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Histórias de Gente Que Lê

Galeno Amorim

1
Índice

Prefácio
Maria Antonieta Cunha .............................................................. 6

Prólogo
Missionários da Leitura ................................................................ 8

Introdução
Os livros não mudam o mundo ................................................ 11

Parte I
Os livros mudam as pessoas.

A sacola de Dona Jamila .......................................................... 22


Leitor de florestas e de mundo ............................................... 25
Morador das ruas e leitor ......................................................... 30
Os olhos de Dona Lydia .......................................................... 33
O menino do Desemboque ..................................................... 36

2
Amyr e o mar ............................................................................. 42
O livro dos livros ....................................................................... 46
O livreiro que não sabia ler....................................................... 50
Livro de “um reais” .................................................................... 55
A bola e o livro ............................................................................ 59
Lições de Dona Maria ................................................................ 63
O homem que não vendia os livros ........................................ 68
Do outro lado do muro ............................................................. 72
Ele é o cara! ................................................................................. 75
Marinheiro só .............................................................................. 78
Pequenos leitores do sisal .......................................................... 81
No profundo mar azul ............................................................... 86
A que foi sem nunca ter sido .................................................... 90

Parte II
E as pessoas mudam o mundo.

O livreiro do Alemão ................................................................. 94

3
Esmeralda cansada de guerra .................................................... 99
O zelador de livros ................................................................... 104
A Bibliojegue do sertão ........................................................... 108
Ler para o outro é um ato de amor ......................................... 113
Santo Antônio Casamenteiro ................................................. 117
O pescador de leitores ............................................................. 120
A biblioteca na roça .................................................................. 125
O semeador do Seridó ............................................................. 128
Operário em construção ......................................................... 132
Mães que amam demais ........................................................... 135
Entre livros e pneus ................................................................. 139
A encantadora de leitores ........................................................ 143
O pedreiro e os livros ............................................................... 147
João que virou juiz .................................................................... 153
Histórias que acolhem ............................................................. 155
O tapete mágico da Tia Aninha .............................................. 159
Sobre carnes e livros ................................................................ 163
Bibliotecárias não sabem disfarçar ......................................... 168

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Epílogo ..................................................................................... 172

5
Prefácio

D
e todas as pessoas que conhecem Galeno Amorim,
acredito que nenhuma deixaria de identificar sua paixão
maior: a causa da leitura, que, das mais variadas maneiras
e pelos mais diferentes pontos do país, ele procura obstinadamente
defender para todos os brasileiros! Porque, para ele – como para
muita gente boa –, a leitura é mesmo um direito de todos, tão
fundamental quanto a saúde, a habitação, o saneamento básico, a
liberdade de expressão – por exemplo. Um direito, mas também
uma esperança: “Os livros transformam pessoas, e pessoas transformam o
mundo.” E, em muitas frentes, procura fazer chegar essa posição ao
maior número possível de pessoas.

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Pois nessa busca de novas formas de propagá-la, Galeno resolveu
reunir em um livro algumas histórias exemplares: apresenta-nos
figuras brasileiras, que, nas mais diversas regiões do Brasil e nas mais
distintas condições (sempre adversas), tiveram suas vidas
modificadas pela descoberta da leitura (mais precisamente, do livro)
e, a partir daí, conseguiram mudar a vida de alguém, ou de muita
gente - transformados todos, também, em leitores.

Várias das histórias e personagens apresentadas por Galeno são


também do meu conhecimento, e atesto – embora desnecessário –
a sua veracidade. São relatos comoventes, às vezes impressionantes,
a maioria, de pessoas muito simples (à época dos fatos iniciais, pelo
menos), com ações igualmente modestas, e que ganharão de
imediato a admiração dos leitores, assim como têm o
reconhecimento de suas comunidades. Que fiapo de luz, que traço
especial terão em comum todas essas figuras?

Acredito que é isto que espera o Galeno: que essas vitórias,


aparentemente pequenas, se pensarmos nas dimensões e carências
brasileiras, sejam o atestado de possibilidades, que ele quer ver
multiplicadas.

Da minha parte, é isso que também eu desejo que aconteça. Tenho


a convicção de que estas histórias podem inspirar outras tantas, da
mesma forma que a arte em si (e, portanto, a literatura lida pelas
figuras desses relatos) pode ser inspiradora. Prefiro, no entanto,

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relativizar a força da leitura (mais ainda, a força do livro), sempre
possível, mas nem sempre exercida: a história da humanidade
(inclusive a de artistas extraordinários) e a história do Brasil (a que
se desenrola diante de nossos olhos assustados, por exemplo)
mostram que homens “letrados e cultos” podem não se tornar
melhores, nem mais conscientes, nem mais patriotas, pela leitura e
pela arte.

Imagino, por outro lado, que possa haver vida feliz, produtiva e
sábia mesmo fora da leitura de material impresso, ou mesmo virtual.
Pode ser mais difícil, pode funcionar mais em determinadas
comunidades, pode fazer mais sentido para uns do que para outros,
mas acredito que seja possível. Preciso ter também essa esperança.
O que me parece justo afirmar é que, por si, a leitura não fará mal
algum – a ninguém, e que poderá fazer um enorme bem – a todos,
ou quase. Todas as lutas em favor da leitura são, portanto, muito
importantes.

Por isso, desejo fortemente que, tal como nestas histórias, este livro
caia também em mãos de muitos leitores que tenham - quem sabe?
– aquele mesmo fio de luz das suas personagens e que eles se sintam
motivados a engrossar as fileiras do bom combate do nosso
corajoso autor.

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Missionários da Leitura

Aos professores, bibliotecários, gestores, técnicos e demais pessoas que se


colocam entre livros e leitores a fim de aproximá-los.

N inguém pode ser obrigado a ler, nem a escrever, a


cantar ou a dançar. Tampouco deve ser obrigado a saber
o significado das coisas todas da vida.
Por que ler, acima de tudo, é um ato de liberdade: introspectivo,
espontâneo, libertador.
Por isso, livros nos fazem livres!
Ninguém nasce sabendo ler. Como não se nasce sabendo escrever,
cantar ou dançar. Também não se nasce sabendo pronunciar
palavras ou apreciar um bom filme, teatro ou quadro.

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O certo é que ler – como tantas coisas na vida – não é um ato
natural. Natural, isto sim, é respirar, comer e andar, se proteger do
frio e do calor. É sentir medo e reagir. Natural é esse desejo
intrínseco de, em algum tempo, ser feliz.
Mas ler, não. Ler pede atitude, esforço, aprendizado – habilidade
mesmo. Demanda oportunidade e investimento pessoal. E requer
que se pratique, até que se tome gosto pela coisa – tal como se
aprende a gostar de música boa, de jogar xadrez ou de admirar
dribles geniais numa pelada de rua.
Ler é coisa do espírito, que também pede certo esforço do corpo,
boa vontade e dedicação, até que, um dia, torna-se absolutamente
algo essencial, um alimento mesmo da alma.
Não por outra razão cabe a toda a gente instigar esse namoro – que
vira noivado e, depois, casório – entre livros e leitores, tal qual um
Santo Antônio Casamenteiro dos dias de hoje. Um missionário a
espalhar a boa nova do conhecimento pra tudo quanto é canto.
Mas que isso seja feito com jeito, com delicadeza e com amor. Pois
não há outro jeito de cultivar e cativar o bicho leitor. Esse que cresce
e ganha corpo na medida da sustança das boas histórias, da
sonoridade das palavras, do afeto que elas encerram. Da magia e da
engenhosidade de quem cria e inventa o tempo todo.
Tratemo-lo, pois, o bicho leitor, com carinho. Como a um filho que
nasce, cresce e conquista a autonomia de voar.

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Façamo-lo, pois, gostar dos livros como a criança gosta da flor, para
que, seduzido e encantado, possa jamais ser curado dessa vontade
irresistível de se deixar levar pela beleza das palavras e, assim,
mergulhar fundo nesse oceano de ideias. Porque, para ele, o leitor,
há um sentido especial em cada palavra impressa: aquilo a que se
chama de a força mesma das coisas.
Daí, a necessidade, danada, e jamais saciada, de se ter, sempre, à
mão, uma página que seja pelo simples prazer de apalpar, de cheirar
e sorver com os olhos tudo o que faz lembrar um livro. Ao aprender
a decifrar os sinais, bebendo dessa fonte, descortinam-se os
horizontes e descobre-se, enfim, o bom prazer de ler.
Agora, um leitor de mundo, ele é capaz de aprender e apreender, de
se reinventar o tempo todo. De compreender e interpretar cada
coisa ao seu redor. E, ao ler pelos olhos do outro, de se tornar um
sujeito melhor, tolerante e amoroso. Ao tomar para si o
conhecimento universal e construir o seu próprio, o leitor, alarga a
inteligência, supera o improvável e descobre a capacidade própria
para o amor – fundamento elementar para se mudar o mundo, o de
dentro e o de fora.
Pois para quem, agora, já tem a sabedoria para ler o mundo, tudo é
absolutamente possível!

11
Os livros não mudam o mundo

“Os livros não mudam o mundo.


Os livros mudam as pessoas.
E as pessoas mudam o mundo.”

N a primeira vez em que ouvi alguém pronunciar o


conjunto de frases acima, que me parecem traduzir, com
precisão e uma clareza incrível, o papel que os livros
exercem na vida de homens e mulheres na sociedade, sorri,
discretamente. Afinal, aquela dúzia e meia de palavras sintetizavam,
em boa medida, com objetividade extraordinária, centenas de
páginas de consistentes reflexões a respeito do tema sobre as quais
eu já me debruçara antes.

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Esse contentamento também era movido por ver a quem sua autoria
era, naquele momento, atribuída: José Bento Monteiro Lobato – ele
mesmo, autor que, mais de setenta anos após sua morte, continua a
ser referência, e preferência, nacional. Nada de se estranhar,
portanto, que o pai da boneca Emília, Narizinho, Pedrinho, Tia
Nastácia, Visconde de Sabugosa e Dona Benta, e de uma porção de
invencionices do Brasil da primeira metade do século XX, pudesse
ter trazido à luz uma síntese de pensamento tão definitiva sobre a
função social dos livros para a humanidade.
Já fora ele, Monteiro Lobato, o grande precursor da literatura
infantil brasileira. Antes dele, só se via, por aqui, livros infantis com
textos estrangeiros e, em geral, muito distantes da nossa cultura.
Lobato foi responsável direto pelo surgimento, durante as décadas
seguintes, de brilhantes gerações de escritores do gênero.
Embora haja quem discorde, a ele também se deve o crédito pela
invenção do mercado editorial tal qual se conhece hoje em dia. Isso
graças às suas geniais sacadas como editor para aumentar as tiragens
de suas publicações e para fazer com que os livros chegassem onde
o povo letrado estava. Das prosaicas pharmácias às vendas, os
armazéns de antigamente, predecessores dos megas e
hipermercados da atualidade: qualquer canto deveria, segundo dizia,
abrigar um ponto de venda de livros.
Nada de espantoso, portanto, creditar a Lobato, venerado por seu
papel incansável na defesa dos livros e da literatura do Brasil,

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tamanho acerto e capacidade de concisão, e justo por algo pelo qual
sempre batalhou. Não fora ele, afinal, que apregoara que “uma
nação só se faz com homens e livros”?

Mas qual não foi a minha surpresa ao, muito tempo depois, tomar
conhecimento de que aquilo era, simplesmente, um erro terrível:
— Isso não é Lobato nem aqui, nem na China... – tratou, de me
explicar (gentilmente, a bem da verdade) um amigo pesquisador,
anos mais da tarde.
Nos anos seguintes, ouviria e leria, em muitas ocasiões, gentes de
universidades, academias, editoras, livrarias e do governo darem,
enfim, o devido crédito a alguém que, sem sombra de dúvida, faz
por merecer todo e qualquer tipo de gratidão do povo brasileiro e
dos amantes, em geral, da boa literatura: Mário Quintana, o genial
poeta gaúcho.
Ao que parecia, seria, mesmo, Quintana quem teria dito – com a
simplicidade, sensibilidade e sabedoria de poeta – esta e uma porção
de outros ditos e frases que, na era internet, têm sido propagados
com espantosa rapidez. Graças às ferramentas modernas que
permitem buscas incríveis em frações de segundo, podemos
recorrer e utilizar, a todo instante, frases belas que costumam causar
efeito imediato.

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Quando, contudo, obediente e disciplinado, e desta vez também
resignado, já me habituara com o novo – e, ao que tudo indicava,
definitivo esclarecimento do senso comum em torno de tão
importante questão – eis que seria, novamente, surpreendido por
uma nova e, a essa altura, arrasadora errata:
— Estão todos redondamente enganados – foi o que ouvi, aturdido.
A nova e, sim, definitiva corrigenda viria, desta vez, amparada por
alguma base científica. Pesquisadores, leitores e admiradores do
poeta gaúcho chegaram a criar blogs e comunidades virtuais, na
internet, para alertar contra a enxurrada de frases e pensamentos
indevidamente atribuídos a Quintana.
Nada contra ele, faziam questão de explicar. Aliás, muito pelo
contrário:
— O grande problema é que corremos o risco de levar os jovens e
as novas gerações a conhecer, e até a aprender a admirar, um
Quintana que, simplesmente, não existe – argumenta um deles, com
boa dose de razão.
Uma comunidade criada no finado site de relacionamentos Orkut,
precursor do atual Facebook, explicava, já no próprio título, ao que
viera: “O verdadeiro Mário Quintana”. A página se propunha, com
relativo sucesso para a época, “a pesquisar e a desmistificar, com a
ajuda de colaboradores voluntários, o que não consta da obra
conhecida do poeta”, dando “nomes aos verdadeiros bois, no caso,

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os autores de versos e pensamentos creditados indevidamente ao
gaúcho”.
Quem se debruçou sobre toda a obra de Quintana (que pode ser
encontrada em Poesia Completa, da Nova Aguilar) ou leu as suas
entrevistas ou mesmo o livro Ora Bolas, que Juarez Fonseca escreveu
sobre ele, jamais encontrou a dita cuja.
Uma pesquisadora dá o veredito sobre a citação:
— Até hoje não foi possível identificar a autoria por absoluta
ausência de fonte. Mas uma coisa é certa: do Quintana é que não é...
Há especialistas que atribuem a autoria da frase ao senador romano
Caio Graco, que viveu entre 157 e 121 antes de Cristo. Eles
sustentam que a frase teria sido traduzida inúmeras vezes até ganhar
o seu formato atual, agora com uma referência explícita aos livros.

Desde então, tenho preferido imaginar que qualquer um dos três –


ou, quem sabe, todos eles, cada qual a seu tempo – pode, muito
bem, ter dito isso ou algo parecido, tamanha a força e a capacidade
que essas três pequenas frases têm para expressar tão poderosa ideia
sobre esse objeto conhecido como livro e a sua vocação
transformadora, e, assim, perigosa. Sobretudo se, depois de se
apropriar do seu conteúdo, dá-se dentro desse leitor um rebuliço
interno de inquietações e de novas percepções, formulações e
atitudes.

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Tenho ido a diversas localidades conversar com gente atrás de boas
histórias de leitores. A primeira impressão que dá é que as práticas
sociais da leitura têm propiciado, de fato, microrrevoluções por toda
parte. Tão íntimas que, por vezes, nem dá para percebê-las.
Mas também outras que se materializam das mais diversas formas e
promovem pequenas, porém vigorosas, modificações no cotidiano
e no próprio entorno social desses leitores. E, cada vez que um só
leitor, que seja, opera em si alguma mudança mínima – e esta se
soma a tantas outras que se dão, simultaneamente, nos mais
diferentes rincões do planeta –, ele move uma força poderosa, capaz
de tornar o mundo um lugar melhor para se viver.
Afinal, desde que Gutemberg inventou a prensa que deu origem ao
livro, tal qual o conhecemos e admiramos hoje, – este que é
considerado a maior invenção do último milênio – não são poucas
as histórias de personalidades que, sendo leitores e tendo lido
qualquer uma das dezenas de milhões de obras já publicadas pela
humanidade, acabariam por protagonizar feitos importantes que
causaram massivas transformações na sociedade.
Se Quintana, Lobato ou Caio Graco disseram, ou não, tais palavras
mágicas sobre o poder dos livros nem é o mais importante. Pode,
muito bem, ter saído da boca de uma pessoa qualquer, às margens
da história, e, mesmo assim, ter chegado ao nosso tempo, de forma
tão imponente, a ponto de ter influenciado tantas gerações.
Prefiro crer que todos possam, sim, ter dito!

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E, mais do que isso, que outras tantas pessoas, em diferentes épocas
da história humana, tenham se importado e levado adiante a
poderosa força dessa ideia. Assim como eu e você, por exemplo,
podemos estar, agora, fazendo, ou já fizemos, ou ainda haveremos
de fazer no futuro.

O que você vai ler neste livro é uma pequena coleção de pequenas
histórias de pequenos leitores que são, na verdade, enormes. Após
tantas buscas, pesquisas e conversas, a conclusão é que, de fato, os
livros, por si só, não têm qualquer condição de mudar as coisas e o
mundo.
Talvez, ainda, os livros venham a ocupar espaço ligeiramente maior
no tempo livre das pessoas, propiciando, assim, conhecimento,
melhoramento pessoal, lazer e entretenimento cultural de qualidade.
Mas, a julgar pelas histórias colhidas em diferentes locais ao longo
dos últimos anos, vivenciadas por homens e mulheres, negros e
pobres, crianças e velhos, os livros, com suas histórias e personagens
formidáveis, têm sido capazes de provocar pequenas grandes
mudanças em cada um de nós.
E, então, como nos têm ensinado Quintana, ou Lobato, ou Graco
(ou, então, nenhum deles!), serão essas pessoas – que podem atender
por nomes como Evando, Otávio ou Esmeralda, personagens deste
livro – que encontramos em nosso dia a dia, num açougue, numa

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borracharia ou numa viagem de barco pelo interior da Amazônia,
que seguirão mudando, em tempo real, o mundo em que vivemos.
***

Nas páginas que se seguem, eu vou defender as habilidades de leitura


e de escrita como ferramentas ímpares para o desenvolvimento
individual das pessoas e a transformação da sociedade ao seu redor.
Por vezes, pode ficar a impressão de que parece não existir vida
inteligente e salvação para a humanidade fora do cultura letrada.
Não é assim.

O certo é que a leitura e a escrita são formas fundamentais, ou até


mesmo superiores, para apoiar e estimular nosso crescimento
íntimo, bem como as mudanças no nosso dia a dia do ponto de vista
da vida social. E, ainda, as estruturas que lhe dão forma e ritmo. Isso
tudo, claro, tendo como referência as formas de sociedade que
conformam – mais como regra do que exceção – o mundo como
conhecemos atualmente

Quando se fala da leitura e da escrita, se fala de capacidades de


desvendar códigos e de se manifestar a partir desses sistemas
codificados, e, mais do que isso, de capacidades de análise, de
reflexão e de sentimento, treinadas pelo contato mais profundo com
a literatura.

A dignidade que todo ser humano tem por ser humano – por
respirar, por se mover, por se alimentar, por sentir, por pensar, por

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se expressar, por trabalhar, por se emocionar, por sofrer, por sonhar
– independe de se saber ler e escrever.

Só que o analfabetismo e a incapacidade de uma leitura mais


aprofundada criam legiões de excluídos, em locais espalhados ao
redor do globo ou áreas específicas de um mesmo país, de uma
mesma região, de uma mesma cidade.

Assim, é inegável que o domínio sobre a palavra escrita é, sim, uma


porta de entrada para um mundo de direitos. A mesma estrutura de
poder que não garante uma educação de qualidade para todos, cria
oportunidades ou dificuldades distintas àqueles que dominam ou
não a palavra escrita e todo o conhecimento formal por ela
delimitado.

A marginalização dessas pessoas devido à falta de familiaridade com


as letras costuma se combinar a outras, tais como classe, raça,
gênero, e, mediante às diferentes combinações desses e outros
traços, são punidos de formas diferentes.

Mas, além da sua dignidade pessoal inerente à experiência humana,


a sensibilidade, o conhecimento e a faculdade de expressão, que
distinguem alguns como brilhantes, não dependem das habilidades
de leitura e escrita. Aquela coisa mágica que torna certos indivíduos
grandes – não exatamente aquelas grandes personalidades da
história, mas os que conseguem brilhar na sua vida, não importa qual
a sua ocupação – nasce em si e independe da leitura e da escrita.

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O que há de mais mágico, e de mais humano, no ser humano sãos
as suas capacidades de sentir, de pensar e de se comunicar. Não é a
leitura, não é a escrita.

Só que, além de impulsionarem oportunidades e evitarem punições


em um mundo seletivo, injusto e cruel, essas habilidades e,
especialmente, a leitura e escrita de literatura aproximam as pessoas,
por meio da comunicação, de todo o pensar e o sentir que já foram
registrados, preservados e que se encontram disponíveis aos
potenciais leitores. Aproxima as pessoas de pessoas.

A leitura e a escrita trazem em si uma enorme possibilidade de tornar


alguém mais humano, na medida em que o colocam para partilhar
da humanidade dos outros e, com os outros, compartilhar a sua
humanidade.

Somada a essa tarefa de mediação e aproximação exercida pela


palavra escrita, o consumo de arte, de uma forma geral, e, em
especial, da literatura tem a tarefa de promover um tipo de nivelação
da sociedade.

Enquanto, para alguns, o brilho da sensibilidade e do conhecimento


se apresentam de forma natural, para outros, a literatura pode
aproximá-los de toda reflexão que não conseguiriam alcançar sem a
experiência da leitura.

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Parte I

Os livros mudam as pessoas.

22
A sacola da Dona Jamila

D ona Jamila já passou dos oitenta, mas conserva uma


vitalidade, física e intelectual, impressionante. Uma ou
duas vezes por mês, ela sai, cedo, de casa e se dirige ao
centro da cidade. Lá chegando, entra direto no velho e imponente
casarão que, no passado, serviu de moradia para alguns dos mais
poderosos coronéis do café da Velha República.
Ela repete, há anos, esse mesmo ritual. Vasculha, cuidadosamente,
entre as prateleiras envelhecidas pelo tempo em busca de novidades.
Ela só sai de lá quando a sacola estiver cheia. Então, sorrirá aliviada:
seu mês está garantido! Ou, como costuma ela mesma dizer, sua vida
está, por mais algum tempo, salva.

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O que será que a mulher idosa, de cabelos esbranquiçados e de
aparência frágil, uma decorrência da idade, carrega na sacola com
tamanho apego?
— Livros! – ela responde.
São quatro ou cinco deles que, invariavelmente, Dona Jamila toma
emprestado a cada vez que vai à Biblioteca Altino Arantes, em frente
à praça principal da cidade.
Mais tarde, quando chegar em casa, vai abrir, calmamente, cada um
deles e sorver, primeiro, o que vai impresso na capa e na contracapa.
Depois, fará um breve passeio pelas orelhas da brochura e dará uma
espiada no prefácio para, então, e, finalmente, mergulhar de cabeça
numa nova viagem.
Esse ritual é um verdadeiro roteiro de prazer para a mulher.
A vista cansada nunca é desculpa. Professora aposentada, Dona
Jamila lê quatro horas todos os dias. Em média, é um livro novo por
semana. Ou quatro por mês. Ou, ainda, em torno de cinquenta a
cada ano.
Chova ou faça sol, é sempre assim. Dona Jamila adora os livros de
ficção, e, especialmente, as novelas policiais. Nos dias em que vai à
biblioteca, ela mais parece uma adolescente revirando as prateleiras
atrás de novidades literárias.
A mulher trabalhou, boa parte da sua vida, como assistente social,
inicialmente em São Paulo, capital, e, mais tarde, no interior do

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Estado. Embora nunca tenha viajado para fora do país, descreve
com detalhes algumas das principais cidades do mundo.
— Já estive em Paris, Roma, Londres... – ela anota mentalmente,
enquanto relembra curiosidades sobre ruas e lugares das metrópoles
mais charmosas do planeta que viu a partir das páginas da literatura.
— Minha vida jamais seria a mesma sem os livros – ela assegura,
com convicção.
A história de Dona Jamila é uma história simples. De uma pessoa
comum, “Sem nada demais”, conforme ela própria diz. Mas é a
história de alguém que vive a buscar, todo santo dia, em cada nova
aventura literária em que se mete, na sua sala de estar ou na calmaria
do seu quarto, conhecimento, prazer e novos sentidos para a vida.
Rumo aos noventa, a velha professora continua a ensinar uma lição
diária sobre o amor pelos livros num país que ainda carece de gente
que leia ou que leia mais. A experiência da senhora, é, de fato, algo
alvissareiro, exemplo de um bom rumo para o Brasil trilhar.
Diante da legião de leitoras de idade avançada como Dona Jamila,
que se vê cada vez mais pelos quatro cantos do País, e da força –
para os menos atentos – invisível que elas transmitem, não dá para
permanecer indiferente.

