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2 A EVOLUÇÃO DA LUTA POR RECONHECIMENTO NO

CONTEXTO SOCIAL DA TEORIA CRÍTICA DE AXEL HONNETH

O Filosofo frankfurtiano trabalha em suas obras a questão do


reconhecimento intersubjetivo, o qual procura demonstrar em primeiro
momento a análise da sociedade contemporânea e fazer um contraponto com
a sociedade moderna dos pensadores Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes.
Axel Honneth busca refletir as problemáticas das lutas sociais pelo
reconhecimento desde Sofrimento por indeterminação, até Direito da
Liberdade, passando por Luta por Reconhecimento e Patologias de la Libertad.
Por sua vez, ele irá mostrar que a luta, está para além das conquista da
distribuição igualitária de rendas, está assentada nas conquistas da ideia de
respeito ao indivíduo e a dignidade da pessoa humana.
Em suas análises da sociedade de nossa época, Axel Honneth busca
refletir sobre os fenômenos culturais e econômicos próprios de nossa época, e
defende a tese que, para alcançarmos uma sociedade justa, precisamos que
seus indivíduos sejam capazes de se reconhecer em si mesmo no outro em
suas necessidades, pois todos têm seus conceitos e valores individuais de
liberdade, justiça, cidadania e dos diretos humanos.

2.1 Da autoconservação do principado, passando pela luta de


Todos Contra Todos na sociedade moderna, cegando a Luta por
reconhecimento na sociedade contemporânea.
Na obra Luta por reconhecimento, Axel Honneth trabalha bem a questão
do reconhecimento tendo o pano de fundo dessa discussão às instituições
sociais da sociedade contemporânea.
Para Axel Honneth, a teoria crítica vem evoluindo, e não está apenas se
preocupando em eliminar a desigualdades sociais, mas está visando, além
disso, a dignidade do indivíduo e respeito pela pessoa humana. Deste modo,
em termos de justiça social, é inegável que o sujeito participante dessa
sociedade tenha como objetivo normativo o “reconhecimento”, e não somente a
redistribuição de renda. A categoria do reconhecimento procura através da
reconstrução social o propósito de esclarecer o indivíduo em seu contexto
histórico-social, assim, tornando-o autônomo e, ao mesmo tempo, estabelece o
pano de fundo de uma sociedade mais humana, na qual o indivíduo possa ter a
possibilidade de conquistar uma vida digna, ou seja, a “vida boa”. Conforme
Marcos Nobre:

Qualquer que seja o tema por objetos nos escritos de Axel


Honneth, a apresentação está sempre obrigada a orbitar em
torno daquilo que é distintivo de sua proposta no campo da
teoria crítica: a preeminência e primazia da ‘gramática da moral
do reconhecimento’. Isso só é possível, entretanto, forem
preenchidos dois requisitos, sem os quais as ‘luta por
reconhecimento’ não emergem: uma reconstrução do ponto de
vista do social. Essa dupla tomada de partida - pela
“reconstrução” e pelo ‘social’  serve a Honneth de guia não
apenas dar sua própria versão do desenvolvimento e da
história da teoria crítica, como para vincular a ‘reconstrução’
com a “presentificação” que pretende emprestar às teorias que
lança mão. (MELO, 2013, p. 11).

