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BAILYN, Bernard.

As origens ideológicas da Revolução


Americana. Bauru (SP): Edusc, 2003.

JANAÍNA ALEXANDRA CAPISTRANO DA COSTA*

Traduzida pela primeira vez para o por- ideário formado por elementos herdados do
tuguês, depois de quase quarenta anos da sua pensamento político e social ocidental coorde-
primeira publicação nos Estados Unidos, As nados pelo pensamento de oposição inglês
origens ideológicas da Revolução Ameri- originado da guerra civil inglesa.
cana é numa obra reveladora de um movimento Para testar essa hipótese, Bailyn serviu-se
no qual teoria e práxis, travando uma relação do instrumental da história do discurso e de uma
de mútua transformação, engrenaram o processo abordagem contextualista da história. Seguindo
revolucionário norte-americano. essa metodologia, o primeiro procedimento
Para Bernard Bailyn, o autor da obra, esse adotado pelo autor foi debruçar-se sobre um
processo estaria compreendido no período de- vasto conjunto de documentos históricos produ-
corrido entre 1763 e 1776, prelúdio da emanci- zidos durante 1763 e 1776, os panfletos norte-
pação e das primeiras constituições da América americanos. Dentre as inúmeras formas de
do Norte. Durante esse ínterim, ter-se-ia desen- expressão escrita utilizadas pelos colonos norte-
cadeado uma dinâmica revolucionária, na qual americanos nesse período, teriam sido publi-
a posição dos colonos em face da administração cados sobretudo panfletos, pois eles eram mais
inglesa teria transitado de um primeiro momento fáceis de serem produzidos e adquiridos, daí a
marcado pela reação defensiva a um segundo sua importância e riqueza como fonte primária.
momento caracterizado pela reação ofensiva, Esses documentos, sublinha Bailyn, continham,
esta última culminada na declaração da Inde- em sua maior parte, textos interpretativos e
pendência. O trajeto intelectual traçado pelos debates gerados em torno dos acontecimentos
atores locais entre esses dois momentos, aparen- da época, tais como a Lei do Selo, o Massacre
temente inerentes a qualquer processo revolu- de Boston, a Tea Party etc.
cionário, desvelaria uma relação entre apreensão Dada a perspectiva analítica assumida na
subjetiva dos acontecimentos, a formulação de obra, os sujeitos históricos considerados seriam
uma teoria política original e sua aplicação na os autores dos panfletos, aos quais o autor se
realidade. O autor deseja demonstrar que esse refere, desde o inicio da obra, pelo termo
caminho somente teria desembocado na concep- colonos. Essa expressão talvez pudesse ser
ção do liberalismo político e do modelo republi-
associada ao fato de que, tal como observa
cano baseado na democracia representativa e
Bailyn, os autores dos panfletos americanos não
na separação de poderes porque a realidade
eram escritores ou teóricos profissionais e,
singular do espaço norte-americano foi interpre-
dentre eles, os que teriam chegado mais próximo
tada, e logo transformada, com respaldo em um
desse profissionalismo seriam os tipógrafos,
mas, em geral, eram trabalhadores comuns,
* Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia
da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. E-mail:
comerciantes e proprietários limitados aos seus
janainac@fclar.unesp.br negócios.

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Contudo, mesmo relevando tal aspecto, é racionais, as objeções realizadas à imposição de