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Leitor de florestas e de mundo

F ilho e neto de ribeirinhos, Tenório passou a infância


entre cipoais e banhos de rio na Costa do Cabaleana,
lugarejo ermo escondido às margens do Rio Solimões,
perto de São Tomé, onde nasceu. Um dos povoados que formam o
município de Manacapuru, no interior da selva amazônica, aquela
era uma localidade abandonada à própria sorte, onde escola era um
luxo que jamais existira.
Quem quisesse aprender o bê-á-bá para ser, como se dizia por lá,
alguém na vida; que se virasse por conta própria. Com sorte, talvez
encontrasse uma boa alma que se dispusesse a ensinar o pouco de
escrita e leitura que sabia. Nesse caso, a sala de aula podia ser

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improvisada num canto qualquer, pois a falta de espaço não era,
propriamente, um problema por ali.
Não por outra razão, a mãe de Tenorinho levou um susto danado
naquele fim de tarde, ao voltar do trabalho no campo de juta. Ela
ficara, justificadamente, surpreendida diante da cena insólita: e não
é que seu menino, que jamais botara os pés numa escola, estava
lendo de verdade?
Devota e temente a Deus que era, a mulher sequer teve tempo para
tentar compreender o milagre, já que Tenorinho desembestara a
falar e a exibir os seus novos prodígios diante da mãe, estupefata.
Parecia ser mais um daqueles mistérios inexplicáveis da floresta,
onde a sobrevivência, por si só, já é uma grande façanha, tamanhas
as adversidades do cotidiano.
O fato é que o moleque agora sabia ler. Aprendera, sabe-se lá como,
a juntar letras e a formar palavras. Os poucos entendidos do lugar
garantiam que aquela mistureba toda de rabiscos, feitos com um
toco de lápis sobre um pedaço de papel puído, fazia, sim, algum
sentido.
— Bê... Ah... BÁ! – Tenorinho soletrou, com pompa e todo cheio
de si.
Era uma sílaba, alguém se apressou a explicar. Enfileiradas umas às
outras, com certa parcimônia, poderiam constituir palavras ou frases
inteiras. Um espanto!

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Era assim, tratou-se de esclarecer, que as pessoas estudadas da
cidade transpunham para o papel suas ideias, o conhecimento que
recebiam de seus ancestrais e tudo aquilo que era dito com a boca
ou sentido com o coração.
Tenorinho enchia o peito:
— BA – NA – NEI – RA!
À medida que aquele som gutural saía de suas entranhas, parecia
ganhar forma, diante de seus olhinhos, a imagem exuberante da
planta tropical, com seus cachos amarelos dependurados.
O menino Tenório, agora, conseguia ligar nomes e coisas e
ampliava, mais e mais, o seu universo pessoal. Anotava, num
caderninho, as novas palavras que aprendia e cantarolava, repetidas
vezes, para si mesmo até conseguir guardá-las. Cada descoberta era
um novo troféu para a sua coleção.
A bem da verdade, Tenorinho havia tido, sim, um mestre. Fora um
velho tio, que mal conseguia ler e escrever o próprio nome. Mas,
como em terra de cego quem tem um olho é rei, dava bem para o
gasto. No entanto, danado e ligeiro como só ele, Tenorinho havia,
em pouco tempo, aprendido quase todas as palavras disponíveis.
Como seguiria aprendendo?
Foi quando alguém apareceu com uma bíblia, o livro mais lido do
mundo e, por meio do qual, muita gente, como Tenorinho,
aprendera a ler. Assim que se alfabetizou, o menino passou a ler,
todos os dias, os versículos e salmos para a mãe, que era analfabeta.

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Ele não sabia, mas naquele singelo gesto de amor começava a ser
forjado um eloquente orador.
O menino da selva crescia. Por dentro e por fora.
Mas as dificuldades não tardaram a surgir. A primeira delas: não
havia outros livros no vilarejo. Sem escola, biblioteca, livraria ou
uma banca de jornal que fosse, como ele poderia continuar
aprendendo?
A mãe entendeu que a única maneira de propiciar ao filho a
oportunidade que ela própria não tivera – arrumar um bom emprego
na cidade grande – seria se mudar para a capital. Tomou o filho pela
mão e subiu num barco rumo a Manaus. Era uma mulher de poucas,
porém sábias palavras:
— Pobre só tem chance de ser alguém na vida se sabe ler e escrever
– ela sentenciou, resoluta, antes de partirem.
A mudança para a capital do Amazonas, no entanto, não fora
suficiente para deixar, de vez, os tempos difíceis para trás. As
dificuldades só faziam crescer. O dinheiro mal dava para alimentar
as bocas da casa, quanto mais para comprar livros.
Mas Tenório não se fazia de rogado. Varava noites, em claro, até
decorar trechos inteiros das cartilhas emprestadas dos amigos. Era
esse o único jeito de ter acesso ao mundo dos livros e da cultura
letrada.
O tempo passou e o meninote cresceu. À custa de muita leitura sob
a luz de lamparina, Tenório entrou para o curso de Direito da

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Universidade Federal do Amazonas. Concluiu o curso e, como
almejava trabalhar com algo de que gostasse muito, acabou indo
fazer também o curso de Letras.
— Eu estava perdidamente apaixonado pelas palavras... – lembra o,
hoje, poeta e professor universitário Tenório Telles, autor de críticas
e ensaios, além de editor de livros.
No coração da Amazônia, ativista cultural dos bons, ele guarda na
ponta da língua trechos inteiros dos livros que decorava. Assim que
sobrou o primeiro dinheiro, ele cuidou de comprar vários deles, para
poder exibir em lugar de destaque da estante.
— São eles a prova viva do poder dos livros de mudar a vida das
pessoas. Porque são essas pessoas, depois, que vão mudar o mundo
– apregoa doutor Tenório, com a autoridade que a vida e os livros
lhe deram.

30
Morador das ruas e leitor

E ndereço fixo ele não tem. Trabalha, come, dorme e


vive nas ruas. Só não admite que o tratem como mendigo.
Mesmo porque, diz, ganha a vida com o suor de seu
trabalho como vendedor de pipoca e biscoito nas esquinas da
grande cidade. No fim da tarde, separa uma parte da féria do dia,
algo em torno de cinco reais, para pagar pelo banho e comida.
Sem um teto e um endereço fixo para morar, Márcio costuma dizer
que é, de certo modo, uma dessas pessoas que passa todo o dia e
dorme no próprio local de trabalho. Pode passar uma noite sob uma
marquise ou um viaduto, ou, mesmo, em uma calçada ou praça,
dependendo da conveniência do dia. A localidade muda, mas a
moradia, em si, é sempre a mesma: o carrinho de mão que ele

31
próprio construiu com pedaços de madeira e bugigangas
encontradas nas ruas.
Para quem o vê puxando seu carrinho-dormitório pelas ruas do Rio
de Janeiro, é impossível notar qualquer diferença entre Márcio
Pereira dos Santos, o Gaúcho, e os moradores de rua que são vistos
perambulando pelas cidades brasileiras de Norte a Sul do País.
Como qualquer um deles, o rapaz também enfrenta o frio, a chuva,
a violência e o julgamento público, independentemente dos motivos
que possam ter levado cada um deles a essa situação.
Márcio trocou, há três anos, a vida na casa dos pais no Rio Grande
do Sul pelas ruas do Rio. Diz que foi uma escolha.
Para tentar manter um pouco de sanidade, recorre, diariamente, à
leitura. Lê jornais e revistas usados e livros, de ficção aos ensaios
sobre política e sociologia. Também é leitor assíduo da bíblia, na
qual diz buscar a força necessária para levar sua vida adiante.
Por um bom tempo, Márcio, um rapaz bem apessoado de seus 34
anos, lia tão somente para se entreter e fazer o tempo passar, mas,
desde que resgatou da lata de lixo a obra Biblioteca de Sociologia Geral,
de Nello Andreoti Neto, passou a se interessar mais pelos temas
sociais. Ele gosta de ler e, então, analisar e refletir sobre o conteúdo
do que leu, fazendo um cruzamento das leituras com situações pelas
quais passou e suas escolhas pessoais. Ultimamente, tem pensado
muito, por exemplo, sobre o funcionamento das políticas públicas
destinadas aos moradores de rua.

32
— É importante confrontar suas opiniões com as do autor do livro,
pois sempre se aprende com isso – ele conclui.
Mas não é só nisso que os livros têm mexido com a vida de Márcio.
Após uma dessas leituras, ele percebeu que também é um cidadão,
com direitos e deveres, como qualquer outro. Ao ler uma notícia
sobre o Bolsa Família, um direito de todo cidadão que vive abaixo
da linha da pobreza, ele foi atrás e obteve o auxílio. Aonde vai,
carrega sempre junto o título de eleitor e sua cédula de identidade.
Também possui conta bancária, cartão de crédito e conta de e-mail,
que acessa de alguma lan house.
Márcio, um admirador confesso de Monteiro Lobato, diz que
também encontra nos livros uma forma de serenidade:
— Ler me faz relaxar a mente.

33
Os olhos de Dona Lydia

D
delas.
ona Lydia sempre teve uma queda pelas palavras.
Como não sabia ler, passava horas ouvindo e tentando
distinguir, pela sonoridade, o sentido e o significado

Analfabeta até a idade madura, Dona Lydia viveu a maior parte de


sua vida apartada da forma grafada e impressa das palavras. Estas
que se materializam e vêm à luz quando se juntam letras, esses sinais
que, se bem empregados, dão vitalidade e perenidade a frases, ideias
e pensamentos.
Embora nunca tenha se dado conta disso, Dona Lydia sempre foi
uma poetisa de mão cheia. Morando a vida toda num povoado
caiçara no litoral de São Paulo, ela buscava no mar a inspiração para

34
expressar, do seu jeito, como enxergava e sentia o mundo e as coisas
ao seu redor. Podia ser de um acontecimento simples do seu
cotidiano a algo subjetivo que a deixava emocionada, como a beleza
diária daquele cenário composto de montanhas, céu e mar.
Para não deixar se perder a magia daqueles instantes, a mulher criava
e armazenava os versos na cabeça.
Como Deus costuma escrever certo por linhas tortas, o destino fez
com que ela sentisse na pele, amargamente, o quanto a falta de
intimidade com a palavra escrita pode afetar, negativamente, a vida
das pessoas. Mas, por outro lado, Dona Lydia foi sacudida para a
percepção do quanto a leitura e a escrita ainda poderiam modificar
a vida dela e de outras pessoas.
Já na entrada da velhice, Dona Lydia se viu na obrigação de
regularizar as terras herdadas do avô, entre Peruíbe e Itanhaém.
Eram o único bem material dela e da sua família nesta vida. Foi onde
toda a parentela nasceu, cresceu e de onde, durante décadas a fio,
tirou o sustento.
Mas o advogado que foi contratado para solucionar o imbróglio se
aproveitou do fato de ela não saber ler para ficar com metade da
propriedade – único ganha-pão da família, que sobrevivia do cultivo
de milho, batata e melancia.
Depois disso, a mulher, resoluta, tomou uma decisão. Iria para a
escola e nunca mais seria enganada por não saber ler. Mas Dona
Lydia, além de aprender a ler e a escrever, encantou-se com os livros

35
e com os estudos. Apaixonou-se pelos versos de Carlos Drummond
de Andrade e Castro Alves e, aos 75 anos, resolveu fazer faculdade.
Dez anos depois, Dona Lydia S. Gonçalves – como passou a grafar
o próprio nome – tornou-se escritora, tendo publicado vários livros
com os seus poemas e os aforismos que colecionou por toda a vida.
Com os vários diplomas numa parede e uma farta coleção de livros
nas outras, é ela agora que ensina, do alto da autoridade do seu
próprio exemplo de vida:
— Aprender é como abrir os olhos. E nunca é tarde para isso!

36
O menino do Desemboque

N ascido menino pobre no Desemboque, interior de


Minas Gerais, Ariclenes sonhava, desde pequeno, com
a cidade grande. Queria ser famoso e, um dia, conhecer
as cantoras do rádio, ícones daquele Brasil rural da primeira metade
do século XX. Vivia suspirando pelos cantos só de pensar em
namorar alguma delas.
Acontece que Ariclenes, ou Ari, vivia num lugarejo longínquo, em
meio a um punhado de vivas almas, no coração perdido do Brasil.
Por mais que tentasse pensar numa saída, não lhe ocorria nada tão
genial que pudesse, enfim, fazê-lo, um dia, chegar lá.

37
Enquanto sua sorte grande não chegava, Ari ajudava o pai,
boiadeiro, na lida com o gado. Para faturar uns trocos, ele vendia
fotos da mãe, que era artista de circo.
Assim seguia o menino tocando sua vidinha, que dizia, ser sem eira
nem beira.
Mas, um dia, Ari tomou coragem, subiu na carroceria de um
caminhão e seguiu no rumo de São Paulo. Estava firmemente
decidido a cair na estrada em busca do seu Eldorado.
No meio do caminho, contudo, o menino apeou da condução.
Nunca tinha ouvido falar daquele lugar onde estava. Se ainda não
era aquela a metrópole com a qual tanto sonhara, ele, ao menos,
poderia, ali, ir se acostumando, aos poucos, com a vida de cidade
grande.
Ribeirão Preto ficava bem no meio do seu caminho para a capital.
Com os seus cabarés, teatros, radionovelas e uma vida noturna
movimentada até demais para o garoto caipira recém-chegado do
Desemboque, no Triângulo Mineiro, bem que podia servir como
experiência e, ainda, um trampolim para um salto na vida.
Resolveu ficar uns tempos por lá.
Na esteira da derrocada dos barões do café, a cidade vivia novo
surto de prosperidade. A industrialização nascente e os novos ricos,
daqueles tempos de mudança do Brasil rural para o Brasil urbano,
dominavam o cenário político e econômico da cidade.

38
Ari, um frangote de não mais do que dezesseis anos, foi morar numa
pensão e, logo, arrumou ocupação. Empregou-se como carregador
numa loja de materiais de construção. Lá, no embalo do progresso
daqueles anos 30, os canteiros de obras pipocavam por toda parte e,
com isso, punham mais mercadoria na cacunda do rapaz.
Por isso, foi uma benção aquele santo dia em que os livros entraram
na vida dele. Foi tudo por acaso. Ari só queria mesmo dar uma
escapadela do sol fatigante que fazia a carga sobre seus ombros
magricelas parecer pesar toneladas.
Ao passar diante daquele casarão majestoso, de frente para a praça
central da cidade, o rapaz empacou. Pessoas que entravam e saíam
chamaram a sua atenção para aquele lugar que parecia ser um espaço
público. Sem muito pudor, ele ajeitou no chão, calmamente, o vaso
sanitário que trazia sobre as costas. Só deu uma olhadela para os
lados para se certificar de que ninguém o espiava para dedurá-lo ao
patrão e entrou.
Quase diante do Theatro Pedro II, majestosa casa de ópera daquela
terra de coronéis, o velho Solar dos Junqueira já não era o mesmo.
Em vez das romarias de líderes políticos e de apadrinhados atrás dos
favores dos barões do café, no casarão, agora, funcionava uma...
biblioteca.
Ele levou um baita susto. Mas, já que estava lá dentro mesmo, Ari
resolveu permanecer. Afinal, pior do que a carga pesada e do sol
escaldante que o aguardavam do lado de fora é que não podia ser.

39
Aquela seria, anos mais tarde ele diria, a mais sábia decisão de sua
vida.
No início, precisou controlar o pavor que passou a tomar conta de
si. Tentava adivinhar quem seriam aquelas criaturas bem vestidas,
totalmente estranhas a sua vida roceira. Circulavam, com
desenvoltura, entre as estantes, poltronas e as largas mesas em estilo
colonial. Talvez fossem, ele deduziu, poetas, professores ou alunos
do Ginásio do Estado – que era uma espécie de chave do céu para
os rapazes e moças que, na transição de uma monocultura cafeeira
para uma economia mais industrializada, aspiravam por ascensão
social.
Se quisesse, portanto, permanecer mais tempo no local, misturado
aos leitores intelectuais, teria ao menos que disfarçar. Pegou o
primeiro livro à sua frente e folheou algumas páginas, mas, logo,
fechou e o colocou sobre a mesa escura. Voltou o olhar para a capa
do livro e o título impresso em letras garrafais chamou a sua atenção:
Grandes Esperanças. O autor era um certo Charles Dickens, um
famoso desconhecido para o garoto do Desemboque.
Decidido que estava a parecer, ao menos aos olhos dos que ali
estavam, um leitor de verdade, tinha que se esforçar mais. Num
gesto largo e pausado, sentiu-se no meio de um palco no circo,
vivendo a vida de outro personagem, como tantas vezes sua mãe
fizera. Olhou, atentamente, as letras miúdas, franziu a testa e fingiu
concentração. Só conseguiu relaxar minutos mais tarde, quando, ao

40
tatear uma vez mais a brochura e, finalmente, abri-la, deixou-se levar
pela narrativa vibrante.
Ao contrário do que esperava, sorvera com certo gosto as páginas
iniciais. Aventurou-se por mais algumas e, sem que se desse conta,
fora, repentinamente, abduzido por aquela história, e totalmente
absorto pela leitura.
Já não conseguia mais desgrudar os olhos do livro. E tampouco se
preocupava em disfarçar; agora, já devorava uma página após a
outra, e tudo, num fôlego só, vivenciando um terrível conflito
íntimo. Ao mesmo tempo em que desejava, ardentemente, chegar à
última página do livro, já sofria com a possibilidade de fim daquela
história.
Ari, definitivamente, fora fisgado pelos livros.
Daquele dia em diante, a literatura nunca mais sairia de sua vida. O
moço estava sempre com um livro nas mãos – eles seriam, por sinal,
uma companhia constante na vida do caipira recém-chegado à
cidade. Sua sensação era que, finalmente, encontrara a chave para
uma vida melhor que tanto procurara em sua vida.
Em seu primeiro teste para locutor, já em São Paulo, Ariclenes
tropeçou no sotaque caipira. Mas não desistiu, arrumou um
emprego de contínuo na Rádio Difusora e seguiu adiante. Logo
depois, foi promovido a sonoplasta. Na primeira oportunidade,
conseguiu um papel para uma ponta numa radionovela. Nunca mais
parou.

41
Meio século depois, e agora famoso, sob o pseudônimo de Lima
Duarte, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira de todos
os tempos (afinal, como ele dizia, Ariclenes Venâncio não era nome
de artista que se prezasse), o menino do Desemboque está mais
convencido do que nunca que foram os livros a sua tábua da
salvação.
— Antes dos livros entrarem na minha vida – ele se diverte, com o
sotaque ainda inconfundível – eu não passava era de um anarfa...

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Amyr e o mar

E mbora vivesse não muito longe do Atlântico, Amyr


morria de medo do mar. Era um trauma de infância.
Ainda pequeno, estava com o pai e os irmãos na praia
quando foi derrubado por uma onda forte, algo que acontece com,
basicamente, todo mundo que vai à praia quando criança. Porém, o
que em alguns resvalam, em outros fere fundo.
O caso é que, mesmo adulto, ele teve muitas dificuldades para
superar aquilo. Por isso, arriscar-se além da beira-mar não era,
exatamente, sua diversão predileta.
Quando terminou a faculdade de economia, Amyr optou por fincar
mais os pés em terra firme, tomando a decisão de administrar a

43
fazenda da família e lidar com gado e leite. Tudo que desejava era
ter um chão seguro e palpável.
Mas os livros fariam esse Amyr, já adulto e recém-saído da
faculdade, a reaprender a gostar do mar, rendendo-se à possibilidade
infindável de aventuras oferecida tanto pela imensidão da literatura
quanto a dos oceanos. As histórias fascinantes sobre marujos,
navios e ilhas perdidas ajudaram a trazer de volta aquele menino que
se assustara com as ondas.
Uma dessas histórias que o encantaram foi A Expedição Kon-Tiki, do
antropólogo norueguês Thor Heyerdahl, que navegou do Peru à
Polinésia, numa jangada construída por nativos, para provar que
civilizações sul-americanas podiam muito bem ter cruzado mares
para povoar as ilhas do Pacífico. Também ficou fascinado pelas
aventuras de O Último Lugar da Terra, de Roland Huntford, sobre a
disputa, no século passado, entre exploradores ingleses e
noruegueses pelo Polo Sul. E se maravilhou com os poemas do
poeta Fernando Pessoa, um de seus prediletos, que vivia a soprar
em seu ouvido que, sim, navegar era preciso.
Mas o que o faria voltar de corpo e alma para o mar, que não
desistira dele, foi O Grande Inverno, escrito por um casal de
aventureiros que ele conhecera em uma de suas férias em Parati.
Sally e Jérôme Poncet viviam uma vida modesta e sem grandes
solavancos num barco velho e enferrujado, no qual haviam

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compartido uma inédita viagem ao território desconhecido e gelado
da Antártica.
A história nem era tão espetacular assim e, de certo modo, até
desmistificava um pouco a ideia de grandes epopeias vivenciadas
por aventureiros em alto-mar. Era tão somente um singelo, porém
apaixonado e poético relato sobre a experiência do casal francês.
Durante a viagem, Sally engravidou em pleno inverno polar e
decidiu ter o filho lá mesmo, na então desabitada e inóspita Geórgia
do Sul.
Ao chegar à última página, Amyr sabia exatamente o que faria da
vida dali em diante: seria um navegador. Ele começou a se preparar
lendo mais relatos de navegação e manuais, e passou a se dedicar
mais aos treinos da sua equipe de remo do Espéria, clube da elite
paulistana. O passo seguinte foi comprar uma canoa e, em seguida,
um barco a remo. Com o tempo, passou a construir os próprios
barcos.
Não tardou para Amyr Khan Klink, filho de um imigrante libanês e
uma artista plástica sueca, tornar-se um dos grandes heróis nacionais
dos nossos tempos. Sua primeira grande proeza foi atravessar o
litoral brasileiro numa pequena canoa. Em seguida, cruzou, solitário,
desde a África, o Oceano Atlântico a remo. Depois disso,
circunavegou o globo, perfazendo mais de 400 mil quilômetros nos
mares.

