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ALIANÇA MUNDIAL PARA A SEGURANÇA DOS DOENTES

MANUAL DE IMPLEMENTAÇÃO DA LISTA DE VERIFICAÇÃO DE


SEGURANÇA CIRÚRGICA - Tradução Livre
(1ª edição)

WHO/IER/PSP/2008.05
World Health Organization, 2008
Reservados todos os direitos.
As publicações da OMS podem ser obtidas na OMS Press, WHO, 20 Avenue Appia,
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distinguem-se pela utilização de letra maiúscula.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tomou todas as precauções julgadas


convenientes para validar a informação contida nesta publicação.
No entanto, o texto publicado é distribuído sem qualquer tipo de garantia, expressa ou
implícita. A responsabilidade da interpretação e utilização deste material é do próprio
leitor.
A OMS não deve ser de forma alguma responsabilizada por danos decorrentes da sua
utilização.

Tradução:
Enf.ª Sónia Nobre
Revisão:
Enf.ª Fátima Ferreira
Enf.º M. Valente
Enf.ª M. J. Dias - Pinheiro

Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 1


SUMÁRIO:

• Introdução
• A lista de verificação de segurança cirúrgica – “checklist”
• Como usar este manual
• Como utilizar a checklist: resumidamente
• Como utilizar a checklist: detalhadamente
• “Sign in”
• “Time out”
• “Sign out”
• Promovendo uma cultura de segurança

Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 2


INTRODUÇÃO:

A iniciativa “PROCEDIMENTOS SEGUROS SALVAM VIDAS” foi instituída pela Aliança


Mundial para a Segurança do Doente como parte dos esforços da Organização Mundial
da Saúde (OMS) para reduzir o número de mortes relacionadas com a cirurgia, em
todo o mundo.
O objectivo desta iniciativa é promover um comprometimento político e vontade
clínica para abordar questões importantes de segurança, que incluem práticas
inadequadas de segurança anestésica, prevenção da infecção cirúrgica e comunicação
desadequada entre os membros das equipas cirúrgicas.
Está provado que estes problemas são comuns, capazes de causar a morte e evitáveis
em qualquer lugar ou hospital do mundo.
Para ajudar as equipas cirúrgicas a reduzir o número destes eventos a Aliança com a
colaboração de elementos de todo o mundo incluindo cirurgiões, anestesistas,
enfermeiros, peritos em segurança clínica e com os próprios doentes, identificou um
conjunto de procedimentos que podem ser implementados em qualquer sala de
operações.

O objectivo da lista de verificação de segurança cirúrgica - checklist de segurança


cirúrgica (1ª edição) da OMS (que se encontra em
www.who.int/patientsafety/challenge/safe.surgery/en/index.htm) é reforçar a
aceitação de práticas de segurança e encorajar a melhoria da comunicação e trabalho
de equipe multidisciplinar.
A checklist não é um instrumento regulador nem um componente de políticas oficiais;
é uma ferramenta a ser utilizada por profissionais interessados em garantir a
segurança cirúrgica e em reduzir as mortes e complicações evitáveis.

CHECKLIST DE SEGURANÇA CIRURGICA

A CHECKLIST DE SEGURANÇA CIRURGICA NÃO PRETENDE SER EXAUSTIVA.


INCENTIVAM-SE ALTERAÇÕES ADEQUADAS A CADA LOCAL DE TRABALHO.

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COMO UTILIZAR ESTE MANUAL

“Tal como um piloto de um avião tem de confiar na tripulação de terra, pessoal de


bordo e nos controladores de tráfego aéreo para um voo seguro, um cirurgião é um
membro essencial mas não solitário, numa equipa responsável pela prestação de
cuidados ao doente”.

Neste manual “equipa cirúrgica” compreende cirurgiões, anestesistas, enfermeiros e


outros técnicos envolvidos na cirurgia.
Tal como um piloto de um avião tem de confiar na tripulação de terra, pessoal de
bordo e nos controladores de tráfego aéreo para um voo seguro, um cirurgião é um
membro essencial mas não solitário, numa equipa responsável pela prestação de
cuidados ao doente.
A equipa cirúrgica referida neste manual é composta por todas as pessoas envolvidas,
cada uma com uma função específica que garantem a segurança e o sucesso da
cirurgia.
Este manual fornece sugestões para a implementação da checklist tendo em
consideração que cada local deverá adaptar a checklist à sua própria prática.
Cada um dos itens a verificar foi incluído com base em evidências clínicas ou opinião
avalizada de peritos, determinando que a sua inclusão reduzirá a probabilidade de
ocorrência de danos cirúrgicos evitáveis e graves e que da adesão à sua utilização não
resultará dano ou custos não controláveis. A checklist foi concebida para ser simples e
curta.
Muitos dos passos são já utilizados como prática corrente em muitas organizações a
nível mundial, embora raramente na sua totalidade e de forma sistematizada.

