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Capítulo 3

Sequências e Séries Numéricas

3.1 Sequências Numéricas

Uma sequência numérica é uma função real com domínio N que, a cada n associa um
número real an . Os números an são chamados termos da sequência.
É comum indicar uma sequência escrevendo apenas uma lista ordenada de seus termos:

a1 , a2 , a3 , . . . , an , . . .

Alguns autores também denotam uma sequência usando parêntesis:

(a1 , a2 , a3 , . . . , an , . . .) ou (an )n∈N , ou simplesmente (an )

Também podemos descrever uma sequência por meio da fórmula do termo geral an , quando
houver. Por exemplo, a sequência 1, 21 , 13 , 41 , . . . pode ser representada da forma n1 n ou ainda
 

por meio da expressão an = n1 , ∀n ∈ N


A imagem da sequência é formada pelo conjunto de todos os valores an , e pode ser um
conjunto finito ou infinito.
Uma sequência (an )n é limitada superiormente se existir um número N tal que

an ≤ N, para todo n ≥ 1

1
Ela é limitada inferiormente se existir um número M tal que

M ≤ an , para todo n ≥ 1

Se uma sequência for limitada superior e inferiormente, diremos que ela é uma sequência
limitada.

Exemplos 3.1.1 Alguns exemplos importantes de sequências são estudados já no Ensino Fun-
damental e no Ensino Médio:

• Uma Progressão Aritmética (PA) é uma sequência de números tais que a diferença entre
dois termos consecutivos quaisquer é sempre a mesma. Por exemplo, a sequência 10, 13,
16, 19, . . . é uma PA.

Se o termo inicial da PA é a1 e a diferença entre os termos é r, então o n-ésimo termo é dado


por an = a1 + (n − 1)r. O professor deve ensinar alguns fatos importantes sobre as PAs,
tais como, se r > 0, então a sequência cresce indefinidamente (isto é, tende a infinito).
Também costuma-se ensinar como obter o valor da soma de uma quantidade finita de
termos consecutivos de uma PA: uma fórmula fácil de ser obtida e bastante instrutiva, que
pode ser motivada por meio de problemas (ou perguntas) interessantes.

• Uma Progressão Geométrica (PG) é uma sequência de números em que o quociente entre
um termo e seu antecessor é constante. Esse quociente é uma constante não nula chamada
razão. Por exemplo, a sequência 2, 4, 8, 16, 32, . . . é uma progressão geométrica de razão
2. A sequência 1, − 31 , 19 , − 27
1 1
, 81 , . . . é uma PG de razão − 13 . Em geral, uma PG pode ser
escrita na forma

a, ar, ar2 , ar3 , . . . , arn , . . . , para r 6= 0 e termo inicial a

Há muitos aspectos interessantes e fatos importantes sobre as PGs que devem ser ensinados,
para preparar melhor os alunos do ensino médio para muito do que eles terão que enfrentar
no futuro. Por exemplo, usa-se PG para se calcular o valor, depois de n meses, do capital
investido a juros compostos. Também é muito importante saber que se −1 < r < 1, r 6= 0,
a soma dos infinitos termos da PG é finita. Voltaremos a esse assunto quando formos
estudar séries, isto é, somas com infinitas parcelas.

2
• Uma sequência famosa é a Sequência de Fibonacci. Trata-se da sequência cujos dois
primeiros termos são iguais a 1 e, todo número a partir do terceiro termo é a soma dos
dois que o precedem, isto é:

f1 = f2 = 1, e fn = fn−1 + fn−2 , ∀n ≥ 3

Assim, os primeieros termos da sequência de Fibonacci são:

1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, . . .

Há uma quantidade surpreendente de fatos relacionados à sequência de Fibonacci, tanto


em Matemática (a razão áurea, o Triângulo de Pascal), como fora dela (em botânica,
música, arquitetura, por exemplo)1 .

Exemplos 3.1.2 Nos exemplos de sequências abaixo, cada sequência está descrita de mais de
uma maneira.

