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“VIRGEM” OU “JOVEM”

UM ESTUDO SOBRE ISAIAS 7:14

Imagine-se na seguinte situação: Você está noivo. A mulher que você está
comprometido é virgem. De repente, ela lhe informa que está grávida. Você
furiosamente pergunta como isso aconteceu e ela se defende dizendo que não o traiu,
que foi o espírito santo que a engravidou. Você acreditaria nessa história?
Uma história dessa não apenas parece mera ilusão, mero delírio, mas ela é
acreditada por milhares de pessoas ao redor do mundo. Por muito tempo pensei que
os judeus não aceitavam o cristianismo por serem pessoas de coração duro, verdadeiros
iníquos. Mas, a verdade é que existem motivos bem fundados para eles não abraçarem
o Evangelho. Entre estes motivos está o nascimento virginal e mais adiante
entenderemos o porquê.
A maioria das pessoas já ouviu sobre a história do nascimento virginal do menino
Jesus. Tudo começou quando Maria estava prometida a José. Ela era virgem. Deus a
escolheu como um vaso para levar em seu ventre o seu filho que viria a ser Jesus. No
entanto, o fato de Maria ser virgem não era coincidência. De acordo com o Evangelho
de Mateus, nós lemos as seguintes palavras:
1:22 Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta,
que diz; 1:23 Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de
EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco.
Como mencionei anteriormente, a virgindade de Maria não era pura coincidência,
o apóstolo Mateus disse que o nascimento virginal “aconteceu para que se cumprisse o
que foi dito... pelo profeta [Isaías]”. Em que parte do livro de Isaías é predito o
nascimento do Messias por meio de uma virgem? Segundo os cristãos, a resposta está
em Isaías 7:14, onde nós lemos: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que
a virgem [hebr.:‘almah] conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome
Emanuel.” (ACF). Sobre o versículo em questão, pode-se dizer que “dificilmente há
outro versículo na Bíblia que tenha sido mais debatido e discutido do que Isaías 7:14”
(PAYNE, 2009). Por que se diz isso?
Bem, Mateus cita essa passagem de Isaías dizendo que ela se cumpriu quando a
virgem Maria deu à luz Jesus, o Cristo. Mostraremos em nosso estudo que Isaías 7:14
não é uma profecia sobre uma virgem que dá à luz ao Messias, sendo esse exatamente
um dos motivos dos judeus não aceitarem o Cristianismo.
“ALMAH” E “BETHULAH” – QUAL O SENTIDO REAL EM HEBRAICO?

A questão relativa ao problema do nascimento virginal se centraliza no fato do


texto de Isaías 7:14 ser uma má tradução do texto original. Desde os primórdios do
Cristianismo, os judeus têm batalhado contra a doutrina do nascimento messiânico
virginal, pois, segundo os judeus, não existe no Antigo Testamento nenhuma profecia
com essa ideia. De acordo com a corrente ortodoxa judaica, Isaías 7:14 diz que “uma
jovem” dará luz à um filho e que essa profecia teve um cumprimento histórico em Israel.
Em hebraico, existiam várias palavras que denotavam “virgem” e “virgindade”. No
entanto, para nosso estudo, iremos nos encarregar de apenas duas, ‘almah e bethulah.
A grande questão está no uso e significado delas dentro do Antigo Testamento e de
como os judeus as entendiam e consequentemente usavam-nas.
Sobre estes termos traduzidos por “virgem”, a Bíblia de Estudo Dake comenta:
“Almah denota uma jovem solteira com idade para se casar, e, portanto, uma verdadeira
virgem. Bethulah refere-se a uma jovem solteira e expressa uma virgindade de uma noiva
ou uma comprometida...
Nenhum desses termos originais é usado em relação a uma mulher casada. Alguns
sustentam que tais termos simplesmente significam uma jovem, mais isso não é verdade;
significam apenas uma virgem que é pura e imaculada – qualquer donzela que nunca
conheceu um homem” (DAKE, 2010).
O ponto em que os judeus chamam atenção é bem interessante e difere do que
Dake comenta nas notas de sua Bíblia de estudo. Resumidamente, os judeus dizem que
a palavra ‫( עלמה‬hebr.: ‘almah), traduzida por “virgem” em Isaías 7:14, não é a ideia
original do versículo. Eles dizem que o sentido da palavra é de “juventude” e não
“virgindade” (Cf. Theological Dictionary of the New Testament), contrariando o que
ensinam os cristãos.
A palavra ‫‘( עלמה‬almah) vem de ‫‘( עלם‬elem) que significa “esconder”, “ocultar”.