Cada Bloco Operatório deve experimentar a checklist, aperceber-se da melhor maneira


de utilizar todos estes passos de forma continuada e sistematizada, no seu dia-a-dia.
O objectivo final da checklist de segurança da OMS, e deste manual é ajudar as equipas
a seguirem de uma forma consistente e sistemática um pequeno número de passos
críticos de segurança e desta forma minimizar os riscos mais comuns e evitáveis que
põem em perigo a vida e o bem-estar dos doentes cirúrgicos.

Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 4


COMO UTILIZAR A CKECKLIST- (RESUMIDAMENTE)

“A checklist divide o procedimento cirúrgico em três fases, cada uma


correspondendo a um período específico de tempo/momento, no decorrer de um
procedimento cirúrgico.”

Para se implementar a checklist, durante as cirurgias, tem que haver uma pessoa
responsável por validar os itens da lista.
Este elemento, coordenador da lista de verificação, será, normalmente a enfermeira
circulante, mas esta função pode ser delegada em qualquer outro elemento da equipa
cirúrgica.
A checklist divide o procedimento cirúrgico em três fases, cada uma correspondendo a
um período específico de tempo, no decorrer de um procedimento cirúrgico: o período
antes da indução da anestesia (“sign in”), o período após a indução da anestesia e
antes da incisão cirúrgica / início do procedimento (“time out”) e o período durante ou
imediatamente após o encerramento da ferida cirúrgica, mas antes da transferência do
doente (“sign out”).
Em cada fase, o coordenador da checklist tem que confirmar que a equipa completou
as tarefas designadas antes de prosseguir para o passo seguinte.
À medida que as equipas cirúrgicas se vão familiarizando com os passos da checklist
estes passam a integrar a rotina normal do procedimento cirúrgico e a equipa verbaliza
a verificação, passo a passo, sem intervenção explícita do coordenador.
Cada equipa deve procurar integrar o uso da checklist no seu processo de trabalho
com a máxima eficiência e o mínimo de perturbação, com o objectivo de cumprir todos
os passos com eficiência.
Praticamente todos os passos serão verificados, verbalmente, com o profissional
competente de modo a assegurar que todas as acções chave foram realizadas.

Deste modo, durante o “sign in”, antes da indução da anestesia, a pessoa que
coordena a checklist confirmará, verbalmente, com o doente (quando possível) a sua
identidade, que o procedimento e o local a intervencionar são os previamente
definidos e que foi dado consentimento para a cirurgia.
O coordenador confirmará, visualmente, que o local cirúrgico foi marcado (se
aplicável) e que um oxímetro de pulso está colocado no doente e em funcionamento.
O coordenador confirmará, também, com o anestesista os riscos de perda sanguínea
do doente, a existência de dificuldades com a via aérea e reacções alérgicas e se foi
realizada a verificação de segurança de equipamento de anestésico.
Idealmente, o cirurgião deve estar presente no “sign in” uma vez que tem uma ideia
mais correcta da perda sanguínea previsível, alergias ou outras complicações
relacionadas com o doente.
No entanto, a presença do cirurgião não é essencial para completar esta parte da
checklist.

No “time out” cada membro da equipa apresentar-se-á, pessoalmente, pelo seu nome
e função. Se a equipa cirúrgica é a mesma para todo o plano operatório, só é
necessário confirmar que todas as pessoas presentes na sala se conhecem umas às
outras.

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A equipa fará uma pausa, imediatamente, antes da incisão na pele / início do
procedimento, para confirmar, em voz alta, que vão realizar a operação correcta, no
doente e no local certo e procederá à revisão verbal dos pontos críticos da cirurgia
planeada, partilhando as dificuldades, utilizando os itens da checklist como guia.
Confirmará também a administração de antibióticos nos sessenta minutos prévios à
incisão cutânea e que se encontram disponíveis os meios complementares de
diagnóstico essenciais, se adequado.