A tese do neocontratualista é que por meio de uma luta por


autoconsciência, autodeterminação e autorrealização – as quais constituem a
tríade das esferas do reconhecimento – visto que é através dessa tríade que
podemos conquistar não apenas o reconhecimento intersubjetivo, e também
promover uma sociedade mais justa e solidária. Desse modo, Axel Honneth
procura mostrar que todo indivíduo almeja ter sua dignidade e o seu respeito
reconhecido em todas as esferas sociais.
Em Luta por Reconhecimento, Axel Honneth apresenta uma defesa do
desenvolvimento do reconhecimento intersubjetivo como característica
essencial do sujeito. Em contraste com a teoria social do pensador moderno
Nicolau Maquiavel, que em O Príncipe defende a tese da imutabilidade da
natureza humana, uma natureza completamente má, sendo o indivíduo
egocêntrico e preocupado somente com seus interesses e que, por isso
mesmo, um príncipe deve ser enérgico em suas decisões, pois, se mostrasse
fraco, ele sucumbiria em seu governo, de modo que seus inimigos poderiam
derrubá-lo do poder, posto que para Axel Honneth, o que estava em jogo em
Nicolau Maquiavel era a manutenção do poder e a estabilidade do principado,
ou seja, a “autoconservação” se apresentava como mais importante do que o
bem estar do indivíduo.
A filosofia social moderna pisa a arena num momento da
história das ideias em que a vida social é definida em seu
conceito fundamental como relação da luta por
autoconservação; os escritos políticos de Maquiavel preparam
a concepção segundo a qual os sujeitos individuais se
contrapõem numa concorrência permanente de interesses, não
diferentemente de coletividades políticas; na obra de Thomas
Hobbes, ela se torna enfim a base de uma teoria do contrato
que fundamenta a soberania do Estado. Ela só pudera chegar
a esse novo modelo conceitual de uma “luta por
autoconservação” depois que os componentes centrais da
doutrina política da Antiguidade, em vigor até a Idade Média,
perderam sua imensa força de convicção. (HONNETH, 2009, p.
31)

Na teoria social de Maquiavel um bom governante deve ser inteligente,


competente e firme para poder bem governar, sem essas características ele
perderá o respeito do povo e conseqüentemente o poder. Para ele a máxima
“melhor ser temido, do que ser amado” serve de exemplo para o Príncipe, pois
ele deve ter cuidado com a natureza maldosa do homem que é traiçoeira,
oportunistas, ingratas e movidas pelo lucro, e pensa somente no bem próprio.
É melhor, que seus governados o tema, pois temendo, eles irão respeitá-lo
acima de tudo. Segundo o filosofo frankfurtiano:
[...]. Mas as categorias centrais de suas análises comparativas
estão talhadas para essa luta sempiterna por autoconservação,
para essa rede de ilimitadas de interações estratégicas, em
que naturalmente Maquiavel enxerga o estado bruto de toda
vida social, porque elas não designam nada mais que o nada
mais que os pressupostos estruturais da ação bem-sucedida
por poder; mesmo ali onde ele se serve dos conceitos
metafísicos fundamentais da historiografia romana e fala por
exemplo da virtu ou fortuna, ele se refere somente às
condições marginais históricas que, da perspectiva dos
agentes políticos, se revelam recursos praticamente
indisponíveis em seus cálculos estratégicos de poder.
(HONNETH, 2009, p. 33)

Axel Honneth irá também se contrapor outro pensador moderno


Thomas Hobbes (1469-1527), que no Leviatã apresentava uma “luta de todos
contra todos”, de modo que o reconhecimento se daria pelo medo da morte
violenta que os indivíduos tinham no estado de natureza; pelo pacto social, os
indivíduos, por meio de um ato voluntário, entrariam em comum acordo,
constituindo a soberania, abrindo mão de parte de sua liberdade para obter a
segurança, a manutenção de sua propriedade e a paz. Ao abordar a condição
natural em que todos os indivíduos nascem, Thomas Hobbes explica que a
natureza fez os homens tão iguais, ou seja, para o autor de Leviatã embora
exista homens mais fortes fisicamente que outros, isso não significa ele irá se
manter a salvo de um possível ataque do considerado mais fraco fisicamente.
Por sua vez, Thomas Hobbes aponta que em espírito (razão) nós somos mais
iguais por maior semelhança, visto que está associado a suas experiências
vida. Por conseguinte, é preciso entender a ideia de estado de natureza, isto é,
o estado de natureza é uma luta de todos contra todos, pois ninguém pode
dizer o que é certo ou errado, justo ou injusto porque não existe um árbitro para
conter as paixões dos homens. Para Axel Honneth o filosofo o filosofo inglês a
sua teoria social seria explicada da seguinte forma:
[...]. Por fim, na terceira parte de seu empreendimento, Hobbes
utiliza a construção teórica desse estado no sentido de uma
fundamentação filosófica da própria construção da soberania
do Estado: as conseqüências negativas manifestas da situação
douradoura de uma luta entre os homens, o temor permanente
e a desconfiança recíproca, devem mostrar que só a
submissão, regulada por contrato, de todos os sujeitos a um
poder soberano pode ser o resultado de uma ponderação de
interesses, racional com respeito a fins, por parte de cada um.
Na teoria de Hobbes, o contrato social só encontra sua
justificação decisiva no fato de unicamente ele ser capaz de
dar um fim à guerra ininterrupta de todos contra todos, que os
sujeitos conduzem pela autoconservação individual.
(HONNETH, 2009, p. 35)

