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Anti-política em tempos de fúria homicida

capitalista
Teses sobre a administração neoliberal da crise e as perspectivas da emancipação social

de Norbert Trenkle

Tradução de Javier Blank do texto original: “Antipolitik in Zeiten kapitalistichen Amoklaufs. Thesen
zur neoliberalen Krisenverwaltung und den Perspektiven soziales Emanzipation” em Lohoff et al
(orgs.). Dead men working. Münster: UNRAST-Verlag, 2004.

1.

Desde o seu início a compulsão inerente à lógica capitalista de valorização de transformar


todas as relações sociais em relações mercadoria-dinheiro provocou resistência. Vinte
anos de hegemonia neoliberal e a propaganda segundo a qual não há alternativa à forma
existente de sociedade não puderam suprimir esse impulso. A experiência de uma vida
sujeita às leis do mercado total e da concorrência onipresente é intolerável demais; a
espiral mundial da miséria posta em marcha pelo processo de crise capitalista é
insuportável. No início do século 21, o surgimento de uma nova conjuntura de lutas sociais
pode abrir novas perspectivas para a resistência contra a sociedade global da mercadoria.
No entanto, não cabe um otimismo exagerado. Levando em conta a mobilização mundial e
a simultaneidade dos protestos, seja na Bolivia, na Argentina, na França ou na Itália, assim
como a presença mediática dos Fóruns Sociais, por exemplo, e as grandes
demonstrações do movimento anti-globalização, é antes surpreendente como foram
pequenas as conquistas materiais. Na Argentina, o governo foi derrubado com o lema:
“que se vayan todos”; otimistas interpretaram isso como uma mudança radical de
consciência, como uma crítica fundamental do Estado e um abandono da ilusão política.
No entanto, um ano depois as eleições presidenciais registraram um comparecimento
surpreendentemente alto e o novo presidente Kirchner desfruta, pelo menos por enquanto,
de uma popularidade muito alta, embora ele continue basicamente a política neoliberal
anterior. No entanto, ele conseguiu distrair a atenção, por um lado, trazendo à tona de
maneira espetacular o confronto com os crimes da ditadura militar e, por outro, com a
promessa espalhada aos quatro ventos de, através de uma política neo-keynesiana,
desenvolver o mercado interno e fortalecer novamente a indústria nacional. Embora essa
promessa seja completamente infundada em face da realidade da crise, ela mexe com um
anseio nostálgico de um passado transfigurado de força econômica e apela a uma vontade
desesperada de, diante da falta de perspectivas, acreditar nesse conto de fadas.
Também na Bolívia a mudança forçada de governo provocou apenas uma mudança na
retórica e na política simbólica. Se os depósitos de gás natural não foram (por enquanto)
vendidos a preços baixos devido ao protesto que esse projeto avivou, fora isso, o novo
presidente Mesa está tentando canalizar o descontentamento de maneira populista, por
exemplo, jogando a carta nacionalista e retomando a velha demanda ao Chile de ter
acesso ao mar, como se isso resolvesse os problemas econômicos e sociais do país.
Finalmente, as numerosas greves e manifestações na França e na Itália contra os
intensificados cortes sociais praticamente não deram em nada, embora tenham sido
levadas adiante e apoiadas por grandes setores da população. Não resultou em mais do
que algumas correções cosméticas superficiais às políticas neoliberais. Raramente a
desproporção entre a mobilização dos protestos e os resultados alcançados foi tão
pronunciada.

Mas seria restrito demais mensurar as lutas sociais simplesmente pelos seus resultados
políticos imediatos. Especialmente depois de longos anos em que a resistência e o
protesto social pareciam estar paralisados, as próprias experiências de luta e os efeitos de
auto-organização e solidarização que lhes correspondem (também e não em último lugar
no plano do quotidiano) ganham um valor inestimável. A quebra, nos movimentos sociais,
da individualização e da concorrência cotidiana representa por si só um avanço em relação
aos muitos anos de calma oposicionista. E também os sucessos materiais diretos,
especialmente na Bolívia e na Argentina, vão muito além da mudança forçada das
lideranças políticas. A apropriação colectiva dos meios de subsistência e de produção, a
ocupação de fábricas, edifícios e terras, a criação de centros de comunicação e cultura
autónomos, a constituição de cooperativas e redes de auto-ajuda, tudo isso não só alterou
de um modo fundamental o quotidiano dos implicados, mas igualmente criou uma base
para a mobilização da resistência e para a continuação da luta em um novo patamar.

No entanto, a maneira como irão se desenvolver os conflitos sociais no futuro próximo, se


eles de fato ganharão uma nova qualidade emancipatória, não está de maneira alguma
determinada. Isso depende não em última instância da maneira em que a ineficácia
evidente das lutas até o presente se refletirá no plano político e os desdobramentos disso.
Tem prevalecido em certa medida a ideia segundo a qual os conceitos clássicos de
emancipação, que sempre de uma forma ou de outra visaram a toma do poder do Estado,
tornaram-se obsoletos. Poder-se-ia falar, de certo modo, de uma tendência anti-política em
parte espontânea e em parte consciente. Mas essa tendência é contraditória; a relação
com a política e com o Estado permanece extremamente ambígua inclusive naqueles
movimentos que não aspiram às alavancas do poder político. Persiste teimosamente a
ideia segundo a qual a alteração da correlação de forças sociais permitiria uma ‚outra
política‘, embora ninguém saiba realmente onde isso acabaria. Donde também a forte
suscetibilidade a um populismo que reside na simulação de tal política, depois desta ter
perdido sua base real. Ora, esse espectro de ilusão política obscurece a visão de uma
perspectiva de emancipação social que só pode existir na abolição das compulsões
capitalistas do trabalho, do dinheiro, do mercado e do Estado.

2.

