Você está na página 1de 23

Acumulação de Capital sem acumulação de

valor
O caráter fetichista das mercadorias do mercado de capitais e o seu segredo
(Krisis 1/2014)

Ernst Lohoff
Texto original: Kapitalakkumulation ohne Wertakkumulation
Disponível em: http://www.krisis.org/2014/kapitalakkumulation-ohne-wertakkumulation/
Tradução: Javier Blank
Resumo
Tanto a economia política como o marxismo tradicional fracassam na tentativa de explicar
a acumulação de capital dominada pelo mercado financeiro dos últimos trinta anos. A
razão mais profunda para isso são os pressupostos teóricos básicos de ambas as
abordagens que, a despeito de suas diferenças, chegam em última instância a resultados
muito semelhantes. A economia política confunde riqueza capitalista com riqueza material,
isto é, a riqueza de bens reais, e considera o dinheiro essencialmente como um mero meio
refinado de mediação da divisão social do trabalho no processo da generalização da troca.
Embora o marxismo tradicional dirija seu olhar para a valorização do capital, alega que
este só pode se incrementar – considerando a sociedade como um todo – por meio da
extração real de mais-valia. Esses dois pressupostos básicos têm uma consequência
teórica comum: os processos econômicos relevantes ocorrem somente na economia real,
enquanto a função dos mercados do dinheiro e de capitais limita-se à redistribuição da
riqueza já existente.
Tanto a economia política como o marxismo tradicional descrevem o desenvolvimento dos
mercados financeiros empiricamente, em parte muito detalhadamente; mas não são
capazes de analisá-lo teoricamente de maneira coerente. Essa contradição entre empiria e
teoria é insuperável no contexto dos conceitos restritos de dinheiro e riqueza da economia
política; ao contrário, a crítica da economia política pode muito bem superá-la. Mas para
isso, a análise das leis de movimento específicas da mercadoria capital monetário deve ir
um passo além ao dado por Marx na sua investigação fragmentária do capital portador de
juros no livro III d‘O Capital. A argumentação marxiana interrompe-se numa etapa da
apresentação na qual a existência de títulos de dívida negociáveis, como títulos estatais,
ações e derivativos, é ainda completamente abstraída. No entanto, se o capital fictício
assume a forma dessas mercadorias de segunda ordem, então o valor futuro transforma-
se em capital não só desde o ponto de vista individual dos credores, mas, durante o tempo
de vida dessas mercadorias, resulta em capital adicional também no balanço social total.
Segue-se que pode existir algo como uma acumulação de capital sem acumulação de
valor, ainda que somente no interior de um horizonte temporal limitado estruturalmente.
Este artigo apresenta uma discussão aprofundada e detalhada das teses fundamentais da
lógica do capital fictício que o autor desenvolveu de forma mais resumida na segunda
parte do livro A grande desvalorização. Especialmente a delimitação mais minuciosa das
afirmações marxianas sobre o capital portador de juros precisam porque, com a presença
das mercadorias do mercado de capitais, o fetiche do capital adquire uma nova dimensão
e a formação de capital descolada da extração de mais-valia passa de mera aparência
ideológica a realidade social.
1. O inchaço dos mercados financeiros
O início dos anos de 1980 marcam uma virada na história do capitalismo. A fase do
capitalismo que ali começou se diferencia de épocas anteriores sobretudo em um aspecto:
o centro da acumulação de capital tem se deslocado duradouramente da chamada
economia real para a indústria financeira. Abstraindo de fases muito curtas imediatamente
anteriores às quedas das grandes crises, desde a primeira revolução industrial até os anos
de 1970 o capital funcionante foi sempre o principal portador da acumulação de capital.
Consequentemente, o crescimento do capital social total baseava-se na extração de uma
massa cada vez maior de mais-valia dos trabalhadores na produção de bens. Nas últimas
três décadas, no entanto, a acumulação de capital significou principalmente um aumento
exorbitante de títulos financeiros como ações, títulos de dívida ou derivativos. Pode-se ver
quão dramático ele foi inclusive nas estatísticas econômicas correntes, ainda que os
indicadores da economia política reflitam esse deslocamento de forma incompleta. Em
1980, os ativos financeiros mundiais rondavam ainda os 12 trilhões de dólares, apenas por
cima do produto interno bruto global (PIB) da época. Trinta anos depois, o Global Wealth
Report estimou os ativos financeiros acumulados em 231 trilhões de dólares, quatro vezes
o PIB global daquele momento[1]. Inclusive, o indicador nem sequer leva em consideração
o maior item individual no incremento das mercadorias do mercado de capitais, isto é, o
aumento explosivo de produtos “derivados” do mercado financeiro, conhecidos como
derivativos. O volume total destas mercadorias do mercado de capitais, ainda praticamente
desconhecidas na década de 1970, cresceu entre 1998 e 2008 de 72 para 673 trilhões de
dólares – contabilizando sozinho portanto doze vezes o PIB global.
O enorme inchaço da superestrutura financeira não escapou evidentemente aos
economistas de esquerda. Isso é ilustrado pela ampla disseminação da formulação
inicialmente cunhada por François Chesnais de um “regime de acumulação dominado pelo
mercado financeiro” enquanto classificação para o capitalismo contemporâneo (Chesnais,
2004). Tais denominações ao menos designam a característica principal da nossa época.
Todavia, surge a questão de como uma tal noção pode ser preenchida em termos da
teoria da acumulação. O que significa, afinal, para a acumulação social total de capital que
ela tenha por conteúdo sobretudo a acumulação de ações, títulos de dívida e outras
mercadorias do mercado de capitais?

2. O debate marxista entre empiria e teoria


Uma resposta fundamentada a essa questão requer evidentemente em primeiro lugar ter
clareza sobre um problema teórico subjacente. Quem quiser decifrar o que significa para o
processo de acumulação geral que por décadas a massa de mercadorias do mercado de
capitais tenha crescido muito mais rapidamente que o capital funcionante, deve saber
como se insere esse tipo de mercadorias no sistema da riqueza capitalista.
Mas o debate em curso tem seu ponto cego precisamente nessa questão. Embora se
descreva o capitalismo contemporâneo como um “regime de acumulação dominado pelo
mercado financeiro”, não se atenta para a falta de um fundamento teórico imprescindível
para a análise desse tipo de capitalismo. Assim, não fica claro o que significa para a teoria
da acumulação que o universo das mercadorias não inclua somente bens mas também
mercadorias do mercado de capitais. Sobretudo, não é investigado como se integra, na
base da crítica da economia política, a multiplicação das mercadorias do mercado de
capitais na acumulação geral de capital.
Essa ignorância em relação aos problemas fundamentais deixa suas marcas no debate da
esquerda. No tratamento da “acumulação dominada pelo mercado financeiro” ele enreda-
se numa contradição flagrante. Vistos mais de perto, a descrição dos processos
econômicos globais não se encaixa com o que se apresenta ao mesmo tempo como
axioma irredutível inquestionavelmente aceito da teoria marxiana da acumulação e do
valor. Dificilmente um economista de esquerda poderia evitar, de uma maneira ou outra,
na descrição do desenvolvimento antes do estouro da crise de 2008, levar em
consideração o que é palpável: que durante quase três décadas foi o inchaço dos
mercados financeiros que fez o processo de acumulação andar e o manteve na corrida.
Mas os próprios autores operam com um entendimento da teoria da acumulação de Marx
que, se levado a sério, torna impensável um tal desenvolvimento.
Quando se trata de descrever o efeito dos mercados financeiros na promoção do
crescimento, Marx pode depor ocasionalmente como testemunha. Especialmente aquelas
passagens do livro III d‘O Capital são frequentemente utilizadas para rastrear como o
aumento da emissão de letras de câmbio[2] já no ciclo industrial do século XIX levou
sempre ao adiamento dos inícios de crises manifestas. Contudo, a maior parte dos
economistas de esquerda apoia-se antes no economista burguês Keynes e baseia o
impulso de crescimento que resulta da expansão da “indústria financeira” em seu efeito na
“oferta e demanda”. Nesse sentido, por exemplo, Lucas Zeise refere-se ao historiador
econômico dos Estados Unidos, Kindleberger, e a respeito do boom da nova economia
dos anos 1990 escreve que as esperanças de lucro colocadas nas supostas indústrias do
futuro podem “atrair e aumentar a emissão de dinheiro” (Zeise, 2008, p. 11). No contexto
da bolha do subprime dos anos 2000, Zeise destaca o efeito na demanda que resulta dos
excessivos empréstimos privados. De acordo com seu argumento, eles têm contribuído
substancialmente para o fechamento do hiato na demanda, ocasionado pela queda da
renda do trabalho. Ainda que a força explicativa de tais descrições superficiais, presas no
horizonte dos problemas da economia política, seja mantida dentro de limites estreitos,
aparece ali a compreensão de que os desenvolvimentos nos mercados financeiros
fornecem uma contribuição independente à acumulação de capital atual. Por outro lado,
assim que os economistas de esquerda lembram do que eles consideram a quinta-
essência da teoria marxista da acumulação e do valor, eles chegam a afirmações
diametralmente contrárias. Eles explicam todo o jogo do mercado financeiro como um
mero jogo de soma zero, no qual somente muda de mãos riqueza capitalista previamente
existente. Em Lucas Zeise, esse afastamento do entendimento, oculto no palavreado da
economia política do aumento da oferta e da demanda, segundo o qual o aumento das
mercadorias do mercado de capitais representa uma fonte independente de geração de
capital social geral, permanece comparativamente vago. Ele escreve: “O fato do excesso
especulativo se desenvolver e conseguir arrastar a sociedade toda tem muito a ver com o
fato de na fase do boom todos serem ganhadores. A sociedade num todo parece mais
rica” (Zeise, 2008, p.11). Enquanto Zeise descreve os mecanismos econômicos concretos,
ele mostra o crescimento da oferta e da demanda (os indicadores da riqueza capitalista no
debate da economia política), na esteira, de fato, da dinâmica do mercado financeiro. No
entanto, assim que recobra sua consciência marxista, somente deve parecer como se
assim fosse.
Em Mario Candeias, cujos textos atravessam o mesmo dilema, a negação da visão
empírica resulta claramente mais aguda. Também Candeias afirma inicialmente que
“desde os anos de 1970 e a progressiva liberalização e integração global dos mercados
financeiros, desenvolveram-se sempre novas inovações do mercado financeiro para
enfrentar o problema da sobreacumulação” (Candeias, 2008, p.2). Até aqui, tudo bem. No
entanto, tão logo Candeias abandona o nível puramente empírico e tenta uma
classificação teórica, o voo aos mercados financeiros muda subitamente seu caráter. O
que há pouco tinha sido compreendido como uma saída precária para o capital total, com
o preço de novas contradições, é interpretado agora como uma mera solução especial
para frações específicas do capital. De acordo com esse entendimento, a fuga para a
superestrutura financeira abriu para os especuladores novo espaço para a acumulação de
capital; mas desde o início e a qualquer momento deve ter sido a custa do capital
funcionante e portanto do capital total. Para justificá-lo basta a Candeias uma única frase:
“Tais atividades”, diz-se apodicticamente de todas as atividades do mercado financeiro,
“não geram riqueza, em vez disso, baseiam sua remuneração na sua capacidade de
assegurar para si uma parte da riqueza produzida em outro lugar” (Candeias, 2008, p.2).
Evidentemente, os mercados financeiros não criam riqueza material-sensível. Mas isso se
aplica da mesma maneira para a riqueza de capital? Candeias não compreende que se
trata de farinha de outro saco.
Os escritos de François Chesnais fornecem uma imagem semelhante. Por um lado, ele
enfatiza a “autonomia do setor financeiro” (Chesnais, 2004, p.225). No entanto, a despeito
do que seria de esperar do autor de um termo como “regime de acumulação dominado
pelas finanças”, essa autonomia não é compreendida nem rudimentarmente em termos da
teoria da acumulação, mas interpretada em termos puramente sociológicos “como uma
construção institucional forte” (idem). Portanto, Chesnais não se dedica a pensar em que
medida a emissão bem-sucedida de ações ou títulos de dívida negociáveis significam a
formação de capital social adicional, e como o capital criado dessa maneira se diferencia
daquele baseado na utilização efetiva de trabalho e na produção de mais-valia. A
“independência do setor financeiro” só pode consistir para ele, por definição, na
possibilidade dos capitalistas monetários cortarem uma fatia cada vez maior do bolo
capitalista global, a custas do capital funcionante. O aumento do capital monetário na
superestrutura financeira é interpretado como o resultado da apropriação de mais-valia
anterior e a independência relativa da indústria financeira em relação ao movimento do
capital funcionante é negada explicitamente em termos da teoria da acumulação. Chesnais
descarta categoricamente que possam existir formas de criação de capital que tenham
outro conteúdo que a apropriação de mais-valia previamente produzida: “Por maiores que
sejam os meios utilizados para garantir sua perenidade, a dominação dos mercados
financeiros não pode transcender as restriç es e as contradiç es das quais a esfera “real”
é o terreno imediato. A ‚autonomia‘ permite que o capital de aplicação financeira ou, ainda,
a ‚poupança concentrada‘ coloque-se diante do capital envolvido na produção e, portanto,
diante do trabalho, para exigir e impor uma participação na repartição legitimada apenas
pela posse patrimonial e cujos benefici rios determinam eles mesmos os termos. A forma
imediata é uma punção nos lucros e a origem efetiva, uma taxa de mais-valia aumentada.
Mas para que o valor e a mais-valia possam ser apropriados, estes devem ter sido
previamente gerados em escala suficiente. Isso pressup e que o ciclo do capital possa ter
sido encerrado e a produção comercializada. Um dos principais limites da ‚autonomia‘
reside justamente nisso” (Chesnais, 2004. p.225 [10-11, tradução ao português
ligeiramente modificada]).
A suposição de que cada aumento do capital social total pode ser sempre atribuído a uma
prévia utilização efetiva de trabalho está longe de definir a característica principal da nossa
época e somente à força é tornada compatível com o desenvolvimento empírico das
últimas três décadas. As proporções falam de fato uma linguagem muito clara. Que
incremento gigantesco da produção de mais-valia global teria acontecido nas últimas três
décadas para fornecer o material para o aumento acentuado dos ativos financeiros globais
de 12 para 231 trilh es de dólares? Como pode o “valor” total dos derivativos em
circulação chegar a doze vezes o PIB global quando eles só deveriam representar mais-
valia redistribuída? Ainda, a massa de mais-valia é sempre significativamente menor que o
PIB, que adiciona todo tipo de ganhos e rendimentos. É o mesmo que assumir que podem
ser feitos 100 kg de queijo com um litro de leite.

