Você está na página 1de 11

TEORIA GERAL DA RESPONSABILIDADE CIVIL

1. Ideias preliminares acerca da noção de responsabilidade:


O objeto do presente estudo é a teoria geral da responsabilidade civil que nasce toda vez
que determinada obrigação é descumprida no meio social. Propõe-se, sem pretensões de
esgotamento do tema, revisitar os fundamentos da responsabilidade civil os quais não se
restringem às relações jurídicas e varia no tempo, de acordo com os valores morais,
sociais, psicológicos, econômicos e os ideais de justiça vigentes em determinado
momento histórico, conjugando-se passado e presente. Sugere-se um breve caminhar na
teoria da responsabilidade – antes fundada unicamente no conceito de culpa – em
direção à tendência de generalização e desenvolvimento da teoria objetiva, a partir do
inegável avanço tecnológico.
Inicialmente, não se olvida que a ideia de responsabilidade possui sentido polissêmico e
conduz a mais de um significado (o que, por sinal, garante necessária longevidade ao
instituto). Nesse sentido, pontua José Aguiar Dias acerca da elasticidade que se pode
conferir ao tema em voga:
“Várias são, pois as significações. Os que se fundam na doutrina do livre-arbítrio,
pondera o eminente Pontes de Miranda, sustentam uma acepção que repugna à ciência.
Outros se baseiam na distinção, aliás, bem vaga e imprecisa, entre psicologia normal e
patológica. Resta, rigorosamente sociológica, a noção da responsabilidade como aspecto
da realidade social. Decorre dos fatos sociais, é o fato social. Os julgamentos de
responsabilidade (por exemplo: a condenação do assassino ou do ladrão, do membro da
família que a desonrou) são ‘reflexos individuais, psicológicos, do fato exterior social,
objetivo, que é a relação de responsabilidade. Das relações de responsabilidade, a
investigação científica chega ao conceito de personalidade. Com efeito, não se
concebem nem a sanção, nem a indenização, nem a recompensa, sem o indivíduo que as
deva receber, como seu ponto de aplicação, ou seja, o sujeito passivo ou
paciente’”(Pontes de Miranda, in Paulo Lacerda (Manual do Código Civil, XVI, 3ª
parte. Direito das Obrigações, “Das obrigações por atos ilícitos” p. 7 e segs. Apud: José
Aguiar Dias, Da Responsabilidade Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris, Rio de
Janeiro, 2011, pag. 1).
À primeira vista, portanto, a responsabilidade não é fenômeno exclusivo da vida
jurídica, antes, se liga a todos os domínios da vida social. (G. Marton, Les fondements
de la responsabilité civile, Paris, 1938, n. 97, p. 304. Apud José Aguiar Dias, Da
Responsabilidade Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2011, pag. 2).
Conforme lembra Rui Stocco, “para Aguiar Dias, ‘a responsabilidade pode resultar da
violação, a um tempo, das normas, tanto morais, como jurídicas, isto é, o fato em que
que se concretiza a infração participa de caráter múltiplo, podendo ser, por exemplo,
proibido pela lei moral, religiosa, de costumes ou pelo direito. Isto põe de manifesto que
não há reparação estanque entre as duas disciplinas. Seria infundado sustentar uma
teoria do direito estranha à moral. Entretanto, é evidente que o domínio da moral é
muito mais amplo que o do direito, a este escapando muitos problemas subordinados
àquele, porque a finalidade da regra jurídica se esgota com manter a paz social, e esta só
é atingida quando a violação se traduz em prejuízo’(ob. cit. P. 5)” (STOCCO, Rui.
Capítulo I – Noções básicas sobre a responsabilidade civil, In Tratado de
Responsabilidade Civil. Ed. Revista dos Tribunais, 7ª ed., p. 117).
E por isso conclui José de Aguiar Dias:
“Daí resulta que não se cogita da responsabilidade jurídica enquanto não há um
prejuízo. Ocorre, aqui, a primeira distinção entre responsabilidade jurídica e
responsabilidade moral. Esta se confina – explicam Henri et Léon Mazeaud – no
problema do pecado. O homem se sente moralmente responsável perante Deus ou
perante sua consciência, conforme seja, ou não, um crente. Puramente objetiva,
portanto, é a sua noção. Para apurar se há, ou não, responsabilidade moral, cumpre
indagar do estado de alma do agente: se há, ou não, responsabilidade moral. Essa é a
única investigação a proceder. Não se cogita, pois, de saber se houve, ou não prejuízo,
porque um simples pensamento induz essa espécie de responsabilidade, terreno que
escapa ao campo do direito, destinado a assegurar a harmonia das relações entre os
indivíduos, objetivo que, logicamente, não parece atingido por esse lado” (Henri et
Léon Mazeaud, Traité théorique et pratique de la responsabilité civile, délictuelle et
contractuelle, 3ª ed. Paris, 1938, t. 1º, nº 7, p.4. Apud José Aguiar Dias, Da
Responsabilidade Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2011, pag. 4.).