A referência positiva à política por parte dos movimentos de protesto social, especialmente
da esquerda, é um produto histórico do processo de ascensão e imposição da sociedade
moderna produtora de mercadorias. Depois de ter desempenhado um papel central na
instalação do capitalismo no início da Modernidade, promovendo a monetarização da
sociedade, criando um espaço territorial e legalmente seguro para a circulação de
mercadorias e ajustando à força as pessoas para seu funcionamento como sujeitos do
trabalho e do mercado, mais tarde o Estado foi assumindo progressivamente a tarefa de
garantir e assegurar as condições gerais da valorização de capital. Ao mesmo tempo, o
Estado representava uma instância que impunha certas restrições à interação desenfreada
das forças do mercado e, a esse respeito, tornou-se também o destinatário das
reivindicações sociais. No entanto, é claro que o Estado nunca foi uma entidade extra-
capitalista, antes, enquanto o outro pólo do mercado, condição de existência de uma
sociedade mercantil generalizada. Ele nunca foi capaz de anular ou substituir as leis da
produção de mercadorias enquanto tais, mas sempre só de regulá-las e guiá-las até certo
ponto. O capitalismo nunca teria sido capaz de se estabelecer como um sistema social
abrangente sem essa regulamentação estatal, pois a partir do dinamismo inerente à
concorrência, tende a se autodestruir e a destruir os fundamentos sociais e naturais da
vida humana. Contudo, a capacidade do Estado e da política de regular e limitar a lógica
de mercado estava ligada a uma condição histórica muito específica, varrida pela terceira
revolução industrial. O salto quântico no desenvolvimento das forças produtivas, baseado
na micro-eletrônica, por um lado, rompeu irrevogavelmente os limites da economia
nacional e promoveu a transnacionalização das estruturas de produção, organização e
comercialização do capital. Assim, o processo de criação do mercado mundial, inerente à
compulsão capitalista de expansão e crescimento, culmina como um espaço de produção
e circulação de mercadorias livre de obstáculos. Por outro lado, o enorme aumento da
força produtiva leva a uma profunda racionalização econômica e automação nos setores
centrais de valorização de capital e, portanto, a um deslocamento massivo da força de
trabalho viva. Mas como o único propósito do capitalismo é fazer do valor (representado
em dinheiro) mais-valor, e o conteúdo dessa categoria fetichista é o „trabalho abstrato“, o
processo de deslocamento da força de trabalho viva põe em movimento um processo de
crise fundamental que mina as bases da socialização capitalista.
Essa crise, na qual culminam historicamente as contradições internas do capitalismo, não
deve ser entendida certamente como um „crash“ ou „colapso“ único. Pelo contrário, é um
processo de longa duração que começou há cerca de três décadas e continuará ainda por
muitas outras. Ele se apresenta como uma espiral descendente de destruição e
aniquilação dos fundamentos sociais e naturais da vida, que só pode ser detida por um
movimento emancipatório transnacional, que rompa com o sistema devorador de homens
da moderna produção de mercadorias. Paradoxalmente, o início desse processo de crise
capitalista fundamental coincide historicamente com a finalização da criação do mercado
mundial e, portanto, com a instauração global da sociedade da mercadoria como forma
social dominante. A forma capitalista torna-se universal, mas seu único conteúdo, a
substância do trabalho, é simultaneamente derretido. É precisamente esse paradoxo de
uma forma geral que destrói seu conteúdo que confere à crise seu brutal poder destrutivo
e sua forma de desenvolvimento específica. Por um lado, todas as formas não-capitalistas
de reprodução social e material foram quase completamente destruídas, razão pela qual,
em princípio, todas as pessoas no mundo todo são forçadas a vender sua pele no
mercado a quem quer que seja se quiserem sobreviver. Por outro lado, no entanto, a
maioria delas são supérfluas para o capitalismo porque a sua força de trabalho não é
necessária para a valorização. O resultado disso é o aumento da pressão sobre aqueles
ainda integrados nas cadeias de valorização para trabalhar mais duro e por mais tempo,
enquanto uma parte crescente da população mundial é excluída e marginalizada.
Expressão disso é a expansão acelerada do trabalho precário no nível da miséria absoluta
e um crescimento cada vez mais rápido do “setor informal”, que não têm uma qualidade
fundamentalmente diferente do setor “formal”, mas representa apenas a forma de crise na
qual o capitalismo se faz realidade para a maior parte da humanidade[1].

3.

Como o atual processo de crise não consiste apenas em uma crise econômica cíclica ou
em uma mudança estrutural temporária na história do desenvolvimento capitalista, mas em
uma ruptura fundamental no nível da forma social básica, todas as tentativas políticas de
uma gestão da crise estão começando a falhar. Pois a política, como forma historicamente
específica de ação social geral vinculada à sociedade produtora de mercadorias, depende
também de condições estruturais muito específicas, em particular do arcabouço
institucional do Estado-nação (embora também exista política internacional, ela diz
respeito, como o termo já aponta, à regulação mais ou menos violenta e hierárquica das
relações entre Estados-nação). O processo de crise mina os fundamentos da sociedade
capitalista e ao mesmo tempo as condições de existência do Estado-nação, e quebra o
quadro de referência da política, torna-se esta cada vez mais impotente.
Evidentemente, o grau de decomposição do Estado e da decorrente impotência da política
depende em grande medida da posição de cada país na hierarquia do mercado mundial.
Nas regiões de catástrofe especialmente atingidas pela crise, em grandes partes da África
e da Ásia, assim como em certas regiões da Europa Oriental e da América Latina, o
Estado já se tornou uma concha vazia no interior da qual bandos rivais lutam pelos
remanescentes da riqueza social. Enquanto isso, nos países ocidentais tais tendências
vêm se desenvolvendo sob a superfície de uma estatalidade ainda bastante estável. É
sintomática a esse respeito a crescente fusão do aparelho de Estado com o crime
organizado e um agravamento da polarização sócio-económica regional que é
frequentemente carregada etnicamente e representa o início de uma decomposição
estatal. Os Estados, aparentemente fortes, estão encurralados economicamente por dois
lados. Por um lado, com o derretimento da substância do trabalho, encolhe a massa de
valor que os Estados podem absorver através dos impostos e taxas para financiar suas
atividades. Além disso, a transnacionalização torna mais fácil para as empresas
escaparem do controle estatal, o que era possível de maneira rudimentar sob as condições
de uma economia nacional razoavelmente coerente. Em vez disso, os próprios Estados
estão se tornando cada vez mais dependentes do capital e devem fazer tudo o que
puderem para estabelecê-los em seu território. Esta absurda “concorrência por
localização” é cada vez mais duramente travada não apenas entre Estados, mas também
entre regiões e cidades. O resultado é uma progressiva incapacidade de ação e manobra
da política, que pode intervir cada vez menos na regulação das relações de mercado, e é
degradada por sua vez a uma variável dependente dos movimentos do mercado mundial.

