Você está na página 1de 115

Marina Basso Lacerda

Colonização dos corpos: Ensaio


sobre o público e o privado.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Patriarcalismo, patrimonialismo,
personalismo e violência contra as
mulheres na formação do Brasil

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

DEPARTAMENTO DE DIREITO
Programa de Pós-Graduação em Direito

Rio de Janeiro, abril de 2010


Marina Basso Lacerda

Colonização dos corpos: ensaio sobre o


público e o privado. Patriarcalismo,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

patrimonialismo, personalismo e violência


contra as mulheres na formação do Brasil

Dissertação de Mestrado

Dissertação apresentada como requisito parcial para


obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós-
Graduação em Direito da PUC-Rio.

Orientador: Carlos Alberto Plastino Esteban

Rio de Janeiro, abril de 2010


Marina Basso Lacerda

Colonização dos corpos: ensaio sobre o


público e o privado. Patriarcalismo,
patrimonialismo, personalismo e violência
contra as mulheres na formação do Brasil

Dissertação de Mestrado

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

graduação em Direito da PUC-Rio como requisito


parcial para obtenção do grau de Mestre em
Direito. Aprovada pela Comissão Examinadora
abaixo assinada.

Prof. Carlos Alberto Plastino Esteban


Orientadora
Departamento de Direito - PUC-Rio

Profª. Márcia Nina Bernardes


Co-orientadora
Departamento de Direito – PUC-Rio

Prof. Maria Alice Rezende de Carvalho


Departamento de Sociologia – PUC-Rio

Profª. Mônica Herz


Vice-Decana de Pós-Graduação do Centro de
Ciências Sociais – PUC-Rio

Rio de Janeiro, 13 de abril de 2010


Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou
parcial do trabalho sem autorização do autor, do orientador e da
universidade.

Marina Basso Lacerda

É bacharel em Direito (UFPR) e advogada. É ex-bolsista da


FAPERJ (Programa Bolsa Nota 10), do CNPq e do Programa de
Educação Tutorial. Foi colaboradora do Programa de Formação e
Pesquisa da Missão Brasileira junto às Nações Unidas em Genebra
e bolsista da Cátedra Regional da UNESCO – Mujer Ciencia y
Tecnologia/UNIFEM/FLACSO. Desenvolveu pesquisas e
publicações sobre democracia e efetividade dos direitos
fundamentais, no que diz respeito aos movimentos sociais de luta
pela terra e ainda sobre teoria feminista, opressão contra as
mulheres no Brasil colonial e instituições políticas brasileiras.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Ficha Catalográfica

Lacerda, Marina Basso

Colonização dos corpos : ensaio sobre o público e o


privado. Patriarcalismo, patrimonialismo, personalismo e
violência contra as mulheres na formação do Brasil / Marina
Basso Lacerda ; orientador: Carlos Alberto Plastino. – 2010.
114 f. ; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Direito)–Pontifícia


Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.
Inclui bibliografia

1. Direito – Teses. 2. Brasil colonial. 3.


Patrimonialismo, patriarcalismo e personalismo. 4. Violência
de gênero. 5. Exploração sexual da mulher. I. Plastino
Estebán, Carlos Alberto. II. Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro. Departamento de Direito. III. Título.

CDD: 340
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Dedico esta pesquisa a todas as


mulheres que resistem e subvertem
os códigos arcaicos que nos
oprimem.
Agradecimentos

Agradeço

ao Programa de Pós Graduação em Direito da PUC-Rio, instituição que tem a


preocupação com uma leitura crítica e politicamente engajada sobre o Direito e a
Teoria do Estado, contribuindo de forma única para o debate contemporâneo e
que, além disso, oferece uma ótima estrutura para os alunos e professores;

ao Professor Carlos Alberto Plastino, pela orientação, pelo carinho e por


reivindicar novos paradigmas de relação do homem consigo mesmo, com os
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

outros seres humanos e com a natureza;

à Professora Gisele Guimarães Cittadino, que me apoiou fortemente desde o meu


ingresso à PUC;

à Professora Márcia Nina Bernardes, pelo apoio e pela contribuição intelectual, e


também por conduzir o grupo de pesquisa “Discriminação baseada em gênero,
desigualdade social, democratização brasileira e esfera pública transnacional”, que
dá impulso decisivo e formação teórica fundamental aos estudos sobre a mulher,
as relações de gênero e a diversidade sexual no âmbito acadêmico; agredeço
também por ter participado da banca de defesa desta dissertação, dando
importantes contribuições à revisão do texto;

à Professora Maria Alice Rezende de Carvalho, igualmente por ter contribuído


muito para o aprofundamento de reflexões que cercam a presente pesquisa, no seu
papel de membro da banca avaliadora;

ao Professor Adriano Pilatti, inusitado conterrâneo, por ter participado da


Qualificação, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da
pesquisa, e pelo que nos transmitiu a respeito da história do Brasil e de uma
concepção do direito a partir da nossa constituição material;
à Carmen Barreto de Rezende e ao Anderson Torres Almeida, por estarem sempre
próximos e pelo trabalho que realizam, que nos são toda a estrutura;

ao Antônio Carlos Moreira, que me indicou as primeiras referências que me


ajudaram a compreender o ser mulher no mundo;

aos amigos Ricardo Prestes Pazello, pela amizade, e também pela minuciosa
correção da primeira versão do projeto, com indicações preciosas para a pesquisa,
entre elas os livros de Darcy Ribeiro e Paulo Freire, e Felipe Spack, por indicar-
me o texto que contribuiu ao insight da idéia de pesquisa;

ao amigo Leonardo Bora, pela revisão do texto;

às amigas Adriana Vidal de Oliveira, Joanna Vieira Noronha e Maria J. de


Negreiros, integrantes do grupo de estudos de gênero, pela oportunidade de troca,
pela contribuição intelectual e principalmente pela parceria e pela indignação.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Agradeço também às minhas famílias,

ao meus pais, Celso e Naura, por me darem todo o apoio; ao Marcelo, meu irmão,
e aos meus avós, Angélica, Áurea, Jacir e Oswaldo;

à Lucimara, por ser a pessoa excepcional que é, e por cuidar da gente tão
persistentemente;

aos amigos Ulisses e Vânia, não apenas pela fundamental acolhida no Rio de
Janeiro, mas sobretudo por serem grandes responsáveis por eu ser quem eu sou e
por me iniciarem nos passos da liberdade;

à amiga com quem venho compartilhando minha trajetória há muito anos,


Carolina, que já é minha irmã, por ser tão generosa comigo,

à grandíssima amiga que o Rio de Janeiro me deu, Adriana Cruz, pelo carinho e
por tudo que me ensinou – e também por ter sido a pessoa que me disse que,
“evidentemente”, eu deveria trabalhar a questão da mulher na pesquisa, e pela
ajuda em relação à discussão de pontos da dissertação;
ao amigo Érico que, junto com a Adriana e a Carol, ensinaram-me muito,
contribuíram decisivamente para minha compreensão do Brasil, e que, além disso,
foram meus grandes parceiros no período do mestrado;

à Vani, benção que a vida me ofereceu, agradeço imensamente por todo o carinho,
agradeço por ter compartilhado comigo momentos muito decisivos na minha vida,
agradeço pela pessoa iluminada que é e, a ela, à Adriana Correia e à Olívia,
agradeço a acolhida em um lugar tão distante;

à Lélica, pedra fundamental na minha vida, chave na minha formação emocional e


intelectual, pela parceria que estabelecemos desde sempre e para a vida toda;

à Sara, por ter me acolhido tanto, e pelo exemplo de liberdade;

aos amigos Affonso, Aline, Ângela, Camilo, Claudia, Daiane, Dandara, Dudu,
Felipe Drehmer, Frigo, Glaucio, Jacaré, Jair, Jorge Alexandre, Júlia, Leandro,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Leonardo, Nicolas, Núbia, Silvia, Solange, Taiguara, Taiguara, Thalles, Thiago


Hoshino e Valdécio;

ao Rodrigo Estrela, pela correção atenta do texto final, pelas indicações


importantíssimas que me passou, pela discussão profunda de vários parágrafos do
texto e por ter sido tão parceiro durante a redação da pesquisa. À vida, agradeço
por ter me trazido esta surpresa mais linda, que é meu amor, meu companheiro, mi
cómplice y todo.

Ponta Grossa, janeiro de 2010. Lima, abril de 2010.


Resumo

Lacerda, Marina Basso; Esteban, Carlos Alberto Plastino. Colonização dos


corpos: ensaio sobre o público e o privado. Patriarcalismo,
patrimonialismo, personalismo e violência contra as mulheres na
formação do Brasil. Rio de Janeiro, 2010. 114 p. Dissertação de Mestrado
– Departamento de Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro.

A pesquisa trata das relações entre as diversas formas de exploração da


mulher no Brasil colonial e a estruturação do nosso espaço político. Dentre as
características materiais da colonização do Brasil figurou a exploração/controle
sexual da mulher, que variou até extremos de sadismo, sendo o uso do elemento
feminino uma das técnicas essenciais e inovadoras da formação desta civilização
moderna dos trópicos. A inserção feminina esteve subordinada à necessidade de
povoamento e de reprodução de mão de obra. Desde os primeiros momentos, a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

indígena (e depois a negra, a branca e a mestiça) foi associada à natureza e à terra


a ser colonizada, em uma analogia simbólica e prática de devastação. A prole
gerada a partir do estupro de escravas e de uniões como as concubinatárias era
massivamente “ilegítima”, “ninguendade” que dá origem ao próprio povo
brasileiro. No contexto colonial, o clã patriarcal foi a real fonte de poder,
marcando entre nós o patrimonialismo, o patriarcalismo e o personalismo, sendo o
espaço público formado pela invasão de /indiferenciação com elementos privados,
dentre os quais o controle/exploração massivo, sistemático e violentíssimo de
expressiva parcela das mulheres, donde se extrai que a relação patrimonialista e
patriarcal é uma relação absolutamente gendrada. Em termos de teoria política, a
indiferenciação entre o público e o privado entre nós não só marginalizou as
mulheres politicamente, como as fizeram servir de forma muito direta e violenta
ao projeto político e econômico colonial.

Palavras - chave
Brasil colonial; patrimonialismo, patriarcalismo e personalismo; dicotomia
entre público e privado; violência de gênero; exploração sexual da mulher.
Abstract

Lacerda, Marina Basso; Esteban, Carlos Alberto Plastino. Colonizing


bodies: essay on the public and the private spheres. Patriarchalism,
patrimonialism, personalism and violence against women during the
formation of Brazil. Rio de Janeiro, 2010. 114 p. MSc. Dissertation ção de
Mestrado – Departamento de Direito, Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro.

The Dissertation investigates relationships between the several forms of


exploitation of women and politics in colonial Brazil. Sexual exploitation and
control of women were one of the essential and innovative techniques to build this
“modern civilization in the tropics” as well as one of the important features of
Brazil during its colonial period. From the earliest times in Brazilian history,
women were associated with nature and with land to be colonized, which implied
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

in a practical and symbolic analogy of forms of devastation. Moreover, as a result


of raping female slaves and of unions such as concubinage we had the
"illegitimate" offspring, "nobodyness" which gave rise to Brazilian people. In the
colonial context, the patriarchal clan was the real source of power. This is the
origin of patrimonialism, patriarchalism and personalism, with means that public
sphere was formed by the invasion of private elements, among them the
systematic and violent control /exploitation of women. It permits to conclude that
patriarchal and patrimonial relationships are quite gendered. In terms of political
theory, making women serve directly to economic and social project of
colonialism, patriarchalism politically marginalized women.

Key-words
colonization of Brazil; patrimonialism, patriarcalism and personalism;
public and private spheres; gender violence; sexual exploitation of women.
Sumário

1. Apresentação 12

1.1. Apresentação do tema 12


1.2. Pertinência à linha de pesquisa 12
1.3. Pontos de partida provisórios 14
1.4. Metodologia 18

2. Introdução: o público e o privado 20


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

3. As mulheres no Brasil colonial 25

3.1. Breves divergências de perspectiva no estudo na mulher no Brasil


colonial 25
3.2. Analogia entre a terra e a mulher: meios de produção e
reprodução 28
3.3. Adestrar a natureza e a mulher: projeto normatizador 33
3.4. Formas de organização da sexualidade 37
3.5. As diversas inserções da mulher indígena 41
3.6. As várias formas de abuso da escrava negra 44
3.7. Os filhos ilegítimos 52
3.8. Sexualidade compulsória – casamento e prostituição 55
3.9. Controle do adultério e divórcio 59
3.10. Mulheres chefes de família 61

4. Colonialismo, patrimonialismo e patriarcalismo 64

4.1. Observação preliminar: a questão da herança ibérica 64


4.2. Características materiais da colonização 66
4.3. Origens do patriarcalismo, do personalismo e do patrimonialismo
no Brasil 71
4.4. O patrimonialismo de Weber na Colônia 76
4.5. As recepções de Weber e a perpetuação dos traços patriarcais 86
4.6. Uniformidade do processo civilizatório, inexperiência democrática
e brutalidade 93

5. Considerações finais 97

6. Referências bibliográficas 107

7. Anexo 114
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA
1
Apresentação

1.1

Apresentação do tema

A pesquisa investiga os elementos do colonialismo brasileiro que ainda


ecoam em nossas instituições políticas e a relação destes elementos com a forma
estrutural de opressão patriarcal e colonial da mulher. Pretendi captar, na
literatura disponível, qual a relação entre gênero e política no Brasil. Não se trata
de uma pesquisa historiográfica, que se utiliza de fontes primárias, mas sim de
uma pesquisa de teoria política que, através de fontes secundárias, procura refletir
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

sobre a imbricação entre a forma de poder que é o patriarcado e o poder político


no seio das relações sociais e do Estado, no contexto específico da formação da
sociedade brasileira.

1.2

Pertinência à linha de pesquisa

A linha de pesquisa em que a dissertação se insere é a denominada “Ética,


Dignidade Humana e Construção da Subjetividade”, que é crítica das cisões e
dualismos em que se fundou o pensamento moderno1. Segundo Carlos Alberto
Plastino (2003 e 20062), o dualismo “matricial” que organiza o paradigma

1
Como será visto, ao se tratar da pertinência à linha de pesquisa e das questões
epistemológicas, a referência à modernidade será uma constante. É que o Brasil é integrante e fruto
da modernidade, ainda que com peculiaridades de periferia – de acordo com Darcy Ribeiro (2006,
p. 105, 23), peculiaridades que fazem resultar uma “sociedade totalmente nova”. Ainda assim,
somos modernos, exatamente porque fomos colonizados pela Europa. Conforme afirma
Boaventura de Sousa Santos (2008), o colonialismo, responsável por nos inserir à margem, é
relação estruturante da própria modernidade, sendo que ambas as noções são mutuamente
dependentes. Tal imbricação se reflete não somente na economia e na política, mas também nas
relações de gênero.
2
Plastino apresenta tais reflexões no contexto da discussão sobre a forma de percepção da
natureza a partir da psicanálise, desde Freud (em cuja teoria a impossibilidade de controle total da
natureza resultaria até mesmo na segunda fonte do sofrimento inafastável do ser humano) a
Donald Winnicot, que, diferentemente do primeiro, sustentou uma perspectiva vitalista, na qual a
13

moderno é aquele entre natureza e cultura. De acordo com ele, na modernidade o


ser humano “deixou de ser visto como integrado à natureza”, associando-a com o
corpo e a cultura com a consciência. O ser humano passou a perceber-se separado
dela, em uma relação tanto de oposição quanto de dominação – sendo a natureza
vista a partir de uma metáfora de máquina, sujeitada, portanto, à vontade e aos
desígnios do homem, constando mesmo como um dos fins do projeto da
modernidade a sua dominação completa. A questão é que a natureza e o feminino
são figuras milenarmente atreladas e, em um contexto mais específico, como será
melhor trabalhado adiante, o dualismo entre natureza e cultura correspondeu,
respectivamente, ao feminino e ao masculino, à América a ser colonizada e à
Europa colonizadora. Neste sentido, é exatamente em uma contraposição ao
dualismo natureza e cultura / masculino e feminino como noções naturais,
absolutas, excludentes e em relação de dominação que esta pesquisa se situa.
Como se verá, a redução da mulher ao seu corpo, e a sua associação com a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

natureza, a terra e o ser colonizado é o elemento que informará não só o papel


atribuído ao elemento feminino no Brasil colônia, como também muitas das
relações políticas decorrentes.
A linha de pesquisa, ademais, se propõe a pensar a conseqüência da forma
de construção da subjetividade para a teoria política. Em outras palavras, essa
linha de pesquisa visa a problematizar a teoria política moderna “à luz do saber
produzido pela psicologia profunda nas suas várias vertentes”. A “psicologia
profunda”, de acordo com Plastino (2003), é a maneira pela qual Freud se referia à
psicanálise, e também é a denominação da psicologia analítica de Jung. De acordo
com aquele autor, a partir da psicologia profunda se percebe que os sentidos que
produzem a subjetividade emergem de “experiências arcaicas, nas quais não é
possível postular nenhuma intervenção da consciência”, tampouco da linguagem,
com a predominância de fatores afetivos. Significa dizer que as modalidades de
apreensão do inconsciente não são mediadas e que os impactos do real são
diretamente apreendidos. A maior parte dos desenvolvimentos feministas, nas
mais variadas áreas – incluindo a saúde, a economia e a política – é permeada
pelos desenvolvimentos teóricos ligados à psicologia profunda, ainda que de

Natureza seria pensada como um ser vivo e complexo – o que foi completamente excluído da
perspectiva hegemônica da modernidade.
14

forma indireta3. Isso porque a construção do feminino e do masculino e as


relações de poder entre os gêneros são produzidas e introjetadas a partir de
relações muito íntimas e apreendidas pelo inconsciente desde os períodos mais
remotos da vida de cada pessoa, de forma não mediada. Além disso, as formas de
percepção da mulher (que, no Brasil colônia, por exemplo, se revelaram na
conexão da mulher com o mistério e com o perigo, o que levou a e justificou um
processo de controle, ou ainda a identificação da mulher com um objeto) são
relacionadas a tais processos relevados pela psicologia profunda. A presente
pesquisa, a partir de trabalhos interdisciplinares, ligados à sociologia, à
antropologia e à psicologia, que descrevem e denunciam a construção do feminino
e do masculino na sociedade patriarcal, tratados na introdução da dissertação,
pretende evidenciar ligações entre formas de violências gendradas muito
relacionadas à subjetividade à sexualidade, e suas conseqüências para o
estabelecimento do público e do privado no Brasil. A articulação que se pretende
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

investigar, portanto, é coerente com a proposta da linha de pesquisa, ainda que a


atual reflexão seja mais focada nas nossas peculiaridades de periferia (ainda que
sejamos resultantes e integrantes da modernidadeos) do que nas discussões de
teoria política mais propriamente modernas.

1.3

Pontos de partida provisórios

Adoto três pontos de partida epistemológicos, os quais, ainda que


provisórios, auxiliarão a guiar o caminho percorrido na investigação. Não se trata
de caminhos absolutos, mas antes de ferramentas úteis à presente investigação.
O primeiro ponto de partida é o gênero como categoria útil para a reflexão
sobre a política e o poder. Para Joan Scott (1995), professora de Ciências Sociais
no Instituto para Estudos Avançados de Princeton, o gênero não diz respeito

3
É difícil encontrar uma coerência estrita nos desenvolvimentos teóricos de Freud sobre a
mulher – ele se mostra contraditório, variando de momentos misóginos, não pensando a mulher em
seus próprios termos, mas a partir das categorias pensadas para o desenvolvimento masculino, que
seria o normal, o padrão (Freud, 1924 e 1931), até momentos de insights profundos sobre o
desenvolvimento feminino (Muraro, 2002). Além de ter sido o primeiro autor a valorizar a
intimidade como algo digno de estudo, Freud contribuiu tanto para pesquisas que reforçaram
estigmas (pejorativos e falsos) em relação às mulheres, quanto para o embasamento de
revolucionárias pesquisas feministas – a respeito, ver Forrester e Appignaesi (1992).
15

apenas a temas como as mulheres, as crianças, as famílias e as ideologias de


gênero, a domínios das relações entre os sexos. Ora, “a guerra, a diplomacia e a
alta política têm explicitamente a ver com essas relações”, por isso a categoria de
gênero não pode ficar irrelevante para a reflexão do poder político e do poder4.

“O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político foi
concebido, legitimado e criticado. Ele se refere à oposição homem/mulher e
fundamenta ao mesmo tempo o seu sentido. Para reivindicar o poder político, a
referência tem que parecer segura e fixa, fora de qualquer construção humana,
fazendo parte da ordem natural ou divina. Desta forma, a oposição binária e o
processo social das relações de gênero tornam-se, ambos, partes do sentido do
próprio poder. Colocar em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema por
inteiro.”

Ainda que defenda aquela perspectiva, do gênero como categoria útil para a
análise histórica e para a análise das relações de política macro, Scott (1995)
afirma que tal categoria não tem ainda força suficiente para interrogar os
paradigmas históricos vigentes, porque os pesquisadores não exploraram a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

perspectiva de estudo em questão. Estudar o gênero relacionado à política é, para


Scott, “um território praticamente inexplorável”, porque “o gênero foi percebido
como uma categoria antitética aos negócios sérios da verdadeira política” e
também porque “foi o bastião da resistência à inclusão de materiais ou de
questões sobre as mulheres e o gênero”.
O mesmo se pode dizer em relação ao objeto específico da presente
dissertação. A relação da política colonial com a forma de exploração das
mulheres e suas conseqüências para a formação das instituições políticas mais
amplas, ainda que muito mencionada pelos intérpretes do Brasil, não teve
tratamento sistemático. Trata-se de campo pouco explorado, sendo que a
dissertação pretende dar alguns passos neste sentido.
O segundo ponto de partida é o da epistemologia feminista como
metodologia alternativa, da forma como enunciado por Fernandez (2008, p. 48-

4
Segundo Lucila Scavone (2008, p. 180), “a historiadora Joan W. Scott introduz o
conceito de gênero na História com o seu famoso artigo ‘Gender a Useful Category of Historical
Analysis’, publicado em 1986 na American Historical Review e traduzido em 1990 no Brasil”,
explicando que Scott, ao “propor o uso da categoria Gênero para a análise histórica – e, por
decorrência, para as Ciências Sociais –, pretende compreender e explicar significativamente o
caráter relacional, transversal e variável dessa categoria analítica. Gênero é uma categoria de
análise histórica, cultural e política, e expressa relações de poder, o que possibilita utilizá-la em
termos de diferentes sistemas de gênero e na relação desses com outras categorias, como raça,
classe ou etnia, e, também, levar em conta a possibilidade da mudança”.
16

50). Baseada em Hugh Lacey5 e em Julie Nelson6, afirma uma proposta


epistemológica com base na crítica feminista, colocando como objetivo
fundamental da investigação científica o entendimento cada vez mais amplo e
pleno dos fenômenos, de modo que se possam preservar a racionalidade e a
objetividade, mas também introduzir elementos não cognitivos na metodologia.
Preconiza uma pluralidade de estratégias da investigação científica, por meio de
uma multiplicidade de abordagens – raciocínio por analogia, por metáforas, pelo
reconhecimento de padrões e pela imaginação.
Neste sentido, Plastino sustenta que é necessário postular formas de
produção/apreensão do conhecimento que não a hegemônica da modernidade, em
modalidades intersubjetivas, que “operam por compreensão” e que se
caracterizam “particularmente pela participação da subjetividade de seu autor no
processo de conhecimento e no seu resultado”. Através exatamente destas
modalidades é que se procura articular tais questões com a compreensão, ainda
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

que parcial, de processos políticos como o patrimonialismo no Brasil – o que não


poderá se realizar dentro de cânones cartesianos de investigação7, mas antes com
outras estratégias de abordagem do fenômeno, como a analogia8 e a comunicação
de discursos, contando, inevitavelmente, com uma alta dose de subjetividade – o
que, novamente de acordo com Plastino, não invalida “a pertinência dos
conhecimentos assim produzidos”. Exatamente devido a esta pluralidade de
estratégias é que esta pesquisa se constitui em um ensaio.
Aqui entra o terceiro ponto de partida. Boaventura de Sousa Santos (1997,
p. 272 e ss) concebe as sociedades capitalistas como constelações
políticas/jurídicas/epistemológicas constituídas por seis modos básicos de
produção de poder/do direito/do conhecimento que geram formas de
poder/direito/conhecimento inter-relacionadas, porém autônomas. Os seis espaços

5
LACEY, Hugh. As formas na quais as ciências são e não são livres de valores. Crítica.
Vol. 6, n. 21, 2003.
6
NELSON, Julie. The study of choice or the study of provisioning? Gender and the
definition of the economics. In: FERBER, Marianne e NELSON, Julie. Beyond economic man:
feminist theory and economics. Chicago: University of Chicado Press, 1996. p. 23-36.
7
Os preceitos da investigação cartesiana são: nunca aceitar algo como verdadeiro até que se
o conheça como tal; repartir o objeto em tantas parcelas quanto forem necessárias; iniciar a
investigação dos objetos mais simples e progredir ao mais complexo; efetuar relações metódicas e
revisões (Descartes, 1999, p. 49-50).
8
A analogia será utilizada, por exemplo, quando se tratar da associação da terra com a
mulher e subsequentemente com o perigo, o mistério e o mal, ou da sobreposição de agentes na
figura do senhor patrimonial.
17

estruturais são os seguintes: doméstico, da produção, de mercado, da comunidade,


da cidadania e mundial. Isso significa que a regulação9 não se dá apenas de uma
forma, mas opera em rede: formas de poder, de conhecimento e de direito
articuladas. Em decorrência disso, tem-se que as propostas de emancipação ou de
crítica teórica têm que operar também na comunicação entre as formas de saber,
poder e direito. É o que pretendo fazer, combinando o eixo doméstico com o eixo
da cidadania, o qual engloba o Estado-nação. Essa chave de análise proposta por
Boaventura se articula às suas novas proposições, ligadas a um pós-colonialismo
de oposição (Santos, 2008, p. 242)10, que privilegia a análise do colonialismo e
das práticas coloniais ainda vigentes – precisamente como o patrimonialismo
entre nós. Para Boaventura, o colonialismo é uma das relações de poder desigual
estruturantes do capitalismo moderno e do próprio desenvolvimento da noção de
modernidade, ao mesmo tempo em que é fundante da periferia (na qual nos
inserimos), de modo que se pode concluir que ambas as noções estão
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

imbricadas11. Boaventura, ademais, apresenta a relação colonial como uma das


relações de poder desigual fundantes, mas não a única – dentre elas, a de classe, a
de raça e a de gênero (sexismo, da forma como denominada pelo autor),
exatamente a que é objeto desse estudo.

9
Boaventura (1997, p. 78-81) sustenta que a modernidade ocidental se constitui na base de
duas epistemologias: o conhecimento-regulação e o conhecimento-emancipação. Para o primeiro,
o saber é ordem e a ignorância, caos. Para o segundo, o saber é cooperação e a ignorância,
colonialismo. A modernidade ocidental, reguladora, reduziu as possibilidades de emancipação às
compatíveis com o capitalismo, e o conhecimento-regulação, ao adquirir total preponderância,
neutralizou o conhecimento-emancipação. Dessa forma é que a ciência moderna assumiu uma
completa preponderância, tomando para si o papel de designadora do conhecimento válido, e
marginalizou todas as outras formas de conhecimento.
10
Boaventura de Sousa Santos (2008, p. 38, 233-4) identifica duas acepções principais de
pós-colonialismo. A primeira se refere ao período histórico que seguiu a independência das
colônias, representando um conjunto de análises sócio-econômicas, sociológicas e políticas sobre
os novos Estados e sua inserção no sistema mundial, e a segunda é a de “um conjunto de práticas
(predominantemente performativas) e de discursos que desconstroem a narrativa colonial, escrita
pelo colonizador, e procuram substituí-la por narrativas escritas do ponto de vista do colonizado”,
num recorte culturalista, reclamando os silêncios das análises da primeira acepção. Boaventura se
reporta a essa segunda concepção, mas preconizando um pós-colonialismo de oposição, porque
foca não só nas práticas simbólicas, mas também nas relações materiais. Essa concepção me
parece coerente e útil. Isso porque as práticas coloniais a que fomos submetidos decorrem das
relações materiais: da forma como foi encarado o território hoje brasileiro, da forma como foi
organizado o trabalho, de práticas sociais concretas como a exploração sexual. Disso, se extrai que
as dimensões sociais e simbólicas não podem ser lidas distanciadas da materialidade.
11
O Brasil se forma, na síntese de Werneck Vianna (1999) – o que será visto adiante –
como resultado e ao mesmo tempo integrante do ocidente, combinando a arquitetura moderna do
Estado com instituiçoes patrimonialistas, imbricação esta que se repete ao longo de nossa história.
18

1.4

Metodologia

A pesquisa se deu por meio da leitura bibliográfica. O ponto de partida


foram os pensadores que tratam de entender a formação brasileira. A escolha da
tríade dos clássicos de Caio Prado Junior, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de
Holanda, respectivamente, Formação do Brasil Contemporâneo, Casa Grande &
Senzala e Raízes do Brasil – se deu a partir de três leituras.
As primeiras são as das obras de Del Priore (1993 e 2000) e Saffioti12
(1979), pesquisadoras que escrevem sobre a história da mulher no Brasil. A
primeira, historiadora; a segunda, socióloga. Ambas citam em seus trabalhos as
mencionadas obras de Caio Prado e Gilberto Freyre, sendo que nenhuma delas
contesta as teses dos referidos autores. Mary Del Priori, ainda que tenha como
desejo maior falar das formas de resistência e de solidariedade que as mulheres no
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Brasil colonial buscaram contra a violência e a solidão (que não é o foco da


presente dissertação), de modo geral referenda a visão de que existia uma situação
de exploração, opressão e vilipêndio da dignidade sofrida pelas mulheres, descrita
por Gilberto Freyre e Caio Prado13 (especialmente Del Priore, 2000, p. 21).
A terceira leitura é a razão pela qual agreguei Sérgio Buarque de Holanda.
Trata-se do texto de Francisco de Oliveira (2003-II, p. 445 e 461), segundo o qual
a tríade mencionada tem uma tradição definitiva e renovadora do pensamento
social brasileiro. Segundo ele, é possível identificar a unificação de um campo de
reflexão sobre a sociedade brasileira que emana do diálogo entre as três obras, que
desenharam e explicaram exatamente as características que me interessam discutir
na presente pesquisa, ou seja, o que se refere no Brasil

“ao patriarcalismo, ao patrimonialismo, à mentalidade colonial, aos hábitos


privados projetados na esfera pública, à dominação oligárquica, ao racismo, à

12
Saffitoi tem seu estudo focado nas relações de trabalho, a partir do marxismo. Não
obstante a importância do tema e da perspectiva de análise, este não é o foco da presente
dissertação, motivo pelo qual não aproveito substancialmente o pensamento desta autora.
13
A concordância da autora se dá não apenas em relação à situação de violência contra a
mulher, mas também em relação ao contexto sócio-econômico da colônia, criada exclusivamente
para atender às necessidades da metrópole: ao engenho açucareiro assentado no latifúndio
monocultor e com trabalho escravo, junto com atividades complementares de plantação de
produtos de subsistência, tabaco e algodão (Del Priore, 2000, p. 93).
19

arrogância, ao horror às normas, ao ‘jeitinho brasileiro’, ao clientelismo, presentes


diariamente da vida privada e pública” (Oliveira, F., 2003-II, p. 445).

