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El portugués 
 
 
 
Jose Alberto Arias 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
El portugués 
 
 
 
   
 
 
 
Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,  
na terra onde nasceste e eu nasci?  
 
Aleixandre O’Neill 
 
 
 
 
Soy hombre de mundo y hermano de 
todos. 
Federico García Lorca 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1. O rufião 
 
No  primeiro  dia  de  aulas  o  Carlos  nem  sequer  imaginava  que  ser  português 
pudesse  ser  tão  difícil.  Tinha-se  mudado  para  Lisboa  apenas  há  um  mês,  e 
ainda que já tivesse começado a aprender a língua não entendia porque é que de 
repente tinha que escolher entre ser espanhol e português. 
Assim  que  chegou  à  escola,  depois  de  se  despedir  do  pai  e  de  entrar  na 
sala  de  aula,  encontrou  à  sua  espera  um  punha  de  miúdos  com  um  ar  bastante 
ameaçador. 
—Tu és novo –disseram-lhe. 
—Sim.  ​Hola​,  eu  sou  o  Carlos  —tinha  respondido,  no  seu  melhor 
português, que não era assim muito bom. 
—Onde  estão  os  caramelos?  —perguntou-lhe  uma  menina  com o punho 
levantado.  Tinha o cabelo encaracolado, a cara muito pálida e era pequena, mas 
parecia  bastante  antipática.  O  Carlos  ao  vê-la  pensou  logo  na  Bruxa  Má  do 
Oeste do ​Feiticeiro de Oz​. 
O  Carlos  não  fazia  ideia  do  que  ela  queria  dizer,  e  nem  sequer  tinha  a 
certeza de tê-la entendido lá muito bem. 
—Quais…  quais  caramelos?  —perguntou,  por  fim,  e  o  resto  dos  miúdos 
puseram  todos  cara  de  zangados.  Mas  que  grande  totó…  ainda  não  tinham 
passado nem dez minutos e já estava metido numa confusão. 
—Ora,  os  caramelos!  —gritou o mais alto, que em vez de doze parecia ter 
quinze  anos.  Tinha  o  rosto  oval  e  duro,  os  olhos  escuros,  como  o  cabelo,  e  um 
sorriso  de  quem  estava  sempre  satisfeito  consigo  mesmo.  —Todos  os 
espanhóis têm muitos caramelos, ou não? Tu não és espanhol? Eh? Responde! 
—Ai, o Tiago… —disse um rapaz em voz baixa. 
—Foi-se meter numa bela alhada… —disse outro. 
O  Carlos  engoliu  em  seco  ao  notar  todos  os  olhares  postos  nele.  O tempo 
pareceu  parar, e passaram-lhe mil coisas pela cabeça: a sua casa de Córdova, os 
seus  amigos  e  familiares  de  Espanha,  a  mudança,  os  primeiros  pastéis  de  nata 
que  tinha  comido,  a  calçada  de  Lisboa…  Agora  que  o  tempo  parara,  os  seus 
colegas  pareciam  continuar  à  espera  de  uma  resposta,  e  a  cada  segundo  iam 
perdendo um pouco mais a paciência. 
No  preciso  instante  em  que  o  Tiago  começava  a  esfregar  os  punhos,  a 
porta  abriu-se  e  entrou  uma  mulher  não  muito  velha,  com o cabelo castanho e 
encaracolado,  que  trazia  em  mãos  uma  caixa.  Vestia  umas  calças  de  tecido 
escuro  e  uma camisola branca. Ao vê-la, fizeram todos silêncio, provavelmente 
intrigado  pela  misteriosa  caixa.  Para  o  Carlos  foi  um  enorme  alívio,  já  que 
todos  os  seus  colegas,  até  o  rufião  do  Tiago,  pareceram  esquecer-se  dele. 
Aproveitou  para  deslizar  para  a  mesa  mais próxima e para se sentar, o que veio 
a  revelar-se  um  enorme  erro.  O  Tiago,  com  o  seu  cabelo  negro  e  a  sua  cara 
dura,  aproximou-se  dele  novamente  a  esfregar  os  punhos;  o  pobre  Carlos 
voltou a engolir em seco.  
—O que é que julgas que estás a fazer, espanholito? —perguntou. 
—Eu… hã… eu não… 
Os  miúdos  à  sua  volta  riram-se  e  o  Carlos  sentiu-se  ainda  pios. 
Arrependeu-se  de  cada  segundo  que  tinha  passado  em  Portugal.  Foi  então  que 
uma  rapariga  de  cabelo  negro  e  olhos  verdes  se  aproximou  dele  com  um  ar 
decidido,  lançou  um  olhar  furioso  aos  outros  gozões  e  disse,  com  uma  voz 
rouca: 
—Bom, já chega, não? Porque é que não se metem antes comigo? 
O  Tiago  riu-se,  mas  não  tardou  em  ir  para  outra  mesa.  Todos  os  alunos 
voltaram ao seu lugar menos a rapariga, que continuou de pé ao lado do Carlos. 
—Temos um novo —anunciou à professora. —É espanhol. 
—Obrigado,  Susana  —respondeu  esta,  falando  em  seguida  para  toda  a 
turma.  —Olá  a  todos,  bem-vindos  a  mais  um  ano.  Como  já  nos  conhecemos, 
vamos  começar  por  apresentar  os  dois  colegas  novos  que  nos  acompanharão 
neste ano lectivo. 
Ouviram-se  alguns  sons  de  surpresa  e  muitas  cabeças  girando  de  um 
lado  para  o  outro  da  sala  de  aula.  Ao  Carlos,  o  espanhol,  já  o  conheciam  bem. 
Mas  onde  estava  o  outro  novo?  Ninguém  parecia  vê-lo  em  lado  nenhum.  De 
qualquer maneira, a Professora Beatriz apresentou o Carlos em primeiro lugar: 
—O  Carlos  vem  de  Espanha.  O  pai  dele  é  professor  de  português,  e  por 
isso  já  aprendeu  algumas  coisas  com  ele,  mas de certeza que o podemos ajudar 
a  melhorar.  A  sua  mãe  é  escritora,  nada  mais  nada  menos,  e também se dedica 
a  criar  quebra-cabeças,  como os que vocês compram no quiosque para passar o 
tempo. 
A  turma  inteira  soltou  um  murmúrio  de  surpresa  pela  ocupação  da  mãe 
do  Carlos,  que  o  fez  sentir-se  orgulhoso  e  muito  mais  tranquilo.  Talvez  agora 
começassem  a  pensar  nele  como  o  filho  da  escritora  em  vez  de  como  o 
espanholito, e assim evitavam-se confusões. 
A  Susana  parecia  menos  surpreendida  do  que  o  resto  dos  colegas,  como 
se  já  soubesse  muitas  coisas  sobre  ele;  o  Carlos  começava  realmente  a 
simpatizar com ela. 
—O  nosso  segundo  colega,  se  me  permites  Carlos,  apresentamo-lo  no 
final  da  aula.  Agora,  por  favor,  vem  aqui  à  frente  para  que  te  possamos 
conhecer melhor. 