A perda de poder do Estado em relação ao processo auto-dinâmico da crise capitalista é


frequentemente explicada como sendo o resultado de uma estratégia política ou
orientação específica, que responde ao nome de neoliberalismo, e que foi imposta por
poderosos grupos de interesse. Essa visão, como é encontrada especialmente no contexto
do neo-keynesianismo e do antigo marxismo da luta de classes, cumpre de fato apenas o
propósito ideológico de manter a antiga crença na viabilidade política – ou, em outras
palavras, do primado da política. Portanto, ele dependeria apenas da construção de um
contra-poder social, que se imporia numa “outra política” sob relações de forças sociais
transformadas.

Essa perspectiva política obscurece o dramatismo do desenvolvimento em curso e obstrui,


portanto, a visão de uma necessária re-orientação dos movimentos emancipatórios. No
entanto, ela tem um núcleo real na medida em que – embora distorcidamente – se refere à
dimensão subjetiva da ação no processo de crise. O curso cego do desenvolvimento
histórico da autodestruição do capitalismo não se impõe em suas conseqüências
automática e imediatamente em todas as estruturas e áreas sociais, mas deve ser
mediado por ações e decisões sociais e políticas, assim como pela mudança de padrões
ideológicos de percepção. A política desempenha mais uma vez um papel importante
neste processo de mediação. Mas ele não consiste mais na regulação dos processos
socio-econômicos, mas apenas na destruição irrevogável de seu próprio campo de
referência. A tão louvada „recuperação da capacidade de agir“, tagarelada por todos os
ideólogos neoliberais ao se queixarem da „paralisia da política“ do Estado de bem-estar
social e da burocracia, consiste apenas em uma empresa de demolição das estruturas
(sociais) do Estado. Dessa maneira, a política remove ela mesma o chão embaixo dos
seus pés. O que então resta dela, na melhor das hipóteses, é uma fachada de pós-política,
por trás da qual progridem o asselvajamento e a decomposição das relações sociais.

É claro que uma tal „política“ meramente destrutiva de auto-liquidação nunca teria
prevalecido em escala global se fosse simplesmente o instrumento de poderosos
interesses capitalistas. Pelo contrário, ela só se explica como uma forma específica de
processamento da pressão objetiva exercida pelo processo de globalização e de crise.
Somente o fim do fordismo, o desmembramento da coerência relativa entre Estado
nacional e economia nacional e a intensificação da concorrência no mercado mundial (que,
entre outras coisas, destruiu os fundamentos do modelo de desenvolvimento orientado ao
mercado interno do Terceiro Mundo e do “socialismo real” do capitalismo de Estado)
criaram o terreno sobre o qual o neoliberalismo poderia conquistar sua hegemonia. No
entanto, seus “conceitos políticos” consistem somente em executar “conscientemente” o
desencadeamento da concorrência imposto pelo processo de crise e remover todas as
barreiras que ainda possam estar no caminho. Isto inclui, por exemplo, a quebra de
barreiras comerciais (direitos alfandegários, restrições de importação, etc.), a privatização
da infra-estrutura, o corte dos sistemas sociais, a desregulamentação do mercado de
trabalho e assim por diante.

Tais medidas, evidentemente, são sempre controversas e contestadas e devem ser


aplicadas contra resistências mais ou menos severas e, se necessário, também pela força.
Isso, por sua vez, requer uma personagem que não se coíba de fazer o negócio sujo: a
junta militar no Chile, que com seu golpe contra o governo socialista em 1973 abriu o
caminho para o primeiro “experimento” neoliberal, ou uma Margaret Thatcher quem, entre
outras coisas, conseguiu quebrar o poder do movimento sindical britânico – para citar
apenas dois exemplos. Em nível global, é claro, instituições como o FMI e o Banco
Mundial também desempenham um papel importante na abertura de mercados,
privatizações e cortes de benefícios sociais com seus infames „programas de ajuste
estrutural“.

Não que o neoliberalismo tivesse uma ideia clara dos processos econômicos básicos auto-
dinâmicos. Pelo contrário, ele é ideologia bem no sentido de Marx: falsa consciência
necessária. Como tal, no entanto, ele cumpre certamente uma função orientadora para a
gestão da crise capitalista. Trata-se fundamentalmente de um corpo de pensamento muito
primitivo que nem sequer atende aos padrões mais simples da ciência positivista-
burguesa. Já nos anos 1960, Hans Albert, uma das principais mentes do positivismo
moderno, observou que a economia neoclássica (o fundamento “teórico” do
neoliberalismo) perseguia essencialmente um „modelo platónico“ puro que não afirmava
nada sobre a realidade empírica. Mas pode-se falar também de um sistema de delírios
que, como tal, corresponde à fúria homicida da autodestruição capitalista.
Paradoxalmente, o neoliberalismo é funcional ao gerenciamento das crises porque ofusca o
processo de crise, e consequentemente desvanece a realidade, negando-a teoricamente.
Precisamente isso predestina-o como ideologia básica de uma época em que a dinâmica
desencadeada do capitalismo conhece apenas uma direção: a aniquilação do mundo.

4.

Como se sabe, os problemas estruturais do capitalismo resultam apenas, segundo os


ideólogos neoliberais, do fato de que o Estado tem muita influência no mercado, e através
de todo tipo de regulações – em particular, é claro, dos direitos trabalhistas e das normas
ambientais – os efeitos supostamente benéficos da livre concorrência são bloqueados.
Portanto, se a sociedade seguisse a receita de fazer recuar o Estado e liberar as forças do
mercado, supostamente inauguraria uma nova era maravilhosa de crescimento,
prosperidade e trabalho em massa. Para além do fato de que a promessa de transformar
completamente todos os impulsos humanos em mercadorias e dinheiro já representa uma
verdadeira ameaça e uma concepção horrorosa, deve-se notar que o neoliberalismo tem
feito o ridículo – avaliado inclusive com seus próprios padrões. Também no sentido vulgar
de um desacordo entre afirmação e realidade, trata-se de pura ideologia. Seus alegados
“sucessos“ econômicos (crescimento econômico, criação de novos empregos, etc.) não
passam de fraude. Em primeiro lugar, eles se concentram em algumas regiões centrais do
mercado mundial e inclusive ali restringem-se a segmentos cada vez menores do território
e da população, enquanto do outro lado cada vez maiores parte do planeta tornam-se de
fato supérfluas para a valorização de capital; cortadas praticamente do fluxo de
mercadorias e dinheiro, são lançadas em uma espiral descendente de indigência.

