Você está na página 1de 4

Questionário e Respostas Ponto 05

Prof. Dr Marcelo Rabelo Henrique

Questionário
1-) A teoria da propriedade coletiva explica que a pessoa jurídica existe ao lado da
propriedade individual e, “sob a aparência de uma pessoa civil, o que existe é a massa de
bens possuída por um grupo mais ou menos numeroso de pessoas, subtraída ao regime da
propriedade individual". Explique a responsabilidade limitada e a responsabilidade
ilimitada dos sócios.
Resposta:
Todos sabem que o sócio de responsabilidade ilimitada é solidário com os demais
companheiros dessa categoria, respondendo igualmente pelas obrigações sociais. Essa
responsabilidade, não mais se discute, é subsidiária, no sentido de que somente se efetiva
quando faltarem bens suficientes para a sociedade cumprir integralmente suas obrigações.
Essa regra estava definida no art. 350 do Código Comercial, enunciada nestes termos: "Os
bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade, senão
depois de executados todos os bens sociais''. O Código Civil, no art. 1.024, tem disposição
semelhante.
Os sócios de responsabilidade limitada, comanditários ou cotistas têm responsabilidade
circunscrita: os primeiros, à sua parte-capital; os segundos, ao capital social; e o acionista,
apenas ao valor de sua contribuição representada na ação.

2-) A regra legal a observar é a do princípio da autonomia da pessoa coletiva, distinta da


pessoa de seus sócios ou componentes, distinção que só se afasta provisoriamente e tão só
em hipóteses pontuais e concretas. O que é disregard doctrine para o sócio?
Resposta:
A disregard doctrine existe como meio de estender aos sócios da empresa a
responsabilidade patrimonial por dívidas da sociedade. Todavia, sua aplicação depende da
verificação de que a personalidade jurídica esteja servindo como cobertura para abuso de
direito ou fraude nos negócios e atos jurídicos (Art. 50 do Código Civil). Essa teoria não
pode servir como justificativa para que o credor de título executivo judicial ajuíze, a seu
alvedrio, ação executiva contra os sócios de empresa sem que eles sejam devedores.

Credor de título executivo judicial que propõe ação executiva contra quem sabidamente
não é devedor, buscando facilidades para recebimento dos créditos, age no exercício
irregular de direito, atraindo a incidência das disposições do art. 574 do CPC.

3-) A causa, na constituição de sociedades, deve, portanto, ser entendida de modo genérico
e sob uma forma específica. Genericamente, ela equivale à separação patrimonial, à
constituição de um patrimônio autônomo cujos ativo e passivo não se confundem com os
direitos e as obrigações dos sócios. De modo específico, porém, essa separação patrimonial
é estabelecida para a consecução do objeto social, expresso no contrato ou nos estatutos. A
sua manutenção, por conseguinte, só se justifica pela permanência desse escopo, de sua
utilidade e da possibilidade de sua realização. Compreende-se, nessa perspectiva, todo o
alcance que assumiu, no direito anglo-saxão, em que a personalização é tradicionalmente
um privilégio, a regra do ultra vires, como estrita delimitação da capacidade social de
exercício. O que Rubens Requião, ao tratar da evolução da superação da personalidade
jurídica, invocando a tese apresentada por Serick e trazendo para a doutrina pátria o
conceito que vinha sendo aplicado na Europa e nos Estados Unidos, deixou registrado?
Resposta:
Na Alemanha, surgiu uma tese apresentada pelo Prof. Rolf Serick, da Faculdade de Direito
da Universidade de Heidelberg, que estuda profundamente a doutrina, tese essa que
adquiriu notoriedade causando forte influência na Itália e na Espanha. Seu título, traduzido
pelo Prof. Antonio Polo, de Barcelona, é bem significativo: Aparencia y Realidad en las
Sociedades Mercantiles - El abuso de derecho por media de la persona jurídica. Pretende a
doutrina penetrar no âmago da sociedade, superando ou desconsiderando a personalidade
jurídica, para atingir e vincular a responsabilidade do sócio.
Não se trata, é bom esclarecer, de considerar ou declarar nula a personificação, mas de
torná-la ineficaz para determinados atos.