No “sign out”, a equipa reverá, em conjunto, a cirurgia realizada, a contagem de


compressas e instrumentos e a rotulagem das peças cirúrgicas removidas.
Reverá também qualquer disfunção dos equipamentos ou outros itens e assuntos que
necessitem de avaliação.
Finalmente a equipa reverá o planeamento do pós-operatório imediato e recobro
antes da transferência do doente da sala de operações.

É essencial que haja uma só pessoa a liderar o processo de implementação da checklist


de segurança. É muito fácil, no ambiente complexo de uma sala de operações,
qualquer um dos passos ser omitido, durante os rápidos e intensos períodos pré, intra
ou pós operatórios.
A designação de uma única pessoa para confirmar o cumprimento de cada um dos
passos da checklist garante a não omissão de nenhum deles, na pressa da sua
verificação.
Até que os membros da equipe estejam familiarizados com os passos envolvidos, o
coordenador da checklist, provavelmente, terá que conduzir a equipe através deste
processo de verificação.

Uma hipotética desvantagem de ser uma única pessoa a liderar o processo é o


desenvolvimento potencial de relações antagónicas entre os elementos da equipa
cirúrgica.
O coordenador da checklist pode e deve evitar que a equipa prossiga para a fase
seguinte da cirurgia sem que cada passo anterior esteja satisfatoriamente assegurado,
mas ao proceder deste modo pode alienar ou irritar os outros membros da equipe.

Assim, as organizações têm que escolher, cuidadosamente, o elemento da equipa que


considerem que irá desempenhar este papel de forma mais adequada.
Tal como já foi mencionado, em muitas organizações este papel será atribuído ao
enfermeiro circulante mas qualquer profissional de saúde pode coordenar o processo
da verificação.

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COMO UTILIZAR A CHECKLIST: “SIGN IN” – (DETALHADAMENTE)

“ “Sign in” é um momento de pausa que deve ser realizado antes da indução da
anestesia com o objectivo de garantir a segurança do procedimento cirúrgico.”

O “sign in” exige pelo menos a presença do anestesista e de enfermeiros.


O coordenador da checklist pode completar toda esta secção ao mesmo tempo ou
sequencialmente, dependendo do progresso na preparação da anestesia. Os
pormenores para cada uma das “caixas” do “sign in” são os seguintes:

• O doente confirma a identidade, o local da cirurgia, o procedimento cirúrgico


e o consentimento.
O coordenador confirma, verbalmente, com o doente a sua identidade, o tipo de
procedimento planeado, o local cirúrgico e que foi dado consentimento para a cirurgia.
Apesar de poder parecer repetitivo este passo é essencial para assegurar que a equipa
não opera o doente errado, no local errado ou realiza o procedimento errado.
Quando for impossível a confirmação com o doente, como no caso de crianças ou
doentes incapacitados, um tutor ou um familiar podem assumir este papel.
Se não estiverem disponíveis um tutor ou um familiar e este passo não for executado,
tal como na situação de urgência/emergência a “caixa” de verificação não deve ser
assinalada.

• Local marcado / não aplicável


O coordenador da checklist deve confirmar que o cirurgião que vai operar marcou o
local cirúrgico, (geralmente com um marcador de tinta permanente), nos casos que
envolvem lateralidade (distinção entre direita / esquerda) ou múltiplas estruturas ou
níveis (por ex: um dedo da mão ou do pé em particular, uma determinada lesão de
pele, ou uma vértebra).
A marcação do local cirúrgico para estruturas medianas (ex. tiróide) ou únicas (por ex:
baço) far-se-á de acordo com a prática local.
Algumas organizações não realizam a marcação do local pela raridade na ocorrência de
erros relacionados com o local da cirurgia.
No entanto, a marcação sistemática do local cirúrgico garante uma confirmação
adicional do local e procedimento correcto.

• Checklist da anestesia executado


O coordenador completa este passo solicitando ao anestesista que confira,
pessoalmente, a verificação de segurança anestésica. Esta verificação consiste numa
inspecção formal do equipamento anestésico, medicação e risco anestésico do doente,
antes de cada anestesia.
Para além de confirmar que o doente está apto para a cirurgia, a equipe anestésica
deve completar o ABCDE (uma mnemónica útil) que compreende verificação de
disponibilidade e funcionamento de:
A e B - Equipamento da via Área, do sistema de ventilação, incluindo O2 e agentes
inalatórios (Breathing),
C - Equipamento de aspiração (Suction),
D - Drogas e dispositivos de medicação,
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E - Equipamento de Emergência e assistência.