1. (a) (2, 4, 6, . . .) (b) an = 2n, n ∈ N


3 4
∞
, , . . . , n+1 (b) n+1 n+1

2. (a) 2 3 n
,... n n=2
(c) bn = n
,n ≥2
3. (a) (1, −1, 1, −1, . . . , (−1)n−1 , . . .) (b) cn = (−1)n−1 , n ∈ N
4. (a) (5, 5, 5, 5, . . . , 5, . . .) (b) dn = 5, n ∈ N
5. (a) (−1, −4, −9, −16, . . . , −n2 , . . .) (b) rn = −n2 , n ∈ N
6. (a) 21 , 32 , 34 , . . . , n+1
n n n
 
,... (b) sn = n+1
,n ∈N (c) n+1 n∈N
(−1)n n n
(−1) n ∞ nn 
, , , , . . . , (−1)
−1 2 −3 4

7. (a) tn = 2n
,n ∈N (b) 2n n=1
(c) 2 22 23 24 2n

Nos exemplos acima, a sequência 1 não é limitada (superiormente) pois os valores de an


crescem arbitrariamente. A sequência 5 também não é limitada (inferiormente), pois os valores
de rn decrescem arbitrariamente, não existindo M tal que M ≤ rn para todo n. Todas as demais
são sequências limitadas. De fato,

• Na sequência 2 vale que 1 < bn < 2, ∀n (verifique!) e sua imagem é um conjunto infinito
(por que?);
1
veja, por exemplo, https://en.wikipedia.org/wiki/Fibonacci_numbers_in_popular_culture

3
• Na 3, o conjunto imagem tem apenas dois elementos, −1 e 1. A sequência é limitada, já
que −1 ≤ cn ≤ 1, ∀n;

• A imagem da sequência 4 é o conjunto { 5 }. Logo, a sequência é limitada;

• Na 6, tem-se 0 < sn < 1, ∀n (verifique!). A imagem é um conjunto infinito (justifique!).

• O que você pode dizer sobre a sequência 7?

Definição 3.1.3 Dizemos que uma sequência (an )n converge para um número real L se para
qualquer ε > 0, for possível encontrar um índice n0 tal que

|L − an | < ε, para todo n ≥ n0

b b -
a1 a2 · · ·L − ε an L L+ε

Observação: Quando testamos a convergência de uma sequência, nos interessam os valores


pequenos de ε. De fato, se para cada ε0 > 0 dado existir n0 tal que |L − an | < ε0 , para todo n ≥
n0 , e se ε > ε0 então |L − an | < ε0 < ε, para todo n ≥ n0 .

O número L é chamado limite da sequência. Usamos as notações

L = lim an ou an −→ L

para indicar que a sequência (an ) converge para L.

n

Exemplo 3.1.4 Vamos demonstrar que a sequência n+1 n
converge para 1.
Rascunho: (Nosso objetivo é provar que, dado um número  > 0 qualquer, consigo determinar

n
n0 com a propriedade 1 − n+1 < ε, para todo n ≥ n0 . Ou seja, precisamos resolver uma
inequação em n.)
n

Mas 1 − n+1
= n+1−n
n+1
= 1
n+1
< 1
n
e 1
n
< ε ⇐⇒ n > 1ε . Logo, se tomarmos um
natural maior do que 1ε , o problema estará resolvido. Uma última questão é: existe um natural
maior do que 1ε , para qualquer ε dado? A resposta afirmativa é consequência da Propriedade
Arquimediana, vista no capítulo 1.

4
Solução: Seja ε > 0 dado. Pela Propriedade Arquimediana, existe n0 ∈ N tal que n0 > 1ε .
Para todo n > n0 , teremos:

n n + 1 − n
= 1 < 1 < 1 <ε

1 − =
n+1 n+1 n+1 n n0


Observação: Esse exemplo ilustra o fato que, quanto menor o número ε, maior o índice n0
necessário para aproximar o termo an do limite L. Por exemplo, se ε = 10−1 , precisamos
escolher n0 > 10; se ε = 10−2 , precisamos de n0 > 100.

Exemplo 3.1.5 A sequência (−1, 1, −1, . . . , (−1)n , . . .) não converge.