Nos tempos bíblicos as moças eram mantidas cobertas, escondidas aos olhos dos
homens. Algumas ficavam até mesmo enclausuradas. No Total, essa palavra hebraica
ocorre apenas 7 vezes; no entanto, ela aparece apenas uma vez no livro de Isaías: Gen.
24:43; Exo. 2:8; Sal. 68:25; Pro. 30:19; Cân. 1:3; 6:8; Isa. 7:14. Temos boas razões para
concluir que a palavra hebraica usada por Isaías não significava “virgem” por definição,
mas sim por implicação, ou seja, a palavra significa “moça”, “jovem”, mas como
normalmente uma jovem, ou moça, é virgem, se atribui esse sentido à palavra pelos
cristãos.
Um site apologético de judeus messiânicos admite:
Embora almah não denote implicitamente a virgindade, nunca é usada nas Escrituras para
descrever uma “mulher jovem, atualmente casada.” É importante lembrar que na Bíblia, uma
jovem judia da idade núbil se presumia ser casta. O profeta poderia ter escolhido uma palavra
diferente quisesse ele descrever a mãe de Emanuel como uma virgem. Betulah é uma maneira
mais comum para se referir a uma mulher que nunca esteve com um homem (tanto no hebraico
bíblico e moderno). (Jewsforjesus.Org, os destaques são meus)
Agora, por que dizemos que Isaías não tinha o sentido de “virgem” na mente ao
compor esse versículo? Argumentamos o seguinte: A palavra ‫‘(עלמה‬almah), que as
Bíblias cristãs traduzem por “virgem”, ocorre apenas 1 vez no livro de Isaías. No entanto,
é curioso que se você fizer uma busca rápida em alguma concordância do Antigo
Testamento, perceberá que a palavra “virgem” ocorre cerca de 6 vezes no livro de
Isaías. Veja as ocorrências baixo:
Isaías 7:14 Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem [hebr.: ha-alma]
conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.
Isaías 23:4 “Envergonha-te, ó Sidom; porque o mar falou, a fortaleza do mar disse: Eu não tive
dores de parto, nem dei à luz, nem ainda criei mancebos, nem eduquei virgens [hebr.:
bethulah].”
Isaías 23:12: E disse: Não continuarás mais a te regozijar, ó oprimida virgem [hebr.: bethulah],
filha de Sidom; levanta-te, passa a Chipre, e ainda ali não terás descanso.
Isaías 37:22 diz: “A virgem [hebr.: bethulah] filha de Sião te desprezou, caçoou de ti. Atrás de ti,
a filha de Jerusalém meneou a cabeça.”
Isaías 47:1 “...Desce e senta-te no pó, ó virgem [hebr.: bethulah] filha de Babilônia. Senta-te no
chão, onde não há trono, ó filha dos caldeus. Pois não mais terás a experiência de pessoas te
chamarem de delicada e mimosa...”
Isaías 62:5 “...Pois assim como o jovem toma posse duma virgem[hebr.: bethulah] como sua
esposa, teus filhos tomarão posse de ti como esposa. E teu Deus exultará sobre ti com a
exultação de um noivo sobre a noiva.”

Dos 6 versículos que contém a palavra “virgem”, 5 deles Isaías usou a palavra
padrão que é ‫[ ּבתּולה‬hebr.: bethûlâh]. Até hoje essa palavra é a padrão para “virgem”,
tanto que, se usarmos o tradutor do Google (português-hebraico), ele traduzirá
“virgem” pela palavra hebraica acima citada. Se usarmos a palavra ‫( עלמה‬hebr.: ‘almah)
o Google traduz por “donzela”.
A Tradução do Novo Mundo das Testemunhas de Jeová traduz honestamente a
palavra hebraica por “donzela” e não “virgem”. Isso é digno de nota, uma vez que,
segundo os dicionários da língua portuguesa, uma donzela pode também se referir a
uma “mulher que, mesmo casada e mãe, guarda o viço e beleza.” — Cf. Dicio.com.
Agora, note bem: Toda vez que Isaías diz a palavra “virgem”, ele usa o termo
padrão [hebr.: bethulah]. Entretanto, no exato momento em que estaria supostamente
escrevendo uma profecia sobre o nascimento do Messias por meio de uma virgem, o
profeta muda o vocabulário, usando uma palavra que não era tida comumente por
“virgem”, ou seja, almah. Essa mudança de palavra só ocorreria caso ele tivesse outra
coisa em mente quando escreveu Isaías 7:14, pois, se ele usou a palavra padrão para
“virgem” 5 vezes no livro, o que lhe impediria de usar a sexta vez? O mais sensato é ver
que ele usou uma palavra diferente porque desejava expressar uma ideia diferente.