45
Bom leitor e excelente contador de histórias, Amyr aproveita, entre
uma e outra aventura, para escrever os próprios livros. Assim nasceu
Cem Dias entre o Céu e o Mar, um deles, que já vendeu meio milhão de
cópias.
Cada vez que ele vai se lançar numa nova aventura, Amyr Klink se
planeja bem e, antes de zarpar, toma todas as providências e
precauções. Como é indicado nesses casos, leva só o essencial para
suas temporadas sozinho em alto mar – sendo que algumas podem
durar mais de ano. Algo que não pode faltar na sua listinha de
prioridades: os livros. Numa das viagens, Amyr carregou nada
menos do que meia tonelada deles.
Afinal, diz Amyr, fazendo troça do trauma que o afastou dos mares,
não fossem os livros ele estaria hoje com cracas nas canelas de tanto
andar à beira-mar. Foram os livros, ele assegura, que deram um
sentido novo para a sua vida.

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O livro dos livros

U ma é Maria das Graças. Outra é Maria Augusta. A


terceira delas atende pelo nome de Joanice. Todas elas
estão com os filhos criados e frequentam a mesma igreja
na periferia de Belo Horizonte, a capital mineira. Tal como as outras
mulheres da mesma faixa etária com quem elas convivem no dia a
dia, as três levam, mesmo em uma grande cidade, uma vida pacata.
Também em comum entre as três há o fato de que, só agora, já na
idade madura, é que estão tendo, pela primeira vez na vida, contato
com as letras e com os livros.
As duas Marias mais Joanice se conheceram lá mesmo, na igreja do
bairro. Apesar de trajetórias de vida distintas, as três mulheres
partilham, atualmente, de um mesmo sonho: elas estão ansiosas para

47
conseguir ler o seu primeiro livro, o primeiro desde que se
conhecem por gente.
Mas, para elas, não vale um livro qualquer. As três foram fisgadas, a
essa altura da vida, para frequentar a escola de jovens e adultos por
causa do sonho por elas compartilhado de conseguirem, sozinhas,
ler a bíblia.
Até então, só tomavam conhecimento das belas passagens do
Evangelho, que tanto faziam bem para seu estado de espírito,
durante as preleções. A intenção delas, desde o início, era aprender
a ler para, assim, tentar abrir um canal direto com Deus e, com isso,
receber a palavra diretamente, a qualquer hora do dia ou da noite e,
sobretudo, em horas de necessidade.
Dona Joanice Gomes de Oliveira, 62 anos, já se dá por contente se,
um dia, conseguir ler, sozinha, um salmo inteiro. Antes de começar
a ir à escola, ela chegava a decorar trechos inteiros da bíblia, para
poder recorrer nas horas de precisão. Dona Joanice já foi cozinheira,
faxineira, lavadeira e servente, entre outras coisas. Ela criou cinco
filhos, dois dos quais foram adotados, todos os cinco alfabetizados,
e garante que, agora, não desperdiçará a oportunidade de se
alfabetizar e ler, ela própria, os livros que desejar.
A história dela não é muito diferente das histórias de outras
mulheres do Alto Vera Cruz, bairro da periferia de BH. Dona Maria
das Graças da Silva, dois anos mais velha e mãe de dezenove filhos,
dez dos quais, ainda vivos, tem uma história prosaica. Ela não se

48
alfabetizou porque era proibida pelo pai de ir à escola em Jequeri,
na Zona da Mata mineira, para que não ficasse uma moça
“assanhada” e “namoradeira”.
— Nunca tive tempo pros cadernos... – ela diz, lembrando que, ao
constituir a própria família, a prioridade, então, passou a ser botar
comida na boca da filharada.
Só bem mais tarde, Dona Maria das Graças desconfiou que, se não
soubesse ler e escrever, jamais conseguiria ir muito longe.
— Não há nada pior do que não saber ler – ela atesta. — Eu, mesma,
nunca pude ir sozinha aos lugares por não saber o preço das coisas
e nem conseguir tomar um ônibus.
O mundo, ela desconfia, funciona com códigos:
— E eu não conseguia decifrar nada daquilo...
A vizinha, Dona Maria Augusta Souza, 79 anos, dá o tom:
— Até que analfabeto acha emprego. Mas pode ver que é faxineira,
lavadeira, servente de pedreiro. Passa muita humilhação e ganha
muito pouco. Para quem não sabe ler, está tudo fechado.
Depois da bíblia, as futuras leitoras prometem não parar por aí e já
ficam imaginando o que vão encontrar em outros livros.
Em países de tradição cristã, a leitura da bíblia costuma ser uma
porta de entrada para muitos não leitores ao mundo da palavra
escrita. Ela é o livro mais lido e o mais relido do Brasil, além de ser,
segundo os leitores, o que mais mexeu com as suas vidas. Até entre

49
quem nunca leu um livro inteiro, muita gente tem o costume de ao
menos dar uma espiada nos versículos de vez em quando.
É provável que boa parte dos neoleitores da bíblia nunca irá além
de uns pequenos trechos do livro sagrado na hora de dormir ou ao
acordar. E isso bastará a eles. O que não deixa de ser, uma
experiência concreta com as práticas leitoras. Haverá, entretanto,
outro grupo de leitores que, após algum tempo, já não se contentará
só com esse tipo de leitura e partirá para outros, o segmento mais
ampliado de livros religiosos, e, na sequência, é possível, outros
gêneros. Alguns entre eles talvez se convertam em textos literários.
Uma só ovelha trazida para o seio do rebanho universal dos leitores
já vale muito a pena. Muito porque serão essas mesmas ovelhas –
que podem atender por nomes como Maria das Graças, Maria
Augusta ou Joanice – que vão ajudar, mais tarde, a semear para
outros rebanhos a boa nova dos livros. E, com eles, a vitória da luz,
do conhecimento e da razão sobre o obscurantismo e a ignorância
das trevas.

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O livreiro que não sabia ler

E m um ano comum, Seu Leonídio costuma ler, por


baixo, quarenta livros. Ele lê diferentes gêneros literários,
e, praticamente, ao mesmo tempo. Leitor compulsivo
confesso, admite que não sabe direito o que fazer se não há um livro
por perto e ao alcance da sua mão, seja no carro, ao lado da cama
ou no banheiro da casa.
Mas nem sempre foi assim.
A aventura literária de Seu Leonídio só começou em seus 20 anos
de idade. Antes disso, ele era analfabeto de pai e mãe, mas nem por
isso vivia longe dos livros. Muito tempo antes de conseguir decifrar
uma só letra do alfabeto, Seu Leonídio já era, creia, um livreiro.
Como vendedor de livros que batia de porta em porta, atrás dos

51
compradores, ele tinha uma freguesia fixa e era o livreiro de
confiança de muita gente.
Portanto, primeiro, ele estabeleceu, ainda que não soubesse ler e
escrever, uma intimidade improvável com os livros e seus autores.
Só muito depois é que conseguiu a habilidade necessária para poder
decifrá-los e compreendê-los.
No Brasil de meados do século XX, quando o analfabetismo ainda
era muito alto no País, se comparado a bons indicadores
internacionais, este homem saía à caça de freguês a freguês,
estivessem onde estivessem. Vendia nas ruas, nas casas, permanecia
plantado nas portas de fábricas e escritórios, e nos mais inesperados
lugares, desde que, ali, pudesse existir algum comprador de livro em
potencial. De livro em livro, ele vendeu, ao longo da vida, milhões
deles.
Mais tarde, já alfabetizado, chefiou pequenas legiões de vendedores
porta a porta e, como editor, publicou perto de dois mil títulos.
Não é pouco, principalmente para esse alagoano de Arapiraca, que,
decidido a mudar de vida, correu atrás de um futuro igualmente
incerto na cidade grande. Ele começou fazendo pequenos bicos em
São Paulo, onde seu primeiro emprego foi de faxineiro. Nos
corredores da pensão onde foi viver, nos arredores da Praça João
Mendes, no centro de São Paulo, o rapaz moreno de porte atlético
conheceu alguns vendedores de livro.

52
O moço, logo, encantou-se com os relatos apaixonados e, em
especial, com os causos hilários que aconteciam no dia a dia dos
vendedores de livros, as suas divertidas e inesperadas situações no
trabalho. Aqueles homens saíam cedo da pensão e batiam de casa
em casa para oferecer livros a quem não tinha tempo, gosto,
dinheiro ou mesmo que não sentia a menor necessidade de ir a uma
livraria.
Embora não conseguisse decifrar uma só palavra estampada nos
livros que deveria vender, o novo e promissor vendedor se animou
com o desafio e, em pouco tempo, sentia-se como um veterano do
ramo. Para que não percebessem que o homem que vendia livros
não tinha a menor ideia do conteúdo do produto que tentava
empurrar aos outros, Leonídio tinha suas próprias artimanhas.
Ele decorava o título, o autor e o resumo da capa e da contracapa,
que algum colega lia para ele, e surpreendia a clientela declamando,
em alto e bom som, as informações principais. Com graça e estilo,
estabelecia de cara uma empatia com o freguês, aproveitando para
fugir de eventuais saias justas. Não tinha erro: tirava um pedido atrás
do outro – que ele pedia para o próprio cliente preencher, como
uma cortesia do seu vendedor.
Os truques de venda e o talento nato para o ofício ele aprendera nos
idos tempos em que vendia galinhas vivas, que carregava
dependuradas em pedaços de pau sobre os ombros. Lidar com
livros, ele racionou com a astúcia de vendedor, certamente, seria

53
muito mais fácil, já que eles sequer faziam barulho e tampouco se
alvoroçavam.
Um dia, contudo, um dos clientes percebeu que o vendedor
inventava sempre uma desculpa diferente na hora de preencher os
pedidos. Ele não deveria saber ler, desconfiou o homem, um
advogado, que acabaria por convencer Leonídio que nunca é tarde
para ir à escola.
Turrão como ele só, Leonídio, que sempre havia sido autodidata,
decidiu que faria do seu jeito. Acabou se alfabetizando sozinho,
enquanto lia placas de rua, reclames na TV e as capas dos livros que
vendia. Quando já casado e pai de seis filhos, fez questão de que
todos eles tirassem o diploma da faculdade. Depois que descobriu a
escrita e a leitura, jamais deixaria de transmitir, à filharada o valor da
escola.
Com o dinheiro que juntou vendendo livros, Leonídio comprou um
prédio de apartamentos inteiro na Aclimação, bairro paulistano de
classe média, e trouxe todos os parentes de Alagoas para morar
perto dele. Foi lá que ele montou sua primeira editora.
Se o assunto é livro, Leonídio Balbino, o livreiro que não sabia ler,
transforma-se. Ele pode falar por horas a fio, sem se cansar, até
convencer seu interlocutor por que ler livros é mesmo tão
imprescindível e pode, realmente, melhorar a vida das pessoas.
Se lhe dão trela, ele repete, à exaustão, sempre com gestos largos,
sua ladainha predileta:

54
— Tem que ler, tem que ler, tem que ler...
No livro autobiográfico que escreveu para narrar sua história, O
Operário do Livro, Seu Leonídio, que se tornou cidadão honorário do
Rio e de São Paulo, não deixa de relatar os momentos dramáticos
que passou pela vida. Porém, otimista de plantão que é, Leonídio
Balbino gosta de contar que chegou aonde chegou graças a uma feliz
combinação de três coisas: uma vontade incrível de viver, a
confiança em si próprio e, naturalmente, os livros.

55
Livro de “um reais”

N unca soube o nome dela. E as chances de voltar a


encontrá-la, algum dia, são bem remotas. De seu rosto
magro, contudo, não há como esquecer. E menos ainda
de seus olhos negros e redondos que não pediam, mas, com
determinação, praticamente exigiam. Não era para ela, fizera questão
de explicar. Era para o filho, que ainda não estava na escola.
Não queria esmola. Só desejava comprar um livro, com o mísero
dinheiro que dispunha no momento.
Apesar de não tê-la encontrado novamente; durante anos, a imagem
dessa mulher reapareceria para mim outras vezes. Como nas
ocasiões em que eu precisava falar em público, para membros do
governo ou representantes do mercado editorial, como os livros e a

56
leitura podem mexer com a vida das pessoas e, portanto, sobre a
necessidade de se garantir o acesso a eles, seja gratuitamente ou
pagando por preços acessíveis.
A mulher desconhecida – que seguirá anônima, para mim, e, talvez,
sempre invisível, aos olhos do Estado e da própria sociedade –
certamente teria muito a dizer sobre isso.
Era uma manhã fria de agosto, primeiro dia da Feira Nacional do
Livro de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O caso se deu lá, mas
poderia ter sido em qualquer outro lugar. Importantes editores,
livreiros e escritores estavam na cidade. Muitos deles haviam
cruzado o país só para isso. Nos dias seguintes, aproveitariam os
holofotes para falar da função social da leitura e o quão importante
é tornar o Brasil um lugar de leitores.
A mulher surgiu do nada, quando ainda restavam boas horas para a
cerimônia de abertura e início da programação farta – com
escritores, venda de livros, cinema, teatro, exposições e outras artes,
com a literatura como um fio a conectá-los. Ela, calmamente,
estacionou o carrinho de mão no meio fio e, mesmo maltrapilha,
não se intimidou diante dos homens de terno e gravata, que
discutiam com entusiasmo sobre livros.
Sem cerimônia, a catadora de papelão enfiou uma das mãos por
dentro o vestido, na altura dos seios, e exibiu a cédula de R$ 1,00,
que parecia ser tudo o que tinha naquela hora do dia. Talvez fosse
mais sensato trocar por pães amanhecidos na padaria da esquina ou

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inteirar para levar um litro de leite para casa no final da jornada. Mas,
não. A mulher caminhou resoluta, na direção dos negociantes de
livros, sabendo o que seria. Sem dirigir a palavra a nenhum deles em
especial, lascou:
— Tem aí livro de “um reais”?! – ela esclareceu, – É pro meu filho,
que tá na idade de ir pra escola. Quero dar um livro a ele para que
seja alguém na vida.
A fala pungente calou fundo naqueles homens dos livros. Embora
o Brasil esteja entre os dez maiores produtores de livros do mundo,
o acesso a eles no País consegue ser ainda pior do que a desigualdade
social. Só uma em cada oito pessoas compra livros.
Mais e mais pessoas, nos dias atuais, reconhecem a função social e
transformadora da leitura na sociedade. E a julgar pela fala simples,
mas poderosa, dessa catadora de papel, é possível supor que a
relevância da leitura também cresce, e, aos poucos, se consolida, no
imaginário popular.
Nesse caso, embora analfabeta, o que ela mesma afirmaria, a mulher
intuiu que poderia estar ali, em meio aos livros, a chave do futuro
para seu menino. Do contrário, a continuar apartado do acesso à
educação e ao conhecimento – materializado diante dela na forma
de livros –, deveria engrossar a lista de candidatos a engordar as
estatísticas oficiais sobre miséria, desemprego, fome e violência.
Mas para a catadora de papelão atrás de um livro com preço
compatível ao seu bolso, um livro tem um significado que vai além

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do objeto que seus olhos veem. Porque não se resume ao maço de
papéis costurados e manchado com tinta, que, a rigor, ele é. O que
a mãe catadora vê é um sonho, um futuro e oportunidades que ela
e o pai da criança, provavelmente, nunca tiveram. Talvez um
emprego com carteira assinada, duas ou três refeições no dia e
alguma dignidade na vida.

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A bola e o livro

E dward estava, porque estava, convencido de que,


no futuro, ainda ganharia a vida correndo atrás de uma
bola: queria ser jogador de futebol profissional. Após uma
meteórica estreia no seu glorioso Mirassol Futebol Clube, orgulho
da cidade, ele, em seus sonhos infantis, jogaria, em seguida, em um
dos times grandes do Rio ou de São Paulo para, então, partir direto
para a seleção, como um ídolo festejado do escrete nacional.
Naqueles tempos, meados do século passado, jogar no exterior era
algo absolutamente fora de questão.
Era este o sonho de Edward e de milhões de outros garotos, fossem
pobres ou fossem ricos, no futuro País do Futebol. Era difícil

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encontrar algum que não almejasse ganhar fama e glória nos
estádios.
No caso de Edward não seria exatamente por falta de treino ou
dedicação diária que esse sonho deixaria de se realizar. Afinal, todo
santo dia, ele e um punhado de amigos praticavam, em renhidas
peladas de rua nos campinhos de terra de Mirassol, interior de São
Paulo, o esporte bretão que, supunham, deveria alçá-los ao estrelato.
Edward não estava de todo enganado.
Uma bola de futebol estava, de fato, entre ele e seu destino. Não era,
contudo, exatamente como sonhara.
Certo dia, Edward participava de um concorridíssimo racha no pátio
da escola. De repente, um colega de time deu um tremendo chutão
que fez com que a bola fosse parar lá longe. O craque, naquele
instante envergando a gloriosa farda do Grupo Escolar de Mirassol,
na plenitude de seus não mais do que oito anos de idade, foi,
prontamente, escalado para resgatar a pelota, que, desgraçadamente,
enfiara-se por uma maldita janela aberta.
O mundo era mesmo injusto. Era sempre a mesma coisa: os grandes
mandavam e aos menores não cabia outra coisa senão obedecer.
Convertido, momentaneamente, em gandula oficial da peleja, lá foi
o candidato a futuro atleta atrás de localizar o paradeiro da preciosa.
Mas alguma coisa do outro lado da parede chamou a atenção do
menino. Edward se intrigou diante do cenário inesperado: jamais
vira tantos livros juntos!

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Do outro lado da janela, funcionava a biblioteca da escola que, justo
naquela manhã, recebera um acervo novo de livros. Eram livros de
literatura para crianças.
O pequeno Edward pegou um deles nas mãos – A Banana que Comeu
o Macaco, ele jamais se esqueceria – e se deixou levar pela história,
que leu até o fim. Ele nunca voltou para retomar aquele jogo de
futebol.
Nos trezentos e sessenta e cinco dias seguintes, Edward
contabilizaria nada menos do que duzentos e cinquenta livros lidos
– para se ter uma ideia, basta dizer que só em 2017 a média anual de
livros lidos por brasileiro chegaria a cinco livros por habitante/ano.
O menino parecia mais uma máquina leitora!
Como o Edward manuseava com rara habilidade a arte das palavras,
um professor inscreveu, sem que ele soubesse, sua redação escolar
em um concurso estadual. A notícia fez o menino pular de alegria:
ele fora classificado em primeiro lugar!
Enquanto abiscoitava um prêmio aqui e outro acolá, o agora
rapazote passou a faturar uns trocados com a habilidade
recentemente conquistada.
Sua intimidade com os livros ficaria patente ao prestar concurso
público para o Banco do Brasil, posto cobiçadíssimo por legiões de
jovens atrás de carreira estável e do status conferido pelo cargo. A
primeira notícia não fora nada boa: havia tirado um baita zero em
Contabilidade. Só que, ao ver as outras notas, a surpresa: dez nas

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demais disciplinas. Na hora H, o costume de ler bons livros o
ajudara a conquistar o emprego.
Noutra ocasião, o jovem corrigiu, durante uma aula, e sem grandes
pretensões, a professora do cursinho preparatório. Sua
argumentação fora tão consistente que a escola resolveu contratá-lo
no lugar dela. Mais uma vez, os livros dariam um empurrão em sua
vida.
Mais tarde, já na faculdade, preocupado que estava com as
dificuldades para acompanhar as aulas de latim, Edward foi a um
sebo atrás de livros usados para aprimorar seus conhecimentos no
idioma. Fez resumos primorosos para cada livro que lia. Ele sequer
desconfiava, mas acabara de escrever o manuscrito do seu primeiro
livro, um dos muitos que publicaria pela vida afora.
Com o tempo, Edward Lopes se tornou um dos mais brilhantes
linguistas do País e, hoje em dia, não há estudante de Letras que não
tenha recorrido a uma de suas obras sobre semiótica e linguística.
Quem sabe o escrete canarinho não perdeu um grande talento com
a bola nos pés. Não sei. Mas, com certeza, o Brasil ganhou um
tremendo talento das letras. Que, longe das quatro linhas do
gramado, tem ajudado a formar várias gerações de mestres que, eles
próprios, igualmente craques das palavras, têm, por sua vez,
despertado o gosto de ler, a cada ano letivo, em milhões de novos
leitores verde-amarelos.
O País da bola carece e agradece.

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Lições de Dona Maria

P or que, afinal de contas, as pessoas leem e escrevem?


E por que é absolutamente essencial a leitura para se viver
na sociedade moderna?
As respostas a estas perguntas costumam variar de acordo com o
interlocutor e suas áreas do saber. Todas, entretanto, remetem a uma
questão central: a necessidade imperiosa que temos de nos
comunicar uns com os outros, de compreender coisas e de nos fazer
entendidos.
Também nos ensinam que saber decifrar os códigos – o que
chamamos de letras e palavras, matéria prima das frases – vai nos
ajudar de várias maneiras pela vida afora. Ainda nos lembram o
quanto a invenção dos alfabetos foi fundamental para a estruturação

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da humanidade tal qual a conhecemos hoje. E, por fim, que assim
podemos nos apropriar do conhecimento universal, que é o grande
legado acumulado através dos tempos pelos homens e mulheres.
A saudável troca de experiências entre leitores, autores e seus
personagens, cada qual com sua visão distinta de mundo, que se dá
no ato de ler, tem o poder de operar em nosso interior reflexões
surpreendentes. Essa é uma forma de gerar, continuamente, novos
modos de ver, sentir e compreender as coisas. O que abre, sem
dúvidas, caminho para atitudes e posicionamentos igualmente
novos. Sem contar que o exercício de enxergar com os olhos do
outro é uma forma extraordinária para se gerar mais tolerância, algo,
evidentemente, indispensável nos processos de paz, mas, na
verdade, necessário para a vida em sociedade de um modo geral
Há, enfim, todo tipo de respostas e, provavelmente, todas com boa
dose de razão.
Vejamos, agora, o que tem a dizer sobre isso uma mulher
camponesa de seus 70 anos, mãos calejadas, que duas ou três vezes
por mês comparece, religiosamente, a uma sala de aula de alvenaria
improvisada no acanhado salão de reuniões do Horto Guarani,
perto de Guariba – no interior de São Paulo, epicentro da revolta
dos boias-frias ocorrida em maio de 1984. Ali, foi instalado o
primeiro assentamento da reforma agrária no coração da mais
importante e poderosa região do agronegócio no Brasil.

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Dona Maria Terezinha – é este o nome dela – tem uma percepção e
uma teoria toda própria sobre o tema, que, por mais que se esforce,
tem certa dificuldade para expressar: a função social da leitura e da
escrita na vida de gente como ela, que trabalha duro na roça durante
o dia e, à noite, espreme-se sobre bancos toscos de madeira,
enquanto o sono permite, para aprender a ler e escrever.
Sem dominar a capacidade de leitura e escrita, Dona Maria se
acostumou a recorrer aos rabiscos rudimentares – como nos
primórdios fazia o homem das cavernas – para registrar os relatos
sobre seu cotidiano e o que vai dentro de sua alma. Em um desses
desenhos, ela aparece jogando milho para as galinhas no quintal do
sítio em um dia ensolarado. Em outro, ela está rodeada pela
parentela, com a natureza exuberante às suas costas em uma ocasião
que parece ter sido muito especial para ela e sua família.
Dona Maria também registrou com entusiasmo o dia em que
participou do mutirão que ergueu a sua primeira casa própria
naquelas terras devolutas, antes tomadas por eucaliptos, no horto
localizado no município de Pradópolis.
Há algumas semanas frequentando a escola noturna do
assentamento, por ora, Dona Maria mal consegue desenhar o nome.
Para ela, entretanto, isso já é muito, e ela comemora com um sorriso
de criança cada nova letra que consegue transpor, na forma de
garranchos quase ilegíveis, do quadro negro da parede para o

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caderno. E ela o faz com a mesma devoção com que faz a oração
do dia antes de se deitar.
Para esta mulher camponesa, desenhar o próprio nome já foi uma
grande vitória. No dia em que ela foi à agência bancária receber a
aposentadoria, o gerente a convidou para ir até sua mesa. Nessa
hora, ela se emocionou: seria a primeira vez em sua vida que não
teria que passar pelo constrangimento de carimbar as digitais e sair
da agência com os dedos sujos de tinta.
A felicidade que a mulher septuagenária sentiu naquele momento
não tem preço! Dona Maria saiu do banco tão leve e confiante que
encomendou, na mesma hora, uma nova carteira de identidade, na
qual já não apareceria a expressão que calava tão fundo em seu peito:
“analfabeta”.
Mas Dona Maria sabe que é só o começo e que há um longo
caminho pela frente para que possa adentrar, para valer, no
complexo universo das letras. Também está consciente de que,
apesar da idade avançada e da fadiga diária que deixa as vistas mais
cansadas do que antes, terá que dar duro nas aulas. Mas dar duro no
batente é algo que, afinal, ela já faz a vida inteira na roça.
Empurrada por uma força que não sabe dizer de onde vem, essa
mulher faz questão de registrar no caderno cada nova palavra que
vê nos livros. Nessas horas, é tomada por uma alegria incomum.
Ainda assustada diante de tantas sensações desconhecidas, Dona
Maria Terezinha – mais uma candidata a integrar a legião de

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neoleitores que se forma nos assentamentos da reforma agrária nos
grotões do Brasil – tem um palpite:
— Acho que é isso que as pessoas da cidade chamam de cidadania
– ela arrisca, com simplicidade e com o jeito de quem não quer mais
tirar o pé dessa estrada.

