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DEDINI
a força de um ideal

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Regina Machado Leão

DEDINI
a força de um ideal

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É preciso o trabalho de muitas pessoas para se forjar um ideal.
A Dedini agradece a todos aqueles que contribuíram no
passado e hoje colaboram para que suas importantes
conquistas se tornassem realidade.

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Créditos

Pesquisa e Edição de texto Regina Machado Leão

Produção Gráfica Maria Machado Leão Gomes de Moraes

Consultoria Técnica José Luiz Olivério; Sergio Leme dos Santos e


Tarcisio Angelo Mascarim

Fotografias Paulo Altafin; arquivos Dedini; museus “Histórico e


Pedagógico Prudente de Moraes”,
“Republicano Convenção de Itu”
e arquivo histórico “Gustavo Teixeira”

Revisão Rafael Varela Junior

Impressão Pancrom Indústria Gráfica Ltda.

Tiragem 2 000 exemplares DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


DIVISÃO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO – ESALQ/USP

Todos os direitos reservados.


Leão, Regina Machado
Dedini: a força de um ideal / Regina Machado Leão.
- - Piracicaba: R. M. Leão, 2005.
288p. : il.

Bibliografia.

Dedini S.A. Indústrias de Base I. Empresa Dedini 2. Indústria de bens de capitais


Rod. Rio Claro – Piracicaba, km 26,3 CEP 13.414 970 3. Indústria sucro-alcooleira
Caixa Postal 1249
CDD – 338.9816
Piracicaba – São Paulo – Brasil
Impresso em 2005

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Sumário

Prefácio ................................. 9

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

Prólogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

A industrialização em Piracicaba . . . . . . . . 37

Modernização das usinas . . . . . . . . . . . . . . . 60

A todo vapor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

A revolução do álcool ................ 122

Tempos difíceis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143

Retomada do desenvolvimento ...... 172

Conquistando mercados . . . . . . . . . . . . . . 197

A Dedini no terceiro milênio .......... 216

Atravessando fronteiras .............. 231

Responsabilidade corporativa ........ 244

Trabalhando pelo amanhã ........... 267

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Prefácio

Piracicaba como “capital” nacional do


açúcar. Panorama da cidade e do país no início
do século XX: o surgimento da indústria.

O
sandio exeros dolorercil utat. Ut wissed doluptat. Ut do
duisl eu feugait aliquisit ut dolor aliquisisl exero odiatummy
nulpute uerilit aut adigna feuismod doloreet velendre con-
secte dolent veliquipsum at, conse molortie corerae seniamet, vulput
loreraestrud ent aute facil ing enit vulla feumsandre exer sum inim.
Lorero ea faccumsan velisl euis num amconsequat. Ut eliquisl en-
drem quametue esto do dunt ut praesse magna faccumsan henit wisis
alit ad essed magnibh exero od te feuisim eniam dolore mod dolesed
euis aliquis endignibh euissequat lumsan ut dolortio esto ero od dio
dolor iurem vulla core core vero conse dolorero conullu patem ent
dolenisl utem eum iuscillam inci eugueriure diatuer ureet do corper-
cing exer augait wis nos alis nim nim dolum digna ad magna faciliquisl
iriuscipit ulla feu facidunt nim ipit aut ip euismodo odiamcon utat,
vulputpatue faci tie veliquis num in ver autpatum nim veniscil irit
vel inibh eugiatie eliquat, vulluptat. Duip etue et lorper sim zzriusci
bla facin hendiat lutpat ing ea feum velent at, quisciduisl utat augue
velit elent nonsequam, core vel utat atis non hendiam onsectem iureet
aut et, quat ing etue modolor aliquisl exeriuscin hendio odipit aliquisl
ullumsan vel doloborper at, ver susci tat dolore dip ero core dion
veliquis nibh eugue magnit in velit at, vel er iurero exer sed modigna
feummy nullam velestrud min hendrer sit nis alisisi tat la am dolore
Loreet nostie estrud mincidunt lor illan ex ero dio dolobore
magna feu feugait, sed moloreet, quisi te esting ex et irit ip eum qui

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Naquela época, a Dedini teve importante e inquestionável papel. Maior
produtora nacional de bens de capital destinados ao setor sucroalcooleiro, ela foi
responsável pela construção de inúmeras destilarias em vários pontos do País, que
passaram a produzir o combustível automotivo.
Por inúmeros motivos, o Proálcool foi desacelerado, mas, hoje, decorridos mais
de 30 anos, o mundo inteiro se interessa pela pioneira experiência brasileira. No
início do século XXI, o panorama energético se transformou. Além dos aumentos
sucessivos dos preços do petróleo, que permanecem em patamares elevados, o
mercado internacional do álcool se consolidou, com a decisão de muitos países de
adicioná-lo à gasolina. Paralelamente, com a introdução dos veículos com
combustível flexível no Brasil, que hoje já ultrapassaram um milhão de unidades
fabricadas, alcançou-se maior estabilidade no mercado doméstico.
Com certeza, o que estamos assistindo, nos dias atuais, é a transição da
civilização dependente do petróleo para uma nova matriz energética, de
combustíveis vegetais, que se tornarão, a partir ele agora, importantes commodities
no mercado internacional. Mais uma vez, as empresas Dedini - fiéis a seu passado
de constantes inovações, em termos de soluções industriais, sobretudo, aquelas
voltadas para o setor sucroalcooleiro - voltam a desempenhar papel decisivo.
Aliando-se a parceiros internacionais, capacitaram-se para atender a esse novo
mercado de biocombustíveis e, atualmente, puderam fornecer bens e plantas Colaboradores da Fundição
Dedini (Piracicaba, SP) em
completas para as indústrias que já estão produzindo biodiesel no Brasil. outubro de 2005

Nesse contexto, o Plano Nacional de Agroenergia, lançado recentemente em


Piracicaba, contribuirá para a definitiva consolidação dos biocombustíveis no
Brasil. Elaborado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o
plano cria as bases para o consórcio Brasileiro de Agroenergia, que reúne vários
órgãos de governo, além de empresas privadas. O fundo de investimento que
alavancará seu desenvolvimento vai contemplar a pesquisa em agroenergia,
estudando mais de quarenta variedades vegetais oleaginosas, espécies florestais
destinadas à produção energética, e o aproveitamento de resíduos e biogás, entre
outras fontes.
O Brasil possui todas as condições para assumir a liderança mundial na produção
de energia limpa e renovável. Para tanto, precisamos, mais que nunca, que a
tecnologia de produção, em todos os níveis, seja cada vez mais eficiente, para gerar
produtos competitivos no exigente mercado internacional. E essa será, sem dúvida,
a grande contribuição da Dedini para o desenvolvimento do nosso País.

Roberto Rodrigues
MINISTRO DE ESTADO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO
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Apresentação

N
o ano em que a Dedini completa 85 anos de existência,
resolvemos editar este livro para contar uma história de
muita dedicação, trabalho, sacrifícios, e, principalmente,
de muito idealismo.
Com esta iniciativa, queremos prestar nosso tributo a seu
fundador, Mario Dedini, que, nos distantes anos 1920, abriu as
portas, ao lado do irmão Armando Cesare, de uma modesta oficina
mecânica, que se transformaria na maior indústria da cidade de
Piracicaba, durante muito tempo, criando milhares de empregos, e
influenciando, decisivamente, no seu progresso.
Tal fato não foi, porém, seu maior feito: esse homem simples e
decidido, líder nato, nos deixou um inesquecível legado de honesti-
dade, amor ao próximo, responsabilidade e superação incessante de
desafios, que permanece presente em todas as decisões da empresa e
permeia, até hoje, nossa atuação.
Baseados nesses princípios, construímos o fundamento da nossa
estratégia empresarial: total respeito ao clientes, comprometimento
com a modernização tecnológica e valorização constante dos nossos
colaboradores, pois eles são nosso maior patrimônio. Dessa forma, este
livro pretende ser, também, uma homenagem a todos aqueles que de
alguma forma contribuíram para que pudéssemos chegar até aqui.
Essa publicação mostra que não se consegue desassociar a longa
trajetória da Dedini da evolução recente do Brasil. Verifica-se que a
empresa sobreviveu, ao longo do tempo, a todas as influências das

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diferentes conjunturas vividas
pelo país, desafiando suas crises
e aproveitando os períodos de
progresso e crescimento.
A história da Dedini é, tam-
bém, a história da indústria de
bens de capital do Brasil, setor
indispensável para seu desenvol-
vimento, sobre o qual se apóia
toda a cadeia produtiva, extrema-
mente sensível aos percalços da
economia.
Com persistência e confian-
ça, a Dedini conseguiu vencer
todos os desafios e agora vive
um momento extremamente
promissor, por causa do reconhe-
cimento generalizado da im-
portância das energias “limpas”
e renováveis, como o álcool e o
biodiesel, e da busca incessante
por soluções ambientalmente
corretas.
Nesse contexto, possuímos
uma matriz extremamente
dinâmica de produtos, alinhada
aos aspectos do meio ambiente,
energia, produtividade e otimiza-
ção de recursos industriais, o que
vem nos garantindo constante
expansão e crescimento.
Dessa forma, encaramos o
futuro com bastante otimismo,
e nos unimos ao esforço de
todo o setor produtivo para
construir um país melhor, em
que se busca resultados em longo

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prazo, buscando a plena realização das pessoas, e em consonância com
um objetivo muito maior, que ultrapassa os resultados financeiros, e
contempla, antes de tudo, o desenvolvimento sustentável.
Finalmente, a história da Dedini, mostrada neste livro, nos leva a
refletir sobre a importância, para as gerações futuras, de dar con-
tinuidade a esse grande projeto empresarial, que atua em setores
estratégicos da economia nacional influencia, de forma tão decisiva,
na vida da comunidade.
Temos certeza que nossos sonhos serão, sempre, o motor que
move nossa vontade, criando motivação e comprometimento para
continuar com essas realizações apaixonantes, narradas ao longo
desta publicação.

Dovilio Ometto
PRESIDENTE

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Piracicaba como “capital”
nacional do açúcar. Panorama
da cidade e do país no início
do século XX: o surgimento
da indústria brasileira.

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Prólogo

D
ezesseis de janeiro de 2004, dezesseis horas. Nos gramados
recém-aparados da Fundição, a mais nova unidade industrial
da Dedini – situada no Bairro da Cruz Caiada, à margem da
rodovia que liga Piracicaba a Rio Claro – pousa um helicóptero da
Força Aérea Brasileira. Dele, descem o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e sua comitiva. A recepção é feita pelo governador Geraldo
Alckmin, pelo prefeito de Piracicaba, na época, José Machado, por
diversas autoridades e por diretores da empresa.
Não é essa a primeira vez que um presidente da República vem
inaugurar uma fábrica da Dedini. Em 1958, Juscelino Kubitschek,
acompanhado do então governador Jânio Quadros, comandou as
festividades de abertura da Siderúrgica Dedini S.A. A indústria logo se
firmou no cenário nacional na produção de vergalhões para a cons-
trução civil, gerando empregos e divisas, e cumprindo importante
papel social na cidade e na região.
Naquela ocasião, Kubitschek fez questão de deixar seu testemunho
escrito de próprio punho: “Como Presidente da República, dominado
pela preocupação de estabelecer bases sólidas e poderosas à indústria do
meu país, quero louvar, com calor e entusiasmo, iniciativas como estas
de Mario Dedini, que contribuem para a emancipação econômica do
Brasil e firmam, assim, os alicerces da nossa soberania”.
Essa era, então, a palavra de ordem: estimular a industrialização.
Logo após sua posse, JK ressaltava a necessidade de adotar-se uma nova
mentalidade dinâmica e moderna, e de um estado de espírito propício
ao desenvolvimento. E assim surgiram, naquela época, principalmente

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em São Paulo, as fábricas de automóveis e autopeças, de eletrodo-
mésticos, as metalúrgicas e muitas outras, que, ativaram o consumo,
trazendo progresso.
Atualmente, o Brasil vive novamente um clima de otimismo. Em
seu discurso de janeiro de 2004, em Piracicaba, o presidente Lula reafir-
mou sua crença no desenvolvimento da indústria nacional, louvando
as vantagens competitivas do país na fabricação de álcool, de açúcar e
de bens de capital voltados para atender esse setor.
Nesse cenário propício ao crescimento, a Dedini se prepara para
vencer os novos desafios com tenacidade e confiança. Ao completar
85 anos, apresenta-se com fábricas no estado de São Paulo (Piracicaba
e Sertãozinho) e no Nordeste (Recife e Maceió), onde trabalham cerca
de 4 000 colaboradores, produzindo plantas completas e equipamentos
para usinas de açúcar e destilarias, responsáveis por 80% do álcool
produzido no Brasil.
Além disso, a Dedini produz cervejarias, fábricas de sucos e fertili-
zantes, unidades de energia e de co-geração, e de tratamento de efluen-
tes industriais. Atua, também, nos setores de papel e celulose, química
e petroquímica, siderurgia, alimentos e peças fundidas.
Liderando a produção nacional de bens de capital destinados a
usinas de açúcar e destilarias de álcool, a tradicional empresa vem
cumprindo importante papel na modernização do setor, como agente
difusor de inovações tecnológicas. Na cidade onde se instalou, a Dedini
foi sempre um importante vetor de desenvolvimento, contribuindo em
obras de melhoria de infra-estrutura e de grande alcance social, geran-
do empregos, e formando mão-de-obra altamente especializada.
Ao longo do tempo, as empresas Dedini se constituíram verdadeiros
celeiros de novas indústrias, pois muitos de seus antigos funcionários
aproveitaram a experiência nelas adquiridas para montar seus próprios
negócios. Graças a isso, Piracicaba tornou-se um dos mais importantes
pólos nacionais de produção metalúrgica e mecânica.
Sua forte influência extrapolou os limites do município, à medida
que possibilitou a nacionalização de inúmeros equipamentos antes
importados, e contribuiu decisivamente para o aumento da produ-
tividade no setor de açúcar e álcool. Hoje, o Brasil lidera o mercado
internacional, oferecendo essas duas commodities a preços inferiores aos

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dos concorrentes de outros países, cujos fabricantes, muitas vezes, se
beneficiam de políticas protecionistas de seus governos.
Fundição Dedini em 2005
No início desse terceiro milênio, a Dedini aproveita a grande expe-
riência adquirida no seu passado de trabalho, e a dedicação permanente
de seus colaboradores para enfrentar novos desafios que lhe são coloca-
dos, na produção de bens de capital sob encomenda de alta qualidade.
Para tanto, vem assumindo plenamente suas responsabilidades e
compromissos com a comunidade em que se acha inserida e, também,
com a preservação do ambiente. Essa atuação, para ela, não é nenhuma
novidade, como pode-se verificar na história que será agora contada.

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INTRODUÇÃO

Tradição canavieira
Distance:
0.33 in

“Se se olha para o nascente, se vê flora diferente.


Só canaviais e suas crinas, e as canas longilíneas de cores
claras e ácidas, femininas, aristocráticas...”
João Cabral de Melo Neto, 1979.

O
verde brilhante e viçoso dos canaviais sempre constituiu um
elemento marcante na paisagem de Piracicaba, situada no
coração do estado de São Paulo. Estendendo-se por colinas
suaves e vales férteis, a cana-de-açúcar influenciou decisivamente a vida
da cidade e determinou seu desenvolvimento, por meio da fabricação
de açúcar, álcool, aguardente e da produção de equipamentos destina-
dos a esses processos industriais.
No passado, e, durante muito tempo, as lavouras de cana se esten-
diam a perder de vista em toda a região. As plantas cresciam com vigor,
beneficiadas pelas condições propícias. Quando maduras, com seus
colmos repletos de açúcar, eram preparadas para a colheita: primeiro,
ardiam em chamas durante toda a noite, para, na madrugada seguinte,
serem cortadas habilmente por um exército de trabalhadores, encar-
regados de colocá-las a bordo dos caminhões que as transportariam,
Canavial no município dia-e-noite, para as usinas, onde as moendas extraíam o caldo doce.
de Piracicaba (SP) Hoje, a situação mudou bastante: as queimadas estão desaparecendo,
pelas exigências das leis ambientais, e os trabalhadores são substituídos
por máquinas possantes. O grande número de engenhos e usinas existen-
tes no município reduziu-se, atualmente, a apenas uma unidade, ainda
em funcionamento. As extensas plantações de cana perderam espaço

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Salto do rio Piracicaba, no final
do século XIX. No seu entorno,
para outras culturas, sendo iniciou-se o povoamento da cidade
pressionadas, também, pela expansão urbana.
Mesmo assim, as atividades relacionadas com a cana-de-açúcar
e seus derivados ainda desempenham importante papel na vida da
cidade, desenvolvendo-se em perfeita sintonia com a indústria de
bens de capital surgida, inicialmente, para atender às demandas dos
produtores rurais.
A agroindústria canavieira – a mais antiga atividade agrícola
brasileira – assumiu, nos dias atuais, nova e importante dimensão,
que extrapola as fronteiras do país, com a possibilidade de substi-
tuição da gasolina pelo álcool e de aproveitamento do bagaço para
geração de eletricidade, que representam alternativas energéticas
ambientalmente corretas.

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À margem do rio governador, que desejava criar
um posto de abastecimento no rio
A exemplo de outras regiões Tietê, e estabeleceu o núcleo a se-
do Brasil, o efetivo povoamento tenta quilômetros acima do ponto
de Piracicaba iniciou-se na segun- indicado, nas proximidades da bela
da metade do século XVIII. Suas cachoeira existente no Piracicaba,
terras eram, até então, pratica- conhecida como o salto.
mente desabitadas, simples pas- Sob sua direção, o modesto
sagem para quem se dirigia para povoado começou a organizar-
Cuiabá, por uma longa picada se: a mata fornecia madeira para
aberta nas matas. O progresso só o fabrico de canoas e a terra era
chegou quando se esgotaram os fértil para o plantio. O núcleo
veios de ouro no interior do país, original desenvolveu-se à mar-
encerrando o ciclo da mineração: gem esquerda do rio, a partir
a única alternativa que restou aos de uma pequena igreja, com
paulistas foi se dedicar ao cultivo plantações a sua volta. Começa-
da terra, atividade que, antes, eles va, assim, a exploração agrícola,
menosprezavam. que segundo Mario Neme (1974)
Em 1765, o governador da fixou o homem à terra, ergueu
província, o capitão português cidades, abriu estradas e deu aos
Luiz Antonio de Souza Botelho paulistas sua primeira fonte de
e Mourão, conhecido como riqueza estável e organizada.
Morgado de Mateus, começou a A cana-de-açúcar apareceu
estimular o aumento do número como uma alternativa natural
de povoações em São Paulo, de plantio, pois sua técnica de
baseadas no desenvolvimento cultivo já era dominada desde
agrícola. Assim, surgiram, além de os tempos dos primeiros coloni-
Piracicaba, São José dos Campos, zadores. Essa exploração traria
Itapetininga, Registro e muitas grande expansão para o estado
outras localidades. paulista, com a abertura de novas
Para oficializar a fundação vias terrestres e a reativação de
do povoado, Morgado de Mateus outras abandonadas. As lavouras
mandou Antonio Correa Barbosa, irradiaram-se de Campinas, Itu
exímio fabricante de barcos de e Porto Feliz para Capivari, e
Itu. Ele desobedeceu às ordens do alcançaram Piracicaba, onde as

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terras se mostraram favoráveis a os engenhos instalados, mas,
seu desenvolvimento. muitas vezes, não era obedecida.
Em 1836, Piracicaba tornara-se
um dos núcleos mais prósperos
Açúcar e aguardente
da província, contando com
Dessa forma, em 1816, a 78 engenhos, normalmente
então freguesia de Piracicaba, movidos a tração animal, pois sua
com 2 000 habitantes, solicitou montagem era mais fácil e barata.
sua emancipação administrativa A maior parte dos engenhos
de Itu e sua elevação à condição da região fabricava o chamado
de vila. Um dos argumentos açúcar “batido”, denominação
apresentados para conseguir tal usada desde os tempos coloniais
melhoria foi o fato de possuir para qualificar sua produção: essa
“catorze engenhos de açúcar e era a quarta categoria existente,
quatro de aguardente, estando depois do açúcar branco macho,
doze em fase de organização”. do redondo e do inferior, con-
O cultivo de cana e a fabrica- forme explicou o jesuíta João
ção de açúcar e aguardente passa- Antonio Andreoni, o Antonil, no
ram a ser as principais atividades livro Cultura e Opulência, de 1711.
econômicas da cidade e, por Telarolli (2004) relatou a
ocasião de sua transformação em forma mais comum de obtenção
Vila Nova da Constituição, em de açúcar “batido” em Piracicaba.
1822, o núcleo de povoamento Segundo ele, o mel proveniente de
encontrava-se cercado de enge- açúcar macho, na casa de purgar,
nhos e canaviais, com estrutura escorria através de um furo exis-
fundiária bem definida: as gran- tente na base das formas, em que se
des propriedades plantavam e obtinham os pães de açúcar, com a
processavam o produto, enquan- ajuda da filtragem pelo barro.
to as menores, mais afastadas O caldo assim obtido era
da vila, instalaram-se em áreas aquecido em um tacho colocado
abertas, intercaladas com matas, sobre a fornalha, alimentada,
dedicando-se à pecuária e à geralmente, com lenha; a borra,
agricultura de subsistência. formada à superfície, era retirada
A legislação exigia uma com uma grande escumadeira, e
distância de meia légua entre aproveitada como ração animal.

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Ainda aquecido, o caldo era qualidade e preço. Para piorar as
transferido para mais dois tachos coisas, no início do século XIX,
para decantar, operação feita com países como Inglaterra, França e
auxílio de conchas de cabo longo. Holanda estabeleceram barreiras
Após a verificação do ponto à compra do açúcar brasileiro,
adequado de cozimento, com em favor de suas colônias.
retirada de uma amostra, a massa Diante da conjuntura desfa-
fervente era despejada em caixas vorável, os preços do produto,
de madeira. Nesse momento, em 1830, caíram pela metade, e
com o açúcar ainda quente, dois a indústria nacional ainda sofria
trabalhadores, um de cada lado, deficiências internas, empre-
“batiam” com uma enxada, espar- gando técnicas rudimentares
ramando, mexendo e raspando até no cultivo e processamento da
o fundo da caixa. O resultado era cana. Além disso, as embalagens
um açúcar moreno, tipo mascavo. do açúcar destinado à exporta-
ção eram precárias, em caixotes
de madeira; sua perecibilidade
Novo ciclo econômico aumentava, devido ao mau
A partir do século XIX, a estado das vias terrestres, espe- A cultura da cana-
economia canavieira nacional foi cialmente na estação chuvosa.
de-açúcar propiciou o
bastante prejudicada pela conjun- Assim, o Brasil perdeu,
tura internacional. Nessa época, aos poucos, a liderança na estabelecimento dos
a fabricação do açúcar feito de produção açucareira. No estado
primeiros moradores de
beterraba alcançou grande desen- de São Paulo, os agricultores
volvimento na Europa, chegando voltaram-se, então, para a ex- Piracicaba, determinou
a superar o da cana-de-açúcar. ploração de outra cultura que
seu desenvolvimento e
Assim, os europeus libertaram-se apresentava maior potencial de
do fornecimento do produto venda: o café, que já havia se transformou a cidade,
proveniente das Américas. instalado no Rio de Janeiro e se
no passado, na capital
Por outro lado, a indústria estendia pelo vale do Paraíba.
açucareira das Antilhas, adotan- Piracicaba não escapou do nacional do açúcar.
do técnicas e equipamentos mais declínio do açúcar e à expansão
avançados, expandira-se bastante, do café. Mesmo perdendo espaço,
e passou a fazer forte concor- no entanto, as lavouras de cana
rência ao Brasil, em termos de nunca chegaram a desaparecer,

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apesar de apresentarem desempe- Com o decorrer do tempo,
nho mais modesto e continuarem no entanto, houve algumas
sendo cultivadas por meio inovações técnicas no setor: o
de técnicas arcaicas. Em 1836, ano de 1817 marca a introdução
juntamente com Itu, Porto Feliz do vapor na agroindústria cana-
e Capivari, Piracicaba fornecia vieira. Pernambuco importava
aproximadamente metade do tantas máquinas desse tipo da
açúcar produzido e exportado no Inglaterra que, em 1829, a em-
estado. Além do café, também o presa Harrington & Star montou
algodão passou a competir com a uma fundição no Recife para a
cana em área plantada no muni- fabricação de peças. Logo depois,
cípio, entre 1860-1870. David Bowmann instalou outra;
Como ocorreu em outros surgiu, também, uma firma
pontos do país, a transformação nacional, a Fundição d’Aurora, que
dos antigos engenhos em grandes se aventurou na construção de
usinas processou-se de forma aparelhos completos.
bastante lenta, a partir de 1875, Apesar do pioneirismo da
atravessando toda a primeira metalurgia pernambucana,
metade do século XX. A estrutura o governo do Rio de Janeiro,
da produção, herdada dos tempos pressionado, talvez, pelos
coloniais, era muito atrasada, fornecedores ingleses de equi-
baseada em instalações precárias e pamentos, resolveu acabar com
aparelhos de baixo rendimento. a primeira fábrica de motores a
O mesmo obsoletismo verifi- vapor instalada na América do
cava-se na indústria. A utilização Sul. Em 1836, as importações
do bagaço como combustível, para maquinários agrícolas foram
prática conhecida há algumas consideradas isentas de pagamen-
décadas em outros países, só foi tos de impostos, e impuseram
introduzida no país por volta taxas sobre o ferro bruto e outros
de 1857, inicialmente na Bahia, metais necessários às fundições.
passando, depois a ser de uso O Segundo Império
generalizado em Pernambuco e transcorreu em um quadro de
em outros locais. Assim, muitos contradições no setor açucareiro,
engenhos, paralisados pela falta de com o antigo coexistindo com
lenha, puderam voltar à atividade. a modernidade. Em 1852, foram

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introduzidas novas moendas para se libertar do fornecimento
na agroindústria canavieira em irregular de terceiros.
Pernambuco, desenvolvidas pelos Discorrendo sobre o assunto,
irmãos Alfredo e Eduardo de a escritora Silvia Sampaio (1976)
Mornay, que aumentaram em explicou que o antigo engenho
50% seu rendimento. funcionava somente com um
terno de moendas, acionado por
máquina a vapor, e a evapora-
Surgem os engenhos ção efetuava-se a fogo direto.
centrais Em conseqüência, era baixa a
Um fato novo ocorreu em recuperação do açúcar contido
1875, quando o governo imperial na cana. A elevada porcentagem
passou a incentivar a tradicional de desperdícios industriais fazia
indústria açucareira no Brasil. com que o produto obtido fosse
A tentativa visava melhorar mais impuro, de pior aspecto e de
o rendimento das lavouras conservação mais difícil. O proces-
e modernizar a fabricação. samento exigia grande número de
Surgiram, assim, os engenhos trabalhadores, portanto, seu custo
centrais, grandes unidades de fabricação era elevado.
destinadas à moagem de cana e A moderna usina, por sua
processamento do açúcar, que se vez, utilizava a evaporação a
constituíram em embriões das vácuo da água contida no caldo
modernas usinas. da cana. Ao longo do tempo, os
Inicialmente, tais estabeleci- conjuntos de moendas, sempre
mentos foram financiados pelo com maior capacidade de extra-
capital estrangeiro e receberam ção, passaram a retirar da cana o
garantias do governo para seu máximo de açúcar, utilizando o
funcionamento. bagaço nas fornalhas das caldei-
Favorecidos, também pelo ras como fonte energética.
desenvolvimento de ferrovias, A qualidade do produto
que possibilitou a vinda da maté- pôde, então, ser melhorada,
ria-prima de locais mais distantes, obtendo açúcar cristalizado com
os engenhos centrais começaram menos impurezas. Do melaço,
a instalar-se. Por volta de 1890, era possível fabricar o álcool.
já cultivavam sua própria cana, Os proprietários eram pessoas

a força de um ideal 27

Iniciais 27 11/4/05, 16:45


jurídicas, a grande maioria, – pioneiros em São Paulo – a Cia. do
sociedades anônimas, buscando a Engenho Central, em 1881, e o Engenho
Engenho Central de Piracicaba:
uma das mais importantes redução de custos da produção, e Central Monte Alegre, em 1888, fun-
indústrias da cidade, até 1920 a melhoria da produtividade. dado por Antônio Alves Carvalho.
Graças aos incentivos do O primeiro resultou da fusão de
governo, surgiram muitos capitais franceses com os dos pode-
interessados na instalação de rosos fazendeiros da região, Estevão
engenhos centrais: dos 87 proje- de Rezende, o futuro Barão de
tos aprovados, no entanto, foram Rezende, e o Barão de Serra Negra.
implantados, efetivamente, doze Assim, a empresa instalou-se à
engenhos centrais no país. margem direita do rio Piracicaba,
Em Piracicaba, aproveitando- visando o aproveitamento da água
se dos subsídios concedidos pela para movimentação de máquinas.
Lei imperial 1.237, foram criados O Engenho Central entrou,
dois empreendimentos desse tipo oficialmente, em operação, em

28 Dedini 85 anos

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1883, e, até o final dos anos 1920, cuja sede era em Paris, possuía,
foi a maior e a mais importante também, unidades produtivas
indústria da região. Era prati- em outros locais.
camente auto-suficiente, pois, O Engenho Central de
além, do processamento indus- Piracicaba, possuía vários alquei-
trial, cuidava da produção e do res de terra no entorno, que,
transporte de sua matéria-prima. mais tarde, foram incorporados
Todos os equipamentos e ma- ao bairro da Vila Rezende. Seu
teriais necessários a seu funcio- primeiro gerente foi Holger
namento foram importados da Jensen Koch, substituído por Os engenhos
França, fabricados pela Brissonneau Daniel Rinn. Posteriormente,
Frères & Companie, de Nantes. outros profissionais dirigiram o centrais tornaram-se
A cana era fornecida pelas empreendimento, a maioria deles agentes de mudança
fazendas do Barão de Rezende, de nacionalidade francesa.
na tradicional indústria
incorporadas ao patrimônio da Esses administradores
usina. Para seu transporte, foram introduziram novas tecnologias açucareira brasileira. Pro-
construídos quinze quilômetros e importaram equipamentos moveram maior utilização
de linha férrea, das lavouras até o modernos, contribuindo para o
das estradas de ferro e do
interior da fábrica. Os trens saíam desenvolvimento da produção
do Engenho, percorriam a chama- de açúcar e álcool no Brasil. trabalho livre, incentivaram
da “avenida dos bambus” (hoje, Em 1884, o Engenho a substituição da tração
avenida Maurice Allain), trafegan- Central de Piracicaba produziu
animal pelo uso do vapor
do paralelamente aos trens da Cia. 30 000 arrobas de açúcar, en-
Sorocabana, em direção à estação quanto todos os outros estabe- como força motriz, e
Barão de Rezende. lecimentos existentes no estado introduziram equipamen-
Desde sua criação, o Enge- de São Paulo, somados, fabri-
tos mais avançados na
nho Central enfrentou muitas caram, apenas, 16 000 arrobas.
crises, que exigiram várias Naquela época, o produto per- fabricação do açúcar.
reestruturações societárias, dia terreno para o café e havia
com diferentes denominações: muitos engenhos desativados,
Empresa do Engenho Central (1881), chamados “de fogo-morto”.
Niagara Paulista (1891), Societé O Engenho Central reativou a
de Sucrérie de Piracicaba (1899) e, produção açucareira e devolveu
finalmente, Societé de Sucrérie a Piracicaba a posição de centro
Brésilienne (1907). Esta última, tradicional nessa fabricação.

a força de um ideal 29

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Crise nos engenhos
No final dos anos 1800, os no estado de São Paulo, adqui-
engenhos centrais começaram a ridos pelos próprios franceses
entrar em crise. Os diversos estu- que os montaram. Dessa forma,
dos sobre as causas desse fracasso surgiu, no início do século XX,
apontam a retração do mercado a Cia. Sucrèrie Brésilienne, que se
internacional, os problemas com transformou na maior produtora
o fornecimento de cana, a falta de de açúcar de São Paulo.
planejamento nos transportes e no
emprego de capitais. Eles sofreram,
Tempos de mudança
também, com a inexperiência de
muitos administradores, com a di- De qualquer forma, ao tentar
ficuldade de substituição de peças reduzir os custos de fabricação
dos maquinários, e a deficiência de com a introdução de novas técni-
mão-de-obra especializada para cas no setor, decretava-se o fim dos
realizar os reparos necessários velhos engenhos: eles acabaram
nos equipamentos. feridos de morte pelo emprego do
Além disso, o desinteresse vapor como fonte de energia. As
de fornecedores, que preferiam novas moendas podiam processar
produzir aguardente, ou mesmo maiores quantidades de cana, ex-
açúcar pelos velhos métodos, e traíam grandes volumes de caldo,
o custo excessivo representado e obrigaram a reformulação dos
pela aquisição de lenha para as métodos tradicionais de fabricação.
caldeiras, que, muitas vezes, era Nessa época, alguns engenhos
consumida em volume quase evoluíram e transformaram-se
equivalente ao da cana moída, em usinas. Outros limitaram-se a
contribuíram para a derrocada eliminar as fornalhas tradicionais
do modelo proposto. – os bangüês –, que lhes davam o
Em sua maioria, esses estabe- nome, adotando, quando muito,
lecimentos acabaram arremata- o processo a vácuo e as turbinas,
dos pelos próprios fornecedores ficando na metade do caminho do
de equipamentos, ou por seus desenvolvimento tecnológico.
prepostos, como aconteceu com As novas indústrias assim
os engenhos centrais de Piracica- constituídas também utilizavam
ba, Porto Feliz, Rafard e Lorena, a matéria-prima proveniente de