3. A economia política e a sua visão antinômica da indústria financeira


A vulgata marxista argumenta desde o ponto de vista de uma teoria do valor-trabalho
positiva, tal como representada por Adam Smith e David Ricardo, e a coloca
equivocadamente junto com a critica do valor marxiana. Há tempos a economia política se
despediu da teoria do valor-trabalho assim como da distinção entre valor e preço. Fixada
na superfície aparente, segundo a sua compreensão tudo o que tem preço também tem
valor. Portanto, para a economia política, “valor agregado” não significa outra coisa que a
soma dos ganhos obtidos na venda de mercadorias e serviços, assim como juros e
rendimentos (Cf. i.e. Stobbe 1994, p. 96). Todo dinheiro ganho, independentemente de
onde e como foi gerado, representa igualmente, nesse entendimento, a emergência de
nova riqueza capitalista. A noção predominante de valor agregado não só aplana todas as
diferenças dentro da chamada economia real, mas também apaga completamente a
distinção entre economia real e indústria financeira. Tanto se a Daimler produz carros ou
se o Deutsche Bank está ativo no negócio dos empréstimos, os salários pagos aos
funcionários e os lucros obtidos são considerados, em ambos casos, como parte da
criação de valor capitalista global e fazem parte da nova riqueza social gerada.
A noção predominante de valor agregado mistura evidentemente maçãs com peras. Para
uma teoria séria, isso a torna já desde o início inapta enquanto ponto de partida para uma
análise do estatuto específico das mercadorias do mercado de capitais no sistema da
riqueza capitalista; no entanto, diante de uma acumulação de capital predominantemente
carregada pela indústria financeira, a economia política fornece uma certa vantagem em
relação ao marxismo tradicional. Quem, como este último, com base na teoria do valor-
trabalho, mantém a identidade entre acumulação de capital e acumulação real de valor,
defende um ponto de vista refutado na prática pelo desenvolvimento capitalista. Por outro
lado, o caráter turvo e sem conteúdo da noção de valor agregado da economia política a
resguarda de ser refutada pela mudança dramática da acumulação de capital da economia
real para a indústria financeira.
No entanto, dois pressupostos básicos da economia política moderna revelam-se muito
menos resistentes: tanto o conceito fundamental de riqueza, quanto a noção de dinheiro
como mero signo, aceita amplamente nas últimas décadas, são incompatíveis com a
suposição de que poderia haver formação de capital fora da economia real. Mantenhamo-
nos no primeiro axioma. Nos seus capítulos introdutórios, os livros de economia política
interpretam a riqueza de mercadorias como mera riqueza de bens, e o modo de produção
predominante como um sistema econômico orientado para o aumento da riqueza de bens
e a satisfação de necessidades humanas. Os modelos da economia política – é só pensar
nesse contexto na teoria da utilidade marginal – juntam persistentemente riqueza
capitalista com riqueza material-sensíve[3]. Mas se a riqueza capitalista é identificada com
a riqueza material, fica incompreensível como o aumento de mercadorias que não têm
nenhuma dimensão material-sensível, podem ao mesmo tempo contribuir diretamente para
um acréscimo da riqueza social geral. Ou a indústria financeira enquanto fonte separada
da acumulação capitalista é uma miragem, ou a noção de riqueza da economia é
insustentável.
E também o conceito nominalista de dinheiro, amplamente aceito na economia, colide com
a ideia de um aumento do capital social geral no interior da indústria financeira. A
economia política burguesa moderna considera evidente que, o mais tardar com a
desmonetização do ouro, o sistema monetário tornou-se um sistema monetário de meros
signos. De acordo com essa interpretação, embora o dinheiro meça o “valor” das
mercadorias, ele próprio não representa de maneira alguma uma mercadoria, mas deve
ser considerado um mero símbolo. Mas como pode o incremento de uma riqueza
puramente simbólica representar diretamente um aumento da riqueza real da sociedade
capitalista? Como se sabe, o capital existe no mundo do mercado financeiro
exclusivamente na forma monetária. Consequentemente, ao compreender o conjunto do
sistema monetário enquanto mero sistema de signos, um aumento da riqueza capitalista
global que provenha diretamente de uma multiplicação da produção da indústria financeira
deve aparecer como completamente absurda. Quem quiser argumentar coerentemente
não pode representar uma teoria monetarista do dinheiro e ao mesmo tempo conferir ao
setor da economia que lida exclusivamente com esses supostos signos, a capacidade de
produzir nova riqueza social por si mesmo.
Diante do desafio teórico representado pelo capitalismo de nossos dias, carregado pela
dinâmica da acumulação na indústria financeira, a economia política mainstream reage de
maneira semelhante ao seu braço esquerdo. Também no discurso devoto da economia
política de mercado, empiria e teoria ficam separados. Os economistas com orientação
prática sabem evidentemente como o crescimento da economia é hoje dependente do
florescimento da indústria financeira. Consequentemente, os economistas especialistas
envolvidos na gestão de crises tomam somente medidas com um ponto de fuga em
comum: garantir a propagação adicional de mercadorias do mercado de capitais. No
entanto, nos modelos da teoria econômica, o aumento do capital social ocorre
exclusivamente na economia real e volta para a produção de riqueza que ali acontece. Aos
mercados financeiros é atribuído, como sempre, uma mera “função de redistribuição de
capital” (Baecker, 2008, p.1). Também nos livros contemporâneos de economia política o
papel social geral dos mercados de dinheiro e capital limita-se, portanto, a salvar o capital
existente do seu desaproveitamento e proporcionar o seu redirecionamento para uma
localização adequada na economia real. Neste ponto de vista, a existência de mercados
financeiros promove indiretamente a nova criação do capital social; isso, no entanto,
ocorre exclusivamente na esfera da “economia real” e nunca resulta das próprias
operações da indústria financeira. Embora uma parte da riqueza adicional produzida flua,
pelo seu mérito no fornecimento de capital, para os atores do mercado financeiro, ela
aparece sempre, considerada a sociedade num todo, somente como o resultado de uma
transferência da economia real.
Os representantes da economia política têm boas razões para essa política do avestruz.
Não se pode reconhecer nas mercadorias do mercado de capitais uma possível fonte
própria de riqueza capitalista sem abandonar os axiomas da economia política burguesa. A
tentativa de renovação teórica tornou-se desde o início um empreendimento de demolição.
Quem queira compreender teoricamente os eventos do mercado de capitais como algo
diferente de uma mera redistribuição da riqueza capitalista resultante da economia real,
deve abandonar, queira ou não, o terreno da economia política.