Importa também explicar o motivo de não me ter apoiado na obra de


Raimundo Faoro, um dos maiores expoentes do pensamento sobre o
patrimonialismo no Brasil. A razão é que este autor desconsidera a problemática
do senhoriato rural (Campante, 2003, p. 160). Um dos pilares desta pesquisa de
dissertação é exatamente a noção de que o patriarcado rural teve grande influência
para a formação das instituições políticas brasileiras, na esteira do que afirmam
autores como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado, Darcy
Ribeiro e Guillermo O´Donnell.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA
2
Introdução: o público e o privado

Em oposição ao prestígio do masculino, o feminino é o “lugar simbólico


espezinhado e diminuído” (Oliveira, P. P., 2004, p. 282) – isso é válido para todas
as culturas1 em que vigora em alguma medida o patriarcado2, sendo-o também
para a civilização ocidental3.
A dicotomia entre o masculino e o feminino, não obstante o quanto seja
criticável4, conforme sintetiza Michelle Zimbalist Rosaldo (1979, p. 34-52) é

1
Para Michelle Zimbalist Rosaldo (1979, p. 33, 55 e 37), “em toda cultura, a mulher de
alguma forma é subordinada ao homem (...) a mulher, em todo lugar, carece de poder reconhecido
e valorizado socialmente (...)”. “Mas, o que talvez seja mais notável e surpreendente é o fato de
que as atividades masculinas, opostas às femininas, sejam sempre reconhecidas como
predominantemente importantes e os sistemas culturais dêem poder e valor aos papéis e atividades
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

dos homens. Contrariamente a algumas concepções populares, há pouca razão para se acreditar
que existem, ou existiram, sociedades primitivas matriarcais”. Para ela, em todo lugar, seja em
sociedades mais igualitárias, seja naquelas mais estratificadas, alguma “área de atividade sempre é
encarada como exclusiva ou predominantemente masculina e então opressiva e provavelmente
importante”.
2
O patriarcado diz respeito aos sistemas de organização social em que prevalece uma
ordem masculina de poder econômico, político, social, cultural e simbólico. Tem origem milenar
(Muraro, 2002). Já o patriarcalismo é um conceito cunhado por Weber, que significa um tipo
específico de dominação tradicional, legitimada na autoridade pessoal e na tradição, distinta da
dominação racional-legal, legitimada pela ordem impessoal em virtude da legalidade formal (os
conceitos de dominação serão explicados no capítulo II). O que é importante fixar é que
patriarcado é uma noção muito mais ampla, não se resumindo aos sistemas de dominação
patriarcal, existente, também, nas sociedades em que prevalece a dominação racional legal.
3
Importa lembrar aqui o argumento, que será melhor desenvolvido e já anunciado à nota de
rodapé nº 1, de que o Brasil faz parte da periferia, o que não retira seu caráter de integrante da
modernidade, imbricação que é válida também para as relações de gênero.
A marginalização moderna do imaginário do feminino (que inclui a noção do cuidado e da
natureza) é confirmada por Boaventura de Sousa Santos (2008, p. 464), para quem a modernidade
ocidental capitalista suprimiu a noção do cuidado simultâneo de si e dos outros. O paradigma
capitalista implicou, para ele, na “destruição sistemática do cuidado para com o outro e para com a
natureza”. Neste sentido, mostra-se relevante a perspectiva defendida por Plastino (2009), a partir
de Winnicott, que reivindica uma mudança radical da relação do homem consigo mesmo e com a
natureza, tendo como base constitutiva para tanto o cuidado, cuja dimensão ética está em “aberta
contradição” com a lógica que permeia contemporaneamente a vida econômica, política e social.
4
É preciso explicar o que se quer dizer por feminino e por masculino. O feminino e o
masculino são ordens de idéias, de valores e de comportamentos que foram atribuídos, um e outro,
mais aos homens ou mais às mulheres.
Pedro Paulo Oliveira (2004, p. 58 e 281) sintetiza as características de “potência, poder,
domínio, força, coragem, ousadia, valentia, vigor, eficácia, sagacidade, robustez, probidade,
lealdade, firmeza, segurança, solidez, imponência, inteligência, resistência, temeridade,
magnanimidade, intensidade, competência, integridade, invulnerabilidade” como “frequentemente
associadas ao ser masculino”, tidas como “qualidades em si, positivas, desejáveis, dignas de
constarem como aquelas nas quais a própria sociedade moderna gostava de se (auto) projetar”, em
oposição à “fraqueza, apatia, debilidade, passividade, frivolidade, impotência, indecisão, temor,
pusilanimidade, suscetibilidade, timidez, comedimento, recato, ignorância, incapacidade,
21

relacionada à oposição entre o público e o privado, base para o “lugar do homem e


da mulher nos aspectos psicológicos, culturais, sociais e econômicos da vida
humana”5. As mulheres desde há tempos imemoriais gastam sua vida adulta
dedicando-se ao espaço da casa, à criação de filhos, à realização do trabalho
doméstico sujo, “dando luz e pranteando a morte, alimentando, cozinhando,
desfazendo-se das fezes e equivalentes”, de forma que a sua atuação política foi
mais difícil de ser estruturada, porque muito envolvidas com as exigências da
interação imediata. Por outro lado, os homens ficaram mais “livres para formar

indolência, docilidade, inoperância, submissão”, indesejadas, que amiúde apareciam “como


associações automáticas ao feminino”. Estes ideais, “assim configurados”, consagram “a
autonomia de um gênero e destacava a heteronomia do outro” (Oliveira, P. P., 2004, p. 71. No
mesmo sentido, Muraro, 2002, p. 203; Jhonson, 1979, p. 42-4, 53-4; Gilligan, 2001, p. 14-15, 38).
O que se denomina “feminino” não precisaria ser associado às mulheres, não fosse uma
construção cultural milenar do patriarcado a fazê-lo. Da mesma forma, o que se considera
“masculino” é associado aos homens pela forma como a sociedade se organizou ao longo de
milênios.
Além disso, não se pode deixar de mencionar a paradigmática contribuição de Judith Butler
(1990), que critica o movimento feminista tradicional por ser excludente de outras formas de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

agência do sujeito, rechaçando o binômio homem-mulher como a única forma de construção da


identidade e de experiência da sexualidade. Ainda que reconhecendo a importância da teoria de
Butler, a presente pesquisa se atém ao binômio homem-mulher, masculino-feminino, por ser a
simbologia de gênero absolutamente dominante nas discussões e práticas acerca do nosso período
colonial.
5
Doméstico, para Rosaldo (1979, p. 39-40), se refere àquelas “instituições e modos
mínimos de atividades que são organizadas imediatamente em torno de uma ou mais mães e filhos;
‘público’, se refere a atividades, instituições e formas de associações que ligam, classificam,
organizam ou incluem grupos mãe-filho particulares”.
Maria do Carmo Godinho Delgado (2008, p. 4) sintetiza os sentidos do público e do
privado pertinentes à presente dissertação: “Há duas dimensões organizadoras da distinção entre
público e privado. Em um primeiro âmbito, a noção de espaço público e de espaço privado
compreende como pertencentes ao espaço privado todos os aspectos da vida pessoal, doméstica,
familiar e, no âmbito do mundo público, os elementos mediados pelas relações em sociedade, nas
relações de mercado, nas instituições políticas, etc. Esta oposição organiza, da perspectiva do
pensamento liberal, a posição de homens e mulheres no mundo. Uma segunda dimensão que
distingue público e privado é aquela que trata como mundo público os interesses coletivos
encarados como públicos, expressos, em geral, pelo Estado, por meio de suas políticas e ações. A
coisa pública, em contraposição ao que expressa interesses particulares, privados, tanto no âmbito
da sociedade quanto no da vida pessoal, familiar. O privado abrange, nesta perspectiva, aquelas
questões regidas em nossa sociedade pelo direito privado, presidindo as relações de mercado e,
também, as relações pessoais”.
O mercado, portanto, é concebido ora integrante do espaço privado, ora do espaço público.
Em relação ao papel atribuído às mulheres, o mercado figura no espaço público, porquanto no
espaço privado, em que elas são protagonistas, está apenas a casa. O mercado, ao instituir-se como
uma espaço para as trocas alheio e exterior ao processo produtivo, acentuou o artifício ideológico
segundo o qual as mulheres não exerceriam trabalho produtivo no espaço doméstico – elas sempre
o fizeram. O trabalho doméstico exercido pelas filhas, esposas, trabalhadoras domésticas (“livres”
ou escravas) é considerado trabalho reprodutivo das forças de produção. Mas, além disso, produz
muitas vezes uma “renda oculta” (Schefler, 2008), ou seja, trabalho cujo produto, por não ser
convertido em moeda, aparece como se não tivesse valor. Além do trabalho feito em casa e no
quintal, as mulheres sempre exerceram, diretamente, atividade produtiva. Mas as mulheres não são
consideradas sujeitos no espaço de produção, não determinam suas relações. Tradicionalmente o
único identificado como provedor e trabalhador é o homem, o que implica em as mulheres não
exercerem posição de poder no espaço produtivo.
22

essas associações mais amplas que chamaremos ‘sociedade’, sistemas universais


de ordenação, pensamento e comprometimento que ligam grupos mãe-filho
particulares”. O espaço público, assim, sempre foi primordialmente acessível aos
homens na imensa maioria das sociedades.
Para Rosaldo, essa identificação muito geral das mulheres com o doméstico
e dos homens com o público é freqüentemente humilhante para elas e pode
parecer natural, mas não é. A aparência de naturalidade de tal oposição se dá
porque o vínculo das mulheres com os filhos é “duradouro, consumidor de tempo
e emocionalmente submetedor” como nenhuma outra relação humana. São
geralmente concebidas como irmãs, esposas ou mães e têm seu status derivado
dos seus ciclos vitais e de seus laços com homens específicos (Rosaldo, 1979, p.
46-47). Por outro lado, o mundo da cultura é dos homens, na medida em que são
definidos por suas conquistas nos sistemas de experiências humanas elaboradas.
Esta é a base da associação da mulher à natureza e do homem à cultura –
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

identificação que será válida e que terá profundas conseqüências para o Brasil
colonial.
O pensamento feminista é crítico àquela ordem de idéias, porque a forma
em que se conceberam o público e o privado na modernidade6 marginalizou o
espaço doméstico, dificultando a voz feminina (Gilligan, 2001, p. xxii), tratando
as questões que mais afetavam o mundo das mulheres como pré-políticas
(Delgado, 2008, p. 17). Maria do Carmo Godinho Delgado (2008, p. 3) explica
que a crítica feminista7 a este respeito, após os anos 1960, se deu devido a uma
“convergência na compreensão de que a artificialidade das oposições entre

6
Ainda que tal configuração dos papéis de gênero tenha origens milenares, o sentido do
público e do privado que se usa aqui são os conceitos modernos, no sentido do que afirma
Fernando Novais (1997, p. 16), para quem, “no próprio processo de definição do espaço privado, o
qual corre paralelo ao da constituição do Estado moderno, que se delimita o território do público”.
7
A crítica feminista, através de seus movimentos e teorias, muito longe de seguir uma
única orientação teórica, conta com uma imensa pluralidade de visões sobre a compreensão do
patriarcado e as formas de enfrentamento. De leituras liberais a marxistas, de estudos de economia
à psicologia, do direito à saúde, de igualitaristas a diferencialistas, etc. Por isso, quando se afirma
que a crítica feminista atacou a despolitização do espaço privado, não se olvida da sua pluralidade,
mas antes aborda uma idéia que foi largamente aceita por diversas perspectivas feministas em
diversos lugares do mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos.
Sobre o movimento feminista no Brasil, Saffioti (1981, p. 13) afirma que: “Há uma década
e meia o Brasil não dispunha de literatura específica sobre a problemática feminina. Durante os
anos 60 foram elaborados alguns trabalhos específicos sobre o assunto. O país iniciou o decênio de
70 exibindo ainda grande pobreza quantitativa em relação à análise desta temática. O surgimento
de um novo feminismo na Europa e nos Estados Unidos em meados da década de 60 e o patrocínio
pela ONU do Ano Internacional da Mulher, em 1975, contribuíram largamente para despertar nas
brasileiras o interesse pelo tema”.
23

público e privado, produção e reprodução, é um dos mecanismos centrais na


manutenção das relações de subordinação das mulheres”. O lema que sintetiza a
bandeira do movimento à época é “o privado é político”.
Esta crítica feminista tem base na Europa e nos Estados Unidos, e é
formulada em uma linguagem liberal8. Não obstante isso, por certo o problema
que aponta é pertinente ao Brasil9: o confinamento da mulher no espaço privado e
o quase monopólio do espaço político pelos homens, a despolitização das
demandas femininas, a ausência de participação política das mulheres, a ocultação

8
Em termos de teoria política, Seyla Benhabib (1992), debatendo com Jürgen Habermas,
sintetiza que na tradição do pensamento político ocidental diferenciam-se os conceitos de público
(âmbito em que estão as normas e as questões de justiça) e de privado (relativo aos valores e às
concepções de vida digna). Ocorre que, conforme a crítica da teoria feminista, essas distinções
serviram para confinar as mulheres no domínio privado. Temas concernentes ao trabalho
doméstico, como a reprodução, o apoio e cuidado com jovens, doentes e idosos, eram (e são,
muitas vezes) considerados ligados à vida digna e a valores. Não generalizáveis, portanto.
Segundo Seyla, com a emergência dos movimentos de mulheres nos séculos XIX e XX e a maciça
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

entrada das mulheres no mercado de trabalho, o quadro sociológico se alterou, sem que esses
temas fossem tratados pela teoria moral e política. As teorias normativas estavam cegas às
questões de gênero até então. Para Benhabib, o que o movimento feminista tem mostrado nas
últimas décadas é que o modo tradicional de definir o público e o privado legitima a opressão e a
exploração da mulher no domínio privado, e que, portanto, as normas familiares precisam ser
publicizadas.
Aquela ordem simbólica, psicológica e sociológica de identificação do masculino e do
feminino, identificados com o público e o privado, foi respaldada e impulsionada pelo liberalismo
político. Locke inicia seu Segundo Tratado sobre o Governo, obra escrita em 1690, em polêmica
com Sir Robert Filmer, (2007. p. 21-22, 37-70) no afã de desconstruir qualquer legitimidade dos
governos absolutos. Para isso, desenvolveu a argumentação de que nenhum governante poderia ser
advindo de Adão, porque este não tinha nenhuma autoridade divina e, ainda que tivesse, a
linhagem correta de seus descendentes seria impossível de identificar. Com isso, contrariou a idéia
de que o poder político decorre da noção de paternidade. Para ele, o poder paterno, ou poder dos
pais, se funda na natureza, na necessidade de prover os filhos, e dura até a maioridade. Aí rege a
“lei doméstica da família” (Locke, 2007, p. 68). Coisa diversa é o poder político, surgido para
preservar a propriedade, a partir de um contrato social. Neste as leis seriam impessoais, comuns,
sendo que cada um abriria mão de executar as leis da natureza e transferiria esse direito à
comunidade. Rousseau (2007, p. 27-31, 37, 41), no que diz respeito à separação público e privado
tocante a esta dissertação, assumiu a linha de Locke, em O Contrato Social, escrito em 1762. Se a
idéia de Locke teve sentido interessante de contrariar o poder absoluto do monarca, por outro lado,
no que toca à questão de gênero, sacralizou nos âmbitos político e jurídico uma separação que
confinou as mulheres e suas demandas no espaço doméstico, naturalizando-as, ocultando-as e
despolitizando-as. Um dos principais expoentes da crítica feminista ao contratualismo foi
elaborada por Carol Pateman (1993), que sustenta que o contrato sexual, de subjugação das
mulheres, antecede o contrato social.
9
Caio Prado (1957, p. 296) aponta que a separação de funções ou poderes do Estado, a
diferenciação de dois planos do indivíduo entre as “relações externas e jurídicas” e “seu foro
íntimo” (ou seja, entre público e privado) são todas noções que não eram compartilhadas pela
monarquia portuguesa do século XVIII. As manifestações de cunho iluminista no Brasil se deram
primeiramente em movimentos como a Inconfidência Mineira (1789) e a Conjuração Baiana
(1798). Somente quando da Independência é que o ideário iluminista começa a ser incorporado no
discurso oficial. Ocorre que, ainda que em choque com o caldo cultural, pelo menos desde o século
XIX convivemos com o discurso liberal, com todas as conseqüências que isso apresenta, inclusive
para as relações de gênero.
24

das relações de poder existentes no âmbito doméstico, etc. Aqui a reivindicação


de que o privado é político também é válida.
A questão é que no Brasil, como integrante da modernidade e ao mesmo
tempo da sua periferia, o público e o privado se configuram com especificidades.
O espaço privado foi cunhado a partir de imperativos políticos muito peculiares
devido à colonização. No Brasil também a cisão entre o público e o privado, entre
o que é definido como o político, e o que não é e a forma como se concebe o
espaço político se deram em função dos papéis que assumiram homens e
mulheres, em função da forma como se organizou a produção e a reprodução. Mas
a maneira pela qual isso se dá no Brasil tem tons particulares: mediante a chamada
“indiferenciação entre o público e o privado”, com conseqüências para a inserção
da mulher, como as doses de violência exacerbada a que eram submetidas, sendo
o estupro um verdadeiro “fundamento da ordem”, na expressão de Francisco de
Oliveira. É isso que será abordado a partir de agora.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Primeiro será trazido o que a literatura historiográfica apresenta sobre a vida


das mulheres no Brasil colonial, buscando abranger a diversidade de seus modos
de vida. Resgatar-se-ão as analogias entre a natureza e a mulher e os entes a ser
colonizados, e entre a cultura e o homem, colonizadores; as estratégias simbólicas
de justificação de um projeto normatizador contra as mulheres; as formas
constantes de violência contra elas e as inter-relações das formas de inserção
social das mulheres com o projeto da colonização do novo território, identificando
as formas de exploração de gênero como um dos elementos essenciais daquela
estrutura política. No capítulo seguinte, será feito um diálogo entre os elementos
identificados anteriormente com a leitura sobre o patrimonialismo, o
patriarcalismo e o personalismo, características de nossa formação política, e
ainda com a teoria elaborada por Weber e as diferentes recepções desse autor no
Brasil, de acordo com diferentes propostas políticas, buscando identificar o quão
gendrada é a nossa “hipoteca do patrimonialismo”.
3
As mulheres no Brasil colonial

3.1

Breves divergências de perspectiva no estudo na mulher no Brasil


colonial

Antes de começar a tratar da figura representada pela mulher no período


colonial é preciso mencionar brevemente divergências na abordagem do tema.
Autoras como a renomada Mary Del Priore (2000 e 1993), além de Fabiano
Vilaça (2008), Maria Ângela D´Incao (1997) e Rachel Soihet (1997)1 enfatizam a
capacidade de resistência das mulheres naquele contexto, no seu “cotidiano
impreciso” (Del Priore, 1993, p. 16). Não desejam pintar a imagem delas como
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

vítimas, antes enfatizando sua capacidade de ação e mudança2. Diferentemente,


autores como Gilberto Freyre3 (1986), Caio Prado Junior (1957) e Darcy Ribeiro

1
Além dos autores brasileiros, a portuguesa Maria Beatriz Nizza da Silva (1998 e 2002)
apresenta verdadeiras pesquisas genealógicas sobre a mulher no Brasil colonial, valendo-se de uma
vasta documentação de manuscritos e impressos de diversas fontes. Sua obra se aproxima da de
Del Priore no sentido de ir ao capilar da vida das famílias e das mulheres no Brasil colonial. As
conclusões das autoras em muito se coadunam. Por outro lado, diferentemente de Del Priore,
Maria Silva não tende a fazer aproximações gerais, trabalhando muito caso a caso, tanto expondo
situações de opressão como de resistência (p. ex., nas páginas 311 e 312).
2
Rosaldo, tratando da generalizada dominação das mulheres pelos homens ao redor do
mundo, afirma que “as mulheres desafiam os ideais da ordem masculina. Elas podem ser definidas
como virgens, embora sejam necessárias à renovação do grupo. Elas podem ser excluídas da
autoridade, embora exerçam todos os tipos de poder informal. Seu status pode ser derivado de suas
relações com os homens, embora elas sobrevivam a seus maridos e pais” (Rosaldo, 1979, p. 48).
3
Gilberto Freyre é um autor polêmico. Trouxe contribuições muito originais à antropologia
como um todo e à compreensão do Brasil, ao mesmo tempo em que recebeu críticas severas e
consistentes. As críticas que, por exemplo, Dante Moreira Leite (1976) dirige a Gilberto Freyre
dizem respeito à sua noção de harmonia entre as diferentes raças, o que filiaria o pensamento de
Freyre a uma linha conservadora. Essas críticas são reiteradas e pertinentes. Ocorre que o recorte
teórico que utilizo da obra deste autor é um ponto não criticado, um ponto que não é explorado
pelos seus intérpretes, que se centra na violência intrínseca, na exploração sexual da mulher, na
centralidade da família patriarcal, no sadismo das classes dominantes e no masoquismo das classes
dominadas que advém da escravidão. O próprio Leite (1976, p. 278) menciona, em seu texto, a
centralidade da família patriarcal de que Freyre trata, o sadismo e o masoquismo, o personalismo,
o culto sentimental e místico ao pai. E o menciona sem fazer críticas a esses aspectos da obra do
autor de Casa Grande & Senzala.
Outra observação preliminar é importante. Já na abertura do prefácio à primeira edição de
Casa Grande e Senzala, escrito em 1933, Gilberto Freyre (1986, p. 9) se refere à sua obra como
sendo um “ensaio”. Essa característica combina com a dose alta de intuição que o livro carrega, o
que tende a ser positivo, porque traz a possibilidade de contribuir de forma diferenciada para a
26

(2006) trataram, ainda que indiretamente, da estrutura de dominação patriarcal e


violenta contra as mulheres.
Ambas as perspectivas de análise dos autores brasileiros – foco na ação do
sujeito e na resistência ou foco na estrutura e na opressão – parecem ser
importantes. Não as considero excludentes. Isso porque as formas de resistência
descritas não eram formas capazes de transformar todo o sistema de opressão,
senão a longuíssimo prazo. Mais se aproximaram de estratégias pessoais das
mulheres para minorar o sofrimento físico e psicológico e para viverem relações
de amor e felicidade. Há de se reconhecer, também, que existiram situações em
que a mulher foi vítima inteiramente, em violências como o estupro e o açoite.
Esse aspecto não pode ser negligenciado pelos estudos que enfocam a capacidade
de resistência dos agentes sociais. Se as mulheres resistiram, contra elas existia
uma rede de aparelhos repressores, entrelaçados pela colonização, muito mais
fortes.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Leila Algranti (1999, p. 147-8, 159-160), apesar de não nomear autores, explica
que o desenvolvimento de movimentos feministas na década de noventa no Brasil
estimulou o interesse pelo estudo da condição feminina, resultando em pesquisas
sobre a mulher principalmente acerca dos séculos XIX e XX, de modo que a
mulher do Brasil colônia recebeu menos atenção. Os estudos sobre o período
colonial têm duas veias principais, de acordo com ela: a primeira, a romper com o
estigma de extrema reclusão e religiosidade feminina; a segunda, em sempre
analisar a mulher a partir da ótica da família. A primeira característica de tais
estudos implicou na criação do estereótipo oposto, da mulher rebelde. Ocorre que,
de acordo com a pertinente observação de Algranti, “não é possível escrever a

compreensão dos fenômenos sociais, em visões mais compreensivas do que a metodologia


científica estrita pode ter.
Ademais, o professor Ricardo Benzaquen (2008) observou que Gilberto Freyre inicia Casa
Grande e Senzala apresentando suas teses gerais, e termina o livro sem conclusão, o que, na
interpretação do professor mencionado, indica a inconclusão das características identificadas no
Brasil colônia por Gilberto Freyre, ou seja, a permanência na história dos traços coloniais que
desenhou. Essa idéia combina muito com a proposta dessa dissertação, que em última análise é
discutir a inconclusão e a permanência de traços coloniais na nossa cultura política ainda hoje.
Para Motta (1977, p. 63-67), por sua vez, a obra de Gilberto Freyre elimina as contradições
reais do processo histórico social (classes e estamentos), inclusive a relação senhor-escravo, que
seria imprecisa de contornos diante de tantas exceções feitas por Freyre. Não me pretendo imiscuir
em tal debate. Ocorre que nem todos os fatores reais de opressão na sociedade se resumem às
classes e às raças – a opressão da mulher pelo homem foi intensa e Gilberto Freyre a escancara,
mesmo quando quer suavizar essas violências. Daí que não se pode dizer que o autor elimina as
contradições. Ele ao menos oferece fortes subsídios para refletir sobre a dominação de gênero em
nosso período colonial.
27

história da mulher colonial apenas sob o ponto de vista das que resistiram aos
mecanismos da dominação social da época”, sob pena de criar imagens
polarizadas.
A mesma pessoa que encontra estratégias de resistência sofre, ao mesmo
tempo, diversas formas de influxos de opressão. E, exatamente para evitar a figura
polarizada, vale a pena algumas considerações sobre as formas de resistência das
mulheres durante o Brasil colônia. A resistência direta dos grupos oprimidos não
foi a tônica. Como afirma Mary Del Priore (1993, p. 17, 28, 25, 61 e 335 e 2000,
p. 9 e 32), apesar de o Brasil colônia ter sido dominado por um sistema patriarcal
que deixava às mulheres pouca margem de ação explícita, outras formas diversas
de resistência não foram impedidas. A “revanche” das mulheres “traduziu-se
numa forte rede de micropoderes em relação aos filhos e num arsenal de saberes e
fazeres sobre o corpo, o parto, a sexualidade e a maternidade” – ainda que seja
ingênuo, todavia, acreditar numa solidariedade de gênero que estivesse acima das
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

contradições de raça, de classe social e de concepção religiosa.


De acordo com ela, uma das principais formas de resistência foi exatamente
a maternidade4. Se por um lado esta confinava as mulheres ao espaço privado, por
outro lado, elas “uniam-se aos seus filhos para resistir à solidão, à dor e, tantas
vezes, ao abandono”. Fora isso,

“a prole permitia à mulher exercer, dentro do seu lar, um poder e uma


autoridade dos quais ela raramente dispunha no mais da vida social. Identificada
com um papel que lhe era culturalmente atribuído, ela valorizava-se socialmente
por uma prática doméstica, quando era marginalizada por qualquer atividade na
esfera pública” (Del Priore, 1993, p. 18).

4
Mesmo as mães negras, que eram submetidas a condições inumanas, nunca ficaram atrás
quanto à atenção e ao carinho para com seus filhos. “Os primeiros cuidados com o recém-nascido
eram os mesmos tomados pelas brancas: lavar os pequenos com vinho ou cachaça; limpá-los com
manteiga ou outra substância oleaginosa e enfaixá-los; e a cabeça era cuidadosamente moldada e o
narizinho achatado, com o polegar, para que adquirisse uma forma que parecia mais estética às
africanas. Os descendentes de nagôs eram enrolados em panos previamente embebidos numa
infusão de folhas antes sorvida por suas mães. Os umbigos recebiam as mesmas folhas maceradas
e, num rito de iniciação ao mundo dos vivos, imergia-se a criança três vezes na água. O pequeno
mamava quando podia, sendo amarrado em panos às costas das mães que os levavam consigo em
suas atividades diárias. A passagem da alimentação mista para a semi-sólida operava-se com
infinita precaução, não percebida, todavia, pelos viajantes estrangeiros. A técnica da pré-digestão
de alimentos embebidos na saliva materna significava muito mais um cuidado do que falta de
higiene. Na tradição africana, era comum a mastigação de sólidos e a passagem destes, em forma
de bolo cremoso, para a boquinha dos pequenos” (Del Priore, 2000, p. 81-2).
28

Del Priore (1993, p. 19-20 e 334) chega a afirmar que a realização das
mulheres residia “apenas e exclusivamente na maternidade”, considerando-a como
“o universal feminino no período colonial. A identidade feminina fazia-se a partir
da maternidade, independentemente de a mulher pertencer à casa-grande, à
senzala ou à palhoça bandeirista”. Interessante observar que o elemento que talvez
mais tenha justificado a exclusão da mulher no espaço público (a maternidade) é
aquele no qual a mulher se apega como forma de resistência e de realização
pessoal, além de ter sido o poder da geração o principal fator de controle sexual de
algumas mulheres e de superabuso sexual de outras no Brasil colonial, como se
verá mais adiante.

3.2

Analogia entre a terra e a mulher: meios de produção e reprodução


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

A analogia entre o feminino e a natureza não foi inventada no Brasil. Trata-


se de uma associação feita pelo patriarcado em geral, conforme se disse na
introdução, através de Michelle Rosaldo (1979). Não obstante este fato, entre nós
a identificação terra-mulher ganhou contornos profundos que se imbricaram com
a relação de colonização. A metáfora recíproca entre as figuras significou tanto
identificação simbólica entre a mulher (primeiro a indígena, e depois a africana, a
mestiça e também a branca5) e a terra, quanto similitude nas práticas de
dominação e exploração, até à devastação.
Segundo Caio Prado Júnior (1957, p. 25), o sentido da colonização era de
uma vasta empresa comercial para “explorar os recursos naturais de um território
virgem6 em proveito do comércio europeu”7. Este sentido da colonização explica

5
Segundo Verena Stolke (1999, p. 18), da Universidade Autónoma de Barcelona, nos
primeiros anos da conquista da América, os colonos ibéricos não só se apropriaram das terras
indígenas, submeteram a população a trabalhos forçados no espaço da produção e no espaço
doméstico, como sujeitaram as mulheres indígenas e depois também as negras a todas as formas de
abuso sexual.
6
Ricardo Salles (1996, p. 105) também trata da natureza “virgem”, atributo este muito
significativo no que diz respeito à sexualidade feminina.
7
“No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos
toma o aspecto de vasta empresa comercial, mais complexa que a antiga feitoria, mas sempre com
o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em
proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil
é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no
social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos” (Prado Júnior, 1957, p. 25).
29

os elementos fundamentais econômicos, sociais e políticos brasileiros, dentre eles,


no campo político, o patrimonialismo, o patriarcalismo, a invasão do público pelo
privado. Mas, além disso, a formulação do conceito, através da idéia da
exploração da natureza virgem, sugere a simbiose entre as figuras da mulher e da
terra na América. Sandra Regina Goulart de Almeida (2007, p. 462) demonstra,
através da análise de figuras e mitos literários, que a América a ser conquistada
era tida no imaginário europeu “emblematicamente representada como uma
mulher bela, sedutora e atraente, cobiçada por seus dotes promissores e beleza
exótica”. Ela explica que o território a ser desvendado se apresenta de modo
feminino “como uma terra virgem a ser descoberta, explorada, possuída e
usurpada”. Prossegue afirmando que

“o corpo feminino simboliza metaforicamente a terra conquistada” “ao


encontro dos dois mundos por meio de oposições de gênero. Nesse contexto, em
um movimento metonímico, possuir a mulher nativa equivaleria a possuir a nova
terra recém revelada aos europeus” (Almeida, 2007, p. 462).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Stam e Shohat (2006, p. 210 e 236) corroboram a idéia de que o encontro


colonial se baseou na oposição gendrada entre homem-colonizador e mulher-
natureza, a ser colonizada. Tal raciocínio é nitidamente mostrado na poesia de
John Donne (1572-1631), na tradução de Augusto de Campos (apud Almeida,
2007, p. 462):

“Deixa que minha mão errante adentre


Atrás, na frente, em cima embaixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre seu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
onde cai minha mão, meu selo gravo.”

Stam e Shohat (2006, p. 210) tratam das “metáforas coloniais de gênero


sexualizadas” presentes na colonização, interpretando a obra América, de Jan Van
der Straet (Johannes Stradanus) [anexo]: Vespúcio trazendo consigo símbolos de
poder e de direção, como a cruz, a armadura e a bússola; as embarcações que
levam os tesouros da América paradisíaca; uma mulher despida, que representa a
“América indígena”, mostrada como uma “extensão harmoniosa da natureza, ao
passo que Vespúcio representava o domínio da ciência. Sandra Almeida (2007)
30

também faz alusão a esta gravura, que representaria o primeiro encontro do Velho
e do Novo Mundo. Na obra, Américo Vespúcio “descobre a América”,
simbolizada por uma mulher indígena8.

“completamente nua, que desperta e se levanta da rede para dar as boas-


vindas ao conquistador, devidamente aparelhado com suas vestimentas,
simbolizando, por contraste com a nudez americana, a suposta cultura européia. Se,
por um lado, o europeu ocupa, nessa gravura, o espaço da civilização, evocada por
sua vestimenta, por outro, a mulher, por oposição, é representada como o outro
que, opondo-se à civilização, se aproxima da natureza, em seu estado natural,
desprovida de qualquer traje” (Almeida, 2007, p. 462-3).

Trata-se de uma “oposição gendrada”, de acordo com Stam e Shohat (2006,


p. 212), que aparece também na simbologia colonial que indica que o europeu,
após as empreitadas de colonização, voltava para casa “após desfrutar a
mulher/nação estrangeira”, recuperando-se da “desordem da viagem” ao recobrar
as “virtudes da ciência, tecnologia e modernidade”.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Ricardo Salles (1996, p. 81 e 83) trata de questões que dizem respeito à


identificação da terra com a mulher como características que formam o que
denomina de “substrato cultural” brasileiro. Para ele, no centro da formação deste
substrato cultural estaria a oposição entre Natureza e Civilização, noções que se
apresentavam “como elementos das relações estabelecidas durante o período
colonial a se reestabelecer em novas bases no processo de emancipação entre
América (natureza) e Europa (civilização)”. De acordo com o autor, o
estabelecimento de tal dicotomia, “característica do pensamento moderno
ocidental”9, abarcou e reproduziu, “no plano cultural, as relações coloniais”.
Para Salles (1996, p. 82-3), no “imaginário ocidental introduz-se a noção da
natureza adversa, como algo a ser dominado e transformado pela obra da
civilização positiva” – da mesma forma, portanto, como foram vistas as
mulheres10. Para ele, já na metade do século XIX, a natureza americana

8
Neste sentido, são interessantes as interpretações sobre a mestiça Inocência, cujos
“atributos são comparados à natureza exuberante: ‘[...] coradinha que nem mangaba do areal. Tem
cabelos compridos e finos como seda de paina [...]’ [TAUNAY, Visconde de. Inocência. São
Paulo: Melhoramentos. 1974, p. 55]. Possui beleza deslumbrante, numa mistura entre a
simplicidade do sertão e os encantos femininos” (Rotta e Bairrao, 2007, p. 640).
9
Conforme dito na Apresentação desta dissertação, Plastino (2003) também afirma que é
moderna a dicotomia entre natureza e cultura. A produção de efeitos deste elemento ocidental no
Brasil colônia confirma a imbricação entre modernidade e periferia.
10
“Apesar de tanta vida e variedade das matas-virgens, apresentam elas um aspecto
sombrio, ante o qual o homem se contrista, sentindo que o coração se lhe aperta, como no meio
31

“permaneceu seu lugar de fonte de riqueza – agora já para o homem civilizado


ocidental –, seja pela ação empreendedora do trabalho pioneiro, seja pela
capacidade de conjugar os elementos da empresa colonial exploratória”. O autor
ainda afirma que a

“apropriação da natureza colonial só pôde ser feita pela via da incorporação


e conquista militares de sua realidade física e também da realidade sócio-cultural
de seus habitantes. Neste sentido, cabe ressaltar que a visão dos habitantes do Novo
Mundo como selvagens desempenhava uma função particular. Ela implicava na
descaracterização da humanidade social das culturas nativas, na sua redução a
quase um aspecto da própria natureza”11 (Salles, 1996, p. 83).

Igualmente se procedeu em relação às mulheres: o tratamento pela via da


violência e a descaracterização de sua humanidade, ou de sua dignidade, ao
incorporá-las como parte da natureza, ao tratar ambas da mesma forma.
A dicotomia natureza e cultura, “evidentemente, facilitava e legitimava toda
a obra de colonização européia de destruição, submissão e exploração das
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

sociedades do Novo Mundo”. Para Salles (1996, p. 83, 98-9), a adoção da


dualidade traduziu-se “em dois elementos constitutivos da nova nacionalidade que
interagiam: o Estado monárquico, portador e impulsionador do projeto
civilizatório, e a natureza, como base territorial e material do Estado”. O primeiro,
“corporificado no trono imperial, cumpria uma missão de submeter a seu domínio
um outro diferente de si. Cumpria, ainda assim, uma missão civilizatória deste
outro”.

dos mares, ante a imersão do oceano. Tais matas, onde apenas penetra o sol, parecem oferecer
mais natural guarida aos tigres e aos animais trepadores do que ao homem; o qual só chega a
habitá-las satisfatoriamente depois de abrir nelas extensas clareiras, onde possa cultivar os frutos
alimentícios ou preparar prados e pastos, que dêem sustento aos animais companheiros
inseparáveis da atual civilização” (Adolfo Varghagen, História geral do Brasil, Editora Italiana,
Belo Horizonte, Editora Universidade de São Paulo, São Paulo, 1981, volume 1, tomo 1, p. 16,
apud Salles, 1996, p. 104). Lendo Varnhagen, Salles (1996, p. 105) extrai que a natureza era tida
como rica e fértil (da mesma forma que se via a mulher), para quem soubesse dispor dela “com os
instrumentos da civilização”.
11
“Seja em sua relação com as populações indígenas, seja, principalmente, em suas
relações com o africano escravizado, o colonizador europeu pautava sua ação pela violência e
tutela sobre um outro diferente de sua humanidade civilizada. Por outro lado, as relações entre
estes colonizadores e o Estado relativamente distante se reinauguram na empresa colonial,
atribuindo aos primeiros uma razoável dose de autonomia e independência. O exercício da
violência e da tutela sobre escravos e índios – e logo sobre uma população de agregados e
dependentes – se dava em larga medida em escala privada. A própria natureza destas relações, em
que o objeto de dominação era um outro de diferente humanidade e mesmo coisificado e
‘animalizado’, reduzido à sua dimensão ‘natural’, somada a uma tradição ibérica de
patrimonialismo e poder pessoal, ensejou a produção de relações de dependência pessoal e
características de patriarcalismo” (Salles, 1996, p. 86).
32

Em síntese, de acordo com Salles, existia uma dicotomia na base do


substrato cultural brasileiro, que remonta às relações coloniais: em um pólo, o
elemento colonizado, qual seja, a natureza, identificada com a América –
identificação que proporcionava a descaracterização da humanidade dos nativos,
inclusive – que se transformou na base territorial da ação colonizadora e do
Estado monárquico, o qual representa o outro pólo, em que está o colonizador, a
cultura, identificada com a Europa. Do conjunto dos autores citados, em especial
Sandra Almeida, extrai-se que no lado colonizado estão as simbologias
mencionadas na introdução desta dissertação, que remontam ao feminino (a
natureza), ao passo que do lado da Europa colonizadora está a simbologia do
masculino (a cultura). Mais do que a simbologia, a prática material foi realmente
de colonização dos corpos e das vidas das mulheres.
A associação da mulher com o ser colonizado foi verdadeira também para
outros lugares da América Latina. Por exemplo, a Chingada é, na mitologia da
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

historia mexicana, uma das representações da maternidade, mas daquela Madre


violada, daquela que não resistiu ao estupro do colonizador espanhol. Segundo
Octavio Paz (1992, p. 71 e 80), se “a Chingada é uma representação da Mãe
violada”, não lhe “parece forçado associá-la à conquista, que foi também uma
violação, não somente no sentido histórico como na própria carne das índias”.
Na descrição de Sérgio Buarque de Holanda (2006, p. 40, 44), a terra era
vista para “arruinar, não para proteger ciosamente”. “Todos queriam extrair do
solo excessivos benefícios sem grandes sacrifícios”, “só para a desfrutarem e a
deixarem destruída”12. Ora, foi rigorosamente desta forma que as mulheres foram
vistas. Essa lógica de uso até à devastação é válida não só para a zona do açúcar,
que é o objeto da obra de Freyre, mas também para a produção cafeeira, na qual,
conforme Darcy Ribeiro (2006, p. 3666), a terra, tal qual na produção açucareira,
foi sempre explorada à exaustão, sem preocupações com seu cuidado.
Estes elementos eram relacionados mesmo à infra-estrutura econômica,
construída na base da “exploração precipitada e extensiva dos recursos naturais de
um território virgem, para abastecer o comércio internacional de alguns gêneros
tropicais e metais preciosos de grande valor comercial”, base que “devassou a
terra” (Caio Prado, 1957, p. 356 e 358), assim como as mulheres. O que permitia

12
Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, 3. Ed. São Paulo, d. p. p. 16, apud Holanda,
2006, p. 44.
33

o devassamento de ambas era a concepção de serem, igualmente, propriedade


privada13. Darcy Ribeiro (20006, p. 309) repete em relação aos sertanejos o que
viu como uma característica que perpassa todas as formações brasileiras: a
compreensão da autoridade indiscutida dos proprietários sobre os seus bens, bens
que abrangiam vidas humanas, e sobre as mulheres que lhes “apetecessem”. A
questão é que a exploração da terra e dos corpos das mulheres era calculada
politicamente:

“À escassez de capital-homem, supriram-na os portugueses com extremos de


mobilidade e miscibilidade: dominando espaços enormes e onde quer que
pousassem, na África ou na América, emprenhando mulheres e fazendo filhos,
numa atividade genésica que tanto tinha de violentamente instintiva da parte do
indivíduo quando de política, de calculada, de estimada por evidentes razões
econômicas e políticas por parte do Estado” (Freyre, 1986, p. 47).