De acordo com Axel Honneth, Thomas Hobbes afirma que o homem na


condição natural tende a sua própria autoconservação, isto é, o outro sempre
será um inimigo em potencial contra a sua vida, como alude em sua obra
Leviatã, quando dois homens desejam a mesma coisa ao mesmo tempo, é
impossível que as tenham ao mesmo tempo, e, portanto, entrarão em guerra
para tê-la, porém mesmo assim não garante que outro chegue e a deseje
também. Na natureza existem três causas de discórdia que fazem os homens
ser inimigos uns dos outros quando não se tem um poder coercitivo capaz de
controlá-los, a saber: a competição, a desconfiança e a glória. Em suma, Axel
Honneth, diz que Hobbes pretende demonstrar como é o homem em seu
estado de natureza, e sua constante inclinação a guerra para a busca de sua
autoconservação, neste estado não há propriedade, não há sociedade. O que
faz os homens buscarem a paz é o medo da morte e a esperança de uma vida
boa.
E por causa desta desconfiança de uns em relação aos outros
nenhuma maneira de se garantir e tão razoável como a
antecipação isto é. Pela força ou pela astúcia subjugar as
pessoas de todos os homens que puder, durante o tempo
necessário para chegar ao momento em que não veja nenhum
outro poder suficientemente grande o ameaçar. E isto não é
mais do que sua própria conservação exige e geralmente se
aceita. E porque alguns se comprazem em contemplar o
próprio poder em atos de conquista levados muito além do que
a sua segurança exige, outros que, em circunstâncias distintas,
se contentariam em se manter tranquilamente dentro de
modestos limites, caso não aumentassem o seu poder por
meio de invasões, não seriam capazes de subsistir durante
muito tempo, se apenas se pusessem em atitude de defesa.
Consequentemente, deve-se concede a todos esse aumento
do domínio sobre os homens pois é necessário para a
conservação de cada um. (Hobbes, 2003, pág. 108)

As lutas sociais da Idade Moderna dado ao seu cenário histórico-social,


eram mais lutas por poder político, por interesses individuais e egoísmo. Axel
Honneth assim como Hegel, procura analisar esse modelo de sociedade e o
seu conceito de luta social, e assim fazer uma reconstrução desse modelo
procurando ter a presentificação na sociedade contemporânea na qual o
reconhecimento intersubjetivo é o elemento fundamental dos conflitos sociais.
Axel Honneth aponta em Luta por Reconhecimento que Hegel discorre
sobre atitude “áetica”, atitude essa que são disposições egocêntricas ou
modelo de política singular, este sujeito isolado e dono de suas vontades 1 para
viver em uma “comunidade de homens” tem que reprimir essas vontades para
assim aprender a conviver com “outros estranhos”, Hegel fala que para isso
esse indivíduo tem que tomar atitudes éticas:
[...]. Em princípio não se procedem diferentemente os enfoques
da tradição do direito natural que Hegel designa como “formal”,
visto que eles tomam seu ponto de partida, no lugar das
definições acerca da natureza humana, num conceito
transcendental de razão prática; em tais teorias, representadas
sobre tudo por Kant e Fichte, as premissas atomísticas dão-se
a conhecer no fato de as ações éticas em geral só poderem ser
pensadas na qualidade de resultado de operações racionais,
purificadas de todas as inclinações humanas; também aqui a
natureza do homem é representada como uma coleção de
disposições egocêntricas ou, como diz Hegel, “aéticas”, que o
sujeito primeiro tem que reprimir em si antes de poder tomar