O site Jewishroots.Net faz uma lista de resposta a várias objeções contra Isaías
7:14, entre ela, temos a seguinte:
Objeção: A pergunta foi feita por que não escolheu Isaías o substantivo comum “bethulah” para
virgem, em vez de “almah”.
Resposta: O termo “bethulah” é usado no Antigo Testamento no sentido de “uma virgem”. Às
vezes se refere a “uma mulher casada,” por exemplo:
Lamenta como “uma virgem” (bethulah) cingida de saco, pelo marido da sua mocidade (Joel 1:8).
(Viúvas não são virgens).
Obviamente, o bethulah nesta passagem era uma mulher casada, que perdeu o marido e,
portanto, não era virgem. Por outro lado almah sempre se refere a uma mulher solteira.
Vemos a falácia desse argumento de maneira bem simples. Em Joel 1:8 usa-se de
fato bethulah para se referir a uma viúva que chora a perda do marido. Mas, é digno de
nota que a maioria esmagadora das versões da Bíblia diz que essa viúva era “virgem”,
diz que “uma virgem” chora a morte do marido. Daí, o site diz: “Viúvas não são virgens”.
Essa afirmação vem da pobreza de interpretação bíblica. Por que o texto diz que “uma
virgem” chora a perda de seu marido? Deixarei que um erudito cristão refute o próprio
site evangélico. Segundo John Gill, o texto diz que uma virgem chora a perda de seu
marido porque ela...
“tinha sido prometida em casamento a um homem jovem, mas não se casou, ele, morrendo {...}
antes do casamento, o que deve ser muito angustiante para aquela que o amava
apaixonadamente e, por isso, em vez de suas vestes nupciais, preparadas para atender ele e se
casar com ele, cingiu-se de saco, uma espécie de pano grosso felpudo, como era de costume,
nos países Orientais, para colocar-se em sinal de luto”. (John Gill’s Exposition of the Entire Bible,
Ed. eletrônica)
A moça é chamada de “virgem” porque o marido morreu antes dele ter relações
sexuais com ela, morrendo antes da noite de núpcias. Assim, a mulher era virgem e
viúva ao mesmo tempo.
O site continua:
Da mesma forma, em Deuteronômio 22:19, uma mulher casada, após a noite de núpcias é
descrita como bethulah - um termo que, supostamente, aplica-se exclusivamente a uma virgem.
Portanto, podemos concluir que de todos os termos possíveis que Isaías poderia ter usado para
descrever uma virgem “almah” foi o melhor e menos ambíguo. (3)
De todos os argumentos, esse foi o que eu achei pior e cheio de má fé, pois quem
não tiver acesso aos originais tomará as palavras do autor como verdade. Primeiro,
Deuteronômio 22:19 tem um contexto. Os versículos anteriores falam de um homem
que tomou um virgem (bethulah) em casamento e que depois devolveu a mulher
alegando que a mesma não era virgem. No entanto, o versículo 19 diz que o homem
acusou falsamente a moça de não ser virgem e que, por isso, terá que indenizar o pai
da moça, pois “divulgou má fama sobre uma virgem de Israel.” Em outras palavras, ao
contrário do que diz o site, a mulher era VERDADEIRAMENTE virgem, podendo ser
descrita como bethulah, tanto que o pai diz: “porém eis aqui os sinais da virgindade de
minha filha,” e, segundo o texto, convence os anciãos de Israel de que ela era realmente
virgem e que o homem estava mentindo. Além disso, ela não é descrita por bethulah
DEPOIS da noite de núpcias, a palavra que o texto usa para descrevê-la depois da noite
de núpcias é ‫( נערה‬na‛ărâh). O texto hebraico diz:

O site continua a dizer:


Acredita-se que, num contexto legal, bethulah é muitas vezes interpretado como “virgem”. No
entanto, em Ester 2:17-19, as mulheres jovens que são escolhidas para passar a noite com o rei
são referidas como bethulah antes e depois de terem relações sexuais com o rei (4).
Citaremos o trecho mencionado de Ester 2:17-19 que nos diz:
E o rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e alcançou perante ele graça e
benevolência mais do que todas as virgens [hebr.: habbəṯūlōṯ]; e pós a coroa real na sua cabeça,
e a fez rainha em lugar de Vasti. Então o rei deu um grande banquete a todos os seus príncipes
e aos seus servos; era o banquete de Ester; e deu alívio às províncias, e fez presentes segundo a
generosidade do rei. E reunindo-se segunda vez as virgens [hebr.: bəṯūlōwṯ], Mardoqueu estava
assentado à porta do rei.