A mulher e a terra eram metáforas uma da outra não só no sentido da


exploração sensorial e sexual, mas também como meios de produção e de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

reprodução, como propriedades, tendo as mulheres sua sexualidade abusada ou


controlada conforme os imperativos da colonização. Isso foi válido não apenas
em relação às índias, mas também em relação às negras, às mestiças e às brancas.
O controle, os estímulos e os influxos das e às mulheres foram relacionados ao
seu papel de reprodutora de braços e de transmissora de valores em função do
interesse de colonização. Em função desse papel a mulher foi desgastada e
devastada. Ambas, a terra e a mulher, devastadas e controladas, em função não
apenas da simbologia de ligação com a natureza, mas em função do papel que
desempenham na produção.

3.3

Adestrar a natureza e a mulher: projeto normatizador

A metáfora entre a mulher e a terra foi mais além.

13
A racionalidade predatória e autoritária que se tinha sobre a terra e a mulher,
consideradas propriedades, se relaciona à “classe dirigente exógena e infiel a seu povo”, no seu
“afã de gastar gentes e matas, bichos e coisas para lucrar”, que é, para Darcy Ribeiro (2006, p. 62),
o elemento mais continuado e permanente na história brasileira. Esta classe dirigente estaria a “a
tudo predisposta para manter o povo gemendo e produzindo. Não o que querem e precisam, mas o
que lhes mandam produzir, na forma que impõem, indiferentes a seu destino”. “Manter o povo
gemendo e produzindo”... manter as mulheres gemendo, produzindo e reproduzindo.
34

Mary Del Priore (1993, p. 333) sustenta que a história da mulher no período
colonial passa pela história do seu corpo, do “‘sul’ do corpo feminino”. As
mulheres, para ela, não foram “mais do que seus próprios corpos, corpos que são
terras desconhecidas, territórios impenetráveis e que foram durante séculos
auscultados, mapeados, interrogados e decodificados pela imaginação masculina”.
A associação entre a mulher e a terra/natureza, portanto, envolvia os mistérios que
o corpo feminino e que o território desconhecido invocavam; envolvia também a
sensação de magia, de segredo e do desconhecido que a gestação e a menstruação
sugeriam. Segundo Stam e Shohat (2006, p. 201), os colonizadores “associaram a
América Latina, e especialmente as mulheres latino-americanas, a epítetos verbais
que evocam calor tropical, violência e paixão”. Esta série de identificações,
produzidas pelo universo masculino, fazia no Brasil colonial pertencerem ao
mesmo imaginário a natureza e a mulher, cercadas das noções de enigma e de
perigo14.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Isso se transformou, no discurso católico, em uma ligação da mulher com o


mal e com o diabo – o que, obviamente, não foi uma peculiaridade no Novo
Mundo, sendo uma idéia anterior e mais extensa do que a colonização. Nos
sermões de Antônio da Silva15, lê-se que “como o intento do Demônio é fazer da
terra todo o mal que pode, por isso conserva as mulheres, porque elas são de todo
o mal o instrumento”16.

14
Neste sentido, interessante o estudo sobre a personagem Inocência: “Inocência, de
Visconde de Taunay, possui elementos comuns com as mulheres protagonistas dos romances
indianistas, assim como traços que indicam indiretamente sua condição de mestiça. (...) Além da
descrição da bela moça, alguns trechos dão indícios de como a mulher é vista, enquanto
representante do mal, numa mescla de pureza e perigo. Nesse caso, os dois estereótipos femininos,
a bela virgem e a morena provocante, mesclam-se na mesma personagem. Sua virgindade é
altamente valorizada, como a de suas 'primas' indianistas. Involuntariamente perigosa, Inocência
mostra-se ingênua em relação aos sentimentos carnais que provoca. (...) O pai, homem,
representante dos valores patriarcais e conservadores veiculados pela ótica do autor, venera e
desconfia de sua filha, mulher, que aparece como personificação do pecado. A partir dessa visão,
mulheres devem ser recatadas e aprender a ‘[...] tratar dos filhos e criá-los nos termos de Deus
[...]’” [TAUNAY, Visconde de. Inocência. São Paulo: Melhoramentos. 1974, p. 192] (Rotta e
Bairrao, 2007, p. 639-640).
15
Antônio da Silva. Sermões das tardes de domingo na Quaresma pregados na matriz do
Arrecife de Pernambuco no ano de 1763, p. 39, apud Del Priore, 1993, p. 114.
16
Neste sentido, Araújo (1997, p. 46) afirma que “Nunca se perdia a oportunidade de
lembrar às mulheres o terrível mito do Éden, reafirmado e sempre presente na história humana.
Não era de admirar, por exemplo, que o primeiro contato de Eva com as forças do mal,
personificadas na serpente, inoculasse na natureza do feminino algo como um estigma atávico que
predispunha fatalmente à transgressão, e esta, em sua medida extrema, revelava-se na prática das
feiticeiras, detentoras de saberes e poderes ensinados e conferidos por Satanás”.
35

Esta série de associações provocou e ao mesmo tempo justificou um


violento projeto normatizador contra as mulheres, transmitido “verticalmente do
modelo cultural dominante às populações femininas”, advindo da necessidade de
domesticar a mulher dentro da família, de adestrá-la, de controlá-la, a domar seu
caráter “maléfico” resultante da sua “inferioridade física e moral”, de “delimitar”
o seu papel”, de “normatizar seus corpos e almas, e esvaziá-las de qualquer saber
ou poder ameaçador”. Enfim, esse projeto, ecoado na sociedade metropolitana e
colonial, tratava de negar à mulher qualquer tipo de função que implicasse em
poder, visando a garantir a preponderância do homem (Del Priore, 1993, p. 17, 19,
25 e 334).
As idéias de analogia da mulher com o mal eram endossadas pela Igreja,
pelo discurso médico e pela sociedade erudita, que fomentavam uma “mentalidade
coletiva que exprimisse uma profunda misoginia e um enorme desejo em
normatizar a mulher”, que “significava uma ameaça”. Por outro lado, mesmo o
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

discurso elogioso sobre os corpos femininos existiam para melhor submeter a


mulher, porque ao descreverem a mulher ideal, casta e obediente, visavam a
aprisionar a mulher neste modelo. O processo normativo servia para que elas
cumprissem seu papel de mães e esposas obedientes, difusoras do catolicismo e
responsáveis pelo “povoamento ordenado da colônia” (Del Priore, 1993, p. 17 e
334 e 2000, p. 22).
Esse processo de adestramento funcionava por meio de dois instrumentos: o
discurso moralista e o discurso médico. O primeiro, atado à domesticação das
mentes; o segundo, à dos corpos. O discurso moralista era decorrente do
“processo civilizatório” importado da metrópole, trazido principalmente pelos
religiosos17 (Del Priore, 1993, p. 26-9, 339):

“os comportamentos femininos não podiam ser dissociados de uma


estrutura global, montada sobre uma rede de tabus, interditos e
autoconstrangimentos sem comparação com o que se vivera na Idade Média.
Adestrar a mulher fazia parte do processo civilizatório e, no Brasil, este
adestramento fez-se a serviço do processo de colonização” (Del Priore, 1993, p.
27).

17
Mary Del Priore (2000, p. 52 e 1993, p. 118) relata que, além do discurso produzido pela
Igreja destinado às elites, aquela promoveu também incursões doutrinárias e Devassas. Existia um
rol de 84 “culpas” das mulheres, que formavam um roteiro que visava a isolar a mulher no interior
da vida doméstica.
36

Como se vê da passagem, o discurso moralista também estava concatenado


com o processo de colonização, fosse para fazê-las reproduzir mais braços, fosse
para fazer delas propagadoras dos valores europeus católicos, consoante os
argumentos de Del Priore. O discurso normativo médico, por sua vez, confirmava
“cientificamente” os padrões morais e religiosos da época. Esse conhecimento
médico era produzido no contexto dos séculos XVI e XVIII, em que “os jesuítas,
a Inquisição e a Coroa lutavam fortemente unidos contra tudo o que consideravam
heresia”, o que “levou universidades e colégios a uma quase estagnação”. O
discurso científico médico18, note-se, era um saber masculino, autorizado a ser
construído apenas por homens, de modo que o universo prático e simbólico
feminino, doméstico, do cotidiano, não apenas não contribuiu para a formação
desse saber, como por ele foi reprimido. Tratava-se de uma relação de
desconfiança do sujeito em relação ao objeto (Del Priore, 1993, p. 27, 32 e 191).
De acordo com Del Priore, (1993, p. 204, 225-253), existia, ademais, um
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

grande discurso médico sobre a fertilidade, a gravidez, a menstruação, o


aleitamento e o parto, num esforço de “mapear a ‘madre’”, de “fazer falar o corpo
feminino”, que “era denotativo do mistério que simbolizava a mulher”. Para a
autora, ao incentivar os ‘doutores’ a inquirirem sua sexualidade, “a mulher, ao
mesmo tempo em que se deixava apreender, vingava-se exibindo a força e o
milagre que constituíam a procriação”.
Ora, o mal e o medo associados às mulheres em grande parte vinham do
poder e do mistério que a geração representa, o que justificou as normatizações
das vidas e dos corpos femininos. Ao mesmo tempo, a construção da maternidade
se deu na forma de um ideal, foi um projeto estatal e da Igreja, para adequar a
mulher à vida conjugal, devido à reprodução, ao povoamento e à organização de
um novo mundo nos trópicos, e porque a maternidade era correia de transmissão
dos valores institucionais da época. Havia, assim, ao lado de um discurso
normatizador, um discurso fomentador da maternidade, que se dava pela
necessidade de colonização (Del Priore, 1993, p. 334, 314 e 339).

18
As ciências européias eram a fim de empenhar o conhecimento acumulado para descobrir
terras e reger o mundo a partir da Europa, “com o fim de carregar para lá toda riqueza saqueável e,
depois, todo o produto da capacidade de produção dos povos conscritos” (Ribeiro, 2006, p. 35).
37

3.4

Formas de organização da sexualidade

Há a idéia, sustentada por Del Priore, de que a imensa família colonial


nesses moldes rígidos foi mais importante no nordeste açucareiro, sendo que no
sudeste vigiam famílias menores, mais nucleares (pais e filhos), em formas mais
livres, como o concubinato19. Para a autora, o quadro familiar era nuclear no
sudeste da colônia, diferente do cenário descrito por Gilberto Freyre em relação ao
nordeste açucareiro. Segundo ela, a família colonial era mais tipicamente
constituída por poucos filhos, com lares pequenos, enquanto no “nordeste
canavieiro, os papéis masculino e feminino eram mais estratificados” (Del Priori,
2000, p. 16, 47 e 73). Mas ela também afirma que:

“Nas camadas subalternas, sobretudo, certas noções como virgindade,


casamento e monogamia não estavam introjetadas. As mulheres, embora
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

19
Nem todas as formas de relação sexual, obviamente, se deram no casamento, e nem todas
as formas de relação sexual fora do casamento sacramentado pela Igreja se deram na forma de
estupro. Existiam várias formas de famílias, com uniões consensuais, sem as formalidades exigidas
pelas normas. O concubinato era comum e, tanto para a Igreja como para o Estado, significava
qualquer tipo de relação ilícita fora do sagrado matrimônio, fosse a pessoa solteira, casada ou
viúva. Apesar da perseguição, foi prática amplamente adotada no Brasil colônia (Silva, 2002, p.
235-243). Para Del Priore (2000, p. 55), essas uniões não eram expressões de luxúria, como queria
a Igreja, mas sim alternativa saudável de adaptação econômica e cultural para a possibilidade de
vida conjugal daqueles que não pertenciam às elites.
Esta leitura da alternativa saudável feita por Del Priore também não pode ser vista de forma
absoluta, porque dentro dessas uniões as mulheres eram vítimas de violências que caracterizam a
história do gênero feminino, desde violências físicas, sobretudo contra escravas, até a coabitação
de concubinas sob o mesmo teto (Del Priore, 1993, p. 47-59 e 2000, p. 56, 58, 61 e 79). A
passagem a seguir é exemplar de como diversas formas de opressão (em relação à divisão do
trabalho, à raça e ao gênero) e humilhação se entrelaçam: “Rosa Nunes de Abreu, São Paulo, 1762,
queixa-se que seu marido passava as noites com a concubina, ‘dormindo com ela na própria cama
e a suplicante afastada numa esteira no chão’. A trama de violências aí se torna complexa, pois
tanto infringia-se o espaço doméstico pertencente à esposa, quanto utilizavam-se os favores
sexuais de outra mulher que trabalhava na mesma casa”. Isso sem falar, é claro, das violências
corporais e em outros sofrimentos, como a paternidade irresponsável, que deixava as mulheres
como únicas responsáveis pelos filhos.
Freyre (1986, p. 13 e 462) via muito positivamente o esposamento ou concubinato inter-
racial: “A índia e a negra mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadradona, a oitavona,
tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas de senhores brancos, agiram
poderosamente no sentido de democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e
mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das
grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do
tamanho de reinos”.
Parece, entretanto, que a diferença de o português ter admitido o intercurso sexual com
outras etnias não faz dele menos violento ou menos preconceituoso, porque essas relações se
deram na base da opressão e não do gozo recíproco. Ademais, a visão de Gilberto Freyre, segundo
a qual a mestiçagem dividiria a propriedade parece uma visão romântica que, se se sustentar, não
significou impacto expressivo, diante da concentração de terra que ainda persiste.
38

conhecessem a importância do sacramento do matrimônio, preferiam viver em


parcerias conjugais ditadas pela oportunidade e pela ocasião, parcerias moldadas
pela realidade mais forte: a das dificílimas condições materiais e insegurança
econômica da colônia, que ditava regras e costumes próprios” (Del Priore, 2000, p.
22, grifei).

Isto dá ensejo ao que dizem outras análises, como as de Maria Nizza Silva
(2002, p. 184-5, 208, 214, 215 e 230) e Gilberto Freyre em Casa Grande &
Senzala (1986), que sugerem que a diferença entre os comportamentos sexuais se
deu mais em função da classe social do que da região. De acordo com esta
segunda interpretação, entre as classes altas vigorou o modelo de casamento
tradicional e de disciplina sexual das mulheres, ao passo que nas classes populares
as uniões eram de modelos mais variados. Entre as famílias ricas vigia o maior
controle sexual das mulheres, devido a questões morais e de manutenção da
propriedade e da nobreza – com destaque para o papel das famílias de estilo
patriarcal; por outro lado, nas classes baixas havia algum espaço de maior
liberdade – melhor dizer, de menos repressão – tanto no formato das famílias
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

como no comportamento sexual das mulheres. As mulheres das classes mais


baixas não se adaptavam geralmente “às características dadas como universais ao
sexo feminino: submissão, recato, delicadeza, fragilidade. Eram mulheres que
trabalhavam e muito, em sua maioria não eram formalmente casadas, brigavam na
rua, pronunciavam palavrões, fugindo, em grande escala, aos estereótipos
atribuídos ao sexo frágil”20 (Soihet, 1997, p. 367). O casamento na vida colonial,
como se vê, foi situação excepcional, a não ser nas classes superiores, entre
pessoas da mesma cor. Nas outras classes sociais, os motivos para a não
realização dos casamentos variavam, desde os custos para a sua celebração a

20
Maria Ângela D´Incao (1997) defende que o século XIX, que carregou consigo a
consolidação do capitalismo, o incremento da vida urbana, a ascensão da burguesia e a
consolidação da moralidade burguesa no Brasil, representou mudanças para as mulheres
burguesas: valorização da sensibilidade, valorização da intimidade, em um ambiente familiar
sólido em um lar acolhedor, dedicada ao marido, às crianças, desobrigada de qualquer trabalho
produtivo. Rachel Soihet (1997, p. 362), por outro lado, trata das mulheres pobres, também no
período de urbanização da sociedade brasileira. Ganham mais relevo a “rígida disciplinarização do
espaço e do tempo de trabalho, estendendo-se às demais esferas da vida”, sendo as mulheres as
maiores responsáveis por assegurar uma classe trabalhadora disciplinada. A organização familiar
dos trabalhadores assumia (como já antes acontecia) múltiplas formas, inclusive as chefiadas por
mulheres sós.
39

distância dos sacerdotes (Del Priore, 2000, p. 48) até o preconceito de cor e de
classe (Prado Júnior,1957, p. 352)21
No mesmo sentido dos autores mencionados, Oliveira Viana (1973, p, 54)
afirma que a organização da família era muito diferente nas classes altas e nas
classes baixas. Segundo o autor, na plebe rural, o princípio básico era o da união
transitória, poliandrica, difusa. Em oposição, na alta classe rural a família era
estável e se estruturava a partir de um senhor equiparado por Oliveira Viana a um
“pater-famílias”, ou seja, que rege e determina todas as relações no seu território
de domínio.
A forma como se estruturou da família no Brasil colonial em grande parte se
relaciona à escassez de mulheres brancas22 – Caio Prado (1957, p. 350), Mary Del
Priore (2000, p. 16 e 50), Maria Nizza Silva (1998, p. 11-16; 2002, p. 13, 22-3,
41) e Gilberto Freyre (1986, p. 13, 128, 219) reafirmam isso. A insistência do
impacto da falta de mulheres brancas no período colonial se dá porque seriam as
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

únicas capazes de produzir os colonizadores puros, considerando que sua inserção


na colônia se relaciona quase totalmente à necessidade de reprodução. Um dos
motivos para a raridade das européias foi a forma de imigração (Prado Júnior,
1957, p. 350 e Silva, 1998, p. 11-16). Esta se fez para cá apenas excepcionalmente
por grupos familiares constituídos – os que vinham acompanhados da família
eram membros da fidalguia portuguesa, e permaneciam em geral pouco tempo no
novo território23. Quase sempre vinham indivíduos masculinos isolados que,
quando tinham família, deixam-na na Europa à espera de uma situação mais
definida.

21
Del Priore acrescenta o fator da “mobilidade espacial dos homens, resultante das
dispersivas atividades econômicas da colônia”, que deixavam nos arranjos que não o casamento
“uma possibilidade de vida sexual para ambos os sexos dificilmente desperdiçada” (Del Priore,
2000, p. 48). Gilberto Freyre (1986, p. 329) tem uma visão um pouco diferente. Para ele, os
homens não gostavam de casar. Preferiam amasiarem-se.
22
As recém chegadas portuguesas tinham origem humilde, “viviam de suas costuras, de seu
comércio, horta e lavouras, faziam pão, fiavam sedas, lavavam e tingiam panos, se prostituíam.
Outras tantas eram proprietárias de escravos ou casadas com funcionários da coroa portuguesa”
(Del Priore, 2000, p. 16).
23
A partir do século XVII iniciou-se a “política dos casais”, pela qual a Coroa financiou ou
ajudou o envio de alguns casais ao novo território (Silva, 1998, p. 163).
40

Da ausência de brancas se teve como alternativa a mestiçagem24, que


raramente ocorreu por meio do casamento. A mistura ocorreu principalmente
através do concubinato ou mesmo da exploração sexual violenta, que foram
generalizados. Havia, nisso, um forte componente de discriminação racial. Para
Stolke (1999, p. 20), quando a mestiçagem aconteceu dentro do casamento ou de
alguma relação que importasse em compromisso ela de fato indicou ausência de
preconceito25. Mas não foi isso que aconteceu massivamente no Brasil. Darcy
Ribeiro (2006, p. 207) sintetiza a problemática: “Nós surgimos, efetivamente, do
cruzamento de uns poucos brancos com multidões de mulheres índias e negras”,
cruzamento que se deu com doses altas de violência. Era o “estupro como
fundamento da ordem”, na expressão de Francisco de Oliveira (2003-II, p. 453).
José Murilo de Carvalho (2001, p. 20-1) sintetiza a questão:

“A miscigenação se deveu à natureza da colonização portuguesa: comercial


e masculina. Portugal, à época da conquista, tinha cerca de 1 milhão de habitantes,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

insuficientes para colonizar o vasto império que conquistara, sobretudo as partes


menos habitadas, como o Brasil. Não havia mulheres para acompanhar os homens.
Miscigenar era uma necessidade individual e política. A miscigenação se deu em
parte por aceitação das mulheres indígenas, em parte pelo simples estupro. No caso
das escravas africanas, o estupro era a regra”.

Essas características foram generalizadas pela colônia, não se reduziram ao


Brasil açucareiro, e trouxeram conseqüências. Darcy Ribeiro (2006, p. 219) bem
aponta a duplicidade do comportamento sexual do português de outrora e do
brasileiro de classe dominante de hoje. Um para as relações dentro do mesmo
patamar social e outro para com pessoas de classe social inferior. Neste segundo
caso, dificilmente se abriu espaço para desenvolver o apego, o caráter lírico, o
vínculo romântico, a intimidade – as paixões existiram, mas, de regra não
conquistaram o status de relacionamentos oficiais. As relações sexuais se deram
pura e simplesmente pelo aspecto carnal, sem dignidade além da dos animais. O
padrão do homem de classe dominante foi, e talvez ainda seja, o do uso sexual das

24
Além da saída da mestiçagem, outra alternativa que se encontrou foi o envio de mulheres
brancas sentenciadas, órfãs e meretrizes. Dentre as degredadas, havia videntes, ciganas (as famílias
ciganas eram separadas ao virem para cá). Tanto homens quanto mulheres contribuíram ao
aumento da população da colônia ao serem degredados, mas elas representaram o maior
contingente, por serem consideradas feiticeiras ou visionárias (Silva, 1998, p. 14-22).
25
Os casamentos entre pessoas de condição jurídica (por exemplo, liberto e escrava) e
étnica diferentes ocorreram durante todo o período colonial (Silva, 2002, p. 39) – casos em que
talvez seja válido cogitar a ausência de preconceito.
41

mulheres de classe inferior – sobretudo das mulatas – de indiferença sentimental e


social e de irresponsabilidade para com os filhos de tais intercursos.

3.5

As diversas inserções da mulher indígena

Já se mencionou a analogia inicial entre a indígena e a natureza, analogia


que depois se estendeu às outras mulheres, que implicou, por sua vez, nas noções
de adestramento, de exploração, de devastação, de uso e de abuso26.
O sadismo que Freyre (1986, p. 85 e 128) viu nas relações sexuais entre
brancos e escravas negras ele também identificou naquelas entre brancos e
escravas índias. Segundo o autor, o ambiente desses primeiros tempos de
colonização, que dizem mais respeito à índia do que à qualquer outra mulher, foi
um ambiente de “quase intoxicação sexual”. A passagem seguinte dá conta desta
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

idéia:

“O europeu saltava em terra escorregando em índia nua; os próprios padres


da Companhia precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne.
Muitos clérigos, dos outros, deixavam-se contaminar pela devassidão. As mulheres
eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se
nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeu por um pente ou um
caco de espelho” (Freyre, 1986, p. 128).

A mulher indígena, não obstante a exploração do seu corpo e de sua cultura,


teve em grande parte reservado para si um papel considerado nobre na época. Ela
foi a base física da família brasileira (Freyre, 1986, p. 129). Para Darcy Ribeiro
(2006, p. 79 e 210), como foi insignificante o número de mulheres brancas vindas
para o Brasil, recaiu sobre a mulher indígena a função de matriz fundamental,
tomando os portugueses tantas quantas pudessem. Houve uma orientação oficial
nesse sentido:

26
Mediante a escravidão, para Darcy Ribeiro (2006, p. 44, 88-9), os índios eram “fazedores
do que não entendiam, produtores do que não consumiam”, desumanizados como “bestas de
carga”. A escravidão indígena predominou no século XVI. No segundo século da colonização, a
escravidão negra a superou. “Milhares de índios foram incorporados por essa via à sociedade
colonial. Incorporados não para se integrarem nela na qualidade de membros, mas para serem
desgastados até a morte (...)”. As mulheres, nesse contexto, eram captadas não só para o trabalho
agrícola, como “para a gestação de crianças e para o cativeiro doméstico”.
42

“Incapaz de atender aos apenas da gente boa da terra, que pedia mulheres
portuguesas, a Coroa acabou por dignificar através da lei e por estimular mediante
regalias e prêmios o cruzamento com mulheres da terra” (Ribeiro, 2006, p. 285).

O cunhadismo foi uma pratica indígena fundamental para a formação da


família brasileira nos primeiros anos de colonização. Era uma tradição indígena de
incorporar estranhos a sua comunidade, dando uma mulher como esposa.
Aceitando-a, o estranho passava a ter todos os parentes dela como seus também.
Cada europeu podia fazer muitos desses casamentos, de modo que se tornou uma
fonte de mão de obra ampla e indispensável. Além disso, o cunhadismo foi um
dos responsáveis pela imensa mestiçagem ocorrida entre nós. Mas a partir de
1532, com o regime das Donatarias27, o índio já não foi mais tido como parente, e
sim como mão de obra escravizável (Ribeiro, 2006, p. 72-3, 77). Neste sentido,
Maria Silva (2002, p. 25) afirma que com o passar do tempo, diferente do início
da colonização28, os casamentos interétnicos passaram a ser mal vistos, como
forma de desclassificação social dos brancos, sendo que no século XVII as
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

mamelucas já tinham perdido a posição social privilegiada adquirida no século


anterior29.
Para Gilberto Freyre (1986, p. 49-50, 130, 131, 148-50), da cunhã é que
veio o melhor da cultura indígena. As mulheres indígenas eram mais afeitas ao
trabalho na lavoura, donde não deram tão boas escravas domésticas quanto as
negras, embora também as índias fossem responsáveis pelo trabalho doméstico
em suas sociedades. As mulheres indígenas trabalhavam, “sem comparação, mais
do que os homens”: plantavam o mantimento, preparavam a comida, iam buscar
água, eram responsáveis pela higiene, cuidavam dos meninos, domesticavam
animais, exerciam atividades de magia, e até mesmo atividade industrial. Os

27
Por esse regime as donatarias eram “distribuídas a grandes senhores, agregados ao trono
e com fortunas próprias para colonizá-las, [que] constituíam verdadeiras províncias (...)” (Ribeiro,
2006, p. 77-8).
28
A história da índia Paraguaçu, que foi dada em casamento ao português Caramuru (Diogo
Álvares, que chegou à Baía de Todos os Santos entre 1508 e 1511, possivelmente espião a serviço
dos franceses) exemplifica o papel por vezes valorizado que a mulher indígena teve nos primeiros
tempos, de matriz da família brasileira. Do casal descende, inclusive, quase toda a classe
dominante baiana – a linhagem da Casa da Torre, sendo a “família arquetípica da Bahia” (Doria,
1999).
29
Nos primeiros tempos, houve casos em que os colonos se concubinavam com as índias
ou com elas casavam “segundo os costumes da terra”, ou seja, sem seguir os ritos católicos. E
conforme a reprodução foi ocorrendo, este processo foi ainda facilitado, porque a resistência dos
brancos era menor em contrair matrimônio com as mamelucas do que com as índias (Silva, 1998,
p. 11-16; 2002, p. 13, 22-3, 41). Pode-se dizer, assim, que o concubinato foi facilitado, mas a
posição de prestígio da indígena diminuiu ao longo do tempo.
43

homens viviam num parasitismo das atividades da mulher, sobrecarregada. Para


Freyre, entre os indígenas, o elemento tecnicamente superior e tendente à
estabilidade foi a mulher, que acabou sendo “um pouco besta de carga e um pouco
escrava do homem”. Mais uma vez, aparece o elemento de exploração: tão
tecnicamente a mulher era melhor, tanto carregava os melhores elementos, que
servia aos homens, sendo até mesmo “um pouco escrava”.
Maria Silva (1988, p. 26, 36-40), sobre o contexto do sudeste, também fala
da diferença da inserção do homem e da mulher indígena a partir da penetração
dos paulistas no sertão, a qual se deveu principalmente à necessidade de mão de
obra. Estes colonizadores inicialmente “apresaram” principalmente mulheres e
crianças, empregados no plantio e na colheita. Os homens eram destinados ao
transporte de cargas e à entrada nos sertões, o que se coadunaria com a divisão
sexual do trabalho indígena. Segundo a autora, mesmo quando a “administração
indígena” substituiu (nominalmente) a escravidão, na sociedade paulista do século
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

XVIII mantiveram-se as relações sexuais entre os administradores e as


administradas.
Outro aspecto que a literatura trabalhada apresenta sobre a mulher indígena
é aquele coerente com as noções de que a mulher foi sempre a pessoa destinada
aos cuidados para com a família. Para Gilberto Freyre (1986, p. 132, 136, 147 e
161-184), herdamos dos indígenas a tradição do asseio e do banho. As mulheres,
entre os indígenas, foram as pessoas encarregadas de “toda série de cuidados de
higiene doméstica”, pois nelas era “maior que nos homens o gosto pelo banho e
pelo asseio do corpo”. Por isso, foi também nas mulheres que os europeus
encontraram maior resistência à imposição do vestuário moralizador anti-
higiênico. Por outro lado, as mulheres indígenas eram proibidas de se associarem
a cerimônias mais sérias, e eram ofertadas aos hóspedes com intuito de
hospitalidade – não lhes era dado integrar o mundo das relações extra-
domésticas. Mostra do sexismo, Gilberto Freyre só fala dos curumins (meninos),
esquecendo-se das cunhatains (meninas).
Sendo esposa ou não, a mulher indígena foi utilizada na conveniência do
conquistador. Segundo Darcy Ribeiro (2006, p. 42-3 e 49), o desejo obsessivo
dos europeus era “multiplicar-se nos ventres das índias e pôr suas pernas e braços
a seu serviço, para plantar e colher suas roças, para caçar e pescar o que comiam”
A vida, para os índios, era uma “tranqüila fruição da existência”, ao passo que
44

para os europeus “a vida era uma tarefa, uma sofrida obrigação, que a todos
condenava ao trabalho e tudo subordinava ao lucro”. Estes cativos eram, assim
“condenados à tristeza mais vil”, ao mesmo tempo em que eram “os provedores
de suas alegrias, sobretudo as mulheres, de sexo bom de fornicar, de braço bom de
trabalhar, de ventre fecundo para prenhar”. Nos conflitos entre colonos e
indígenas, os primeiros usaram os nativos, “sobretudo as índias, como os ventres
nos quais engendraram uma vasta prole mestiça, que viria a ser, depois, o grosso
da gente da terra: os brasileiros”.
Como se vê, foram múltiplos os papéis da mulher indígena30. Abusadas
sexualmente, exploradas como escravas, dotadas do nobre papel de mães de
famílias de filhos considerados legítimos e ilegítimos. Trabalhavam na roça e com
os cuidados da casa e da família, donde provavelmente herdamos nossos mais
fortes hábitos de higiene. Foram, também, junto com seu povo, vítimas do
extermínio quando este foi conveniente. Geraram, em seus ventres, os primeiros
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

mestiços brasileiros.

3.6

As várias formas de abuso da escrava negra

Autores como Caio Prado Junior, Maria Nizza Silva, Mary Del Priori e
Gilberto Freyre acentuam o papel que teve o abuso sexual das escravas negras
como elemento generalizado na colônia. Os primeiros contingentes negros foram
introduzidos no Brasil a partir de 1538. Não havia unidade cultural, racial ou
lingüística entre os escravos africanos que desse ensejo a sua unificação ou à
formação de núcleos solidários. Tanto homens quanto mulheres sofreram ao
extremo com esse sistema. Os homens negros, trabalhando à exaustão durante 18

30
As informações que a literatura traz sobre a mulher indígena são salpicadas, pontuais.
Stolke (1999, p. 27) explica um pouco das razões disso: “No Brasil, o status formal da população
indígena é menos claro na pesquisa acadêmica disponível”. No Brasil português, os índios
parecem não ter recebido a atenção que seus irmãos receberam na América colonial espanhola,
possivelmente porque, com o aumento do tráfico de escravos, sua importância como força de
trabalho em potencial declinou muito mais cedo do que no caso de escravos africanos.
Inicialmente a Coroa e a Igreja protegeram-nos da escravidão, mas num determinado momento
eles se tornaram um obstáculo à expansão da fronteira agro-pastoril, o que os condenou ao
extermínio. No Brasil, o preconceito de sangue pesava sobre ‘judeus, mulatos, negros e mouros’.
Os inquisidores não se davam ao trabalho de investigar antecedentes de índios e caboclos
(descendentes de índios e portugueses), já que eram consideradas pessoas absolutamente
primitivas, frágeis e infantis. A preocupação com o ‘sangue negro’, no entanto, era intensa”.
45

horas por dia, com uma “parca e porca ração de bicho”, sofrendo castigos
violentos, preventivos e pedagógicos, viviam sem amor, “sem família, sem sexo
que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém”,
maltrapilho e sujo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia sua rotina”
(Ribeiro, 2006, p. 103, 107, 145-6). As mulheres escravas, por sua vez, foram
vítimas de uma série de formas de abusos – além do trabalho, tiveram outra
incumbência, a da satisfação sexual do colono privado:

“A outra função do escravo, ou antes da escrava, instrumento de satisfação


das necessidades sexuais de seus senhores e dominadores, não tem um efeito
menos elementar. Não ultrapassará também o nível primário e puramente animal
do contacto sexual, não se aproximando senão muito remotamente da esfera
propriamente humana do amor, em que o ato sexual se envolve com todo um
complexo de emoções e sentimentos tão amplos que chegam até a fazer passar para
o segundo plano aquele ato que afinal lhe deu origem” (Prado Júnior, 1957, p.
342).
“Correndo parelha com esta contribuição [trabalho] que se impôs às raças
dominadas, ocorre outra, este subproduto da escravidão largamente aproveitado: as
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

fáceis carícias da escrava para satisfação das necessidades sexuais do colono


privado de mulheres de sua raça e categoria. Ambas as funções se valem do ponto
de vista moral e humano; e ambas excluem, pela forma com que se praticaram,
tudo que o negro ou o índio poderiam ter trazido como valor positivo construtor da
cultura” (Prado Júnior, 1957, p. 271).

Como as passagens bem registram, a mulher escrava, inclusive do ponto de


vista dos serviços sexuais que era forçada a prestar, era um instrumento,
animalizada, reificada – longe da esfera humana dos sentimentos. Segundo Caio
Prado Junior (1957, p. 351, 345-6), toda a vida social colonial se fundou
precipuamente na regulamentação de dois instintos primários do homem: o
econômico, através do trabalho, e o sexual, através das relações de família. As
negras eram mão de obra escrava e a forma com que foram abusadas
sexualmente31 foi um dos elementos centrais na constituição da família e das
relações coloniais. Vigorava uma “indisciplina sexual”, na expressão de Prado, e
todos faziam o uso sexual de suas negras, apesar de grande parte dos discursos
oficiais condenarem este “hábito disseminado entre homens, casados ou solteiros,

31
Gilberto Freyre (1986, p. 443) afirma que as relações do branco com a mulher negra
eram mais violentas do que com as índias: “Introduzidas as mulheres africanas no Brasil dentro
dessas condições irregulares de vida sexual, a seu favor não se levantou nunca, como a favor das
mulheres índias, a voz poderosa dos padres da Companhia. De modo que por muito tempo as
relações entre colonos e mulheres africanas foram as de franca lubricidade animal. Pura descarga
de sentidos”.
46

ricos ou pobres” (Del Priore, 2000, p. 26). As relações sexuais entre os senhores e
suas escravas ocorriam mesmo quando elas se recusavam, uma vez que, “sendo a
escrava considerada propriedade do senhor, pouco adiantava tentar resistir à
relação sexual a não ser pela fuga ou pelos apelos à Coroa” (Silva, 2002, p. 46).
Tanto era associada a escrava a um objeto sexual que quando descrevem-se
as funções do Conselho Ultramarino (que tinha a função de fazer a administração
geral das capitanias), aponta dentre seus objetivos tomar providência em relação a
“foguetes, marca e qualidade das madeiras das caixas de açúcar, e custa crê-lo até
sobre saias, adornos, excursões noturnas e lascívia das escravas”32. Ou seja,
dentre os mais diversos objetos – nenhum relacionado ao comportamento ou ao
corpo humano – está o aspecto libidinoso das negras!
A passagem transcrita a seguir, de Gilberto Freyre (1986, p. 389), é
descritiva da reificação dos corpos e das vidas das escravas, também no aspecto
sexual:
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

“O sistema social sempre fez antecipar a sexualidade do menino, por práticas


“sadistas e bestiais”. Primeiro com outros moleques e animais domésticos, depois
vinha o grande atoleiro de carne: a negra ou a mulata. (...) Daí fazer-se na negra ou
mulata a responsável pela antecipação da vida erótica e pelo desbragamento sexual
do rapaz brasileiro. Com a mesma lógica poderiam responsabilizar-se os animais
domésticos; a bananeira; a melancia; a fruta do mandacaru com seu visgo e sua
adstringência de quase carne. Que todos foram objetos em que se exerceu – e ainda
se exerce – a precocidade sexual do menino brasileiro” (Grifei).

