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[-] www.sinaldemenos.org Ano 9, n°12, vol.

2, 2018 2

[-] Sumário # 12, vol. 2

EDITORIAL 4

ENTREVISTA com Marildo Menegat 8

“ONDA CONSERVADORA” OU DECLÍNIO SOCIAL? 20


Marcos Barreira

DOSSIÊ “ISLAMISMO”

DEUS ACOLHE A CRISE 26


Ernst Lohoff

O GRANDIOSO FINAL DO UNIVERSALISMO 40


O islamismo como fundamentalismo da forma moderna
Karl-Heinz Lewed

INSURREIÇÃO, E DEPOIS? 74
Ernst Lohoff

DE MOSCOU A MOSSUL 78
Lothar Galow-Bergemann

DESGRAÇADAMENTE MODERNO 82
Por que o islamismo não pode ser explicado através da religião
Norbert Trenkle

AS ORIGENS DO ESTADO ISLÂMICO NO IRAQUE 90


Colapso social e guerra civil no Jardim do Éden
Maurilio Lima Botelho
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OUTROS ARTIGOS

DIREITO, DEMOCRACIA E A POLÍTICA 132


COMO TORÇÃO DO SIMBÓLICO
Diogo Mariano Carvalho de Oliveira

A CATEGORIA TRABALHO NA (RE)INTERPRETAÇÃO 157


DA TEORIA DO VALOR E NA LUTA DE CLASSES
Thiago Canettieri

ESPECULAÇÕES SOBRE A LUTA DE CLASSES 170


Danilo Augusto de O. Costa

CRUZ E SOUSA: A CONTRALUZ DO ILUMINISMO 195


Poesia, abstração e história de um malogro nacional
Cláudio R. Duarte

RESENHAS
CE CAUCHEMAR QUI N’EN FINIT PAS

Resenha comentada do novo livro de Christian Laval e Pierre Dardot 224


Frederico Lyra de Carvalho
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Deus acolhe a crise


Onde outros veem um conflito do “Oriente contra o Ocidente” ou do
“Ocidente contra o Resto”, a esquerda deve tomar distância e
combater a política identitária culturalista

Ernst Lohoff

A maior parte dos debates políticos e disputas conceituais evanescem sem


deixar muitos rastros ou consequências. Muitos são quase esquecidos enquanto
ainda estão sendo travados. Raros são aqueles que representam rupturas
históricas, encontrando em algum momento um lugar na escritura da história. É
de se temer que o miserável debate sobre o “choque de culturas”, que no início de
2006 ocupou o espaço público não apenas alemão, recaia nessa categoria.

É certo que nesse tempo as fortes ondas geradas pela “guerra das
caricaturas”1 se assentaram, e também a discussão sobre a introdução dos testes
de cidadania para islâmicos evanesceu2; tendo em vista a agudização do conflito
entre Israel e o Hizbollah e a miséria sem fim do Iraque em decomposição, a luta
contra as correntes islamistas e antiocidentalistas no momento parece, a
princípio, um problema de "política externa" dos Estados Unidos e de Israel, e a
sua função política identitária mais uma vez recua ao pano de fundo; mas isso
sempre pode mudar abruptamente. A sociedade mundial está no limiar de uma
catástrofe climática global de consequências imprevisíveis, não apenas no sentido
meteorológico, mas também ideológico e de política identitária.

Diante da crise da sociedade mundial da mercadoria, os “cidadãos do


mundo” modernos se refugiam em comunidades definidas de maneira
culturalista, e procuram abrigo na pseudoclareza das relações de tipo amigo-
inimigo, nas quais as diferenças étnicas e religiosas são elevadas a oposições de

1“Guerra das caricaturas”: referência a um conjunto de doze caricaturas entituladas “A


face de Maomé”, publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten em 2005. As
caricaturas geraram protestos de islamistas, nos quais houve mais de cem mortes,
ataques a embaixadas e a tentativa de homicídio de um dos desenhistas (N. T.)
2 Referência a provas realizadas para candidatos à obtenção de cidadania alemã,

especialmente para os de origem muçulmana (N. T.).