1
Segundo Hegel uma das fases do desenvolvimento da ideia da vontade livre em si e para si, a
vontade é: Imediata. O seu conceito é portanto abstrato: a personalidade; e a sua existência
empírica é uma coisa exterior imediata, é o domínio do direito abstrato ou formal; (Hegel, 1997,
p. 35, § 33)
atitudes éticas, isto é, atitudes que fomentam a comunidade.
[...]. Para Hegel, resulta daí a consequência de que no direto
natural moderno, uma “comunidade de homens” só pode ser
pensada segundo um modelo abstrato dos “muitos
associados”, isto é, uma concentração de sujeitos individuais
isolados, mas não segundo o modelo de uma unidade ética de
todos. (HONNETH, 2009, p. 39- 40)

De acordo com o nosso autor, Hegel tem um conceito de sociedade


normativa, uma sociedade ética a qual em seu primeiro momento seus
indivíduos poderiam exercer uma “liberdade universal e individual”, ou seja,
pode se realizar em sua liberdade na esfera particular do indivíduo, mesmo se
não tendo a liberdade na vida pública. Em seu segundo momento Hegel afirma
que os indivíduos no interior de sua sociedade através da comunicação e seus
costumes conseguem na coletividade e nas instituições exercer sua liberdade
mais ampliada, mostrando assim que o indivíduo isolado não consegue exercer
sua liberdade. Para Hegel o reconhecimento intersubjetivo seria uma ação
recíproca entre indivíduos, o qual seria algo fundamental para a socialização
humana.
A seguir discorrerei sobre o reconhecimento intersubjetivo em suas
esferas, as quais se desenvolvem nas instituições tais como: família, Estado e
sociedade.

2.2 As Três Esferas do Reconhecimento


Em Luta por Reconhecimento Axel Honneth apresenta três esferas de
reconhecimento próprios das sociedades contemporâneas. Aqui se desenvolve
as relações do indivíduo, o qual exercita suas “vontades”, e aqui ele é capaz de
aprender a desenvolver sua “consciência de agir” no campo familiar, sexual, do
trabalho e do social. Nestas esferas do reconhecimento intersubjetivo, a
evolução do individuo começa na sua capacidade de ser autoconfiante
aprendendo a reconhecer a necessidade o outro em si mesmo; se
autorrealizar se sentindo capaz de se satisfazer com sua própria potencialidade
e se autodeterminar tendo a capacidade de decidir por si mesmo a escolha do
próprio destino.
Então podemos ver na obra Luta por Reconhecimento que Axel Honneth
faz uma leitura apurada da sociedade contemporânea, mostrando que através
das esferas do reconhecimento intersubjetivo o indivíduo por meio de sua
capacidade cognitiva consegue construir uma consciência normativa, em que
ele se reconhece não só si mesmo, mas também o outro em sua totalidade (Cf.
Honneth, 2009, p. 63), com isso há de ocorrer os conflitos ou luta por
reconhecimento, esses conflitos perduram até cada individuo possa reconhecer
que assim como ele, o outro também possui em sua singularidade desejos e
vontades, assim como ele. 2

De acordo com Axel Honneth, Hegel tem como interpretação de luta por
reconhecimento, uma “luta de vida e morte”, porém não em um sentido literal,
mas sim, em um sentido figurado, pois o não reconhecimento faz com que fira
a liberdade individual, e ou até mesmo uma ameaça a direitos. Como podemos
conferir:
Uma primeira interpretação dessa espécie decorre da tese
desenvolvida por Andréas Wildt, segundo a qual Hegel não fala
aqui da “luta de vida e morte” num sentido literal, mas somente
figurado; a metáfora drástica refere-se àqueles momentos de
uma “ameaça” existencial, nos quais um sujeito tem de
constatar que uma vida plena de sentido só lhe é possível no
“contexto do reconhecimento de direitos e deveres”. (Honneht,
2009, p. 93)