Mary Del Priori (2000, p. 18) afirma que veio ao Brasil como escravos um
número muito maior de homens do que de mulheres africanos. Isso porque o
trabalho feminino era considerado menos produtivo, além de o tempo de vida
estimado a ela ser menor. Por outro lado, Darcy Ribeiro (2006, p. 148) afirma que
chegaram aqui mais mulheres do que as estatísticas dos portos registram:
“Tratava-se de negrinhas roubadas que alcançavam altos preços, às vezes o de
dois mulatões, se fossem graciosas”. Independente disso, a verdade é que elas
faziam ao lado dos homens todo o tipo de tarefa pesada, além de se ocuparem das
atividades domésticas da casa grande e, ainda, nas senzalas, da manutenção de
companheiros e filhos.

32
J. F. Lisboa, Obras, II, 75, apud Prado Júnior, 1957, p. 303.
47

Del Priori (1993, p. 59) enfatiza que a exploração física das escravas era
acentuada pela maternidade. O sexo delas era explorado para o prazer dos
homens, mas também para a reprodução. Afinal, ainda que ilegítimos, “os filhos
das escravas não deixavam de significar um investimento para os seus senhores” –
assim como foi a exploração sexual das mulheres indígenas. Mais uma vez,
portanto, aparece o elemento da exploração sexual associado às necessidades de
colonização.
Além do abuso direto por parte dos senhores, muitas escravas eram
obrigadas a se prostituir para aumentar os lucros de seus proprietários (Del Priore,
2000, p. 36 e Silva, 2002, p. 249-54, 267), A mulher negra era levada a se
prostituir desde dez, doze anos (Freyre, 1986, p. 464).
Na economia colonial, o trabalho escravo servia às atividades propriamente
produtivas e ao serviço da casa. O contato do escravo doméstico com a sociedade
branca foi íntimo (Prado Júnior, 1957, p. 276). Esta intimidade, a que Caio Prado
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

se refere, tem um sentido preciso: safisfação, pelas escravas, das necessidades


sexuais dos senhores. Tanto que havia “seleção eugênica e estética das pajens e
mucamas e mulecas para o serviço doméstico” (Freyre, 1986, p. 336). Para Caio
Prado (1957, p. 276 e 287), a intimidade foi a via pela qual “se canalizou para a
vida brasileira a maior parte dos malefícios da escravidão. Do pouco que ela
trouxe de favorável, também: a ternura e a afetividade da mãe preta, os saborosos
quitutes da culinária afro-brasileira”. Essas relações mais amenas, mais afetivas,
mais humanas, que se vão construindo, é bom registrar, se de um lado “abrandam
e atenuam o poder absoluto e o rigor da autoridade do proprietário, doutro elas a
reforçam, porque a tornam mais consentida e aceita por todos” (grifei). Prova
disso é que o estupro das escravas raramente foi documentado judicialmente
(Silva, 2002, p. 326).
Gilberto Freyre descreve bem o mecanismo dúbio e perverso que existia
entre a intimidade e a ordem, entre quem obedecia e quem mandava:

“E servimo-nos dos dois. Eram, esses dois modos antagônicos de expressão,


conforme necessidade de mando ou cerimônia, por um lado, e de intimidade ou
súplica, por outro, parecem-nos bem típicos das relações psicológicas que se
desenvolvem através da nossa formação patriarcal entre senhores e escravos: entre
as sinhás-moças e as mucamas; entre os brancos e os pretos” (Freyre, 1986, p.
355).
48

Existia uma perversidade que permeava as relações sexuais entre senhor e


escrava. Para Freyre (1986, p. 13, 86, 277, 343 e 443), tais relações sempre foram
relações entre “vencedores com vencidos”, sendo que a escravidão era mesmo “o
grande excitante da sensualidade” entre nossos colonizadores. Para ele as relações
sexuais dos homens brancos com as mulheres negras eram relações “de
‘superiores’ com ‘inferiores’ e, no maior número de casos, de senhores
desabusados e sádicos com escravas passivas”33. Segundo Freyre, é um sadismo
persistente do conquistador sobre o conquistado, de branco por negro, do homem
sobre a mulher, o que sugere a analogia entre a mulher e o ser colonizado.
O intercurso sexual entre brancos e escravas índias e negras se deu em
circunstâncias desfavoráveis para a mulher, em uma “espécie de sadismo do
branco e masoquismo da índia ou da negra”, que predominou tanto “nas relações
sexuais como nas sociais do europeu com as mulheres das raças submetidas ao
seu domínio” (Freyre, 1986, p. 85). A bem da verdade, não se tratava exatamente
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

de opção pelo sofrimento34, uma vez que as mulheres eram, sim, obrigadas às
relações sexuais com os senhores brancos, em situações em que é difícil
vislumbrar prazer recíproco: “escrava não era submetida ao desejo do sinhô, mas à
sua ordem (Freyre, 1986, p. 390):

“O furor femeeiro do português se terá exercido sobre vítimas sem sempre


confraternizantes do gozo; ainda que se saiba de casos de pura confraternização do
sadismo do confraternizador branco com o masoquismo da mulher indígena ou da
negra. Isto quanto ao sadismo de homem para mulher – não raro precedido pelo de
senhor para muleque” (Freyre, 1986, p. 85).

33
Essas relações se davam na lógica da casa-grande, contraposta a e ao mesmo tempo em
intimidade com a senzala. O ambiente da casa-grande, cujo núcleo é a família do senhor, é um
“campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo” (Prado Júnior, 1957, p. 351). De
acordo com Darcy Ribeiro (2006), este desenfreado sexualismo existiu nas outras formações do
Brasil, especialmente na região cafeeira, que reproduziu, de modo geral, as características
patriarcais do domínio do açúcar.
34
Interessante observar que Saffioti (1987, p. 34-5) revela que ainda contemporaneamente
existe uma alta dose de masoquismo na educação da mulher. A mulher é “socializada para
encarnar o papel de vítima”. Sentimento de masoquismo esse que impossibilita o verdadeiro
sentimento de prazer pelas mulheres. Isso, porém, segundo ela, não encontra respaldo em alguma
natureza, mas antes é fruto da ideologia machista. Afora essa observação de Saffioti, é de se dizer
que não se trata exatamente de masoquismo. Ora, o masoquismo é uma perversão sexual “em que
o indivíduo anormal só satisfaz o desejo erótico quando sofre violências físicas” ou aquela em que
o indivíduo “parece procurar sofrimentos físicos ou morais, como autopunição a ato que seja
culpado ou se julgue culpado” (MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São
Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998. p. 1332). Apesar de o masoquismo ser o antônimo do
sadismo, e de o branco estar em antagonismo com a escrava, é difícil crer a mulher escrava vítima
da violência sexual satisfizesse seu desejo erótico ao sofrer violências físicas e psíquicas, ou que se
autopunisse por culpa.
49

Aquele ambiente sexual levava a cenários dramáticos:

“Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram de luces as negras


das senzalas. Negras tantas vezes entregues virgens, ainda mulecas de doze e treze
anos, a rapazes brancos já podres de sífilis das cidades. Porque por muito tempo
dominou no Brasil a crença de que para o sifilítico não há melhor depurativo que
uma negrinha virgem” (Freyre, 1986, p. 338).
“no ambiente voluptuoso das casas-grandes, cheias de crias, negrinhas,
mulecas, mucamas, é que as doenças venéreas se propagaram mais à vontade,
através da prostituição doméstica – sempre menos higiênica que nos bordéis”
(Freyre, 1986, p. 340).
“A negra-massa, depois de servir aos senhores, provocando às vezes ciúmes
em que as senhoras lhes mandavam arrancar todos os dentes, caíam na vida de
trabalho braçal dos engenhos e das minas em igualdade com os homens. Só a essa
negra, largada e envelhecida, o negro tinha acesso para produzir crioulos” (Ribeiro,
2006, p. 148).

Este sadismo persistente, para usar a expressão de Gilberto Freyre, é


suficiente para elidir a menção da gostosidade da mistura entre as raças35. Toda a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

perversidade e a depravação que dominavam aquele ambiente Gilberto Freyre


relaciona com o interesse de reprodução do patrimônio dos senhores de terras:

35
Freyre (1986, p. 13, 47 e 143) argumenta que a miscigenação “corrigiu” a distância social
e foi feita “gostosamente”; que a sociedade híbrida brasileira se constituiu “harmoniosamente
quanto às relações de raça: dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no
máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados pelo adiantado”. Por
outro lado, a passagem a seguir demonstra o quanto o autor entra em contradição em querer
defender a harmonia, mas ter que descrever a realidade do que se passou: “A história do contato
das raças chamadas superiores com as consideradas inferiores é sempre a mesma. Extermínio ou
degradação. Principalmente porque o vencedor entende de impor ao povo submetido a sua cultura
moral inteira, maciça, sem transigência que suavize a imposição” (grifei).
Importante ainda dizer que existe, em algumas passagens da obra de Gilberto Freyre, uma
inversão ideológica de papéis. Por exemplo: “Diz-se geralmente que a negra corrompeu a vida
sexual da sociedade brasileira, iniciando precocemente no amor físico os filhos-família. Mas essa
corrupção não foi pela negra que se realizou, mas pela escrava. Onde não se realizou através da
africana, realizou-se através da escrava índia” (Freyre, 1986, p. 338). Ou então: “No interesse da
procriação à grande, uns; para satisfazerem caprichos sensuais, outros. Não era o negro, portanto, o
libertino: mas o escravo a serviço do interesse econômico e da ociosidade voluptuosa dos
senhores” (Freyre, 1986, p. 341).
O autor, tentando defender a mulher negra, ou os escravos em conjunto, afirma que ela
corrompeu a família não por ser negra (1986, p. 342), mas pela sua condição de escrava. Ora, não
foi a negra que corrompeu a família, tampouco a escrava! A sociedade patriarcal, escravocrata e
machista é que corrompeu a negra escrava, transformando-a em objeto sexual. O próprio Gilberto
Freyre, porém, o reconhece em seguida: “Não era a ‘raça inferior’ a fonte da corrupção, mas o
abuso de uma raça por outra. Abuso que implicava em conformar-se a servil com os apetites da
todo-poderosa. Esses apetites estimulados pelo ócio – pela ‘riqueza adquirida sem trabalho’, diz o
referido dr. Bernardino; pela ‘ociosidade’ ou pela ‘preguiça’, diria Vilhena; por conseguinte, pela
própria estrutura econômica do regime escravocrata”.
Segundo Freyre (1986, p. 342), nada autoriza concluir que o negro trouxe para o Brasil a
luxúria. Esta vem do “sistema econômico e social de nossa formação”. Para ele, a escravidão
inclusive fez abafar no escravo africano as suas melhores tendências.
50

“É absurdo responsabilizar-se o negro pelo que não foi obra sua nem do
índio mas do sistema social e econômico em que funcionavam passiva e
mecanicamente. Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma
do regime. Em primeiro lugar, o próprio interesse econômico favorece a
depravação, criando nos proprietários de homens imoderado desejo de possuir o
maior número possível de crias. Joaquim Nabuco colheu num manifesto
escravocrata de fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significação: ‘a parte
mais produtiva da propriedade escrava é o ventre gerador’” (Freyre, 1986, p. 338).

De fato. Joaquim Nabuco é muito enfático ao tratar do uso sexual das negras
como mecanismo de reprodução da mão de obra escrava, devido à lucratividade
deste empreendimento, temperado com elementos de degradação e brutalidade:

“Não é do cruzamento que se trata; mas sim da reprodução do cativeiro, em


que o interesse verdadeiro da mãe era que o filho não vingasse. Calcule-se que a
exploração dessa bárbara indústria – expressa em 1871 nas seguintes palavras dos
fazendeiros de Piraí ‘a parte mais produtiva da propriedade escrava é o ventre
gerador’ – deva ter sido durante três séculos sobre milhões de mulheres” (Nabuco,
2000, p. 101).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Ainda para Joaquim Nabuco (2000, p. 98 e 102), a escravidão “favoreceu o


quanto pode a fecundidade das mulheres negras” e “reduziu a procriação humana
a um interesse venal dos senhores”, fruto da “mistura da degradação servil de uma
com a imperiosidade brutal da outra”, mantendo os escravos, “toda aquela massa
pensante”, “em estado puramente animal”, roubando-lhe a dignidade pessoal,
fazendo dela “o jogo de todas as paixões baixas, de todos os caprichos sensuais,
de todas as vinditas cruéis de uma outra raça”.
Mais uma vez se revela, portanto, o interesse econômico subjacente e
imbricado à perda da dignidade e à violência, o “desejo imoderado” de se
reproduzir, sendo a parte mais produtiva da escravidão “o ventre gerador”. Ou
seja, evidenciam-se novamente as conexões entre os imperativos políticos e a
opressão das mulheres.
Para Freyre (1986, p. 12) no Brasil as relações entre os negros e os brancos
foram condicionadas pelo sistema de produção econômica – a monocultura
latifundiária – e a falta de mulheres brancas. Ou seja, Giberto Freyre logo de
plano estabelece como pilares da sociabilidade entre negros e brancos – de
praticamente toda a sociabilidade da colônia, portanto – o modo de produção e as
51

relações sexuais com as mulheres. Para ele, repito, o próprio sadismo foi ligado
aos fatores econômicos da nossa formação patriarcal:

“Resultado da ação persistente desse sadismo, de conquistador sobre


conquistado, de senhor sobre escravo, parece-nos o fato ligado naturalmente à
circunstância econômica da nossa formação patriarcal, da mulher tantas vezes no
Brasil vítima inerme do domínio ou do abuso do homem; criatura reprimida sexual
e socialmente dentro da sombra do pai e do marido. Não convém, entretanto,
esquecer-se do sadismo da mulher, quando grande senhora, sobre escravos,
principalmente sobre as mulatas; com relação a estas, por ciúme ou inveja sexual.
Mas esse sadismo de senhor e o correspondente masoquismo de escravo,
excedendo a esfera da vida sexual e doméstica, têm-se feito sentir através da nossa
formação, em campo mais largo: social e político. Cremos surpreendê-los em nossa
vida política, onde o mandonismo tem sempre encontrado vítimas em quem
exercer-se com requintes às vezes sádicos (...). A nossa tradição revolucionária,
liberal, demagógica, é antes aparentemente e limitada aos focos de fácil profilaxia
política: no íntimo, o que o grosso do que se pode chamar de ‘povo brasileiro’
ainda goza é a pressão sobre ele de um governo másculo e corajosamente
autocrático.
Mesmo em sinceras expressões individuais (...) de mística revolucionária, de
messianismo, de identificação com o redentor com a massa a redimir pelo
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

sacrifício da vida ou da liberdade pessoal, sente-se o laivo ou resíduo masoquista


(...). Por outro lado, a tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do
sadismo do mando, disfarçado em ‘princípio de autoridade’ ou de ‘defesa da
Ordem’. Entre essas duas místicas – a da Ordem e a da Liberdade, a da Autoridade
e da Democracia – é que se vem equilibrando entre nós a vida política,
precocemente saída do regime de senhores e escravos’ (Freyre, 1986, p. 86-87).

Dei-me a licença de repetir quase integralmente a longa passagem por ser


preciosa em demonstrar, além da complexidade das relações de poder, inclusive
de sinhás contra escravas, a articulação que existe entre a vida sexual e doméstica
e a vida social e política. O mandonismo no espaço político se exerce com
recursos sádicos, sadismo essencial ao estupro generalizado das índias e negras.
Sadismo essencial ao confinamento das brancas. O governo se exerce em analogia
com o masculino, “governo másculo e corajosamente autocrático”. A tradição
conservadora no Brasil é marcada pelo “sadismo do mando”, a mesma
característica que marcou as relações (sexuais) entre os extremos de opressor e
oprimido: o senhor branco e a mulher escrava. Isso porque, se o “mais profundo
antagonismo” é entre senhor e escravo, iluminando essa relação com a perspectiva
de gênero, o antagonismo mais profundo é entre senhor e escrava. Esse é o
antagonismo mais fundamental da nossa sociabilidade, que sintetiza tanto a
52

opressão classista e racista36 da escravidão quanto a opressão de gênero cujo ápice


foi o estupro generalizado, entrelaçadas pelos imperativos da colonização, de
reproduzir braços, de povoar, de produzir lucros para a metrópole. Esse
antagonismo fundamental representa a imbricação e a indiferenciação entre o
público e o privado, na perversidade da violência extrema na intimidade e na não
constituição de um autêntico espaço público; esse antagonismo fundamental se dá
em um ambiente de intimidade, a casa grande, e é supostamente consentido, e por
isso se dá com mais perversidade. Da tensão entre o consentido e a violência
sádica resultam os elementos mais fortes de nossa sociabilidade.

3.7

Os filhos ilegítimos

Outra das conseqüências da forma como a relação sexual com índias e


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

negras37 se deu no período colonial, em nome da reprodução de braços, foi o


imenso contingente de filhos “ilegítimos”. As relações (violências) sexuais entre
brancos e escravas foram na imensa maioria das vezes desacompanhadas de
casamento ou outra relação de compromisso, o que implicou em gerações e
gerações de bastardos. Mesmo as relações sexuais que se deram entre homens
(brancos ou mestiços, proprietários ou não) e mulheres que não eram escravas,
mas ainda de classe baixa, na maioria das vezes se deu sem a responsabilidade do
pai – o que importava, muitas vezes, no abandono de crianças, devido à vergonha
do ser mãe solteira (Silva, 2002, p. 208). A responsabilidade dos pais só era
garantida aos filhos de pai e mãe de classes altas e casados. Afinal, como diz
Darcy Ribeiro (2006, p. 220), ontem e hoje a família é centrada na mulher, que
gera filhos cujo cuidado os pais negam, em um fenômeno de ampla paternidade
irresponsável:

“Relações sexuais entre parceiros de status sociais distintos não raro


aconteciam fora do casamento. Os filhos ilegítimos eram excluídos das honrarias

36
Sobre as teses que vinculam o racismo ao sistema escravocrata, ver HASENBALG,
Carlos (2005). Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: IUPERJ,
Belo Horizonte: Editora UFMG.
37
Trata-se desta relação e não da do índio, do negro ou do mestiço com a branca por ser
improvável, devido aos argumentos de controle da propriedade e da nobreza, que tenham ensejado
forte controle da sexualidade desta mulher.
53

sociais do ascendente mais bem colocado, normalmente o pai, e então eram criados
em casas comandadas pelas mães, de status mais baixo. (...) No caso de filhos de
uniões mistas, no entanto, era sempre o ascendente inferior, independentemente do
sexo, que determinava o status da criança” (Stolke, 1999, p. 30-31).

Como se vê, para Stolke, a criança seguia a condição ascendente de


condição econômica mais precária, normalmente a mãe. Sérgio Buarque de
Holanda (2006, p. 46) afirma, no mesmo sentido, que o fruto seguia a condição do
ventre. Segundo Maria Silva (1998, p. 199), quanto aos filhos ilegítimos
resultantes do intercurso entre homens brancos e escravas, aqueles normalmente
seguiam a condição da mãe38.

“Desses amancebamentos entre senhores e escravas, voluntários os forçados,


nascia a prole mulata ilegítima a qual, no caso de o senhor ser casado, o mais que
na maior parte das vezes alcançava era a alforria por morte do pai branco” (Silva,
2002, p. 47).

As informações pesquisadas por Maria Silva (1998, p. 17, 41, 48, 199) sobre
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

a herança ilustram como a prole ilegítima era tratada: mesmo quando eram
mulheres libertas a terem filhos com brancos, aqueles raramente se tornavam
herdeiros; havia preocupação de preparar o dote para as filhas das uniões entre
brancos e índias ou mamelucas e de educar os filhos, mas os frutos de tais uniões
muito raramente eram herdeiros, ainda quando fossem filhos naturais, ou seja,
quando pai e mãe eram solteiros; os filhos adulterinos não recebiam nada; em
situações de conflitos entorno da herança do pai branco, as autoridades em geral
desqualificavam as escravas que eram abusadas sexualmente como prostitutas39.
Mesmo nos raros casos em que os mulatos tornavam-se herdeiros, o resultado
poderia ser cruel. Extremo dos artifícios jurídicos coerentes com as explorações
das mulheres é o caso narrado por Maria Silva (2002, p.48): a negra Marta teve
filhos mulatos com o senhor, os quais foram alforriados. Quando o senhor morreu,

38
Quando, todavia, tratava-se de filho de escrava própria, poderia ocorrer de o pai dar a
alforria à criança, gratuitamente ou mediante pagamento (Silva, 1998, p. 199).
39
Mary Del Priore (2000, p. 79-80) argumenta, a partir de pesquisas sobre Minas Gerais e
Bahia, que os filhos tidos por mulheres negras com homens brancos acabavam por dar alguma
mobilidade econômica e social às mães, sendo que também os filhos mulatos poderiam ser
herdeiros. Ainda que reconhecendo problemas graves possivelmente decorrentes daquela situação,
Del Priore conclui, a partir daqueles dados, que “uma das formas de resistência da mulher negra às
difíceis condições de vida que lhe eram impostas pelo escravismo foi a mestiçagem”. Parece, ainda
assim, que tal estratégia de resistência não elidiu a violência que perpassou o fenômeno da
mestiçagem no Brasil, mesmo porque os casos em que mulatos eram considerados herdeiros foram
exceção à regra.
54

os filhos viraram herdeiros, e a negra Marta passou ao patrimônio dos próprios


filhos, e só se eles o quisessem ela alcançaria a alforria!
A par das questões de herança e outros elementos que revelam o
desprestígio do mulato, são muito importantes as considerações de Darcy Ribeiro
a respeito. Os filhos ilegítimos formaram os primeiros brasileiros, com uma dupla
rejeição de origem: não ser português e não ser da terra:

“Os brasilíndios ou mamelucos paulistas foram vítimas de duas rejeições


drásticas. A dos pais, com quem queriam identificar-se, mas que os viam como
impuros filhos da terra, aproveitavam bem seu trabalho enquanto meninos e
rapazes e, depois, os integravam em suas bandeiras, onde muitos deles fizeram
carreira. A segunda rejeição era do gentio materno. Na concepção dos índios, a
mulher é um simples saco em que o macho deposita a semente. Quem nasce é o
filho do pai, e não da mãe, assim visto pelos índios. Não podendo identificar-se
com uns nem com outros de seus ancestrais, que o rejeitavam, o mameluco caía
numa terra de ninguém, a partir da qual constrói sua identidade de brasileiro
(Ribeiro, 2006, p. 97).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Neste sentido é que Darcy Ribeiro (2006, p. 114) sugere que talvez pela
estranheza é que o brasileiro tenha pela primeira vez se percebido como tal:

“O brasilíndio como o afro-brasileiro existiam numa terra de ninguém,


etnicamente falando, e é a partir dessa carência essencial, para livrar-se da
ninguendade de não-índios, não-europeus e não-negros, que eles se vêem forçados
a criar sua própria identidade étnica: a brasileira” (Ribeiro, 2006, p. 118).

A exploração sexual das mulheres no Brasil colônia se deu não apenas pelos
desejos individuais, mas pelos imperativos da própria colonização, que precisava
da reprodução de mão de obra. Tais intercursos sexuais, violentos ou não, geraram
uma prole massivamente “ilegítima”, devido à “ampla paternidade irresponsável”,
nas palavras de Darcy Ribeiro, e aos “preconceitos de cor e de classe”, na
expressão de Caio Prado (1957, p. 352). Esta prole ilegítima é a matriz do povo
brasileiro, que surge a partir de negações: o não ser português, o não ser africano
(e sim escravo), o não ser gentio da terra. Na brilhante formulação de Darcy
Ribeiro, esta “ninguendade”40, fruto de várias ordens de violência, dentre elas,

40
A ninguendade parece não ter sido peculiaridade do Brasil. A Chingada, como se disse
anteriormente, é o mito mexicano que representa aquela que foi violada pelos espanhóis. Para
Octavio Paz (1992, p. 8000), sua “mancha é constitucional e reside (...) em seu sexo. Esta
passividade, aberta ao exterior, a leva a perder a sua identidade: é a Chingada. Perde seu nome, já
não é mais ninguém, confunde-se com o nada, é o Nada. Contudo, é a atroz encarnação da
condição feminina”.
55

matricialmente, a violência de gênero, é que força a criação de uma identidade


própria: a brasileira.

3.8

Sexualidade compulsória – casamento e prostituição

Sobre as mulheres brancas destinadas ao casamento, a implicação foi a do


rígido controle sexual. De acordo com Araújo (1997, p. 50), o “adestramento da
sexualidade” tinha a ver com o “respeito ao pai, depois ao marido, além de uma
educação dirigida exclusivamente para os afazeres domésticos”41.
As senhoras de engenho levavam uma vida muito recatada, muitas vezes
não tomando contato sequer com as visitas42 (Freyre, 1986, p. 191). As mulheres
de classe popular de fato conviviam com homens com maior freqüência – como
Maria Silva (2002, p. 329) explica, o conceito de honra não constituía tema de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

preservação entre as mulheres de classes populares. A reclusão das senhoras de


engenho era maior do que a das senhoras dos espaços urbanos, onde podiam
participar de festas de dança e música, que eram destinadas a toda a família.
Mesmo assim, em muitos lugares, como no Rio de Janeiro, as damas raramente
saíam de casa – o faziam apenas em dias de festa e missas. Relatos informavam
que as senhoras saíam apenas de madrugada para ir à Igreja, e cobertas com uma
capa de lã ou com um lenço que cobrisse a cabeça e o rosto43 – cujo uso foi depois
proibido pelas autoridades, justamente para que não acobertasse mulheres que
eventualmente quisessem cometer adultério ou qualquer tipo de relacionamento
não albergado pelos estritos padrões católicos. Já as mulheres populares saíam ao
fim da tarde para rezar e cantar o rosário. Para aquelas de classe alta, as ocasiões

41
“O programa de estudos destinado às meninas era bem diferente do dirigido aos meninos,
e mesmo nas matérias comuns, ministradas separadamente, o aprendizado delas limitava-se ao
mínimo, de forma ligeira, leve. Só as que mais tarde seriam destinadas ao convento aprendiam
latim e música; as demais restringiam-se ao que interessava ao funcionamento do futuro lar
(...)”(Araújo, 1997, p. 50-1).
42
Sobre período histórico posterior, Margareth Gonçalves (2005, p. 613 e 615), focando
nos relatos dos viajantes portugueses sobre as mulheres dos setores médio e alto nas primeiras
decadas do século XIX, afirma que a imagem que os viajantes europeus tinha da mulher era a de
uma pessoa reclusa.
43
Ainda assim, se reconhece que no Brasil os trajes eram mais despojados do que na
Europa (Silva, 2002, p. 231).
56

religiosas acabavam sendo as únicas oportunidades de ter pelo menos um contato


visual com homens (Silva, 2002, p. 184-5, 208, 214 , 215 e 230).
A diferença de tratamento entre ricas e pobres se dava por questões de
herança e de manutenção da nobreza. O controle era tão grande sobre as mulheres
brancas casadas ou destinadas ao casamento que era comum haver filhas ou
esposas assassinadas por patriarcas44. Em todo o Brasil colonial a única
virgindade que se conservava era a da sinhá moça, até o casamento, que em geral
ocorria entre 12 e 14 anos45, depois do que as virgens “perdiam o sabor”. Muitas
dessas moças de engenho, assim, morriam perto dos quinze anos, de parto.
Dificilmente os homens mantinham a mesma esposa até a velhice, pois elas iam
morrendo, e eles casando com irmãs mais novas ou primas da primeira mulher. A
“multiplicação de gente se dava à custa do sacrifício das mulheres, verdadeiras
mártires em que o esforço de gerar, consumindo primeiro a mocidade, logo
consumia a vida” (Freyre, 1986, p. 27, 369, 378-9, 393, 439 e 465).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

As mulheres brancas viviam uma “submissão muçulmana diante dos


maridos, a quem se dirigiam sempre com medo, tratando-os de ‘senhor”, sofrendo
humilhações46, o que provavelmente constituía um estímulo ao sadismo das sinhás
em relação às negras. As sinhás, muitas vezes enlouquecidas de ciúmes, rancor e
rivalidade sexual, ordenavam arrancar os olhos de mucamas bonitas, e mandando
“trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de
doce boiando em sangue ainda fresco”, ou ainda determinavam vender mulatinhas
a libertinos, cortar fora os seios de escravas, queimar a cara ou orelhas, e uma lista
infinita de crueldades (Freyre, 1986, p. 357-8). Eram mulheres dilapidando
mulheres.

44
A “filha estivera por algum tempo à janela. Crime horrendo de que resultou – conta a
tradição – a mãe ter mandado matar a filha. Antônio de Oliveira Leitão (...), tendo visto tremular
no fundo do quintal da casa um lenço que a filha tinha levado para enxugar ao sol, maldou logo
que era a senha de algum don-juan a lhe manchar a honra e não teve dúvida – sacou de uma faca
de ponta e com ela atravessou o peito da moça” (Freyre, 1986, p. 439).
45
“Não havia tempo para explodirem em tão franzinos corpos de menina grandes paixões
lúbricas, cedo abafadas ou simplesmente abafadas pelo tálamo patriarcal. Abafada sob as carícias
de maridos dez, quinze, vinte anos mais velhos; e muitas vezes inteiramente desconhecidos das
noivas. Maridos da escolha ou da conveniência exclusiva dos pais” (Freyre, 1986, p. 360).
46
“Outro caso, referiu-nos Raoul Dunlop de um jovem de conhecida família escravocrata
do sul: este para excitar-se diante da noiva branca precisou, nas primeiras noites de casado, de
levar para a alcova a camisa úmida de suor, impregnada de budum, da escrava negra sua amante.
Casos de exclusivismo ou fixação. Mórbidos, portanto; mas através dos quais se sente a sombra do
escravo negro sobre a vida sexual e a família do brasileiro” (Freyre, 1986, p. 308).
57

A sexualidade das mulheres era nitidamente submetida à disposição


masculina. De acordo com Maria Silva (1998, 15 e 193, 2002 p. 80, 235, 246 e
255), o interesse de controle da sua sexualidade não era apenas dos homens,
individualmente, mas também do Estado e da Igreja. A luta contra o concubinato
era mais intensa por parte da Igreja do que por parte da Coroa, devido ao desejo
de manutenção dos padrões católicos. Já o interesse no consentimento do pai ou
do tutor para casar interessava mais ao Estado, a quem era mais conveniente uma
sociedade dividida entre nobres e plebeus, devido ao suporte da monarquia dado
por aqueles. Da mesma forma, interessava mais ao Estado a proibição do adultério
feminino, também pela questão do controle da herança e da manutenção da
nobreza47.
A sexualidade no casamento era aquela sexualidade contida, racional, casta,
contingente. A mulher, porém, era obrigada à sexualidade conjugal, não existindo,
dentro do casamento, a figura do estupro (Del Priore, 1993, p. 127 e 142 e Soihet,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

1997, p. 362). Isso, mais uma vez, não só se associava aos padrões morais, mas
também à necessidade da colonização, de reprodução. A sexualidade da mulher
casada era tão controlada que existiam inclusive calcinhas de ferro, colocadas
pelos pais, só entregando a chave ao marido (Del Priore, 1993, p. 133).
Existiam, com base em extremos, dois arquétipos: o da mulher sem
qualidades, luxuriosa, devassa, em oposição ao da santa-mãezinha (Del Priore,

47
Verena Stolke (1999, p. 16, 18, 21, 23-24, 38), tratando da experiência colonial ibérica
em seu momento de estruturação política e simbólica, explica que existiu no sistema colonial
ibérico o sistema herdado da limpieza de sangre, que vigorou até início do século XIX nas
Américas portuguesa e espanhola (apesar de ter sido mais bem documentado na América
espanhola do que no Brasil porque a Inquisição portuguesa nunca estabeleceu um tribunal para sua
inquisição). Tal sistema implicava na qualidade de não ter como ancestral mouro, judeu ou
herético. A decorrência disso foi a virgindade feminina antes do casamento e a castidade depois,
em nome da honra familiar e da proeminência social. “Ao reforçar a noção metafísica do sangue
como veículo do prestígio familiar e como ferramenta ideológica usada para salvaguardar a
hierarquia social, o Estado, numa aliança com as famílias que exigiam sangue puro, submetia suas
mulheres a uma rígida vigilância de sua conduta sexual enquanto seus filhos se deleitavam
livremente com mulheres consideradas sin calidad. A desdenhada imagem da mulata, síntese da
mulher irresistivelmente sedutora e moralmente depravada, eximia homens brancos de qualquer
responsabilidade, culpando em vez disso a mulher. O ditado cubano do século XIX "no hay
tamarindo dulce ni mulata señorita" (não existe tamarindo doce, nem mulata virgem) é expressão
dramática dessa lógica de gênero distorcida”.
Stolke enfatiza o impedimento de misturas com os judeus. Sérgio Buarque de Holanda, por
sua vez, afirma que os portugueses, à época do descobrimento, já eram um povo de mestiços,
porquanto “já ostentavam um contingente maior de sangue negro”, mistura que já tinha começado
amplamente na própria metrópole (Holanda, 2006, p. 45 e 48). Existia, segundo este autor, no
Brasil, um exíguo sentimento de distância entre os dominadores e a massa trabalhadora de negros.
Para o autor, não era decisiva a questão da origem, mas sim a questão do trabalho – a
discriminação se dava conforme era vil ou não o trabalho realizado
58

1993, p. 178 e ss). Normalmente tais estereótipos foram associados à raça: a


simbologia das brancas frígidas em contraposição com as negras fogosas (Stam e
Shohat, 2006, p. 237). Segundo Del Priore (1993, p. 149 e 157), a “imposição da
sexualidade doméstica passou pela execração daquela que era pública, ou seja, da
prostituição”. Ela explica que o papel de cada uma era desenhado a partir do
discurso respectivo sobre a procriação. De um lado, “a mãe condenada a gerar, a
dobrar-se ao peso dos trabalhos para a criação dos filhos, excluída de qualquer
rotina de prazer erótico”; de outro, “a prostituta estéril à força de abortivos,
condenada a não ter prole, amalgamada a uma concepção que condenava a
esterilidade a ser vivida como uma tara, uma anormalidade, uma maldição”.
A prostituição não era um crime, nem perante a legislação civil, nem
perante a eclesiástica. Somente era crime a figura da alcoviteira – a pessoa que
explora a atividade alheia, como hoje. O que importa para nós é que os homens
senhores de escravos também faziam o papel de alcoviteira, porque obrigavam
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

suas escravas à venda do sexo, explorando o lucro (não só eram sujeitadas as


escravas à prostituição, mas por vezes à bigamia, por imposição de seu senhor).
Muitas vezes os próprios maridos ofereciam suas mulheres ao meretrício. O que
raramente acontecia era a prostituição de donas – das senhoras brancas
proprietárias. As negras e as mestiças formavam amplamente o maior contingente
de meretrizes48 (Silva, 2002, p. 249-54, 267).
As prostitutas, “que teriam impressas nas suas carnes, até os ossos, as
marcas de suas misérias”, foram úteis para a construção e a valorização do
oposto, da mulher pura. Aquelas eram tidas até mesmo como pacificadoras da
violência sexual contra as moças destinadas ao casamento. A prostituição era um
crime menor – nas palavras de Santo Tomás de Aquino e de Santo Agostinho,
citados por Del Priore, “a sociedade carecia tanto de bordéis quanto necessitava de
cloacas” (Del Priore, 2000, p. 33-4 e 46).

