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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

ESCOLA DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES


CURSO DE LICENCIATURA EM FILOSOFIA

BRYAN WILLIAN AXT

A PRODUÇÃO TECNOCIENTÍFICA DA MATERIALIDADE DOS CORPOS NA ERA


FARMACOPORNOGRÁFICA EM PAUL B. PRECIADO

CURITIBA
2017
BRYAN WILLIAN AXT

A PRODUÇÃO TECNOCIENTÍFICA DA MATERIALIDADE DOS CORPOS NA ERA


FARMACOPORNOGRÁFICA EM PAUL B. PRECIADO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Filosofia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná, como requisito parcial
à obtenção do título de licenciado em
Filosofia.

Orientador: Prof. Me. Mauro Pellissari

CURITIBA
2017
Dados da Catalogação na Publicação
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Sistema Integrado de Bibliotecas – SIBI/PUCPR
Biblioteca Central

Axt, Bryan Willian


A972p A produção tecnocientífica da materialidade dos corpos na era
2017 farmacopornográfica em Paul B. Preciado / Bryan Willian Axt ; orientador:
Mauro Pellissari. – 2017.
112 f. : il. ; 30 cm

TCC (Licenciatura em Filosofia) – Pontifícia Universidade Católica do


Paraná, Curitiba, 2017
Bibliografia: f. 107-112

1. Corpo humano (Filosofia). 2. Preciado, Paul B. 3. Ciência – Filosofia.


4. Tecnologia – Filosofia. I. Pellissari, Mauro. II. Pontifícia Universidade
Católica do Paraná. Escola de Educação e Humanidades. III. Título.

CDD 20. ed. – 128.6


BRYAN WILLIAN AXT

A PRODUÇÃO TECNOCIENTÍFICA DA MATERIALIDADE DOS CORPOS NA ERA


FARMACOPORNOGRÁFICA EM PAUL B. PRECIADO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Curso de Graduação em
Filosofia da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná, como requisito parcial
à obtenção do título de licenciado em
Filosofia.

COMISSÃO EXAMINADORA

_____________________________________
Prof. Me. Mauro Pellissari
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

_____________________________________
Prof. Dr. Horacio Luján Martínez
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

_____________________________________
Prof. Me. Iziquel Antonio Radvanskei
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Curitiba, ____ de ________ de 2017.


Para a minha mãe,
com amor e gratidão.
AGRADECIMENTOS

Eu não poderia agradecer a mais ninguém sem, antes, expressar o meu imenso
agradecimento para a minha mãe, que é uma mulher de grande força e energia, de
grande consciência e coração maior do que a si mesma. Obrigado a você, minha mãe,
por batalhar uma vida para que eu pudesse estar aqui hoje, para que eu pudesse ter
o privilégio de estudar em uma Universidade e, também, para que eu pudesse me
dedicar ao sonho da pesquisa e da Filosofia. Sem você nada disso teria sido possível!

Agradeço ao meu orientador nesta pesquisa, Mauro Pellissari, que desde o começo,
quando propus um projeto ambicioso, não me deixou desamparado e sempre me
incentivou, sempre foi acolhedor e amigo. Agradeço a você pelas horas de conversa
e orientação, agradeço também por ter abraçado a esta pesquisa, por ter aberto o
espaço necessário para que tomasse vida e forma, para que eu pudesse trabalhar e
fazer desse processo a experiência que eu sempre desejei e visualizei.

Agradeço ao Horacio Luján Martínez por todo o auxílio e pelas oportunidades. Muito
obrigado por ter me guiado entre inúmeras e infindáveis reflexões e por ser o amigo
que é. Obrigado por tantos momentos frutíferos, por todos os ensinamentos e suporte,
pelas propostas mais loucas, por trabalharmos contra o tempo. Um brinde em nome
da continuidade de nossas projeções!

Agradeço mais que especialmente ao Martín Adrian de Mauro Rucovsky. Nós nos
conhecemos de um modo muito interessante, quase que por acidente, e mesmo assim
você me ofereceu acolhida calorosa, com a sua agradável companhia e amizade;
obrigado por dedicar a sua atenção e tempo, assim como a sua orientação, entre
conversas e video chamadas, que independentes da distância sempre envolventes e
significativas. Obrigado por me incentivar, por fazer parte dos planos futuros, por
disponibilizar materiais e pelo abrir de muitas portas. Agradeço também a honra de
ser referenciado em seu seminário Materialidad del género, sexualidad del cuerpo: de
la diferencia sexual a la producción semiotécnica de las prótesis sexuales (Puebla,
México, 2017). Obrigado por tudo!
Agradeço especialmente, também, ao Paul B. Preciado, e não apenas por sua
genialidade e trabalho, que tornaram possível emergir os problemas dos quais
tratamos, mas também, ciente desta pesquisa, por ter colaborado com os projetos-
filhos que tomam forma a partir da pesquisa que aqui se apresentará e que terão a
continuidade no horizonte de nossas práticas.

Agradeço do fundo do meu coração aos meus amigos, que eu amo com toda e cada
fibra do meu corpo, nos sete reinos, e além. Agradeço a vocês: Camila (preguicila),
Cinthia, Hugo, Leonardo Prestes, Carlos Tiago, pois sem vocês, sem cada um e suas
particularidades, eu não seria eu, não seria o mesmo. Obrigado por todas as risadas,
por todas as lágrimas compartilhadas. Obrigado por sermos essa irmandade, essa
família a qual muito estimo. Obrigado por estarem comigo quando precisei.

Agradeço ao Francisco, para que quando ele for mais velho possa ler e ter a certeza
de que fez o dindo relembrar a maravilha da vida e de que me levou a crer mais
intensamente na força que nos une a todos.

Agradeço ao Leonardo Torres, amigo eterno e irmão, de tantos anos, pois o estimo
como a mim mesmo, assim como o Denilson, Lucas, Sheurily, Juliana, Raíssa e Maria
pela força que temos juntos, pelo nosso grupo que se mantém mesmo após anos.
Obrigado por serem um ponto de equilíbrio, de segurança, espaço ao qual todos
podemos confortavelmente ser o que e quem somos.

Agradeço ao Alexis Kevin Santos e ao Fabrício Vilela por termos, juntos, criado o
espaço virtual chamado Grupo brasileiro de discussões e compartilhamento de
pesquisas em Paul B. Preciado (2017). Que tenhamos muitos resultados positivos!

Agradeço a estas queridas pessoas pela amizade, companheirismo, amor e carinho:


André, Arion, Bruna, Bruno, Eliane, Hygor Balthazar, Helen, Hiroshi, Israel, Inaê, Joda,
J.T.C, Lucas Henrique, Luiza, Letícia, Maike, Marcos Baccarini, Marilise Monteiro,
Nathaly, Paula, Rafaela, Raian, Regina, Thiago Casarin, Tamiris. Um salve especial
para o nosso mestre dos magos, Geovani Moretto, assim como para os professores
Eladio Craia, Carlos Renato, Darli, Cesar, Ericson, Jelson e a todos os demais amigos,
amigas, colegas e pessoas que direta ou indiretamente colaboraram de alguma forma.
“We’re plastic, but we still have fun”.
– Lady Gaga
RESUMO

O que é o corpo? Como o corpo se tornou, em nossos dias, um objeto de investigação


filosófica? Haveria, ainda, algo impensado sobre o corpo? Na presente investigação
buscamos responder, em alguma medida, a estas inquietações a partir de uma
perspectiva histórica, social, política e filosófica. Neste cenário, nos apoiamos nas
interlocuções de Paul B. Preciado (1970), filósofo espanhol, que defenderá a invenção
teórica e material dos corpos a partir, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial. À luz
de pessoas como Wittgenstein, Deleuze, Foucault, Butler e Wittig, Preciado
reformulará o giro linguístico de modo a evidenciar dois níveis de produção da
materialidade dos corpos, sendo o primeiro por meio do Discurso e da
Performatividade e o segundo, defende, em que o Poder se articula, circula através
do Discurso, devém-carne e corpo por meio de técnicas de subjetivação e das
incorporações prostéticas. Uma vez que identificamos a existência de um nível
microfísico e molecular de produção da materialidade dos corpos, através do que
Preciado chama de prótese, buscamos investigar o que são as próteses e os
mecanismos pelos quais se dá a incorporação. Desse modo, as nossas reflexões têm,
como horizonte e objetivo geral, a intenção de evidenciar e demonstrar as implicações
da produção tecnocientífica da materialidade dos corpos a partir das mutações do
capitalismo, em forma daquilo que Preciado denomina como a era
farmacopornográfica. Como objetivos específicos, começaremos por (1) identificar a
noção de corpo a qual se refere Preciado, refazendo os seus passos para (2)
investigar em seus escritos por quais razões o autor dá ênfase ao desenvolvimento
tecnológico e como e por quais processos se dá a produção da materialidade sexuada
dos corpos de acordo com a tecnociência. A seguir, iremos (3) avaliar as implicações
atuais da tecnociência a partir do regime farmacopornográfico de produção
hegemônica de corpos. Para atender aos objetivos específicos, trilharemos uma
reflexão analítica e bibliográfica, com base no que já foi colocado em evidência em
materiais publicados; alinhados com uma proposta metodológica inspirada em
Preciado, trabalharemos com uma metodologia cartográfica, sendo a principal técnica
utilizada por nós para organizar as obras e os escritos de Preciado em um corpus
teórico buscando um fio condutor para conciliar o trabalho do autor com a nossa
proposta de investigação. Observamos, enfim, que a produção da materialidade dos
corpos, uma vez planificada, se trata das incursões tecnocientíficas e
farmacopornográficas para assegurar na sociedade ocidental a atmosfera necessária
para o consumo que, por sua vez, operacionaliza as práticas de produção dos corpos.
Em outras palavras, garantem a inscrição na carne e no corpo do caráter discursivo-
performativo do Poder. Isto é, a todo o tempo estamos transitando entre ambas as
dimensões e até mesmo as dividimos por razões metodológicas e analíticas, mas na
prática, no dia a dia, atuam em conjunto, condicionais uma a outra. Tratamos do devir-
carne por meio da produção combinada de discursos e de matéria em um mesmo
corpo, fazendo com que todo gesto performativo seja matéria e que toda matéria
também seja performativa.

Palavras-chave: Tecnociência. A materialidade dos corpos. Farmacopornografia.


ABSTRACT

What is the body? And how it became nowadays an object of philosophical


investigation? Was there still something unthought about the body? In this investigation
we seek to respond, in some way, to these concerns from a historical, social, political
and philosophical perspective. In this scenario, we seek to rely on Paul B. Preciado
interlocutions (1970), a spanish philosopher that defend the theoretical and the
material invention of bodies, especially from the Second World War. In the light of
people like Wittgenstein, Deleuze, Foucault, Butler and Wittig, Preciado reformulate
the linguistic turn to evidenciate two levels of production of the materiality of the bodies.
The first level is through Discourse and Performativity. The second level, where the
Power articulates itself and rotate through the Discourse, here is when it becomes flesh
and body by technics of subjectivation and the prosthetic incorporations. As we identify
the existence of a microphisic and molecular level of materiality production of the
bodies through what Preciado calls Prosthesis, we investigate what is the prosthesis
and what are the mechanisms by which the incorporation is done. Our reflections has
as an general objetive the intention of evidence and demonstrate the implications of
technoscientific production of the materiality of the bodies from the capitalism
mutations in what Preciado calls of pharmacopornographic era. As specific objectives,
we start to (1) identify the body notion in Preciado’s view, remaking his steps to (2)
investigate in his writings why he emphazises the technologic development and by
wich kind of process the production of sexed materiality of bodies happen by
technoscience. Next, we will (3) evaluate the current implications of technoscience
from the pharmacopornographic regime of hegemonic production of bodies. To attend
the specific objectives, we will tread a analytical and bibliographic reflection, based on
what has already been highlighted in published materials; aligned with a
methodological proposal inspired by Preciado, we will work with a cartographic
methodology, being the main technique used by us to organize the works and writings
of Preciado in a theoretical corpus to search for a guiding thread to reconcile the work
of the author with our proposal of investigation. Finally, we observe that the production
of the materiality of the bodies, once planned, deals with the technoscientific and
pharmacopornographic incursions to ensure in Western society the necessary
atmosphere for the consumption, in turn, operationalized to the practices of production
of the bodies. In other words, they guarantee the inscription in the flesh and in the body
of the discursive-performative character of Power. That is, at all times we are moving
between both dimensions and even divide them for methodological and analytical
reasons, but in practice, on a daily basis, they act together, conditional on each other.
We deal with the becoming-flesh through the combined production of discourses and
matter in the same body, making every performative gesture a matter and making that
every matter is performative as well.

Keywords: Technoscience. The materiality of bodies. Pharmacopornography.


RESUMEN

¿Qué es el cuerpo? ¿Cómo el cuerpo se ha convertido, en nuestros días, en un objeto


de investigación filosófica? ¿Habría todavía algo impensado sobre el cuerpo? En la
presente investigación buscamos responder, en alguna medida, a estas inquietudes
desde una perspectiva histórica, social, política y filosófica. En este escenario nos
apoyamos en las interlocuciones de Paul B. Preciado (1970), que defenderá la
invención teórica y material de los cuerpos a partir, sobre todo, de la Segunda Guerra
Mundial. Preciado reformulará el giro lingüístico para evidenciar dos niveles de
producción de la materialidad de los cuerpos: el primero, por medio del Discurso y de
la Performatividad y, segundo, en que el Poder se articula, circula y se hace carne y
cuerpo por medio de técnicas de subjetivación y de las incorporaciones prostéticas.
Una vez que identificamos la existencia de un nivel microfísico y molecular de
producción de la materialidad de los cuerpos, buscamos investigar lo que son las
prótesis y los mecanismos por los cuales se da la incorporación. De ese modo,
nuestras reflexiones tienen como horizonte y objetivo general la intención de
evidenciar las implicaciones de la producción tecnocientífica de los cuerpos a partir de
las mutaciones del capitalismo en forma de lo que Preciado denomina como la era
farmacopornográfica. Como objetivos específicos, comenzaremos por (1) identificar la
noción de cuerpo a que se refiere Preciado, volviendo sobre sus pasos (2) para
investigar en sus escritos por qué razones el autor da énfasis al desarrollo tecnológico,
cómo y mediante qué proceso se lleva a cabo la producción del cuerpo de acuerdo
con la tecnociencia. Siguiendo este razonamiento, vamos (3) a evaluar las
implicaciones actuales de la tecnociencia a partir del régimen farmacopornográfico de
producción hegemónica de cuerpos. Para atender a los objetivos específicos vamos
a trillar una reflexión analítica y bibliográfica, con base en lo que ya se ha puesto en
evidencia en materiales publicados; alineados con una propuesta metodológica
inspirada en Preciado, trabajaremos con una metodología cartográfica, siendo la
principal técnica utilizada por nosotros para organizar los escritos de Preciado en un
corpus teórico buscando un hilo conductor para conciliar el trabajo del autor con
nuestra propuesta de investigación. En efecto, observamos que la producción de la
materialidad de los cuerpos, una vez planificada, se trata de las incursiones
tecnocientíficas y farmacológicas para asegurar en la sociedad occidental la atmósfera
necesaria para el consumo en que, a su vez, operacionaliza a las prácticas de
producción de los cuerpos. En otras palabras, garantizan la inscripción en la carne y
en el cuerpo del carácter discursivo-performativo del Poder. Es decir, en todo tiempo
estamos transitando entre ambas dimensiones e incluso las dividimos por razones
metodológicas y analíticas, pero en la práctica, en el día a día, actúan en conjunto,
condicional una a otra. Tratamos del devenir-carne por medio de la producción
combinada de los discursos y de la materia en un mismo cuerpo, haciendo con que
todo gesto performativo sea materia y que toda materia sea también performativa.

Palabras clave: Tecnociencia. La materialidad de los cuerpos. Farmacopornografía.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 - Die Puppe (The Doll)................................................................................. 59


Figura 2 - Sony’s Smart Contact Lenses. .................................................................. 62
Figura 3 - Ear on Arm: engineering internet organ. ................................................... 63
Figura 4 - A nova biônica que nos permite correr, escalar e dançar. ........................ 64
Figura 5 - Your Own Personal Slaves ....................................................................... 72
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 12

2 CARTOGRAFIAS DA HISTÓRIA DO CORPO ...................................................... 20

2.1 FOUCAULT HIGH-TECH .............................................................................. 21

2.1.1 O Poder, o Direito e a Verdade ............................................................... 22

2.1.2 “Era uma vez um corpo dócil...” ............................................................ 26

2.2 O CORPO ESTRANHO POR JUDITH BUTLER ........................................... 33

2.3 A TRANSIÇÃO DA CIÊNCIA CLÁSSICA PARA A TECNOCIÊNCIA ........... 40

3 A INDUSTRIALIZAÇÃO DO TECNOCORPO ....................................................... 49

3.1 A PRÓTESE DE PRECIADO: ENVYING THE ADDICTED FRANKENSTEIN'S


MONSTER .......................................................................................................... 54

3.1.1 As super lentes de contato da Sony...................................................... 62

3.1.2 Stelarc ...................................................................................................... 63

3.1.3 “Let us run” ............................................................................................. 63

3.1.4 Frankenstein surgery .............................................................................. 64

3.2 AS FARMACOPOLÍTICAS EM ASCENSÃO NO SÉCULO XX E XXI .......... 65

4 TECNOLOGIA IN-CORPORADA .......................................................................... 76

4.1 A ERA FARMACOPORNOGRÁFICA ........................................................... 79

4.2 DE COMO RESISTIR A PARTIR DO CORPO EM QUE A DISCIPLINA HABITA


E DA RAZÃO PELA QUAL TUDO O QUE VAI, VOLTA ..................................... 87

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 98

REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 107


12

1 INTRODUÇÃO

“Como cuerpo, y ese es el único interés de ser sujeto-cuerpo, de ser un sistema tecnovivo, soy
la plataforma que hace posible la materialización de la imaginación política”.

– Paul B. Preciado, Testo Yonqui (2015a).

É certo dizer que no decurso do tempo e da história há problemas que são


propostos, elaborados e resolvidos, mas, é certo também dizer que todo problema,
em algum momento, por alguma razão, pode ser revisitado. Uma palavra, um conceito
ou um corpus teórico podem se desvelar problemáticos diante de uma nova
perspectiva e então culminar em um novo resultado. Os problemas ameaçam nos
colocar em apuros, incomodam e nem sempre os seus resultados são bem-vindos,
principalmente quando questionam uma ordem vigente. Entretanto, os problemas nos
incumbem a um exercício de constante aperfeiçoamento de nós mesmos, para que
saibamos criar e produzir com maior exatidão diante a uma demanda, e, às vezes, a
demanda é resistir a ausência de problemas que tentam nos impor. De uma forma ou
de outra, os problemas reservam em si um peculiar potencial revolucionário1. O nosso
corpo, veículo do qual nos valemos para viver e para cotidianamente realizar as
nossas ações, que nos permite interagir com outros corpos e que já recebeu
definições em diversas áreas do conhecimento, inclusive sendo objeto de estudo da
Filosofia, se desvela ainda hoje um problema, com inúmeros problemas-filhos em sua
companhia, e que nos desafiam a os solucionar.
A partir de uma perspectiva estrutural das ciências humanas, pode ser
conflitante colocar o corpo como um problema, mas como tal, e diante de suas
possíveis concepções (a partir da Biologia, da Medicina, do Direito, da Estética, da
Arte, da Filosofia, da Sociologia, da Física, entre outras), buscaremos delimitar e
estabelecer um espaço para que possamos trabalhar. Dessa forma, nos
questionamos: quais são as implicações da produção, da industrialização e do
controle político-ideológico dos corpos em relação ao surgimento e ao
desenvolvimento da tecnociência a partir das atuais mutações do capitalismo? Para
responder ao nosso problema de pesquisa, buscaremos demarcar algumas das
principais conceitualizações acerca do corpo, em destaque o pensamento de Paul B.

1 Referência ao prefácio de Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade (2016), de


Judith Butler.
13

Preciado, para responder o que é e como se dá a noção de corpo a partir da produção


de discursos e saberes no Ocidente na contemporaneidade.
Em diversos momentos vamos recorrer ao auxílio das teorias e pensamentos
de pessoas como Michel Foucault, Teresa de Lauretis, Simone De Beauvoir, Monique
Wittig, Judith Butler, Bernadette Bensaude-Vincent, Yurij Castelfranchi, Javier
Echeverría, Donna Haraway, Paula Sibilia, Mauro Cabral, Anabela Rocha, Blas Radi,
Nikolas Rose, Martín Rucovsky e demais pensadoras e pensadores que colaboram
com estas reflexões.
Para quem desconhece Preciado, o apresentamos de acordo com as
informações contidas no site de seu atual trabalho, a exposição documenta 14 (2016-
2017): Preciado é filósofo, curador e ativista transgênero. É reconhecido como um dos
principais pensadores dos estudos de gênero, das políticas de identidade e da
sexualidade. Integrando o Programa Fulbright e graduando-se com honras, Preciado
obteve o título de mestre em Filosofia e em Teoria do Gênero na New School for Social
Research em Nova York, onde estudou com Agnes Heller e Jacques Derrida. O seu
doutorado teve como centralidade a Filosofia e a Teoria da Arquitetura, pela
Universidade de Princeton. O seu primeiro livro, Contra-Sexual Manifesto, publicado
primeiramente na França (2000) e em seguida na Espanha (2002), o elevou como
uma referência para os estudos das políticas de identidade, gênero e resistências
queer. Foi autor também de Testo Yonqui (2008) e Pornotopía (2010), pelo qual
recebeu o Prêmio Sade de literatura francesa. Além disso, Preciado foi chefe de
pesquisa e diretor do Programa de Estudos Independentes (PEI) no Museu de Arte
Contemporânea de Barcelona (MACBA). Atualmente se encontra como curador dos
Programas Públicos da exposição documenta 14, vivendo e trabalhando entre Atenas,
na Grécia, e Kassel, na Alemanha.
Nascido como Beatriz, em Burgos, na Espanha (1970), assim se identificou até
meados de 2010 quando, após a publicação de Testo Yonqui e de Pornotopía,
Preciado passou a se identificar enquanto Paul, em um movimento filosófico e político
de resistência. No ano de 2015, efetivamente, Preciado solicita que assim façamos
para referir-se a ele2. Desse modo, a sua inscrição biográfica, as suas publicações e

2 Ver: “A importância de chamar-se Paul” (2017d) e também em Catalunya trans (2015c, s/p), texto em
que Preciado diz, em tradução nossa: "por minha parte, eu comecei o ano pedindo aos meus amigos
mais próximos, mas também àqueles que não me conhecem, que mudem o nome feminino que me
foi atribuído ao nascimento por outro nome. Uma desconstrução, uma revolução, um salto sem rede,
outro duelo. Beatriz é Paul".
14

demais trabalhos são assinados como Paul B. Preciado, tendo inclusive ratificado na
Espanha novos documentos de registro de nascimento (agora com uma nova data:
17 nov. 2016)3 e de identificação pessoal. Portanto, para fins explicativos, de agora
em diante nos referiremos a Preciado enquanto Paul, de modo a atender o seu pedido.
Com uma sólida base teórica e ativista, algumas de suas influências vão de um
ensino jesuítico em sua educação universitária, o movimento Zapatista 4 e as ondas
Feministas. Nesta época os escritos de Foucault já se consagravam e, além destas
influências, Preciado bebeu de uma fonte anarquista espanhola que molda de maneira
diferente a sua entrada neste círculo de pensadores. Em entrevista para uma série
televisiva espanhola5, Preciado afirma que entende que hoje as práticas filosóficas
são práticas de invenção da verdade e, além disso, que precisamos nos dar conta que
esta máquina de produção da verdade (a TV, a pornografia, as escolas, igrejas e etc.)
foi criada por nós mesmos, para nos inventar. Afirma, também, que a noção de
invenção da liberdade em Foucault lhe atrai e muito, pois, como escritor, entende que
a escrita é uma das técnicas mais básicas, é uma tecnologia de invenção de nós
mesmos, de nossa subjetividade.
Neste trabalho buscaremos responder a estas e a outras questões, na medida
em que se apresentam, de acordo com três objetivos, começando por (1) identificar a
noção de corpo a qual se refere Paul B. Preciado, refazendo os seus passos para (2)
investigar em seus escritos por quais razões o autor dá ênfase ao desenvolvimento
tecnológico e como e por quais processos se dá a produção da materialidade sexuada
dos corpos de acordo com a tecnociência. A seguir, iremos (3) avaliar as implicações
atuais da tecnociência a partir do regime farmacopornográfico de produção
hegemônica de corpos. A farmacopornografia, que nos propomos a estudar, se trata
de um neologismo e também de um conceito criado por Preciado para dar nome e
forma a um novo regime pós-industrial, global e midiático, que se estabelece a partir
do discurso, da disciplina, do controle biomolecular (-fármaco), dos mecanismos de
representações semiótico-técnicos (-porno) e da produção industrial de subjetividade
sexuada.
Frente a conjuntura político-social a qual nos encontramos, buscaremos
colaborar com a apresentação de um conjunto de problemas filosóficos que se

3 Ver: entrevista El Parlamento de los cuerpos concedida a María Galindo (2017c).


4 Ver: Desprivatizar el nombre propio, deshacer la ficción individualista (2014a).
5 Ver: entrevista Pienso, luego existo, com Paul B. Preciado (2013b).
15

desenvolveram e foram evidenciados ao longo do tempo. Como um fio condutor, pelo


qual responderemos o nosso problema, percorreremos um caminho e através dele
poderemos pensar junto de pessoas que atuaram com centralidade neste debate, mas
priorizando e destacando, sobretudo, a releitura realizada por Paul B. Preciado das
teorias e apontamentos anteriores aos seus. Isto, pois, atualmente Preciado integra a
vanguarda destas reflexões, tanto no ambiente acadêmico quanto no cerne do
ativismo feminista, transfeminista e queer, englobando sem distinções as pessoas
que, de alguma forma, são deslegitimadas e violentadas pelas normas.
Em uma dimensão sociopolítica, notamos uma certa urgência em tornar público
as considerações acerca de nosso tema e problema como uma proposta de meditação
ou reflexão embasada pelos argumentos filosóficos que apresentaremos, de maneira
a aproximar a sociedade ao entendimento acerca da violência sobre os corpos, o
gênero e a integridade das pessoas humanas. Academicamente, buscaremos
contribuir para a expansão destas reflexões centradas na Filosofia Política, mas que
também dialogam com outras áreas de estudo filosófico como, por exemplo, a Teoria
do Conhecimento, a Filosofia da Ciência, a Epistemologia e a Ética. Em um campo de
pesquisa que ainda se esboça, há empecilhos que dificultam o acesso ao pensamento
de Preciado. Tendo, até o momento, apenas a tradução para o português brasileiro
de sua obra Manifesto Contrassexual (2014b, pela n-1 edições), a barreira idiomática
se ergue entre aqueles que buscam o contato com as suas teorias, e mesmo
referências, uma vez que há poucos comentadores nacionais. Dessa forma,
buscamos atentar específica e aprofundadamente às noções desenvolvidas por
Preciado ao longo de sua produção teórica, facilitando assim o acesso a uma
perspectiva e interpretação das publicações originais em espanhol, inglês e francês.
Ao longo dessa pesquisa, traduções foram realizadas para o português
brasileiro e, portanto, são de inteira responsabilidade do autor.
Para atender aos objetivos apresentados anteriormente, trilharemos uma
reflexão analítica e bibliográfica, com base no que já foi colocado em evidência em
materiais publicados como livros, artigos, periódicos e materiais digitais disponíveis
na Internet. Alinhados com uma proposta metodológica inspirada em Preciado,
trabalharemos com uma metodologia cartográfica, sendo a principal técnica utilizada
por nós para organizar as obras e os escritos de Preciado. Diferente da cartografia
tradicional (que busca traçar mapas, referências, estabelecer o espaço de um
território, traçar linhas políticas e demarcar a topografia de uma região), Preciado
16

empresta o conceito da Geografia para se valer e a estabelecer enquanto uma


cartografia social e etnográfica. Como uma ferramenta das ciências humanas e
sociais, se busca mapear os movimentos e as relações de poder, as diferentes forças
presentes nas sociedades, as lutas, os discursos e os jogos de verdade, os modos de
subjetivação e as práticas de resistência. “Esse tipo de cartografia começa por ser
uma taxonomia de identidades sexuais e de gênero” e, “aqui, o cartógrafo [...] é capaz
de registrar os movimentos das diferentes identidades sexuais e dos usos do espaço,
das práticas urbanas ou artísticas que emanam a partir delas” (PRECIADO, 2017a, p.
02).
Preciado busca, a partir do mapeamento e etnografia reflexiva do corpo,
aprofundar as discussões vigentes sobre os nossos sexos, gêneros, desejos,
percepções da realidade, percepções acerca do regime ou dos regimes coexistentes
em paralaxe e que controlam os discursos em torno do corpo, da genitalidade e da
identidade de gênero. Desse modo, ao longo do processo, nós alimentamos um
corpus teórico que foi composto pelo o que encontramos publicado ou disponível em
diferentes meios digitais. Utilizamos dos livros, artigos, entrevistas e demais
modalidades de publicações para encontrar um fio condutor que conciliasse o trabalho
do autor com a nossa proposta de investigação, uma vez que Preciado possui uma
grande influência deleuziana em sua estrutura, e que se dá de modo rizomático6, de
modo a literalmente criar um mapa de acordo com o seu corpus teórico, facilitando e
agilizando a busca por citações, referências, termos e palavras-chave.
Começaremos o primeiro capítulo da presente pesquisa com um retorno aos
escritos de Michel Foucault, em que analisaremos a sexualidade enquanto um
Dispositivo e, para isso, iremos percorrer a sua linha de pensamento de modo a
desvelar, na medida do possível, o seu entendimento acerca do Poder, do Direito e
da Verdade, frente a necessidade de fundamentar ou de estabelecer um plano de
fundo, o qual Preciado usa ao longo de suas obras e escritos. Junto e a partir de
Foucault, veremos como ocorre a produção disciplinar, a dominação e a subjetivação

6 Embora não seja o nosso intuito definir e argumentar o que é ou o que deixa de ser um rizoma,
entendemos que é importante expressar a influência e o modo como Preciado desenvolve o seu
trabalho e as suas teorias filosóficas. O rizoma, enquanto um conceito da botânica, se trata de uma
raiz, um caule subterrâneo que tem um crescimento polimorfo, diferente da “árvore cartesiana”, o
rizoma cresce horizontalmente e sem uma direção definida para fugir de uma ordem ou de uma
estrutura normativa. Filosoficamente, é um sistema aberto, uma forma de pensamento descritivo que
organiza o conhecimento e relaciona os conceitos de acordo com as circunstâncias, seguindo as
linhas de fuga. É uma maneira de pensar e de fugir de uma produção de conhecimento
compartimentada, prezando pela multiplicidade das interseções.
17

(aquilo que entendemos que somos, o que sentimentos, pensamos e o modo como
agimos) dos corpos, e, ao mesmo tempo, em que condições os corpos são
sexualizados por estas práticas. Em seguida, será possível compreender as relações
entre o exercício do Poder, a produção de verdades e das subjetividades a partir da
filósofa norte-americana Judith Butler. Em continuidade teórico-filosófica,
abordaremos a materialidade do corpo sexuado em sua dimensão linguística, de
modo a considerar o sexo e o gênero enquanto categorias discursivas para que
possamos analisar as condições em que se dá a performatividade dos gêneros aliado
a um regime heterossexual, como evidencia Butler com o auxílio de El pensamiento
heterosexual (2006), de Monique Wittig. Na segunda metade do primeiro capítulo
realizaremos uma retrospectiva a fim de entender como ocorreu a transição da ciência
“clássica” para a que chamamos de “tecnociência”, assim como veremos o que se
compreende por tecnociência de modo geral e o processo pelo qual a tecnociência
inspirou um espírito fáustico7 para se enraizar na sociedade Ocidental.
No segundo capítulo demonstraremos os passos realizados por Paul B.
Preciado para relacionar, de acordo com a sua perspectiva e definição, os efeitos e
as implicações do crescente avanço tecnocientífico e a centralidade dos corpos neste
processo. Preciado propõe a radicalização do questionamento às estruturas binárias
e à tendência cartesiana em analisar o sujeito, as relações de poder e mesmo o
discurso de acordo com binômios que se cristalizaram como, por exemplo,
natureza/cultura, corpo/alma, homem/mulher. Assim, Preciado abre um espaço em
que torna possível que revisitemos a história da Filosofia com uma perspectiva
desconstrucionista, herdada em seus estudos com Derrida, a partir da qual podemos
estabelecer perguntas-chave, tais como: o que é o corpo? Será que ainda há algo
impensado sobre o corpo? Há o que se acrescentar ao que já se conhece acerca do
corpo e da sexualidade? Em seguida, apresentaremos a formulação de um segundo
nível de produção da materialidade dos corpos que tem o seu início a partir da noção