Para Axel Honneth é nas esferas do reconhecimento intersubjetivo, bem


como na luta por reconhecimento, que o sujeito social se desenvolve sua
autoconsciência, e que ele só começa reconhecer a vontade do outro, quando
ele passa a ter a capacidade de refletir e de agir de forma consciente,
reconhecendo em si mesmo a necessidade do outro em sua totalidade. É
nesse ato de intersubjetividade que o filosofo alemão defende sua ideia de luta
por reconhecimento, que é motivada por situações de desrespeito mútuo de
algumas pretensões individuais que, por sua vez, gera um conflito e/ou uma
reconciliação entre as partes.

2.2.1 O amor e a relação de interdependência do individuo.


A primeira esfera do reconhecimento é o amor. Nesta esfera está
representada pela carência do indivíduo tanto na esfera familiar, quanto na

2
Tópico este aproveitado do meu relatório PIBIC 2017/18 sob o titulo “Liberdade e Justiça na
obra ‘O Direito da Liberdade’ de Axel Honneth”.
amizade, mas a principio ire exemplificar a relação simbiótica de mãe e filho,
pois segundo Axel Honneth para Hegel  o filho seria o ápice do amor entre
um homem e uma mulher  assim seria o retrato de uma família burguesa,
formada pelo pai, mãe e filho: “ Hegel, neste ponto totalmente teórico clássico
da família burguesa, considera o filho a corporificação máxima do amor entre o
homem e a mulher: ‘Nele, eles intuem o amor; (ele é) sua unidade consciente
de si enquanto consciente de si’” (Honneth, 2009, p. 81); e posteriormente irei
abordar as relações tais como: amizade, casamento, sexualidade e etc.
Existem diversas relações de reconhecimento na esfera do amor e
amizade, mas a relação mãe e filho é uma que para Axel Honneth seria o ponto
de partida do reconhecimento intersubjetivo, pois essa relação mostra há
dependência total do filho para com sua mãe e, da mesma maneira, desta para
com àquele, sendo assim uma relação simbiótica, relação de interdependência
desses indivíduos ou “dependência absoluta”, e o não reconhecimento faz com
que haja um conflito de interesses entre os dois causando dificuldades no
relacionamento de ambos. Para nosso autor, nesse relacionamento, quando
ocorre uma “quebra”, o filho, por instinto, se sente desprezado e começa a agir
de forma agressiva para com a mãe; com o passar do tempo, tanto filho como
a mãe vão reconhecendo que cada um tem sua necessidade individual, ou
seja, passa de uma “dependência absoluta”, para uma “dependência relativa”.
[...]. Para Hegel, o amor representa a primeira etapa de
reconhecimento recíproco, porque em sua efetivação os
sujeitos se confirmam mutuamente na natureza concreta de
suas carências, reconhecendo-se assim como seres carentes:
na experiência recíproca da dedicação amorosa, dois sujeitos
se sabem unidos de fato de serem dependentes, em seu
estado carencial, do respectivo outro. Além disso, visto que a
carência e afetos só podem de certo modo receber,
“confirmação” porque são diretamente satisfeitos ou
correspondidos, o próprio reconhecimento deve possuir aqui o
caráter de assentimento e encorajamento afetivo; nesse
sentido, essa relação de reconhecimento está também ligada
de maneira necessária à existência corporal dos outros
concretos, os quais demosntram entre si sentimentos de estima
especial. [...](Honneht, 2009, p. 160)

Para Axel Honneth, nesta primeira esfera de reconhecimento se


estabelece uma relação de autoconfiança, isto é, o indivíduo torna-se capaz de
confiar em si mesmo, deixando de ser dependente, nela faz com que o
indivíduo tenha sua primeira experiência de reconhecimento recíproco, pois é
através da carência que ele pode se reconhecer no outro, através da
afetividade e da relação interpessoal, podendo satisfazer suas necessidades e
a do outro.
O filosofo frankfurtiano afirma também que o conceito de amor não está
somente assentado na concepção romântica, intima e ou sexual entre dois
parceiros ou mesmo de pais e filhos, mas sim, todas as relações primárias de
ligações emotivas entre poucas pessoas (Cf.Honneth, 2009, p. 159), assim
ampliando a ideia de amor para Hegel, não sendo somente aquelas relações
entre homem e mulher, e ou pais/fllhos, mas também a relação de amizade, a
qual pode também trazer uma carência de um amigo para com o outro em uma
ligação afetiva.