• Oxímetria colocada e funcionante


O coordenador da checklist confirma que foi colocado no doente, antes da indução da
anestesia um oxímetro de pulso e que este se encontra a funcionar correctamente.
Idealmente, a leitura do oxímetro de pulso deve ser visível por toda a equipa cirúrgica.
Sempre que possível, deve existir um alarme sonoro para alertar a equipa da
frequência cardíaca e da saturação de O2 do doente.
A oximetria de pulso é, insistentemente, referida pela OMS como um componente
necessário para procedimentos anestésicos seguros.
Se não estiver disponível um oxímetro de pulso, o cirurgião e o anestesista têm que
avaliar a gravidade clínica do doente e considerar o adiamento da cirurgia até que
sejam tomadas as medidas necessárias para assegurar a disponibilidade daquele
equipamento.
Em situações urgentes, em que haja risco de perda de vida ou de um membro, esta
exigência pode ser dispensada, mas nestas circunstâncias a “caixa” de verificação não
deve ser assinalada.

• O doente tem alergias conhecidas


O coordenador deve perguntar se o doente é portador de alguma alergia conhecida e
em caso afirmativo, a quê?
Esta questão deve ser colocada mesmo que se saiba a resposta de modo a confirmar
que o anestesista está alertado para quaisquer alergias que coloquem o doente em
risco.
Só então se assinala a “caixa” de verificação correspondente.
Se o coordenador tiver conhecimento de uma alergia que o anestesista desconheça
esta informação tem que ser comunicada neste momento.

• O doente tem uma via aérea difícil / risco de aspiração


O coordenador deve confirmar, verbalmente, que a equipa anestésica avaliou,
objectivamente, se o doente tem uma via aérea difícil.
Há um conjunto de métodos para avaliar a via aérea (tais como a classificação
Mallampati, a distância tiro / mentoniana e o score Bellhouse – Doré).
É mais importante uma avaliação objectiva da via aérea, utilizando um método válido,
do que a escolha do método em si mesmo.
A morte por perda da via aérea, durante a anestesia, é um acidente ainda comum, à
escala global, mas é evitável com planeamento apropriado.
Se a avaliação da via aérea prevê um alto risco de uma via aérea difícil (tal como uma
classificação de Mallampati de 3 ou 4), a equipa anestésica tem que estar preparada
para enfrentar esta dificuldade.
Esta preparação inclui, no mínimo, uma nova abordagem anestésica (por ex: utilizar
uma técnica anestésica regional se possível) e providenciar equipamento de
emergência.
Um profissional competente – anestesista, cirurgião, ou enfermeiro – deve estar
fisicamente presente para ajudar na indução da anestesia.
O risco de aspiração deve também ser avaliado, integrado na avaliação da via aérea.

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Se o doente é portador de refluxo gastro-esofágico sintomático activo ou tem um
estômago cheio o anestesista tem que estar preparado para a necessidade de
aspiração.
O risco pode ser reduzido modificando o plano anestésico, por ex: utilizando técnicas
de indução rápida e utilizando um assistente para exercer pressão na cricóide durante
a indução.
Num doente reconhecido como tendo uma via aérea difícil ou como estando em risco
de aspiração, a “caixa” de verificação deve ser assinalada (e a indução anestésica
iniciada) apenas após confirmação, pelo anestesista, de que estão presentes o
equipamento e a assistência adequados.