4. O acesso da crítica da economia política


Entre fazer um harakiri teórico ou esconder a cabeça na areia, os representantes da
economia política se decidem pelo último. Isso é compreensível em certo modo. Mas por
que economistas de esquerda que se referenciam em Marx esforçam-se por seguir esse
modelo? Em qualquer caso, não pela orientação básica da crítica da economia política.
Enquanto crítico radical dos pressupostos fundamentais da economia burguesa, Marx
justamente desmascarou como pura ideologia os axiomas em relação aos quais a
economia política deixa as mercadorias do mercado de capitais – isto é, créditos, ações,
derivativos – a priori fora do círculo de possíveis portadores da riqueza capitalista. É
suficiente manter as afirmações marxianas sobre o caráter da riqueza capitalista e do
dinheiro para derrubar qualquer proibição que interdite a economia política de pensar a
possível contribuição das mercadorias do mercado de capitais para a acumulação de
capital.
Ao contrário da economia política, a sua crítica feita por Marx faz uma distinção categorial
rigorosa entre riqueza material-sensível, por um lado, e riqueza abstrata, por outro. No
capitalismo, não é a simples riqueza de bens que representa de fato a riqueza social, mas
algo fundamentalmente diferente daquela. No primeiro capítulo d‘O Capital, Marx elaborou
esse atributo particular da riqueza capitalista nos bens. Somente a primeira vista o tecido
produzido para a venda ou o vestido confeccionado enquanto mercadoria parece uma
“coisa trivial, evidente”. Olhando mais de perto, a mercadoria resulta uma “coisa muito
complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas” (MEW 23, p. 85 [v1 p.70]).
Embora cada bem tenha um valor de uso material-sensível, de maneira alguma é este que
torna os bens um elemento da riqueza capitalista geral. Eles só se tornam parte dela ao
desenvolver a qualidade puramente social, “suprasensível” de encarnar valor de troca: “O
valor de uso não é, de modo algum, a coisa qu’on aime pour lui même. Produz-se aqui
valores de uso somente porque e na medida em que sejam substrato material, portadores
do valor de troca” (MEW 23, p. 201 [v1 p.155]). Mesmo em uma bicicleta produzida de
modo capitalista as pessoas podem ir de A a B, mesmo cenouras produzidas para o
mercado anônimo podem ser comestíveis. Mas isso não é o que conta na lógica
capitalista. Enquanto simples objetos de uso, que satisfazem determinadas necessidades,
a cenoura e a bicicleta fazem tão pouco parte da riqueza capitalista quanto o sol no céu.
Ações, títulos de dívida ou futuros, como se sabe, nem podem ser comidos nem podem
ser usados como meios de transporte, e também não servem para satisfazer qualquer uma
das variadas necessidades sensoriais que o consumidor poderia desenvolver. As
mercadorias do mercado de capitais, portanto, diferenciam-se fundamentalmente dos bens
e formam uma classe separada de mercadorias, cujo valor de uso encontra-se
completamente fora do mundo do material-sensível. Todas as mercadorias do mercado de
capitais têm um único valor de uso “metafísico”, genuinamente social: elas prometem ao
seu vendedor que o dinheiro utilizado na compra se transformará ele mesmo em dinheiro
multiplicado, portanto, em capital[4].
Desde o ponto de vista da economia política, da confusão da riqueza material-sensível
com a riqueza capitalista abstrata, é uma simples consequência lógica que as mercadorias
que não possuem qualquer dimensão material-sensível não poderiam nunca representar
um elemento da riqueza capitalista geral. Do ponto de vista da crítica da economia política,
no entanto, a razão para essa expatriação prévia resulta absurda. Se as mercadorias do
mercado de capitais são portadoras da riqueza capitalista somente enquanto valor de troca
e portanto na sua propriedade metafísica, porque teriam de ser desqualificadas por isso
enquanto possíveis elementos da riqueza capitalista, cujo valor de uso já é estabelecido
fora do mundo material-sensível?
A ideia de que a proliferação de mercadorias do mercado de capitais poderia fornecer uma
contribuição direta para a acumulação de capital colide também com o conceito
nominalista do dinheiro, que é consenso na economia política há décadas. O fundamento
dessa separação também dissolve-se no ar assim que a teoria monetária se dirige às
categorias fundamentais da crítica da economia política. Essa crítica é fundamentalmente
incompatível com a ideia do sistema monetário enquanto um sistema de meros signos. De
acordo com o pressuposto fundamental da teoria monetária contida na teoria de Marx,
para que a riqueza das mercadorias possa ter no dinheiro uma forma geral de
representação, o próprio dinheiro deve ter o caráter de mercadoria[5]. Se não se trata do
dinheiro como um mero signo que fica fora do universo das mercadorias, mas do seu
acoplamento com uma mercadoria-dinheiro, em que o próprio dinheiro é parte integrante
do universo das mercadorias, então seria completamente absurdo que as mercadorias do
mercado de capitais sejam postas para fora do sistema da riqueza abstrata devido ao seu
caráter puramente monetário.
Enquanto crítica radical da forma da riqueza capitalista, a crítica da economia política está
livre dessa interdição do pensamento pela qual a economia política inibe uma análise séria
das mercadorias do mercado de capitais e do seu estatuto no sistema da riqueza
capitalista. Em lugar de usar esse acesso privilegiado, a corporação dos economistas de
esquerda seguem aos seus colegas devotos da economia de mercado. Por que?
Sobretudo pela falta de distância com o discurso econômico dominante. O debate em
curso da esquerda é muito mais um braço do mainstream do que uma reação a ele. Entre
os muitos especialistas econômicos de esquerda que preferem argumentar com Keynes
do que com Marx, isso é evidente. Mas também naqueles que com base em Marx
explicam os eventos do mercado financeiro como um mero jogo de soma zero, olhando de
perto, isso de modo algum é diferente. Todos eles reproduzem uma confusão comum já no
marxismo tradicional do movimento operário, ao interpretar a crítica da economia política
como uma teoria do valor trabalho positiva na tradição de Smith e Ricardo, ignorando seu
núcleo: a crítica radical da forma da riqueza capitalista. Do ponto de vista de uma teoria
dos fatores da produção que acredita reconhecer no trabalho a única fonte da riqueza
capitalista, é obviamente evidente como as mercadorias do mercado de capitais devem ser
lidas. Por mais que ele se torne comumente aceito, esse ponto de vista não é de maneira
alguma o ponto de vista da crítica da economia política. Esse tipo de marxismo baseia-se
na verdade em uma antiga versão da economia política burguesa, e faz um papel ridículo
diante da realidade capitalista da mesma maneira como o faz a versão moderna da
economia política.
5. A crítica de Marx do conceito de capital da economia política burguesa
A confusão entre riqueza capitalista e riqueza material-sensível, característica da
economia política burguesa, reflete-se – não poderia ser diferente – também no seu
conceito de capital. Logo que se trata da totalidade da economia, o capital é para a
economia política somente uma outra palavra para os meios de produção utilizados na
fabricação de bens. Afirma-se no Gabler Wirtschaftslexicon de maneira curta e concisa: “O
capital é definido como um fator da produção ao lado do trabalho e da terra. Nesse
contexto, capital é entendido como o stock de equipamentos de produção que pode ser
usado para a produção de bens e serviços”[6]. A ideia segundo a qual a formação de
capital poderia ter lugar somente na economia real aparece como imediatamente evidente,
à luz dessa compreensão do capital enquanto coisa. Se o capital é idêntico aos meios de
produção na sua simples materialidade, então toda a formação de capital deve ser
estabelecida naturalmente na esfera na qual as máquinas e as matérias-primas são
produzidas.
Marx desvendou essa equiparação como expressão do pensamento fetichista: “O capital
não é uma coisa, assim como o dinheiro também não é uma coisa. No capital, assim como
no dinheiro, apresentam-se determinadas relações sociais de produção enquanto relações
entre as coisas e as pessoas, ou aparecem certas relações sociais como propriedades
naturais sociais das coisas” (Marx, 1970, p.32). O capital nunca emerge da produção
material enquanto tal. Antes, o capital não é outra coisa senão o movimento incessante da
transformação do dinheiro em mais dinheiro, e essa relação reificada do fim-em-si é, por
sua vez, somente a expressão do fato de as pessoas entrarem em relação umas com as
outras enquanto produtores privados isolados e proprietários de mercadorias.
Ao entender o capital enquanto uma relação social, a crítica da economia política alcança
uma compreensão do processo de formação de capital que se distingue
fundamentalmente da visão dominante em dois aspectos. Por um lado, ela cria uma
imagem muito diferente da maneira como a formação de capital, mediada pela produção
de bens, tem lugar, isto é, no processo de valorização; mas, por outro lado, abre um
acesso a algo totalmente desconhecido para a economia política burguesa: a formação de
capital social geral sem formação de valor.
O primeiro aspecto encontra-se claramente no centro dos escritos marxianos da crítica da
economia. O segundo ponto de vista, que trata da existência de modos de formação de
capital específicos que não se reduzem ao dispêndio de trabalho, é apenas tocado por
Marx, sem que se chegue a uma consideração sistemática. No livro III d‘O Capital, ao tratar
da renda fundiária, Marx menciona que a transformação de recursos naturais em
propriedade privada não fornece aos seus proprietários apenas uma renda, e com isso a
possibilidade de ficar com mais-valia originada em outro lugar; posto que esse recurso
natural recebe um preço, trata-se ao mesmo tempo de uma “capitalização da renda” (MEW
25, p. 636 [v5. p. 117]). Na forma do preço da terra, a perspectiva da renda fundiária futura
transforma-se em capital[7].
Mas uma outra ideia é mais importante para o nosso problema, que Marx também
comenta só de passada, mas na qual aparece o segredo fundamental do capitalismo
dominado pelo mercado financeiro. No exemplo do capital por ações, ele chega a dizer
que na forma de certificados de aç es entram ao lado do capital funcionante “duplicatas de
papel” “que são, em si mesmas, negoci veis como mercadorias e, por isso, circulam como
valores-capitais” e tem um movimento independente “do movimento de valor do capital
real, sobre o qual são títulos” (MEW 25, p.494 [v.5 p.13]). Marx chama esse estranho tipo
de capital resultante da duplicação de um capital inicial na emissão de títulos de
propriedade de capital fictício. A despeito do que pode sugerir incorretamente o termo um
tanto infelizmente escolhido, esse tipo de capital social adicional de maneira alguma existe
somente na cabeça como uma mera ideia. Assim que uma promessa de pagamento
circula como mercadoria, essa relação entre dois capitalistas tornada mercadoria
representa capital tão genuíno quanto o capital real derivado da extração de mais-valia. O
incremento de tais mercadorias do mercado de capitais pode inclusive se tornar o próprio
portador da acumulação de capital social geral. Isso soa fantasmagórico. No entanto,
nesse processo somente vem a si o caráter fantasmagórico fundamental da riqueza
capitalista, tal como Marx j o expôs no capítulo do fetiche do livro I d‘O Capital.
6. Sobre o método da crítica da economia política
A afirmação de que o capital é uma relação social e não uma coisa é frequentemente
sublinhada na discussão marxista. No entanto, esta proposição é pensada apenas em
termos da relação do trabalho assalariado com o capital. Nessa redução, todavia, continua
o falso entendimento do qual Marx tão decididamente se diferenciou. O fato de que o
capital também pode surgir da produção de mercadorias do mercado de capitais, ou seja,
da criação de mercadorias que representam exclusivamente uma relação social, e que não
tem nenhuma dimensão material-sensível, permanece impensável.
Seria sem dúvida mais fácil superar essa compreensão reduzida e pôr a discussão da
esquerda sobre o regime de acumulação dominado pelo mercado financeiro num
fundamento teórico sólido, se Marx tivesse discutido mais detalhadamente a questão dos
bens do mercado de capitais nos seus escritos sobre a crítica da economia. No entanto,
sua obra principal, de grande envergadura, permaneceu fragmentária, e sua exposição
sistemática da crítica da economia política se interrompe em um estágio em que a
existência de mercadorias do mercado de capitais ainda é fundamentalmente abstraída.
Além disso, aquelas passagens sobre capital por aç es no livro III d’O Capital, que
antecipam a resposta ao nosso problema, infelizmente (ainda) não estão integradas no
curso sistemático da argumentação de Marx.
O fato da exposição de Marx da crítica da economia política apresentar lacunas em um
ponto tão central para a análise do capitalismo atual deve-se certamente também às
circunstâncias em que sua obra surgiu. No capitalismo do século XIX, a criação de títulos
de propriedade negociáveis ainda estava no início. O capital por ações limitava-se a
pouquíssimas indústrias chave, especialmente as ferrovias, e além disso, quase não
existiam outros títulos de dívida negociáveis generalizados fora os títulos do Estado. A
proporção da acumulação de títulos de propriedade em relação à acumulação geral era,
assim, insignificante. Já pela sua limitada relevância prática na época, não é
surpreendente que Marx não tenha prestado atenção especial à questão chave de nossa
época; mas certamente é muito mais importante uma outra razão teórica imanente, isto é,
a metodologia específica da crítica da economia política. No curso da exposição, na
medida em que a totalidade concreta da sociedade capitalista enquanto “síntese de
múltiplas determinaç es”, enquanto “unidade do diverso” (MES 42, p.35) ia se tornando
visível e ganhando contornos cada vez mais claros, Marx viu-se forçado, no
desenvolvimento do seu raciocínio n‘O Capital, a manter uma certa ordem. Ele parte n‘O
Capital das determinações mais abstratas e gerais do modo de produção capitalista,
desenvolve a partir dai determinações cada vez mais concretas e, dessa maneira,
aproxima-se sucessivamente da superfície aparente do processo social. Assim
procedendo, no entanto, a crítica da economia política só pode se ocupar da existência de
mercadorias do mercado de capitais e do seu significado para o processo capitalista geral
depois de quase todos os outros andares do prédio inteiro estarem já em pé. A análise das
mercadorias do mercado de capitais insere-se aqui como uma pedra angular na exposição
do capital em geral; o próprio Marx não chegou a colocar essa pedra angular.
Evidentemente, não foi só no curso do seu trabalho n‘O Capital que Marx descobriu que o
universo das mercadorias alojava ainda outros habitantes para além da mercadoria força
de trabalho e as mercadorias originadas pela aplicação da força de trabalho. Isso estava
claro para ele desde o início: faz parte da lógica do modo de produção capitalista
generalizar a forma mercadoria e submeter tudo a ela. Na base do modo de produção
capitalista, também os recursos naturais surgidos originalmente sem trabalho humano (i.e.
a terra) transformam-se em mercadorias, e inclusive o próprio capital torna-se mercadoria
na sua forma dinheiro. O capital monetário, como se sabe, pode ser vendido em uma
variedade de formas. A forma desenvolvida representa a relação social que se origina
quando o dinheiro nas mãos dos capitalistas monetários é trocado por uma mercadoria do
mercado de capitais, isto é, uma obrigação juridicamente estabelecida que se tornou
negociável por si mesma.
A transformação do capital monetário em uma mercadoria é uma dimensão logicamente
subordinada do processo geral de mercantilização que acompanha a imposição do modo
de produção capitalista. Essa metamorfose pressupõe a existência de capital e com isso
tanto a conversão da sociedade numa sociedade de produtores privados isolados quanto a
subordinação da produção material sob a auto-finalidade da geração de valor. Portanto, na
“ascensão do abstrato ao concreto”, na sua obra fundamental Marx teve inicialmente que
se abstrair completamente da extensão do processo de mercantilização ao próprio capital.
Somente quando o processo de valorização do valor e o movimento do capital funcionante
já foram tratados é que se alcança a etapa da exposição na qual pode se desenvolver o
problema da mercadoria capital monetário e integrá-lo no conjunto do sistema[8].
Ainda, na sua investigação fragmentária da mercadoria capital monetário, Marx não chega
diretamente à relação social que se origina com a aparição das mercadorias do mercado
de capitais. Em vez disso, ele insere um estágio intermediário: em suas considerações
introdutórias sobre o capital portador de juros, Marx indaga inicialmente como o capital é
vendido enquanto mercadoria sem sem confrontar outra mercadoria. A exposição
marxiana da crítica da economia política interrompe-se antes da transição ao próximo
estágio lógico, no qual teria-se-ia por objeto um tipo de relação social originada da
emissão e compra de mercadorias do mercado de capitais. Não é nenhuma grande
façanha se sentar nos ombros do Marx para recuperar aquilo que foi perdido. Para isso é
preciso, no entanto, que o método de Marx seja levado a sério e que se utilize seu trabalho
preliminar, em lugar de deixar de lado a análise da forma-mercadoria como exercício
esotérico, irrelevante para a análise concreta, como infelizmente ocorre com a má tradição
marxista. Por isso, a seguir é recapitulada inicialmente a quinta-essência da análise
marxiana da mercadoria capital monetário. Posteriormente é delineado o que a aparição
de mercadorias do mercado de capitais modifica na relação que Marx apresentou em suas
considerações introdutórias sobre o capital portador de juros. Em que consiste a nova e
peculiar qualidade da relação entre mercadoria geral e mercadoria do mercado de
capitais?

