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© Companhia das Ilhas

Rua Manuel Paulino de Azevedo e Castro, 3


9930-149 Lajes do Pico
www.companhiadasilhas.pt
e António Cabrita
PASSAGEIROS CLANDESTINOS
Fernando Machado Silva

PASSAGEIROS CLANDESTINOS

2012
as quatro letras

um impronunciado nome
acompanha-te desde a infância
no reverso dos gestos solitários.

quatro letras o nome de nada.


descobre-lo agora de boca
no começo a sul da tua vida.

7
resíduo de luz

refugiadas nos ermos


gaivotas gritam pela
chuva de inverno nesta
nova cidade à beira-

mar. garças sem gado


passeios de caracóis
estradas de baba
rios de lama o lixo
resto de homens
e mais que não vi
contavam a história
da revolucionada noite

soçobrando numa manhã triste


não fora aquele ténue
raio de sol pela persiana
sobre os teus lábios

8
a morte é uma terra inacabada

os muros circundam aquele pedaço de terra


e o horário de trabalho fecha
por completo o carpir das velhas
mulheres. isto não acaba nunca
há sempre novas ervas a arrancar
folhas que ocultam os nomes
queridos dos idos sempre antes do tempo.
dizem ao ouvido das lajes:
fazes cá falta a vida
é dura para uma pessoa só
quando se tem duas
casas a tratar
e um amor a cumprir

9
sobreviventes

nada guardes do que terei sido


senão o gesto que nos uniu

10
a separação

olhas para a casa e nela


a memória atenta. traços rastos
amores paixões amigos
a longa lista da metáfora do coração
e das feridas nele escritas.

recordas sentado à força


do drama de cheiros
ou pela manufactura da anamnese.

no fundo não te é estranha


a separação. tem-la marcada desde
a nascença escondida pelo cotão.

11
a memória de um crime

o que do segredo faz corpo?


o que do corpo faz segredo?

12
sou o espectador da deserção

a mulher
repetida
gesto a gesto
sobreposta. a mulher
caída erguida e de novo
a mulher ao canto
a mão o rosto à janela

e lá fora a chuva
e duas folhas
(uma

depois

outra)

graves

em

queda

13
lugar abandonado

“quem decide a paisagem da vida?”


José Angél Cilleruelo

Para o Filipe Quaresma, Pedro Neves e Rui Caetano,


entre outros amigos de aventuras

tomámos um velho palacete


ainda o pórtico da liberdade
se estendia entre ervas e musgo.
de lá fizeram tantos segunda casa

criaram-se coisas nessa ocupação:


biblioteca bar oficina de serigrafia…

quando lá passo desconheço


(já na altura era um estrangeiro)
que forças da ordem ou do caos
fizeram desse sonho um lugar
abandonado às ervas daninhas.

14
a faca

para os meus irmãos

jogávamos ao mundo
ou como essa tragédia
se chama frente à casa
da minha avó. o círculo
desenhado com mestria
por um graveto ou bota.
não me foi permitido participar
a disputa era entre os mais velhos
– irmão e primos – enquanto
aprendia vendo para mais tarde
já grande saber como conquistar
o respeito de desconhecidos.

a faca à terra três vezes lançada


o território em círculo demarcado
a discussão que se acende uma faca
atirada a sondar o redondo o rosto
de um dos meus irmãos. foi o cabo
por sorte que embateu. logo

o choro e a gritaria e o concílio


dos ainda mais velhos
deu por terminada a guerra
tratando dos dói-dóis

15
com beijos bolos sumos
salame de chocolate.
daí em diante
em cada discussão
mantive sempre um olho nos argumentos
o outro nas mãos à procura de facas

16
homens que não podem ser chamados

um dia senão hoje


virá a voz. essa
inaudita inaudível
voz. doce. mas
ei-la aqui e sendo já voz
logo foge (já foi)
ao encontro da tua

17
enigma

o teu choro nos meus

o teu olhar depois do orgasmo

o teu nome quando pintas

os teus lábios na minha boca

18
gumes

toda a vida
nos ensinaram
a ver as coisas
por dois lados

(o verso é um verso é um verso)

nós somos assim


humpty-dumptys
mudados em carne
um passo em falso
e

19
o relatório

primeiro eu olhei para ela depois ela olhou para mim de se-
guida cada um desviou o seu olhar. voltei para ver se ela me
olhava enquanto ela procurava ver se eu me perdia nela como
uma gota de água se mistura numa onda. não sei se eu nela
ou ela em mim se afogou e desde então mergulho de olhos
abertos no seu corpo.