2.2.2 A esfera do direito e a autorrealização da pessoa.


A segunda esfera de reconhecimento é o direito. Esta esfera está
fundamentada na autonomia formal da pessoa em uma relação positiva de
direito. É nesta esfera que se motiva a autorrealização da pessoa, dado que,
para isso a pessoa tem de reconhecer a relação de direito com a sociedade
civil, e vice-versa, permite que ela tenha uma segurança normativa de seu
papel como cidadão seja respeitado em sua própria particularidade, ou seja,
independentemente de suas condições sociais.
Na sociedade civil que o indivíduo passa a se reconhecer e ser
reconhecido como pessoa que têm direitos e deveres, assim podendo melhor
reconhecer-se-no-outro.
Segundo o nosso autor conduz que a esfera do direito está pautada na
autorrealização na pessoa de direito, a qual procura sua formação de sua
identidade, ou seja, o seu “Eu”. Axel Honneth procura mostrar que o sujeito
individual começa a se desenvolver e assim, começa a interagir socialmente de
forma mais reativa e espontânea, e este sujeito social se desperta e se ver não
apenas como individuo, mas como também, uma pessoal a qual têm direitos e
deveres dentro de sua comunidade, ele é um autor ativo daquele meio.
[...]. A experiência de ser reconhecido pelos membros da
coletividade como pessoa de direito significa para o sujeito
individual pode adotar em relação a si mesmo uma atitude
positiva; pois, inversamente, aqueles lhe conferem, pelo fato de
saberem-se obrigados a respeitar seus direitos, as
propriedades de um ator moralmente imputável. Porém, uma
vez que o sujeito partilha necessariamente as capacidades
vinculadas a isso como todos os seus cidadãos, ele não pode
se referir positivamente ainda, como pessoa de direito, àquelas
propriedades suas em que ele se distingue justamente de seus
parceiros de interação; para tanto se precisaria de uma forma
de reconhecimento mútuo que propiciasse confirmação a cada
um não apenas como membro de uma coletividade, mas
também como sujeito biograficamente individuado. Mead
coincide com Hegel também na constatação de que a relação
jurídica de reconhecimento é ainda incompleta se não puder
expressar positivamente as diferenças individuais entre os
cidadãos de uma coletividade. (Honneth, 2009, p. 139)

A interação social do individuo faz com que ele desenvolva o seu “Eu”,
fazendo com que comece a reconhecer a particularidade do outro, bem como a
sua mesma.
Esse desenvolvimento faz com que o “Eu” esteja mais ligado à
singularidade do individuo e suas vontades, entre em conflito quando esse
mesmo indivíduo começa a viver em comunidade e sua globalização de
vontades, então ele tem que começa a interagir e compreende que o seu “Eu”
e a penas mais um, e isso faz entender e assim progrida seu “Eu” para o “Me”
mais preocupado com o desenvolvimento social.
Essa passagem do “Eu” singular para o “Me” particular, faz com que o
indivíduo não pense apenas em si mesmo, e consequentemente, passe a ter
outros interesses e procure novas formas de reconhecimento, por exemplo,
nossa sociedade a inda tem uma ideia de que a família é um retrato da família
burguesa tradicional, mas na atualidade temos famílias formadas e
comandadas apenas pela mãe e os filhos, outra forma de família é a formada
por casais homossexuais as quais adotam seus filhos e etc. Axel Honneth
chama esse tipo de família de “colcha de retalho”, termo esse que irei abordar
melhor no Capítulo 3 dessa monografia, pois está contido na obra O Direito da
Liberdade, essas famílias devem ser reconhecidas apesar de termos um “ideal”
de família, o que ligam elas são primeiramente o amor; e como não podemos
esquecer que essas famílias devem ser respeitadas como tal e sua dignidade
assegurada não só pelo Estado, mas também pela Sociedade civil. Isso não
seria um reconhecimento de direto? Isso não seria reconhecer-se-no-outro?
O Conceito ético de “outro generalizado”, ao qual Mead teria
chegado se tivesse considerado as antecipações idealizadoras
do sujeito da autorrealização que se sabe sem
reconhecimento, partilha com a concepção de eticidade de
Hegel as mesmas tarefas: nomear uma relação uma relação de
reconhecimento recíproco na qual todo sujeito pode saber-se
confirmando como pessoa que se distingue de todas as outras
por propriedades ou capacidades particulares. (Honneth, 2009,
p. 149)