O  Carlos  sentiu  que  os  seus  piores  pesadelos  se  concretizavam:  era  o  seu 
primeiro  dia  e  já lhe estavam a pedir que se comportasse como um totó à frente 
da  turma  toda.  Enquanto  avançava  na  direcção  da  professora  apercebeu-se  de 
que  tinha  corado  e  desejou  ardentemente  que  o  resto  dos  alunos  não  o 
notassem  muito.  A  professora  estendeu-lhe  a  mão  e  o  Carlos  apertou-a  com 
suavidade;  ela  contudo  apertou  a  dele  com  força  até  que  algum  dos  dedos  do 
Carlos estalou. 
—O  meu  nome  é  Beatriz,  mas  podes  chamar-me  Bia.  Vou  ser  a  vossa 
Directora  de  Turma  durante  mais  um  ano.  Apetece-te  apresentar-se  aos  teus 
colegas?  Podes  dizer-nos  porque  vieste  de  Espanha,  como  era  a  tua  vida  lá,  o 
que  gostas  de  fazer,  de  que  disciplina  gostas  mais,  se  tens  algum  animal  de 
estimação… Força, Carlos, não sejas tímido.  
O  Carlos  levantou  os  olhos  e  pela  primeira  vez  pode contemplar a sala de 
aula  como  a  Professora  Bia  a  via  sempre.  Havia  varias  dezenas  de  caras  que  o 
observavam  como  se  fosse  um  macaco  num  jardim  zoológico, e por isso tratou 
de evitar o olhar dos seus novos colegas. Além disso, exprimir-se em português 
ainda  lhe  era  difícil,  e  o  Tiago  lançava-lhe  olhares cada vez mais ameaçadores. 
Felizmente,  já  sabia  que  ia  ter  que  se  apresentar  como  o  novo  da  turma  mais 
cedo  ou  mais  tarde,  e  por  isso  só  teve  que  repetir  o  discurso  que  tinha 
memorizado em frente ao espelho, com as pausa e os gestos que tinha ensaiado 
ao pormenor: 
—​Hola​,  eu  sou  o  Carlos.  Bem,  como  já  sabem  sou  espanhol  e  tenho  um 
pai,  uma  mãe  e  uma  irmã  ​pequeña​.  Gosto  de  viver  em  Lisboa  porque está perto 
do  mar,  em  ​Córdoba  não  havia  mar,  e  gosto  de  aprender  português  com  o  meu 
pai.  Tenho  saudade  dos  meus  amigos,  mas  às  vezes  falamos  pela  Internet  e 
talvez  me  venham  visitar.  A  minha  coisa  preferida  é  o  futebol,  em  ​Córdoba 
jugava  numa  liga  júnior  semiprofissional,  e  também  gosto  muito  de  filmes  de 
terror. Tenho uma Play Station 3 e vivo no Martim Moniz. 
—Parece-me  uma  apresentação  perfeita,  Carlos!  —disse  a  professora. 
—Parabéns. Agora, alguém tem alguma pergunta? 
O  coração  do  Carlos  saltou  um  compasso.  Ele  tinha  aceitado 
apresentar-se  em  frente  aos  seus  novos  colegas,  mas  nunca  tinha  imaginado 
que  o  pusessem  na  posição  de  ter  que  aguentar  as  perguntas  e  comentários 
destes  desconhecidos.  De  repente  tinha-se  desenhado  um  enorme  sorriso  na 
cara  branca  do  Tiago.  Não  era  o  único  que  o  observava  como se fosse um bicho 
estranho, mas o Carlos fez os possíveis por manter a compostura. 
—A tua mãe é milionária? —perguntou uma rapariga. 
—Milionária? Não! Os meus pais recebem o normal. 
—Mas  os  escritores  são  milionários  —protestou  a  rapariga,  insatisfeita 
com a sua resposta. 
—Catarina,  —disse  a  professora  —isso  nem  sempre  é  assim.  A  maioria 
dos  escritores  não  são  milionários.  De  facto,  muitíssimos  morrem  arruinados 
antes de se tornarem famosos. Mais alguma pergunta para o Carlos? 
Outra  rapariga  levantou  a  mão,  e  o  Tiago  imitou-lhe  o  gesto  logo  a 
seguir. Nesse momento, o chão pareceu abrir-se debaixo dos pés do Carlos. 
—Porque  vieste  para  Lisboa?  —perguntou  a  rapariga.  O  Carlos  achava 
que se chamava Maria. 
—Ofereceram  um  trabalho  ao  meu  pai  na  Universidade,  e  ele quando era 
novo  viveu  aqui  e  conhece  muito  bem  Lisboa.  E  também  porque  desde  que 
nasceu a minha irmã queríamos uma casa maior. 
—Muito  bem,  Carlos,  acho  que  te  explicaste  muito  bem…  Tiago,  tens 
alguma pergunta para o Carlos? 
—Porque  falas  tão  mal,  espanholito?  —perguntou  o  rapaz,  e  soltou uma 
gargalhada. Quase toda a turma começou a rir-se com ele. 
O  Carlos  pôs-se  vermelho  como  uma  lâmpada  chinesa  e  o  coração 
começou  a  bater-lhe  com  fúria  no  peito.  Maldito  Tiago…  Porque  é  que  alguém 
que mal conhecia estava tão empenhado em fazer-lhe a vida possível? 
—Tiago,  fico  contente  que  tu  fales  tão  bem  espanhol,  se  calhar 
apetece-te  vir  até  aqui  e  mostrar-nos  do  que  és  capaz  —respondeu-lhe  a 
Professora  Beatriz.  Os  alunos  riram-se  e  uivaram  como  locos  com  a  saída  da 
professora. 
—Professora,  era  uma  piada.  Era  só  para  romper  o  gelo  —disse  o  Tiago, 
cabisbaixo. 
—Muito  bem,  Carlos,  acho  que  já  fizeste  mais  do  que  a  tua  parte.  Muito 
obrigada pelo teu esforço e bem-vindo a Lisboa. 
—Obrigado. 
O  Carlos  estaba  a  meio  caminho  da  sua  mesa  quando  uma  nova  mão  se 
levantou no ar. Que seria agora?, pensou, bastante esgotado e chateado. 
—Professora,  o  que  é  que  tem  nessa  caixa?  —perguntou  a  Susana,  e  o 
Carlos  respirou  aliviado.  Por  fim  a  atenção  centrar-se-ia  noutro  tema  que  não 
ele.  Nem  sequer  o  Tiago  lhe  prestava  já  atenção,  concentrando-se  cegamente 
na caixa. 
—Quase  me  esquecia  —disse  a  Professora  Bia  enquanto  abria 
lentamente  a  caixa  de  cartão.  O  silêncio  era  tal  que  parecia  que  alguém  havia 
silenciado a turma com um comando à distância. 
Beatriz  inclinou-se  um  pouco  para  o  interior  da  caixa  com  as  duas  mãos 
no  seu  interior,  sorriu,  levantou  de  novo  o  olhar  para  os  seus  alunos,  e 
anunciou, em tom solene:  
—Apresento-vos o Luís de Camões. 
Uma  mistura  de  risos  nervosos,  sons  de  surpresa  e  gemidos  de 
antecipação  encheram  o  ar,  e  de  repente  todos  os  alunos  tinham  o  coração  na 