20
infância

arrastar os pés pelos montes


de folhas secas de plátano
pela mão de uma desmedida
mãe. descobrir e assustar-me
com besouros voando uma vez
desenterrados do banco de areia.
o vazio da amizade em setembro
e o outono da roupa. trocar
de mãe quando partiu em combate
pela vida de um filho e voltar a ela.
guardar ainda a caligrafia. aprender
o intrincado silêncio do pai só
hoje lentamente desmanchado.
ausentar-me das escritas de luz da família.
o choro iniciou-me a morte
lembrar tudo pelo cheiro
e começar a escrever
para celebrar uma vida.

21
cheguei ao fim da rua

vamos dar um passeio e vemos


o grande halo olho de nuvens
em torno da lua. o frio pouco interessa
por esses caminhos à noite só o medo
é tema suficiente ou a vergonha
desta pouca vida que nos cabe.

o que cada um seguiu crendo


ser o melhor para si tu
o teu eu o meu – nunca
pensámos fazer outra coisa –
juntando-nos aproxima agora
– e ainda não pensamos fazer
outra coisa de nós – o gosto
amargo da angústia e depressão.

dispensem-nos o discurso
dos trilhos duros e espinhosos
a vida é para hoje embora vinda
de amanhã. vá chega-me
a tua boca à minha.
não permitamos para além
do futuro que nos levem
também este corpo a corpo.

22
cheguei ao fim do livro

o castigo de um novo
caderno o minucioso
projecto de destruição
do sentir. a acatada
falida promessa. sempre a
frustre tentativa de dizer
sobre outra luz o já dito
onde nada há. começado
e terminado as folhas
cheias e por baixo das letras
o vazio de uma vida.

23
um deus que soletra a vingança

acendemos um cigarro ao medo e à noite


fechamos os olhos confiantes na prosperidade
que a vida nos traz junto do corpo deitado ao lado
confundindo lençol e calor
até que a firmeza do futuro desaba
pela calamidade a força da terra. escuta
esse murmúrio. um deus que soletra a vingança.

24
sou o medo de Deus, a minha mão
agarra a arma que soletra a vingança

o desejo virado contra o desejante


qualquer coisa oculta e às claras insuflada
num recanto sabendo não ser sua função o acto.

o medo o amor o perdão.

que se aparte a vingança do meu lado


o plano comezinho de alguma retribuição
antes um mergulho no mar
a um prato frio o rosto
frente ao rosto palavra
a palavra um poema
que desarme e ame.

25
o longo entardecer da eternidade

às anónimas vitimas dos terramotos

nada prediz o acaso da terra


pela fenda o fundo do passado
silencia-se no teu peito e
quanto custa uma respiração
nunca um corpo vivo esteve
tão próximo do lugar futuro.

ouves mais perto o teu


coração a rouca batida
estás vivo estás vivo
ou assim julgas entender
à mão tão frágil fio de luz
que de onde não sabes

e cai cortando o breu.


nunca tinhas reparado
nas diferentes matizes
de que o dia é feito
até que morreste
soterrado desconhecido.

26
uma história saturada de mortos

eu agora trinta anos fumo bebo


rodeado de toda a tecnologia do homem
assusto-me com um grito de uma perdiz
ali fora na seara alentejana. insones
os pássaros cantam pelas noites e dias

e choro

neste verso avesso por um verso


um filho qualquer que seja o seu sexo
mas não aqui connosco nós
não temos histórias para contar
senão a morte
ao deitar

27
o amor não tem tempo para a traição

diz tens a palavra não tenhas


medo deste pequeno monstro
teu par. o que para ele foi feito
há muito acabou a sua esperança
está na ponta do cigarro que se esfuma.

diz vem cá a tua mão cabe


na sua ela sabe adaptar-se
e pode guardar até ao dia
que a largares o que quiseres.

diz chora no leito de todo o seu corpo


a tristeza a vergonha a morte.
ele vai estar aí só à quarta parte
e de novo volta. sempre.

mas diz que do silêncio


dele e dos outros
já está cansado.

28
passageiros clandestinos

se deus
ou um seu anjo
passar por aqui
escondamo-nos
nas suas barbas.