• O doente tem risco de perdas sanguíneas superiores a 500 ml de sangue (7ml/


Kg numa criança)
Neste passo o coordenador pergunta à equipa anestésica se o doente está em risco de
perder mais de ½ litro de sangue durante a cirurgia, possibilitando assim o
reconhecimento da situação e a preparação para este evento crítico.
As grandes perdas hemáticas encontram-se entre os riscos mais comuns e importantes
para os doentes cirúrgicos, conduzindo a um risco de choque hipovolémico que
aumenta quando as perdas hemáticas excedem 500 ml (7 ml/kg nas crianças).
Uma preparação e reanimação adequadas podem diminuir consideravelmente as
consequências.
Os cirurgiões devem informar o anestesista e a equipa de enfermagem, de forma
consistente, do risco de perda hemática.
Se o anestesista não souber qual o risco de perda hemática, no procedimento em
causa, é mandatório, antes da indução anestésica, fazer uma pausa e discutir esse risco
com o cirurgião.
Se existir um risco significativo de perda hemática, superior a 500 ml de sangue, é
altamente recomendável que, pelo menos, 2 acessos intravenosos de grande calibre
ou um cateter venoso central sejam colocados antes do inicio da cirurgia.
Adicionalmente, a equipa deve confirmar a disponibilidade de fluidos e / ou sangue
para fins de reanimação (note-se que perda hemática expectável será de novo revista
pelo cirurgião durante o “time out”). Este facto implicará uma segunda verificação de
segurança feita pelo anestesista e enfermeiros.

NESTA ALTURA O “SIGN IN” ESTÁ COMPLETO A EQUIPA PODE PROCEDER À INDUÇÃO
ANESTÉSICA

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COMO UTILIZAR A CHECKLIST: “TIME OUT” – (DETALHADAMENTE)

“Time out” é um momento de pausa feito pela equipa, imediatamente, antes do


início da cirurgia / incisão na pele com o objectivo de confirmar que as diversas
verificações essenciais de segurança foram realizadas e envolve todos os membros
da equipa”

• Confirmação da equipa com nome e função


Os membros das equipas cirúrgicas mudam frequentemente. A gestão efectiva de
situações de alto risco, exige que todos os membros da equipa saibam quem é cada
um e quais são os seus papéis e competências.
Uma simples apresentação atinge este objectivo.
O coordenador pedirá a cada pessoa presente na sala operações que se apresente pelo
seu nome e função.
Equipas já familiarizadas podem confirmar que todos se conhecem, mas elementos
novos, profissionais que tenham entrado para a sala de operações só na última
intervenção devem apresentar-se (alunos e outros colaboradores incluídos).

• Cirurgião, anestesista e o enfermeiro confirmam, verbalmente, o nome do


doente, o local da cirurgia e o procedimento cirúrgico
Este passo é o típico “time out” ou “pausa cirúrgica” e cumpre os critérios de muitas
agências reguladoras nacionais e internacionais.
Imediatamente antes de o cirurgião fazer a incisão na pele / iniciar a cirurgia o
coordenador da checklist ou outro membro da equipa pedirá a toda a gente presente
na sala para parar e confirmar verbalmente o nome do doente, a cirurgia a ser
realizada, o local cirúrgico e, quando apropriado, o posicionamento do doente, de
modo a evitar operar o doente errado ou o local errado.
Por exemplo, o enfermeiro circulante pode informar “vamos fazer o “time out” e
continua “está toda a gente de acordo que este é o doente X que vai ser submetido a
uma hernioplastia inguinal direita”.
A “caixa” de verificação não deve ser assinalada até que o anestesista, o cirurgião e o
enfermeiro circulante, explícita e individualmente, confirmem o seu acordo.
Se o doente não estiver sedado é importante que faça, também, a confirmação destes
dados.

• Prevenção de eventos adversos


A comunicação eficaz intra equipa é um componente crítico para uma cirurgia segura,
para um trabalho de equipa eficiente e para a prevenção de complicações major.
De forma a assegurar a comunicação de factores críticos relacionados com o doente,
durante o “time out” o coordenador da checklist facilita uma troca de impressões
rápida entre o cirurgião, o anestesista e a equipa de enfermagem acerca dos
momentos críticos e do plano operatório. Isto pode conseguir-se, simplesmente,
perguntando, em voz alta, a cada membro da equipa a sua opinião sobre a questão em
causa.

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Não é importante a ordem da discussão mas cada “caixa” de verificação apenas deverá
ser assinalada depois de cada elemento da equipa multidisciplinar ter expressado a sua
opinião.
Durante cirurgias mais rotineiras ou naquelas em que toda a equipa está mais
familiarizada o cirurgião poderá simplesmente afirmar “este é um caso de rotina com
uma duração X” e deverá perguntar ao anestesista e ao enfermeiro se têm qualquer
tipo de preocupação especial.