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seus próprios canaviais, o que junto ao Banco Real de São Paulo,
Fazenda Monte Alegre, em 1845, as tornava mais independentes suas instalações foram remode-
onde foi instalado um engenho
central que se transformou, mais do fornecimento de terceiros. ladas, transformando o velho
tarde, em usina Com o tempo, a essas novas engenho em uma usina que, em
unidades, denominadas “usinas 1910, foi incorporada à Sociedade
de açúcar”, somaram-se outras, Anônima Refinadora Paulista S. A., de
de iniciativa privada, tanto no propriedade da família Morganti.
Nordeste, que concentrava a Mais tarde, durante a década de
maior parte da produção brasi- 1920, o estabelecimento teria gran-
leira, como em São Paulo. de expansão, tornando-se um dos
Aproveitando a política gover- maiores complexos agroindustriais
namental de incentivo à produção do açúcar do estado de São Paulo.
açucareira, outro Engenho, o de A pesquisadora Eliana Tadeu
Monte Alegre, foi modernizado Terci destaca que a modernização
e teve sua capacidade industrial da arcaica estrutura produtiva
aumentada, em fins do século da indústria açucareira, com o
XIX. Com financiamentos obtidos advento dos engenhos centrais

a força de um ideal 31

Iniciais 31 11/4/05, 16:45


e das usinas, desencadeou um pro- Santa Francisca. O estabelecimento,
cesso de transformações técnicas, chamado, mais tarde, de Arethuzi-
econômicas e sociais no município na, foi, posteriormente, adquirido
de Piracicaba. As usinas, embora por outros empreendedores e, em
mantivessem as fases de produção 1918, transformou-se na Cia. Agrí-
dos engenhos, modificaram o cola e Industrial Boyes, controlado por
processo de fabricação, adotando, empresários de origem inglesa.
além de profissionais mais especia- Outra agroindústria, com
lizados, novo padrão técnico e de mentalidade mais moderna,
controle administrativo. surgiu, ainda, em Piracicaba, em
A partir de 1889, o açúcar 1911: a usina Capuava, fundada pelo
começou a perder gradativamente empresário Cristiano Mathiessen,
posições nas exportações brasi- de origem dinamarquesa. Com
leiras, e o setor foi abalado por orientação técnica avançada
uma série de desequilíbrios entre a para a época, já possuía, em 1921,
oferta e a demanda. Mesmo com lavouras de cana mecanizadas,
a crise, em 1896, o município de prática, então, pioneira. Três anos
Piracicaba era, ao lado de Capivari, depois, foi implantada ao lado do
o maior fabricante de açúcar do estabelecimento uma unidade
estado, cabendo a Santa Bárbara de produção de gás carbônico, a
o primeiro lugar em aguardente. partir da fermentação do caldo
Por outro lado, observa-se que, da cana, fato inédito no Brasil. A
mesmo em seus tempos áureos, o fabricação de açúcar foi parali-
café não chegou a alcançar grande sada em 1945, quando a empresa
destaque na região. deixou de ser familiar para trans-
No final do século XIX, a formar-se em sociedade anônima.
cidade de Piracicaba beneficiou- Prosseguiu, entretanto, fabricando
se, também, do dinamismo de aguardente e, também, gás carbô-
Luiz Vicente de Souza Queiroz, nico, a partir de óleo combustível,
precursor do processo de in- até os anos 1970.
dustrialização local. Em 1876, o
arrojado empresário empregou
Benefícios do café
seus capitais na instalação de
uma fábrica de tecidos, a partir Graças à breve passagem das
do algodão, à qual deu o nome de lavouras de café rumo ao Oeste, a

32 Dedini 85 anos

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cidade pôde, também, melhorar, até hoje em funcionamento: a
relativamente, o transporte fer- Costa Pinto, da qual os tiroleses se
roviário. Apesar de precários, os tornariam importantes fornece-
trens serviram para que as usinas dores de matéria-prima.
de açúcar pudessem escoar suas Observa-se que os dois tipos
produções durante muito tempo. de lavoura dominantes do cenário
O surto cafeeiro promoveu, piracicabano, no final do século
também, a vinda de imigrantes XIX e no início do seguinte, não
para trabalhar nas lavouras da apresentaram o aspecto de esva-
região (ver boxe p. 34). Geral- ziamento observado em outras
mente eram italianos que perma- áreas do país, quando entraram
neceram fiéis à sua origem rural. em decadência. A cana, respon-
Aproveitando o desmembramen- sável pelos primeiros desbrava-
to de grandes glebas de terras no mentos, só perdeu intensidade
interior do Brasil, conseguiram por volta de 1850. Cedeu espaço
tornar-se proprietários, a maioria apenas durante um curto período
fornecendo cana para os enge- ao café, instalado em Piracicaba
nhos centrais e usinas. por ocasião de sua passagem para
É o caso típico de Santana a região Oeste paulista.
e Santa Olímpia, dois bairros A explicação para este fato
rurais de Piracicaba, situados a é que os agricultores preferiram
doze quilômetros do centro da ampliar as lavouras de cana e
cidade, fundados em 1877 por aperfeiçoar os antigos engenhos,
tiroleses, imigrados do Trento, do que instalar novos maqui-
então território austríaco. Uma nários para o benefício do café.
dessas famílias, os Vitti, conseguiu Assim, durante a Primeira Guerra
adquirir uma fazenda que, a partir Mundial (1914-1918), quando São
de 1910, começou a ser dividida Paulo tornou-se importante pólo
entre seus descendentes. açucareiro, ameaçando a hege-
Com a crise do café, os tiro- monia de Pernambuco, então,
loses passaram a cultivar cereais, o principal estado produtor do
mas logo depois plantaram cana, Brasil, Piracicaba expandiu ainda
pois próximo dali, um pequeno mais a fabricação de açúcar e os
engenho de aguardente se trans- canaviais firmaram definitivamen-
formaria na maior usina da região, te seus domínios na região.

a força de um ideal 33

Iniciais 33 11/4/05, 16:45


CHEGAM OS IMIGRANTES
“Fazer a América” foi o sonho de muitos italianos que O percurso Itália-Brasil era feito em aproximadamente
deixaram a pátria a partir da segunda metade do século três semanas pelos navios a vapor. Em seu interior, reinava
XIX. Calcula-se que, de 1878 até os dias atuais, cerca de uma separação rígida entre a primeira, segunda e tercei-
um milhão e meio de pessoas daquele país estabeleceram- ra classes. Nesta última, onde o espaço era mais precário,
se no Brasil. O fenômeno concentrou-se mais entre 1887 a os viajantes passavam a maior parte do tempo no convés,
1902, quando o número de imigrantes ultrapassou a cifra de quando as condições climáticas permitiam. A superlotação,
900 000 indivíduos. a pouca variedade de alimentos e a higiene precária po-
diam provocar a difusão de doenças.
A Itália vivia, então, após a unificação de seu terri-
tório, momentos de modernização no campo, principal- A bordo desses navios estreitavam-se os laços de soli-
mente no Norte. Os agricultores ali estabelecidos, per- dariedade, embora houvesse dificuldades de comunicação,
seguidos pela grande pressão demográfica e castigados pois muitas pessoas falavam diferentes e incompreensíveis
por altos impostos, não conseguiam sobreviver, restan- dialetos. De qualquer forma, a ansiedade, a preocupação
do-lhes como saída vender suas terras e trabalhar para com o futuro e a esperança de encontrar oportunidades na
os grandes proprietários rurais, ou então, nas indústrias nova pátria eram sentimentos comuns a todos.
emergentes no país. No Brasil, aguardava-se com ansiedade essa mão-de-
obra estrangeira que viria substituir os escravos, libertados
Para esses modestos camponeses, tornara-se impossí-
pela Lei Áurea, em 1888. Eles se dirigiram para vários pon-
vel praticar economia de subsistência, em função da unifi-
tos do país, desde o Nordeste até os estados do Sul, inclu-
cação monetária, do aparecimento do sistema fiscal nacio-
sive, na Amazônia; mas foi em São Paulo onde se estabele-
nal e de um tímido movimento de capitalismo agrário.
ceram 70% dos recém-chegados.
Por isso, a alternativa de imigração era uma oportunida-
Para recebê-los, foi criada, na Capital, uma hospeda-
de para essas pessoas melhorarem de vida, trabalhando em
ria que podia abrigar 1 200 pessoas, mas teve de acolher,
locais onde pudessem aproveitar a experiência já adquiri-
em determinados momentos, até 6 000 imigrantes. Ali eles
da. E principalmente nas lavouras do Brasil, que, então, ne-
eram registrados, recebiam refeições e aguardavam trans-
cessitavam de grandes contingentes de mão-de-obra para
porte ferroviário para as fazendas do interior.
sua expansão.
Nessas propriedades, que viviam o apogeu do ciclo do
Dessa união de interesses, estabeleceu-se um intenso café, famílias inteiras eram contratadas. Somente parte do
fluxo migratório entre os dois países, estimulado por inten- pagamento era feita em dinheiro (proporcional ao núme-
sa propaganda efetuada pelos agentes das companhias de ro de plantas que os agricultores cuidavam); o restante era
navegação. Muitas vezes, estes acenavam com falsas pro- representado pela permissão de criar animais e cultivar pe-
messas de enriquecimento rápido e de liberdade, contan- quenas lavouras de subsistência. Dessa forma, muitos italia-
do maravilhas sobre a nova terra. nos trabalharam arduamente e conseguiram juntar econo-
Aos imigrantes italianos apresentavam-se, de imediato, mias para adquirir suas próprias terras.
duas possibilidades: trabalhar nas fazendas de café ou nas Outros preferiram encarar os desafios dos centros ur-
colônias de povoamento nas áreas de fronteira. Mais tarde, banos, preenchendo vazios no mercado de trabalho com
quando decidiram transferir-se para os centros urbanos, os a prestação de serviços e, principalmente, na indústria.
imigrantes desempenharam importante papel no desenvol- Quem soube aproveitar as oportunidades e contou com
vimento do setor industrial e de serviços. um pouco de sorte, conseguiu amealhar verdadeiras for-

Iniciais 34 11/4/05, 16:45


Presença italiana em Piracicaba: artistas do
Circolo Drammatico Italiano “Vittorio Alfieri”,
fundado por Giuseppe Campagnoli, em 1897,
que faziam recitais e espetáculos na cidade

tunas, conquistando rapidamente posições importantes na Sua trajetória não difere muito da de tantos outros
dinâmica e flexível sociedade da época. cidadãos italianos decididos a “conquistar a América”.

Assim, até 1915, registrou-se uma forte preponderância Proveniente da distante Lendinara, na região vêneta,

de mão-de-obra rural e núcleos com baixo nível de escola- chegou em momento favorável para o progresso e a as-

ridade. A partir de então, acentuou-se a vinda de indivíduos censão social. Ele soube, como alguns de seus compa-

sozinhos, com alguma especialização, como pedreiros, ope- triotas, aproveitar as oportunidades e escrever uma his-

rários de fábricas. Nessa época, desembarcou no Brasil o tória pessoal de sucesso, repleta de criatividade, esforço

italiano Mario Dedini (1893-1970). e espírito empreendedor.

Iniciais 35 11/4/05, 16:45


Em 1905 quase metade dos
habitantes de Piracicaba era de
origem italiana e portanto, essa
foi a influência mais forte

Capitulo1 36 11/4/05, 16:45


CAPÍTULO 1

A industrialização
em Piracicaba
“Pátria é todo lugar que o homem forte
escolhe para morada.”
Quinto Cúrcio, escritor romano, no século I.

E
m Piracicaba, ocorreu o casamento perfeito entre a agricultura
e a indústria, uma sendo, ao mesmo tempo, causa e efeito da
outra, convivendo, quase sempre, em simbiose econômica. Essas
atividades progrediram e se retraíram inúmeras vezes, influenciadas por
estímulos externos, nacionais ou mundiais do mercado açucareiro, sujei-
to a freqüentes desequilíbrios. Até mesmo a mais antiga fábrica da cidade,
a Arethusina (mais tarde, Boyes), também fazia parte dessa integração, pois
tecia o algodão para confecção das sacas que embalavam o açúcar.
As atividades agroindustriais ligadas à cana-de-açúcar, principal
força econômica da região, determinaram o aparecimento de diversas
empresas no município para atender suas demandas. No início do
século XX, além do Engenho Central de Piracicaba e o de Monte Alegre, havia
a usina Capuava, em funcionamento desde 1911.
A princípio, as usinas piracicabanas possuíam oficinas próprias para
Equipamentos Dedini para
usina de açúcar, nos anos 1940 reparo dos equipamentos, mas, ao longo do tempo, com a expansão
açucareira, tal prática tornou-se inviável, proporcionando condições
para o surgimento de novos empreendimentos, com a criação de
oficinas especializadas destinadas à sua manutenção.
Dessa forma, surgiu em Piracicaba um mercado consumidor cativo,
representado pelos engenhos e usinas. Por decorrência natural, a indústria

a força de um ideal 37

Capitulo1 37 11/4/05, 16:46


açucareira passou a solicitar servi- em sua bem aparelhada fundi-
ços de reparos das oficinas mecâni- ção. Esses industriais pioneiros
cas e metalúrgicas já instaladas na destacaram-se pelo exemplo de
cidade, operadas, na maioria, por iniciativa empresarial, deixando
imigrantes, com capitais próprios e um importante legado técnico e
com pessoal por eles treinados para profissional. Nos anos 1940, seus
realização dos trabalhos. descendentes venderam algumas
No início do século XX, a máquinas e equipamentos à
empresa de maior expressão em Dedini e dedicaram-se, apenas, à
Piracicaba era a Krähenbühl, fundada comercialização de implemen-
por suíços, em 1870. Reunia tos agrícolas.
serraria e carpintaria a vapor, uma O restante da indústria local
fundição de bronze, mecânica, constituía-se de pequenas ofici-
ferraria, serralheria e depósito de nas mecânicas, como a de João
ferro, onde fabricavam fogões e Martins (1900), a Funilaria Vesuvio,
arados, além de se encarregarem de Victorio Furlani (1907), e a
da “importação de maquinismos Teixeira Mendes & Cia. Dedicavam-
para a lavoura e indústria, me- se aos consertos de máquinas e
diante comissão razoável”. implementos agrícolas e alguns,
A empresa, pioneira também, fabricavam veículos
na produção de carroças e de tração animal, que se
carros de tração animal, constituíram, durante
fornecia para várias muito tempo, grandes
regiões do estado de vetores do desenvolvi-
São Paulo. Com o mento. Neles se transpor-
advento dos veícu- tavam os mais diversos
los a motor, produtos, como álcool,
porém, foi aguardente e gêneros
obrigada a alimentícios. Eram,
mudar seu ainda, utilizados
foco de para conduzir
atuação, as pessoas em
passando diversas ocasiões,
a fabricar para todos os
fogões e arados lugares.

38 Dedini 85 anos

Capitulo1 38 11/4/05, 16:46


Normalmente, a fabricação e manutenção de tais veículos era uma
Carroças utilizadas no transporte
atividade familiar. Os empregados fixos eram raros, só contratados de açúcar no século XIX
quando aumentava a demanda, muito influenciada pela expectativa das
safras agrícolas. Para atender às encomendas, maiores no mês de maio,
os empresários adiantavam o preparo de alguns componentes. As peças
eram adquiridas de caixeiros-viajantes e chegavam à cidade por via férrea.
Geraldo Hasse (1996) descreveu em detalhes a confecção dessas
carroças: as molas eram feitas na marreta. Nas pontas em que se encaixam
as rodas, o eixo, originalmente quadrado, era malhado na bigorna até ficar
redondo. Emendava-se, então, o aro da roda por caldeamento. A solda
com eletrodo foi uma inovação implementada mais tarde, apenas, a partir
de 1950 e, mesmo assim, nem todos os ferreiros conseguiram adotá-la.

a força de um ideal 39

Capitulo1 39 11/4/05, 16:46


Na estruturação do madeira- de caminhão. Em Piracicaba, já
me, o segredo estava na fabricação conhecida como a “capital do
dos cubos, feitos preferencial- açúcar”, no entanto, uma dessas
mente de madeira mais resistente. modestas oficinas evoluiu de
Desse material, eram feitos os forma muito diferente de tantas
varais, corrimão e fueiros. Para outras existentes na época.
completar as rodas, eram cortadas Adquirida em 1920, pelos
as cambotas (seções curvas das irmãos Mario e Armando Cesare
rodas) com serra-fita, de acordo Dedini, esta oficina passou, logo
com moldes apropriados à altura depois, a fornecer peças de repo-
de cada carroça. Os carrinhos sição para os inúmeros engenhos
comuns tinham rodas com 1,30 existentes na região. Desmon-
metro de diâmetro. A linha de tando-as, desenhando e mode-
montagem terminava com a lando-as, conseguiu-se, em 1929,
confecção da caixa de carga, que construir um conjunto completo
era, geralmente, decorada com para moagem de cana-de-açúcar.
pinturas pelo artesão. Ao longo do tempo, o
pequeno estabelecimento trans-
formou-se em uma empresa de
A Oficina Dedini
porte, sempre de caráter familiar
No interior do país, a produ- e genuinamente nacional. Diver-
ção de carrinhos, sificou sua produção, acumulou
carretas, carroças, vantagens competitivas, soube
carroções, aproveitar as oportunidades
charretes, trolleys de mercado, e tornou-se, nos
e semitrolleys só anos 1950, líder na produção de
perdeu o vigor equipamentos para o setor sucro-
a partir dos alcooleiro, posição que ocupa até
anos 1960, com os dias atuais, apesar das incerte-
o advento da zas da economia brasileira e das
indústria au- inúmeras crises que foi obrigada a
tomobilística. Nessa enfrentar ao longo do tempo.
época, a maioria das oficinas Tudo começou em meados
fechou. Outras transformaram- de 1920, quando Mario Dedini
se em fábricas de carrocerias chegou de charrete, com seu

40 Dedini 85 anos

Capitulo1 40 11/4/05, 16:46


cunhado Bepe Corrente, ao para serem descontados de seus
bairro da Vila Rezende, reduto pagamentos futuros.
dos imigrantes italianos (ver boxe Após as negociações e
p. 42), para verificar a situação da formalizada a venda no tabelião
oficina de ferraria e carpintaria que por sete contos de réis, Armando No bairro da
José Sbravatti queria vender. Nela, Cesare assumiu o comando do
consertava e fabricava veículos de negócio, enquanto o irmão Mario
Vila Rezende, em
tração animal, como trolleys, tílbu- continuou trabalhando na usina Piracicaba, uma pequena
ris, carroças, carroções, charretes Santa Bárbara durante certo tempo; oficina de ferraria e
e alguns equipamentos agrícolas, conseguia, no entanto, ser libera-
como bicos de arados e grades. do às sextas-feiras para auxiliar no carpintaria evoluiria de
O estabelecimento funciona- trabalho em Piracicaba. forma diferente das
va em um prédio alugado, com Devido à presteza e quali-
outras e tornaria-se, ao
400 metros quadrados, situado dade dos serviços e à localização
à avenida Conceição 3, 5 e 7, e, estratégica da oficina, em longo do tempo, o mais
na época, havia oito pessoas ali uma rua pela qual passavam importante complexo
trabalhando. Compunha-se obrigatoriamente os veículos
industrial da cidade.
de uma seção de carpintaria e que transitavam pelo bairro da
ferraria, e possuía torno mecâ- Vila Rezende em direção à zona
nico inglês, serra de fita, rebolo, rural, os clientes não paravam de
esmeril, motor elétrico de 3 hp, chegar. Em 1922, a oficina passou
máquina para aplainar madeira, a chamar-se Mario Dedini & Irmão,
máquina para perfurar e outra com capital elevado para dez
para prensar ferro. contos de réis. O objeto social da
O preço pedido inicialmente empresa era, então, “explorar
pela oficina era de oito contos o fabrico de veículos em geral,
e quinhentos mil réis, mas máquinas agrícolas e outras, e
Mario Dedini só possuía três vendas a varejo”.
contos. Juntando a poupança de
quinhentos mil réis do irmão
Atendimento nos
Armando Cesare, faltavam,
engenhos
ainda, cinco contos de réis,
emprestados pelo seu patrão Luiz Dessa forma, com o cres-
Lombardi, da usina Santa Bárbara, cente aumento das encomendas,
onde o jovem Mario trabalhava, Mario resolveu afastar-se da

a força de um ideal 41

Capitulo1 41 11/4/05, 16:46


A VILA REZENDE NOS ANOS 1920
A Vila Rezende pode ser considerado o bairro mais antigo Os veículos de tração animal eram também muito im-
do município. Aos poucos, deixou suas características rurais, portantes no começo do século XX, transportando bens
para tornar–se urbanizado, principalmente, com a chegada e passageiros. Aos sábados, domingos e feriados, por
dos imigrantes italianos, estabelecidos em peso naquela exemplo, o pátio da propriedade da família Valler, na
parte da cidade. Situado à margem direita do rio Piracica- avenida Santo Estevão, ficava repleto de trolleys, carro-
ba, era ligado ao centro, na década de 1920, por uma única ças e até carroções. Nas cocheiras, os animais recebiam
ponte, chamada de “nova”. Entre o rio e a avenida (hoje Rui cuidados e alimentação, enquanto seus proprietários,
Barbosa) serpenteava a linha férrea da Sorocabana. moradores da zona rural, aproveitavam para fazer com-
As vias que cortavam o bairro, sem pavimento, eram cha- pras e passear.
madas de avenidas, por serem mais largas que outras exis- O local mais bonito do bairro era, sem dúvida, o parque
tentes na cidade. Assim, por ocasião das chuvas, enchiam-se do Mirante, onde se contemplava as águas ainda límpidas
de barro e, na falta delas, ficavam cobertas por uma densa do Piracicaba despencarem no salto, formando ondas si-
nuvem de pó, que invadia casas e estabelecimentos comer- nuosas e levantando uma garoa fina que alcançava as mar-
ciais, causando inúmeras reclamações. gens. Nos meses chuvosos, o barulho da queda era tão alto
Em 1923, pelos jornais, os moradores cobravam do que impedia qualquer conversa. Era o lugar predileto dos
prefeito municipal providências a respeito, solicitando casais de namorados.
que os livrasse “do flagelo horrível e pestilento da poeira O futebol era o esporte mais praticado na Vila, que che-
imunda, que tudo invade!”. O problema era amenizado, gou a ter várias agremiações como o Esporte Clube Ipiran-
precariamente, por um cidadão chamado Dominguinho, ga, a Associação Atlética Sucrérie, o Luzitano Futebol Clu-
que, várias vezes por dia, passava com sua carroça, jogan- be, o River Plate e o Atlético Piracicabano. Fiel à tradição
do água no leito das vias. italiana, havia, também, muitos adeptos do bocce, cujos
O principal meio de transporte público, naquela épo- praticantes misturavam, em seus diálogos, palavras dos
ca, eram os bondes, que passavam com intervalos de dois idiomas, português e italiano.
quarenta minutos. Enquanto esperavam, os rezendinos Nas casas do bairro da Vila Rezende, não faltava mú-
aproveitavam para colocar a conversa em dia e saber as sica. O rádio estava começando, mas muitas famílias pos-
novidades. Os jovens mais afoitos e corajosos especiali- suíam precários gramofones. Além disso, muitos morado-
zaram-se em uma “aventura”: descer do bonde em movi- res tocavam instrumentos musicais: os sons dos violões,
mento. Alguns o faziam com grande facilidade, descendo cavaquinhos, violas, bandolins e flautas enchiam as ruas
tanto de frente como de costas. de alegria nas serenatas noturnas. O bairro teve até uma
No grupo que fazia a façanha “com graça e estilo e cora- orquestra formada por jovens, organizada pelo pároco da
gem” havia muitas moças, como a jovem Ada, filha de Ma- igreja da Imaculada Conceição, o padre italiano Julião Ca-
rio Dedini, e Janeth, conhecida como a “francesinha”, filha ravello, que era um músico nato.
de Jean Joseph Morlet, técnico francês de destilarias, que Outro orgulho do bairro era a Corporação Musical União
morou durante algum tempo na Vila Rezende. Já os garo- Operária, fundada em 1906, que durante anos a fio esteve
tos, mais travessos, divertiam-se de outra forma: passavam presente em todas as cerimônias e eventos importantes de
sabão nos trilhos para ver o bonde “escorregar”. O que de Piracicaba. O escritor Alcides Aldrovandi, cujo pai foi “pre-
fato acontecia. O motorneiro tinha, então, de jogar areia nos sidente” da banda durante muitos anos contou em seu li-
trilhos para restabelecer o tráfego. vro (1991) que era praxe, no feriado de 1º de Maio, o Dia do

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Margens do rio Piracicaba no início do século XX. Ao
fundo, o bairro da Vila Rezende

Trabalho, os músicos “fazerem a alvorada”, percorrendo as trechos de livros para um grupo de vizinhos semi-analfabe-
casas das principais autoridades da cidade. tos, mas com grande curiosidade e interesse para conhecer
A primeira parada era, invariavelmente, em frente à resi- os romances famosos.
dência do patrono e mentor da banda União Operária, Ma- A Vila Rezende tinha vida própria e foi, ao longo do
rio Dedini. Até hoje, os músicos conservam essa tradição, tempo, desenvolvendo-se, juntamente com as indústrias
tocando neste dia, bem cedinho, para seus descendentes. Dedini. Muitas das famílias que ali viviam tinham, porém, o
Naquele longínquo bairro da cidade do interior, aconte- sonho de atravessar a ponte sobre o rio e galgar uma me-
ciam verdadeiros saraus literários: na residência de Alberto lhor posição na sociedade. Os sinais mais visíveis dessa es-
Bergamin, que trabalhava na Oficina Dedini, reuniam-se, calada eram quando conseguiam ganhar o suficiente para
de tempos em tempos, cerca de dez a quinze pessoas, na que seus filhos prosseguissem os estudos e para construir
maioria casais, muito compenetrados, para sessões de lei- uma residência no centro da cidade, onde habitavam as
tura. Ali o membro mais velho, João Bosni, lia, em voz alta, pessoas mais influentes.

Capitulo1 43 11/4/05, 16:46


usina Santa Bárbara, ainda, du- atividade, ou então, recorrendo
rante os anos 1920, para auxiliar a empréstimos dos empresários
o irmão, sobrecarregado de ligados à produção açucareira.
trabalho. Naquela época, eles Todos tinham interesse em
perceberam que poderiam auxiliar os irmãos Dedini, devido
partir, também, para consertar à inexistência de profissionais
algumas peças mais simples dos capacitados à tarefa de prestar-
numerosos engenhos de açúcar lhes assistência técnica.
e de aguardente existentes na re- Inicialmente, os dois irmãos
gião, cujos proprietários sofriam residiam em uma casa vizinha à
para obter material de reposição oficina, pequena e desconfortável,
que, muitas vezes, tinha de e trabalhavam ao lado de seus
ser importado, obrigando-os a primeiros empregados. Armando
paralisar suas atividades. Cesare casou-se com Stella
Surgia, assim, um interes- Biondo (1900-1968), com quem
sante mercado para a Oficina teve cinco filhos (Emilia Helena,
Dedini, que logo se viu obrigada Leopoldo, Ermelinda, Iracema e
a aumentar o número de fun- Edna). O segundo filho do casal,
cionários, e, ao mesmo tempo, Leopoldo, nasceu na usina Ester,
adquirir mais máquinas, com onde seu pai estava trabalhando
Escritura de compra da Oficina
Dedini, em 23 de agosto de 1920 os lucros advindos da própria por certo período, fazendo repa-
ros nos equipamentos.
Mario Dedini chegara da
Itália por volta de 1914 (ver boxe
p. 43). Após passar algum tempo
em Santa Rosa de Viterbo (SP),
entre outros imigrantes italia-
nos, conseguiu, por meio deles,
obter um emprego em uma
usina de açúcar que começara
a se instalar em Santa Bárbara
(SP), e levava o nome da cidade
(hoje Santa Bárbara D’Oeste).
Pouco tempo depois, anima-
do com a nova pátria, mandou

44 Dedini 85 anos

Capitulo1 44 11/4/05, 16:47


chamar o irmão Armando Cesare, encarregado, apesar de não ser
que necessitou de uma autoriza- engenheiro. Mais tarde foi pro-
Grupo de funcionários pioneiros
da Oficina Dedini, por volta ção especial para viajar, pois era, movido a chefe geral, receben-
de 1920. Da esquerda para a ainda, menor de idade. Ele veio do, sempre, melhores remune-
direita: Virginio Rizzoto, Guido
Spessotti, Angelo Rizzolo, acompanhado da irmã Clementi- rações, à medida que acumulava
Eugenio Daniotti, Ledemar na, casada com um dos membros mais funções e responsabilida-
Castellani, Dante Cardinalli,
João Stockmann, Armando
da família Rossin, que também se des. Mesmo depois de desligar-se
Cesare Dedini, Angelo Sega, estabeleceria no Brasil. da usina Santa Bárbara, ao montar
António Baroni, Amador (?),
João Daniotti (na fresta da
Enquanto Armando Cesare seu próprio negócio, Mario
porta) e Desiderio Pescarim instalou-se na cidade de Pirajuí continuou, durante vários anos,
(SP) como ferreiro, Mario prestando assistência técnica
participou da montagem da àquela empresa.
usina Santa Bárbara, cujos equi- Ao que parece, nos primeiros
pamentos eram importados da tempos, era comum os irmãos
França. Logo dominava a técnica Dedini se deslocarem para fazer
de fabricação e tornou-se seu serviços no campo. Segundo

a força de um ideal 45

Capitulo1 45 11/4/05, 16:47


bom momento no estado de São
Paulo, e, conseqüentemente, em
Piracicaba, importante região
produtora. O crescimento teria
sido ainda maior, não fosse a
ocorrência de grave doença nas
plantações, o chamado “mosai-
co”, que, naquela época, dizimou
muitos canaviais brasileiros. O
problema foi contornado, porém,
graças ao importante trabalho
realizado na Estação Experimen-
tal existente na cidade, onde foi
Mario Dedini (segundo da relato de Jovelino Furlan ao desenvolvida uma variedade
esquerda para a direita) e seus
companheiros na usina Santa médico e escritor Alcides Al- conhecida como cana javanesa,
Bárbara, na cidade paulista de drovandi (1991), eles cuidavam ou POJ, resistente à moléstia.
mesmo nome, nos anos 1920
da manutenção do engenho de Piracicaba foi a primeira
pinga na Fazenda Santo Antonio, localidade a proceder à substitui-
de propriedade da sua família. ção das lavouras afetadas. Além
Enfrentando dificuldades para de ser resistente ao “mosaico”, a
vender sua cachaça, os Furlan nova variedade era mais rica em
resolveram montar um moinho sacarose, e enfrentava melhor
de fubá movido a força hidráuli- as geadas, contribuindo, assim,
ca. Quando as pedras do moinho para aumentar a produtividade.
ficavam lisas, Mario vinha Graças a essas vantagens, expan-
“picoteá-las”. Por muito tempo, a diu-se rapidamente para outras
família guardou como lembrança regiões do estado.
a alavanca de ferro por ele utili- Dessa forma, no período de
zada para fazer esse serviço. 1925-1926 a 1928-1929, a produção
de açúcar em São Paulo cresceu
seis vezes, atingindo quase um
Doença nos canaviais
milhão de sacas (de sessenta
Quando Mario Dedini se quilos). Mesmo assim, não se
estabeleceu na Vila Rezende, conseguia atender à demanda
a lavoura açucareira vivia um do mercado interno, avaliada

46 Dedini 85 anos

Capitulo1 46 11/4/05, 16:47


MARIO DEDINI: UMA VIDA DEDICADA AO
TRABALHO, À FAMÍLIA E À COMUNIDADE
Mario Dedini nasceu em 23 de setembro de 1893, na pe- Assim, Mario Dedini embarcou, sozinho, no navio Prin-
quena Lendinara, situada ao norte da Itália. Os primeiros cipessa Elena, em Gênova, com destino ao porto de
habitantes da vila, repleta de histórias e glórias de Santos. Tinha apenas 21 anos e muita vontade
um passado longínquo, foram os sobreviven- de vencer. Viajava com simplicidade, mas
tes da Guerra de Tróia. Mais tarde, ficou não em condições precárias, como
em poder dos romanos. Foi domina- vieram tantos imigrantes. No bol-
da, também, pelos austríacos por so, carregava o dinheiro para a
muito tempo. Essa cidade vêneta passagem de volta, caso não
denominada a Atena do Pole- acostumasse na nova pátria.
sine, banhada pelo rio Adige,
Ao chegar no Brasil, Ma-
hoje com 13 000 habitantes,
rio Dedini foi, inicialmen-
viveu seu apogeu durante a
te, para a usina Amália,
República de Veneza.
em Santa Rosa de Viterbo
Foi ali que Mario Dedini (SP), do grupo Matarazzo.
cresceu, cercado da família: Segundo relato de Ottilia
os pais, Leopoldo e Amalia, e Furlan Dedini, em setem-
os irmãos (Clementina, Palmira bro de 2005, havia, na épo-
e Armando Cesare). Era, ainda, ca, muitas dificuldades para
quase criança, quando resolveu arrumar emprego, e, por isso,
ser mecânico, pois preferia, muito nos primeiros tempos de Brasil,
mais, sujar as mãos de graxa, lidando o jovem imigrante não recusou
com máquinas, do que de terra, cuidan- nenhum serviço, até lenha cortou.
do da lavoura. Sua vocação para consertar máquinas,
Contrariando a vontade do pai, Leopoldo, porém, logo foi descoberta pelo gerente
que preferia vê-lo trabalhando ao lado dos irmãos no da usina, Ferrucio Silviero.
campo, montou uma pequena oficina nos fundos da casa, Este senhor, competente profissional e especialista em
onde consertava máquinas e implementos agrícolas da fa- cozimento de açúcar a vácuo, o encaminhou, então, para a
mília e dos vizinhos. Estudou desenho mecânico na Escola usina Santa Bárbara, em fase de montagem, em Santa Bár-
Técnica da cidade e, ao que consta, teria trabalhado, tam- bara D’Oeste. Enviou, antecipadamente, um telegrama com
bém, um certo tempo, na usina de açúcar de beterraba ali a mensagem: “Segue o Mario”. O encarregado de recebê-lo
instalada, uma das maiores da Itália. na estação foi Adolfo Lourencini, que havia conhecido Mario
Diante da instabilidade econômica e política reinante Dedini na infância, ainda no país natal.
na Europa e ameaças da guerra iminente, a família confor- Segundo depoimento de Vidal Florindo Lourencini, em
mou-se com sua vinda para “fazer a América” no início da 1991, seu tio Adolfo, no entanto, não distinguiu o amigo do
década de 1910. Antes da partida, sua mãe, Amália, teria passado entre os passageiros que desembarcaram na esta-
jogado uma moeda para o alto: dependendo do resultado, ção ferroviária de Santa Bárbara. Seguiu pelo caminho da
ele se estabeleceria na América do Norte ou na do Sul. A usina até encontrar o hóspede mais adiante, andando a pé
sorte decidiu pela segunda. pela estrada, carregando sua mala.