Todavia “a regra de direito careceria de fundamento, se não se ativesse à ordem moral”
(Apud José Aguiar Dias, Da Responsabilidade Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris,
Rio de Janeiro, 2011, pag. 4.)
É que a própria idéia de Justiça deriva de um dever social (imposto por necessidade) de
que todos devem responder por seus atos, sendo tal concepção o próprio fundamento do
instituto (razão que o justifica). E para tanto, importante é o papel da responsabilidade
moral, extraída da consciência pessoal e do estado de alma do agente, com a finalidade
de se alcançar o dever de reparação do mal causado e prevenção de futuros prejuízos.
Ademais, sob o ponto de vista sociológico, a questão da responsabilidade civil é apenas
um problema de repartição de prejuízos (Henri de Page, Traité élémentaire de droit civil
belge, v. 2, n. 913).
Com fundamento nesse aspecto “quem pratica um ato, ou incorre numa omissão de que
resulte dano, deve suportar as consequencias do seu procedimento. Trata-se de uma
regra elementar de equilíbrio social, na qual se resume, em verdade, o problema da
responsabilidade. Vê-se, portanto, que a responsabilidade é um fenômeno social”
(LYRA, Afranio. Responsabilidade Civil, Bahia, 1977, p. 30 – apud GONÇALVES,
Carlos Roberto. Responsabilidade Civil. Ed. 11ª. São Paulo: Ed. Saraiva, 2009, p.3).
É de se observar que, em última análise, responsabilizar antes de tudo é fazer justiça, de
sorte que no conflito entre o direito e a justiça deve-se preferir esta.
Nesse campo, Roberto Norris ainda pontificou que “o traço mais característico da
responsabilidade civil talvez seja o fato de se constituir especialmente em um
instrumento de compensação’, acrescentando que ‘seus objetivos são os de compensar
as perdas sofridas pela vítima e desestimular a repetição de condutas semelhantes em
um momento posterior” (Responsabilidade Civil do Fabricante pelo Fato do Produto.
Rio de Janeiro: Forense, 1996, p. 27). Em outras palavras, o termo responsabilidade
exprime ideia de equivalência de contraprestação, de correspondência.
Por sinal, é justamente porque “o antigo fundamento da culpa já não satisfaz, outros
elementos vêm concorrer para que a reparação se verifique, mesmo em falta daquela.
Daí o surto das noções de assistência, de previdência e de garantia, como bases
complementares da obrigação de reparar: o sistema da culpa, nitidamente individualista,
evolui para o sistema solidarista da reparação do dano” (Savatier, Traité de la
responsabilité civile em droit français, p.1, nº 2, Paris, 1939 – Apud José Aguiar
Dias, Da Responsabilidade Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro,
2011, pag. 18).
Sob esse prisma, defende a professora Judith a noção de equidade, razão de ser da
própria Justiça, atrelada à idéia de equilíbrio, o que ensejaria uma justiça distributiva
voltada a um critério de equivalência de prestações (suum equique tribuere), sem
nenhuma ressonância da idéia de culpa. Isto porque “o sistema de reparação ou
repressão de danos repousa, precisamente, na noção de justiça enquanto equilíbrio,
epickia, relação harmoniosa entre o todo e as partes. A distribuição igual, vale dizer,
harmoniosa da justiça é, para aquele sistema, um dos objetivos do direito” (COSTA,
Judith Martins. Os Fundamentos da Responsabilidade Civil. Revista Trimestral de
Jurisprudência dos Estados. Ano 15 – Outubro 1991. V. 93. p. 35).
Nesse sentido cite-se interessante conclusão:
“Do que se infere que a responsabilização é meio e modo de exteriorização da própria
Justiça, e a responsabilidade é a tradução para o sistema jurídico do dever moral de não
prejudicar outra pessoa, ou seja, o neminem laedere. A ninguém é permitido lesar o seu
semelhante. O sistema de Direito positivo estabelecido repugna tanto a ofensa ou
agressão física como moral, seja impondo sanção de natureza penal, ou de natureza
civil, também sancionatória, mas de caráter pecuniário, ainda que se cuide de ofensa
moral. A primeira visa à pacificação social e à defesa da sociedade; a segunda tem
caráter individual ou unitário e tem por escopo a proteção da pessoa” (grifos
nossos)(STOCCO, Rui. Capítulo I – Noções básicas sobre a responsabilidade civil, In
Tratado de Responsabilidade Civil Ed. Revista dos Tribunais, 7ª ed., p. 114).