7 A metáfora, inspirada pela obra de Marshall Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura
da modernidade (1982), se refere a um estado de ânimo ou a uma ideia predominante. O espírito
fáustico da ciência contemporânea, então, é o esforço e também o ápice de uma metáfora
mecanicista que, a partir do desenvolvimento tecnológico (a biotecnologia, nanotecnologia, robótica,
as inteligências artificiais, engenharias genéticas, cibercultura, etc.), busca pela "revelação" de um
imediatismo tecnocientífico. O propósito, como veremos, é o de estabelecer um novo estatuto às
teorias do conhecimento e à epistemologia de modo a instigar intensamente, a cada vez mais, a
apropriação ilimitada da natureza. Em relação ao corpo, entendemos como o impulso em direção a
uma relação a cada vez mais íntima entre o organismo humano e a tecnologia, em simbiose,
hibridizando o corpo a partir de técnicas de produção da materialidade dos corpos.
18

de prótese, que é uma espécie de tecnologia, da mais rudimentar (low-tech) até a mais
inovadora (high-tech), e que é empregada aos corpos como parte de um processo de
produção da materialidade física, em nível molecular. A partir daí, falaremos também
de uma reprodução em escala industrial de um modelo hegemônico, que leva o corpo
a ser redefinido em sua composição, em conceito e também em sua natureza,
hibridizado entre aquilo que é orgânico e aquilo que é tecnológico. Veremos a resposta
crítica de Preciado ao que foi formulado por Foucault e Judith Butler, assim como
demonstraremos processualmente a industrialização e a produção dos corpos de
acordo com a incorporação prostética e da instauração de uma aura de múltiplos
vícios de consumo das mesmas, que, de acordo com o pensamento de Preciado, se
dá principalmente após o avanço da tecnologia biomédica e da ascensão da indústria
farmacêutica no século XX e XXI.
No terceiro capítulo vamos nos ater a realizar uma síntese detalhada entre os
capítulos anteriores para compreender a que de fato se refere Preciado quando afirma
que vivemos em uma era farmacopornográfica, bem como avaliar as implicações e os
desdobramentos mais recentes de seu conceito. Poderemos analisar também
algumas de suas formulações que sustentam a noção de farmacopornografia, como
o farmacopornismo, a potentia gaudendi e a ditadura do gozar, como a regulação dos
fluxos de excitação-frustração, que mantêm a disciplina internalizada aos corpos.
Veremos a extensão dos efeitos das tecnologias do sexo e do gênero vinculadas às
tecnologias biomoleculares, farmacológicas e pornográficas (de representação).
Juntos e a partir de Preciado, questionaremos também a existência e as possíveis
práticas de resistência a este regime global de fabricação da realidade e dos corpos,
as conseguintes consequências de uma conversão da resistência em ferramentas
neoliberais e, então, apresentaremos questões ainda não finalizadas por Preciado,
que possibilitam que nós o analisemos com as ferramentas teórico-filosóficas
elaboradas por ele próprio.
Por fim, nas considerações finais, longe de ser conclusivo, propomos evidenciar
as questões que são respondidas, as que permanecem em aberto e as que propomos
como novos caminhos de pesquisa. Assim, realizamos um convite para que, ao longo
e ao término da presente leitura, que se exercite uma autorreflexão por parte dos
leitores. Para que questionem a si mesmos na mesma medida em que apresentamos
os nossos questionamentos, para que junto das reflexões apresentadas se busque
em si e nos outros, por meio da memória, dos sentidos, da razão, das emoções, dos
19

sentimentos, das relações, dos prazeres e das dores, das gargalhadas e das lágrimas,
a resposta para o quão somos (micro) politicamente influenciados. Para que busquem
em suas interioridades se somos quem realmente desejamos ser ou se somos apenas
um reflexo, programados para ser e agir de determinada maneira, reflexo do qual
ainda buscamos aprender em como nos diferenciar? Para que se perguntem, assim
como nós nos perguntamos: “agora, frente a tudo isso, o que esperar e o que eu posso
fazer para escapar de tão íntimo aprisionamento”?
20

2 CARTOGRAFIAS DA HISTÓRIA DO CORPO

“A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se
torne respeitável, bem como o imprimir ao vento, uma aparência de solidez”.

– George Orwell, Politics and the English Language (1968).

Frente a necessidade de aprofundamento conceitual para que seja possível


abordar a produção tecnocientífica dos corpos de acordo com a teoria de Paul B.
Preciado, neste capítulo será possível observar as principais reflexões que
antecederam ao problema que o autor ressalta. Em um primeiro momento, será
possível percorrer as teorias de Foucault para identificar qual é este corpo a que se
refere e como se pode pensá-lo em relação aos demais corpos, ao corpo social e,
também, como ocorrem as relações de poder. Em um segundo momento, a partir das
teóricas feministas Monique Wittig, Simone de Beauvoir, Teresa de Lauretis e Judith
Butler, será possível realizar um diagnóstico que, na linha de pensamento
foucaultiana, segue colocando o sexo e a sexualidade como categorias de análise
filosófica a fim de desmontar as ficções políticas normativas, ou seja, colocam em
análise a subjetividade que compõe a identidade política, sexual e de gênero das
pessoas e em como estas identidades são produzidas hegemonicamente. Com a
introdução do gênero nesta formulação, uma nova linguagem e uma nova análise da
sexualidade e das relações de poder que as circundam foi necessária para seguir
refletindo sob esta mesa de operações8 conceituais. Por último, será possível expandir
este horizonte filosófico com um olhar sobre a história da ciência clássica e em como
a mesma se torna, com o passar do tempo, em tecnociência.

8 Quando evocamos a noção de "mesa de operações", assim fazemos por algumas razões que se
diferem entre si. Podemos destacar três possíveis significados e entendimentos. O primeiro começa
com uma definição de Preciado em diálogo com Foucault, em sua obra As palavras e as coisas
(1966). Foucault já havia emprestado essa formulação de Raymond Roussel, embora não tenhamos
encontrado essa referência. No Manifesto Contrassexual (2014b, pp. 127-128), relacionado às
tecnologias do sexo, Preciado afirma que o conceito de uma 'mesa de operações' abstrata serve ao
propósito de ilustrar 1) "o recorte de certas zonas corporais como 'órgãos' que são sexuais ou não,
reprodutivos ou não, perceptivos ou não" na materialidade dos corpos. Em que também, 2) "sobre
essa mesa de dupla entrada (masculina/feminina), se define a identidade sexual, sempre e cada vez,
não a partir de dados biológicos, mas com relação a um determinado a priori anatômico-político, uma
espécie de imperativo que impõe a coerência do corpo como sexuado". E, por fim, o terceiro
entendimento a qual damos para o conceito de "mesa de operações" se refere também a uma "caixa
de ferramentas" abstrata, que nos dão meios de realizar uma operação mais complexa, relacionando
diversos conceitos, autores, acontecimentos. Se trata de uma estratégia metodológica devido as
qualidades rizomáticas e cartográficas de Preciado.
21

Dito isso, é possível começar com algumas questões pontuais como


problemas-chave e que orientarão as reflexões deste capítulo, assim como tornarão
possíveis as reflexões a seguir. Como, por exemplo, a que corpo nos referimos? De
que forma este corpo interage com os outros e com a sociedade? De que modo ocorre
uma relação entre o poder, a disciplina e os corpos? Como o poder gera alguma
verdade a partir da Medicina, do Direito, do Discurso e da Publicidade? Quais são as
intenções e a quem esta verdade privilegia? Como poderia um discurso interferir na
inteligibilidade dos corpos, materializando-se em uma verdade do sexo-gênero? E,
sobretudo, como é possível pensar o corpo hoje, em uma sociedade tecnológica,
sendo fabricado não apenas conceitualmente, mas também em sua própria carne?

2.1 FOUCAULT HIGH-TECH

Quando lhe é pedido uma fala sobre a inteligibilidade e as políticas do corpo, é


comum que Preciado resgate inúmeros acontecimentos na história, assim como na
filosofia e antropologia. Entretanto, nota-se que sempre há três pontos principais: o
corpo soberano, o corpo disciplinar e, por fim, o corpo subversivo 9, das feministas,
queer, trans, drags e afins. Sempre recorrendo ao pensamento foucaultiano, deste
modo parece correto e se torna essencial resgatar rapidamente alguns dos conceitos
mais conhecidos de Foucault e que, na medida em que a reflexão se desenvolver, se
tornarão mais claros no pensamento de Preciado. Também visando entender os
elementos levantados por Foucault, assim como a sua genealogia, é preciso explanar
alguns pontos específicos da análise acerca do Poder a qual empreende o filósofo.
Primeiramente, é possível esclarecer com o auxílio das obras de Foucault, de
modo geral, que o Poder não advém de uma fonte única, natural ou de uma instância
transcendente que parte do Rei, do Estado ou de algum ponto em direção a algo ou
alguém; o Poder é, então, como práticas discursivas e ações que estão presentes nas
diferentes camadas sociais e, logo, se materializam horizontalmente e não, como é
comumente entendido, verticalmente hierarquizadas.

9 De modo a esclarecer, aqui se entende como corpo subversivo o corpo que rompe com as
normalizações estabelecidas, executa uma série (des) ordenada de práticas revolucionárias com fins
de sustentar a dissolução de antigos paradigmas, mas também com o propósito de provocar a
reflexão.
22

Se o poder se materializa, como afirma Foucault, veremos ao longo deste


capítulo que desde o início o poder assim age e é exercido em um ou em mais de um
corpo e que o poder, como nos diz Machado acerca deste tema em Foucault:

intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos –


o seu corpo – e que se situa no nível do próprio corpo social, e não acima
dele, penetrando na vida cotidiana, e por isso pode ser caracterizado como
micropoder ou subpoder (MACHADO, 2016, p. 14).

Deste ponto de vista molecular, de micropoder, é que será trabalhada a noção


de poder sobre o corpo, de modo a identificar o exercício do poder sem partir de um
centro único, mas dos próprios corpos que formam as dimensões de um corpo social.
Para Foucault, assim como para Preciado, o poder penetrou o corpo, seja de
modo a levar o corpo soberano, materializado sob a forma de um Rei ou de um Estado,
que é direcionado para a população, de fora para dentro; ou seja penetrando o corpo
para fazê-lo disciplinado de dentro para fora. Assim, “na verdade, nada é mais
material, nada é mais físico, mais corporal que o exercício do poder” (FOUCAULT,
2016, p. 237). O poder exercido, mais especificamente sobre a sexualidade, não fora
aplicado inicialmente sobre o sexo, mas sobre o corpo mesmo, atuando sobre os
órgãos sexuais e genitais, sobre os prazeres, regulando a subjetividade
interindividual10.

2.1.1 O Poder, o Direito e a Verdade

Em Microfísica do Poder, Foucault desenvolve uma genealogia do poder e que,


ao longo de seu pensamento, com o objetivo de reformular o que tradicionalmente se
compreende por poder, questiona não "o que" é o poder, mas como se dá o mesmo,
como é produzido e aceito na sociedade. Deste modo, Foucault rejeita uma "teoria
geral do poder" já que o Poder está em constante transformação.
Na obra Em Defesa da Sociedade, Foucault definirá a tríade: o Poder, o Direito
e a Verdade, a qual servirá para compreender como o mecanismo ou a relação entre
o Poder e o Direito produzem discursos de Verdade e como, por conseguinte, os

10 A subjetividade, em Preciado, vai desde o mais simples ao mais complexo componente identitário de
um corpo como, por exemplo, das substâncias, hormônios e sexo biológico às roupagens sociais de
gênero, raça, etnia, nacionalidade. Inclui-se também as emoções e sentimentos, assim como toda a
materialidade corporal, como os órgãos “sexuais”.
23

discursos de Verdade regram as leis do Direito que delimitam o Poder, o expandem,


conduzem e o reconduzem.
Para Foucault (2016, p. 281), é na Idade Média que a Teoria do Direito “tem
essencialmente o papel de fixar a legitimidade do poder”, organizar o discurso e de
fato concretizar a dominação da soberania. Estes poderes, nesta época da história,
estão ligados ao desenvolvimento das grandes instituições como a Monarquia e o
Estado, assim como a “dominação direta ou indireta sobre a terra, à posse das armas,
à servidão, aos laços de suserania e vassalagem” (FOUCAULT, 2015, p. 95). Foucault
ainda ressalta que no século XIX as críticas que surgem ao Direito servem não apenas
para denunciar a soberania, mas também o próprio sistema do Direito que nada mais
era do que “uma maneira de exercer a violência, de anexá-la em proveito de alguns e
fazer funcionar, sobre a aparência da lei geral, as dissimetrias e injustiças de uma
dominação” (FOUCAULT, 2015, p. 97).
Logo, pode-se compreender que o poder soberano é aquele que está
concentrado em uma figura, seja a do Rei ou a do Estado, mas em um único corpo,
ao qual está concedido o poder em forma de Direito para ordenar, decidir, atuar, fazer
obedecer a sua autoridade. É um poder que, como dito, é exercido por um indivíduo
sobre o outro, sujeitando inteiramente as populações ao seu direito natural de
soberano, este que foi desenvolvido por influência da Teoria do Direito, assim como
pela influência do cristianismo primitivo, no qual o corpo soberano era habitado pelo
poder teocrático, que além de gerar um “corpo para a morte”, nas palavras de Preciado
(2011b, s/p)11, justificava ao Rei ou ao Estado um direito natural de controle sobre a
vida.
Preciado, durante o seminário Cuerpo Impropio. Guia de modelos
somatopolíticos y de sus posibles usos desviados (2011b, s/p), entende que o corpo
soberano é, também, fundamentalmente, um corpo masculino, ao qual se define pelo
pênis bem desenvolvido e completamente visível externamente (pois, de fato, em
sociedades pré-modernas, compreendia-se a vagina como um pênis interno, logo, a
vagina ainda não existia como a conhecemos hoje). Então, a emancipação teológica,
assim como a Teoria do Direito, concedia à figura do Rei o poder de decidir o Direito

11 A transcrição do seminário “Cuerpo Impropio. Guia de modelos somatopolíticos y de sus posibles


usos desviados” (2011) está publicado no corpo de texto do site da Universidade Internacional de
Andalucía, portanto não possui referência de número de página. Ao longo do texto será utilizado o
modelo “s/p” (sem página) para quando houver menção ou citação do mesmo.
24

sobre a vida e sobre a morte de seus súditos, assim como, em menor escala,
micropolítica, este poder soberano era concedido a figura do pater familias, o pai da
família, que era visto como um rei de sua própria casa, capaz de naturalmente decidir
sobre a vida e a morte de sua esposa e filhos.
Preciado, durante o mesmo seminário, deixa claro que o regime soberano é de
natureza teológica, em que a verdade não é alcançada por um consenso, mas
“revelada”, em que o poder se concentra e se inscreve na genitalidade masculina,
tornando a soberania algo monossexual (ou de um só sexo).
Desta forma, ao longo dos séculos, o sexo se tornou e foi sendo produzido
como um discurso de verdade, em que a dominação masculina predominava. O sexo
foi construído historicamente para servir como uma sustentação mútua entre a Teoria
do Direito, a soberania (justificada pelo Direito) e o discurso de verdade, assim, tomou
também corpo, um corpo masculino:

o importante é que o sexo não tenha sido somente objeto de sensação e de


prazer, de lei ou de interdição, mas também de verdade e falsidade, que a
verdade do sexo tenha se tornado coisa essencial, útil ou perigosa, preciosa
ou temida; em suma, que o sexo tenha sido constituído em objeto de verdade
(FOUCAULT, 2015, p. 63).

Como objeto de um saber da Verdade, o sexo, então, se torna visado nas


relações de poder e a sexualidade não é mais um elemento rígido, mas sim
amplamente utilizável e de maior instrumentalidade, que serve de apoio para a
articulação de diversas estratégias e manobras de controle da vida e do corpo. A partir
do século XVII e XVIII a classe burguesa, capitalista ou industrial irá intensificar a
produção discursiva da verdade sobre o sexo, almejando uma economia do prazer,
ou ainda um regime ordenado de saber em que houvesse uma onipresença do poder;
que o poder fosse organizado e agrupado de modo a se produzir a cada instante, de
indivíduo para indivíduo.
Este é o momento de transição e a grande diferença entre o poder soberano e
o poder disciplinar, pois um se dá a partir de um único ponto, sobre a vida de toda a
população (soberano), e o outro exerce poder de sujeito para sujeito, assim como
sobre o que fazem e como agem, até sobre o tempo e o trabalho (disciplinar).
A partir daqui é possível diferenciar o poder soberano do poder disciplinar,
assim como apontar os efeitos do poder disciplinar sobre os corpos, pois com o
25

desenvolvimento desta nova técnica, o poder busca reger a multiplicidade dos


indivíduos a ponto de que os corpos sejam vigiados, treinados, utilizados e punidos.
O poder soberano nunca deixou de estar presente, nem com a identificação
desta nova modalidade de poder, o poder disciplinar. Então, a medida em que os
indivíduos já eram controlados em seus processos de nascimento, morte, reprodução,
a tomada de poder sobre o corpo é atenuada com uma individualização massificante
que se instaura ao longo do século XVIII e, por meio das políticas dos corpos ou
anatomopolíticas12, as quais Foucault chamam de “uma ‘biopolítica’13 da espécie
humana” (FOUCAULT, 2005, p. 289).
Roberto Machado, em comentário sobre Foucault, compreende que os
objetivos dos poderes disciplinares estão voltados em “diminuir os inconvenientes, os
perigos políticos; em aumentar a força econômica e diminuir a força política”
(MACHADO, 2016, p. 20) dos corpos das pessoas de modo a gerir a vida destas, suas
atividades e a sua utilidade por meio de métodos, técnicas de controle e mecanismos
para minuciosamente operar sobre os corpos e assegurar a sujeição de forças
constantes, descentralizadas, com o intuito de docilizar e garantir a usabilidade destes
corpos em função de uma ideologia; e que, “enfim, fabrica o tipo de homem necessário
ao funcionamento e à manutenção da sociedade industrial, capitalista” (MACHADO,
2016, p. 22).
Desta forma, historicamente, são constructos sociais e discursos em vigência
o que definem, inscrevem e delimitam o corpo, as categorias de homem, mulher e a
própria noção de sexo biológico, enquanto práticas sexuais, como também o que mais
tarde foi chamado de Identidade de Gênero:

o adestramento do corpo, o aprendizado do gesto, a regulação do


comportamento, a normalização do prazer, a interpretação do discurso, com
o objetivo de separar, comparar, distribuir, avaliar, hierarquizar, tudo isso faz
com que apareça pela primeira vez na história esta figura singular,

12 O conceito de anatomopolíticas é desenvolvido ao longo dos textos de Foucault e são compreendidas


como os mecanismos disciplinares de controle sobre os corpos, como uma "fórmula" de
adestramento, distribuição espacial, regulação temporal, da eficiência e obediência dos corpos. A
noção de anatomopolítica é relida por Paul Preciado como somatopolítica (2011b, s/p), ou a política
dos corpos. Compreende-se também, tanto uma quanto a outra, como uma área de estudo sobre o
corpo e a atuação destes mecanismos sobre o mesmo.
13 De modo a esclarecer, a biopolítica é toda prática de poder e também o seu impacto sobre a vida,

incluindo, além das regulações dos corpos (como no caso da higiene pública), a intensa regulação
do aborto e da eutanásia, dos espaços arquitetônicos, da demografia, legislações de prevenção e
segurança e demais fenômenos políticos atuais.
26

individualizada – o homem – como produção do poder. Mas também, e ao


mesmo tempo, como objeto de saber (MACHADO, 2016, p. 26).

Roberto Machado reitera o que Foucault afirma ao longo de suas análises sobre
o poder, dizendo que o poder disciplinar, embora embasado no poder soberano, não
mais deveria ser interpretado nos moldes da soberania, uma vez que possui as suas
singularidades e, também, por ter se tornado um instrumento fundamental para a
ascensão da sociedade capitalista-industrial como uma das grandes invenções da
sociedade burguesa.
Esta invenção só se tornou possível por meio de um meticuloso controle dos
discursos presentes e intrínsecos às ciências humanas, como em uma justaposição
destas áreas que, cruzadas, se tornam um grande mecanismo de produção de
discursos heterogêneos em que, nas palavras de Foucault, há de um lado a
organização do Direito em torno de um soberano e, de outro, este mecanismo de
coerção disciplinar (FOUCAULT, 2016, p. 294).
Não havendo, como dito anteriormente, uma substituição completa de um
modelo e uma sociedade soberana para um modelo e uma sociedade disciplinar, o
que se pode afirmar, certamente, é que o alvo principal de ambas as formas de poder
é, seja separadamente ou intercruzadas, a produção de mecanismos essenciais para
o governo da população.
A inscrição destes mecanismos nos corpos acarreta uma mudança na forma
de entender e representar o corpo, então “há uma alteração dos códigos jurídicos e
dos discursos de verdade médico-científicos que se convertem no centro de uma
intensa batalha biopolítica que ainda perdura” (PRECIADO, 2011, s/p) até os dias
atuais.

2.1.2 “Era uma vez um corpo dócil...”

Se anteriormente, para abordar o poder, foi necessário pensá-lo de modo um


tanto quanto abstrato, descentralizado e ainda incorpóreo, agora, a partir da obra
Vigiar e Punir, é possível pensar com maior precisão a ação do poder sobre o corpo,
no formato da disciplina. Segundo o autor, após a descoberta do corpo como um
objeto e alvo do poder, que se pode manipular, modelar, treinar para que se obedeça,
responda, se torne hábil e útil, o interesse sobre o corpo e sua força se multiplicou
27

intensamente em busca de um corpo que possa ser submetido, utilizado,


transformado e aperfeiçoado em virtude de algo.
Foucault (2013, p. 133) classifica como disciplina as operações de controle dos
corpos que sujeitam constantemente os indivíduos a uma docilidade e a uma utilidade,
nesta ordem ou inversamente, e que além de docilizar, este método permite o
aumento das habilidades corporais, levando a uma grande aproximação com a força
de trabalho. O autor também afirma, em seguida, na mesma obra (pp. 133-134), que
esta mecânica do poder define:

como é possível ter domínio sobre os corpos dos outros, não simplesmente
para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as
técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica
assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. A disciplina aumenta
as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas
mesmas forças (em termos políticos de obediência).

As instituições disciplinares como as escolas, os hospitais, os manicômios,


tribunais, prisões e etc. comparam, diferenciam, hierarquizam, hegemonizam,
excluem e, por fim, normalizam. Assim:

o indivíduo é sem dúvida o átomo fictício de uma representação “ideológica”


da sociedade; mas é também uma realidade fabricada por essa tecnologia
específica de poder que se chama a “disciplina”. Temos que deixar de
descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele “exclui”,
“reprime”, “recalca”, “censura”, “abstrai”, “mascara”, “esconde”. Na verdade,
o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais de
verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam
nessa produção (FOUCAULT, 2013, p. 185)

A busca pela disciplina, docilidade e utilidade levam a elaboração de


mecanismos que facilitassem a inspeção e o policiamento espacial dos locais em qual
os corpos deveriam, sobretudo, obedecer e produzir. Um exemplo claro, apresentado
por Foucault, é o Panóptico14 de Jeremy Bentham15, um modelo de organização
político-arquitetônico-industrial e que mais tarde será importado e aplicado também
aos modelos arquitetônicos dos hospitais, hospícios e escolas.

14 Paul B. Preciado escreve em Testo Yonqui (2015, p. 132), e em tradução nossa, que “o panóptico,
recordemos, aparece primeiro como um modelo de arquitetura industrial (e não carcerária) inventado
pelo engenheiro naval Samuel Bentham, irmão do filósofo Jeremy Bentham, em 1786 respondendo
a um pedido do príncipe russo Grigori Potemkin. Se tratava de uma "casa de inspeção" industrial
desenhada para maximizar a vigilância, o controle e a educação dos trabalhadores de uma cidade-
fábrica”.
15 Jeremy Bentham (1748-1832) foi um filósofo, economista, jurista, fundador do utilitarismo e um dos

maiores difusores das ideias que deram origem e forma ao liberalismo clássico, que caracterizou a
economia do século XIX.
28

Pensado para ser uma casa de segurança e desenhado para maximizar a


vigilância e o controle, o panóptico se dá em estrutura no formato de um anel ou mais,
sendo que no centro de cada anel deverá se erguer uma torre com grandes janelas
que se abrem para a face interna do anel, esta que, de modo a estabelecer a
hierarquização da vigilância, está estruturada com celas periféricas; cada cela possui
duas janelas, uma de frente para a grande janela da torre de segurança e a outra para
o exterior do panóptico. Nas palavras de Foucault, a princípio, o sistema do panóptico
é como uma masmorra, porém invertida, em que das três funções da masmorra
(trancar, privar da luz e esconder), só se utiliza a primeira, suprimindo as outras duas.
Isto, pois, conservando a luz e a visibilidade, pode-se levar àquele que está
trancafiado a um estado de constante autovigilância e disciplina. “Daí o efeito mais
importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de
visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder” (FOUCAULT, 2013,
p. 191).
Utiliza-se até hoje a leitura e análise foucaultiana do Panóptico de Bentham
para exemplificar os mecanismos sociais disciplinares, em que este aparelho
arquitetônico é, na verdade, uma máquina para criar e sustentar o exercício e as
relações de poder, independente de quem o exerce. Baseado em duas regras: ser
visível e inverificável, o panóptico causa seja no detento, seja nos demais corpos, o
efeito de ser observado sem jamais ser possível saber, mas sempre tendo a certeza
de que se está sendo observado, ou que pelo menos o pode sê-lo.
“O Panóptico é uma máquina maravilhosa que, a partir dos desejos mais
diversos, fabrica efeitos homogêneos de poder” (FOUCAULT, 2013, p. 192) e, deste
modo, não mais é “necessário recorrer à força para obrigar o condenado ao bom
comportamento, o louco à calma, o operário ao trabalho, o escolar à aplicação, o
doente à observância das receitas” (FOUCAULT, 2013, p. 192).
Bentham sonhava com sociedades utópicas em que o modelo de seu panóptico
se estenderia de modo a tornar absolutamente fácil encarcerar, disciplinar, corrigir,
treinar e reeducar os indivíduos, se desejado. O que faz do panóptico, também, um
grande laboratório do poder, pois ”graças a seus mecanismos de observação, ganha
em eficácia e em capacidade de penetração no comportamento dos homens: um
aumento de saber vem se implantar em todas as frentes do poder” (FOUCAULT, 2013,
p. 193). E, independente de quem exerça o poder, faz com que a disciplina se erga
na sociedade como a grande torre de vigilância do panóptico, tornando não apenas
29

possível, mas facilmente empregável o uso das tecnologias industriais e econômicas,


assim como os demais mecanismos de controle; assim, se inscrevem nos corpos
individualmente, criando um micropoder panóptico de indivíduo para indivíduo: o outro
é para o sujeito como a torre de vigilância e o sujeito é para si a sua própria cela e
grilhões; vice-e-versa, infindável e sucessivamente.
As passagens acima são interessantes para compreender a estruturação do
pensamento de Paul B. Preciado em relação ao corpo, como também em relação as
demais noções que serão apresentadas nesta pesquisa. Com enorme influência
foucaultiana, Preciado dará seguimento ao seu posicionamento de que é preciso
deixar de interpretar o corpo, o sexo, a sexualidade e toda a sua amplitude como
meras armas de docilização, pois sim, docilizam, mas além disso, as pessoas são
docilizadas para se tornarem úteis em função de algo.
A disciplina fabrica um corpo, produz o efeito e a categoria homem/mulher, em
que o poder visa produzir uma realidade, e para isso é preciso de potencial
reprodutivo. A partir de agora toda menção à docilização e/ou controle pode ser
compreendida também como organização e reorganização deste potencial de criação,
produção e reprodução.
Em História da Sexualidade: vontade de saber, o primeiro volume dos três que
Foucault pôde escrever, questiona-se justamente se na história da sexualidade é
possível compreendê-la sob outra ótica além da repressiva. Logo nas primeiras
páginas, destaca que a sexualidade nunca foi tão dominada como a burguesia se
empenha em fazer, sobretudo ao produzir tantos discursos de verdade sobre o sexo,
a ponto de empreender o sexo, a lei e assim o futuro.
Este discurso deve ser lido como um plano real de dominação que, em primeiro
lugar, segundo Foucault, foi preciso reduzir o sexo e a sexualidade ao nível da
linguagem a fim de "controlar sua livre circulação no discurso, bani-los das coisas ditas
e extinguir as palavras que os tornam presentes de maneira demasiado sensível”
(FOUCAULT, 2015, p. 19). Na mesma obra, Foucault exemplifica, a partir da Idade
Média, que o sexo e a sexualidade eram práticas estritamente destinadas à
reprodução que, por sua vez, era apenas permitida pelo poder soberano e teocrático
nas dependências dos aposentos do esposo e de sua mulher. Por isso o autor inicia
afirmando que o discurso intendia banir o dito e o não dito, pois censurava o sexo.
Essencialmente, após a mutação do poder soberano ao poder disciplinar, a
burguesia se viu diante de um tabu, mas que justamente por isso despertava nas
30

pessoas de todas as idades a curiosidade; logo, se intensificou uma incitação


praticamente institucionalizada e justificada através do mecanismo médico-jurídico, ou
seja, as principais instituições à época buscaram entender o sexo, teorizar sobre ele,
produzir saber e, com isso, uma verdade. A medicina, muito presente desde os
primórdios, buscou entender a anatomia do corpo e, baseando-se nas diferenças,
instaurou uma verdade sobre o corpo masculino (testosterona; pênis; dominação) e
sobre o corpo feminino (estrógeno; vagina; submissão); verdade, esta, que foi
amplamente ensinada e verbalizada nos ambientes educativos e pedagógicos,
ensinando as crianças a verdade de um sexo que só surge no século XIX e que se
articula explícita e detalhadamente. O sexo, nestes dois séculos, mas principalmente
no século XIX, inscreve-se como um “registro de saber” de dois modos distintos: o
biológico-reprodutivo e o da medicina do sexo. No primeiro, se desenvolve segundo
uma normatividade científica e, no segundo, como uma obediência às "regras de
origens inteiramente diversas" (FOUCAULT, 2015, p. 61).
Neste momento, era também essencial a multiplicação destes discursos sobre
o sexo, deste poder focalizado que agia de modo completo e simples, e que, em
resumo, definia os dispositivos, assim como especificamente o dispositivo da
sexualidade como:

um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições,


organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas
administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais,
filantrópicas. [...] O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses
elementos (FOUCAULT, 2016, p. 364).