7. A mercadoria capital monetário – um tipo específico de mercadoria


Como desenvolvido por Marx na primeira seção d‘O Capital, o dinheiro não é uma
mercadoria como qualquer outra. Ao adotar a forma do dinheiro, o valor assume a “forma
de permutabilidade direta geral” (MEW 23, p.84 [v1 p.69]). Transformado em dinheiro, o
valor de cada mercadoria, pode ser trocado por qualquer outra mercadoria, e isso destaca
o dinheiro das mercadorias vulgares, enquanto “rainha” das mercadorias. Devido a esse
estatuto privilegiado enquanto mercadoria geral e “existência absoluta do valor de troca”
(MEW 23, p.150 [v1 p.115]), o dinheiro obtém também no ciclo do capital funcionante uma
posição especial. Ele é “o ponto de partida e o ponto final de todo processo de valorização”
(MEW 23, p.169 [v1 p.130]). O capital funcionante entrega-se ao objetivo da multiplicação
do dinheiro mudando sua forma repetidas vezes. Diferente do entesourador, que “procura
salvar o dinheiro da circulação”, e simplesmente o retém, o capitalista funcionante só
consegue “a multiplicação incessante do valor”, “ao entreg -lo sempre de novo à
circulação” (MEW 23, p.168 [v1 p.130]). No capital industrial, o capital total existente
inicialmente na forma da mercadoria geral divide-se em uma parte de capital variável e
uma parte constante, onde a primeira é trocada pela mercadoria especial força de trabalho
e a segunda por matérias-primas e máquinas. Somente com a venda das novas
mercadorias particulares produzidas com a ajuda desses ingredientes, e com a
reconversão do capital na mercadoria geral dinheiro, o capital industrial completou seu
movimento e atingiu seu objetivo. E também o capital comercial, na sua busca de lucro,
põe-se provisoriamente na pele de mercadorias particulares. Essas transformações,
indispensáveis para o processo de valorização, de maneira alguma abolem o estatuto
privilegiado do dinheiro enquanto alfa e omega da produção capitalista, somente o
confirmam. Somente com a reconversão na mercadoria geral pode-se distinguir se o
capital inicial tem funcionado de fato como capital ou se tem fracassado nessa tentativa. A
forma dinheiro é a forma real, universal, do capital, o capital-mercadoria, mas por outro
lado, é somente uma forma de representação sempre ameaçada de desvalorização,
portanto precária.
No livro III d‘O Capital, Marx continua essa consideração fundamental. Começa a seção 5,
na qual ele introduz o capital portador de juros, observando que devido à sua posição
privilegiada como ponto de partida e de chegada da valorização do valor, o dinheiro
assume um valor de uso adicional, cuja exposição até então tinha abstraído: “Dinheiro –
considerado aqui como expressão autônoma de uma soma de valor, exista ele de fato em
dinheiro ou em mercadorias – pode na base da produção capitalista ser transformado em
capital e, em virtude dessa transformação, passar de um valor dado para um valor que se
valoriza a si mesmo, que se multiplica. Produz lucro, isto é, capacita o capitalista a extrair
dos trabalhadores determinado quantum de trabalho não-pago, mais-produto e mais-valia,
e apropriar-se dele. Assim, adquire, além do valor de uso que possui como dinheiro, um
valor de uso adicional, a saber, o de funcionar como capital. Seu valor de uso consiste
aqui justamente no lucro que, uma vez transformado em capital, produz” (MEW 25,
p.350ss. [v4 p.241])
A economia política distingue três funções do dinheiro: enquanto meio de pagamento,
enquanto meio de reserva de valor e enquanto medida de valor. Considera assim, à sua
maneira, os diferentes valores de uso do dinheiro. No entanto, a economia política
burguesa oculta sistematicamente aquele valor de uso adicional que o dinheiro obtêm com
a subsunção da produção da riqueza material-sensível sob o diktat da valorização do valor,
seu valor de uso enquanto capital potencial. Ela pode fazer isso sem mais, na medida em
que confunde riqueza capitalista com simples riqueza de bens, e esse valor de uso
adicional do dinheiro não é realizado nem nas relações de compra no mercado da força de
trabalho nem nos mercados de bens[9]. Embora apenas a perspectiva de lucro leve os
capitalistas funcionantes a esses mercados, nos mercados de bens e de trabalho têm
lugar exclusivamente transações nas quais o valor de uso do dinheiro é utilizado enquanto
simples meio de compra, portanto nunca diretamente enquanto capital potencial: “Em
nenhum momento isolado da metamorfose, considerado por si, o capitalista vende a
mercadoria como capital ao comprador, embora para ele esta represente capital, ou aliena
o dinheiro como capital ao vendedor. Em ambos os casos, ele aliena a mercadoria
simplesmente como mercadoria e o dinheiro simplesmente como dinheiro, como mero
meio de compra de mercadorias” (MEW 25, p.354 [v4 p.244])
Uma sociedade produtora de mercadorias é uma sociedade de transferências de valores
de uso. Quanto aos muitos bens particulares, isso salta à vista imediatamente: “Para
produzir mercadoria, ele [o produtor] não precisa produzir apenas valor de uso, mas valor
de uso para outros” (MEW 23, p.55 [v1 p.49]). Uma maçã, uma máquina-ferramenta, um
lenço não se tornam mercadorias porque têm um valor de uso material-sensível para os
seus produtores, mas é seu valor de uso para os potenciais compradores o que faz delas
mercadorias. E também na mercadoria força de trabalho a propriedade e a utilização
separam-se necessariamente. Para se tornar mercadoria, ela deve para o seu proprietário
ser só portadora de valor de troca, enquanto desenvolve seu valor de uso nas mãos dos
capitalistas. Finalmente, está na natureza do valor de uso primário do dinheiro enquanto
meio de troca universal que a utilização desse valor de uso coincida diretamente com a
sua transferência. Quando o comprador cede ao vendedor uma determinada soma de
dinheiro, permite-lhe utilizar por sua vez essa soma de dinheiro como meio de troca e agir
enquanto comprador[10]. Enquanto se olha para o mundo dos bens e do ciclo do capital
funcionante, no entanto, um certo valor de uso não obedece ao princípio da portabilidade
geral de todos os valores de uso. Precisamente o valor de uso do dinheiro enquanto
capital potencial ou permanece ali inutilizado ou só pode ser realizado sob a forma de
pagamento monetário daquele que entrou no mercado de bens já na posse dessa soma de
dinheiro.
O capital está, consequentemente, preparado para, na sua marcha triunfal, tornar tudo
vendável e substituir a auto-produção e o auto-uso pela riqueza mediada pelo mercado. A
descoberta de um novo valor de uso numa mercadoria já estabelecida tem como
consequência que também ele se torna alienável. O desenvolvimento de métodos que
permitem a utilização do milho para a produção de combustível de maneira alguma tornou
os produtores de milho auto-suficiêntes no fornecimento de gasolina, antes eles passam a
vender seu produto não só como ração para animais mas também como planta energética.
Emergiu um novo mercado para a mercadoria milho. O valor de uso do dinheiro enquanto
capital potencial, que resulta da submissão da produção material ao capital, não é
nenhuma exceção[11]. O capital encontrou caminhos e meios para torná-lo também
alienável. Mas enquanto a descoberta de novos valores de uso materiais-sensíveis
significa somente uma extensão quantitativa do universo das mercadorias, com a
transformação do capital monetário potencial em uma mercadoria, o processo de
mercantilização adquire uma qualidade totalmente nova. Quando o próprio capital na sua
forma dinheiro se converte em mercadoria, o processo de mercantilização torna-se auto-
referencial e emerge um tipo inteiramente novo de mercadoria: “Nessa qualidade de
capital possível, de meio para a produção de lucro, torna-se [o dinheiro] mercadoria, mas
uma mercadoria sui generis” (MEW 25, p.351 [v4 p.241])
No início mesmo de suas observações sobre o capital portador de juros, Marx destaca que
a mercadoria capital monetário é fundamentalmente diferente das mercadorias negociadas
nos mercados de bens e segue suas próprias leis de movimento. Mas isso não é tudo. Ele
também deixa claro de início por que a mercadoria capital monetário fornece uma relação
social estruturada completamente diferente da proporcionada pelos bens. Pelo seu valor
de uso específico, a transferência do valor de uso adquire na mercadoria capital monetário
uma forma muito peculiar que se diferencia fundamentalmente de todas as outras
mercadorias. Na alienação do capital monetário, seu valor de uso enquanto capital
potencial é por um lado transferido ao comprador, mas por outro lado também usado pelo
próprio vendedor. A transformação do dinheiro em mais dinheiro é a única razão pela qual
o proprietário do capital monetário aliena-o.
Não é nada incomum que o comprador do capital monetário, graças à compra, disponha
sobre o valor de uso da mercadoria adquirida. Essa transferência do valor de uso ocorre
em cada venda. No entanto, é específico da mercadoria capital monetário que o vendedor
entregue o valor de uso de sua mercadoria, mas somente para realizá-lo ao mesmo tempo
ele mesmo. O capitalista monetário vende a mercadoria geral que ele possui (o dinheiro),
para ela lhe servir enquanto capital e o seu dinheiro retornar para ele acrescido. Há,
portanto, uma dupla utilização do valor de uso do capital monet rio, que torna a “mesma
soma de dinheiro […] capital para duas pessoas” (MEW 25, p.366 [v4 p.251]).
No mundo dos mercados de bens, tal como analisado por Marx no livro I d‘O
Capital, domina uma lógica diferente. Ali a transferência do valor de uso no ato da compra
inclui sempre uma transferência completa dos valores de uso envolvidos. Isso aplica-se
em primeiro lugar a mercadorias particulares vendidas. Quem vende tomates ou bicicletas
não mantêm para si mesmo nem um átimo do seu valor de uso. Nada muda se acontece
um aluguel em lugar de uma compra. Nesse caso, um objeto não é de fato vendido, mas
um direito de uso temporário de um objeto torna-se mercadoria. Mas pela duração do
contrato de locação, o locador renuncia ao uso próprio do espaço de moradia ou do carro
que foram cedidos, assim como o agricultor renuncia ao consumo das maçãs vendidas. E
também o valor de uso do dinheiro é totalmente transferido em uma compra no mercado
de bens. Na compra, o comprador utiliza ele mesmo em primeiro lugar o valor de uso do
dinheiro como meio de pagamento. Mas, ao fazê-lo, passa esse valor de uso completa e
irrevogavelmente para o vendedor. Este deixa o mercado com o dinheiro que entrou com
o comprador.
Para além do intercâmbio dos valores de uso entre o comprador e o vendedor e de que
ambas as partes contam a qualquer momento exclusivamente com o valor de uso
respectivo que cada um possui, o encontro entre o dinheiro e uma mercadoria específica
no mercado de bens tem ainda uma segunda característica: a soma de dinheiro de um e a
mercadoria específica do outro representam a mesma quantidade de valor de troca. No
conto Hans im Glück [João, o felizardo, na edição em português], Hans finalmente troca sua
pepita de ouro por uma pedra, e também nos acontecimentos reais dos mercados de bens
pode-se acabar sendo roubado. Mas, segundo a sua lógica básica, a crítica da economia
política insiste em que os bens e o dinheiro representam equivalentes, ou seja, valores
iguais. Essas duas características, a equivalência do valor de troca entre o dinheiro e uma
mercadoria específica, e o intercâmbio dos valores de uso, que a cada momento estão
somente na disposição exclusiva do comprador ou do vendedor, fazem da compra de um
bem uma relação de troca.
Do ponto de vista social, tal ato de compra estruturado como uma relação de troca tem
dois efeitos: o dinheiro circula e a mercadoria específica envolvida nesse processo de
troca realiza o seu valor no ato da compra. Sua função enquanto instância de realização
faz do mercado de bens um lugar de seleção para as mercadorias particulares que ali se
negociam. Na medida em que encontram um comprador, as mercadorias particulares
originadas de trabalhos privados isolados conseguem o reconhecimento como