Em segundo lugar, mesmo nas regiões e segmentos sociais não tão duramente atingidos
por enquanto pelo processo de crise, o “sucesso” econômico não é o resultado de algo
como um livre desenvolvimento das forças do mercado e uma retirada do Estado da
economia. De maneira alguma resultam de uma implementação da doutrina neoliberal
pura mas são, de fato, o resultado de permanentes intervenções estatais mega-
keynesianas nos ciclos econômicos. No decorrer das décadas de 1980 e 1990, os gastos
estatais não foram reduzidos nos países que ainda participavam em um grau significativo
no mercado mundial; ao contrário, aumentaram ou, pelo menos, permaneceram estáveis
em relação ao produto nacional bruto. Isso vale especialmente para os países centrais do
neoliberalismo, os EUA e a Grã-Bretanha. Em ambos os países, a chamada quota do
Estado (a participação do Estado na produção econômica total) é praticamente tão alta
hoje quanto na década de 1970, apesar de a maior parte da infra-estrutura ter sido já
privatizada e de restarem apenas algumas poucas ruínas dos sistemas sociais.

No entanto, por trás dessa participação do Estado na economia, quantitativamente


constante, oculta-se uma ruptura qualitativa estrutural decisiva em relação à era do
fordismo do pós-guerra, que é característica do desenvolvimento do processo de crise
capitalista e de sua administração política. Em primeiro lugar, os gastos estatais são cada
vez mais financiados por meio de empréstimos. Isso é também exatamente o contrário do
que o neoliberalismo propaga. Ele sempre reivindicou a meta de um orçamento equilibrado
e criticou o Estado interventor fordista por causa de sua dívida, que representava migalhas
comparada com o status atual (em 1975, o total acumulado naquele momento da já então
escandalosa dívida pública dos Estados Unidos ascendia a cerca de 540 bilhões de
dólares; entretanto, somente no ano de 2003 o governo dos EUA produziu um déficit
orçamentário de quase a mesma quantia). A razão econômica estrutural desse
desenvolvimento é simplesmente que a acumulação de capital, estagnada devido ao
enfraquecimento progressivo da substância do trabalho e do valor, não pode mais ser
acionada na base econômica real e, portanto, deve ser alimentada artificialmente pelos
créditos públicos e privados e por um enorme inchaço da especulação na bolsa de
valores[2].

Esses empréstimos não são, ou são apenas parcialmente, usados para a expansão da
infra-estrutura geral ou para outras tarefas gerais, mas servem apenas basicamente para a
preservação do sistema contra o processo de agravamento da crise. A liquidez é
bombeada para os mercados financeiros para que a acumulação capitalista não pare. Com
isso, as dívidas e os valores especulativos descobertos se acumulam em montanhas
gigantescas que, é claro, mais cedo ou mais tarde terão de entrar em colapso – com
conseqüências socio-econômicas catastróficas. Isso se mostra de maneira especialmente
exacerbada em países periféricos, como a Argentina, onde ao longo dos anos 1990 o
endividamento teve de fato apenas o único objetivo de apoiar a moeda para permanecer
atraente para a entrada de capital financeiro. Essa lógica circular de participação no
mercado financeiro (empréstimos sempre crescentes para continuar sendo digno de
crédito) trouxe um período de boom extremamente curto a um custo tremendo, criando a
ilusão para partes da população de que logo se juntariam ao „Primeiro Mundo“. De fato,
justamente nessa fase ultra-neoliberal, a dívida cresceu exponencialmente, enquanto
simultâneamente a infra-estrutura e as empresas estatais eram vendidas a preços
irrisórios. O quadro estatal, responsável na era fordista do pós-guerra pela manutenção do
contexto social e do abastecimento público, transformou-se em um coletivo saqueador que
vendeu a substância social no mercado mundial para enriquecer-se e, de passagem,
acender um curto fogo de palha de valorização de capital – antes que viesse a queda mais
violenta.

Um desenvolvimento semelhante está se refletindo atualmente nos países capitalistas


centrais. Nenhum custo é poupado e sacrifícios cada vez maiores são exigidos à
população, com vistas a manter a forma capitalista e assegurar um núcleo da valorização
de capital decrescente. Os benefícios sociais e a infra-estrutura geral aparecem do ponto
de vista da „concorrência por localização“ apenas como fardo que deve ser descartado. Ao
mesmo tempo, a privatização do setor público deveria abrir novas esferas de investimento
para o capital; mas eles são lucrativos apenas enquanto a substância acumulada no
passado, por exemplo na forma de hospitais, redes ferroviárias ou servicios de água, pode
ser saqueada e consumida. A riqueza social está sendo cada vez mais implacavelmente
lançada no forno da valorização, que é acendido mais uma vez por um curto prazo,
enquanto partes cada vez maiores da população são excluídas dos serviços públicos
(saúde, transporte, água potável, etc.) e empurradas à pobreza[3].

Em princípio, esse desenvolvimento é o mesmo em todas as partes do mundo: o


capitalismo consome sua própria substância social produzida historicamente e, portanto,
transforma-se em um sistema econômico de pilhagem global. Em princípio, não faz
diferença se, por exemplo, no Reino Unido a rede ferroviária é vendida a empresas
privadas, as quais a consomem e a levam ao status de país do Terceiro Mundo em poucos
anos para garantir seus lucros, ou se um senhor da guerra africano se apodera das minas
de coltan para lançar o metal no mercado mundial. Apenas os métodos na Grã-Bretanha
são um pouco mais civis e o grau de decomposição do Estado não progrediu tanto quanto
no antigo Zaire. No entanto, estamos lidando fundamentalmente com uma mesma
tendência em todo o mundo, com uma espiral descendente de aniquilação e
autocanibalismo sistêmico. As diferenças entre as várias regiões do mundo resultam
basicamente apenas do fato de que nas metrópoles capitalistas a substância que pode ser
consumida é muito maior do que em um país periférico que tem uma breve história de
desenvolvimento capitalista e do Estado-nação. Naturalmente, as diferenças de poder
político e militar também desempenham um papel ao permitir que os Estados mais
poderosos passem transitóriamente parte de seus custos da crise para outros países e
regiões mais frágeis.