Desse modo, contrário ao senso comum, o sexo e a sexualidade não foram


censurados no século XVIII e no século XIX, mas sim organizadamente facilitados ao
acesso pela população, gerando uma vontade de saber característica, que tornava as
pessoas suscetíveis aos discursos de verdade que funcionavam, já a esta altura, com
um caráter econômico em que os dispositivos respondiam a uma urgência ou a uma
função estrategicamente dominante e estavam, portanto, sob o exercício do poder
disciplinar e das configurações do saber produzidas pelas ciências humanas.
Assim, as estratégias de poder aliadas à vontade de saber, especificamente
acerca da sexualidade, como veremos a partir de agora, constituem uma economia
política, produzindo e vendendo um discurso e uma verdade de regime binário, aquilo
que é permitido ou não. Logo, o poder sobre o sexo se exerce pela Lei, pelo Estado e
31

pela Família através “das punições cotidianas, das instâncias da dominação social às
estruturas constitutivas do próprio sujeito” (FOUCAULT, 2015, p. 93).
Para Foucault, também, a sexualidade é o nome que se pode dar a um
dispositivo histórico, e não a algo subterrâneo ou misterioso, mas sim a uma grande
rede que, interconectada e visível, estimula os corpos, “a intensificação dos prazeres,
a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das
resistências” (2015, p. 115) que se imbricam de acordo com as estratégias e os
movimentos disciplinantes do saber e do poder.
Então, o dispositivo da sexualidade se estende e se difunde das maneiras mais
simples às mais complexas por todo o corpo social, tratando inicialmente do vigor, da
longevidade, do nascimento à morte, e depois, dos prazeres, discursos, do que se
pode ou não, do que é aceito ou não, do prazer permitido e do fetiche proibido e:

em todo caso, o objetivo da presente investigação é, de fato, mostrar de que


modo se articulam dispositivos de poder diretamente ao corpo a corpo, a
funções, a processos fisiológicos, sensações, prazeres; longe de o corpo ter
de ser apagado, trata-se de fazê-lo aparecer numa análise em que o biológico
e o histórico não constituam sequência (FOUCAULT, 2015, pp. 164-165).

O corpo, o sexo e a sexualidade, sendo elevados rapidamente ao interesse


como uma vontade de saber e uma economia política, dá a entender que após o
século XVIII foi como se a burguesia buscasse criar para si e a partir de si um corpo
específico, com uma saúde, higiene e descendência específicas, sexualizando e
corporificando para si aquilo que mais desejava, expandindo para todos este novo
padrão e excluindo qualquer um que não se qualificasse, gerando também como um
"círculo real" (de herança soberana) em que apenas as pessoas privilegiadas são
normais e aqueles que estão fora deste círculo precisam ser afastados,
reorganizados, destituídos, envergonhados, punidos, destruídos, refeitos e assim
reproduzidos para que possam, finalmente, adentrar ao círculo:

a valorização do corpo deve mesmo ser ligada ao processo de crescimento e


de estabelecimento da hegemonia burguesa; mas não devido ao valor
mercantil alcançado pela força de trabalho, e sim pelo que podia representar
política, econômica e também, historicamente, para o presente e para o futuro
da burguesia, a “cultura” do seu próprio corpo. Sua dominação dependia dele
em parte; não era apenas uma questão de economia ou de ideologia, era
também uma questão “física” (FOUCAULT, 2015, pp. 136-137).

A hegemonia burguesa citada por Foucault dá forma a uma tecnologia de


controle, a uma tecnologia do sexo, que instaura uma aura de vigilância nos corpos,
32

que gera dúvidas sobre a sexualidade, que incentiva a expor os segredos anormais
para que sejam corrigidos pelas instituições escolares, pelos espaços políticos, que
higienizam, dão assistência, previdência e promovem a medicalização geral da
população, sempre com um interesse administrativo e técnico que "permitiu, sem
perigo, importar o dispositivo de sexualidade para a classe explorada” (FOUCAULT,
2015, p. 138). Induzindo, assim, que o poder ultrapassasse os seus limites médico-
jurídicos da época em um formato biopolítico, em que o biopoder, sem dúvidas,
garantia a produção, o controle sobre a vida e a morte, o controle dos corpos, a sua
inserção, organização e distribuição como parte dos processos econômicos industriais
e capitalistas.
Devido a isso, o corpo passa de meramente dócil (poder soberano) para um
corpo pensado estritamente para ser produtivo, obediente, mas produtivo (disciplinar).
Assim, se "dá lugar a vigilâncias infinitesimais, a controles constantes, a ordenações
espaciais de extrema meticulosidade, a exames médicos ou psicológicos infinitos, a
todos um micropoder sobre o corpo" (FOUCAULT, 2015, p. 157) para que todos se
tornem potencialmente mecanismos do poder, um do outro e sobre o outro, que se
direcionam ao corpo e à vida, caracterizando a tecnologia do sexo como uma das
protagonistas da grande atuação social instaurada pela biopolítica e pelo biopoder a
fim de intensificar o poder e vigor físico, a capacidade de trabalho e as aptidões
disponíveis.
No seminário Cuerpo Impropio (2011b, s/p), Preciado inicia afirmando que
diante das ficções políticas é preciso deixar de lado a “idiotice” para articular uma
reflexão teórica, uma leitura cruzada daquilo que está diante de nós para que se torne
possível compreender a história política dos corpos. Sendo esta pesquisa inteiramente
uma leitura cruzada aliada a uma reflexão teórica, é possível detectar as distintas
normalizações, as quais Preciado busca destacar ao longo de seu corpus teórico, e
que estão estreitamente vinculadas a sistemas de representações, técnicas de
produção de poder e da verdade, mecanismos pelos quais o discurso se organiza e
se materializa.
Portanto, durante o mesmo seminário, Preciado passou a chamar os objetos
de estudo desta análise e genealogia do corpo de ficções políticas, ou seja, as
subjetividades componentes das identidades políticas. E que são geradas a partir de
problemas epistemológicos, de aparatos de verificação e modos de representação
que foram desencadeados pelas circunstâncias históricas, psicológicas e sociais,
33

quando a linguagem e o discurso forjaram uma verdade que influiu sobre a realidade
em função de uns e em detrimento de outros. O corpo é um espaço político de
produção destas subjetividades, como será observado, em que até mesmo o sexo
biológico e os órgãos genitais são considerados ficções políticas que foram
construídas ao longo do tempo. Forjam-se transformações políticas, forjam-se
corporaturas, forjam-se somatopolíticas (PRECIADO, 2011b, s/p, tradução nossa).

2.2 O CORPO ESTRANHO POR JUDITH BUTLER

A partir do cenário construído por Foucault, Judith Butler desenvolverá um


trabalho complementar às análises da ação biopolítica sobre a vida e a partir dos
corpos. Consideramos então que ambos realizam uma análise a partir da dimensão
da linguagem, e em como o corpo se dá, se materializa, a partir de um nível discursivo.
Nessa linha de pesquisa há uma divisão metodológica ao analisar a materialidade dos
corpos, uma vez que para Foucault e Butler a materialidade se dá mesma por meio
do discurso e que, para Preciado, como veremos, a materialidade possui uma cisão
conceitual, em que se dá, sim, por meio de uma dimensão da linguagem, mas,
sobretudo, também em uma dimensão somática e carnal.
Judith Butler começa sua obra Problemas de Gênero (1990) questionando, por
exemplo, acerca da conhecida frase de Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher,
torna-se mulher” (1967, p. 09), que causa, mesmo nos tempos atuais, o levantamento
de dúvidas e perguntas fundamentais para a continuidade do seu pensamento. De
modo a delimitar o seu interesse de investigação a filósofa, em outras palavras,
indaga: como é possível que alguém se torne mulher? O que é o gênero? Mas, seria
o gênero uma categoria discursiva, semiótica ou de representações? De que modo
ocorre a materialização das normas e do Discurso em um corpo? Seria o gênero, de
alguma forma, dissociável do corpo? Materialidade e linguagem são coisas diferentes
ou, a partir de algum fenômeno, se cruzam? Há pessoas que, de alguma maneira, não
se incluíam em nenhuma categoria de “gênero” e, após algum evento, passaram a se
incluir? Como é que alguém “se torna” mulher, ou de algum gênero? E, talvez mais
importante, qual é o momento e como se dá o mecanismo, seja qual for o cenário ao
qual se dá, em que ocorre esta apropriação de um gênero específico? Haveria mais
de um, talvez dois gêneros, ou até mais?
34

Butler apresenta o surgimento da categoria gênero com as discussões e as


reflexões feministas sobre a categoria Mulher, e também sobre as mulheres, isto é,
sobre uma possível universalidade pré-discursiva e metafísica que viesse a definir o
que é a categoria mulher, assim como, por meio de algum tipo de processo, se
materializasse nos corpos “femininos” constituindo, assim, as mulheres. Deste modo,
logo de início, Butler lança a sua hipótese de que o gênero é uma categoria de análise
linguística, que se articula socialmente e que é baseada historicamente nas relações
de poder e nas diferenças entre os sexos.
Foucault já havia cogitado em História da Sexualidade e evidenciado que a
diferença entre sexo-gênero pressupõe que o gênero antecede o sexo, que em
realidade é um efeito do discurso; e, é a partir daí, também, que Butler segue a sua
reflexão.
Em uma leitura cruzada com Monique Wittig, escritora e teórica feminista,
Judith Butler afirma que:

o poder da linguagem de atuar sobre os corpos é tanto causa da opressão


sexual como caminho para ir além dela. A linguagem não funciona de forma
mágica nem inexorável: “há uma plasticidade do real em relação à
linguagem: a linguagem tem uma ação plástica sobre o real (BUTLER,
2016, p. 202, grifos nossos)16.

A plasticidade do real por meio da linguagem, a que se refere Butler,


entendemos ser a mesma influência do discurso a que se refere Foucault, e, nesta
tradição de redução linguística, é que se desenvolve a análise do corpo, do sexo e do
gênero em Problemas de Gênero (2016, p. 48), o que a leva a destacar um fragmento
de Wittig:

o gênero é o índice linguístico da oposição política entre os sexos. E gênero


é usado aqui no singular porque sem dúvida não há dois gêneros. Há
somente um: o feminino, o “masculino” não sendo um gênero. Pois o
masculino não é o masculino, mas o geral (WITTIG, 1983, p. 64).

Esclarecendo esta perspectiva linguística do gênero, assim como do sexo,


Butler afirma que o gênero não é e nem pode ser substantivo17, mas sim performativo,
pois seus efeitos são produzidos por práticas reguladoras e discursivas em busca de
uma coerência entre o sexo biológico e a identidade de gênero. “Consequentemente,

16 A citação de Wittig que é utilizada por Butler se encontra em The Mark of Gender, Feminist Issues,
v. 5, n. 2, 1985, p. 4.
17 Substantivo no sentido de substância, como consta na citação, porém uma substância “homem” ou

uma substância “mulher” que sejam permanentes, pré-discursiva, pré-existente, divina ou metafísica.
35

o gênero mostra ser performativo no interior do discurso herdado da metafísica da


substância – isto é, constituinte da identidade que supostamente é” (BUTLER, 2016,
p. 56).
A constante tentativa estrutural de forjar uma coerência entre sexo-gênero leva
Wittig, ao longo de seus escritos, a chamar esta prática de heterossexualidade
compulsória, que existe sistematicamente e é disseminada como um “esforço para
restringir a produção de identidades em conformidade com o eixo do desejo
heterossexual” (BUTLER, 2016, p. 59). Fazendo, então, com que Wittig afirme que “a
linguagem projeta feixes de realidade sobre o corpo social” (WITTG, 2006, p. 105).
Logo:

o sexo, não mais visto como uma “verdade” interior das predisposições e da
identidade, é uma significação performativamente ordenada (e, portanto, não
“é” pura e simplesmente), uma significação que, liberta da interioridade e da
superfície naturalizadas, pode ocasionar a proliferação parodística e o jogo
subversivo dos significados do gênero (BUTLER, 2016, p. 70).

As análises de Foucault sobre a verdade, diz Butler (2016, p. 44), já apontavam


para a produção de práticas reguladoras de identidades coerentes com as normas de
gênero, ou seja, condizentes com a heterossexualização do desejo, do gênero e do
sexo em estruturas binárias, assim como o exercício do poder, além de naturalizar a
dicotomia homem-mulher, também instauraria normas sociais em forma de
micropoderes para desmantelar qualquer tentativa de produzir oposições, pois:

a matriz cultural por meio da qual a identidade de gênero se torna inteligível


exige que certos tipos de “identidade” não possam “existir” – isto é, aqueles
em que o gênero não decorre do sexo e aqueles em que as práticas do desejo
não “decorrem” nem do “sexo” nem do “gênero”. Nesse contexto, “decorrer”
seria uma relação política de Direito instituído pelas leis culturais que
estabelecem e regulam a forma e o significado da sexualidade. Ora, do ponto
de vista desse campo, certos tipos de “identidade de gênero” parecem meras
falhas do desenvolvimento ou impossibilidades lógicas, precisamente por não
se conformarem às normas da inteligibilidade cultural (BUTLER, 2016, p. 44).

Butler considera que “no espectro da teoria feminista e pós-estruturalista


francesa, compreende-se que regimes muitos diferentes de poder produzem os
conceitos de identidade sexual” (2016, p. 45), assim como foi para Foucault com as
suas categorias do sexo, no primeiro volume de História da Sexualidade, tanto o
masculino como o feminino, que são produtos de uma economia disciplinar e
reguladora da sexualidade que consolidam e naturalizam regimes seguindo “grandes
36

estratégias de saber e poder” (FOUCAULT, 2015, p. 115) em função da


heteronormatividade.
Nesta conjuntura, Butler argumenta que o sexo e o gênero são elementos
discursivos que atuam ativamente sobre o corpo e a sua materialidade; que, por meio
do modelo foucaultiano dos mecanismos de poder, o discurso se inscreve sobre o
corpo de modo que a sua materialidade seja sempre sexuada, naturalizando uma
norma que, em outras palavras, sugere que todo corpo “possui” um gênero –
masculino ou feminino – e que rege, reciprocamente, os atos e práticas sexuais
(heterossexuais) destes corpos, definindo ao longo da história efeitos masculinos e
efeitos femininos que são percebidos como se próprios ou “naturais”. Como a cor azul
é para os meninos e a rosa para as meninas, ou o homem que trabalha e a mulher
que é submissa e permanece em casa, responsável pelos filhos. Esta norma
heterossexual que estrutura a sociedade discursivamente não apenas gera a ilusão
binária da verdade sobre o gênero, o sexo e o corpo, como também exclui qualquer
um que não atue dentro do script.
Novamente pode-se ver que, por trás destes mecanismos que atuam
diretamente sobre a materialidade do corpo, há tecnologias de normatização das
identidades de gênero e das práticas sexuais; tecnologias e biopoderes de produção
dos corpos.
Paul B. Preciado, por diversas vezes ao longo de sua argumentação,
redireciona a perspectiva de Foucault e de Butler sobre as tecnologias de produção
do corpo, o que o leva a afirmar que a performatividade do gênero não se reduz
apenas ao discurso, como afirma Butler. Mas que se estende para a própria dimensão
física da materialidade do corpo, que se torna potencialmente moldável, maleável e
constantemente influenciado por poderes presentes na sociedade, como os processos
biotecnológicos advindos da própria (tecno) ciência, assim como as instituições
médico-jurídicas, que buscam naturalizar algumas performatividades em detrimento
de outras.
Isso leva Preciado, no Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de
identidade sexual (2004), a considerar que o gênero não é apenas um efeito
performativo, mas sim um processo de incorporação prostética que irá introduzir as
tecnologias do sexo e do gênero como matéria física na própria materialidade do corpo
por meio de substâncias naturais, sintéticas, por meio de aparatos tecnológicos como
37

a pílula, as roupas “de homem” e “de mulher”, a arquitetura e a pornografia, como


analisaremos com aprofundamento no próximo capítulo.
Partindo destas afirmações, Preciado argumenta que Foucault não deu a
devida atenção às tecnologias de produção de subjetividade e que Butler, que define
o gênero como atos, gestos corporais e discursos, não deu a completa atenção aos
mecanismos biotecnológicos de incorporação do gênero, produção e carnalização18
do sexo. Preciado opta por trabalhar a noção de gênero e sexo por meio da interseção
entre o corpo – e as suas tecnologias – e a tecnociência – com o desenvolvimento
das tecnologias microprostéticas o que, em outras palavras, denota uma nova
dimensão de análise e categoria do gênero, a dimensão carnal dos corpos, pois:

o gênero não é simplesmente performativo (isto é, um efeito das práticas


culturais linguístico-discursivas) como desejaria Judith Butler. O gênero é,
antes de tudo, prostético, ou seja, não se dá senão na materialidade dos
corpos. É puramente construído e ao mesmo tempo inteiramente orgânico.
Foge das falsas dicotomias metafísicas entre o corpo e a alma, a forma e a
matéria. O gênero se parece com o dildo. Ambos, afinal, vão além da
imitação. Sua plasticidade carnal desestabiliza a distinção entre o imitado e o
imitador, entre a verdade e a representação da verdade, entre a natureza e o
artifício, entre os órgãos sexuais e as práticas do sexo. O gênero poderia
resultar em uma tecnologia sofisticada que fabrica corpos sexuais
(PRECIADO, 2014b, p. 29).

Na perspectiva de Preciado, estas tecnologias são como os conjuntos de


mecanismos que produzem e reproduzem a representação subjetiva do gênero e do
sexo hegemonicamente. O gênero, então, não seria um conceito, ideologia ou
performance, mas uma ecologia política19 que tem como função gerar uma sensação
de certeza de se ser homem ou mulher, o que se caracteriza como uma ficção
somatopolítica e que é produzida por um conjunto de dispositivos e técnicas de
domesticação do corpo, que produzem um saber interior sobre si mesmo, e agem
“como filtros que produzem distorções permanentes da realidade que nos rodeia”
(PRECIADO, 2015a, p. 91, tradução nossa).
Agora, em defesa de Judith Butler, a autora não se permitiu deixar lacunas em
sua interpretação, nem se limitou a ir a fundo em seus problemas de gênero. Em
Cuerpos que importan: sobre los limites materiales y discursivos del “sexo”, Butler

18 Utilizamos o termo carnalização para nos referir ao ato de carnalizar o sexo, de, por exemplo, recortar
na plasticidade do corpo os órgãos genitais e de inscrever na carne os biocódigos discursivos de
gênero, como melhor veremos ao longo do próximo capítulo.
19 O conceito de ecologia política, em Preciado, se refere às relações de poder em torno das categorias

de sexo-gênero, mas também a relação entre o corpo orgânico e as tecnologias do sexo e gênero.
38

questionará a si mesma acerca de quais são as forças que fazem materializáveis os


corpos como sexuados. “Como devemos entender a ‘matéria’ do sexo e, de maneira
mais geral, a dos corpos, como a circunscrição repetida e violenta da inteligibilidade
cultural? Que corpos chegam a importar?” (BUTLER, 2002a, p. 14, tradução nossa).
Além disso, em uma entrevista chamada Como os corpos se tornam matéria (2002b,
p. 163), a filósofa destaca em sua fala que, sim, há, pelo menos, dois níveis de
materialidade dos corpos, que, assim como o sangue, os corpos, na verdade,
“carregam discursos como parte de seu próprio sangue”.
Entendemos então, a partir das reflexões butlerianas, que não há como pensar
uma materialidade pré-discursiva dos corpos, uma vez que a materialidade se dá
acessível pela ordem discursiva. Inserida no discurso e na linguagem, é assim produto
de uma construção, que, de fato, não se reduz apenas ao campo discursivo, mas que
se dá precisamente em seu meio. A materialidade do corpo, a partir da perspectiva da
linguagem, é justamente aquilo a que buscamos nos referir em termos linguísticos,
mas que, portanto, em último termo, para Butler (2002a, p. 111) a materialidade e a
linguagem não são de um todo idêntico, mas também não são completamente opostas
ou diferentes entre si, mas imbricadas e interdependentes.
Se nós podemos, por meio da linguagem, captar a ordem de ser, da
inteligibilidade, e assim o corpo se torna existente, reconhecido e identificado, então
como os corpos serão produzidos a partir da inteligibilidade material, ou, mais
precisamente, quais corpos serão inteligíveis e quais terão a sua inteligibilidade
comprometida? Quais corpos terão suporte médico-jurídico e sistematicamente se
tornarão elegíveis? Quais corpos terão direito, em ordem de ser e existir, e quais serão
marginalizados às sombras? Quais corpos terão a proteção da lei? Quais corpos, mais
precisamente, serão protegidos pelo legislativo e pelo executivo, pela polícia e pelas
forças da Lei, que agem diariamente pelas cidades, estados e países? E quais corpos
serão violentamente, em diversos níveis, caçados por essas mesmas forças e
circunscritos como abjetos, como criminosos e como um perigo para a sociedade,
para a família e para o Estado?
A preocupação pelo corpo, gênero e sexualidade não se resume apenas a
estas três categorias, mas se expande à precarização da existência humana, às
existências não reconhecidas que, através das dinâmicas de poder que se inscrevem
em corpos vivos, mortos, e também àqueles corpos que são, pelos mesmos poderes,
colocados em uma posição ou categoria de ininteligibilidade, de não-corpos, de não
39

vivos, de não mortos, de algo que justifica a não-ação a partir de uma inscrição de não
importância. But they matter20.
Não há como desfazer-se da dimensão da linguagem e dos níveis discursivos
de materialização dos corpos em detrimento de uma dimensão puramente materialista
de suas existências – ou não existências. É preciso que haja cooperação entre estas
duas análises filosóficas.
Com o trabalho cruzado de pessoas como Michel Foucault, Monique Wittig,
Judith Butler e Teresa de Lauretis21, que contribuíram para esta reflexão sobre o corpo
e a sexualidade, surge, então, a Teoria Queer. O termo queer pode ser traduzido como
estranho, excêntrico, ridículo e, sobretudo, era utilizado pelos norte-americanos como
um insulto a quem fugia aos padrões de gênero socialmente estabelecidos. O termo,
então, é abraçado pelas pessoas que são estranhas à heteronormatividade, pelas
bichas e pelas butchs, drag queens e drag kings, por pessoas que não se identificam
com nenhum gênero, nem o masculino e nem o feminino ou por pessoas que
identificam outro gênero que não o binário. Estrategicamente, todos abaixo do mesmo
termo guarda-chuva (que não deve ser confundido como uma identidade sexual ou de
gênero, mas entendido como um posicionamento político): todos queer.
Para estes grupos de pessoas, o queer se tornou uma reivindicação das
minorias políticas por visibilidade, políticas públicas de proteção e assistência. Uma
verdadeira luta contra o conservadorismo dominante. O queer, tanto como
pensamento quanto como ativismo, “se propõe justamente a desafiar as identidades,
não por niilismo, e sim a fim de promover uma profunda revisão teórica e política”
(PELUCIO, 2014, p. 33) para implodir os tradicionais limites da identidade humana,
pois:

o corpo não é um dado passivo sobre o qual age o biopoder, mas antes a
potência mesma que torna possível a incorporação prostética dos gêneros. A
sexopolítica torna-se não somente um lugar de poder, mas, sobretudo, o
espaço de uma criação na qual se sucedem e se justapõem os movimentos
feministas, homossexuais, transexuais, intersexuais, transgêneros, chicanas,

20 A título de curiosidade, Judith Butler publica a sua obra sob o título Bodies that Matter (1993), que
em tradução literal significa “corpos que importam”, assim como foi traduzido para o Espanhol (2002).
Entretanto, como em um jogo de palavras e significados, Butler assim o faz, pois, além de referir-se
à importância dos corpos que são tachados como abjetos, também se refere a uma análise acerca
da materialidade e, portanto, matter, do Inglês, também pode (e deve ser) entendido como “matéria”.
21 Teresa de Lauretis utiliza a expressão “teoria queer” pela primeira vez em 1991, em uma conferência

sobre identidade de gênero na Universidade de Santa Cruz, California.


40

pós-coloniais… As minorias sexuais tornam-se multidões. O monstro sexual


que tem por nome multidão torna-se queer (PRECIADO, 2011a, p. 14).

A multidão queer, portanto, acolhe as pessoas que foram negligenciadas, as


pessoas marginalizadas e excluídas, as pessoas que não são representadas pela
biopolítica heteronormativa. O movimento não é, então, de bandeira gay ou lésbica,
mas sim de todas as pessoas que divergem das normas impostas de gênero e do
sexo; é das pessoas que resistem à heterossexualização compulsória; que fazem do
riso discriminante um deboche ao hiperconstrutivismo estruturante das ciências
humanas, à sexualização binária e violenta.

2.3 A TRANSIÇÃO DA CIÊNCIA CLÁSSICA PARA A TECNOCIÊNCIA

Enquanto isso, agora do lado dos que usufruem do Poder em seu exercício, há
uma nova crise científica sendo esboçada, que está relacionada com o modo em que
as ciências e as técnicas contemporâneas, na medida em que se desenvolveram,
agora se unem e provocam uma grande mundialização ideológico-tecnocientífica. E é
sobre isso que Bernadette Bensaude-Vincent aborda em todo o seu livro chamado As
vertigens da tecnociência: moldar o mundo átomo por átomo (2013). A filósofa e
historiadora francesa questiona, mais especificamente, como é possível mensurar
esse fenômeno que se intensificou ao influenciar a academia e, também, quais são os
impactos causados por este movimento de inovação científica.
Em a História da Sexualidade de Michel Foucault, sobretudo em seu primeiro
volume, já foi possível ter uma visão geral de como o poder se expandiu e se propagou
ao longo dos séculos, e também como as ciências humanas colaboraram com a
produção de uma verdade, inclusive uma verdade biológica justificada pela Religião,
pela Ciência, Medicina e também pela Pedagogia no momento e no espaço de educar.
Agora, no entanto, é possível adentrar mais cuidadosamente no campo da
interdependência entre as ciências e as técnicas, que foi promovido e financiado tanto
pelo Estado quanto por iniciativas privadas e que cobriu o planeta de artefatos
tecnológicos, assinalando a constante busca pela mutação da ciência em técnica e
tecnologia em virtude de outros fins, levando a ciência a perder a sua anterioridade
na ordem do saber, modificando a concepção de natureza e questionando inclusive o
que outrora se entendia por humanidade.
41

É preciso suscitar a análise de algumas questões fundamentais para avançar


nesta reflexão: como acerca do método, se há um ou mais métodos científicos
conhecidos que são utilizados pela comunidade científica; se há um estatuto
epistemológico e, se houver, qual é; e se o conhecimento científico produzido, assim
como os resultados atingidos serão neutros ou suscetíveis a alimentar ondas
ideológicas ao longo do tempo.
Em duas pequenas e introdutórias reflexões é possível compreender a
mudança promovida no estatuto epistemológico da ciência para a transição
tecnocientífica: em primeiro lugar, o saber técnico e científico contemporâneo se difere
completamente do saber contemplativo, como afirma Hermetes Reis de Araújo (1998).
“A técnica era aquilo que favorecia a liberdade humana, na medida em que
proporcionava os meios para a ação. Mas ela não influía na integridade do sujeito, ela
não falava o logos” (1998, p. 12). O método experimental da ciência moderna assinala
a formalização do experimento além da observação e descrição dos fenômenos
levando o saber científico a se tornar a cada vez mais tecnicizado, separando a
experiência natural e da filosofia como discurso da verdade.
Em segundo lugar, o discurso que transforma a ordem do saber da herança
cultural do ocidente. Contudo, é possível entender que esta inversão do saber, “cuja
sequência maior foi um ‘desencantamento’ do mundo” (ARAÚJO, 1998, p. 13), não
apresenta ainda as técnicas como uma redução lógica da realidade a um sistema
operacional, no qual as matemáticas são como enunciados formais de descrição e
prescrição do mundo. Aqui, ainda, as ciências e as técnicas não teriam um poder
demiúrgico22, como sugere Araújo, pois as formas contemporâneas do poder
emanado pela (tecno) ciência resultam das relações as quais as pessoas estabelecem
entre si e aquilo que se entende por natureza, ou a tentativa de naturalização.
Em Reflexões sobre a tecnociência: uma análise crítica da sociedade
tecnologicamente potencializada, de Vitor Ogiboski, é possível observar
detalhadamente a aproximação da técnica e da ciência, sendo o objetivo principal da
técnica a produção, “a criação de maneiras que facilitam a vivência do homem no meio
natural” (2012, p. 16), satisfazendo então as necessidades das pessoas, aproveitando
recursos naturais para potencializar a força manual, gerando utensílios capazes de

22 No sentido de remodelar a realidade, de deter para si o poder sobre a natureza a ponto de


reconfigurar amplamente não apenas o que é “natural” como também as relações de poder, como
será tratado no decorrer do capítulo.
42

confortar, mas também aumentar o tempo de sobrevivência. Semelhante ao que


vimos acerca da disciplina e da biopolítica foucaultiana.
Desde que a humanidade aprendeu a utilizar a inteligência aliada à técnica para
fabricar ferramentas há uma grande aproximação do trabalho, educação e produção
como modo de modificar o meio natural, o que leva a entender o devir-técnico da
humanidade como um processo contínuo. A técnica, aliada ao método, assim como
pode-se ver com o surgimento da ciência moderna, evidencia a importância do método
experimental e empírico na validação do conhecimento científico, das teorias. “A
técnica é introduzida na ciência exatamente quando a ciência se volta à
experimentação” (OGIBOSKI, 2012, p. 18), em que o experimento é a técnica pura,
utilizando ferramentas produzidas e manipuladas manualmente em busca de uma
verdade verificável, quantificável.
A relação humanidade-técnica-ciência-tecnologia marca a transição para a era
moderna, possibilitando assim uma ciência que gera tecnologia e, como um exemplo
clássico, podemos citar a luneta de Galileu, assim como os outros instrumentos
criados no século XVII. Todas as descobertas que seguiram este momento histórico
viriam, mais tarde, a ser entendidas como avanços técnicos e tecnológicos que não
apenas permitiriam o desenvolvimento científico, mas também influenciaram
diretamente na melhoria do bem-estar e da condição humana, como Bacon e
Descartes descreveram em suas reflexões.
Com a publicação de O Discurso do Método, Descartes conquistou uma
elevada importância no meio científico ao afirmar que a ciência poderia fazer com que
os homens se tornassem os “senhores e possuidores da natureza” (2013, p. 38), foi
também o marco para o início de uma era mecanicista e materialista, em que a ciência
se voltava para resultados práticos, tangíveis.
Porém, foi com a invenção da máquina a vapor que a tecnologia se consagrou
na sociedade e ganhou a importância que todos viriam a conhecer e almejar como um
“resultado prático da junção técnica – ciência, a tecnologia se tornou um imperativo,
possibilitando a Evolução Industrial” (OGIBOSKI, 2012, p. 21). Aqui, a relação
humanidade/natureza começou a se modificar e também toda a vida como era
entendida, passando a se aglomerar ao redor das cidades, levando ao impulso da
organização social do começo do século XVIII e que se estabeleceria ao longo do
século XIX. Este foi o marco do desenvolvimento tecnológico com base na técnica e
43

na ciência, que levaria a humanidade ser capaz de fazer, por intermédio das
máquinas, o que jamais pôde fazer manualmente.
Já no século XX, como afirma Bensaude-Vincent, o novo objetivo da ciência é
moldar mundo, mas não somente o mundo material que nos cerca, como também a
todas as pessoas. “Uma vez que a ciência decifrou o livro da natureza, agora ela vai
reescrevê-lo” (2013, p. 15), e então a partir disso, a ciência busca pensar menos a
natureza e fabricá-la mais, colocando em jogo o conhecimento filosófico e sociológico
acumulados pela história em detrimento de uma dinâmica de poderes em rede,
internacionalizada, conectiva, de satélites, partículas atômicas, computadores, novos
materiais, biotecnologias, capital, substâncias químicas e a possibilidade de não
apenas alterar o estatuto do saber, como também redistribuir o conceito de
tecnociência para a política, economia e cultura, introduzindo assim a perspectiva
ideológica não apenas do Estado como também das grandes empresas privadas e
multinacionais.
Mas, seria a tecnociência uma simples junção entre a ciência e a técnica? Esta
ciência estaria vinculada com um movimento, como visto, já conhecido pela história,
de produção e reprodução de discursos, que hora se intercruzam e hora se justapõe
ao colocar toda a sociedade como um grande campo experimental?
Separada de um problema ético ou moral, a tecnociência atua diferentemente
do modo como atuava a ciência ao buscar por um “porquê”: agora se busca “como
isto funciona” (BENSAUDE-VINCENT, 2013, p. 135).
Não há um consenso acerca da origem do termo tecnociência, embora, o mais
próximo encontrado se refere ao filósofo Gilbert Hottois, que em 1970 utiliza o termo,
reivindica a sua paternidade e ainda argumenta que, por tecnociência, pretendia
sublinhar as dimensões da técnica e da matemática nas ciências contemporâneas.
Paul Forman, historiador das ciências, compreendeu a tecnociência como um
fenômeno cultural que aconteceu em 1980 causando uma inversão de valores no
campo de pesquisa e desenvolvimento científico.
Mas a tecnociência, enquanto indústria de produção, faz ciência ou faz
tecnologia? Quais são as fronteiras entre uma e outra nos dias de hoje? Alimentando
o setor produtivo, a ciência deixa de ter um fim em si mesma, o conhecimento, para
favorecer então todo um sistema dependente do capital e da sua constante
renovação.
44

As relações entre técnica, ciência e tecnologia foram as fundadoras do modo


de produção hoje dominante, o capitalismo, pois foi a partir da Revolução Industrial,
que ocorreu aproximadamente entre 1760 a 1840, que de modo linear se desenvolveu
a lógica organizacional da sociedade em classes, a fim de acelerar a produção de
capital, tornando então a tecnologia uma ferramenta fundamental para esse novo
sistema emergente de modo a ampliar a indústria capitalista. Ogiboski ainda nos
lembra de Karl Marx, que em suas obras pensou a relação da tecnologia com o
capitalismo, o tecnicismo e as relações entre a revolução industrial e a classe de
trabalhadores, pois:

o sucesso do capitalismo transformou definitivamente a vida humana, criando


novas relações sociais e culturais e, associados a elas, novos atores sociais
que passarão a viver contradições específicas de uma sociedade de classes
(OGIBOSKI, 2012, p. 25).