componentes da riqueza capitalista, e o seu valor é confirmado como valor socialmente
válido. Se, ao contrário, o mercado se mostra pouco complacente, e as mercadorias
particulares se mantêm invendáveis, o reconhecimento social lhes é negado e ocorre uma
desvalorização. Para realizar o seu valor, os bens devem passar com êxito através do
gargalo da venda. Isso não significa, no entanto, que essa forma de riqueza capitalista
origina-se ali ou tem ali qualquer tipo de crescimento[12]; enquanto mera relação de troca,
a bem-sucedida venda de bens pode tão pouco aumentar a riqueza capitalista quanto
incrementar a massa de dinheiro.
8. Mercadorias sem troca
Como já foi indicado, uma característica particular diferencia a mercadoria capital
monetário do restante do mundo das mercadorias: em todo o universo de mercadorias, ela
é a única que, ao ser vendida, pode ter o seu valor de uso utilizado tanto pelo comprador
quanto pelo vendedor. No entanto, essa duplicação da utilização da mesma soma de
dinheiro só é possível porque ambos estabelecem uma relação social muito peculiar, que é
fundamentalmente diferente da relação entre o comprador e o vendedor de um bem. Nas
suas considerações iniciais para a análise do capital portador de juros, Marx procura
determinar mais precisamente esse caráter específico. Ele insiste em repetidas ocasiões
que, ao contr rio da venda de um bem, na venda do capital monet rio “não ocorre
intercâmbio” (MEW 25, p.359 [v4 p.247]).
E, de fato: na venda de capital monetário já não se encontra a característica mais geral e
mais abstrata de qualquer relação de troca. Só pode se falar de uma relação de troca
quando uma mercadoria particular defronta-se com dinheiro alheio ou, pelo menos, com
uma outra mercadoria particular. O capital monetário é também a única mercadoria em
todo o universo de mercadorias que pode ser alienada sem um tête-à-tête com outra
mercadoria. A venda do capital monet rio é, em vez disso, “consequência de um acordo
jurídico especial entre comprador e vendedor” (MEW 25, p.361 [v4 p.248]), que diz
respeito unicamente a essa mercadoria e regulamenta a utilização partilhada do seu valor
de uso.
As modalidades precisas desse acordo jurídico podem ser concebidas de formas muito
diferentes nos seus detalhes; o ponto central, no entanto, é sempre o mesmo: comprador e
vendedor da mercadoria capital monetário fecham um contrato jurídico que tem por
conteúdo uma “remessa” (MEW 25, p. 353 [v4 p.243]) do capital monet rio, sujeita a
posterior re-transferência. O capital monet rio, portanto, não é “pago e entregue” de uma
vez por todas, mas só “é alienado sob a condição, primeiro, de voltar, após determinado
prazo, a seu ponto de partida, e, segundo, de voltar como capital realizado” (MEW 25, p.
356 [v4 p.245]). Em primeiro lugar, o capitalista monet rio “entrega seu capital [ao
comprador], transfere-o […] sem receber um equivalente” (MEW 25, p.359 [v4 p.247]). Em
contrapartida, o comprador da mercadoria capital monetário compromete-se a efetuar em
uma data posterior uma transferência igualmente unilateral de capital monetário ao
vendedor. A primeira transferência unilateral proporciona ao comprador acesso ao valor do
uso do capital monetário. O acordo da segunda transferência em sentido oposto garante
que também o vendedor se beneficie do valor de uso do seu capital monetário. Para isso,
no entanto, a mera re-transferência da quantidade de dinheiro entregue não é suficiente.
Para assegurar a dupla utilização do valor de uso pelo comprador e pelo vendedor, o
acordo jurídico entre eles deve ser concebido de modo tal que o comprador ceda ao
vendedor uma soma de dinheiro maior que a recebida anteriormente por ele[13].
Com exceção de flutuações aleatórias, a compra de bens envolve o intercâmbio de valores
da mesma grandeza. Troca significa troca de equivalentes. Mas na venda da mercadoria
capital monetário o princípio de equivalência é anulado em dois aspectos. Em primeiro
lugar, porque esse tipo de venda substitui a transferência simultânea e recíproca de
dinheiro e mercadoria por duas transferências unilaterais separadas no tempo. Mas na
venda de capital monetário o princípio de equivalência é dissolvido também enquanto
processo total. Ao contrário, a venda tem como condição indispensável que ambas as
transações não se compensem, mas que finalmente chegue ao vendedor mais dinheiro
que aquele que ele entregou.
Existe, todavia, outra diferença fundamental entre a venda da mercadoria capital monetário
e a venda de bens. Enquanto troca, a venda de bens tem sempre o caráter de um ato
único. A alienação acontece em um momento determinado. Ao contrário, na mercadoria
capital a venda experimenta, por causa da decomposição em duas transferências
unilaterais separadas, um alargamento temporal. Nessa variedade de mercadoria, a venda
não é um evento pontual, mas um ato que cobre todo um período de tempo. A primeira
transferência unilateral de capital monetário do vendedor ao comprador marca o início da
venda, o último pagamento acordado do comprador ao vendedor, o final desse ato.
A venda da mercadoria capital monetário, no entanto, não experimenta somente um
alargamento temporal em relação à venda de bens; com esse alargamento temporal, a
alienação ganha um significado completamente novo na vida das mercadorias. Também
para os bens a venda representa um acontecimento chave. Somente com a sua troca por
dinheiro esse tipo de mercadorias tem reconhecimento social. Um tomate que foi
produzido como mercadoria, mas permanece invendável, não pode realizar o seu valor e é
degradada a uma mera coisa sem valor. Todavia, a existência das mercadorias não se
reduz ao fatídico momento da troca. A venda bem-sucedida constitui nos bens muito mais
a estação de passagem em um caminho muito mais longo. Todos os bens existem já antes
da venda. A produção da mercadoria e a sua alienação são, no caso dos bens, processos
sequenciais, claramente separados. A produção das mercadorias precede a venda. O pão
e o sofá devem ter sido produzidos para que fossem trocados por dinheiro, e só serão
trocados porque, enquanto produtos de trabalhos privados isolados, já foram produzidos
como portadores de valor. Depois da troca, o comprador e o vendedor seguem caminhos
separados. É claro que o fim da sua relação econômica não significa de maneira alguma o
fim do bem e do respectivo valor. Uma outra etapa espera por eles: seu consumo. A
mercadoria e o valor de troca não morrem de maneira alguma no balcão da loja, mas
somente na guarda do comprador por meio da utilização do seu valor de uso. O vinho tinto
e o valor que ele encarna desaparecem com a abertura da garrafa. O carro perde
gradualmente o seu valor ao rodar pelas ruas. Para os corpos das mercadorias somente o
consumo significa o fim definitivo. Se é usado enquanto capital produtivo, a alma do valor
sobrevive então inclusive à morte do corpo original da mercadoria pelo seu consumo. Ela
renasce na forma das novas mercadorias que o capital investido produz.
Ao contrário, o curso de vida da mercadoria capital monetário arrasta-se pelo período
alargado da venda. Essa mercadoria existe somente na situação da sua venda. Ambas as
“remessas” unilaterais marcam o início e o fim de seu tempo de vida. No capital monet rio,
a produção da mercadoria não precede a sua alienação; pelo contrário, nesse tipo de
mercadoria ambos coincidem. A mercadoria capital monetário origina-se somente na
entrega unilateral de dinheiro do vendedor ao comprador, com a condição juridicamente
estabelecida da re-transferência. O dinheiro que o capitalista monetário quer futuramente
vender, existe já antes e independentemente da sua venda, mas somente como simples
dinheiro, não como mercadoria capital monetário. Essa metamorfose somente se produz
ao entrarem em relação o vendedor e o comprador. Cada dia são vendidos milhões e
milhões de bens. Mas o encontro entre comprador e vendedor nesses mercados nunca
proporcionou um novo habitante ao mundo das mercadorias. No caso dos mercados de
dinheiro e capital, ao contrário, trata-se de mercados geradores de mercadorias. Para a
mercadoria capital monetário o mercado é portanto não só a instância de realização, mas
ao mesmo tempo sua esfera de produção. Mas não só o nascimento da mercadoria capital
monetário acontece na circulação, mas também a sua morte. Tanto para o comprador
quanto para o vendedor, a soma de dinheiro perde, com o fim da venda, seu valor de uso
enquanto capital. A vida dessa mercadoria expira portanto logo que na sua realização
encontra seu encerramento e se completa a restituição do capital monetário do comprador
ao vendedor, prevista no acordo entre eles.
É suficiente pensar em um crédito para imaginar essa constelação, que soa absurda
desde o ponto de vista dos bens. Enquanto o dinheiro jaz ermo no futuro credor, ele é
simplesmente dinheiro. Somente com a concessão de um crédito ele se torna mercadoria
capital monetário. Os contínuos reembolsos encolhem sucessivamente o montante de
capital monetário ainda vendido. Com o pagamento da última amortização, esse exemplar
da mercadoria capital monetário desaparece completamente[14]. O capitalista monetário
tem seu dinheiro novamente em mãos e ainda com juros, mas ali não funciona mais como
capital monetário, antes, voltou a se transformar em simples dinheiro. Somente uma nova
venda pode devolver-lhe o seu valor de uso enquanto capital monetário. Portanto, esse
tipo de mercadoria não tem outra forma de existência senão a relação entre comprador e
vendedor. Enquanto os bens somente se extinguem no consumo, a mercadoria capital
monetário desaparece com o fim da relação entre o comprador e o vendedor. Em outras
palavras: enquanto na vida dos bens é o seu consumo que da o acorde final e a realização
representa somente uma estação de passagem, para a mercadoria capital monetário a
realização é já a estação terminal[15].
A mercadoria capital monetário apresenta uma série de peculiaridades. Todas elas têm um
mesmo ponto de partida: a duplicação do valor de uso da mesma soma de dinheiro no
comprador e vendedor. Ainda que essa diferença transtoca as relações que regem no
mercado dos bens, há um aspecto em que não há nenhuma diferença entre a mercadoria
capital monetário e os bens: a quantidade de usuários é irrelevante para o potencial valor
de uso de uma mercadoria. Não é possível extrair nem uma gota a mais de uma garrafa de
água mineral somente porque duas pessoas e não uma querem encher os seus copos. O
valor de uso secundário do dinheiro enquanto capital funcionante potencial, que constitui o
fundamento para a metamorfose do capital monetário ele mesmo numa mercadoria, não é
exceção. Ele também pode ser realizado uma vez só: “O lucro não se duplica pela dupla
existência da mesma soma de dinheiro como capital para duas pessoas” (MEW 25 p.366
[v4 p.251]).
Para que ambos possam usar esse valor de uso do capital monetário, comprador e
vendedor da mercadoria capital monetário devem repartir o possível lucro entre eles. Se
um capital funcionante opera com seu próprio capital monetário, ele fica com todo o lucro.
Se opera com capital emprestado, então o lucro se divide em juros e ganho empresarial.
Se essa partição do valor de uso é trivial e banal, mais loucas são suas consequências no
lado do valor de troca. Por causa da divisão do valor de uso, a riqueza abstrata que
representa a soma de dinheiro inicial, de repente é duplicada. Uma vez para o seu
comprador e uma vez para o seu vendedor. Já sabemos por que o comprador tem em
suas mãos riqueza capitalista. Ele dispõe do montante original de dinheiro que o capitalista
monetário lhe entregou. A soma original de dinheiro foi parar nele. Mas o capitalista
monetário não deu o seu dinheiro de presente. Ele trocou o dinheiro por uma obrigação
jurídica de dinheiro em relação ao comprador. Essa obrigação monetária representa agora
o seu capital, um capital que existe ao lado do capital original. Esse capital tornado
imagem espelhada fantasmagórica do capital original, que Marx chamou de capital fictício,
desaparece somente com a liquidação das reivindicações do capitalista monetário.