4-) A teoria da desconsideração da personalidade jurídica - disregard doctrine -, elaborada


inicialmente pela doutrina e desenvolvida paulatinamente pela jurisprudência, encontra
amparo no direito positivo brasileiro. Cite os dispositivos brasileiros referente a disregard
doctrine.
Resposta:
Art. 2° da Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-lei 5.452/1943):
Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da
atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.
§ 1° Equiparam-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da relação de emprego, os
profissionais liberais, as instituições de beneficência, as associações recreativas ou outras
instituições sem fins lucrativos, que admitirem trabalhadores como empregados.
§ 2° Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade
jurídica própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo
grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica, serão, para os
efeitos da relação de emprego, solidariamente responsáveis a empresa principal e cada uma
das subordinadas.
Art. 28 do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990):
O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento
do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato
ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será
efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da
pessoa jurídica provocados por má administração.
Art. 4° da Lei 9.605/1998:
Poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao
ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente.
Art. 18 da Lei 8.884/1994:
A personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser
desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito, excesso de poder, infração
da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração
também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou
inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
Art. 50 do Código Civil/2002:
Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou
pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério
Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas
relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou
sócios da pessoa jurídica.
Art. 133 da Lei 13.105/2015:
O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido da parte
ou do Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo.
§ 1° O pedido de desconsideração da personalidade jurídica observará os pressupostos
previstos em lei.
§ 2° Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração inversa da
personalidade jurídica.

5-) A desconsideração da pessoa jurídica "caracteriza-se quando a pessoa jurídica serve de


biombo para ocultar o interesse escuso de seus sócios, em detrimento do direito de terceiro.
Nesta hipótese, desconsidera-se sua personificação, por se confundir com as pessoas
naturais que a integram, incidindo a responsabilidade patrimonial secundária da sociedade,
quando o patrimônio individual dos sócios não for suficiente para garantia da dívida".
Quais pontos o Fábio Ulhoa expõe a questão da desconsideração da pessoa jurídica?
Resposta:
Em razão do princípio da autonomia patrimonial, as sociedades empresárias podem ser
utilizadas como instrumento para a realização de fraude contra os credores ou mesmo
abuso de direito. Na medida em que é a sociedade o sujeito titular dos direitos e devedor
das obrigações, e não os seus sócios, muitas vezes os interesses dos credores ou terceiros
são indevidamente frustrados por manipulações na constituição de pessoas jurídicas,
celebração dos mais variados contratos empresariais, ou mesmo realização de operações
societárias, como as de incorporação, fusão, cisão. Nesses casos, alguns envolvendo
elevado grau de sofisticação jurídica, a consideração da autonomia da pessoa jurídica
importa a impossibilidade de correção da fraude ou do abuso. Quer dizer, em determinadas
situações, ao se prestigiar o princípio da autonomia da pessoa jurídica, o ilícito perpetrado
pelo sócio permanece oculto, resguardado pela licitude da conduta da sociedade
empresária. Somente se revela a irregularidade se o juiz, nessas situações (quer dizer,
especificamente no julgamento do caso), não respeitar esse princípio, desconsiderá-lo.
Desse modo, como pressuposto da repressão a certos tipos de ilícitos, justifica-se
episodicamente a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade empresária.
É uníssono, em doutrina e jurisprudência, que a aplicação da teoria da desconsideração
deve ser realizada com cautela, diante da previsão de autonomia e existência de
patrimônios distintos entre as pessoas físicas e jurídicas.

6-) É uníssono, em doutrina e jurisprudência, que a aplicação da teoria da desconsideração