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Após breve diálogo em italiano e um abraço efusivo, quan- Retrato de família: Mario Dedini, sua mãe, Amalia, e a segunda
esposa, Ottilia, com netos (sentados). De pé, da esquerda para
do se reconheceram, Lourencini levou Mario até sua casa,
a direita: sua filha Ada e o marido Dovilio Ometto; os filhos
onde ele residiu durante algum tempo. Mais tarde, o jovem
Armando e Nida (com o marido Arnaldo Ricciardi)
instalou-se em uma pensão. Ali conheceu a cunhada do pro-
prietário, Mariana Corrente (1899-1928), chamada de a “More- Em depoimento de maio de 2005, a filha mais velha de
na”, que morava em Piracicaba, por quem se apaixonou e se Mario Dedini, Nida, relembra uma história que ouviu muitas
casou, em maio de 1918. Logo depois, ele chamou seu irmão vezes do pai: a persistência e o amor ao trabalho ajudaram-no
Armando Cesare (1897-1926) para estabelecer-se no Brasil. a impor-se diante dos novos patrões. Ele conseguiu, depois

Inicialmente, o trabalho de Mario Dedini era auxiliar os de muito empenho, colocar em funcionamento um equipa-

engenheiros franceses na instalação da usina que ali esta- mento desativado, apesar da descrença e das caçoadas dos

va sendo montada. Terminada essa tarefa, já dominava a colegas que o observavam, durante muitos dias, consertando

técnica de fabricação de açúcar de cana. Tão bem e tão e emendando, incansavelmente, as tubulações.

depressa que, quando se iniciou a Primeira Guerra Mun- Mario Dedini já desempenhava com competência suas
dial (1914-1918), e o então chefe da usina, Louis Cutieux, funções, quando recebeu um convite dos colegas para tra-
precisou voltar para a França, ele pôde assumir seu lugar. balhar em Cachoeiro do Itapemirim (ES). Segundo contam, o

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jovem teria recusado, comentando: “No, no, grazie. Preferis- recorda que, em um desses difíceis momentos, Mario Dedini
co stare qui, perche qui devo fare fortuna”. (Não, não, obri- precisou empenhar seu relógio para pagar seus funcionários.
gado. Prefiro ficar aqui, porque aqui vou fazer fortuna.)

Firme nessa decisão, Mario adquiriu, em agosto de O começo de tudo


1920, juntamente com o irmão, a oficina de José Sbravatti,
instalada nos fundos de uma casa pertencente a sua sogra, Durante a década de 1930, quando ocorreu a moderni-
no bairro da Vila Rezende, em Piracicaba. Começaram a tra- zação dos antigos engenhos, incentivada pelo Instituto Na-
balhar, inicialmente, no conserto de veículos e implementos cional do Açúcar e Álcool, Mario Dedini, hábil negociante,
agrícolas, depois na reforma e fabricação de equipamentos ofereceu condições favoráveis aos usineiros para troca de
e máquinas para usinas de açúcar. equipamentos, aceitando os usados como parte do paga-
mento, e entrando como sócio de vários empreendimen-
Quando uma epidemia de tifo levou seu irmão, Arman-
tos. Dez anos mais tarde, já vendia usinas de fabricação
do Cesare, em 1926, e dois anos depois, sua esposa, Ma-
própria e abria novas empresas. Assim, conseguiu amea-
rianna Corrente, Mario precisou de toda coragem para refa-
lhar grande fortuna.
zer a vida. Na Itália, foi buscar a mãe, Amália, já viúva, para
ajudar a criar seus três filhos: Nida, então com seis anos, Desse modo, o empresário atravessou a crise econômi-
Ada, com quatro, e Armando, com seis meses. ca de 1930 e, dez anos depois, já se permitia produzir usi-
A avó cuidou da educação das crianças e ensinou-os a nas completas. Seu sócio nesses empreendimentos, o filho
rezar na língua italiana, hábito que levaram pela vida. A filha de imigrantes Pedro Ometto, também enriqueceu e ficou
mais velha, Nida, que também contraiu tifo, e quase morreu conhecido como o “rei do açúcar”. Atualmente, a família
naquela época, relembra que, quando foi matriculada na Ometto é a maior produtora de álcool e açúcar do país.
escola, falava muito pouco o português, pois se comunica- Nos anos 1960, Mario Dedini separou-se de Ottilia Furlan.
va com sua avó somente em dialeto vêneto. Casou-se, então, na Bolívia, com Ignes Seghessi, que o acom-
Foram tempos muito difíceis. Quem conta é a piracicaba- panhou até o fim de seus dias. “Mario está sempre presente
na Ottilia Furlan Dedini, com quem Mario Dedini se casou em em minha vida, tenho a nítida impressão que está sempre ao
1938. Ela decidiu que não teria filhos, para criar os do marido. meu lado”, contou Ignes, em depoimento de setembro de
“Completamente sem experiência, tive de aprender a fazer 2005. “Até hoje faço suas comidas prediletas, como spaghetti
todo o serviço da casa, inclusive costurar roupas para a famí- alio e olio e ouço as óperas que ele tanto gostava.”
lia. Costumávamos, também, preparar lanches para o pessoal Homem simples e afável, Mario Dedini era sempre mui-
que trabalhava na oficina. Quando alguém se machucava, fa- to elegante; nunca saía sem o relógio no pulso e sem o
zíamos os curativos. Não tínhamos dinheiro para nada”. Ela se maço de cigarros da marca Petit Londrinus no bolso. Quan-

O filho de humildes camponeses italianos não se conformou com as difíceis


condições impostas pelo regime autocrático e pela rígida sociedade do seu tempo, onde um

pequeno número de proprietários de terras, de capital de crédito submetia uma vasta multi-

dão de homens que só contavam com os próprios braços para sobreviver. Espírito audacioso e

aventureiro, Mario Dedini deslocou-se da Itália para o Brasil para aqui implantar uma empresa

sempre pautada nos princípios da liberdade, valorização do trabalho e do espírito do dever.

(Depoimento da escritora piracicabana Myria Machado Botelho, em maio de 2005).

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do surgiram os problemas cardía- Em tempos de guerra, Mario
cos, chegou a parar de fumar por “Mario Dedini provou que Dedini também colaborou: por
conselho médico, mas já era tarde, ocasião da Revolução de 1932,
pois sua saúde estava irremedia- a vida se constrói do chão para apoiou a luta dos paulistas, fa-
velmente comprometida. bricando granadas de mão em
as alturas e a riqueza não demora
A tenacidade e engenhosida- sua oficina para serem doadas

de de Mario Dedini permitiram em casa, sem a severidade do ao exército revolucionário. Mais

que ele criasse, ao longo do tem- tarde, durante a Segunda Guer-


trabalho. Em vida, soube criar o ra Mundial, colocou à disposi-
po, um impressionante conglo-
merado empresarial: em 1987, hoje e o porvir, assim permitindo ção das forças aliadas sua in-

dezessete anos depois de sua dústria para produzir capacetes

morte, o grupo Dedini era, ainda,


que, no monumento que esta para soldados e peças (pés) para

o maior da cidade, com 24 empre- metralhadoras.


terra lhe ergueu em praça pública,
sas e 11 365 funcionários. O fatu- Muitas vezes, suas doações
ramento naquele ano foi de 282 se inscrevesse o aviso letreiro: extrapolavam os limites da ci-
milhões de dólares. Esse império dade: certa vez, atendendo ao
Contemporâneo da posteridade.
permitiu que Piracicaba se tornas- apelo do governo federal, Ma-
se um dos mais importantes pólos E, na verdade, esse gigante do rio Dedini desembolsou, no
de desenvolvimento da indústria anonimato, a quantia de quase
de base nacional.
insofreável surto de industrializa- dois milhões de cruzeiros para

Mario Dedini gostava de novi- ção do Brasil moderno foi só o que restaurar e adaptar o Palácio

dades tecnológicas. Apesar de ser Panphili Doria, que se transfor-


foi, porque assim deveria sê-lo.” maria na sede da embaixada do
o maior fabricante de moendas do
Brasil em Roma.
Brasil, não hesitou, nos anos em (Theobaldo de Nigris, em 18-12-
1960, em trazer da Alemanha um Paralelamente à sua brilhan-
sistema diferente – o difusor – ad- 1970, por ocasião da inauguração te trajetória, desenvolveu-se,
quirindo a licença de fabricação. também, a cidade de Piracica-
da herma em sua homenagem na
Ouvindo conselho dos especialis- ba, que passou, de modesto
tas, principalmente, da Escola de Escola do Senai, em Piracicaba). centro agrícola, a importante
Agronomia, foi pioneiro, também, centro industrial, em grande
na aplicação de vinhaça nas lavou- parte pelo mérito do filho ado-
ras de cana de sua propriedade, em vez de descartá-la nos tivo, Mario Dedini. Bairros inteiros, como a Cidade Jardim,
cursos d’água, como era, então, costume das usinas. surgiram com seu apoio. De seu bolso, saiu dinheiro para

A atuação mais expressiva de Mario Dedini, no entanto, alargar pontes, rasgar avenidas, construir o estádio de fu-

foi a extensa obra social realizada em benefício da comu- tebol, e, até mesmo, para resolver o problema do precário

nidade e a favor da cidade que adotou. Durante toda sua abastecimento de água da cidade.

vida, ele deu inúmeros exemplos de humanismo, criando Em 1960, a população, agradecida e reconhecendo o
e ampliando hospitais (como a primeira maternidade da extenso legado de seu cidadão benemérito, erigiu-lhe, na
Santa Casa de Misericórdia, que leva o nome de sua mãe, praça principal da cidade, um monumento em granito rosa,
Amalia Dedini), escolas (Vila Rezende), asilos (Oratório São obra do artista Luis Morrone. O grupo de três figuras es-
Mario, para os padres Salesianos), igrejas (como a da Vila culpidas em bronze mostra Mario Dedini ladeado por um
Rezende, réplica da existente na sua distante Lendinara), ferreiro e uma cortadora de cana, representando as duas
postos de puericultura, além de contribuir para inúmeras forças de trabalho que o auxiliaram a construir sua obra.
obras assistenciais. As honrarias e a grande manifestação de afeto recebidas

Capitulo1 50 11/4/05, 16:48


em vida, no entanto, nunca o fizeram esquecer do passado sua vida. “Tive o privilégio de conviver bastante com ele e
de operário humilde e modesto, nem sua origem italiana, à receber sua atenção. O nonno sabia ser, ao mesmo tempo,
qual permaneceu fiel até o final da vida. impositivo e gentil e valorizava muito as mulheres.”
Mario Dedini faleceu em 1970, de insuficiência cardíaca. Outra neta, Maria Beatrice, comentou, em entrevista
Sua última aparição pública tinha sido vinte dias antes, na aos jornais, que sempre lhe surpreendia o fato de que o
inauguração das novas dependências da loja Dedini, por avô, apesar da origem humilde, ter-se tornado um homem
coincidência, instalada exatamente no mesmo local onde, tão fino e educado, com grande cultura, que encantava a
cinqüenta anos antes, montara a oficina com seu irmão. todos. A essas palavras, o neto Mario Dedini Ometto com-
Seu cortejo fúnebre foi acompanhado por centenas de pleta, em depoimento de junho de 2005: “Meu avô tinha o
pessoas a pé, como tributo ao seu expressivo trabalho. Para dom de convencer cada um de nós, os netos, de que era
seus descendentes, Mario Dedini foi sempre uma presença seu predileto. Isto era o resultado de sua liderança natural.
marcante. A filha mais velha, Nida, guarda até hoje um con- Com essa idéia, nós crescemos”.
selho importante do pai: ”Seja trabalhador, organizado, ho- Mario Dedini tentou aposentar-se duas vezes. Na primeira,
nesto e sempre vencerás!”. disse à filha Nida que, para marcar o evento, deixaria de lado
Os netos, por sua vez, sabiam que a aparência autoritária o inseparável relógio do pulso. Embarcou, então, para a Itália,
e requintada do avô escondia um temperamento amoroso em uma longa viagem. Quando voltou, não gostou do rumo
e gentil, demonstrado freqüente- que suas empresas tomavam, e re-
mente na intimidade familiar, im- solveu reassumir. Continuou tra-
pondo respeito e contribuindo balhando por mais algum tempo,
para sua educação. O neto mais até sua saúde permitir.
velho, Marcos, lembra-se que, O seu escritório, no entan-
sistematicamente, Mario Dedini to, só foi desmontado após sua
recebia todos eles em seu escri- morte. Hoje, a sala foi restaurada,
tório, fazendo elogios ou censu- sendo cuidadosamente mantida
rando-os, quando preciso. Todos pelo neto, Mario Dresselt Dedi-
sabiam que aquela era a hora da ni, tornando-se uma espécie de
verdade: ninguém conseguia museu dentro da empresa. Em
esconder nada do avô. No final depoimento de abril de 2005,
do encontro, havia sempre uma “Malo”, como é conhecido, co-
mesa montada com aperitivos menta que o avô possuía três
para a confraternização. características marcantes: era
Juliana, uma das netas, re- visionário, pois antevia os fa-
corda-se, em depoimento de tos, idealista, pois lutava para
abril de 2005, que, certa vez, realizar seus sonhos e, princi-
uma amiga contou-lhe que palmente, um grande altruísta,
o pai costumava acordá-la, pensando sempre nos outros.
quando adolescente, dizen- É nesse exemplo de coragem
do: “Acorde, nessa hora o e determinação que ele e os
Mario Dedini já está há mui- outros descendentes de Mario
to tempo trabalhando na fá- Dedini procuram espelhar em
brica!”. Sua irmã, Cláudia, suas vidas.
também, confessou, em ju-
Monumento em homenagem a
nho de 2005, que o avô foi Mario Dedini na praça principal da
a figura mais marcante em Vila Rezende, em Piracicaba (SP)

Capitulo1 51 11/4/05, 16:48


52 Dedini 85 anos

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em 2,5 milhões de sacas. Com o abaixo do nível do chão, onde
aumento das vendas do produto, era feito o molde, e, a segunda,
foi possível diminuir a grande sobreposta à primeira, onde era
capacidade ociosa da indústria posta a outra metade do modelo.
açucareira paulista, observada em Para sua confecção, usava-se
anos anteriores. uma terra especial, de cor cinza
Na esteira desse desenvolvi- e de textura muito fina. Após a
mento, a pequena oficina expan- operação, a caixa era separada,
diu-se, tornando-se as Oficinas retirando-se a parte superior, e,
Dedini, passando por grande em seguida, o molde de madeira.
transformação qualitativa. Para Recolocada a parte superior,
atender à demanda das usinas já com orifício e canal ligado
da região, foram adquiridas a ao vazio da modelagem, a peça
fundição de ferro, equipada com era encaminhada para a etapa
um forno Cubillot, e algumas seguinte: a fundição. Essa fase
máquinas de segunda mão. Essa atraía até pessoas de fora. “Era
expansão era de interesse dos um verdadeiro espetáculo
empresários do setor, que se viam pirotécnico: os cadinhos de ferro
assistidos com mais presteza e derretiam, eram retirados do
rapidez, libertando-se das dificul- forno e levados para encher as
dades de importação de peças e caixas, explodindo em grande
das visitas esporádicas de técnicos número de estrelas”, escreveu
vindos de centros distantes. Aldrovandi em seu livro.
Como morador vizinho às O ferro fundido preenchia o
Oficinas Dedini, Alcides Aldrovan- volume vazio das caixas, mode-
di, já falecido, sempre foi muito lando as diversas peças encomen-
ligado à empresa. Ele conta em dadas. Após alguns dias, já resfria-
seu livro (1991) que a fundição, dos, os recipientes eram abertos,
instalada à avenida Salaz, era um sendo as peças retiradas e enviadas
prédio amplo e alto. No fundo, para usinagem e acabamento.
estava instalado o forno e o De tanto observar o trabalho
Aprendizes e funcionários
da Oficina Dedini restante da área ficava reservada nas Oficinas Dedini, Aldrovandi
para a modelagem das peças a conta que, quando garoto, ele e
serem fundidas. As caixas com- seus amigos resolveram abrir sua
punham-se de duas partes. Uma, própria “fundição” no quintal da

a força de um ideal 53

Capitulo1 53 11/4/05, 16:48


casa. Ali, em um rancho impro- te improvável e desaconselhável,
visado, montaram caixas e, com na verdade, naquela época, era
restos de terra recolhidos na in- uma solução perfeita para os
dústria, “fundiram” soldadinhos pais: preferiam muito mais ver
para brincar, pesos para linhas seus filhos aprender um ofício,
de pesca, uma pequena barra do que ficarem vagando pelas
de ferro inscrita com a palavra ruas, ou irem nadar no traiçoeiro
“Paris”, e até um crucifixo. rio Piracicaba. Esse era o diverti-
mento predileto dos moleques,
brincadeira muito perigosa, que
Recrutando aprendizes tirou a vida de muitos deles.
Entre os funcionários pionei- Alcides Aldrovandi relata em
ros das Oficinas Dedini podem ser seu livro (1991), que também fre-
citados os nomes de Carlos Mahn qüentou a oficina, quando garoto.
(Carlão), Amadeu Galani, Hum- Ajudava seu “padrinho”, Pedro
berto Perozzi, Pedro Segatto, Segatto, como podia, trazendo-lhe
João Baptista Galvani (Imbica), ferramentas, parafusos e cola.
Ledemar Castelani, António Assim como os outros meninos,
Galvani, Virgínio Magagnato, muitas vezes era requisitado para
Orlando Galvani, Ângelo Rizzolo comprar cachaça para o pessoal
e Alberto Bergamin. nos bares próximos. Segundo ele,
O treinamento do pessoal era quando a tarefa era mais difícil,
feito dentro do próprio estabele- como, por exemplo, ferrar rodas,
cimento: admitiam-se menores os operários pediam mais a bebida,
de idade, como auxiliares de “para resfriar”, como diziam.
determinado funcionário, do Nessas situações, os meninos
qual se tornavam aprendizes, revezavam-se, e iam a bares dife-
adquirindo conhecimentos rentes, “para não dar na vista” que
para, depois de algum tempo, se estava bebendo muito na oficina.
poderem operar sozinhos as O trabalho desinteressado
máquinas. Observando o traba- dos garotos chamou atenção
lho dos mais velhos, muitos deles de Carlos Mahn, o Carlão, que
tornaram-se bons profissionais. resolveu incentivá-los, fazendo
Esse costume de trazer crian- uma surpresa. No dia do paga-
ças para a oficina, hoje totalmen- mento, eles também receberam

54 Dedini 85 anos

Capitulo1 54 11/4/05, 16:48


um envelope com cinco mil réis. Açúcar e Álcool (Copira), embrião
Todos ficaram muitos felizes, pois, da futura Copersucar.
assim, passaram a “fazer parte” da Além do trabalho na oficina,
equipe de Mario Dedini. o então garoto Alcides Aldro-
Outro desses aprendizes vandi também foi testemunha
foi Euclydes Rizzolo. Em de- de cenas marcantes na residência
poimento de 2005, relata que o dos Dedini, na avenida Con-
pai, Alcides, um dos primeiros ceição, onde residiram Mario e
funcionários das Oficinas Dedini, Armando Cesare Dedini, com
sabia de suas travessuras, e exigiu suas respectivas famílias. Em seu
que fosse trabalhar em sua com- livro, ele conta o entra-e-sai in-
panhia. Inicialmente, Rizzolo era terminável e a comoção causada
menino de recados. Mais tarde, pela doença e morte precoce da
foi transferido para o escritório. primeira esposa de Mario De-
Sua vivacidade chamou a atenção dini, Mariana Corrente, vítima
de Mario Dedini, que perguntou de febre tifóide, que deixou três
a seu pai por que ele não prosse- filhos: Nida (que se casaria com
guia nos estudos. “Manca i soldi” Arnaldo Ricciardi), Ada (primei-
(Falta dinheiro), foi a resposta. ra esposa de Dovilio Ometto) e
Mario Dedini não respondeu, Armando (que se casaria com
mas, no mês seguinte, ao abrir Norma Dresselt Dedini). “Ela
o envelope que recebia todo não resistiu à epidemia, apesar
mês como pagamento, Rizzolo de todos os cuidados do médico
percebeu, com surpresa, que, André Ferreira dos Santos, o
em vez do costumeiro valor de ‘Dr. Preto’, como era conhecido,
cinco mil réis, recebera muito por causa da cor de sua pele, e
mais. Com esse dinheiro, a mãe das orações da conhecida ben-
comprou-lhe roupas novas e ele zedeira Carolina Martins, que
pôde cursar a Escola de Comér- se revezaram na sua cabeceira”,
cio Cristóvão Colombo, sem recordou-se Aldrovandi.
deixar suas obrigações nas Oficinas Veiculado pela água, ali-
Dedini. Ali permaneceu até os mentos crus, moscas, esgotos e
anos 1950, quando foi convidado pelo contato direto com porta-
para trabalhar na recém-fundada dores da doença, o tifo encon-
Cooperativa Piracicabana de Usinas de trou, naquela época, condições

a força de um ideal 55

Capitulo1 55 11/4/05, 16:48


ideais para sua proliferação na depoimento de maio de 2005,
cidade. A moléstia, que, desde com quem Leopoldo se casou
1911, se espalhara pelo estado em 1943, e lhe deu quatro filhos
de São Paulo, trazida pelos (Roberto, Elisabeth, Renata
imigrantes espanhóis e portu- e Amália). Leopoldo Dedini
gueses, atingiu Piracicaba com tornou-se um dos principais
maior intensidade na década de assistentes do tio, durante
Reformando
1920, levando as pessoas ater- vários anos, acompanhando a
peças e máquinas rorizadas a abandonar a cidade. expansão da modesta oficina,
para usinas de açúcar, A epidemia só foi controlada sempre presente no seu dia-a-dia
quando a prefeitura modificou o e participando de seus grandes
Mario Dedini já era, no
sistema de coleta de lixo, passou a momentos. Nos anos 1960, saiu
final de 1920, capaz de adicionar cloro na água destinada para dirigir uma das empresas
fazer alguns equipa- ao abastecimento e combateu do grupo, a Mausa, cujo controle
focos do mosquito transmissor. acionário assumiria mais tarde.
mentos em sua oficina.
Mario Dedini também perdeu
Assim, a evolução para seu irmão, em 1926, vitimado
Da reforma à fabricação
a fabricação foi uma
pelo tifo. Passou a dirigir a oficina
sozinho, mudando sua denomi- Em meados de 1920, Mario
decorrência natural do nação para M. Dedini. Na vizinha Dedini já estava apto para
empreendimento. Santa Bárbara d’Oeste, foi buscar fabricar o primeiro conjunto de
o único filho homem do irmão, moagem de cana. Para tanto,
Leopoldo (1919-1976), “para enca- o empresário inspirou-se em
minhá-lo na vida”. Com dez anos, equipamentos semelhantes,
então, o menino foi trabalhar que já havia consertado ou
como aprendiz na oficina. Apesar reformado. Como possuía uma
de muito inteligente, não gostava pequena fundição de ferro e
de estudar. Aprendeu o ofício na bronze, ele reproduzia inúmeras
prática, e, muito jovem, com ca- peças, quebradas ou desgastadas
torze anos, nos anos 1930, marcou durante o processo e fabricação
sozinho no campo a estrutura da de açúcar, que precisavam ser
usina Santa Elisa, que a Dedini estava substituídas durante a safra ou
montando em Sertãozinho (SP). para a seguinte. Eram, principal-
Quem conta é sua esposa, mente, eixos, engrenagens, luvas,
Dulce Cardinalli Dedini, em camisas, mancais, facas, rodetes,

56 Dedini 85 anos

Capitulo1 56 11/4/05, 16:48


Projeto de moenda
elaborado na Oficina
Dedini, em fevereiro
de 1930

a força de um ideal 57

Capitulo1 57 11/4/05, 16:48


entre outras. Começava, assim, a O estabelecimento, no entanto,
diversificação da produção. durou pouco tempo: seu gerente
Quando desmontava as especulou na bolsa de valores de
moendas de seus clientes, com São Paulo com o dinheiro dos
certeza aproveitava para copiar clientes, e levou-o à falência.
seus componentes, desenhando Segundo Aldrovandi, Mario
e preparando os modelos para Dedini era comparado ao rei
serem fundidos em ferro e, Midas: “Tudo que fazia, dava
posteriormente, submetê-los lucros. Comprava uma caldeira
à usinagem. Nesse momento, velha, abandonada no canto de
o conhecimento de desenho uma usina, reformava e vendia
mecânico que possuía foi de e assim a oficina foi crescendo”.
grande valia, permitindo, inclu- Segundo ele, o serviço aumen-
sive, melhorar a qualidade e o tou tanto que seu irmão, José
desempenho das moendas e de Aldrovandi, chefe do escritório
outros equipamentos das usinas. da empresa, precisou contratar
No final de 1920, o estabele- mais um guarda-livros (conta-
cimento da família Dedini já se dor) para auxiliar o primeiro
espalhava por vários barracões encarregado dessa tarefa, Se-
vizinhos, abrigando várias forjas bastião de Oliveira. O escolhido
para trabalhos de ferreiros e foi Lázaro Pinto Sampaio, que
Medalha de ouro oferecida por
carpinteiros, em oficinas de trabalhara como telegrafista
Mario Dedini aos funcionários com
25 anos de trabalho na sua empresa consertos e de modelagem em da Estação Ferroviária da Vila
madeira para fundição de peças. Rezende, e se tornou um dos
A antiga fundição situava-se principais assistentes de Mario
na avenida Salaz (hoje Mario Dedini durante longo período.
Dedini), atrás da avenida Con-
ceição. A empresa contava com
36 funcionários e continuou a
Trabalho social
expandir-se ao longo dos anos. Desde aquela época, o
O progresso da indústria industrial costumava ajudar seus
repercutiu no bairro da Vila colaboradores e os moradores do
Rezende, que ganhou, naquela bairro. Parece ter sido pioneiro ao
época, até um banco próprio, conceder ao pessoal o direito de
denominado Agrícola de Piracicaba. consultar o médico e o hospital

58 Dedini 85 anos

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de sua preferência. Também não res da Dedini ajudaram, também, a
hesitou em despedir um técnico erguer a Capela da Vila Rezende.
estrangeiro que para ele trabalha- Em seu livro sobre a Santa
va por haver desrespeitado um Casa de Misericórdia de Piraci-
dos operários da oficina. caba (2004), a jornalista Nilma
A cada cinco anos, Mario de Oliveira Moratori relata um
Dedini promovia um grande dos exemplos da generosidade
almoço de confraternização de Mario Dedini para com
na sua própria residência para aquele hospital. Por ocasião da
aqueles colaboradores pionei- desativação do Sanatório São
ros, entregando-lhes, ao final, Luiz, ele adquiriu, por dois con-
presentes valiosos. Nessas festas, tos e quinhentos mil réis, uma
os participantes se emociona- caldeira e a autoclave da insti-
vam. Nunca faltava música. tuição, indicados pelo médico
O próprio industrial dava o Coriolano Ferraz do Amaral.
exemplo, dançando alegremen- Os equipamentos, que valiam
te com seu pessoal. muito mais, foram reformados
Nos primeiros tempos, e instalados na oficina, contri-
os colaboradores da empresa buindo para impulsioná-la.
formavam uma grande “família”, Pouco tempo depois, Ferraz
ajudando-se entre si e aos mais do Amaral procurou Mario
necessitados. Um fato ocorrido Dedini, propondo-lhe vender os
nos anos 1930 ilustra bem isso. equipamentos para a Santa Casa,
Sabendo da morte de um mora- da qual era provedor. O empresário
dor da Vila Rezende, após longa pediu tempo para pensar, e depois
moléstia, que deixou viúva e três de visitar o local onde seriam
filhos na miséria, morando em instalados, cedeu-os, sem aceitar
um barracão improvisado, um nada em pagamento. Ele mesmo
grupo de funcionários uniu-se encarregou-se do transporte e da
para construir-lhes uma casa instalação do maquinário. Esta
nova, em regime de mutirão, nos seria uma de suas inúmeras doa-
seus dias de folga. Os trabalhado- ções àquele hospital.

a força de um ideal 59

Capitulo1 59 11/4/05, 16:48


CAPÍTULO 2

Modernização
das usinas
“O trabalho sempre me divertiu e nunca achei minha vida
difícil. Sempre fui otimista e confiei no futuro.”
Mario Dedini (1893-1970), fundador
das empresas Dedini, em setembro de 1967.

N
o dia 29 de outubro de 1929, conhecido como a “Quinta-
feira Negra”, o centro financeiro de São Paulo foi abalado
pelas informações da derrocada da Bolsa de Nova York. As
ruas centrais da principal cidade brasileira ficaram repletas de pessoas
perplexas e atemorizadas, em busca de notícias mais detalhadas sobre a
falência do maior mercado de ações do mundo – o norte-americano.
A grande depressão amargada pelos países desenvolvidos, verificada
a partir de então, não arrefeceu, no entanto, o ânimo de muitos em-
preendedores instalados no Brasil. Nas primeiras décadas do século XX,
continuaram investindo e expandindo suas fábricas, apesar dos reflexos
inevitáveis da grave crise internacional. A extraordinária produção de
máquinas e equipamentos para todos os setores, observada nos anos
seguintes, principalmente em São Paulo, abriu caminho para a consoli-
dação definitiva do parque industrial brasileiro (ver boxe p. 62).
O governo fez sua parte, tomando medidas para resguardar a
economia nacional dos impactos negativos vindos do exterior: quei-
mou os excedentes da produção de café, então, enfrentando grave
crise; desvalorizou a moeda vigente, o mil-réis, e elevou o preço dos
produtos estrangeiros, obrigando os empresários a fabricar no país tudo
aquilo que vinha do exterior.

60 Dedini 85 anos

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CRISES CONSTANTES NAS LAVOURAS
ESTIMULAM A INDUSTRIALIZAÇÃO NO BRASIL
Nas primeiras décadas do século XX o dinheiro mudou bricas paulistas eram voltadas, principalmente, para os bens
de mãos mais de uma vez no Brasil. Os tradicionais proprie- de consumo: alimentos, tecidos simples, bebidas e utensí-
tários rurais sofreram duramente com a instabilidade do lios. Aos poucos, começaram a diversificar-se, produzindo,
mercado internacional. Ao mesmo tempo, nasceram muitas também, alguns itens para construção civil, além de móveis.
fortunas, algumas construídas por imigrantes como Mario Em 1925, seria inaugurada a primeira linha de montagem de
Dedini, que, com trabalho e tenacidade, contribuíram para automóveis da General Motors do Brasil que, em apenas um
o progresso industrial do país. ano de funcionamento, fabricou 25 000 veículos.
Até 1914, o estado de São Paulo, assim como o Brasil, Somente 4% dos produtos industrializados eram, na épo-
vivia acomodado em sua condição de exportador agrícola, ca, bens de produção, como máquinas industriais e agrícolas.
principalmente de açúcar e, depois, de café. A constante Assim, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), peque-
produtividade e a decidida intervenção do governo paulis- nas oficinas instalaram fundições e forjarias destinadas a recu-
ta sobre as condições de mercado mantinham este último perar peças gastas, e foram rapidamente elevadas à condição
como principal item da pauta de exportações. Houve tem- de fábricas. Terminado o conflito, no entanto, a maior parte
pos em que a renda obtida com o café suportou todos os dessas empresas acabou, quando os proprietários rurais recu-
investimentos de São Paulo, a ponto de as taxas incidentes peraram seu poder de compra, e voltaram a encomendar suas
sobre ele dispensarem qualquer outro imposto estadual. máquinas agrícolas no exterior. Foram poucas aquelas fábricas
A situação da economia cafeeira tornou-se preocupante que conseguiram sobreviver, graças à tenacidade e visão de
nas primeiras décadas de 1900. O Brasil fornecia 60% do seus proprietários. A Dedini estava incluída nessa lista seleta.
produto consumido no mundo, quando, em 1915, os Es- Para tanto, é preciso lembrar que se aproveitou da con-
tados Unidos – o maior comprador – taxaram-no como su- juntura favorável. Diante da derrocada do café, os empresá-
pérfluo naquele país. Três anos depois, uma grande geada rios aplicaram seus capitais na montagem de usinas de açú-
causou grande destruição nos cafezais paulistas. car no sul do país, pois ali já havia infra-estrutura instalada:
Para contornar a crise iminente, o governo tentou população, capital, mão-de-obra, facilidade de transporte
montar uma estratégia para manutenção dos preços por do produto destinado à exportação e consumo.
meio do Instituto Paulista de Defesa Permanente do Café A qualidade do açúcar fabricado deixava, ainda, no en-
(IPDPC). Foi em vão: em 1928, os produtores amargavam tanto, muito a desejar. O Brasil só conseguiu abastecer os
grandes estoques e dívidas ainda maiores, devido à queda mercados dos países desenvolvidos por um certo período,
acentuada das vendas externas. durante os dois conflitos mundiais, quando as produções
A gota d’água foi a grande depressão internacional, mar- das nações envolvidas na guerra praticamente ficaram
cada pela quebra da bolsa de Nova York, a maior do mundo, paralisadas. Quando a situação se normalizou, o mercado
no dia 29 de outubro de 1929, que deixou, de uma hora para internacional voltou a enfrentar grande instabilidade, com
outra, dezesseis milhões de títulos sem nenhum valor. Ruim descompasso entre a oferta e a demanda, com inevitáveis
de um lado, bom de outro. Com a crise que sacudiu a econo- conseqüências negativas sobre os preços.
mia internacional, os preços dos importados foram às alturas. Várias tentativas de normatização foram efetuadas e,
Muitas indústrias de porte que forneciam para o Brasil foram finalmente, em 1937, conseguiu-se fechar um acordo na
à falência, e o país viu-se obrigado a produzir os bens para Conferência Internacional do Açúcar em Londres, que vi-
abastecer seu mercado interno. gorou até 1953. Pela primeira vez, o Brasil participava de um
A indústria nacional, tímida e incipiente, foi obrigada a acordo no gênero, cabendo-lhe uma cota de exportação de
adequar-se aos novos tempos. No início do século XX, as fá- 60 000 000 de toneladas por ano.