9. Duas formas de imagem espelhada


Assim, a entrega sob condição jurídicamente estabelecida não só transforma em
mercadoria o capital monetário potencial; por meio da alienação do capital monetário,
origina-se nas mãos do vendedor do capital monetário uma duplicata do capital monetário
alienado. Contudo, a questão crucial para a teoria da acumulação ainda não foi
respondida: qual é o significado dessa duplicação? Origina-se com ela um capital
independente que segue um movimento próprio, ou essa cópia permanece
econômicamente passiva e não tem nenhum significado na vida econômica? A duplicata
existe unicamente na perspectiva privada das duas pessoas envolvidas na venda da
mercadoria capital monetário ou representa também capital adicional considerada a
totalidade capitalista? A resposta a essa pergunta depende do tipo básico de duplicata de
capital que se tem em mente. Trata-se de duplicatas de capital que não podem deixar a
mão do vendedor do capital monetário até o seu resgate final ou das que assumem elas
próprias um caráter de mercadoria e circulam nos seus próprios mercados, como por
exemplo títulos estatais ou ações?
Na medida em que a obrigação monetária adere inseparávelmente à pessoa do vendedor
do capital monetário e não se deixa transferir a um terceiro (i.e. no caso de um empréstimo
particular), somente o capital original cedido ao comprador do capital monetário participa
do ciclo econômico. A duplicata de capital permanece silenciosa e fixa ao lado do processo
econômico até desaparecer finalmente com o retorno do capital monetário ao seu
proprietário original. Essa passividade económica não é casual, mas emana do caráter
desta duplicata de capital. Ela existe apenas como acordo contratual entre duas pessoas
específicas e permanece um fenómeno jurídico externo ao processo económico gerador
de riqueza capitalista, da mesma maneira que um contrato matrimonial ou uma
reivindicação de herança. Assim, embora do ponto de vista particular do comprador de
capital monetário a duplicata de capital represente capital, enquanto garantia de cobrança
futura, para o processo capitalista global existe ainda somente um capital, o capital inicial
encaminhado.
Muito diferente é a situação assim que a imagem espelhada do capital original assume a
forma de uma mercadoria do mercado de capitais. Com a sua transformação em uma
mercadoria negociável, a obrigação de pagamento torna-se uma dimensão intra-
econômica e ganha importância para a totalidade capitalista. Nesse caso, tanto o capital
original quanto a sua imagem espelhada participam da circulação social geral de
mercadorias e capital. Enquanto compra de uma promessa de pagamento negociável, a
duplicação produzida na venda da mercadoria capital monetário ganha uma qualidade
nova: o capital inicial existe agora não somente duplicado, mas duplicado no interior da
economia capitalista. Isso tem, por sua vez, consequências de longo alcance para a teoria
da acumulação. Considerada a totalidade capitalista, as promessas de pagamento que se
encontram em circulação enquanto mercadorias do mercado de capitais representam
capital tão plenamente válido quando o capital funcionante. A acumulação real de valor na
produção de bens não é, portanto, a única fonte concebível que possa alimentar a
acumulação social total de capital. A multiplicação de duplicatas de capital na forma de
mercadorias do mercado de capitais pode ser considerada também como portadora do
processo da acumulação capitalista global.
Ambos os tipos de duplicatas de capital existem na realidade capitalista. Desde o século
XIX, as mercadorias do mercado de capitais tem ascendido, certamente, à forma
dominante, enquanto reivindicações monetárias não transferíveis têm tido por muito tempo
somente um papel marginal. Mesmo títulos de propriedade pessoais podem atualmente
representar um capital mais ou menos negociável, i.e. quando um banco aceita o título de
propriedade como garantia. Este é, em certo modo, liquidificado, e participa, assim, da
atividade econômica. Outra possibilidade é também a venda de um tal título de
propriedade para uma agência de cobrança – uma prática comum diante de dificuldades
de reembolso persistentes. Esse deslocamento para as mercadorias do mercado de
capitais não é nada acidental: faz parte da lógica do desenvolvimento capitalista. A história
da imposição da relação-capital é, como se sabe, idêntica à marcha triunfal da forma
mercadoria. Esse processo não se detém diante da mercadoria capital monetário. Por que
ele deixaria de lado a duplicata de capital originada da alienação do capital monetário?
Em termos lógicos, enquanto forma desenvolvida da duplicata de capital, a mercadoria do
mercado de capitais é o resultado de um processo de mercantilização em duas etapas. Em
primeiro lugar, o dinheiro, na sua função de capital monetário, torna-se ele próprio uma
mercadoria; em um segundo passo, as duplicatas de capital originadas na venda do capital
monetário transformam-se também em mercadoria. A exposição de Marx no livro III d‘O
Capitalinterrompe-se na primeira parte desse passo duplo. Na sua análise do capital
portador de juros, Marx abstrai da possibilidade da transformação de reivindicações
monetárias em um tipo específico de mercadoria. No capítulo 24, que descreve o ciclo do
capital portador de juros, ele segue somente a trajetória ulterior do capital monetário
entregue. Ele pode fazer isso pois compreende as reivindicações monetárias como
dimensões meramente jurídicas – e com isso como títulos de propriedades pessoais – que
consequentemente não levam adiante nenhum movimento próprio intra-econômico. No
debate marxista, essa passividade econômica é falsamente compreendida como uma
determinação geral de qualquer tipo de título de propriedade. Mas, de fato, somente por
razões metodologicas Marx assume uma simplificação, típica da sua maneira de
argumentar n‘O Capital. A prescindência das reais mercadorias do mercado de capitais,
permite-lhe considerar a transformação do próprio capital monetário em uma mercadoria e
com isso a passagem do mundo do capital funcionante para a superestrutura financeira.
Não pode ser inferido daí que teria escapado de Marx a existência de títulos de
propriedade negociáveis ou que ele não conseguisse ver o seu caráter e a sua dimensão
intra-econômica. Isso fica claro o mais tardar na leitura de passagens infelizmente não
integradas sistematicamente na exposição, nas quais Marx, no livro III d‘O Capital, vai além
da sua análise limitada a títulos de propriedade não negociáveis e, por exemplo, examina
brevemente a natureza das ações. Longe de negar o peso econômico específico dessas
duplicatas de capital, ele sublinha precisamente a sua vida própria: “Os títulos de
propriedade sobre empresas por ações, ferrovias, minas, etc. são […] títulos sobre capital
real. Entretanto, não dão possibilidade de dispor desse capital. Ele não pode ser retirado.
Apenas dão direitos a uma parte da mais-valia produzida pelo mesmo. Mas esses títulos
se tornam também duplicatas de papel do capital real, como se o conhecimento de carga
recebesse um valor além do da carga e simultaneamente com ela. Tornam-se
representantes nominais de capitais inexistentes. Pois o capital real existe ao seu lado e
não mudam ao todo de mãos pelo fato de essas duplicatas mudarem de mãos. Tornam-se
formas do capital portador de juros, não apenas por assegurar certos rendimentos, mas
também porque, pela venda, pode ser conseguido seu reembolso como valores-capitais.
Na medida em que a acumulação desses papéis expressa a acumulação de ferrovias,
minas, navios, etc. ela expressa a ampliação do processo real de reprodução, do mesmo
modo que a ampliação de uma relação de impostos sobre, por exemplo, bens móveis
indica a expansão desses bens. Mas, como duplicatas que são, em si mesmas,
negociáveis como mercadorias e, por isso, circulam como valores-capitais, elas são
ilusórias e seu montante de valor pode cair ou subir de modo inteiramente independente
do movimento de valor do capital real, sobre o qual são títulos” (MEW 25, p. 494 [v5 p.13]).
10. Mercadorias do mercado de capitais – mercadorias de 2a ordem
Em cada venda no mercado de bens estão implicadas duas mercadorias: o dinheiro, a
mercadoria geral, e uma mercadoria particular, portadora de um determinado valor de uso.
Na cessão de capital monetário em troca de uma obrigação monetária não transferível, a
mercadoria geral é vendida enquanto capital potencial, sem se defrontar com uma
mercadoria particular. Ao mesmo tempo, o proprietário do dinheiro muda de função.
Enquanto no mercado de bens sempre opera como comprador, nessa venda especial o
proprietário do dinheiro está do lado dos vendedores. A transformação do título de
propriedade numa mercadoria negociável reproduz as relações estabelecidas nos
mercados de bens de duas maneiras. De um lado, assim como no mercado de bens, na
venda entram em relação recíproca a mercadoria geral e uma mercadoria particular. De
outro lado, o dono da mercadoria geral encontra-se novamente na posição habitual de
comprador, pois na aquisição do título de propriedade ele comprou uma mercadoria.
Contudo, trata-se de um tipo muito específico de mercadoria; portanto não se pode falar de
um retorno à relação social predominante no mundo dos bens.
Antes de tudo, essa secção do universo das mercadorias só existe pela transformação do
capital monetário em uma mercadoria. A mercadoria que ali se negocia representa
portanto um tipo derivado de mercadoria: uma mercadoria de segunda ordem. Enquanto
nos mercados de bens transborda uma variedade multicolor de valores de uso diferentes,
neste mercado reina uma monotonia absoluta. Nos mercados de dinheiro e de capital
movem-se exclusivamente mercadorias com um único valor de uso: sua aquisição promete
aos compradores a transformação do dinheiro em mais dinheiro. Mas, acima de tudo, a
estranha origem dessa mercadoria se reflete nas suas propriedades particulares.
Enquanto imagem espelhada da mercadoria capital monetário ela oferece aos seus
potenciais compradores não só o seu valor de uso, mas também mostra toda a estranheza
que já descobrimos nessa mercadoria. Trata-se, antes de tudo, de um percurso de vida
peculiar: assim como a mercadoria capital monetário, as mercadorias de segunda ordem
só existem em estado de venda. Elas se originam na sua venda inicial e desaparecem na
sua realização. Enquanto reflexo do capital monetário originário, as mercadorias de
segunda ordem não só têm o seu preço, mas representam capital social válido até a sua
vendabilidade ser ameaçada. Com a emissão dessa mercadoria, tal capital forma-se
adicionalmente ao capital monetário dos vendedores de capital monetário, e dissolve-se
novamente com a sua realização.