O site disse que a palavra “virgem” é aplicada à todas as mulheres antes e depois
de passar noite com o rei. Vemos quão errada é essa afirmação! O texto mostra que, de
todas as virgens que estavam disponíveis para o rei, Ester foi escolhida, e depois se
menciona que o rei deu uma festa e que as virgens que não foram escolhidas pelo rei
foram novamente chamadas a comparecerem. E nenhuma parte está escrito que todas
essas mulheres virgens dormiram com o rei e que depois elas aparecem diante do rei e
são descritas depois por “virgens”. Com toda a sinceridade, fica claro que os
argumentos do site são fracos e desonestos.
Na citação de Dake, já mencionada no início, ele diz que nenhum dos termos, ou
seja, tanto “almah” como “bethulah” se referem a uma mulher que não é mais virgem.
Embora isso seja verdade quando se trata da palavra bethulah, o mesmo não pode ser
dito de almah.

TRADUÇÃO DE “ALMAH” PARA “PARTHENOS” NA SEPTUAGINTA

Um argumento muito usado pelos cristãos para defender a profecia do nascimento


virginal é que a Septuaginta1 traduziu a palavra ‫( עלמה‬hebr.:‘almah) por παρθενος [Gr.:
parthenos] que significa literalmente “virgem”. Assim, eles dizem que, uma vez que os
judeus tradutores da LXX traduziram o vocábulo hebraico pela palavra grega oficial para
“virgem”, então era porque a mesma era vista assim, essa era a ideia de Isaías ao
escrever a profecia.
O site apologético cristão Carm.org comenta:
Isaías 7:14 diz que uma virgem dará à luz um filho. O problema é lidar com a palavra hebraica
para virgem, que é “almah.” De acordo com a Concordância de Strong, significa, “virgem, jovem
mulher 1a) com idade para casar 1b) escrava ou recém-casada.” Portanto, a palavra “almah”
nem sempre significa virgem. A palavra ocorre em outras partes do Antigo Testamento apenas
em Gênesis 24:43 (“donzela”); Êxodo 02:08 (“menina”), Salmo 68:25 ("donzelas"); Provérbios
30:19 ("donzela"); Cântico dos Cânticos 1:3 (“donzelas”); 06:08 (“virgens”)". Além disso, há uma
palavra hebraica para virgem: bethulah. Se Isaías 7:14 devesse dizer virgem, em vez de jovem
donzela, então por que não foi a palavra usada aqui?
A LXX é uma tradução das escrituras hebraicas para o grego. Esta tradução foi feita por volta de
200 aC por 70 eruditos hebraicos. Em Isaías 7:14, eles traduziram a palavra “almah” pela palavra
grega “parthenos”. De acordo com A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other
Early Christian Literature, parthenos significa "virgem". Esta palavra é usada no Novo
Testamento para a Virgem Maria (Mt 1:23, Lucas 1:27) e das dez virgens da parábola (Mateus
25:1, 7, 11). Se os hebreus traduziram a palavra hebraica “almah” para a palavra grega para
virgem, então eles entenderam o que o texto hebraico queria dizer aqui.

1 A Septuaginta, também conhecida apenas por LXX, é a primeira tradução do Antigo Testamento que se tem notícia.
Cerca de 70 judeus participaram da tradução, vertendo o texto do hebraico para o grego, o mesmo grego usado no
Novo Testamento. Por esse motivo, é muito usado nos estudos bíblicos, uma vez que os próprios escritos do NT faziam
uso da LXX para fazer referências.
Além do próprio site cristão reconhecer que ‫‘( עלמה‬almah) “nem sempre significa
virgem”, podemos argumentar 3 pontos contra a afirmação de que a LXX usa a palavra
grega oficial para virgem:
1. A LXX foi traduzida por judeus, mas apenas o Pentateuco. O restante da Bíblia
hebraica foi vertida posteriormente, e nem sabemos quem foram e qual o
conhecimento que tinham do hebraico bíblico. O que sabemos hoje da
Septuaginta é mais lenda do que fato histórico, isso pode ser confirmado em
qualquer obra que trate sobre o tópico.
2. Na introdução da tradução da Septuaginta para o inglês assim consta: “O
Pentateuco (traduzido pelos 70 rabinos) parece ser o texto melhor executado
enquanto que Isaías é o pior traduzido”. Se a tradução grega de Isaías é a pior,
na opinião dos especialistas, então não podemos confiar na tradução da
palavra parthenos de bethulah.