garganta.  A  professora  deu-se  conta  disto,  e  como  não  queria  que  ninguém 
ficasse  com  um  torcicolo,  retirou  da  caixa o Camões, o novo colega da turma. O 
Luís de Camões era surpreendentemente pequeno, mesmo para um hamster. 
—Turma, apresento-vos o Luís. Luís, esta é a turma. Bem-vindo! 
O  pequeno  roedor,  na  sua  gaiola  de  plástico,  observava-os  com  olhos 
brilhantes  e  curiosos  (pelo  menos  tão  curiosos  como  os  olhos  de  um  hamster 
anão podem ser), enquanto esfregava as suas minúsculas mãos. 
—O  Luís  não  é  um  hamster  normal  —explicou  a  Professora  Beatriz.  —É 
um  hamster  anão,  e  por  isso  é  tão  pequeno  e  delicado.  Além  disso,  é  um 
hamster  sábio.  Adora  a  literatura sobre tudo o mais. —Para surpresa do Carlos, 
todos  os  alunos  se  mantinham  em  silêncio  e  prestavam  atenção a cada palavra 
da professora. 
—Que  seca!  —disse  por  fim  um  rapaz,  e  o  Carlos  teve  vontade  de 
atirar-lhe uma caneta à cabeça. 
—Filipe,  se  não  gostas  não  precisas  de  cuidar  dele,  mas  como  estava  a 
dizer,  desde  que  o  adoptei  descobri  um  comportamento  estranhíssimo. 
Acreditem  ou  não,  algumas  manhãs  quando  acordo  e  vou  mudar-lhe  a 
serradura  da  gaiola  encontro  um  pequeno  papel  escrito  com  um  texto,  e  a 
verdade  é  que  é  muito surpreendente, porque me tenho que entreter a procurar 
o  autor  de  cada  citação.  Enfim,  não  vos  quero  prometer  nada,  porque  também 
há  muitas  vezes  em  que,  quando chego, encontro o Luisinho a roncar como um 
javali. 
—Que grande peta! —disse um rapaz. 
—Não nos contes essas patranhas para bebés —disse uma rapariga. 
—Bem,  bem!  —disse  a  Professora Beatriz. —Já verão por vocês mesmos, 
já verão. 
Entre  as  risadas,  as  queixas  e  a  confiança  dos  alunos,  a  professora 
avançou  com  a  gaiola  do  Camões  até  ao  fundo da sala e depositou-a sobre uma 
mesa  abandonada.  O  hamster  não  tardou  em  esconder-se  debaixo  dum 
punhado  de  algodões,  e  os  miúdos  rapidamente  perderam  o  interesse.  Além 
disso,  ainda  tinha  que  copiar  o  horário  para  o  ano  lectivo,  eleger o delegado de 
turma e tomar nota do material de que necessitariam esse ano. 
Quando a aula acabou, e ainda que o Carlos se tenha apressado a arrumar, 
como  todos  já  tinham  uma  gaveta  atribuída  para  deixar  as  suas  coisas  menos 
ele,  acabou  por  ficar  para  trás.  Enquanto  arrumava  a  sala,  a  Professora Beatriz 
veio  falar  com  ele.  Foi  muito  amável  com  o  novo  aluno,  e  disse-lhe  que  se 
precisasse  de  qualquer  coisa,  só  tinha  que  lhe  pedir,  e  que  os  seus  novos 
colegas eram bastante simpáticos e tinha sorte por estar numa turma tão boa. 
O  Carlos  não  tinha  a  certeza  de  concordar  com  ela,  e  as  suas  suspeitas 
concretizaram-se  quando  encontrou  o  Tiago  no  corredor,  à  sua  espera  com 
dois  outros  rapazes.  Não  sabia  como  se  chamavam, e estava convencido de que 
levaria  muito  tempo  a  aprender  os  nomes  dos  seus colegas e a distingui-los, já 
que  só  na  sua  turma  havia  três Catarinas, dois Eusébios e quatro Amálias. E um 
Tiago  que  se  tinha  proposto  fazer-lhe  a vida impossível! Claro que em Córdova 
também  tinham peças dessas, rufiões que se dedicavam a incomodar os outros, 
mas  ele  nunca  tinha  sido  o  objectivo  de  nenhum  deles.  Agora,  só  por  chegar, 
por  ser  o  novo,  e  além  de  tudo o novo ESPANHOL, Tiago tinha-o convertido no 
seu saco de boxe. 
—Espanholito!  Que  andas  tu  ainda  aqui  a  fazer?  Estavas  a  fazer 
queixinhas à professora? O já lhe estavas a dar graxa para te passar? 
—Deixa-me  em  paz  —disse  o  Carlos,  e  tratou  de  evitá-lo.  O  Tiago  foi 
mais rápido e agarrou-o pelo ombro. 
—Vou ser bom contigo, espanholito. Vou-te dar uma oportunidade. 
—​Que me dejes… 
—Olha,  espanhol,  já  me  fartaste.  Se  és  homem,  mostra-me  que  és 
valente  como  um  português,  porque  se  queres  ser  parte  desta  turma,  vais  ter 
que ser português. 
O  Carlos  não  fazia  ideia  do  que  o  Tiago  estava  para  ali  a  dizer,  só  queria 
que  o  deixassem  em  paz.  Os  rapazes  que  o  acompanhavam  não  paravam  de  se 
rir  com  cada  uma  das  suas  tiradas,  pelo  que  não  havia  nenhuma  escapatória. 
Não  podia  pedir  ajuda  o  ficaria  marcado  como  um  cobarde,  e  o  Tiago  seria 
ainda  mais  duro  com  ele.  A  que  se  referia  com  ser  como  um  português?  Uma 
pessoa  não  pode  escolher o que é, que estupidez. De qualquer maneira, o Carlos 
decidiu dar-lhe corda para ver se o deixava em paz de uma vez. 
—E como me vou tornar português? Não vês que sou ​español​? 
O  Tiago  pareceu  hesitar,  fez  um  gesto  de  confusão,  de  tal  forma  que  o 
Carlos  podia  ver  as  rodas  dentadas  a  girar  dentro  da  sua  cabeça,  até  que  uma 
pequena lâmpada se acendeu por cima dos seus caracóis, iluminando-os: 
—Vou-te  pôr  à  prova! Todos os meses um teste para que demonstres que 
és português. 
—Que testes? 
—Ainda  não  sei,  não  te  posso  dizer  para  que  não  fiques  em  vantagem. 
Todos  os  meses  vou-te  fazer  um  teste,  e  tens  que  passar  em  pelo  menos 
metade. Se não, nunca serás um dos nossos. 
O  Carlos  mal  podia  acreditar  no  que  o  rufia  da  turma  lhe  estava  a  dizer, 
mas  pensando  bem  aquela  era  a  única  forma  de  ganhar  o  respeito  dos  seus 
colegas,  vencer  o  idiota  do  Tiago  nos  testes  que  ele  lhe  decidisse  fazer.  O 
português oferecia-lhe a mão para selar o trato. 
O Carlos apertou-a com força. 
Mal sabia que acabava de começar o ano mais difícil da sua vida. 
 
