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Navalha de Ockham.


Rodrigo Carlos Silva de Lima

rodrigo.uff.math@gmail.com

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Sumário

1 Navalha de Occam e Variações. 3


1.1 Navalha de Ockham . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
1.1.1 Variação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.1.2 Crop Circles . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.2 Princı́pio da Economia e Axiomas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.2.1 Limitações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.3 Apêndice-Demonstrações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.3.1 Axiomas Desnecessários em Álgebra Linear . . . . . . . . . . . . 8

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Capı́tulo 1

Navalha de Occam e Variações.

Suponha que seu telefone tenha ficado ruim, sem linha. Dentro de alguns minutos
depois ele volta a funcionar. Dentre as duas opções à seguir, qual considera que há
mais chance de ter acontecido? (ou que seja mais plausı́vel).

1. A linha ter sido reestabelicida por pessoas que trabalham para a empresa de
telefonia.

2. Uma mini-nave espacial, vinda de outra galáxia, acabou esbarrando e arreben-


tando um fio que levava ‘‘linha"a seu telefone. Mas o seu piloto (um ser na
forma do dinossauro Tricerátops ) consciente do estrago que fez acabou por
parar a nave e a ajeitar seu estrago assim fazendo com que a linha do seu
telefone voltasse a funcionar.

1.1 Navalha de Ockham


A Navalha de Occam ou Navalha de Ockham é um princı́pio lógico atribuı́do ao
lógico e frade franciscano inglês Guilherme de Ockham.

• O termo navalha vem da ideia de cortar, acabar com suposições desnecessárias


de uma teoria.

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CAPÍTULO 1. NAVALHA DE OCCAM E VARIAÇÕES. 4

m Definição 1 (Navalha de Occam- Princı́pio da Parcimônia.). Quando duas


ou mais hipóteses são oferecidas para explicar um dado fenômeno e o explicam
de forma adequada, é razoável aceitar a que é:

1. mais simples;

2. faz menos afirmações não fundamentadas.

• A navalha de Occam também é conhecida como princı́pio da Parcimônia ou


Princı́pio da Economia.

Tal conceito é sobre economia de hipóteses ou curso de ação. Seu significado


pode ser traduzido por ‘‘menos é melhor". Com tal princı́pio se deseja eliminar
conceitos supérfluos de uma teoria.
Listamos algumas

• Neste princı́pio se considera que uma melhor aproximação inicial pode ser
sintetizada na expressão: ‘‘não multiplique hipóteses desnecessariamente",
proveniente aa expressão em latim :‘‘Entia non sunt multiplicanda praeter
necessitatem", as entidades não devem se multiplicar além da necessidade.

• A explicação deve conter o menor número possı́vel de premissas.

• Uma hipótese não deve ser considerada se não for absolutamente necessária
para explicar algum fenômeno.

• Se duas hipóteses explicam os dados com igual eficiência, deve prevalecer a


mais simples.

• Se uma explicação simples basta, não há necessidade de buscar outra mais
complicada.
CAPÍTULO 1. NAVALHA DE OCCAM E VARIAÇÕES. 5

Suponha que temos dois conjuntos de hipóteses:

1. {H1 , · · · Hn };

2. {H1 , · · · Hn , Hn+1 }.

Se ambos explicam o mesmo fenômeno F o princı́pio implica escolher a primeira


opção, que possui menor número de hipóteses.

• Poderı́amos apresentar também uma variação do princı́pio da economia: Se a


previsão depender de algum tipo de computação, ao comparar duas teorias bem
fundamentadas para explicar um fenômeno com a mesma precisão, use a teoria
que tiver menor custo computacional.

1.1.1 Variação
• Considere inicialmente (das hipóteses bem fundamentadas) as com maior pro-
babilidade (mais comuns) de acontecer e adote o menor número delas que
seja suficiente para explicar o fenômeno. Posteriormente, caso seja necessário
aumente a complexidade, se o conjunto inicial de hipóteses não se mostrar
adequado para explicar o fenômeno analisado.