Bernadette Bensaude-Vincent sublinha a aproximação intensa entre os


cientistas e a indústria privada, como por exemplo, em um evento que ocorreu em
1933 em Chicago e que tinha como slogan a frase: “Science finds, industry applies,
man conforms”, que em tradução livre significa: a ciência descobre, a indústria aplica
e o ser humano se conforma.
A Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) desempenha um papel fundamental
na fixação das raízes tecnocientíficas na sociedade, pois a guerra consolida a
revolução tecnocientífica em aplicabilidade. Como Javier Echeverría (2005, p. 11,
tradução nossa) escreve:

no caso da tecnociência, neste ângulo, os objetivos da ciência e da


engenharia seguem existindo, embora subordinados a outros, ou seja, o
próprio conhecimento científico passa a ser um instrumento, um meio para se
atingir outros objetivos; por exemplo, objetivos militares, empresariais,
econômicos, políticos ou sociais 23.

O próprio conhecimento foi afetado e a sua estrutura, assim como a prática de


pesquisas, se alteraram face ao avanço tecnológico; a multidisciplinaridade,
interdisciplinaridade e a convergência24 entre as áreas de pesquisa são três grandes

23 Texto original: “en el caso de la tecnociencia, desde este ángulo, los objetivos de la ciencia y de la
ingeniería siguen existiendo, aunque subordinados a otros, es decir, el propio conocimiento científico
pasa a ser un instrumento, un medio para el logro de otros objetivos; por ejemplo, objetivos militares,
empresariales, económicos, políticos o sociales”.
24 O termo convergência, que passou a ser utilizado em 2000, estabeleceu-se como uma nova palavra

de ordem (assim como interdisciplinaridade) de modo a efetivar um projeto que unifica todas as
tecnologias a fim de melhorar a performance humana através das nanotecnologias, biotecnologias e
45

sintomas dos efeitos tecnocientíficos. Embora os grandes protagonistas da


tecnociência não tenham se apropriado do termo (afinal, não há centros de pesquisa
em tecnociência, cursos de graduação em tecnociência ou departamentos em
universidades renomadas que deixem claro as intenções desses estudos), esse novo
regime de conhecimento possui um projeto de unificação das disciplinas existentes
em um único corpo de saber a fim de modelar o mundo “átomo por átomo” assim como
Bensaude-Vincent (2013, p. 20) destaca de uma fala de Mihail Roco:

meio milênio atrás, os graúdos do filão da Renascença dominavam diversos


campos ao mesmo tempo. Hoje, ao contrário, a especialização separa as
artes da engenharia, e ninguém consegue dominar senão um fragmento bem
pequeno da criatividade humana. As ciências chegaram a um ponto em que
elas devem unir-se para continuar a avançar rapidamente. A convergência
das ciências pode ensejar o início de uma outra Renascença incorporando
uma concepção holística da tecnologia fundamentada sobre instrumentos
transformadores, matemáticas dos sistemas complexos e sobre uma análise
causal do mundo físico unificado desde a escala nano até a escala
planetária25.

Ainda de acordo com Bensaude-Vincent (2013, p. 49), desde Aristóteles


compreendemos que o conhecimento é considerado como uma prática fundamental,
livre e gratuita, entretanto, as novas configurações político-científicas cunham a
expressão “modo de produção do saber”, que no lugar do antigo formato, abandona a
concepção clássica para investir na produção de capital humano, ou seja, o
conhecimento como um bem apropriável, fabricado em um processo de produção
como um artefato.
Recorrendo novamente a Foucault, é possível vislumbrar como a Educação se
torna um capital humano, levando o conhecimento a se tornar um dispositivo tanto do
poder público quanto das empresas privadas. Em sua aula inaugural no Collège de
France, nomeada A Ordem do Discurso (1970), o filósofo a inicia questionando o que
há de tão perigoso no fato das pessoas falarem e de seus discursos se disseminarem,
intencionalmente ou não, como no caso do senso comum. Lembrando que, para
Foucault, a sociedade produz discursos controladores, selecionados, organizados e
também procedimentos redistribuídos a fim de gerar micropoderes, de tornar material

tecnologias cognitivas. Mas não passou a existir apenas no século XXI, era um conceito desenvolvido
e praticado ao longo dos séculos apenas sob outras denominações e formas.
25 O texto de Mihail Roco ao qual Bensaude-Vincent cita é: Converging Technologies for Improving

Human Performance. Nanotechnology, Biotechnology, Information Technology and Cognitive


Science, 2002, p. 12.
46

uma ideologia predominante que pode elevar determinadas classes ou grupos sociais
a um status quo e outros à marginalização.
Foucault também dá ênfase na educação e em como a mesma é influenciada
por discursos vigentes, disciplinando os corpos sociais e políticos, cristalizando
identidades e formas de constantemente reconfigurar as regras sociais, favorecendo
o controle e o poder:

o que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão


uma qualificação e uma fixação dos papéis para os sujeitos que falam; senão
a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma
distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e saberes?
Que é uma “escritura” (a dos “escritores”) senão um sistema semelhante de
sujeição, que toma formas um pouco diferentes, mas cujos grandes planos
são análogos? Não constituiriam o sistema judiciário, o sistema institucional
da medicina, eles também, sob certos aspectos, ao menos, tais sistemas de
sujeição do discurso? (FOUCAULT, 2004, p. 17).

Nesta perspectiva da educação influenciada pelo discurso, Yurij Castelfranchi


definirá que além da educação, atualmente, a universidade tem o dever de saber
transferir o conhecimento para o sistema produtivo e para a sociedade, assim, devem
ter um espírito empreendedor ao promover os espaços educacionais. Ainda, segundo
o autor, “o discurso tecnocientífico, as práticas políticas empresariais, de pesquisa,
tendem cada vez mais a ver, a comprar e a vender a ciência como parte integrante do
sistema econômico e de segurança nacional” (CASTELFRANCHI, 2008, p. 45) e que:

a tecnociência deve muito, em seu funcionamento epistêmico e em suas


normas sociais, à ciência galileana e ao capitalismo industrial, mas reutiliza
elementos destes no contexto de um novo acontecimento (a
governamentalidade26 neoliberal) para constituir um dispositivo mutante em
que convivem técnicas e táticas de governo, regimes de produção,
apropriação e validação do conhecimento diferentes, em atrito entre si
(CASTELFRANCHI, 2008, p. 47).

Pode-se dizer que a tecnociência é a ciência contemporânea, certo, entretanto,


a profunda e direta ligação com o mercado e o capitalismo no século XXI se fundará
em uma forma orgânica e:

em suma, um traço característico da tecnociência atual é a sua maior


dependência do financiamento privado, especialmente vindo de corporações
multinacionais ligadas à indústria biomédica, automobilística e das

26 A governamentalidade, esta que, em seu sentido foucaultiano, se refere a genealogia do estado de


governo realizada pelo autor em um curso do Collège de France em 1978. Aqui, trata-se da análise
de um conjunto de instituições, procedimentos, reflexões, economia e táticas complexas de poder de
um estado historicamente “governamentalizado” e que permitem o exercício deste poder sobre a
população, principalmente em relação à segurança e governo.
47

tecnologias da informação: entre as corporações que mais gastam em P&D


no planeta, as primeiras cinco são Toyota Motor, Pfizer, Ford Motor, Microsoft
e GlaxoSmithKline, cada uma com investimento superior a 6 bilhões de
dólares em 2006 (CASTELFRANCHI, 2008, p. 62).

Por meio do desenvolvimento da tecnociência e da sua presença na sociedade,


diversos desdobramentos ocorreram em praticamente todas as áreas de ação,
pesquisa e conhecimento, permitindo assim que novas vertentes filosóficas,
intelectuais, culturais e científicas surgissem e reclamassem objetivos que outrora
poderiam soar inofensivos, mas que a partir dessa nova perspectiva biotecnológica se
tornam, de certa forma, radicais, como é o caso do transhumanismo, que vem a
intensificar a melhoria dos corpos, assim como a sua utilidade.
O transhumanismo se associa a projetos de aperfeiçoamento da humanidade
por meio do emprego da biotecnologia, engenharia genética e de outras práticas que
surgem com o desenvolvimento tecnocientífico no século XX. É um pensamento que
surge em meio à academia, mas percorre também o cotidiano através das grandes
campanhas de divulgação de produtos e técnicas de melhora do corpo, da mente e
também da realidade a qual todos estamos inseridos. Estas campanhas se espalham
por entre os ambientes culturais, midiáticos e das redes online, também pelo cinema
e até mesmo pela indústria pornográfica, que constantemente seduz o consumidor a
exigir a cada vez mais um padrão de perfeccionismo praticamente fetichista, em que
apenas a criatividade é o limite.
Segundo o professor e filósofo Jelson Oliveira, em seu texto A Tecnologia é a
cura da Humanidade? O melhor é sempre bom?, Michel Hauskeller consegue traduzir
a perspectiva filosófica do transhumanismo de modo a facilitar a compreensão quando
afirma que: "a condição presente da humanidade é inteiramente deplorável e, de fato,
um estado doentio" (HAUSKELLER, 2015, pp. 131-147). No texto, Oliveira também
relata dois lados do transhumanismo, o primeiro, que é ético, considera que “é preciso
curar a humanidade de si mesma”; e o outro, o ontológico, considera que "curar não
é restabelecer algum estado natural perdido, mas superar os limites impostos pela
natureza" (sem data, s/p) 27.
De acordo com Oliveira no referido texto, o transhumanismo considera que a
natureza é uma força que impõe limites à humanidade, mas que deve ser vencida pela
racionalidade e pelo avanço tecno e biotecnológico. As enfermidades a qual se busca

27 O presente texto se encontra sem paginação e data, entretanto, é possível acessá-lo através do link
nas referências.
48

uma cura se trata, na verdade, de velhos conhecidos, aspectos não desejados e


desnecessários da condição humana como, por exemplo, o sofrimento, a própria
enfermidade, o envelhecimento e até a condição mortal. Aprimorar a humanidade
levaria também a benefícios em níveis emocionais, em suas capacidades cognitivas,
relacionamentos pessoais e sociais, desempenho sexual, prolongamento da vida,
aumento da força e beleza, etc.
Para a filósofa Elena Postigo Solana (2011, s/p), a tecnociência, aliada ao
pensamento transhumanista, manteve atualizada a versão do homem-máquina de La
Mettrie, “ao qual o homem não é mais que uma perfeita engrenagem formada por
partes materiais; esta mesma visão é apresentada hoje pelo ciborgue (um ente que é
metade cibernético, metade orgânico)”. O transhumanismo é colocado em prática na
ciência por meio de experimentos de engenharia genética, da inteligência artificial, da
criogenização humana, nanotecnologia e, dentre outras coisas, também a
farmacologia.
Diversos problemas éticos e morais foram causados pela prática científica e
tecnocientífica, e estes se tornaram objetos de estudo teórico dos pensadores
modernos e contemporâneos, como o Hans Jonas, por exemplo, que dentre tantas
contribuições que se pode apreender com ele, destacamos um questionamento:
existiria uma ética ou algum princípio de responsabilidade com o qual se preocupar
no que toca o desenvolvimento tecnocientífico? A partir daqui a ciência passa a
produzir não apenas teorias ou experimentos laboratoriais, mas também sócio-
político-econômicos. Uma vez que a governamentalidade se alia a produção
tecnocientífica, os experimentos se colocam ao redor do corpo e da subjetividade
humana, o que virá a fornecer as condições fundamentais para, por exemplo, a
ascensão da farmacologia, enquanto a pesquisa, estudo e aplicação dos fármacos, e
também da indústria farmacêutica, com a produção em larga escala, tornando-se uma
das principais fontes de capital mundial, assim como o seu imenso controle sobre os
corpos, como será melhor analisado a seguir.
49

3 A INDUSTRIALIZAÇÃO DO TECNOCORPO

“En el último milenio construimos nuestras máquinas, y en este nos convertimos en ellas. No
debemos temer, porque así como ocurre con cualquier artefacto tecnológico, las absorberemos
en nuestros propios cuerpos”.

– Rodney Brooks, Flesh and Machines (2003).

Como visto no capítulo anterior, um dos questionamentos que se sobressaem


ao se debruçar sobre a análise conceitual do corpo, de sua produção e controle, é
acerca do limite da aplicação das experiências tecnocientíficas. Uma vez que estes
experimentos se colocam ao redor do corpo e da sua subjetividade (características,
identidades, emoções, sentimentos, pensamentos, consciência, etc.), se torna um
desafio abordar a singularidade do corpo sexuado e para isso é necessária uma
estratégia de reflexão para ser possível aproximar a linha argumentativa de Foucault
e Judith Butler, por exemplo, com o pensamento de Paul B. Preciado.
Do corpo docilizado ao feminismo construtivista dos anos noventa, Preciado
recorre a uma diferente perspectiva da qual chama de um novo “olhar
epistemossexual28” (PRECIADO, 2015a, p. 64, tradução nossa) acerca das
abordagens foucaultiana e butleriana sobre o corpo, sexo, gênero e sexualidade, e
que se caracteriza por sua dimensão carnal da materialidade.
A partir de sua obra inaugural, o Manifesto Contrassexual: práticas subversivas
de identidade sexual, Preciado buscará confrontar o pensamento de Foucault com o
pensamento de Judith Butler para, em uma síntese, fazer as suas próprias
considerações acerca da questão das tecnologias sociais e das biotecnologias. Se
para Preciado o gênero equivale a um artefato tecnológico, produzido por diferentes
tecnologias que atuam sobre o sexo, a sexualidade e os corpos, então o corpo
humano é maleável e há uma troca ou um intercâmbio entre os elementos orgânicos
de um corpo e os elementos que são artificiais.
Dessa maneira, como é possível distinguir em uma análise filosófica os
elementos orgânicos dos elementos artificiais que hibridizam o corpo? Como o
aparato sexo-gênero interfere na materialidade de um corpo sexuado? É possível
medir as suas influências? Sem dúvida, a diferença de Preciado para com os seus

28 A produção discursiva a partir do sexo como um conhecimento oriundo das ciências, assim como o
estatuto (ou os estatutos) que validam ou invalidam como verdade; a reprodução sistemática de uma
verdade ou mais sobre a sexualidade, o gênero, o sexo e os órgãos sexuais, assim como o que se
considera “genital” ou não, o que é público e o que é privado, o que é erógeno e o que é proibido.
50

pares se dá a partir da grande ênfase e do protagonismo que atribui ao cinema,


biotecnologia, biomedicina, às redes cibernéticas, à farmacologia, à indústria
farmacêutica e pornográfica como tecnologias sociais, integrantes e decisivas do
aparato tecnocientífico. São equivalentes a analítica realizada por Foucault e Teresa
de Lauretis (1989) através das tecnologias do sexo, porém com o diferencial de se
materializar nos corpos de modo mais incisivo e abrangente do que como pensavam
ser a partir da dimensão discursivo-linguística.
Preciado, ao considerar a sexualidade como produto das tecnologias, expande
a história da sexualidade de Foucault de modo a sugerir que se chamasse “história do
biopoder” (2014b, p. 89), considerando elementos além dos tabus, repressões e
proibições, histerização, pedagogização e psiquiatrização.
De acordo com Preciado, Foucault não teve tempo de concluir o seu projeto de
realizar uma genealogia dos dispositivos de sexualidade que operam sobre os corpos,
começado com História da Sexualidade vol. I, e o que foi conduzido pela Segunda
Onda Feminista é que, de fato, realizou análises aprofundadas sobre a noção de
gênero. “O sucesso argumentativo de Butler decorre em grande parte da eficácia com
que a performance da drag queen lhe permitiu desmascarar o caráter imitativo do
gênero” (PRECIADO, 2014b, p. 91), mas o que lhe ocorre é que não leva em
consideração os mecanismos culturais que permitirão a produção de corpos que
diferem de sua configuração original do sexo, da anatomia e de gênero, e que:

o que as comunidades transexuais e transgênero colocaram em evidências


não é tanto a performance teatral ou de palco dos gêneros (cross-gender), e
sim as transformações físicas, sexuais, sociais e políticas dos corpos fora da
cena; dito de outro modo, tecnologias precisas de transincorporação: clitóris
que crescerão até se transformarem em órgãos sexuais externos, corpos que
mudarão ao ritmo de doses hormonais, úteros que não procriarão, próstatas
que não produzirão sémen, vozes que mudarão de tom, barbas, bigodes e
pelos que cobrirão rostos e peitos inesperados, dildos que terão orgasmos,
vaginas reconstruídas que não desejarão ser penetradas por um pênis,
próteses testiculares que ferverão a cem graus e que poderão, inclusive, ser
fundidas no micro-ondas... (PRECIADO, 2014b, pp. 93-94).

Preciado deixará claro em seu Manifesto que busca fugir do ”falso debate
essencialismo-construtivismo” (2014b, p. 94), pois compreende que, tratando-se hoje
das oposições natureza/cultura, as perspectivas são robotizadas e instrumentalizadas
de modo a buscar a superação da natureza, inclusive da suposta natureza humana.
Sendo assim, enfatiza que existe uma clara brecha teórica entre Simone de Beauvoir
e Monique Wittig, duas teóricas feministas que buscaram entender qual é o sujeito do
51

feminismo e a construção normativa do gênero na sociedade, pois essas tecnologias


produtoras do aparato sexo-gênero não existem isoladamente ou especificamente
sem, antes, integrarem um sistema biopolítico a fim de produzir os corpos como o
decalque de um molde hegemônico do “corpo-europeu-heterossexual-branco”
(2014b, p. 103).
Essas mesmas tecnologias não podem ser entendidas como contraditórias por
produzirem o sexo, um sexo tecnológico, pois uma definição que se opõe ao
tradicionalmente apresentado pode facilmente soar incoerente. Entretanto, é devido a
isso que é preciso ser lembrado que, assim como as tecnologias, que estão
constantemente se inovando, melhorando rápida e perpetuamente, a história da
sexualidade se modifica ao longo do tempo.
Assim, é possível recordar que:

o termo tecnologia (cuja origem remete à techné, ofício e arte de fabricar,


opondo-se a physis, natureza) coloca em funcionamento uma série de
oposições binárias: natural/artificial, órgão/máquina, primitivo/moderno, nas
quais o “instrumento” joga um papel de mediação entre os termos da
oposição. Tanto as narrativas positivistas do desenvolvimento tecnológico
(nas quais o homem é representado como a razão soberana que doma,
doméstica e domina a natureza bruta) como as narrativas apocalípticas ou
antitecnológicas compartilham um mesmo pressuposto metafísico: a
oposição entre o corpo vivo (limite ou ordem primeira) como natureza, e a
máquina inanimada (libertadora ou perversa) como tecnologia (PRECIADO,
2014b, pp. 147-148).

Se para Preciado a tecnologia é, como é possível ver acima, um ofício ou arte


de se fabricar, então neste capítulo será aprofundado o processo de fabricação dos
tecnocorpos e de suas subjetividades através do avanço biotecnológico e
tecnocientífico. Em como, por exemplo, os limites entre o corpo vivo (natural) e a
máquina inanimada (artificial) se estreitaram, em como a farmacologia e a indústria
farmacêutica colaboram ativamente para as diferentes formas de produção e
dominação da subjetividade humana. Veremos a partir de quais instrumentos
tecnocientíficos, que agenciam a si mesmos, se produzem pessoas que se convertem
em extensões materiais para estes instrumentos. Nos perguntemos: são as pessoas
que utilizam a esses instrumentos ou são os instrumentos que utilizam as pessoas?
Quais são os parâmetros sensoriais da realidade a partir da perspectiva de Preciado?
Como se constituirá a realidade, então, a partir da recepção tecnocientífica e
tecnológica?
52

Em Manifesto Contrassexual, assim como em outros textos, Preciado elabora


uma linha do tempo em que destaca inúmeros acontecimentos históricos e
descobertas científicas com o objetivo de fundamentar o seu argumento de modo a
facilitar a compreensão de seu entendimento por ciência, tecnologia e tecnociência,
especificamente.
Para Preciado (2014b, p. 150), há uma tentativa por parte da antropologia em
esconder uma cumplicidade ou ligação entre a tecnologia e a sexualidade. Assim,
inicia argumentando etimologicamente acerca do termo grego techné, remetendo às
teorias aristotélicas acerca dos homens in nuce ou dos homúnculos, pois, na crença,
acreditava-se conter no esperma pequenos homens que eram depositados ao ventre
das mulheres, uma teoria que foi refutada com a descoberta dos ovários no século
XVII. Entretanto, Preciado resgata essa teoria, pois a procriação era compreendida
como uma certa tecnologia agrícola dos corpos, em que se cultivavam corpos dentro
dos corpos – pequenos homens ou homúnculos nos ventres das mulheres. Os
homens enquanto os técnicos, ativos, que plantam suas sementes no ventre passivo
das mulheres como num campo fértil e natural para o cultivo de sua prole. Segue
Preciado, na mesma página:

como insistiu Lyotard29, a expressão techné (forma abstrata do verbo tikto,


que significa “engendrar”, “gerar”) remete ao mesmo tempo, em grego, a
formas de produção artificial e de geração natural. A palavra grega para
designar os geradores não é outra que teknotes, e para designar o germe,
teknon. Como exemplo paradigmático de contradição cultural, a tecnologia
recorre simultaneamente à produção artificial (onde techné = geração)”.

Ao recorrer a este exemplo, Preciado busca apontar que a relação entre a


tecnologia e a reprodução sexual é mais próxima e evidente do que pensávamos, isto
pois, assim como o feminismo dos anos setenta demonstra a partir da reapropriação
do corpo das mulheres, as tecnologias e os dispositivos sempre buscaram, através do
discurso, articular diferenças entre os sexos. Neste sentido e discurso, “a mulher é a
natureza e o homem, é a tecnologia” (PRECIADO, 2014b, p. 152).
Articulavam-se diferenças estratégicas para, politicamente, cultivar, produzir ou
gerar corpos. E neste processo, as diferenças de gênero, de um lado, demonizavam
a mulher/natureza e, pelo outro, perpetuavam o poder da masculinidade/tecnologia, o
domínio sobre a mulher/natureza (PRECIADO, 2014b, pp. 153-154).

29 A obra de Jean-Fraçois Lyotard a qual Preciado faz menção se chama “Can thoughts go on without
a Body?”, publicada em Stanford no ano de 1991.
53

Nesse argumento de Preciado, o mesmo reconhece que o único problema é


que a abordagem deixa a entender que a tecnologia é algo que modifica uma certa
natureza dada ao invés de pensar a tecnologia como a produção da natureza, que é
o seu intuito. Porém, é a partir daí que Preciado chama de “produção prostética do
gênero” (2014b, p. 154) estes processos que buscam ir além das transformações de
gênero, mas a fixação das diferenças orgânicas nesta linha do tempo histórico-
cultural.
A técnica, também entendida em seu sentido foucaultiano, com foi analisado
no capítulo anterior, é um complexo dispositivo de poder e saber que integra
instrumentos para o fim de controlar os corpos, regular e ajustar as leis em relação ao
corpo sexuado, maximizando a vida, pervertendo prazeres e produzindo enunciados
de verdade. A noção de técnica, para Foucault, o permitiu assimilar diversos modelos
de poder que circulavam pela sociedade nas décadas de sessenta e setenta, assim
como as ficções políticas geradas como moldes para o sexo, sua verdade, visibilidade,
maneiras de exteriorização da sexualidade, “da ação teórica, científica e política
contemporânea, o mesmo que Judith Butler denominou como repetição performativa
de processos de construção política” (PRECIADO, 2015a, p. 60, tradução nossa).
Essa função prostética a qual Preciado faz menção pode-se compreender
como os artefatos através dos quais a sexopolítica faz uso para produzir a carnalidade
e as corporalidades, que determina a função de cada órgão, que é produtora e
reprodutora da performatividade e das atuações da masculinidade, feminilidade, da
normalidade ou da perversão. Se na sociedade disciplinar, apresentada por Foucault,
as tecnologias de subjetivação controlavam o corpo e, se para Butler a
performatividade de gênero se equivale aos hábitos repetitiva e insistentemente
reproduzidos, que são inseridos e reinseridos na sociedade de modo que a cada
recém-nascido seja programado e reprogramado de acordo com os códigos
normalizantes de gênero, então, para Preciado, na atual conjuntura da sociedade:

as tecnologias entram a formar parte do corpo, se diluem nele, se convertem


em corpo. Aqui a relação corpo-poder se dá tautológica: a tecnopolítica toma
forma do corpo, se incorpora. Um primeiro sinal da transformação do regime
de somatopoder por volta do século XX será a eletrificação, a digitalização e
molecularização destes dispositivos de controle e produção da diferença
sexual e das identidades sexuais (2015, p. 68, tradução nossa)30.

30 Texto original: “las tecnologías entran a formar parte del cuerpo se diluyen en él, se convierten en
cuerpo. Aquí la relación cuerpo-poder se vuelve tautológica: la tecnopolítica toma la forma del cuerpo,
54

A leitura que Preciado sugere em relação ao poder compreende que os


mecanismos do poder agem dentro dos corpos, atuando não apenas de fora para
dentro, mas também de dentro para fora. As próteses tecnológicas, quando
incorporadas, modificam a forma com que percebemos o mundo, os ambientes, os
nossos sonhos, as excitações, agressividades, os códigos da feminilidade e da
masculinidade, etc.

3.1 A PRÓTESE DE PRECIADO: ENVYING THE ADDICTED FRANKENSTEIN'S


MONSTER

Perceptivelmente, Preciado busca explicar como as tecnologias têm se


imbricado de modo a compor os corpos de dentro para fora e vice-versa. Assim, de
Foucault à Butler e de De Beauvoir à Wittig, Preciado demonstra como as categorias
de homem e de mulher não são naturais, mas pelo contrário, são categorias
produzidas e reproduzidas por tecnologias de subjetivação, por ideais normativos
culturalmente construídos, por técnicas e fundações sujeitas à mudança no tempo e
nas diferentes culturas. Compreender o sexo e o gênero como tecnologias permite
remover a falsa contradição entre essencialismo e construtivismo, pois, se olharmos
atentamente para o que a tecnociência tem desenvolvido atualmente, “veremos que
seu trabalho ignora as diferenças entre o orgânico e o mecânico, intervindo
diretamente sobre a modificação e a fixação de determinadas estruturas do ser vivo”
(PRECIADO, 2014b, p. 158).
Para Preciado, é difícil compreender onde começam os corpos naturais e onde
começam as tecnologias artificiais, isto pois, o desenvolvimento e o constante uso de
recursos como os ciberimplantes, hormônios, transplantes de órgãos, a gestão do
sistema imunológico humano e etc. apenas aproximam mais e mais um do outro,
gerando um efeito híbrido de corpos prostéticos e, então:

estudar as próteses, especificamente as próteses de gênero, trata-se, então,


de estudar de que modos específicos a tecnologia “incorpora” ou, dito de
outra forma, “se faz corpo”. Não posso desenvolver aqui uma história
completa da produção tecnológica da carne, portanto farei dois cortes
verticais nessa história que irão nos permitir situar o problema. Para isso,
voltarei às duas grandes metáforas tecnológicas da incorporação do século

se incorpora. Un primer signo de transformación del régimen de somatopoder a mediados del siglo
XX será la electrificación, digitalización y molecularización de estos dispositivos de control y
producción de la diferencia sexual y de las identidades sexuales”.
55

XX, o robô e o ciborgue, a partir das quais poderíamos pensar o sexo


enquanto tecnologia (PRECIADO, 2014b, p. 158).

Agora, para fazer valer a proposta de Preciado, é preciso compreender o que


são e por que o autor faz referência ao robô e ao ciborgue. Desta maneira, ficará mais
clara a intenção preciadista31, além de se tornar possível responder os
questionamentos levantados no início deste capítulo, pois é a partir do robô e de sua
evolução – as diferentes categorias de ciborgue – que será possível dar continuidade,
desvelando assim algumas de suas diferenças e aproximações.
Foi com o escritor tcheco Karel Capek de quem Preciado resgatou a ideia de
robô, a que designa qualquer mecanismo autômato que seja capaz de realizar
operações elementares, de caráter artificial e que substitua a força humana. Por volta
de 1920, então, é quando começa a se desenvolver a perspectiva de uma máquina
com aspectos humanos, mas com a capacidade de cumprir com funções sobre-
humanas. Um “homem reduzido ao estado de autômato”, ou seja, um dos primeiros
indícios da junção híbrida entre um corpo orgânico e natural com uma aparelhagem
artificial e mecânica. Para Preciado (2014b, p. 159), “com o robô, o corpo está
paradoxalmente preso ao ‘órgão’ e a ‘máquina’”.
Preciado recorre também a outra análise etimológica, mas agora da etimologia
de “órgão”, que provém do grego ergon e designa “o instrumento ou a peça que, unida
a outras peças, é necessária para realizar algum processo regulado” (2014b, p. 159)
e também de organon, pois, em uma análise aristotélica, Preciado dirá que:

“toda arte [techné] necessita de seus próprios instrumentos [organon]”. Esta


acepção é, além disso, a dos títulos dos tratados de lógica aristotélica nos
quais figura o termo. Organon tem, portanto, o sentido de ser um método de
representação, um instrumento de saber, um conjunto de normas e de regras
racionais graças às quais podemos compreender a realidade. Um órganon,
tal como o compreendia Aristóteles, é algo que hoje poderíamos denominar
uma tecnologia textual de codificação-decodificação. O organon é também
um aparelho ou um dispositivo que facilita uma atividade particular, da mesma
maneira que o martelo prolonga a mão ou o telescópio aproxima o olho de
um ponto distante no espaço. Como se fosse o membro vivo, mas a prótese
(uma noção contemporânea sobre o surgimento da filosofia moderna, mas
que aparece em torno de 1553 para se referir tanto ao suplemento de uma
palavra, como um prefixo, quanto à reconstrução de um corpo graças a um
membro artificial) que se escondia desde sempre por trás da noção de
órganon (PRECIADO, 2014b, pp. 159-160).