Talvez essa seja a teoria normativa que tanto Axel Honneth e outros
comunitaristas propõem como forma de reconhecimento intersubjetivo, se ver
no outro, aprender que nossa individualidade seja respeitada, mas que também
possamos aprender a respeitar os indivíduos em suas singularidades e em
suas particularidades.

2.2.3 A solidariedade e a autodeterminação do sujeito.


Completado as esferas do reconhecimento intersubjetivo, temos a
terceira e última esfera de reconhecimento que é a solidariedade. Nesta esfera,
a solidariedade ajuda o indivíduo a alcançar sua autodeterminação; em outras
palavras, é quando o indivíduo, mesmo fazendo parte de uma sociedade, tem a
capacidade e a autonomia necessária para decidir seus atos para consigo
mesmo.
Como visto nos subtítulos anteriores o indivíduo coloca em prática a
ideia de relações solidárias que envolvem o amor e o direito na práxi social;
além disso, acaba por reconhecer que cada indivíduo da sua sociedade tem os
seus próprios interesses primários (o respeito e a dignidade), que devem ser
respeitados sob pena de surgirem patologias sociais gravíssimas, como a
pobreza, a discriminação, a miséria, a desigualdade social etc. A noção de
solidariedade de Hegel segundo Axel Honneth:
Certamente, “Solidariedade” não é apenas um título possível
para relação intersubjetiva que Hegel tentou designar como
conceito de “intuição recíproca”; por si mesma, ela se
apresenta como uma síntese dos dois modos precedentes de
reconhecimento, porque partilha com o “direito” o ponto de
vista cognitivo do tratamento igual universal, mas com o
“amor”, o aspecto do vinculo de assistência. Hegel entende por
“eticidade”, na medida em que não se rendeu ainda a uma
versão substancialista do conceito, o gênero de relação social
que surgue quando o amor, sob pressão cognitiva do direito, se
purifica, constituindo-se em uma solidariedade universal entre
os membros de uma coletividade; visto que nessa atitude todo
sujeito pode respeitar o outro em sua particularidade individual,
efetua-se nela a forma mais exigente de reconhecimento
recíproco. (Honneth, 2009, p. 153-154)
Axel Honneth conduz que o reconhecimento recíproco apesar do
indivíduo ter conquistado sua autorrealização, ele por si só reconhece que
precisa se autodeterminar no processo da vida social. Esse indivíduo não está
mais somente se reconhecendo nas relações primárias, mais sim, em relações
mais complexas tais como relações jurídicas, ou seja, deixa de ser apenas um
indivíduo e é reconhecido como sujeito social, um ser social e livre.
O reconhecimento da solidariedade faz com que o sujeito social apesar
de ser um indivíduo singular e pessoa em sua particularidade, ele é também
universal, pois é através dessa universalidade que esse sujeito reconhece de
forma reflexiva que os outros também possuem suas vontades singulares, que
numa sociedade normativa todos temos múltiplos deveres e direitos dentro
dessa estrutura social (Cf. Honneth, 2009, p. 183 - 185).
A ideia normativa de solidariedade não se dá somente de que o cidadão
de uma comunidade tem direitos e deveres iguais, mas também, que ele é um
membro de igual valor no processo político, sem discriminação de gênero,
etnia, poder econômico e etc., podendo assim haver privilégios e exceções.