3. Na própria Septuaginta, na tradução dos cinco livros de Moises, realizada
pelos rabinos, exatamente em Gênesis 34:2-3 a palavra “parthenos” foi
traduzida pelos sábios como uma referência a não-virgens, a uma “jovem
mulher” que tinha sido estuprada. Isso mostra que, ao contrário do que
dizem, os antigos judeus helênicos entendiam que παρθενος, mesma palavra
de Isaías 7:14, como se referindo a uma mulher não mais virgem, desde que
fosse jovem. Usamos um exemplo da Septuaginta no livro de Gênesis, sendo
este parte do Pentateuco, é certeza ter sido traduzido verdadeiramente pelos
judeus no período alexandrino.
E se isso ainda não fosse o suficiente, poderemos consultar obras de lexicografia
de grego e hebraico para termos mais insights sobre essas palavras. Interessante que
até mesmo obras de lexicografia editadas por cristãos comentam que não tem como se
confiar 100% em Isaías 7:14 na LXX como significando “virgem”.
Joseph Henry Thayer, especialista do grego do NT, comenta sobre a palavra
παρθενος:
1. Uma virgem: Mat. 1:23 (de Isa. 7:14); 25:1,7,11; Lucas 1:27; Atos 21:9; 1 Cor. 7:25,28,33(34)
(de Homero em diante; a Septuaginta principalmente por ‫ּבתּולה‬, várias vezes por ‫ ;נערה‬duas
vezes por ‫ ; עלמה‬i. e. tanto de uma donzela com idade para se casar, ou uma jovem mulher
(casada), Gen 24:43; Isa. 7:14, no qual a (última) palavra cf., além disso Gesenius, Thesaurus, p.
1037, Credner, Beiträge como acima com ii., p. 197ff; {...} de uma noiva jovem, uma mulher
recém casada, Homero, Ilíade 2, 514) (Greek-English Lexicon of the New Testament, ed.
eletrônica)
O Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic
Domainscomenta algo muito interessante sobre a palavra “virgem” usada em Isaías
7:14 na Septuaginta:
{...} uma pessoa do sexo feminino depois da puberdade, mas que ainda não se casou e uma
virgem (embora em alguns contextos a virgindade não seja um componente focal de
significado) {...} Na obtenção de um termo satisfatório para “virgem”, muitas vezes há uma série
de dificuldades. Por exemplo, um termo que designa uma virgem pode também implicar a
participação em um conjunto específico de rituais ou práticas de culto constituído por ritos da
puberdade, em que um ritual com relação sexual é um elemento integral. Em algumas
linguagens de um termo que significa tecnicamente “virgem” também é empregado com
conotações inaceitável na medida em que pode sugerir que a mulher em questão tem uma
personalidade estranha ou aparência pouco atraente e, portanto, é ser sexualmente evitada. Em
alguns casos, um termo que em alguns contextos pode ser equivalente a “virgem” também pode
se referir a uma mulher homossexual que não teve relações com um homem, mas que se
envolve em relações sexuais com mulheres.
O que observamos é que mesmo os dicionário e léxicos cristãos confirmam que as
palavras tanto em grego (LXX) como em hebraico (Tanakh) não se referem diretamente
à uma virgem. Além disso, as palavras nos originais grego e hebraico são muito
ambíguas, nos possibilitando apenas uma aproximação. Agora, imagine que Deus fosse
inspirar algo tão importante para a humanidade, não poderia, sendo Ele Todo-
Poderoso, formular uma língua, frase, etc, que deixasse certo, além de qualquer dúvida,
o significado da Sua Palavra? O que observamos ao redor do mundo, entre judeus e
cristãos, judeus e mulçumanos, mulçumanos e cristãos, é uma luta interminável para
entender palavras e textos escritos há milênios atrás em línguas extremamente difíceis
de entender. Só nisso vemos que há algo de errado.

PROFECIA DE ISAIAS 7:14 – CONTEXTO HISTÓRICO

Todo exegeta sabe que não se pode entender um texto à parte de seu contexto.