Intuitivamente, como há infinitos termos da sequência iguais a 1 e infinitos termos iguais
a −1, é impossível que, a partir de algum índice, os termos se aproximem de algum valor L.
Mas como provar, de modo rigoroso, que não existe L com a propriedade desejada? A ideia é
tomar ε pequeno, de modo que qualquer que seja L, o intervalo ]L − ε, L + ε[ não possa conter
todos os termos da sequência a partir de algum índice.
Solução: Seja ε = 41 .
Qualquer que seja o número real L e para qualquer natural n0 , existirão termos an com
/ ]L − 41 , L + 41 [, já que o intervalo tem comprimento
n > n0 tal que an ∈ 1
2
e, para n par, teremos
an = 1 e para n ímpar, teremos an = −1.
Uma outra forma de dizer isso é:

“Dado ε = 14 , para todo L ∈ R e todo n0 ∈ N, existe n > n0 tal que |L − an | > 14 ”.

Quando uma sequência não converge, dizemos que ela diverge.

Se para qualquer número M > 0 dado, existir um índice n0 tal que an > M, ∀n > n0 ,
dizemos que a sequência “tende a +∞” e escrevemos lim an = +∞ ou an −→ +∞. É o que
acontece com a sequência 1 do exemplo 3.1.2.
Analogamente, se para cada M > 0 dado, existir n0 ∈ N tal que an < −M, ∀n ≥ n0 ,
escrevemos lim an = −∞. Um exemplo para esse caso é o da sequência 5 em 3.1.2.
Se uma sequência tende a +∞ ou a −∞ ela também é considerada divergente.

5
Proposição 3.1.6 (Propriedades do limite)
Se (an )n e (bn )n são sequências convergentes tais que a = lim an , b = lim bn e se k é um número
real qualquer, então

(a) a sequência (an + bn )n é convergente e lim(an + bn ) = a + b;

(b) a sequência (k + an )n é convergente e lim(k + an ) = k + a.

(c) a sequência (kan )n é convergente e lim(kan ) = ka.

(d) a sequência (an bn )n é convergente e lim(an bn ) = ab;

1
é convergente e lim a1n = 1

(e) se an 6= 0, ∀n e a 6= 0 então a sequência an n a

Demonstração.

(a) Seja ε > 0. (Precisamos encontrar n0 tal que |(an + bn ) − (a + b)| < , para todo n ≥ n0 .)

Por hipótese, como a = lim an , existe n1 ∈ N tal que |an − a| < 2ε , para todo n ≥ n1 .
Analogamente, como b = lim bn , existe n2 ∈ N tal que |bn − b| < 2ε , para todo n ≥ n2 .

Seja n0 = max{n1 , n2 }. Para todo n ≥ n0 temos:


ε ε
|(an + bn ) − (a + b)| = |(an − a) + (bn − b)| ≤ |an − a| + |bn − b| < + =ε
2 2

(b) Exercício.

(c) Exercício.

(d) (Rascunho: precisamos provar que, a partir de algum índice n0 , |an bn − ab| se torna tão
pequeno quanto se queira, sabendo que |an −a| e |bn −b| podem ser escolhidos tão pequenos
quanto quisermos. Um dos problemas é relacionar |an bn − ab| com as diferenças |an − a| e
|bn − b|. O que fazer? Uma ideia pode ser a seguinte:

(an − a)(bn − b) = an bn − an b − abn + ab = an bn − (an − a)b − a(bn − b) − ab


= (an bn − ab) − (an − a)b − (bn − b)a

Equivamentemente podemos escrever:

an bn − ab = (an − a)(bn − b) + (an − a)b + (bn − b)a (3.1)

6
Pronto: conseguimos relacionar a diferença an bn − ab com as diferenças |an − a| e |bn − b|.
Agora basta finalizar alguns detalhes.)

Solução. Seja ε > 0. Existem índices n1 e n2 tais que |an − a| < ε, ∀n ≥ n1 e

|bn − b| < ε, ∀n ≥ n2 . Logo, para todo n ≥ max{n1 , n2 }, temos |(an − a)(bn − b)| < ε.