difícil imaginar que o número de autores dos um quadro de instituições e costumes identi-
textos panfletários fosse diretamente propor- ficados com o Antigo Regime.
cional ao da massa de colonos na América. Ainda mais influente que essas duas
Considerando o mínimo necessário para a correntes de pensamento, teria sido o direito
produção e circulação dos panfletos, embora não consuetudinário inglês. Os panfletos teriam
fossem profissionais, seus autores e leitores subtraído dessa fonte teórica a sua valorização
deveriam ser minimamente instruídos e ter dos costumes e da tradição como fontes de um
acesso aos meios de produção e circulação saber impossível de ser alcançado pela razão, e
desse material, o que poderia excluir os colonos que, portanto, representariam arcabouços de
como um todo. experiências fundamentais para a formulação
Porém, nota-se que esta é uma questão não de explicações sobre os acontecimentos do devir
resolvida na obra. Quem eram exatamente os histórico. Mas os costumes e a tradições, mesmo
autores dos panfletos? A que estrato social sendo determinantes quando se tratou de
pertenciam? apreender a realidade, não o teriam sido no
Sem respostas, o leitor é induzido a pensar momento de conceber proposições teóricas com
que todos os membros da colônia se expressa- intenção prática e sentido de transformação.
ram pelos panfletos e, portanto, teriam parti- Já sobre o puritanismo, Bailyn observa que,
cipado ativamente da formulação e propagação diferentemente do que comumente se teria
da ideologia da revolução. Observa-se, assim, pensado sobre seu papel na América na
um certo esforço do autor no sentido de auferir condição de referência teórica, essa tradição de
uma gênese por natureza democrática – como pensamento estava restrita àqueles que conti-
o conceito povo exemplificaria se já houvesse nuavam a entender o mundo em termos teoló-
objetivamente a nova nação no interlúdio gicos. Essa restrição ocorria porque, ao pres-
analisado – à ideologia da revolução e ao supor que o homem estava inabilitado para
paradigma político liberal. Isso se torna ainda melhorar suas condições de vida separando os
mais evidente quando esse mesmo grupo de princípios da política dos desígnios divinos, o
pessoas é denominado ao longo da obra pelas ideário puritano contradizia as bases de boa parte
expressões: norte-americanos, colonos, líderes do pensamento político e social vigorante
da revolução e autores dos panfletos. naquele período histórico. Sendo assim, o que
Mas como esta resenha não pretende, e mais teria determinado o protagonismo desse
nem poderia, solucionar o problema de quem ideário na formação da ideologia da revolução
eram esses autores, e se eles corresponderam seria a explicação que oferecia para a colo-
realmente a todos os habitantes da colônia nização da América pelos ingleses, associando-
inglesa na América, textualmente foram utiliza- a a um evento designado pelas mãos de Deus
das as mesmas definições propostas pelo autor. para satisfazer seus fins últimos.
Analisando o conteúdo do material empírico, Entrementes, para o autor, o mais impor-
Bailyn pôde encontrar referências às idéias tante aspecto relacionado a essas contribuições
providas pelos pensadores da Antiguidade clássi- seria o fato de elas encontrarem-se imbricadas
ca, do racionalismo iluminista, do direito consue- pelo pensamento provido pelos escritos do grupo
tudinário inglês e do puritanismo. Além disso, político de oposição inglês chamado Whigs.
notou que cada uma dessas vertentes recebia De acordo com Bailyn, essa literatura de
dos autores dos panfletos um tratamento dife- oposição constituir-se-ia no cimento que uniria
renciado. aqueles elementos teóricos dispersos, formando
O pensamento clássico, por exemplo, a ideologia da revolução sobre o terreno dos
parecia representar antes de tudo uma referên- acontecimentos políticos e sociais ocorridos após
cia a um modelo ideal de sociedade. 1763.
O racionalismo iluminista, por sua vez, O alicerce dessa ideologia estaria formado
contribuiria para fundamentar, em termos pela convicção de que o mundo público estava