 
         
         
                
 
 
 
 
2. O mapa nocturno 
 
Assim  que  chegaram  à  casa  nova,  os  seus  pais  já  tinham  livros  espalhados  por 
todo  o  lado.  O  pai,  que  se  chamava  Pepe,  tinha  dezenas  de  cadernos  e  pastas 
com  trabalhos  e  exames,  traducções  a  meias  espalhadas  pelas  mesas da sala. A 
mãe,  de  seu  nome  Candela,  tinha  os  seus  escritos  por  todo  o  lado,  para  além 
dos  hieróglifos,  dos  sudokus  e  das  sopas  de  letras.  Tudo  isto  formava  um  caos 
de  tal  forma  desastroso  que  às  vezes  aparecia  um  sudoku  no  meio  de  um 
exame,  o  alguém  resolvia  uma  palavras  cruzadas  com  uma  composição  de 
português.  Até a Cláudia, a mais pequena da casa, se dedicava ocasionalmente a 
pintar,  babar  ou  mastigar  os  passatempos  e  as  traducções.  O  Carlos  estava 
convencido  de  que  uma  bebé  que  comia  tantas  letras  e  números  tinha  que 
acabar por se tornar muito inteligente. 
O  apartamento  não  era  dos  maiores,  e  o  edifício  era  antigo;  à  noite, 
parecia  queixar-se  com  tantos  estalidos  e  canos  a  gotejar,  mas  o  Carlos  não se 
importava.  Tudo  isso  lhe  recordava  as  férias  que  passara  na  casa dos seus avós 
na  aldeia.  Além  disso,  entrava  muita  luz  pelas  janelas  da  sala,  que  abriam para 
um  largo  onde  estava  sempre  a  passar  gente  das  origens  mais  variadas.  Em 
Córdova só se viam japoneses carregados com máquinas fotográficas. 
Antes  de comprar qualquer móvel, a mãe tinha decidido pôr um tapete no 
chão  da  sala,  e  os quatro passavam as horas ali sentados, sem realmente ansiar 
pelo  dia  em  que  finalmente  comprariam  os  móveis  definitivos.  A  vida  junto  ao 
chão era muito mais divertida. 
Apesar de continuar a perder-se em Lisboa, desde sua casa o Carlos podia 
ir  a  pé  a  todo  o  lado:  às  ruas  sinuosas  da  Mouraria  ou  de  Alfama,  ao  Martim 
Moniz,  onde  os  seus  pais  gostavam  sempre  de  parar  a  tomar  qualquer  coisa,  e 
até  ao  rio  do  outro  lado  da  Baixa.  Contudo,  quando  saia  desses  dois  ou  três 
bairros,  perdia-se  sempre  das  formas  mais  absurdas  e  acabava  a  sentir-se  um 
inútil. Por essa razão não duvidou em comprar o mapa. 
Tudo  se  passou  numa  tarde  de  compras  nos  Armazéns  do  Chiado, 
enquanto  a  mãe  apreciava  candeeiros  que  não  podia  comprar  e  o  pai  esperava 
pacientemente  que  a  Cláudia  escolhesse  o  chupa-chupa  que  preferia.  O  Carlos 
aproveito  o  momento  para  dar  um  passeio  até  à  Praça  Luís  de  Camões, que lhe 
recordava  inevitavelmente  o  hamster  anão;  de  facto,  na  sua  cabeça  tinha 
substituído  a  cabeça  da  estátua  pela  do  pequeno roedor. Gostava do Bairro Alto 
porque  nunca  sabia  o  que  esperar  das  suas  ruelas,  e  nessa  tarde  começou  a 
deambular  disfrutando  da  liberdade  que  lhe  dava  andar  sozinho  por  Lisboa.  E 
então,  ao  virar  uma  esquina,  viu-o:  o  Tiago  pontapeava  com  ar  de  tédio  uma 
parede enquanto esperava uma mulher loura que devia ser a sua mãe. 
O  Carlos  pôs-se  tenso  e  nervoso,  e  pegou-se  à  parede  para  que  o  rufião 
não  o visse. Ainda não tinham voltado a falar de nenhum dos misteriosos testes 
a  que  o  pensava  submeter,  e  a  última  coisa  que  o  Carlos  queria  era  chateá-lo 
antes  que  chegasse  o  dia  do  primeiro  teste.  Aproveitou  um  momento  em  que  a 
mulher  reclamou  a  atenção  do  Tiago  para  se  meter  rapidamente  na porta mais 
próxima, sem saber sequer onde estava a entrar. 
Cheirava  a  pó,  a  antigo  e  a  madeira  velha.  A  tempo,  se  é  que  o  tempo 
cheira  a  alguma  coisa.  Cheirava  também  a  papel,  esse  cheiro  que  soltam  os 
livros  depois  de  passar  anos  numa  estante.  Assim,  e  antes  mesmo  de se situar, 
o  Carlos  soube  que  tinha  entrado  num  dos  muitos  alfarrabistas  que  há  no 
Bairro  Alto.  Tudo  naquela  loja  era  antigo:  as  estantes,  os  tomos  empoeirados, 
os  quadros  nas  paredes  e  o  empregado,  um  senhor  com  um  aspecto  tão  velho 
como  o  resto  do  sítio,  com  o  cabelo  grisalho  e  um  fato  de  xadrez  enrugado. Na 
ponta  do  nariz  cresciam-lhe  dois  ou  três  pelos  negros  e  retorcidos,  como  os 
das  bruxas  dos  contos  de  fadas, e observava o Carlos com um olhar sério sob as 
suas  sobrancelhas  farfalhudas.  Falou  com  um  sotaque  estranho,  muito  mais 
peculiar que o sotaque espanhol do Carlos: 
—Que  faz  aqui  um  miúdo  como  tu?  Pensava  que  só gostavam de filmes e 
da televisão e dessas malditas máquinas come-cérebros. 
Não  disse  nada  disto em tom zangado, mas sim de surpresa e melancolia. 
Falava  como  acabam  por  falar  todos  os  avôs,  devagar  e comendo as palavras, e 
o Carlos não sabia o que lhe responder. 
—​Perdón​,​ perdón​, é que estava a ver a montra e gostei muito… 
—Do  quê?  Dos  atlas?  Da  enciclopédia?  Dos  mapas?  Dos  libros  de 
aventuras? Da colecção d’​Os Cinco​! 
—Dos  mapas,  sim…  gostei  dos  mapas  —respondeu  o  Carlos  sem  saber 
muito bem porquês. 
O  empregado  avançou  com  uma  agilidade  surpreendente  e num segundo 
estava  em  frente  do  rapaz,  que  por  um  momento se voltou a sentir apreensivo, 
apesar  de  praticamente  já  se  ter  esquecido  do  Tiago.  Este  ancião  era  tão 
estranho…  havia  algo  inquietante  nele,  algo  que  o  deixou  alerta.  Apontava-lhe 
um  dedo  ossudo  e  uma  unha  suja,  e  o  Carlos  sentiu-se  enojado. 
Dissimuladamente,  espreitou  pelo  vidro  da  montra  para  ver  se  o  Tiago 
continuava  na  rua,  mas  o  bully  desaparecera  sem  deixar  rastro.  Um  tanto 
incomodado  pelo  dedo  acusador  esteve  quase  a  perguntar  ao  livreiro  o  que 
queria, mas este adiantou-se-lhe: 
—Há  mais  mapas,  tenho  dezenas  no  armazém.  Mapas  suficientes  para 
forrar  o  planeta  inteiro  —disse,  e começou a rir-se como um lunático. O Carlos 
retrocedeu lentamente até chocar com uma estante. 
—Que interessante —disse, nervoso, e o homem pareceu satisfeito. 
—Tenho um exemplar único. 
Pela  primeira  vez  desde  que  tinha  entrado  na  loja  o  Carlos  sentiu-se 
interessado. 
—Único? 
—Um mapa nocturno —disse o velho. 
O  Carlos  pensou  que  devia  ter  percebido  mal  e  pediu-lhe  que  repetisse, 
mas  tratava-se  efectivamente  de  um  mapa  nocturno.  Que  queria  dizer?  Um 
mapa  com  uma  lâmpada  incorporada  para  o  poder  consultar  de  noite?  Um 
mapa  com  tinta  fluorescente  que  brilhava  no  escuro?  Um  mapa  com  uma  luz 
LED que iluminava o papel? Nada disso fazia sentido. 
—O que é um mapa nocturno? —perguntou. 
—Ora  o  que  é  que  havia  de  ser?  Um  mapa  nocturno  é  que  é!  Um  mapa 
nocturno.  Já  devia  saber  que  não  ia  entender,  claro…  Mas  deixemo-nos  de 
conversa fiada, estás interessado ou não? 