Capitulo2 62 11/4/05, 16:49


Assim, alguns setores da toneladas de cana por dia, possi-
indústria – siderúrgico, químico, bilitando a produção de 15 000 a
metal-mecânico e de imple- 18 000 sacas (sessenta quilos) de
mentos agrícolas – puderam açúcar por ano. O equipamento
desenvolver-se como nunca. foi vendido a Virgolino de Oli-
Para tanto, os empreendedores veira, proprietário da usina Nossa
aproveitaram o mercado e o Senhora da Aparecida (em Itapira,
consumo criados durante o ciclo SP), um dos melhores amigos de O processo de
do café, que proporcionou as Mario Dedini (ver boxe p. 66).
industrialização
divisas necessárias à importação Presteza, garantia e manu-
de bens de produção e os capitais tenção: esse trinômio constituiu ocorrido em São Paulo,
necessários para a instalação de a chave do sucesso das Oficinas a partir da década
seus estabelecimentos. Dedini em seus primeiros tempos.
de 1930, aumentou a
Em Piracicaba, a Dedini, foi Aos poucos, as usinas passaram
uma das empresas que soube a exigir um dimensionamento densidade populacional
aproveitar as oportunidades maior dos aparelhos de extração dos centros urbanos e
surgidas, alcançando grande de caldo da cana e de todo o
melhorou o nível de renda.
expansão, conquistando clientes e processo de fabricação. Dessa
ampliando sua linha de produtos. forma, a empresa foi ampliando, Conseqüentemente, o
Foi a época de absorção de tecno- aos poucos, o peso e a escala de consumo de muitos bens e
logias, não mais para atender os seus produtos, enquanto criava
engenhos de açúcar, mas, tam- uma imagem comercial altamen- alimentos cresceu bastan-
bém, para suprir as novas usinas, te positiva, baseada na qualidade. te, inclusive do açúcar, que
que estavam se estabelecendo, Quando eclodiu a crise de até então era trazido de
exigindo equipamentos cada vez 1929, os preços dos equipamen-
mais pesados e sofisticados. tos importados ultrapassaram outros estados.
Em 1929, foi dado um grande os dos produtos Dedini, que já
passo nesse sentido, com o possuíam a vantagem de não
desenvolvimento do projeto e pagarem royalties pela tecnologia,
fabricação de um conjunto com- nem eram onerados pelos
pleto de moendas, com todos os elevados fretes marítimos. Por
acessórios. Era composto por três todos esses fatores, a demanda
cilindros horizontais, nas dimen- pelas moendas fabricadas em
sões de dezoito por trinta polega- Piracicaba foi grande, desde
das, capaz de moer cerca de cem o início. Havia, ainda, outra

a força de um ideal 63

Capitulo2 63 11/4/05, 16:49


vantagem: os clientes contavam a maioria delas foi adquirida de
Transporte de equipamentos
para a usina Nossa Senhora da
com assistência técnica imediata, segunda mão.
Aparecida, em Itapira (SP) devido à proximidade da oficina Além das peças de carpintaria
com as usinas de açúcar, e não e ferraria, havia, na época, na ofici-
dependiam mais das visitas espo- na, uma seção mecânica, com seis
rádicas de profissionais vindos de máquinas de furar, três grandes
pontos distantes. tornos mecânicos, outros cinco
Com a expansão, o capital menores, três plainas limadoras,
social da M. Dedini, que, em 1926, seis plainas de mesa, uma vertical,
era de 50:000$000 (cinqüenta além de outros acessórios. Funcio-
contos de réis), foi elevado para nava, também, a fundição, com
150:000$000 (cento e cinqüenta seus fornos, seções de modelagem
contos de réis), em 1932, sendo e de caldeiraria leve. O número de
esse valor totalmente integrali- funcionários passara para quaren-
zado. As máquinas operatrizes ta, crescendo, pelo menos, cinco
eram, ainda, de pequeno porte e vezes em dez anos.

64 Dedini 85 anos

Capitulo2 64 11/4/05, 16:50


Regulamentação do mercado açucareiro

Com a crise do café, em 1929, Paralelamente, com a finali-


os agricultores passaram a inves- dade de incentivar a fabricação de
tir na lavoura canavieira, princi- álcool, o governo Vargas ofereceu
palmente os paulistas, tornando um prêmio de cinqüenta contos
o estado auto-suficiente na de réis à primeira destilaria
produção de açúcar, e privando a construída no país até 31 de
outra grande área fornecedora, o março de 1932, capaz de produ-
Nordeste, do seu maior mercado zir, no mínimo, 15 000 litros por
consumidor. Dessa forma, a pro- dia, e tornou obrigatória a adição
dução paulista de açúcar, que foi de 5% de álcool à gasolina im-
de 155 348 sacas de sessenta quilos portada. Estimulou-se, também,
em 1925, passou para 1 853 937 a instalação de destilarias que
sacas em 1934. produzissem álcool diretamente
Sem seu maior comprador da cana-de-açúcar.
e diante da impossibilidade de A partir de 1932, foram
exportação, por causa dos preços firmados contratos com par-
desestimuladores, a agroindústria ticulares para a implantação
açucareira nordestina viu-se diante dessas destilarias e, em novembro
de uma grave crise. Para salvá-la da daquele ano, limitou-se a pro-
bancarrota, o governo de Getúlio dução de açúcar pela média das
Vargas decidiu intervir no assunto, safras dos cinco anos anteriores.
inicialmente, por meio da Co- Essa restrição só seria, no entan-
missão de Defesa da Produção de to, amplamente aplicada, quatro
Açúcar e da Comissão de Estudos anos mais tarde. O governo esta-
sobre o Álcool-motor. Esses dois beleceu, ainda, estoques regula-
órgãos seriam incorporados, pouco dores para o açúcar e incentivou
depois, em 1933, as exportações.
pelo Instituto do Nos anos 1930, O IAA man-
Açúcar e do Álcool teve estáveis os
a Dedini se beneficiou
(IAA), que passou preços internos do
a estabelecer a do apoio governamental açúcar, tomando
política para o setor como base aqueles
ao setor sucroalcooleiro
sucroalcooleiro. vigentes no Rio de

a força de um ideal 65

Capitulo2 65 11/4/05, 16:50


Janeiro, o que favoreceu ainda governamental impediu a con-
mais a produção do Centro-Sul. corrência prejudicial entre usinas
Outra medida de impacto foi a demasiadamente próximas, além
proibição da montagem de novos de possibilitar a melhor alocação
engenhos e usinas, em julho de recursos financeiros, antes
de 1933, sem prévia consulta e utilizados na aquisição desenfreada
aprovação. A licença só seria con- de terras para cultivo de cana.
cedida quando a usina utilizasse Nos anos 1930, Piracicaba
canaviais já existentes, ou moder- produzia cerca de 20% do açúcar
nizasse engenhos desativados. do estado. Aproveitando a
A finalidade expressa do possibilidade de financiamento
IAA era assegurar o equilíbrio para aquisição e instalação de
interno entre as safras anuais e o destilarias de álcool anidro, ane-
consumo de açúcar e estimular xas às usinas, entrou em funcio-
o fabrico do álcool anidro, por namento a primeira unidade do
meio das destilarias centrais. Brasil em Piracicaba (1933), com
Para tanto, a produção de açúcar capacidade de produção de 12 000 Equipamentos Dedini instalados em
foi limitada a cotas, proporcio- litros por dia. Nessa época, a Socie- usina de açúcar, na década de 1940

nais à capacidade instalada de té des Sucrèries Brésiliennes começou,


cada usina e à produção dos também, a fabricar álcool anidro
cinco anos anteriores. Nessa em todas as suas unidades.
altura, São Paulo já se tornara
o segundo produtor nacional,
só superado por Pernambuco. Concorrência fraca
Todas essas medidas adotadas Essa conjuntura foi muito
acabaram por estabilizar o benéfica para a M. Dedini, que
mercado interno de açúcar. passou a auxiliar os empresários
Se, de um lado, a política paulistas a transformar os arcai-
do novo órgão, que estipulou o cos engenhos turbinadores (que
sistema de cotas de produção por não possuíam cozedores a vácuo)
estados da federação, salvou a em modernas usinas. Assim,
economia açucareira nordestina da quando ocorreu o deslocamento
falência, de outro, levou a indús- do pólo açucareiro do Nordeste
tria paulista à auto-suficiência. para o Sudeste brasileiro, a
Segundo estudiosos, essa atuação empresa era praticamente a

66 Dedini 85 anos

Capitulo2 66 11/4/05, 16:51


Capitulo2 67 11/4/05, 16:51
única em todo o território No Rio de Janeiro, já operava,
nacional com condições de também, desde 1935, a Companhia Fe-
fornecer máquinas e equipamen- deral de Fundição, que produzia vários
tos específicos para atender a esse equipamentos, como centrífugas,
novo mercado em expansão. cristalizadores, bombas, trilhos e
Pelo que se tem conhecimen- prensas, entre outros. Também
to, no início do século XX, estavam naquela cidade, a Fundição Guanabara
em funcionamento a antiga Fundição – Cia. Metalúrgica fabricava alguns
do Brasil, do Recife, que prestava itens para usinas e destilarias.
serviços de reparos e reformas, e No início da década de 1940,
a Esperança. Esta pequena indústria surgiu, na Capital de São Paulo,
instalada em Itabira (MG) fabricou, ainda, a primeira empresa especia-
durante algum tempo, máquinas lizada na construção de destilarias,
para o setor açucareiro, vendidas a Sociedade Construtora de Destilarias
em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio e Indústrias Químicas (Codiq), que
Grande do Sul. passou a fornecer equipamentos
Ao longo do tempo, sur- nacionais aos interessados. A
giram outros estabelecimentos empresa foi fundada e adminis-
para atender o setor canavieiro, trada por engenheiros franceses,
mas a maioria era constituída que haviam trabalhado na Societé
de pequenas oficinas, mal des Etablissements Barbet, responsável
aparelhadas, com mão-de-obra pela instalação de inúmeras fábri-
sem especialização e, portanto, cas de álcool anidro e retificado
de vida efêmera. Nos anos 1920, e indústrias químicas no país, até
atuavam, no estado de São então importadas.
Paulo, a Martins Barros, na Capital, A maioria dos estabelecimen-
fabricante de pequenas moendas tos era constituída, portanto, de
de cana; a Tonanni, em Jaboticabal, pequenas oficinas pulverizadas
produzindo centrífugas para na Capital, no interior de São
engenhos turbinadores; e a da Paulo ou na cidade do Rio de
família Krähenbühl, em Piracicaba, Janeiro, fabricando apenas deter-
que também fabricava moendas minados tipos de equipamentos.
e alguns implementos agrícolas Como a concorrência no setor
(cujo maquinário foi, mais tarde, de bens para produção sucroal-
adquirido pela Dedini). cooleira era, então, quase inexis-

68 Dedini 85 anos

Capitulo2 68 11/4/05, 16:51


tente, a Dedini viu-se estimulada a por máquina a vapor. Eram
investir, ainda mais, na ampliação equipamentos maiores e mais
da sua linha de produtos. complexos do que aqueles cons-
truídos até então, e a experiência
adquirida nesse trabalho permitiu
A primeira usina a acumulação de maior conheci-
Uma experiência conside- mento técnico sobre o assunto.
rada decisiva para que a Dedini Pouco tempo depois, a Dedini
passasse à condição de empresa construiu e vendeu ao comen-
nacional fabricante de equipa- dador Virgolino de Oliveira
mentos ocorreu em 1932. Nessa outro conjunto de moagem
ocasião, Mario Dedini foi até a com a mesma capacidade, com
região de Campos (RJ), tradicio- projetos dos próprios técnicos
nal pólo açucareiro, para avaliar da empresa. A partir daí, a linha
as condições de uma usina, velha de produtos ampliou-se ainda
e desgastada, que seu compadre mais, com a fabricação de outros
e amigo Pedro Ometto desejava equipamentos para as usinas.
adquirir para instalar na fazenda Outro passo importante
Boa Vista, em Iracemápolis (SP), daqueles tempos foi a aquisição de
próximo a Piracicaba. Surpreen- um forno, inicialmente a óleo e,
didos pela eclosão da Revolução depois, elétrico, que possibilitou a
Constitucionalista de 1932, os produção de peças de aço. Com a
dois amigos foram obrigados a instalação de um forno da marca
permanecer no Rio de Janeiro Fulmina, foi possível, também,
até o restabelecimento do siste- fabricar eixos das moendas que
ma de transportes. obtiveram muito sucesso, pois os
O negócio, porém, se con- utilizados até então, importados da
cretizou, e as pesadas máquinas Alemanha, quebravam facilmente.
da usina foram desmontadas e Nessa época, em um ato
transportadas para as Oficinas Dedini patriótico, Mario Dedini resolveu
por trem, onde seriam reformadas; colaborar com a Revolução
inclusive o conjunto de dois ternos Constitucionalista de 1932. Para
de moendas, com dimensões de tanto, efetuou algumas modifica-
vinte por trinta polegadas, e um ções na estrutura e programação
conjunto esmagador, acionado da oficina, e passou a fabricar ma-

a força de um ideal 69

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O TRIO INCOMPARÁVEL
Por volta de 1928, o imigrante Pedro Ometto (1893- sação importar em alguns milhares de réis, e recusou o fia-
1966) procurou Mario Dedini na sua oficina, estabelecida dor oferecido por Virgolino, respondendo que “sabia estar
no bairro da Vila Rezende. Desejava ampliar e modernizar tratando com um homem de bem, e que isto lhe bastava”.
seu engenho, no bairro da Água Santa, nas proximidades Bons tempos aqueles em que as negociações se baseavam
de Piracicaba, onde, juntamente com os irmãos, plantava na confiança mútua. Estava formado, assim, o trio de ami-
cana e fabricava aguardente. gos, inseparáveis no trabalho e no lazer, fortalecido por inú-
A conversa rendeu muito mais que uma simples venda: meras sociedades em negócios, e por laços de compadrio e
nascia, naquela ocasião, uma amizade entre os dois empre- de parentesco, estabelecidos ao longo do tempo.
sários, que duraria todas suas vidas. Era, também, o início de Com Pedro Ometto, Mario Dedini encontrava-se qua-
parceria frutífera em inúmeros negócios bem-sucedidos, que se diariamente em Piracicaba. Nos finais de semana, ele
contribuíram para transformar Pedro Ometto no “rei do açú- costumava, sistematicamente, visitar o amigo Virgolino em
car”, pioneiro de um grupo que até hoje domina a produção Itapira, onde promoviam, com as respectivas famílias, chur-
sucroalcooleira do país, e Mario Dedini no maior fabricante rascos e festas sempre muito alegres e animadas.
nacional de bens de capital para o setor de açúcar e álcool. Em 1936, Mario Dedini ficou sócio de Pedro Ometto na
Logo depois, em 1930, foi a vez de Virgolino de Oliveira usina Costa Pinto, até hoje em funcionamento em Piracica-
(1901-1962), um jovem moreno e alegre, visitar a Oficina, ba, fornecendo equipamentos não só para essa, mas para
à procura de Mario Dedini. Ele queria conversar sobre a muitas outras indústrias da família Ometto. Mario Dedini só
reforma de seu engenho de açúcar “batido”, próximo à deixaria de ser sócio da família Ometto em 1965, um ano
cidade paulista de Itapira. Após longa conversa, o negócio antes da morte do amigo Pedro.
foi realizado. Mario facilitou o pagamento, apesar da tran- Em 1941, Mario convidou o filho de Pedro, Dovilio, que
acabara de formar-se em engenharia
agronômica na “Luiz de Queiroz” para
trabalhar com ele na oficina. Dois anos
depois, Dovilio se casaria com a filha do
grande amigo Mario, Ada. Mais tarde,
tornou-se o sucessor do sogro, no co-
mando do conglomerado de empresas
por eles formado.
A amizade entre os três empresários
durou enquanto viveram: Virgolino de
Oliveira foi o primeiro a falecer, vítima
de trágico acidente aéreo; depois, em
1964, foi a vez de Pedro Ometto, e, final-
mente, Mario Dedini, em 1970. Quem
conviveu com os três amigos, costuma
Os amigos Pedro Ometto, Mario dizer que, onde quer que estejam, com
Dedini e Virgolino de Oliveira certeza, eles ainda estão juntos, entabu-
lando negócios, trocando idéias, fazen-
do piadas e inventando novidades...

Capitulo2 70 11/4/05, 16:51


terial bélico para suprir o exército Muitas vezes, oferecia conjuntos
paulista com peças de reposição completos de moagem atualiza-
e munição para serem utilizadas dos e com maior capacidade.
pelas tropas em combate. Segundo o relato de seu gen-
O principal destaque nesse ro, Dovilio Ometto, em abril de
esforço de guerra foi a fabricação 2005, presidente do grupo Dedini,
de granadas, em ferro fundido, desde os anos de 1970, que assistiu
com formato de abacaxi, como inúmeras vezes a essas negocia-
passaram a ser chamadas; na ções, elas realizavam-se na base
verdade, lembravam a aparência da confiança: o empresário não
da fruta, com sua cúpula arre- se importava de vender menos,
dondada, a outra extremidade ci- quando percebia que o comprador
líndrica e o invólucro, modelado não necessitava de equipamentos
com pequenos quadrados. Não de maior capacidade. “O cliente
se sabe quantas unidades foram vinha, geralmente, com dinheiro
produzidas, mas o certo é que o contado para a compra do maqui-
industrial não recebeu nenhuma nário. Meu sogro, então, fazia-lhe
remuneração pelo trabalho. um planejamento, aconselhando-
o a não gastar tudo com máqui-
nas e investir, também, na me-
Vetor de progresso lhoria de suas plantações de cana.
A partir da década de 1930, Quando obtivesse lucros, voltaria
o carro-chefe na produção da para ampliar a usina.”
Caderno de anotações de
empresa passou a ser os conjun- A forma de paga- Mario Dedini, em 1939

tos de moagem de cana, inicial- mento, geralmente,


mente, feitos em ferro fundido. era parcelada: um
Para comercializá-los, Mario terço por ocasião
Dedini adotava método peculiar do pedido, um
e muito eficiente, praticado até terço na entrega
os anos 1960. Por meio de acordos do equipamento,
pessoais, ele oferecia novos e o restante,
equipamentos para ampliação somente, quando
e modernização das usinas, terminasse a
aceitando as máquinas obsoletas primeira safra.
como parte do pagamento. Mario Dedini

a força de um ideal 71

Capitulo2 71 11/4/05, 16:51


escrevia os pedidos em blocos época, como um importante
Caldeira tipo locomotiva na usina de notas, e supervisionava vetor irradiador de progresso tec-
Nossa Senhora da Aparecida,
em Itapira (SP), em 1944. Em
diretamente sua fabricação. As nológico no setor açucareiro. De
destaque, seu proprietário, máquinas usadas, recebidas como um lado, permitiu a consolidação
Virgolino de Oliveira
parte do pagamento, por sua vez, da posição da empresa, ampliando
eram reformadas e revendidas às significativamente sua partici-
unidades de menor porte. pação no mercado, e, de outro,
Por isso, o economista Barjas exerceu papel ativo na dinamiza-
Negri afirma, em seu estudo sobre ção daquele tipo de agroindústria,
a Dedini (1977), que esse tipo de co- por meio do incremento da
mercialização funcionou, naquela produtividade média.

72 Dedini 85 anos

Capitulo2 72 11/4/05, 16:51


Associação benéfica setor e proprietário de usinas; estas
funcionavam como verdadeiros
Mario Dedini ia, ainda,
laboratórios para seus produtos,
mais longe: quando identificava
constantemente aperfeiçoados
interessados em investir no setor
e testados nas unidades em que
açucareiro sem capital suficiente,
participava como acionista.
associava-se para viabilizar o
No período de 1939-1945,
empreendimento, fornecendo os
coincidindo com o aumento da
equipamentos. A primeira usina da
produção paulista de açúcar, a
qual entrou como sócio foi a Costa
Dedini vendeu a diversas unidades
Pinto, instalada em Piracicaba, em
fabris pelo menos catorze con-
1936, juntamente com as famílias
juntos de moagens, com grande
Ometto e Bassinelo, cujo capital na
porte para a época (29 por 36
época era de 600:000$000 (seiscen-
polegadas, 24 por 48 polegadas e
tos contos de réis).
26 por 48 polegadas). Esses maqui-
A produção inicial daquela
nários já possuíam mais de 90% de
usina foi de 6 055 sacas de açúcar.
capacidade de extração de caldo.
A maior parte dos equipamentos
Em São Paulo, dentre as
foi fornecida pela própria empre-
usinas que adquiriram equipa-
sa, e apenas uma parte importada
mentos estavam: Pedra (Serrana),
da Europa. Mais tarde, quando
Santa Cruz (Capivari), Santa Elisa
fossem exigidas peças de repo-
(Sertãozinho), Santa Lucia e São João
sição, ou houvesse necessidade
(Araras), Paraíso (Charqueada),
de adquirir novos produtos para
Costa Pinto (Piracicaba). Havia
ampliar a capacidade, eles teriam,
também, compradores de outros
com certeza, a marca Dedini.
estados, como as usinas Porto Real
Nos anos seguintes, além da
(Floriano, RJ), Bandeirantes (Bandei-
Costa Pinto, outras usinas foram
rantes, PR) e Fundação Brasil Central
instaladas, também, nesse regime
(Rio Doce, GO), entre outras.
de associação: a São Francisco do
Quilombo, em Charqueada (SP), e a
Bandeirantes, no Paraná, ambas em Auto-suficiência paulista
1942. Tais parcerias foram benéficas Nessa época, com a política
para a empresa, uma vez que Ma- de estímulo do IAA para ampliar
rio Dedini era, ao mesmo tempo, e modernizar antigos engenhos,
fabricante de equipamentos para o o número de usinas instaladas em

a força de um ideal 73

Capitulo2 73 11/4/05, 16:51


74 Dedini 85 anos

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São Paulo dobrou, passando de pela extensa área rural do muni-
vinte, em 1929, para quarenta, em cípio. Dez anos depois, a relação
1945. Dessa forma, o estado deixou, oficial estava reduzida a cinco
nos anos seguintes, de ser depen- grandes usinas responsáveis pela
dente do açúcar proveniente de produção local de açúcar: Piracica-
outros locais, passando a produzir ba (antigo Engenho Central), Costa
as quantidades necessárias para Pinto, Modelo, Santo Antônio e Monte
atender a demanda do mercado. Alegre. Destas, apenas uma so-
Ao término da Segunda breviveu até os dias atuais, a Costa
Guerra Mundial, os usineiros pau- Pinto, pertencente ao grupo Cosan.
listas reforçaram a pressão junto Piracicaba não conseguiu, no
ao IAA para ampliar suas cotas de entanto, manter a hegemonia da
produção, o que acabou ocorren- produção em relação a outros
do em 1946. Com o objetivo de municípios paulistas. A grande
modernizar a obsoleta fabricação expansão das lavouras na década
nacional de açúcar, o governo de 1950 ocorreu nos municípios
concedeu cotas aos engenhos canavieiros da Média Depressão
turbinadores para transformarem- Periférica e, principalmente, em
se em usinas. Autorizou, também, áreas novas do planalto paulista,
a instalação de novas unidades. onde não haviam sido instaladas
Em decorrência dessa situa- usinas. Regiões como as de
ção, a cidade de Piracicaba, um Ribeirão Preto e a vizinha Sertão-
dos mais tradicionais centros zinho tornaram-se rapidamente
produtivos de açúcar e álcool, as maiores produtoras do estado.
recebeu impacto positivo dessa Um dos maiores benefi-
onda de desenvolvimento. A ciados com a modernização da
substituição dos engenhos pelas indústria açucareira paulista,
usinas ocorreu no mesmo ritmo e, especialmente, de Piracicaba,
do resto do país, mas a concen- foi o empresário Mario Dedini,
tração e a modernização dos proprietário da única fábrica
estabelecimentos, no entanto, capaz de fornecer equipamentos
foram impressionantes. para esses estabelecimentos. Sua
Em 1953, o IAA havia regis- empresa determinou e influen-
Máquina fresadora na Oficina
Dedini, na década de 1940 trado 56 pequenos engenhos de ciou profundamente a expansão
açúcar e aguardente, disseminados industrial na cidade.

a força de um ideal 75

Capitulo2 75 11/4/05, 16:52


Diversificação da moendas dos tamanhos 24 por 48
produção polegadas e 26 por 48 polegadas,
sendo o primeiro entregue para a
Com o crescimento do
usina Costa Pinto, então, ainda, de
parque açucareiro paulista, foi
propriedade das famílias Ometto
necessário produzir conjuntos de
e Dedini. Era um conjunto com
moagem com maior capacidade
quatro ternos de moendas dessa
e, também, diversificar a linha de
dimensão, muito maior que as
produtos para atender de forma
produzidas na época, capaz de
mais completa as necessidades
processar 1 000 toneladas de cana
das usinas. Assim, nos anos 1940,
por dia, o que permitiu a grande
a M. Dedini fabricava, além dos
expansão daquela unidade.
conjuntos de moendas, tanques,
caldeiras, evaporadores, cristali- Naquela ocasião, a empresa
zadores, aquecedores, turbinas, passou a fabricar os equipamentos
motores a vapor, secadores de preparadores de cana, os jogos de
açúcar, bombas, ejetores e con- facas rotativas, cortadoras e nivela-
densadores, entre outros. doras de cana. Produzia, também,
Para fabricar caldeiras e seus motores a vapor verticais, desti-
acessórios, a M. Dedini enfrentava nados ao acionamento dos jogos
grandes dificuldades naquela época. de facas e esteiras de cana, com
As chapas de aço utilizadas na sua tecnologia adquirida, também,
confecção eram importadas dos a partir das inúmeras reformas e
Estados Unidos e a técnica muito consertos feitos para clientes.
rudimentar, com o emprego de um
sistema de soldar as chapas na base
de “rebite a quente”, operação que Cresce a produção
de álcool
demandava muito tempo e esforço.
Somente no final dos anos 1930 foi Outro fato que influenciou
introduzida a solda elétrica, mas, grandemente o setor canavieiro,
mesmo assim, a empresa ainda durante os anos 1940, foi a po-
ficou na dependência do forneci- lítica do IAA para incrementar
mento de eletrodos importados. a produção nacional de álcool.
Durante a Segunda Guerra Até então, sua fabricação era
Mundial (1939-1945), a Dedini uma atividade marginal e irre-
fabricou dois conjuntos de gular, geralmente vinculada às

76 Dedini 85 anos

Capitulo2 76 11/4/05, 16:52


usinas. Basta lembrar que, em do produto, e, também, à obri-
Caldeira fabricada pela 1933, havia no Brasil somente gatoriedade de adição de álcool
Dedini, em 1946
uma destilaria de álcool anidro, anidro à gasolina. Em 1941, o teor
instalada em Piracicaba, cuja mínimo da mistura passou de 5%
real capacidade de produção era para 20%. O governo concedeu,
controvertida. Alguns falavam ainda, outros incentivos para
em 5 000 litros, outros em 12 000 estimular a fabricação de álcool,
litros por dia. incluindo facilidades para compra
Em 1934, mais três destilarias no exterior de máquinas e equipa-
iniciaram suas atividades, em Per- mentos para essa finalidade.
nambuco e no Rio de Janeiro. Aos Em decorrência da política
poucos, o setor privado respondeu do governo, em 1939, já funcio-
ao chamado do governo e, diante navam 39 destilarias no Brasil,
dos estímulos, foram criadas que podiam fabricar 33 milhões
várias unidades anexas às usinas. de litros de álcool anidro por
Esse crescimento deveu-se, ano, embora sua capacidade
principalmente, à isenção de tari- nominal fosse maior. Em 1941, o
fas de importação de vasilhames número havia-se elevado para 44
para transporte e armazenamento unidades, com produção anual

a força de um ideal 77

Capitulo2 77 11/4/05, 16:52


efetiva de 76,6 milhões de litros que Mario Dedini conversava
anuais. Era, ainda, no entanto, há tempos com seus amigos, os
Antigas instalações da muito pouco para atender a irmãos Waldomiro, Américo
Construtora de Distilarias
Dedini – Codistil, no bairro da demanda de todo o país pelo e Alcides Perissinotto, todos
Vila Rezende, na década de 1940 carburante nacional. moradores da Vila Rezende. Eles
Dessa forma, abriu-se foram pioneiros na confecção de
um atrativo mercado para a artefatos em cobre, em Piracica-
indústria de bens de capital ba, consertando panelas, baldes
voltada para o setor alcooleiro, e outros utensílios. Depois de
que soube aproveitar essa algum tempo, passaram a fazer
oportunidade, aumentando sua alambiques para destilação de
capacidade de produção. aguardente e a oficina cresceu,
mudando-se para novo ponto,
situado no primeiro quarteirão
Construção de destilarias da avenida Dr. Eulálio (hoje
Investir na produção de Monsenhor Jerônymo Gallo).
equipamentos para fabricação Na década de 1940, Américo
de álcool era uma idéia antiga, Perissinotto montou uma fábrica

78 Dedini 85 anos

Capitulo2 78 11/4/05, 16:53


de destilarias em sociedade Quando iniciou as atividades
com o especialista francês, Jean possuía, apenas, seis funcionários;
Joseph Morlet. A coluna por algum tempo depois, a equipe era
eles idealizada destilava a pinga, formada por 165 pessoas.
transformando-a em álcool puro. O objeto social da nova
Uma delas foi vendida a Umberto empresa era a fabricação e o
Aldrovandi, que a instalou em seu comércio de máquinas, alambi-
engenho na chamada Estrada do ques, aparelhos, peças, acessórios
Meio, na zona rural de Piracicaba. e instalações do ramo, bem como
Por ocasião da Segunda a montagem de destilarias para
Guerra Mundial (1939-1945), álcool e aguardente.
devido à falta de combustível, Nos primeiros tempos,
os proprietários de carros de a nova empresa foi dirigida
aluguel da cidade enfrentaram por Waldomiro Perissinotto e
o racionamento; para continuar Lázaro Pinto Sampaio. Depois,
trabalhando, eles enchiam pelo sobrinho de Mario Dedini,
metade do tanque com gasolina Narciso Gobbin, conhecido como
e completavam-no com álcool “Nino”, que permaneceu no
proveniente do engenho do posto até os anos 1990, quando
Aldrovandi. Assim, a mistura de saiu do grupo para dirigir sua
álcool com gasolina para abas- própria empresa.
tecimento de veículos já ocorria O capital social registrado
com sucesso em Piracicaba, em da Codistil era de Cr$ 400 000,00,
1940, muito antes de generali- distribuído entre os seguintes
zar-se pelo país. acionistas: Waldomiro Perissinotto
Diante da conjuntura, Mario (Cr$ 100 000,00), Nida Dedini Ric-
Dedini decidiu fundar a Constru- ciardi e Ada Dedini (Cr$ 75 000,00
tora de Distilarias Dedini – Codistil, cada uma), Dovilio Ometto e
constituída em 8 de fevereiro de Leopoldo Dedini (Cr$ 50 000,00
1943, e instalada à avenida Dona cada um), Ottilia Furlan Dedini
Francisca, 215, na Vila Rezende, (Cr$ 25 000,00), Arnaldo Ricciardi
próxima à Oficina Dedini. Ocupa- (Cr$ 15 000,00) e Lázaro Pinto
va, inicialmente, área total de 1 470 Sampaio (Cr$ 10 000,00).
metros quadrados, sendo 885 m2 A Codistil operava de forma
constituídos por edificações. semelhante à Oficina Dedini: no

a força de um ideal 79

Capitulo2 79 11/4/05, 16:53


início, fazia apenas alambiques litros para cada corpo ou caldeira
de pequena capacidade, além de de produção diária.
reformar e consertar equipamen- As colunas destilatórias para
tos já existentes nos engenhos de fabrico do álcool podiam utilizar
aguardente do município. Grada- diversos tipos de “vinhos”: de
tivamente, passou a fabricar algu- cana, melaço, matérias amiláceas,
mas peças, cuja tecnologia era de suculentas ou alcoólicas. Sua
domínio público. Dessa forma, capacidade de carga atendia
habilitou-se para construir uma também, desde a escala de labo-
destilaria completa, em 1943, ratório, até produções maiores
instalada na usina da Barra (Barra do que 60 000 litros por dia.
Bonita, SP), então propriedade de No primeiro decênio de
Pedro Ometto, cuja capacidade atividades, a Codistil já havia fabri-
de produção era de 12 000 litros cado, pelo menos, 140 destilarias
de álcool retificado por dia. para aguardente, e trinta para
Quando terminou a produção de álcool. Sua atuação
Segunda Guerra Mundial, em englobava inúmeras instalações
face da expansão da empresa, industriais de destilação para
o capital social foi elevado para fabricação contínua de aguarden-
Cr$ 1 200 000,00, e foram admiti- te, de álcool retificado de baixo
dos novos acionistas, além dos já e alto grau; para retificação de
existentes: Mario Dedini, Arman- flegmas ou aguardentes; para
do Dedini e Américo Perissinotto. destilação-retificação (contínua
Os alambiques fabricados pela direta e indireta) para obtenção
Codistil para fabricação de aguarden- de álcool retificado industrial,
te de cana, de melaço ou de cereais fino e extra-fino e destilação-re-
englobavam vários tipos: com cal- tificação-desidratação contínua,
deiras simples ou múltiplas, com direta para álcool anidro.
ou sem retificadores, aquecidos a As instalações para destilarias
fogo ou a vapor, em serpentinas, Codistil eram fornecidas comple-
“borbotores”, ou camisas. Podiam tas, com os equipamentos desti-
operar a banho-maria, serem fixos nados ao preparo do mosto, do
ou móveis, com capacidade de levedo alcoólico, de fermentação,
carga que variava de cinco litros, reservatórios diversos, estruturas
para análises de amostras, até 5 000 metálicas e outros acessórios.