Em particular, essas diferenças entre (ou no interior de) essas regiões estão longe de
serem secundárias porque podem decidir entre a vida e a morte; também as condições
para a formação de resistência social são diferentes, evidentemente, dependendo se se
está lidando com um aparato estatal ainda mais ou menos em funcionamento ou se tem
que se defender contra gangues saqueadoras. As transições, no entanto, são fluidas,
porque em todo o mundo, os limites (de qualquer maneira sempre permeáveis) entre crime
organizado e política, entre gangues e serviços de segurança privada tornam-se cada vez
mais confusos[4]. Dessa forma, o Estado perde o caráter universal que possuía até certo
ponto nos países capitalistas centrais (e somente ali), e se transforma em um ator na
economia de pilhagem geral.

5.

A execução politicamente mediada dos sacrifícios e imposições exigidos pelo processo de


crise capitalista dificilmente teria sido possível sem um apoio ideológico massivo. Pois
inclusive a gestão da crise capitalista não pode renunciar completamente à legitimação
pública de suas ações. No entanto, o desencadeamento da concorrência de aniquilação, a
transição para a economia de pilhagem e a exclusão social em massa não podem mais ser
justificados pela promessa de progresso social geral, como foi caracteristico na maior parte
do século XX. A ideologia neoliberal teve que substituir aquela promessa pela
responsabilidade e sucesso individual.

Em primeiro lugar, este motivo ideológico tem a grande „vantagem“ de ser totalmente
adequado para deslocar e tornar invisível a retumbante força disruptiva de processo de
crise em curso, responsabilizando aos caídos pelo seu próprio destino; eles não se
esforçaram o suficiente, foram preguiçosos ou não souberam se vender corretamente.
Essa atribuição não ocorre apenas no nível dos indivíduos, mas também no nível de
instituições e Estados. As causas de um Estado mergulhar na crise não são buscadas
geralmente na concorrência do mercado mundial, cuja lógica interna produz vítimas, mas
em uma política incorreta, na corrupção, na falta de disposição da população para agir, e
assim por diante.

Pensando bem, é absolutamente ridículo supor que cerca de 80% das pessoas do mundo
vivam na miséria apenas porque não se esforçaram o suficiente ou porque estão sendo
governadas por políticos incompetentes e corruptos; também que só bastaria um governo
democrático e uma abertura dos mercados para lhes permitir o acesso à riqueza social.
Mas a vontade de acreditar em tais contos de fadas é grande. Como seu impulso não é
racional, mas um desejo irresistível de recalque, ela dificilmente é abalada por argumentos
e evidências empíricas. Aqueles que por enquanto se beneficiam da crise, e inclusive os
segmentos de movimentos ainda não batidos, querem recalcar não só a crescente miséria
em massa no mundo e sua má consciência, mas acima de tudo a idéia de que eles
mesmos estão a poucos passos do abismo e se aproximando dele ameaçadoramente.
É claro que a individualização da “responsabilidade” pelo próprio destino não foi inventada
pelo neoliberalismo. Ela representa uma ideologia básica da moderna sociedade mercantil
e é, ao mesmo tempo, um elemento estrutural essencial para a transformação das
pessoas em sujeitos do dinheiro e da mercadoria, todas elas submetidas ao princípio
compulsório do valor e obrigadas a se afirmar diariamente na concorrência. Essa é a razão
estrutural pela qual o domínio capitalista exige um grau muito maior de autocontrole e
autodisciplinamento individual em relação a outras formas de dominação anteriores, o que
nada mais é do que a internalização individual das formas objetivas de dominação. As
pessoas têm que se submeter elas próprias e se transformar em objetos, em uma coisa
vendável.

Esse momento de auto-sujeição permanente (que, por exemplo, Foucault estudou e


descreveu historicamente em seus estudos sobre a sociedade disciplinar e a
governamentalidade) está ganhando força no processo de crise capitalista. Não apenas é
uma condição de funcionamento para o mercado de trabalho cada vez mais
desregulamentado e garante a disposição de se submeter a condições de trabalho cada
vez piores e mais exaustivas e de espremer o máximo de desempenho possível. Ao
mesmo tempo, e sobretudo, permite organizar de forma relativamente suave o processo
de empobrecimento e exclusão e minimizar a resistência. Nesse sentido, os cortes nos
sistemas de seguridade social, a privatização do setor público e o desencadeamento da
concorrência não são apenas uma expressão da transição para uma economia de
pilhagem global, mas são também medidas disciplinares tremendas que acompanham
esse processo. O método é no fundo muito simples: sempre mantenha as pessoas
marchando, não lhes dê nenhum descanso e elas não questionarão as condições sociais.
E quem faria isso melhor do que o mercado total com sua concorrência brutal? Na era do
fordismo, o Estado Social foi acusado por críticos de esquerda de imobilizar as massas,
controlá-las com sua burocracia e alimentá-las com migalhas para evitar que exigissem a
padaria inteira. E com razão. Mas na crise capitalista fundamental esse método de controle
e disciplina se torna precário, até mesmo disfuncional. Pois não só exige um esforço
financeiro e burocrático cada vez maior para alimentar o crescente número daqueles que
são expulsos do processo regular de valorização. Acima de tudo, perderam-se os meios
de pressão. Na República Federal da Alemanha, por exemplo, ainda com seis a sete
milhões de desempregados, era possível ainda durante um bom tempo, com um pouco de
habilidade, escapar da compulsão do trabalho e, pelo menos parcialmente, viver dos
benefícios sociais. Mas essa porta traseira fordista da compulsão do trabalho está agora
sistematicamente trancada.

Se os agitadores neoliberais denunciam na República Federal da Alemanha a „ineficiência“


da administração do (des)emprego (e exploram de maneira extremamente populista os
espalhados ânimos em contra dos funcionários, supostamente preguiçosos), esse é um
ataque frontal à reivindicação da integração social, que sobreviveu por um longo tempo
nas instituições do Estado de bem-estar do fordismo, e se tornou obsoleta do ponto de
vista capitalista. Embora desde o final dos anos 1980 os benefícios tenham sido
continuamente reduzidos e a pressão tenha sido intensificada, nos últimos dois anos
ocorreu uma mudança de rumo que representa uma ruptura qualitativa. Agora trata-se
simplesmente de empurrar tantas pessoas quanto possível para fora das estatísticas e das
prestações estatais. Ao fazê-lo, a gestão estatal do trabalho transforma-se de instância
integradora em protagonista da seleção e da exclusão social – e isso é ‚bem-sucedido‘ em
seu próprio sentido.