Alvino Lima, grande precursor da responsabilidade objetiva atual, peremptoriamente
ousava alardear: “Os problemas da responsabilidade são tão-somente os da reparação de
perdas. Os danos e a reparação não devem ser aferidos pela medida da culpabilidade,
mas devem emergir do fato causador da lesão de um bem jurídico, a fim de se manterem
incólumes a interesses em jogo, cujo desequilíbrio é manifesto se ficarmos dentro dos
estreitos limites de uma responsabilidade subjetiva” (RIZZARDO, Arnaldo.
Responsabilidade Civil. Ed. 4ª. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2009, p. 32).
Ora, responsável seria aquele a quem incumbiria reparar o dano.
– A propósito, o seguinte julgado:
“O ressarcimento não constitui penalidade; é consequência lógica do ato ilícito
praticado e consagração dos princípios gerais de todo ordenamento jurídico: suum
cuique tribuere (dar a cada um o que é seu), honeste vivere (viver honestamente) e
neminem laedere (não causar dano a ninguém)” (REsp nº 1.028.330/SP, Rel. Ministro
ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 04/11/2010, DJe
12/11/2010).
Como acentuado por Rui Stocco “a responsabilidade civil é uma instituição, enquanto
assecuratória de direitos, e um estuário para onde acorrem os insatisfeitos, os
injustiçados e os que se danam e se prejudicam por comportamentos dos outros. É o
resultado daquilo que não se comportou ou não ocorreu secundum ius.” (STOCCO, Rui.
Capítulo I – Noções básicas sobre a responsabilidade civil, In Tratado de
Responsabilidade Civil Ed. Revista dos Tribunais, 7ª ed., p. 112).
Por fim, saliente-se que o termo não surgiu, vez primeira, com viés de reparação ou de
culpa, como bem explicita Rui Stocco, ao mencionar abalizada lição de Judith Martins
Costa:
“(…) Inicialmente, essa expressão ou termo ‘responsabilidade’ não surgiu para exprimir
o dever de reparar. Variou da expressão sponsio, da figura stipulatio, pela qual o
devedor confirmava ter com o credor uma obrigação que era, então, garantida por uma
caução ou responsor. Surge, então, a noção de responsabilidade, como expressão de
garantia de pagamento de uma dívida, descartando qualquer ligação com a idéia de
culpa” (COSTA, Judith Martins da. Os Fundamentos da Responsabilidade Civil.
Revista Trimestral de Jurisprudência dos Estados. São Paulo: v. 93, outubro – 1991.
Citada por STOCCO, Rui. Capítulo I – Noções básicas sobre a responsabilidade civil,
In Tratado de Responsabilidade Civil Ed. Revista dos Tribunais, 7ª ed., p. 112).

2. Conceito:
Como se pode entrever do já exposto, ressoa difícil conter em uma frase concisa
a amplitude da responsabilidade civil. Opta-se, contudo, pelo conceito adotado por
Francisco Amaral, dada a clareza, profundidade e objetividade da explanação:
“Responsabilidade civil é obrigação de reparar o dano causado a outrem (Planiol, Ripert
& Esmein, Traité pratique de droit civil français. Paris. LGDJ, 1952, v. 6. 475).
Apresenta-se como relação obrigacional cujo objeto é a prestação de ressarcimento
(Orlando Gomes, Obrigações, 4ª ed., Rio de Janeiro, Forense, 1976, n. 181). Decorre de
fato ilícito, praticado pelo agente responsável (fato próprio), ou por pessoa por quem ele
responde (fato de terceiro), ou por alguma coisa a ele pertencente (fato da coisa), ou de
simples imposição legal (responsabilidade objetiva)” (AMARAL, Francisco.
Enciclopedia. França-São Paulo: Saraiva. Ed. Saraiva. 1977, 347).