Isso prova que

lim(an − a)(bn − b) = 0 (3.2)

Portanto, da expressão (3.1) temos:

lim an bn − ab = lim[(an − a)(bn − b) + (an − a)b + (bn − b)a]


(a)
= lim[(an − a)(bn − b)] + lim[(an − a)b] + lim[(bn − b)a]
(3.2)
= 0 + lim[(an − a)b] + lim[(bn − b)a]
(c)
= b lim(an − a) + a lim(bn − b) = 0


(e) (Rascunho: precisamos provar que, a partir de algum índice n0 , a1n − a1 se torna tão
pequeno quanto se queira, sabendo que |an − a| pode ser tão pequeno quanto quisermos.
Façamos algumas contas para ver como é possível relacionar essas desigualdades:

− 1 = |a − an |
1
an a |a an |

Se conseguirmos garantir que |a an | > M para alguma constante M , conseguiremos concluir


|a − an | |a − an |
que < < ε, se |a − an | < ε M . Assim, o problema estará resolvido se
|a an | M
encontrarmos um número M adequado, tal que |a an | > M , para índices n suficientemente
grandes.

Como a 6= 0, sabemos que |a| > 0.

b b -
|a| |a|
0 2
|an | |a| 3 2

|a|
Como lim an = a, existe n1 tal que |a − an | < para todo n ≥ n1 . Com isso, é
2
|a|
possível provar (exercício) que |an | > , ∀n ≥ n1 . (Veja a figura acima.) Portanto
2

7
|a| a2
|an | |a| > |a| = , para todo n ≥ n1 . Essa foi a parte difícil! Vamos então escrever a
2 2
|{z}
M
demonstração formal.

Demonstração. Fixemos ε > 0 qualquer. Existe n1 tal que

|a|
|an | > , ∀n ≥ n1 (∗)
2

Além disso, existe n2 tal que


ε
|a − an | < a2 , ∀n ≥ n2 (∗∗)
2

Seja n0 = max{n1 , n2 }. Para todo n ≥ n0 temos:



− = |a − an | ≤ |a − an | = 2 |a − an | < 2 ε a2 = ε
1 1 (∗) (∗∗)
an a |a| |an | |a| a2 a2 2
|a|
2


A seguir, enunciamos alguns resultados bastante úteis para o cálculo de limites de sequên-
cias.

Proposição 3.1.7 Seja f uma função real, definida em um intervalo da forma [K, +∞[ e su-
ponha que exista lim f (x) = L. Se an = f (n), para todo n ∈ N, então
x→+∞

lim an = L

(figura copiada da página 695 do livro Calculus: early transcendentals, de James Stewart, 4a. ed.)

Demonstração. Exercício.

8
ln n
Exemplo 3.1.8 Calcule lim
n
Solução. Observe que tanto o numerador quanto o denominador tendem a +∞ quando n cresce. Mas
não podemos usar a regra de L’Hôspital para calcular o limite da sequência, já que não tem sentido usar
ln x
derivadas neste contexto. Entretanto, podemos considerar a função f (x) = , definida no intervalo
x
[1, +∞[.
ln n
É claro que an = = f (n). Usando a regra de L’Hôspital para f , podemos agora calcular
n
1
ln x
lim f (x) = lim = lim x = 0
x→+∞ x→+∞ x x→+∞ 1

ln n
Logo, pela proposição 3.1.7, podemos concluir que lim = 0.
n

Proposição 3.1.9 Se lim an = L e se f é uma função contínua em L, então o limite de f (an ) existe e

lim f (an ) = f (L)

1

Exemplo 3.1.10 Calcule lim sen n
Solução. A função seno é contínua em todos os pontos. Em particular, é contínua em 0, que é o limite
da sequência dada por an = n1 . Assim, a proposição 3.1.9 nos permite concluir:
 
1 1
lim sen = sen lim = sen 0 = 0
n n

Proposição 3.1.11 (Teorema do confronto) Sejam (an ), (bn ), e (cn ) três sequências tais que an ≤
bn ≤ cn . Suponha que lim an = L = lim cn . Então a sequência (bn ) converge e seu limite é L.

2n
Exemplo 3.1.12 Calcule lim
nn  3
2 22 23 2
Solução. Para n = 1, temos a1 = = 2; se n = 2, temos a2 = 2 = 1; se n = 3, temos a3 = 3 = ;
1 2 3 3
 4
2 2 n−1
   n−1
2 2
a4 = , e assim por diante. Notamos que an = e que, para n ≥ 3, < 1.
4 n n n
Portanto, para n ≥ 3, vale:
2
0 ≤ an ≤
n
2 2n
Como lim = 0, pela proposição 3.1.11, concluímos que lim n = 0.
n n

9
Exemplo 3.1.13 Um exemplo importante, cujo resultado será útil mais adiante, é a sequência dada

por an = n n. Vamos provar que seu limite é 1.
Solução. Uma maneira de provar é por meio da proposição 3.1.7, calculando o limite, para
1
x → +∞ da função f (x) = x x , x > 1, e é deixada como exercício.
Vamos mostrar uma maneira direta de provar que o limite da sequência é 1. Inicialmente notamos
√ √ √
que a2 = 2, a3 = 3 3, . . . , n n, . . . são todos números maiores do que 1. (Por quê?)