80 Dedini 85 anos

Capitulo2 80 11/4/05, 16:53


No setor de construção de tempo em Piracicaba, e só regres-
alambiques e destilarias, a Codistil saram ao continente europeu
enfrentou, na década de 1940, a depois do término do conflito.
concorrência da Morlet S.A., tam- Paralelamente, prosseguiam
bém instalada em Piracicaba, com na empresa os esforços para
uma centena de funcionários melhorar a tecnologia de produ-
aproximadamente, constituída ção, com o aperfeiçoamento dos
com capitais locais que teve gran- conjuntos de moagem de cana,
de expansão nos anos seguintes. bastante superiores em tamanho
Em 1960, a Dedini adquiriu a parte e produtividade. Com dimensões
majoritária de suas ações, então, de 34 por 54 polegadas, passaram
em poder do grupo Bardella, de a contar com quatro ternos de
São Paulo. Posteriormente, em moendas, podendo processar
1969, a empresa foi totalmente 1 500 toneladas de cana por dia.
absorvida e incorporada à Codistil. Um pouco mais tarde, em
1954, as moendas passaram a
ser construídas com maiores
Evolução tecnológica dimensões, acionadas por turbinas
Durante a Segunda Guerra da marca GHH, importadas da
Mundial, as oficinas Dedini Alemanha. As primeiras foram
também se engajaram ao esforço instaladas na usina Central de Pira-
bélico e produziram capacetes cicaba. Tais equipamentos seriam
e pés de metralhadoras para as capazes de atender a demanda do
tropas aliadas. Mario Dedini não setor nos vinte anos seguintes.
deixou, entretanto, de ajudar seus Nessa mesma época, a Dedini já
compatriotas. Por volta de 1943, produzia motores a vapor hori-
ele trouxe marinheiros de um zontais, de até 1 000 hp, destinados
navio italiano para trabalhar em a movimentar os conjuntos de
suas oficinas. Eles haviam ficado moendas, até então importados.
detidos no porto de Santos, devido No decorrer do tempo,
à proibição de navegação que os muitos outros aparelhos
aliados, entre eles o Brasil, impu- entraram na linha de produ-
seram aos países do chamado Eixo ção da empresa, com destaque
(Alemanha, Itália e Japão). Os para as caldeiras geradoras de
italianos viveram durante algum vapor, de vários tipos, indis-

a força de um ideal 81

Capitulo2 81 11/4/05, 16:53


pensáveis ao funcionamento
das usinas que, juntamente
com as moendas, se tornaram
os principais equipamentos
produzidos pela indústria.
Dessa forma, ao término da
Segunda Guerra Mundial (1939-
1945), a M. Dedini consolidou-se
como uma empresa nacional de
grande porte, capaz de produzir
todos os equipamentos para usina
de açúcar, passando a atender, em
nível nacional, as necessidades
dos produtores. Intensificou seu
ritmo de produção, em virtude da
expansão da indústria açucareira
paulista. Assim, o aumento de
capacidade produtiva, aliado à va-
lorização das reservas financeiras,
acumuladas pela empresa durante
o conflito, permitiram seu fortale-
cimento e reequipamento.
Em 11 de novembro de 1945,
a empresa deixou de ser indivi-
dual, adquirindo a denominação
M. Dedini & Cia., elevando seu
capital social de Cr$ 1 000 000,00
para Cr$ 6 000 000,00, dividido
entre os seguintes acionistas:
Mario Dedini (Cr$ 2 000 000,00),
seus filhos Armando, Ada e Nida
com Cr$ 1 000 000,00 cada um;
seu sobrinho Leopoldo Dedini e
seu genro Dovilio Ometto, com
Cr$ 500 000,00 cada um.

Capitulo2 82 11/4/05, 16:54


Montagem de moendas nas
Oficinas Dedini para a usina Santa
Elisa, Sertãozinho (SP), em 1948

Capitulo2 83 11/4/05, 16:54


Buscando o equilíbrio inerente à própria natureza
do produto, a política do IAA
Durante o pós-guerra, o setor
consolidou a indústria açu-
açucareiro voltou a enfrentar
careira em bases mais sólidas,
problemas. Para contorná-los, o
organizada para crescer e para
governo instituiu, em 1947, o Esta-
melhor enfrentar os impactos
tuto da Lavoura Canavieira, que
das crises internacionais. Apesar
estabeleceu o máximo de 60% do
das reclamações dos produ-
consumo de matéria-prima a ser
tores paulistas, que se viram
fornecido pelas lavouras próprias
limitados no crescimento, o
das usinas, devendo o restante ser
IAA assegurou ao Nordeste a
obrigatoriamente proveniente de
manutenção dessa atividade,
plantadores autônomos.
vital para seu desenvolvimento;
Essa política governamen-
no entanto, em ritmo muito
tal teve grandes repercussões;
menor do que no Centro-Sul.
passados os primeiros anos
de restrições e dificuldades, o
mercado reencontrou o equilí-
Abertura das importações
brio entre a oferta e demanda.
Para tanto, foi necessário que Com o término da Segunda
o IAA comprasse e estocasse Guerra Mundial, cessou a proibi-
grandes quantidades de açúcar ção das importações de equipa-
durante várias safras. mentos, e a economia nacional
Estimulado por aquele órgão, viveu um breve momento de
o tradicional segmento canaviei- euforia, diante do acúmulo de
ro pôde modernizar-se, ao longo reservas monetárias decorrentes
do tempo. Gradativamente, os da suspensão das compras no
velhos engenhos desapareceram, exterior no período em que
abrindo espaço para as usinas. Em durou o conflito.
1925-1926, eles eram responsáveis A conseqüência imediata
por 42% do total fabricado pelo dessa política cambial para a
país. Essa participação caiu para economia açucareira foi, em um
20%, em 1947-1948, até tornar-se primeiro momento, o aumento
inexistente, nos anos posteriores. das importações para aquisição
Embora não conseguisse de máquinas e equipamentos.
corrigir a instabilidade do setor, Nessa época, o estado de São

84 Dedini 85 anos

Capitulo2 84 11/4/05, 16:54


Paulo foi favorecido pelo IAA, dessa situação, o governo decidiu
com aumento da sua cota de introduzir novamente rígidos
produção para que pudesse controles administrativos às
suprir a demanda de açúcar importações consideradas supér-
no mercado interno. Assim, fluas, em substituição à desvalori-
precisava importar diversos zação cambial antes adotada.
equipamentos para modernizar Dessa forma, no início da
ainda mais seu parque fabril. década de 1950, foram tomadas
Quando o governo acenou diversas medidas visando estimu-
com a possibilidade de aquisição lar o desenvolvimento econômi-
de máquinas no exterior, em vez co, tais como investimentos em
de prejudicada, a Dedini também sistemas de transporte e energia
beneficiou-se com a elevação dos e a instituição de uma reforma
preços de seus produtos para um cambial. Essas modificações
patamar mais alto, nivelando-os influenciaram positivamente
com os dos importados. o processo de industrialização
Segundo Barjas Negri (1977), em curso do país, consolidando
esse dinamismo eficiente da uma reserva de mercado para as
empresa, perfeitamente ajustado produções que possibilitassem
às condições de mercado, ex- substituição de importações; estas,
pressava-se no contínuo avanço por sua vez, passaram a obedecer a
tecnológico verificado naquela taxas de câmbio mais elevadas.
época, nos equipamentos A concessão de subsídios e
produzidos, no que se refere o favorecimento à entrada de
à capacidade e à escala, ou na capital estrangeiro destinados à
introdução de novos aparelhos expansão da indústria de bens
na linha de produção. de capital sob encomenda, de
A política cambial praticada bens de consumo durável e de
com a retomada das importações bens intermediários e insumos
de bens de consumo e de capital, necessários ao desenvolvimento
no entanto, foi desastrosa para industrial, acabaram, no entanto,
o país, provocando grande contribuindo para aumentar o
endividamento. No ano de 1947, processo inflacionário.
já havia vultosos déficits nas Desde meados da década de
transações correntes e, diante 1940, a indústria pesada vinha se

a força de um ideal 85

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consolidando no Brasil, estimu- Aumenta a diversificação
lada pelo governo Vargas. Esse
Em 1948, surgiu em Pira-
setor da economia caracterizava-
cicaba a Metalúrgica de Acessórios
se pela forte intervenção direta
para Usinas S.A. – Mausa, como
ou indireta do Estado, e pela
resultado da associação do
participação do capital estrangei-
industrial Lino Morganti, até
ro. Assim, surgiram, nessa época:
então diretor da Refinadora Paulista
a Cia. Vale do Rio Doce (1942), a Ace-
S.A., do engenheiro Rubem de
sita (1944), e a Companhia Siderúrgica
Souza Carvalho e do técnico
Nacional (1945), entre outras.
João Bottene, perito em indústria
No início da década seguinte, mecânica e ex-proprietário de
instituiu-se o monopólio estatal um estabelecimento de conser-
sobre o petróleo, com a instalação tos e reparos dos trens da E. F.
da Petrobras, após campanha com Sorocabana, entre 1925 e 1940.
grande mobilização popular, e Mais tarde, Mario Dedini e
estabeleceu-se o Banco Nacional outros membros de sua família
de Desenvolvimento Econômico associaram-se à Mausa, adqui-
(BNDE, hoje BNDES), que se rindo, sucessivamente, ações da
tornaria, nos anos seguintes, o empresa, até obterem seu total
principal agente financiador de controle acionário. Essa indús-
projetos na área siderúrgica e de tria tornou-se um importante
geração elétrica. estabelecimento da cidade, em
Por outro lado, os preços do funcionamento até os dias atuais,
açúcar no mercado internacional fornecendo produtos para usinas
haviam-se elevado durante a de açúcar e de álcool e para ou-
Segunda Guerra Mundial, mas o tros setores, como petroquímico
Brasil tinha dificuldades para ex- e de fabricação de papel.
portá-lo, devido à precariedade do No início, a Mausa utilizava a
transporte marítimo. O escoamen- seção mecânica da M. Dedini para
to das safras era mais problemático usinagem de suas peças. Em pou-
no Nordeste, o que contribuiu, co tempo, a nova fábrica estava
ainda mais, para acelerar o pro- produzindo 30% dos equipamen-
cesso de decadência das usinas ali tos necessários à instalação das
instaladas e a transferência do eixo usinas de açúcar. A Dedini forne-
produtivo para São Paulo. cia o restante. Tanto uma como

86 Dedini 85 anos

Capitulo2 86 11/4/05, 16:54


outra empresa trabalhavam pelo unidades (Metalúrgica e Codistil),
sistema de encomendas. e cuja tecnologia não havia
O objetivo social da Mausa era sido assimilada ainda. Assim,
“fabricar máquinas e acessórios, recorreu-se ao conhecimento de
consertos e instalações industriais, profissionais especializados para
realizar importações e expor- desenvolver novos produtos,
tações de máquinas”. Um belo como foi o caso de João Bottene,
prédio para abrigar a fábrica foi que além de possuir participação
erguido no centro de Piracicaba. acionária, também tornou-se
Com capital de Cr$ 1 600 000,00 diretor-gerente da nova empresa.
(um milhão e seiscentos mil Com a instalação da Mausa,
cruzeiros), a empresa tinha como pretendia-se obter uma divisão
sócios: João Bottene, Romeu de de trabalho mais eficiente,
Souza Carvalho, Lino Morganti, permitindo produção em maior
Mario Dedini, com participação escala e, conseqüentemente, com
de 15% cada um; Armando maior economia. A fabricação
Dedini, Leopoldo Dedini, Dovilio abrangia uma linha mais diver-
Ometto e Arnaldo Ricciardi, com sificada para atender as usinas
participação de 10% cada um. como filtros para caldos, diversos
A Mausa fabricava aqueles tipos de filtros rotativos, centrífu-
equipamentos para as usinas não
produzidos pelas outras duas

Capitulo2 87 11/4/05, 16:54


gas convencionais, decantadores diversificação das linhas de pro-
(clarificadores), redutores de dução. Com isso, a rentabilidade
velocidade, bombas para diversos do grupo cresceu, auxiliada por
fins industriais, mesas alimenta- uma política de vendas eficiente,
doras de cana, que oferecia
pontes rolantes, assistência téc-
além de muitos
Em agosto de 1949,
nica localizada
outros. a Dedini comemora novo e facilidades de
Em 1950, as feito: no tempo recorde de financiamento
oficinas Dedini aos clientes.
sessenta dias conseguiu
transformam- Além disso,
se em socieda- fabricar e embarcar no o setor açuca-
de anônima, porto de Santos (SP), com reiro vivia um
com a denomi- bom momento,
nação M. Dedini destino a Maceió (AL),
com o deslo-
Metalúrgica S.A. cerca de 1 500 toneladas camento do
Dessa forma, eixo produtor
de máquinas diversas e
nessa época, as para o sudeste
três empresas destilarias para ampliação brasileiro e a
– a Metalúrgica, da indústria sucroalcooleira transformação
a Codistil e a dos velhos
do Nordeste.
Mausa – pos- engenhos em
suíam con- modernas
dições de atender às principais usinas, como já foi dito ante-
necessidades das usinas e, por riormente. Um bom exemplo
isso, tiveram um extraordinário disso foi o caso da família Zanin.
crescimento. Naquela época, o Aproveitando a experiência na
número de funcionários ultra- produção do açúcar “batido”,
passou os mil, sendo quase 30% eles resolveram acatar um
deles empregados junto às duas conselho de Mario Dedini, amigo
empresas mais novas do grupo. da família de longa data, para
Essa expansão foi resultado abandonar a produção de aguar-
do contínuo aperfeiçoamento dente na Fazenda São Joaquim, em
técnico, que possibilitou o Araraquara (SP), e montar uma
aumento da produtividade e a usina de açúcar cristal.

88 Dedini 85 anos

Capitulo2 88 11/4/05, 16:54


Por volta de 1947, o industrial em Frutal (MG), fornecendo equi-
visitou o amigo e sugeriu o pamentos para sua reforma.
empreendimento a Domingos Em 1950, Dovilio Ometto
Zanin. A conversa entre os dois já aparece nos documentos da
ficou gravada na memória de sociedade como diretor-gerente,
seus descendentes. Mario Dedini ao lado de Mario Dedini. O diretor
teria comentado que “Ci vuole uma comercial era seu sobrinho, Leo-
spinta per crescere!” (É preciso um poldo Dedini. Quando a empresa
esforço para crescer!). O amigo, tomou a denominação de M. Dedi-
Domingos, respondeu: “Ma dove ni S.A. Metalúrgica, naquele ano, foi
sono gli sghei?” (Mas, onde está o criado mais um cargo na diretoria,
dinheiro?). O Sr. Mario retrucou: ocupado por Armando Dedini.
“Ma certo! Si lavora e si paga!” (Ora! Em um contexto de fraca
Trabalha-se, e paga-se!). Assim concorrência, aliada à grande
surgiu a usina Zanin. capacidade produtiva, a Dedini
Em 1947, a produção da Dedini firmou-se como líder do mercado
já estava bastante diversificada, naquela época, dominando o
a ponto de fabricar unidades cenário industrial da cidade. Além
completas de fabricação de açúcar. da M. Dedini S.A. Metalúrgica, da
Entre 1945-1948, colocou em Mausa e da Codistil – Construtora de
funcionamento as usinas: Palmeiras Distilarias Dedini S.A., todas perten-
(Araras), Modelo (Piracicaba), centes à família Dedini, havia, em
Barra Grande (Lençóis Paulista), no Piracicaba, naquela época, apenas
estado de São Paulo, e Adelaide, em um estabelecimento com atuação
Ilhota (SC). Participou, também, significativa no setor, a Morlet S.A.
como acionista da usina Fronteira, Equipamentos para Indústrias.

a força de um ideal 89

Capitulo2 89 11/4/05, 16:54


DOVILIO OMETTO:
A GARANTIA DE CONTINUIDADE
Corria o ano de 1941. O piracicabano Dovilio Ometto,
um dos filhos do “rei do açúcar”, Pedro Ometto, acabava
de formar-se engenheiro agrônomo pela Escola Superior
de Agricultura “Luiz de Queiroz”, sem sentir, na verdade,
nenhuma vocação para o trabalho rural. Sua intenção era
aprofundar mais seus estudos, principalmente na área da
mecânica, que o atraía bastante.

Esse homem calmo e ponderado que, quando jovem,


passava horas olhando as estrelas, intrigado com o que havia
no infinito, define-se como um incansável otimista e idealista:
“Sonhava até acordado, gostava de imaginar o que havia no
céu e com esses pensamentos, chegava à sublimação”, re-
corda-se, emocionado, em depoimento de abril de 2005.

Assim, quando recebeu o convite do melhor amigo de


seu pai, o industrial Mario Dedini, para trabalhar em suas
empresas, recusou de forma educada, mas firme. Foi, então,
para a cidade de Campinas (SP), juntamente com o amigo
André Tosello, onde fez cursos na área de seu interesse. Sua
negativa, entretanto, não convenceu o interlocutor, que, na
verdade, queria encaminhar a vida profissional do filho do
dileto amigo Pedro. Passados seis meses da conversa ini-
cial, o comendador voltou à carga, comentando: “Chega Dovilio Ometto, presidente das empresas
de teoria, vamos à prática!”. Dedini, em seu escritório situado na matriz,
Piracicaba (SP), em outubro de 2005
Dessa forma, Dovilio voltou para Piracicaba e começou a
trabalhar nas Oficinas Dedini. Inicialmente, acompanhou as
montagens de peças, e logo descobriu que aquele era o lugar
ideal para desenvolver sua enorme curiosidade. Considerava
um desafio colocar máquinas desativadas em funcionamento. 48 anos), com quem teve os filhos Mario, Claudia e Juliana. É
Certa vez, ele encontrou um forno com acionamento casado em segundas núpcias com Carmen Eugenie Ometto.
hidráulico abandonado na área da sucata e não descansou Dovilio permaneceu ao lado do sogro todas as horas e
enquanto não o consertou. Assim, o próprio Mario Dedini, acompanhou ativamente o crescimento do império por ele
quando havia equipamentos com problemas, costumava criado. Por ocasião da maior crise vivida pela empresa, em
dizer: “Chama o Dovilio que ele dá um jeito!”. Em outra meados de 1960, vendeu toda a sua participação no gru-
ocasião, quando estava sendo instalado um forno elétrico po Ometto e empregou o dinheiro na Dedini, sem exigir
de última geração na Siderúrgica, acompanhou de perto sua nenhuma data para retorno do empréstimo. “Meu sogro
montagem, a ponto de ficar 48 horas sem voltar para casa. não gostava de pegar financiamentos junto a bancos. Por
Em 1943, Dovilio casou-se com a filha do meio de Mario isso, quando lhe ofereci dinheiro para saldar os compro-
Dedini, Ada (que viria a falecer precocemente, em 1974, aos missos urgentes, ele não hesitou. Aceitou, dizendo que eu

Capitulo2 90 11/4/05, 16:54


era muito inteligente, pois o dinheiro voltaria com muitos executivo que comandou a multinacional General Electric
dividendos. Para mim, isso foi um grande estímulo”. até 2001, tornando-a uma das corporações mais admiradas
Muito tempo depois, Dovilio ficou sabendo que seus ir- do mundo. Seguindo esse caminho, está implantando em
mãos ficaram muito preocupados com sua atitude drástica. suas empresas o famoso processo de gestão, o Seis Sigma,
E formaram um fundo financeiro para auxiliá-lo, caso ele preconizado por aquele administrador.
precisasse mais tarde. Não foi necessário. A Dedini venceu Com um estilo completamente diferente do sogro, Do-
aquela crise e, muito depois, Dovilio converteu o dinheiro vilio freqüenta diariamente a sede administrativa da Dedi-
emprestado em ações, demonstrando, mais uma vez, sua ni. Formou, ao longo do tempo, uma equipe competente,
confiança no futuro das empresas. recrutada dentro da própria empresa e em indústrias do
Aos poucos, Dovilio foi-se impondo como gerente-geral setor de bens de capital, que vem implantando conceitos
do grupo, recebendo, segundo ele, todo o apoio do sogro. modernos de administração, e buscando imprimir a marca
Assim, quando Mario Dedini faleceu, em 1970, Dovilio assu- da excelência na tradicional indústria.
miu naturalmente o comando das empresas, por consenso Dovilio Ometto objetiva agora “enxugar” e modernizar
dos acionistas. Para ele, foi um momento difícil: “Era im- a estrutura operacional da Dedini. Preocupa-se, também,
possível substituir um homem tão carismático como Mario em torná-la uma empresa cidadã. Para tanto, espelha-se na
Dedini. Por isso, procurei profissionalizar as empresas, con- imagem do fundador, de quem é grande admirador: “Mario
tratando pessoas conceituadas e altamente qualificadas Dedini foi um grande homem, teve uma vida emocionante.
para dar conta dessa tarefa”. Foi um grande empreendedor, muito trabalhador, demons-
Ao longo do tempo, vieram muitas outras crises, e a Dedini trando, sempre, bastante iniciativa em seus negócios.
resistiu a todas, graças ao comando firme de Dovilio Ometto. Aprendi muito com seu exemplo”.
Não sem sacrifícios. Nessa luta pela sobrevivência, precisou O empresário não gosta de recordar fatos passados.
desfazer parte substancial de seu patrimônio. Agora, no início “Não sou bom para guardar datas”, comenta, sorrindo.
do terceiro milênio, a empresa navega em águas mais calmas, Prefere falar do futuro, pois o considera mais intrigante.
com boas perspectivas de expansão nos próximos anos, im- Considera que o setor de bens de capital sob encomenda
pulsionada por uma conjuntura econômica favorável. está prestes a viver um momento de grande crescimento,
Recentemente, em abril de 2005, o espírito empreende- semelhante ao do Proálcool, nos anos 1970, devido ao inte-
dor de Dovilio Ometto foi reconhecido em nível nacional. resse despertado, em especial, pelo biodiesel.
Ele recebeu o prêmio de Líder Setorial – categoria indústria Sua equipe já fez os cálculos: quando se efetivar
de base (bens de capital), concedido pelo jornal Gazeta a adição desse carburante fabricado a partir de óleos
Mercantil. Dessa forma, passou a fazer parte de um seleto vegetais ao diesel, já prevista em legislação no Brasil, a
grupo de mil empresários do Brasil que discutem e suge- demanda será maior ainda de quando se iniciou a mistu-
rem soluções para o desenvolvimento do país. ra de álcool à gasolina. Se isso se concretizar, mais uma
Dovilio Ometto é um homem introspectivo, sempre vez, o grupo empresarial que Dovilio Ometto comanda
muito interessado em novidades e leitor incansável, o que será bastante beneficiado, mostrando que sua fé inaba-
lhe permite estar sempre atualizado. No momento, confes- lável em um futuro melhor e seu otimismo contagiante
sa sua admiração pelo norte-americano Jack Welch, alto serão justamente recompensados.

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Capitulo3 92 11/4/05, 16:55
CAPÍTULO 3

A todo vapor

“Olha com que amplidão no horizonte das várzeas


O áspero manto das chaminés se perde ao longe”...
Ribeiro Couto, escritor brasileiro,
no final da década de 1930.

“S
ão Paulo não pode parar.” Essas palavras de ordem retratavam
a nervosa transformação ocorrida na economia paulista
que, nos anos 1950, congregava quase 40% dos operários
da indústria nacional. Segundo o historiador Sergio Buarque de
Holanda, as grandes concentrações de massa, altamente urbanizadas e
alfabetizadas, em torno dos estabelecimentos fabris, passaram a dar um
cunho inédito e peculiar ao estado paulista, em relação ao restante do
território brasileiro, bem distante dos tempos em que predominavam
os interesses dos grandes proprietários rurais.
Observa-se que, no período de 1948 a 1960, a taxa média anual de
crescimento industrial foi de 11,2%, enquanto o da agricultura, 4,3% por
ano. Data dessa época, a chegada ao país das empresas multinacionais,
implantando a indústria automobilística e de eletrodomésticos. A expansão
aumentou a capacidade de trabalho e fez emergir a chamada “primeira
geração do consumo”. Assim, ao mesmo tempo em que se fortaleceu o
Vapor d’água em chaminés de
usina paulista de açúcar e álcool operariado e os movimentos sociais, ampliou-se a classe média no Brasil.
Esse progresso foi impulsionado ainda mais pela política do presiden-
te Juscelino Kubitschek (1956-1961), que queria dar ao país “cinqüenta
anos de progresso em cinco”. Seus planos previam a industrialização
acelerada e a transferência do exterior para o território nacional das bases

a força de um ideal 93

Capitulo3 93 11/4/05, 16:55


do desenvolvimento. Pela im- dos equipamentos para a indús-
plantação do seu famoso Plano de tria açucareira, principalmente,
Metas, com pesados investimentos com a entrada em funcionamen-
em energia e transportes, o to da Mausa e da Codistil, quando
presidente abriu a economia para ocorreu maior diversificação da
o capital estrangeiro, e possibilitou linha de produção. Nessa época,
aumento de 80% na produção da o mercado apresentava grande
indústria nacional. expansão (cerca 16% ao ano)
Kubitschek atingiu muitas e a Dedini beneficiou-se desse
das metas planejadas. A produ- momento: no período de 1947 a
ção de aço dobrou no período, 1952, suas vendas aumentaram
foram instaladas as hidrelétricas seis vezes e meia, apresentando
de Três Marias e Furnas e construída taxa média anual de crescimento
a nova capital do país, Brasília. de 60%, principalmente com a
Mais de 20 000 quilômetros de comercialização de onze usinas
novas estradas foram abertos, no período.
privilegiando o transporte O momento coincidiu com
rodoviário, em detrimento a efetivação de grandes investi-
do ferroviário. Eram objetivos mentos na capacidade produtiva
ambiciosos para um país que, no da empresa. As instalações foram
início daquele governo, ainda reformadas e ampliadas para
amargava uma renda de apenas receber o maior torno vertical
US$ 205 per capita, exibia altos existente na América do Sul,
índices de mortalidade infantil pesando 120 toneladas, que pos-
e analfabetismo, e possuía um sibilitava trabalhar peças com até
estágio tecnológico equivalente 4,50 metros de diâmetro. Haviam
ao dos Estados Unidos há um sido adquiridas, também, duas
século atrás, ou seja, 1860. possantes fresas para peças com
até cinco metros de diâmetro,
além de um novo torno e uma
Diversificação e plaina horizontal, com sessenta
expansão
toneladas de peso cada.
Diante dessa política desen- Convidado para conhecer
volvimentista, na década de 1950, as novas máquinas da Dedini, no
a Dedini já fornecia a maior parte início de 1950, o então presidente

94 Dedini 85 anos

Capitulo3 94 11/4/05, 16:55


do IAA, Edgard de Góis Monteiro, com capacidade para fornecer
reconheceu o importante papel quase a totalidade dos equipa-
exercido pela empresa piracicaba- mentos necessários às usinas de
na no reequipamento da indústria açúcar e destilarias de álcool.
açucareira nacional, declarando, Na opinião de Barjas Negri
na ocasião, ao periódico São Paulo (1977), essa expansão possibilitou
Açucareiro: “Vi hoje máquinas admirá- sua consolidação definitiva como
veis, de comprovada eficiência técnica, uma fabricante de nível nacional.
o que assegurará às usinas de açúcar do “A partir do momento em que
país maiores facilidades para aquisição a empresa começou a produzir
de maquinaria, desde as mais simples, até usinas de açúcar completas, a
grandes moendas de até 2 500 toneladas importação declinou conside-
diárias, sem as protelações na aquisição de ravelmente, representando, em
material estrangeiro”. 1953, apenas 18% da oferta dos
equipamentos. Nos anos seguin-
tes, foi praticamente inexistente,
Nacionais substituem
restringindo-se a um ou outro
importados
item mais sofisticado.”
Em 1953, os jornais no-
ticiavam que as sete usinas e
destilarias instaladas em Piracicaba A usina mais bonita
do Brasil
produziam 1,5 milhão de sacas de
açúcar, 3,31 milhões de litros de Em janeiro de 1954, a concei-
álcool comum e 3,5 milhões de li- tuada revista norte-americana
tros de álcool anidro. Nessa época, The Sugar Journal publicava em
ocorreu um fato novo, quando reportagem de capa a notícia
um decreto do governo proibiu da construção pela Dedini da
as importações de equipamentos usina Nossa Senhora da Aparecida,
para o setor de açúcar e álcool. em Itapira (SP), de propriedade
Os estudiosos do assunto de Virgolino de Oliveira. Na
acreditam que tal fato possibi- opinião da revista, aquela era,
litou à Dedini absorver a fatia de certamente, “a mais bonita e moderna
mercado pertencente aos forne- usina do Brasil, combinando o melhor que
cedores estrangeiros, pois era, existe em projeto de arquitetura com o
então, a única instalada no país que há de mais arrojado em performance

a força de um ideal 95

Capitulo3 95 11/4/05, 16:55


de moagem”. A matéria informava,
também, que a Oficina Dedini era
uma “gigantesca fábrica instalada em
mais de 300 000 metros quadrados, prova-
velmente, a maior fundição da América
do Sul, brilhando com suas modernas
máquinas de grandes dimensões”.

Participação social
Nessa época, a Dedini já
influenciava fortemente a vida de
Piracicaba. Um exemplo disso foi
quando viabilizou a compra, pela
prefeitura municipal, da empresa
de Melhoramentos Urbanos, res-
ponsável pelo precário e deficiente
abastecimento de água na cidade.
No dia 15 de maio de 1952,
o comendador Mario Dedini
entregou um cheque pessoal
de Cr$ 4 000 000,000 ao prefeito
Samuel de Castro Neves, para
pagamento da primeira parcela da
aquisição da companhia, ficando,
outro tanto, para vencer dois
meses depois. Dessa forma, ocor-
reu considerável melhoria nesse
imprescindível serviço público
para a população da cidade.
A iniciativa foi considerada
quase tão importante como o dia

Torno vertical de 120 toneladas


instalado na Dedini no início
dos anos 1950: o maior da
América do Sul, na época

96 Dedini 85 anos

Capitulo3 96 11/4/05, 16:55


a força de um ideal 97

Capitulo3 97 11/4/05, 16:55


em que a água encanada jorrou cio”. O capital social da nova
pela primeira vez em um chafariz empresa, de Cr$ 1 200 000,00, era,
na praça principal de Piracicaba, assim, constituído: Mario Dedini,
no final do século XIX. Ottilia Furlan Dedini, Armando
Depois do pico de cresci- Dedini, Nida Dedini Ricciardi
mento observado no final dos e Ada Dedini Ometto, com
anos 1940, o mercado de bens de Cr$ 200 000,00 cada um; Alfredo
capital para o setor açucareiro Rossini e Aldrovando Fleury,
estabilizou-se. A comercialização com Cr$ 50 000,00 cada um, e
de unidades completas diminuiu, Osmany Junqueira Dias com
e passou a ser mais direcionada Cr$ 100 000,00. Como acontecera
para ampliações e moderni- antes, os integrantes da socieda-
zações. Tal situação ocorreu de, não-pertencentes à família,
porque as usinas deram um salto eram técnicos especializados
qualitativo, aumentando a escala com bastante conhecimento ou,
da produção para obter maior então, pessoas de confiança dos
rendimento industrial. outros acionistas.
Assim, o ritmo das vendas A Cerâmica parece ter sido
da Dedini arrefeceu um pouco, criada para atender às necessida-
diante da queda da demanda. des da M. Dedini S.A. Metalúrgica
Nessa época, a empresa procurou e de outras ligadas ao grupo, no
melhorar a qualidade técnica que se refere ao fornecimento
de seus produtos e pôde, assim, de materiais de construção
manter sua posição de líder no civil. No início, fabricava basica-
mercado. Procurou, também, mente itens feitos de cerâmica
abrir novas áreas de atuação. vermelha – manilhas, telhas,
tijolos e congêneres.
No final dos anos 1950,
Produção de refratários
a Cerâmica Dedini deu um
Um passo nesse sentido foi a salto tecnológico e passou a
instalação da Cerâmica Dedini Ltda., fabricar materiais refratários
em 1952, destinada à “fabricação para revestimento interno de
de tijolos, telhas, manilhas, caldeiras, fornos industriais e
ladrilhos e outros produtos de canais de chaminés destinados
barro cozido, indústria e comér- às indústrias em geral. Novas

98 Dedini 85 anos

Capitulo3 98 11/4/05, 16:55


máquinas foram adquiridas
e houve elevação no capital
social. Na alteração de 23 de
outubro de 1957 retiraram-
se os acionistas que não
eram membros da família,
e outros foram admitidos.
Mais tarde, essa
indústria, que funciona
até hoje, passou a
chamar-se Dedini Refra-
tários. Outra empresa
do grupo, a Siderúrgica,
que seria criada dois
anos depois, tornou-se
consumidora cativa dos produ- de sua instalação,
tos da Cerâmica e serviu, durante e, o restante, a ser integralizado
muito tempo, como campo de pela diretoria. Anúncio no The Sugar Journal
(1954) considera a usina Nossa
testes para seus produtos. O presidente da Siderúrgica Senhora da Aparecida, em Itapira
(SP), projetada e construída pela
era Mario Dedini, e os diretores, Dedini, como uma das mais
Dovilio Ometto, Leopoldo e bonitas e eficientes do mundo
Surge a Siderúrgica Armando Dedini. Os acionistas
A instalação da Siderúrgica eram os mesmos da Metalúrgica,
Dedini parece ter surgido da com a seguinte distribuição:
necessidade de melhor atender as Mario Dedini e Arnaldo Ric-
outras unidades do grupo, com ciardi, 1,7% cada um; Dovilio
relação ao fornecimento de peças Ometto e Leopoldo Dedini,
fundidas em aço, ferro e bronze. 8,3% cada um; Nida Dedini Ric-
Foi constituída em 17 de março ciardi, 20%; Ada Dedini Ometto,
de 1955, ocupando uma área 22%, e Armando Dedini, 38%.
próxima à Metalúrgica, com oito A nova sociedade tinha
alqueires, à avenida 1º de agosto, como objetivo “a siderurgia
Vila Rezende. Seu capital social propriamente dita, consecução de
inicial era de Cr$ 100 000 000,00, laminação de ferros, fabricação de
sendo 10% subscritos por ocasião pregos, parafusos e afins, tubos de

a força de um ideal 99

Capitulo3 99 11/4/05, 16:55


ferro, semelhantes para industria- No início, as instalações da
Siderúrgica Dedini implantada em lização e respectivo comércio”. A Siderúrgica receberam forno para
meados de 1950, no bairro da Vila
Rezende, Piracicaba (SP) laminação e a produção de tubos fundição de bronze, depois,
destinavam-se a completar os ampliado, também, para ferro e
aparelhos da caldeiraria do setor aço. Operava, basicamente, com
de açúcar e álcool, e, também, sucata. Quando inaugurou, em
de vácuos, evaporadores etc. Os 1955, uma linha de montagem da
pregos fabricados, por sua vez, laminação de vergalhões para a
visavam atender à demanda do construção civil, a nova indústria
setor ferroviário, pois, naquela expandiu-se bastante. Em dois
época, efetuaram-se muitas anos, o número de funcionários
ampliações na rede existente. passou de 45 para 225, e a pro-

100 Dedini 85 anos

Capitulo3 100 11/4/05, 16:56


dução anual saltou de três para O presidente foi recebido
dezesseis toneladas. com bastante entusiasmo por
Mais tarde, foi instalado populares, funcionários e dire-
um alto forno para processar tores da Dedini, e, no final do dia, No final dos anos
minério de ferro, mas, até os Kubitschek fez questão de deixar 1950, os engenheiros da
anos 1970, ele não funcionava um bilhete escrito de próprio pu-
Cia. Paulista de Força e Luz,
regularmente. Além dos setores nho, em que ressaltava o “arrojo
e a imponência das instalações da concessionária responsável
de aciaria e laminação dos
vergalhões, possuía, em anexo, indústria de Mario Dedini”. pelo fornecimento de ener-
uma fábrica de parafusos e uma A Metalúrgica e a Siderúrgica
gia elétrica na região, tiveram
divisão cerâmica, cuja produção operavam em perfeita integração:
se destinava à constante reno- a primeira recebia aço líquido da de rever o planejamento da
vação dos refratários dos fornos aciaria da segunda, e, também, demanda de eletricidade
Siemens-Martin. chapas de aço da Cia. Siderúrgica
para Piracicaba, diante do
Nacional, da Cosipa e da Usiminas. A
Metalúrgica possuía três divisões: crescimento industrial da
Arrojo da indústria fundição, caldeiraria e mecânica. cidade, alavancado, princi-
piracicabana Da fundição, saíam peças de
palmente, pela expansão
Uma prova do prestígio das ferro carbono, de aço carbono e de
indústrias comandadas por Mario aços-liga, destinadas ao abasteci- das Oficinas Dedini. Para
Dedini foi a visita, a Piracicaba, do mento de outras áreas do grupo. tanto, foi necessário instalar
então presidente da República, Fabricava, também, produtos
para outros ramos industriais, tais uma potente sub-estação
Juscelino Kubitschek, em 13 de
março de 1958, para inaugurar como corpos de prensas, matrizes própria, que exigiu altos
a expansão da Siderúrgica, que para estamparia, barramentos
investimentos da empresa.
acabara de instalar um dos para tornos e outras peças de alto
maiores fornos elétricos do Brasil valor agregado. Nesta época, o município
e sua moderna laminação. O A caldeiraria fornecia todos estava entre os cinco mais
presidente estava acompanhado os equipamentos necessários às
progressistas do Brasil.
do governador do Estado, Jânio usinas de açúcar, inclusive, cal-
Quadros, do general Nelson de deiras de vários tipos. A mecânica
Mello, dos deputados Ulisses chegou a ter em operação, mais
Guimarães, João Pacheco e tarde, nos anos 1970, cerca de 370
Chaves, Ivette Vargas, Athiê Jorge máquinas operatrizes de grande
Coury e outras autoridades. porte para usinagem de peças

a força de um ideal 101

Capitulo3 101 11/4/05, 16:56


maiores, além de equipamentos cimentos para Minas Gerais,
especializados no preparo de Paraná e Santa Catarina. Nesse
peças médias e pequenas. número não estavam compu-
Na Metalúrgica havia, ainda, tadas as pequenas máquinas
a divisão de estudos e projetos, manuais e as de tração animal,
responsável pela criação da destinadas, ainda, aos pequenos
maioria dos equipamentos de engenhos de aguardente, de
sua linha de produção. No bem açúcar “batido” e de rapadura.
equipado laboratório físico-quí- As dimensões das moendas
mico existente eram examinados, fabricadas variavam desde
analisados e testados todos os quatro por quatro polegadas
produtos utilizados e fabricados até 38 por 78 polegadas, com
pelas empresas do grupo. capacidade de esmagamento de
cem quilos até 5 000 toneladas
por dia de cana. Eram projetadas
Contabilizando detalhadamente na seção técni-
resultados ca da empresa, que contava com
Por volta de 1950, um desenhistas, copistas e orçamen-
impresso publicitário informava tistas. Ali eram, também, elabo-
que a Dedini contava com mais de rados os projetos de construção
2 000 clientes em vários pontos de usinas completas, além de
do Brasil, e possuía a capacidade reformas e ampliações.
para produzir mais de 10 000 Outro carro-chefe da produ-
toneladas de peças por mês. ção eram as caldeiras. Nessa época,
Nessa época, a empresa já havia já haviam sido fabricadas mais
fabricado 64 usinas completas e de duzentas unidades de vários
178 equipamentos de moagem, tipos: verticais, multitubulares
movidos à energia hidráulica, horizontais com tubos de fumaça,
elétrica e a vapor. O catálogo do tipo locomóvel ou locomotiva,
dizia, ainda, que as moendas da ou marítimas. Havia, ainda, as
empresa processavam mais de caldeiras aquotubulares: de tubos
760 000 toneladas de cana por dia verticais (tipo Stirling), ou de tubos
em terras brasileiras. retos e câmaras seccionais, além
A maior parte era destinada das caldeiras especiais com pare-
a São Paulo, mas houve forne- des d’água na fornalha.