31 Para que não haja confusão ao longo da leitura, por “preciadista”, nos referimos ao pensamento de
Paul B. Preciado.
56

O modelo de robô, a partir desta leitura preciadista (2014b, p. 160), catalisa e


centraliza as contradições da metafísica moderna, pois se torna o paradoxo entre a
natureza e a cultura, entre o divino e o humano, entre a alma e o corpo, o macho e a
fêmea. Ainda assim o robô está submetido às leis parodisíacas e miméticas da
performatividade butleriana e, logo, diz Preciado, na mesma obra e página: “se o
século XVIII havia pensado o corpo humano como uma máquina, o século XIX e o XX
acabarão sonhando com máquinas que se comportam como seres humanos”.
Em outras palavras, o robô representa uma via dupla na qual, às vezes, um
corpo orgânico utiliza algum instrumento artificial junto de sua estrutura orgânica
(como prótese) e, noutras vezes, é a tecnologia que se corporifica.
A saber, é a partir de Donna Haraway que Preciado prosseguirá a sua
teorização acerca das próteses, mas antes recorre à categoria do ciborgue e que é
definida por Haraway em Ciencia, cyborgs y mujeres – La reinvención de la naturaleza:

um ciborgue é uma criatura híbrida, composta de organismo e de máquina.


Mas se trata de máquinas e de organismos especiais, apropriados para este
final de milênio. Os ciborgues são entes híbridos posteriores à Segunda
Guerra Mundial, compostos, em primeiro lugar, de humanos ou de outras
criaturas orgânicas por trás do disfarce – não escolhido – da "alta tecnologia",
enquanto sistemas de informação controlados ergonomicamente e capazes
de trabalhar, desejar e reproduzir-se. O segundo ingrediente essencial nos
ciborgues são as máquinas, também aparatos desenhados
ergonomicamente como textos e como sistemas autônomos de comunicação
(HARAWAY, 1995, p. 62, tradução nossa)32.

A autora sustenta a construção dos sujeitos através de uma organização


política a fim de produzir, definir e classificar os corpos e, então, os ciborgues seriam
"filhos ilegítimos do militarismo e do capitalismo patriarcal" (HARAWAY, 2009, p. 40,
tradução nossa). Os ciborgues, através de processos de simbiose e hibridação, se
tornam dispositivos, rearticulam hierarquias do poder, operam uma naturalização
política de gênero e da sexualidade por meio de narrativas de ficção biopolítica que
constroem a consciência e a identidade a fim de fixar um único modelo por meio dos
aparatos de verificação de gênero. Como frutos da engenharia humana e também de
construções artificiais, do conceito a sua tangibilidade, os ciborgues se apropriam de

32 Texto original: “Un cyborg es una criatura híbrida, compuesta de organísmo y de máquina. Pero se
trata de máquinas y de organismos especiales, apropiados para este final de milenio. Los cyborgs
son entes híbridos posteriores a la segunda guerra mundial compuestos, en primer término, de
humanos o de otras criaturas orgánicas tras el disfraz - no escogido - de la "alta tecnología", en tanto
que sistemas de información controlados ergonómicamente y capaces de trabajar, desear y
reproducirse. El segundo ingrediente esencial en los cyborgs son las máquinas, asimismo aparatos
diseñados ergonómicamente como textos y como sistemas autónomos de comunicación”.
57

códigos orgânico-digitais para afirmar ou romper com as cadeias semióticas de


produção de identidade por meio da linguagem, das narrativas e das tecnologias. Para
Haraway o problema começa e termina com os ciborgues, como que em uma jogada
subversiva de ressignificação da era cibernética.
Preciado leva ao extremo o que Donna Haraway inicia em 1985 com o seu
Manifesto Ciborgue, pois compreende o ciborgue como concebido de um corpo
orgânico ao qual se incorporam conexões cibernéticas e que artificialmente se
conectam aos hormônios, aos fluídos químicos e biológicos. Desse modo, como num
sistema de troca de informação, o ciborgue funciona de modo vivo e aberto, conectado
as redes online, de maneira em que uma prótese possa acessar as outras próteses e,
logo, possam criar um grande sistema de próteses pensantes. Colocando em outra
perspectiva, isso ocorre para que cada ciborgue (ou tecnocorpo, híbrido de matéria
orgânica e tecnologia) se comunique com outros ciborgues nesse sistema, para que
se atualizem e se auto modifiquem, que façam downloads e uploads e compartilhem
dados e metadados numa rede única de informações hipertextuais, mas sem poder
desvincular-se, pois:

se os discursos das ciências naturais e das ciências humanas continuam


carregados de retóricas dualistas cartesianas de corpo/espírito,
natureza/tecnológica, enquanto os sistemas biológicos e de comunicação
provaram funcionar com lógicas que escapam a tal metafísica da matéria, é
porque esses binarismos reforçam a estigmatização política de determinados
grupos (as mulheres, os não brancos, as queers, os incapacitados, os
doentes...) e permitem que eles sejam sistematicamente impedidos de
acessar as tecnologias textuais, discursivas, corporais etc. que os produzem
e os objetivam. Afinal, o movimento mais sofisticado da tecnologia consiste
em se apresentar exatamente como “natureza” (PRECIADO, 2014b, p. 168).

Para Sibilia (2005, p. 37), o que Foucault nomeou de "corpo dócil" passou a ser
tecnologicamente modificado não muito após o autor assim conceituar, isto pois, os
processos analógicos às fábricas e demais instituições sociais tornaram possível o
desenvolvimento de, como Sibilia chama, um “homem pós-orgânico” (2005, p. 69).
Entretanto, como explica Mónica Prados ao comentar o trabalho de Sibilia, essa
mesma ideologia causa um efeito que se pode chamar de embodiment, a encarnação
ou personificação, e que "expõe que o ciborgue não somente altera seu corpo, mas
que assume uma personalidade que implica mudanças a nível não apenas físico, mas
emocional, mental, ético, cultural, econômico e político" (2016, p. 192, tradução
nossa).
58

Ao que se refere a produção de subjetividade pelas tecnologias prostéticas


apresentadas por Donna Haraway, Sibilia, Prados e Preciado, analisamos algumas
obras ou tecnologias e, a partir delas, foi possível perceber a tentativa de extrair,
fabricar e reproduzir a subjetividade humana nesses tecnocorpos para que ofereçam
uma experiência o mais próximo possível da humanidade.
Esse efeito que Prados destaca pode ser visto, por exemplo, nas obras do
alemão Hans Bellmer que, em 1933, dá início a produção de fotografias de bonecas
em aproximadamente tamanho real que eram feitas com características femininas e
serviram para uma compilação de dezoito fotografias, a qual se chama Die Puppe (A
Boneca). Segundo Wilcox (2014, s/p, tradução nossa), o artista afirmava que a
expressão de suas bonecas, "juntamente com o seu concomitante prazer, é uma dor
transposta, uma libertação", pois para Hans o prazer era simplesmente dor
expressada, como em um testemunho.
As suas primeiras bonecas eram subjetivamente caracterizadas com desejos
sexuais, representando fetiches e obsessões de seu próprio criador e, embora
esqueléticas e talhadas grosseiramente, Bellmer garantia que os acessórios, como
perucas, roupas, colares, etc. e as poses não convencionais explicitassem a sua
proposta original:

ela [a boneca] está cheia de desejos oníricos por promessas vagamente


formadas ou recompensas de uma tez emocional ou sexual. Desde que a
realização de seus desejos lhe é negada, ela tende a diminuir a existência de
seu sexo... no entanto, seu conteúdo ainda está ativamente disponível e
pronto para assumir um novo significado, ocupar um lugar vago e se cobrir
em realidade admissível (BELLMER apud WILCOX, 2014, s/p, tradução
nossa) 33.

Observemos na página a seguir sobre o que fala Hans Bellmer:

33 Texto original: “she is filled with oneiric desires for vaguely formed promises or rewards of an
emotional or sexual complexion. Since the fulfillment of her desires is denied her, she has a tendency
to diminish the existence of her sex…nevertheless its content is still actively available and ready to
assume a new meaning, to occupy a vacant place and cloak itself in permissible reality”.
59

Figura 1 - Die Puppe (The Doll).

Fonte: Hans Bellmer – Site do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia.

Entretanto, essa mesma tendência de buscar subjetivar um corpo animado,


inanimado, ou ambos, já havia sido apresentada por Mary Shelley, em seu conto
gótico Frankenstein, no qual Victor criara por meio do domínio das técnicas e da
ciência o próprio domínio sobre a natureza que, até então, era dedicado somente ao
deus cristão. A partir de sua ambição megalomaníaca em superar os limites naturais
e os ditames religiosos, Victor desenvolve técnicas e faz experiências até que, ao dar
vida a sua cria por reanimar o seu corpo mutilado e remendado, se vê horrorizado
frente ao que ninguém mais poderia ter concebido nem em imaginação.
Nessa analogia entre as tecnologias prostéticas, a autoridade material34 de
criação de um corpo e a própria criatura viva, o monstro diz: "eu sentia a luz, a
escuridão, a fome e a sede; diversos sons soavam em meus ouvidos e, por todos os
lados, vários odores me saudavam" (SHELLEY, 2016. p. 151). A criatura dotada de

34 Preciado (2015, p. 34) diz “se a ciência alcançou o lugar hegemônico que ocupa como discurso e
como prática em nossa cultura, é precisamente graças ao que Ian Hacking (1986), Steve Woolgar e
Bruno Latour (1979) chamam de “autoridade material”, isto é, a sua capacidade de inventar e produzir
artefatos vivos”. Em nota de rodapé (p. 35), Preciado destaca também que não é apenas a ciência
que tem o poder performativo de criar, mas que neste processo tambéma a acompanha as artes e
os ativismos, que têm o poder de descrever, descobrir ou representar.
60

sentidos, de consciência e autonomia, não era sequer próximo do que esperava


Victor, grosseira ou rudimentar, mas sim uma interseção entre a humanidade e algo
além; zelava por si, aperfeiçoava-se a medida em que aprendia o que era necessário
para sobreviver. E também se questionava: "o que sou eu?” (SHELLEY, 2016, p. 173).
A diferença de Shelley para Bellmer é que, do contrário às bonecas, o monstro
pôde expressar por si o próprio ponto de vista; além de sentir, fez-se ouvir.
Plenamente dotado de subjetividade, seja pelos corpos aos quais Victor Frankenstein
o fabricou, pela sua consciência ou por sua personalidade, o monstro ganha vida e
tem uma experiência transhumana e, talvez, até pós-humana do mundo35. Por mais
que a criatura de Frankenstein se distancie em conceito do que representa o ciborgue,
não muda em nada o fato de que é um sintoma do pensamento transhumanista e pós-
humanista. E muda menos ainda em relação às cargas semiótico-técnicas de
produção sistemática da identidade e da subjetividade desses seres que transitam
entre a humanidade e as demais categorias trans e pós-humanas.
O que Prados, Bellmer e Shelley trazem à tona, a subjetividade e as emoções,
ficará a cargo das empresas multinacionais e de um capitalismo globalizado e pós-
industrializado, que propõe a regulação dos corpos em rotinas ordenadas, valorizando
a disciplina, sim, mas mais a produção violenta de um sistema-mecanismo-organismo
social. Assim, como causa e solução para o stress e demais distúrbios comuns da
atualidade, como a depressão e a anorexia, por exemplo, estes casos se tornam
lucrativos quando são induzidos aos corpos mediante a essas tecnologias sociais e
dispositivos de controle.
Preciado segue exemplificando através de Jules Amar, que foi o diretor de um
laboratório de próteses militares, em como este ideário adquire forma e aplicação
prática: e o trabalho de Amar era, precisamente, desenhar uma série de próteses de
braços e pernas com o objetivo de, pela primeira vez, em 1916, substituir membros
mutilados durante a guerra, de reconstruir o corpo – e devolver a sua utilidade. Como
uma totalidade de próteses mecânicas integradas aos corpos orgânicos:

35 A título de curiosidade, se desejam, o sociólogo brasileiro Richard Miskolci, em “Frankenstein e o


espectro do desejo” (2011), realiza uma análise a partir da polêmica obra que, desde a sua época já
demonstra uma grande dimensão da subjetividade da criatura (ou monstro) a qual Victor Frankenstein
dera vida. Richard reconstitui uma experiência para compreender as dinâmicas do desejo e da
emergente cultura compulsória da heterossexualidade. O autor definirá, também, que Frankenstein
(1818) se revela um dos primeiros romances sobre a subjetividade descentrada e que aborda o
elemento sexual representado pela criatura, inclusive a presença da “amizade apaixonada” entre os
homens da elite.
61

os operários e os soldados prostéticos de Jules Amar mostraram que a


masculinidade é tecnologicamente construída. Se a reconstrução do corpo
masculino inválido era efetuada com a ajuda de uma prótese mecânica, é
porque o corpo masculino do operário já havia sido pensado sob a metáfora
do “robô”. No âmbito da gestão tayloriana e racional do trabalho (seja na
indústria em tempos de paz, seja nas indústrias de destruição em massa da
guerra), o “corpo masculino” já constituía em si a prótese orgânica a serviço
de um mecanismo mais amplo (PRECIADO, 2014b, p. 162).

O trabalho de Amar evidenciou uma ameaça a posição soberana do homem,


pois já que um corpo pode ser construído e reconstruído, com seus “braços
trabalhadores” e “pernas trabalhadoras” substituídos, assim como, mais tarde, será
possível o fazer com os órgãos sexuais, então a soberania masculina também poderia
se desconstruída, deslocada e substituída.
Estes membros sintéticos, artificiais e instrumentais, quando incorporados, era
do desejo da época que fossem capazes também de desenvolver uma memória do
corpo, de sentir e de agir por si mesmos. Não é à toa que não muito tarde a tecnologia
buscará mecanizar mais e mais essas próteses para que tenham uma maior
autonomia, para que estejam interconectadas com os demais membros, que
decodifiquem os sinais enviados pelos nervos, que sejam construídas com músculos
artificiais e que tudo responda as vontades do cérebro.
Desse modo, mesmo que ainda grosseiramente, a prótese mostra que a
relação entre corpo/máquina não pode ser compreendida como algo separado, nem
meramente como o conjunto ou agrupamento de partes conectadas ao corpo
orgânico, pois embora separáveis, desengancháveis, descartáveis e substituíveis,
estão para além da ordem mecânica.
Essas tecnologias de suplemento prostético surgem, num primeiro momento, a
fim de remediar as incapacidades humanas, algo que mais tarde foi batizado como
uma necessidade “transhumana”, e assim as biotecnologias tomam frente em relação
as funções dos órgãos naturais. A exemplo disso, para a ampliação das habilidades
auditivas, cria-se o telefone, que diminui a distância entre dois interlocutores; a
televisão é como uma prótese dos olhos e dos ouvidos, agindo de modo a permitir que
um sem-número de pessoas compartilhem a mesma experiência; o cinema, que atua
no imaginário como uma extensão dos sonhos; as novas tecnologias que ampliam as
capacidades do tato, do paladar. Outras tecnologias prostéticas são também a
arquitetura, os meios de transporte, as máquinas de escrever e mais tarde os
computadores, as lâmpadas, as lentes de grau ou de proteção contra os raios UV, a
62

internet, os leitores de livros digitais e demais “próteses complexas com as quais


outras próteses-da-sensibilidade, com seus sistemas e redes de comunicação, do
telefone ao computador, podem ser conectadas” (PRECIADO, 2014b, p. 165).
Em outras palavras, a cada nova necessidade, mediante uma incapacidade
natural da humanidade, uma nova tecnologia reinventa e substitui as funções dos
órgãos orgânicos e, a cada nova substituição, uma nova necessidade surge mediante
a uma função orgânica que se torna obsoleta e, assim, uma vez mais, a nossa
natureza se modifica.
O que se apresenta aqui pode soar como algum tipo de realidade distante, mas,
tendo em mente que a materialidade do corpo e os seus limites “não começam, nem
terminam na pele” (RUCOVSKY, 2016, p. 135, tradução nossa), é a partir daí que se
evidenciarão algumas das suas aplicações práticas.

3.1.1 As super lentes de contato da Sony

Em abril do ano de 2016 a Sony patenteou uma lente de contato que se ativa
através dos movimentos dos olhos e pode tirar fotos, gravar, reproduzir vídeos e
armazenar dados. Ao piscar um olho, a pessoa poderá operar as lentes como em um
display e que serão equipadas com autofoco, ajuste automático da exposição e zoom
ajustável:

Figura 2 - Sony’s Smart Contact Lenses.

Fonte: United States Patent and Trademark Office – Sony Corporation. (2016).
63

3.1.2 Stelarc

Stelios Arcadiou, mais conhecido como Stelarc, que desenvolveu diversas


próteses e, desde os anos 80, realizou performances para demonstrar como é
possível ampliar as capacidades humanas por meio do uso das próteses. Em sua
intervenção Ear on Arm, o artista implanta em seu próprio braço esquerdo um ouvido
artificial, que aparenta ser como uma orelha humana, mas que, além de um novo
órgão, o “tecnouvido” é integrado por um microfone que, além de ouvir e gravar áudio,
também permite transmitir as informações capturadas através de uma conexão com
a internet:

Figura 3 - Ear on Arm: engineering internet organ.

Fonte: Nina Sellars (2008)36.

3.1.3 “Let us run”

Os planos para estas tecnologias se contrastam ainda mais quando


observamos as próteses robóticas de Hugh Herr, que funcionam como as pernas,
mesmo que não se pareçam em nada com os órgãos humanos. A frente do grupo de
biomecatrônica do MIT Media LabHerr, o engenheiro e biofísico norte-americano
desenvolveu essas próteses devido ao próprio acidente, o qual sofreu quando ainda
tinha apenas 17 anos de idade. Diante das próteses obsoletas a qual tinha acesso na
época, ele decidiu se dedicar a encontrar soluções para o seu problema, assim como
para o problema de um sem-número de pessoas. As próteses que Herr desenvolveu
preconizam o avanço biônico rumo a fusão entre homem e robô com a intenção pós-

36 As fotografias foram registradas por Nina Sellars, que mais tarde realizou na Galeria Guildford Lane
a exposição chamada Oblique – images from Stelarc's extra ear surgery, em Melbourne, Austrália.
Outras fotografias do procedimento se encontram também no site do Stelarc, na página sobre a
performance Ear on Arm.
64

humanista de acabar com todas as limitações humanas. Assim, os instrumentos


desenvolvidos por ele foram pensados para que pudessem se conectar ao cérebro
humano, capazes de sentir e de se mover através dos comandos cerebrais, sendo
mais resistentes que as próteses comuns e se tornando um diferencial para, por
exemplo, as pessoas atletas:

Figura 4 - A nova biônica que nos permite correr, escalar e dançar.

Fonte: James Duncan Davidson – TED Conference Flickr (2014)37.

3.1.4 Frankenstein surgery

Mais um possível exemplo é o caso do Dr. Sergio Canavero38 que, como diretor
do Grupo de Neuromodulação Avançada de Turim e que, em conjunto com os seus
colaboradores, deseja realizar no final desse ano (2017) o primeiro transplante
humano de cabeça. Essa experiência, que já foi testada em animais em outras
situações, foi apelidada de Frankenstein surgery, cirurgia Frankenstein, pois utilizará
da reanimação de um corpo humano já falecido durante o processo em busca do êxito.
Dessa forma, Canavero pretende separar a cabeça humana de seu corpo original, no

37 O link para o Flickr oficial da TED Conference com mais fotografias de James Duncan Davidson se
encontra nas referências.
38 O artigo completo pode ser acessado no site do SNI - Surgical Neurology International e o link se

encontra nas referências.


65

preparo para o transplante, para então utilizar de sua técnica para, após conectá-la
com o seu novo corpo, reanimar os nervos por meio da estimulação elétrico-magnética
(e também daí o apelido).

3.2 AS FARMACOPOLÍTICAS EM ASCENSÃO NO SÉCULO XX E XXI

É próprio das tecnologias que se tornem inseparáveis e indistinguíveis do


corpo, é o movimento de devir subjetividade que se inicia com a corrida pelo avanço
tecnológico. Assim, Preciado esboça uma nova concepção de episteme39 a partir das
tecnologias sociais que intende completar a sociedade disciplinaria de Foucault, assim
como especificar a performatividade de Butler por meio das biotecnologias do gênero
e do corpo. Mas também a fim de redirecionar a análise das administrações políticas
dos seres vivos, a uma escala molecular e politoxicomaníaca, e que se mantém
através de grandes indústrias que colaboram com os complexos bélicos, industriais,
de comunicações e, como veremos a seguir, partindo da colaboração de Preciado,
também se intensifica, define e mantém a partir dos complexos farmacológicos.
Preciado nasce em um momento em que a economia do automóvel parecia
estar já atingindo o seu auge, mas começava a decair. Durante essa mesma época
surgia o fordismo como a indústria do automóvel que viria a sintetizar e definir um
modo específico de produção e consumo, uma “temporalização da vida, uma estética
policrômica e lisa do objeto inanimado, uma forma de pensar o espaço interior e de
habitar a cidade” (PRECIADO, 2015a, p. 28, tradução nossa). Mesmo com o
surgimento do fordismo, a decadência da indústria dos automóveis seguiu em curso,
o que levou a uma transformação na economia global, colocando então as indústrias
bioquímicas, eletrônicas, informáticas ou da comunicação como os novos suportes
industriais do capitalismo.
Em função de explanar a sua concepção de farmacopolítica, o autor
evidenciará inúmeros fatos históricos, como descobertas e desenvolvimentos
tecnológicos que levam a melhor compreender o seu embasamento. Dentre eles, o

39 Em Arqueologia do Saber (2008, p. 214), Foucault esclarece que por episteme entende-se um
conjunto de relações e práticas de uma determinada época e que originam figuras epistemológicas.
E diz: "a episteme não é uma forma de conhecimento, ou um tipo de racionalidade que, atravessando
as ciências mais diversas, manifestaria a unidade soberana de um sujeito, de um espírito ou de uma
época; é o conjunto das relações que podem ser descobertas, para uma época dada, entre as
ciências, quando estas são analisadas no nível das regularidades discursivas".
66

autor abordará a ascensão farmacológica e em como essa área do conhecimento se


estabeleceu em uma centralidade na produção fixa de capital a partir do século XX.
Desse modo, é necessário compreender que a farmacologia, sendo o estudo
dos efeitos das substâncias químicas sobre as funções do sistema biológico, existe
desde os primórdios da civilização, pois se trata da ação de experimentar, estudar e
catalogar as substâncias (fármacos) que interagem com as estruturas biomoleculares
com o intuito de prevenir, tratar, curar ou diagnosticar uma doença. Hoje, a
farmacologia não pode ser estudada como uma matéria isolada, tendo suas bases
fundamentadas em disciplinas (ou tecnodisciplinas, na ordem tecnocientífica) como a
química, fisiologia, patologia, bioquímica, psicologia. Ainda, a farmacologia abrange
várias especialidades como a farmacologia dos sistemas (neurofarmacologia,
farmacologia respiratória, farmacologia cardiovascular), a farmacologia molecular e a
quimioterapia. Como uma rede de conhecimento sem limites, a farmacologia, na
atualidade, serve como base para várias outras disciplinas tais como farmacogenética,
farmacogenômica, farmacoepidemiologia, a farmacoeconomia e etc40.
Além disso, há duas classes de substâncias ativas que são estudadas pela
farmacologia: as substâncias endógenas e as substâncias exógenas, sendo,
respectivamente, as substâncias produzidas interna e externamente ao corpo. E
Preciado dará ênfase a estas substâncias externas, começando com a classe dos
benzodiazepínicos, embora cite e critique outros fármacos, como veremos, estes
compreendem a classe mais utilizada de ansiolíticos e hipnóticos como o clonazepam
(Rivrotril), bromazepam (Lexotan), diazepam (Valium), atuando diretamente no
cérebro e alterando o modo como os receptores e as sinapses ocorrem.
Dito isso, em sua obra Testo Yonqui, o autor começa a descrever a ascensão
farmacológica partindo de Harry Benjamin, que colocou em andamento a
sistematização da utilização clínica de moléculas hormonais naturais de progesterona
e estrógeno que foram obtidas a partir do soro Premarin (molécula natural de
estrogênio) e, mais tarde, os hormônios sintéticos (Norethindrone, um contraceptivo
estrogênico); por meio deste avanço, em 1946 foi inventado a primeira pílula
contraceptiva a base de estrogênio sintético, perpetuando o uso dessa molécula
farmacêutica por toda a história porvir da humanidade até então.

40 Para mais informações específicas, basta acessar a aula introdutória “Estudo da Farmacologia” que
foi disponibilizada pela professora Dra. Flávia Cristina Goulart, link nas referências.
67

Em 1941 a penicilina é descoberta por Alexander Fleming. Em 1947 os


laboratórios Eli Lilly (Indiana, EUA) comercializam pela primeira vez a molécula da
metadona, que é o mais simples dos opiáceos, sintetizado como analgésico e que se
converte mais tarde como um dos principais substitutos da heroína nos tratamentos
de desintoxicação contra o vício.
Na mesma época John Money inventa o termo “gênero” diferenciando assim o
sexo biológico do gênero psicológico e ainda afirma que é possível modificar o gênero
de qualquer bebê até o seu décimo oitavo mês de vida por meio de intervenções
cirúrgicas de redesignação sexual. Vale destacar também que, em seguida, o lifting
facial e diversas intervenções cirúrgicas estéticas se convertem em técnicas de
consumo das massas nos Estados Unidos e na Europa; a “des-circuncisão” por
motivos estéticos ou a reconstrução artificial do pênis (total ou parcial) se torna uma
das cirurgias mais praticadas após a Segunda Guerra Mundial.
Com a invenção dos antidepressivos em 1966, que intervêm diretamente na
síntese do neurotransmissor serotonina e com a comercialização da Fluoxetina (ou
Prozac), o consumo e o abuso das substâncias legais e ilegais (cocaína, metadona,
morfina, cannabis e etc.) levam o Reino Unido a estabelecer a Lei de Abuso de Drogas
em 1971 para punir o tráfico e limitar o consumo.
Em 1988 é aprovada a utilização farmacológica do fármaco sildenafil
(comercializado como Viagra pelos laboratórios Pfizer) para tratar a disfunção erétil
do pênis.
Em 1996 os laboratórios americanos se lançam na produção sintética da
substância oxyntomodulina, um hormônio relacionado à saciedade, que foi
comercializada para provocar a perda de peso. A depressão infantil tratada com
Ritalina e as demais transformações apontam para uma “articulação de um conjunto
de novos dispositivos microprostéticos de controle da subjetividade” (PRECIADO,
2015a, p. 33, tradução nossa) humana com novas técnicas e que são completamente
incentivadas pela mídia como a nova economia do mundo.
É evidente que através do desenvolvimento tecnocientífico, ou seja, das
técnicas e do modo ao qual são empregadas, especificamente a farmacologia se
tornou uma potência que cresce sem limites. De modo ambicioso, a cada vez mais
em busca de meios de não apenas suprimir as exigências medicinais para a
prevenção, tratamento e cura, como também alimentar a necessidade social do
consumo dos fármacos.
68

Salvador Nogueira, no livro Ciência Proibida (2015), afirma em seu quarto


capítulo que a empresa farmacêutica Bayer, à época da Segunda Guerra Mundial, era
parte da empresa IG Farben, que se valia de prisioneiros para o trabalho escravo nas
fábricas e também como cobaias para testes dos medicamentos, o que levou muitos
ao óbito devido ao emprego de fármacos ainda em desenvolvimento.
Fica a cada vez mais claro o efeito que os fármacos possuem sobre não apenas
o corpo fisiológico, somático, mas também sobre o corpo social, assim como as
grandes empresas multinacionais responsáveis pelas linhas de pesquisa e produção,
por meio de suas segundas intenções. Um exemplo concreto dessa acusação
realizada por Salvador Nogueira é o desenvolvimento e uso do fármaco talidomida,
uma substância originalmente desenvolvida em 1954 na Alemanha e comercializada
em 1957 para ser um sedativo (e no Brasil, geralmente associada ao uso para diminuir
os enjoos durante a gestação), mas que culminou em um enorme desastre na Europa,
EUA e no Brasil, pois causava teratogênese41 em fetos. Embora aproximadamente 10
mil crianças em 46 países tenham sido afetadas, e cerca da metade dessas tenham
sobrevivido, a empresa Richardson-Merrell introduziu a droga como fármaco para o
tratamento das náuseas durante a gravidez.
Peter Gøtzsche, um professor dinamarquês da Universidade de Copenhague,
e Sir Richard J. Roberts, bioquímico e biólogo molecular ganhador do prêmio Nobel
de Medicina, realizam denúncias e afirmações muito semelhantes acerca da indústria
farmacêutica e das consequências de sua prática pouco supervisionada por órgãos
reguladores. Roberts (2007) afirma em entrevista ao jornal La Vanguardia42, de
Barcelona, que a produção de medicamentos que de fato curam não são rentáveis,
portanto, não são desenvolvidos. Já Gøtzsche (2016), em entrevista ao El País, afirma
que o uso de antipsicóticos tranquilizam as pessoas, “mas também lhes tiram parte
das suas emoções, parte dos seus pensamentos normais. Você pode ver que alguns
deles se tornam zumbis, incapazes de fazer qualquer coisa”43.
Assim como o caso do fármaco talidomida, um estudo de 2015 realizado por
Geoffrey Durso, Andrew Luttrel e Baldwin May, no Departamento de Psicologia da
Universidade do Estado de Ohio e em parceria com o Instituto de Pesquisa em

41 Se caracteriza por problemas diversos desencadeados no desenvolvimento fetal e que incluem a má


formação, restrição do crescimento ou retardo mental. Para maiores informações, sugerimos uma
visita ao site da ABPST, a Associação Brasileira de Portadores da Síndrome da Talidomida.
42 La Vanguardia, El fármaco que cura el todo no es rentable, 2007.
43 El País, Fármacos psiquiátricos nos fazem mais mal do que bem, 2016.
69

Medicina Comportamental, aponta que o paracetamol ou o acetaminofeno (Tylenol),


um popular remédio contra a dor, também causa um estado de torpor nas pessoas
que o ingerem. Ao invés de atuar sobre os receptores da dor, o fármaco amortece as
emoções positivas, como as de prazer, e também as negativas, o que pode causar
outros quadros clínicos mais profundos, como a depressão. Geoffrey, em relação aos
testes conduzidos com o Tylenol, afirma que:

seja através das atitudes, buscando metas ou experienciando emoções, as


pessoas estão constantemente se avaliando, avaliando aos outros e também
o seu ambiente em situações de negatividade, positividade ou ambos. A
droga que supostamente deveria aliviar as avaliações negativas de dor
também reduz as avaliações positivas de estímulos agradáveis, o que sugere
a existência de um processo de avaliação psicológica comum que influencia
uma ampla gama de pensamentos e comportamentos (DURSO, 2015, p. 07,
tradução nossa)44.

Embora seja uma pesquisa controlada e de resultados modestos, como afirma


Geoffrey Durso, ainda é incerto como o Tylenol pode causar estes efeitos colaterais.
Pesquisas anteriores, no entanto, sugerem que o fármaco atua na ínsula, parte do
cérebro responsável, dentre outras coisas, pelas emoções sociais.
De volta à filosofia de Preciado, é de fato através dos hormônios naturais e
sintéticos que atualmente se desempenha o papel da sexopolítica45, como um esboço
reconfigurado da teoria foucaultiana, tendo essas políticas sexuais com ênfase na
ascensão das indústrias farmacológicas que centralizará um modelo de ação do poder
biopolítico contemporâneo, assim como regulará a produção e a reprodução dos
códigos definidores do sexo nos corpos. Essa “mutação” do capitalismo, como será
visto, se caracterizará pela transformação do sexo em um objeto de gestão política da
vida e em como as dinâmicas tecnocapitalistas se intensificaram desde o final da
Segunda Guerra Mundial.
Sendo a biologia um sistema tecnovivo em que já estão implicados os
processos de interpretação e de produção cultural, logo e por exemplo, o hormônio da
testosterona, uma vez que é sintetizado, representa o quão obsoleto pode ser
considerado a soberania masculina. “O Viagra e a testosterona são as divisas desta

44 Texto original: "whether forming attitudes, pursuing goals, or experiencing emotions, people are
constantly evaluating themselves, others, and their environment in degrees of negativity, positivity, or
both. That a drug purported to relieve negative evaluations of pain also reduces positive evaluations
of pleasant stimuli suggests the existence of a common evaluative psychological process that
influences a wide range of thoughts and behaviors".
45 Como desdobramento do conceito foucaultiano, Preciado abordará a sexopolítica com precisão em

Multidões Queer (2011).