O  Carlos  coçou  o  queixo.  Sempre  que  tinha  que  tomar uma decisão difícil 
coçava  o  queixo.  Por um lado, quase não tinha dinheiro e os seus pais já deviam 
estar  a  ficar  preocupados,  mas  por  outro  não  sabia  o  que  era  um  mapa 
nocturno.  Além  disso,  com  a  facilidade  com  que  se  perdia  na  cidade  um 
instrumento de orientação vinha mesmo a calhar. 
—Posso vê-lo? —perguntou. 
—Posso  vê-lo?  Posso  vê-lo?  —gozou  o  velho,  mas  não  tardou  em 
desaparecer  por trás do balcão e em entrar no armazém. Depois de uns minutos 
longuíssimos  interrompidos  unicamente  pelo  barulho  de  caixa  a  cair  de  um 
lado  para  o  outro,  da  respiração  ofegante  do  velho  e  de um ou outro murmúrio 
numa língua estranha, o homem apareceu com um enorme cilindro de cartão. 
—É  muito  antigo  e  frágil,  por  isso  é  preciso  tê-lo  sempre  protegido 
—explicou, e entregou o cilindro ao Carlos. 
—Posso abri-lo? 
O  homem  assentiu.  O  tubo  era  tão  comprido  que  o  Carlos  teve  que se pôr 
em  bicos  de  pés  para  espreitar  lá  para  dentro.  No  fundo  do  cilindro  via-se  um 
papel  enrolado.  Tentou  chegar-lhe  com  as  pontas  dos  dedos,  mas  não  o 
alcançava. 
—Sem  tocar  —disse  o  homem.  —Primeiro  paga-se,  os  negócios  são 
assim. 
O  Carlos  meteu  as  mãos  nos  bolsos  e  extraiu  todo  o  dinheiro  que  tinha 
consigo:  uma  nota  de  dez  euros  enrugada,  duas  moedas  de  um  euro  e  vários 
cêntimos trocados. 
—Bem,  bem  —continuou  o  homem.  —Não  é  lá  muito  dinheiro  para  um 
objecto tão especial… Não sei o que fazer. 
—É  tudo  o  que  tenho  —disse  o  Carlos.  Pensando  bem,  não  tinha  a 
certeza  de  que  o  homem  não  o  estivesse  a  tentar  vigarizar.  O  mundo  estava 
cheio  de  objectos  antigos  que  valiam  uma  autêntica  barbaridade,  mas  talvez 
neste  caso  se  tratasse  só  de  um  papel  velho  e  enrugado  sem  nenhum  valor,  já 
que  se  todas  as  coisas  antigas  valessem  assim  tanto  dinheiro  os  seus  avôs 
seriam milionários com todos os móveis e bibelôs que tinham na casa da aldeia. 
—Bem,  suponho  que  não  perco  nada,  já  há  dias  que  ninguém  entra  na 
loja.  Tenho  que  vender  alguma  coisa,  mesmo  que  me  dê  pena  desfazer-me  de 
um dos nossos objectos mais importantes. 
O  velho  agarrou  na  mão  do  rapaz  e  pegou  no  dinheiro;  o  Carlos  não  teve 
muito tempo para reagir, com o coração encolhido e o cilindro entre as mãos. 
—Agora põe-te a andar —disse o homem. —Antes que me arrependa! 
O  Carlos  correu  como  se  estivesse  num  sonho,  correu  pelas  ruas 
empedradas  até  chegar  à  Praça  de  Camões  de  novo,  e  uma  vez  chegado  ali 
parou  para  respirar  numa  passadeira  com  uma  grelha  pela  que  saia  ar  do 
subsolo.  O  cilindro  de  cartão  tremia-lhe  nas  mãos,  mas  pensou  que  o  melhor 
seria  correr,  continuar  a  correr  até  chegar  junto  dos  seus  pais.  Não  sabia 
porquê, mas estava assustado.  
Os  seus  pais  estavam  à porta dos armazéns, com um ar preocupado. Nem 
sequer  lhe  perguntaram  pela  sua  nova  aquisição,  fizeram-lhe  só  as  perguntas 
que  os  pais  fazem  sempre,  onde  estavas  e  que  andavas  a  fazer  e  perdeste  a 
cabeça e que não se repita. 
Nessa  noite  o  jantar  foi  tenso.  A  mãe  não  se  tinha  decidido  por  nenhum 
dos  candeeiros,  porque  ainda  não  se  tinha  decidido  a  instalar-se  de  vez  em 
Lisboa, de forma que jantaram e lavaram-se na penumbra com a ajuda de umas 
velas.  O  Carlos  pensava  que  Candela,  como ele, também sabia que no momento 
em  que  o  novo  apartamento  do  Martim  Moniz  se convertesse no seu novo lar o 
regresso  a  Espanha  seria  muito  mais  difícil.  As  pessoas  ganhavam  carinho  ao 
que conheciam melhor, e muitas vezes custava-lhes dizer adeus. 
De  qualquer  forma,  o  Carlos  estava  tão  preocupado  com  o  sermão  que 
tinha  ouvido  por  se  afastar  sozinho  e  com  as  ameaças  do  Tiago  (tinha  o 
pressentimento  de  que  o  primeiro  teste  a  que  o  ia  submeter  estava  quase  a 
chegar)  que  nem  sequer  tinha  olhado  para  o  mapa.  Por  isso  assim  que  acabou 
os  croquetes  de  frango  do  pai  (a  especialidade  da  mãe,  e  as  suas  preferidas, 
eram  os  de  presunto)  foi  para  o  seu  quarto  e  virou  o  cilindro  sobre  a  cama  até 
que o papel caiu com um leve restolhar. 
Abriu-o  com  todo  o  cuidado,  como  se  estivesse  a  separar  as  asas  de uma 
borboleta,  e  iluminou-o  com  o  telemóvel.  O  papel  era  fino  e  rugoso,  muito 
seco.  Assim  que  abriu  o  mapa  reparou  na  palavra  LISBOA  escrita  à  mão.  De 
facto,  todo o mapa estava desenhado à mão, provavelmente com uma pluma, já 
que  os  traços  eram  irregulares  e  havia  manchas  aqui  e  ali.  Além  disso,  tinha 
tudo  um  aspecto  desbotado  e  difícil  de  entender,  como  se  tivessem  desenhado 
três  ou  quatro  mapas  no  mesmo  papel,  se  tivessem  arrependido  e  tivessem 
reutilizado  o  papel.  Todas  as  ruas,  claro,  tinham  nomes  portugueses,  e  a 
maioria  não  dizia  nada  ao  Carlos.  Ao  ver  tudo  isto,  arrependeu-se  de  não  ter 
entrado  numa  livraria  normal  e  comprado  um  guia  da  cidade  onde  os  mapas 
fossem  a  cores,  quadriculados  e  muito  fáceis  de  interpretar.  Agora  tinha  este 
traste  ilegível  e  já  não  tinha  dinheiro  para  o  resto  do mês, e por isso foi dormir 
bastante zangado. 
Ainda  que  tenha  adormecido  logo  a  seguir,  pensando  no  quão  estranho 
era  aquele  mapa  e  o  tipo  que  lho  tinha  vendido,  e  tentando  recordar  todo  o 
vocabulário  e  expressões  em  português  que  tinha  aprendido,  foi  assaltado  por 
um  terrível  pesadelo  e  acordou  com  o  coração  quase  a sair-lhe pela boca. Além 
disso,  como  costumava  acontecer  desde  que  se  tinham  mudado,  acordou 
desorientado.  Ao  princípio  achou  que  continuava  na sua cama de Córdova, mas 
não  encontrava  o  interruptor  na  parede; por fim conseguiu lançar um pouco de 
luz  à  sua  volta  e,  decepcionado,  descobriu  que  estava  em  Lisboa  e  todas  as 
recordações  da  mudança,  da  nova  escola  e  da  cidade  voltaram-lhe  à  mente  de 
repente  e  deixaram-no  triste.  Olhou  para  o  telemóvel:  três  e  vinte  da 
madrugada;  o  melhor  era  voltar  a  dormir,  senão  na  segunda-feira  chegaria 
morto  às  aulas.  Sem  pensar,  talvez  para  concentrar-se  noutra  coisa,  pegou  no 
mapa  que  tinha  na  mesinha  de  noite  e,  com  a  fraca  luz  do  telemóvel,  tentou 
seguir  as  indicações,  mas  sentiu-se  ainda  mais  perdido  do  que  algumas  horas 
antes.  As  linhas  pareciam  ainda  mais  confusas,  e  sentiu-se  mais  perdido  do 
que  nunca  nesta  nova  cidade.  Desesperado,  dobrou  o  mapa  e  guardou-o  numa 
gaveta. 
Demorou a voltar a adormecer. 
 