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princípio essenciais. Essa fuga ameaça tornar-se uma bola de neve, que pode
influenciar decisivamente o desenvolvimento da crise. No que concerne aos
centros ocidentais, o antagonismo com o “Islã” tem um papel chave. O
enfrentamento da questão islamista atualiza e revive exatamente aquela projeção
no “judaísmo” como objeto do ódio, que se alojou profundamente no
autoentendimento coletivo do inimigo forjado no Ocidente.

Ninguém pode estimar precisamente o alcance e as consequências dos


acontecimentos atuais. Mas é possível constatar a que ponto o espírito do tempo
já se deslocou em relação ao que era hegemônico ainda nos anos 80 e 90. A era
neoliberal integrou a religião do mercado e o culto extremo do individualismo,
que Margaret Thatcher trouxe por vários anos na formulação tão concisa quanto
famosa: “There's no such thing as society. There are individual men and women
and there are families”.3

Tendo em vista as consequências devastadoras da política neoliberal, essa


concepção simplória do mundo, porém, perdeu o seu poder de convencimento.
Mas não há volta possível para o status quo ante fordista. Os estados nacionais
perderam, de fato, a sua capacidade de integração ideológica e prática da
sociedade, tal como pregado pelo neoliberalismo, mas não deixou o campo aberto
para o combatente individualizado, que só reconhece a si mesmo e a sua própria
família; antes, o seu lugar é assumido por novas identidades coletivas,
caracterizadas pela exclusão e pela definição de inimigos. À medida que a
sociedade se faz ausente, comunidades definidas de maneira culturalista ou
religiosa preenchem os espaços deixados pelos seus sucessivos recuos.

Nos países periféricos, essas comunidades já tomaram há anos uma parte


das funções que segundo o ideal clássico da modernização seriam assumidas pelo
Estado ideologicamente neutro. De certa maneira, é o Hizbollah, e não o Estado
nominal libanês, que cuida, em seu território, da manutenção de uma certa
infraestrutura, e garante à sua clientela um resquício de salvaguarda social.

Na Europa, onde o recuo da capacidade de integração estatal começou a


partir de um nível de socialização muito mais alto, a construção etnicista de

3 “Não existe essa coisa chamada ‘sociedade’. Existem homens e mulheres individuais, e
existem famílias”. Em inglês no original. (N. T.)
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“comunidades imaginárias” (Benedict Anderson) permaneceu essencialmente


como um fenômeno ideológico – mas de amplo e profundo alcance. Isso torna
evidente que mesmo a ideologia de legitimação oficial para a desmontagem do
Estado social local assumiu nova forma. O disparate da individualização das
responsabilidades permaneceu; mas ela se baseia cada vez menos no culto do
indivíduo. Percebe-se no discurso dominical dos governantes que eles evitam
importunar o Estado social com direitos, demandas e reponsabilidade diante do
conjunto da sociedade nacional.

A virada para a comunalidade de base religiosa e culturalista coincide com


a virada para a irracionalidade. A era neoliberal conhecia apenas o “terror da
economia”, ou seja, a racionalidade insana do lucro; o seu tipo ideal era o
calculista frio voltado apenas aos seus próprios interesses. Hoje ressurge, ao
contrário, a heroica comunidade. Por quase um quarto de século a utopia
anticoletivista dominou a paisagem ideológica, na qual os homens unidos
imediatamente pelo mercado têm de concorrer até a morte, sem preconceitos
racistas ou culturalistas, em um mundo sem fronteiras e livre de inimigos.

A encenação identitária coletiva que ocorre com o "choque de culturas", ao


lado da imposição individual na competição do sujeito do trabalho e do consumo,
implica não apenas a exclusão de base etnicista, mas tende também à violência
estetizada.