Válido também sublinhar que para Caio Mário da Silva Pereira “a responsabilidade civil
consiste na efetivação da reparabilidade abstrata do dano em relação a um sujeito
passivo da relação jurídica que se forma. Reparação e sujeito passivo compõem o
binômio da responsabilidade civil, que então se enuncia como o princípio que subordina
a reparação à sua incidência na pessoa do causador do dano”. Portanto, “não importa se
o fundamento é a culpa, ou se é independente desta. Em qualquer circunstância, onde
houver a subordinação de um sujeito passivo `a determinação de um dever de
ressarcimento, aí estará a responsabilidade civil” Caio Mário da Silva Pereira, In
Responsabilidade Civil, 10ª Edição, atualizador: Gustavo Tepedino, Editora G Z, Rio de
Janeiro, 2012, pág. 15).
É dizer, o conceito não assume nenhum compromisso com as duas correntes
(responsabilidade civil subjetiva e objetiva), as quais inclusive não são excludentes, pois
a rigor, se complementam, devendo conviver harmonicamente, já que visam o mesmo
objetivo: a reparação do dano.
José de Aguiar Dias revela que a responsabilidade civil é a “situação de quem, tendo
violado uma norma qualquer, se vê exposto às consequências desagradáveis decorrentes
dessa violação, traduzidas em medidas que a autoridade encarregada de vela pela
observação do preceito lhe imponha, providências essas que podem, ou não, estar
previstas” (Da Responsabilidade Civil. 10ª ed, 2ª tir, rev. e aument. Rio de Janeiro:
Forense, 1995, v. I, p.3.).
Após essas considerações, por fim, pode-se concluir , como Alvaro Villaça que a
“responsabilidade civil é a situação de indenizar o dano moral ou patrimonial,
decorrente de inadimplemento culposo, de obrigação legal ou contratual, ou imposta por
lei, ou, ainda, decorrente do risco para os direitos de outrem” (Responsabilidade Civil,
Revista Jurídica, ano 55, março de 2007, n. 353, pág. 14)

5. Classificação quantos aos tipos de Responsabilidade:


Sob esse prisma, nem sempre a responsabilidade decorre da CULPA, pois poderá nascer
sob outros fundamentos, como se extrai das teorias do risco, da garantia e da
inexigência legal de ilicitude (responsabilidades sem culpa).
5.1) Quanto à existência ou não de Culpa:
Podemos então salientar que a:
a) RESPONSABILIDADE SUBJETIVA: A essência da responsabilidade subjetiva vai
assentar, fundamentalmente, na pesquisa ou indagação de como o comportamento
contribui para o prejuízo sofrido pela vítima. Assim procedendo, não considera apto a
gerar o efeito ressarcitório um fato humano qualquer. Somente será gerador daquele
efeito uma determinada conduta que a ordem jurídica reveste de certos requisitos ou de
certas características. Assim considerando, a teoria da responsabilidade subjetiva erige
em pressuposto da obrigação de indenizar, ou de reparar o dano, o comportamento
culposo do agente, ou simplesmente a sua culpa, abrangendo no seu contexto a culpa
propriamente dita e o dolo do agente.
Somente é imputável, a título de culpa, aquele que praticou o fato culposo possível de
ser evitado. O CC filiou-se a esta teoria no art. 186.
A responsabilidade decorre de uma conduta contrária ao dever quando possível agir de
outro modo (neminem laedere: extracontratual). Nesta, as pessoas respondem pelas
consequências prejudiciais de suas ações ou omissões, quando culpadas por lesionar
outrem, em comportamento contrário ao direito.
A reparação do dano tinha por pressuposto a prática do ato ilícito.
Rui Stocco cita interessante posição:
“Acerca desse aspecto prenunciou Adauto de Almeida Tomaszewski: ‘Porque vive em
sociedade, o homem tem que pautar a sua conduta de modo a não causar dano a
ninguém, de forma que ao praticar os atos da vida civil, ainda que lícitos, deve observar
a cautela necessária para que de sua ação ou omissão, não resulte lesão a algum bem
jurídico alheio. A moderna doutrina convencionou chamar essa cautela, atenção ou
diligência, de dever de cuidado objetivo (Separação, Violência e Danos Morais – A
Tutela da Personalidade dos Filhos. São Paulo: Paulistana Jur, 2004, p. 245) (apud
STOCCO, Rui. Capítulo I – Noções básicas sobre a responsabilidade civil, In Tratado
de Responsabilidade Civil Ed. Revista dos Tribunais, 7ª ed., p. 114).
b) RESPONSABILIDADE OBJETIVA (meados séc. XIX): pode decorrer de um risco
criado por um fato (neste caso prioriza-se o equilíbrio de direitos e interesses) e
prescinde da culpa, satisfazendo-se com o dano e o nexo de causalidade (art. 927,
parágrafo único: novidade que possibilitará ao Judiciário uma ampliação dos casos
indenizáveis).