6.

Depois de mais de 20 anos de fúria no planeta, o neoliberalismo perdeu muito de sua


credibilidade ideológica. As suas contradições internas não poderiam passar
completamente despercebidas. Portanto, não era de surpreender que seus slogans
propagandistas ficassem nesse meio tempo um tanto desarmados e estejam agora
acompanhados por uma nova retórica do Estado “social” e “ativo”. Particularmente nos
países da Europa Ocidental, nos quais ainda sobreviviam remanescentes relativamente
grandes dos sistemas sociais fordistas e de uma infra-estrutura pública bem desenvolvida,
esta mudança retórica foi inclusive o pressuposto decisivo para implementar
aceleradamente aquilo que fora implementado tempo atrás nos países centrais do
neoliberalismo e na periferia do mercado mundial. Nesse contexto, o „social“ experimenta
uma mudança fundamental de significado. A pacificação do Estado de bem-estar fordista é
substituída por um complexo policial, de segurança e penitenciário que acompanha a
disciplina permanente quase automática do mercado de trabalho desregulamentado. Dos
sistemas sociais do Estado restou apenas um remanescente que, por um lado, serve para
separar as partes da população trabalhadora „inúteis“ para a concorrência por localização
e proteger precariamente as partes „úteis“. Por outro lado, por razões de legitimação deve
ao mesmo tempo simular algo assim como „justiça social“, de modo que as camadas
médias de potenciais eleitores verdes ou socialdemocratas possam ser persuadidas de
que não há exclusão, mas todos recebem sua „oportunidade“. Essa clientela sempre
esteve preocupada com a sua boa consciência, já quando doava para o movimento de
libertação sandinista nos anos 1970 e 1980 ou carregava o saco de juta em vez da sacola
plástica pelas redondezas com sentimento de elevação moral. Agora que os tempos estão
ficando mais difíceis e seu próprio status está ameaçado, o darwinismo social da ética
burguesa vem à tona novamente, segundo o qual apenas aqueles que trabalham (ou que
pelo menos querem trabalhar) têm o direito de existir. Isso significa também que as
provisórias redes de atendimento criadas para os absolutamente empobrecidos têm
caráter puramente caritativo e não mais (ou cada vez menos) estão baseadas em
reivindicações legais, mas são arbitrárias e podem ser rescindidas a qualquer momento.
Essa assistência da pobreza é, por sua vez, cada vez mais entregue a iniciativas privadas
do complexo industrial humanitário (instituições de caridade e ONGs) e também é
excelente para a política populista clientelar e para a publicidade por via das imagens.
Típico disso é o programa Fome Zero do presidente brasileiro Lula, quem busca dar maior
legitimidade à sua continuidade das políticas neoliberais prometendo fornecer alimentos
básicos aos marginalizados. É significativo que nem mesmo essa promessa lastimável
seja honrada, embora ela comprometeria apenas uma pequena fração do potencial de
riqueza existente. Das cerca de 35 milhões de pessoas necessitadas, apenas 5 milhões
receberam algumas migalhas deste programa.

No entanto, aparentemente os antigos portadores de esperança da esquerda têm sucesso


(por enquanto) em assegurarse um certo apoio das partes marginalizadas e amplamente
despolitizadas da população, através do marketing midiático desta turnê decadente. Tal
como está começando a surgir também nos países centrais da UE, essa mistura de
repressão e assistencialismo é acompanhada por um discurso mentiroso de revitalização
dos „valores burgueses“. Ele encontra ressonância particularmente numa seção das
camadas médias que – por medo das conseqüências desagradáveis da desintegração
social, como crime, violência e banditismo – redescobriu sua „responsabilidade social“ na
forma da pedagogia negra[5]. A culpada pela polarização social seria uma liberalidade mal
compreendida que teria falhado em ensinar às „camadas baixas“ as competências
culturais necessárias, regras de etiqueta e virtudes secundárias, como dever, cortesia,
pontualidade, etc. Não é de admirar que eles não tenham podido acompanhar a
concorrência e, em vez disso, vegetem com o saco de batatas fritas na frente da TV. „O
principal problema das camadas baixas não é a pobreza, mas o consumo em massa de
fast food e TV“, afirma por exemplo um tal Paul Nolte, professor na Universidade
Internacional de Bremen (“O grande banquete”, em: Die Zeit, 17 de dezembro de 2003).
Portanto, a „burguesia“ (mas quem ela é?) deveria finalmente cumprir novamente sua
missão educativa:

„Estamos diante de um novo começo, uma mudança de paradigma no tratamento político das
camadas baixas. Há muito tempo seguimos um conceito que poderia ser chamado de ‘negligência
cuidadora’. Um nível comparativamente alto de cuidado material em relação às camadas baixas é
acompanhado por uma negligência em termos sociais e culturais. O objetivo deve ser novamente
não deixar a cultura da pobreza e da dependência, da falta de educação e da falta de independência
sobre si mesmos, mas intervir para desafiá-los e abri-los. Trata-se da integração na sociedade, mas
também – para muitos um assunto sensível – da mediação de padrões culturais e modelos“ (idem).
O „truque“ discursivo usado por Nolte é indicativo do atual período de turbulência na
República Federal Alemã e em outros países da UE. Ele apela ainda para a reivindicação
de ‚integração‘, mas esta não deve resgatar mais a participação material – porque, como
afirmado com insensibilidade contrafactual pelo especialista em história social alemã e
americana, ela já teria sido garantida – mas através da mediação dos valores burgueses.
Dessa maneira, ele fornece ao seu interessado público de classe média uma forma
ideológica de processamento com a qual ele pode se sentir socialmente responsável, sem
ter má consciência ao se refugiar das consequências sociais da crise em áreas
residenciais separadas e Shopping Centers vigiados – enquanto ainda ele pode pagar por
isso.

O recurso à „cultura dos valores burgueses“, destruída pela própria comercialização


capitalista é, por si só, um mero fantasma e mais um sinal da transição para um período de
simulação e alucinação. Mas serve também para empacotar de maneira um pouco mais
palatável a repressão real em andamento? Podemos ver nos chamados campos de
treinamento nos EUA com que práxis se corresponde a „mudança de paradigma“
proclamada pelo Sr. Nolte e seus parceiros: ali, jovens desviantes das camadas baixas
são ensinados a funcionarem como cidadãos decentes, com exercícios militares extremos
e métodos de lavagem cerebral. Qualquer um que sobreviva a essa lição bem-
intencionada de valores burgueses experimenta muito de perto como é o „cuidado“ que o
Sr. Professor tem em mente.