Levando isso em conta, os judeus atuais também argumentam que o contexto histórico
de Isaías 7:14 nada tem a ver com um nascimento virginal do Messias. Preste atenção
a este comentário feito por um erudito cristão de renome sobre o vocabulário usado
em Isaías 7:14:
b) a palavra “sinal” (hebr. ’ôt) requer um cumprimento razoavelmente próximo; uma predição
pode ser feita para o longo prazo, mas um sinal é por definição um sinalizador na situação
contemporânea que aponta para um evento mais distante” “Nenhuma exegese natural pode
aplicar o v. 16 a um futuro muito distante” “Parece provável, embora não certo, que a
construção hebraica sugira que Isaías estava se referindo primeiramente a uma jovem já
grávida; praticamente a mesma construção ocorre em Gn 16.11. (PAYNE 2010)
Agora, vamos tentar entender o contexto histórico de Isaías 7:14. Os capítulos 7 e 8 de
Isaías revelam um contraste espiritual. Tanto Isaías como Acaz pertenciam a uma nação
dedicada a Yahweh; ambos haviam recebido designações de Deus, um como profeta, o
outro como rei de Judá; e ambos enfrentavam a mesma ameaça — a invasão de Judá
por forças inimigas superiores. Isaías, no entanto, enfrentou a ameaça com confiança
em Deus, ao passo que Acaz cedeu ao medo.
A face de Acaz talvez estampasse descrença, pois Yahweh disse, por meio de Isaías:
“A menos que tenhais fé, então não sereis de longa duração”. Pacientemente, Yahweh
“prosseguiu falando mais a Acaz”. (Isaías 7:9, 10) A seguir, Yahweh diz a Acaz: “Pede
para ti um sinal da parte de Yahweh, teu Deus, fazendo-o tão profundo como o Seol ou
fazendo-o tão alto como as regiões superiores”. (Isaías 7:11) Acaz podia pedir um sinal,
e Yahweh o daria como garantia de que protegeria a casa de Davi. Acaz responde
desafiadoramente: “Não o pedirei, nem porei Yahweh à prova”. (Isaías 7:12) No caso de
Acaz, porém, Deus o convidava a voltar à adoração verdadeira e oferecia-se para
fortalecer a fé de Acaz por realizar um sinal. No entanto, Acaz preferia buscar proteção
em outro lugar.
A essa altura o rei enviou, provavelmente, uma grande quantia em dinheiro à
Assíria, buscando ajuda contra seus inimigos do Norte (2 Reis 16:7, 8). No ínterim, o
exército siro-israelita cercava Jerusalém e iniciava o sítio. Com a falta de fé do rei em
mente, Isaías diz: “Escutai-me, por favor, ó casa de Davi. É para vós algo de somenos
importância fatigardes os homens, que deveis também fatigar o meu Deus? ” (Isaías
7:13). É nesse contexto, que os versículos seguintes entram: Yahweh permanecia fiel a
seu pacto com Davi. Um sinal fora oferecido, um sinal seria dado! Isaías continua: “O
próprio Yahweh vos dará um sinal: Eis que a própria donzela ficará realmente grávida e
dará à luz um filho, e ela há de chamá-lo pelo nome de Emanuel...”
O versículo é tão exclusivo para aquele tempo, que não há qualquer pista que se
deveria esperar um outro Emanuel que nasceria de uma virgem. Em que parte desses
textos de Isaías seria possível observar uma “dica” para se identificar o Messias? Nada
nos versículos demonstra o profeta apontando para a identidade de qualquer redentor
universal. Observa-se uma linguagem bem geográfica e limitada, algo que se referia
apenas àquele povo e tempo.
Aqueles que argumentam que os verbos estão no futuro como “dará um sinal”,
“ficará... grávida” e “dará à luz”, podemos dizer que existe o futuro imediato. Podemos
falar usando os verbos no futuro para algo que vai ocorrer amanhã, uma semana depois,
um mês depois. Será que toda vez que usamos os verbos no futuro queremos dizer que
é algo que ocorrerá séculos depois? Será que toda vez que usamos os verbos no futuro
estamos fazendo uma profecia? Isaías usa os verbos no futuro porque em pouco tempo
a jovem judia iria ter uma criança que desempenharia um papel no seu ministério. Isso
é algo tão claro em suas palavras e intencionalidades que os versículos seguintes dizem:
Ele comerá manteiga e mel pelo tempo em que souber rejeitar o mau e escolher o bom. Pois
antes que o rapaz saiba rejeitar o mau e escolher o bom, o solo dos dois reis de que tens um
pavor mórbido ficará completamente abandonado. Yahweh fará vir contra ti, e contra teu povo,
e contra a casa de teu pai, dias tais como nunca vieram desde o dia em que Efraim se afastou de
junto de Judá, a saber, o rei da Assíria. (Isaías 7:16, 17)
Se a criança da profecia era Jesus, como essas palavras se aplicariam à um Ser
perfeito, filho de Deus: “{...} antes que o rapaz saiba rejeitar o mau e escolher o bom”?