48
Ainda que as negras formassem o maior contingente de prostitutas, a disseminação da
prostituição também ocorreu entre as brancas pobres: “as moças filhas de pais pobres nem sequer
pensam em casamento; não lhes passa pela cabeça a possibilidade de arranjarem um marido sem o
engodo do dote, e como ignoram os meios de uma mulher poder viver do trabalho honesto e
perseverante, vão facilmente à vida licenciosa” (Esboço da viagem de Langsdorff no interior do
Brasil desde setembro de 1825 até março de 1829. Hércules Florence. R. I. H. B., 38, apud Caio
Prado,1957, p. 353).
59

3.9

Controle do adultério e divórcio

Expressão intensa do controle sexual das mulheres era a diferença da


punição do adultério cometido por elas e do adultério cometido pelos homens. Ao
marido traído havia as seguintes opções: a querela do adultério, o perdão, o
confinamento da adúltera em recolhimento ou convento49 ou o assassinato dela. O
próprio Código Filipino50, Livro 5, Título 38 permitia ao homem que encontrasse
sua esposa em adultério a matá-la, assim como ao amante – sendo que a punição
deste dependia de sua condição social (Silva, 2002, p. 261). Existem, segundo
Araújo, vários casos de assassinatos registrados51. A Igreja não podia fazer nada
em relação ao adultério, pois a punição cabia exclusivamente aos maridos (Silva,
2002, p. 220, 255-7 e 347).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

49
Possibilidade muito usada pelos maridos enganados era a clausura perpétua da mulher. A
clausura das moças se dava por motivos como evitar um casamento abaixo da sua condição social
quando não havia dote suficiente ou imitar a nobreza; a das casadas, normalmente por motivos de
punição (Silva, 2002, p. 155-7 e 267). Algranti (1999) estuda casas de clausura para as mulheres,
que funcionaram, na maioria das vezes, exatamente como um recurso do sistema estabelecido de
conter e punir esposas insubordinadas, além de outras funções. A reclusão era uma prática
amplamente utilizada, a disposição daquela sociedade.
Estabelecimentos como o Recolhimento da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro
(séculos XVIII e XIX), Convento da Ajuda, Convento de Santa Teresa abrigavam esposas
desobedientes, órfãs à espera de casamento, mulheres cujos familiares estavam ausentes, mulheres
dedicadas à vida religiosa, viúvas, solteiras que escolhiam ir para o recolhimento e também
mulheres que se desejavam livrar de um marido extremamente dominador ou de um casamento
fracassado – ou seja, serviam como instrumento à disposição da dominação masculina, mas
também como forma de resistência à opressão. O controle era intenso, de modo que até a
correspondência era lida antes de ser entregue às destinatárias. Havia as porsionistas, que gozavam
de privilégios: não eram obrigadas aos mesmos serviços, dispunham das melhores celas e
contavam com escrava parda ou negra ao seu dispor (Algranti, 1999, p. 148-9, 151-2, 154-5, 157-
8) – o que indica que ali dentro também se expressavam os antagonismos de classe social.
50
As Ordenações Filipinas foram editadas em 1603 e vigoraram desde sua promulgação até
a Independência no Brasil.
51
A norma do Código Filipino deixou seqüelas. Luís Martins (2008, p. 52-3) relata o
episódio vivido por Lima Barreto [Bagatelas, Empresa de Romances Populares, Rio de Janeiro,
1923] já na época da República: “Servindo de jurado no julgamento de um uxoricida passional,
estava firmemente disposto a condená-lo. Cedendo porém aos rogos da mãe do réu e aos apelos
meio irritados dos seus colegas de conselho, acabou por concordar em absolvê-lo. Pois a saída do
júri – coisa que parece inacreditável – os irmãos da vítima agradeceram-lhe a resolução!”. Luís
Martins prossegue: “Ora, esse preconceito medieval foi uma importação da cultura européia. Os
nossos indígenas adotavam, a respeito, uma largueza de vista que escandalizou Gabriel Soares de
Sousa, espantado de que os Tupinambás não matassem as esposas adúlteras: ‘Os machos destes
Tupinambás’, estranhava, ‘não são ciosos; e ainda que achem outrem com as mulheres, não matam
a ninguém por isso e, quando muito, espancam as mulheres pelo caso’ [Notícias do Brasil, tomo II,
Liv. Martins, São Paulo, s. d.]”. Luís Martins arremata, afirmando que “Com esse espírito, com
essa concepção do direito patriarcal do chefe de família, é fácil de se conceber as proporções que
assumiu a preponderância do marido, do pai, do patriarca, na família colonial brasileira”.
60

“Na legislação portuguesa e na sociedade colonial constata-se a assimetria


na punição do assassínio do cônjuge por adultério. Enquanto para as mulheres não
se colocava sequer a possibilidade de serem desculpadas por matarem os maridos
adúlteros, para os homens a defesa da honra perante um adultério feminino
comprovado encontrava apoio nas leis” (Silva, 1998, p. 250).

Emanuel Araujo (1997, p. 59-60) relata que, conquanto existissem casos de


adultério feminino no Brasil colônia, esta atividade era extremamente perigosa
para as mulheres, que colocavam em risco a própria vida. Os casos de
infidelidade da mulher branca com o escravo tinham intervenção da moral
paterna, sendo severamente punidos: com o assassinato dela, com o castramento
com faca mal-afiada do negro ou mulato, enterrando-o vivo depois. Por isso e pela
vigilância severa e constante da moça branca52, tais empreitadas eram muito raras.
Ainda sabendo que o castigo para o adultério feminino era bem mais
rigoroso do que o masculino, as mulheres da colônia cometiam este crime (para o
Estado) e pecado (para a Igreja). Não era, contudo, “fácil para a mulher casada
manter relações adulterinas, a não ser em três situações: a ausência do marido, a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

separação decretada pelo Tribunal Eclesiástico ou o contato freqüente com


clérigos” (Silva, 1998, p. 260). Existia perante a Igreja inclusive o “crime de
solicitação”, cuja conduta típica era a sedução e manutenção de relação sexual
entre confessor (padre) e confidente. Havia vários exemplos de padres chefes de
família, uniões com mais de um filho, o que indica a estabilidade delas, até o
aparecimento de algum obstáculo, como algum bispo visitador (Del Priore, 2000,
p. 68-71).
Rachel Soihet (1997) descreve histórias muito curiosas de crimes passionais
em decorrência de adultério, de suicídios, de esposas batendo nos maridos devido
a traições ou não contribuição com as despesas do lar que destoavam do
estereótipo feminino desejado para a época. Mesmo assim, poucas são as notícias
de mulheres presas53 por assassinarem os maridos (Silva, 1998, p. 247 e 2002, p.
269).

52
As moças dormiam em uma alcova bem no meio da casa, rodeada de quartos de pessoas
mais velhas (Freyre, 1986, p. 358-9 e 365-6).
53
As mulheres eram uma minoria no conjunto dos presos, e também no conjunto dos
criminosos. Por exemplo, nos autos elas aparecem com muita freqüência como vítimas do crime
de solicitação – o assédio sexual às confidentes por parte de padres e frades, casos em que a
Inquisição só punia os criminosos se o crime fosse cometido durante a confissão, não pelo assédio
à mulher, mas pelo desrespeito da instituição religiosa. Mesmo assim, importa notar que os casos
61

Quanto ao divórcio, as mulheres podiam pedi-lo54. As que não obtinham a


sentença favorável obrigatoriamente voltavam para os maridos, mas algumas a
isso se recusavam. Os maridos ricos é que costumavam negar os divórcios, para
evitar as partilhas dos bens (Silva, 2002, p. 164 e 265).

3.10

Mulheres chefes de família

Putas ou santas, ou nem uma nem outra, muitas mulheres eram chefes de
famílias. Para Del Priore (1993, p. 66), a vida colonial apresentava especificidades
que reforçavam o papel da mulher como “mantenedora, gestora, guardiã da casa e
do destino dos seus”.
As mulheres que chefiavam as casas forneceram a base para o nascimento
do imaginário da “mulher sem qualidades”, o que se mostra um grandíssimo
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

paradoxo: a mulher que é mantenedora como aquela sem bons atributos. Mas isso
tem uma explicação: as mulheres que administravam os fogos também
administravam seu corpo como queriam, implicando nas práticas consideradas
pecaminosas pela Igreja, porque contrariavam aquele projeto de mulher ideal:
mãe, casada, “afeita à domesticidade, à piedade religiosa, preocupada em
consolidar a família” (Del Priore, 1993, p. 68-74 e 81).
Maria Silva (1998, p. 185) apresenta relatos esparsos. Parece ser difícil
obter alguma informação sistematizada sobre a chefia da família por mulheres,
sobre sua expressividade no período colonial. A autora menciona, por exemplo,
que em 1804 os domicílios chefiados por mulheres em Vila Rica representavam
43,9% do total. Mas não se sabe qual seria essa porcentagem em outras
localidades e em outros períodos. Informações relevantes que se têm por seguras
são: que entre os libertos, o número das famílias chefiadas por mulheres solteiras
superava o número de famílias nucleares; que entre as famílias chefiadas por
mulheres, a maior parte o era por mulheres negras ou pardas; que a maioria das

documentados – os que as mulheres denunciavam – provavelmente eram ínfimos diante da


totalidade de ocorrências no mundo real (Silva, 2002, p. 235, 312-18).
54
Sra. Henriqueta Adelaide Pinto Machado, em pleno ano de 1865, pediu divórcio do
marido, que a maltratava psicológica e fisicamente, além de não cumprir o dever de fidelidade
conjugal, relacionando-se sexualmente com “mulheres mundanas e até com suas prórpias
escravas”. É o que se lê no Libelo de Divórcio localizado entre os Manuscritos da Biblioteca
Nacional (Vilaça, 2008).
62

chefes de família era solteira, e não viúva ou casada com marido ausente. As
negras e mulatas passaram a chefiar famílias vivendo em concubinatos,
amasiamentos estáveis ou em outras formas de convivência familiar, porque a
partir do século XVIII já era grande o número de mulheres alforriadas (Del Priore,
2000, p. 20).
As mulheres, inclusive as brancas, trabalhavam55 – diferentemente do que
sugere o mito da mulher ociosa. A pobreza, como ainda hoje, era concentrada no
gênero feminino, sendo que as negras eram mais atingidas, ao lado das idosas
(Silva, 2002, p. 87-8).
Mesmo exercendo trabalho – fosse fora de casa, nos trabalhos descritos,
fosse nas atividades não remuneradas dentro do lar, como a culinária e o cuidado
com os filhos, fosse exercendo todo tipo de trabalho escravo, etc. – as mulheres
do Brasil colonial eram quase invisíveis, porque a maioria delas “era analfabeta,
subordinada juridicamente aos homens e politicamente inexistente” (Del Priore,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

2000, p. 9). Isso sugere a ausência de expressão política que acaba por
condicionar a forma como o político é concebido.
Soihet (1997, p. 366) conta uma história interessantíssima, da lavadeira
Lídia, que se estava divertindo na Praça da República, e por isso foi presa – tendo
antes bravamente resistido. A razão da prisão é que existia ordem do Delegado

55
As profissões dos homens chefes de fogos eram variadas: armeiro de regimento,
meirinho, alfaiate, cirurgião, carpinteiro, comerciante de fazenda seca, músico, requerente,
vendeiro, sapateiro, faiscador, minerador, ferreiro, chupeteiro, seringueiro, trombeteiro, barbeiro,
escriturário, soldado. As mulheres chefes de domicílio eram enfermeira de hospital, fieira de
algodão, quitandeira, padeira, faiscadora, costureira, engomadeira, rendeira, ganhadeira,
cozinheira, doceira, vendedeira e lavadeira (Silva, 1998, p. 171-3). As atividades das plebéias eram
variadas. Muitas trabalhavam como padeiras. Havia ainda muitas que trabalhavam com limpeza e
lavagem de roupas, com costura, e também as vendedeiras, as donas de tavernas, as rendeiras, as
bordadeiras, as doceiras, as fiandeiras. No século XIX as brancas começaram a ser contratadas
como criadas, porque famílias estrangeiras em geral não aceitavam escravas. Existiam mulheres
ocupadas com serviços mais especializados, como fazer velas ou sabão, refinar açúcar ou sal, fiar e
tecer algodão e preparar gangas e meias de seda – embora a mais procurada fosse a escrava
doméstica para todo tipo de serviço (Silva, 2002, p. 174-189). Fora isso, eram temidas feiticeiras.
Também havia as atividades dos quintais (Del Priore, 2000, p. 16, 18 e 50), tão trabalhadas entre
economistas feministas contemporaneamente (ver Schefler, 2007).
Também as mulheres de classes altas exerciam atividades. O mito da mulher ociosa é uma
generalização da realidade de algumas donas (Silva, 2002, p. 169). Importante a conclusão a
respeito do trabalho das mulheres elaborada por Maria Silva (2002, p. 198): “Vemos assim que,
enquanto as brancas de qualidade, as donas se ocupavam, no interior de suas casas, da gestão do
patrimônio familiar, da venda ou do arrendamento de propriedades, da recuperação de escravos
fugidos ou da venda de outros, as brancas plebéias dividiam as ruas com as mulheres de cor, fosse
nas cidades e vilas, fosse nas povoações menores. Deste modo, há que abandonar o estereótipo da
branca apenas em casa, e das negras e pardas circulando à vontade onde queriam, pois as brancas
plebéias exerciam também profissões que as afastavam do serviço doméstico” (Silva, 2002, p.
189).
63

para não permitir a permanência de mulheres naquele local, o que, para a autora, é
prova de que as autoridades se empenhavam em impedir a presença de populares e
mulheres em alguns lugares, “no esforço de afrancesar a cidade para o desfrute
das camadas mais elevadas da população e para dar mostras de ‘civilização’ aos
capitais e homens estrangeiros que pretendiam atrair. No caso das mulheres,
acrescentavam-se preconceitos relativos ao seu comportamento; sua condição de
classe e de gênero acentuava a incidência da violência”.
Aqui se repetiu o que tem sido uma sina das sociedades baseadas no
patriarcado: a mulher não exerce poder político, senão informalmente, ou atuando
diretamente em conflitos e nos processos mais longos e capilares das
transformações das relações de poder:

“Espectadoras da expansão pecuária nordestina e do surgimento de tantos


povoados pelo sertão, nossas mulheres acompanharam também os ciclos
bandeirantes de apresamento ou de busca de riquezas. Assistiram à instalação
pachorrenta da máquina administrativa da Coroa e à chegada e partida de tantos
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

funcionários metropolitanos, de governadores-gerais e vice-reis do Brasil. Ativas,


participaram de inúmeros conflitos e reações contra a política colonial, bem como
de levantes de escravos. (...) acabaram por participar do grande processo de
mobilidade social e amolecimento de estruturas que toma conta dela [da Colônia]
ao longo do século XVIII” (Del Priore, 2000, p. 93).

A mulher, reprodutora, elemento absolutamente central para todo o processo


colonial (dizê-lo é uma redundância, porque a mulher é central para qualquer
processo social), foi mais objeto do que sujeito da colonização. Objeto sujeito a
violências atrozes, ainda que apresentando resistências.
4
Colonialismo, patrimonialismo e patriarcalismo

4.1

Observação preliminar: a questão da herança ibérica

O que se pretende tratar neste capítulo são as características materiais da


colonização que engendraram o patrimonialismo, o personalismo e o
patriarcalismo, e identificar as formas de opressão da mulher que fizeram parte da
estrutura deste processo.
Antes de prosseguir, é preciso dizer que, apesar de importante, não se
considerará o debate sobre a tradição ibérica. Sérgio Buarque de Holanda (2006,
especialmente p. 76 e 2004, especialmente p. 51), um dos autores mais usados
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

para as reflexões que se sequem, atribui às características de Portugal e dos


portugueses – o espírito aventureiro, por exemplo – muitas das mazelas que
enfrentamos, dentre elas, principalmente a tradição patrimonialista. Jessé de
Souza (20011), um dos principais autores de uma importante discussão conceitual
sobre o patrimonialismo, afirma que Sérgio Buarque de Holanda, Roberto da
Matta e Raimundo Faoro2 são representantes de uma “sociologia da

1
Referenciando-se na sua obra “A modernização seletiva: uma reinterpretação do dilema
brasileiro”. Brasília: Ed. da UnB, 2000.
2
Apesar de os três autores – Holanda, Faoro e da Matta – possivelmente se aproximarem
no que diz respeito à “inautenticidade”, a presente dissertação conceitualmente se distancia muito
de Faoro e da Matta, ao passo que se aproxima de Holanda, por critérios diferentes de análise em
relação aos elegidos por Jessé. Quanto a Faoro, isso se dá porque este autor descarta os elementos
da herança do latifúndio para a formação das instituições brasileiras, consoante se disse na
apresentação desta dissertação.
No que diz respeito a Roberto da Matta, os motivos pelos quais esta pesquisa se distancia
dele são próximos, por sua vez, das críticas de Jessé de Souza. É impossível falar em público e
privado no Brasil sem passar por Roberto da Matta, sociólogo muito conhecido, com títulos
sugestivos, como A Casa & a Rua e Você sabe com quem está falando?, este último no livro
Carnavais, malandros e heróis. Para Roberto da Matta (1997-a, p. 14-15), a casa e a rua são
categorias sociológicas. Existem, na sua tipologia, em síntese, “o código da casa (fundado na
família, na amizade, na lealdade, na pessoa do compadrio) e o código da rua (baseado em leis
universais, numa burocracia antiga e profundamente ancorada em nós, e num formalismo jurídico-
legal que chega às raias do absurdo)” (Matta, 1997-a, p. 24). Mas o que o autor não vê é
exatamente o nodal para esta pesquisa – o quanto de público, no sentido de relações politicamente
estruturadas, existe no privado, e o quanto de privado, de privatismos, de particularismos, de
mandonismos e muitos outros ismos existem no público. A única imbricação que ele vê é a de
uma conciliação, uma mistura, que se dá no carnaval, quando os códigos são subvertidos (Matta,
1997-b).
65

inautenticidade”, sendo que os três autores, de acordo com Souza, veriam o Brasil
como uma “alteridade atrasada e patrimonialista em relação, especialmente, ao
modelo norte-americano”, culpando, ainda, a herança ibérica por nosso atraso. De
fato, Sérgio Buarque registra que o paternalismo rígido é o que há de mais oposto

O autor reconhece que a mulher é confinada no espaço privado: “O mundo diário pode
marcar a mulher como o centro de todas as rotinas familiares, mas os ritos políticos do poder
ressaltam apenas os homens” (Matta, 1997-a, p. 39). Não percebe nisso, todavia, o quanto de
elementos políticos estruturam essa relação. Ademais, ele cristaliza nas suas categorias
sociológicas estigmas que o movimento feminista vem lutando para quebrar. Por exemplo:
“Assim, qualquer evento pode ser sempre ‘lido’ (ou interpretado) pelo código da casa e da família
(que é avesso à mudança e à história, à economia, ao individualismo e ao progresso), pelo código
da rua (que está aberto ao legalismo jurídico, ao mercado, à história linear e ao progresso
individual) e por um código do outro mundo (que focaliza a idéia de renúncia do mundo com suas
dores e ilusões e, assim fazendo, tenta sintetizar os outros dois)” (Matta, 1997-a, p. 48, grifei).
Para ele, “a casa distingue esse espaço de calma, repouso, recuperação e hospitalidade,
enfim, de tudo aquilo que define a nossa idéia de ‘amor’, ‘carinho’ e ‘calor humano’, a rua é um
espaço definido precisamente ao inverso” (Matta, 1997-a, p. 57). Essa formulação, além de
simplista, ignora que por trás da suposta afabilidade reinante na casa, as relações domésticas são
permeadas por profundas violências e desigualdades, com a perversidade de serem silenciadas.
Roberto da Matta aprofunda esse silenciamento, essa ocultação, ao colocar suas categorias
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

sociológicas dessa forma. Da Matta (1997-a, p. 61) afirma que sua tese é “o sistema ritual
brasileiro é um modo complexo de estabelecer e até mesmo de propor uma relação permanente e
forte entre a casa e a rua, entre ‘este mundo’ e o ‘outro mundo’”. Mas longe de desenhar essa
complexidade, Roberto da Matta não apenas se ata aos dualismos como se baseia (e não critica)
todos os estereótipos que escondem relações reais de poder.
O autor afirma que não é possível passar para um patamar de igualdade quando existem
hierarquias (Matta, 1997-a, p. 71). Mas a hierarquia que vislumbra é a entre a rua e a casa, quando,
na verdade, enfrentamos hierarquias dentro do que seria a casa, dentro do que seria a rua, e nos
espaços de imbricação entre uma e outra.
Jessé de Souza (2001, p. 51) faz uma crítica contundente a da Matta. De acordo com o
primeiro, o problema básico da teoria do segundo é a articulação entre os mundos da casa e da rua,
pois “a dualidade enquanto tal é uma simples aporia”. Da Matta só conseguiria a gramática social
profunda que pretende (Matta, 1997-a, p. 13) se investigasse qual a hierarquia valorativa, qual o
critério da seletividade: “Essa seletividade, por sua vez, exige a consideração da variável do poder
relativo de grupos e classes envolvidos na luta social por hegemonia ideológica e material. (...)
Afinal, é a imbricação entre domínio ideológico e acesso diferencial a bens ideais ou materiais
escassos que cumpre esclarecer” (Souza, 2001, p. 51).
Para Souza (2001, p. 52-3 e 62), na obra de da Matta não se encontram classes ou grupos
sociais, mas apenas indivíduos e espaços sociais. As sociedades contemporâneas atendem a
imperativos de reproduzir o Estado e o mercado, de modo que esses imperativos entram também
na casa – e disso Roberto da Matta não se dá conta: “Estado e mercado não são o mundo da rua
que pára na porta das nossas casas. Eles entram na nossa casa; mais ainda, eles entram na nossa
alma e dizem o que devemos querer e como devemos sentir. É enganoso separar casa e rua (sendo
a rua percebida como o mundo impessoal do Estado e do mercado, como vimos), como é enganoso
supor a permanência atávica de relações personalistas numa sociedade estruturada por Estado e
mercado”.
No mesmo sentido da crítica de Jessé, é possível afirmar que da Matta também não percebe
que a casa, além de ser dominada por imperativos do mercado e do Estado, comporta relações que
oprimem especialmente as mulheres, relações estas que obedecem a estruturas mais gerais de
opressão de gênero. Nesse sentido é que Jessé critica a suposição de da Matta (1997-a, p. 93)
também segundo a qual na casa se é “supercidadão”, ao passo que na rua se é “subcidadão”: “Seria
razoável supor que uma operária negra e pobre da periferia de São Paulo que, depois de trabalhar o
dia inteiro e ter efetivamente fartas experiências de subcidadania na “rua”, apanha do marido em
“casa” sente-se uma supercidadã?” (Souza, 2001, p. 45).
Que tipo de sociologia relacional é essa?
66

às idéias da França revolucionária e da fundação dos Estados Unidos (Holanda,


2006, p. 85). Não obstante a consistência dos argumentos de Jessé, esta discussão
foge ao objeto desta dissertação. Ainda que, inegavelmente, a colonização ibérica
tenha peculiaridades que não podem ser negadas, importa mencionar que não se
discute, na presente pesquisa, a comparação do Brasil com o “próspero” modelo
norte-americano, na expressão de Richard Morse (1988). O que se aproveita do
pensamento de Sérgio Buarque não é a comparação com outras nações, mas os
elementos que ele identificou entre nós de indiferenciação entre o público e o
privado e a relação disso com a estruturação da família. Ademais, tratar da
herança ibérica como marca indelével, atribuir nossos problemas às características
de Portugal e associar o Brasil a uma representação fixada do ocidente
possivelmente são opções interpretativas, de fato, problemáticas. Ocorre que a
herança colonial, ou seja, as práticas substanciais e materiais que ocorreram no
Brasil colônia de parimonialismo, personalismo e patriarcalismo, parecem difíceis
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

de serem negadas e, principalmente, não se resumem à herança ibérica. O


patrimonialismo, o patriarcalismo e o personalismo se deram entre nós por
práticas substanciais, independente de a herança ibérica ter contribuído para
isso ou não.

4.2

Características materiais da colonização

O que importa sublinhar desde logo é que sustento que as formas de


exploração da mulher que foram tratadas no capítulo anterior compõem o
substrato material, a base concreta da colonização. Não obstante a pluralidade de
formas de vida das mulheres, alguns elementos foram muito generalizados, no
sentido de a terra e a mulher terem sido vistas de forma análoga, controladas,
adestradas e exploradas no limite, no benefício do projeto colonial. Na esteira dos
autores citados, pode-se dizer que existia uma oposição gendrada em que a mulher
foi associada ao elemento colonizado, à natureza e à América, ao passo que o
masculino foi associado ao colonizador, à Europa, ao Estado monárquico (Stam e
Shohat, Almeida e Salles). Isso implica em dizer que a colonização foi uma
colonização da América e do seu território, e também dos corpos e das vidas das
mulheres (a mulher foi mais objeto do que sujeito da colonização), a partir do que
67

Gilberto Freyre denomina de cálculo político: necessidade de povoamento e


reprodução de braços para a colonização. Apesar de a forma da organização da
sexualidade ter tido alguma pluralidade, principalmente nas classes baixas, a
violência não deixou de ser freqüente. Além disso, alguns parâmetros gerais
podem ser identificados: o controle sexual das brancas de classe alta no objetivo
de concentração da nobreza e da propriedade e o abuso sexual generalizado das
escravas e das índias (ainda que a estas últimas muitas vezes tivessem a si
atribuído o nobre papel de mãe de família), com doses altas de sadismo (Freyre) –
podendo-se dizer que o antagonismo fundamental que informa a tradição
conservadora no Brasil é o entre senhor e escrava.
Além destes elementos, foram essenciais à nossa estrutura colonial a
sociabilidade baseada no escravismo, o latifúndio, a monocultura, a exploração da
terra sem limites, o empreendimento colonial baseado na iniciativa privada e a
violência. É possível afirmar que a ocorrência destes fatores não foi casual.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Segundo Darcy Ribeiro (2006, p. 35-6), a bula Romanus Pontifex, de 8 de janeiro


de 1454, do papa Nicolau V, já estabelecia as normas básicas da ação
colonizadora – antes, portanto da invasão do nosso continente. A bula diz,
literalmente, da

“plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar a


quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos
reduzir à servidão e tudo praticar em utilidade própria e dos seus descendentes.
Tudo declaramos pertencer de direito in perpetuum aos mesmos d. Afonso e seus
sucessores, e ao infante” (grifei).

Ainda segundo Darcy Ribeiro, a bula Inter Coetera, de 4 de maio de 1493,


estabelecia que o Novo Mundo poderia ser possuído por Portugal e Espanha, e
que seus povos também poderiam ser escravizados. Darcy arremata:

“É preciso reconhecer que essa é, ainda hoje, a lei vigente no Brasil. É o


fundamento sobre o qual se dispõe, por exceção, a dação de um pequeno território
a um povo indígena, ou, também por exceção, a declaração episódica e temporária
de que a gente de tal tribo não era escravizável. É o fundamento, ainda, do direito
do latifundiário à terra que lhe foi uma vez outorgada, bem como o comando de
todo o povo como uma mera força de trabalho, sem destino próprio, cuja função
era servir ao senhorio oriundo daquelas bulas” (Ribeiro, 2006, p. 37).

O “invadir, conquistar, subjugar”, constante da bula Romanus Pontifex, é o


fundamento da exploração indígena, do latifúndio, da escravidão, e, também,
68

como se tem argumentado, da forma como foram tratadas as mulheres, do papel


que lhes foi dado, de objeto da colonização.
De acordo com Gilberto Freyre (1986, p. 220), a colonização européia –
aristocrática, patriarcal e escravocrata – fundou, aqui, a maior civilização moderna
dos trópicos. Desta civilização, fruto do projeto colonial, para Darcy Ribeiro
(2006, p. 105, 23), “resulta uma sociedade totalmente nova”, não nos moldes de
um ideal europeu de “civilização ocidental”, e sim “com as deformações de uma
cultura espúria, que servia a uma sociedade subalterna”. Tais deformações são,
para ele, advindas da concentração da propriedade fundiária e do regime de
trabalho, aquele “no âmbito do qual o brasileiro surgiu e cresceu”.
Quanto ao regime de trabalho, este foi, principalmente, o escravista
(Ribeiro, 2006, p. 17), marca perpétua entre nós. A formulação de Francisco de
Oliveira (2003, p. 461) vai ao cerne da questão: “o escravismo que produz a posse
e o devassamento do corpo, a não-alteridade; que produz o não-outro, larga e
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

longa base de sociabilidade que continuará a reger as relações no Brasil no século


XXI”. Sérgio Buarque de Holanda (2006, p. 56) identifica que a “moral das
senzalas”, sinuosa “até na violência, negadora das virtudes sociais,
contemporizadora e narcotizante de qualquer energia realmente produtiva”, “veio
imperar na administração, na economia e nas crenças religiosas dos homens do
tempo”.
Conforme se resgatou no capítulo anterior, no escravismo, na moral das
senzalas, estava presente o sadismo do abuso sexual massivo das mulheres. Se a
moral das senzalas influenciou todos os setores da vida brasileira, conforme
afirma Sérgio Buarque, isso deve significar, também, que o ambiente de sadismo
e de estupro generalizado deve ter influenciado, em alguma medida, todos os
setores da vida brasileira, inclusive o político.
Quanto à concentração da propriedade fundiária, os três clássicos
intérpretes do Brasil – Freyre, Holanda e Prado –, além de Darcy Ribeiro,
Francisco de Oliveira etc., a mencionam e a criticam. A concentração fundiária,
para Darcy Ribeiro (2006, p. 271), junto com o “sacrossanto respeito à
propriedade”3, é marca da história do Brasil, que se iniciou nos primórdios da

3
Importante lembrar que as mulheres, mesmo as não escravas, eram tratadas como se
fossem propriedade privada, assim como a terra o era. Gilberto Freyre (1986, p. 362), por sua vez,
afirma que mal inseparável do privatismo, decorrente de a colonização ter sido um
69

invasão do Brasil e que se reinventa sempre. Para Oliveira Viana (1973, p. 44 e


51-2), autor elogioso do latifúndio, a aristocracia rural polariza os “elementos
arianos” da nacionalidade, sendo o seu melhor. Esta aristocracia é que vige
durante o período colonial, governa o país depois da independência e que, ainda
para Viana, colore e molda a consciência coletiva e os nossos profundos ideais.
Apesar de Oliveira Viana considerar a aristocracia rural o que há de “melhor entre
nós”, ele é lúcido em reconhecer o quanto esta classe influencia a política e os
ideais em nossa sociedade: “Desde a nossa vida econômica à nossa vida moral,
sentimos, sempre, poderosa, a influência conformadora do latifúndio; esse é, na
realidade, o grande medalhador da sociedade e do temperamento nacional”
(Viana, 1973, p. 58). Oliveira Viana revela (e elogia!), ainda, o quanto o
latifúndio, conformador da sociabilidade, é excludente:

“Essa estreita correlação entre o direito político e a propriedade da terra há


de forçosamente fazer com que a aquisição desta se torne menos fácil, menos
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

acessível – mais seletiva, portanto. Certo, a metrópole, no desejo de povoar a


colônia, procura facilitar por todos os meios a aquisição da propriedade rural. (...)
Na prática, porém, os executores desses regimes [de sesmarias], vivendo dentro de
um ambiente cheio desses preconceitos aristocráticos, como é o da sociedade
vicentista, não dão à concessão das sesmarias essa amplitude democrática, que está
no pensamento da metrópole. O costume de alegarem os peticionários ter ‘família
constituída’, ‘posses bastantes’, ‘serviços à sua custa a S. Majestade’, ou serem
‘homens de qualidades’, prova, com efeito, que a ralé colonial está excluída da
posse da terra e que os capitães-mores e governadores são extremamente exigentes
no concederem títulos e sesmarias.
É sobre tais bases, é sob a ação seletiva de tão salutares preconceitos, que se
funda a nobreza territorial ou fazendeira. (...) Compõem-na, mesmo nas regiões
recém-colonizadas, os melhores elementos da aristocracia paulista e fluminense”
(Viana, 1973, p. 103 – grifei).

Para ele, a “alta classe rural” é quem “mais legitimamente representa o


nosso povo e a sua mentalidade social”, afirmando, coerente com Sérgio Buarque,
Darcy Ribeiro e Caio Prado, que na organização do latifúndio a família rural
prepondera. A preponderância da vida em família torna a nobreza rural uma classe
“fundamentalmente doméstica”. “Doméstica pelo temperamento e pela
moralidade. Doméstica pelos hábitos e pelas tendências” (Viana, 1973, p. 53).

empreendimento privado, foi o exagerado sentimento de propriedade privada. Segundo ele, os


objetos de disputa variavam: um “trecho de canavial, uma mulher, um escravo, um boi, uma
eleição de deputado” (grifei)...
70

Esta família rural é que foi o principal agente empreendedor da colonização.


Segundo Gilberto Freyre (1986, p. 56 e 60), principalmente as famílias rurais ou
semi-rurais é que realizaram a colonização, já a partir de 1532, nos primórdios. A
família colonial reuniu um sem-número de funções econômicas e sociais, dentre
elas a de mando político, como o oligarquismo ou o nepotismo. Gilberto Freyre
denomina essa característica de “familalismo político”.

“A família, nem tampouco o indivíduo, nem tampouco o Estado nem


nenhuma companhia de comércio, é desde o século XVI o grande fator colonizador
no Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas,
compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política,
constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa da América” (Freyre, 1986,
p. 56).