 
3. O primeiro teste 
 
Naquela  segunda-feira,  último  dia  de  Setembro, os miúdos rondavam curiosos 
em  volta  do  hamster.  O  Carlos,  apesar  de  não  conseguir  ver  nada,  apertava-se 
contra  os  seus  colegas  entre  exclamações  de  «Olha!»  e  de  «Uau!»,  o  que  só 
fazia  aumentar  a  expectativa.  Que  se  passaria  com  o  Luís  de  Camões  para  que 
toda  a  gente  estivesse  tão  interessada?  Até  a  Catarina,  a  delegada  de  turma,  se 
tentava  fazer  obedecer  e  abrir  caminho  até  ao  hamster  ou  ver  o  que se passava 
gritando  «Tenho  o  direito,  sou  a  vossa  delegada,  vocês  elegeram-me!»,  num 
tom cada vez mais próximo da histeria. 
Ninguém  reparou  na  Professora  Beatriz,  que  acabava  de  entrar com uma 
pilha  de  livros  de  todos  os  tamanhos  e  cores,  com  o  cabelo  castanho 
encaracolado  como  cabos  de  telefone  arrancados  a  ondular  e  o  seu  sorriso  de 
sempre.  Pousou  os  livros  com  um  golpe  sonoro  sobre  a  mesa  e  soltou  uma 
gargalhada  franca  que  fez  com  que  alguns  dos  alunos  —só  alguns  —olhassem 
na sua direcção. 
Bia  abriu  caminho  entre  os  seus  alunos  como  água  entre  chamas  até 
chegar  à  gaiola,  onde  a  Susana  a  esperava  com  o  seu  cabelo  negríssimo  e  os 
seus  ténis  demasiado  grandes.  A  rapariga  estendeu-lhe  um  papel  com  um  ar 
divertido,  que  parecia  ser  o  motivo  por  que  se  tinha  formado  toda  aquela 
confusão.  Beatriz  apanhou-o  em  pleno  ar,  e  o  Tiago  não  demorou  a  fazer  uma 
aparição  entre  a  primeira  fila.  Acompanhava-o  o  seu amigo António, um rapaz 
franzino  com  um  ar  adoentado  e  cabelo  como  um  cesto  de  caracóis  cor  de 
palha. 
A  professora  fez  espaço  movendo  os  braços  como  um  moinho, 
anunciando depois alto e em bom som: 
—Parece  que  o  Luís  teve  uma  noite  ocupada.  Deixou-nos  este  texto,  e  a 
vossa  missão  é  descobrir  quem  é  o  seu  autor.  Para  dificultar  ainda  mais  a 
tarefa, só o vou ler uma vez, por isso silêncio! 
«“​N’​As  meninas  exemplares​,  a  Sofia  d’​Os  desastres  de  Sofi​a  rouba  peras 
porque  tem  fome,  a  madrasta  não  lhe  dá  de  comer.  Sofia  é  castigada  por  ser 
lambareira  e  ladra.  Eu,  em  criança,  não  percebia  como  é  que se podia gostar de 
peras.  Percebia  que  se  roubassem  bolos  de  chocolate  e  folhados  de  salsicha, 
peras  não.  Não  gostava  de  fruta.  De  pêras  não  gostava.  Anos  mais  tarde,  li 
Barthes.  Barthes  diz  que  gosta  de  peras  e  eu  passei  a  gostar  de  peras.  Barthes 
pode  estar  a  mentir.  O  poeta  é  um  fingidor.  Mas  acho  que  Barthes  não  está  a 
mentir quando diz que gosta de peras”. 
Quando  acabou  de  ler,  como  se  o  feitiço  das  palavras  persistissem, 
continuaram todos em silêncio. 
—É  uma  excelente  ideia!  —disse  a  Catarina,  e  muitos  dos  seus  colegas 
lançaram-lhe um olhar fulminante. 
O  Carlos não tinha entendido muito bem o poema, mas havia algo nele de 
que  gostava.  Era  fácil,  não  era  como  os  poemas  que  o  obrigavam  a  memorizar 
em  Espanha  e  que  nem  sequer  entendia.  O  Luís  de  Camões,  na  sua  gaiola, 
observado  por  todos,  soltou  duas  pequenas  caganitas  e  comeu  uma  semente. 
Por fim, o Tiago exclamou: 
—Que  grande  seca!  Porque  havia  de  perder  tempo  à  procura  dessa 
parvoíce? 
—Pois,  pois!  —gritavam  os  seus  colegas,  convencidíssimos  de  que  o 
argumento do Tiago era irrefutável. 
—Porque  —disse  a  Beatriz  sem  perder  a  calma,  mas  cravando  os  olhos 
cintilantes  no  Tiago  —quem  descobrir  o  autor  passará  automaticamente  no 
primeiro exame que fizermos. Um 5 para quem se atrever. 
Um  cinco!  O  Carlos  não  podia  acreditar  nos  seus  ouvidos.  Com  todos  os 
problemas  que  tinha  com  o  português,  conseguir  um  cinco  faria  com  que  os 
seus  pais  ficassem  loucos  de  alegria.  Além  disso,  se  conseguisse  resolver  o 
mistério,  conquistaria  o  respeito  dos  seus  colegas,  por  muito  que  o  Tiago 
insistisse  em  fazer-lhe  a  vida  impossível.  Só  tinha um problema… já quase não 
se  lembrava  do  que  a  Professora  Beatriz  acabara  de  ler,  e  esta,  para  desgosto 
geral,  fez  uma  pequena  bola  com  o  papel  e  engoliu-o.  Que  grande  professora, 
com  uma  atitude  assim  de  certeza  que  ninguém  se  atrevia  a  fazer-lhe  a  vida 
impossível.  
O  dia  de  aulas  passou  sem  mais  incidentes,  excepto  quando  depois  do 
recreio  o  Carlos  encontrou  na  sua  mesa  uma  mensagem  escrito  a  lápis: 
“Espanhol,  vemo-nos  à  saída.”  Assim  que  o  leu  sentiu-se  enjoado  e  as  pernas 
começaram-lhe  a  tremer.  Não  podia  ser  coisa  de  mais  ninguém  a  não  ser  do 
seu  rufia  pessoal.  Nesse  preciso  momento,  o  Carlos  começou  a  planear  a  sua 
fuga  para  não  ter  que  enfrentar  o  Tiago:  fingir  uma  intensa  dor  de  barriga, 
meter  os  dedos  no  nariz  até  sangrar,  ir  à  casa de banho e não voltar… Contudo, 
deu-se  conta  que  o  momento  do  primeiro  confronto  chegaria  mais  cedo  ou 
mais  tarde,  e  que  não  ganharia  nada  em  adiá-lo.  Além  disso,  enfrentar  o  seu 
destino  faria  com  que  parecesse  mais  corajoso  aos  seus  companheiros,  o 
próprio Tiago incluído. 
No  último  intervalo  do  dia,  a  Susana  aproximou-se  dele  como  um 
vendaval;  vestia  um  chamativo  vestido  azul  cheio  de  nuvens  brancas. 
Garantiu-lhe  que  nos  dias  em  que  estava  de  mau  humor  as  nuvens  tinham  a 
capacidade  de  ficar  cinzentas.  Ao  seu lado, ou melhor dizendo atrás dela, vinha 
outra  rapariga,  a  maior  da  turma,  com  o  cabelo  espesso  e  olhos  tranquilos, 
conhecida por Cátia Gorda. 
—Eu  no  teu  lugar  estaria  nervosa.  Andam  todos  a  falar  de  ti  e  do  Tiago, 
parece  que  te  vai  fazer  muitos  testes  para  que  proves  que  és  um  verdadeiro 
português. 
—Esse  tipo  é  um anormal —disse a Cátia. —O que é que vai fazer? Cantar 
um Fado? Comer pastéis de nata? Vestir uma camisola da selecção nacional? 
—Tanto  me  dá  —disse  o  Carlos,  tratando  de  mostrar  uma  valentía  que 
realmente não possuía. 
—Acho  que  há-de  acabar  por  se  cansar  de  ti  —assegurou-lhe  a  Susana 
—Qualquer  dia  dá-lhe  por  se  meter  com  outra  pessoa  e  nunca  mais  se  lembra 
de ti. 
—Duvido  muito.  Quando  se  esquecer  que  eu  sou  espanhola,  há-de  me 
chatear  porque sou baixo, e quando se esqueça disso, há-de ser porque a minha 
mãe é escritora…. 
—Do  que  é  que  estás  para  aí  a  falar?  Deve  estar  morto  de  inveja.  O  meu 
pai é cozinheiro e a minha mãe é segurança.  
—A minha mãe é só enfermeira —disse a Cátia num tom depressivo. 