102 Dedini 85 anos

Capitulo3 102 11/4/05, 16:56


Pioneirismo tecnológico caldeiras a vapor, que representa-
vam, então, 30% das vendas. Conjunto de moendas fabricado
Naquela época, a empresa Assim, em 1954, a Dedini pela Dedini em 1954 para a usina
Piracicaba (antigo Engenho Central)
líder do grupo em vendas forneceu à usina Piracicaba (antigo
continuava a ser a Metalúrgica, Engenho Central) um conjunto
que conseguiu sustentar o de moendas composto por
faturamento global das unidades quatro ternos (do tamanho 37
fabris nos final dos anos 1950 e por 78 polegadas), com capacida-
na década seguinte, devido ao de de moagem diária superior a
avanço tecnológico verificado, 3 500 toneladas de cana por dia.
principalmente, na fabricação Esse equipamento permitiria à
dos conjuntos de moagem e das usina fabricar quase um milhão

a força de um ideal 103

Capitulo3 103 11/4/05, 16:56


de sacas de açúcar, de 60 quilos, (V2/4) e vertical com dois balões
por safra (em cerca de 180 dias e cinco paredes de água (V2/5).
de trabalho), produção, então, Até 1940, as caldeiras fabri-
inédita no país. Somente mais cadas pela Dedini não possuíam
tarde, na safra de 1957-1958, uma superfície de aquecimento
indústria de Pernambuco conse- superior a 350 metros quadrados.
guiria igualar esse feito. Visando atender à expansão das
Com relação às caldeiras a usinas brasileiras, a capacidade foi
vapor, a inovação tecnológica aumentando e, em 1958, já apre-
foi constante: no início eram sentavam 1 000 metros quadrados
multitubulares (as chamadas de superfície de aquecimento.
“tubos de fogo”, rebitadas). Como não havia, ainda,
Mais tarde (1949), passaram a legislação específica no Brasil
ser fabricadas para as linhas de para a construção, instalação e
produção de açúcar aquelas com manutenção desses equipamen-
tubos curvos verticais, e com tos, as Oficinas Dedini seguiam,
três corpos. Posteriormente, na fabricação, as normas inter-
Projeto de caldeira Dedini,
elas tornaram-se nacionais, usadas em pesquisa
elaborado na década de 1940
verticais, com e desenvolvimento, testes de
dois ba- produtos, sistemas de qualidade
lões e e transações comerciais em
quatro todo mundo, estabelecidas pela
paredes ASTM International, na época,
de água conhecida como American Society
for Testing and Materials.
Para aperfeiçoar a produção
de caldeiras aquotubulares,
pela primeira vez, a Dedini foi
obrigada a recorrer à tecnologia
estrangeira, adquirida da firma
norte-americana Combustion
Engineering Inc., à qual pagou
royalties, entre 1954 e 1957.
Na construção das
caldeiras empregavam-se

104 Dedini 85 anos

Capitulo3 104 11/4/05, 16:56


chapas especiais, de várias espes- (óleo, lenha, bagaço, cascas,
suras, provenientes da Companhia serragem, cavacos, sabugos etc).
Siderúrgica Nacional, de Volta Redon- Tais avanços tecnológicos,
da (RJ); os tubos eram que demanda-
da Mannesmann, adequa- A Dedini já vam grandes
dos a suportar altas possuía condições investimentos
pressões; os vigamentos, na fabricação,
patamares, corrimãos para exportar seus
asseguraram a
e demais acessórios de equipamentos no liderança nacio-
sua estrutura metálica, nal da Dedini no
final da década de
construídos em ferros setor açucareiro
perfilados, e adquiridos 1950. Em agosto de ao longo do
de terceiros; todas as 1958, uma comitiva tempo. Assim,
partes em ferro e aço até meados de
de usineiros da Re-
fundido, no entanto, 1950, não havia
eram desenhadas e cons- pública Dominicana ainda nenhum
truídas pelos técnicos visitou as instalações outro produtor
da Dedini. Os fundos nacional, exceto
boleados e as bombas de da indústria piraci-
ela, que produ-
alimentação das caldei- cabana, que, pouco zisse caldeiras a
ras eram, também, de vapor e conjun-
tempo depois,
fabricação própria. tos de moagem
começou a vender completos de
Atenção especial
foi dada aos supera- para vários países maior porte. A
quecedores, economi- empresa era,
da América Latina.
zadores, aquecedores então, responsá-
de ar e sopradores de vel por mais de
fuligem, aparelhos das caldeiras 95% do valor total das vendas de
indispensáveis para se obter equipamentos para o setor.
maior aproveitamento do vapor, Os estudiosos verificaram que,
maior economia de combustível e naquela época, outras indústrias
aumento da capacidade de pro- estabelecidas exploravam uma
dução. As fornalhas, por sua vez, fatia de mercado em que não
foram projetadas para trabalhar enfrentavam concorrência tão
com diversos materiais de queima forte, concentrando o foco em

a força de um ideal 105

Capitulo3 105 11/4/05, 16:56


unidades de menor porte. Dedica- controlada integralmente pelo
vam-se a produzir determinados grupo Dedini. Adquiriu a deno-
equipamentos de caldeiraria leve, minação de Dedini Equipamentos
como tanques, aquecedores, Elétricos Ltda (mais tarde, nos anos
cristalizadores, evaporadores, 1990, esta empresa foi vendida e,
entre outros, que apresentavam depois, desativada).
tecnologia mais simplificada e Barjas Negri (1977) relata,
exigiam menores investimentos que, nessa época, a Siderúrgica
em máquinas operatrizes. Dedini já vinha operando com
maior escala de produção, e seus
transformadores elétricos de alta
Ampliando a atuação voltagem queimavam e desgasta-
Mais uma diversificação do vam-se constantemente, devido
grupo foi a criação, em 1957, da ao excesso de atividade: “Assim,
Dedini Capellari S.A. Transformadores, a Dedini Capellari operava como
também em Piracicaba, com uma eficiente oficina de reparos
capital de Cr$ 300 000,00. A socie- da Siderúrgica, evitando eventuais
dade apresentava, inicialmente, paralisações prolongadas dos
a seguinte composição: 43,7% fornos elétricos”.
pertenciam à família Capellari, Outra empresa do grupo
26,7% à família Dedini e o restan- surgiu em 31 de janeiro de
te dividido entre Dovilio Ometto 1959 para atuar, também, no
(18%), Narciso Gobbin (8,3%) e setor canavieiro: a Motocana S.A.
outros (3,3%). Máquinas e Equipamentos Agrícolas.
O objeto social era a “fabri- Com capital de Cr$ 3 000 000,00,
cação de transformadores de seu objetivo era “fabricar, em
voltagem de corrente elétrica e estabelecimento próprio, ou de
afins”. Esse produto destinava-se, terceiros, máquinas e imple-
principalmente, a atender as mentos para a moto-mecani-
usinas de açúcar, embora fosse zação canavieira”. Situava-se,
comercializado para indústrias também, na Vila Rezende, em
de outros setores. Com a deno- Piracicaba, nas proximidades
minação de Superkavea S.A., essa das outras unidades da Dedini,
produtora de transformadores utilizando tecnologia basica-
elétricos, passou, em 1968, a ser mente francesa.

106 Dedini 85 anos

Capitulo3 106 11/4/05, 16:56


No início, a Motocana tinha Logo depois de sua insta-
como sócios uma espécie de lação, a Motocana foi também
“holding” – a Administração bastante auxiliada pela política
e Participações Dedini (com governamental, que estimulava
Cr$ 1 000 000,00) – e uma o aumento da produção de
empresa francesa, proprietária açúcar e álcool, garantindo
de diversas usinas na região, financiamentos para ampliação e
a Societé de Sucreries Brésiliennes modernização das usinas (resolu-
(Cr$ 1 000 000,00), além de outros ção 1761, de 12-12-1963). Por meio
acionistas individuais: Jean desse instrumento, o IAA esta-
Gallois (Cr$ 250 000,00), Pierre beleceu o Plano de Expansão da
Navarro (Cr$ 200 000,00), Marc Produção Açucareira, cuja meta
Mouros (Cr$ 200 000,00), Douri- era a obtenção de cem milhões
val Cruz Lima (Cr$ 250 000,00) e de sacas de açúcar, a ser atingida
Francisco Antonio Costa Netto na virada daquela década, ou seja,
(Cr$ 100 000,00). na safra de 1970-1971.
Assim, ao iniciar a fabricação Para tanto, permitiu o au-
de implementos agrícolas, o mento das cotas de produção das
grupo Dedini conseguiu atuar nos usinas existentes, o que Colheita mecanizada de
cana-de-açúcar, na década
diversos níveis da produção exigiria, naturalmen-
de 1960
açucareira, da lavoura até a te, sua ampliação e,
usina, abrangendo o aten-
dimento a industriais e a
fornecedores de cana.

Capitulo3 107 11/4/05, 16:56


também, a construção de mais que a iniciativa era muito bené-
cinqüenta novas unidades para fica: em 1955, a Copira enviou o
fabricar mais de quinze milhões empresário Homero Correa de
de sacas de açúcar por ano. Arruda à sede do IAA, no Rio de
Diante desse estímulo, Janeiro, para expor o alcance da
a Dedini tratou de equipar-se crise decorrente de uma geada,
para atender a essa demanda, que havia castigado os canaviais,
efetuando grandes investimentos e buscar soluções.
em maquinários, que somaram, Diante do êxito dessa
na época, mais de US$ 800 000,00. iniciativa, a nova instituição foi
Assim, seria possível garantir a se firmando, passando a atuar
fabricação, no prazo seguinte como eficiente interlocutora,
de dois anos, de, pelo menos, discutindo e encaminhando os
32 usinas, com capacidade total problemas do setor. Assim, abriu-
de produção de mais de dez se um canal de comunicação
milhões de sacas de açúcar. Com entre o empresariado e governo,
a mudança do cenário político e que contribuiu para regularizar o
econômico nacional, a empresa, mercado do açúcar, cujos preços
no entanto, pagaria caro por esse estavam aviltados.
vultoso investimento. Em 1959, a Copira fundiu-se
com outra cooperativa, a Coope-
reste, da região de Ribeirão Preto,
Maioridade da indústria para formar a Copersucar (Cooperati-
açucareira va Central dos Produtores de Açúcar e de
Demonstrando a força da Álcool do Estado de São Paulo). Com
economia canavieira na região o objetivo principal de disciplinar
de Piracicaba, surgiu, em 1953, a comercialização do açúcar, a
a Cooperativa Piracicabana de Usinas instituição inovou no mercado,
de Açúcar e Álcool (Copira), a embalando, com maior higiene
partir da organização de um e praticidade, o açúcar cristal das
grupo de usineiros, coordenados usinas associadas em sacos de cin-
por Dovilio Ometto. A idéia co quilos. Mais tarde, a partir de
inicial era facilitar a compra de 1969, em vez de representantes de
insumos em conjunto para as vendas, passou a ter entrepostos
usinas, mas logo percebeu-se para comercializar seus produtos

108 Dedini 85 anos

Capitulo3 108 11/4/05, 16:57


e chegou a congregar 80% das Celeiro de indústrias e
usinas paulistas. formação de especialistas Equipe de projetistas das
Outro exemplo da grande Oficinas Dedini na década de 1950

influência do setor açucareiro Para Silvia Sampaio (1972),


em Piracicaba foi a realização, as empresas Dedini funcionaram,
a partir de 1958, das Semanas ao longo do tempo, como ver-
Canavieiras, reunindo represen- dadeiras escolas de aprendizado
tantes de diversas empresas e ins- técnico e aperfeiçoamento de
tituições estaduais. Os encontros mão-de-obra; foram, também,
incluíam passeatas com carros embriões de novas fábricas, pois
alegóricos pelas ruas da cidade, muitos de seus funcionários, após
mostras de produtos, e serviam adquirirem experiência técnica
como boas oportunidades para e profissional, estabeleceram-
entabular novos negócios. se por conta própria. Assim,

a força de um ideal 109

Capitulo3 109 11/4/05, 16:57


determinado artigo que os gran-
des industriais não forneciam”.
Entre os anos 1950 e 1960,
verifica-se que o dinamismo da
indústria mecânica transformou
Piracicaba no maior centro
fornecedor da América Latina
de equipamentos para usinas
e destilarias de álcool e aguar-
dente. São exemplos desse fato
e evidências da especialização
técnica existente em Piracicaba: a
Metalúrgica Piracicabana S.A. – Mepir
(1952), a Metalúrgica Conger S.A.
(1962), a Metalúrgica e Fundição Santo
Antonio – MEFSA (1967), a Metalúr-
gica São Carlos (1968), a Fundição Bom
Jesus (1969), a HIMA S.A. Indústria
surgiram a Santin S.A. Indústria e Comércio (1969) e a Indústria e
Descarregamento de cana-de-
açúcar em usina, nos anos 1950 Metalúrgica (1948) e a Mario Mantoni Comércio Fazanaro Ltda. (1970).
– Metalúrgica. Embora o objetivo inicial
Segundo a pesquisadora, de quase todas essas empresas
“independentemente da ação instaladas tenha sido o atendi-
direta do grupo industrial M. mento do mercado sucroalcoo-
Dedini, mas, por efeito de sua leiro, a maioria diversificou suas
influência, outros estabelecimen- atividades para outros setores.
tos mecânicos e metalúrgicos Com essa expansão industrial, a
desenvolveram-se na cidade; cidade apresentou significativo
geralmente, eram de proporções crescimento, atraindo outros
médias e pequenas, e procuraram estabelecimentos, principalmente
preencher as lacunas ainda exis- devido à existência do enorme
tentes no fornecimento de peças, contingente de mão-de-obra
acessórios e aparelhos para usinas especializada. Assim, instalaram-
e destilarias de álcool e de aguar- se fábricas destinadas ao atendi-
dente, especializando-se em um mento do setor automobilístico.

110 Dedini 85 anos

Capitulo3 110 11/4/05, 16:57


Outro segmento que ga- Crise à vista
nhou, também, grande impulso
Em decorrência dessa
na cidade, a partir dos anos
política desenvolvimentista de
1950, foi o de papel e papelão,
Kubitschek, em 1961, o Produto
aproveitando o bagaço resultante
Interno Bruto brasileiro alcan-
do processamento da cana para
çava taxa de crescimento expres-
produção de celulose. Data dessa
siva, 10,3%, para declinar, nos
época, a instalação da Refinadora
anos seguintes, a taxas inferiores
Paulista S.A. – Celulose e Papel, pela
a 4% ao ano, em média. Esse
família Morganti, mais tarde, em
esforço acabou levando o país a
1969, adquirida pelo grupo Silva
uma grande crise econômica. O
Gordo, e hoje unidade da Votoran-
estímulo à instalação de empre-
tim. A Dedini também atuou nessa
sas estrangeiras constituiu-se
área, com a empresa Cimape.
uma medida controvertida, pois,
Visando a verticalização da se de um lado permitiu a incor-
produção, a família Morganti ins- poração de novas tecnologias,
talou, também, em 1953, a Itelpa ameaçou, de outro, a sobrevi-
S.A., destinada à fabricação de vência da indústria nacional.
telas metálicas, peças indispen- O temido fantasma da
sáveis ao fabrico de papel e, mais inflação começou a rondar a
tarde, a Indusfios, que fornecia fios economia, e colocou em xeque,
de bronze para a Itelpa. principalmente, as empresas
A expansão canavieira seria, nacionais, mais descapitalizadas.
ainda, responsável direta ou No caso da indústria, houve
indireta pelo estabelecimento de grande desajuste entre a capaci-
várias indústrias no município, dade instalada e a demanda do
ligadas à produção de álcool e seus mercado interno, quadro agrava-
subprodutos, como adubos, sol- do, ainda mais, pela instabilidade
ventes e desinfetantes para usinas, política do país. Placa afixada nos produtos de
máquinas e aparelhos para cultivo A partir de 1958, o saldo da fabricação Dedini no passado

e corte de cana e engarrafamento balança comercial tornou-se


de aguardente. A grande oferta negativo, e ocorreu crescimento
de açúcar, por sua vez, contribuiu das despesas com o serviço da
para o estabelecimento de várias dívida externa. Aumentaram os
fábricas de doces e balas. conflitos com as instituições de

a força de um ideal 111

Capitulo3 111 11/4/05, 16:57


financiamento internacionais, tou firme na diversificação de sua
como o Banco Mundial, culmi- linha de produção, no final dos
nando com o rompimento do anos 1950. Quando agravou-se a
acordo com Fundo Monetário crise no setor açucareiro, a indús-
Internacional (FMI), em 1959. tria passou a incrementar, não só
No setor açucareiro, em a fabricação de pregos e parafusos
meados de 1960, ocorreu uma para o setor ferroviário, como a
superprodução, principalmente de bens de capital sob encomenda
em São Paulo, obrigando as usinas para outros tipos de indústria.
a deixarem a matéria-prima no Dessa forma, passou a ofe-
campo para evitar maiores pre- recer tanques estacionários para
juízos com seu processamento. Na- gases liquefeitos de petróleo, vasos
quela época, a cana não-colhida para a indústria química e petro-
correspondeu a treze milhões de química, moinhos “de bolas”
sacas de açúcar. Muitas indústrias para mineração, máquinas
não conseguiram sobreviver. Em diversas para produção
Piracicaba, a tradicional Societé de de cimento, autoclaves
Embarque de equipamentos
Sucrèries Bresiliennes teve de encerrar e cozinhadores para
fabricados pela Mausa para
a Venezuela suas atividades, vendendo suas processamento de papel e
usinas e ações a outros grupos. celulose, entre outros.
A Siderúrgica, por
Enfrentando a crise sua vez, integrada à
Metalúrgica, fabri-
Para enfrentar a queda do cava cilindros,
faturamento, o grupo Dedini apos- engrenagens, ba-
ses e outras peças

Capitulo3 112 11/4/05, 16:57


em ferro, aço e bronze, garantindo com satisfação a realização
à Dedini destaque nacional nesse de grandes obras, como
setor. Essa empresa havia sido a transferência da capital
favorecida pela política de incenti- brasileira do Rio de Janeiro
vos, estabelecida pelo governo de para o Centro-Oeste bra-
Juscelino Kubitschek no Plano de sileiro, com a construção
Metas (1957-1958), que pretendia de Brasília, a ampliação de
implantar uma estrutura indus- portos, construção de novos
trial integrada no país, prevendo aeroportos e rodovias. A
a modernização nos transportes e expectativa, também, era de
geração de energia. que, até 1960, a produção
Esses objetivos beneficia- nacional de aço em lingotes
ram os setores de siderurgia e e laminados fosse duplicada.
construção civil, que receberam Outra planta do grupo
que apresentou grande

Capitulo3 113 11/4/05, 16:58


desenvolvimento, a despeito da Ao sabor da
situação desfavorável do setor política do álcool
açucareiro, no final dos anos
Paralelamente, a Codistil
1950, foi a Mausa. No decênio
apresentou desempenho irregu-
compreendido entre 1950-1960,
lar entre os anos 1950 e 1960, pois
chegou a duplicar seu faturamen-
dependia basicamente da política
to. A explicação dos economistas
governamental estabelecida para
para esse fato foi a pequena con-
o álcool. Quando sua produção
corrência na sua área de atuação e
era incentivada, as encomendas
a proibição das importações pelo
aumentavam; caso contrário,
governo, em 1953.
sofria instabilidade nas vendas.
Além disso, aquela empresa Na década de 1950, a Codistil já
diversificou e modernizou sua havia fabricado mais de 200 des-
linha de produção, fabricando tilarias capazes de produzir, no
diversos acessórios para refina- total, mais de 1,1 milhão de litros
rias de açúcar. As centrífugas de álcool e de aguardente por
foram os equipamentos que dia. A empresa tinha sido pio-
mais receberam inovações no neira na construção e aplicação
decorrer do tempo: no início, industrial do chamado processo
eram manuais, depois passaram a Melle-Boinot-Almeida, suprimindo
ser semi-automáticas e, no início a utilização do ácido sulfúrico na
da década de 1970, tornaram-se fermentação dos mostos de cana,
completamente automáticas. melaço e matérias amiláceas.
Para aperfeiçoar tais apa- Naquela época, acreditava-se
relhos, a Mausa adquiriu no que tal método garantiria maior
exterior, em 1956, licença para economia de insumos, como o
utilizar a marca de uma indústria enxofre, maior conservação dos
de centrífugas para fermento. A aparelhos de destilação e melhor
empresa passou a atuar, também, desempenho da fermentação.
em outros setores, além do açu- Apesar desses esforços, ve-
careiro, como papel e celulose, rifica-se que, durante a década
alimentício e farmacêutico, fabri- de 1950, os preços do petróleo
cando pontes rolantes, motores importado não estavam em
elétricos, filtros de segurança e de patamares elevados; desse
pressão, balanças etc. modo, a produção de álcool foi

114 Dedini 85 anos

Capitulo3 114 11/4/05, 16:58


desestimulada e sua mistura à
gasolina apresentou percen-
tuais irregulares ao longo dos
anos. Em conseqüência, sua
fabricação era uma atividade
marginal nas usinas, realizada
principalmente para dar um
destino ao melaço, subproduto
do açúcar. As destilarias pos-
suíam grande capacidade ociosa
e não atraíam investimentos
dos empresários.
Tal fato prejudicava as
vendas de equipamentos
para os fabricantes de álcool;
mesmo assim, para consolidar
sua posição no setor, a Dedini
adquiriu, em 1969, o controle
de uma empresa concorrente,
a Morlet S.A. Equipamentos para
Usinas de Açúcar e Álcool, também,
estabelecida em Piracicaba, desde
1936, que atuava na mesma
faixa de mercado. A negociação
envolveu uma cifra significativa
na época (Cr$ 550 000 000,00); União de esforços Acerto entre Mario Dedini e
Americo Perissinotto para aquisição
de ações da Codistil e Morlet, em
foi, porém, muito simples e Com o objetivo de racionalizar
julho de 1969
sem formalidades, entre Mario a administração de suas empresas,
Dedini e Américo Perissinotto, a Dedini resolveu efetuar a fusão
acertada em uma simples folha da Metalúrgica com a Siderúrgica,
de papel. Destaque especial em 12 de dezembro de 1958. Na
estaria assegurado à Codistil, no verdade, a medida procurava,
entanto, alguns anos depois, também, melhor aproveitar a
com o advento do Programa política de incentivos concedidos
Nacional do Álcool (Proálcool). à indústria pelo governo Kubits-

a força de um ideal 115

Capitulo3 115 11/4/05, 16:58


chek, destinados especificamente Assim, em 1967, a Metalúrgica
à siderurgia. Assim, tornava-se viveu uma de suas maiores cri-
mais fácil repassá-los às áreas da ses. Pela primeira vez, a empresa
metalúrgica e da mecânica, em que encerrou seu balanço contábil
o grupo atuava. Assim, a Siderúrgica com prejuízo, o que a obrigaria
transformou-se na Administração e a arcar com uma enorme dívida
Participação Dedini S.A. Esta sociedade financeira nos anos seguintes.
era a maior acionista da Metalúrgica, Em 1968, foi obrigada a dispen-
representando a primeira tentativa sar, pelo menos, 30% de sua
de administração por meio de uma força de trabalho.
espécie de “holding”.
Outro fato beneficiou o Instabilidade e
grupo Dedini naquela época. Em conflitos sociais
1963, o governo, por meio do Enquanto isso, em nível na-
IAA, que ditava a política para o cional, o sucessor de Kubitschek,
setor sucroalcooleiro, instituiu o Jânio Quadros (1961), não soube
Plano de Expansão da Produção contornar a crise emergente. Sua
Açucareira, garantindo financia- política de combate à inflação
mentos às usinas de açúcar para incluiu uma reforma cambial,
aquisição de equipamentos para que exigiu o corte de subsídios
ampliação e modernização. a diversos produtos, entre eles,
Dessa forma, no período de o trigo e a gasolina, e ocasionou
1958 a 1970, as vendas da Metalúr- o aumento do custo de vida.
gica representaram, em média, Para piorar a situação, os salários
metade do faturamento do gru- estavam congelados e o crédito
po. Com exceção da Siderúrgica, restrito. A política de austeridade
todas as empresas do grupo Dedini ganhou tantos opositores que
possuíam alguma ligação com o levou à renúncia do presidente,
setor sucroalcooleiro, sujeito a em agosto de 1961.
muitas instabilidades. Apesar de Assumiu a presidência seu
trabalharem de forma integrada, vice, João Goulart (1961-1964),
permitindo crescimento harmô- que tomou posse sob um novo
nico nas vendas, não estavam regime: o parlamentarismo. A
livres dos impactos negativos da crise na economia agravou-se,
conjuntura econômica. com o recrudescimento da

116 Dedini 85 anos

Capitulo3 116 11/4/05, 16:58


inflação, a desaceleração do desenvolvimento industrial, o desequilíbrio
das finanças públicas e o agravamento dos conflitos sociais, em torno
Embarque ferroviário de
da posse da terra e redistribuição de renda. engrenagens de moendas
para o Nordeste
Na opinião de alguns, 1961 marcou o fim da época da rápida
industrialização. Nos dois anos seguintes, houve acentuado declínio
na evolução do Produto Interno Bruto, cuja média mal superou o
crescimento demográfico. O produto industrial verificado em 1963 teve
taxa negativa de incremento. Em meio a sérias apreensões e angustiosas

a força de um ideal 117

Capitulo3 117 11/4/05, 16:59


expectativas, ocorreu a queda Para o setor açucareiro e
de João Goulart, em março de de bens de capital sob enco-
1964, substituído por uma junta menda, uma medida do regime
militar no comando do país. militar teria, particularmente,
Inaugurou-se uma era de auto- impacto muito negativo. Em
ritarismo, marcada pela cassação 1964, revogou-se o programa
de mandatos e de direitos políti- de construção de cinqüenta
cos, fim das eleições diretas, que novas usinas para a produção
A Dedini vence em culminou com o fechamento do de mais quinze milhões de
agosto de 1965 a concor- Congresso nacional. sacas por ano, formulada pelo
rência internacional para o O general Humberto de governo anterior, deixando
Alencar Castello Branco foi de homologar a concorrência
fornecimento de uma usina
empossado presidente em abril para essa finalidade. A indús-
completa para instalação de 1964 para governar até 1966, tria de bens de capital, que
mas ficou no poder até 1967. havia se equipado para atender
na cidade argentina de San
Um novo modelo econômico aquela demanda, sofreu um
Martin, com capacidade de foi projetado, com a reforma duro golpe com o cancelamen-
moagem de 1 500 toneladas bancária, a criação do Banco to das encomendas.
Nacional da Habitação (BNH) e A situação econômica na-
diárias equivalente a
do Fundo de Garantia por Tem- cional, na verdade, melhoraria
250 000 sacas de açúcar po de Serviço (FGTS). Previa-se somente mais tarde, a partir de
e 2,5 milhões de litros de a modernização da máquina 1968, quando o ritmo de cresci-
estatal, o fortalecimento da mento das atividades foi reto-
álcool por safra. A indústria
empresas privadas e o estímulo à mado, provocando o fenômeno
brasileira competiu com entrada de capital estrangeiro. conhecido como “milagre econô-
quinze empresas especiali- O novo regime adotou o Plano mico”, no período de 1967 a 1973.
de Ação Econômica do Governo Foi quando o então ministro da
zadas da França, Inglaterra,
(PAEG) dependente e associado a Fazenda, Antônio Delfim Neto,
Polônia, Holanda e Japão. investimentos internacionais, mas reverteu a política restritiva de
manteve a matriz industrial im- seu antecessor, Roberto Cam-
plementada pelo Plano de Metas. pos. Reduziu os juros, injetou
Na tentativa de conter a inflação, crédito na economia, e retomou
a política empregada foi recessiva. os investimentos do governo.
Dessa forma, o custo social dessas O Brasil viveu, assim, época de
mudanças foi muito alto. grande desenvolvimento.