Logo, podemos escrever n n = 1 + hn , para algum hn > 0. Assim,

n(n − 1) 2 n(n − 1) 2
n = (1 + hn )n = 1 + nhn + hn + · · · + hnn > hn
2 2

já que todos os termos são positivos.


n−1 2 2
Portanto 2 hn < 1, ou, equivalentemente, h2n < n−1 , que tende a 0 quando n cresce.
2
Assim, dado ε > 0, existe, pela propriedade Arquimediana, n0 ∈ N tal que n0 > ε2
+ 1. Se
n > n0 , teremos:
1 1

 
n
2 2 2 2
| n − 1| = |hn | < < <ε
n−1 n0 − 1


Definição 3.1.14 Dizemos que uma sequência (an )n é crescente, se a1 ≤ a2 ≤ a3 ≤ · · · , isto é, se


an ≤ an+1 , para todo n ≥ 1. Ela é dita decrescente se an ≥ an+1 , para todo n ≥ 1. Se uma sequência
for ou crescente ou decrescente, diremos que ela é monótona.

 
1
Exemplos 3.1.15 (a) A sequência é decrescente pois, como 2n + 5 < 2(n + 1) + 5, temos
2n + 5 n

1 1
> , para todo n ∈ N
2n + 5 2(n + 1) + 5

(−1)n
(b) A sequência dada por an = 2 + não é monótona. De fato, os primeiros termos dessa
n
sequência são 2 − 1, 2 + 12 , 2 − 31 , 2 + 14 , ...
1 1
De um modo geral, se n é ímpar, temos an = 2 − n < 2+ n+1 = an+1 ; se n é par, temos
1 1
an = 2 + n >2− n+1 = an+1 .

A seguir apresentamos um dos principais resultados deste capítulo. A ideia da demonstração é


simples. Tente não se intimidar com os ε’s e apreciar a ideia bacana.

Teorema 3.1.16 Toda sequência monótona limitada é convergente.

10
Demonstração. Faremos a demonstração supondo a sequência crescente e limitada superiormente. A
demonstração do caso de sequência decrescente e limitada inferiormente é análoga e fica como exercício.
Por hipótese, a1 ≤ a2 ≤ · · · an ≤ · · · e existe uma constante M tal que an ≤ M , para todo n.
Seja A = {a1 , a2 , · · · , an · · · } o conjunto de todos os valores da sequência. Então A é não vazio e
limitado superiormente (por M ). Portanto, pelo axioma do supremo, existe um número real s = sup A.
Vamos provar que lim an = s.
Seja ε > 0. Pela definição de supremo, an ≤ s para todo n. Além disso, existe um elemento an0
em A tal que s − ε < an0 ≤ s (caso contrário, o supremo seria menor do que s − ε).
Como a sequência é não-decrescente, para todo n ≥ n0 vale an0 ≤ an . Mas an ≤ s.
Portanto, para todo n ≥ n0 , vale s − ε < an ≤ s < s + ε, ou seja, |s − an | < ε.

r r -
s−ε an0 an s s+ε

Exemplo 3.1.17 Considere a sequência


1
a1 = 1, an+1 = 3 −
an
Existe lim an ? Em caso afirmativo, calcule-o.
Solução. Para podermos perceber propriedades que a sequência possa ter, vamos calcular alguns termos:
1 5
a1 = 1 ; a2 = 3 − 1 = 2 ; a3 = 3 − = = 2, 5 ;
2 2
1 13 1 5 34
a4 = 3 − 5 = = 2, 6 ; a5 = 3 − 13 = 3 − = = 2, 615384 ; . . .
2
5 5
13 13

Observando esses números, percebemos que eles estão aumentando, mas cada vez mais devagar.
Será a sequência crescente? Será limitada?