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O homem que não vendia livros

A
onde vai, afinal, aquele homem carregando tantos
livros debaixo do braço? Ele mal dobrou a esquina e
aparece, ainda pequenino, lá longe, mas nota-se que ele
leva uns belos duns livrões sob os braços arqueados. Aos poucos,
enquanto caminha celeremente, gesticula e parece conversar
sozinho, sua figura franzina vai tomando corpo na calçada.
Talvez nem sejam tantos livros assim. Agora que ele está mais perto,
dá para ver que são enciclopédias, esses livrões danados de pesados,
que condensam nos volumes, de quem se mete a colecioná-los, toda
sorte de conhecimento, curiosidades e informações, úteis ou não.
Parece fazer valer o dito, segundo o qual o conhecimento vale
quanto pesa.

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O homem segue, agitado e solitário, em seu caminho sem rumo. Vai
de casa em casa, bate de porta em porta. Em algumas, toca a
campainha estridente. Em parte delas, vai dar com o nariz na porta,
ele sabe disso. Certas residências estarão mesmo vazias, enquanto,
noutras, os moradores vão fingir que não há ninguém na casa, sua
estratégia eficaz e mal educada para barrar os inconvenientes.
Mesmo entre aqueles que vão abrir a porta, suas estatísticas dizem
que só uma pequena parcela será capaz de fazer ao menos ideia do
quão importante é o conteúdo contido naqueles livrões. Com sorte,
no final da jornada, uma parte ínfima dos seus interlocutores terá
ouvido sua preleção até o fim e, encerrada a ladainha, assinado o
pedido e preenchido os cheques parcelados.
Diariamente, o homem repete, à exaustão, seu discurso sobre
verbetes, personagens, excentricidades e a roda viva da história.
Quer incutir na cabeça das pessoas por que aquilo tudo tem a ver
com a sua vida e, sobretudo, com o seu futuro.
Não é uma tarefa fácil.
Só que Seu Luciano não leva jeito para vender livros. Pode falar por
horas a fio com quem quer que seja e der o azar (ou seria sorte?) de
abrir-lhe a porta. Circunspecto e gestos largos, é de sua natureza
parlar. Mas nunca teve tino comercial para nada. Contudo, é um
brilhante vendedor de ideias, como se verá.
Foi de uma hora para outra que vender livro de porta em porta se
tornou, pelas circunstâncias, seu ganha-pão. Seu Luciano era um

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homem importante, desses que saem muitas vezes nas páginas dos
jornais, ora escrevendo, ora sendo ele mesmo a própria notícia.
Jornalista dos bons, foi eleito vereador e deputado, e apareceu já na
primeira leva dos cassados às vésperas do golpe militar de 1964.
Tornou-se uma lenda nos movimentos de trabalhadores paulistas
pelo apoio firme em milhares de greves no estado São Paulo.
Suas campanhas eram feitas pelos próprios eleitores, que se
incumbiam até de imprimir seus panfletos e pedir votos por ele, que
também não levava lá muito jeito para a coisa. Até os adversários se
deixavam enfeitiçar pela sua pureza e coerência na defesa das ideias,
com sua invejável eloquência e teimosia calabresas.
Era justamente nos livros, bem como nos jornais e no próprio
cotidiano das pessoas mais pobres, que Seu Luciano aprendera tudo
o que sabia na vida. Filho de calabreses, lia sobre política, lutas do
proletariado e o que aparecesse pela frente.
Lia, confabulava com os próprios botões e devolvia tudo,
devidamente deglutido e processado, em forma de artigos ou
discursos eloquentes sobre caixotes de madeira. Era assim que o
homem dos livros cativava amigos e simpatizantes num tempo em
que não existia cabo eleitoral pago ou campanhas milionárias.
Proibido de escrever e legislar nos anos de chumbo, Seu Luciano
chegou a recusar, por questão de princípios, o emprego fajuto que
lhe arrumaram. Preferia vender livros, que ele considerava um
trabalho mais digno. Mas não durou muito naquele emprego, já que,

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em vez de vender, dava os livros de presente para quem não podia
pagar.
Só anos mais tarde, com a redemocratização do País, Seu Luciano
Lepera voltaria às redações. Comunista das antigas e tão generoso
quanto teimoso, ele se tornou um mestre, pelo caráter irretocável,
para várias gerações de jornalistas. Era capaz de tirar a comida da
boca para dar a alguém que necessitasse mais do que ele. Antes de
morrer, doou a própria casa, seu único bem material.
Quem quer que cruzasse seu caminho nunca mais era o mesmo. O
vendedor que não vendia os livros tinha o poder inexplicável de
tocar e comover pessoas. Embora ateu, os amigos carolas garantiam
que o homem dos livros era mais cristão do que qualquer um deles.
— Ele nem precisa acreditar em Deus, pois Deus acredita nele.

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Do outro lado do muro

R aíssa é uma guria que acaba de completar três anos. Ela


nunca saiu dali. Mesmo que quisesse, não teria como. No
lugar das janelas, há pesadas grades de ferro chumbadas
na parede, e a porta, que dá acesso ao térreo, permanece o tempo
todo trancada à chave.
Há outras gurias na mesma situação. No meio da noite, uma delas
sempre chora. Se de fome, frio ou medo, não se sabe.
Na cabecinha daquelas crianças inocentes, privadas da sua liberdade
desde que vieram ao mundo, lá fora é, de certo modo, um lugar que
não existe. Parece algo tão incerto quanto pueril, mesmo porque
nenhuma delas guarda na memória a lembrança de algum dia ter
atravessado um daqueles portões gigantes e ir dar na rua.

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Jamais puderam contemplar pessoas quaisquer caminhando com
elas numa calçada ou qualquer outra cena corriqueira que faça parte
do cotidiano comum das cidades. Esses guris nem desconfiam que,
do lado de fora dos pavilhões onde vivem, há uma cidade imensa
banhada pelo rio – com parques, praças, zoológicos, pipoqueiros,
guloseimas e toda sorte de coisas simples, inocentes e belas que
tanto fascinam a gurizada.
Mas, se alguém perguntar a Raíssa ou a outro qualquer um dos filhos
das mulheres presas no Madre Pelletier, o presídio feminino de
Porto Alegre, muitos responderão que conhecem tudo isso e muito
mais. Raíssa nasceu de uma das visitas conjugais mensais que são
permitidas às presidiárias da instituição e vive lá desde que veio ao
mundo.
Ela adora ouvir as fábulas. Parece precisar delas para seguir vivendo
e sonhando. Conta, com candura, que já esteve em bonitos lugares
e já conheceu príncipes, dragões e fadas. Descreve, com riqueza de
detalhes, castelos e reinos maravilhosos, e intercala expressões de
medo e alívio ao mencionar os monstros e caçadores de bom
coração que encontrou quando esteve perdida em florestas escuras
e mágicas.
Muitas dessas mulheres foram parar na criminalidade por causas de
seus maridos, que continuaram lá fora. Com suas mães, esses filhos
do cárcere vivem quase o tempo todo atrás das grades. Foi no

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presídio que deram os primeiros passos e pronunciaram as primeiras
palavras.
Sua ligação com a vida lá fora se dá quase que só pelos livros.
É nas histórias que descobrem o mundo externo e criam suas
fantasias, diz uma das voluntárias do Liberdade pela Escrita, projeto
dos alunos de Letras e Pedagogia da UniRitter, uma faculdade local.
Os estudantes ensinam às mães técnicas da contação de histórias e,
a partir de crônicas, poemas e do noticiário de jornais, as mulheres
aprendem a expressar, no papel, suas angústias, dúvidas e
esperanças. Kelly, que está presa por ter se envolvido com o tráfico
de drogas, para agradar o namorado traficante, acordou no meio da
noite e escreveu para Deus sobre o seu desejo de mudar de vida
quando sair dali, como leu em um livro. Às vezes relatam as
injustiças e os sofrimentos, e fazem reflexões sobre os erros e a
própria vida.
Essas endurecidas mulheres do cárcere estão descobrindo, nos
livros, um sentido novo para as suas vidas e, principalmente, uma
perspectiva inédita para suas crianças.
Elas sabem que não será tão fácil assim, mas contam com a ajuda
dos livros para tornar sua realidade menos dura, ao menos enquanto
mergulham em alguma página da literatura. E, talvez, tirar de
algumas delas força, fé e coragem para seguir adiante.

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Ele é o cara!

F lávio é um bom menino. É gentil e educado quando


fala com as pessoas e, na sala de aula, está sempre atento e
ligado nas explicações da professora. Ele tem aulas pela
manhã e à tarde e, para dar conta de tudo, não tem moleza; sua
rotina diária não é nada fácil.
Ele pula da cama, todo santo dia, às quatro da manhã. Só, lá, pelas
oito da noite é que conseguirá voltar para casa. Só nessa hora é que
vai comer a sua última refeição do dia, descansar um pouco e já
iniciar os preparativos para a maratona do dia seguinte. O menino
cumpre essa mesma jornada há anos, com uma disciplina espartana,
mas bom humor.

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Flávio viaja, diariamente, duzentos quilômetros por dia desde São
Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, já quase na divisa com
Minas. De manhã, ele frequenta a escola municipal Raul Machado,
em Ribeirão Preto, onde tem aulas regulares. Depois que almoça,
está matriculado em cursos de canto, informática e atividades
manuais. O que aparece ele faz, e nunca se queixa.
Sua agenda diária é típica da garotada de classe média. Por ora, ainda
não faz ideia do que quer ser quando crescer. Nem é hora disso;
afinal, ele só tem dez anos. Lá no fundo do peito, guarda seu maior
segredo: seu sonho é ser cantor de música gospel.
Duas vezes por mês, Flávio vai com os amigos à biblioteca das duas
escolas em que está matriculado. Está sempre em busca de algum
livro diferente. Andou lendo Reinações de Narizinho, de Monteiro
Lobato, e vários livros do Pedro Bandeira. Ultimamente, anda
interessadíssimo nos livros para garotos mais velhos, curioso que
está em desvendar mistérios, nas aventuras para adolescentes sobre
amizade e, admite ruborizado, em garotas, namoricos e coisa e tal.
Flávio gosta mesmo de ler. Como a maioria dos meninos da sua
idade, adora brincar e curtir os amigos, e também dos livros. Ler,
para ele, é algo muito prazeroso. Diz que aprecia os livros porque
acha que eles podem ser seu único caminho para ser alguém na vida.
Simples assim.
A história de Flávio é, por assim dizer, a história de um menino
comum, desses que pode se encontrar por toda parte. O único

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detalhe que o diferencia dos outros meninos da sua idade é o jeito
como esse jovem e convicto leitor lê seus livros.
Flávio, como a maioria das crianças, gosta muito quando alguém lê
ou conta uma história para ele. Mas aprecia escolher os próprios
livros que quer ler e, então, faz isso sozinho. Ele faz isso de algumas
formas: às vezes, pega um audiolivro e escuta no seu tocador de CD;
outras vezes, esfrega um dos dedos no papel saliente enquanto vai
decodificando, palavra a palavra, até formar frases inteiras, graças a
um sistema que ficou mundialmente conhecido pelo nome de seu
inventor: Braille.
Quando está lendo, muitas vezes, Flávio, simplesmente, esquece que
é cego. As coisas, então, parecem ficar mais claras e ele pode curtir
a deliciosa sensação de enxergar mais longe.
Apesar do pouco tempo que sobra na agenda, repleta de atividades,
e do acesso restrito em função dos ainda modestíssimos acervos de
livros para pessoas cegas no País, Flávio é o que se chama de bom
leitor. Ele mantém a média de dezenas de livros lidos por ano e nos
dá uma lição diária.
Flávio dos Santos frequenta a escola da Associação dos Deficientes
Visuais de Ribeirão Preto, uma ONG que faz um bonito trabalho
com pessoas de baixa visão ou cegas, e mantém uma ativa biblioteca
para incentivar a leitura entre eles.
Flávio, o menino que lê com a ponta dos dedos, é mesmo o cara!

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Marinheiro só

mesmo impossível ir a Ilhéus, no litoral da Bahia, e não

É ser arrastado para dentro de uma das histórias incríveis de


Jorge Amado, filho mais famoso da terra e um dos nossos
grandes escritores.
O casario porta-e-janela, os barcos no cais. Em cada canto da cidade
histórica tem um quê de Gabriela e certo aroma de cravo e canela,
algum traço firme dos coronéis do cacau ou alguma memória do
punhado de personagens que, muito antes de seu criador, entraram
para a imortalidade através das portas da literatura.
Não distante dali, próximo desse cenário impregnado de histórias
deliciosas e de cultura, que, para bem além do período representado

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pelo autor, remonta à época das capitanias hereditárias e dos tempos
em que a Bahia era o epicentro do Brasil Colônia, vive Joílson, o
marinheiro. Ele mais todos os fantasmas saídos, diretamente, das
páginas e da prosa fácil de Jorge Amado, e que podem atender por
nomes como Quincas, Vadinho, Nacif ou Flor.
Tal como o conterrâneo ilustre, Joílson Maia, o marinheiro, cresceu
entre as fazendas de cacau e as histórias dos coronéis daquelas terras
do sem fim, cenário e fio condutor de tramas que até hoje atraem
legiões de turistas ao lugar. Joílson tinha certeza de que não passava
de um capiau, simplório e ingênuo, quando foi apresentado, pela
primeira vez, à obra do ídolo.
Como ele não tinha dinheiro para comprar os livros de Jorge
Amado, o menino começou a pegar emprestado dos colegas de
escola. Como precisava devolver no dia seguinte, Joílson passava as
noites em claro para decorar as histórias favoritas e contar, no outro
dia, para os irmãos.
Assim, aos poucos, foi que Joílson tomou gosto pela coisa.
Mais tarde, quando nasceu seu filho, de nome também Joílson, o
marinheiro pensou que era chegada a hora de compartilhar com ele
todas aquelas histórias que tanto o encantavam. Foi assim que ele se
descobriu um contador de histórias.
Joílson se arriscou, então, a escrever as próprias histórias. Já
publicou dez livros, entre os infantis e os romances. O Dia da Gota
D’Água e Memórias Sofridas são dois desses, que Joílson gosta de

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contar aos passageiros da balsa que faz a travessia entre o continente
e a Ilha de Comandatuba.
Personagens e cenário não faltam por ali. E mestres que, no seu
caso, foi, ao vivo e a cores, o próprio autor de Terras do Sem Fim:
— Jorge Amado, um dia, me contou que sempre começava uma
história tendo na cabeça um personagem real de Ilhéus – Joílson
garante que a receita é infalível. — Está cheio de personagens de
livro andando nas ruas por aí.
Leitor formado na lida e, hoje, também um escritor das terras do
sem-fim, Joílson, o marinheiro, sonha ir mais longe: planeja escrever
outros livros sobre a sua Bahia e, quem sabe, um dia, participar de
lançamentos e sessões de autógrafos numa Bienal do Livro, no Rio
ou em São Paulo.
A julgar pelas boas histórias e ricas personagens que têm saído, por
décadas a fio, de Ilhéus, inspiração é que não vai faltar.

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Pequenos leitores do sisal

M oisés, Laudércio, Antônio Jorge. São nomes de


crianças comuns, dessas que habitam desde pequenas
vilas nos grotões do Brasil até as periferias das grandes
cidades. Vivendo em habitações precárias e quase nenhuma
condição sanitária, esses meninos e meninas levam uma vida simples
e sem grandes preocupações quanto ao futuro.
Por toda parte, país afora, crianças nessa idade costumam, seja lá
como for, brincar numa parte do seu dia, enquanto, na outra, vão à
escola, a fim de aprender a ler e a escrever. Mas, nesse caso dos três
acima, como de tantos outros do Nordeste brasileiro, não era
exatamente assim.

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Moisés, Laudércio e Antônio Jorge tiveram que partir cedo para a
labuta diária nas plantações de sisal nos arredores de Retirolândia,
no sertão da Bahia. Ainda pequenos, acostumaram-se com os pais a
ouvir que ler, escrever e brincar era um luxo só para os filhos da
gente rica da cidade.
Isso faria de Antônio Jorge uma criança triste. Os folguedos e os
cadernos nunca fizeram parte da sua infância ou sequer do seu
vocabulário infantil. Ele se punha de pé, ainda escuro, para se
aprontar e passar as horas seguintes, até o entardecer, ao lado do
pai, ceifando a palha do sisal. Tirar os espinhos que costumam
deixar cortes profundos na pele era, por assim dizer, o que mais se
aproximava de uma distração.
Para meninos como eles, havia muito pouco a esperar dessa vida. O
jeito, para ele e os outros, era simplesmente se resignar, aceitando
como absolutamente normal o fato de que, aos sete ou oito anos de
idade, tinham às mãos uma foice, em vez de lápis e caderno.
Mas essa era, afinal, a vida deles. E parecia que estavam condenados
a viver sempre assim.
No dia em que funcionários do governo chegaram avisando que
criança não podia mais trabalhar foi um “Deus nos acuda” por lá. A
revolta tomou conta da cidade. A pergunta que se faziam era uma
só: “Como é que aquela meninada endiabrada e embrutecida poderia
aprender a ser alguém na vida sem o santo remédio do trabalho?”.

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Para quem empregava, era o fim da mão de obra farta e barata. Mas
pais e mães também estavam horrorizados, sem compreender, a
princípio, que haveria outras alternativas de vida fora daquela rotina
que conheciam desde sempre.
A situação só aliviou um pouco quando as famílias souberam que,
em troca, passariam a receber uma ajuda do governo para
compensar o dinheiro que as crianças deixariam de ganhar na roça.
Só teriam que ser matriculadas e frequentar, comprovadamente, a
escola.
Mas para aquelas crianças a mudança também não seria tranquila.
Após uma infância inteira longe dos cadernos e dos livros, ter que ir
à escola para aprender lições que pareciam muito complicadas de se
entrar na cabeça já seria, apesar da pouca idade, algo difícil e
desafiador
Alguém teve, então, uma feliz ideia: talvez conseguissem
compreender mais facilmente se, antes do próprio bê-á-bá das
cartilhas, começassem ouvindo as histórias contidas nos livros.
Os baús para acomodar os primeiros livros foram construídos com
o mesmo sisal que, até então, era o grande responsável por afastar
aquelas crianças da escola. O plano deu certo, e, aos poucos, aqueles
meninos cuja infância e direito de aprender a ler e a escrever lhes
eram negados; agora, já aprendiam e se divertiam com o novo
conhecimento que chegava cada vez que um livro era aberto.

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Nos quinze anos vividos no meio do mato, Antônio Jorge Santiago
jamais imaginara que pudesse existir tanta coisa assim como, agora,
ele descobria a cada página virada. Seu depoimento é um tiro
certeiro:
— Descobri um mundo novo dentro desses baús – diz, com
emoção.
Laudércio Carneiro, o amigo, se convenceu de que não é certo
obrigar criança a trabalhar em vez de ir à escola:
— Foram os livros que me tornaram gente – ele diz, com orgulho
incontido.
Moisés, ou Moca para os amigos, era um menino muito tímido.
Envergonhado, não abria a boca para nada. No dia em que Ana
Paula, a professora, o chamou para ler na frente de todos, ele
simplesmente foi tomado pelo pavor. Suava frio. Percebendo sua
dificuldade, ela deu, literalmente, empurrão em suas costas – na
verdade, um toque sutil e carinhoso, que foi a maneira que
encontrou para incentivá-lo.
Moca leu o texto sem gaguejar e descobriu que gostava disso mais
do que supunha. Desde então se soltou e tornou-se mais falante.
Acabou se elegendo presidente do grêmio escolar e virou o líder da
turma.
Aos poucos, os livros vêm operando pequenos milagres na vida dos
meninos trabalhadores do sisal. O Movimento de Organização
Comunitária já contabiliza mais de 700 desses Baús da Leitura

85
espalhados pelas cidades da zona sisaleira da Bahia. Adilson
Baptista, um dos líderes, diz que a literatura aproxima os jovens
locais de outros que vivem em outras partes do mundo. Sem os
livros, afirma ele, uns jamais conheceriam a realidade dos outros.
— Uma pessoa que não lê vive isolada do mundo – Adilson vive
repetindo, – os livros podem servir de elo entre as pessoas,
independente de onde elas estiverem.

86
No profundo mar azul

D esde pequena, Ângela acalentou o sonho de ser


professora. Ela sempre se interessou em conhecer
coisas novas e cresceu achando natural compartilhar
aquilo que aprendia com as outras pessoas.
A menina só não suportava uma coisa: a ideia de crescer ali e se ver
obrigada a reproduzir a mesma vida da mãe, da avó e das outras
mulheres da ilha. Mal saíam da puberdade, cumpriam um ritual
idêntico: namoro (às vezes providenciado pela própria família),
noivado e, por fim, casamento e filhos.
Tornavam-se donas de casa e davam à luz ainda jovens, repetindo o
único ciclo de vida para mulheres que aquelas famílias caiçaras

87
conheciam de cor e salteado. Muitas delas chegavam à velhice,
prematuramente, sem sequer terem pisado no continente.
Esta parecia ser também a sina de Ângela.
Tal qual as amigas, Ângela, também tinha seus sonhos românticos
de menina-moça, influenciados, claro, pelos costumes locais.
Almejava se apaixonar e constituir família. Só que as coisas, dizia
para si, teriam que acontecer na hora certa e do seu jeito. Porque ela
também gostava de se imaginar no futuro, trabalhando em algo que
a realizasse profissionalmente e, ao mesmo tempo, fazendo algo útil
para sua comunidade.
Entretanto, a menina sabia que suas chances, vivendo no que ela, às
vezes, pensava ser um fim de mundo, eram quase zero. E Ângela
não tinha a menor intenção de abandonar a terra de seus
antepassados, onde, bem ou mal, estavam seus parentes, amigos e a
vida que ela conhecia.
Na praia da Longa, um dos vilarejos que compõem a Ilha Grande,
no litoral do Rio de Janeiro, luz elétrica era um luxo distante, que só
demoraria alguns anos para chegar, a reboque do programa Luz para
Todos.
Adentrar ao universo da informação e do conhecimento formal era,
portanto, para ela, como uma corrida de obstáculos. Se biblioteca,
livraria ou banca de jornal eram inexistentes, o acesso à internet,
naqueles anos, então, nem pensar.