deve ser realizada com cautela, diante da previsão de autonomia e existência de
patrimônios distintos entre as pessoas físicas e jurídicas. Explique a Teoria maior e menor
da desconsideração.
Resposta:
Isso porque não foi adotada pelo direito brasileiro a chamada "teoria menor" da
desconsideração da personalidade jurídica, segundo a qual bastaria a insuficiência de bens
da sociedade para que os sócios fossem chamados a responder pessoalmente pelo passivo
da pessoa jurídica.
Adota-se, assim, no âmbito de aplicação prática no direito brasileiro, a "teoria maior" da
desconsideração da personalidade jurídica, que exige a ocorrência objetiva e subjetiva de
alguns requisitos para sua configuração.
7-) O que é Desvio de finalidade ou confusão patrimonial?
Resposta:
Desta sorte, nosso sistema jurídico somente admite a aplicação da desconsideração quando
houver desvio de finalidade, com ato de vontade dos sócios para fraudar terceiros com a
utilização abusiva da personalidade jurídica da empresa, ou quando presente a confusão
patrimonial, vale dizer, se apurado, pela prova do caso concreto, que de fato não há
separação entre o patrimônio da pessoa jurídica e o do sócio.
8-) A teoria da desconsideração nem sempre tem sido corretamente aplicada pelos juízes (e
mesmo alguns tribunais) brasileiros. Essa aplicação incorreta reflete, na verdade, a crise do
princípio da autonomia patrimonial, quando referente a sociedades empresárias. Explique a
desconsideração e o bem de família.
Resposta:
Um ponto importante é quando o instituto da desconsideração entra em confronto com
outro, como o bem de família.
É que, na mesma linha dos precedentes referentes à fraude à execução - porque o processo
de falência outra coisa não é senão uma execução concursai -, tenho que a desconsideração
da personalidade jurídica de modo geral não pode, por si só, afastar a impenhorabilidade
do bem de família, salvo se os atos que ensejaram a disregard também se ajustarem às
exceções legais previstas no art. 3° da Lei 8.009/1990.
A desconsideração da personalidade jurídica não consubstancia uma pena de expropriação
universal dos bens dos sócios ou administradores da empresa devedora, tampouco uma
solução para que todos os credores, indiscriminadamente, satisfaçam seus créditos na
hipótese de insolvência do devedor.

9-) A desconsideração da personalidade jurídica da empresa devedora, imputando-se ao


grupo controlador a responsabilidade pela dívida, pressupõe - ainda que em juízo de
superficialidade - a indicação comprovada de atos fraudulentos, a confusão patrimonial ou
o desvio de finalidade. No caso a desconsideração teve fundamento no fato de ser a
controlada (devedora) simples longa manus da controladora, sem que fosse apontada uma
das hipóteses previstas no art. 50 do Código Civil de 2002. Recurso especial conhecido
(REsp 744.107/SP, Rei. Min. Fernando Gonçalves, DJ de 12.08.2008). Explique o
embasamento que o Ministro usou dos diplomas do Direito processual civil e commercial
sobre desconsideração da personalidade jurídica.
Resposta:
Direito processual civil e comercial. Desconsideração da personalidade jurídica de
instituição financeira sujeita à liquidação extrajudicial nos autos de sua falência.
Possibilidade. A constrição dos bens do administrador é possível quando este se beneficia
do abuso da personalidade jurídica.
- A desconsideração não é regra de responsabilidade civil, não depende de prova da culpa,
deve ser reconhecida nos autos da execução, individual ou coletiva, e, por fim, atinge
aqueles indivíduos que foram efetivamente beneficiados com o abuso da personalidade
jurídica, sejam eles sócios ou meramente administradores.
- O administrador, mesmo não sendo sócio da instituição financeira liquidada e falida,
responde pelos eventos que tiver praticado ou omissões em que houver incorrido, nos
termos do art. 39, Lei 6.024/1974, e, solidariamente, pelas obrigações assumidas pela
instituição financeira durante sua gestão até que estas se cumpram, conforme o art. 40, Lei
6.024/1974. A responsabilidade dos administradores, nestas hipóteses, é subjetiva, com
base em culpa ou culpa presumida, conforme os precedentes desta Corte, dependendo de
ação própria para ser apurada.
- A responsabilidade do administrador sob a Lei 6.024/1974 não se confunde a
desconsideração da personalidade jurídica. A desconsideração exige benefício daquele que
será chamado a responder. A responsabilidade, ao contrário, não exige este benefício, mas
culpa. Desta forma, o administrador que tenha contribuído culposamente, de forma ilícita,
para lesar a coletividade de credores de uma instituição financeira, sem auferir benefício
pessoal, sujeita-se à ação do art. 46, Lei 6.024/1974, mas não pode ser atingido
propriamente pela desconsideração da personalidade jurídica. Recurso Especial provido
(REsp 1.036.398/RS, Rei. Min. Nancy Andrighi, DJ de 03.02.2009).