhantes práticas,
sem precisarmos ver nelas um influxo explícito ou im­
plícito do demônio:
1) As predições de males, doenças ou morte podem
ocasionar perigosas reações psíquicas de movimentos
reflexos, principalmente em pessoas sugestionáveis. Os
que vão consultar videntes ou adivinhos dão por isso
mesmo demonstrações de credulidade: estão, pois, dis­
postos a acreditar na verdade ou na realização da­
quilo que lhes foi predito. Ora, quem conhece o me­
canismo psíquico das sugestões (cf. REB 1958, pp.
755 ss) sabe que elas são capazes de produzir reações
biológicas inteiramente independentes da vontade, da
inteligência ou da parte consciente do paciente. A car­
tomante, o astrólogo, o hidroscopista ou qualquer ou­
tro tipo de “vidente” prediz, por exemplo, que Fulano
terá, dentro de dois meses, um determinado desarran­
jo funcional no estômago, nos intestinos ou em qual­
quer outro órgão, que êle terá o cuidado de precisar
em sua “visão”. Resultado: a predição pode atuar co­
mo sugestão, “sinalizando” (como se diz na linguagem
técnica da Reílexologia) o paciente e desencadear den­
tro do tempo prefixado exatamente aquela doença que
o vidente teve a desfaçatez de mencionar. Certamente
que então a “profecia” se realizou: mas ela foi a causa
(psicológica) dêste efeito. E isto não é profecia: é
crime! Pior poderá ser o resultado quando o bruxo
prediz ano, mês, dia e hora da morte de seu crédulo
e sugestionável consulente. Neste caso o vidente se
transformaria em autêntico assassino. O conhecido mé­
dico A. da Silva Melo denuncia êstes crimes nas se­
guintes palavras: “Em certos casos podem as previ­
sões tomar tal rumo que acabam por acarretar graves
malefícios, sobretudo quando o cliente procura seguir
as opiniões ou os conselhos dados pelo hierofante. O
pior, porém, na questão, é que o nível moral e intelec­
tual dos adivinhos não é bastante elevado para que se
dêem conta da situação e saibam que, de uma simples
sugestão, pode depender a felicidade e a própria vida
de um ser humano. São, por vêzes, tão ignorantes que
chegam a anunciar o tempo que o indivíduo tem ain­
da para viver, se vai morrer de doença ou de acidente,
ser feliz ou infeliz r o casamento, etc. As previsões
dêsse gênero podem ter conseqüências desastrosas, co­
mo já mostramos e nós proprio o temos verificado em
diversos casos. Aliás, isso é fácil de ser observado por
qualquer médico, desde que na sua clientela se dê ao
trabalho de fazer investigações neste sentido. Até con­
selhos para não consultar médicos e abandonar trata­
mentos são dados por êsses pobres irresponsáveis, co­
mo sei por informações fornecidas diretamente por al­
guns dos meus clientes”. 1
2) O adivinho pode ser causa de clamorosas injus­
tiças, calúnias e faltas de caridade. Quando consulta-*)

*) A. da S i I v a M e 1o, Mistérios e Realidades dêste e do


outr» Mundo, Rio 1950, p. 60.
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dos sobre o caráter ou as qualidades morais de outras


pessoas, os videntes não têm escrúpulos, nem conhe­
cem reservas: Vão dizendo o bem e o mal, vão de­
nunciando virtudes e vícios, baseados unicamente nas
arbitrárias e fantásticas particularidades da posição das
estréias, das linhas das mãos, dos ganchos das letras,
etc., conforme a arte ou a especialidade do hierofante.
E’ fácil imaginar, por exemplo, a atitude da noiva
que pediu a um grafólogo examinar a carta do noivo
e recebeu a seguinte informação: “ . . . Além dos de­
feitos aponíados*reveia-nos a grafologia ser o estudado
um indivíduo profundamente viciado, excitado e esgo­
tado. E’ um intoxicado fisiològicamente e moralmente,
de quem infelizmente nada há a esperar quanto à re­
generação. Não permitem ilusões a tal respeito a ida­
de, a doença e a mentalidade congênita do estudado.
Em face de tudo isto, não posso aconselhar, honesta­
mente, como se conclui, o casamento. Seria expor-se
a noiva a uma vida de infortúnio”. — Ora, quiroman-
tes, cartomantes, cristalomantes e mesmo astrólogos são
capazes de vaticinar, sempre com absoluta segurança,
calúnias e mentiras do mesmo tipo. Resultado: noiva­
dos desfeitos, desconfianças no lar, desesperos na alma.
Mas o vidente não se perturba com tudo isso: êle con­
tinua suas triunfantes viagens de exploração e crime,
de cidade em cidade, à espera de sempre novos “otá­
rios”, que nunca lhe faltam.
3) O vidente vicia suas vítimas, tirando-lhes a ini­
ciativa e favorecendo a inércia. São êles, os hierofantes,
que mandam sobre seus clientes. Para começar um ser­
viço, para iniciar uma viagem, para resolver um ne­
gócio, para construir uma casa, para candidatar-se a
um cargo político, até para consultar um dentista, sub­
meter-se a uma operação, e para outras tantas coisas
urgentes e cotidianas, orientam-se os crédulos pelos