A palavra ‫( נער‬hebr.: na'ar) usada na profecia de Isaías ocorre cerca de 239 vezes no
Antigo Testamento. Ela significa “garoto”, “jovem” e “servo” (TWOT). Segundo o Brown-
Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon a palavra hebraica pode se referir desde uma
criança por nascer até um jovem com 17 anos de idade. O único relato que temos de
Jesus jovem é com 12 anos, onde ele já dava aula sobre a lei de Deus no templo. (Cf.
Lucas 3:46) Dessa forma, as expressões que são usadas para se referir ao menino da
profecia não se enquadram no jovem Jesus, pois o mesmo era um Ser perfeito, celestial
e filho de Deus, segundo o mito bíblico, claro.
Logos depois de descrever o nascimento e as características do menino, o profeta
diz que “{...} o solo dos dois reis de que tens um pavor mórbido ficará completamente
abandonado. Yahweh fará vir contra ti, e contra teu povo, e contra a casa de teu pai,
dias tais como nunca vieram desde o dia em que Efraim se afastou de junto de Judá, a
saber, o rei da Assíria. ” Isso é o contexto da profecia de Isaías 7:14. Não fica claro,
então, que nada tem a ver com o Jesus de séculos depois? O próprio contexto social
descrito aqui na profecia e totalmente diferente do contexto em que Jesus nasceu.
Além do mais, se Isaías 7:14 está se referindo à uma virgem que dará luz, e uma
vez que os cristãos, em geral, concordam que essa profecia teve um cumprimento
naquele tempo em Israel, isso faria da esposa de Isaías uma virgem, o que não seria
conveniente para o Cristianismo. Além disso, Jesus não teria sido o único nascido de
uma virgem, assim como sem pecado. Historicamente, o texto diz que uma jovem judia
daria luz à uma criança que seria um sinal profético para o Israel daquele tempo.
É visivelmente claro que o escritor do Evangelho de Mateus, na tentavia de criar
um mito sobre uma pessoa histórica, i.e Jesus, quis encaixar o nascimento virginal,
característica sempre presente em mitos de heróis, nas profecias do Antigo
Testamento. Como o mito cristão deveria estar em harmonia com os textos do A.T, o
escritor tentou harmonizar Isaías 7:14 com a ideia mitológica do nascimento virginal.
Concluímos assim, que Isaías não tinha em mente nenhuma profecia que se
cumpriria no Messias por meio de um nascimento milagroso. Em nossa última
postagem sobre o assunto, veremos mais argumentos que confirmam isso.
O MITO DO NASCIMENTO VIRGINAL DE JESUS

É sabido entre o meio teológico que cada evangelista tinha um objetivo ao escrever
seu respectivo evangelho. Apenas Mateus e Lucas mencionam o nascimento virginal.
Por que isso? Bem, Lucas, por exemplo, estava escrevendo para cristãos gentílicos. E
entre os gentios, principalmente os de nacionalidade Greco-Romana, era muito comum
as histórias de deuses que engravidavam virgens e estas davam luz à semideuses, meio
homem e meio deus, assim como Jesus que era humano e divino ao mesmo tempo.
O Rabbinic Commentary on the New Testament diz:
A genealogia foi destinada para os judeus, enfatizando a linhagem davídica de Jesus, enquanto
a história do Nascimento Virginal foi destinada para o mundo greco-romano, onde histórias ou
contos de nascimento virginal e de impregnação divina de mulheres mortais eram bem
conhecidas. (LANCHS, 1987)
O livro Christianity and Mythology comenta:
Agora, o mito da Virgem-Mãe é universal no Paganismo e que certamente não tem nenhum
lugar reconhecido no Judaísmo Ortodoxo antes do período jesuíta. A assim chamada profecia de
Isaías (vii.14) nunca poderia ter sido lida como um anunciamento de um Parthenogenesis
distante no tempo pelo mais insano Talmudista caso o mito da Virgem-Mãe não viesse do lado
Pagão. (ROBERTSON, 2004)
Quem estuda mitologia comparada sabe que, quem quer que tenha criado a
mitologia cristã, eram pessoas cultas e helenizadas. Os criadores do mito cristão
conheciam muito bem essas histórias, estes mitos sobre nascimentos virginais, pois
essa ideia estava presente no mito de Hórus, Mitra, Buda e tanto outros. O nascimento
virginal, segundo Joseph Campbell, é um clássico da literatura mitológica. A presença é
tão forte que poderíamos dizer que um mito só é verdadeiramente mito se tiver um
nascimento virginal.