118 Dedini 85 anos

Capitulo3 118 11/4/05, 16:59


Mantendo posição Conger, que também fabricava
destilarias, a Codistil procurou
A Codistil, que monopolizou
maior aperfeiçoamento técnico,
o fornecimento de destilarias no
visando aumentar a produtividade
Brasil até o final dos anos 1960,
de suas plantas industriais. Nessa
procurou, a partir daí, diversificar
época, procurou incrementar as
sua produção para tentar escapar
exportações, fornecendo equipa-
das incertezas do mercado do
mentos e destilarias para diversos
álcool, que flutuava ao sabor
países América Latina.
das políticas governamentais.
Dessa forma, além de destilarias
completas, com todos os aces-
sórios, passou a fabricar alguns Recuperação da
equipamentos para o setor economia
açucareiro, como secador-esfria- A recuperação da economia
dor de tambor rotativo a contra brasileira iniciou-se no final da
corrente; turbo secador-esfriado década de 1960. Dois fatos mar-
vertical, unidade para transporte caram essa época: em primeiro
de recuperação de pó; unidades a lugar, a criação do Sistema Finan-
granel ou ensacado (empilhadei- ceiro de Habitação, que favoreceu
ras e transportadoras de correia o crescimento da construção civil
ou helicoidal) e equipamentos e, em segundo, a expansão dos
para calagem contínua. sistemas de crédito ao consumi-
Para a indústria de fer- dor, e a instituição de consórcios
tilizantes, a Codistil fornecia para aquisição de bens duráveis.
unidades completas de fabri- Dessa forma, entre os anos
cação e para o setor químico e de 1967 e 1969 tais fatores bene-
petroquímico, vasos de pressão, ficiaram o desenvolvimento dos
reservatórios, autoclaves e seguintes setores da economia
agitadores. Em menor escala, nacional: material de trans-
atendia, também, os setores de porte (53,1%), material elétrico
papel, alimentos e cerâmica. (37,2%); minerais não-metálicos
Em face do aumento da con- (39,4%) e metalurgia (32,8%).
corrência, com o estabelecimento Todos eles estavam, de alguma
de outra empresa em Piracicaba, forma, ligados à construção civil
na década de 1960, a Metalúrgica e à indústria de bens duráveis.

a força de um ideal 119

Capitulo3 119 11/4/05, 16:59


O progresso industrial tornou-se mais competitivo e
verificado, nessa época, procurou a Dedini começou a enfrentar a
aproveitar a capacidade já insta- concorrência de outras empresas
lada, e foi favorecido pela dimi- que haviam se instalado nos anos
nuição do processo inflacionário anteriores, principalmente na área
então verificado. Os investimen- de caldeiraria leve.
tos públicos e privados foram A crise ocorrida no setor
retomados praticamente até canavieiro, a partir de 1969, no
1973. Um dos setores beneficiados entanto, não atingiu somente a
com essa expansão foi de bens de Dedini; muitas empresas piracica-
capital sob encomenda. banas tiveram de encerrar suas
A partir de 1968, a Dedini atividades, como, por exemplo,
conseguiu recuperar o nível das a Metalúrgica Santa Cruz Ltda., que
vendas, principalmente na Metalúr- possuía mais de 250 trabalha-
gica. Entre os anos de 1967 e 1969, dores, e produzia inúmeros
o fornecimento de acessórios para equipamentos para as usinas de
as usinas de açúcar aumentou, açúcar. Também a Mepir – Meta-
para decair nos anos seguintes.
Bomba para motor a vapor
fabricada pela Dedini Nessa época, também, o mercado

Capitulo3 120 11/4/05, 16:59


lúrgica Piracicabana S.A., após sofrer
inúmeras dificuldades financei- Incansável em busca de novidades tecnológicas,
ras, foi obrigada a vender suas Mario Dedini trouxe da Alemanha, por volta de 1967,
instalações industriais a alguns
a patente de um novo processo de extração do caldo de
dos acionistas do grupo Dedini.
Por outro lado, a produção cana – o difusor –, que permitia a obtenção de maior pro-
da Siderúrgica estava fortemente dução de açúcar por tonelada de cana. Uma unidade piloto
atrelada às decisões governamen-
foi instalada em usina de sua propriedade, a São Francisco,
tais, sofrendo as variações das
encomendas do setor público, em Charqueada (SP), para avaliação de resultados.
seu principal cliente. Assim, em
1967, além de receber o impacto Dedini, sem data marcada para reto-
dos efeitos da desaceleração mo desses investimentos. Somente
da construção civil, a empresa mais tarde, foi efetuado acerto de
foi prejudicada pelas medidas contas, com a capitalização do
de contenção das despesas do crédito, cujo valor foi baseado em
governo, com a diminuição das um levantamento efetuado por
vendas e atrasos nos pagamentos. empresa de auditoria de padrão
Pela primeira vez em sua história, internacional, e aprovado, de
os salários dos funcionários não comum acordo, pelos acionistas.
foram pagos em dia. Mesmo a melhoria do
Mario Dedini fez o que pôde panorama econômico, verifica-
para livrar suas empresas da da no final da década de 1960,
crise, autorizando, até, a venda que possibilitou a recuperação
de imóveis particulares e de gradativa no volume de vendas
algumas usinas (São Francisco, na Dedini, foi insuficiente para
Catanduva e São Jorge). Apesar devolver a autonomia financeira
disso, a situação agravou-se nos existente no passado. Apesar
anos seguintes, exigindo trans- disso, sua atuação continuava
formações estruturais no grupo. vital para o progresso da cidade
Para promover o saneamento onde se instalou, gerando
financeiro, o genro do fundador, empregos, possibilitando cons-
Dovilio Ometto, vendeu toda sua tantes inovações tecnológicas
participação acionária no grupo e incrementando o desenvolvi-
Ometto, e injetou os recursos na mento da economia local.

Capitulo3 121 11/4/05, 16:59


CAPÍTULO 4

A revolução
do álcool
“O álcool é o combustível do futuro. Há bastante álcool
na colheita anual de um acre de batatas para fazer funcionar o
maquinário necessário para cultivar esses campos durante cem anos.”
Henry Ford, empresário norte-americano, pioneiro na
fabricação de automóveis em 1925.

Q
uando os grandes produtores de petróleo do Oriente Médio
surpreenderam a todos, em 17 de outubro de 1973, com a
decisão de suspender os embarques do produto por tempo
indeterminado, o mundo não foi mais o mesmo. Naquela época,
a maioria dos países havia construído suas riquezas alicerçadas na
matriz petrolífera, e verificou, com amargura, a fragilidade de suas
economias. A notícia do embargo repercutiu fortemente na Europa
ocidental, nos Estados Unidos e no Japão.
Os árabes, responsáveis por cerca de 25% do fornecimento do
petróleo consumido no mundo, impuseram um boicote seletivo aos
compradores, dividindo-os em três categorias – amigos, neutros e
inimigos – e estabeleceram diferentes cotas no suprimento do precioso
óleo. No início, o embargo foi recebido com certo descrédito, mas logo
se percebeu a gravidade da situação, tornando necessária a adoção de
medidas de racionamento dos combustíveis.
O Brasil vivia, desde o início de 1970, o que se convencionou cha-
Produtos Dedini em pavilhão de mar de “milagre econômico”. A situação nacional era considerada ex-
exposições, na década de 1970 celente: o Produto Interno Bruto (PIB) apresentava, então, crescimento
da ordem de 12% ao ano. O saldo da balança comercial girava entre o
relativo equilíbrio e o déficit, nunca superior a um bilhão de dólares.

122 Dedini 85 anos

Capitulo4 122 11/4/05, 17:00


Capitulo4 123 11/4/05, 17:00
Em 1972, a dívida externa estava, mundo desenvolvido, até o final
aparentemente, contida. Por isso, do século XX”.
no início, a crise internacional Nessa época, a Dedini esteve
parecia não afetar o país. presente em algumas das obras
Foi o tempo dos empreen- mais significativas do país, como
dimentos grandiosos, com a as usinas hidrelétricas de Itaipu,
instalação das hidrelétricas de Urubupungá, Capivara, Água
Itaipu e Tucuruí, a abertura da Vermelha, Ilha Solteira, Promis-
rodovia Transamazônica, cor- são, Salto Santiago e de Avanhan-
tando a maior floresta tropical dava. Contribuiu, também, com
do mundo, e a construção da material e equipamentos, para a
ponte ligando o Rio de Janeiro usina nuclear de Angra dos Reis,
a Niterói, maravilha da enge- ponte Rio-Niterói, aeroporto
nharia nacional. Muitas dessas internacional do Rio de Janeiro,
obras, como a Ferrovia do Aço, metrô de São Paulo e do Rio,
não chegaram a se concretizar, pólo petroquímico e o porto
embora tenham consumido do Rio Grande do Sul, Ferrovia
recursos gigantescos. Como do Aço, além das rodovias dos
a maioria delas foi viabilizada Imigrantes e dos Bandeirantes.
com financiamentos externos,
a dívida nacional, tanto interna
como externa, cresceu muito, a Otimismo em Piracicaba
partir de então. Em contraparti- Nos primeiros anos da
da, o PIB continuava apresentar década de 1970, acompanhando
elevadas taxas de crescimento. o ufanismo e otimismo genera-
O êxito dos primeiros anos lizado em decorrência do bom
estimulou os responsáveis desempenho da economia, foi
pela condução da economia idealizado um Distrito Industrial
brasileira (Antônio Delfim Neto na zona leste de Piracicaba, que
e João Paulo dos Reis Velloso) a deveria receber, inicialmente,
anunciarem novos “milagres”. uma unidade de produção de
O Primeiro Plano Nacional tratores e motoniveladoras
de Desenvolvimento (I PND) da empresa norte-americana
estabelecia metas ambiciosas e Caterpillar Tractor Company. A fábrica
previa o “ingresso do Brasil no foi construída e, muito tempo

124 Dedini 85 anos

Capitulo4 124 11/4/05, 17:00


depois, a companhia desativou na época, assinada pelo escritório
todas suas instalações na Capital paulista Croce, Aflalo e Gasperini, foi
Antigo prédio da administração
de São Paulo e mudou-se definiti- concluída em 1980 e inaugurada central do grupo Dedini, em
vamente para a cidade. com grande festa. Piracicaba (SP), construído em
1980, hoje um centro comercial
A Dedini, por sua vez, resolveu No hall de entrada, ficavam
erguer uma sede administrativa expostas algumas maquetes das
própria, um magnífico edifício inúmeras usinas e destilarias
com oito pavimentos, somando construídas pela empresa. O
4 500 metros quadrados de área prédio, no entanto, nunca
construída, situado, como não po- chegou a ser totalmente ocu-
dia deixar de ser, na Vila Rezende, pado. Nos anos 1990, fez parte
nas proximidades do seu parque do patrimônio desmobilizado e,
industrial. A obra, cuja arquite- hoje, funciona como um centro
tura, considerada revolucionária empresarial, que leva o nome de

a força de um ideal 125

Capitulo4 125 11/4/05, 17:00


Mario Dedini, abrigando dezenas torno com eixo horizontal do
de estabelecimentos. hemisfério Sul, que possibilitava
Outra grande obra do pe- o trabalho de peças de grandes
ríodo foi a instalação da Dedini dimensões (sete metros de
Caldeiraria Pesada (mais tarde, diâmetro e 24 metros de com-
desativada e, atualmente, trans- primento). Somente a National
formada na Fundição, no bairro Aeronautics and Space Administration
do Capim Fino, às margens da (Nasa) possuía um maquinário
rodovia que liga Piracicaba a com maiores dimensões, destina-
Rio Claro). A construção do do à usinagem de componentes
enorme galpão foi uma verda- de foguetes espaciais.
deira obra-prima de engenha- O projeto das instalações
ria, devido às suas dimensões. da Caldeiraria Pesada foi aprovado
Considerada, na época, o em janeiro de 1977, e o início das
Anúncio da Codistil comemora
bons resultados do Proálcool maior espaço de trabalho livre obras ocorreu no mês seguinte.
existente no Brasil, Em outubro do mesmo ano,
possuía cerca de 6 000 a nova unidade já entrava em
metros quadrados funcionamento, pois já havia
de área construída, uma encomenda urgente: a fabri-
com altura máxima cação de um forno de cimento,
de 43 metros. em parceria tecnológica com a
A edificação Kawasaki Heavy Industries Ltd.
permitia a execução
de testes dinâmi-
Modernização do parque
cos de grandes
açucareiro
equipamentos
e apresentava No que se refere à economia
total flexibilidade e canavieira, verifica-se que, até os
rapidez nas opera- finais dos anos 1960, apresentava
ções, conseqüen- problemas estruturais, decor-
temente, maior rentes da baixa produtividade
produtividade. agrícola, e do elevado número de
A Caldeiraria usinas de pequeno porte. O par-
Pesada Dedini que industrial, além de obsoleto,
abrigou o maior encontra-se com a capacidade de

126 Dedini 85 anos

Capitulo4 126 11/4/05, 17:00


produção esgotada, obrigando a e médias unidades de baixa
realização de moagens prolon- eficiência. Incentivou, também,
gadas, com grandes prejuízos, a mudança de usinas situadas
advindos do baixo rendimento. em áreas impróprias para outras
Havia, ainda, o grande fra- regiões com maior potencial, e
cionamento das cotas agrícolas, até pioneiras naquela atividade.
com o estabelecimento de mi- O governo acenou, ainda,
nifúndios improdutivos. Além com a possibilidade de finan-
disso, a reduzida lucratividade ciamentos para racionalização
do setor ocasionava a demanda da agroindústria, permitindo a
de capitais com custos finan- aquisição de equipamentos mais
ceiros elevados, praticamente modernos e o desenvolvimento
proibitivos para a realização dos de novas tecnologias para solu-
investimentos necessários. cionar os problemas de produti-
Por volta de 1970, as previ- vidade industrial e de qualidade
sões indicavam que o ritmo de operacional, possibilitando a
crescimento da produção mun- correção dos pontos de estrangu-
dial de açúcar seria mais lento lamento existentes.
do que o aumento do consumo, Em conseqüência, a distri-
prevendo-se uma situação de buição física das empresas sofreu
desequilíbrio no mercado, em várias transformações durante a
favor dos produtores, o que década de 1970: muitas unidades,
causaria elevação nas cotações. consideradas improdutivas,
O IAA decidiu, então, em encerraram suas atividades. Suas
agosto de 1971, implementar cotas de moagem foram trans-
um programa que procurava feridas para outras usinas mais
corrigir as distorções do setor, eficientes e capazes de capitalizar
visando o reaparelhamento do os ganhos da economia de escala.
parque industrial, com a redu- Um exemplo típico dessa
ção dos custos das empresas, mudança foi o que aconteceu
por meio de várias medidas. com a tradicional usina Monte
A principal foi a concessão de Alegre, em Piracicaba. Em 1975, foi
financiamentos para fusão, incorporada ao grupo Ometto.
incorporação e relocalização de Seus equipamentos estavam
usinas, eliminando as pequenas superados, mas suas lavouras de

a força de um ideal 127

Capitulo4 127 11/4/05, 17:00


cana, produtivas ainda, foram Os produtos mais requisitados
divididas entre outras unidades: eram moendas de cana, caldeiras
Iracema, Costa Pinto, Santa Bárbara e geradoras de vapor e turbo-redu-
as indústrias Dedini. Continuou tores de velocidade. Nesses itens, a
funcionando até 1980, moendo Dedini dominava completamente
cana de seus fornecedores, até ser a tecnologia, e só havia, na época,
completamente desativada. dois concorrentes significativos.
Paralelamente, com o obje- Tais empresas, no entanto, não
tivo de estimular a expansão da possuíam a mesma capacidade
lavoura canavieira, foram desen- produtiva e, por isso, muitas vezes,
volvidos programas de melhoria perdiam o cliente pelo preço.
da assistência técnica aos agricul- Assim, em 1973, em decor-
tores. O resultado foi a elevação rência do programa de apoio à
da capacidade de fabricação de 5,4 agroindústria açucareira, a Dedini
milhões de toneladas de açúcar recebeu inúmeras encomendas
(1971-1972) para, aproximadamen- para ampliação de usinas exis-
te, 11,4 milhões, a partir de 1978, tentes, que trabalhavam com
permitindo que o Brasil assumisse financiamentos a juros subsidia-
a liderança da produção mundial, dos. A isso, somou-se a melhoria
posição que manteria durante do mercado internacional, que
vários anos seguintes. propiciou exportações de açúcar
Para viabilizar o programa a preços compensadores.
foram alocados recursos pro- Dessa forma, quando surgiu o
venientes do Fundo Especial de Programa Nacional do Álcool, em
Exportação do IAA, que apresen- 1976, a agroindústria canavieira
tava, então, grande saldo positivo, estava plenamente capacitada
em decorrência do bom compor- para aproveitar parte da capacida-
tamento dos preços internacionais de de moagem instalada, direcio-
do açúcar naquela época. nando-a à produção de álcool nas
Dessa forma, as usinas reco- destilarias anexas às usinas.
meçaram a adquirir equipamentos
de grande porte, uma vez que
as fusões e o fechamento de Segundo choque
unidades menos produtivas eram O Brasil vivia, assim, uma ilu-
incentivados pelo órgão estatal. são de prosperidade, quando, no

128 Dedini 85 anos

Capitulo4 128 11/4/05, 17:00


Dovilio Ometto recepciona o
presidente Ernesto Geisel e
autoridades no stand da Dedini,
em feira industrial realizada em
meados da década de 1970

primeiro dia de 1974, no entanto, ra” quando começou a enfrentar


chegou outra má notícia: o preço o desabastecimento de produtos
do petróleo seria duplicado ou básicos e foi obrigado a recorrer
triplicado, exigindo medidas ao crédito fornecidos pelos
urgentes. A ação do governo agentes financeiros para cumprir
na área energética contemplou, seus compromissos rotineiros.
então, investimentos para a Além disso, a inflação começava
exploração de petróleo em a prejudicar as atividades do país.
território nacional e a adição de Em função da crise mundial
álcool à gasolina importada. do petróleo e dos efeitos negati-
O povo brasileiro verificou, vos na balança de pagamentos,
com tristeza que o “sonho acaba- os produtores de açúcar e álcool

a força de um ideal 129

Capitulo4 129 11/4/05, 17:00


do estado de São Paulo reivindi- entre outros) e na indústria de
cavam insistentemente, desde o bens de capital. Sem a euforia do
início da década de 1970, a defini- “milagre”, ficara mais difícil con-
ção de uma política de estímulo à ter as manifestações políticas no
mistura de álcool anidro à gaso- país. Por isso, o presidente iniciou
lina, com o objetivo de reduzir o um processo de abertura com a
impacto da crise externa sobre a passagem do poder para os civis,
economia brasileira. de forma lenta e gradual. Um
Para tanto, os produtores legado negativo de sua gestão, no
solicitaram a fixação de um entanto, foi o aumento da dívida
preço de paridade entre o açúcar externa, que triplicou seu valor,
e o álcool, para estimular a em relação ao governo anterior.
fabricação desse combustível. O II PND, que estabelecia
A idéia era, então, aproveitar a as metas para a economia entre
capacidade instalada das desti- 1975 e 1979, continuava, ainda, a
larias anexas nas usinas, ainda, apresentar um cenário otimista
com considerável índice de para o Brasil, estimulando a
ociosidade, financiar sua mo- substituição das importações de
dernização, ou a construção de bens de capital. Acredita-se que
novas unidades junto às usinas este tenha sido o período mais
que ainda não as possuíam. favorável para a nacionalização
Atendendo aos apelos dos de tecnologia e de crescimento
empresários, o presidente Ernes- para esse setor.
to Geisel (1974-1979) instituiu,
em 11 de novembro de 1975, o
Decreto n. 76.595, fixando as Proálcool: energia verde
diretrizes do Programa Nacional
e amarela
do Álcool, que se tornaria o O Programa Nacional do
maior programa energético de Álcool teve duas fases bem
sucesso no mundo para substi- distintas: a primeira, entre 1975 e
tuir o petróleo. 1979, visando a produção de álcool
Paralelamente, Geisel inves- anidro, destinado à mistura com a
tiu, também, maciçamente, na gasolina; e a segunda, no período
produção de insumos básicos de 1980 a 1985, consolidando-se
(petróleo, aço, energia elétrica, como programa energético al-

130 Dedini 85 anos

Capitulo4 130 11/4/05, 17:00


ternativo, por meio da fabricação de Campinas e Ribeirão Preto,
de álcool hidratado utilizado em com a instalação de dezenas de
substituição à gasolina. destilarias autônomas ou ane-
No início dos anos 1970, xas, produzidas pela indústria
existia no Brasil quase uma mecânica e metalúrgica instala-
centena de usinas de açúcar que da em Piracicaba e Sertãozinho.
produziam álcool esporadica- Nessa época, os técnicos
mente, quase todas situadas no da Codistil, uma das empresas
Nordeste e em São Paulo. Com o Dedini, fizeram grande esforço de
advento do Proálcool, aquelas já venda. Em inúmeras reuniões
existentes utilizaram os financia- com empresários rurais e líderes
mentos disponíveis para amplia- políticos em várias cidades,
ção das unidades produtoras de explicavam detalhes do Pro-
etanol. Surgiram, também, mais grama, forneciam informações
de 180 unidades autônomas em sobre a instalação de destilarias,
outras regiões, como no Centro- mostrando as possibilidades de
Oeste e no Paraná. negócios. Com essa iniciativa,
Somente em São Paulo, surgiram muitos novos em-
responsável, naquela época, por preendimentos na área.
70% do fornecimento de álcool Dessa forma, quase todas as
no Brasil, a produção cresceu destilarias de álcool, não só em
sete vezes, entre as safras de São Paulo, mas no país, foram
1975-1976 e 1979-1980. Assim, as fabricadas no interior paulista,
lavouras do interior do estado como, também, os demais
paulista transformaram-se em equipamentos e acessórios:
um verdadeiro “mar de cana”. A moendas, turbinas, redutores e
cultura passou a ser novamente aparelhos de caldeiraria leve e
de grande importância econômi- pesada. O pesquisador Renato
ca: era a primeira em produção, Sérgio Maluf (1984) contabilizou
a segunda em valor agrícola e a que, entre 1974 e 1983, as únicas
terceira em área cultivada. duas fábricas de destilarias do país
A fabricação de álcool – Codistil e Conger –, localizadas
alastrou-se por quase todo em Piracicaba, forneceram 471
o estado, concentrando-se, novas unidades. A consolidação
principalmente, nas regiões do Proálcool teve reflexo alta-

a força de um ideal 131

Capitulo4 131 11/4/05, 17:00


mente positivo no nível de renda (Curvelo, MG), com capacidade
e de emprego na cidade. de 60 000 litros por dia.
Montagem de usina fabricada pela
Dedini, na Venezuela, em 1972 Dessa forma, em 1976, a
Codistil produziu a maior desti-
Estimulando as
laria do mundo da época, para a
exportações
usina São Martinho (Pradópolis, SP).
Apresentava avançados recursos Enquanto isso, a Mausa
em destilação, com comandos à destinava grande parte de sua
distância, representando o primei- produção ao reequipamento e
ro passo para automatização. No expansão das usinas brasileiras,
ano seguinte, a empresa venceu, principalmente as do Nordeste,
também, a concorrência da Petro- e a M. Dedini começou, nos
bras para fornecer a primeira usina anos 1970, a aventurar-se no
de álcool a partir da mandioca mercado externo, amparada por

132 Dedini 85 anos

Capitulo4 132 11/4/05, 17:00


financiamentos concedidos pelo se a abastecer as refinarias de
Banco do Brasil. O grupo estava, açúcar durante todo o ano, uma
então, capacitado a fornecer vez que, por causa do regime
desde os parafusos necessários à de chuvas daquele país, muitas “Perdemos o
instalação de uma usina até os regiões açucareiras sofriam a falta grande líder: Mario
equipamentos pesados, como os de matéria-prima durante vários
Dedini. O condutor, o
conjuntos de moendas, passando meses do ano.
por todos os acessórios, inclusive, dínamo propulsor de
Nos anos 1970, a Codistil,
os transformadores. também já fornecia para o nossa grandeza industrial.
Em 1971, a Dedini venceu uma mercado externo, exportando
Escultor do monumento
concorrência internacional (da para a Venezuela, Bolívia e
qual participaram empresas da Paraguai. A empresa utilizava erigido ao progresso
Inglaterra, França, Japão, Ale- aço inoxidável sueco e japonês, da agroindústria álcool-
manha e Estados Unidos) para cobre e alumínio, produzindo
açucareira, que combinou
fabricação e montagem de uma destilarias para álcool e aguar-
usina de açúcar completa na Ve- dente, instalações para fábricas audácia com inteligência,
nezuela, a Central Santa Maria, em de adubos e fertilizantes, além fé com trabalho, cons-
Maturin. Com capacidade inicial de aparelhos para outras indús-
trias químicas e petroquímicas. tância com pugnacidade,
para processar 2 400 toneladas
de cana por dia, a planta repre- fazendo surgir de uma
sentou, na época, uma venda de
Morte do fundador humilde oficina de conser-
US$ 6,5 milhões. Depois dessa
unidade, muitos outros negócios tos de máquinas agrícolas,
Nesse contexto, a Dedini
concretizaram-se no exterior. prosseguiu sua trajetória, abalada o maior complexo indus-
Após essa transação, a em fevereiro de 1970, pela morte trial dedicado à fabricação
empresa brasileira venceu mais de seu fundador, Mario Dedini,
uma concorrência em Honduras, depois de cinqüenta anos de tra- do açúcar construído na
para fabricação e montagem de balho dedicado a suas indústrias. América Latina.” Assim foi
uma unidade, capaz de moer, Em conseqüência, ocorreram
a manchete do Jornal de
inicialmente, 2 000 toneladas de muitas mudanças administra-
cana por dia, e outras duas, na tivas. Assumiu o comando do Piracicaba de 1º de março
Venezuela, para fornecimento de grupo o genro de Mario Dedini, de 1970, dia seguinte da
fábricas de xarope concentrado. Dovilio Ometto, que procurou,
morte do empresário.
Essas últimas foram as primeiras antes de tudo, profissionalizar
do tipo no mundo e destinavam- todas as atividades.

a força de um ideal 133

Capitulo4 133 11/4/05, 17:01


Dovilio Ometto assina contrato
de associação da Dedini com as
empresas japonesas Kawasaki
Heavy Industries e C. Itoh, em 1973

Ampliando o leque Segundo o estudo efetuado


Por causa das dificuldades pela pesquisadora Silvia Sampaio
surgidas naquela época, muitas (1972), no início da década de 1970,
vezes, a Dedini foi obrigada a o grupo Dedini era responsável,
reduzir as horas de trabalho de sozinho, pela maior concentração
seus funcionários, chegando até a financeira de Piracicaba, detendo
paralisar a produção, e conceder 3,6% dos estabelecimentos fabris
férias coletivas. Além de incenti- existentes, e reunindo 38,9% do
var as vendas externas, o grupo capital total investido. Além disso,
tentou diversificar suas atividades, seu faturamento representava
passando a atender outras áreas, 34,4% das vendas totais do muni-
além do setor sucroalcooleiro, cípio e empregava 33,5% de toda a
como a indústria petroquímica, de mão-de-obra industrial.
mineração, usinas hidrelétricas, A Dedini foi, também,
celulose e papel. Passou a fabricar, pioneira no desenvolvimento
também, equipamentos para de turbinas a vapor no Brasil,
manuseio de cargas, tratamento utilizadas tanto na geração de
de lixo, além de estruturas metáli- energia elétrica, como mecânica.
cas para várias finalidades. O primeiro contrato foi firmado

134 Dedini 85 anos

Capitulo4 134 11/4/05, 17:01


em 1965, com a empresa alemã A primeira medida foi a
Gutehoffenngsshutte Sterkrade (GHH). constituição de uma holding,
Posteriormente, para aperfeiçoar no mês de março daquele ano,
ainda mais esse item, foi firmada com o nome M. Dedini S.A.
outra parceria, em 1972, com a Participações. Foi criada outra
companhia alemã Siemens, que empresa nova, com o nome de
duraria até os anos 1990. Mais M. Dedini S.A. Metalúrgica, com
tarde, em 1976, a Dedini adquiriu capital de Cr$ 38 100 000,00, sendo
também licença para fabricar Cr$ 38 040 000,00 integralizados
turbinas com tecnologia inglesa, após a conferência dos bens
da empresa Allen (mais tarde existentes e o saldo restante,
absorvida pela Rolls Royce). Cr$ 60 000,000, completado em
dinheiro por diversos acionistas.
A joint venture com A nova sociedade tinha
japoneses como objetivo “a fabricação,
Procurando consolidar o montagem, reformas e comercia-
processo de diversificação de suas lização, inclusive no exterior, de
atividades, sem abandonar o mer- máquinas, equipamentos, apa-
cado de açúcar e álcool, a Dedini relhos componentes e acessórios
precisou recorrer a associações para as indústrias açucareira, de
com as empresas estrangeiras, cimento, celulose, petroquímica,
vendendo-lhes parte de suas química em geral, de mineração,
ações e recebendo em troca naval, termoelétricas, hidrelétri-
capital para aquisição de novas cas, e outros setores da mecânica
máquinas e ampliação de ins- e caldeiraria pesada em geral,
talações, bem como tecnologia bem como a fundição de ferro,
avançada, principalmente, nas aço e metais não-ferrosos, tubos
áreas de mineração, siderurgia, de ferro e materiais refratários”.
cimento, entre outras. Para tanto, Para atender a esses novos
recorreu à associação com as em- setores da produção, o grupo
presas japonesas Kawasaki Heavy incorporou tecnologia inter-
Industries Ld. e C. Itoh Co. Ltd. (hoje nacional. Assim, logo após a
Itochu), o que propiciou grandes constituição da nova empresa,
transformações no desempenho a participação acionária dos
do grupo em 1973. japoneses ficou definida em

a força de um ideal 135

Capitulo4 135 11/4/05, 17:01


Assembléia Geral Extraordinária turbinas a vapor até 10 000 kw,
de 30 de março de 1973. O capital para uso terrestre; caldeiras power
social da Metalúrgica foi elevado boiler, para recuperação de lixívia
para Cr$ 50 800 000,00, sendo a preta e de calor; equipamentos
diferença, de Cr$ 12 700 000,00, para siderurgia e para a produ-
subscrita em dinheiro pelas ção de cimento.
empresas japonesas. Depois de muitas negocia-
A composição acionária ções, surgiu a Dedini-Kawasaki
ficou assim constituída: Dovilio Engenharia Ltda., com sede em
Ometto, Pedro Duarte, Waldyr Piracicaba e escritório instalado
Antonio Gianetti, Mario Dedini em São Paulo. No primeiro ano
Ometto, Claudia Dedini Ometto de funcionamento, já contava
Gianetti e Juliana Dedini, e os com quase noventa funcionários
participantes da empresa M. e consumira investimentos da
Dedini Participações, com 75%; o ordem de Cr$ 115 milhões.
restante (25%), com as empresas A associação com os japone-
Kawasaki Heavy Industries (17,5%) e ses permitiu à Dedini aumentar
C. Itoh & Co. Ltd (7,5%). sua atuação nos setores de
Além do aporte de capital, siderurgia, cimento, mineração
essas empresas obrigaram-se e energia, fornecendo equipa-
a transferir tecnologia e assis- mentos que, até então, eram
tência técnica na fabricação de totalmente importados. Exemplo
disso foi a comercialização, em
Transporte de chaminé
incineradora fabricada
pela Codistil

Capitulo4 136 11/4/05, 17:01


1976-1977, da maior usina do Informatização e
mundo de hidratação de cal, para qualificação
a Companhia Vale do Rio Doce, com
Nessa época, a Dedini apresen-
capacidade de produção de 66
tava mais exemplos de pioneiris-
toneladas por hora.
mo, ao proceder à informatização
Essa unidade permitiu a
da sua área de engenharia. Foi
expansão das usinas de pelotiza-
a primeira empresa nacional de
ção do minério de ferro, neces-
bens de capital a implantar o
sária para atender à demanda de
programa Computer Assistent Design
exportação daquela companhia.
(CAD), para elaborar projetos, em
A Dedini era responsável por 70%
1976. Foi, também, a primeira em-
dos equipamentos, fornecendo
presa de bens de capital nacional
britadores, moinho “de bolas”,
a receber a certificação da Ame-
separador, conjunto de tanques
rican Society of Mechanical Engineers
de compressão, entre outros.
(ASME), conceituada associação
O restante foi importado do
de engenharia norte-americana,
Japão, sob a responsabilidade da
que estabelece os procedimentos
Kawasaki. Os negócios em par-
de excelência em fabricação de
ceria com a empresa japonesa
diversos itens. Naquela ocasião,
continuam até os dias atuais
os selos de qualidade (“S” e “U”)
(ver Capítulo VII).
foram obtidos para produção de
caldeiras e vasos de pressão.

Capitulo4 137 11/4/05, 17:01


Ainda em 1976, foi criado um dia inteiro para realizar
dentro da Metalúrgica um uma ligação interurbana para
sistema de contabilização de o interior de São Paulo e isso
custos industriais que obteve prejudicava o atendimento ao
grande projeção no setor. O cliente. Para as comunicações
processo foi elogiado até pelos escritas, os funcionários utili-
técnicos do Banco Nacional do zavam aparelhos telex, hoje,
Desenvolvimento Econômico e completamente obsoletos.
Social, o BNDES, que recomen- Mesmo assim, o escritório
daram sua aplicação junto a começou a concretizar negócios
seus mutuários. em vários estados do Norte e
Nordeste do país. Montou-se
uma equipe de técnicos que
Atuação no Nordeste
vinham de São Paulo para
Em meados da década de resolver eventuais problemas
1970, a Dedini resolver instalar nas usinas e destilarias e, aos
uma subsidiária no Nordeste. poucos, a indústria piracicabana
Até então, as usinas e destilarias conquistou a confiança dos
daquela região adquiriam equi- empresários locais. Naquela
pamentos, principalmente, da época, foi ofertada à Dedini uma
Cosinor, Noraço, Fives Lille Nordeste, unidade industrial, recém-cons-
todas em Pernambuco, e das Má- truída, localizada em Jaboatão,
quinas Piratininga. Em um primeiro com 31 000 metros quadrados.
momento, começou a fornecer Em face das boas perspectivas
peças de reposição e, logo depois, de negócios, as instalações foram
passou a efetuar reformas nos adquiridas e a fábrica (Codistil
maquinários. Nordeste) iniciou suas operações
Havia muitos problemas em 1979, prestando serviços
para realizar tais trabalhos; os de construção e montagem
mais graves eram a longa distân- de equipamentos, nas áreas de
cia das fábricas em Piracicaba, caldeiraria e mecânica. Foi um
com muitas dificuldades no choque para a concorrência
transporte dos equipamentos e existente. Quando se instalou no
de comunicação com a matriz. Nordeste, a Dedini tinha menos de
Normalmente, demorava-se 10% do mercado, e por volta de

138 Dedini 85 anos

Capitulo4 138 11/4/05, 17:01


O ÁLCOOL BRASILEIRO VENCE DESAFIOS
E CONQUISTA NOVOS MERCADOS

Quando os árabes impuseram boicotes


ao fornecimento do petróleo, na década de
1970, diversas alternativas para sua substi-
tuição foram consideradas e depois descar-
tadas, quer por seu alto custo, quer por sua
difícil implementação.

O Brasil foi um dos únicos países que


conseguiu atravessar a crise energética mun-
dial de forma inovadora, criando o primeiro
programa de substituição da gasolina com a
utilização de um combustível limpo, renová-
vel, totalmente nacional. O aproveitamento
da energia gerada a partir da fotossíntese
tornou-se possível por causa da ampla oferta
de cana-de-açúcar existente no país.