• Vamos provar, por indução, que a sequência é crescente, isto é, que an ≤ an+1 para todo n. A
desigualdade vale para n = 1 pois a1 = 1 < 2 = a2 .

Suponhamos ak−1 ≤ ak para algum k. Como os termos da sequência são todos positivos, temos:
1 1

ak−1 ak
1 1
⇒ − ≤ −
ak−1 ak
1 1
⇒3− ≤ 3−
ak−1 ak

11
Portanto,
ak ≤ ak+1

Assim, pelo Princípio de Indução Finita, podemos concluir que an ≤ an+1 para todo n.

• Vamos provar, também por indução, que a sequência é limitada, mostrando que

1 ≤ an ≤ 3, para todo n (*)

O primeiro passo da demonstração é apenas a constatação de que 1 = a1 ≤ 3.

Vamos supor que 1 ≤ ak ≤ 3 para algum k. Então


1 1
1≥ ≥
ak 3
1 1
−1 ≤ − ≤−
ak 3
Portanto,
1 1
3−1≤3− ≤3−
ak 3
Dessa forma, vale 1 ≤ ak+1 ≤ 3.

Pelo Princípio de Indução Finita, podemos concluir que 1 ≤ an ≤ 3 para todo n ∈ N.

Sendo crescente e limitada, o teorema 3.1.16 nos garante que (an ) converge para algum número
L. Mas o teorema não nos conta qual é o valor do limite. Entretanto, sabemos que existe L = lim an e
que L 6= 0 (por quê?). Isso nos permite calcular o seguinte:
 
1 1 1
lim an+1 = lim 3 − = 3 − lim =3−
an an lim an
Como an converge para L, é claro que an+1 também converge para L. Portanto, termos:
1
L=3−
L
√ √
3+ 5 3− 5
A última equação é equivalente a L2 − 3L + 1 = 0, cujas raízes são e .
2 2
Como todos os termos da sequência
√ são maiores do que 1, seu limite necessariamente é maior
3− 5
ou igual a 1. Portanto, a raiz ≈ 0, 38 não pode ser o limite. Dessa forma, concluímos que
2

3+ 5
L=
2

12
Exercícios 3.1.18 1. Determine se a sequência (an ) dada é convergente ou divergente. Se for
convergente, calcule seu limite:
1 − n + 2n4 √ √ 1
a) an = b) an = n+5− n c) an = sen
2 + 3n4 √ n
sen n n n
d) an = e) an = √ f) an = √
n 3+ n 3+ n
g) an = ne−n h) an = arctg n i) an = cos(n3 ) 2−n
n! 7n+1 n2
j) an = l) an = m) an = n
(n + 2)! 10n e

2. Se (an )n é uma sequência convergente tal que an ≥ 1 para todo n, mostre que lim an ≥ 1.

3. Se (an )n é uma sequência convergente, mostre que lim an = lim an+1


fn+1
4. 2 Seja (fn )n a sequência de Fibonacci definida no exemplo 3.1.1. Defina an = .
fn
(i) Determine os 10 primeiros termos de (an ).
1
(ii) Verifique que an−1 = 1 + an−2 para todo n ≥ 3.

(iii) Supondo que (an )n seja convergente, calcule seu limite.

5. Seja f uma função contínua e seja x um ponto qualquer de seu domínio. Defina a sequência
a1 = x, a2 = f (x), a3 = f (a2 ), . . . an+1 = f (an ). Mostre que se lim an = L então f (L) = L. (Por
esse motivo, o número L é chamado ponto fixo de f .)

6. Encontre uma aproximação com 5 casas decimais para a solução da equação cos x = x. Sugestão:
Use o exercício anterior tomando f (x) = cos x e a = 1.

2
Exercício extraído do livro [5]

13
Referências Bibliográficas

[1] Geraldo Ávila. Análise Matemática para Licenciatura. Edgard Blucher Ltda, 3 edition, 2006.

[2] Djairo Guedes de Figueiredo. Análise I. Livros Técnicos e Científicos S.A., 1975.

[3] Elon Lages Lima. Análise Real. IMPA, CNPq, 1997.

[4] Walter Rudin. Princípios de Análise Matemática. Ed. Ao Livro Técnico S.A., 1971.

[5] James Stewart. Cálculo, volume II. Cengage Learning, 2010.

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