Abalizada doutrina considera o parágrafo único do art. 927 do Código Civil verdadeira
cláusula aberta de responsabilidade objetiva, reflexo dos princípios da eticidade e da
socialidade, pilares básicos do novo Código Civil.
A responsabilidade objetiva desvincula-se do pressuposto da conduta antijurídica, não
questionando a respeito de culpa (que é por vezes insuficiente para justificar e dar
cobertura a muitos prejuízos), pois o dever de indenizar verifica-se pela configuração do
dano e a causalidade, sem se cogitar do problema da imputabilidade do evento `a culpa
do agente. Trata-se, em verdade, de uma socialização dos riscos, consequência de uma
sociedade que incorporou o risco como preço a pagar pelo progresso tecnológico.
Exemplos: arts. 936, 937 e 938 que tratam respectivamente da responsabilidade do dono
do animal, do dono do prédio em ruína e do habitante da casa da qual caírem coisas. E
ainda, os arts. 929 e 930, que prevêem a responsabilidade por ato lícito (estado de
necessidade), bem como o art. 933 pelo qual os pais, tutores, curadores e empregadores
donos de hóteis e escolas respondem, independentemente de culpa, pelos danos
causados por seus filhos, pupilos, curatelados, prepostos, empregados, hóspedes,
moradores e educandos.
Em diversas leis esparsas a tese foi consagrada: Lei de Acidentes do Trabalho, Código
Brasileiro de Aeronáutica, Lei 6.453/77 (que estabelee a responsabilidade do operador
nuclear), Decreto legislativo n. 2.681/1912 (que regula a responsabilidade civil das
estradas de ferro), Lei n. 6.938/81 (que trata dos danos causados ao meio ambiente) e
CDC.
Georges Ripert, ao se referir à teoria do risco criado, explica muito bem que “não é por
ter causado o risco que o autor é obrigado à reparação, mas sim porque o causou
injustamente, o que não quer dizer contra o Direito, mas contra a justiça” (Georges
Ripert, A regra moral nas obrigações civis, 2ª ed, traduzido por Osório Oliveira,
Campinas, Bookseller, 2002, nº 116, p. 215).
A natureza do risco da atividade normamente desenvolvida por quem dela se
beneficia justifica a responsabilização em caso de dano, a partir probabilidade concreta
do evento danoso.
Villaça costuma dizer que há duas categorias de responsabilidade com fundamento na
teoria do risco: pura e impura.
A impura tem, sempre, como substrato, a culpa de terceiro, que está vinculado à
atividade do indenizador.
A pura implica ressarcimento, ainda que inexista culpa de qualquer dos envolvidos no
evento danoso. Nesse caso, indeniza-se por ato lícito ou por mero fato jurídico, porque a
lei assim o determina. Nesse hipótese, portanto, não existe direito de regresso, arcando o
indenizador, exclusivamente, com o pagamento do dano (Alvaro Villaça,
Responsabilidade Civil, Revista Jurídica, ano 55, março de 2007, n. 353, pág. 20)
Ambas dependem de previsão legal, pois que presumindo culpa, ou independentemente
dela, é preciso que o legislador delimite a atividade perigosa, como medida de
segurança indispensável, mesmo porque, em toda atividade, ainda que normalmente
desenvolvida, existe algum risco identificável.
5.2) Quanto ao fato determinante da obrigação de indenizar:
a) Extracontratual (dever geral): não deriva de contrato (art. 186 do CC – antigo art. 159
do CC de 1916). Também é chamada de aquiliana (dever genérico de não lesar
ninguém) tendo em vista a Lex Aquilia de damno do Século III a.C. O agente infringe
um dever legal e a vítima fica com o ônus de provar que o fato se deu por culpa do
agente.
Em regra funda-se na culpa ou no dolo (culpa lato sensu) (ato ilícito – inadimplemento
normativo), mas outras vezes pode decorrer do exercício de uma atividade perigosa
(risco) ou mesmo nascer de fatos permitidos por lei (ato lícito) (estado de necessidade).
Da responsabilidade extracontratual, então, surgem duas subespécies: a
responsabilidade delitual ou por ato ilícito, que resulta da existência deste fora do
contrato, baseada na idéia de culpa, e a responsabilidade sem culpa, fundada no risco
(Alvaro Villaça (Responsabilidade Civil, Revista Jurídica, ano 55, março de 2007, n.