11. As dimensões ignoradas do fetiche do capital


Na sociedade capitalista os homens não se relacionam conscientemente entre si, mas os
produtos do trabalho medeiam o vínculo social. Marx designa essa inversão como
fetichismo. O problema do fetiche pode ser designado como o leitmotiv da crítica da
economia política. J no livro I d‘O Capital, Marx se dedica a decifrar o fetiche da
mercadoria e a sua forma desenvolvida, o fetiche do dinheiro. No livro III d‘O
Capital finalmente chega, no contexto de sua exposição, ao capital portador de juros como
a última das três formas de fetiche que se superpõem, e que chama de fetiche do capital.
O que todas essas formas de fetiche tem em comum é que a mediação social real
permanece oculta para os protagonistas e aparece como uma propriedade das coisas.
Esse absurdo, como enfatiza Marx, chega ao seu ponto mais alto no fetiche do capital. A
transformação do dinheiro em mais dinheiro, resultado de relações sociais complexas,
aparece na forma do capital portador de juros como uma propriedade inerente ao dinheiro:
“O capital aparece como fonte misteriosa, autocriadora dos juros, de seu próprio
incremento. A coisa (dinheiro, mercadoria, valor) já é capital como mera coisa, e o capital
aparece como simples coisa; o resultado do processo global de reprodução aparece como
propriedade que cabe por si a uma coisa […] Na forma do capital portador de juros,
portanto, esse fetiche automático está elaborado em sua pureza, valor que valoriza a si
mesmo, dinheiro que gera dinheiro, e ele não traz nenhuma marca de seu nascimento. A
relação social está consumada como relação de uma coisa, do dinheiro, consigo mesmo
[…] Torna-se assim propriedade do dinheiro criar valor, proporcionar juros, assim como a
de uma pereira é dar peras. E como tal coisa prestadora de juros, o prestamista de
dinheiro vende seu dinheiro” (MEW 25, p. 405 [IV p.278-9]).
Nesta passagem frequentemente citada, Marx está olhando para uma dimensão específica
do fetiche do capital, a saber, a maneira como se manifesta e deve se manifestar a
mediação social na consciência dominante. A relação social de mediação na qual o capital
por si só cria capital é ali ocultada. A transformação do dinheiro em mais dinheiro, na
realidade resultado de relações sociais totalmente específicas, aparece em seu lugar como
sendo resultado do capital nas diferentes formas de manifestação de sua propriedade
natural inerente. Assim, torna-se invisível que tão somente a relação do capital funcionante
com a força de trabalho e sua potência de criar mais-valia produz valor que se valoriza.
Imagina-se, a partir disso, que os meios de produção produziriam valor por si mesmos.
Essa ideia fetichista tem dois pontos de apoio. Em primeiro lugar, o comando capitalista
sobre a força de trabalho – um ponto j desenvolvido por Marx no Livro I d‘O Capital.
Porque o capital funcionante incorpora e submete o trabalho vivo, as forças produtivas do
trabalho aparecem como forças produtivas do capital. É enquanto um capital com essa
potência inerente que aparece no pensamento burguês, que não faz distinção entre valor
de uso e valor de troca, nem do valor de uso específico da força de trabalho de ser capaz
de produzir valor. No Livro III d‘O Capital um ponto de vista adicional entra em cena. O
capital funcionante aparece equipado com sua capacidade natural de auto-valorização
porque o pensamento dominante projetou neste o movimento particular do capital portador
de juros. Com a mercadoria capital monetário abre-se a oportunidade para cada possuidor
de dinheiro de multiplicar seu dinheiro sem passar pela produção de bens. Com a
existência do capital portador de juros, esse fato é mistificado nas propriedades naturais
de todo capital monetário e atribuído também ao capital funcionante, cuja carreira começa
e acaba sempre na forma dinheiro.
Embora essa crítica da falsa consciência necessária seja também adequada e importante,
o fetiche do capital tem ainda uma dimensão mais ampla, posta mas não elaborada na
exposição de Marx. Nossa análise torna visível essa dimensão: a aparição das
mercadorias do mercado de capitais torna o fetiche do capital um fetiche real.
Naturalmente o capital não pode se multiplicar por si mesmo, mas tão somente como
resultado de uma relação social. Mas a extração de mais-valia através da produção de
bens de maneira alguma é a única relação social da qual pode surgir capital. A relação
social entre o emissor e o vendedor de uma mercadoria de segunda ordem, nessa sua
exclusiva maneira louca, acaba sendo também criadora de capital. Com a proliferação
dessas mercadorias de segunda ordem, o capital criou para si uma fonte de acumulação
de capital independente de uma anterior valorização do valor, não só do ponto de vista do
capital individual mas também considerada a totalidade social. Assim, o fetiche específico
das mercadorias de segunda ordem torna o fetiche do capital uma força material tangível,
com amplas consequências teóricas: a aparição desse novo tipo de mercadorias quebra a
coincidência entre a acumulação de valor e a acumulação de capital!
Infelizmente o debate marxista tem fracassado até hoje em continuar desenvolvendo a
crítica da economia política de Marx, e não tem consciência alguma desse segundo
momento do fetiche do capital. Em lugar disso, apropria-se do axioma da economia
política: acumulação de capital e acumulação de valor são o mesmo. Enquanto se enfrenta
o regime de acumulação dominado pelo mercado financeiro com essa análise incompleta
do fetiche do capital, o seu mistério permanece um livro com sete selos. Pior ainda: a
referência à crítica do fetiche, amplamente ignorada pela vulgata marxista, pode servir
inclusive como uma justificativa teórica superior para ignorar o processo capitalista real.
Elmar Altvater proclama com toda a seriedade ex cathedra: “A ideia frequente de um
desacoplamento entre a economia monetária e a economia real é uma grande ilusão,
devida ao brilho ofuscante do fetichismo do dinheiro e do crédito – como se os altos
rendimentos das relações financeiras viessem de si mesmas, como se pudessem ser
recolhidos dos cofres dos Bancos, e não devessem ser produzidos na economia real”
(Altvater, 2008). Com essa referência à crítica marxiana do fetichismo, Altvater sugere que
ele critica a visão predominante desde um ponto de vista da crítica radical da economia
política. Na verdade, ele representa aquela vulgata do marxismo que nunca levou a sério a
crítica do fetichismo marxiana. O ponto central é que a mistificação da „economia real“
enquanto suposta única fonte de criação de capital, deixa o argumento da Altvater em
conformidade total com os contos de ninar dos manuais de economia política. De fato,
ambos igualam a acumulação de valor e a acumulação de capital sem mais delongas. O
fetiche do capital enquanto fetiche da mercadoria de 2a ordem não consiste na
falsa aparência, segundo a qual o capital poderia também se formar sem uma valorização
anterior por meio da produção de bens; em vez disso, do fetiche específico das
mercadorias do mercado de capitais resulta que a formação de capital pode se
descolar realmente da produção anterior de valor.
A dimensão adicional do fetiche produzida com a aparição das mercadorias do mercado
de capitais pode ser resumida em poucas palavras. Com a emissão de mercadorias do
mercado de capitais produz-se uma inversão na sequência temporal da produção de valor
e mais-valor, de um lado, e de formação de capital, de outro lado. Com a colocação bem-
sucedida de uma mercadoria de 2a ordem no mercado de capitais, o valor futuro apresenta-
se já hoje enquanto capital, considerada a totalidade social. Trabalho produtivo ainda não
efetuado de maneira alguma, e que possivelmente nunca o será, assume a forma de
capital. A formação de capital não se baseia aqui portanto na produção de valor mas resulta da
antecipação de valor.
No jargão da Bolsa diz-se ocasionalmente que nos mercados de dinheiro e de capital
negociar-se-ia com o “futuro”. Nessa frase aparece uma pista do segredo escondido por
trás da acumulação de capital baseada na indústria financeira. A economia política,
disciplina responsável pela totalidade econômica, não é contudo capaz nem de começar a
compreender, com as suas categorias rudimentares, a reversão temporal que se revela
nessa frase. A causa está realmente ao alcance da mão. A economia política iguala a
riqueza abstrata com a simples riqueza de bens. Mas no mundo dos bens reina
inexoravelmente a eterna lógica temporal: para que algo seja utilizado é preciso que antes
tenha sido fabricado. Ninguém pode instalar no seu computador um programa ainda não
escrito, ou morar numa casa ainda em estágio de planejamento. Nada muda nessa ordem
temporal pelo fato do capital se apropriar da produção de bens e transformá-la na sua
produção de mercadorias. A riqueza material-sensível transformada em valor de uso das
mercadorias existe somente ao fim da produção. Um tapete que será tecido na próxima
semana representa tão pouco um valor de uso quanto um carro montado pela metade.
Porque o valor de uso é afinal o portador do valor de troca, aplica-se evidentemente
também essa sequência temporal ao conteúdo real das riquezas existentes na forma de
bens. No movimento do capital funcionante reproduz-se por conseguinte a sequência
temporal reinante no mundo das riquezas materiais-sensíveis. Primeiro as mercadorias
devem ser produzidas e conseguir ser vendidas, só então pode ser acumulado o valor
recém-criado. Desde um ponto de vista que iguala a riqueza capitalista global com a
riqueza total dos bens, compreende-se por si mesmo que o processo de acumulação
capitalista geral só possa funcionar de acordo com esse modelo. Um incremento do capital
social total baseado em valor ainda não produzido parece tão ridículo quanto a ideia de
que poderia-se colher peras de uma árvore ainda não plantada.
Mas a riqueza abstrata é afinal algo bem diferente do que a simples riqueza de bens. Na
natureza a colheita de peras encontra-se evidentemente só no final de um longo processo
que começa com o plantio de sementes de pereiras. No mundo do fetiche das mercadorias
de 2aordem aplicam-se outras leis. Ali este absurdo é realidade. Os mercados de capitais
são povoados exclusivamente com representantes dessa flora maravilhosa na qual a fruta
se encontra disponível para ser colhida e comida antes que as sementes de pereira sequer
tenham criado raízes.