70

nova produção molecular da masculinidade” (PRECIADO, 2015a, p. 126, tradução


nossa) e dos corpos. Como uma molécula-chave, demonstra a partir da tecnologia
que se é possível sintetizar a substância que ao longo da história foi considerada a
essência masculina, então, por que ainda haveria alguma necessidade de bio-
homens, naturalmente masculinos? E, por isso, uma vez mais, o autor reitera que o
gênero, nessa perspectiva, é uma biotecnologia acrescida às tecnologias sociais:

a invenção da pílula como nanotécnica de modificação hormonal doméstica,


portátil e comestível, é contemporânea da invenção da noção de gênero, da
fabricação da bomba atômica, dos primeiros transplantes de silicone, das
primeiras próteses eletrificadas, do computador, da fórmica e das cadeiras
em contraplacado (PRECIADO, 2015a, p. 128, tradução nossa)46.

É a esta noção de nanotécnica, microprótese e produção molecular do corpo,


do sexo, gênero e sexualidade que será por fim avaliada no próximo capítulo, que
resgatará a centralidade das indústrias farmacêuticas dentro de um novo modelo de
regime de organização, classificação, produção e reprodução dos corpos.
A partir do que já foi descrito e das considerações de Nikolas Rose, em sua
obra The Politics of Life Itself, é possível perceber como se elabora na sociedade a
produção de uma verdade biológica a partir do reconhecimento dos indivíduos como
seres biológicos, isto pois, é parte do empreendimento tecnocientífico-farmacopolítico
que haja a apropriação dos conhecimentos básicos dessa área. Para Rose (2007, p.
136, tradução nossa), é a partir do momento em que as pessoas reconhecem em si
mesmas as limitações da natureza que, como resposta, buscarão o aperfeiçoamento
humano através da técnica. Assim, esperançosamente, seguem buscando por
descobertas e avanços na área da saúde:

as tentativas de educar o público sobre ciência e tecnologia fazem parte das


estratégias para "constituir" o cidadão biológico. "Criar cidadãos" envolveu a
remodelação da forma como as pessoas são compreendidas pelas
autoridades — sejam autoridades políticas, médicos, profissionais legais e
penais, potenciais empregadores ou companhias de seguros — em termos
de categorias como doentes crónicos, os deficientes, os cegos, os surdos, os
abusadores de crianças, os psicopatas (ROSE, 2007, p.140, tradução
nossa)47.

46 Texto original: “la invención de la píldora como nanotécnica de modificación hormonal doméstica,
portable y comestible, es contemporánea de la invención de la noción de género, de la fabricación de
la bomba atómica, de los primeros transplantes de silicona, de las primeras prótesis electrificadas,
del ordenador, de la formica y de las sillas en contrachapado”.
47 Texto original: "attempts educate the public about science and technology are part of strategies for

“making up” the biological citizen. “Making up citizens” has involved the reshaping of the way in which
persons are understood by authorities — be they political authorities, medical personnel, legal and
71

O indivíduo que se reconhece como um cidadão biológico, expressão de Rose,


o faz por intermédio das farmacopolíticas, do regime de produção plástica dos corpos.
A exposição constante aos avanços da tecnociência, da medicina, biologia, física e
demais áreas do conhecimento em convergência gera um estado adicto de auto
narrativa em que, como explica o autor, os cidadãos passam a descrever a si mesmos
como pacientes predispostos às doenças genéticas hereditárias, como casos de
colesterol alto ou diabetes, condições de vulnerabilidade, como depressivos, ansiosos
e dependentes de medicalização.
A estratégia de educar para a saúde é também uma jogada política que busca
estabelecer o próprio campo de atuação, hora causando a doença, hora curando-a.
É uma nova categoria que surge mediante a um novo regime, pois, se a partir
do século XVIII se pensa algum tipo de cidadania, "os direitos civis concedidos no
século dezoito exigiram a extensão da cidadania política no século dezenove e da
cidadania social no século vinte" (ROSE, 2007, p. 131, tradução nossa). Portanto, no
século XXI é a cidadania biológica que assume a produção de uma nova subjetividade,
com uma nova política, ética e, com o apoio das autoridades estatais do Ocidente,
estabelecem um novo "regime do eu", que considera na integridade do corpo a
necessidade de ir além da busca da saúde por meio da gestão dos riscos do
adoecimento, de modo hipocondríaco. Isso muda toda a organização ou dinâmica da
sociedade em função de condutas, dietas, estilos de vida, o uso de drogas, etc:

é claro que, em certo ambiente político, cultural e moral, essa ideia de


ativismo em relação à condição biomédica pode se tornar uma norma. O
ativismo e a responsabilidade agora se tornam não apenas desejáveis, mas
virtualmente obrigatórios — parte da obrigação do cidadão biológico ativo é
viver a vida dele ou dela através de atos de cálculo e escolha. Tal cidadão é
obrigado a informar-se não só sobre a doença atual, mas também sobre
suscetibilidades e predisposições (ROSE, 2007, p.147, tradução nossa)48.

Agora, observemos atentamente a página a seguir:

penal professionals, potential employers, or insurance companies — in terms of categories such as


the chronically sick, the disabled, the blind, the deaf, the child abuser, the psychopath".
48 Texto original: "of course, in a certain political, cultural, and moral milieu, this idea of activism in

relation to one’s biomedical condition can become a norm. Activism and responsibility have now
become not only desirable but virtually obligatory — part of the obligation of the active biological
citizen, to live his or her life though acts of calculation and choice. Such a citizen is obliged to inform
him or herself not only about current illness, but also about susceptibilities and predispositions".
72

Figura 5 - Your Own Personal Slaves

Fonte: Daniel Garcia (2016), com autorização do autor para o uso.


73

A arte digital acima, obra de Daniel Garcia, que gentilmente permitiu o uso neste
trabalho, ilustra precisamente o estado adicto ao qual Rose se refere, e a qual
Preciado chamará de politoxicomania (2010a, p. 113), ou o efeito de múltiplos vícios
tecnobiopsicossociais àqueles que estão imersos nas redes de transmissão de
informação, àqueles que estão a cada vez mais incorporados às tecnologias
prostéticas; que se definem pelas substâncias que dominam os seus metabolismos,
pelas próteses e pelos demais modos em que a tecnologia toma participação na
produção da subjetividade dos seres humanos e em como os indivíduos somáticos se
relacionam com essas próteses vivas.
É possível realizar um comentário mais aguçado acerca da relação de sua obra
com o que aqui tratamos, pois, uma vez que a juventude, sobretudo, se vê
esmagadoramente imersa em um mundo em que as relações econômicas
dominantes, em que projetam um determinado efeito de desejo-consumo que é
imediatamente coletivizado através dos veículos de comunicação e mídias, então,
diante de nós, há um exército de corpos e mentes adictos por diferentes modalidades
e níveis. Daniel Garcia ilustra o estado do qual nos referimos, com uma pessoa, ao
centro da imagem, infeliz e desconfortável. Do alto de seu trono (feito de humanos),
com a constante referência ao escravismo em suas modalidades antigas e atuais,
consome técnica e tecnologia: roupas, acessórios, substâncias, joias e pedrarias,
café, cosméticos, maconha, chocolates, camarões. Consome ideologia, história,
filosofia, ignorância, violência. Consome identidade e des-identifica a quem consome.
Consome o tempo, o espaço, a dor e o gozo, o deleite e o sofrimento, a vida e a
morte... Consome, pois, ficção e realidade, ou uma espécie de ficção de realidade
aumentada, que foi programada precisamente para confundir e distrair dos indícios
que diferem o que é virtual e o que não é.
A subjetividade não é mais apenas um fluxo ou algo intangível, mas sim capital,
e capital fixo, que produz desejo, que pensa, interage, goza e vive dentro de
normativas tecnobiopolíticas, reguladoras em função da utilidade ao sistema. O corpo
que consome também é consumido.
Estas operações experimentais, tecnobiológicas e farmacopolíticas, se
desenvolvem de modo a agir não apenas como um instrumento, mas mais
especificamente como um dispositivo, como a rede que se tece entre os discursos
homogeneizantes, instituições, organizações estruturais, regulamentações, leis,
74

administrações, enunciados e proposições filosóficas, morais, hábitos e também


elementos culturais; aquilo que se expressa ou o que se mantém tácito.
O uso dos fármacos tende a levar não apenas as substâncias para dentro do
corpo, mas também a internalização de um coquetel tecnoideológico, em que o
tecnobiopoder49 se faz presente em diversos níveis, desde às pesquisas, dos testes
às vendas e, por fim, no próprio ato de consumir.
Diante disso, estamos frente a um novo tipo de capitalismo, em que as recentes
transformações apontam para a articulação de um conjunto de novos dispositivos de
controle da subjetividade por meio de plataformas técnicas, biomoleculares,
farmacológicas e midiáticas. Voltando à Preciado, que aponta para um novo regime
que intenta fermentar suavemente a subjetividade humana50, sintetizar aquilo que
outrora fora de responsabilidade da natureza e apenas da natureza. O constante
crescimento da indústria farmacêutica como a nova economia mundial para a
produção de “centenas de toneladas de esteroides sintéticos” (PRECIADO, 2015a, p.
34, tradução nossa) para elaborar uma nova variedade de drogas psicoativas legais e
ilegais como o Lexomil, Special K, Viagra, Speed, Prozac, Ecstasy, Popper, Heroína
e outras.
Por trás do grande avanço tecnológico, em sua aplicabilidade, há um projeto-
político ao qual Preciado dá destaque como sendo a grande mudança epistemológica
e epistemossexual de nossa época, que se expande em meados do século XX e,
como veremos no próximo capítulo, se enraíza, como consequência, também como
uma nova dinâmica para as economias e fluxos presentes na sociedade e que busca
criar criaturas das quais os seus corpos débeis têm sua potência vital amplamente
explorada, uma vez que foi “utilizada em contenção de sua própria multiplicidade
corporal, incapazes de encontrar satisfação na vida, politicamente mortas antes de
haver deixado e de respirar” (PRECIADO, 2015a, p. 107, tradução nossa).
O devir testosterona, assim como o devir estrógeno, substâncias hormonais
que são chamadas equivocadamente de “masculinas” e “femininas”, é, assim como
veremos a seguir, parte de uma agenda farmacopolítica que busca gerar o efeito de

49 O ajuste do termo e conceito é tomado de Donna Haraway (1995), como afirma Preciado (2015, p.
41): “Donna Haraway prefere a noção de ‘tecnobiopoder’ à foucaultiana ‘biopoder’, pois já não se
trata de poder sobre a vida, de poder de gerir e maximizar a vida, como queria Foucault, mas de
poder e controle sobre um todo tecnovivo conectado”.
50 Preciado utiliza aqui a referência de uma frase de Peter Sloterdijk: “suaves fermentations de la

subjectivité creuse en elle-même”. Ecumenes, Sphères III, 2003.


75

múltiplos vícios, de variados níveis e em um sem-número de possibilidades, isto pois,


por meio da instauração de uma cidadania biológica, o sujeito reconhece a si como
ser biossocial e que, por sua vez, possui direitos sobre sua materialidade corporal.
Direitos esses que, inevitavelmente, acabam por levar os sujeitos a buscar
constantemente por melhorias ou por intervenções médico-cirúrgicas e fármaco-
industriais que facilitem a sua sobrevivência.
Em Testo Yonqui, é de acordo com a lógica da indústria farmacêutica e da
indústria pornográfica que o capitalismo atual se mantém, através de motores ocultos
e incessantes de produção de ilusões bioquímicas e audiovisuais, de modo em que,
nas palavras de Mário Borba (2016, pp. 247-248), a “indústria pornográfica é para a
indústria cultural e do espetáculo o mesmo que a indústria do tráfico de drogas ilegais
é para a indústria farmacêutica”. Veremos como Preciado identifica o regime que se
revela como um terceiro tipo de capitalismo, que depois dos regimes escravista e
industrial, acabará por se situar em torno dos anos setenta, e também veremos como
o autor relaciona este novo regime econômico e epistêmico com a
governamentalidade do ser vivo apresentada por Foucault.
Trataremos no próximo capítulo do processo em que “a ciência devém texto e
campo de poderes” (PRECIADO, 2010b, p. 01, tradução nossa), no qual se inscrevem
verdades também fabricadas no interior de laboratórios e indústrias, e que induz a
sociedade contemporânea do Ocidente a se desenvolver em meio a uma esfera
tóxico-pornográfica (PRECIADO, 2008a, p. 108, tradução nossa)51, em uma esfera em
que as subjetividades são definidas pelas substâncias presentes no novo metabolismo
cibernético e prostético que se constitui sob o estatuto farmacopolítico, produzindo
assim corpos em uma grande linha (ou regime) de produção.

51 Em Pharmaco-pornographic Politics: Towards a New Gender Ecology (2008a) Preciado afirma que,
ao ler William S. Burroughs e Bukowski, prefere inspirar-se a chamar o terceiro regime de poder-
conhecimento, disciplina e biopolítica de farmacopornopoder, que é "uma ejaculação politicamente
programada" e "a moeda desse novo controle sexual-micro-informático" (p. 110).
76

4 TECNOLOGIA IN-CORPORADA

“Discursos, na verdade, habitam corpos. Eles se acomodam em corpos; os corpos na verdade


carregam discursos como parte de seu próprio sangue”.

– Judith Butler, Como os corpos se tornam matéria (2002b).

No capítulo anterior foi possível vislumbrar os passos dados por Preciado para
descrever processualmente a produção e a industrialização do corpo, agora
tecnocorpo, e também pudemos exemplificar alguns aparatos tecnocientíficos e
farmacêuticos que ilustram o devir-corpo das mesmas. A partir da ascensão da
indústria farmacêutica, da molecularização dos efeitos discursivos e da instauração
de uma política (cidadania biológica) e de uma prática (a politoxicomania), Preciado
demonstra em suas obras uma certa emergência e chama a atenção do leitor para a
mesa de operações que estabelece, isto é, para uma espécie de mapa que se abre,
no qual se demarca os principais pontos de sua perspectiva. No capítulo que agora
se inicia nós poderemos acompanhar uma avaliação das atuais implicações dos
efeitos da in-corporação da tecnologia que, na lógica da farmacologia, aliada a
produção farmacêutica tóxico-pornográfica, fará do corpo não apenas a sua interface
na qual pode se acoplar, mas que também um espaço para se habitar e, de dentro
para fora, vir-à-ser um corpo em si.
Pode-se dizer que Preciado relacionou as inúmeras materializações
farmacológicas e midiáticas ao perguntar-se: como o sexo e a sexualidade chegaram
ao centro da atividade política e econômica das sociedades? Como e por quais
procedimentos que os discursos se corporificam? E em como se produz o corpo
tecnocientificamente? Foi de acordo com uma intensa influência sob a psicologia, a
sexologia e a endocrinologia por meio de uma autoridade material que, juntamente
com todo o desenvolvimento tecnocientífico, transformou-se as subjetividades em
algo consumível e, portanto, comercializável. Assim, conceitos como psique, libido, a
consciência, a feminilidade e a masculinidade, a heterossexualidade e a
homossexualidade, assim como as demais identidades se tornam tangíveis,
“substâncias químicas, moléculas comercializáveis, em corpos, em biotipos humanos,
em bens de intercâmbio geridos pelas farmacêuticas multinacionais” (PRECIADO,
2015a, p. 34, tradução nossa). Uma micropolítica tecnocientífica de produção da
materialidade carnal dos corpos.
77

Parafraseando Preciado, definitivamente, não há mais nada para se desvelar


na natureza, não há mais nenhum segredo escondido (PRECIADO, 2015a, p. 35,
tradução nossa). E é pelas razões apresentadas até aqui que a tecnociência se tornou
a nova religião da modernidade, pois possui poder e autoridade material o suficiente
para criar e produzir corpos, reduzir, molecularizar e naturalizar identidades, e não
mais como antes, em que apenas e simplesmente descrevia a realidade:

o êxito da tecnociência contemporânea é transformar a nossa depressão em


Prozac, nossa masculinidade em testosterona, nossa ereção em Viagra,
nossa fertilidade/esterilidade em pílula, nossa AIDS em triterapia. Sem que
seja possível saber quem veio antes, se foi a depressão ou o Prozac, se o
Viagra ou a ereção, a testosterona ou a masculinidade, se a pílula ou a
maternidade, se a triterapia ou a AIDS (PRECIADO, 2015a, p. 35, tradução
nossa)52.

Preciado compreende que o capitalismo avançado (com a organização do


trabalho e com as linhas de produção diferindo-se do fordismo) se firmou a partir de
pilares específicos, como a guerra, a indústria farmacêutica e a indústria pornográfica,
então se fez necessário atribuir a esse grupo de indústrias líderes do capitalismo um
novo nome que possa abranger a sua ação e os seus efeitos, diz:

estes são apenas alguns dos indícios da aparição de um regime pós-


industrial, global e midiático que chamarei a partir de agora, tomando como
referência os processos de governo biomolecular (fármaco-) e semiótico-
técnico (-porno) da subjetividade sexual, dos quais a pílula e a Playboy são
paradigmáticos, “farmacopornográfico”. Se as suas linhas de força se
enraizaram na sociedade científica e colonial do século XIX, os seus vetores
econômicos não se farão visíveis até o final da Segunda Guerra Mundial,
ocultos a princípio sob o disfarce da economia fordista e sendo expostos
unicamente após o colapso progressivo da mesma nos anos setenta
(PRECIADO, 2015a, p. 34, tradução nossa)53.

A partir da criação de um novo conceito, a farmacopornografia, Preciado define


uma hipótese: “as verdadeiras matérias primas do processo produtivo atual são a
excitação, a ereção, a ejaculação, o prazer e o sentimento de autocomplacência e de

52 Texto original: “el éxito de la tecnociencia contemporánea es transformar nuestra depresión en


Prozac, nuestra masculinidad en testosterona, nuestra erección en Viagra, nuestra
fertilidade/esterilidad en píldora, nuestro sida en triterapia. Sin que sea posible saber quién viene
antes, si la depresión o el Prozac, si el Viagra o la erección, si la testosterona o la masculinidad, si la
píldora o la maternidade, si la triterapia o el sida”.
53 Texto original: “estos son algunos de los índices de aparación de un régimen postindustrial, global y

mediático que llamaré a partir de ahora, tomando como referencia los procesos de gobierno
biomolecular (fármaco-) y semiótico-técnico (-porno) de la subjetividad sexual, de los que la píldora y
PlayBoy son paradigmáticos, “farmacopornográfico”. Si bien sus líneas de fuerzas hunden sus raízes
en la sociedad científica y colonial del siglo XIX, sus vectores económicos no se harán visibles hasta
el final de la Segunda Guerra Mundial, ocultos en principio bajo la apariencia de la economía fordista
y expuestos únicamente tras el progresivo desmoronamiento de esta en los años setenta”.
78

controle onipotente” (2015a, p. 38, tradução nossa). O regime semiótico-técnico (ou


farmacopornográfico) e a sua constante produção da materialidade do corpo é, então,
o verdadeiro motor do capitalismo ao qual estamos submetidos. O controle
farmacopornográfico se dá através não apenas da indústria farmacêutica, mas
também a partir da industrial cultural de representação (através da fotografia, do
cinema, da televisão, das rádios, outdoors, ambientes virtuais, etc.) em escala mundial
(a qual Preciado denomina também como pornografia), do consumo e dos múltiplos
vícios resultantes. Também da produção de um estado mental e psicossomático de
excitação, relaxamento, de total controle e onipotência sobre o próprio corpo e,
consequentemente, sobre o dos demais. A política da autocomplacência, da cidadania
biológica-politoxicomaníaca, produz não apenas política, mas discursiva e
tecnocientificamente o “corpo viciado e sexual, o sexo e todos os seus derivados
semiótico-técnicos são, hoje, o principal recurso do capitalismo pós-fordista”
(PRECIADO, 2015a, p. 38, tradução nossa). E essa é, então, a produção
tecnocientífica dos corpos, assim como a de sua materialidade, tanto discursiva e
performativa, em uma dimensão linguística, quanto técnica, em um nível prostético de
fabricação da carnalidade.
Se a economia do automóvel revolucionou a produção industrial,
temporalizando e disciplinando, e se o fordismo intensificou esse processo de modo
a aumentar as linhas de produção com o auxílio da tecnologia, então Preciado chama
de farmacopornismo a nova era dominada pela indústria tecnocientífica das pílulas.
Uma era em que os corpos são como receptáculos, aos quais se induzem ciclos de
excitação-frustração-excitação característicos do farmacopornismo. Se trata de uma
era em que “a indústria farmacopornográfica é o ouro branco e viscoso, o pó cristalino
do capitalismo pós-fordista” (PRECIADO, 2015a, p. 39, tradução nossa). Se o
fordismo sintetizava a vida de modo taylorizante, aliando produção e consumo, o
farmacopornismo sintetiza a subjetividade e naturaliza o sintético “através de
dispositivos de autovigilância e difusão ultrarrápida de informação” que implementa
“um modo contínuo e sem repouso de desejar e resistir, de consumir e destruir, de
evoluir e de auto extinguir-se” (PRECIADO, 2015a, p. 39, tradução nossa).
79

4.1 A ERA FARMACOPORNOGRÁFICA

Em Testo Yonqui, de modo a ilustrar a sua proposta e hipótese, Preciado


nomeará de potentia gaudendi ou força orgásmica aquilo que, segundo ele, equivale
ao conceito de força de trabalho, assim considerando o pensamento marxista como
uma referência para auxiliar na estruturação dos problemas aos quais evidencia.
A expressão potentia gaudendi54, ou força orgásmica, se trata do potencial total
de excitação dos corpos e cuja capacidade é indeterminada, não lhe é atribuida algum
gênero, não é animal e nem humana, animada ou inanimada, não tem orientação
sexual, nem diferencia o ser excitado da excitação ou ainda do excitar-se com.
Segundo Preciado a força orgásmica não privilegia, de forma alguma, um órgão em
detrimento de outro e é, em suma, a potencialidade de excitação inerente a qualquer
molécula de um corpo.
“A força orgásmica reúne ao mesmo tempo todas as forças somáticas e
psíquicas, põe em jogo todos os recursos bioquímicos e todas as estruturas da alma”
(PRECIADO, 2015a, p. 40, tradução nossa); portanto, o verdadeiro substrato da força
de trabalho é revelado como potentia gaudendi. Como fundamento energético deste
sistema tecnofarmacopornográfico, a força orgásmica não se reduz a um objeto, é
altamente maleável e não permanente, e não pode ser transformada definitivamente
em uma propriedade privada; então, existe como uma grande prática, um evento ou
um devir. Para Preciado, o que a potentia gaudendi deixa aparecer é que, embora não
possa ser convertida em propridade privada e seja altamente maleável, a sua
existência e presença em todo e qualquer corpo é convertida em um ganho para a
classe dominante, a mais-valia sexopolítica, baseada na produção farmacopornista e
nas mutações do capitalismo farmacopornográfico, que coloca em trabalho a força
orgásmica, assim como fora com a força de trabalho, para produzir a realidade em
que o capitalismo converte a potência de gozar. Logo:

seja em sua forma farmacológica (molécula digestível que se ativará no corpo


do consumidor), em forma de representação pornográfica (como signo
semiótico-técnico convertível em dado numérico e transferível a suportes
informáticos, televisuais ou telefônicos) ou em sua forma de serviço sexual
(como entidade farmacopornográfica viva cuja força orgásmica e cujo volume
afetivo são postos ao serviço de um consumidor por um determinado tempo

54Em Testo Yonqui (2015, p. 40) Preciado elucida que “este conceito é utilizado a partir da potência de
atuar ou força de existir que, a partir da noção grega de dynamis e de seu correlato metafísico
escolástico, elaborara Spinoza”.
80

sobre um contrato mais ou menos formal de venda de serviços sexuais)


(PRECIADO, 2015a, p. 40, tradução nossa).

A “glória fantasmática” do molecular transformável pelo capital se vê altamente


regulada tecnocientífica e farmacopornograficamente e é a partir dela que os
tecnocorpos se produzem, assim como o aparato sexo-gênero se sustenta, e então
os indivíduos se tornam entidades vivas, consumidoras incorporantes de tecnologia,
como uma extensão viva das tecnologias globais de comunicação.
Tanto a tecnobiopolítica quanto a tanatopolítica (política de controle e gestão
da morte) funcionam como farmacopornopolíticas: gestões planetárias da potentia
gaudendi. Empreender regulações sobre a potentia gaudendi, é, em outras palavras,
o mesmo que empreender regulações sobre o gozo, sobre o ato de gozar ou sobre o
não-gozar. Desse modo, gozar livremente se tornar gozar de acordo com a ideologia
dominante, como demonstra Peto (2011). Em Cisne Negro: por uma inversão na
ditadura do gozar, Peto se refere a uma padronização do potencial total de excitação
dos corpos e, logo, de uma vigilância panóptica a fim de manter o gozo disciplinado,
vigiado e direcionado para uma espécie de mais-gozar. Para o sujeito regulado, o
acesso ao mais-gozar é proibido, mas gozar é uma norma, é a transformação do gozar
em um imperativo em que, longe de subverter a sua ação, faz do gozar um “não-
gozar” por institucionalização e sistematização do uso da potentia gaudendi, pois:

a máquina do não-gozar é lucrativa. Não gozará se for gordo, não gozará se


for fraco, não gozará se não tiver sucesso profissional. Goze com o seu café,
mas só até o ponto de ser considerado um apreciador: o excesso é prejudicial.
Goze modelando seu corpo na academia, goze privando-se de comer
gordura, goze de sua carreira, independente de qualquer privação, goze de
suas relações, até que elas não lhe sejam mais necessárias. Goze, goze e
goze, mas sem gozar. Transgrida dentro da norma. Exceda sem exceder.
Viva sem viver (PETO, 2011, s/p).

Hegemônico, o corpo masculino ocupa uma posição no mercado de força de


trabalho em que o controle da potentia gaudendi acompanha a constituição de um
regime ao qual a força orgásmica atua coletivamente, neste contexto, de modo a
trabalhar compulsoriamente em função de uma normativa heterossexual:

a evolução da sexualidade moderna está diretamente relacionada com a


emergência disso que podemos chamar de novo “Império Sexual” (para
ressexualizar o Império de Hardt e de Negri). O sexo (os órgãos sexuais, a
capacidade de reprodução, os papéis sexuais para as disciplinas
modernas…) é correlato ao capital. [...] É assim que o pensamento straight
assegura o lugar estrutural entre a produção da identidade de gênero e a
produção de certos órgãos como órgãos sexuais e reprodutores. Capitalismo
81

sexual e sexo do capitalismo. O sexo do vivente revela ser uma questão


central da política e da governabilidade (PRECIADO, 2011a, p. 12).

Dessa forma, o corpo, produzido pela tecnociência e influenciado pela indústria


farmacêutica, globalizado através das tecnologias audiovisuais e culturais, feito adicto
por sua cidadania biológica e politoxicomaníaca, se volve desejável e amplamente
direcionado ao consumo compulsório. Assim se formam os domínios de tantas
empresas e líderes de segmento que, enquanto produzem um saber-prazer sob a
máscara do discurso médico (ser saudável, ser fitness, estar na moda, ingerir
multivitamínicos, bombas, branqueamentos, cirurgias estéticas, lipo, aumento
peniano, o silicone, a ereção mais forte, o cabelo mais liso, etc.), também induzem ao
consumo que, por sua vez, garante uma hegemonia mundial a partir da qual:

as drogas, como os orgasmos e os livros, são relativamente fáceis e baratas


de fabricar. O difícil é a sua concepção, a sua distribuição e seu consumo. O
biocapitalismo farmacopornográfico não produz coisas. Produz ideias
móveis, órgãos vivos, símbolos, desejos, reações químicas e estados da
alma. Em biotecnologia e em pornocomunicação não há objeto que produzir,
se trata de inventar um sujeito e produzi-lo em escala global (PRECIADO,
2015a, pp. 46-47, grifos do autor, tradução nossa)55.

Podemos entender e assim dizer que no referido regime de economia e


produção, sem as técnicas farmacêuticas e midiáticas, sem o desejo e a enfermidade,
sem a evolução e a destruição, o capitalismo farmacorponográfico não poderia se
manter. Sem os seus suportes, os quais são capazes de o gerir e materializar, não
haveria o domínio reducionista da dimensão micropolítica e hormonal. Sem as
técnicas das quais se emana a aura audiovisual não haveria a soberania e hegemonia.
E, consequentemente, que sem as técnicas cirúrgico-prostéticas não haveria um todo
formado de amplas tecnologias de produção da espécie humana (e demais espécies).
As práticas tecnocientíficas e farmacopornográficas que se desenvolveram
entre o século XX e XXI produzem os corpos através da linguagem e do discurso, sim,
como Judith Butler nos ensina com a performatividade, mas, para além disso, o corpo
é também um produto de tecnologias de modificação da carne, somáticas; de
fármacos e coquetéis de ideologia ingeríveis, da mídia globalizante. O corpo é
fabricado com êxito e é “ao mesmo tempo corpo e ideia, entidade viva e código digital”

55 Texto original: “las drogas, como los orgasmos y los libros, son relativamente fáciles y baratas de
fabricar. Lo difícil es su concepción, su distribución y su consumo. El biocapitalismo
farmacopornográfico no produce cosas. Produce ideas móviles, órganos vivos, símbolos, deseos,
reacciones químicas y estados del alma. En biotecnologia y en pornocomonicación no hay objeto que
producir, se trata de inventar un sujeto y producirlo a escala global”.
82

(PRECIADO, 2015a, p. 95, tradução nossa), com sangue e discursos em suas veias.
Assim, podemos também afirmar que Preciado dará ênfase e maior importância em
sua investigação para a dimensão semiótico-técnica, que por sua vez concebe um
materialismo tecnológico fisicalista56 que faz do corpo não uma matéria passiva, inerte
e improdutiva, mas uma interface, um território moldado e alimentado por dispositivos
textuais, tecnológicos, bioquímicos e tecnobiopolíticos que “operam e constituem,
seguindo diversas intensidades, diversos índices de penetração, diversos graus de
efetividade na produção da subjetividade” (PRECIADO, 2015a, p. 96, tradução nossa).
Graças a soberania pré-moderna é que, agora mascarada pelo regime
farmacopornográfico, por exemplo, o corpo segue de um modo ou de outro, de século
em século, com inúmeras cláusulas fixadas em sua carne, em seus órgãos. De modo
que, digamos, a rinoplastia (operação do nariz) é considerada uma cirurgia estética e
que a vaginoplastia e a faloplastia (cirurgias de construção da vagina e do pênis) ainda
são consideradas operações de redesignação sexual. Sobre isso, Preciado diz que:

dentro de um mesmo corpo, o nariz e os órgãos sexuais se veem claramente


atravessados por dois regimes de poder. Enquanto o nariz está regulado por
um poder farmacopornográfico em que um órgão se considera como
propriedade individual e como objeto do mercado, os genitais seguem
encerrados em um regime pré-moderno e quase soberano de poder que os
considera como propriedade do Estado (e por extensão, neste modelo
teocrático, de Deus) e dependentes de uma lei transcendental e imutável.
Mas o estatuto dos órgãos na sociedade farmacopornográfica está se vendo
rapidamente alterado, de um modo que uma multiplicidade mutável de
regimes de produção opera simultaneamente sobre um corpo. Aqueles que
sobreviverem a mutação em curso verão seus corpos mudar de sistema
semiótico-técnico, ou, dito de outro modo, deixarão de ser o corpo que foram
(PRECIADO, 2015a, p. 96, tradução nossa)57.