• O cirurgião revê: fases críticas da intervenção cirúrgica em que podem ocorrer


incidentes, tempo de cirurgia, previsão de perdas de sangue
A discussão dos momentos críticos ou inesperados tem como objectivo informar todos
os membros da equipa de quaisquer situações que possam colocar o doente em risco,
nomeadamente, perda hemática rápida, qualquer lesão ou outra morbilidade major. É,
também, uma oportunidade para rever a necessidade de equipamento especial,
implantes ou outros itens.

• A equipe de anestesia revê: se existem riscos específicos relacionados com o


doente que possam provocar complicações
Em doentes com risco de perda hemática major, instabilidade hemodinâmica ou outra
morbilidade major devido à cirurgia, um membro da equipa anestésica deve rever, em
voz alta, os planos específicos e as preocupações, particularmente referentes à
reanimação, a intenção de utilizar sangue ou derivados e quaisquer características do
doente que contribuam para eventuais complicações ou comorbilidades especiais
(doença cardíaca ou pulmonar, arritmias, desordens sanguíneas, etc.).
Está implícito que muitas cirurgias não acarretam quaisquer riscos ou preocupações
particulares que necessitem de ser partilhadas com a equipa. Nestes casos, o
anestesista poderá simplesmente dizer “Não tenho preocupações especiais com este
doente”.

• A equipa de enfermagem confirma: esterilização dos dispositivos médicos,


(verificação de indicadores paramétricos), funcionamento dos equipamentos
e dispositivos médicos
O enfermeiro instrumentista, que preparou o material necessário para a cirurgia que
se vai realizar deve, verbalmente, confirmar que a esterilização foi realizada e que para
os dispositivos esterilizados a vapor foi verificado o indicador químico de esterilização.
Qualquer discrepância entre o resultado esperado e o demonstrado pelo indicador
químico de esterilização deve ser comunicada a todos os membros da equipa antes da
incisão.
Este é também o momento para se discutir qualquer problema relacionado com o
equipamento, com a cirurgia ou medidas de segurança que os enfermeiros possam ter,
particularmente os que não foram discutidos pelos cirurgião e anestesista.
Se não existirem preocupações específicas o enfermeiro instrumentista pode
simplesmente dizer “a esterilização está garantida; não tenho quaisquer preocupações
especiais”.

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• Profilaxia antibiótica administrada nos últimos 60 minutos
Apesar da existência de provas irrefutáveis e de um consenso generalizado de que a
profilaxia antibiótica das infecções do local cirúrgico é mais eficaz se se conseguirem
níveis sérios e/ou tecidulares do antibiótico no pré-operatório imediato, as equipas
cirúrgicas procedem de forma inconsistente no que diz respeito à administração de
antibióticos, na hora anterior á incisão cirúrgica.
Para reduzir o risco de infecção do local cirúrgico o coordenador perguntará em voz
alta durante o “time out” se os antibióticos profiláticos foram administrados nos 60
minutos antes da incisão cirúrgica. O elemento da equipa responsável pela
administração dos antibióticos (geralmente da equipa de anestesia), deve confirmá-lo
verbalmente.
Se não tiverem sido administrados os antibióticos profiláticos devem sê-lo nesse
momento, sempre antes da incisão.
Se a profilaxia antibiótica tiver sido administrada há mais de 60 minutos, a equipa deve
considerar a administração de uma nova dose; a “caixa” de verificação não deve ser
preenchida se não for administrada qualquer dose adicional.
Se não for considerado apropriado fazer profilaxia antibiótica (cirurgias sem incisão
cutânea, cirurgias contaminadas em que os antibióticos são administrados para
tratamento) a “caixa” de verificação “não aplicável” pode ser assinalada, desde que a
equipa confirme este facto, verbalmente.

• Exames imagiológicos / complementares de diagnóstico essenciais


disponíveis.
Em muitas especialidades cirúrgicas, (torácica, ortopédica, incluindo a coluna vertebral
e em muitas ressecções tumorais) os exames imagiológicos / complementares de
diagnóstico são essenciais para um planeamento e procedimento correcto.
Durante o “time out” o coordenador deve perguntar ao cirurgião se é necessário
utilizar os exames imagiológicos / complementares de diagnóstico durante o
procedimento cirúrgico.
Em caso afirmativo o coordenador deve, verbalmente, confirmar que os exames a
utilizar se encontram na sala disponíveis para uso durante a intervenção.
Só então deve ser assinalada a caixa de verificação.
Se os exames são necessários mas não estão disponíveis deve ser providenciada a sua
obtenção.
O cirurgião decidirá se deve prosseguir com a cirurgia, sem os exames, se estes forem
necessários mas não estiverem disponíveis. Neste caso a “caixa” de verificação não
deve ser preenchida.
Se não forem necessários os exames imagiológicos, a “caixa” de verificação “não
aplicável” deve ser preenchida.