88
Para complicar as coisas, os jovens caiçaras que insistiam em estudar
precisavam se submeter a longas e exaustivas viagens diárias. Dali
até Araçatiba, onde funcionava a única escola dos arredores, era um
tempão de barco. Do cais de Santa Luzia, na Baía de Angra dos Reis,
até Proveta, a última das ilhas, já em mar aberto, consumia-se nada
menos do que seis horas de barco, entre ida e volta.
Porém, decidida que estava a correr atrás do sonho de ter uma
profissão e tomar para si as rédeas de seu destino, Ângela resolveu
ir à luta.
Uma ideia simples, que brotou numa conversa entre professores
incomodados com o desperdício de tempo dos alunos no trajeto até
a escola, acabaria por colocar no caminho de Ângela tudo aquilo de
que ela necessitava para seguir adiante em sua jornada.
Os professores, que vinham de Angra dos Reis para lecionar no
lugar, resolveram pegar emprestados uns livros da escola e
improvisaram no convés do barco Três Irmãos Unidos II uma
pequena biblioteca. Em homenagem a Castro Alves, deram a ela o
nome de Espumas Flutuantes, título da obra na qual estão alguns
dos versos mais famosos do poeta baiano.
Junto à estante de madeira, instalaram o sofá da leitura, para que os
tão aguardados leitores pudessem ler com algum conforto.
Não tardou e o barco-biblioteca virou a sensação do lugar. Era lá
que aconteciam os flertes e namoricos, e onde tinham início relações
que durariam a vida toda. Também era lá onde se tiravam algumas

89
das dúvidas escolares e, naturalmente, onde se podia ler e estudar
tranquilamente e, claro, emprestar livros para levar para casa.
Ângela bebeu, por anos a fio, daquela fonte. Lá, conheceu os
romances e viveu aventuras memoráveis da sua adolescência. Era ali
que fazia amizades e onde se deliciava com os poemas, gênero que
causaria um impacto profundo em sua existência.
Estimulada pelas leituras, reflexões e histórias arrebatadoras saídas
de dentro dos livros, Ângela de Oliveira insistiu até que levou a cabo
o antigo sonho de ser professora. Continuar a viver em Ilha Grande
depois de formada foi, portanto, uma escolha pessoal dela, que
atualmente leciona na mesma escola na qual um dia estudou.
Ângela sabe que agora é a sua vez de inocular em seus meninos e
meninas aquele mesmo vírus bom da leitura que abriu para ela uma
imensa janela de oportunidades e novas perspectivas de vida, além
de uma possibilidade concreta de escrever seu próprio destino. Para
esses brasileiros e brasileiras, Ângela não se cansa de falar sobre sua
gratidão para os livros, que deram a ela um novo sentido para a sua
vida.

90
A que foi sem nunca ter sido

O s bambambãs da leitura costumam dizer, com


razão, que para formar bons leitores é preciso reunir
certas condições. A primeira delas, evidentemente, é
que o sujeito saiba ler e escrever, e tenha habilidade em manejar as
palavras e entender o sentido do que lê.
Mas não é só.
Ajudará muito se esse indivíduo vive num lugar onde há livros,
jornais, revistas e, de tempos para cá, internet; como também uma
boa biblioteca e livrarias para que ele tenha acesso à informação e
ao conhecimento.
Se o candidato a leitor tiver a sorte de ter nascido numa família
leitora, onde livros podem ser encontrados em qualquer canto, suas

91
chances serão, então, muito, muito maiores. Assim como ocorre se
puder frequentar uma boa escola, com livros e professores que
gostem de ler e levem seus alunos a fazer o mesmo.
Em Sertãozinho, na minha infância, não havia livrarias. Cresci numa
família que não era exatamente de grande tradição leitora. Davam
duro, de sol a sol, na roça e quase não sobrava tempo para mais
nada. A mãe que me criou deixara de ir à escola, quando mocinha,
para ajudar a criar os irmãos menores.
Ocorre que a mais nova dos seus oito filhos enfiara na cabeça que
iria estudar, queria ser professora. Cursou, com muito custo, o
Normal e, ainda bem jovem, foi lecionar numa escola de fazenda.
Como eu ainda não tinha idade para ir à escola, ela me carregava
junto.
Nossa aventura começava muito antes de o sol apontar. O ônibus
nos deixava na beira da estrada, diante da porteira da propriedade,
e, de lá, seguíamos de charrete até a sede da Fazenda Palmital,
famosa pela água mineral deliciosa que jorrava generosamente.
Era bonito ver aqueles meninos e meninas de variados tamanhos
chegando com a cartilha debaixo do braço. E a professorinha
ensinava muito mais que o bê-á-bá. Era lá que eles – que, mais tarde,
seriam vítimas do êxodo rural – aprendiam a se preparar para a vida
e conquistar seu lugar ao sol na cidade em que fossem morar.
Com o mesmo fervor e dedicação com que se entregava às suas
crianças, ela cuidou de me apresentar aos livros. Quando, mais tarde,

92
casou e se mudou, levando os livros da casa; passei a visitá-la
diariamente.
Eram quilômetros que valiam a pena. Primeiro, ela me enfeitiçou
com sua coleção de livros de capa dura de Monteiro Lobato. Ao
chegar ao último volume da estante, começava tudo de novo – só
muito depois eu descobriria a biblioteca pública.
Quarenta anos depois e duas aposentadorias nas costas, a
professorinha segue lecionando. E sempre em alguma escola
pública, em algum bairro pobre. Não se cansa da missão que têm os
educadores de verdade de aproximar livros e leitores. Basta que um
só deles tome gosto pela coisa e seus olhos brilham, como em seu
primeiro dia no magistério.
Tenho encontrado por toda parte, e cada vez mais, professorinhas
semelhantes a ela, que gostam do que fazem e vivem em função de
tornar os seus meninos e meninas em leitores. Com paixão e uma
capacidade extraordinária de encantar, elas vêm ajudando a formar
uma boa geração de brasileirinhos leitores, que certamente serão
bons cidadãos no futuro.
O nome dela? Elisabeth de Souza e Silva, a que foi, sem nunca ter
sido, minha professora de verdade.

93
Parte II

E as pessoas mudam o mundo.

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O livreiro do Alemão

O távio guarda, até hoje, a estranha sensação de que


tudo o que ele é ou conseguiu na vida se deve ao
futebol. Ou, para ser mais específico, a uma pelada de
futebol, entre as tantas que já jogou nos campos de chão batido do
subúrbio. No caso, a uma para a qual, a propósito, sequer chegou a
ser escalado.
Não, Otávio não foi alçado ao estrelato e à glória no mundo do
futebol em função de tal peleja, se é isso que você está pensando.
Tampouco se tornou um boleiro profissional, ainda que fosse um
desses que, mesmo sem fama nem glória, acabam conseguindo
juntar uns trocos correndo atrás da bola em algum campeonato da

95
várzea ou, se der sorte, jogando, ao menos, uma temporada no
exterior.
Esse não foi o caso de Otávio. Como a imensa maioria de meninos
pobres e negros do Brasil, ele também chegou a pensar, um dia, no
futebol como sua chance de ser “alguém na vida” e, assim, alcançar
dinheiro e sucesso.
Não erra, porém, quem diz que a história de sucesso e realização
pessoal de Otávio começou, de fato, num campinho de futebol. Só
que do lado de fora das quatro linhas do campo e de forma bastante
diferente da que ele imaginava.
Justo naquele dia, Otávio fora excluído da lista dos titulares. Não
sobrara vaga alguma, sequer a de goleiro, a mais desprestigiada, e,
por isso, geralmente entregue a quem fosse fazer menos falta
jogando na linha. Na hora de formar os times no futebol
improvisado da garotada, funciona assim: ou você joga na linha, ou
você joga no gol, dependendo do talento ou da amizade com os
líderes e com os atletas mais disputados. E as habilidades
futebolísticas não eram, exatamente, as principais de Otávio, que,
como ficaria provado, teria muitas outras.
O fato é que, nesse dia, Otávio ficou, mais uma vez, de fora do jogo.
Filho de pedreiro e de uma dona de casa, Otávio, que recebeu o
mesmo nome de batismo do pai, ainda não havia completado oito
anos de idade. Contrariado com a exclusão do time, ficou, como era
de se esperar, emburrado. Para ele, meninos maiores não tratavam

96
os menores com o devido respeito e se achavam mesmo os
autênticos “donos da bola”.
Por isso, decidiu arrumar alguma outra coisa para fazer. Ao revirar
o latão de lixo nos arredores do campo, encontrou, em meio a
brinquedos velhos e toda sorte de bugigangas, um livro. Levou com
ele, sem saber ao certo o que faria com o dito cujo.
Dias depois, estava em casa quando a luz elétrica da favela pifou
pela enésima vez. Até aí tudo bem, ele pensou, mas o problema é
que isso tirara do ar a tevê em preto e branco, e, com ela, a Sessão
da Tarde, única diversão que restara. Otávio, resignado, se lembrou,
então, do tal livro que encontrara revirando a lata de lixo.
Era Don Gatton, um conto infantil espanhol, traduzido para o
português. Otávio gostou tanto da história que resolveu ir atrás de
outros livros.
Sem que se desse conta, a literatura foi, com seus personagens
fantásticos e histórias mirabolantes, entrando, lentamente, em sua
vida. A ponto de fazer o menino largar mão, de vez, dessas histórias
de virar jogador profissional de futebol.
Havia dias em que o garoto chegava a matar aula só para poder ler
livros escondido na biblioteca. A mãe, coitada, ia à loucura. Mas
Otávio era um bom menino e jamais deixou de pegar firme nos
estudos. Só que gostava muito de ler. Nos anos seguintes, ganhou
bolsas de estudo, em reconhecimento ao seu esforço, e, sempre,
aproveitou ao máximo as oportunidades.

97
Fez cursos de teatro, cinema, literatura e o que aparecia. Um dia se
matriculou no curso que arrebataria nele uma paixão para a vida
inteira: a arte de contar histórias.
Otávio, que já tivera a experiência de atuar como ator e produtor
cultural na periferia, percebeu que a vida esperava mais dele. Se
combinasse seus dotes de ator amador ao seu conhecimento com a
literatura e começasse a contar histórias para crianças e adolescentes
dos morros, certamente, despertaria em muitas deles o gosto pelas
delícias da leitura. Mas, principalmente, poderia mostrar o que os
livros podem fazer na vida das pessoas, tal qual fizera, por sinal, com
ele próprio.
Durante dez anos, o circo literário do Otávio levou alegria, histórias
e diversão aos moradores das favelas do Rio de Janeiro. Depois dele,
vieram o Lanchinho Literário, o Cineminha Literário e o Leia 10,
Leia Favela. E nunca mais parou.
No início, era só um punhado de livros, o tapete puído da mãe e a
velha e manjada mala vermelha, também achada no lixo, na qual
transportava perto de uma centena de exemplares. Mais tarde,
Otávio abriu uma biblioteca comunitária, a “Barracoteca”, primeira
do Morro do Caracol, no pacificado Complexo da Penha e do
Alemão, que reúne treze favelas da Zona Norte do Rio.
A Barracoteca Hans Christian Andersen funciona em um
sobradinho de dois andares, onde, antes, existia um salão de forró.
É a partir de lá que o rapaz sonha, um dia, poder irradiar livros e

98
leitura para toda a população de quatrocentos mil habitantes do
entorno. É um desafio e tanto, mas Otávio não desanima:
— Os livros estão ajudando as crianças daqui a ampliar seus
horizontes – ele diz, com os olhos brilhando de felicidade.
Gabriely Estevão, menina de oito anos que um jornal foi encontrar
brincando de médica na Rua Nova, nas imediações da Barracoteca,
é prova disso. Toda prosa, dela emana, dos seus pequenos olhos,
um brilho bonito de se ver quando ela contempla o próprio futuro.
— Eu quero ser doutora! Mas tem que ler para ser alguma coisa na
vida...
Já Otávio, com mais de sete mil livros lidos e contabilizados desde
aquele Don Gatton pioneiro, espera, algum dia, poder topar com uma
biblioteca em cada esquina da favela. Numa área antes conflagrada
pelo tráfico e que, até recentemente, era considerada uma das mais
violentas do Rio de Janeiro, o rapaz plantou uma nova e boa
semente.
No lugar dos tiros e das mortes, Otávio Cesar Santiago de Souza
Junior, o Otávio Junior, o livreiro do Alemão, levou para lá livros.
E, com eles, um novo sopro de vida e de esperança.

99
Esmeralda cansada de guerra

E smeralda era uma menina que vivia suspirando pelos


cantos, toda cheia de sonhos. Quando crescesse ficaria
uma moça bem bonita, com um bom emprego na cidade,
e se casaria com um belo príncipe encantado, que surgiria do nada e
a levaria para bem longe dali.
Para isso, pensava ela, precisava estudar para ficar cada vez mais
inteligente e, assim, aproveitar as oportunidades que o destino,
docemente, reservava-lhe – fosse um bom emprego, fossem novos
amigos, fosse um marido amoroso. Em busca de seu sonho
dourado, ela adorava ir à escola. E fazia os deveres escolares com
incontida alegria.

100
Mas houve um dia em que o mundinho cor de rosa, que Esmeralda
desenhava para si, ruiria por terra. As fantasias deram lugar, de uma
hora para outra, a uma realidade dura e cruel. Foi o dia mais triste
de sua vida: o dia em que ela, ainda uma criança, foi forçada a
abandonar a escola para trabalhar e ajudar nas despesas da casa.
Como num conto de fadas às avessas, ela perdeu o rumo e o prumo
na vida. Desde então, Esmeralda comeu o pão que o diabo pisou e
amassou.
Mas Esmeralda é, acima de tudo, uma sobrevivente. De uma penca
de dezenove filhos de uma família de Nova Londrina, no interior do
Paraná, ela e dez irmãos vingaram. Todos os demais morreram. De
subnutrição, doenças ou simplesmente porque sucumbiram, antes
mesmo de nascer.
Na verdade, a saga de Esmeralda foi toda entremeada por histórias
de fome, dor, pranto e doenças. A mãe, alcoólatra, diziam que era
uma perdida. Quando dava na ideia, tomava a filharada pelo braço
e saía pelo mundo afora, sem direção. Dormiam em ruas, praças e
calçadas, e se alimentavam das migalhas da caridade alheia.
Mas se havia algo que a mãe de Esmeralda levava a sério era o dito
popular que reza que escola de pobre é o trabalho.
Mal a filha completara cinco anos, já a levou para trabalhar como
doméstica, em troca de roupa lavada, comida e pouso – o que a
menina fazia com certa alegria, pois isso permitia que, no turno de
folga, frequentasse a escola como tanto desejava.

101
Por isso, ela se abalou tanto ao saber que teria que abandonar os
estudos para trabalhar numa casa de família na capital. Lá, conforme
disseram, teria um salário melhor para ajudar mais a mãe e os irmãos.
Sua tragédia pessoal estava só começando.
Mal chegou a Curitiba, a menina foi vítima de estupro. Sofrida e
desamparada, voltou correndo para perto da mãe. Depois de,
dolorosamente, ter sentido em seu próprio corpo as mazelas
culturais da sua sociedade, a alma de Esmeralda seria, mais uma vez,
vitimada. Voltando à cidade, seria, então, alvo da maledicência
alheia: a vizinhança tratou de espalhar que a garota negra e franzina
fora à cidade grande, justamente, para cair na vida. Outra amarga
decepção.
Em desespero e se sentindo desamparada, ela acabou por ceder à
bebida e às drogas. E passou, aí sim, a se prostituir para sobreviver
longe de casa. Não sairia tão cedo do seu inferno pessoal. À custa
de muita dor e sofrimento, ela descobriria que, se o seu vale de
lágrimas nem foi tão difícil assim para achar, já a trilha de volta seria
longa, estreita e sinuosa.
Como dizem que não há mal que dure para sempre, houve um dia
em que a Providência fez parar nas mãos de Esmeralda algo que
deflagraria o início de uma grande virada em sua vida: o exemplar
de um livro velho, surrado e despretensioso, que beirava as noventa
páginas.

102
Para ela, aquele jamais seria um livro qualquer. Samuel Morris – era
esse o título do livro – trazia a narrativa das aventuras vividas por
um menino africano que, ao ser sequestrado por uma tribo rival para
ser vendido como escravo, perdera tudo o que tinha na vida.
Levado para a Europa, ele teve uma vida muito além do difícil,
sofrido e cruel. Mas, impulsionado por uma força interior
irresistível, acabaria por conseguir dar uma incrível, e positiva,
reviravolta em sua trajetória. Era tudo o que Esmeralda precisava
ouvir.
Aquilo, para ela, foi como um sopro de esperança. Cansada daquela
rotina errante e doída, Esmeralda decidiu abandonar a rotina que
vinha levando e se mudou até de estado: transferiu-se do Paraná
para Rondônia, na fronteira com a Bolívia, para retomar o controle
do seu destino, longe de tudo e de todos.
O plano de Esmeralda era retomar os estudos na região Norte do
país, a milhares de quilômetros da sua antiga vida, e construir, por
lá, uma nova. Mas, outra vez, ela não teve muita sorte: sua velha
escola, no interior do Paraná, fora simplesmente destruída por um
incêndio, e já não havia nenhum documento para contar história,
podendo comprovar, assim, seus anos de estudo. Teria, uma vez
mais, que adiar o sonho de se formar e recomeçar.
Esmeralda não largou mão.
Anos mais tarde, a custo de muito suor e sacrifício, ela conseguiu,
finalmente, o tão esperado diploma. Desde então, Esmeralda nunca

103
mais deixou de ler. Na verdade, depois de Samuel Morris, os livros
foram se sucedendo em suas mãos. Até hoje, ela lê livros de
diferentes gêneros e, na hora de dormir, não abre mão de ler algum
trecho da bíblia.
Hoje em dia, de volta à região Sul, Esmeralda, agora mãe de quatro
filhos, não perde a oportunidade para aproximá-los dos livros. Eles
e a filharada da vizinhança. Ela se alistou como agente de leitura
voluntária do Programa Arca das Letras e montou, na casa dela –
no antigo quilombo do Despraiado, um assentamento da reforma
agrária –, uma pequena biblioteca rural, já com trezentos e tantos
títulos.
Ela explica que este é o jeito que ela encontrou de repartir com as
outras cinquenta e oito famílias descendentes de escravos, que, lá
vivem do cultivo do feijão, soja e verduras, a luz que emana dos
livros que ela lê.
Agora, mais velha e um pouco cansada de tanta guerra, Esmeralda
Alexandre Alfonso, pequena proprietária da reforma agrária em
Candói, no interior do Paraná, jura que desta boa luta – levar livros
a quem não tem e que sequer sabe o seu valor – ela não vai desistir
nunca.

104
O zelador de livros

F oi por causa da primeira mulher, uma enfermeira, que


Sebastião tomou gosto pela coisa. Ela repetia, com
insistência, que ele precisava ler mais e que os livros ainda
haveriam de provocar grandes mudanças na vida dele. Sábias
palavras aquelas, hoje, Sebastião não tem a menor dúvida.
Na época, entretanto, Sebastião não deu muita bola para essas
conversas. Algum tempo depois, ela veio a falecer. O tempo foi
passando e Tião, que já não era lá muito afeito às letras, tratou de
esquecer, de vez, os conselhos da finada mulher.
Aos poucos, ele reconstruiu sua vida e buscou um trabalho estável
e alguma tranquilidade. Encontrou um emprego de zelador num

105
prédio de classe média, que oferecia registro em carteira e
benefícios.
Sua vida, de fato, ficou mais sossegada. Passou a ter horário para
entrar e para sair e seus dias ingressaram numa fase de calmaria. Mas
algo no novo trabalho o incomodava, e Sebastião não sabia
exatamente o que era.
Por fim, o zelador percebeu o quanto ficava inquieto com o fato de
os moradores do condomínio atirarem pilhas e mais pilhas de jornais
velhos, revistas e livros no lixo. Muitos deles não pareciam sequer
ter sido folheados. Cada vez que via aquilo – o que, aliás, repetia-se
com muita frequência –, era como se as palavras da finada esposa
martelassem na sua cabeça:
— Você precisa ler mais, Sebastião! Os livros podem ajudar a
melhorar a sua vida.
Um dia, Tião resolveu recolher aquela livrarada que se amontoava,
cada vez mais, na lixeira do prédio. Eram clássicos, dicionários,
livros escolares, ficção e muitas revistas.
Sebastião organizou o acervo com critérios, que iam do tipo e
periodicidade da publicação até o gênero. A pequena biblioteca do
condomínio se completava com gibis e revistas, as mais disputadas
pelas faxineiras.
Aquilo deixou o zelador com a pulga atrás da orelha. Então era
assim: o que parecia descartável para uns podia ser tremendamente
útil para outros.

106
Sebastião ia de porta em porta atrás de novas doações. Em pouco
tempo, era bibliotecário-mor de um vasto acervo, que, na primeira
oportunidade, acondicionou em grandes caixas de papelão e
transportou até Cravinhos, na sua cidade, localizada à beira da
Anhanguera, rodovia que liga São Paulo a Minas Gerais.
Todo fim de semana, o zelador desencaixotava tudo e expunha
numa praça da periferia de Cravinhos, nos arredores de casa. Nem
ele imaginou tamanha aceitação. Os que viam e gostavam tratavam
de espalhar a novidade para os vizinhos e amigos. Rapidamente,
chegou a trezentas as famílias cadastradas para emprestar livros.
Tudo muito simples e funcional: bastava pegar e levar o livro para
casa, e trazer de volta no final de semana seguinte.
Sebastião percebeu o quanto pessoas pobres e remediadas, como
ele, gostam de ler. O problema, concluiu, é que nem sempre têm
acesso aos livros, jornais e revistas. Quando a prefeitura, que a
princípio apoiara a iniciativa, desistiu de continuar no projeto, o
zelador resolveu seguir sozinho.
Ele saiu em busca de mais doações e, desta vez, não era só livros.
Arrumou tijolos, areia e cimento – o que foi suficiente para erguer
um puxadinho no quintal de casa, no Jardim Berbel 2, bairro popular
da cidade. Levou para lá sua pequena biblioteca comunitária que, a
essa altura, já somava em suas estantes quatro mil livros e duas mil
revistas, salvas do cemitério do conhecimento pela solidariedade das
pessoas.

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Sua Biblioteca na Calçada, como ele a batizou, virou mania na
periferia da cidade. Sob seus toldos azuis, a criançada do bairro se
junta nos finais de semana para ouvir histórias enquanto a
vizinhança se espreme entre os corredores apertados para vasculhar
entre suas prateleiras.
O zelador já não tem mais sossego, mas nunca se queixa. A qualquer
hora que apareça algum interessado em um de seus livros, Sebastião
vai, abre a biblioteca e, pacientemente, entrega de bom grado o que
o consulente demanda.
— Eu não tenho coragem de negar um livro a ninguém... – ele diz,
explicando que esse é o único bem que pode fazer ao seu próximo.
Casado pela segunda vez – desta vez, com uma professora – e pai
de dois filhos, Sebastião continua a juntar, com a paciência e a
disciplina de sempre, uma nova leva de livros. O sonho dele, agora,
é formar uma biblioteca bem grande para poder emprestar mais
livros e atender moradores de outras regiões da cidade.
Enquanto esse dia não chega, Sebastião, o zelador de livros de
Cravinhos, segue formando os seus leitores na Calçada. E zelando
pela sua biblioteca, como na música do Chico Buarque, com o zelo
de quem leva o andor.