Como se disse, a colonização se deu pelo esforço do particular, das famílias


rurais. Foi, portanto, um empreendimento privado. Explica-o Caio Prado Júnior
(1957) no decorrer de sua obra. Conforme síntese de Francisco de Oliveira (2003-
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

II, p. 459), sobre o conceito desenvolvido por aquele autor, ocorreu uma
“delegação do poder aos proprietários privados” devido à incapacidade da Coroa
de arcar com as despesas do empreendimento colonial. Segundo Freyre (1986, p.
55-6), a colonização particular, muito mais do que a ação oficial, é que promoveu
a agricultura latifundiária, a escravidão e a mistura de raças, tornando possível,
sobre tais alicerces, a fundação e o desenvolvimento de grande e estável colônia
nos trópicos. A exploração pelo esforço do particular, para ele, foi a primeira das
técnicas inteiramente novas que a colonização em larga escala feita no Brasil
precisou, acompanhada da segunda técnica, que para ele foi o “aproveitamento da
gente nativa, principalmente da mulher, não só como instrumento de trabalho mas
como elemento de formação da família”. Note-se bem que Gilberto Freyre
sublinha duas técnicas da colonização, uma econômica e outra do
“aproveitamento” da mulher como trabalhadora e alicerce da família. Mais uma
vez se retoma a idéia de que a forma de exploração amiúde violenta da mulher foi
elemento estruturante da colonização.
71

4.3

Origens do patriarcalismo, do personalismo e do patrimonialismo no


Brasil

Ligadas às características da colonização – abuso ou controle sexual


massivo das mulheres, exploração da terra e das mulheres sem limites,
sociabilidade baseada no escravismo, latifúndio, concentração da riqueza e do
poder, empreendimento colonial baseado na iniciativa privada – há entre nós o clã
patriarcal como real fonte de poder, conforme sugerido pelos autores. Nossas
instituições políticas e públicas são formadas à margem, em função, subordinadas
ao poder particular e patrimonial dos senhores de terras e seus clãs. Trata-se do
patrimonialismo, associado ao patriarcalismo e ao personalismo.
Patrimonialismo, patriarcalismo e personalismo são noções associadas.
Antes de prosseguir, cabe algum esclarecimento conceitual (o assunto será melhor
tratado adiante). O patrimonialismo, forma de dominação baseada no poder
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

pessoal da autoridade sacralizada, é por isso mesmo, personalista. O “arquétipo”


(Campante, 2003, p. 165) do patrimonialismo é o patriarcalismo, que significa
poder político do patriarca. O segundo é o arquétipo do primeiro porque no
patrimonialismo4 a comunidade política é uma expansão da comunidade
doméstica. Na nossa história, a figura do patriarca se confunde com a do senhor
de terras, conforme se mencionou no item anterior. Por este motivo, os conceitos
de patrimonialismo, personalismo e patriarcalismo são ligados à nossa herança
rural.
Sérgio Buarque de Holanda foi o primeiro autor que usou o conceito de
patrimonialismo para descrever a política brasileira, em Raízes do Brasil
(Carvalho, 1999, p. 141). O clã patriarcal seria aquele no qual “os vínculos
biológicos e afetivos que unem o chefe aos descendentes, colaterais e afins, além
da famulagem e dos agregados de toda sorte, hão de preponderar sobre as demais
considerações”, formando, desta forma, “um todo indivisível cujos membros se
acham associados, uns aos outros, por sentimentos e deveres, nunca por

4
Tanto era forte o controle dos cargos nessa época pelos coronéis que a justiça brasileira se
caracterizava pelas figuras do “juiz nosso” e do “delegado nosso”, posto a serviço dos interesses
dos mandões (Oliveira Viana, Francisco. Instituições políticas brasileiras. Rio de Janeiro, José
Olimpio, 1949 apud Carvalho, 1999, p. 138).
72

interesses5 ou idéias”, sendo que, nos “domínios rurais, a autoridade do


proprietário de terras não sofria réplica” (Holanda, 2006, p. 77-8).
Caio Prado confirma este raciocínio. Para ele, o clã patriarcal, no Brasil, que
brota do regime de produção colonial, é o domínio que absorve a maior parte das
riquezas, entorno do qual se agrupa a população, escrava ou livre. O senhor rural,
por sua vez, é quem realmente possui autoridade, diante do qual inclusive a
Administração se curva.6
A família patriarcal forneceu o grande modelo em que se cunhou a relação
entre governantes e governados, monarcas e súditos (Holanda, 2006, p. 84-5 e
160). Para Sérgio Buarque, sua “supremacia incontestável” e “absorvente” fez
com que “as relações que se criam na vida doméstica” sempre fornecessem “o
modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós”, mesmo onde as
“instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, pretendem
assentar a sociedade em normas antiparticularistas”.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Ora, se a família patriarcal é o modelo sobre o qual se estabelecem as


relações políticas, isso deve implicar em dizer que a forma de exploração, abuso,
marginalização e controle das mulheres – uma vez que fez parte da estrutura de
domínio da família patriarcal – também influenciou as relações mais amplas de
poder, relacionadas ao Estado, à administração e à organização geral da
sociedade.
Segundo Holanda (2006, p. 80-1 e 159), os detentores de posições públicas
relevantes não conseguiam compreender a distinção entre público e privado
porquanto formados naquele ambiente de domínio do doméstico. A fala citada por
ele é ilustrativa do que se passava: “Então disse o bispo: verdadeiramente que
nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-a

5
Aqui Sérgio Buarque faz menção ao interesse, característica do capitalismo, associado,
por sua vez, à dominação racional legal weberiana. O debate que decorreu desta noção no Brasil
será melhor abordado adiante, quando se tratar das recepções de Weber no Brasil.
6
“O clã patriarcal, na forma que se apresenta, é algo específico da nossa organização. É do
regime econômico que ele brota, deste grande domínio que absorve a maior parcela da produção e
da riqueza coloniais. Em torno daqueles que a possuem e a senhoreiam, o proprietário e sua
família, vem agrupar-se a população: uma parte por destino natural e inelutável, os escravos; a
outra, pela atração que exerce o único centro existente, real e efetivo, de poder e riqueza. (...) A
autoridade pública é fraca, distante; não só não pode contrabalancear o poder de fato que encontra
já estabelecido pela frente, mas precisa contar com ele se quiser agir na maior parte do território de
sua jurisdição, onde só com suas forças chega já muito apagada, se não nula. Quem realmente
possui aí autoridade e prestígio, é o senhor rural, o grande proprietário. A administração é obrigada
a reconhecê-lo e, de fato, como veremos o reconhece” (Prado Júnior, 1957, p. 285).
73

cada casa” (Frei Vicente do Salvador, apud Holanda, 2006, p. 79). Para ele, o
quadro familiar tornou-se “tão poderoso e exigente”, que a sua sombra perseguia
“sempre os indivíduos mesmo fora do recinto doméstico”, de forma que a
“entidade privada precede sempre, neles, a entidade pública”. Naquele ambiente
doméstico, “o princípio da autoridade é indisputado”. Esta família patriarcal rural,
poderosa, para ele, “não podia deixar de marcar nossa sociedade, nossa vida
pública, todas as nossas atividades”. Afinal, “a família colonial fornecia a idéia
mais normal de poder, da respeitabilidade, da obediência, da coesão entre os
homens”. A conseqüência disso foi “predominarem, em toda a vida social,
sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e
antipolítica, uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família”
(grifei).
Segundo Fernando Novais (1997, p. 14-15), entre as esferas do público e do
privado, existiu, no Brasil colônia, uma “profunda imbricação”, estando, na
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

verdade, “curiosamente invertidos” – tendo como referencial, obviamente, o


mundo europeu moderno, cuja relação entre público e privado é uma das marcas.
Margareth de Almeida Gonçalvez (2005, p. 615) afirma que tínhamos esfera
privada “dilatada”7.
Francisco de Oliveira, lendo aquela idéia formulada por Sérgio Buarque de
Holanda, que parece ser a formulação mais emblemática sobre o tema, segundo a
qual existiria entre nós uma “invasão do público pelo privado, do Estado pela

7
“O privado europeu dos séculos XVIII e XIX diferenciava-se da domesticidade luso-
brasileira. Caso se procure articular as categorias de privado e público na matriz luso-brasileira,
desponta uma dimensão do privado extremamente dilatada, a qual incluía um uso pessoal da esfera
pública, centrada no pater familias. Assim, privado e público tenderam a confluir, indicando uma
tendência menor à diferenciação (Gonçalves, 2005, p. 615).
A autora prossegue afirmando o que será retomado quando se tratar dos conceitos de
Weber: a esfera pública “dilatada” se diferenciava, na visão dos viajantes europeus, do que a
ordem burguesa ocidental entendia como a divisão entre público e privado, ensejando as analogias
do nosso sistema com formas de organização medievais ou orientais (o que difere um pouco da
leitura de que nossa situação não se enquadraria nem em um modelo nem em outro, tratando-se,
antes, de uma formação única, sendo que a colonização atuou mesclando elementos
patrimonialistas e modernos):
“A percepção de viajantes das esferas privada e pública foi conduzida pelo processo de
constituição de uma ordem burguesa no Ocidente que paulatinamente se diferenciava da matriz
social que formou a medievalidade. O privado europeu organizou-se em descontinuidade e tensão
com a concepção da domesticidade luso-brasileira. A dimensão da intimidade na matriz burguesa
encontra-se subordinada à mais profunda privacidade, na qual se realiza a construção de sujeitos,
com a demarcação de uma identidade pessoal, única e singular. Sempre que os sinais de
intimidade, como a exibição do corpo nu e a sexualidade, são exibidos em público produzem
desconforto e crítica” (Gonçalves, 2005, p. 616).
74

família”, explica que se trata, mais propriamente, de não formação de um


autêntico espaço público:

“A violência privada é, em todos os autores, a redução do público ao


privado, ou antes, a inexistência do público. Um atrofiamento, um não
desenvolvimento do espaço público, um confinamento ao espaço íntimo, que nem
sequer é privado, no sentido weberiano-habermasiano” (Oliveira, F., 2003-II, p.
461).
“Trata-se da soberania do privado, do particular mais rigorosamente, na
ausência do público. Será uma espécie de privado sem Estado. A superposição ou a
fusão dos poderes econômicos, sociais e políticos nas mesmas personae, é a origem
do peculiar traço indistintivo entre público e privado no Brasil; está na fundação do
futuro coronelismo e das oligarquias; é um dos fundamentos da sociabilidade do
favor e da ‘cordialidade’, da ausência do mérito individual. Privado sem Estado,
trabalho escravo e monopólio da terra, eis a formula do futuro: patrimonialismo,
ausência do indivíduo, desqualificação do trabalho e dificuldade radical da
existência da cidadania. Em uma palavra, subdesenvolvimento não como elo da
cadeia do desenvolvimento, mas como especificidade capitalista na sua periferia
criada, o conceito que será mais explorado e desenvolvido pela Cepal e Celso
Furtado” (Oliveira, F., 2003-II, p. 459).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Desta excelente síntese de Francisco de Oliveira, é importante sublinhar que


o espaço íntimo, ao que é confinado o desenvolvimento do espaço público, “nem
sequer é privado” – nem sequer é privado porque as relações domésticas são
profundamente marcadas por relações muito rígidas e inflexíveis de poder. Isto
foi válido para todos os agregados do clã patriarcal, e parece ser óbvio que foi
mais intenso em relação às mulheres, que não tinham possibilidade de
desenvolvimento pessoal, de fruição íntima, mas que tinham no mais das vezes
seus corpos e vidas usados em serviço do projeto colonial, como se vem
argumentando ao longo da dissertação.
Tem-se, em síntese, que no Brasil o clã patriarcal era a real fonte de poder
(Holanda), sendo este o domínio que absorvia a maior parcela das riquezas,
entorno do qual se agrupava a população escrava ou livre (Prado); que a figura do
senhor rural era daquele que de fato possuía poder e prestígio, reconhecido
inclusive pela administração estatal (Prado); que ocorreu uma conseqüente
imbricação, invasão e confusão entre as esferas públicas e privadas (Holanda e
Novais), numa estrutura em que a família patriarcal foi o grande modelo a cunhar
a relação entre governantes e governados (Holanda); que o princípio da autoridade
patriarcal era indisputado, despótico (Oliveira); que não se formou um autêntico
espaço público, na soberania do privado (Oliveira). Encravada, capilarizada,
75

imbricada em tudo isso, esteve a exploração da mulher. Permeando estes


elementos todos houve, conforme Francisco de Oliveira, “a superposição ou a
fusão dos poderes econômicos, sociais e políticos nas mesmas personae”, o que é
“a origem do peculiar traço indistintivo entre público e privado no Brasil”. Este é
o nó da questão.
Imbricam-se as figuras do patriarca, do colonizador e do principal sujeito do
controle e do abuso sexual das mulheres. Os mesmos empreendedores
particulares, agentes da colonização, foram aqueles que se afogaram de pronto nos
corpos das índias, fecundando-as. Foram os mesmos que em seguida tornaram-se
os patriarcas, os senhores de terras – elemento que Oliveira Viana considera como
a nata, mas que, na realidade, corporificou o grande ator da violência colonial, do
estupro generalizado, do etnocídio e do genocício; são aqueles que abusaram
massivamente de suas escravas e das nativas, e que trancafiaram suas esposas,
fazendo-as gerar seus filhos considerados legítimos. O agente colonizador foi o
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

proprietário de latifúndios e também o grande proprietário de mulheres, dos


ventres geradores (o elemento mais lucrativo da escravidão, de acordo com
Nabuco, 2000, p. 101). O mesmo senhor rural, cabeça do clã patriarcal, que era a
real fonte de poder, é o senhor de escravos. “Donos de terras. Donos dos homens.
Donos das mulheres”, conforme Gilberto Freyre (1986, p. 19).
O que faltou os autores dizer é que o patriarca, antes de tudo, é um homem
chefe de família, subjugando em primeiro lugar sua mulher8, depois suas filhas, e
a seguir escravos e agregados, ensinando seus descendentes a reproduzir a mesma
prática. O patriarca é o pai, não é a mãe. Esta figura, que é o senhor de terras,
centro de gravidade da estrutura colonial, era dono também de vidas, de escravos
e de mulheres. A relação de poder que marca a nossa sociabilidade política, que é
a relação patrimonialista e patriarcal, é uma relação absolutamente gendrada,
porque em sua base está, antes de tudo, a subjugação de todo o gênero feminino.
O estabelecimento do público e do privado no Brasil confinou as mulheres
no espaço doméstico, excluindo-as do espaço político, como é a racionalidade
geral do patriarcado, criticada pela teoria feminista de base estadunidense e

8
“Não é por acaso que, como observa Danda Prado, as palavras ‘mulher’ e ‘esposa’ são,
ainda hoje, usadas indiscriminadamente em quase todas as línguas (...). Só recentemenre e entre
camadas menos sensíveis aos valores dominantes, a palavra equivalente no maculino, ‘homem’,
surge no vocabulário quotidiano como sinônimo de ‘maridos’...” (Veloso, 1989, p. 257).
76

européia. Mas há peculiaridades. A formação, ainda que não plena, do que quer
que seja o espaço público e político no Brasil, se deu pela invasão (Holanda) dos
elementos privados-patriarcais. Dentre os elementos patriarcais que cunharam as
relações políticas está o controle/exploração massivo e sistemático das mulheres.
É muito difícil pensar que tal elemento não influenciou, também, a forma de se
praticar e de se conceber o político. O caminho inverso, porém, também é
verdadeiro. Os imperativos mais gerais da colonização, conforme se vem
argumentando, invadiram o espaço privado da intimidade, fazendo com que o
ambiente da casa fosse despótico, de “autoridade indiscutida” (Francisco de
Oliveira), em que corpos e vidas eram usados e gastos em benefício da
colonização, não se podendo falar em fruição da vida pessoal.

4.4

O patrimonialismo de Weber na Colônia


PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Conforme já se mencionou, o patrimonialismo, o personalismo e o


patriarcalismo são conceitos associados e foram elaborados por Max Weber. Na
explicação de Campante (2003, p. 156), o “patrimonialismo é intrinsecamente
personalista, tendendo a desprezar a distinção entre as esferas pública e privada”.
Afinal, para Weber (2004-I), o patrimonialismo é um tipo de dominação
tradicional, a qual é, justamente, aquela baseada na autoridade pessoal do senhor.
Segundo Weber (2004-II, p. 238), o patrimonialismo é um “caso especial” da
dominação patriarcal (patriarcalismo), quando o poder doméstico se descentraliza
para outros âmbitos9. Para Campante (2003, p. 156), no patrimonialismo, a
comunidade política é uma expansão da comunidade doméstica, sendo que o
“arquétipo” da dominação patrimonial, ou seja, do patrimonialismo, é a
autoridade patriarcal, que, por “se espelhar no poder atávico, e, ao mesmo tempo,
arbitrário e compassivo do patriarca, manifesta-se de modo pessoal e instável,
sujeita aos caprichos e à subjetividade do dominador”.

9
A dominação patrimonial, para Weber, é um caso especial de dominação patriarcal. A
dominação patrimonial é baseada no patrimônio e através dela o poder doméstico se descentraliza
mediante a cessão de terras e eventualmente de utensílios a filhos ou outros dependentes da
comunidade doméstica. A influência desta descentralização é, de início, puramente prática, à qual
se vincula, depois, “o poder ‘santificador’ da tradição” (Weber, 2004-II, p. 238). Isto vai-se
tornando poder político.
77

Para Weber (2004-I, p 139-143, 151), o patrimonialismo representa uma


forma específica de dominação, do tipo tradicional com quadro administrativo. A
dominação, por sua vez, é um tipo específico de poder10, que diz respeito ao grau
de aceitação da ordem do dominador como norma válida, de modo que os
dominados agem como se a vontade do dominador fosse a sua própria. Nem toda
espécie de poder ou influência implica numa dominação, em termos weberianos.
Esta, para se verificar, exige a probabilidade de existirem ações concretas
dirigidas à execução de ordens ou disposições gerais, além de normalmente exigir
um quadro administrativo. Segundo Weber, “na vida cotidiana dominação é, em
primeiro lugar, administração”. O quadro administrativo vincula-se ao senhor por
motivos que podem ser ligados ao costume, à afinidade, por interesses materiais,
por motivos ideais racionais referentes a valores ou ainda por motivos ideais
racionais referentes a fins. Weber identifica, porém, que esses motivos sozinhos
não tendem a conferir estabilidade à dominação, para o que é exigida uma crença
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

na sua legitimidade. A legitimidade de uma dominação significa a “probabilidade


de, em grau relevante, ser reconhecida e praticada como tal”.
Conforme a natureza da legitimidade é que se difere o tipo de obediência,
bem como o quadro administrativo destinado a garanti-la. A dominação legítima
existe em três tipos puros: racional (em que se obedece a uma ordem impessoal
em virtude da legalidade formal), tradicional (em que se obedece à pessoa do
senhor nomeada pela tradição em virtude do costume) e carismático (em que se
obedece ao líder carismático), que correspondem, respectivamente, à dominação
legal, à dominação tradicional e à dominação carismática (Weber, 2004-I, p. 139 e
141).
Nenhum desses tipos ideais, segundo Weber (2004-I, p. 141), existe de
forma pura. É importante frisá-lo, porque há importantes debates conceituais
sobre em que medida no Brasil existia o patrimonialismo, em que medida este era
permeado por aspectos burocráticos. Certamente existiu uma mescla dos dois
elementos, que serão tratados a seguir. Por exemplo, um dos expoentes deste
debate é o renomado autor Jessé de Souza (2001, p. 51), que rejeita o
“personalismo como o núcleo da formação social brasileira”. Defendendo uma

10
“Poder significa toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social,
mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade” (Weber, 2004-I, p.
33).
78

interpretação alternativa do livro Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, Jessé


afirma que o Brasil é uma “sociedade sui generis e não mera continuação de
Portugal”, sobretudo depois de 1808, sendo o mulato o vetor da modernidade
ocidental. Neste sentido, parece mais razoável a posição assumida por Rubens
Goyatá Campante (2003, p. 180, 182), para quem tal aspecto é um “exagero” da
teoria de Jessé de Souza, porque, ao substituir o “personalismo patriarcal pré-
moderno pelo individualismo moral burguês moderno, ele qualifica um processo
de mudança cultural lento e ainda incompleto como uma guinada brusca e
definitiva”. Campante prossegue afirmando que o “personalismo, se realmente
sofreu um abalo com o desiderato moderno/ocidental, não se tornou, de forma
alguma, um valor secundário na vida brasileira por conta de alguns mulatos
conseguirem ascender socialmente”11. Campante afirma que, apesar da
decadência, com a Independência do Brasil, da arbitrariedade patriarcal, do
patriarcalismo despótico, do “grau extremo de poder senhorial12, o personalismo e
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

o patriarcalismo associados àqueles elementos continuaram a existir. Aliás, tal


imbricação entre aspectos modernos e não modernos é intrínseco à nossa
formação enquanto colônia, que agrega em si os elementos da cultura
colonizadora com as peculiaridades de uma sociedade periférica.
Prosseguindo em Weber. Interessa, para os fins dessa dissertação, a
comparação entre a dominação racional, legal, impessoal e a dominação
tradicional, costumeira. Isso porque a oposição que os autores – com destaque

11
Campante (2003, p. 182), que estuda especificamente o tema, baseou-se, para a
afirmação citada, em diversos autores: “Não é exatamente esse predomínio de qualidades pessoais
para a ascensão social aferíveis de modo formal e universal o que atestam, na sociedade brasileira
de ontem e hoje, Maria Sylvia de Carvalho Franco (que nega a sociedade de classes justamente
pelo predomínio do particularismo definido pelo latifúndio autárquico), José Murilo de Carvalho
(para quem a burocracia estatal imperial, um dos espaços de ascensão do mulato bacharel de
Freyre/Souza, era marcada pela cultura do favor), Florestan Fernandes (que sublinha a prática das
classes dominantes de tirar vantagem tanto do moderno quanto do atraso, ou seja, da dependência
pessoal), Guillermo O’Donnell (que no artigo “Uma Outra Institucionalização: América Latina e
Alhures” assegura que o particularismo e o clientelismo representam hoje, no Brasil e na América
Latina, uma institucionalização paralela que impede o aprofundamento democrático), para não
falar do próprio Faoro e de Sérgio Buarque de Holanda”.
12
Campante (2003, p. 160) explica que o patrimonialismo em Weber tem os “os tipos
extremos do sultanismo (ou patrimonialismo “puro”, ou patriarcal) e do feudalismo (ou
patrimonialismo estamental)”. Do conjunto do texto de Campante parece ser possível extrair que o
que ele aceita é que decaiu com a Independência do Brasil o patrimonialismo puro, patriarcal,
sultanista, definido por Weber (2004-I, p. 151) como aquele que tem “grau extremo de poder
senhorial”. Faço esta observação porque, de acordo com Weber (2004-II, p. 238), a dominação
patrimonial é um caso especial da dominação patriarcal, de modo que, na teoria e na prática, se
prevalece o patrimonialismo, ao menos traços patriarcalistas também prevalecem, porque são
categorias essencialmente imbricadas.
79

para Sérgio Buarque de Holanda – apontam em relação ao Brasil é entre uma


sociabilidade que se fixou de forma patrimonial (que é uma espécie de dominação
tradicional) em contraposição com o modelo moderno, impessoal, legal, que
nossas instituições pretendem ter.
A dominação legal, para Weber (2004-I, p. 142-3, 148), baseia-se no
pressuposto de que todo direito pode ser estatuído de modo racional (referente a
fins ou a valores), e de que todo direito é um cosmos de regras abstratas. O senhor
legal, enquanto ordena, obedece, por sua vez, a uma ordem impessoal13. Em
contraste a esta ordem de idéias, a dominação tradicional repousa sua legitimidade
na crença da santidade de ordens e poderes senhoriais tradicionais. O senhor o é
devido à sua dignidade pessoal enquanto tal.
Os senhores de terras no Brasil tinham sua legitimidade advinda da tradição,
porquanto a titulação de terras se deu a partir de um reinado europeu do Antigo
Regime, carregando, essencialmente, características do poder legitimado
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

tradicionalmente e, não precisando necessariamente, para esta titulação, de algum


mérito pessoal, tampouco obedecendo a uma ordem racional legal. As passagens
de João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa são
extremamente elucidativas do quanto os colonizadores carregavam elementos da
legitimação tradicional, como as doações, os privilégios, a qualidade associada à
nobreza da terra (e a possibilidade conseqüente de mandar em vidas,
especialmente a das mulheres) e a naturalização da hierarquização, reforçada pela
escravidão africana:

13
Não se obedece, portanto, à pessoa do senhor, mas sim à ordem impessoal legal. A
dominação racional tem algumas características fundamentais que são: o exercício contínuo,
vinculado a regras, de determinadas funções oficiais; a fixação de competência; a hierarquia
oficial; garantia do cargo; documentação dos processos administrativos; a separação absoluta entre
o quadro administrativo e os meios de administração e produção. Faço aqui uma nota importante:
“Aplica-se o princípio da separação absoluta entre o patrimônio (ou capital) da instituição
(empresa) e o patrimônio privado (da gestão patrimonial), bem como entre o local das atividades
profissionais (escritório) e o domicílio dos funcionários”. O tipo ideal da dominação legal é a
burocracia, o exercício da dominação por um quadro administrativo burocrático. A administração
burocrática significa dominação em virtude do conhecimento profissional (este é seu caráter
fundamental especificamente racional) e pelo saber prático de serviço. A administração puramente
burocrática é o tipo mais racional do exercício da dominação porque proporciona tecnicamente o
maior rendimento e precisão, continuidade, disciplina, rigor e confiabilidade: ou seja,
calculabilidade. Para Weber, superior à burocracia em relação ao conhecimento profissional
especializado é somente o empresário capitalista. “Este constitui a única instância imune à
dominação inevitável do conhecimento burocrático racional” (Weber, 2004-I, p. 142-147).
80

“Os negócios e mercados imperiais eram submetidos às regras do Antigo


Regime; leia-se, entre outras coisas, ao complexo sistema de doações e mercês
régias. A expansão e a conquista de novos territórios permitiram à Coroa
Portuguesa atribuir ofícios e cargos civis e militares, conceder privilégios
comerciais a indivíduos e grupos, dispor de novos rendimentos com base nos quais
se distribuíam pensões. Tais concessões eram o desdobramento de uma cadeia de
poder e de redes de hierarquia, que se estendiam desde o reino, propiciando a
expansão dos interesses metropolitanos, estabelecendo vínculos estratégicos com
os colonos” (Fragoso, Bicalho e Gouvêa, 2001, p. 23. Grifos meus).
“Os indivíduos que foram para o ultramar levaram consigo uma cultura e
uma experiência de vida baseadas na percepção de que o mundo, ‘a ordem natural
das coisas’ era hierarquizado; de que as pessoas, por suas ‘qualidades’ naturais e
sociais, ocupavam posições distintas e desiguais na sociedade. Na América, assim
como em outras partes do Império, esta visão seria reforçada pela idéia de
conquista, pelas lutas contra o gentio e pela escravidão. Conquistas e lutas que,
feitas em nome Del Rey, deveriam ser recompensadas com mercês – títulos, ofícios
e terras.
Nada mais sonhado pelos ‘conquistadores’ – em sua maioria homens
provenientes de uma pequena fidalguia, ou mesmo da ralé – do que a possibilidade
de alargamento de seu cabedal material, social, político e simbólico. Mais uma vez
o Novo Mundo – assim como vários outros territórios e domínios ultramarinos de
Portugal – representava para aqueles homens a possibilidade de mudar de
‘qualidade’, de ingressar na nobreza da terra e, por conseguinte, de ‘mandar’ em
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

outros homens – e mulheres. Neste quadro herdado do Velho Mundo, a escravidão


africana só iria reforçar uma hierarquia social transplantada para o ultramar;
multiplicando-a, dando-a novas cores e novos matizes” (Fragoso, Bicalho e
Gouvêa, 2001, p. 24 grifos no original).

Por outro lado, ao deparar-se com uma terra que precisava ser colonizada, o
empreendimento colonial se fez também moderno, ao se transformar em uma
indústria exportadora de riquezas – como desenvolve Caio Prado (1957) ao longo
de sua obra. Esta indústria exportadora exigia alta capacidade de administração,
de gestão e de empreendedorismo por parte dos patriarcas, da qual, neste sentido,
sua autoridade também era legitimada por méritos pessoais. A questão é que a
racionalidade exigida para a realização da empresa colonial se deu por métodos
violentos e atrelados a uma legitimidade tradicional, como a escravidão (que
reforçava a hierarquia da nobreza, conforme afirmado por Fragoso, Bicalho e
Gouvêa), o domínio sobre as mulheres e o sistema do clã patriarcal, em torno do
qual se juntavam a família e os agregados. Neste sentido, imbricam-se, com a
legitimação tradicional dos patriarcas no Brasil colonial, elementos da legitimação
racional – conforme se mencionou, Weber soube que seus tipos ideais não
existem em estado puro.
Voltando para os conceitos de Weber. O senhor patrimonial pode operar
com ou sem um quadro administrativo. Quando opera com quadro administrativo,
81

há características da burocracia que lhe faltam: a competência fixada segundo


regras objetivas, a hierarquia racional, a nomeação regulada por contrato livre e
ascenso regulado, a formação profissional e o salário fixo e pago em dinheiro. O
quadro administrativo não é composto primariamente por funcionários, como na
burocracia, mas sim por servidores pessoais. O dominador não é superior, mas
senhor pessoal. Não se obedece a estatutos – a fidelidade é pessoal. Importante
notar que o arbítrio tradicional é primordialmente ausente de limitações (Weber,
2004-I, p. 148-9). Baseando-se nas categorias de Weber, Sérgio Buarque (2006, p.
159) afirma que o que existia no Brasil era o funcionário “patrimonial”, aquele
para o qual a gestão política é assunto de interesse particular, pessoal, e não
interesses objetivos, como no Estado burocrático verdadeiro, os quais são
perseguidos apenas excepcionalmente. A existência do funcionário patrimonial
entre nós é reveladora da insdistinção entre os espaços público e privado. Isso
porque, segundo Weber (2004-II, p. 253):
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

“Ao cargo patrimonial falta sobretudo a distinção burocrática entre a esfera


‘privada’ e a ‘oficial. Pois também a administração política é tratada como assunto
puramente pessoal do senhor, e a propriedade e o exercício do seu poder político,
como parte integrante do patrimônio pessoal, aproveitável em forma de tributos e
emolumentos. A forma com que ele exerce o poder é, portanto, objeto do seu livre-
arbítrio (...)” (Weber, 2004-II, p. 253).

Tanto na dominação patriarcal como na patrimonial as competências dos


funcionários são totalmente fluidas e definidas pelo senhor, arbitrariamente. Falta
a idéia de dever oficial objetivo, pois o exercício do poder é, antes de tudo, um
“direito senhorial pessoal do funcionário” (Weber, 2004-II, p. 253, 255, 263).
A estrutura patriarcal de dominação é pré-burocrática, a forma pré-
burocrática mais importante de dominação. Não visa à finalidade objetiva e
impessoal, com obediência a normas abstratas, como na dominação patriarcal,
mas sim se baseia em “relações de piedade rigorosamente pessoais” (Weber,
2004-II, p. 234, grifo meu). É importante a definição da noção de piedade em
Weber, que não quer dizer algo próximo da solidariedade, mas sim de devoção
pessoal ao senhor. É o que explica Campante:

“Piedade”, aqui, não tem o caráter mais comum que se lhe dá, de pena ou
caridade, mas o sentido de respeito filial pela pessoa do pater, intimamente
associado à reverência pelo religioso, pelo sagrado, pelo tradicional. A piedade
82

manifesta-se, segundo Weber, pelo sentimento de devoção puramente pessoal ao


soberano que caracteriza o patrimonialismo, assim como o feudalismo” (Campante,
2003, p. 187).

Assim, como se vê, o germe da estrutura patriarcal está na autoridade do


chefe da comunidade doméstica. Comparando a dominação patriarcal com a
dominação burocrática, Weber afirma que ambas têm em comum a continuidade
da existência, seu caráter cotidiano e também o fato de que encontram seu apoio
interior na obediência a normas. Mas são de natureza distinta: ou as normas são
racionalmente criadas, no caso da dominação burocrática, ou são baseadas na
tradição, no caso da dominação patriarcal. Outra diferença é que na dominação
burocrática a norma estatuída cria a legitimação do dominador; ao contrário, na
dominação patriarcal, o senhor é que garante a legitimidade das normas, que ele
mesmo estatui. O poder burocrático exerce-se de forma limitada, baseada em
competências fixadas. Já o poder patriarcal se exerce de forma ilimitada e
arbitrária (Weber, 2004-II, p. 234). Neste sentido é que Sérgio Buarque de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Holanda (2006, p. 84-5) afirma que, entre nós, a lei patriarcal era uma lei moral,
inflexível e rígida.
O poder patrimonial, que é relacionado à autoridade patriarcal, ocorre
quando o príncipe organiza o poder político da mesma forma que organiza o
poder doméstico (Weber, 2004-II, p. 240). É isto que importa reter: o
patrimonialismo significa o poder doméstico do senhor, do patriarca, como poder
político, ou seja, o poder político sobre os territórios e pessoas extrapatrimoniais é
exercido aos moldes de como é exercido o poder doméstico. É o que ocorria no
Brasil, conforme argumentado no item anterior. No patrimonialismo, a estrutura
do poder político é a mesma da do poder doméstico:

“Originalmente, a administração patrimonial cuidava especificamente das


necessidades puramente pessoais, sobretudo privadas, da gestão patrimonial do
senhor. A obtenção de um domínio ‘político’, isto é, do domínio de um senhor
sobre outros senhores, não submetidos ao poder doméstico, significa então a
agregação ao poder doméstico de outras relações de dominação, diferentes, do
ponto de vista sociológico, somente em grau e conteúdo, mas não na estrutura”
(Weber, 2004-II, p. 240).

Para Weber (2004-II, p. 240), os dois poderes que considera como sendo
especificamente políticos, “o poder militar e o judicial, são exercidos pelo senhor
ilimitadamente sobre aqueles que lhe estão patrimonialmente submetidos, como
83

partes integrantes do poder doméstico”. Corrobora a existência desta característica


extrema de patrimonialismo em nosso passado colonial Gilberto Freyre (1986, p.
270), quando trata da colonização como empreendimento privado, afirmando que
tudo foi deixado à iniciativa particular, desde os gastos com instalação, defesa
militar, mas também, em compensação, “os privilégios de mando e de jurisdição
sobre terras enormes”14.
Para Weber (2004-II, p. 234-6), a dominação patriarcal fundamenta-se na
tradição, naquilo “que foi assim desde sempre”. É exatamente como é encarada e
compreendida usualmente a opressão da mulher: como baseada na tradição, como
o que foi assim desde sempre, como o que é natural. Weber, comparando o poder
burocrático com o patrimonial, afirma que o fundamento do primeiro é o
conhecimento especializado na área, ao passo que a autoridade do poder
doméstico tem por fundamento a crença em “antiqüíssimas situações
naturalmente surgidas” (Weber, 2004-II, p. 234 – grifei). Interessante Weber usar
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

a expressão “naturalmente surgidas” para designar as relações de poder no espaço


doméstico. Nos termos da formulação feminista em geral, independente da
possível medida de componentes naturais que existam na divisão de gêneros, tais
relações são culturalmente construídas e fixadas com base em relações de poder e
de força específicas. No caso especial do Brasil fica evidente: a violência do
senhor contra o escravo, a violência do senhor contra mulheres. Com a fixação e a
introjeção de tais relações, a impressão que se tem é de que são naturais (Rosaldo,
1979, p. 40-1), quando, mais propriamente, são relações culturais baseadas na
violência. São, de fato, relações com base antiqüíssima – a existência do
patriarcado, estima-se, é milenar. Mas, ainda assim, constructos sociais.
Prosseguindo seu raciocínio, o próprio Weber percebe o quanto essa
autoridade recai sobre a mulher. Embora Weber não o diga explicitamente (e que
naturalize a distinção entre os gêneros) a relação de gênero é essencial para a

14
Existe grande debate sobre o papel da Guarda Nacional, entre Faoro, Uricochea e José
Murilo de Carvalho (em Campante, 2003). Não obstante sua importância, esta discussão não será
abordada nesta pesquisa.
Estudando o judiciário da Bahia na época colonial, Stuart Schwartz (1979, p. 294) afirma
que “os fazendeiros relativamente tinham carta branca na vida social e econômica da colônia,
contando com pouca interferência por parte da Coroa. (...) Para muitos brasileiros, especialmente
nas áreas rurais, a justiça estava na ponta do chicote ou da bota do fazendeiro. A existência de tal
situação era possibilitada em parte pela aquiescência da Coroa e em parte pela capacidade da elite
colonial em integrar os funcionários da Coroa no sistema de relações primárias” (Schwartz, S.,
1979, p. 294).
84

configuração desse poder doméstico. Veja-se a passagem literal, em que Weber


explica o fundamento da autoridade doméstica baseada na piedade:

“para todos os submetidos da comunidade doméstica, a convivência


especificamente íntima, pessoal e duradoura no mesmo lar, com sua comunidade
de destino externa e interna; para a mulher submetida à autoridade doméstica, a
superioridade normal da energia física do homem (...)” (Weber, 2004-II, p. 234).

Ademais, Weber sabe o quanto a autoridade do patriarca (o poder patriarcal)


está associada às características da organização da reprodução, que engendram
formas de poder que recaem especificamente sobre as mulheres:

“O poder paterno e a piedade filial não se baseiam primariamente em


vínculos de sangue reais, por mais que sua existência seja seu pressuposto normal.
Precisamente a primitiva concepção patriarcal trata, ao contrário, - e isto também
após o reconhecimento (de modo algum ‘primitivo’) das relações entre procriação
e nascimento -, o poder doméstico sob o aspecto da propriedade: os filhos de todas
as mulheres submetidas ao poder doméstico de um homem, seja esposa, seja
escrava, são considerados, independentemenre da paternidade física, ‘seus’ filhos,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

bem como são considerado seu gado os animais nascidos em seu rebanho. (...) Mas
dentro da comunidade doméstica desenvolveu-se certa diferenciação social quando
a escravidão assumiu o caráter de uma instituição regular e os vínculos de sangue
se tornaram mais reais: os filhos passaram a distinguir-se dos escravos, como
submetidos livres (liberi). No entanto, diante da arbitrariedade do detentor do
poder, esta parede divisória valia pouco. Só ele decidia quem era sue filho”
(Weber, 2004-II, p. 234-5).