29
o sarcasmo de um molde

eis o futuro aí onde as nossas pernas se juntam


debaixo da mesa. a descoberto os gestos vagos
de nada saber senão a queda constante já
no nome da nossa terra: ocidente.

baralhámos as preocupações as cartas


sobre a mesa onde rodelas de água
das calotes dos nossos copos vogavam
ao encontro de cinzas mal batidas
de cigarros uma e outra vez
acesos. no vaivém da conversa
cheia de exemplos da pobre educação

– crianças abandonando o pensamento


como uma peça a somar ao paraíso perdido –
e um peculiar juízo sobre a história d’arte – as
grandes obras são-no pela morte que as fundam
– prescrevemos o porvir de um filho

malgrado a beleza das tuas lágrimas


no regresso as planícies e montes
do alentejo desta precoce primavera
o terrível amor e amizade de amigos.

tudo isso me assusta porque ele está


sempre a vir vazio de esperança e
com o homem garrotando o homem

30
… mas as pernas tocando-se
debaixo da mesa ou na cama
entrançadas…

31
alguém lê os mortos

esboço um sorriso a cada pergunta


tua e com ele dou a ver a minha
ignorância. o mundo é
o maior palimpsesto
a desvendar. em resposta teria de
arear palavra a palavra
escavar um a um os enigmas
desenterrar todos os mortos. talvez
por isso não respondem os verdadeiros
mistérios pela mão do homem
tais como algumas das tuas perguntas
e tantas vezes me vejas a ler um livro.

32
enigmática tatuagem

chamas
e vou no vento

como tamanho fogo

33
herbário

aloendro-de-auto-estrada
amendoeira-de-lixeira
papoila-de-racha-de-cimento
oliveira-de-rotunda
alfarrobeira-de-chão
malmequer-pisado
rosa-seca-de-gaveta-de-armário
geribéria-de-amores-desfeitos

vê o novo herbário do homem


de amanhã. muitas há
cujo nome aguarda
até ao seu florescimento
na electricidade da primavera.

34
a infância que não foi a tua

mundo de aventuras
de leituras desenfreadas
em luta contra o tédio
das doenças de cama
na segunda infância
essa em que a imaginação
se torna o vulcão de toda a solidão.
não foram amigos teus os cavaleiros
da távola ou da triste figura (catorze anos
separam a mudança das feições como hoje
tantas vezes a boca de gôndola
se arqueia no teu rosto de lua cheia).

nada disso foi teu:


tiro aos pássaros
saqueamentos a árvores de fruto
mergulhos suicidas de rochas
ou de chaminés de barcos
destroçados. o medo e o amor
sempre te impediram os altos voos
de Ícaro. não és melhor
nem pior pessoa por falta
dessas memórias e não choras
pela infância que não foi a tua.

35
a minuciosa despedida

queria trazer-te uma palavra


nova e pô-la a rolar
na tua boca. desde o primeiro
beijo a minha morte permanece
unida à tua vida. espalhei
os teus desenhos
e eu sobre eles em busca do meu rosto
junto onde o teu está. os desejos
e promessas cercam a surdez de deus.
deixa que eu parta
o mundo já tem fealdade suficiente.
eu morro é certo e tudo continua.
o adeus só conta se com ele tudo se afundar.
mas escrevo esta estrela de três letras
maior aqui mais luminosa na tua boca
se agora a proferires
para lá dos teus óculos escuros.
a morte não me traz grandeza e guardo para mim
o dia em que me agigantaste
dando-me banho e o choro
era a desculpa do sabão nos olhos.

Dezembro de 2009 – Março de 2010

36
Cada título de poema é um negrito de Ofício de Vésperas,
de Rui Nunes.

37
38
Índice

as quatro letras 6
resíduo de luz 6
a morte é uma terra inacabada 6
sobreviventes 6
a separação 5
a memória de um crime 2
sou o espectador da deserção 5
lugar abandonado 2
a faca 2
homens que não podem ser chamados 1
enigma 2
gumes 2
o relatório 2
infância 4
cheguei ao fim da rua 5
cheguei ao fim do livro 2
um deus que soletra a vingança 2
sou o medo de Deus, a minha mão agarra
a arma que soletra a vingança 1
o longo entardecer da eternidade 1
uma história saturada de mortos 2
o amor não tem tempo para a traição 2
passageiros clandestinos 5
o sarcasmo de um molde 4
alguém lê os mortos 4
enigmática tatuagem 4
herbário 4
a infância que não foi a tua 5
a minuciosa despedida 5

39
colecção azulcobalto
Direcção de Carlos Alberto Machado

Edição 001 – Maio de 2012

Design, impressão e acabamentos: milideias.pt

Miolo em papel Fedrigoni Editorial creme de 85g; Capa em carto-


lina Fedrigoni Symbolcard 300g e sobrecapa em papel Fedrigoni
Arcoprint de 140g.
Tiragem: 50 exemplares (1ª impressão)
Depósito legal: 343735/12
ISBN 978-989-8592-01-9

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