Não é por acaso que o discurso sobre repressão e educação e a práxis a ele vinculada
lembrem a forma de lidar com as camadas inferiores e as „classes perigosas“ dos
primórdios do capitalismo. Na crise da sociedade da mercadoria, o núcleo violento e
autoritário do capitalismo claramente volta à tona. E, no entanto, há uma diferença nada
insignificante: não se trata mais de adequar violentamente as camadas inferiores
camponesas para o gasto regular de sua energia vital pelo ritmo de trabalho da
manufatura e da fábrica, preparando assim o terreno para a expansão capitalista. Pelo
contrário, o objetivo consciente-inconsciente consiste em disciplinar a grande massa de
“supérfluos”, de modo que ela atrapalhe o menos possível as empresas capitalistas
residuais e aqueles que ainda participam delas. Os excluídos e cuspidos para fora devem
submeter-se o mais calmamente possível ao seu destino. É claro que centenas de milhões
de pessoas marginalizadas pelo capitalismo em todo o mundo não podem ser mantidas
sob controle dessa maneira. Enquanto elas não representam ameaça alguma para o
encolhido setor da valorização de capital e do consumo no mercado mundial, são deixadas
à própria sorte e impedidas de entrar no centro por um regime de fronteira cada vez mais
rigoroso. Mas à medida que centros e periferias se tornam cada vez mais misturados, a
proteção das fronteiras internas ganha cada vez mais importância. O discurso sobre
„valores burgueses“ fornece para isso a música de fundo moralista.

7.

Em face da decomposição do Estado e de sua mutação de instância de regulação


capitalista e da universalidade social para ator da concorrência de destruição e da
economia de pilhagem, a relação dos movimentos sociais com ele – ou melhor, com os
produtos da sua decomposição – deve ser radicalmente redefinida. Se a esquerda
continua alimentando e propagando ilusões sobre a possibilidade de uma “outra política”,
isso não leva a lugar algum, pois sob as condições objetivas da crise, esses conceitos não
têm mais a menor chance de uma oportunidade prática (o que fica claro nesses raros
exemplos de social-democracia que têm chegado ao governo ainda com alguma
reivindicação social, como o caso de Lula no Brasil). Em segundo lugar, esse fracasso pré-
programado implica uma desilusão negativa, por ser acrítica, promovendo assim formas
regressivas de processamento do processo de crise: racismo, anti-semitismo,
nacionalismo e teorias da conspiração de todos os tipos, em alta de qualquer maneira no
mundo todo. Os próprios movimentos sociais não estão de forma alguma livres disso. Em
especial, tendências anti-semitas freqüentemente penetram em argumentos
aparentemente críticos do capitalismo ou pelo menos elas são carregadas e toleradas de
maneira totalmente irrefletida.

Pelo menos tão fortes são as tendências para as políticas de identidade étnica,
regionalista e religiosa que, em face do processo social geral, opaco e incontrolável,
proporcionam o sentimento de “comunidade”. Um triste exemplo disso é o
desenvolvimento do EZLN mexicano, que, após o fracasso de seu conceito político de
transformar o Estado mexicano através da pressão da „sociedade civil“, agora se
concentra cada vez mais nas identidades indígenas. Mas também em outras partes do
mundo há desenvolvimentos análogos de movimentos cuja reivindicação emancipatória é
negada por seu etnicismo, como o movimento Aimara na Bolívia ou os vários partidos
regionalistas ou separatistas de esquerda na Espanha. Essas formas de afastamento da
política não têm nada a ver com a sua superação, mas são basicamente variantes de seu
desmoronamento. Que uma perspectiva de emancipação social não deva deixar-se
vincular ao Estado não significa que o nível da universalidade social seja removido. Em
vez disso, o populismo, a simulação pós-política, a gestão da crise capitalista e as formas
regressivas de processamento da crise devem ser resolutamente contrapostos nesse
nível. Isso não tem nada a ver com a ilusão de uma “outra política”, mas pode ser melhor
designado como anti-política[6]. Sua perspectiva não é a conquista do Estado, mas a sua
superação. Portanto, a anti-política não constitui um “programa” bem definido, positivo e
unificador, mas tem o caráter de uma “estratégia negativa” provisória que caduca na
medida em que é bem-sucedida e desaparece com seus antípodas. E é por isso que não
se baseia na unificação dos movimentos sociais sob um comando e com uma vanguarda
no topo, como acontece na lógica da política e das organizações partidárias, que sempre
representam e reproduzem as estruturas de poder do Estado. Mas, ao mesmo tempo, o
termo anti-política também deve apontar que uma mera justaposição não vinculativa das
lutas está condenada ao fracasso. Pois todas essas lutas se movem em um quadro
comum de estruturas coercitivas globalizadas que são constituídas pelo princípio uniforme
universalista abstrato da forma mercadoria e valor. Seu objetivo comum deve ser, portanto,
fazer explodir esse quadro, a fim de abrir o horizonte para uma sociedade mundial
verdadeiramente plural de indivíduos livremente associados[7]. É verdade que o domínio
capitalista pode, em princípio, precisamente por causa de sua onipresença, ser atacado
em qualquer lugar. Mas as lutas parciais a qualquer momento podem virar concorrência e
demarcação identitária, se elas não estiverem vinculadas à perspectiva comum de superar
as formas de coação da sociedade da mercadoria e as estruturas de sujeito a ela
associadas. Nesse sentido, anti-política significa levar muito à sério as instituições sociais
da dominação capitalista e se decidir a confrontá-las no nível social geral. Isso implica
reconhecer que mesmo nas condições da crise os atores estatais representam um
verdadeiro fator de poder; não só continuam administrando uma parte significativa da
riqueza social, como também regulam e controlam o acesso a ela, especialmente através
da polícia e do sistema jurídico. Isto é dramaticamente evidente particularmente ali onde,
como na Argentina, fábricas ocupadas são evacuadas, mesmo tendo se tornado não
lucrativas para a produção para o mercado[8]. A despeito disso, a propriedade privada é
defendida com toda violência porque é um princípio fundamental da sociedade da
mercadoria.