353, pág. 17)). A primeira é conhecida como subjetiva, que resulta de ação ou omissão
culposa e lesiva a determinada pessoa. A segunda cuida da responsabilidade pelo risco,
pois basta a ocorrência de algum dos fatos previstos em lei para que ela se materialize,
responsabilizando aquele que, em decorrência de sua atividade, ensejou a existência do
risco.
Como é de se notar, todos devemos respeitar o direito alheio. Assim, a responsabilidade
civil extracontratual deriva da lei ou do dever de não lesar (neminem laedere), razão
pela qual nada impede a prática por menor ou incapaz (art. 928 CC) porque é o ilícito
que faz nascer a relação obrigacional. A responsabilidade emerge, portanto, sem a
preexistência de nenhum contrato, mas apenas de uma obrigação de não lesar o
próximo, contida na lei.
– Somente no campo da responsabilidade aquiliana são ressarcíveis os danos morais.
b) Contratual (dever especial): responsabilidade que decorre de um compromisso
contratual (relação jurídica obrigacional) não adimplido e é devedor que tem de provar,
em face do inadimplemento, a inexistência de culpa ou qualquer excludente do dever de
indenizar.
Em regra funda-se em cláusulas contratuais preexistentes e exige sujeito capaz para
contratar.
– Incide outras regras, tais como a exceção do contrato não cumprido (art. 476 do CC) e
a onerosidade excessiva (art. 478 do CC).
Ex: art. 389 do CC e 395 e ss.
5.3) Quanto à imputação:
a) Responsabilidade direta ou simples: A responsabilidade civil será direta se
proveniente da própria pessoa imputada – o agente responderá, então, por ato próprio”
(DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: Responsabilidade Civil. Ed.
17ª. São Paulo: Ed. Saraiva, 2003).
b) Responsabilidade indireta ou complexa: Diferentemente do ato ilícito penal que gera
uma responsabilidade pessoal, intransferível, que somente poderá atingir o agente que
cometeu o fato típico, o ilícito civil (nem sempre tipificado em lei) pode alcançar
terceiros não envolvidos na prática do ato, mas que se responsabilizam na condição em
que se encontram.
É o caso, por exemplo, do pai que responde pelos danos causados pelo filho menor, sob
sua guarda; os tutores e curadores em relação aos pupilos e curatelados, etc.
Ocorre, portanto, quando o ato que provoca o dano deriva de ato de terceiro que está sob
responsabilidade de outrem, será possível que vinculo legal imponha a
responsabilização.
Maria Helena Diniz nos dá a definição ou conceito de é “responsabilidade complexa”,
assim se expressando:
“Responsabilidade complexa é aquela que só poderá ser vinculada indiretamente ao
responsável, não se conformando, portanto, com o princípio geral de que o homem
apenas é responsável pelos prejuízos causados diretamente por ele e por seu fato pessoa.
Por representar uma exceção ao princípio geral da responsabilidade, somente poderá ser
encarada dentro dos termos legais, não admitindo interpretação extensiva ou ampliativa.
Compreende duas modalidades:
a) a responsabilidade por fato alheio, desde que o causador do dano esteja sob a direção
de outrem, que, então, responderá pelo evento lesivo;
b) a responsabilidade pelo fato das coisas animadas ou inanimadas que estiverem sob
guarda de alguém que se responsabilizará pelos prejuízos causados. (Responsabilidade
civil….cit, p. 74)”( STOCCO, Rui. Capítulo I – Noções básicas sobre a
responsabilidade civil, In Tratado de Responsabilidade Civil Ed. Revista dos Tribunais,
7ª ed., p. 117).

6. Conclusão:
As relações jurídicas são relações de adaptação (Pontes de Miranda), e portanto,
relativas. Tal relatividade é a projeção da relação jurídica fundamental que é a de
respeito recíproco entre as pessoas (base sobre a qual são elaboradas as noções do
contrato e de todos os direitos subjetivos), como bem explicou Hegel: “sê uma pessoa e
respeita os outros como pessoas” (COSTA, Judith Martins. Os Fundamentos da
Responsabilidade Civil. Revista Trimestral de Jurisprudência dos Estados. Ano 15 –
Outubro 1991. V. 93. p. 48).
– A vida real (social) repercute na vida jurídica, pois “a atribuição de um direito leva
consigo a condicionalidade de não ofender os direitos dos outros” (alterum non laedere
e neminem laedere social.
– Assim, o retorno ao equilíbrio social (epicikia) com base em um pacto social pode ser
identificado nos chamados deveres secundários ou acessórios em matéria contratual
(boa-fé, dever de informação e dever de colaboração).