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dividido entre poder e liberdade, e tal convicção preservar os direitos dos colonos. Segundo
serviria de base para todas as posteriores Bailyn, essa mudança na forma de conceber as
conclusões sobre a vida nas colônias norte- bases sociais da política implicou finalmente a
americanas, bem como sobre a controvérsia tendência realista do pensamento político
anglo-norte-americana. Para os colonos, o poder constitucional norte-americano.
tinha um caráter agressivo e uma tendência a
expandir-se ameaçando a liberdade, sua fronteira [...] Sendo-lhes negadas, pela urgência de
primeira. Tal fronteira era vista como um bem novos problemas, as satisfações de elaborar
inerente às sociedades onde o poder legítimo abstrações familiares os norte-americanos
era criado pelos acordos voluntários, e de inteira avançaram pouco a pouco em direção àquele
realismo duro e claro em termos de pensamento
responsabilidade dos que selavam tais acordos.
político que alcançaria sua realização uma
Segundo Bailyn, o debate entre os líderes década mais tarde na formação do governo
da revolução acerca desse tema teria gerado, nacional e encontraria sua expressão clássica
por um lado, a certeza de que, por trás de toda em The federalist. No processo, a moderna
cena política, existiam determinados mecanismos doutrina americana da separação de poderes
que distribuíam e controlavam o poder e, por seria elaborada e o conceito de democracia
outro lado, a confiança de que a Constituição transformado. (Bailyn, 2003, p. 266-267)
inglesa representava esses mecanismos ao
confinar os poderes da realeza, da nobreza e Bailyn observa que, em 1774, pela primeira
dos comuns em esferas de governo distintas. vez os panfletos teriam expressado que o
No entanto, a unidade territorial e social momento de concretizar a predestinação dos
relevada nesse raciocínio era a Inglaterra, logo, norte-americanos como povo escolhido final-
quando se considerou o império de comunidades mente tinha chegado. Ao não aceitar a idéia de
formado pela metrópole e suas colônias, divisão da soberania proposta pelos colonos para
concluiu-se que os dispositivos do direito inglês que, dessa forma, lograssem representatividade
não asseguravam a igualdade e a liberdade, pois política, a Inglaterra veria sucumbir seu status
os norte-americanos não podiam eleger seus de metrópole quando evocada a soberania de
representantes no Parlamento da Inglaterra. uma vez por todas na América em 1776.
Sendo assim, a divisão de poder parecia aos Por fim, como resultado dos procedimentos
colonos ultrapassar a linha limítrofe dos direitos metodológicos adotados pelo autor na análise
naturais do homem. do processo revolucionário norte-americano, são
Portanto, se esse Parlamento não zelava apresentados ao leitor os fatos históricos que
por tais direitos, estava posta em xeque a eram absorvidos e criados pelos colonos, ao
legitimidade de sua jurisdição na América. mesmo tempo em que se demonstra, com base
Localmente, isso lançaria uma centelha de no material empírico, como eles formulavam, e
desobediência, engrenando o que Bailyn chamou reformulavam, sua maneira de pensar a política
de “a lógica da rebelião”. e a sociedade.
No bojo dessa lógica, conceitos como Em As origens ideológicas da Revolu-
representação, consenso, constituições, direitos ção Americana, o leitor toma contato com uma
e soberania seriam, por fim, questionados, forma de explanação que o leva a seguir todos
modificados e refinados, segundo o autor. Essas os caminhos e meandros percorridos pelas
transformações teriam impelido os líderes da reflexões e vivências geradas de 1763 a 1776
revolução a exigirem amplas reformas institu- entre os colonos e, por conseguinte, é convencido
cionais no sentido de preservar os direitos natu- intimamente da idéia de que o processo revolu-
rais do homem, mas a administração inglesa cionário norte-americano seria caracterizado
jamais cederia nesse aspecto. mais por uma luta ideológica, constitucional e
Assim, teria ficado evidente que o cerne política e menos por uma luta entre grupos
da controvérsia anglo-norte americana não dizia sociais com o fim de mudar a organização da
respeito à divisão social, mas, sim, a como o sociedade. Tal afirmação parece ser central na
funcionamento dos ramos de governo poderia obra, pois ela permite atribuir significado e certa

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excepcionalidade à revolução. É coerente a esse com as instituições e o direito ingleses, e isso