Ali onde a crise capitalista mina a base da produção de mercadorias e os próprios


produtos de decadência do Estado promovem ativamente a destruição e a pilhagem da
substância social, as demandas por uma redistribuição da riqueza monetária e pela
regulamentação do mercado são meros castelos no ar. O lema „o dinheiro é suficiente“
está equivocado em todos os sentidos. Em primeiro lugar, não é correto porque a crise é
precisamente uma crise das formas mercadoria e dinheiro que perdem sua base, junto
com a substância de trabalho e valor[9]. Em segundo lugar, com isso aceita-se de maneira
inquestionada a redução da riqueza material à forma limitada de riqueza monetária
abstrata, em lugar de ser criticada. O objetivo da emancipação social, no entanto, só pode
consistir em acabar com essa redução e produzir e administrar a riqueza social
diretamente, sem o desvio através do fetiche da mercadoria e do dinheiro[10].

A idéia de que pode haver um retorno a um capitalismo de algum modo „regulado“ ou


„civilizado“ é completamente infundada. O capitalismo „selvagem“ de hoje, o capitalismo
que literalmente devora e aniquila sua própria substância e, portanto, a humanidade, é a
única forma em que ainda pode existir hoje. Não há mais valores civilizatórios da
sociedade burguesa para defender-se contra a „barbárie“, pois a lógica interna dessa
sociedade leva à barbárie. Uma emancipação só pode existir para além dela. O ponto de
partida de qualquer resistência emancipatória deve, portanto, ser também a contraposição
à tendência de sacrificar a riqueza material sem consideração ao processo de crise. A este
respeito, a anti-política é absolutamente compatível com a resistência contra a gestão
neoliberal da crise, com a luta contra a privatização da água, como por exemplo foi levada
adiante com sucesso na Bolívia, ou com a necessária resistência contra a destruição da
saúde pública que tem lugar atualmente em países europeus. As lutas imanentes e uma
perspectiva de superação do sistema produtor de mercadorias não são de forma alguma
mutuamente excludentes, mas se referem uma à outra. Em última instância, essas lutas
podem ser conduzidas apenas com uma tal perspectiva, pois caso contrário os movimentos
permanecem vulneráveis à chantagem da lógica sistêmica (concorrência por localização,
“rentabilidade”, etc.) e a visão da única saída, a apropriação da riqueza material e do
conjunto das relações sociais, permanece bloqueada. Reconhecer essa saída não é
apenas uma questão de discernimento intelectual, mas pode mudar decisivamente a
qualidade das lutas sociais: „Quando uma ideia se apodera das massas, ela se torna força
material“ (Marx).

[1] Cf. Trenkle, Norbert. “Es rettet Euch kein Billiglohn” em: Kurz; Lohoff; Trenkle
(orgs.). Feierabend! Hamburg, 1999. Disponível em: <http://www.krisis.org/wp-
content/data/feierabend.pdf>. E Trenkle, Norbert: “Das Ende der Arbeit / Informalisiertes
Elend”, em: iz3w, março de 2003.

[2] Cf. Kurz, Robert: “Die Himmelfahrt des Geldes”, em: Krisis 16/17, 1995 [versão em
português disponível em: <http://www.obeco-online.org/rkurz101.htm>]; Lohoff, Ernst. “Große
Fluchten. Krise und Entwicklung des Kapitals”, em: Weg und Ziel 1/2000 [versão em
português disponível em: <http://www.krisis.org/2015/fugas-para-frente/>].

[3] Cf. Lohoff, Ernst. “Das Schweigen der Lämmer” em: Lohoff; Trenkle et al. (orgs.). Dead
Men Working. Unrast, 2005.

[4] Isso relata, por exemplo, o Coletivo Situaciones na Argentina: “Em 26 de junho de 2002
foram assassinados Darío Santillán e Maximiliano Costeki, dois membros da Coordinadora
de Trabajadores desocupados Aníbal Verón. A repressão dos movimentos sociais ocorre tanto
em uniforme estatal como em toda uma série de outras formas. Elas tem a ver com a
reciclagem de pessoas que serviram a última ditadura militar e adotaram seus métodos.
Estamos falando de grupos mercenários parecidos com a polícia, grupos criminosos com
contatos da máfia e empresas de segurança que se tornaram verdadeiros exércitos
privados e em serviço direto a corporações ou grupos de poder político. As várias formas
de expressão de repressão provam que o ataque às práticas radicais de transformação
social não precisa ser necessariamente homogêneo (Colectivo Situaciones, prefácio a
“Que se vayan todos! Krise und Widerstand in Argentinien”, Berlin, 2003, p.22 e ss.)

[5] N.do.T.: A pedagogia negra é um termo que faz referência a métodos educacionais
que incluem violência e intimidação como meio. O termo foi introduzido em 1977 pela
socióloga alemã Katharina Rutschky com a publicação de um livro com ese título.

[6] Cf. Kurz, Robert: “Antipolitik und Antiökonomie”, em: Krisis, 19, 1997 [versão em
português disponível em: <http://www.obeco-online.org/rkurz106.htm>]; Kurz, Robert;
Trenkle, Norbert. “Die Aufhebung der Arbeit”, em: Kurz; Lohoff; Trenkle
(orgs.). Feierabend! Hamburg, 1999; Lohoff, Ernst. “Determinismus und Emanzipation”,
em: Krisis, 18.

[7] Cf. Trenkle, Norbert. “Weltgesellschaft ohne Geld”, em: Krisis, 18, 1996.

[8] Cf. Fernandes, Marco. “Wind des Südens. Funken eines nicht-entfremdeten
Bewussteins inmitten des argentinischen Zusammenbruchs”, em: Lohoff; Trenkle et al.
(orgs.). Dead Men Working. Unrast, 2005.

[9] Isso se expressa empiricamente, por um lado, com o correspondente impulso à


desvalorização (inflação, queda da moeda, crise do mercado financeiro) e, por outro lado,
em que cada vez mais pessoas são cortadas das fontes do dinheiro.

[10] Cf também Exner, Andreas: “Geld ist genug da! Essen kann man’s trotzdem nicht
Attac un di Krise der Arbeitsgesellschaft”, em: Lohoff; Trenkle et al. (orgs.). Dead Men
Working. Unrast, 2005. E sobre a noção de riqueza: Lohoff, Ernst: “Zur Dialektik von
Mangel und Überfluss”, in Krisis, 21/22, 1998.

http://www.krisis.org/2018/anti-poltica-em-tempos-de-fria-homicida-capitalista/