NESTA ALTURA O “TIME OUT” ESTÁ COMPLETO A EQUIPA PODE PROCEDER À


CIRURGIA

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COMO UTILIZAR A CHECKLIST: “SIGN OUT” (DETALHADAMENTE)

“”Sign out” deve ser completado antes de transferir o doente da sala de operações.
O seu objectivo é facilitar a permuta de informação importante para as equipas
prestadoras de cuidados responsáveis pelo doente depois da cirurgia.”

O “sign out” pode ser iniciado pelo enfermeiro circulante, pelo cirurgião ou pelo
anestesista e deve ser completado antes de o cirurgião abandonar a sala de operações.
Por exemplo: pode coincidir com o encerramento da ferida cirúrgica.
Mais uma vez cada “caixa” de verificação apenas deve ser assinalada depois de o
coordenador assegurar que cada item foi abordado pela equipa.

• O enfermeiro confirma com a equipa o procedimento cirúrgico realizado.


Porque o procedimento cirúrgico pode ter sido alterado ou alargado no decorrer da
cirurgia, o coordenador da checklist deve confirmar com o cirurgião e com a equipa,
exactamente, que procedimento foi realizado. Isto pode ser feito sob a forma de
pergunta “que procedimento foi realizado?” ou como uma confirmação “realizámos o
procedimento X, certo?”

• O enfermeiro confirma com a equipa a contagem correcta de compressas,


instrumentos e corto perfurantes (ou não é aplicável)
A retenção, no doente, de instrumentos, compressas e agulhas são erros incomuns
mas persistentes e potencialmente muito graves.
O enfermeiro circulante e instrumentista confirmam, verbalmente, que as contagens
de compressas e cortoperfurantes foram feitas de forma correcta.
Em casos de cirurgia intracavitária a contagem de instrumentos deve, também, ser
confirmada.
Se as contagens não estiverem coincidentes a equipa deve ser alertada de forma a
poderem ser tomadas medidas correctivas (verificação dos campos cirúrgicos, do lixo,
da ferida cirúrgica ou, se necessário, obter imagens radiográficas).

• O enfermeiro confirma com a equipa se as peças anatómicas estão


correctamente identificadas (incluindo o nome do doente)
A identificação incorrecta de peças anatómicas é, potencialmente, desastrosa para o
doente, estando demonstrado ser uma fonte frequente de erros laboratoriais.
O enfermeiro circulante deve confirmar a rotulagem / identificação correcta de todas
as peças obtidas durante o procedimento cirúrgico, lendo em voz alta o nome do
doente, a descrição da peça e quaisquer informações orientadoras.

• O enfermeiro confirma com a equipa se ocorreu algum problema com o


equipamento
Problemas com o equipamento são universais, nas salas de operações. É importante
identificar, correctamente, a origem do não funcionamento de instrumentos e
equipamentos de forma a evitar que sejam reutilizados antes que o problema tenha
sido resolvido.
O coordenador deve assegurar se há problemas de equipamento que foram
identificados pela equipa durante a cirurgia e que devem ser registados.
Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 13
• Cirurgião, anestesista e enfermeiros revêm as necessidades pós operatórias
do doente e a forma de as gerir
O cirurgião, o anestesista e o enfermeiro devem rever o plano de tratamento e
recobro pós-operatório com ênfase particular em aspectos intra - operatórios ou
anestésicos que possam afectar o doente.
Situações que representem um risco específico para o doente, durante a recuperação,
e que possam não ser evidentes para todos os envolvidos nos cuidados, são
especialmente pertinentes.
O objectivo deste passo é a transferência eficiente e apropriada de informação crítica
para toda a equipa.

COM ESTE PASSO FINAL A CHECKLIST DE SEGURANÇA ESTÁ COMPLETA.SE DESEJÁVEL


A CHECKLIST PODE SER COLOCADA NO PROCESSO DO DOENTE OU RETIDA PARA
UMA EVENTUAL AUDITORIA DE QUALIDADE

Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 14


PROMOVENDO UMA CULTURA DE SEGURANÇA

“Os passos de segurança devem motivar alterações efectivas que façam com que a
equipa cirúrgica cumpra todos e cada um dos elementos da checklist”.