—Enfim  —rematou  a  Susana.  Prepara-te,  porque  hoje  à  saída  verás  o 
que  te  espera.  Que  piada!  Isto  soou  muito  mais  ameaçador  do  que  na  minha 
cabeça, desculpa. O Tiago é só um miúdo. 
Quando  os  colegas  mais  próximos  ouviram  as  palavras  da  Susana 
começaram  a  murmurar,  e  o  Carlos sentiu-se ainda pior, pois a última coisa de 
que precisava na vida era, em vez de um rufião, de um rufião zangado. 
Por  isso,  passou  a  última  hora  com  um  medo  enorme,  com  pontadas  na 
barriga  e  suores frios cada vez que imaginava as maldades que o Tiago estaria a 
magicar  e  amaldiçoando  o  dia em que aceitou o desafio proposto pelo galaró da 
turma.  Esteve quase para se arrepender e render-se, para dizer ao seu bully que 
se  esquecesse  do  acordo,  que  preferia  os  insultos  ou  que  lhe  desse  uma surra a 
ter  que  enfrentar  o  desconhecido.  “Um  teste  por  mês”,  tinha  afirmado,  e  ao 
longo  dessa  hora  terrível  as  palavras  do  Tiago  ressoaram  com  cada  vez  mais 
força  na  sua  cabeça  até  que  por  fim  a  campainha  que  anunciava  o  fim  do  dia 
tocou. 
Ainda  que  tenha  tentado  apressar-se,  não  serviu  de  nada.  Nas  costas  do 
Carlos  a  notícia  tinha  corrido  como  pólvora  e  toda  a  turma  estava  a  par  do 
acordo  de  cavalheiros  que  ambos  haviam  feito.  Por  isso,  ao  sair  das  aulas,  em 
vez  de  sair  para  a  rua  foram-se  encostando  à  parede formando uma espécie de 
corredor  para  o  Carlos  e  o  Tiago.  Sem  surpresas,  o  rufia  estava  à  sua espera no 
meio  da  multidão  com  um  sorriso  de  diversão  e  os  braços  cruzados.  Tinha  um 
ar  tranquilo  e  confiante  de quem estava muito divertido; trocava piadas com os 
seus  amigos  e  tinha  conquistado  a simpatia da turma quase toda com recurso a 
ameaças  e  pactos  forjados  ao  longo  dos  anos.  Por  isso,  o  Carlos  não  podia 
deixar  de  sentir  a  cada  passo  que  o  aproximava  do  seu  destino  que  as  suas 
pernas eram de gelatina e que tinha um balão de água no estômago. 
—Espanholito!  —disse  por  fim  o  Tiago,  provocando  vários  risos 
nervosos.  A  tensão,  contudo,  podia-se  cortar  à  faca.  —Achava  que  já  não 
vinhas,  porque disseste que não querias ser português. Estás-me a ouvir? Ficou 
surdo. 
O  novo  comentário  foi  seguido  por  novas  risadas  de  alguns  alunos.  O 
Carlos  tratou  de  manter  a  cabeça  erguida;  não  lhe  servia  de  nada  dar  sinais  de 
cobardia.  Além  disso,  pensando  bem,  não  era  como  se  o  tivessem  condenado à 
guilhotina, só lhe iam fazer um teste. 
—Bem,  já  chega!  —disse  a  Catarina  com  os  braços  cruzados  e  os  óculos 
roxos  quase  a  cair-lhe  do  nariz.  —Carlos,  não  és  obrigado  a  fazer  nada  do  que 
te  diga  este  brutamontes,  entendes?  E  tu,  Tiago,  deixa-o  de  uma  vez,  pode  ter 
graça um dia mas já andas com isto há uma semana. 
—Tens fome, espanholito? —continuou o Tiago. 
—Não  —respondeu  o  Carlos  com  a  pouca  serenidade  que  lhe  restava, 
notando a irritação da delegada. 
—Pois  vais-te  fartar de comer —ameaçou-o o Tiago. —O primeiro passo 
para ser um português é comer como um português, estás-me a ouvir? 
O Carlos assentiu com a cabeça. Sentia-se aliviado, mas não queria baixar 
a  guarda;  tinha imaginado todo o tipo de provas e torturas, cada uma pior que a 
outra,  mas  comer  só  comida  portuguesa  não  lhe  parecia  um  grande  problema. 
No entanto, manteve o ar de preocupação para despistar o Tiago. 
—Co…  comida  po…  portuguesa?  —perguntou  com  um  falso  tremor  na 
voz,  mas  o  Tiago  achou  divertido que ele o temesse e imitou-o, repetindo a sua 
pergunta em tom de gozo. 
—Comida  portuguesa!  Empadas,  cozido  à  portuguesa,  bacalhau  à  Brás, 
bacalhau  com  natas,  sopa  da  pedra,  francesinhas,  farinheira.  Acabou-se  a 
paelha!  Nada  de  tortilhas  de  batata.  Morte  ao  gaspacho!  —gritou  o  Tiago  em 
pleno  furor,  e  os  seus  comparsas  repetiram  o  mesmo  mote,  “Morte  ao 
gaspacho!” 
O  corredor  não  demorou  em  se  esvaziar,  mas  o  Tiago  não  estava  com 
pressa  de  se  ir  embora,  e  por  isso  aproximou-se  de  novo  do  Carlos  e 
acrescentou, desta vez ao seu ouvido: 
—Tens  até  ao  dia  15  para  me  demonstrar  que  sabes  comer  com  um 
português. 
Quanto  a  Beatriz  passou  junto  deles  ambos  a  cumprimentaram  como  se 
nada  se  passasse,  e  por  fim  o  bully  considerou  que  era  hora  de  deixar  o  Carlos 
em  paz.  Deu-lhe  a  sensação  de  que  a  Catarina,  ao  fundo  do  corredor,  estava 
prestes  a  fazer  queixinhas,  mas  a  professora  passou  e  a  delegada  limitou-se  a 
dizer-lhe adeus com um sorriso. 
O  espanhol  deixou-se  cair  contra  a  parede  do  corredor,  suado  e aliviado, 
e  observou  o  Tiago  a  desaparecer  pela  porta.  Caminhava  de  forma  relaxada  e 
desalinhada,  com  toda  a  tranquilidade  que  a  sua  autoridade  lhe  dava. O Carlos, 
sentado  no  chão,  sentia-se  sem  forças  sequer  para  apertar  os  atacadores,  mas 
mudou de expressão quando viu que a Susana se aproximava. 
—Tiveste  cá  uma  sorte,  hein?  —disse,  e  sentou-se  ao  seu  lado.  O  Carlos 
deu-se  conta de que afinal não era tão bonita como lhe tinha parecido quando a 
conheceu.  Tinha  os  dentes  demasiado  irregulares  e  o  nariz  demasiado  largo. 
Além  disso,  vestia  sempre  roupa  folgada, como se não se importasse com o seu 
aspecto. 
—​Bueno​,  eu  não  lhe  chamaria  sorte…  —respondeu  ele  em  voz  baixa. 
—Porque estavas à minha espera? 
—Porque  pareces  um  fantasma.  A  sério, achei que ias desmaiar quando o 
Tiago  falou  contigo,  mas  afinal  é  só  comida.  Acho  que  dás  conta  do  recado,  ou 
não? 
—Acho  que  sim  —disse  o  Carlos,  e  sentiu  uma  pequena  esperança  que 
crescia  dentro  dele;  claro  que  não  se  fiava  demasiado e tinha a sensação de que 
o Tiago guardava alguma carta na manga. 
—Eu  se  fosse  a  ti  não  me  preocupava  —disse  ela.  Ter-lhe-ia  lido  o 
pensamento?  —Mas  com  o  Tiago  nunca  se  sabe,  de certeza que está a preparar 
o terreno para atacar em força mais tarde. 
Isso  era  precisamente  o  que  o  Carlos  temia,  e  por  isso  planeava 
adiantar-se  ao  raciocínio  do  Tiago,  e  se  a  sua  intenção  era  que  baixasse  a 
guarda  com  esta  história  da  comida  então  é porque não fazia ideia de quem era 
o  Carlos  Sánchez.  Nem  que  tivesse  que  comer  até  ao  último  pastel  de  nata  de 
Lisboa.  A  Susana  levantou-se  com  um  salto  e  afastou-se  pelo  corredor  sem  se 
despedir.  O  Carlos  não  tardou  em  alcançá-la  já  na  rua,  com  a  luz  aveludada 
emitida  pela  cidade  das  sete  colinas,  e  avistou  logo  o  seu  pai que o esperava no 
carro.  
 