raciocínio o fato de Bailyn afirmar que a chave como iguais na determinação do poder e não
para entender a problemática revolucionária seria como apenas subordinados a ele, que os norte-
responder por que, em relação ao contexto americanos romperiam com essa idéia de
específico norte-americano, uma ideologia sucessão.
política profundamente contestatória ter-se-ia É possível enfatizar ainda no que diz
formado tão precocemente e permanecido ao respeito a esse aspecto que os norte-americanos
mesmo tempo potente e tranqüila durante mais teriam ido além do mencionado rompimento –
de quinze anos para logo ser levada à máxima eles teriam ultrapassado sua linha histórico-
potência tanto em termos teóricos como práticos. temporal e transformado-se em vanguarda.
Segundo Modesto Florenzano, que escreve Vislumbrando dessa forma a passagem da
a apresentação para a edição brasileira da obra, condição de colônia para a condição de nação
Bailyn é um dos estudiosos contemporâneos que na América, Negri (2002) observa que final-
buscam resgatar a tradição do humanismo cívico mente os colonos instituíram ao povo a “possi-
e do republicanismo clássico no pensamento bilidade indefinida de diferenciação na expressão
inglês e demonstrar sua influência na Revolução do poder”, na medida que refutaram a Consti-
da Independência norte-americana. E, além tuição inglesa com seu funcionamento baseado
disso, Florenzano sublinha que a perspectiva no equilíbrio entre as três ordens sociais que
seguida pelo autor pôde abrir a possibilidade de dividiam a sociedade, ou seja, a típica divisão
que a história de um evento dado como ponto classista da política clássica (Negri, 2002, p.
pacífico por um conjunto de analistas seja 213). Mas teria sido a emancipação a máxima
novamente conduzida à imprevisibilidade. expressão da ideologia da revolução? Teria sido
Dito de outra forma, que a história da Revo- o ato da separação em si ou da soberania evo-
lução norte-americana seja reinterpretada, agora cada? A resposta de Bailyn a essas perguntas
não mais como o marco inicial de uma era de é negativa.
revoluções, como recorrentemente foi compre- Para o autor, a expressão final dessa ideolo-
endida, mas sim como a concretização de uma gia foi a Constituição norte-americana de 1789,
forma de conceber a política característica do pois, no conteúdo dessa Carta, além de estarem
período renascentista e que teve até então sua presentes os resultados da interação entre a
máxima expressão no pensamento de oposição maturação de idéias e atitudes dos colonos e as
da guerra civil inglesa e da Revolução Gloriosa. implicações disso em suas vidas diárias durante
Uma outra referência que vai nessa mesma a década anterior à ratificação do documento,
direção é a de Negri (2002), que, ao citar a também seria possível identificar o aspecto
mencionada obra, denota que Bailyn figura reformador do processo revolucionário em tela.
dentre os autores que, em suas interpretações Segundo Bailyn, esse aspecto presente na
sobre a Revolução Americana, concebem esse Constituição corrobora o que os panfletos teriam
evento como o marco histórico do fim da política demonstrado em anos anteriores, ou seja, que a
clássica. intenção de realizar uma ruptura definitiva no
Para Negri (2002), o rompimento com a campo das idéias e no campo político institucional
forma clássica de conceber a política poderia jamais existiu. O que mais teria se aproximado
ser compreendido como um desligamento à ruptura seriam as propostas antifederalistas,
histórico em relação à concepção polibiana de mas, afinal, o ímpeto reformador assumido pelos
sucessão dos tempos históricos, a qual pressu- federalistas acabou prevalecendo. De 1763 a
punha que as diferentes realidades dos diferentes 1776 as fontes da ideologia da revolução seriam
países teriam de transitar pelas mesmas etapas reavaliadas, reaplicadas e atualizadas, dando
de desenvolvimento pelas quais haviam passado origem a uma nova concepção de política,
as realidades mais avançadas para, finalmente, embora este não fosse o objetivo final, afirma o
alcançar esses estágios. Teria sido ao conceber autor.
que seu espaço e tudo o que caracterizava a Elegendo quais seriam os aspectos da vida
vida nas colônias era perfeitamente compatível real que comporiam o ideal da nova sociedade

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a ser criada nas colônias inglesas, nas palavras espaço da caverna, e isso talvez não o permita
do autor, os colonos “não abandonaram a ampliar-se e ajustar-se a outras paisagens
caverna [...] eles a reformaram” [...], pois “o modificando-se e garantindo ao mesmo tempo
passado teria que ser sepultado e não rejeitado sua eficácia. É um pensamento idiossincrático,
[...]” (Bailyn, 2003, p. 330) e o que pode acontecer quando esse aspecto
não é relevado é que outros territórios, outras
Foi assim que os federalistas corrigiram a realidades sejam vistas também como obstáculos
caverna [...], modernizaram-na [...], demons- que necessitam ser remodelados. Nesse caso,
traram onde estavam os obstáculos [...] e assim não haveria, além das fronteiras apresentadas
podemos avançar dando voltas e bater as asas
pelas paredes da caverna, lugares onde a
em vôos curtos, descer e nos elevar em cursos
perfeitos através do ar mais negro. Nesse
ideologia liberal norte-americana pudesse
espírito nós também – na mais feliz intelecção ajustar-se através de uma simbiose com
– podemos continuar a corrigir a caverna. elementos locais, mas, sim, e talvez somente,
(Bailyn, 2003, p. 332) “corrigir”.

Finalmente, a abordagem contextualista


Referências
utilizada por Bailyn define quais foram os
obstáculos objetivos para os colonos e como eles, BAILYN, Bernard. As origens ideológicas da Revo-
ideologicamente, puderam transformar seu lução Americana. Bauru: Edusc, 2003.
espaço. No entanto, o leitor poderá observar que NEGRI, Antonio. O poder constituinte: ensaio sobre
a gênese do pensamento político liberal, assim as alternativas da modernidade. Rio de Janeiro:
apresentada, lhe atribui capacidades restritas ao DpeA, 2002

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