Culturalismo antiocidental

A miragem de uma sociedade de mercado mundial sem fronteiras, que se


realizaria nos bilhões de empresários de si mesmos acostumados ao sucesso, foi
um produto da lua de mel do capitalismo de cassino. Nas regiões do mundo que
tiveram pouca participação nos longos booms induzidos pelo mercado financeiro,
isso nunca pode se instalar tão profundamente na consciência coletiva quanto nas
metrópoles do centro. Nestas regiões, a etnicização das contradições da sociedade
da mercadoria como forma de reação ideológica dominante se estabeleceu antes,
no processo de globalização de crise.

Especialmente no espaço islâmico entre o Marrocos e o Paquistão, a


decadência econômica e política com a transição para o capitalismo globalizado
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se acentuou, com agudo processo de empobrecimento. O fracasso final dos


regimes de modernização nacional mais próximos ao socialismo na Argélia, no
Egito, na Síria, no Iraque etc., que foi oficialmente selado com o colapso do
socialismo real, deixou também, com a bancarrota da crítica marxista tradicional
do capitalismo, um vácuo interpretativo.

Isso foi percebido pelas tendências antiocidentalistas, que, fatalmente


para o mundo islâmico, não responsabilizam o capitalismo mundial, mas a
influência "decadente" da "cultura ocidental". A fracassada fabricação das nações
árabes, contrariamente ao que pode parecer, abre espaço para um construto
coletivo pós-estatal e pós-moderno: a Umma, a comunidade de todos os crentes
muçulmanos, que seguem o "autêntico" Islã.

O Islã histórico real sempre demonstrou uma boa capacidade de adaptação


aos costumes e circunstâncias regionais. O Islã unia pessoas com condutas e
perspectivas de fé de grande heterogeneidade sob um teto religioso comum. O
Islã "puro e imutável" nunca existiu. A adaptação projetiva da Umma em direção
a um sujeito coletivo idêntico no tempo e no espaço oferece, porém, uma grande
vantagem em termos de política identitária, exatamente após a queda do
nacionalismo laico árabe.

Esse construto permite, por um lado, confrontar “o Ocidente” de igual para


igual em termos de política identitária; a Umma transnacional é a versão
antiocidental do sujeito mundial pós-moderno. Por outro, essa frente de batalha
(entre o "Islã puro" de um lado e os infiéis e apóstatas do outro) permite imputar
a um poder externo tudo aquilo que é ameaçador e destrutivo no capitalismo
globalizado.

Na Europa Ocidental, o etnicismo fincou pé nos anos 80 e 90, de início


principalmente como ideologia neonacionalista confusa e de ampla difusão da
visão de mundo neoliberal, mas que involuntariamente traduziu o medo do
rebaixamento social em programas agressivos de exclusão e ofereceu uma
autoafirmação performativa à identidade branca masculina ameaçada. No que se
refere à determinação da imagem do inimigo e à escolha do próprio padrão
identitário, o etnicismo europeu emergente tomou diretamente as ideias clássicas
nacionalistas e racistas.
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O desenvolvimento in God's own country ofereceu, em contraste, outra


imagem madura, a priori. Aqui se trata acima de tudo do fundamentalismo
cristão, que se fortaleceu, e cuja rede desde o começo exerceu muito mais
influência no discurso público do que Schönhuber, Haider, Le Pen e consortes.4
Além disso, a interpretação cristã-fundamentalista do mundo se movia
contrariamente ao etnicismo europeu autárquico de tipo nacionalista de
pequenos territórios, estando de antemão à altura do tempo pós Estado nacional
da sociedade mundializada.

Enquanto na Europa se queria salvar as "culturas dominantes" nacionais


do "radicalmente estranho" com limitada orientação defensiva, os
estadunidenses agiram de antemão como Global Player e iniciaram,
especialmente na América Latina e na África Ocidental, uma intensa atividade
missionária para a difusão de sua visão de mundo.

A inimizade une

O fundamentalismo islâmico se dirigiu de início de maneira


imediatamente prática contra os regimes de modernização locais em colapso e os
governos-fantoche do Ocidente nos países islâmicos. Nessa fase, ele atuou apenas
marginalmente na Europa e nos Estados Unidos, apesar das guerras civis
sanguinárias, como na Argélia. A constituição de uma corrente jihadista, que
levou o confronto interno para o palco global, significou um salto qualitativo não
apenas para o desenvolvimento do fundamentalismo islâmico, mas também para
o rearranjo da paisagem ideológica no "Ocidente".