56 A contribuição de Anabela Rocha foi fundamental para a compreensão e materialização dessa


pesquisa, e tomo como referência a sua leitura sobre a farmacopornografia em que afirma: “a esta
visão da corporalidade chamaremos um materialismo tecnológico, no sentido em que recorre apenas
à materialidade corporal e às suas interações com a materialidade técnica, assentando, portanto, um
fisicalismo” (2012, p. 03). Entretanto, discordamos de Anabela quando a mesma afirma, em seguida,
que o materialismo tecnológico fisicalista (semiótico-técnico ou ainda a farmacopornografia) define
que “tudo o que existe são processos físicos e não mentais”. Entendemos e defendemos que em
nenhum momento Preciado é negligente a ponto de, em um movimento, desfazer-se dos mecanismos
psíquicos que compõem o aparato tecnológico de produção do gênero. Lembrando que
constantemente se refere a subjetividades que forjam de dentro para fora, bioquimicamente e
midiaticamente, o feito e a ficção de gênero. Veremos adiante que, entretanto, há de fato questões
que precisam ser revisadas, que mesmo oferecendo complementaridade entre as fontes das quais
Preciado bebeu para elaborar o seu pensamento, precisam de mais atenção.
57 Texto original: "dentro de un mismo cuerpo, la nariz y los órganos sexuales se ven atravessados por

dos regímenes netamente diferentes de poder. Mientras la nariz está regulada por un poder
farmacopornográfico en el que un órgano se considera como propiedad individual y como objeto del
mercado, los genitales siguen encerrados en un regimen premoderno y casi soberano de poder que
los considera como propiedad del Estado (y por extensión, en este modelo teocrático, de Dios) y
83

A reorganização institucional da sociedade em função de um modelo semiótico-


técnico ocorre desde Foucault, recordando o que vimos no primeiro capítulo58, em que
o panóptico atua como um modelo de organização política, arquitetônica e industrial.
Expandindo sua atuação, veremos sua influência em esferas médico-jurídicas,
religiosas, pedagógicas e educativas, midiáticas, da psicologia, psiquiatria, e assim
por diante, que articulam noções normativas e compulsórias em torno do dispositivo
sexo-gênero-desejo em escala micropolítica e que, para além da modificação técnica
dos corpos, de acordo com Preciado à luz de Foucault, também passará a “fabricar
uma alma” masculina ou feminina59.
A infiltração das técnicas de controle biopolítico nos corpos já estão sendo
descritas desde os capítulos anteriores, entretanto, a partir da farmacopornografia, o
sistema disciplinário de vigilância, punição e correção estão sendo inscritos de dentro
para fora dos corpos através de códigos e microtecnologias que buscam modificar os
órgãos, fluxos, neurotransmissores e os agenciamentos dos corpos, o que, de acordo
com Preciado, difere da leitura foucaultiana do panóptico de Jeremy e Samuel
Bentham, pois longe de ser um controle frio e fechado, se caracteriza como um
controle-pop. Um controle tão maleável quanto o corpo ao qual se fabrica, e “dito de
outro modo, a pílula contraceptiva é o panóptico comestível” (PRECIADO, 2015a, p.
134, tradução nossa), assim como as demais pílulas e comprimidos como o Prozac,
o Viagra, a Codeína ou a Ritalina, de ingestão voluntária, mas inconsciente das cargas
políticas micro e nanoprostéticas que se instalam no corpo de quem consome, e que
induzem a um estado continuado e de funcionamento automático do farmacopoder.
São dispositivos aparentemente inofensivos e que certamente pareceriam
benéficos a quem consome. Individuais, de rápida ingestão ou aplicação, não exigem
a intervenção externa de outrem para que a pessoa que consome se programe através

dependientes de una ley transcendental e inmutable. Pero el estatuto de los órganos en la sociedad
farmacopornográfica está viéndose alterado rapidamente, de modo que una multiplicidad combiante
de regímenes de producción operan simultaneamente sobre un cuerpo. Aquellos que sobrevivan a la
mutación en curso verán sus cuerpos cambiar de sistema semiótico-técnico, o, dicho de otro modo,
dejarán de ser el cuerpo que fueron".
58 Confira no item 2.1.2 “Era uma vez um corpo dócil”, pp. 27-29.
59 Em Vigiar e Punir (2013, p. 32), Foucault faz menção a tecnologias que buscam a fabricar alma,

sendo que o autor define a alma como "o elemento onde se articulam os efeitos de um certo tipo de
poder e a referência de um saber, a engrenagem pela qual as relações de poder dão lugar a um
saber possível, e o saber reconduz e reforça os efeitos de poder. Sobre essa realidade-referência,
vários conceitos foram construídos e campos de análise foram demarcados: psique, subjetividade,
personalidade, consciência, etc.; sobre ela técnicas e discursos científicos foram edificados; a partir
dela. [...] A alma, efeito e instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do corpo". Em Preciado
(2015a) a referência se encontra na página 132.
84

dos calendários e prescrições para que ocorra uma administração regulada e


disciplinada. A pílula contraceptiva, a testosterona e o Viagra permitem, por exemplo,
e entre outras coisas, a modificar e a temporalizar o comportamento, regular a
atividade sexual e o nível hormonal, a controlar o crescimento da população e a
desenhar a aparência sexual dos corpos. Mas, e destaca Preciado, entre o panóptico
e a pílula há diferenças que são importantes, pois:

marcam, em apenas um século de distância, a transformação de um


programa disciplinário em um programa farmacopornográfico. Em um caso
nos encontramos com uma arquitetura política externa, que define a posição
do corpo em um espaço coletivamente regulado, cria posições de poder
específicas (vigiante/vigiado, doente/médico, professor/estudante, etc.) e
permite gerar um saber (visual, estadístico, demográfico) acerca dos
indivíduos controlados. No outro, enfrentamos a um dispositivo que, sem
deixar de aumentar a sua eficácia, reduziu a sua escala até converter-se em
uma técnica biomolecular individualmente consumível por via oral. Na era
farmacopornográfica, o corpo traga o poder (PRECIADO, 2015a, pp. 134-135,
tradução nossa)60.

O corpo anseia pelo poder, busca pelo poder, o quer a todo custo e usa, veste,
agrega, pendura, perfura, traga, bebe, come, aspira, introduz, administra, mete pelos
orifícios, aplica-se até obstruir os poros com mais e mais poder, como se fosse um
hidratante-tônico – e assim o é – que se infiltra no corpo, que encontra o seu caminho
de fora para dentro e que, de dentro para fora, exerce o seu domínio. As diferenças
entre o que é orgânico e o que é sintético já são praticamente inexistentes. É preciso
constatar e avaliar “a aparição de um novo tipo de corporalidade” a partir dos ideais
farmacopornográficos e do novo modelo epistemossexual e normativo para a
produção de masculinidade e feminilidade, o que coloca em evidência a construção
minuciosa do corpo “segundo os quais os órgãos, os tecidos, os fluídos e, em último
termo, as moléculas se transformam em matérias primas a partir das quais se fabrica
uma nova aparência de natureza” (PRECIADO, 2015a, p. 139, tradução nossa).
Se Preciado diferencia a sua leitura do panóptico de Bentham da de Foucault,
diferenciará também a sua compreensão das tecnologias corporais já que, como
marco distintivo da era farmacopornográfica, as tecnologias de produção de

60 Texto original: “marcan, en apenas un siglo de distancia, la transformación de un programa


disciplinario en un programa farmacopornográfico. En un caso nos encontramos con una arquitectura
política externa que define la posición del cuerpo en un espacio colectivamente regulado, crea
posiciones de poder específicas (vigilantes/vigilado, enfermo/doctor, profesor/estudiante, etc.) y
permite generar un saber (visual, estadístico, demográfico) acerca de los indivíduos controlados. En
el otro, nos enfrentamos a un dispositivo que, sin dejar de aumentar su eficacia, ha reducido su escala
hasta convertirse en una técnica biomolecular individualmente consumible por vía oral. En la era
farmacopornográfica, el cuerpo se traga el poder”.
85

subjetividade não apenas produzem tecnologias corporais, como também as


reinscrevem radicalmente no corpo, de modo complementar à biopolítica foucaultiana
e à performatividade butleriana. Biotecnificar o corpo, para Preciado, expande a
contraprodução frente a micro e nanopolíticas que controlam precisamente o
movimento ou a inércia dos corpos hegemônicos. Controlar os corpos é também
controlá-los espacialmente, a sua organização social, o tempo, a ordem e
microespaços nos quais, possivelmente, poderiam surgir um movimento de
resistência.
A farmacopornografia constitui o novo paradigma de poder em vigência na
sociedade de controle e disciplina, do qual consome a tudo e todos como uma grande
máquina engolidora de matéria-prima para a sua tecnoprodução. O objetivo das
tecnologias farmacopornográficas é, então, a produção do corpo como extensão viva
de suas tecnofarmacopornopolíticas para, como prótese viva, ser um corpo dócil o
suficiente a ponto de, voluntariamente, oferecer ao regime todo o potencial abstrato
de excitação e produção presentes em seu corpo, colocando à disposição das
instituições farmacopornográficas a sua potentia gaudendi para a produção de capital
fixo, mesmo sabendo que se verá impedido de usufruir do que produz, permanecendo
assim coerente com o sistema.
O corpo não é inteiramente dócil, pois paradoxalmente, é a partir do corpo
docilizado que ocorre a transferência de seu potencial produtivo para o regime
planetário tecnocultural interconectado (PRECIADO, 2015a, p. 92, tradução nossa).
Para Foucault, “o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe
impõem limitações, proibições ou obrigações” (2013, p. 132), entretanto, as
tecnofarmacopornopolíticas ao fabricarem a materialidade do corpo sexuado,
estabelecem que de aqui em diante “o corpo já não habita os lugares disciplinários,
mas é habitado por eles, sendo sua estrutura biomolecular e orgânica o último recurso
destes sistemas de controle” (PRECIADO, 2015a, p. 69, tradução nossa). Estamos
sendo extensão de tecnologias somatopolíticas, tecnofarmacológicas, de
representação, cultura e midiatização a níveis globais, atuando como roteadores e
repetidores de sinais micropolíticos de dominação quando, justamente ao contrário,
as tecnologias prostéticas deveriam atuar como extensão e melhoria de nós, como
tecnologias de uma espécie de cuidado de si.
Em ¿La Muerte de la Clínica?, uma conferência que ocorreu no Museo Reina
Sofía (2013), Preciado dá continuidade à sua interpretação da era
86

farmacopornográfica. Na ocasião dessa conferência, que resultou na transcrição e em


sua publicação em 2015, é possível compreender que, o que quer dizer Preciado
acerca do corpo sexuado é que, imerso nas dinâmicas e economias mercadológicas,
é tido como produtor e reprodutor, consumidor e produto consumível. O conjunto de
técnicas deixa de ser meramente estatal, disciplinário, não é a clínica e nem tão
somente o científico, mas o mercado e todas as suas possíveis ramificações que
surgem a partir da expansão do regime farmacopornográfico. Assim, se estabelece
um enorme paradoxo, pois embora a farmacopornografia seja o novo paradigma do
poder e da dominação em vigência, a farmacopornografia não é equivalente à
soberania, não emana de um único centro de poder, tampouco está concentrada em
um único corpo. Isto é, quer dizer que se instaura uma espécie de aura paranoica ao
redor de conceitos como o das farmacopornopolíticas e o da farmacopornografia, mas
ocorre justamente como um sistema de descrença acerca de sua presença molecular.
Se estamos dominados pela farmacopornografia, se dá por uma forma de
governo que ocorre de pessoa para pessoa, de boca a boca, de porta em porta, de
olhares curiosos e sentenciantes, a partir de técnicas somatopolíticas que reduzem
toda a subjetividade humana, antes dita natural e considerada incapaz de se
reproduzir, em produto comercializável e consumível. É a partir também das
tecnologias semânticas de representação audiovisual, é através da cultura e da
distribuição midiática que reduzem a mesma subjetividade em códigos e os transporá
pelas redes como um hipertexto que faz do corpo uma interface ou tela virtual na qual
se projetam os biocódigos.
É a partir dos tablets, dos ultrabooks, das placas de vídeo, da nanotecnologia
e dos cabos de fibra óptica, de sites como o YouTube, Vimeo, XVideos e PornHub,
das redes de relacionamentos como o Facebook, Twitter e Tumblr, dos aplicativos
para smartphones, das televisões e telas de cinema, das cartilhas e panfletos, dos
palcos de teatro e dos telões dispostos pelas ruas. É partir também da
heterossexualidade compulsória e de sua irradiação normativa, das ficções políticas,
ou a produção de subjetividade identitária, que são geradas precisamente por técnicas
de poder e, portanto, também por todos os aparatos de verificação e modos de
representação associados a cada contexto histórico, da linguagem ao discurso que
produzem saberes, inseparáveis em seu processo de forjar corporaturas. Portanto,
“nós temos inventado a nós mesmos e administrado a nós mesmos. Este é o enorme
87

paradoxo. Quer dizer, aqui somos ao mesmo tempo sujeitos e objetos de governo”
(PRECIADO, 2015b, p. 24, tradução nossa).

4.2 DE COMO RESISTIR A PARTIR DO CORPO EM QUE A DISCIPLINA HABITA E


DA RAZÃO PELA QUAL TUDO O QUE VAI, VOLTA

Na era farmacopornográfica tudo se conecta. Um nanochip ao corpo, o corpo a


um smartphone, o smartphone a um tablet, o tablet a um ultrabook, o ultrabook a uma
rede Wi-Fi, Bluetooth, a roteadores, transmissores e repetidores de sinais. Por sua
vez, a tecnologia atual sonha com o constante avanço dessa integração, o que leva
aos tecnocientistas, engenheiros, arquitetos e aos profissionais das demais áreas do
conhecimento tecnológico a projetar e a construir estruturas inteligentes, que
respondam com rapidez e eficiência, tal como casas, prédios e inteiros complexos
inteligentes. Até mesmo os carros, ônibus, navios, aviões e demais veículos de
transporte. A inteligência artificial é um dos grandes objetivos da atual “corrida pela
tecnologia”. Tudo conectado e integrado a uma interface arrojada, de design clean
para ser chamativo ao consumidor e, claro, um aparato amplamente consumível.
Completamente conectado e integrado a rede mundial de comunicação, que já
oferece ao consumidor assistentes pessoais como a Siri, o Google Now e a Cortana,
por exemplo. Basta um único trojan, malware ou um spyware, um único vírus para
infectar, reconfigurar, roubar identidades e informações sigilosas, confiscar, interferir
em processos de transação, interromper serviços online que, sem dúvida,
pedagogicamente, condicionaram os seus usuários a manter uma conexão ativa por
longos e indefinidos períodos.
Os mecanismos e interconexões acima também atuam sob o tecnocorpo, o
ciborgue que incorpora as conexões cibernéticas, artificiais, e que conecta as suas
moléculas, os hormônios, fluídos e próteses aos sistemas online de tráfego de
informações, biocódigos, tecnologias textuais e discursivas de modo que a ideologia
se torna altamente transmissível e infectante. Dessa experiência prostética e rapida,
facilmente se alteram estados emocionais, mentais, morais e éticos, culturais,
econômicos e políticos dos que estão sujeitos ao sistema.
Hackeando a subjetividade, a reduzindo em cargas semiótico-técnicas e
sistematizando a produção da ordem compulsória sexo-gênero-desejo, as identidade
e categorias normativas, então, as farmacopornopolíticas avançam em forma de
88

próteses sensíveis e das redes de comunicação, fazendo com que desse discurso se
crie uma Genesys, e que com ela nasça uma espécie de inteligência artifical altamente
avançada, autoconsciente, autoaperfeiçoante e de personalidade própria. E, então,
hasta la vista, baby61.
Avaliaremos a partir de agora, através da noção de farmacopornografia, alguns
dos muitos problemas-filhos possíveis. Recorremos a Abbagnano (2007, pp. 164-169)
para transcrever a sua definição de conceito, de modo que possamos dar continuidade
a partir daí. Em suas palavras, um conceito, em geral, “é um processo de descrição,
classificação e de previsão dos objetos cognoscíveis” que nos possibilita deixar
aparecer um problema ou mais, de modo em que, após, seja possível também
analisar, decodificar, reduzir, entender, avaliar qualquer espécie de sinal ou
procedimento semântico, “seja qual for o objeto a que se refere, abstrato ou concreto,
próximo ou distante, universal ou individual”.
Deste modo, entendemos que a farmacopornografia enquanto um conceito
cumprirá a sua função em identificar e diagnosticar as inúmeras nuances das
diferenças entre os processos discursivos, linguísticos e semióticos dos processos e
tecnologias de inscrição e materialização corporal, a partir dos quais se torna possível
incorporar prosteticamente os códigos discursivos do sexo, do gênero, das
identidades e sexualidades, das diferentes práticas sexuais, transformações físicas e
políticas. Como conceito, tem o potencial de estabelecer a disposição entre os
fenômenos resultantes do conjunto de forças que atua sobre as sociedades,
organizando-os, assim dando sentido. Mas que também traz consigo um efeito
bumerangue que pode e irá atribuir a Preciado algumas de suas próprias críticas.
Como nenhum sistema é perfeito a ponto de ser suficientemente infalível,
invulnerável, invencível e indestrutível, Preciado busca encontrar meios de uma
possível resistência e com isso nos apresenta o seu Terminator T-800, ou o
tecnocordeiro que devora aos lobos, a partir do caso e da história da vida de Agnes.
São poucas as fontes de consulta acerca de Agnes, ao menos no Brasil, de modo que
conhecemos a sua história por meio de Preciado (2008b), Cabral (2008), Radi (2015)
e Rucovsky (2016).
Em Biopolítica de género Preciado nos introduz a jovem Agnes, que se
apresenta ao Departamento de Psiquiatria da Universidade de California, sendo

61 Referência atribuída à personagem de Arnold Schwarzenegger na franquia “O Exterminador do


Futuro”.
89

recebida pelos doutores Stoller, Garfinkel e Rosen. Um psiquiatra, sociólogo e um


psicólogo, respectivamente, que estudavam a intersexualidade e a disforia de gênero.
A partir do registro e informe médico, conhecemos um pouco mais da jovem, que era
de aparência e aspecto feminino convincente, alta, magra e branca. Como nos revela
o seu registro clínico, além disso, Agnes possuía um pênis desenvolvido e funcional,
assim como:

um exame pélvico e renal [...] revela a ausência de útero e de ovários. Uma


biópsia bilateral testicular mostra uma leve atrofia dos testículos. Uma biópsia
das células da pele revela um tipo de cromatina negativa (ou seja, masculina)
[...] Paradoxalmente, no entanto, uma biópsia das células da uretra mostra
uma elevada atividade de estrógenos (STOLLER; GARFINKEL; ROSEN,
1960, pp. 379-381, tradução nossa)62.

Uma vez que Agnes adentrou ao consultório dos doutores, diz Preciado,
adentrou também ao sistema que, de acordo com o protocolo moneysta 63, a torna
passível de ser submetida às técnicas e instrumentos médicos para reestabelecer a
coerência entre a identidade física e a de gênero, passível então de um procedimento
cirúrgico para a redesignação sexual, da readequação performativa de acordo com as
normas sociais, passível ao (des) equilíbrio de seus hormônios e também a
plasticidade de seus órgãos. Em 1959, portanto, ocorre a sua vaginoplastia, operação
de redesignação e, um tempo após, Agnes obtém os seus novos documentos de
identidade.
Para Preciado, realizar uma leitura médico-legal a partir da vida e experiência
de Agnes é, como demonstra Mauro Cabral em Salvar las distancias – Apuntes acerca
de “Biopolítica del género”, a sua apresentação de uma desconstrução da ontologia
farmacopornográfica contemporânea. Preciado vê em torno de Agnes, em
comparação ao caso de Herculine Barbin, apresentado por Foucault (1983), a
possibilidade e sobretudo a oportunidade para apresentar uma brecha presente no
regime farmacopornográfico, uma lacuna potencialmente subversível da dominação.
Baseado na (re) apropriação das tecnologias do sexo e nas tecnologias de gênero,
Preciado ensaiará a inserção de um contravírus que atuará diretamente sobre a

62 Texto original: “una exploración pelviana y renal [...] revela la ausência de útero y de ovarios. Una
biopsia bilateral testicular muestra una leve atrofia de los testículos. Una biopsia de las células de la
piel revela un tipo de cromatina negativa (o sea, masculina) [...] Paradójicamente, sin embargo, una
biopsia de las células de la uretra muestra una elevada actividad de estrógenos”.
63 Referência ao psicólogo e sexologista John Money que, como mencionamos em “As farmacopolíticas

em ascensão no século XX e XIX”, estabelece um protocolo de correção da incoerência entre o sexo


biológico-genital e a identidade de gênero por meio de intervenções cirúrgicas e hormonais.
90

produção do biocódigo do hipertexto social como uma versão micropolítica de


resistência.
A diferença entre Herculine e Agnes, para Preciado, se dá no desfecho
presente em suas histórias, pois a vida de Herculine Barbin acaba de modo trágico,
tendo ela cometido suicídio em 1868, sem a chance de poder dizer com suas próprias
palavras, para que todos pudessem ouvir e saber, como foi a sua luta. Preciado
entende que Herculine introduz à sua época ao sintoma e a emergência de um novo
regime discursivo sobre o corpo, o sexo e as sexualidades.
Além do modo trágico ao qual sua vida se encerra, não obstante, o seu caso
clínico se converte em um espetáculo e em uma monstruosidade moral para a a classe
médico-jurídica. Agnes, ao contrário, “se deixa absorver pelos aparatos biopolíticos”
(PRECIADO, 2008, p. 04, tradução nossa) e em 1966, já após a sua redesignação
sexual, genital e a readequação à coerência do sexo-gênero, Agnes faz um relato
pessoal do seu processo de transformação e reinscrição corporal através de técnicas
farmacopolíticas e também performativas, como a autoaplicação de estrógenos, a
representação e a autoficção de si, que “questiona a teoria do poder e da subjetivação
de Foucault, mas também desestabiliza ou completa certos eixos argumentativos da
teoria da identidade performativa de Judith Butler” (2008, p. 05, tradução nossa).
Para Preciado, o suicídio de Herculine se deu não devido a ela encontrar-se
em um ponto de ruptura entre duas possíveis epistemossexualidades, mas sim porque
o seu corpo foi consumido e absorvido por ficções discordantes. Se Herculine morre,
“não é porque o seu corpo está saturado pelas linguagens disciplinárias, mas
sobretudo porque ela não chega a coletivizar a enunciação de seu próprio discurso
sobre a sexualidade” (2008, p. 10, tradução nossa). Agnes, ao contrário, utiliza o seu
corpo como uma zona de transcodificação das tecnologias do corpo e da
representação ao se reapropriar de tais tecnologias e técnicas de produção da
identidade, assim, fazia de seu corpo uma plataforma maleável, um palco para
naturalizar determinados atos performativos, assim como fazia da prótese a sua
dinamite. O corpo de Agnes:

não é matéria passiva sobre a qual opera um conjunto de técnicas biopolíticas


de normalização do sexo, nem o efeito performativo de uma série de
discursos sobre a identidade. O tecnocorpo de Agnes, verdadeiro monstro
sexual fasciante, self designed, é produto da reapropriação e do
91

agenciamento coletivo das tecnologias de gênero para produzir novas formas


de subjetivação (PRECIADO, 2008, p. 22, grifos do autor, tradução nossa)64.

A leitura de Preciado acerca de Herculine e de Agnes, colocando de lado


momentaneamente todo o seu potencial subversivo e a sua imensa potência inventiva,
acaba por fazer surgir outros problemas possíveis a partir de pontos específicos que
se convertem incoerentes com a sua própria teoria, pois, qual é a sua intenção ao
coletivizar a história e a vida de alguém, fazendo disso o exemplo da multidão?
Fazendo minhas as palavras e o questionamento de Cabral (2008, p. 128, tradução
nossa): estaria Preciado falando de um “regime globalizado definido, uma vez mais,
em termos de um norte global que só lê a si mesmo enquanto coletiviza as suas
hipóteses sistêmicas de alcance universal”?
Outro problema que surge a partir da leitura preciadista do caso de Agnes é
que, ao colectivizar a sua história e o seu potencial subversivo como um exemplo de
centralidade previlegiada, Preciado aproxima a si mesmo de Agnes a um ponto em
que suas próprias histórias se justapõem. Salvo as diferenças entre Agnes e Preciado,
em alguns momentos, se tornam uma exigência separar precisamente o que é de
Agnes e o que é de Preciado, o que pode ser difícil, já que Agnes se apresenta
primeiro por seus médicos e, a nós, chega coletivizada por Preciado em seus
argumentos.
Para Cabral e também para Radi (2015, p. 07), nem Herculine e tampouco
Agnes são coletivizadas, mas sim Preciado, “o que permite ver os limites, mas não
superá-los nos termos que ele mesmo propõe”. A coletivização do testemunho de
Agnes gera uma contradição sob a pressão do efeito bumerange que retorna ao
Preciado e, conforme explica Blas Radi, produz um apagamento acadêmico de
pessoas transexuais e transgêneros na medida em que produz uma crítica
intelectualizada acerca de seus casos clínicos e de vida.
Converter as pessoas trans “na dinamite a qual tenta fazer voar pelos ares a
hegemonia (hetero)sexual” (RADI, 2015, p. 07) faz com que Preciado caia em
contradição com a sua própria teoria, pois a produção, o consumo e a canibalização
acadêmica queer (como diz Rucovsky, 2016, p. 163) é feroz frente às histórias, aos

64 Texto original: “el cuerpo de Agnes no es la materia pasiva sobre la cual opera un conjunto de técnicas
biopolíticas de normalización del sexo, ni el efecto performativo de una serie de discursos sobre la
identidad. El tecnocuerpo de Agnes, verdadero monstruo sexual fascinante, self designed, es
producto de la reapropriación y del agenciamiento colectivo de las tecnologías de género para
producir nuevas formas de subjetivación”.
92

corpos, exemplos, casos e testemunhos ao coletivizar e reduzir os seus conteúdos ao


artigo mais acessado e lido do mês. A farmacopornografia, enquanto conceito, pode
ser tanto causadora de hegemonias quanto as próprias farmacopornopolíticas as
quais denuncia. Além disso, o tecnocorpo capaz de “infiltrar-se no ‘regime
farmacopornográfico’, este tecnocordeiro depositado pelo autor atrás do arbusto e
escandalosamente descoberto por ele é o próprio Preciado” (RADI, 2015, p. 07).
Por um lado, não se busca aqui desacreditar a pessoa e o trabalho de Preciado,
mas, por outro lado, desejamos deixar vir à tona os problemas-filhos e o efeito
bumerangue a qual as suas reflexões provocam a si mesmo, mas que nos auxiliam a
amadurecer a sua filosofia. A coletivização que apresentamos acima, que Preciado
voltará a abordar em outros momentos e em outros espaços, sugere que experiências
e histórias de pessoas e de vidas sejam exemplos para que outras pessoas, em outras
situações, sejam protagonistas de suas próprias experiências. Mas, como nos mostra
Viturro (2011), corremos o perigo de fazer parecer que ser trans está na moda, que é
trendy:

hoje, o devir trans seria o equivalente ao devir negro, mulher, ciborgue ou


queer das décadas passadas. [...] O importante é devir, keep on moving,
pouco importa o que ele signifique. Qualquer pergunta a respeito nos situaria
em um terreno suspeitoso, presumivelmente conservador, em que ninguém
se arriscaria a fixar-lhe um sentido às concepções emancipatórias da época.
Hoje a ontologia é sinônimo de yogurt light, assim o importante é não Ser, em
especial não ser um corpo incômodo e se isso for inevitável, tentar ao menos
não parecer assim, dissimular (VITURRO, 2011, p. 92, grifos da autora,
tradução nossa)65.

Eleger um sujeito, uma história, caso ou situação acaba por gerar um estado
em que há coletivamente a identificação com uma determinada experiência, o que
cria, consequentemente, uma ficção coletiva e, como destaca Cabral (2008, p. 137) e
Rucovsky (2016, p. 165), tal fabricação subjetiva e representação já nos é conhecida:
“somos todos Charlie Hebdo”66, “somo todos Agnes”, “somos todos Dandara”67, e gera
confusão entre o ser singular, ser multidão, o povo, todos ou “o todo”. Denota uma

65 Texto original: “hoy, devenir trans sería el equivalente a devenir negro, mujer, cyborg o queer de
décadas pasadas. [...] Lo importante es devenir, keep on moving, poco importa lo que ello signifique.
Cualquier pregunta al respecto nos situaría en un terreno sospechoso, presumiblemente conservador,
nadie se arriesgaría a fijarle un sentido a las concepciones emancipatorias de la época. Hoy, la
ontología es sinónimo de yogurt light, así que lo importante es no Ser, en especial no ser un cuerpo
incómodo y si ello fuera inevitable intentar, al menos, no parecerlo, disimularlo”.
66 Jornal satírico francês que semanalmente publicava charges em suas tiragens e que se tornou

mundialmente conhecido após o atentado terrorista de 2015, em Paris.


67 Dandara dos Santos, travesti, 42 anos, teve a sua vida brutalmente encerrada por três homens no

início do presente ano (2017).


93

perigosa higienização que perpassa uma militância esvaziada pela aura neoliberal que
se instaurou nas décadas passadas, de modo que todos querem ser portadores da
teoria queer ou dos estudos de gênero, mas poucos abraçam de fato as causas em
seus diferentes níveis.
A ficção política que Cabral e Rucovsky destacam provoca uma certeza de
empreendedorismo pessoal, de si e da identidade, próprio do neoliberalismo, e que
por consequência converte os indivíduos em uma espécie de empresa
autogestionável, inserida e integrada ao mercado virtual de valores.
A coletivização representa outro perigo, como aponta Rocha (2012, p. 03), pois
a resistência pode ser transformada muito rapidamente em serviço de consumo
hegemônico e uma ferramenta do mercado neoliberal. Midiatizar as práticas de
resistência e subversão às normativas de gênero, por exemplo, pode resultar em um
efeito ambíguo, no qual, por um lado, pode induzir a uma tomada consciencial, mas
por outro, levar a dolcegabbanização (PRECIADO, 2005, p. 111) da teoria queer e
dos estudos de gênero. Ondas e técnicas de representação cultural se encarregam, a
partir da midiatização, a conferir um esvaziamento radical de sentido do discurso
militante de gênero, que se torna uma militância da não-ação política, e desse modo
se torna também comum o fenômeno social e virtual em que as subjetividades e a
produção de novos saberes sobre a sexualidade e as identidades de gênero começam
a “pipocar”, estourando para todos os lados, sem parar.
Em um período em que o capitalismo se converte em um líquido viscoso, que
corre pelas veias, não é de se assustar com apontamentos tais como a crescente
influência nos processos cognitivos e sensíveis, devido ao acelerado fluxo de
informações e produtos das tecnologias de subjetividade farmacopornográfica. Esta
lógica assume o controle dos fluxos sociopolíticos presentes no capitalismo neoliberal
e que circulam nos espaços e comunidades, tanto físicas quanto virtuais, promovendo
assim uma espécie de tribalização. Dos espaços online surgem constantemente
inúmeros códigos de gênero que fogem do binarismo, mas caem em uma busca por
se ter, que se torna mais importante do que ser, torna-se um status quo.
Sabemos, no entanto, que algumas das classificações existentes são
ferramentas de fato úteis à resistência, pois demonstram a possibilidade real de fugir
de uma organização binária do sexo-gênero, entretanto, sublinhamos aquelas em que
a potencialidade e a liberdade de se identificar dão lugar a superprodução
94

praticamente industrial de categorias e subdivisões68 que acabam perdendo no


percurso o seu caráter subversivo, caindo assim novamente nas redes de vigilância e
correção da coerência do sexo-gênero.
O capitalismo se apropria dos movimentos sociais69. É preocupante, já que tais
práticas, submetidas a uma crescente mercantilização, acabam por desviar o foco da
subversão e da resistência para problemas que resultam e surgem a partir de
pequenas idiossincracias. Assim se produzem condições específicas para que haja o
aumento da opressão, por exemplo. Como diz Preciado (2015, p. 249, tradução
nossa), “as ideias não bastam, a arte não basta, o estilo não basta, a boa intenção
não basta, a simpatia não basta”. É preciso ter sentido e de fato promover a mudança.
Recorremos a uma fala de Žižek (2010, p. 23), uma que nos lembra que a
apolítica e a não-ação política também são resultados da violência sistemática das
instituições reguladoras, uma vez que esvaziam as práticas de responsabilidade,
sendo nossa a tarefa de estabelecer meios de realizar análises críticas, mas também
úteis para perceber os processos políticos que desempenham de modo tácito essa
influência em escala estrutural, que sustenta os formatos de relações e produções de
saberes que apresentamos até então. Todo cuidado é pouco, se tratando de relações
“a” ou “pré” políticas, diz Žižek, pois na sociedade humana, “a política é o princípio
estrutural que a tudo engloba, assim, qualquer neutralização de algum conteúdo
parcial indicando-o como ‘apolítico’ é um gesto político par excellence”.
Se algum dia o problema farmacopornográfico passou pelo problema da
repressão do sexo e da identidade de gênero, não é mais o caso, pois como vimos,
atualmente as tecnologias de subjetividade e representação induzem às práticas
sexuais e identitárias, de modo a induzir também ao consumo e, por sua vez,
incentivar a produção de capital. Para Preciado, em um de seus trabalhos mais
recentes, podemos perceber o redirecionamento desse ou dos problemas que surgem
através da mesa de operações conceituais que é a farmacopornografia.

