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A ciência, como hoje a entendemos, surgiu da filosofia natural, que

experimentou grande impulso a partir do século XVII, quando passou a ser


cultivada sob um novo enfoque metodológico. O impressionante sucesso
explicativo e preditivo das nascentes disciplinas foi atribuído a um novo
método de investigação, que supostamente aliava a observação cuidadosa
e, quando possível controlada dos fenômenos, passando pela “peneira” da
razão, surgindo assim o método experimental. Os historiadores praticantes
dessa nova ciência viram, nesse novo método, uma forma de se afastar de
incômodas interferências: primeiro, dos diletantes(amantes), que
confundiam história e ficção, nela introduzindo fantasias sobre o longínquo
no espaço e no tempo; segundo, do filosófico, cuja as conjecturas
metafísicas sobre o destino da humanidade passavam por cima da
individual; e finalmente, do teórico de outras ciências sociais, para quem
esse elemento individual seria apenas exemplo de leis sociais, acreditando
que o conhecimento tinha que ser aplicado de maneira universal. Os
cientistas naturais possuíam um guia prático para orientar-se em meio à
confusão dos dados empíricos variados, organizando-os em regularidades
elevadas em seguida à condição de leis, invejando este método
experimental, os historiadores desenvolveram meios para ordenar seu
disperso material, datando-o e periodizando-o. Toda a confiança nas
possibilidades desse método repousava na ideia da verdade como objetivo
de distinguir a História da ficção e do romance histórico, que não buscavam
o relato dos fatos verdadeiramente ocorridos, onde o passado é apenas um
contexto de uma ação imaginada de personagens, sem correspondência a
nada real, que é algo imprescindível na História. A verdade, portanto, seria
a correspondência, a adequação entre as propostas cientificamente
formuladas e apresentadas pelo sujeito do conhecimento e o objeto real
descoberto pela pesquisa empírica. Nenhuma hipótese explicativa ou
descritiva poderia desviar do confronto com os fatos. Para obter a verdade
era imprescindível a autenticidade das fontes, a sua análise correta e a
seleção dos fatos relevantes. Nesse ponto específico, ela compartilha uma
das regras do Positivismo, seu contemporâneo, que prega a neutralidade
do saber como esvaziamento da subjetividade do cientista.
Nesse sentido, a reivindicação de autonomia da História dirige-se às
Ciências Sociais, que se afirmaram paralelamente durante o século XIX.
Embora possam estudar a mesma matéria, o cientista social considera o
fato como instância, exemplo de lei ou regra geral que é seu verdadeiro
objeto e objetivo (universalidade); o historiador considera mais no seu
caráter único, na sua singularidade absoluta. enquanto aquele integra mais
facilmente sua pesquisa empírica com a teorização prévia e posterior, este
não pode e não deve fazê-lo: além da distorção mencionada, teorizar,
inscrever seu objeto num sistema geral de leis não seria a finalidade do
historiador. Ele deveria ser neutro, inclusive em relação às teorias sociais, e
partir de suas fontes, como as de dados, informação imediata que ele não
constrói, matéria-prima que aceita uma vez assegurado de sua
autenticidade, que é uma das regras do Positivismo, na qual é bem
representada na frase de Leopold von Ranke, contar a história “como ela
aconteceu”. Não cabe ao historiador realizar nenhum juízo de fato ou valor,
apenas relatar os fatos na forma cronológica que aconteceu, sem ser
subjetivo. O papel do historiador é desenvolver a criticidade e mostrar as
possibilidades de melhoramentos no presente através do passado, é
estudar o ser humano e suas ações no tempo e no espaço, analisando os
fatos de forma contínua e metódica, furtando-se da subjetividade. A partir
dos anos de 1970, autores com Hayden White pretenderam ir além e
criticar o lema da Escola Histórica (contar a história como ela aconteceu),
por acreditarem ser impossível conhecer todos os aspectos envolvidos em
um acontecimento e deste ter objetividade isenta de interpretações
subjetivas. Contudo se um historiador não suprir sua subjetividade, pode
cometer um grave erro, que é deixar de analisar todas as perspectivas dos
fatos, pelo motivo de que essas outras fontes não atendem seus ideais,
como aconteceu na Alemanha em 1933, onde foram queimadas em praça
pública, várias obras de escritores alemães inconvenientes ao regime
nazista, pois os mesmos queriam remover tudo aquilo que era crítico ou
desviasse do padrões do regime. O historiador é o protetor, narrador e
descobridor dos acontecimentos do nosso passado, não lhe cabendo o
papel de instituidor da verdade, o mesmo relata os fatos de maneira
científica e cabe aos ouvintes realizar os seus juízos.

Referências :

GESPAN, Jorge. “Texto Considerações sobre o método”, pp.291/300, GRESPAN


(2007). IN: PINSKY,PINSKY, Carla B. (Org). Fontes históricas São Paulo:
Contexto, 2007.

SCHAFF, Adam. Histoire et verité. Tradução de Maria Paula Duarte. Livraria


Martins Fontes São Paulo, 1978.