108
A Bibliojegue do sertão

N ão adianta perguntar, por lá, sobre o paradeiro do


Manoel Ribeiro Filho. Dificilmente alguém conseguirá
responder. Mas, se mencionar o epíteto Barraca,
provavelmente, o prezado leitor encontrará muita gente disponível
para narrar uma das muitas proezas do personagem em questão.
Sempre haverá alguém com uma boa história na ponta da língua
para contar.
Nascido e criado em Auzilândia, lugarejo incrustado no meio do
caminho para a Serra de Carajás, no interior do Maranhão, Barraca
se tornou uma figura célebre no lugar. Tudo por causa da sua
incrível história com um jegue e com os livros.

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O apelido, que veio dos “barracos” em que ele vivia se metendo,
fora conquistado, verdade seja dita, por mérito próprio e à custa de
muita confusão. Suas histórias eram famosas por ali. Brigas,
envolvimento com drogas... e por aí vai. Seu boletim escolar era um
vermelhão de dar dó.
Como quem tem fama deita na cama, como diz o dito popular, é
muito provável que parte dos causos tenha sido injustamente
creditada ao pobre coitado. De todo modo, Barraca fugia como o
diabo da cruz dos conselhos e sermões dos mais velhos, a essa altura
cada vez mais frequentes. O caso é que não havia quem apostasse,
uma ficha que fosse, no futuro do menino, sempre rebelde e arredio.
Mas, eis que, um dia, o tal milagre aconteceu.
De uma hora para outra, Barraca estava irreconhecível. Tornou-se
mais atencioso e educado. Nem de longe lembrava aquele outro.
Estava, definitivamente, mudado, da água para o vinho.
Ninguém sabia explicar ao certo o que se passara com ele. Uns
atribuíam, em tom jocoso, a um suposto milagre do jegue, animal
que em algumas regiões do Brasil é tido mesmo quase como um
bicho sagrado, o que transportou o menino Jesus. Outros diziam
que os livros – que nunca foram seu forte – teriam desmiolado de
vez o rapaz.
Com quem estava a razão, jamais se soube ao certo.
O caso é que uma professora resolveu escalar o insolente aluno, veja
só, para ajudar em um importante projeto da escola. Como

110
dificilmente se conseguia encontrar livros em Auzilândia, muitos
moradores, embora alfabetizados, simplesmente perdiam, pela falta
da prática, a habilidade da leitura.
A ideia era simples: levar os livros das escolas para que a população
pudesse escolher, entre eles, o que mais lhe apetecia e, assim, não se
esquecer de como se lê. Com isso, pensaram, acertadamente, os
professores, “quem se sabe se os adolescentes considerados
problemáticos não se interessariam um pouco mais pela leitura?”. E
lá foi o Barraca para a gloriosa, porém nada fácil, missão – que coube
justo a ele que dizia detestar os livros.
Sua tarefa, a princípio, não parecia difícil: ele só tinha que puxar o
jegue pelas ruas do povoado. Sobre o lombo do animal, seria
colocado um jacá, um cesto colorido, cheinho de livros. Tamanha
agitação, ele calculou mentalmente, era garantia de confusão na
certa. Ele topou na hora.
Semana sim, semana não, a festiva procissão das letras saía, com
pompa, pelas ruelas do lugar. A curiosidade despertada pela
inusitada e ruidosa caravana de livros atraía os candidatos a leitor
em potencial. Depois de descarregados, os livros eram,
cuidadosamente, ajeitados sobre um lençol estendido no chão.
Como um camelô falante da cidade grande, Barraca tratava de passar
o seu recado:
— Olha, aí, os livros. Quem quiser que pegue o seu!

111
Sempre aparecia algum interessado. No início, com certa timidez.
Aos poucos, no entanto, iam se soltando e até se arriscavam a
folhear um dos livros.
Certo dia, Barraca assistiu a uma cena que mexeria, profundamente,
com ele. Notara, de relance, que um deles, já bem velho, olhava
atentamente para o livro aberto. Até aí, estava tudo bem, a não ser
por um detalhe: o exemplar estava de cabeça pra baixo.
O jovem olhou com ternura para o homem e pensou que ele devia
ser analfabeto e que, pelo visto, não se sentia à vontade com isso.
Naquele instante, Barraca – que sempre fizera questão de se
vangloriar pelo seu desprezo aos livros – foi tocado por um
sentimento esquisito. Era compaixão o que ele estava sentindo.
Então, pegou o livro e, em voz alta, leu para o ancião que não sabia
ler.
Aquele gesto mudaria para sempre o seu modo de encarar as coisas
e a sua própria vida.
O menino leria outras vezes para outras pessoas e, aos poucos,
tornou-se um contador de histórias, essa figura mítica que tem papel
importante na tarefa de multiplicar leitores em um país no qual a
tradição oral ainda é muito poderosa. Lentamente, ele ia percebendo
o quanto sua vida começava a mudar. Agora, pensava, tinha uma
ocupação que lhe dava certo prazer e, mais do que isso, era
reconhecido nas ruas e nos lugares aonde ia. Quando o avistavam,
as crianças apontavam em sua direção:

112
— Olha lá, o tio dos livros...
O menino recuperou a autoestima perdida em anos de broncas,
sermões e punições, a cada vez que se metia em alguma encrenca. E
daquele casulo, onde Barraca se sentia condenado a viver
trancafiado pela eternidade, ressurgiria Manoel Ribeiro Filho,
cidadão que reconquistou nos livros a alegria de viver e, hoje, vive e
trabalha em Auzilândia, no município de Vista Alegre do Alto, entre
o Norte e o Nordeste do Brasil.
Mas a história não parou por aí.
Manoel, que há muito deixou de ser Barraca, alistou-se para
trabalhar como professor na alfabetização de jovens e adultos, algo
que surpreendeu a muitos, menos a ele próprio, que, no contato
com os livros e as personagens das histórias que lera, fizera uma
descoberta singela: se ao ler para si próprio era uma espécie de
investimento pessoal, quando lia para os outros estava praticando
um ato de amor.

113
Ler para o outro é um ato de amor

T
ânia, Silvia, Shirley. Tanto faz seus nomes, idades,
ocupações ou os lugares onde vivem. Algumas delas são
profissionais liberais; outras, donas de casa. Há, entre elas,
ainda, algumas que já estão aposentadas. E as que vivem do trabalho
assalariado, com registro em carteira e o dia corrido, mas que
também dão um jeitinho de espremer mais a agenda diária e arrumar
um tempinho para incluir, entre os afazeres, um trabalho voluntário.
Quem sair, por aí, visitando obras sociais, igrejas, hospitais, escolas
e projetos de ONGs verá que há muito mais pessoas do que, em
geral, se imagina – em sua maioria mulheres – dedicando horas do
seu tempo livre para trabalhar de graça por outras pessoas. Elas
buscam alguma oportunidade para fazer o bem ao próximo. Seja por

114
compaixão, fé, militância ou outro qualquer tipo de crença em uma
causa.
É mais frequente encontrar voluntários atuando em projetos sociais
de combate à fome, campanhas do agasalho e de saúde ou atrás de
donativos para menores, deficientes, idosos ou dependentes
químicos. Para praticar a solidariedade, cada um dá o que sabe e o
que pode. Uns oferecem dinheiro, alimentos ou roupas e objetos
que não usam mais. Costureiras, cabelereiros, cozinheiros,
instrutores de informática, pedreiros e médicos, por exemplo,
podem dar parte de seu tempo livre e de suas habilidades.
Escritores, ilustradores, editores e livreiros bem que poderiam
utilizar a sua criatividade e familiaridade com os livros para
engrossar essa cruzada e levar a leitura a mais gente por aí. Não dá
para continuar achando que esse é um problema, exclusivamente,
do governo e que já se paga imposto e coisa e tal. Há muita gente
que já faz algum tipo de ação voluntária nesse sentido, muitos dos
quais são professores e bibliotecários aposentados, mas não só.
Só é preciso ter um mínimo de gosto pela leitura. Há muita gente
por aí – em asilos, creches, hospitais, associações de bairro, escolas
– que daria tudo para ter alguém que lhe conduzisse, com carinho e
segurança, para esse universo paralelo das palavras.
É o que faz, por exemplo, Tânia Alves Afonso. Assim que ouviu
pela primeira vez que poderia praticar o voluntariado doando algo
de que gostasse muito e que não lhe faria falta, ela de pronto pensou:

115
“Por que não doar a própria voz e habilidade de ler e contar histórias
para os outros?”.
Tânia se alistou imediatamente como contadora de histórias
voluntária do HC, o Hospital das Clínicas da Universidade de São
Paulo, onde passou a ir, uma vez por semana, compartilhar, com
outras pessoas, uma das coisas que ela mais gosta de fazer na vida:
ler.
Ela lê e conta histórias para crianças com câncer, como o curumim
Pedro de Oliveira – da tribo dos Xacriabás, de São João das Missões,
no interior de Minas Gerais – que há anos guerreia contra a doença.
Entre uma e outra quimioterapia, essa meninada se deixa embalar
pelas fábulas de Rapunzel, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho
e quem mais vier.
Em outro lugar, as mulheres da Igreja Presbiteriana, capitaneadas
pela médica Silvia Pelegrino, leem para os moradores do Lar dos
Velhos, uma casa que abriga idosos pobres na periferia de Ribeirão
Preto, no interior de São Paulo. Uma vez por semana, donas de casa,
comerciárias e profissionais da saúde param tudo o que estão
fazendo e trocam os compromissos profissionais ou lazer com a
família pelo prazer de ler... para o outro.
— Ler faz bem para a saúde – diagnostica a doutora, que tem
constatado, por sinal, melhoras extraordinárias em seus pacientes
idosos. — São melhoras nítidas, tanto em sua percepção visual

116
como, especialmente, no campo emocional e no neurológico – ela
assegura.
Shirley levou tão a sério a contação de histórias que decidiu se
matricular em um curso de aperfeiçoamento, só para poder
caprichar mais na arte da interpretação e, assim, prender a atenção
dos seus ouvintes e conquistar mais leitores entre os jovens e
adolescentes do Hospital Municipal Santa Lydia.
Gente como Tânia, Silvia, Shirley e tantas outras pessoas voluntárias
que se espalham pelo Brasil afora, talvez nem se dê conta do grande
bem que estão fazendo a essas pessoas e ao País. Com o simples
gesto, que não custa nada, essas mulheres vêm produzindo
transformações, muitas vezes, aparentemente, invisíveis na vida das
pessoas. Se somadas cada uma dessas mudanças interiores, seus
novos olhares e atitudes; essa soma, com certeza, é alta.
Motivadas tão somente pela vontade e a disposição de devolver um
pouco do que já receberam da vida, elas não esperam nada em troca.
Mas, de um jeito ou de outro, isso acaba acontecendo, mesmo que
não percebam. É uma onda poderosa de amor, gratidão e respeito,
que muito pode.
Pois se ler para si mesmo é uma atitude de autoestima e cidadania,
ler para o outro é um ato de amor.

117
Santo Antônio Casamenteiro

A
nita. Era esse o título do primeiro livro que Denise,
ainda menina, ganhou de presente. Era uma história
bonita, farta em ilustrações, publicada pela Disney. Ela
ficou fascinada e se entregou de alma ao pequeno objeto e suas cores
reluzentes.
Nas horas que se seguiram àquele instante de pura magia, não houve
nada que fosse capaz de desviar sua atenção ou extrair da sua
lembrança os personagens e o enredo da história que tanto a
cativara.
O livro fora um presente da tia. Não havia nenhum motivo especial
para isso; ela, simplesmente, resolvera presentear a sobrinha querida

118
com um livro. Podia ter sido uma boneca ou outro brinquedo
qualquer, mas ela escolheu dar um livro.
Essa escolha não só marcou, profundamente, a sua infância como
também ajudou Denise, já moça, a definir seu rumo profissional e a
própria vida futura. Depois daquele dia, Denise nunca mais foi a
mesma. Seu caso de amor com os livros foi algo à primeira vista,
desde o instante em que virou as primeiras páginas de Anita.
Das fábulas, a mineirinha pulou para as aventuras adolescentes e,
daí, para o romance, a poesia e os mais variados gêneros literários.
Parecia abduzida por aquele universo paralelo de magia e
encantamento. Quando chegou a hora de escolher a faculdade, os
livros vieram imediatamente à sua memória e ela optou por fazer
Biblioteconomia, uma forma de estar sempre perto deles.
O primeiro emprego de Denise foi na Universidade Federal de
Minas Gerais, onde estava matriculada, para cuidar dos livros de
Direito. Sua tarefa era ajudar os futuros advogados a encontrar os
livros que buscavam, e não só as obras jurídicas, como também os
livros de literatura, que poderiam ajudá-los a desenvolver uma visão
mais abrangente do mundo e das pessoas com quem teriam que lidar
no futuro.
Sua maior alegria, porém, foi ao entrar pela primeira vez numa
biblioteca pública para trabalhar no atendimento aos leitores. Teve
claro, para si, que não poderia se dar o luxo de atuar como mera
guardadora de livros. Que, ao contrário, teria uma bela missão pela

119
frente: colocar tête-à-tête livros e leitores, e, principalmente, aqueles
que ainda não liam.
Mais da metade de sua vida à frente da Biblioteca Pública JK, no
bairro Fundinho, em Uberlândia, no interior de Minas, Denise de
Carvalho, bibliotecária por convicção, tornou-se uma espécie de
Santo Antônio Casamenteiro de livros e leitores. O que – ela sabe –
não é nada fácil, mas faz com alegria e gosto, e isso faz toda a
diferença.
Para conquistar os futuros leitores, Denise não mede esforços: já
criou um carro-biblioteca, depois uma Kombi-biblioteca e, por fim,
o ônibus-biblioteca, um sucesso danado por lá.
Sua paixão pelos livros é tamanha que ela sofre só de pensar que
terá um dia que parar. Por via das dúvidas, já cuidou de apresentar
Ana Luiza, a filha, aos livros e a sua biblioteca. Parece que deu certo:
assim como a mãe, a menina tem verdadeira paixão pela leitura!
Mal completou dez anos de idade, Ana Luiza tem planos para o
futuro. Diz que vai substituir a mãe e, assim, dar vida a uma nova
geração de bibliotecárias compromissadas em levar adiante essa
obra de desenvolver novos leitores. É uma história de mãe para filha
que, pelo visto, parece que não vai acabar tão cedo.

120
O pescador de leitores

O dia ainda não amanheceu quando Seu Joaquim,


mineiro como o da outra história, experiente com as
rédeas, manobra com destreza a sua carroça. A centenas
de quilômetros da capital e da região metropolitana do seu estado,
Minas Gerais, ele estaciona o carro de tração animal diante de uma
casa sem fazer barulho. Ainda faz escuro, e barulho, como ensinava
o poeta Drummond, de nada resolve.
O ritual tem início pontualmente às cinco da manhã, hora de um
silêncio absoluto por aquelas ruas. Há anos é a mesma coisa, o que
o homem faz com fervor quase religioso e uma disciplina de quartel.
Com cara de quem acabou de acordar, o dono da casa abre,
sonolento, a porta. Em vez de uma bronca, esse visitante do meio

121
da noite é, longe disso, recebido com um largo sorriso. O morador
tão somente acena, passa uma das mãos para ajeitar a cabeleira vasta
e espantar os últimos resquícios do sono. Em minutos, está
ajudando o homem da carroça a ajeitar, pacientemente, os sete
caixotes e as duas estantes sobre o tablado.
A condução toma o rumo do estádio do glorioso Pirapora Futebol
Clube, mas passa indiferente pelo campo de futebol que, a essa hora,
permanece às escuras.
Pa-co-plá. Pa-co-plá. Pa-co-plá.
O ruído das patas do animal contra o asfalto é o único som que se
ouve naquela hora por ali, mesmo a quarteirões de distância. Dali a
pouco, o homem pensa, todo aquele silêncio deixará de existir e dará
lugar à balbúrdia habitual de todo domingo de manhã.
O carroceiro sabe que a corrida está prestes a terminar quando avista
o bando ruidoso que descarrega e monta suas tralhas bem no meio
da rua. Sem se apressar, o homem da carroça para o veículo em
plena via pública e apeia, indiferente ao que algum vizinho possa
dizer ou se um guarda surgirá, do nada, com um talonário de multa
na mão naquela inusitada hora, já não se sabe se do dia ou se da
noite
Ainda faz escuro quando homens e mulheres ocupam cada metro
quadrado, antes vazio, com suas barracas e apetrechos. Parece uma
operação de guerra. De repente, sobre uma banca coberta por um
toldo puído, alguns homens ajeitam, com cuidado, dúzias de

122
laranjas. Sobre uma outra, tomates, frutas frescas e maços de
verduras de folha.
Não demora e a misteriosa carga, zelosamente, transportada no
escuro pelo carroceiro se revelará às primeiras luzes do dia.
Leonardo, o dono da casa, agora, está bem acordado e radiante. Ele
saca duas cédulas de dez reais da carteira e entrega ao carroceiro,
régio pagamento acertado pelo carreto contratado para todas as
semanas do ano. “Outro domingo”, o rapaz vibra em seu íntimo.
Este é o seu dia preferido e ele tem motivos de sobra para isso.
Nos dias de semana, Leonardo é pescador profissional dos bons.
Varre as águas do Velho Chico, no Norte de Minas, e só volta para
casa no fim da tarde, quando vê que o pescado é suficiente para
encher as geladeiras e atender à freguesia fixa, que nos dias úteis
acorre a sua casa e no domingo vai comprar na feira. Boa parte da
sua vida, ele passou sobre as águas do Rio São Francisco. Por isso,
só o conhecem, por ali, como Léo do Peixe.
Mas há outra razão para Léo gostar dos domingos. É que nesses
dias, depois que monta a peixaria e ajuda a esposa a preparar a banca
de roupas infantis, o pescador repete as palavras mágicas de sempre,
que funcionam como uma espécie de senha para que as sete
misteriosas caixas sejam finalmente abertas:
— Agora, os livros! – grita, com vontade.
Do interior dos caixotes, é tirado algo que, a bem da verdade, não
combina muito com os hortifrutigranjeiros e outros artigos que

123
estarão em exposição para a freguesia, que nunca falha. São livros,
de diferentes autores e gêneros, que, nas horas seguintes, serão
ofertados aos transeuntes que queiram saber deles.
Não é cobrado nada por isso e quem quiser levar emprestado poderá
devolvê-lo no domingo seguinte, na própria feira. A cada semana
uma centena de fiéis leitores comparecem à inusitada barraca atrás
de livros. Muitos se habituaram a frequentar a feira só por causa
deles, já que nesse dia, quando as pessoas têm mais tempo, a
biblioteca pública não funciona.
No Clube de Leitura de Pirapora, cidade que fica no Alto do Rio
São Francisco, no interior de Minas Gerais, não há qualquer
burocracia. Só que, na feira, em vez de legumes, verduras e frutas, o
freguês enche a sacola de outro tipo alimento, que é o alimento da
alma.
Uns preferem ler no próprio local. Lobato, Machado, Eça, Coelho...
Para alguns, nem importa quem são os autores dos títulos: vão até
lá pelo simples prazer de ter um livro nas mãos.
Léo teve a ideia pelo medo que tinha de, por passar muito tempo
fora de casa em função das pescarias, ver os filhos se distanciarem
dos livros. Deu certo. Além de primeiros usuários do Clube, eles
passaram a ajudar o pai na pequena biblioteca comunitária. Os filhos
dos outros feirantes logo aderiram e, em pouco tempo, já passavam
de 400 os sócios do clube. Léo precisou recrutar ajudantes extras
para dar conta da demanda.

124
A ideia se espalhou por outros cantos da cidade e Léo está, sempre,
disponível para criar outros clubes de leitura aonde reclamarem sua
presença. Quando alguém quer saber por que ele faz isso, Leonardo
da Piedade Diniz Filho, o Léo do Peixe, um pescador de leitores,
responde de pronto:
— É porque quem não lê se torna um cidadão de segunda classe...
É preciso ler livros para ser alguém na vida.

125
Uma biblioteca na roça

A
costumada que sempre foi aos hábitos, tipicamente,
urbanos da cidade grande, jamais ocorreu a Simone que a
vida dela e da família estaria, em um futuro próximo, tão
vinculada à terra e à tranquilidade do campo. Ou que algumas
palavras, impressas num livreto, mudariam de forma tão radical sua
vida.
Simone cursou o magistério e iniciou sua vida profissional como
professora na cidade de São Paulo.
A bem da verdade, a palavra escrita sempre esteve, de alguma forma,
presente no dia a dia de Simone. Nos anos em que atuou como
professora, já via de perto as transformações que a leitura promove
no cotidiano das pessoas. Mas foi só quando ela e o marido tomaram

126
a decisão de trocar a metrópole pela pequena roça no interior
paulista é que ela pôde sentir isso na própria pele.
Simone e Wilson, o marido, se arriscaram, no início, a criar umas
vacas; não deu certo. Na sequência, tiveram a ideia de plantar
eucaliptos – também não era aquilo. No limite das ideias e das
forças, cogitaram vender a propriedade de um único alqueire, que
àquela altura já se consumia em dívidas. Porém, os compradores,
simplesmente, não apareceram.
Como recurso derradeiro para tentar salvar o único bem da família
da falência quase certa, a professora resolveu buscar ajuda nos livros.
Saiu em busca de literatura técnica sobre agricultura familiar e de
alguma ideia que pudesse dar uma boa ocupação àquelas terras no
meio do mato, na zona rural de Santa Rita D´Oeste.
O casal se deteve numa publicação farta em textos e ilustrações que
explicava como ganhar o sustento com uma criação comercial de
peixes. No tanque construído nas terras do pequeno sítio,
despejaram pacus e tilápias. Buscaram mais conhecimento nos
livros, jornais e revistas e o pequeno negócio passou a ir de vento
em popa.
A escolha mudaria definitivamente a vida dos Vizenzi. A família
passou a fornecer filés de peixe congelados e abriram novos tanques
para aumentar os cardumes. Foi no meio de outra leitura que eles
tiveram a ideia de transformar a propriedade, batizada de Chácara

127
Nossa Senhora Aparecida, em um modesto circuito de educação
ambiental, com direito a palestras e passeios ecológicos.
Simone agora quer levar os livros aos outros moradores de
Aparecida do Bonito, o povoado onde ela e Wilson vivem com
Matheus, o filho de treze anos, e um dos mais empolgados com a
ideia. Abriu, para isso, uma biblioteca rural que já abastece de
conhecimento os 90 moradores da comunidade. Os frequentadores
também têm aulas sobre computação e aprendem a usar a internet,
além de, naturalmente, poder levar livros emprestados para ler em
casa.
Pequenas atitudes como essa da família Vizenzi podem ter um poder
incrível de transformação.