Como se estivessem todos apenas esperando por esse adversário, o 11 de


setembro de 2001 marcou a passagem do processo de etnicização da forma
insidiosa para a aberta. Enquanto o Ocidente oficialmente combatia o
fundamentalismo islâmico, extra-oficialmente ele o emulava. Na defesa do
indivíduo e da democracia pluralista contra o retorno das massas fanáticas e da
"questão totalitária" da imaginada "cultura islâmica", a ideologia ocidental dos
direitos humanos assumia cada vez mais os contornos de uma religião tribal pós-

4 Referência a líderes de extrema-direita na Alemanha, Áustria e França,


respectivamente. (N. T.)
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moderna.

Não se trata apenas de um bilhão de pessoas como comunidade


ideologicamente responsabilizada, colocada sob suspeição generalizada, e que
com isso têm a sua exclusão preventiva legitimada; uma vez que os defensores da
"comunidade de valores ocidentais" constrói uma essência da "cultura islâmica"
cujo elemento central é a violência e a opressão das mulheres, eles externalizam
projetivamente o caráter violento e sexista da sociedade capitalista e criam para
si uma contraimagem do "Ocidente", que funciona ao mesmo tempo como
imagem do inimigo e como exemplo.

Já no mentor do Clash of Civilizations, Abu Huntington, é palpável a


ambiguidade da cultura islâmica fabricada, de pensamentos atemporais e
fechados. "Culture is to die for", escreveu ele no álbum de família do Ocidente
para ele em decadência, e declarou já em 1994 que a assimilação do ostensivo
desejo de morte essencial dos "orientais" era precondição existencial para o
"Ocidente" no "choque de culturas".

E também o que ele prescreve para a sobrevivência da "comunidade de


valores ocidentais", além da matança, é bastante claro: “What ultimately counts
for people ist not political ideology or economic interest. Faith and family, blood
and belief, are what people identify, and what they will fight and die for”.5

A unidade espiritual da sociedade mundial da mercadoria, apesar dos


rumores contrários, não está à disposição do Clash of Civilizations. Ela é
produzida em grau há muito inédito na ação recíproca dos cruzados da
democracia e dos islamistas da guerra santa. Mas ela assume uma forma um tanto
diferente daquilo que os mentores neoliberais previram. Ela consiste no
gentlemen's agreement dos etnicistas e fundamentalistas de todos os países para
a instalação de uma espécie de cultura hooligan mundial, com pronunciada
tendência ao apocalíptico.

No que se refere à relação com os muçulmanos que vivem na Europa


Ocidental, a maior parte da população e dos formadores de opinião não segue

5 “O que conta em última instância para as pessoas não é a ideologia política ou o


interesse econômico. A fé e a família, o sangue e a fé, são o que as pessoas identificam,
e é por isso que elas irão lutar e morrer”. Em inglês no original. (N. T.)
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necessariamente com muito entusiasmo o conflito entre a "comunidade de


valores ocidentais" e a "cultura islâmica". Isso não esconde, porém, as profundas
mudanças que já ocorreram.

A necessidade de excluir "o diferente", que por longo tempo permaneceu


difusa, não apenas recebeu um objeto identificável no construto do Islã, mas
também se tornou, como "defesa das conquistas ocidentais", compatível com o
liberalismo. O brado sombrio e vago "fora estrangeiros" da escória fascista, no
contexto da chamada "capacidade de integração" dos muçulmanos, toma uma
forma de impasse muito adequada ao pensamento do centro democrático.