Vamos aplicar esse princı́pio acima para escolher entre explicações para um dado
fenômeno.

1.1.2 Crop Circles

m Definição 2 (Crop circles). Crop circles são padrões geométricos desenha-


dos em plantações de trigo, cevada, centeio ou outras plantas. Essas formas
geométricas podem ser encontradas em algumas áreas enormes e com alguns de-
senhos complexos. Esse tipo de desenho já foi encontrado em muitas partes do
mundo e sua origem já despertou muita controvérsia.

Vamos apresentar duas teorias rivais:

1. Os cı́rculos foram formados por serem local de pouso de espaçonaves alienı́genas,


cujas naves deixavam rastros distintos no solo.
CAPÍTULO 1. NAVALHA DE OCCAM E VARIAÇÕES. 6

2. Os cı́rculos haviam sido feitos por pessoas.

Se não temos boa fundamentação para a hipótese de existência de alienı́genas


inteligentes visitando a Terra, adotamos inicialmente a segunda hipótese como uma
possı́vel explicação.

1.2 Princı́pio da Economia e Axiomas


• Em Matemática as vezes se deseja ter um conjunto de axiomas mı́nimos para
construir uma teoria, que eles sejam independentes entre si, de forma que um
axioma não possa implicar o outro.

1.2.1 Limitações

Simplicidade Sem Fundamentação.

• ‘‘Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e
completamente errada-H. L. Mencken

A explicação mais simples nem sempre é a correta. Uma explicação simples pode não
ser, por exemplo, bem fundamentada. Considere o seguinte exemplo em Matemática:

16 1
Z Exemplo 1. Vale que 64 = , pois cancelamos os algarismos 6
4
16 1
6 1
= = .
64  64 4

A explicação foi simples, chegou-se ao resultado correto porém a passagem não


é bem fundamentada. A propriedade de ‘‘cortar algarismos"não vale em geral.
Considere outro exemplo,
10 1
0 1
= = ,
100 100 10
esse caso deu certo, vamos tentar outro!
CAPÍTULO 1. NAVALHA DE OCCAM E VARIAÇÕES. 7

77 7A7 7
= = = 7.
71 7A1 1
O resultado está errado.

Simplicidade ? · · ·

Simplicidade pode ser um conceito não tão claro em alguns casos, como decidir
o que é mais simples dentre duas teorias?. Simplicidade de um modelo também não
garante que o resultado será capaz de deduzir de forma correta um evento fora do
escopo do que já foi observado.
Considere por exemplo os dados que foram gerados por uma certa função.A função
foi escolhida, mas mantida em segredo e depois diremos qual função gerou esses
dados.

Tabela 1.1:
f(x) 0 1 2 3 4

x 0 1 2 3 ?

Uma hipótese simples, em termo de maneira fácil de fazer as contas seria supor
a função f(x) = x. Porém, vamos dar mais um valor gerado pela função (função que
foi escolhida a priori mas mantida em segredo),

f(4) = 5.

A função f(x) = x, apesar de simples não deu o valor correto para o próximo ponto.

• Agora dizemos a função que foi escolhida, e mantida em segredo inicialmente,

x(x − 1)(x − 2)(x − 3)


f(x) = x + .
4.3.2.1
Para valores de x = 0, 1, 2, 3 ela é idêntica a g(x) = x, mas em muitos
outros valores ela difere. Dentro do escopo {0, 1, 2, 3} é mais prático se usar
a expressão simples, porém fora desse conjunto de dados as previsões estariam
erradas, apesar de ser obtidas de maneira muito simples. Nem sempre o que é
simples é o correto.
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Questões Didáticas

Algumas vezes um conjunto de hipóteses maior pode ser mais didático de ser
apresentado, ou então poupar algum tipo de trabalho extra de demonstração. Em
Matemática, por exemplo:

• Álgebra Linear é costumeiro se apresentar um conjunto maior de axiomas para


certo tipo de espaço chamado espaço vetorial, a comutatividade da soma de
vetores u + v = v + u pode ser demonstrada por meio de outros axiomas.