128
O semeador do Seridó

U ma vida de paixão, uma vontade incrível de vencer e...


livros, muitos deles. A cena inicial se dá num vilarejo
escondido no interior do Nordeste do País, onde viveu
uma infância miserável e de futuro incerto. Com uma trama
entrecortada por histórias de superação e glórias, como também pela
improvável amizade com alguns dos mais importantes intelectuais
do Brasil contemporâneo, esse roteiro ainda tem outros ingredientes
para uma boa fita de cinema.
O protagonista da trama viveu episódios épicos do século XX,
como a Revolta dos Marinheiros. Percorreu lugares e situações
salpicadas por aventuras até chegar à cidade grande. Adaptou-se,
rapidamente, ao novo ambiente, estudou, criou uma empresa

129
respeitada, mas sem abandonar, em um só momento, a cultura e os
costumes da sua terra natal.
A saga desse Zé, um brasileiro igualzinho a tantos outros que
existem por aí, até que podia ser apenas mais uma boa história dos
livros ou das telonas, tamanha a fartura e riqueza de seus
ingredientes. Mas, não. Esta é a história de uma personagem de
carne e osso, nascido e batizado de José, numa currutela chamada
Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte.
Foi lá que tudo começou e de onde ele saiu, ainda moço, para virar
doutor na cidade grande. Zé começou a trabalhar, ainda criança, na
roça. Primeiro, no cultivo de algodão; depois, como garimpeiro; e
marinheiro, ocasião em que participou da famosa revolta. Cassado
e expulso da Marinha, ele se mudou para São Paulo, onde se
empregou como lavador de carros.
Foi trabalhando em um estacionamento vizinho da PUC, a
Pontifícia Universidade Católica, ativo centro da resistência política
contra a ditadura militar, que ele conheceu e passou a se relacionar
com intelectuais de esquerda, como o educador Paulo Freire. Os
novos amigos, instigados pelo tirocínio e a simpatia do lavador de
carros, passaram a indicar livros para ele ler.
Zé acabou prestando vestibular na PUC e se meteu nos estudos.
Para pagar a faculdade, começou a vender livros para os colegas.
Como o negócio indo bem, animou-se a abrir uma livraria nas
imediações da universidade. Naqueles tempos bicudos de censura e

130
perseguição, o ex-marinheiro, às escondidas, conseguia, para os
estudantes, os livros proibidos pelos militares. Depois de algum
tempo, viu que também dava conta de publicar livros como aqueles.
O resultado não tardou a acontecer. Tempos depois, Seu José se
tornaria um importante livreiro e editor. Além do amor pelos livros
e pelo saber, sempre teve um jeito muito especial para lidar com as
coisas. Numa ocasião em que ladrões assaltaram sua livraria, ele se
dirigiu, serenamente, até a seção de livros infantis e encheu algumas
sacolas, que entregou para os assaltantes. Que eles levassem para os
filhos, ele explicou com bondade, pois, assim, eles talvez tivessem
mais oportunidades na vida e, dessa forma, não caíssem no mundo
do crime. Este é Seu José, hoje em dia mais conhecido como José
Cortez Xavier, um aclamado ícone do universo das letras no Brasil.
Agora, no entanto, o semeador de livros do Seridó quer passar uns
tempos longe da livraria e da editora que tornaram seu sobrenome
uma marca de sucesso e uma referência no mundo dos livros. Não
que tenha desistido. É que ele quer aproveitar o tempo para
compartilhar com outras pessoas a sua própria história para tentar
convencê-las do quanto os livros ainda podem fazer por elas.
Seu Cortez tem ido a escolas, presídios, associações de bairro e onde
se dispuserem a ouvi-lo. Do alto de uma sabedoria construída à base
de livros, ele diz que, não importa aonde se quer chegar, só se precisa
de duas coisas:

131
— Um livro nas mãos, que é para servir de base para conquistar o
conhecimento; e outro na bolsa, que é para inspirar os sonhos e
ajudar a realizar os projetos de vida.
Esse Zé sabe do que diz.

132
Operário em construção

S aul dos Reis, 49 anos, é operário. Estudou até o antigo


colegial e, há tempos, trabalha como caldeireiro numa fábrica
da cidade onde mora, no interior de São Paulo. Seu dia a dia
é corrido e não sobra tempo para muita coisa fora dali.
Acontece que Saul adora ler. Por sorte, foi trabalhar numa fábrica
onde os donos, que também apreciam a leitura, resolveram montar
uma pequena biblioteca para os funcionários. De uma hora para
outra, Saul se descobriu um leitor e passou a ser um dos mais
assíduos frequentadores do espaço.
O operário lê cinco livros por mês. Compare: o que ele lê em um
único mês, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, os

133
brasileiros levam, em geral, um ano inteiro, e, ainda assim, incluindo
os livros escolares.
Como será que esse trabalhador consegue fazer isso? Saul conta que
sempre dá um jeito. É na hora do almoço, na hora do jantar, antes
de dormir ou no transporte público. Ele sempre arruma um tempo,
entre os diversos afazeres diários, para devorar mais algumas
páginas. Quando ele encontra um livro que não consegue parar de
ler, parece mesmo um tormento, ele diz.
Seu preferido é um livro de poemas de Cecília Meirelles, As mais
belas poesias. Em casa, Saul costuma compartilhar com o pai e os
irmãos as histórias que aprende nos livros. No início, era o moço
que precisava insistir com os parentes. Hoje em dia, a coisa se
inverteu e os familiares chegam a protestar quando ele precisa, por
alguma razão, mudar o que já entrou na rotina da casa.
Os livros passaram a fazer parte da vida de Saul. Aonde ele vai
sempre carrega um deles junto. O operário diz que os livros são seus
grandes companheiros da vida inteira e, em geral, recorre a algum
em especial para tentar compreendê-la melhor. Ao mesmo tempo
em que a literatura vai ampliando seu universo cultural, ele diz, os
livros, de forma geral, o têm ajudado a melhorar seu próprio modo
de ser e de perceber as coisas.
Por isso, Saul dos Reis está convencido de que os livros vêm
fazendo dele uma pessoa melhor. Acabam até ajudando no seu
relacionamento com os colegas de trabalho, familiares e as pessoas

134
que encontra no dia a dia. Quando está lendo, diz ele, não sobra
espaço para mágoas, ressentimentos, tristezas ou inimizades.
O leitor de Cecília Meireles anda, agora, atrás de desenvolver sua
própria autonomia poética:
— Ler me faz entender/O corpo é só um sopro/O espírito é
eterno/Como a mãe Terra.

135
Mães que amam demais

H á, por todos os cantos do país, e, felizmente, cada


vez mais, boas histórias de leitores que, graças aos livros,
deram um outro rumo em suas vidas. Seja porque
ampliaram seu universo cultural, seja porque na esteira das
experiências alheias, colhidas no simples contato com autores e seus
personagens, passaram a ler e a ver o mundo de outras formas, e,
então, a agir com mais autonomia e criatividade.
É um leitor, aqui, que se identifica com um personagem e descobre
talentos e virtudes que ele próprio desconhecia. Ou outro, acolá,
que, após ler um livro e o confrontar com sua própria história de
vida, reestrutura, sem perceber, as suas dinâmicas pessoais e a forma
como que compreende as coisas; e, em função disso, toma decisões

136
e escolhe novos caminhos que farão que o seu destino já não seja o
mesmo.
Enfim, boas histórias de leitores há por toda parte e para todos os
gostos. Dizem respeito a transformações de ordem pessoal ou
profissional, que podem manifestar-se na forma de pequenas e
íntimas modificações que levam a uma nova visão de mundo e a
pequenas atitudes e formas de reagir nas diversas situações do
cotidiano.
Por trás de muitas histórias dessas personagens de carne e osso que
seguem produzindo incríveis exemplos de transformação, há uma
figura que nem sempre aparece: a mãe. Aliás, as mães, em certas
regiões do País, chegam a influir até mais do que os professores no
desenvolvimento do gosto de ler da meninada. Algumas sequer
sabem ler e escrever e fazem isso por pura intuição. Outras fazem
de tudo para que seus miúdos não tenham negado o direito de
acesso à literatura – o que mestre Antônio Cândido defende que seja
incluído entre os direitos inalienáveis do homem.
Ao ler uma história para o filho na hora de dormir, presentear com
um livro ou pôr a criança no colo enquanto conta uma história, essas
mães vão estabelecendo uma poderosa associação entre leitura e
uma amorosa sensação de bem-estar emocional. É algo que durará
para sempre na memória afetiva e, certamente, contribui para se
formar adultos que continuem a ler e a gostar de fazer isso.

137
Joana Jacinto, que trabalha como copeira e recepcionista, e vive no
interior de Goiás, é esse exemplo de mãe. Ela sabia que não
conseguiria oferecer o luxo e conforto que gostaria de dar, se
pudesse, aos filhos. Então, tratou de cuidar, desde que as crianças
eram pequenas, para que os livros, ao menos, jamais faltassem em
suas vidas. Sempre que podia, ela ia com a filharada a alguma livraria
de Brasília, onde trabalha, para que escolhessem o livro que
quisessem.
Para que as crianças pudessem ter um livro nas mãos, a mãe chegava
a pedir doações às pessoas. O resultado não custou a chegar. João
Felipe, um dos filhos, aprendeu a ler aos cinco anos de idade, com
a ajuda da irmã mais velha. Sempre que terminava de ler um livro,
fazia questão de emprestar aos amigos, cujas famílias, assim como a
sua, também tinham dificuldades para comprar livros. É assim
mesmo que metade dos brasileiros que leem chega a um livro: pelo
boca a boca e emprestando entre si.
João cresceu com a certeza de que estaria nos livros a chave para sua
realização pessoal e profissional. Estimulado pela mãe e apoiado por
uma bolsa de estudo, além de muita garra pessoal, ele foi admitido
na Universidade Católica de Taguatinga, no Distrito Federal, e já
está no quinto semestre do curso de Relações Internacionais. Já fez
estágios na Esplanada dos Ministérios e agora está atrás de
aprimorar o inglês, aprendido na escola pública, para poder galgar
outros degraus.

138
De passo em passo, João acredita que, de fato, está de nas páginas
dos livros que lê a sua chance para abrir novos caminhos na vida e
conquistar o admirável mundo novo que busca para si e para sua
família.
Não é tarefa simples, ele sabe. Mas João Felipe também sabe que,
nesta era do conhecimento, não há sonho que não possa se tornar
se real, principalmente, quando se é um bom leitor de livros.

139
Entre pneus e livros

-A
onde já se viu misturar livros, pneus e esta
sujeiraiada toda?! – o homem se desconcertou.
Do alto de seus 40 anos de ofício, Seu Joaquim,
escolado na vida, deu seu veredito:
— Isso não vai dar certo...
Afinal, seria como tentar misturar água e óleo.
Seu Joaquim Borracheiro, profissional tarimbado e com tino,
reconhecido por todos, para atuar no ramo, só não contava com
uma coisa: a teimosia do filho, tão cabeça dura quanto o pai. Com
isso e coração mole como ele só, no fim, acabou fazendo vistas
grossas para aquela maluquice toda.

140
E, quando foi se dar conta, semanas depois, era tarde demais: lá
estava ela, com sua pobreza franciscana, porém com dignidade e
altivez. Ainda assim, era como um peixe fora d’água, o homem
notou, contrariado. Era uma estante só e até simplória, com setenta
e tantos exemplares, Seu Joaquim pai calculou. Os livros estavam
tão arrumadinhos que, por instantes, o pai se permitiu a alguns
devaneios: “Não é que seu menino levava jeito pra coisa? Com mais
estudo, bem que podia até trabalhar numa loja de livros ou mesmo
numa biblioteca”.
Seu Joaquim não estava enganado.
Ao optar por auxiliar o pai no pequeno negócio da família, em
Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas
Gerais, Marcos abriu mão de muitas coisas, como tentar um
trabalho menos pesado ou uma profissão que desse mais dinheiro,
ou mesmo maior projeção social. Só não abriu mão de uma coisa:
levar, junto com ele, para seu local de trabalho, os livros que faziam
parte de sua vida de criança e de adolescente.
Assim ele fez.
Nas horas de folga, entre um e outro pneu furado, Marcos
aproveitava para ler. Mas o que ele desejava mesmo era tentar
convencer a vizinhança sobre o verdadeiro tesouro que aqueles
livros, agora tão perto deles, significavam. Algo dizia a ele que os
moradores do entorno, principalmente as crianças e os jovens das
escolas dos arredores, só teriam a ganhar com isso.

141
A isca para atrair as crianças que vivem em torno da Praça Paula de
Souza Lima, no bairro de Caieira, foi a coleção de gibis de Marcos.
A notícia correu rápido e, daí a pouco, os adolescentes também já
faziam fila. Em seguida, apareceram os mais velhos e o acervo, que
a essa altura já chegava a 600 exemplares, ficou pequeno demais.
Mas não tardou para atingir a marca dos três mil livros.
A “Borrachoteca”, mistura de borracharia com biblioteca
comunitária, tornou-se um sucesso. De público e de crítica.
No início, os fregueses se espantavam diante da novidade. Mas
acabaram se acostumando e aprovando. Enquanto aguardavam o
remendo do pneu furado, muitos aproveitavam para pôr a leitura
em dia. Para esses, mergulhados na correria do dia a dia, aquele
reencontro inesperado com os livros se constituía numa rara ocasião
para retomar o bom e velho prazer esquecido da leitura, fosse pelos
afazeres do dia a dia, pelo cansaço ou simplesmente por não ter, ao
alcance das mãos, uma obra que despertasse o desejo de ler.
Aos poucos, os livros também passaram a provocar pequenas
modificações na rotina diária dos moradores das duas margens do
Rio das Velhas, que atravessa o bairro Caieira. Hoje em dia, a
meninada de lá fala com uma intimidade instigante sobre os poetas
Thiago de Mello e Carlos Drummond de Andrade e de autores
clássicos que, até então, não passavam de nomes de ruas ou de
ilustres desconhecidos por aquelas paragens.

142
Um bom exemplo das transformações em curso, nesse pequeno
torrão de Sabará, é o próprio Marcos. Sua história acabou indo parar
nos jornais e ele ganhou uma bolsa para fazer faculdade. Escolheu,
de cara, o curso de Letras, interessado que estava em saber mais
sobre literatura e os escritores que se aninhavam em algumas
prateleiras da sua borracharia-biblioteca.
Embora não cogite abandonar a profissão e o negócio construído
pelo pai, Marcos diz que pretende trabalhar, nas horas de folga,
como professor. Ele está convencido de que tem uma missão nesta
vida: levar mais gente para perto dos livros.
A ONG criada por Marcos para ajudar nesta tarefa, o Instituto
Cultural Aníbal Machado, já abriu outras bibliotecas na cidade –
uma delas funciona no presídio local. Por que ele faz isso?
Marcos Túlio Damascena, o borracheiro dos livros de Sabará, tem a
resposta na ponta da língua:
— Ler já é, por si só, uma fonte de prazer, mas a leitura também
instrui. Sem ler, não se é ninguém nesta vida.

143
A encantadora de leitores

A
ntônio levava uma vida de menino de cidade
pequena do interior. Estudava na mesma escola pública
que as demais crianças do lugar e ainda não tinha a menor
ideia do que faria quando crescesse.
Como era um menino esperto, talvez conseguisse emprego num
escritório, ou talvez se tornasse operário em uma das fábricas ou
usinas de açúcar da região. Eram esses os caminhos mais prováveis
e naturais para a gente do lugar.
Eram todos, naturalmente, empregos dignos e almejados pelos
jovens da pequena Matão, no interior de São Paulo, fundada há
cerca de meio século. Só que Antônio queria mais. Ele sonhava com
algo diferente para ocupar os seus dias de gente grande.

144
Tudo começou a mudar no segundo ano do Grupo Escolar. Foi
justo no dia em que aquele professor estranho entrou na sala de aula
com um sorriso enigmático no rosto.
Um ano antes, Antônio já se encantara com a professorinha do
Primário, que tinha o costume de cantarolar as palavras e frases da
cartilha, no afã de fazer seus alunos decorar a lição.
Dona Albina tinha um plano infalível para despertar neles o gosto
pela leitura. Todo o final do ano letivo, a professorinha preparava a
surpresa. Ela comprava, com dinheiro do próprio salário, um livro
para cada um deles e presenteava os alunos no último dia de aula.
Não tinha erro. Antônio também ganhara o seu e ficara fascinado.
Desde então, o menino parecia outro. Já se interessava mais pela
leitura e não saía da biblioteca. E escrevia compulsivamente.
Mas seu destino com as letras seria mesmo selado no ano letivo
seguinte, e já no primeiro dia de aula. Como o novo professor tinha
a fama de ser um provocador nato, os alunos tremeram quando seu
corpo passou agigantado pela porta da classe e ele, sem mais nem
menos, sacou do bolso da calça o relógio. Mirou nos olhos
assustados dos alunos temerosos diante do que viria pela frente e,
num gesto tão largo quanto teatral, disparou, para o desespero final
da plateia nervosa:
— Agora eu vou esquecer o relógio... Quero que alguém venha aqui
na frente e diga uma coisa qualquer: pode declamar um poema,
contar uma história, seja lá o que for!

145
Antônio nem olhou de lado. Ao cabo de longos segundos, ele
respirou fundo, encheu o peito de ar e se levantou. Tomou impulso
e coragem e foi. Caminhou tímida e lentamente até a frente da classe
e se plantou ao lado da mesa do professor. A poucos passos do
quadro negro, colegas e o professor podiam contemplar seu rosto
pálido e a respiração ofegante.
O menino percorreu, em fração de segundos, sua memória afetiva
e, de lá, voltou com a singela história da galinha dos ovos de ouro,
a mesma contida no livro que ganhara de presente da professorinha
do primeiro ano, que ele lera e relera tantas vezes.
Diante da plateia assustada, Antônio venceu o medo inicial que tinha
de se expor ao ridículo diante dos colegas e contou a historieta que
guardara na memória. As palavras vinham magicamente a sua boca
e, após segundos terrivelmente longos de silêncio geral, ele ouviu,
finalmente, os aplausos dos colegas. Foi sua consagração. Antônio
sorriu aliviado e, desde então, desembestou a falar em público.
Nascia ali, na magia do instante, o futuro e eloquente professor.
Depois de escarafunchar entre as narrativas literárias, Antônio se
deixou cair de amores pela língua pátria. Aos poucos, faturava uns
trocados dando aulas particulares para candidatos do curso de
Admissão ao Ginásio.
Hoje professor de sucesso de cursinhos preparatórios e
apresentador no rádio e na televisão, Antônio Cassoni diz que os
bons mestres são aqueles que têm a magia e jeito para formar leitores

146
que, mais tarde, vão gostar de ler pela vida toda. E com um prazer
sem fim.

147
O pedreiro e os livros

N ascido em Aquidabã, no sertão de Sergipe, Evando


cresceu numa das regiões mais pobres do Brasil,
desprovida de recursos e de perspectivas de futuro
diferente. Cedo, aprendeu aquilo que Euclides da Cunha, o grande
escritor de Os Sertões, só cravaria, na idade madura, em sua obra
prima: “que o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E, ao contrário
de tantas outras crianças nascidas por lá, que morrem antes de
completar seu primeiro ano de vida, ele teimou.
Evando não só sobreviveu e seguiu adiante, como enfiou na cabeça
que faria o que fosse necessário para que as coisas ficassem
diferentes. Foi com essa ideia na cabeça que, um dia e algumas peças
de roupa debaixo do braço, tomou uma condução na direção do Sul,

148
sobre o qual se contavam maravilhas na sua terra. Deixou para trás
um rastro de dramas, misérias e fome, um enredo comum e triste
do sertão.
Evando desembarcou no Rio de Janeiro com uma ideia fixa: buscar,
a qualquer modo, uma vida melhor para ele e os seus. Só que nada
do que ele tentava dava certo, não encontrou a prosperidade que
imaginava abundar nesse canto do país. Demorou, mas o homem
percebeu: à beira de completar trinta anos de idade, não sabia ler e
escrever. Para Evando, era essa a explicação do que estava
atravancando a sua vida por mais que se esforçasse e trabalhasse
duro.
Certo dia, um colega do canteiro de obras de urbanização da Favela
da Maré, onde trabalhava como servente, convenceu o sergipano a
estudar. Ele jamais conseguiria mudar de vida, alertou o amigo, se
não fosse para a escola a fim de se alfabetizar e aprender mais coisas.
Ter que frequentar os bancos escolares àquela altura da vida, dizia
para si mesmo, era algo custoso demais para cabras como ele, mais
talhados para a vida bruta e pesada. Mas nem por isso Evando
desistiu. Matriculou-se na alfabetização de jovens e adultos e foi,
mais uma vez, à luta.
Foi na escola que ouviu pela primeira vez alguém dizer o quanto os
livros podiam ser preciosos na vida de pessoas como ele, e que
podiam tanto ajudar a melhorar seu vocabulário como o próprio
jeito de encarar a vida e, assim, ajudá-lo a se tornar uma pessoa

149
melhor. Evando não deu muita bola, mas aquilo ficaria martelando
em sua cabeça por algum tempo.
O destino resolveu, então, ser mais explícito e colocou, literalmente,
no meio do seu caminho algo que mudaria a sua vida para sempre.
Afinal, se Maomé não foi à montanha, como diz o dito popular, a
montanha acabou indo até Maomé.
Tudo se deu no dia em que o rapaz andava, distraído, pela cidade e
deu de topo com uma lata de lixo. Ela estava repleta de... livros.
Evando, que ouvira na escola sobre o poder que os livros tinham
para operar pequenos milagres no cotidiano das pessoas, olhou,
entre surpreso e estarrecido, para os exemplares que, com o impacto
do tropeção, haviam se espalhado pela calçada.
O que fazer com aqueles livros cujo destino seria, certamente, ir
parar em algum lixão?
Pelo sim, pelo não, Evando apanhou a pequena coleção de livros
que estavam sendo descartados pelo seu dono. Um deles era de
autoria de um conterrâneo seu, Tobias Barreto, autor de clássicos
fundamentais para a literatura brasileira. Evando ficou orgulhoso
quando soube de que se tratava de um sergipano famoso. Foi atrás
de outros livros dele e de outros autores, e parecia mesmo obcecado
pelas letras, como se, a partir daquela data, simplesmente, não
conseguisse respirar sem literatura.
Na verdade, não acontecera nada capaz de provocar diferenças mais
óbvias na vida do rapaz. Mas, por onde quer que olhasse, parecia

150
que a sua vida estava um pouco melhor. A primeira coisa que notou
é que sabia muitas palavras novas. E, com o repertório ampliado,
sentia uma sensação de como se as ideias formigassem em seu
cérebro.
Os seus interlocutores, logo, percebiam que estavam diante de um
sujeito que sabia de muitas coisas e sempre tinha algo interessante
para puxar uma boa conversa. Em vez dos bicos esporádicos com
os quais sobrevivia, Evando passou a ter um emprego fixo e, logo
depois, foi promovido a pedreiro. Aquilo já era uma bela ascensão
em sua vida profissional. Sua fama de cabra sabido corria de boca
em boca e só fazia crescer a freguesia interessada em sua mão de
obra.
O homem, agora, tinha mais facilidade para compreender as
demandas da clientela e, como articulava bem as próprias ideias,
também se comunicava melhor. Ficara mais criativo para enfrentar
as dificuldades do dia a dia.
O salário melhorou e Evando passou a fazer novos planos para o
futuro. Como também tinha ficado mais falante e desinibido,
arrumou uma namorada e, daí a pouco, constituiu família. Pouco a
pouco, Evando ia se aprumando na vida e cimentando, com suas
mãos e a pá de oficial pedreiro, o seu próprio destino.
Voltou aos livros e, lá, encontrou respostas para suas dúvidas
existenciais e aos questionamentos de ordem espiritual que há

151
tempos se fazia. Enfim, por qualquer ângulo que mirasse, Evando
notava transformações na sua vida pessoal e profissional.
Hoje em dia, Evando dos Santos, pedreiro dos bons, comanda uma
biblioteca comunitária no quintal de sua casa, na Vila da Penha,
subúrbio do Rio, que ele iniciou com aqueles primeiros cinco livros
encontrados no lixo. A obra foi projetada pelo arquiteto Oscar
Niemayer, que se encantou com a história admirável do construtor
de casas e, sobretudo, de leitores.
A qualquer hora do dia ou da noite, Evando está lá para atender à
porta e emprestar livros de graça para a vizinhança. Livros que ele
juntou a partir de doações e já fez chegar a vários estados do
Nordeste, a começar pelo seu Sergipe.
Abnegado e incansável quando a tarefa é conquistar novos leitores,
Evando nunca sai de casa sem dois ou três exemplares debaixo do
braço. Não importa aonde vai, ele trata logo de puxar conversa e
direcioná-la para um dos temas tratados em um dos livros que
carrega. Se o interlocutor se mostra interessado, ele entrega o
exemplar para o desconhecido – quem sabe um novo leitor em
potencial que a vida colocou em seu caminho? Não sem antes
repetir a mesma ladainha de sempre:
— Se gostar passe à frente a um amigo; e se não gostar, dê para um
inimigo.
Evando dos Santos, o pedreiro dos livros, tem feito a sua parte. Sabe
que sua missão é ajudar a semear livros à mão cheia para outros

152
Evandos como ele, que se amontoam pelo país afora. Está
convencido de que – da mesma forma que aconteceu com ele,
supostamente por acaso – pode estar dentro de um desses livros
alguma informação, dica ou, então, só uma boa história, mas que
certamente vai mexer com a emoção ou, quem sabe, a vida de quem
o ler.