Para a crítica da suposta ou real autoguetização da minoria islâmica, o


ressentimento anti-islâmico torna-se aceitável. O chamado à integração é
propagado por meio da exclusão, e naturalmente há muitos talkshows
convenientes e "convertidos" de maneira livre e democrática protegidos pelo
Spiegel, Schily e Companhia, como a inevitável Necla Kelek, que serve de
testemunha contra os seus duros irmãos e irmãs de fé.6

A força da exclusão para fabricar consensos é agora revelada pelas


pesquisas de opinião. Segundo uma pesquisa da Allensbach ainda sob o impacto
do 11 de setembro, apenas 43 por cento da população alemã responde
negativamente quando perguntada se se deve esperar tensões maiores com a
população islâmica na Alemanha. Um estudo posterior mostrou que esse número
foi reduzido para apeanas 22 por cento (FAZ de 17 de maio de 2006). Esse é o
terreno no qual a "guerra de civilizações" como guerra preventiva populista de
grande escala se torna executável e toma o caráter de uma self-fulfilling
prophecy.7

A vilanização do Islã ganha contornos internos cada vez mais claros. Isso
se choca contra o grande ceticismo em relação à chamada cruzada democrática
"contra o terror" no Iraque e na "velha Europa". Por um lado, a perspectiva de
uma guerra civil mundial compreensivelmente provoca mais medo do que
entusiasmo por parte daqueles que ainda não perderam o juízo. Por outro, outra

6 Necla Kelek: socióloga alemã nascida na Turquia, conhecida por suas posições críticas
em relação ao Islã. (N. T.)
7 Profecia que se autorrealiza. Em inglês no original. (N. T.)
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projeção culturalista se sobrepõe e contrarresta o efeito anti-islamista.

Exatamente na Alemanha, o berço espiritual original do antiocidentalismo, os


tempos de crise possuem um fundo ideológico que pode ser recuperado, de
externalização do que é percebido como ameaçador no capitalismo mundial na
forma projetiva "civilização ocidental", para identificar-se com mais
determinação com o seu "lado bom". O velho construto "cultura alemã versus
civilização ocidental" encontrou uma forma contemporânea pós Estado nacional
no confronto entre a "velha Europa" amante da paz e o Ocidente asselvajado,
representado pelos Estados Unidos.

A etnicização interna ao imperialismo pode funcionar como contrapeso da


vilanização do Islã. Isso é demonstrado pelo equilíbrio precário das
caracterizações vilanizadoras culturalistas que concorrem entre si de maneira tão
vigorosa quanto os padrões interpretativos em conjunto se tornaram
onipresentes. Tampouco o fato de que o chamado ao "diálogo intercultural" da
política oficial momentaneamente ressoe mais alto do que o brado pelo "choque
de culturas" é ocasião para desligar os alarmes.

Esse padrão de linguagem e pensamento demonstra, ao contrário, o


quanto a metamorfose culturalista avançou nesse meio tempo. Se as "culturas"
devem dialogar, os indivíduos e seus problemas são silenciados e grupos de
pessoas com histórias específicas e experiências sociais diferentes já são
metamorfoseadas em meros representantes de pensamentos homogeneizados de
blocos identitários coletivos.

A princípio deveria ser saudado o fato de que na Alemanha se discute


politicamente não apenas sobre os imigrantes, mas com os imigrantes. Mas por
que as organizações islâmicas são automaticamente os interlocutores
preferenciais dos imigrantes do norte da África e do Oriente Médio, e não
associações indiferentes à religião? Por que se lamenta a falta de uma
contrapartida das igrejas cristãs ao "lado" islâmico? O discurso da necessidade de
construir pontes entre a "Cristandade" e o "Islã" se baseia no reconhecimento do
sistema etnicista que pregam Huntington e os jihadistas, e a sociedade mundial
acaba por recair em entidades culturais e, de regra, religiosas, fixas e claramente
delimitadas.
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Um conflito intracultural

O fundamentalismo islâmico encarnou na "civilização ocidental" o seu


oponente oficial, e em primeiro lugar no "grande e pequeno Satã", ou seja,
Estados Unidos e Israel. Esse autoentendimento, porém, não consegue esconder
um elemento essencial. Apesar das ações espetaculares contra "sionistas e
cruzados" comandadas por organizações como o Hizbollah e a Al-Qaeda, o
fundamentalismo islâmico encontra o seu verdadeiro campo de batalha e os seus
verdadeiros destinatários nas comunidades islâmicas e comunidades de
imigrantes.