– A imputabilidade (se culpa ou fatos fortuitos) tem papel importante na
responsabilidade aquiliana – mas é o próprio equilíbrio que vai fundamentar no campo
contratual o direito à resolução (necessidade de respeito recíproco, estabelecida pessoa a
pessoa, satisfazendo anseios de cooperação da vida social – base comum às
responsabilidades).
Aguiar Dias, ao desenvolver o tema ressalta:
“O que o tempo, o progresso, o aparecimento de novas e febris atividades industriais
determinam é o ajustamento daquela regra às necessidades atuais. Nem sempre, porém,
pode o legislador fazê-lo, porque as leis devem ter caráter, tanto quanto possível,
estável. Basta que, em termo razoável, recomponham as normas de acordo com as
exigências de prática. Aos tribunais é que compete extrair dos preceitos fundamentais o
pronunciamento que seja, na ocasião, o mais apto a realizar o fim do direito. O
sentimento de justiça, nos que o têm, não é, por certo, mais refinado hoje do que
anteriormente. Sucede, porém, que ele é agora, muito mais solicitado a manifestar-se e a
intervir, do que antigamente. É por isso que se tornou mais acentuadamente uma
concepção social, em lugar de noção caracterizadamente individual. Mas, ainda que se
não queira aceitar uma retração do egoísmo, em face da civilização atual, ao menos se
deve reconhecer que também ele tem contribuído para a extensão da responsabilidade
civil. A multiplicação dos infortúnios, derivada da vida moderna, induz, com efeito, o
mais egoísta a pensar que amanhã será o seu dia de experimentar a desgraça, razão
utilitária, decerto, mas nem por isso menos eficiente, para que aceite e sustente a
necessidade de reparação com mais frequência do que antigamente” (José Aguiar
Dias, in Da Responsabilidade Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro,
2011, pag. 11).
Assim, Gaston Morin advoga a inserção, na lei, não somente de conceitos renovados,
mas de normas suficientemente maleáveis para permitir ao Poder Judiciário larga
autonomia para agir, obedecendo a essa moldura, mas individualizando as disposições
legais, conforme a necessidade do momento (José Aguiar Dias, in Da Responsabilidade
Civil, 12ª Edição, Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2011, pag. 11). Isto porque é
inviável exigir do legislador prever tão espantoso desenvolvimento técnico em face da
pujança da evolução da sociedade. Há que se ter uma readaptação das normas jurídicas
às situações modernas a fim de proporcionar verdadeira reparação do dano, requisito
fundamental da responsabilidade, tanto que a indenização, em princípio, mede-se pela
sua extensão (art. 944, caput, do CC).
Sob esse prisma, bem resume o professor Roberto de Abreu e Silva:
“As grandes teorias que fundamentam a responsabilidade civil no Direito pátrio e
comparado podem ser sintetizadas em duas: responsabilidade por culpa e sem culpa
(objetiva e risco). Observa-se que, na tradicional teoria subjetiva, não existe
responsabilidade civil sem fundamento na culpa, que traz em si o elemento moral e
jurídico justificante da sanção do responsável. Essa teoria, por si só, no entanto, não é
suficiente para fundamentar toda a responsabilidade civil, notadamente os campos de
atuações das teorias objetivas, do risco e nos danos injustos causados por fatos lícitos.
As teorias do risco e a objetiva, por sua vez, prescindem da pesquisa da culpa e se
satisfazem, tão somente, com a prova do fato danoso e do nexo de causalidade. Estas
teorias têm por escopo a proteção das vítimas inocentes de danos provenientes das
múltiplas e complexas relações sociais impulsionadas pelo progresso tecnológico e
científico na era moderna” (Grifos nossos. SILVA, Roberto de Abreu e. Pressupostos da
responsabilidade civil. Revista Forense, V. 377, Janeiro – Fevereiro 2005, 175 p.).
– Acima dos interesses individuais devem estar os interesses de ORDEM SOCIAL
(necessidade de socialização do direito), pois a a teoria do risco é nitidamente
democrática (a justiça social e a dignificação da pessoa humana).