Dessa forma, as três esferas o reconhecimento giram em torno da ideia


de intersubjetividade, isto é, o indivíduo começa a ter a propensão de refletir e
de agir através de sua consciência absoluta, reconhecendo em si mesmo as
necessidades do outro em sua totalidade. É nesse ato de intersubjetividade
que Axel Honneth defende sua ideia de luta por reconhecimento, que é
motivada por situações de desrespeito mútuo de algumas pretensões
individuais que, por sua vez, gera um conflito e/ou uma reconciliação entre as
partes.

2.3 o desrespeito da dignidade da pessoa humana

Vimos no subtítulo anterior, a formação do indivíduo desde sua


libertação da carência como indivíduo singular, passando pelo reconhecimento
jurídico de pessoa em sua particularidade até sua autodeterminação como
sujeito social. Claro que só podemos ter essa sociedade normativa se ela for
justa e ética, caso contrários esse reconhecimento intersubjetivo não ocorrerá,
causando danos não somente ao indivíduo, mas também a sociedade em
geral. Nela ocorrerão patologias sócias tais como violência, fome, pobreza,
violações de direitos e etc.
Não sei se será adequado trazer a filosofia de Axel Honnteh para o
contexto social brasileiro em sua contemporaneidade, mas vou tentar como diz
o autor, usar da práxi social. O filosofo alemão mostra no capitulo 6
“identidade pessoal e desrespeito: violação, privação de direitos, degradação”;
nele ele mostra como uma sociedade injusta trata seus indivíduos, na qual as
“ofensas” e o “rebaixamentos” são características peculiares, ou seja, impera o
“desrespeito”, ou melhor o não reconhecimento.
Ora, é visível que tudo o que é designado na língua corrente
como “desrespeito” ou “ofensa” pode abranger diversos de
profundidade na lesão psíquica de um sujeito: por exemplo,
entre o rebaixamento palpável ligado à denegação de direitos
básicos elementares e a humilhação sutil que acompanha a
alusão pública ao insucesso de uma pessoa, existe uma
diferença categorial que ameaça perde-se de vista no emprego
de uma das expressões. Em contrapartida, a circunstância de
que pudermos efetuar graduações sistemáticas também no
conceito complementário de “reconhecimento” já aponta para
as diferenças internas existentes entre algumas formas de
desrespeito. [...].(Honneth, 2009, p.214)

Portanto esse desrespeito faz com que haja a luta por reconhecimento,
claro que o autor diz que o reconhecimento é algo natural do ser humano, pois
ele desenvolve isso desde seu nascimento e mediante a uma socialização do
individuo através de suas experiências.
Na sociedade civil brasileira está ainda escancarado que ela é ainda
uma sociedade injusta, individualista e heterônoma. O individuo parece ainda
não ter sua identidade própria, não se reconhece a si mesmo quanto mais
reconhecer o outro. Temos diversos casos no qual a mulher é vista somente
como objeto para seu companheiro, para ele, ela não possui vontade e tem que
se totalmente submissa à vontade do parceiro, e isso e uma das causa da
violência contra as mulheres. Outros grupos que lutam por seu reconhecimento
diuturnamente, são os grupos GLBT’s e os kilombolas, os quais apesar da
sociedade retrógoda, vêm conquistando seus espaços e diretos
paulatinamente.
A luta pela integração a sociedade desses grupos é grande, são
pessoas que tem suas identidades, e querem preservá-las, querem ser
reconhecidas em seus direitos e liberdade, querem a garantia da “dignidade” e
“respeito” as suas individualidades. São seres singulares, que como os demais
têm direito de realizar suas vontades.
Axel Honneth contempla uma sociedade normativa, na qual esses
indivíduos citados acima, bem como os demais, terão seus direitos e deveres
resguardados em sua plenitude, e a luta pelo reconhecimento é que tornará a
sociedade mais justa e solidária,