Mary Kaldor em sua análise das "novas guerras" demonstrou que os


combatentes étnicos dos anos 90 não se dirigiam tanto uns aos outros nas
batalhas, mas em primeiro plano contra a população civil relutante "no seu
próprio lado".8 Essa descoberta se aplica também para o "choque de culturas". As
ruidosas declarações de guerra dirigidas ao “exterior” anunciam acima de tudo
uma campanha "interna" nem tão silenciosa. O “choque de culturas” cria o
quadro de referência no qual o fundamentalismo islâmico, com a invenção do
“Islã puro”, pode legitimar e desenvolver uma rígida coerção à adaptação e à
homogeneização, tanto na diáspora muçulmana quanto nos países islâmicos. A
onda repressiva, que dessa vez respinga no Irã, revela muito a esse respeito.9

Apenas o confronto com os Estados Unidos torna possível em poucos anos


marginalizar e criminalizar a até então poderosa oposição civil como suposta
"quinta coluna". Mas essa é apenas a variação estatal de um mecanismo que já
funciona de maneira pós-estatal. Basta que o "Ocidente" imagine e trate os
muçulmanos como massas fanáticas obscurantistas, para fortalecer a política
identitária antiocidental. À medida que a sociedade local exclui, à medida que a
"política de segurança" ocidental pune o refém como se fosse o sequestrador, ela
cria exatamente aquilo que teme. Esse é o tipo de ataque ideológico, policial e
militar que faz com que aquilo que se quer combater na verdade se fortaleça com

8 Mary Kaldor: acadêmica britância, professora de governança global na London School


of Economics. (N. T.)
9 Referência à escalada repressiva iniciada com o governo de Ahmadinejad a partir de

2005. (N. T.)


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vigor.

Mas também sob outro ponto de vista a belicosidade ocidental em nome


dos direitos humanos funciona como contrarrevolução preventiva. O seu
programa de exclusão tem efeito não apenas em relação ao fundamentalismo
islâmico como um programa de apoio, mas, além disso, o "choque de culturas"
cria o clima ideal para instaurar a repressão e coerção fortalecidas para a
adaptação, e engendra uma coalizão fatal. Com o "Patriot Act" e as relevantes leis
de segurança na Europa, os governos forjaram armas que não apontam para os
novos inimigos externos do confronto, mas que podem mostrar a sua utilidade
como instrumento de repressão de movimentos emancipatórios.

Sob a casca da luta intercultural se esconde, na verdade, um conflito


intracultural. Isso não apenas no sentido de que no Clash of Civilizations se
constitui uma espécie de "grande coalizão" secreta entre os poderes
antiemancipatórios de ambos os lados da alegada trincheira "cultural"; o
fundamentalismo islâmico é carne da civilização ocidental, contra a qual ela entra
em campo. A ideia de que o choque de "culturas" é um conflito entre a
modernidade e a pré-modernidade é pura ideologia, e é tão difundida quanto
conceitualmente absurda.

O fundamentalismo islâmico gosta de falar e agir energicamente como se


fosse a ruptura absoluta com o pensamento moderno ocidental, mas na verdade
se trata de um movimento hipermoderno. Isso não apenas devido à simples
utilização dos meios da técnica moderna, em especial a manipulação
frequentemente virtuosa das possibilidades midiáticas da "era da informação",
mas também nos seus conteúdos e objetivos. Quem confunde a ideologia do
fundamentalismo islâmico e sua produção de identidade com o Islã tradicional
poderia também supor, a partir do culto germânico de Himmler e companhia,
que os nazistas pensavam e sentiam como os antigos povos germânicos.