Aquilo  de  que  não  estava  à  espera  era  que  o  desafio  de  comer  como  um 
português  o  aguardasse  em  sua  casa  naquela  mesma  noite.  Estava  a  acabar  de 
preparar  os  livros  para  terça-feira  quando  a mãe entrou no seu quarto. Tinha o 
cabelo  um  pouco  despenteado,  como  costumava  acontecer  quando  passava 
horas  a  trabalhar  nas  suas  palavras  cruzadas  e  sudokus,  mas  também  aquele 
sorriso  tranquilo  que  punha  sempre  que  queria  dizer-lhe  algo  importante. 
Candela  tinha  um  rosto  juvenil  e  o  cabelo  a  meio  caminho  entre  o  loiro  e  o 
grisalho,  com  um  corte  irregular  que  lhe  ocultava  metade  do  olho  esquerdo. 
Vestia sempre roupa cómoda e sapatos coloridos. 
—Carlos, estás pronto? 
—Sim, falta-me só o compasso para a aula de E.V.T., não o encontro. 
Candela  avançou  até  à  cama,  deu  umas  voltas  à  colcha  até  que  um 
compasso metálico saltou sobre o colchão. 
—Vês,  cabeça  de  alho-chocho?  Anda,  vamos  comer,  porque 
—acrescentou em voz baixa —acho que o teu pai se pôs criativo esta noite. 
Geralmente,  o  Carlos  gostava tanto da comida da mãe como do pai, ainda 
que ultimamente era Pepe quem mais se encarregava de cozinhar. 
—Criativo? 
Candela  fez-lhe  sinal  para  que  se  apressasse,  e  o  Carlos  seguiu-a  até  à 
sala  onde  a  Cláudia  brincava  sobre  o  tapete  com  um  rolo  de  papel  higiénico, 
morta  de  riso.  Candela  sentou-se  junto  à  bebé  e  começou  a  recolher  os  papéis 
rasgados  enquanto  o  Carlos  ia  à  cozinha  buscar  os  pratos  e  os talheres. Pepe, o 
seu pai, tinha as lentes dos óculos embaciadas com o vapor que subia da panela. 
Pelo  aroma  o  Carlos  não  conseguiu  adivinhar o que ele estava a cozinhar, o que 
lhe  provocou  ainda  mais  curiosidade.  Enquanto  esperavam  por  Pepe a sua mãe 
explicou-lhe  que  no  fim-de-semana  os  tinham convidado para a apresentação 
de  um  livro  na  Universidade  onde  o  pai  dava aulas, de maneira que não tinham 
outra alternativa senão ir. 
—Tínhamos  pensado  que  podias  ficar  com  a  Cláudia  —disse  o  pai,  que 
trazia três tigelas fumegantes num tabuleiro de madeira. 
—Sozinho? 
—Sozinho, não seria a primeira vez. 
Tinham  razão;  o  Carlos  tinha  ficado  a  cuidar  da  sua  irmão  muitas  vezes, 
mas  nunca  no  apartamento  de  Lisboa.  Não  deu  mais  importância  ao  assunto, 
pois  estava  muito  mais  interessado  em  averiguar que invenção teria preparado 
o pai. 
—Tudo bem, fico com ela —disse o Carlos, tentando encerrar o assunto. 
—Hoje  vamos  jantar  caldo  verde,  a  sopa  mais  típica  de Portugal! —disse 
Pepe,  orgulhoso.  —Uma  colega  deu-me  a  receita.  Em  Portugal  come-se  muita 
sopa, Carlos. 
O  Carlos  dava  voltas  à  sopa com a colher, horrorizado. Que classe de sopa 
era  aquela?  Não  se  parecia  nada  às  sopas  que  costumava  tomar,  nem  sequer  à 
sopa de letras ou de massinhas da mãe. 
—Porque é tão… espessa? —perguntou, por fim. 
—Porque  é  um  creme  de  batata  com  couve  picada  —explicou  o  pai. 
—Esta sopa é assim. 
—Mas isto não é uma sopa! É como… meio puré. 
A  comparação  pareceu  divertir  os  pais,  que  degustavam  colherada  atrás 
de  colherada  do  primeiro  caldo  verde  do  orgulhoso  Pepe.  Por  fim,  o  Carlos 
decidiu-se  a  prová-lo;  quem  sabe,  se  calhar  até  gostava.  Assim  que  levou  a 
primeira  colherada  à  boca,  sentiu  um  vómito  forte  subir-lhe  à  garganta.  A 
textura  pastosa,  os  bocadinhos  de  couve…  não,  não  ia  ser  capaz  de  engolir,  e 
muito menos de acabar uma tigela inteira. 
Ainda  que  essa  noite  se  tenha  deitado  sem  jantar,  fê-lo  com  a  certeza de 
que  o  Tiago  sabia  muito  bem o que fazia e que talvez nunca conseguisse ser um 
bom  português.  Estava  tão preocupado com o primeiro teste que nem sequer se 
lembrava do mistério do Luís de Camões.