No Brasil parece ser verdadeira essa associação das mulheres e dos filhos
com a propriedade. Aqui existia o que Weber menciona na segunda parte do
trecho, ou seja, os senhores escolhendo quem distinguir entre os escravos e os
seus filhos, com uma peculiaridade: muitos escravos aqui eram filhos de sangue
do senhor, filhos ilegítimos, filhos nunca reconhecidos como tal, como dito no
capítulo anterior.
Weber (2004-II, p. 236) aponta, ao explicar que a dominação patriarcal é
ilimitada e quando transferida, é transferida ilimitadamente para o novo senhor,
que o primeiro desses poderes ilimitados é “o direito ao uso sexual das mulheres
de seu predecessor”. Weber então entrará numa discussão sobre o fato de
eventualmente essas mulheres serem as de seu pai, o que não interessa aqui, por
não haver registro e tampouco por interessar à presente pesquisa a questão do
incesto. O que importa, sim, é o uso sexual das mulheres ser o primeiro direito
patriarcal sublinhado por Weber. Isso é coerente com o argumento que se vem
85

tentando desenvolver aqui: antes de tudo, ou ao menos, dentre os primeiros


elementos da colonização, há a violência sexual – violência evidenciada
implicitamente na descrição de Weber, que se vale da palavra uso, que sugere que
um sujeito usa um objeto (a mulher). Isso reforça o argumento de que o patriarca
é, antes de tudo, um homem, que dispõe sexualmente de mulheres.
Weber (2004-II, p. 236) sustenta que a posição de autoridade no poder
doméstico, no sistema patriarcal, independe da dona do lar, ficando apenas com o
homem. É também o que aconteceu no Brasil. O homem é que mandava. Como se
disse, o patriarca é o pai, e não a mãe.
Saffioti (1979, p. 160) inicia seu estudo sobre a mulher no Brasil afirmando
que as relações entre os sexos e, por conseqüência, a posição da mulher na
sociedade, constituem “parte de um sistema de dominação mais amplo”, e que a
forma pela qual se organizava o poder na sociedade colonial escravocrata
brasileira formou complexos sociais que hoje são justificados em nome da
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

tradição – de modo que o que se vem argumentando na dissertação é coerente


com o que afirma a importante intelectual feminista. Da passagem de Caio Prado
(1957, p. 362), Saffioti (1979, p. 160), em termos weberianos (afirmando, todavia,
que usa seus conceitos desvinculados de sua dimensão econômica), extrai que
Portugal recorreu a um tipo de colonização que implicou em uma estrutura de
poder baseada no patrimônio, implicando numa caracterização da sociedade
brasileira, ao menos formalmente, como estatal-patrimonial.
Essa estrutura, para Saffioti (1979, p. 161-2) – de acordo com a mesma
leitura que tivemos de Weber – é uma estrutura de dominação baseada no
patrimônio, pela qual ocorre a descentralização do poder doméstico, que é
distribuído mediante distribuição de terra e pecúnio aos filhos e a outras pessoas
dependentes do círculo familiar. Saffioti, todavia, acrescenta que as ordenações
estatais, no Brasil colônia, esbarravam na dominação patriarcal. Para ela, mais
forte do que o papel dos funcionários patrimoniais eram os chefes da parentela.
Quanto mais os senhores de terras, “chefes da parentela”, consolidavam seu
poder, mais neles a Coroa se apoiava. Esses senhores de terra, chefes da parentela,
são os patriarcas, conforme definição exposta acima. De acordo com a autora,
com essa consolidação do poder dos senhores de terras (século XIX), poder este
que se vinha formando desde o início da colonização, o poder patrimonial
esbarra como poder patriarcal. Por isso Saffioti defende que a estrutura de poder
86

na sociedade brasileira pode ser considerada patrimonial-patriarcal. Para ela, a


sociedade brasileira é mais de um tipo patrimonial patriarcal do que um tipo de
economia patriarcal-estamental.
Talvez Saffioti afirme que a dominação no Brasil é patrimonial-patriarcal
utilizando o conceito que Weber por vezes chama de patrimonialismo puro, ou
patrimonialismo patriarcalismo ou sultanismo (Campante, 2003, p. 160) como
sendo aquele que tem um “grau extremo de poder senhorial” (Weber, 2004-I, p.
151)15. Porém, independente da terminologia que usa para caracterizar o que
ocorria no Brasil – dentre as diversas adotadas, como a “patrimonial estamental”
por Raimundo Faoro (em conceituação diferente daquela dada por Weber), ou
“patrimonial-burocrático” por Fernando Uricochea (apud Campante, 2003), a
formulação de Saffioti parece não ser a mais pertinente em um de seus
fundamentos. A dominação patrimonial não pode esbarrar na dominação
patriarcal, em termos weberianos, exatamente porque o patriarcal é um elemento
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

da dominação patrimonial; a dominação patrimonial para Weber (2004-II, p. 238)


é um caso especial de dominação patriarcal. De qualquer forma, ainda que
aparentemente (e em minha humilde leitura) não com plena fidelidade à tipologia
de Weber, Saffioti, plenamente fiel à nossa realidade, coloca ênfase no elemento
que interessa a nós, que é o forte componente patriarcal, masculino, de opressão
da vida e da sexualidade das mulheres, que teve a nossa formação colonial.

4.5

As recepções de Weber e a perpetuação dos traços patriarcais

Werneck Vianna (199916) explica que existem duas pontas da recepção de


Weber no Brasil. A primeira delas, hegemônica, que Werneck critica, seria aquela
que introduz o nosso patrimonialismo próximo à tradição política do oriente, onde
não há fronteiras nítidas entre público e privado, oriente no qual não se conheceu
o direito à propriedade individual. Essa vertente contraporia o nosso
patrimonialismo à modernidade, indicando as formas patológicas de acesso ao
moderno; identificaria o nosso atraso como resultante de um tipo de colonização a

15
Conforme já citado na nota de rodapé nº 89.
16
Texto sem numeração de páginas.
87

que fomos sujeitos, a herança ibérica17. O problema seria que o Estado abafaria o
mundo dos interesses privados, sendo que a cooptação seria sobreposta à
representação e a sociedade estamental sobreposta à estrutura de classes – Weber
aqui é contraposto a Marx. Os representantes desta corrente seriam Raimundo
Faoro18 e Schwartzman19. Tal chave interpretativa coloca, sempre de acordo com
Werneck Vianna, o mercado como resposta para nossas mazelas. O problema do
patrimonialismo estaria no Estado e não na sociedade, de modo que a solução
seria abrir o Estado à diversidade dos interesses no seio da sociedade civil, “sem
qualquer tipo de razão tutelar”. “São Paulo, com a expansão da agroexportação
cafeeira”, seria um “primeiro esboço do ocidente” desejado. A solução proposta
por esta corrente teórica seria equivocada para Werneck, porque o interesse
conduziu, na verdade,

“ao particularismo na forma do Estado, e, nas condições retardatárias da


sociedade brasileira, onde predominava o estatuto da dependência pessoal, tendia a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

se combinar com as formas de mando oligárquicas e a sociabilidade de tipo


hierárquico que prevaleciam no país. O primado do interesse, na Primeira
República, assim, não se confronta com as formas de dominação tradicionais, antes
as subordina, convertendo o atraso, tal como na exemplar demonstração de Victor
Nunes Leal em seus estudos sobre o coronelismo, em uma vantagem para o
moderno que estaria representado pela economia dominante em São Paulo, sob a
direção de um patriciado com origem na propriedade fundiária e orientado por
valores de mercado — a Prússia paulista será uma invenção da Primeira
República.”20

17
Neste sentido, importa salientar que nesta pesquisa não se considera que a herança
colonial, que o tipo de colonização a que fomos sujeitos, se reduza ao debate da herança ibérica.
Ainda que não se atribua à herança ibérica nossas mazelas, que as práticas coloniais deixam
marcas até hoje.
18
Werneck cita FAORO, Raimundo. (1975). Os donos do poder. Porto Alegre/São Paulo:
Ed. Globo/Ed. da Universidade de São Paulo.
19
Werneck cita SCHWARTZMAN, Simon. (1982). Bases do autoritarismo brasileiro. Rio
de Janeiro: Campus.
20
Importa, neste contexto, fazer uma nota sobre idéias desenvolvidas por Francisco de
Oliveira sobre o “arcaico” e o “moderno”, dualidade que implica justamente no título da pesquisa
intitulada Crítica à razão dualista, complementada 31 anos depois por Ornitorrinco. O parêntese
aqui se justifica por objeções que minha pesquisa sofreu por ocasião do 32º Encontro Nacional da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, realizado de 27 a 31 de
outubro de 2008 em Caxambu-MG. A objeção consistia no fato de que não existiria arcaico e
moderno no Brasil, a partir da obra de Francisco de Oliveira. Estudando-a, porém, verifiquei que
essa afirmação não se sustenta diante do texto do autor. Francisco de Oliveira (2003) critica a
dualidade arcaico e moderno relativamente à oposição produzida pelos cepalinos entre agricultura
e indústria, respectivamente, quando das mudanças ocorridas na década de trinta. Para ele, “o
chamado ‘moderno’ cresce e se alimenta da existência do ‘atrasado’, o que quer que signifique a
terminologia” (Oliveira, 2003, p. 32). O quadro descrito não indica, para ele, oposição entre
“quaisquer setores ‘atrasado’ e moderno’” (Oliveira, 2003, p. 47). Trata-se de uma crítica no
campo da economia, que não implica na inexistência do ‘arcaico’ e do ‘moderno’ nas práticas
políticas e sociais.
88

A outra ponta da recepção de Weber, ainda de acordo com Werneck (1999),


teria foco na sociologia e nas instituições políticas – ou seja, o foco não seria o
Estado, mas o conjunto da sociedade. Esta segunda corrente, assim com a
proposta desta dissertação, colocaria a centralidade das reflexões na questão
agrária e no patrimonialismo “de base societal”. O interesse é percebido como o
lugar da manutenção do status quo21. O Brasil seria “resultado e parte integrante”
do ocidente, “embora incluído nele como um caso retardatário e ambíguo, uma
vez que combinaria em si a forma moderna do Estado de arquitetura liberal com o
instituto da escravidão e com a organização social de tipo patrimonial”. Neste
sentido, não haveria contraposição com o moderno, porque o atraso e o moderno
se imbricariam22. Implica em dizer, no campo da economia, na síntese de
Francisco de Oliveira (2003-II, p. 459), que o nosso subdesenvolvimento não é
visto “como elo da cadeia do desenvolvimento, mas como especificidade
capitalista na sua periferia criada”.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Weber, para Werneck (1999) nesta chave interpretativa não é tomado em


contraposição a Marx, mas antes neste buscam-se as referências que explicam a
inserção do país no capitalismo mundial. Os representantes desta chave não-
hegemônica da leitura de Weber no Brasil seriam Florestan Fernandes23, Maria
Silvia de Carvalho Franco24 e José Murilo de Carvalho25. O foco seria no

21
“Nesse novo caminho para a inquirição do caráter do patrimonialismo brasileiro, do qual
resulta a troca de foco do Estado para a sociedade, a percepção da política e do Estado deveria ter
o exclusivo agrário como ponto de partida, dado que somente aí se poderia surpreender, no
contexto puro da dominação senhorial, a trama da sociabilidade que envolveria os indivíduos
submetidos à situação de dependência pessoal, condição para se desvendar o modo particular de
articulação entre a dimensão do público e a do privado e a do Estado com a sociedade, pondo-se a
nu as conexões internas, vigentes na modelagem da ordem burguesa no país, entre o plano do
racional-legal e o do patrimonial. Com essa perspectiva sociológica, que procura combinar
analiticamente os micro e os macrofundamentos responsáveis pela formação do Estado, se joga
uma nova luz sobre a dimensão do interesse, que deixa de ser percebido como o lugar da inovação
e de resistência ao patrimonialismo, e sim da conservação do status quo” (Werneck Vianna, 1999).
22
De acordo com Werneck Vianna (1999), ambas as teorias têm em comum analisarem o
papel negativo do Estado na formação da sociedade brasileira contemporânea, onde não há
fronteiras nítidas entre público e privado e a administração pública estaria mais destinada à
realização dos objetivos próprios dos seus dirigentes. A questão é que para a segunda corrente
interpretativa, a solução não seria a redução do Estado, contraposto ao mercado, mas sim a
transformação de tais práticas moleculares.
23
Werneck Vianna (1999) cita FERNANDES, Florestan (1975). A revolução burguesa no
Brasil. Rio de Janeiro: Zahar e FERNANDES, Florestan (1976). A sociologia numa era de
revolução social. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar.
24
Werneck Vianna (1999) cita FRANCO, Maria Silvia de Carvalho (1969). Homens livres
na ordem escravocrata. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros-USP.
89

compromisso que se estabeleceu a partir da Independência entre a ordem racional-


legal e a patrimonial, sendo que as rupturas seriam identificadas no âmbito das
transformações moleculares de longa duração, de modo que a revolução burguesa
no Brasil se daria de forma passiva, representando a transição da ordem
escravocrata para a ordem social competitiva.
O que se vem argumentando na presente dissertação se aproxima desta
segunda leitura de Weber: da imbricação entre o patrimonialismo e o Estado
moderno, no peso imenso da questão agrária entre nós, do patrimonialismo, do
patriarcalismo e do personalismo26 fixados nas práticas sociais, na capilaridade da
vida cotidiana, inclusive na forma como se estabeleceram as relações sexuais.
Florestan Fernandes (2006, p. 49-52) trata desta imbricação. Para ele,
quando da Independência do Brasil, que inaugurou a época da sociedade nacional,
as elites brasileiras não se insurgiram contra a estrutura colonial. Antes se
voltaram contra as implicações da condição colonial, que neutralizavam a
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

capacidade de dominação daquelas elites. Para estas, a Independência visava à


"internalização definitiva dos centros de poder e a nativação dos círculos sociais
que podiam controlar estes centros de poder". A conseqüência disso foi que a
Independência se deu "sem negar a ordem social imperante na sociedade colonial
e reforçando-a". Florestan explica que existiam dois elementos essencialmente
antagônicos naquele contexto: o revolucionário, de despojar aquela ordem de
todos os "caracteres heterônomos", e o elemento conservador, de preservar e
fortalecer a ordem social colonial da grande lavoura e da mineração, da
escravidão, da concentração de renda extrema, do monopólio do poder pelas
elites, da marginalização dos homens livres. Desta forma é que este substrato
material, social e moral caracterizado pelo elemento conservador solapou a
Independência do seu aspecto revolucionário e reduziu a profundidade da ruptura

25
Werneck Vianna (1999) cita CARVALHO, José Murilo (1980). A construção da ordem.
Rio de Janeiro: Campus.
26
Luís Martins (2008, p. 157) defende tese que alia a permanência de traços personalistas-
patriarcalistas entre nós: “Essa tendência para individualizar a política nos tem levado a uma
espécie de caudilhismo latente que, aliás, se transformou em realidade durante a ditadura Getúlio
Vargas. No Brasil, o pequeno caudilho, o líder, o meneur, colocado na imaginação popular em
lugar de programas e de idéias, substituiu sempre no chefe político o arrabalde, no ‘coronel’ de
interior, no figurão de zona eleitoral. Em escala mais vasta, vamos nos surpreender com uma série
de ‘ismos’ ligados a nomes de pessoas, sem conteúdo ideológico senão o da admiração
incondicional pelo ídolo. (...) O nosso ‘ciclo heróico’ se caracterizou pelo ‘florianismo’, o
‘pinheirismo’, o ‘epitacismo’, o ‘bernardismo’. (...) Há, realmente, mais ‘prestismo’ do que
‘comunismo’”.
90

com o passado, cujos elementos patriarcais e patrimonialistas se perpetuaram.


Werneck (1999) complementa o raciocínio, afirmando que a burguesia buscou a
possibilidade de extrair vantagem tanto do moderno como do atraso, inclusive na
trajetória cafeeria de São Paulo, onde se realizou “no mundo agrário, a produção
de excedente a partir de relações de dependência pessoal --, associado a técnicas
de controle social que dissimulem a existência da estrutura de classes e impeçam a
sua livre explicitação”. Neste sentido, contundente afirmação de Darcy Ribeiro
(2006, p. 357), para quem não só o sistema do açúcar provocou uma
promiscuidade entre público e privado. Segundo ele, conforme já dito, o
complexo econômico do café, já no século XIX, também se capacitou para usar o
poder político em favor dos seus interesses econômicos27.
Na República, de acordo com Maria Alice Rezende de Carvalho e Werneck
Vianna (2000, p. 23-4), a lógica prevalece. Para eles, a Constituição de 1891,
conquanto mantendo a orientação liberal no que dizia respeito às instituições de
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

direito, não forneceu meios para que o país pudesse construir sua identidade. A
herança do exclusivismo agrário se tornava anacrônica na medida em que se
tornava mais complexa a estrutura do país. Porém, prisioneira desta “hipoteca do
patrimonialismo”, nas palavras dos autores, “a ordem racional-legal se torna uma
dimensão vazia de sentido, com o direito se aviltando em um maneirismo de
bacharéis”28.
No mesmo sentido, de acordo com Darcy Ribeiro (2006, p. 201 e 362), os
fazendeiros, no regime republicano, mantêm o poder conquistado no Império,

27
Existe uma tese oposta a esta, defendida por Simon Schwartzman, em As bases do
autoritarismo brasileiro (apud Campante, 2003, p. 171-3) segundo a qual São Paulo ofereceria um
modelo de desenvolvimento baseado não na “cooptação autoritária patrimonialista”, e que a causa
da vigência do patrimonialismo no Brasil seria exatamente a marginalização do papel político
desta região – idéia que já estaria implícita em Faoro. Contra a “’são-paulização’ do Brasil como
vetor do modelo americano de desenvolvimento capitalista”, figuram Jessé de Souza (apud
Campante, 2003, p. 176), Werneck Vianna (1999) e Francisco de Oliveira (2003). Sobre o tema,
ver também item 4.4 da dissertação.
28
Os autores prosseguem afirmando que “ao conceber uma república sem democracia e
sem incorporação social, cristalizou o liberalismo como ideologia de elites, sem desenvolver as
suas potencialidades universalistas, em termos de direitos civis. E foi nessa recusa à inovação,
mantendo-se indiferente às pressões dos novos setores emergentes, como empresários, militares,
classes médias e operariado urbanos, que o ideário liberal, força subterrânea que presidiu o longo
processo de transformações moleculares ao longo do período anterior, perdeu substância,
frustrando as expectativas de uma plena passagem do país a uma ordem social competitiva (...)
liberalismo, cuja institucionalização teria importado a apropriação da esfera pública pela esfera
privada, impedindo-a de operar com autonomia e de se encontrar com a Nação, em particular com
seus novos setores sociais, emergentes do mundo urbano” (Werneck Vianna e Rezende de
Carvalho, 2000, p. 23-24). Esta discussão sobre o liberalismo, porém, seria assunto para outra
pesquisa.
91

“perpetuando-se no poder um patriciado oligárquico, que coloca a serviço do


patronato cafeicultor toda a máquina governamental”.29 Ele cruelmente afirma que
o Brasil passa de colônia à nação independente e da Monarquia à República sem
afetar a ordem patronal fazendeira oligárquica, a concentração de poderes, e sem
que o povo perceba30. O´Donnell (1988, p. 64-7 e 86), sobre a atualidade do
patrimonialismo e do patriarcalismo entre nós, pondera que apesar de o Brasil ser
muito diferente das sociedades em que Weber se baseou para elaborar o conceito
de patrimonialismo – no qual, ao contrário da república, não há a distinção nítida
entre o público e o privado –, ainda carrega fortes componentes patrimonialistas,
no estilo de fazer política e no estilo de governar. Para O´Donnell (1996, p. 19) o
processo político em países da América Latina é institucionalizado31, não apenas
por instituições formalmente normatizadas, como as eleições, mas também com
instituições informais e por vezes oculta: o clientelismo e o particularismo32, que
se refere aos “vários tipos de relações não-universalistas, desde as relações
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

particularistas hierárquicas, a patronagem, o nepotismo, os favores e jeitinhos, até


as ações que, sob as normas formais do complexo institucional da poliarquia33,
serem consideradas corruptas”. O particularismo (e a sua contraparte, que são as
práticas neopatrimoniais ou delegativas de governo) é antagônico a um dos
aspectos mais importantes do complexo institucional da democracia, que é a

29
“As instituições republicanas, adotadas formalmente no Brasil para justificar novas
formas de exercício do poder pela classe dominante, tiveram sempre como seus agentes junto ao
povo a própria camada proprietária, no mundo rural, a mudança de regime jamais afetou o
senhorio fazendeiro que, dirigindo a seu talente as funções de repressão policial, as instituições da
propriedade na Colônia, no Império, na República, exerceu desde sempre poder hegemônico”
(Ribeiro, 2006, p. 201).
30
Nesse sentido, a importante passagem de Paulo Freire (1980, p. 81): “O que se pode
afirmar é que, de modo geral, com algumas exceções, ou o povo ficava à margem dos
acontecimentos ou a eles era levado quase sempre, mais como ‘algazarra’ do que porque ‘falasse’
ou tivesse voz. O povo assistiu à proclamação da República ‘bestificado’, foi a afirmação de
Aristides Lôbo, repetida por todos. Bestificado vem assistindo aos mais recentes recuos do
processo brasileiro. Talvez agora, no caso recente do Golpe Militar, já não tanto bestificado, mas
começando a entender que os recuos estão se fazendo por causa dos seus avanços”.
31
“Por ‘instituição’ entendo um padrão regulado de interação que é conhecido, praticado e
aceito (ainda que não necessariamente aprovado) pelos atores que têm a expectativa de continuar
interagindo sob as normas sancionadas e garantidas por esse padrão” (O´Donnell, 1996, p. 10).
32
O´Donnell afirma que as “instituições são resistentes, sobretudo quando elas têm raízes
históricas profundas; o particularismo não é certamente uma exceção a isso. O particularismo é um
traço permanente da sociedade humana que, só muito recentemente, e somente em algumas regiões
e em alguns âmbitos institucionais, foi moderado por normas e procedimentos universalistas”.
33
Cujas características são relacionadas a eleições livres e a liberdades políticas, conceito
ao qual ele adiciona características como a não ocorrência de golpes, ou a não existência de vetos
de instituições como as forças armadas, e mesmo o atendimento de expectativas sociais
(O´Donnell, 1996, p. 7-8).
92

distinção “comportamental, legal e normativa entre uma esfera pública e uma


esfera privada”.
Existem, portanto, fortes argumentos, na esteira do afirmado por Florestan
Fernandes, Werneck Vianna, Maria Alice Rezende de Carvalho, Darcy Ribeiro e
Guillermo O´Donnel, para se sustentar que elementos patrimonialistas se
perpetuaram em nossa estrutura política, em nosso espaço público, ainda que
imbricados com outras racionalidades. Ora, se o patrimonialismo persiste, traços
de patriarcalismo também prevalecem, não apenas conceitualmente (porque,
conforme se argumentou no item anterior, ambas as categorias são imbricadas em
Weber), mas também em termos de práticas de exclusão, manifesta em formas
diversas de discriminação contra a mulher branca, a negra, a indígena e a
mestiça34 e mesmo na marginalização da massa pobre e mestiça, herdeira daqueles
primeiros contingentes de filhos “ilegítimos” que a colonização misógina
produziu.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Sérgio Buarque (2006, p. 83), atrelado à tipologia de Weber, afirma que a


sociedade civil ou política como ampliação da comunidade doméstica, que a
indiferenciação entre as esferas públicas e a esfera privada, representam,
essencialmente, uma visão antimoderna. Isso porque o Estado (moderno) não
seria uma ampliação do círculo familiar. Existiria uma descontinuidade, até uma
oposição, em essência, entre as duas formas. Ocorre que, se no Brasil o
patrimonialismo se imbrica com o ideário moderno, talvez o raciocínio do campo
sociológico e econômico elaborado pelos autores citados seja válido no que diz
respeito à opressão da mulher. De um lado, são válidas para o Brasil as críticas
feministas a respeito da forma como ocorreu a separação entre o público e o
privado acentuadas na modernidade: o confinamento das mulheres no espaço
doméstico, a marginalização delas das atividades políticas, a despolitização das
violências ocorridas no lar. Por outro lado, também sofreram as mulheres os
impactos de uma estrutura social patrimonialista (“antimoderna”) e violenta: a

34
As formas de opressão de gênero, de classe e de raça são interseccionadas e de algum
modo reproduzem a mesma racionalidade colonial, de modo que as formas de violência sofridas
pelas mulheres brancas de classe alta (como, por exemplo, a forte disciplina estética) são
diferentes das sofridas pelas negras pobres (como tripla jornada de trabalho e a responsabilidade
exclusiva por vários filhos de pais diferentes). O feminino e o masculino se produzem e aplicam
dentro de uma raça, uma cultura e uma classe particular (Harding, 1987) – sendo que, entre nós,
esta configuração possivelmente reinventa algumas relações de poder que remetem ao período
colonial. A respeito das formas contemporâneas e diversificadas da opressão da mulher no Brasil,
ver, p. ex., Muraro, 2002.
93

sexualidade das mulheres foi reprimida e/ou abusada diretamente e intensamente


conforme as necessidades do projeto colonial. Por outro lado, o patrimonialismo,
como o próprio nome sugere, transporta para as relações extra-lar uma
racionalidade perversa e despótica de opressão que vige nas relações domésticas35.
A primeira das práticas domésticas de opressão é a violência contra as mulheres.
É difícil pensar que tais práticas gendradas de poder não tenham influenciado
também a concepção e a prática do nosso espaço político. A racionalidade de
mando, de poder indiscutido, de particularismo – em oposição a uma noção de
distribuição de poder e de riqueza – que constituem nossa “hipoteca” é informada
pela lógica do patriarcado.

4.6

Uniformidade do processo civilizatório, inexperiência democrática e


brutalidade
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Segundo Darcy Ribeiro (2006, p. 20 e 232), apesar do tamanho continental


do país, essas características informam, de maneira geral, toda a racionalidade da
prática política nacional. Isso porque se forjou uma unidade nacional que
imprimiu características razoavelmente uniformes em nosso território,
notadamente no campo político. A unidade foi um objetivo expresso, consolidado
após a independência, e se deu por meio de lutas violentas, que suprimiram
identidades étnicas discrepantes e de movimentos potencialmente separatistas,
ainda que por vezes oligárquicos, como a Revolução Farroupilha36. Ainda para
Darcy Ribeiro, a configuração histórico-cultural brasileira é formada por uma
“constelação de áreas culturais”37, que são fruto de um “mesmo processo

35
Retomando um dos pontos de partida provisórios que se mencionou no início desta
dissertação, segundo o qual, de acordo com Joan Scott, as relações de gênero também influenciam
a política macro, talvez se possa afirmar que o nosso espaço político se fundou sobre a imbricação
de duas ordens perversas de opressão das mulheres: a moderna e a patrimonial. Como, porém, não
se estudou a fundo as conseqüências políticas das formas modernas de opressão das mulheres
(como é o objeto de estudo de Carol Pateman), este é tema para outra pesquisa.
36
A respeito da Revolução Farroupilha como motivada por interesses dos produtores e
exportadores gaúchos, ver HOLANDA, Sergio Buarque (Dir.) (1967). História Geral da
Civilização Brasileira. Tomo II: O Brasil Monárquico. 2º Volume: Dispersão e Unidade. 2. ed.
São Paulo: Difusão Européia do Livro. p. 499-505.
37
Na rica tipologia elaborada por Darcy Ribeiro (2006, p. 244-401), a constelação cultural
brasileira é composta pela cultura crioula, pela cultura caipira, pela cultura sertaneja, pela cultura
cabocla, pela cultura gaúcha e pela cultura gringo-caipira. Não interessa, para fins desta pesquisa,
a abordagem dessa diversidade, não obstante sua importância.
94

civilizatório que as atingiu quase ao mesmo tempo”, e por isso integram uma
sociedade maior, uma vez que se formaram “pela multiplicação de uma mesma
protocélula étnica” e que sempre estiverem “debaixo do domínio de um mesmo
centro reitor, o que não enseja definições étnicas conflitivas”.
Os traços gerais que Darcy Ribeiro atribui a tais formações, por serem fruto
do mesmo processo civilizatório, são as culturas que se estabelecem como
produtos exógenos da cultura européia, num ambiente agrário-mercantil-
escravista, com contextos citadinos e rurais complementares, com classes sociais
antagônicas. Sobre todos os sistemas, menciona a concentração de poder, a
solidariedade das camadas dirigentes, a promiscuidade com o poder público e,
sublinho, a exploração das mulheres (Ribeiro, 2006, p. 232, 247, 258-9, 281 e
282, 309, 349 e 354 e 390-3). Maria Beatriz Nizza Silva (2002, p. 311), mesmo
em uma pesquisa que busca a diversidade das formas de vida das mulheres no
Brasil colônia, afirma que as
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

“mulheres foram vítimas da truculência masculina em todas as regiões do


Brasil colonial, desde a litorânea e mais polida Baía até aos confins da Amazônia,
na quase despovoada Capitania do Rio Negro. Índias, mestiças, negras e brancas
sofreram perseguições das autoridades civis ou eclesiásticas e também às mãos de
maridos e senhores”.

Interessa a essa dissertação a idéia de que as práticas patrimonialistas e


patriarcalistas, incluindo a “truculência masculina”, na expressão de Maria Silva,
em alguma medida foram e são generalizadas. Não se trata de características de
um suposto caráter nacional, que perpassaria todas as classes sociais, que Dante
Moreira Leite (2008) critica. Os aspectos do patrimonialismo e do patriarcalismo
da configuração social brasileira apresentam conseqüências diferentes para as
classes sociais, antes de características uniformes a todos os brasileiros. O
patrimonialismo e o patriarcalismo implicam, de um lado, em uma ideologia de
poder quase onipotente das elites e, de outro, em uma submissão “consentida”
(sem resistência direta) dos dominados. Isto se agrava com a não formação de um
espaço público autêntico (conforme Francisco de Oliveira diz, interpretando
Sérgio Buarque) que poderia ao menos controlar o poder das elites. Esses aspectos
não são características fixas que perpassam classes sociais e regiões, mas práticas
reiteradas que apresentam conseqüências políticas profundas.
95

De um lado, uma elite irresponsável e brutal, de outro, um povo que,


vivendo para os outros e não para si38, não pode se capacitar para a prática
democrática. É o que argumenta Paulo Freire (1980, p. 74): “poder exacerbado”,
de um lado, e “submissão”, de outro. É importante dizer que esta brutalidade
repressiva foi gendrada, com conseqüências muito peculiares para as mulheres,
seja em relação ao hipercontrole sexual, seja em relação à submissão ao inevitável
estupro, com a sutileza de muitas vezes o abuso ter-se dado em um ambiente de
intimidade, o que torna mais perversa a relação de poder e violência.
Para Paulo Freire (1980, p. 17, 65-6 e 69), a estrutura econômica do grande
domínio e o trabalho escravo não criaram relações tendentes a “disposições
mentais flexíveis capazes de levar o homem a formas de solidariedade que não
fossem exclusivamente privadas”. O autor trata de nossa inexperiência
democrática (ao menos relativa), devido a uma sociedade fechada que somos,
“colonial, escravocrata, sem povo, ‘reflexa’”, sem lugar para se pensar em
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

“dialogação”, enquanto prevalecem características do grande domínio – espaço


autarquizado que é o “clima ideal para o antidiálogo”. Paulo Freire relaciona a
gravitação da vida no poder do senhor de terras como um dos fatores que impede
um regime autenticamente democrático, porquanto o povo não é sujeito, mas
subjugado autoridade externa dominadora. A relação colonial, para ele, redundou
na “criação de uma consciência hospedeira da opressão e não uma consciência
livre e criadora, indispensável aos regimes autenticamente democráticos”.
Ora, dialogação e democracia implicam, para serem verdadeiras, na
igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Implica em respeito.
Também para mulheres. A forma da injustiça entre os papéis de uns e de outros,
entre nós, remonta à estrutura colonial, que se reproduz e que se imbrica nos

38
A brasileira não é uma sociedade para si, mas para os outros, na tese repetida em toda a
obra de Darcy Ribeiro (1996). Por isso, o povo se forma “como proletariado externo. Quer dizer,
como um implante ultramarino da expansão européia que não existe para si mesmo, mas para gerar
lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial,
através do desgaste da população que recruta no país ou importa” (Ribeiro, 2006, p. 17).
Para Darcy Ribeiro (2006, p. 20-1, 176 e 225), a formação de um proletariado ultramarino
dependente do mercado mundial foi um elemento intencional do processo colonial, para enriquecer
a Europa, não tendo sido formado “um povo para si na busca de suas condições de prosperidade”,
e sim “um povo para os outros”. Ainda segundo Darcy, o povo-nação não surge da evolução de
formas de sociabilidade anteriores, mas sim “da concentração de uma força de trabalho escrava,
recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de
ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado genocídio e etnocídio”.
96

períodos históricos subseqüentes. É como um “trauma constitutivo”39. Fez parte


da estrutura colonial uma forma de exploração específica das mulheres no
interesse do projeto colonial: superabuso ou supercontrole, em nome da
reprodução de braços ou da manutenção da propriedade, tudo isso permeado pela
sociabilidade do escravismo, da violência e do sadismo. Se não temos experiência
democrática, se o que prevalece é o antidiálogo, se a única solidariedade que
existe é a das elites, e se isso está ligado com a estrutura de grande domínio, o
grande domínio que precisa ser combatido. Não se pode esquecer, não obstante,
que fez parte da estrutura do grande domínio uma estrutura em que o pai mandava
e em que as mulheres eram submetidas, ainda que procurassem estratégias de
resistência.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

39
A expressão é de Maria Alice Rezende de Carvalho, manifestada por ocasião da banca de
defesa desta pesquisa.
5
Considerações finais

Existem diferentes perspectivas com respeito ao estudo da mulher do Brasil


colonial. Uma, mais recente, foca na resistência dos sujeitos (Del Priore, Vilaça,
D´Incao, Soihet); outra foca na estrutura de opressão (Gilberto Freyre,Caio Prado
e Darcy Ribeiro). Essas duas visões não parecem ser excludentes, sendo
importante evitar uma polarização entre as figuras da mulher desenhadas pela
literatura: a mulher que resiste e a mulher que sucumbe. A resistência da mulher
se revelou principalmente de forma indireta e não explícita, inclusive na formação
de redes de solidariedade, expressas, sobretudo, pela maternidade – ainda que seja
ingênuo acreditar em uma solidariedade de gênero que se sobreponha às classes
sociais, às diferenças de raças e de credo (Del Priore). A maternidade, enfim, que
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

foi o elemento entorno do qual a mulher mais foi abusada, também representou o
seu elemento mais forte de resistência e de realização pessoal.
Ainda que valorizando e procurando citar o que os estudos dizem sobre as
formas de resistência, privilegiei na pesquisa os sistemas de opressão que
vitimaram as mulheres naquele período histórico. A primeira coisa que se deve ter
em conta é que a mulher e a terra do território virgem a ser explorado foram vistas
de forma análoga (Sandra Almeida). Isso não se inventou no Brasil colônia, mas
foi válido neste período e gerou profundas conseqüências entre nós. Além de
existir uma “oposição gendrada” (Stam e Sohat), que colocava a mulher em
metáfora recíproca com a natureza e com a terra a ser colonizada e o homem
como o conquistador e o conhecedor da ciência e dominador da realidade, ambas
(terra e mulher) representaram o “encontro dos dois mundos por meio de
oposições de gênero” (Sandra Almeida) e foram usadas e exploradas até à
exaustão e à devastação, em nome da necessidade da infra-estrutura econômica,
construída na base da “exploração precipitada e extensiva dos recursos naturais de
um território virgem, para abastecer o comércio internacional de alguns gêneros
tropicais e metais preciosos de grande valor comercial” (Caio Prado). Existiu, na
forma de opressão das mulheres, um cálculo político: necessidade de povoamento,
de reprodução de braços para trabalhar, o que se deu, entretanto, entre nós, de
98

forma sádica (Gilberto Freyre). A partir disso, a dissertação sustentou que a


mulher foi mais objeto do que sujeito da colonização, devido à forma de sua
inserção: ser violentada para satisfazer desejos e para gerar.
Houve uma dicotomia na base do substrato cultural brasileiro (Salles),
oriunda da relação de poder colonial: de um lado, o colonizado, a natureza, a
América, base material e territorial para a ação colonizadora e do Estado
monárquico; de outro lado, este Estado monárquico, o colonizador, o mundo da
cultura, a Europa. A pesquisa indicou, retomando as simbologias que envolvem o
feminino e o masculino tratadas na introdução desta dissertação, especialmente
por Rosaldo, que no pólo do elemento colonizado estão os signos que remetem ao
feminino (a natureza), ao passo que no pólo da Europa colonizadora está a
simbologia do masculino (a cultura). Mais do que a simbologia, sustentei que a
prática material do período colonial foi realmente de colonização dos corpos e das
vidas das mulheres.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

A mulher foi reduzida simbolicamente ao sul do seu corpo (Del Priore),


ainda que fosse trabalhadora e gerasse outras riquezas que não os filhos. A
associação mulher-maternidade deu ensejo à ligação simbólica dela com a
natureza e com o mistério. O discurso religioso se apropriou disso, identificando
as mulheres com o mal. Isso levou ao projeto normatizador, com um discurso
moralista/religioso e outro discurso médico (sendo este último o representante de
um saber masculino, excludente e repressor do universo prático e simbólico
feminino, doméstico, do cotidiano), para domesticar e adestrar mentes e corpos
das mulheres, como mães e esposas obedientes, difusoras do catolicismo e
responsáveis pelo “povoamento ordenado da colônia” (Del Priore), a serviço do
processo de colonização.
Ainda que não haja pleno consenso sobre as formas de organização do
exercício da sexualidade no Brasil colônia, a literatura majoritariamente indica
que entre as famílias de classe alta o casamento tinha grande importância e vigia
um controle maior da sexualidade das mulheres, em nome da manutenção da
propriedade e da nobreza, chegando a situações de extrema violência. Nas classes
baixas, havia uma diversidade de relações, existindo várias formas de organização
da família e da maternidade, incluindo o estupro, que foi generalizado. É
importante notar que as questões de classe e a de raça são imbricadas. Ainda que a
miscigenação tenha sempre sido grande entre nós, as moças de classe alta cuja
99

sexualidade era controlada em geral eram brancas, ao passo que nas classes baixas
estavam concentradas as mestiças, sendo que a maior parte das referências ao
abuso sexual e à prostituição é às negras. É difícil negar que aí presente um
preconceito de cor e de classe.
A escassez de brancas é o principal fator apresentado para a necessidade de
miscigenação, que se deu por meio de formas não tradicionais de organização da
família, da existência de relações sem compromisso com a parceira e a prole, ou
mesmo do estupro. Darcy Ribeiro (2006) identifica a duplicidade do
comportamento sexual do colonizador de outrora e do brasileiro de classe
dominante de hoje: uma para as relações dentro do mesmo grupo social, e outro,
para com pessoas de classe social inferior. Neste segundo caso, as relações
sexuais se deram pura e simplesmente pelo aspecto carnal, relações sexuais sem
dignidade além da dos animais. É o estupro como fundamento da ordem
(Francisco de Oliveira).
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