A própria ideia de um "Islã puro" em si homogêneo tem suas raízes não na


realidade histórica passada; se trata muito mais de uma ideia genuinamente
ocidental. E também o ostentado amor à morte não se origina de maneira alguma
da tradição especificamente islâmica, mas está relacionada com a história da
modernidade, e tem nela o seu modelo.
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Ela se adapta – Farhad Khosrokhavar desenvolveu essa ideia há dez anos


– a uma refundação assassina da subjetividade moderna frente ao pano de fundo
de uma modernização nacional fracassada: "quando o projeto de constituição dos
indivíduos, que participa plenamente da modernidade, revela o seu absurdo na
experiência real da vida cotidiana, a violência se torna a única forma de
autoafirmação para o novo sujeito. A nova comunidade se torna então
comunidade da morte. A exclusão [Ausschlissung] da modernidade assume
significação religiosa: o autossacrifício se torna um caminho para lutar contra a
exclusão [Exclusion]".10

Considerando essa constelação, torna-se supérfluo discutir se o verdadeiro


mal a ser considerado é o Ocidente em sua nova realidade ou o fundamentalismo
islâmico. Essa discussão é inútil e fatal. O multiculturalismo de direitos humanos
ocidental e as comunidades da morte de roupagem religiosa não são a mesma
coisa, mas são dois lados da mesma moeda, uma política identitária pós-moderna
altamente perigosa sob o signo da crise da sociedade de mercado mundial. Elas
só podem ser entendidas e combatidas em conjunto.

A teoria crítica social de orientação política anti-identitária não deve de


forma alguma minimizar as diferenças entre o antiocidentalismo islâmico e o
belicismo ocidental dos direitos humanos, muito pelo contrário. Somente uma
crítica radical do campo de referência comum no qual os adversários pensam e
agem esclarece também o que separa e diferencia os inimigos-irmãos.

A emancipação é anticulturalista

Há poucas razões para se chorar pela era neoliberal e seu culto à


individualização. Mas havia ao menos uma utilidade colateral. Pegando carona
em seu impulso, prosperou por anos a fio nos círculos intelectuais ambiciosos a
crítica da ideia das identidades "culturais", "raciais" e "sexuais" fixas. O
pensamento desconstrutivista não deixou de ter um certo carisma social.

Hoje tem lugar em amplas frentes uma reversão. A visão culturalista está

10Farhad Khosrokhavar (1948) sociólogo franco-iraiano, atual diretor de estudos na


Escola de Altos Estudos Sociais em Paris. O livro referenciado é L’islamisme et la mort:
le martyre révolutionnaire en Iran. (N. T.)
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a ponto de tomar o poder da definição e a liderança de opinião. O desejo de


fabricar definições identitárias, em vista da crise da sociedade mundial, se tornou
uma das fontes principais de opressão, destruição e caos. Quem se coloca a favor
da emancipação, e não da autodestruição, tem de contrarrestar esse fenômeno. O
ponto de vista da libertação, sob as condições do capitalismo globalizado, só pode
ser o da “desconstituição do povo” [Entvolkung] (Franz Schandl) e da
desculturalização. Isso vale especialmente após o fim da "boa fase" na qual a
opinião dominante confundiu a globalização com uma pacificação sob o signo do
mercado totalizado.

Dificilmente se pode dizer que a esquerda europeia até aqui tenha se


colocado essa questão. Ao invés de ter uma posição ofensivamente contrária ao
movimento de culturalização, ela apenas reproduz em pequena escala a tendência
geral. Enquanto a maior parte da esquerda desapareceu no silêncio, as vozes nos
debates relevantes de uma ou outra maneira participam da virada culturalista.

Com especial zelo, todas as minorias participam do jogo da etnicização,


tomando o lugar da fração hardcore na luta contra a "eterna confusão islâmica",
e com isso passam do anticapitalismo para o liberalismo. Aos olhos dos "amigos
da sociedade aberta", o potencial irracional e altamente destrutivo do
fundamentalismo islâmico simplesmente deixa de ser visto como um parceiro de
Bush e Companhia para ser um campeão da emancipação, e os Estados Unidos se
tornam uma espécie de imagem invertida no espelho do antiamericanismo, a
"terra da liberdade". No palco europeu em geral, o funcionamento da
reconciliação com as relações dominantes foi documentado, entre outros, pelo
"Manifesto Euston", compilado no último ano por blogueiros britânicos.11