68 No que se refere a isso, nos situamos em um espaço ainda frágil e entendemos que é preciso um
estudo igualmente aprofundado para buscar compreender as relações entre os movimentos
neoliberais e a produção industrial de novas categorias não binárias de identidade de gênero. Porém,
a modo de exemplificar, recorremos a duas comunidades referências (Gender Wiki e a Lista de
gêneros não binários), das diversas disponíveis, em que é possível encontrar exemplos e longas
listas de gêneros divididos por categorias, que se subdividem em inúmeras classificações como:
demigênero, kingênero, aporagênero, maverique, gênero-estrela, egogênero, caelgênero, juxera,
ambonec, blurgender, Schrodingênero, altegênero, locugênero, etc.
69 Para saber mais, conferir o texto de Alex Holder: “ Sexo não vende mais, ativismo vende. E as marcas

sabem disso”, 2017.


95

Através do espaço aberto pela exposição Documenta 14, que ocorre


simultaneamente em Kassel, na Alemanha, e em Athenas, na Grécia, Preciado
organizou e pensou o Parliament of Bodies para ser a principal proposta dos
Programas Públicos. Oferecidos a qualquer um que se interesse, se deu início a uma
série de projetos e parcerias para, entre muitas coisas, fornecer suporte para se
pensar o que há de mais emergente ao redor do mundo, como as crises que se
espalham ao redor do globo, as constantes e progressivas imigrações, a não
aceitação dos imigrantes por partes de países que deveriam ser exemplo de
humanidade e acolhimento, mas que falharam em termos de democracia
representativa, que está, igualmente, falindo na medida em que os problemas se
agravam.
Não podemos aqui fazer uma análise aprofundada sobre tudo aquilo a que se
estende a proposta do Parlamento dos Corpos iniciado por Preciado, porém, ao que
nos interessa, podemos reproduzir uma pergunta-convite que abre a apresentação de
sua proposta: "como você se sente sendo um problema?". Como nos sentimos ao
causar incômodo para aqueles cujo as intenções são de dominação e censura? O
Parlamento dos Corpos propõe, sobretudo, a colaboração de todos e de cada um para
que, juntos, em uma aliança, seja possível co-criar um parlamento que subverte a sua
tradicional função. No texto de apresentação do projeto, diz Preciado:

enquanto o moderno regime colonial e patriarcal inventou o “trabalhador”, a


“doméstica”, o “negro”, o “indígena”, e o “homossexual”, hoje novas
tecnologias governamentais estão inventando novas formas de sujeição: dos
muçulmanos criminalizados até o migrante sem documentos, do trabalhador
precarizado até os sem-teto, dos deficientes até os doentes consumidores
das indústrias de normalização, do trabalhador sexualizado até os
transexuais sem documentos. Este encontro performativo não estabelece
hierarquias entre os conhecimentos, linguagens e práticas radicalmente
diferentes, entre ativismo e performance, entre teoria e poesia, entre arte e
política: coletivamente, nós experimentamos a construção de um espaço
público de visibilidade e enunciação. Este é o encontro de pessoas que se
tornaram um “problema” para o discurso hegemônico de hoje: nós não
compartilhamos identidades, mas nós estamos conectados por diferentes
formas de opressão, de deslocamento e expropriação mais do que por nossa
cor de pele, sexo, gênero ou sexualidade. O Parlamento dos Corpos não é
feito de identidades, mas de processos críticos de desidentificação. Nós
estamos conectados por uma paixão pela memória, transformação e
sobrevivência (PRECIADO, 2017b, s/p, tradução nossa)70.

70 Texto original: "whereas the modern colonial and patriarchal regime invented the ‘worker’, the
‘domestic woman’, the ‘black’, the ‘indigenous’, and the ‘homosexual’, today new government
technologies are inventing new forms of subjection: from the criminalized Muslim to the undocumented
migrant, from the precarious worker to the homeless, from the disabled to the sick as consumers of
96

Podemos compreender que Preciado sugere que os problemas que surgem a


partir daqui são de cunho pós-identitário. Compreende-se, também, que, longe de
desacreditar as lutas sociais que demandam por melhorias, direitos e políticas
públicas, ao dizer que nós não compartilhamos identidades, mas sim que estamos
conectados por diferentes formas de opressão, Preciado nos leva a pensar na
violência. Leva-nos a refletir acerca dos inúmeros assassinatos com requintes de
crueldade, dos estupros, das agressões físicas, verbais e psicológicas, nas
humilhações, na desunamização, precarização e exclusão social, na invisibilidade,
nas expulsões de casa, no ódio mascarado pelos discursos religiosos, dogmáticos e
conservadoristas, na fome, na impossibilidade de acessar a educação. Preciado nos
relembra que tudo isso é a porção visível do iceberg e que o que está imerso
corresponde a sistemática e estruturante institucionalização da violência, das
microviolências e das violências simbólicas. Chama-nos a atenção ao crescente fluxo
estatístico de violência entre o que está imerso e o que se deixa visível.
Em relação aos conflitos e aos desafios acerca das práticas sexuais e da
identidade de gênero, pode-se dizer que não há nada de eterno, mas para superá-los
precisamos superar também às farmacopornopolíticas, devemos superar as filosofias
e aos filósofos de pedestal, aos determinismos e as narrativas normativas em torno
da masculinidade e da feminilidade, do homem e da mulher. Há violência entre
homens, há violência entre mulheres, há violência entre a comunidade homossexual,
transexual, entre a comunidade transgênero, há, em si, a violência. E, quando
questionado acerca do que pensa das violências de gênero, Preciado logo responde:
“eu creio que o gênero mesmo é a violência, que as normas de masculinidade e de
feminilidade, tal e como as conhecemos, produzem violência” (2010c, s/p, tradução
nossa). Precisamos superar as técnicas de produção de violência e agressão.
Compreender a que se refere Preciado quando fala de um regime
farmacopornográfico e também a extensão de suas consequências nos permite
realizar ao menos um movimento: o de resistência autoconsciente. Mas como vimos,

the industries of normalization to the sexualized worker, and the undocumented transsexual. This
performative gathering establishes no hierarchies between radically different knowledge, languages,
and practices, between activism and performance, between theory and poetry, between art and
politics: collectively, we experiment with the construction of a public space of visibility and enunciation.
This is a gathering of those who have become a ‘problem’ for today’s hegemonic discourse: we don’t
share identities, we are bound by different forms of oppression, of displacement and dispossession
more than by our skin color, our sex, gender, or sexuality. The Parliament of Bodies is not made of
identities but of critical processes of disidentification. We are bound by a passion for memory,
transformation, and survival".
97

a própria farmacopornografia enquanto conceito também possui brechas e pode ser


inconsistente na medida em que propõe as práticas de subversão, reapropriação,
reinscrição e auto intoxicação.
Para Martin Rucovsky, em Cuerpos en escena. Materialidad y cuerpo sexuado
en Judith Butler y Paul B. Preciado, Preciado propõe a coletivização e a generalização
objetiva do sujeito de conhecimento e acaba por definir também um regime global,
mas que ainda denota uma imprecisão de posicionamento, pois “a incorporação de
tão diversas e heterogêneas histórias culturais a uma única perspectiva epistémica
(leia-se regime pós-moneysta ou farmacopornográfico) privilegia secretamente a uma
visão eurocêntrica como hegemônica” (2016, p. 166, tradução nossa).
Para Rucovsky, é interessante notar as operações textuais e aos movimentos
argumentativos aos quais Preciado se vale para demonstrar a categoria global do
regime que se constitui de acordo com a nova episteme farmacopornográfica. Nos
questiona Rucovsky (2016, p. 169) se a nova epistemologia, da que fala Preciado, se
situa a partir de todos os corpos ou a partir de nenhum? Pois mesmo ao criticar tão
intensamente o tecnocapitalismo avançado, não o isenta de sua posição eurocentrada
e que consequentemente reintroduz ao problema das forças homogeneizadoras uma
vez que “a universalidade da era farmacopornográfica apaga a visão local e minoritária
de corporalidades específicas”71 (2016, p. 168, tradução nossa).
Não podemos cair no erro de produzir corpos abjetos a partir de uma crítica a
um regime que já o faz. Embora em uma época em que ser digital é pop, é tudo, e em
que não há mais uma escolha entre ser ou não ser high-tech, não podemos nos deixar
cair em outro determinismo. De certa forma, e sem dúvida, Preciado precisa passar a
si mesmo, ou ao menos a sua teoria – mas, novamente, qual é a diferença? – pelo
crivo ao qual ele próprio engendrou.

71Sobre isso, complementa Rucovsky (2016), que não apenas Preciado, mas também Butler e entre
outros autores acabam por abordar problemas particulares a partir de geopolíticas que se alteram de
texto para texto. Como podemos reutilizar as críticas butlerianas ao Estado norte-americano quando
estamos, por exemplo, na America Latina, nos países mais ao sul? É possível identificar no Brasil a
mesma rede de produções discursivo-representativo-materialistas europeia a que se refere Preciado?
98

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

“La Iglesia dice: el cuerpo es una culpa. La ciencia dice: el cuerpo es una máquina. La
publicidad dice: el cuerpo es un negocio. El cuerpo dice: yo soy una fiesta”.

– Eduardo Galeano, Las palabras andantes (2001).

O presente trabalho teve como objeto de investigação a produção


tecnocientífica da materialidade dos corpos, levando em consideração aquilo que Paul
B. Preciado chama de era farmacopornográfica. Diante do cenário delineado ao longo
da presente pesquisa, nós buscamos traçar um fio condutor por entre os autores e as
suas interlocuções, além de apresentar e demonstrar a pessoa e o trabalho de
Preciado. Assim, entendemos que não há mais nenhum mistério sobre a natureza do
corpo, este do qual podemos vir-à-ser e interagir no mundo, mas que ainda há – e
muito – o que ser pensado, pois em potencialidade o corpo, assim como a matéria
sexuada, são de infinitas possibilidades.
Nos referimos, pois, ao corpo do qual somos íntimos, cada qual com o seu e
todos em um corpo, o corpo social, que é constituído parcialmente na dimensão
discursiva da linguagem, mas que, como pudemos ver, Preciado demonstra
precisamente como constituído também por uma dimensão tecnológica e materialista,
a qual, segundo a sua opinião, demanda de mais atenção, pois destes processos sim
(advindos de um capitalismo em constante mutação) nós desconhecemos ou, ao
menos, ainda não podemos antecipar os seus mecanismos de controle.
Ao longo do primeiro capítulo foi necessário adentrar nas formulações a
respeito das diferenças entre o Poder soberano e o Poder disciplinar. Vimos que o
Poder soberano se aglutina ao redor de uma única fonte, sendo exercido pelo Rei ou
pelo Estado, unilateralmente e em uma organização hierárquica, verticalizada. Vimos
também que o Poder disciplinar se organiza como um regime ordenado de saber, que
visa docilizar os corpos de modo a extrair dos mesmos o potencial de produção e de
utilidade ao máximo possível. Em uma sociedade disciplinar, o exercício do Poder
interpela os sujeitos a agir como suas extensões, como micropoderes presentes na
sociedade e que mantêm a si e aos outros conectados às redes disciplinantes.
O caráter mutável, maleável e discursivo da ação do poder revela o sistema
estruturante de produção de saberes, este que tomou proporção nos centros de
pesquisa, nos laboratórios, nas universidades e que se enraizou no senso comum
como uma verdade privilegiada, de origem elitista e que se relaciona intimamente com
99

o Poder legislativo, regido pelo Direito, que faz do Discurso a Verdade e da Verdade
um instrumento pedagógico e confessional. Internalizados, os saberes-Verdade
interferem vigilante e ativamente na produção da subjetividade (dos pensamentos, das
emoções, sensações, prazeres, certezas, idealizações, desejos, excitações,
frustrações, etc.) que irá conferir ou não a legitimidade a determinados corpos e
sujeitos. Vimos que muito antes de agir sobre a sexualidade, o Poder agia sobre a
materialidade dos corpos, recortando do corpo e nele inscrevendo, ao longo da
história, a função dos órgãos e industrializando a economia político-ideológica de cada
época. Muito bem demarcados, os corpos abjetos, todos os que não se encaixam no
padrão, são então estigmatizados e marginalizados.
Este sistema, heterossexual e compulsório, como definiu Wittig, se dá por meio
de práticas do Poder sobre a vida e, mais precisamente, através do discurso, e que
para ser possível uma análise filosófica, como ensina Butler, é preciso também reduzir
as categorias de sexo e de gênero, assim como as de Mulher e de Homem e de
homossexualidade e heterossexualidade a categorias discursivas. Realizando tal
movimento, podemos então visualizar as tecnologias de representação que
promovem na sociedade e em cada um a cristalização do modelo hegemônico e
compulsório hétero/homem/pênis/branco/europeu, equivalente ao modelo
hétero/mulher/vagina/branca/europeia. E, ao mesmo tempo, podemos ver as
tecnologias biomoleculares que inscrevem no corpo os códigos performativos que
garantem a constante atuação destes papéis. Dois problemas, dois níveis: um, em
que a materialidade se dá discursivamente e, dois, em que a materialidade discursiva
se inscreve na carne através da biotecnologia.
Vimos como a tecnociência se vale de epistemologia científica na mesma
medida em que se vale dos avanços tecnológicos para ser mais um vetor de Poder,
que é colocado em centralidade em nosso problema, assim como faz Preciado. Dada
a sua importância nos dias atuais, a ciência está em tudo – ou ao menos é o que
querem que acreditemos. Sendo praticamente onipresente na sociedade ocidental,
então, a ciência estabelece critérios epistemológicos para validar ou não algum
conhecimento, garantindo assim que o controle destes critérios e normas estejam
sempre vinculados aos grandes empreendedores tecnocientíficos: as multinacionais,
empresas biomédicas, automobilísticas, das tecnologias da informação e das
corporações farmacêuticas.
100

Assim se dá a produção da materialidade dos corpos, tanto discursiva quanto


tecnológico-fisicalista, entre o discurso e os hormônios, entre os pronomes de
tratamento e as roupas, entre os artigos definidos e as cirurgias de redesignação
genital. Assim, se cristaliza na sociedade um ser-homem e um ser-mulher que
compele aos sujeitos a obrigação de não ir além, de desempenhar o rol de uma
identidade que lhes foi impressa na carne sem consentimento e, sem a consciência
destes mecanismos, as reproduz sem o direito de contestar. A opressão cria uma
identidade rígida e genocida, que exclui e elimina qualquer multiplicidade ou diferença,
que faz do modelo hegemônico o modelo dominante e, portanto, o único inteligível.
Dando seguimento, no segundo capítulo nos dedicamos a inquietação acerca
da dimensão da materialidade dos corpos em um nível microfísico e molecular. Nos
questionamos, junto de Preciado, se é possível analisar filosoficamente a cisão entre
os elementos orgânicos e plastificáveis que compõem a materialidade tecnológico-
fisicalista. Questionamos também como o aparelho sexo-gênero é produzido
tecnocientificamente e incorporado enquanto uma prótese, assim como questionamos
a sua extensão.
Ao conceituar o gênero enquanto um artefato tecnológico que, por sua vez, é
produzido por técnicas sociais, químicas e biológicas, Preciado abriu uma nova
dimensão às analises filosóficas acerca do corpo, do sexo e da sexualidade. O caráter
imitativo e performativo não é mais ou único a ser levado em consideração e o
problema se reformula, evidenciando que as transformações físicas, sociais e políticas
tanto moldam o corpo, quanto a própria realidade e a sua percepção. Neste capítulo
nos questionamos se a humanidade utiliza os instrumentos tecnocientíficos ou se são
estes instrumentos que utilizam a humanidade. A tecnociência, por meio de vertentes
trans e pós-humanistas, ainda busca superar a natureza e vai além, busca naturalizar
a artificialidade das suas criações. A realidade é fabricada molecularmente, produzida
artificialmente de modo que as gerações das cargas semiótico-técnicas rompem com
os parâmetros e limites sensoriais do corpo orgânico, uma vez que substituem os
órgãos e recortam do corpo orgânico as suas fragilidades para em seus lugares
acoplar as próteses e micropróteses que se diluem e se convertem em corpo.
Compreender o gênero enquanto tecnologia prostética, parte constituinte da
produção dos corpos, acaba por eliminar a contradição determinista, essencialista e
construtivista do corpo. Não há mais uma essência ou centelha divina para garantir a
soberania, nem a Igreja para produzir os efeitos confessionais da sexualidade
101

regulada. A tecnociência produz o corpo híbrido por meio de recursos como os


ciberimplantes, os hormônios, dos transplantes de órgãos e das diferentes gestões da
biologia humana. E com isso, através dos elementos químicos, das substâncias,
fluidos, hormônios e das próteses se assegura a inscrição na carne dos atos
discursivos e performativos que, muito além da sexualidade, regulam também todas
os níveis da ecologia política humana. As tecnologias de representação, da
informação, publicidade e cultura garantem os constantes estímulos ao consumo
compulsório de tais tecnologias que, tragados, mantêm os sujeitos em um ciclo
infindável de excitação-frustração que gera um estado de confortável entorpecimento,
o que impede (ou ao menos dificulta) as práticas eficientes de resistência consciente.
Demonstramos precisamente algumas das tecnologias que materializam os
discursos por meio de um constante devir-carne, assim como em que consistem estas
tecnologias. Para Preciado, a teoria performativa do gênero de Judith Butler só se
efetiva através da inscrição somática do gênero no corpo, portanto, da mesma
maneira em que não há um ponto fixo a ser alcançado quando se trata da
performatividade de uma identidade de gênero, não há também uma linha de chegada
para a materialização do mesmo. Portanto, a existência de uma identidade de gênero
é tão condicional ao consumo de tecnologias prostéticas quanto vice e versa. Isto,
pois, ao se administrar uma dose de testosterona, ao consumir um antidepressivo ou
então ao ingerir um Tylenol, se administra também uma dose de realidade, uma cadeia
de significantes políticos que se materializam em corpo. A partir da imaginação política
e da molecularização dos discursos disciplinares, a molécula se torna um grilhão. E
ao administrar-se uma substância, não se ingere apenas a substância, a molécula,
mas também o seu conceito e toda a sua carga semiótico-técnica; uma relação entre
os signos, textos, discursos, ideologias, processos, histórias, informações e
metadados, transações e quedas da bolsa de valores.
Devido a isso, estabelece Preciado, é que as indústrias farmacêuticas e as
indústrias pornográficas são pilares das atuais mutações do capitalismo e que, por
meio das ferramentas neoliberais, se valem para produzir hegemonicamente não a
repressão, mas a ilusão da repressão. Para produzir uma sexualidade burguesa e
elitista, que constrói completas linhas de produção e de reprodução de suas
personificações. Através do conjunto das decisões farmacêuticas, das publicidades
pornográficas e representativas, estampam um estilo de vida baseado em ilusões
incomodativas, porém aceitáveis, para que não haja nenhum descontentamento. No
102

lugar do descontentamento, se consomem ensaios, consultas médicas, grupos, redes


sociais, aplicativos, intercâmbios, eletricidade, programas televisivos, filmes e séries,
engenharias genéticas, a superpopulação em cidades que cresceram demais. Se
consomem guerras, massacres, novas espécies, doenças outrora erradicadas. Se
consome a vigilância, a inconstância, a ansiedade, a fome e o medo, a destruição. E
quem consome, consome também aos outros, o desejo, a ideia de liberdade, de
submissão, de capital, a ficção do consentimento e de revolta.
É também, frente a isso, que Preciado afirma ser a testosterona a chave central
e responsável da compreensão da biopolítica e dominação masculino-heterossexual.
Com o advento da tecnociência e o avanço das técnicas de extração e sintetização
dos hormônios, outrora determinadamente essenciais da verdade epistemológica da
masculinidade, não só é possível fabricar um corpo masculino a partir deste substrato
natural, como também o torna, enquanto apenas “orgânico”, algo ultrapassado. A
tecnociência desencadeou um questionamento a este estatuto epistemo-biológico da
verdade científica do sexo, entretanto, a classe de homens-hétero-cis-brancos não
esperava à época que suas ambições se voltariam contra eles, evidenciando que, de
fato, o sexo biológico assim como o gênero são constructos sócio-histórico-
tecnológicos, tecnologias do sexo, do corpo. Códigos inscritos, reinscritos e reescritos
ao longo dos séculos sobre os corpos como uma herança biotecnocultural concedida
anteriormente, imediatamente ao nascimento e constantemente ao longo da vida.
É também por isso que os hormônios testosterona, estrógeno e progesterona
são, embora produtos comercializáveis, estritamente regulados pelo Estado.
Conjecturemos: se suas vendas forem inteiramente permitidas, se possível que se
adquira livremente, as transições de gênero e as redesignações genitais serão
realizadas por um sem-número de pessoas que redefiniriam suas identidades, os seus
nomes. O Estado entende isso como um problema e uma ameaça, então regula,
mapeia, codifica, registra, controla de todas as maneiras possíveis.
Em virtude disso, o Manifesto Contrassexual é um convite: é o manifesto da
potência do corpo, da potência potencializada, de resistência e reapropriação do
corpo. Testo Yonqui é, sobretudo, uma demonstração dos processos de intoxicação
voluntária, de incentivo a valer-se do corpo como uma plataforma política de
experiências de liberação e cuidado de si. São práticas subversivas, contrassexuais,
que Preciado busca teorizar e veicular valendo-se das grandes tecnologias, das redes
de conexão, dos grandes centros de comunicação. Hoje as tecnologias são
103

implantadas, acopladas e incorporadas ao corpo, corporificam-se, mas em uma utopia


contrassexual, o corpo se cria sem limites de sua potencialidade de saber-prazer,
utiliza a tecnologia a fim de ampliar e maximizar a sua expansão, e não ao contrário,
e não que a tecnologia se estabeleça dominante e use os corpos como robôs
inconscientes, como se modens transmissores-repetidores-amplificadores da
normalização ideológica tecnocapitalista.
Na transição e ao longo do terceiro capítulo foi possível detalhar com maior
precisão o que Preciado chamou de farmacopornografia para descrever os
movimentos citados acima, próprios da lógica capitalista em centralidade. Entre as
indústrias farmacêuticas e culturais se extrai o substrato tóxico da dominação e da
produção da realidade como a conhecemos. A redução das subjetividades em
substâncias comercializáveis ascende como o verdadeiro capital. Com a
farmacopornografia se constitui um novo paradigma de Poder, pois em si carrega os
três aspectos do Poder (Soberano, Disciplinar e a Governamentalidade) além de
impelir os corpos a circular por entre e através deles, co-criando novas formas de
controle, ocupando simultaneamente as posições de senhores e de submissos,
perpetuando uma história a qual nos ensinaram a repetir até que esqueçamos que
não é verdade.
Destacamos, no entanto, um momento importante para os resultados da
presente pesquisa, o qual abordamos também no terceiro capítulo, em que
questionamos Preciado sob o crivo que ele próprio desenvolveu. Em suas
interlocuções e projeções em busca de uma resistência para o atual mal-estar
civilizacional causado pela farmacopornografia, Preciado sugere que incorporemos
intencionalmente as diversas manifestações farmacopornográficas com a razão de
desmembrá-la de dentro para fora. Sugere, então, que acatemos os termos que
evidencia como um norte global, enquanto universaliza o seu sistema de subversão e
resistência. Com a centralidade em Agnes, sugere a coletivização de sua experiência
a fim de estimular os sujeitos – ou tecnocorpos em rede – a resistir, como exemplo
para que hajam da mesma forma ou inspirados por ela. Entretanto, ao coletivizar a
vida de alguém, não estaríamos friamente a reduzindo a um testemunho, a um caso
clínico ou a um estudo acadêmico? Os protocolos de autointoxicação promovidos por
Preciado não seriam inviáveis, dado as particularidades e localidades de cada um?
Como poderia uma pessoa transexual ou transgênero em situação de precarização
ou probreza poder adquirir, mesmo ilegalmente, substâncias hormonais para a
104

aplicação sem o devido acompanhamento? Como inserir tais práticas em situações


das quais são inacessíveis? Como reduzir o distanciamento entre as práticas ativistas
e as práticas acadêmicas a fim de unir esforços? Como será possível reduzir a
distância entre a academia e a militância quando, academicamente, entendemos a
identidade de gênero enquanto gestos e ficção, mas para quem milita ativamente,
para quem a vivencia, se trata da vida própria? Para estas pessoas não há diferença
real entre a performatividade, a ficção e identidade, para elas, apenas são.
Em todo caso, entendemos que a produção da materialidade dos corpos, uma
vez planificada, se trata das incursões tecnocientíficas e farmacopornográficas para
assegurar na sociedade ocidental a atmosfera necessária para o consumo das
subjetividades politoxicomaníacas que, por sua vez, levam às práticas de produção
corporal e de incorporação prostéticas da sexualidade. Em outras palavras, garantem
a inscrição na carne e no corpo do caráter discursivo-performativo do Poder. Isto é, a
todo o tempo estamos transitando entre ambas as dimensões e até mesmo as
dividimos por razões metodológicas e analíticas, mas na prática, no dia a dia, atuam
em conjunto, condicionais uma a outra. Tratamos do devir-carne dos signos
linguísticos e dos discursos por meio da produção combinada de discursos e de
matéria em um mesmo corpo, fazendo com que todo gesto performativo seja matéria
e que toda matéria também seja performativa.
Diante de um trabalho complexo, tão ensaístico quanto filosófico, nós
buscamos fugir do engessamento do exercício reflexivo e, a partir de agora,
buscaremos apontar as possíveis investigações e para os problemas-filho resultantes
da presente pesquisa. Assim, registramos que partindo da Filosofia Política, ao longo
do caminho que percorremos, acabamos chegando aos terrenos da Ética. Este era
um movimento esperado, entretanto, entendemos que as sugestões de Preciado às
práticas de resistência estão, em alguma medida, vinculadas ao cuidado de si,
especificamente ao tratado por Foucault. Afinal, existiria alguma reflexão ética diante
da farmacopornografia? Princípios éticos, de responsabilidade ou que orientam a
resistência também microfísica e molecular frente a tecnociência, como é apresentada
por Preciado?
Desde o Manifesto até Testo Yonqui, Preciado desenvolve dois níveis em sua
proposta de resistência, sendo o primeiro a contrassexualidade, a interpelação de
seus leitores por meio de uma ferramenta conceitual, semiótica e semântica, que
busca sensibilizar a quem lê para que, a partir daí, se desenvolva uma inquietação
105

característica do pensamento de Preciado, de modo que induza o leitor a questionar


a si, o outro e a todo o resto. Porém, se Preciado propõe um método, a interpelação
por meio de um manifesto, acaba por se mostrar insuficiente para ilustrar e realmente
motivar aos leitores em função daquilo que se refere Preciado.
Talvez, por esse motivo, é que Preciado tenha se dedicado praticamente de
modo obsessivo a produzir argumentos filosóficos a partir de um relato, ou
testemunho, demonstrando o uso e a aplicação da testosterona e da intoxicação
voluntária como uma prática de resistência. O segundo nível, complementar ao
primeiro, é o que Preciado estabelece com a resistência à farmacopornografia. Um
nível de produção e experimentos (a partir do próprio corpo enquanto uma plataforma
ou palco de experienciações) e da criação de autoficções política, culturais e corporais
de si. Um nível de resistência biopolítica disciplinar e outro nível de resistência às
micropolíticas de produção de subjetividades hegemônicas.
Enquanto Preciado nos convida a conhecer uma perspectiva diferente, a partir
da qual os conceitos, normas e regras mais conhecidos e inquestionáveis são
dissolvidos, passo a passo, com algumas consequências ainda desconhecidas ou
imprecisas, e sem um destino fixo, cabe a todos e a cada um passar pelas próprias
transformações, pela reapropriação de práticas que desestabilizem o regime
farmacopornográfico de dentro para fora, a partir da contraprodução ou da teoria
contrassexual.
É preciso avaliar precisamente como agir, de dentro de um regime hegemônico
baseado no capitalismo heteronormativo, como diria Preciado, assim como terroristas
culturais, que implodem os sistemas, aparelhos e dispositivos biopolíticos e
tanatopolíticos a partir de microrrevoluções. Precisamos dar a atenção necessária
para as bordas e margens que os próprios movimentos revolucionários constroem,
justamente para solucionar a instância repressiva causada pelo efeito bumerangue e
pelas contradições das políticas revolucionárias.
Consideramos, assim como Preciado, frente a toda a produção tecnocientífica
da materialidade dos corpos, que já não se trata de pensar um corpo humano, nem
de um corpo que se denominará ou que se auto designará como feminino ou
masculino, nem de um corpo que é designado com uma raça superior ou inferior, mas
do corpo como uma plataforma histórica e socialmente construída, cujo os limites são
constantemente redefinidos pelas relações de poder em sua superfície e em seu
interior. Pois é a partir desse corpo, que já se encontrou molecularmente produzido e
106

globalmente reproduzido, que se desenha uma outra forma de conhecimento, outro


sujeito-objeto dos enunciados científicos, outro perfil de consumidor tecnológico e uma
justaposição convergente entre o que e para quem a ciência produz a tecnologia.
Navegar por estas águas inexploradas pode certamente nos levar para um novo
entendimento ético, a partir de uma nova teoria geral do conhecimento e a partir de
uma episteme adequada aos nossos dias.
Inspirados pelo o que vimos até aqui, terminamos com uma mensagem, um
incentivo, pois, a partir dessa caixa de ferramentas que Preciado organizou e nos
deixou à disposição, é possível valer-se da rede viva descentralizada a qual nos
tornamos. É possível, também, resistir e dissolver a cidadania biológica,
politoxicomaníaca, que foi imposta aos corpos para explorar as suas potentia
gaudendi. Desse modo, podemos nos reapropriar desta rede vida para ser, finalmente,
uma plataforma de compartilhamento de técnicas, fluídos e saberes a partir da
perspectiva dos corpos que hoje são designados abjetos, de uma inversão de valor e
de uma reviravolta que atingirá com força o seu alvo. Nós já aguentamos ser escravos,
a culpa, aguentamos os regimes de produção industrial, a esquerda e a direita, o que
está entre e o que vai além. Nós já vivemos vidas inteiras submissos,
despotencializados e, então, de agora em diante, nos cabe escolher entre viver
definidos pelo sistema ou então agir de modo a não apenas desafiá-lo, como também
superá-lo. Já é tempo de se reconectar, de nos reconhecer, de ser quem queremos
ser, de cuidarmos de si e uns dos outros com a consciência de sermos os discursos
políticos vivos que somos.
Nós respiramos a luta e, parafraseando Preciado (2013a), se dizem a nós que
somos e que vivemos uma crise, bradaremos em resposta: nós somos e vivemos a
revolução!
107

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