61
horóscopos, pela sorte das cartas, pelas linhas das
mãos, pelo jôgo dos búzios e pelos demais meios fan­
tasiados por espertalhões e mistificadores. Pouco a
pouco perdem totalmente a energia de tomar uma de­
cisão por conta própria, ditada pela prudência e acon­
selhada pelas circunstâncias. A indolência e a preguiça
mental toma conta dêles: justo castigo da credulidade
dos que não crêem nem na Divina Providência, nem
na própria liberdade.
4) As artes divinatórias possibilitam tôda sorte de
exploração e mistificação. Poder-se^fa escrever um
grosso volume para denunciar êste mal, que é grave
também. No correr destas páginas já vimos várias for­
mas de aproveitamento e abuso da boa fé dos ingê­
nuos. O Código Penal deveria regular ou até proibir
t.
a adivinhação, pois ela não tem absolutamente nenhu­
ma razão de ser.
5) Graves perturbações psíquicas podem ser os re­
sultados da imprudente entrega às práticas adivinható-
rias capazes de manifestar percepções extra-sensoriais,
como o pêndulo, a vara, o copo, a mesa, a oui-ja, a
bola de cristal, o copo de água, etc. Principalmente
quando muitas vêzes repetidas, são ameaçados pelos
mesmos perigos que os médicos psiquiatras vêem no
exercício da mediunidade dos espíritas, a saber: pro­
voca estados de abstração, produz perturbações ner­
vosas e mentais, prepara o automatismo, concorre para
as alucinações espontâneas, exalta qualidades patoló­
gicas latentes, em doentes mentais precipita a psicose,
ou põe em evidência enfermidades mentais pré-existen-
tes, determina emoções que acarretam perturbações va-
somotoras, altera secreções internas, etc.
6) As práticas da adivinhação desorientam e embo­
tam o sentimento religioso. Os consultantes tornam-
se vítimas fáceis da superstição e do fatalismo. Os pró­
prios videntes, ao mesmo tempo que vão desvendando
em seus clientes os males e as desventuras que o futuro
lhes reserva, vão-Ihes oferecendo meios mágicos de
defesa e proteção: talismãs, amuletos, patuás e mil
outras formas de crendices e abusões. Desorienta-se
da seguinte maneira o sentimento religioso:
a) pela perda da fé na Divina Providência, que êles
substituem pela crença no destino e na fatalidade;
b) pela convicção de que o livre arbítrio é uma ilu­
são, joguête nas imutáveis determinações daquilo que
êles chamam de Karma;
c) pela habitual transgressão do mandamento di­
vino: “Não vos dirijais aos magos, nem interrogueis
os adivinhos, para que vos não contamineis por meio
dêles. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lev 19, 31);
“eu faço baldar os prognósticos dos adivinhos e torno
furiosos os agoureiros” (Is 44, 25). Veja-se também
Atos 8, 9 ss.; 19, 19; Qál 5, 20; Apoc 21, 8.
Diante de todas as artes divinatórias o conselho mais
razoável e certo é êste do Senhor: “Não deis ouvidos
aos vossos profetas, nem aos adivinhos, nem aos so­
nhadores, nem aos agoureiros, nem aos magos — por­
que êles vos profetizam a mentira!” (jer 27, 10).
ÍNDICE

i4s Adivinhações Supersticiosas ............................


A Quiromancia ..................................................
A Orafologia divinatória .................................
A Cartomancia ..................................................
A Aritmomancia ou Numerologia ...............
Exploração e Mistificação ..............................
A Superstição da Astrologia ..............................
Sumária exposição da Astrologia ...............
Realidade e extensão das influências astrais
Outras considerações críticas .......................
Atitude da Igreja perante a Astrologia ........
Perigos Gerais da Adivinhação ...........................

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