Fazem parte da grande corrente culturalista regressiva não apenas aqueles


que, sob o signo dos "valores ocidentais", confraternizam com o liberalismo e com
a reação, mas também a sua concorrência de esquerda. Nos anti-imperialistas
vulgares (como o AIK) isso é bastante visível. Eles analisam as correntes pós-
modernas antiemancipatórias ainda com as lentes herdadas dos anos 70, quando
conheceram esses novos movimentos de libertação nacional. Celebra-se com toda
a seriedade as vitórias eleitorais do Hamas, como se fosse uma espécie de Unidad

11 “O Manifesto de Euston”: disponível em http://eustonmanifesto.org/blog/wp-


content/uploads/2009/06/PT_Manifesto.pdf (N. T.)
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Popular da Palestina, aplaude-se a chamada "revolta iraquiana", como se se


tratasse de uma versão árabe dos Vietcongues.

Mas também a parte majoritária da esquerda, que evita esse tipo horrível
de tomada de partido e pratica a equidistância e a neutralidade, de forma alguma
fica de fora do movimento de culturalização. De um lado, não apenas aqui e
independentemente de uma "guerra contra o terror", o limite entre a esquerda e
o anticapitalismo, de um lado, e uma difundida má vontade antiamericana, de
outro, é bastante permeável. Frente a esse pano de fundo acabou por se
naturalizar o mal-entendido de que os programas de assassinato e suicídio das
elites modernizadoras fanáticas pela morte seriam um suspiro maligno, mas de
qualquer forma compreensível, das massas humilhadas e insultadas do mundo
islâmico. O que se apresenta oficialmente como neutralidade e equidistância
frequentemente tem um programa bastante claro.

Por outro lado, a “neutralidade” e a “imparcialidade” – inclusive quando


são levadas a sério – não entendem o caráter do conflito. Esse ponto de vista leva
em consideração apenas a faceta oficial, e aceita a oferta dos ideólogos da cultura,
que vendem um conflito intracultural como intercultural. Diante da rígida
coerção ao confessionalismo e à militarização, que é garantida de “ambos os
lados” da população civil, toda “equidistância” é de antemão interditada. E
quanto ao choque dos partidos oficiais, a “neutralidade” assume uma simetria
que passa ao largo da realidade.

O anticapitalismo que faz jus ao nome lida de forma diferente com o


evocado Clash of Civilizations. Ele não pode nem apelar abstratamente pela
"paz", para divagar sobre tempos melhores, nem se envolver no jogo dos
etnicistas, colocando-se ao lado do mal supostamente menor. Ao invés de agitar
a bandeira branca, trata-se de tomar partido de maneira plenamente consciente,
mas o partido daquilo que os ideólogos da "comunidade" destroem, o partido
daqueles que buscam escapar da coerção à uniformização, à classificação e à
militarização.

A situação clama não por mediação e reconciliação no terreno do


culturalismo, mas por um "terceiro" poder social, que se coloque completamente
contra o culturalismo. No momento, iniciativas estritamente anticulturalistas
[-] www.sinaldemenos.org Ano 9, n°12, vol. 2, 2018 39

como a Medico International, no centro do conflito, são raras, e não há alternativa


consequente para o desenvolvimento de sua antipolítica.

Quem pensa que a onda etnicista perderá força e que outros “temas”
voltarão ao centro da conjuntura, pode esperar sentado. Acabou-se o tempo no
qual o culturalismo era um fenômeno mundial localizado na periferia do mercado
global, do qual o centro capitalista não se envolvia. Querendo ou não, a esquerda
europeia se encontra em uma constelação histórica diferente. Uma perspectiva
de esquerda hoje só pode ser formulada em contraposição à visão de uma guerra
civil mundial em constante latência, como um contraprograma político
claramente anti-identitário, em oposição à fabricação de definições culturalistas.

Se a esquerda europeia não tomar essa nova orientação, ela perderá não
apenas a sua legitimidade, mas também o seu fundamento existencial.

[Traduzido por Daniel Cunha.

Título original: Gott kriegt die Krise

Publicação original: Jungle World, 27.09.2006 –

http://jungle-world.com/artikel/2006/39/18275.html ]