• Numa primeira apresentação de teoria do corpo dos números reais, R, é comum


se considerar a existência desse corpo de forma axiomática, listando os axiomas
que ele satisfaz. No caso R é um corpo ordenado completo.

• A teoria Matemática poderia ser construı́da a partir de elementos mais básicos


e talvez simples, usando lógica e teoria dos conjuntos. Porém até se chegar a
construção de um corpo muita teoria deveria ser desenvolvida, muitas proprie-
dades provadas. Daı́, sabendo que a construção é possı́vel por meio de conceitos
mais básicos, por questões didáticas e de tempo de exposição se toma o que se
pode construir de modo axiomático.

1.3 Apêndice-Demonstrações

1.3.1 Axiomas Desnecessários em Álgebra Linear


Vamos apresentar as definições básicas e mostrar que o axioma de comutatividade
de adição (ou seu requerimento) é desnecessário.

m Definição 3 (Espaço vetorial). Um espaço vetorial é uma estrutura (V, F, +, ×)


formada pelos seguintes elementos listados:

• Um conjunto V , cujos elementos são chamados vetores.

• Um corpo F, chamado corpo de escalares (cujos elementos são chamados de


escalares).
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• Temos também duas operações: Uma adição + e uma multiplicação × que


satisfazem certas propriedades que listaremos a seguir.

Nesse texto iremos considerar a princı́pio que o corpo F seja o corpo dos números
reais R. Sejam u , v e w ∈ V e a e b ∈ R, então para que V seja um espaço
vetorial a adição deve satisfazer as seguintes propriedades

• S1 A adição é fechada u + v ∈ V. A soma de dois elementos de V ainda é um


elemento de V .

• S2 Associatividade
(u + v) + w = u + (v + w).

• S3 Vetor nulo. Existe um vetor 0v ∈ V , chamado vetor nulo, tal que

0v + v = v + 0v ,

para todo e qualquer v ∈ V . Usaremos a notação 0v para simbolizar o vetor


nulo, para que não haja confusão com o número real 0, ou elemento nulo do
corpo dos escalares.

• S4 Inverso aditivo. Para cada vetor v ∈ V existe −v ∈ V tal que

v + (−v) = 0v

• S5 Comutatividade
u + v = v + u.

Com isso temos que a adição no espaço vetorial forma um grupo abeliano
(comutativo) (V, +). É definido também um produto de um vetor v por um
escalar a sendo o resultado um vetor av = u, que têm as seguintes propriedades
(considere a, b, c escalares arbitrários em K , v e u vetores em V )

• P1 O produto é fechado
cv ∈ V.

• P2 Distributividade escalar

(a + b)v = av + bv.
CAPÍTULO 1. NAVALHA DE OCCAM E VARIAÇÕES. 10

• P3 Distributividade vetorial

a(v + u) = av + au.

• P4 Identidade escalar
1.v = v.

• P5 Associatividade do produto por escalar

(c.a)(v) = c(a.v),

onde c é um escalar

b Propriedade 1. A propriedade comutatividade da adição de vetores é des-


necessária como axioma de espaço vetorial, pois pode ser deduzida dos outros
axiomas, isto é, {P1 , · · · P5 , S1 , · · · S4 } ⇒ {P1 , · · · P5 , S1 , · · · S5 }.

ê Demonstração. A propriedade vale se temos uma unidade 1.a = a, distri-


butividade à esquerda e à direita (1 + 1)a = 1.a + 1.a = a + a e lei do corte ( que
pode provir da associatividade, existência de neutro e inverso aditivo).

• Distributividade à direita implica,

2(u + v) = 2u + 2v = (u + u) + (v + v).

• Distributividade à esquerda e propriedade da unidade, temos

2(u + v) = (1 + 1)(u + v) = 1.(u + v) + 1.(u + v) = (u + v) + (u + v).

• Segue, dos itens anteriores e associatividade da adição, que

2(u + v) = (u + u) + (v + v) = (u + v) + (u + v) =

= u + (u + v) + v = u + (v + u) + v,

por lei do corte, temos finalmente

u + v = v + u.