Até mesmo os Pais da Igreja assumiam abertamente que o nascimento virginal era
uma ideia presente em várias lendas antes do Cristianismo. Veja as citações baixo e
investigue você mesmo:
Origines (c. 185 — 253 d.C):
Ele enumera uma série de Deuses Pagãos nascidos de virgens: Danae, Melanippe, Auge e
Antíope. As histórias sobre esses deuses são "antigas", diz Orígines, mas ao contrário da história
do nascimento virginal de Jesus, apenas fábulas [Origin, Against Celsus 1, 37]
Nós [os cristãos] não somos as únicas pessoas que recorrem a narrativas milagrosas desse tipo.
[Origines, Against Celsus 1, 37]
Justino (100 - 165 d.C.):
Por que esses deuses nasceram de virgens vieram antes de Jesus? {...} demônios.
Ele nasceu de uma virgem, aceite isto em comum com o que você acredita de Perseus. [First
Apology, 22]
Os demônios ... astuciosamente fingiram que Minerva era filha de Júpiter não pela união sexual.
[First Apology, 64]
Outras citações:
Uma filha do rio Sangarius, dizem eles, tomou do fruto e o deitou no seu seio, quando ele
desapareceu de uma só vez, ela estava grávida. Um menino nasceu, e exposto, mas foi cuidado
por um bode. [Pausanias,Description of Greece 7.17.9-11]
Augusto veio de uma concepção milagrosa pela união divina e humana do [Deus] Apolo e [sua
mãe] Atia. Como o historiador responder a essa história? Há algum que o tomam literalmente?
.... Essa divergência levanta um problema ético para mim. Ou todas essas concepções divinas,
de Alexander à Augusto e do Cristo a Buda, devem ser aceitas literal e milagrosamente ou todas
elas devem ser aceitas metafórica e teologicamente. Não é moralmente aceitável dizer {...} nossa
história é verdade, mas o seu é mito; nossa é história, mas o seu é uma mentira. É ainda menos
moralmente aceitável dizer isso de forma indireta e encoberta pela fabricação de estratégias
defensivas ou de proteção que se aplicam apenas para a própria história. [John Crosssan, The
Birth of Christianity, 1998, pg 28 - 29.]
Essas citações mostram que os primeiros cristãos, quando defendiam o
Cristianismo diante dos pagãos, admitiam que outros mitos relatavam nascimentos
milagrosos da parte de seus respectivos deuses e heróis. No entanto, para esses
cristãos, todo e qualquer relato de um deus, ou semideus, que viesse a nascer de uma
virgem não passava de lenda, apenas o de Cristo foi verdade histórica.
Concluímos com base em todos os estudos que fizemos sobre o assunto, até essa
última postagem, que não existe no Antigo Testamento qualquer referência ao
nascimento virginal messiânico. Quem quer que tenha escrito o Evangelho de Mateus,
tentou achar no Antigo Testamento alguma referência a um nascimento virginal e o
texto de Isaías 7:14 caiu como uma luva para a fabricação cristã-mitológica, levando em
conta o uso dessa característica mítica ao redor do mundo.
Voltando ao que dissemos no início desse estudo, seria ridículo ouvir uma pessoa
que apareceu grávida do nada, dizer que está grávida de uma força sobrenatural. Quais
seriam as probabilidades de isso ocorrer hoje? Porcentagem nula! Isso seria uma
desculpa esfarrapada. Se a probabilidade de isso ocorrer hoje é nula é porque também
é nula ter ocorrido no primeiro século. Além de não fazer sentido, podemos
compreender porque os Judeus acham essa ideia tão absurda.
A própria interpretação cristã no Antigo Testamento é falaciosa. O nascimento
virginal nada mais é que a continuação de antigos mitos, sendo racionalizado por
eruditos cristãos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAKE, Finnis Jennings, Bíblia de Estudo Dake, 1° edição, Belo Horizonte, Brasil, 2010.
BRUCE, F.F, Comentário Bíblico NVI, Antigo e Novo Testamento, 1° ed., São Paulo, SP,
Brasil.
ASSOCIAÇÃO TORRE DE VIGIA, Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, ed.
1986, Cesário Lange, SP, Brasil.
GILL, John, Exposition of the Entire Bible. ed. eletrônica.
THAYER, Joseph Henry, Greek-English Lexicon of the New Testament, ed. eletrônica.
LOUW, E. e NIDA, Eugene A. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on
Semantic Domains, ed. eletrônica, EUA, 1989.
LACHS, Samuel Tobias, Habbinic Commentary on the New Testament, EUA, 1987.
ROBERTSON, John M. Christianity and Mythology ed. 2004
Jewsforjesus.Org acessado no dia 12 de Outubro de 2011.
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