• Modificações na checklist

A checklist pode ser modificada de modo a permitir a sua adequação a cada local de
trabalho tendo em conta os processos, a cultura dos diversos locais de trabalho e a
familiaridade existente entre cada elemento da equipa.
No entanto, remover passos de segurança simplesmente porque não podem ser
atingidos no ambiente existente ou por circunstâncias particulares é fortemente
desencorajado.
Os passos de segurança devem promover uma mudança efectiva que faça com que
uma equipa cirúrgica cumpra todos e cada um dos elementos da checklist.

De forma a assegurar a rapidez na utilização, a checklist da OMS não é exaustiva.


As organizações podem querer adicionar outros itens de segurança à checklist.
As equipas podem considerar adicionar outros itens de segurança para procedimentos
cirúrgicos específicos, particularmente se esses itens fazem parte de um processo de
rotina já estabelecido na organização.
Cada fase deve ser utilizada como uma oportunidade para verificar que passos
essenciais de segurança são, consistentemente, aplicados.
Tais passos adicionais podem incluir a confirmação de profilaxia de tromboembolismo
venoso por métodos mecânicos (ex. botas de compressão sequencial ou meias
elásticas) e ou métodos farmacológicos (tais como heparina ou varfarina) quando
indicados; disponibilidade de implantes essenciais (como uma rede ou uma prótese);
outras necessidades de equipamento ou resultados importantes de biopsias pré-
operatórias, resultados laboratoriais ou grupo sanguíneo.
Cada organização é encorajada a reformular, reordenar ou rever a checklist de forma a
adaptá-la à prática local garantindo a consecução dos passos de segurança críticos de
forma eficiente.
No entanto, as organizações e as pessoas devem ser avisadas relativamente ao risco de
tornarem a checklist mais complexa do que é razoável.

• Introdução da checklist na sala de operações

Será necessário algum tempo de prática para que as equipas aprendam a utilizar a
checklist de uma forma eficaz.
Algumas pessoas considerá-la-ão uma imposição ou mesmo uma perda de tempo. O
objectivo não é torná-la uma ladainha nem frustrar a eficiência do trabalho.
A checklist tem como objectivo providenciar às equipas um conjunto de verificações
prioritárias, simples e eficientes, com o objectivo de optimizar o trabalho de equipa, a
comunicação e de encorajar a consciencialização explícita da segurança dos doentes
em cada cirurgia realizada.

Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 15


Muitos dos passos da checklist já são realizados, por rotina, nalgumas salas de
operações, por todo o mundo; poucas, no entanto, a seguem integralmente de forma
sistemática e fiável.
A checklist tem dois objectivos: assegurar a sistematização na segurança do doente e
introduzir (ou manter) uma cultura que valorize esta prática.
Uma implementação bem sucedida requer a adaptação da checklist às rotinas e
expectativas locais.
Isto não será possível sem o empenhamento da liderança da organização.

Para que a checklist seja bem sucedida os chefes de serviço de cirurgia, de anestesia e
das direcções dos serviços de enfermagem têm de assumir publicamente a convicção
de que a segurança é uma prioridade e de que o uso da checklist de segurança da OMS
pode ajudar a torná-la uma realidade.
Para demonstrar esta afirmação devem utilizar a checklist nas cirurgias que efectuam e
questionar, regularmente, outros relativamente à forma como a implementação se
está a processar.
Se não existir uma verdadeira liderança a implementação de uma checklist pode gerar
descontentamento e antagonismo.
A checklist tem sido útil em ambientes muito diversos, incluindo ambientes de
prestação de cuidados de saúde.
Esta checklist de segurança da OMS tem sido utilizada com sucesso numa grande e
diversificada quantidade de organizações de saúde com um espectro variável de
constrangimentos, em termos de recursos.
A experiência demonstra que, com educação, prática e liderança, se podem
ultrapassar as barreiras à sua implementação.
Com planeamento e empenhamento apropriados os passos da checklist são fáceis de
cumprir e podem introduzir uma profunda diferença na segurança dos cuidados
cirúrgicos.

Manual de implementação - lista de verificação de segurança cirúrgica da OMS (1ª edição) 16