Em verdade ambas as teorias se completam, uma não dispensando a outra, de acordo
com o pensamento de Miguel Reale, transcrito por Carlos Roberto Gonçalves, e
mencionado por Arnaldo Rizzardo:
Para tanto se indagaria: “Responsabilidade subjetiva, ou responsabilidade objetiva? Não
há que fazer essa alternativa. Na realidade, as duas formas de responsabilidade se
conjugam e dinamizam. Deve ser reconhecida, penso eu, a responsabilidade subjetiva
como norma, pois o indivíduo deve ser responsabilizado, em princípio, por sua ação ou
omissão, culposa ou dolosa. Mas isto não exclui que, atendendo à estrutura dos
negócios, se leve em conta a reponsabilidade objetiva. Este é um ponto fundamental”
(RIZZARDO, Arnaldo. Responsabilidade Civil. Ed. 4ª. Rio de Janeiro: Ed. Forense,
2009, p. 32).
Indubitavelmente estamos diante de um processo cada vez mais rápido de objetivação
dos fundamentos da reparação civil no Brasil, o que se pode averiguar “não só nos
vários dispositivos do Código de 2002, e leis especiais, mas, principalmente, pela
adoção da cláusula geral que prevê o ressarcimento dos danos para todos os casos de
atividades que ponham em risco, por sua natureza, os direitos de outrem (parágrafo
único do art. 927)”( Teresa Ancona Lopez, Principais Linhas da Responsabilidade Civil
no Direito Brasileiro Contemporâneo, Revista da Faculdade de Direito da Universidade
de São Paulo, v. 101, p. 111-152, jan/dez 2006, pag. 148).
Como, em síntese magistral, aponta Louis Josserand (L’évolution de la responsabilité,
in Évolutions et actualités, Paris, 1936, p. 49), “a responsabilidade moderna comporta
dois pólos, o pólo objetivo, onde reina o risco criado, o pólo subjetivo, onde triunfa a
culpa, e é em torno desses dois pólos que gira a vasta teoria da responsabilidade”
(VILLAÇA, Álvaro. Enciclopedia. França-São Paulo: Saraiva. Ed. Saraiva. 1977. 335).
E quando à vítima nada pode se censurar, por haver desempenhado seu papel passivo e
inerte em um acidente, sentimos até mesmo institintivamente (dores da alma) a
necessidade da devida reparação a fim de evitar um mal-estar moral e conformar nossa
consciência jurídica.
Isto porque, o direito não é indiferente ao destino da humanidade e às injustiças sociais,
preocupando-se com a necessidade de construção de uma sociedade mais igualitária, em
que os valores éticos sejam resgatados e efetivamente empregados nos dilemas
presentes, dentre os quais destaca-se a evolução da responsabilidade civil, objeto do
presente estudo. Afinal, o que se procura é escolher quem deve suportar o dano. A culpa
e o risco não são mais que critérios possíveis, mais ou menos frequentes. A distribuição
do ônus do prejuízo atende, primordialmente, ao interesse da paz social.
Portanto, apesar da ideia de culpa não poder ser totalmente abolida da problemática da
responsabilidade civil, ela é hoje insuficiente para abranger todo o plano da reparação,
dada a necessidade de se acompanhar a nova realidade social, a fim de se realizar os
valores da Justiça, com a vítima no centro da responsabilidade civil, e não mais o
ofensor, substituindo-se, definitivamente, a idéia de sanção pelo ilícito pela de reparação
do dano injusto (Teresa Ancona Lopez, Principais Linhas da Responsabilidade Civil no
Direito Brasileiro Contemporâneo, Revista da Faculdade de Direito da Universidade de
São Paulo, v. 101, p. 111-152, jan/dez 2006, pag. 119).
É como ponderou Alvaro Villaça: “tanto o instituto jurídico da culpa, como o do risco
devem coexistir para que se fortaleça a ideia de que a responsabilidade civil
extracontratual, com ou sem culpa, deve ser a cidadela de ataque a todos os prejuízos,
que se causam em sociedade” (Azevedo, Álvaro Villaça, Proposta de classificação de
responsabilidade objetiva: pura e impura…pag. 30 – apud Fernando Gaburri –
Responsabilidade Civil nas Atividades Perigosas Lícitas – Curitiba – Juruá Editora,
2011, Capítulo 3 – O Fenômeno da Objetivação da Responsabilidade Civil – pag. 53).
Assim, também “já afirmava Georges Ripert que ‘o direito progride à medida que as leis
impedem o dano ao próximo e garantem a cada um o que lhe é devido’(Evolução e
Progresso do Direito. Conferência na Universidade de Pádua. A Crise da Justiça. Trad.
Hiltomar Martins Oliveira)”(STOCCO, Rui. Capítulo I – Noções básicas sobre a
responsabilidade civil, In Tratado de Responsabilidade Civil Ed. Revista dos Tribunais,
7ª ed., p. 113).
Esta é a tendência do direito contemporâneo.