153
João que virou juiz

J oão nasceu numa família pobre. O pai e a mãe não sabiam


ler e escrever, davam duro, de sol a sol, para não deixar faltar a
comida na mesa. A família vivia num casebre simples, bem
parecido com as favelas de hoje em dia, nem escritura do imóvel eles
possuíam.
Ao completar sete anos, idade de ir para a escola, João foi trabalhar
na roça com os pais. O menino se virava como podia: foi vendedor
de refresco, catou papelão nas ruas, oferecia banana nas casas da
redondeza. Quando cresceu, foi trabalhar como feirante. Até que,
um dia, os livros entraram na vida dele.
Desde então, João passou a ler e a escrever sem parar. Aos desesseis
anos, publicou o seu primeiro livro. Antes, sempre estudando em

154
escola pública, João descobriria os clássicos. Leu Dostoievski ainda
jovem e se abriu para que autores dos mais variados gêneros fossem,
um a um, entrando em sua vida.
Quando foi se dar conta, já havia entrado para a Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo, no Largo de São Francisco,
a mais celebrada do país. Cresceu, virou moço e não parou de ler. E
tampouco de evoluir, como pessoa ou na carreira profissional que
resolveu abraçar.
Hoje em dia João é juiz de Direito. Dos bons. Publicou outros livros
com os poemas que vem escrevendo pela vida afora. Também é
autor de livros jurídicos, que é sua especialidade. Embora os
compromissos e as tarefas da vida profissional e social não parem
de se avolumar, ele continua arrumando um tempo para ler.
Dizem que, por onde ele passa, costuma fazer pequenas revoluções.
Nas varas judiciais onde atuou em Ribeirão Preto, interior de São
Paulo, por exemplo, João – ou melhor, Doutor João Gandini, como
passou a ser conhecido e ganhou a admiração de ricos e pobres –
tomou inúmeras medidas que vêm ajudando a Justiça paulista a
operar melhor. Um de seus projetos de moradia para a população
de baixa renda ganhou prêmios e notoriedade nacional.
Poeta e juiz, João Gandini é um caso singular do extraordinário
poder de transformação dos livros.

155
Histórias que acolhem

N os corredores do Hospital das Clínicas, na


Universidade de São Paulo, a cena já não causa
estranheza. De uma das longas alas e de paredes claras,
em meio a enfermeiros, médicos e familiares de pacientes internados
que vão de um lugar a outro, a trupe surge do nada, como num passe
de mágica. Em questão de segundos, entra, sem avisar, em um dos
quartos do pavilhão e assume, dali em diante, o comando do espaço.
Eles andam em bando e, por outras vezes, sozinhos. A única regra
fixa nesse ramo – no qual ninguém recebe dinheiro algum e, ainda
por cima, precisa ralar e suar muito a camisa, ou o jaleco, para se
estabelecer com relativo sucesso – é que não há lugar para a tristeza
e o desânimo. Ao contrário, o insumo básico para o trabalho de

156
contar histórias a doentes internados em hospitais é, basicamente,
alegria e disposição. E, naturalmente, livros e boas histórias.
Na manhã de hoje, por exemplo, uma mulher entrou de supetão em
um dos quartos da ala infantil e, sem cerimônia, sacou da bolsa um
livro de capa colorida para ler aos pequenos pacientes. Os dias de
ouvir histórias são ocasiões especiais para eles, crianças,
adolescentes e jovens que podem permanecer ali, enquanto recebem
o tratamento, durante semanas ou meses.
Para os mais novos, singelos contos de fadas são, praticamente,
obrigatórios no cardápio de histórias dos contadores. Entre os mais
velhos, os livros de mistério e as eletrizantes aventuras, como as do
bruxinho Harry Potter, são sucesso garantido. Por vezes, o que dá
certo mesmo são as histórias inventadas na hora, na base do
improviso e da criatividade do contador, que precisa ter a
sensibilidade para perceber o que cai bem em cada situação.
O efeito é garantido. Além do interesse que, em geral, as leituras
despertam nos pacientes-leitores, sempre algum deles se anima a
pegar um livro na pequena biblioteca do hospital para continuar a
ler mais tarde. Muitos ficam com o livro só para que os
acompanhantes, ou visitantes de logo mais, também leiam para eles.
Os livros de dobraduras, com as brincadeiras que eles estimulam,
são concorridíssimos.
Nessas ocasiões, o ambiente hospitalar frio e cinzento, de uma hora
para outra, transforma-se. Nos quartos maiores, a chegada da trupe

157
de contadores de histórias dá ensejo a uma animada roda de leitura,
da qual nem os acompanhantes escapam. Todo mundo entra na
dança: parentes, funcionários e quem mais estiver passando na hora
por ali. Quando a história chega ao fim e tudo se acaba, os pacientes
já querem saber quando será a próxima sessão.
A história, enfim, não pode parar.
***
— Ler é contagiante – pontifica Claudinéia Kamei, a assistente
social que levou a ideia dos livros para auxiliar nos tratamentos da
ala infantil do HC, ou, ao menos, ajudar aqueles jovens paciente a
devolver alguma esperança.
Entre alunos da universidade e voluntários de diferentes profissões,
cerca de vinte homens e mulheres atuam como mediadores de
leitura do Projeto Biblioteca Viva em Hospitais, que teve início em
2002 e não parou mais. Só naquela unidade do Hospital das Clínicas,
há perto de mil livros disponíveis.
Cada leitor em potencial recebe, ali, um tratamento especial, seja um
bebê ou um jovem à beira de entrar na idade adulta. Um sorriso,
lágrimas ou qualquer emoção manifestada são encarados como um
componente importante para a cura. No mínimo, a prática vem
ajudando a humanizar o ambiente hospitalar, algo fundamental
quando se pensa que vários daqueles pacientes terão que passar
longas temporadas por lá e, em alguns casos extremos, lá, passam
sua temporada final nesta vida.

158
Funcionários antigos do hospital, habituados a conviver com
dramas de toda natureza, emocionam-se ao ver a reação dos
pacientes diante de um livro.
Esta é a magia dos livros. Esta é a magia das boas histórias.

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O tapete mágico da Tia Aninha

E m Cruz das Posses, pequeno distrito rural rodeado por


canaviais, no caminho entre Sertãozinho e Jardinópolis,
no interior de São Paulo, existia um pequeno local para
abrigar os parcos livros que havia por lá. Era um local acanhado
mesmo, já que se contavam nos dedos os que se interessavam por
eles.
Como a maior parte da população do povoado é constituída por
boias-frias sem nenhuma habilidade com a leitura, a modesta
biblioteca vivia literalmente às moscas. Nos meses da entressafra da
cana, quando parte dos moradores retorna para suas casas – no Vale
do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, já na divisa com a
Bahia; e alguns para o Nordeste –, o movimento das ruas do

160
povoado fica ainda menor. Numa ou noutra ocasião, poucos eram
os que davam alguma bola para os livros.
Mas isso já faz algum tempo. Essa história começou a mudar com a
chegada ao povoado de uma professorinha espevitada e irrequieta.
Aos poucos, foram caindo por terra, um a um, os muitos mitos que
reinam em torno da questão da leitura, que muitas vezes
involuntariamente acabamos repetindo.
Um deles é o que aposta que pessoas comuns, que pegam no batente
mais pesado para sobreviver, não têm os livros como prioridade em
suas vidas. E, portanto, não incluem a leitura entre as coisas que
mereçam ser tratadas como importantes em suas vidas.
Ana Lúcia, a professora escalada para a difícil missão de dirigir a,
então, minúscula e modesta biblioteca do povoado; logo, constataria
que as coisas não são e nem precisam ser bem assim. Se conseguisse
ao menos aproximar aqueles moradores dos livros existentes, ela
pensou, muitos deles, provavelmente, poderiam ser atraídos pela
magia das histórias.
No trajeto diário do ônibus entre a cidade e o distrito de sete mil
almas, a cabeça da professora fervilhava de ideias. Ela estava
convencida de que deixar os livros presos às estantes, à espera de
possíveis leitores, não daria muito certo. A cada semana, aparecia
com alguma ideia nova atrair os candidatos a leitor. Eram coisas
simples; certamente, já experimentadas antes em outros lugares. Só

161
que ela, obstinada que é, estava decidida a fazer todas as tentativas
possíveis.
A roda de leitura que ela criou foi um sucesso. Enquanto
interpretava os textos, Ana Lúcia estimulava os novos leitores a falar
sobre o livro e seus personagens. Virava uma terapia em grupo e
todo mundo sempre tinha algo a dizer. No início, estranharam um
pouco, mas, a cada dia, aderiam a cada uma das invenciones da
professora-bibliotecária, também uma exímia contadora de
histórias.
Quando, por exemplo, foi ler Quase Memória, de Carlos Heitor Cony,
para seu clube de leitura de idosos, Ana Lúcia se vestiu como uma
dama das antigas. Alguns deles podem não saber ler, e vão lá pela
convivência e a magia do ambiente, mas sabem, perfeitamente, ver
e ouvir. Por isso, voltam dessas sessões para suas casas com a
gostosa sensação de que livros são divertidos e interessantes. E que,
neles, há sempre algo para se aprender. Não por outra razão, fazem
questão de levar os netos, a quem mostram, com orgulho, suas
carteirinhas de sócio da biblioteca.
Outro espaço altamente disputado é o carpete famoso que Ana
estende no chão para as crianças ouvirem histórias e folhearem os
livros com conforto. O local está sempre apinhado de leitores
miúdos, que, certamente, no futuro, associarão sua ideia de leitura a
uma agradável sensação de afeto.

162
À beira de completar seu vigésimo aniversário, a Biblioteca Pública
de Cruz das Posses passou a ter presença tão marcante na vida local
que, hoje em dia, qualquer um que chegar lá e perguntar sobre ela
ao primeiro transeunte que encontrar na rua, ainda que este não seja
seu usuário, com certeza, ouvirá algum comentário positivo.
Este é um dos principais segredos para uma biblioteca como essa,
num distrito afastado da cidade-sede, ter longevidade: fazer com que
os moradores desenvolvam a percepção do quão importante ela é
para a vida do lugar.

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Sobre carnes e livros

M enino pobre nascido na Bahia de todos os santos,


Luiz começou, muito cedo, a dar duro para ganhar a
vida. Aos sete anos, já trabalhava como engraxate;
depois, foi lavador de carros, feirante, vendedor de picolés e
servente de pedreiro. Precisava ajudar nas despesas da casa e, assim,
tempo de sobra para ir à escola era, como diziam os familiares, um
luxo do qual, naqueles tempos de tamanha dureza, ele não dispunha.
O primeiro emprego estável de Luiz foi num açougue em Brasília,
na da Asa Norte da cidade, para onde se mudou ainda pequeno.
Junto com o novo emprego de ajudante do açougue, o menino
obteve sinal verde do dono para morar num quartinho dos fundos.

164
Sem ter o que fazer à noite, após o expediente, Luiz tratava de
arrumar ocupação para esse seu tempo livre. Já estava com dezesseis
anos quando conseguiu, finalmente, ir para a escola. Nos livros, ele
encontraria não só uma distração e companhia de todas as horas,
como, principalmente, um rumo diferente e absolutamente
inesperado para seu destino, que até então era só dificuldade e muita
labuta.
No começo, foi tudo muito difícil. Luiz, simplesmente, não
conseguia compreender o significado das palavras e o próprio
sentido dos textos maiores e com alguma complexidade. Decidiu
que começaria com os gibis, com seus textos reduzidos, ideias mais
simples e diretas e, ainda por cima, fartos em ilustrações. Adorou a
experiência.
Aos poucos, resolveu se arriscar mais. Mas começou pelo caminho
menos fácil. O primeiro livro que caiu em suas mãos foi um desastre:
era uma obra sobre Filosofia, com muitas páginas, e Luiz não
entendeu bulhufas. Mas estava tão disposto a virar esta página de
sua história que, disciplinadamente, foi até o fim.
Logo se veria diante de novos, porém fascinantes, desafios. Encarou
cada um deles. Jamais imaginara que existiam tantas palavras novas
assim. As ideias que elas traziam embutidas eram igualmente
complexas e, por vezes, difíceis de acompanhar. Pareciam mesmo,
simplesmente, inalcançáveis para pessoas que, como ele, foram
muito tarde para a escola.

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Mas, como chegara tão perto, Luiz não deixou se abater e pensava
que já não dava mais para retroceder. Buscava, então, com
otimismo, convencer-se que o próximo livro talvez não fosse tão
difícil. E os próximos livros vieram, uns após outros. Uns eram, de
fato, mais fáceis; outros, porém, nem tanto.
Aos poucos, o ajudante de açougueiro ia ampliando seu universo
cultural. A cada livro que lia, algumas coisas pareciam ficar mais
claras e compreensíveis. Com o tempo, as dificuldades foram
diminuindo e, pouco depois, o rapaz estava simplesmente
irreconhecível.
Sua vida definitivamente estava mudando.
Quinze anos mais tarde, quando Luiz, já estudado, propôs ao patrão
comprar o negócio, as ideias formigavam na sua cabeça. Para o
pequeno comércio prosperar, teria que inovar e se diferenciar dos
outros açougues. Foi assim que, em meio a bifes, linguiças e frangos,
surgiu a história de emprestar livros aos fregueses.
No início, uma única estante foi o suficiente para abrigar os livros,
que não passavam de dez, que eram todo seu acervo pessoal.
Quando a Vigilância Sanitária do Distrito Federal foi se dar conta, a
Biblioteca do Açougue T-Bone, a essa altura um animado e ativo
centro cultural no Plano Piloto de Brasília, já contabilizava mais de
dez mil exemplares.
Só que a clientela aprovava. Ao entrar no recinto, a freguesia se
divertia com a provocação literária:

166
— A madame vai levar meio quilo de Saramago ou uns bifes à
Machado de Assis? – tascava Luiz, sempre com humor.
A fama de “açougueiro dos livros” se espalhou rapidamente e
ajudou o negócio prosperar, tanto que as vendas subiram para mais
de dez toneladas de carne a cada mês. E, a cada novo livro que lia,
Luiz aparecia sempre com alguma nova ideia, que buscava, logo,
colocar em prática.
O boca a boca correu solto. Escritores importantes como Ziraldo e
Frei Betto fizeram questão de ir ao açougue, que também recebeu
muitos artistas famosos. Os saraus do açougue cultural chegam a
reunir dez mil pessoas numa só noite.
Depois do açougue-biblioteca, Luiz já inventou a rede de bibliotecas
populares nas paradas de ônibus de Brasília. Espalhou estantes nos
pontos onde não há ninguém para controlar quem pega ou devolve
um livro. O leitor pode escolher e ler à vontade, enquanto aguarda
a condução, e pode, também, levar o livro para continuar lendo
durante o trajeto para devolver quando bem entender.
Leitor confesso de Sartre, Platão, Tolstoi e Shakespeare, Luiz diz
que seu caso pessoal é uma rica demonstração do quanto os livros
podem transformar a vida de uma pessoa que, segundo ele próprio,
não tinha nenhuma chance de dar certo na vida.
É por isso que Luiz Amorim, açougueiro de profissão e agente de
leitura por vocação, está convencido que seria um grande egoísmo
de sua parte deixar de cooperar para outras pessoas possam também

167
descobrir esse poder dos livros. É por isso também que ele se tornou
uma espécie de pregador incansável entre aqueles que ainda não
descobriram a boa nova:
— A carne – ele apregoa – é um alimento para o corpo. Já os livros
são o alimento para o espírito.

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Bibliotecárias não sabem disfarçar

B ibliotecárias têm um jeito todo próprio de enxergar as


coisas. Talvez venha daí essa capacidade extraordinária de
lidar e processar tamanha quantidade de informação e
conhecimento, processar tudo isso para, só então, devolver tudo
devidamente organizado e sistematizado, para que, então, nós,
mortais leitores, possamos saborear – da forma que melhor nos
aprouver.
Por isso, elas nos fazem tanto falta, e precisamos tanto delas.
Só que, de tempos para cá, ouve-se mais e mais falar de outra, e tão
ou ainda mais nobre, missão para nossas bibliotecárias: ser uma
espécie de ponte entre os leitores e os livros – em outras palavras,
mediadoras da leitura. Gosto disso. A verdade é que não é de hoje

169
que muitas delas já fazem isso, ainda que não esteja escrito em
nenhum alfarrábio ou mesmo que certas faculdades, simplesmente,
esqueçam-se disso.
Não se pretende, evidentemente, aumentar, ainda mais, a sua carga
de trabalho ou ampliar responsabilidades legais e administrativas nas
repartições em que atuam. Mas tão somente incorporar uma nova
visão (que nem é tão nova assim) e atender a uma justa demanda da
sociedade. Bibliotecárias de vanguarda – antigas e novas –
perceberam isso há mais tempo e, por isso, desenvolvem trabalhos
belíssimos, de encher os olhos de quem vai conhecê-los, como eu
tenho ido.
Portanto, mais do que guardar, catalogar e organizar nossos acervos
– algo, por sinal, imprescindível –, a missão das bibliotecárias do
terceiro milênio é, cada vez mais, servir, de fato, como ponte entre
os livros e os leitores. Está em suas mãos essa notável tarefa de
mediar e aproximar as partes, e, assim, patrocinar, este enlace.
— Um educador! É isso que o bibliotecário é.
A definição é de uma das maiores delas, Dona Carminda Nogueira
de Castro Ferreira que, já à beira de completar noventa anos, saía
para fazer palestras e distribuir orientações aos mais jovens sobre as
novidades tecnológicas e outras modernidades da profissão. Sem
deixar de ir, é claro, ao cerne da questão: a função social do
bibliotecário de formar leitores.

170
— Mesmo porque, em muitos lugares, o único profissional atuando
que existe é o bibliotecário e, nesse caso, não resta dúvida sobre qual
é sua missão mais nobre – ela repetia, incansavelmente.
Dona Carminda é uma espécie de símbolo para profissionais da
área. E com razão. De seus onze filhos, que lhe deram trinta e três
netos e treze bisnetos, nada menos do que nove têm o diploma de
bibliotecário na parede. Como mestre para os novatos ou no
comando de entidades da área, ela ajudou a trazer um pouco mais
de luz e um melhor norte para o exercício da profissão, tão bonita
quanto essencial para a sociedade.
Formada em Letras Românicas pela Universidade de Coimbra,
Dona Carminda trocou, com o marido, Portugal pelo Brasil na
primeira metade do século XX. Era uma mulher à frente de seu
tempo: entrou para a faculdade quando isso era coisa só de homem
e fincou o pé por lá mesmo quando nasceram os filhos, uma afronta
para os costumes da época.
Mas ela ainda teria uma boa desculpa para voltar à faculdade quando
já era mãe de filhos moços no Brasil. Ela aproveitou que o filho
primogênito, reprovado no vestibular de Engenharia, decidira cursar
Biblioteconomia e ingressou também na faculdade, sob o pretexto
de “dar uma força” ao rapaz. Até o fim da sua vida, jamais sairia de
dentro de uma biblioteca.

171
Ao longo da vida, fez muitos bibliotecários repensarem a profissão,
sacudida, algumas vezes, pela chegada das novas tecnologias.
Devota de Nossa Senhora de Fátima, costumava sentenciar:
— A invenção do computador é uma grande benção!
Tenho visto, por aí afora, uma boa geração de bibliotecárias,
igualmente vocacionadas, que se veem, justamente, nesse papel de
agente de promoção da leitura. Por mais que enfrentem
adversidades, seguem em frente. E fazem isso por uma simples
razão: creem, verdadeiramente, que podem ajudar as pessoas se
conseguirem que elas leiam mais. Essa sinceridade de propósito está
em seus olhares.
E por onde andam essas bibliotecárias-missionárias? Elas estão por
toda parte, em bibliotecas nas grandes ou pequenas cidades, em
escolas ou bibliotecas comunitárias.
Como fazer para descobri-las? A resposta é simples. Basta que se
olhe nos olhos de qualquer uma delas, ao flagrá-la no instante em
que ela estiver exercendo sua arte maior de encantar o leitor,
levando-o, de forma firme, e doce, a adentrar, aos poucos, com
receio, ou logo de supetão, no universo mágico da leitura.
A resposta está, provavelmente, nesse olhar. Porque as
bibliotecárias, essas bibliotecárias, não sabem disfarçar.

172
Epílogo

Essas histórias de gente que lê eu tenho colhido, país afora, ao longo


da minha militância na causa do livro e da leitura. Muitas delas eu vi
com meus próprios olhos ou mesmo conheci – ou ainda conheço –
suas personagens. Em alguns casos, são histórias que extrai do Blog
do Galeno (www.blogdogaleno.com.br), no qual publicou, desde
2007, historietas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas
graças aos livros e à leitura. Entrevistei várias dessas pessoas ou ouvi,
atentamente, seus relatos, durante minhas andanças pelo país, para
dar palestras, fazer consultorias, me reunir com lideranças locais ou
me encontrar – em feiras de livros, festivais de literatura, entrevistas
na imprensa ou visitas a escolas – com o povo do livro e da leitura.

173
Algumas delas são reproduções de notícias publicadas em jornais e
revistas, e mesmo da televisão, sempre com as devidas citações das
fontes originais.

174
Se você gostou do livro que acabou de ler, mande sua história de
leitor, ou a de alguém que você conhece, para o Blog do Galeno
(www.blogdogaleno.com.br) ou para meu e-mail pessoal
(ga@galenoamorim.com.br). Eu e meus leitores vamos adorar!

175
Preparação de originais: Pedro Amorim
Capa: Wagner Luiz dos Santos
Diagramação: Luiz Magalini
Revisão: Pedro Amorim e Brás Henrique
Produção: Revolução eBook
2017
ISBN Digital: 9788582454213

Fundação Observatório do Livro e da Leitura

DIRETORIA EXECUTIVA
Presidente – Galeno Amorim
Diretora Tesoureira – Luciana Paschoalin
Diretora Secretária – Francisca Paris

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
Presidente – Maria Antonieta Cunha
Secretário – Aníbal Bragança
Menalton Braff

CONSELHO FISCAL
Marcus Vinicius Alves
Tuchaua Pereira Rodrigues
Luiz Fernando Zugliani
Suplentes
Neide Aparecida da Silva
Gabriella Ferraz Leboutte
Claudia Camata

176
www.observatoriodolivro.org.br
E-mail fundacao@observatoriodolivro.org.br

177
Quem é o autor

Galeno Amorim, autor de 17 livros, é jornalista. Foi presidente da


Biblioteca Nacional e do Centro Regional de Fomento ao Livro na
América Latina e no Caribe (Cerlalc/Unesco) e o responsável pela
criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), do Ministério
da Cultura e MEC.

É fundador do Blog do Galeno e já deu mais de 800 palestras no


Brasil e no exterior. Entre ensaios e literatura infanto-juvenil, seu
livro mais conhecido é O Menino Que Sonhava de Olhos Abertos,
cujas tiragens somam mais de 150.000 exemplares.

Saiba mais sobre o Galeno.

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