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11/08/2015 ­ 05:00

Mais ação, menos agitação
Por Antonio Delfim Netto

Como diria Marx (o Groucho): todos nascemos iguais, exceto alguns economistas petistas e alguns políticos
tucanos. Nas últimas semanas, eles têm feito enorme esforço para qualificarem­se para o prêmio Ig Nobel de
Economia e de Política de 2015.

Igualam­se em potência intelectual quando propõem, respectivamente, para a saída da crise econômica mais
política anticíclica (para corrigir um desequilíbrio fiscal estrutural cuidadosamente construído), e para a saída da
crise política nada menos do que a ideia genial de uma nova eleição. Isso, apenas, se não conseguirem um
"jeitinho" de substituir, no tapetão, quem ganhou a eleição por quem a perdeu. Tinha razão meu velho professor
Montoro: a que escuridão pode nos levar a ambição desmedida!

É tempo de todos colocarmos de lado o pensamento mágico e colaborarmos para o bom funcionamento das
sólidas instituições que construímos. É preciso respeitar um mínimo da lógica econômica que tem sido usada nos
últimos cem anos em todas as sociedades relativamente civilizadas: produz uma módica liberdade de iniciativa
individual, uma progressiva igualdade de oportunidades e alguma eficiência produtiva, que é a possibilidade de
fruição das outras duas.

É tempo de a presidente Dilma recuperar o seu protagonismo

É preciso incorporar o fato que quem foi eleito legitimamente (e Dilma o foi!) só pode ser privado da missão que
recebeu da maioria nas urnas com a mais rigorosa observância do rito constitucional, e uma vez provado
materialmente que cometeu, ou se beneficiou, de eventual desvio de função. A "vontade" expressa nas
amostragens da opinião pública, por mais exatas e fiéis que sejam; a "gritaria raivosa" no hospício a céu aberto da
Câmara dos Deputados; as "passeatas cívicas" dominicais e os "panelaços mal­educados" das zonas abastadas
podem pretender revelar o "espírito da sociedade" com relação ao governo. São, entretanto, absolutamente
inservíveis como prova para aquela finalidade.

O problema é a absoluta falta de confiança entre um governo eleito majoritariamente no segundo turno contra
pouco menos de 2/3 dos eleitores (os que preferiram Aécio somados aos que recusaram seu voto a ele e a Dilma).
Resta­lhe, hoje, menos de 1/3 dos votos que o apoiaram (ou seja, qualquer coisa como 10% do eleitorado), porque,
premido pelas circunstâncias, teve a coragem de optar pela política econômica que combatera ferozmente durante
a campanha eleitoral de 2014. Em condições normais de pressão e temperatura isso teria sido um pecado "venial",
mas, dados aos fatos supervenientes, transformou­se num pecado "capital'.

O brasileiro não tem mais tempo para continuar paralisado ou meter­se em novas experiências políticas e
econômicas. Ele sabe que está ameaçado de perder o seu emprego, e, assim, de destruir sua família. Sente o risco
de ser empurrado para uma correção de rumo fora do controle do governo com a perda do grau de investimento
pelo país.
É tempo, pois, de a presidente Dilma reafirmar o seu caráter e recuperar o seu protagonismo. De apresentar à sua
"base" um conjunto de projetos fundamentais nos campos orçamentário, tributário, trabalhista, previdenciário, e
de cooptar o Congresso para enfrentar os graves obstáculos que consomem a energia do nosso crescimento
inclusivo e sustentável. Em benefício do próprio Legislativo, aliás, que terá a oportunidade de recuperar, também,
algum respeito da sociedade.

É tempo de reconhecer que as 24 horas de marketing repetitivo na televisão do governo (NBR) são tão nulas
quanto sua audiência. É tempo de, sem abandonar o diálogo com os "convertidos", enfrentar os "não
convencidos", pedindo­lhes desculpa, colaboração e paciência. De mostrar firmeza e disposição para atacar com
rapidez os problemas que dependem apenas do Executivo (melhorar as agências reguladoras, dar liberdade plena
à administração da Petrobras etc.). De cortar na própria carne, nem que seja apenas para dar o exemplo.

O ideal para o futuro do Brasil é que Dilma recupere o prestígio e o respeito que recebeu da maioria absoluta dos
votos válidos no processo eleitoral. Qualquer outra solução fora da rigorosa disciplina constitucional será um
atraso institucional e será ineficiente. Os mesmos problemas (como por exemplo, o desequilíbrio fiscal
"estrutural", que explodiu no seu colo, mas não foi apenas obra sua) vão continuar. Não serão resolvidos enquanto
a sociedade não entender que precisa mobilizar­se para pressionar o Executivo e o Legislativo, independentes mas
cooperativos e harmônicos, para que cada um cumpra o seu papel nas mudanças institucionais que o Brasil
precisa, mas às quais se opõem as minorias organizadas próximas do poder incumbente eventual. Elas
adquiriram "direitos palpáveis" à custa dos abstratos "direitos difusos" da ingênua maioria.

A experiência mostra que, se tentarmos resolver isso com aumento de impostos, teremos ainda menos
crescimento e o necessário "ajuste fiscal será uma miragem. Vamos ter que enfrentar as despesas e isso só se fará
alertando, esclarecendo e cooptando a sociedade, mostrando­lhe que não se trata de cortar os programas bem
focados de inclusão social, mas de insistir fortemente sobre a produtividade do setor público, acompanhada pelo
controle dos benefícios excessivos até aqui apropriados pelas minorias organizadas.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA­USP, ex­ministro da Fazenda, Agricultura e
Planejamento. Escreve às terças­feiras

E­mail: ideias.consult@uol.com.br