[1] Esse indicador atual já distorce o desenvolvimento real na medida em que na


determinação das dimensões comparativas dos PIB globais inclui também os lucros e
rendimentos obtidos no setor financeiro. Esse “valor agregado” dos bancos e seguradoras
teria que ser descontado.
[2] Esse tipo arcaico de título de dívida, originado ainda imediatamente do processo de
circulação dos bens, extingui-se nesse meio tempo.
[3] O monetarismo representa essa confusão com particular vigor. Um dos pressupostos
b sicos dessa abordagem é que se deve deixar de lado o “véu do dinheiro” para chegar
aos processos de fato essenciais da economia de mercado. Mas também os adversários
keynesianos compartilham esses pressupostos. Afirma-se, assim, numa bibliografia
b sica: “O dinheiro é um meio para adquirir coisas, mas não um fim em si. O conto do Rei
Midas na qual o avarento esquece os bens que ele pode comprar com ouro, e espera que
tudo o que ele toque se transforme em ouro (inclusive a sua filha predileta), mostra que
esse meio pode se perverter também como um fim em si” (Samuelson, 1981, p. 78). Na
verdade, no entanto, é claro que o fim em si da transformação do dinheiro em mais
dinheiro é subjacente a toda a produção de bens no capitalismo: não é uma perversão da
economia de mercado, mas constitui precisamente a sua essência.
[4] As mercadorias do mercado de capitais compartilham a propriedade de ter um valor de
uso meramente social com outra mercadoria que tem um papel chave para o modo de
produção capitalista, isto é com a mercadoria força de trabalho. O seu valor de uso
particular consiste na potência de criar uma massa de valor maior que os seus próprios
custos de reprodução. Esse é também um valor de uso completamente não-sensível.
[5] Diferentemente do que afirma a economia política, a existência de papel moeda e de
moeda escritural de maneira alguma põem em questão o caráter de mercadoria do
dinheiro. Se, como Marx constatou em O Capital, a mercadoria-dinheiro pode, em
determinadas funções (i.e como meio de circulação), ser substituida por um representante,
isso de maneira alguma torna o sistema monetário um sistema de signos. Esses signos do
dinheiro não se representam a si mesmos, eles devem a sua capacidade de representação
substitutiva da riqueza abstrata e a decorrente validade social à sua referência à
mercadoria-dinheiro real. Ainda quando, como no sistema monetário contemporâneo,
somente sucedâneos do dinheiro são utilizados para realizar transações privadas, isso não
significa a emancipação do sistema monetário da existência de uma mercadoria-dinheiro e
a abolição desse vínculo; a mercadoria geral real só desaparece das relações dos sujeitos
mercantis particulares, para se concentrar nos bancos emissores responsáveis pelos
sucedâneos do dinheiro. No sistema de cobertura do ouro do século XIX, a dependência
do “valor” derivado do signo-dinheiro utilizado como meio de pago legal e a mercadoria-
dinheiro desse tempo – o metal precioso – eram ainda imediatamente tangíveis. Naquele
momento, os bancos emissores eram obrigados a trocar cada nota, sob demanda do seu
proprietário, por uma quantidade determinada de ouro. O ouro monetário que se
encontrava de posse dos bancos emissores servia como base do sistema monetário. No
curso do século XX, o ouro teve que ceder sucessivamente o papel de rei das
mercadorias. Fora as reservas remanescentes de ouro monetário, a maior parte das
reservas monetárias adquiridas pelos bancos centrais como parte da sua “criação de
dinheiro” ou depositada neles como garantia, consiste em mercadorias do mercado de
capitais. Diferente das notas convertíveis por ouro do século XIX, a validade dos meios de
pagamento legal na nova mercadoria geral não está mais imediatamente acoplada ao
valor incorporado nas reservas de ouro. Mas isso de maneira alguma torna irrelevante a
diferença entre o mero signo dinheiro e a mercadoria geral e não faz do signo dinheiro um
dinheiro auto-sustentado que flutua livremente. Após a demonetização do ouro, a validade
do papel dinheiro atual depende de se as mercadorias do mercado de capitais adquiridas
pelos bancos centrais enquanto universalidade abstrata monetária podem ou não
representar riqueza abstrata. No entanto, esse vínculo só pode ser examinado com
precisão somente depois de ter esclarecido a questão fundamental discutida neste texto
sobre o estatuto das mercadorias do mercado de capitais no sistema da riqueza abstrata.
[6] http://wirtschaftslexikon.gabler.de/Definition/kapital.html
[7] Infelizmente fica fora do escopo deste texto tratar detalhadamente desse modo de
formação de capital e o seu estatuto no sistema geral da riqueza capitalista, embora ela
tenha novamente um papel importante (palavra-chave “grilagem”). Essa tarefa deve ficar
para um trabalho posterior.
[8] O ponto de partida lógico da exposição de Marx n‘O Capital é a estrutura central da
sociedade capitalista, ou seja, a forma específica de relação entre produtores privados
isolados. Por causa da dissolução da sociedade em uma sociedade de produtores
privados isolados, as varias coisas que os homens devem criar para satisfazer as suas
necessidades transformam-se em mercadorias. Como desenvolvido na seção 1 do livro I
d‘O Capital, nessas mercadorias objetifica-se o caráter privado do trabalho social e isso faz
delas portadoras de valor. Ao introduzir a mercadoria força de trabalho e examinar o seu
valor de uso particular, a sua capacidade de pôr valor para além do seu custo de
reprodução, Marx pode, na seção seguinte, passar do valor para o valor que se
autovaloriza, para o capital. Nesse passo de desenvolvimento lógico, da exposição do
capital produtor de bens em geral, finaliza a parte d‘O Capital publicada pelo próprio Marx.
No livro II e na primeira parte do livro III, Marx tem em conta outras duas características do
modo de produção capitalista. Por um lado, os bens não são somente produzidos, eles
devem também circular, o que se manifesta entre outras coisas em uma separação do
capital funcionante em capital industrial e capital comercial. Por outro lado, o capital
produtor de bens existe como muitos capitais cuja reprodução entrelaza-se tanto
materialmente quanto em termos do valor. Quanto ao lado do valor de troca, isso resulta,
devido à diferente composição orgânica dos diversos capitais individuais, entre outras
coisas, no infame problema da transformação. A proporção de mais-valia total que um
capital individual pode tomar para si não depende unicamente do capital variável utilizado
respectivamente, mas o decisivo é sobretudo o tamanho do capital individual. Com isso, a
mais-valia não aparece diretamente na superfície do processo social, antes apresenta-se
ali como uma grandeza diferente, como lucro. Também o valor de troca dos bens passa
por isso. O respectivo valor de troca não é nada decisivo para a proporção quantitativa
pela qual os bens são trocados pela mercadoria geral, o dinheiro, como Marx tinha
assumido ainda no livro I d‘O Capital. Os preços dos bens oscilam, antes, ao redor de outra
grandeza, da soma do preço de custo e da taxa média de lucro. Em todos esses passos
de concreção, no entanto, ainda se mantêm um suposto do livro I d‘O Capital. Até o final
do livro III d‘O Capital, a exposição do Marx assume que além da mercadoria geral, o
dinheiro, há ainda apenas dois tipos de mercadorias no universo das mercadorias: a força
de trabalho e as mercadorias originadas da sua utilização. Somente depois de cerca de
1600 páginas é ultrapassado esse horizonte do problema com as seções 5 e 6 do livro III.
[9] Pela mesma razão Marx pode e deve se abstrair desse valor de uso na medida
em que ele considera o ciclo do capital funcionante, ou seja nas primeiras 1600 páginas da
sua obra principal.
[10] Ao assumir a forma do dinheiro, o valor de um bem alcança a condição da
trocabilidade universal. Enquanto meio de compra universal, o dinheiro pode ser trocado
por todas as mercadorias que se encontram no mercado. No entanto, esse valor de uso
não precisa ser usado imediatamente, a trocabilidade universal do dinheiro estende-se
também a mercadorias particulares que ainda não entraram no mercado; isso implica que
uma determinada soma de dinheiro também amanhã e depois de amanhã pode servir
como meio de compra ao seu proprietário. Depende dele se utiliza o valor de uso enquanto
meio de compra imediatamente ou numa data posterior. Nesse caso, o uso temporário do
dinheiro enquanto meio de compra potencial disponível a qualquer momento adia o seu
uso enquanto meio de compra real. O dinheiro ainda não levado ao mercado serve como
meio de conservação do valor. O valor de uso do dinheiro enquanto meio de conservação
do valor é dependente do valor de uso enquanto meio de compra e subordinado a ele. O
dinheiro que perde total ou parcialmente o seu valor de uso enquanto meio de compra
inevitavelmente perde também o seu valor de uso enquanto meio de conservação do valor.
Isso é diferente quando se trata do uso do dinheiro enquanto meio de cálculo e medida de
valor. Nessa transferência subordinada de valor de uso, está ausente de fato a
transferência de uma pessoa a outra. No entanto, isso se deve ao caráter especial, não-
exclusivo desse valor de uso. No uso do dinheiro enquanto meio de cálculo e medida de
valor é usado idealmente dinheiro meramente imaginado. O uso ideal de dinheiro
meramente imaginado não pressupõe no usuário uma propriedade real do dinheiro e
portanto está sempre accesível da mesma maneira para todos os sujeitos-mercadoria e
sujeitos-dinheiro. Mas essa exceção somente confirma a regra: nada pode funcionar como
mercadoria sem transferência de valor de uso.
[11] Em uma sociedade em que a mercadoria é a forma onipresente de riqueza, é
inevitável que também o capital se torne ele mesmo uma mercadoria. É por isso que Marx
não por acaso só tinha desprezo e escárnio em relação a Proudhon, o antepassado da
hoje novamente popular crítica dos juros. Quem aceita a mercadoria enquanto forma
natural da riqueza e ao mesmo tempo critica o fato do dinheiro virar uma mercadoria quer
se lavar sem se molhar.
[12] Essa é também a razão pela qual Marx introduziu para esse processo a noção de
“realização”.
[13] Geralmente, essa segunda transferência realiza-se em vários passos e não de
uma vez só. Se o capital monetário é vendido só temporariamente, ou seja, alugado, como
no caso do crédito, então a transferência unilateral se decompõe em dois elementos: na
devolução da soma de dinheiro original (amortização) e no pagamento de juros. Se a
cessão do capital monetário é permanente, basta pensar na compra de ações de uma
empresa, o elemento de reembolso é suprimido. Em compensação, flui dinheiro para o
vendedor do capital monetário permanentemente de forma periódica. Ele recebe uma
parte dos lucros correntes da empresa.
[14] A expressão amortização [Tilgung] já exprime bem o que significa na mercadoria
capital monetário a realização, isto é, a sua anulação e portanto o seu desaparecimento.
[15] Nos bens, a realização é idéntica à troca, isto é, ao pagamento; na mercadoria
capital monetário, é identica à transferência unilateral do comprador ao vendedor. A
transferência unilateral introdutória do vendedor ao comprador cria a mercadoria capital
monetário.

Bibliografia
Altvater, Elmar (2008): Nicht tot zu kriegen, http://www.das-kapital-lesen.de/?p=66
Baecker, Dirk (2008): Womit handeln Banken?, Frankfurt/M. 2008
Candeias, Mario (2008): Krise im oder des neoliberalen Finanzkapitalismus?, Rosa-
Luxemburg-Stiftung, September 2008, http://www.rosalux.de/fileadmin/rls_
uploads/pdfs/Themen/Wirtschaft/Candeias300908.pdf
Chesnais, François (2004): Das finanzdominierte Akkumulationsregime: theoretische
Begr ndung und Reich eite, in: Zeller, Christian ( g.): Die globale Enteignungs konomie.
M nster, S. 217-254 [François Chesnais. A teoria do regime de acumulação financeirizado:
conteúdo, alcance e interrogaç es. economia política e Sociedade, Campinas, v. 11, n. 1
(18), p. 1-44, jan./jun. 2002]
Marx, Karl (1970): Resultate des unmittelbaren Produktionsprozesses, Frankfurt, Verlag
Neue Kritik 1970
MEW 23 = Marx, Karl (1983a): Das Kapital, Band 1, Marx-Engels-Werke Bd. 23, Berlin
1983
[MARX, Karl, O Capital: crítica da economia política. Livro I. Volumes 1 e 2. São Paulo:
Nova Cultural, 1985]
MEW 25 = Marx, Karl (1986): Das Kapital, Band 3, Marx-Engels-Werke Bd. 25, Berlin 1986
[MARX, Karl, O Capital: crítica da economia política. Livro III. Volumes 4 e 5. São Paulo:
Nova Cultural, 1985]
MEW 42 Marx, arl (1983b): rundrisse der ritik der politischen konomie, in: Marx-
Engels-Werke Bd. 42, Berlin 1983
Samuelson, Paul A. (1981): Volks irtschaftslehre 1, ln 1981
Stobbe, Alfred (1994): Volks irtschaftliches Rechnungs esen, Berlin eidelberg Ne
ork 1994 Zeise, Lucas: Ende der Part , ln 2008
Zeise, Lucas: Ende der Part , ln 2008

http://www.krisis.org/2018/acumulaao-de-capital-sem-acumulaao-de-valor/