A primeira miscigenação foi com a mulher indígena. A sua inserção


assumiu feições plurais. Em muitos casos, exerceu o nobre papel da mãe de
família. Foi, todavia, também abusada sexualmente e escravizada. O primeiro
ventre em que se gerou um brasileiro. As negras, escravas, sofreram abuso sexual
generalizado, numa forma de escravidão que implicou em uma intimidade do
contato doméstico, que fez do abuso mais perverso, porque mais “consentido”. O
estupro ocorria em nome do prazer sexual e da “reprodução do cativeiro”: o
elemento mais rico da escravidão era o ventre gerador, como constatou Joaquim
Nabuco em documentos da época. A estabilidade da família patriarcal chegava a
depender do abuso desenfreado das negras. Eram relações sexuais entre
vencedores com vencidos, num sadismo persistente do conquistador sobre o
conquistado, de branco por negro, do homem sobre a mulher, o que sugere mais
uma vez a analogia entre a mulher e o ser colonizado. Este sadismo de senhor
“excedendo a esfera da vida sexual e doméstica, têm-se feito sentir através da
nossa formação, em campo mais largo: social e político” (Freyre). A partir disso,
argumentei que é possível mesmo afirmar que o antagonismo fundamental que
informa a nossa formação social e política é aquele entre senhor e escrava, o que
sintetiza a opressão classista e racista do escravismo com a opressão de gênero do
estupro generalizado, estando as esferas do público e do privado imbricadas diante
das necessidades do projeto colonial.
100

Na esteira do que afirmam os diversos autores, tem-se que a exploração


sexual se deveu aos desejos individuais e aos imperativos da colonização, que
precisava de braços para se efetivar. A prole gerada a partir disso e de uniões
como as concubinatárias era massivamente “ilegítima”, devido à “ampla
paternidade irresponsável” (Darcy Ribeiro) e aos “preconceitos de cor e de classe”
(Caio Prado). Esta é a matriz do povo brasileiro, que surge a partir de negações: o
não ser português, o não ser africano (e sim escravo), o não ser gentio da terra
(Ribeiro). Esta “ninguendade”, que força a criação de uma identidade própria, a
brasileira (na formulação de Darcy Ribeiro), é fruto de várias ordens de violência,
dentre elas, matricialmente, como procurei salientar, a violência de gênero.
Na linha do que afirmam principalmente Nizza Silva, Del Priore e Freyre,
quanto aos casamentos oficiais, estes tiveram importância entre as classes altas.
Nestas, a sexualidade das mulheres era rigidamente controlada – não que
gerassem menos, mas deveriam gerar os filhos do marido que elas não escolhiam,
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

no momento em que lhes era imposto – em nome também dos interesses do


Estado e da Igreja, de concentração da propriedade, de manutenção da nobreza e
de difusão dos valores católicos. O controle era tão grande que a punição às
adúlteras podia chegar, legalmente, à morte, sendo que o marido escolhia a
punição (não havia punição ao homem adúltero), ou à reclusão. As brancas
passavam outras ordens de humilhações, como os ciúmes ferozes que por vezes
tinham das negras, o que gerou episódios de extrema violência corporal das
primeiras contra as últimas. A valorização do casamento passava também pela
execração de outra forma de exercício compulsório da sexualidade, que era a
prostituição, condenada esta última a “ser vivida como uma tara, uma
anormalidade, uma maldição” (Del Priore).
Ainda de acordo com os autores, as mulheres que não eram nem donas nem
escravas eram, muitas vezes, chefes de famílias (entre os libertos, havia mais
famílias chefiadas por mulheres do que chefiadas por um casal; entre as famílias
chefiadas por mulheres, a maior parte o era por negras ou pardas). As mulheres,
chefes de família ou não, nem de longe correspondiam ao mito da ociosidade, que
era verdadeiro para algumas mulheres ricas. Ainda assim, trabalhando, gerando
riqueza e em seu ventre gerando os colonizadores e os trabalhadores da empresa
colonial, as mulheres eram invisíveis em termos de participação política – o que
certamente influenciou na concepção e no exercício do político no Brasil.
101

A pesquisa permitiu considerar que as formas de exploração e violência


contra a mulher no Brasil colonial fizeram parte do substrato material da
colonização – Gilberto Freyre chega a afirmar que o “aproveitamento” da mulher
como trabalhadora e alicerce da família foi uma das técnicas essenciais e
“inovadoras” da colonização do Brasil, que formou a primeira civilização
moderna dos trópicos.
Sustentei que a herança colonial1 do patrimonialismo, do patriarcalismo e do
personalismo se deveu a elementos substanciais, dentre os quais figuraram as
violências contra as mulheres, além da sociabilidade baseada no escravismo; a
moral das senzalas (Holanda) influenciadora de todos os setores da vida brasileira,
incluindo a administração e a economia, estando presente, nesta moral, o sadismo
e o estupro generalizado; o latifúndio excludente conformador da sociabilidade
(Viana); a concentração da propriedade fundiária, com a preponderância da
família rural e da nobreza fundamentalmente doméstica; o privatismo e o
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

sacrossanto respeito à propriedade (Darcy Ribeiro), propriedade que foi inclusive


dos corpos e das vidas das mulheres (Freyre); a monocultura; a exploração da
terra sem limites; a estruturação da colônia como um mercado para a satisfação
das necessidades externas (Prado Júnior), de modo que o povo se forma como um
proletariado externo, para os outros e não para si (Darcy Ribeiro); continuado
genocídio e etnocídio (Darcy Ribeiro); o empreendimento colonial baseado na
iniciativa privada, devido à incapacidade da Coroa de arcar com as despesas do
empreendimento colonial (Oliveira, Prado Júnior), sendo que as famílias foram os
reais agentes de colonização do Brasil (Prado Júnior, Freyre), importando
sublinhar que estas são aquelas mesmas famílias violentas, sádicas, abusadoras
das mulheres, esposas ou escravas.
Como se vê desta síntese de características materiais da colonização, o clã
patriarcal foi a real fonte de poder no Brasil colônia, sublinhando, mais uma vez,
que este é aquele ambiente de sadismo, de violência, de intoxicação sexual, de
uso, abuso e maltrato contra as mulheres. O domínio patriarcal absorvia a maior
parcela das riquezas e agrupava a população escrava e livre (Prado). A família

1
Trabalhou-se na perspectiva de que a herança colonial é difícil de ser negada, que ainda
produz efeitos na realidade e que não se resume à herança ibérica, ou seja, ao legado das
características dos colonizadores portugueses. Tampouco se discutiu a comparação do Brasil com
o “próspero” (Richard Morse) norte-americano.
102

patriarcal forneceu o grande modelo em que se cunhou a relação entre


governantes e governados (Holanda). É o que cunhou, portanto, as relações
políticas. O senhor rural, chefe desta família, aquele que de fato possuía poder e
prestígio, foi reconhecido inclusive pela administração estatal (Prado), sendo que
sua autoridade era indisputada (Oliveira) e, portanto, despótica. Ocorreu, em
conseqüência destes fatores, uma imbricação, invasão e confusão entre as esferas
públicas e privadas (Holanda e Novais), não se formando um autêntico espaço
público, em um regime de “soberania do privado” (Oliveira).
Encravada e capilarizada em todos aqueles elementos da nossa colonização
esteve, conforme procurei salientar, a exploração da mulher. A pesquisa indicou
que a relação de poder que marca a nossa sociabilidade política, que é a relação
patrimonialista e patriarcal, é uma relação absolutamente gendrada, porque em sua
base está, antes de tudo, a subjugação de todo o gênero feminino. O próprio
Weber, formulador do conceito de patrimonialismo, o reconhece. Ainda que
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

naturalize as relações de poder no âmbito doméstico, Weber percebe o quanto a


autoridade do patriarca está associada à organização da reprodução, que engendra
formas de poder que recaem especificamente sobre as mulheres. Ele sublinha,
aliás, que o uso sexual das mulheres é o primeiro direito patriarcal.
Existiu ainda outro aspecto relacionado à exploração de gênero que foi
muito reiterado: “a superposição ou a fusão dos poderes econômicos, sociais e
políticos nas mesmas personae”, o que é “a origem do peculiar traço indistintivo
entre público e privado no Brasil” (Francisco de Oliveira). Este é o grande nó da
questão. A superposição dos diversos papéis nas mesmas personae significa que o
mesmo senhor rural, cabeça do clã patriarcal, real fonte de poder, centro de
gravidade do sistema colonial, é o senhor de escravos, dono de terras, dono dos
homens e dono de mulheres, na expressão de Gilberto Freyre. Este foi o
empreendedor particular, a cabeça da família agente da colonização. Aquele que
se afogou de pronto nos corpos das índias, fecundando-as. Grande ator da
violência colonial, abusando massivamente de suas escravas e das nativas, e que
trancafiaram suas esposas, fazendo-as gerar seus filhos considerados legítimos.
Corporificou a figura patriarcal, e mesmo a do grande estuprador – ainda que o
estupro tenha sido efetuado por homens de todas as classes sociais. O que os
autores não dizem é que o patriarca, antes de tudo, é um homem chefe de família,
subjugando em primeiro lugar sua mulher, depois suas filhas, e a seguir escravos e
103

agregados, ensinando seus descendentes a reproduzir a mesma prática. O patriarca


é o pai, não é a mãe.
A descrição do quadro colonial procurou evidenciar os elementos sexistas
daquela sociedade patrimonialista, patriarcalista e personalista. Se a família
patriarcal foi o modelo sobre o qual se estabeleceram as relações políticas e
públicas, implica em reconhecer que a forma de controle, exploração, abuso e
marginalização das mulheres – uma vez que fez parte considerável da estrutura
de domínio da família patriarcal – também influenciou as relações mais amplas
de poder, relacionadas ao Estado, à administração e à organização geral da
sociedade. Conforme Joan Scott afirma, as relações de gênero influenciam a
política e o direito mais amplamente. É o que escancaradamente ocorre entre nós.
Parece razoável afirmar que as instituições políticas e o direito se forjaram no
Brasil influenciados por uma racionalidade e uma prática de violência sexista. Por
outro lado, a racionalidade intrinsecamente violenta da colonização foi análoga à
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

forma como se concebe a natureza e as mulheres.


Saffioti, importantíssima pesquisadora feminista brasileira, tem a mesma
leitura que a pesquisa teve de Weber, confirmando a estrutura patrimonialista do
Brasil colônia, acrescentando, todavia, que as ordenações estatais esbarravam com
a dominação patrimonial, afirmando que existia na verdade uma estrutura
patrimonial-patriarcal. Ocorre que a dominação patrimonial não pode esbarrar na
dominação patriarcal, em termos weberianos, porque os conceitos são
relacionados, porque a dominação patrimonial para Weber é exatamente um caso
especial de dominação patriarcal. Ainda que, em minha humilde leitura, Saffioti
possa não ter sido plenamente fiel à tipologia de Weber, a autora é plenamente fiel
à nossa realidade, por colocar ênfase no forte componente patriarcal, masculino,
de opressão da vida e da sexualidade das mulheres que teve a nossa formação
colonial.
A dominação patriarcal se legitima na tradição2, naquilo que foi assim desde
sempre, e é exatamente desta forma que foi encarada e compreendida a dominação

2
Conceitualmente, em Weber, o patriarcalismo tem sua legitimidade advinda da tradição.
Seus tipos ideais, porém, como ele próprio reconheceu, não existiram em estado puro. É difícil
negar que os senhores de terras no Brasil tinham sua legitimidade advinda de méritos pessoais,
como na dominação racional legal, porquanto a indústria exportadora de riquezas (Caio Prado) que
foi a Colônia exigia alta capacidade de administração, de gestão e de empreendedorismo por parte
dos patriarcas. Por outro lado, junto disso, tinham sua legitimidade advinda também da tradição,
104

da mulher. Para Weber, a autoridade do poder doméstico tem fundamento em


“antiqüíssimas situações naturalmente surgidas” – ora, a autoridade do poder
doméstico, conforme a teoria feminista reivindica (Rosaldo), ainda que o pareça,
não é fundada na natureza, mas em formas de poder e violência construídas
socialmente contra as mulheres, ainda que muito generalizadas e milenares.
O que se argumentou na presente dissertação se aproxima de uma recepção
não-hegemônica de Weber no Brasil, que, na síntese de Werneck Vianna, trata da
imbricação entre o patrimonialismo e o Estado moderno, do peso imenso da
questão agrária entre nós – inclusive na formação dos espaços urbanos –, do
patrimonialismo fixado nas práticas sociais, na capilaridade da vida cotidiana.
Aceitou-se a formulação de Florestan Fernandes, segundo a qual traços
patrimoniais se perpetuaram mesmo após a Independência do Brasil, devido à
permanência de elementos conservadores, desejados pelas elites, como a grande
lavoura e a mineração, a escravidão, a concentração extrema de renda, o
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

monopólio do poder e a marginalização dos homens livres, sendo que o “atraso” e


o “moderno” se imbricaram, buscando a elite extrair vantagem de ambos. De
acordo com Rezende de Carvalho e Werneck Vianna, tais elementos continuaram
presentes na República, quando a ordem racional legal que trouxe se tornou vazia
de sentido devido à “hipoteca do patrimonialismo”. O´Donnell chega a afirmar
que o clientelismo e o particularismo são institucionalizados no Brasil,
considerando por instituição um padrão de interação consentido e praticado pelos
atores, que têm a expectativa de continuar a agir assim. O patrimonialismo, além
de se ter perpetuado no tempo, conforme argumentam os autores citados, ainda
que mesclado com outras racionalidades de poder, se estendeu no espaço, por todo
o país, devido a um mesmo processo civilizatório que foi imposto ao longo do
território brasileiro por meio da força (Darcy Ribeiro). Importa resgatar que o
patrimonialismo é uma estrutura de poder absolutamente e essencialmente
masculina e gendrada, além de antidemocrática, autoritária, sufocadora das
possibilidades de dialogação (na expressão de Paulo Freire) que, ainda hoje é fator
de dificuldade em construirmos autênticos espaços públicos. Tais articulações de
poder são um de nossos “traumas constitutivos”, que ainda se reinventam em

uma vez que carregavam elementos da legitimação tradicional, como as doações, os privilégios, a
qualidade associada à nobreza da terra, o mando sobre as mulheres e a naturalização da
hierarquização, reforçada pela escravidão africana (Fragoso, Bicalho e Gouvêa).
105

formas diferenciadas de violência contra as mulheres brancas, contra as mulheres


negras, contra as mulheres indígenas, contra a imensa maioria do povo pobre que
é mestiço, filho daquela grandíssima prole ilegítima colonial – no mais das vezes
marginalizados, uns e outros, dos processos de políticos e de produção do direito.
A extensão no tempo e no espaço da “hipoteca do patrimonialismo”
imbricada com elementos modernos se relaciona com a articulação de sistemas de
opressão de gênero. Para o Brasil, parece ser verdadeira a lógica geral do
patriarcado, particularmente acentuada pela modernidade, que confinou as
mulheres no espaço doméstico (excluindo-as dos espaços políticos e públicos em
geral, despolitizando e marginalizando as demandas relativas ao espaço da casa)
criticada pela teoria política feminista de base européia e estadunidense. Mas entre
nós a questão assume tons particulares, advindos exatamente da prática colonial a
que fomos submetidos. Aqui moderno e antimoderno, ocidental e arcaico, se
articulam também no que diz respeito aos lugares do feminino e do masculino. A
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

formação do espaço público e político no Brasil, ainda que defeituosa, ocorreu


mediante a invasão (a expressão é de Holanda) de elementos privado-patriarcais,
dentre os quais figurou o controle/exploração massivo, sistemático e violentíssimo
de expressiva parcela das mulheres. É difícil que este fator, “antimoderno”, não
tenha influenciado a forma de se praticar e de se conceber o político. A
racionalidade de mando, de poder indiscutido, de particularismo – em oposição a
uma noção de distribuição de poder e de riqueza – que constituem nossa
“hipoteca” é informada pela lógica do patriarcado. O caminho inverso, porém,
também teve implicações devido à colonização, cujos imperativos mais gerais e
diretos invadiram o espaço privado da intimidade, fazendo com que a casa fosse
despótica, um ambiente de violência3 e de sadismo, de “autoridade indiscutida”,
em que corpos e vidas eram usados e gastos em benefício da colonização, não se
podendo falar em fruição da vida pessoal. Em termos de teoria política, a
indiferenciação entre o público e o privado entre nós não só marginalizou as
mulheres politicamente e do mundo do direito, como as fizeram servir de forma
muito direta e violenta ao projeto político e econômico colonial – definido por

3
A idéia de Freud (1997, p. 47) de que “nunca estamos tão sem defesa como quando
amamos” é representativa, para Gilligan (2001, p. 47-8), de como o masculino tende a ver a
intimidade como ameaça e de como o masculino associa a primeira com a violência. Interessante
observar, embora não se possa fazer uma relação direta, o quanto a intimidade como violência
ganhou contornos dramáticos no Brasil colonial
106

Prado Júnior como empresa para “explorar os recursos naturais de um território


virgem em proveito do comércio europeu”. Projeto este que gastou corpos e vidas
em seu dispor.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA
6
Referências bibliográficas

APPIGNANESI, Lisa e FORRESTER, John (1992). Freud´s Women. Great


Britain: Phoenix.
ALGRANTI, Leila Mezan (1999). Mulheres Enclausuradas no Brasil Colonial. In:
HOLANDA, Heloisa Buarque de e CAPELATO, Maria Helena Rolim (Coord.).
Relações de Gênero e Diversidades Culturais nas Américas. São Paulo: Edusp.
ALMEIDA, Isabel Mendes de (1996). Masculino e feminino: tensão insolúvel.
Rio de Janeiro: Rocco.
ALMEIDA, Sandra Regina Goulart (2007). Mulher Indígena. In: BERND, Zilá
(Org.). Dicionário de Figuras e Mitos Literários nas Américas. Porto Alegre:
Tomo Editorial/UFRGS Editora. p. 462-467.
ARAÚJO, Emanuel (1997). A arte da sedução: sexualidade feminina da colônia.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

In: DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo:
Contexto. p. 45-77.
BARREIRA, Irlys (2008). Imagens ritualizadas: apresentação de mulheres em
cenários eleitorais. São Paulo: Pontes.
BENHABIB, Seyla (1992). Models of Public Space: Hannah Arendt, the Liberal
Tradition and Jürgen Habermas. In: CALHOUN, Craig J. (Org.). Habermas and
the public sphere. Cambridge, MIT Press.
BENZAQUEN, Ricardo (2008). Curso “Reinventando os Clássicos Brasileiros”,
aula “A sociologia de Gilberto Freyre”, proferida no 32º Encontro Anual da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais,
realizado em Caxambu – MG, em outubro de 2008.
BUTLER, Judith (1990). Gender Trouble. New York and London. Routledge.
CAMPANTE, Rubens Goyatá (2003). O patrimonialismo em Faoro e Weber e a
sociologia brasileira. Dados [online]. v. 46, n. 1 [cited 2009-03-28], pp. 153-193.
Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-
52582003000100005&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0011-5258. doi: 10.1590/S0011-
52582003000100005.
CARVALHO, José Murilo de (2001). Cidadania no Brasil: o longo caminho.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
____________ (1999). Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão
conceitual. In: Pontos e Bordados: Escritos de história e política. 1. reimp. Belo
Horizonte: Editora UFMG. p. 130-153.
108

CHODOROW, Nancy (1979). Estrutura Familiar e Personalidade Feminina. In:


ROSALDO, Michelle Zimbalist e LAMPHERE, Louise (Coord.). A mulher, a
cultura e a sociedade. Trad. Cila Ankier e Rachel Gorenstein. Rio de Janeiro:
Paz e Terra. p. 65-93.
____________ (1978). The reproduction of Mothering: Psychoanalysis and the
Sociology of Gender. Berkeley, Los Angeles and London: University of
California Press.
CIRIZA, Alejandra (2006). A propósito de Jean Jacques Rousseau: contrato,
educação e subjetividade. In: BORON, Atílio A. (Comp.) Filosofia Política
Moderna: de Hobbes a Marx. São Paulo: Clacso. p. 81-111.
DAVIS, Natalie Zemon (1991). A mulher “na política”. IN: DAVIS, Natalie
Zemon e FARGE, Arlette. História das mulheres no Ocidente. Volume 3: Do
Renascimento à Idade Moderna. Trad. Alda Maria Durães, Egito Gonçalves, João
Barrote, José S. Ribeiro, Maria Carvalho Torres e Maria Clarinda Moreira. Porto:
Afrontamento. p. 229-249.
DELGADO, Maria do Carmo Godinho (2008). Estado, desigualdade e relações
sociais de sexo. 32º Encontro Anual da Anpocs. GT 14 – Desigualdades:
produção e reprodução. Disponível em
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

http://200.152.208.135/anpocs/trab/adm/impressao_gt.php?id_grupo=19&publico
=S&PHPSESSID=ee715fabdd2eee5f7750565b71c197fe. Acesso em 15.04.2009.
DEL PRIORE, Mary (2000). Mulheres no Brasil Colonial: A mulher no
imaginário social; Mãe e mulher, honra e desordem; Religiosidade e sexualidade.
São Paulo: Contexto.
____________ (1993). Ao sul do corpo: condição feminina, maternidades e
mentalidades no Brasil colônia. Rio de Janeiro: José Olympio e Brasília: Ednub.
DESCARTES, Rene (1999). Discurso Sobre o Método. Coleção Os Pensadores.
São Paulo: Nova Cultural.
D´INCAO, Maria Ângela (1997). Mulher e família burguesa. In: DEL PRIORE,
Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto. p. 223-240.
DORIA, Francisco Antonio (1999). Caramuru e Catarina: Lendas e narrativas
sobre a Casa da Torre de Garcia d´Ávila. São Paulo: Editora Senac.
FAORO, Raymundo (1987). Existe um pensamento político brasileiro?. Estudos
avançados [online]. v. 1, n. 1 [cited 2009-01-20], pp. 9-58. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
40141987000100004&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0103-4014. doi: 10.1590/S0103-
40141987000100004.
FERNANDES, Florestan (2006). As implicações socioeconômicas da
Independência (Capítulo II). Em: A revolução burguesa no Brasil: ensaio de
interpretação sociológica. São Paulo: Globo.
FERNANDEZ, Brena Paula Magno (2008). Epistemologia feminista: uma
proposta epistemológica em defesa do pluralismo. (Artigo vencedor.) Brasil. 3º
109

Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero. Brasília: Presidência da


República. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. p. 37-55.
FRAGOSO, João, BICALHO, Maria Fernanda e GOUVÊA, Maria de Fátima
(2001). Introdução. In: FRAGOSO, João, BICALHO, Maria Fernanda e
GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). O Antigo Regime nos trópicos: A dinâmica
imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
p. 21-25.
FREIRE, Paulo (1980). Educação como prática da liberdade. 11. ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra.
FREYRE, Gilberto (1986). Casa Grande & Senzala: formação da família
brasileira sobre o regime da economia patriarcal. 24. ed. São Paulo: Círculo do
Livro.
FREUD, Sigmund (1997). Mal-estar na civilização. Trad. José Ocávio Aguiar
Abreu. Rio de Janeiro: Imago.
____________ (1931). A sexualidade feminina. In: FREUD, Sigmund;
STRACHEY, James,; FREUD, Anna; SALOMÃO, Jayme. Edição standard
brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
Imago, 1969- 24 v. XXI. p. 231-251.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

____________ (1925). Some Psychological Consequences of the Anatomical


Distinction between the Sexes. Disponível em
https://www.college.columbia.edu/core/students/cc/optitexts/freudsex.pdf,
acessado em 02.05.2008.
____________ (1924) A dissolução do complexo de Édipo. In: FREUD,
Sigmund; STRACHEY, James,; FREUD, Anna; SALOMÃO, Jayme. Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro: Imago, 1969- 24 v. XIX. p. 191-199.
GILLIGAN, Carol (2001). In a Different Voice: Psychological Theory and
Women´s Development. 37. ed. London and Massachusetts: Harvard University
Press.
GONÇALVES, Margareth de Almeida (2005). Artifício e excesso: narrativa de
viagem e a visão sobre as mulheres em Portugal e Brasil. Revista de Estudos
Feministas. Vol. 13, nº. 3. p. 613-628.
HARDING, Sandra (2007). Gênero, democracia e filosofia da ciência. In:
RECIIS – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em
Saúde. FIOCRUZ. Rio de Janeiro. v. 1, n. 1, p. 163-168, Jan./Jun.
____________ (1987). ¿Existe un método feminista? In: Feminism and
Methodology, Bloomington/ Indianapolis. Indiana University Press. Traducción
de Gloria Elena Bernal. Versão disponibilizada pela Cátedra Regional da Unesco
– Mujer, Ciencia y Tecnología, por ocasião do “Programa Mujeres Jóvenes en la
Sociedad de la información/Conocimiento” Jóvenes Investigando Jóvenes.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (2006). Raízes do Brasil. Edição Comemorativa
70 anos. São Paulo: Companhia das Letras.
110

____________ (2004). Para uma nova história: Textos de Sérgio Buarque de


Holanda. COSTA, Marcos (Org.). São Paulo: Fundação Perseu Abramo.
JOHNSON, Robert A (1997). We: a Chave da Psicologia do Amor Romântico.
Trad. Maria Helena de Oliveira Tricca. São Paulo: Mercuryo.
LEAL, Ivone (1986). Os papéis tradicionais femininos: continuidade e rupturas de
meados do século XIX a meados do século XX. In: A mulher na sociedade
portuguesa: visão histórica e perspectivas atuais. Colóquio 20-22.03.1985.
Coimbra: Actas vol. II. Instituto de História Económica e Social – Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra. p. 353-367.
LEITE, Dante Moreira (1976). O caráter nacional brasileiro: história de uma
ideologia. 3. ed. São Paulo: Livraria Pioneira.
LOCKE, John (2007). Segundo Tratado sobre o Governo. São Paulo: Martin
Claret.
MARTINS, Luís (2008). O patriarca e o bacharel. 2. ed. São Paulo: Alameda.
MATTA, Roberto da (1997-a). A casa & a rua: espaço, cidadania, mulher e
morte no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Rocco.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

____________ (1997-b). Você Sabe com Quem Está Falando? Um Ensaio sobre
a Distinção entre Indivíduo e Pessoa no Brasil. In: Carnavais, Malandros e
Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 5. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara. p. 146-204.
MORSE, Richard M (1988). O espelho do próspero: cultura e idéias nas
Américas. São Paulo: Companhia das Letras.
MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da cultura brasileira: Pontos de partida
para uma revisão histórica. São Paulo: Ática, 1977.
MURARO, Rose Marie (2002). Ponto de Mutação. In: MURARO, Rose Marie e
BOFF, Leonardo. Feminino e masculino: uma nova consciência para o encontro
das diferenças. 3. ed. Rio de Janeiro: Sextante.
____________ (1983). Sexualidade da Mulher Brasileira: Corpo e Classe Social
no Brasil. Petrópolis: Vozes. 3. ed.
NABUCO, Joaquim (2000). Influência da escravidão sobre a nacionalidade. O
abolicionismo. In: São Paulo: PubliFolha. p. 97-103.
NOVAIS, Fernando A (1997). Condições da privacidade na colônia. In. NOVAIS,
Fernando A. e SOUZA, Laura de Melo e (orgs.). História da Vida privada no
Brasil 1: Cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo: Cia. das
Letras. p.14-39.
O´DONNELL, Guillermo (1996). Uma outra institucionalização: América Latina
e alhures. Trad. Álvaro de Vita. In: Lua Nova: Revista de Cultura e Política. N.
37. p. 5-31.
111

____________ (1988). Transições, continuidades e alguns paradoxos e Hiatos,


Instituições e Perspectivas Democráticas. In: O´DONNELL, Guillermo e REIS,
Fábio Wanderley. A democracia no Brasil: Dilemas e Perspectivas. São Paulo:
Vértice. p. 41-90.
OLIVEIRA, Francisco de (2003). Crítica à razão dualista – O Ornitorrinco. São
Paulo: Boitempo.
____________ (2003-II). Diálogos na grande tradição. In: NOVAES, Adauto
(Org.). A crise do Estado-nação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p. 443-
481.
OLIVEIRA, Pedro Paulo de (2004). A construção social da masculinidade. Rio
de Janeiro: IUPERJ.
PATEMAN, Carole (1993) O contrato sexual. Trad. Marta Avancini. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1993.
PAZ, Octavio (1992) [1987]. Os filhos da Malinche e Conquista e Colônia. O
Labirinto da Solidão e Post Scriptum. 3. ed. Trad. Eliane Zagury. Rio de
Janeiro: Paz e Terra. p. 62-106.
PIMENTEL. Sílvia (1985). A Mulher e a Constituinte: uma contribuição ao
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

debate. São Paulo: Cortez/Educ.


PINTO, Céli Regina Jardim (2003). Uma história do feminismo no Brasil. São
Paulo: Fundação Perse Abramo.
PLASTINO, Carlos Alberto (2009). A dimensão constitutiva do cuidar. In:
MAIA, Marisa Schargel (Org.). Rio de Janeiro: Garamond.
____________ (2006). Freud e Winnicot: a psicanálise e a percepção da natureza
- da dominação à integração. In: Carvalho, ICM, Grun; M. Trajber, R.. (Org.).
Pensar o ambiente: bases filosóficas para a educação ambiental. 1. ed. Brasília:
MEC-SECAD/Unesco.
____________ (2003). O quinto rombo: a psicanálise. In: SANTOS, Boaventura
(Org.). Um conhecimento prudente para uma vida decente. Lisboa:
Afrontamentos, 2003.
PRADO JÚNIOR, Caio (1957). Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia.
5. ed. São Paulo: Brasiliense.
REZENDE DE CARVALHO, Maria Alice e WERNECK VIANNA, Luiz (2000).
República e Civilização Brasileira. In: Estudos de Sociologia. Vol. 5, Nº 8. p. 7-
33.
RIBEIRO, Darcy (2006). O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras.
RODRIGUES, José Honório (1974). A assembléia constituinte de 1823.
Petrópolis: Vozes.
112

ROSALDO, Michelle Zimbalist (1979). A Mulher, a Cultura e a Sociedade: uma


revisão teórica. In: ROSALDO, Michelle Zimbalist e LAMPHERE, Louise
(Coord.). A mulher, a cultura e a sociedade. Trad. Cila Ankier e Rachel
Gorenstein. Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. 33.64.
ROTTA, Raquel Redondo; BAIRRAO, José Francisco Miguel Henriques (2007).
Inscrições do feminino: literatura romântica e transe de caboclas na umbanda.
Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 15, n. 3, Dec. 2007.
Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
026X2007000300007&lng=en&nrm=iso>. Acessado em 11.09.2009.
ROUSSEAU, Jean-Jaques (2007). O contrato social e outros ensaios. 17. ed. São
Paulo: Cultrix.
SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani (1981). Do artesanal ao industrial: a
exploração da mulher – um estudo de operárias têxteis e de confecções no Brasil e
nos Estados Unidos. São Paulo: Hucitec.
____________ (1987). O poder do macho. São Paulo: Moderna.
____________ (1979). A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade. 2.
ed. Petrópolis: Vozes.
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

SALLES, Ricardo (1996). Nostalgia Imperial: A Formação da Identidade


Nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks.
SANTOS, Boaventura de Sousa (2008). A gramática do tempo: para uma nova
cultura política. 2. ed. São Paulo: Cortez.
____________ (1997). A crítica da razão indolente: Contra o desperdício da
expediência. 6. ed. São Paulo: Cortez.
SCAVONE, Lucila (2008). Estudos de gênero: uma sociologia feminista? In
Revista de Estudos Feministas. Florianópolis, 16(1), Jan./Abr. p. 173-186.
SCHEFLER, Maria de Loudes Novaes. MACHADO, Gustavo Bittencourt.
JORDÃO, Eliete Mortimer. Caderno de orientações metodológicas para
Formadores: metodologia, análise-diagnóstico de sistemas de atividades, sob
enfoque de gênero e gerações – manual técnico. Salvador: Redor, 2007.
SCHWARTZ, Roberto (1981). Ao vencedor as batatas (I): forma literária e
processo social nos inícios do romance brasileiro. 2. ed. São Paulo: Duas cidades.
SCHWARTZ, Stuart B (1979). Conclusão. Burocracia e sociedade no Brasil
colonial: A Suprema Corte na Bahia e seus Juízes: 1609-1751. São Paulo:
Perspectiva.
SCOTT, Joan (1995). Gênero: uma categoria útil para a análise
histórica.Tradução: Christine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila. In: Educação
e Realidade: 20(2). Jul./Dez. p. 71-99.
SENTO-SÉ, João Trajano de Lima (Org.) (2005). Pensamento Social Brasileiro.
São Paulo: Cortez.
113

SILVA, Maria Beatriz Nizza da (2002). Donas e Plebeias na Sociedade


Colonial. Lisboa: Editorial Estampa.
____________ (1998). História da família no Brasil colonial. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira.
SODRÉ, Nelson Werneck (1979). Formação da sociedade brasileira. 10. ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
SOIHET, Rachel (1997). Mulheres pobres e violência no Brasil urbano. In: DEL
PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto. p.
362-400.
SOUZA, Jessé (2001). A sociologia dual de Roberto da Matta: Descobrindo
nossos mistérios ou sistematizando nossos auto-enganos? Revista Brasileira de
Ciências Sociais. Vol. 16, nº 45. Fev. p. 47-67.
STAM, Robert e SHOHAT, Ella (2006). Tropos do império (Cap. 4). Crítica da
imagem eurocêntrica: multiculturaismo e representação. Trad. Marcos Soares.
São Paulo: Cosac Naify. p. 199-260.
STOLKE, Verena (1999). O enigma das interseções: classe, “raça”, sexo,
sexualidade. A formação dos impérios transatlânticos do século XVI e XIX. In:
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Revista de Estudos Feministas. v. 7, n. 1-2. Florianópolis: Universidade Federal


de Santa Catarina. p. 15-42.
UNIFEM – Fundo das Nações Unidas para a Mulher (2009). Quem responde às
mulheres? Gênero e responsabilização – Progresso das mulheres do mundo
2008/2009.
VELOSO, Carlos José Rodarte de Almeida (1986). A imagem e a condição da
mulher na obra de autores portugueses da 1ª metade do séc. XVII. In: A mulher
na sociedade portuguesa: visão histórica e perspectivas atuais. Colóquio 20-
22.03.1985. Coimbra: Actas vol. II. Instituto de História Económica e Social –
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. p. 251-270.
VÁRNAGY, Tomas (2005). El pensamiento político de John Locke y el
surgimiento del liberalismo. In: BORON. Atilio A. (org.). La filosofia politica
moderna. Havana: Editorial de Ciencias Sociales. p. 41-82.
VILAÇA, Fabiano (2008). Quem disse que elas são frágeis: Processo de divórcio
do século XIX é um exemplo do que as mulheres faziam para se livrar de maridos
violentos e adúlteros. Revista de história da Biblioteca Nacional. Ano 4, nº 39.
Dez. p. 88-89.
WEBER, Max (2004). Economia e Sociedade: Fundamentos da sociologia
compreensiva. 2. Vol. Trad. Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa São Paulo:
Editora UnB, Imprensa Oficial.
WERNECK VIANNA, Luiz (1999). Weber e a interpretação do Brasil.
Disponível em http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=85.
Acessado em 18.08.2009.
114

7
Anexo

América, de Jan Van der Straet (Johannes Stradanus), pintada entre cerca de
1575-1580
PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0812079/CA

Você também pode gostar