Graças ao Programa Nacional do Álcool


– Proálcool – foi possível desenvolver várias
regiões do Brasil, “interiorizando” e descen-
tralizando o progresso, antes restrito às gran-
des cidades. Criou-se, também, uma ampla
oferta de emprego e beneficiou-se a econo-
mia, com significativa economia de divisas,
por meio da redução das importações.
Destilaria fabricada pela Codistil
A partir de 1986, o Proálcool começou a com capacidade de produção de
ser desativado por diversas circunstâncias conjunturais. E 150 000 litros de álcool por dia
a produção de carros a álcool foi drasticamente reduzida
no Brasil nos últimos anos, apesar de todos os efeitos
positivos da sua utilização. Para muitos analistas, isto foi sejam renováveis, e que possam diminuir a dependência
um grande equívoco. dos derivados de petróleo.

Com a fabricação dos veículos com motores com com- O Brasil é, ao mesmo tempo, o maior produtor e o maior
bustível flexível no Brasil, o álcool recuperou seu lugar consumidor de álcool do mundo. A preocupação em conquis-
na matriz energética nacional. Além disso, é cada vez tar novos mercados tem sido uma constante no setor canaviei-
maior o número de países interessados em combustíveis ro, que não tem poupado esforços para abrir novas fronteiras
alternativos, que não causem prejuízos ao ambiente, que para o combustível verde-amarelo, limpo e renovável.

Capitulo4 139 11/4/05, 17:02


1983, já era responsável por 60% com capacidade para produzir
das vendas no setor. 120 000 litros de álcool por dia.
Somente no período de 1975 Na linha de açúcar e álcool, havia
a 1983, foram instaladas dezenove processadores para tratamento
de caldo, secadores, transporta-
No balanço con- novas destilarias naquela região.
A Dedini fornecia as fábricas dores, armazenadores e vários
solidado do grupo, de completas, incluindo estudos outros acessórios. Para destilarias
1979, a Dedini registrou de viabilidade econômica, ela- de álcool e aguardente, fabricava
boração dos projetos técnicos, equipamentos completos para
um patrimônio líquido de
assessoria nos financiamentos vários tipos de etanol, incluindo
Cr$ 5,5 bilhões, com vendas bancários para sua viabilização, e prédios metálicos, trocadores de
de Cr$ 7 bilhões. Segundo sua colocação em marcha. calor, aquecedores, painéis de
comando, reservatórios etc.
notícia de jornais da época,
Na linha de fertilizantes,
essa cifra era, então, quase
Crescimento acelerado
fabricava tambores rotativos
o dobro da arrecadação de Uma das unidades do grupo (granuladores, secadores e
Dedini que mais apresentou resfriadores), misturadores,
Porto Alegre, e o equiva- peneiras vibratórias, elevadores,
expansão, durante a década de
lente a 30% da receita da 1970 foi, sem dúvida, a Codistil. moinhos, ciclones, lavadores,
Ao completar 37 anos, em silos e outros estruturas, além de
Capital de São Paulo.
1979, a empresa orgulhava-se unidades inteiras para preparo de
de ser a responsável indireta determinados tipos de adubos,
por 89,7% do volume de álcool conhecidos como supertriplos.
produzido no país naquele ano, A Codistil atendia, ainda, à
ou seja, 3,41 bilhões de litros. Era indústria de processamento de
considerada uma das maiores argila (com atomizadores para
fábricas de destilarias do mundo massa cerâmica, separadores de
e exportava para vários países pó e vasos agitadores) e, também
das Américas, como Bolívia, à química e à petroquímica, cons-
Costa Rica, Paraguai, Venezuela truindo vasos de pressão, torres
e Honduras, entre outros. de fracionamento, intercam-
Naquela época, a Codistil biadores de calor, reservatórios,
possuía 1 600 funcionários e era autoclaves, reatores, bandejas de
capaz de fornecer, por mês, destilação e apuração, estruturas
até cinco unidades completas metálicas e caldeiraria em geral.

140 Dedini 85 anos

Capitulo4 140 11/4/05, 17:02


Em 1979, a Codistil come- a empresa já fornecera, desde
morava a entrega, no tempo 1946, quase 400 destilarias.
Vista aérea da Codistil, às margens
recorde de dez meses, de uma O sucesso do Proálcool fez da rodovia Rio Claro-Piracicaba,
destilaria de álcool anidro para na década de 1980, hoje matriz
com que o otimismo tomasse
das empresas Dedini
a Codesa Corporación Costarricense conta das indústrias de bens de
de Desarrollo, da Costa Rica. No capital instaladas em Piracicaba
ano seguinte, vendeu equipa- voltadas, principalmente, para
mentos para a usina São Marti- atendimento do setor sucroal-
nho, em Pradópolis (SP), possi- cooleiro. Contando com a facili-
bilitando que esta indústria se dade de investimentos, a maior
tornasse a maior do mundo, parte das empresas pôde ampliar
com capacidade para fabricar suas instalações, modernizar
um milhão de litros de álcool, seus equipamentos e aperfeiçoar
a cada 24 horas. Nessa época, sua base tecnológica.

a força de um ideal 141

Capitulo4 141 11/4/05, 17:02


Capitulo5 142 11/4/05, 17:02
CAPÍTULO 5

Tempos difíceis
O álcool é uma das soluções brasileiras mais imediatas,
mais consistentes e, sobretudo, de duração infinita para o
problema energético; nenhuma das dificuldades que possam
ocorrer têm caráter intransponível ou duradouro...”
João Guilherme Sabino Ometto, empresário do
setor sucroalcooleiro, em 1986.

N
o início dos anos 1980, o Brasil viveu tempos de glória em ter-
mos de geração de energia. O álcool – o combustível “verde”
– movimentava a maior parte da frota nacional de veículos.
A Petrobras comemorava: em 1980, conseguiu superar suas marcas na
extração de petróleo, o que contribuiu para diminuir a dependência
do óleo estrangeiro. No ano seguinte, inaugurava-se, também, a maior
hidrelétrica do mundo, a de Itaipu (PR), e entrou em funcionamento
a usina de Angra dos Reis (RJ), colocando o país no seleto grupo de
produtores e usuários da energia nuclear.
A partir daquela época, no entanto, a economia nacional mergu-
lharia em profunda crise, com atividade econômica em baixa e inflação
em alta. O produto da indústria de transformação decresceu 6,4%, e
os setores de bens de capital e de consumo duráveis foram os maiores
responsáveis por esse resultado negativo. A dívida externa atingiu a
marca assustadora de US$ 100 bilhões em 1983.
No exterior, o Brasil passou a ser um investimento de risco. A
Detalhe de equipamento forte resistência dos bancos estrangeiros em continuar financiando o
fabricado pela Dedini, em
Sertãozinho (SP)
déficit brasileiro do balanço de pagamentos exigiu drásticas mudan-
ças na política econômica. A crise foi agravada por novo aumento
dos preços do petróleo e pela elevação das taxas de juros. A recessão

a força de um ideal 143

Capitulo5 143 11/4/05, 17:02


veio acompanhada da aceleração momento de grande comoção
da inflação, que ultrapassou o nacional, com a morte do
patamar dos 100% ao ano. presidente Tancredo Neves,
Em 1983, o governo brasileiro recém-empossado, assumiu o
fechou acordo com o Fundo vice, José Sarney (1985-1990),
Monetário Internacional (FMI), que, logo depois, lançou progra-
que passou a monitorar a econo- ma de estabilização econômica,
mia. O desemprego aumentou, substituindo a moeda nacional,
trazendo, como conseqüência, o cruzeiro, pelo cruzado.
o aumento das tensões sociais. A este plano, conhecido
Naquele ano, o governo do como “Cruzado”, seguiram-se
general João Baptista de Oliveira outros, contendo medidas fiscais
Figueiredo (1979-1985) assinou, (“Cruzadinho” e “Cruzado II”),
seguidamente, quatro cartas de sem atingir resultados efetivos,
intenções com o FMI, assumindo pelo menos, no que se refere à
compromissos que não conse- melhoria da qualidade de vida
guiu honrar. A inflação saltou da população: 35% das famílias
para 211% e o PIB caiu 3,5%. brasileiras viviam, ainda, abaixo
Vivia-se um clima de cres- da linha de pobreza, com renda
cente liberdade. Com o final do mensal inferior a meio salário
governo Figueiredo, encerrou-se, mínimo. Os salários estavam
definitivamente, o regime mi- congelados e a inflação ultrapas-
litar, terminando com o longo sava a taxa anual de 365%.
período de autoritarismo. O Em 1986, o governo declarou
Brasil ganhou uma nova Cons- a moratória unilateral da dívida
tituição (1987) e reconquistou o externa, e demitiu o ministro da
direito de escolher seu presidente Fazenda, o empresário Dilson
pelo voto direto (1989). A luta Funaro. Assumiu a pasta Luiz
pela redemocratização foi, no Carlos Bresser Pereira, que
entanto, penosa para o país: instituiu outro plano econômico,
uma sucessão de escândalos conhecido com seu nome. Tam-
financeiros e pacotes econômicos bém não conseguiu se manter no
marcaram os anos 1980. cargo: foi substituído por Maílson
Com a difícil tarefa de da Nóbrega, que, em janeiro de
contornar a situação e em 1987, lançou o chamado “Plano

144 Dedini 85 anos

Capitulo5 144 11/4/05, 17:02


Verão”, substituindo o cruzado O grupo iniciara os anos 1980
pelo cruzado novo. com planos ambiciosos de inves-
Simples questão de semântica: timentos e o desenvolvimento
a inflação continuava a subir, até de várias novidades tecnológicas.
atingir, naquele ano, a estratos- O conglomerado era, então,
férica taxa de 1 765%, quase invia- constituído por vinte empresas,
bilizando as atividades econômicas onde trabalhavam cerca de 11 000
no país e estimulando a especula- colaboradores. Na área de açúcar
ção financeira. A atividade indus- e álcool, estudava-se o aumento
trial decresceu e o desemprego da extração na moagem da cana
aumentou ainda mais. e o aprimoramento do sistema de
Um dos setores mais afe- difusores, a melhoria do rendi-
tados foi o de bens de capital mento e eficiência da fermenta-
por encomenda, onde a Dedini ção e destilação, o menor consu-
atuava. Nessa época, muitas mo de vapor, e o aproveitamento
outras indústrias fecharam suas da vinhaça como fonte de energia
portas. Para piorar a situação, para destilarias. Selo comemorativo do 60º
aniversário das empresas Dedini
por volta de 1986, o governo Além disso, pesquisava-se o
começou a desestimular o estudo da tecnologia do plasma e
Proálcool, que tanto contribuíra o desenvolvimento de novos pro-
para manter as atividades de dutos siderúrgicos; a produção
algumas empresas do grupo. de escavadeiras para utilização na
mineração de carvão, e, também,
de vários tipos de caldeiras:
Dificuldades à vista de pequeno porte e com leito
Mesmo com a crise, duas fluidizado, para queima de lixo e
empresas do grupo Dedini – a recuperação de calor. Trabalha-
Siderúrgica e Metalúrgica – apare- va-se, ainda, para desenvolver
ciam, respectivamente, como a técnicas de mistura de óleo com
primeira e a terceira indústrias carvão vegetal e água para subs-
do município em arrecadação tituir o óleo combustível, bem
do Imposto sobre Circulação como o projeto de uma nova
de Mercadorias (ICM), segundo turbina multiestágios.
levantamento da Prefeitura de Dois processos que resulta-
Piracicaba realizado em 1986. riam em inovações tecnológicas

a força de um ideal 145

Capitulo5 145 11/4/05, 17:02


– o Methax e o Biostil – seriam década de 1980, cessou, pratica-
responsáveis pela manutenção mente, o interesse em combustí-
do pioneirismo do grupo Dedini veis alternativos, e o Methax caiu
durante a década de 1980. O no esquecimento.
primeiro consistia na produção Há alguns anos, porém, o
de gás metano combustível, a assunto voltou à tona: acredi-
partir de um resíduo industrial, ta-se que esse sistema seja, até
a vinhaça; o segundo, pretendia hoje, uma solução viável para
incrementar a produção de implantação em plantas indus-
álcool, a partir de um sistema triais onde a vinhaça provoque
com fermentação e destilação impacto ambiental e não possa
acopladas, permitindo baixo ser descartada nas lavouras.
consumo de energia e grande Em 1986, foi oferecida à
redução na geração de efluentes. Codistil (coligada da Dedini), pela
Paques Water System, uma tecnolo-
gia semelhante ao Methax. Essa
Combate à poluição empresa desenvolveu know-how
Desde 1982, a Dedini vinha se no tratamento de efluentes.
preocupando em desenvolver Assim, foi firmado um
sistemas para diminuir a poluição contrato de parceria para forne-
causada pelas agroindústrias. cimento do sistema no Brasil,
Uma das primeiras iniciativas foi também, para alguns setores,
a tecnologia para tratamento da como, por exemplo, o cervejeiro.
vinhaça, ou seja, a biodigestão Desde então, já foi comercializada
anaeróbia (sem a presença de ar) mais de uma centena de unidades
para produção de gás, por meio industriais para essa finalidade.
do sistema Methax. Ao longo desse período,
Este projeto obteve grande inúmeras modificações de
repercussão. Um convênio com engenharia foram efetuadas no
a Prefeitura de São João da Boa sistema anaeróbio empregado.
Vista (SP) viabilizou seu uso Para completar o tratamento,
em ônibus urbanos, mediante a Paques desenvolveu, também,
adaptações nos motores. Com a um sistema aeróbio, denomi-
queda dos preços do petróleo, no nado Circox, para substituir, por
entanto, na segunda metade da um simples reator, as extensas

146 Dedini 85 anos

Capitulo5 146 11/4/05, 17:02


lagoas anteriormente utilizadas de álcool produzido; com esse
para essa finalidade. A preocu- processo, poder-se-ia reduzir esse
pação da Dedini com o destino volume a menos de um litro.
de efluentes continuou nos anos Trabalhava com matéria-prima
mais recentes, oferecendo, a concentrada (xarope, melaço
partir de 2003, um processo de etc.), utilizando a fermentação
tratamento de esgotos domés- contínua em uma única dorna.
ticos, mais compacto e flexível, Com a tecnologia Alfa Laval,
conhecido como Ubox. a Codistil, mediante pagamento
de royalties, desenvolveu e
forneceu a primeira planta no
Maior produção Brasil em escala comercial para a
de álcool usina São Luiz, em Pirassununga
Por volta de 1982, a Dedini, (SP). Posteriormente, produziu,
por meio de sua coligada, a também, equipamentos para
Codistil, continuava a estudar a destilaria Goioerê, em Goioerê
formas de otimizar ainda mais (PR), e Coamo, em Campo Mou-
a produção de álcool. Assim, rão (PR), e, ainda, uma para o
identificou uma planta piloto Paquistão, em Islamabad.
na Austrália, desenvolvida pela Diante do recente aumento
empresa Alfa Laval, que vinha da produção do álcool, nos anos
obtendo bons resultados, com 2000, esse assunto foi reativado,
a vantagem de gerar baixo nível principalmente, por causa do
de efluentes. Era um momento risco ambiental decorrente
oportuno, pois havia bastante da aplicação de milhares de
preocupação com o destino da litros de vinhaça no solo. A
vinhaça produzida nas usinas. Dedini retomou o tema por
Surgiu, assim, o sistema acreditar no grande potencial de
Biostil, que permitia a obtenção comercialização desse sistema.
de alto rendimento alcoólico, Assim, localizou um processo
baixo consumo de energia e mais avançado, de concentração
grande redução de efluentes: da vinhaça, desenvolvida pela
enquanto as destilarias conven- empresa austríaca Vogelbusch, com
cionais geravam de dez a treze a qual assinou contrato de trans-
litros de vinhaça para cada litro ferência de tecnologia em 2005.

a força de um ideal 147

Capitulo5 147 11/4/05, 17:02


ANTECIPANDO O FUTURO
Pode-se dizer que a Dedini antecipou o futuro, quan- culos. O maior benefício, no entanto, era o ambiental: de-
do, em 1984, lançou o Methax, sistema que permitia a pois de passar pelo processo de gaseificação, o que restava
transformação da vinhaça – subproduto poluente e mal- da vinhaça era um líquido quase sem carga orgânica, mas,
cheiroso resultante da destilação do caldo fermentado da ainda, altamente nutritivo, utilizado para fertilizar o solo.
cana-de-açúcar – em gás combustível. Em 1989, a Dedini assinou um protocolo de coopera-
A primeira unidade foi instalada na usina São Luiz, ção técnica com a Prefeitura de São João da Boa Vista (SP)
em Pirassununga (SP). O empreendimento foi feito em para uso do metano no transporte coletivo. A distribuição
parceria com a PEM – Planejamento, Engenharia e Manu- e o abastecimento da frota municipal ficou a cargo da
tenção Ltda. e podia fabricar dois tipos de gás: o biogás, distribuidora Cia. Brasileira de Petróleo Ipiranga, que já
de poder carburante menor, ideal para consumo caseiro, e vinha efetuando outros testes com o gás natural em várias
o biometano, mais puro e mais caro, utilizado como com- capitais do país.
bustível para veículos. A Mercedes Benz se encarregou das adaptações dos
O biogás obtido em Pirassununga foi utilizado, no início, motores dos ônibus. Caso optasse pelo metano, estaria-
para movimentar a frota de caminhões e veículos da usina. se obtendo benefícios econômicos, pois seu uso permitia
Era uma grande vantagem, pois as destilarias empregavam, ganho de 10% a 15% por quilômetro, com aumento da
então, até 6% do álcool fabricado para movimentar seus veí- vida útil do motor em até 50%.

Capitulo5 148 11/4/05, 17:03


Unidade pioneira Methax, em São João
da Boa Vista, para produção de gás.
Página ao lado: ônibus abastecido
com o produto.

O projeto teve grande repercussão e foi um dos doze sionar saturação do solo em potássio e não será mais am-
que a Mercedes selecionou, em nível mundial, para divulgar bientalmente correta, exigindo o tratamento prévio. Este
durante a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro, como exem- torna-se mais imprescindível, ainda, quando se trata de
plos de soluções ecologicamente corretas. Essa experiên- plantações instaladas em áreas com lençol freático pouco
cia inédita de uso veicular do gás foi pioneira no Brasil. profundo, em que pode haver eventual contaminação.

Nos últimos anos, tem aumentado bastante o interes- Por isso, a Dedini fechou, recentemente, parceria com
se no destino final da vinhaça. Calcula-se que para cada empresa austríaca, a Vogelbusch, para fabricar um equi-
litro de álcool produzido obtém-se de dez a treze litros do pamento que reduzirá, por evaporação, 40% da vinhaça.
sub-produto. O material continua a ser utilizado na fertirri- Com isso, será possível obter significativa redução dos
gação dos canaviais, mas, em algumas circunstâncias, com custos no transporte e na logística despendida para sua
o aumento da produção de álcool, tal solução poderá oca- aplicação no campo.

Capitulo5 149 11/4/05, 17:03


Vento a favor 97%. Segundo comunicado do Mi-
nistério da Indústria e do Comércio
A Codistil, por sua vez, depois
(Carta Cenal no 06, de 6-2-1984),
de enfrentar um pequeno decrés-
“esse fato atestava o elevado grau
cimo nas vendas no início dos
de competitividade da indústria
anos 1980, recebeu novo impulso
nacional de equipamentos”.
com a aprovação, pela Comissão
Nacional de Álcool (Cenal), Favorecida pelo Proálcool, a
de uma centena de projetos de Codistil tornou-se a maior fabri-
novas destilarias, financiadas com cante de destilarias do mundo.
recursos do Banco Mundial. Pelo Em 1980, as unidades que
contrato firmado com aquela ins- construiu eram responsáveis por
tituição, as operações de crédito quase 90% da produção de álcool
no âmbito do Proálcool, relativas do país. Naquele ano, possuía
a equipamentos, serviços e obras 1 600 colaboradores e inaugurou
deveriam ser adquiridas por sua nova sede administrativa, no
meio de licitações internacionais, bairro do Capim Fino, à margem
envolvendo fornecedores pré- da rodovia Piracicaba-Rio Claro.
qualificados do país e do exterior. Em 1983, a Codistil come-
Assim, na concorrência reali- morava seus quarenta anos de
zada no início de 1984, entraram existência com a venda da sua
cinco empresas e consórcios na- 500ª destilaria de álcool. Era,
cionais, e outras três, envolvendo então, a maior do mundo, com
firmas e consórcios estrangeiros. capacidade de produzir 300 000
Na aprovação dos primeiros litros por dia, considerado um
quarenta projetos, cujas en- modelo de quarta geração, de
comendas somavam cerca de alto rendimento, com drástica di-
US$ 242 milhões, 38 ficaram a minuição do consumo de vapor.
cargo de empresas genuinamente
nacionais – a Dedini, a Zanini e o
Campo de testes
consórcio CCVP.
As duas licitações restantes Sempre buscando novos
foram vencidas por consórcios negócios e testar novos produtos,
com participação de companhias a Dedini implantou, entre 1981 e
estrangeiras, mas apresentavam 1982, a destilaria São João, em São
índices de nacionalização de 92% a João da Boa Vista (SP). A insta-

150 Dedini 85 anos

Capitulo5 150 11/4/05, 17:03


lação dessa unidade industrial Na base do
constituiu-se em recorde mun- desenvolvimento brasileiro
dial de prazo: decorreu um ano, Por ocasião do seu 65º ani-
entre a aprovação do projeto, versário, em 1985, o grupo Dedini
instalação e funcionamento. A reunia, além da holding, Dedini S.A
planta começou a moer em julho Administração e Participações, um
de 1982, com capacidade para grupo de 32 empresas, onde tra-
fabricar 180 000 litros de álcool balhavam mais de 11 000 colabo-
hidratado por dia. radores, produzindo variada linha
Era uma indústria modelo: a de produtos, destinados aos mais
idéia era contemplar as tecnolo- diferentes setores da economia.
gias mais avançadas e promisso- Além da constante presença
ras. Ali foi instalado o primeiro no mercado sucroalcooleiro, o
aparelho, patenteado com o grupo direcionava sua atuação
nome de Flegstil. Era uma novi- para a metalurgia e siderurgia,
dade no mercado: uma coluna concentrando esforços na pesqui-
de destilação que possibilitava sa e desenvolvimento de alterna-
menor consumo de vapor. Esse tivas na geração e transformação
equipamento é, até hoje, um dos de energia. As três principais
mais vendidos pela empresa. plantas eram a Metalúrgica, a
Naquele período, foi lançado, Codistil e a Siderúrgica.
ainda, na destilaria São João, o Ionic, A primeira, embrião de todo
processo pioneiro para garantir o complexo, evoluíra a partir
a qualidade do álcool, mediante da antiga oficina, na década
o uso de resinas que atuam de 1920, tornando-se uma das
sobre as impurezas do álcool, maiores fabricantes de bens de
reduzindo sua acidez. Durante capital sob encomenda do país,
muito tempo, esse sistema teve destinados, principalmente,
seu espaço no mercado, mas com ao setor sucroalcooleiro. Mais
o aperfeiçoamento do Flegstil, ao tarde, passou a atender outros
longo dos anos, ele se tornou segmentos. Estava, então, insta-
desnecessário. Outra tecnologia lada em área de 970 000 metros
inovadora implantada naquela quadrados, sendo 93 000 m2
unidade, entre 1983 e 1984, foi o construídos. Empregava 2 300
Methax, citado anteriormente. funcionários, e produzia cerca

a força de um ideal 151

Capitulo5 151 11/4/05, 17:03


152 Dedini 85 anos

Capitulo5 152 11/4/05, 17:03


de 4 500 toneladas por mês de
equipamentos variados.
A Metalúrgica havia realizado
importantes avanços na geração
de energia, fabricando turbinas
a vapor para atender as neces-
sidades de diferentes mercados.
As turbinas de simples estágio
possuíam potência variável, entre
12 e 4 000 hp, destinando-se às in-
dústrias química, sucroalcooleira,
petroquímica, entre outras.
Por sua vez, as turbinas
de multi-estágios (de 1 000 a
100 000 kW) podiam ser usadas
para acionar geradores, com-
pressores, sopradores e bombas,
atendendo, além das indústrias
citadas, siderúrgicas, fábricas de
papel e celulose, fertilizantes,
madeireiras etc. Para desenvolver
ainda mais esse item, a Dedini
firmou, naquela época, contrato
de cooperação técnica com a
alemã Siemens A.G., especializada
nessa fabricação.
A divisão de caldeiras pro-
duzia, por volta de 1985, gera-
dores de vapor que utilizavam
materiais alternativos sólidos
(carvão, bagaço, refugos, borra

Unidade Biostil na usina São Luiz,


em Pirassununga (SP), no final da
década de 1980

a força de um ideal 153

Capitulo5 153 11/4/05, 17:03


de café e outros) para substituir com capacidade para fabricar 2 000
o emprego de combustíveis toneladas de peças por mês, em
considerados críticos em side- todos os tipos de metais ferrosos.
rurgia, petroquímica, plantas A tecnologia adquirida ao
térmicas, usinas de açúcar, longo do tempo, obedecendo a
destilarias de álcool, indústrias padrões internacionais de quali-
alimentícias e outras. dade, permitia o fornecimento
Além desses produtos, fabri- de diferentes produtos aos mais
cava caldeiras para recuperação variados segmentos: cimento,
de enxofre, de hidrogênio, e um mineração, hidrelétrico, naval,
avançado sistema de recuperação siderurgia, sucroalcooleiro e de
de gases. O alto padrão de quali- máquinas em geral.
dade internacional da Metalúrgica O grupo englobava, ainda,
evidenciava-se, então, pelo fato empresas que atuavam na área
de exportar tecnologia em açúcar de destilação (Codistil), material
e álcool para as companhias refratário (Dedini Refratários
Andritz Machinenfabrik, austríaca, e Ltda.), comercialização de barras
Soracen, francesa. de aço para concreto armado
A Siderúrgica, por sua vez, era, (Dedini Comércio de Aços), pro-
então, uma das maiores usinas jetos de engenharia industrial
privadas brasileiras, ocupando (Dedini-Kavasaki Engenharia S.A.),
área construída de 78 567 metros na fabricação de equipamentos
quadrados, em terreno de de corte e carregamento para o
358 620 m2. Contava com 2 300 setor canavieiro (Dedini Máquinas
funcionários, aproximadamente, e Sistemas), e na fabricação de
e dentre suas principais divisões transformadores e prestação de
estavam a aciaria, com oito fornos serviços elétricos (Dedini Equipa-
elétricos e dois lingotamentos mentos Elétricos Ltda.).
contínuos; a laminação, com três Sua tradicional “loja”, a Dedini
unidades capazes de produzir Comercial Ltda., fundada no passado,
mensalmente 25 000 toneladas de vendia mais de 10 000 itens para
barras de aço para a construção consumo e manutenção das
civil e para fins mecânicos, obtidas indústrias em geral, funcionando
em leito de resfriamento; as como verdadeiro “pulmão” para os
fundições leve, média e pesada, clientes do grupo, pois seu estoque

154 Dedini 85 anos

Capitulo5 154 11/4/05, 17:04


permitia o pronto atendimento de década de 1980, a exemplo do que
peças de reposição e minimizava os ocorreu nas outras companhias
investimentos em almoxarifados estabelecidas no país. No final
por aquelas empresas. de 1989, o conglomerado previa
Havia, ainda, as usinas. investimentos de US$ 165 mi-
Uma delas era a Açúcar e Álcool lhões durante os próximos cinco
São Luiz S.A., em Pirassununga anos, mas foi abalado por planos
(SP), fundada nos anos 1960, econômicos recessivos e o desa-
com 750 funcionários, que quecimento da economia; suas
produzia açúcar e álcool. Ali empresas acumularam sucessivos
foi, também, desenvolvido prejuízos, agravados pelos
um processo pioneiro para vencimentos dos investimentos
obtenção de açúcar invertido efetuados na década anterior.
a partir da cana-de-açúcar: o Para administrar seu endivi-
produto Gludex, que apresen- damento, a diretoria do grupo
tava qualidades específicas de procurou, primeiramente, os
higroscopicidade, viscosidade parceiros japoneses – Kawasaki e
e resistência à cristalização. C. Itoh –, para tentar convencê-
Por isso, era bastante utilizado los a manter suas participações,
pelas indústrias alimentícias e comparecendo no aumento
farmacêuticas. do capital. Diante da negativa,
A outra unidade era a desti- dirigiu-se ao BNDES, conse-
laria São João, em São João da Boa guindo obter o parcelamento de
Vista (SP), instalada em 1982, que seus compromissos, e, inclusive,
fabricava e comercializava álcool. capitalização com emissão de
Servia como verdadeiro laboratório ações resgatáveis.
para testar novos produtos desen- Mesmo com as grandes
volvidos pela Dedini (ver p. 146). dificuldades conjunturais, o
grupo instalou, naquela época,
duas empresas: a Dedini Corretora
Em busca de ajuda
de Seguros S/C. Ltda., para melhor
A conturbada conjuntura proteger seus ativos, e a Codismon
nacional atrapalhou, no entan- Metalúrgica Ltda., destinada à pres-
to, os planos de expansão e a tação de serviços de montagens
performance da Dedini durante a dos produtos fabricados.

a força de um ideal 155

Capitulo5 155 11/4/05, 17:04


Medidas extremas Ao assumir o poder, o
jovem presidente informou que
No término de seu governo,
“só possuía uma bala na agulha
José Sarney acumulou pontos
para matar o ‘dragão’ da infla-
muito negativos para o país.
ção”. Assim, “puxou o gatilho”
Sob seu comando, a economia
às 7h15 da manhã da sexta-feira,
atingiu a maior taxa de inflação
16 de março daquele ano. Al-
(mensal e anual) e o menor
gumas das medidas anunciadas
salário mínimo real. Em con-
eram já conhecidas em planos
seqüência, enfrentou inúmeras
econômicos anteriores: congela-
greves e amargou baixos índices
mento de preços e salários, troca
de popularidade, agravados por
de moeda (cruzado novo pela
denúncias de escândalos.
volta do cruzeiro), aumento
Fernando Collor de Mello
de tarifas públicas, prefixação
(1990-1992) foi o primeiro civil
da inflação quinzenal e depois,
eleito pelo voto direto desde 1960.
mensal, entre outras.
Foi, também, o primeiro escolhi-
do dentro das regras da Constitui- A grande novidade ficou por
ção de 1988, com plena liberdade conta do bloqueio das aplicações
partidária. Collor, ex-governador financeiras (no over night e nos
de Alagoas, assumiu com o fundos), das contas bancárias
apoio das forças conservadoras, e das poupanças, que deixou
derrotando, no segundo turno, o empresas e pessoas físicas, do dia
ex-metalúrgico e líder da esquer- para a noite, sem nenhum di-
da, Luiz Inácio Lula da Silva. nheiro para cumprir seus com-
Entre suas promessas de promissos. O cruzeiro tornou-se
campanha, estavam a moralização dinheiro raro e caro. Quem
da política e o fim da inflação. tinha dólares, trocou. Quem
Acenava, também, com a mo- possuía algum patrimônio foi
dernização do país, a redução do obrigado a desfazer-se dele por
papel do Estado e a eliminação dos preços irreais, e quem não tinha
controles burocráticos da política outra alternativa quebrou.
econômica, oferecendo apoio Em seguida, Collor tomou
às empresas nacionais para que rígidas medidas de enxugamento
aumentassem sua eficiência e com- da máquina estatal, como a
petitividade no mercado global. demissão em massa de funcio-

156 Dedini 85 anos

Capitulo5 156 11/4/05, 17:04


nários públicos e a extinção de Nos primeiros meses, o Plano
autarquias, fundações e empresas Collor parecia dar certo, com
Chapas de aço inoxidável na
públicas. Ao mesmo tempo, a estabilização momentânea da fábrica de Piracicaba (SP)
anunciou providências para abrir inflação, mas, logo depois, come-
a economia nacional à competi- çaram a aparecer os problemas:
ção externa, facilitando a entrada a atividade industrial caíra 10,3%
de mercadorias e capitais estran- – a pior taxa obtida desde 1981.
geiros no país. Inicialmente, as Crescia a economia informal e, no
elites políticas e empresariais final do ano, o “dragão” da infla-
apoiaram a desregulamentação ção mostrava que não havia sido
da economia e a redução da abatido: em dezembro de 1990,
intervenção estatal no setor. atingiu a taxa de 1 118,54% ao ano.

a força de um ideal 157

Capitulo5 157 11/4/05, 17:04


Em fevereiro do ano seguin- condições especiais. O parque
te, a então ministra da Fazenda, fabril destinado à produção de
Zélia Cardoso de Mello, ainda bens para o setor sucroalcooleiro,
tentou salvar o plano, insti- instalado no município obteve,
tuindo novo aumento de tarifas naquela época, notável cresci-
públicas e o congelamento de mento, sendo responsável pela
preços, salários e das prestações maior parte dos equipamentos
da casa própria; promoveu fornecidos para todo o Brasil.
a desindexação da economia Paralelamente, a lavoura
(abolindo o índice de correção, canavieira apresentou grande
BTN); criou um índice (TR) expansão, com o processamento
para remunerar a poupança e de mais de 10,6 milhões de
extinguiu as aplicações financei- toneladas de cana, em 1985-1986.
ras, do tipo over night. Sem obter Para tanto, houve significativo
resultados, a ministra e toda sua aumento na área plantada, que
equipe foram demitidos. Marcílio substituiu, até, florestas e pasta-
Marques Moreira foi nomeado em gens. Naquela safra, a produção
seu lugar. Modificou o comando de álcool atingiu seu pico: quase
da economia, mas a recessão seiscentos milhões de litros,
continuou a mesma. 192,3% superior ao total fabricado
em 1981-1982. Nos anos anterio-
res, a cidade havia apresentado
Reflexos em Piracicaba
notável crescimento, com a
A consolidação do município chegada de grande número de
de Piracicaba como pólo indus- trabalhadores, especializados
trial retirou de sua economia o ou não, que vieram em busca
caráter sazonal conferido pela de emprego na indústria e nas
agricultura. A região passou a ser lavouras. No período de 1974 a
mais influenciada pela conjun- 1983, a população piracicabana
tura nacional do que pelas safras cresceu 83,88%, enquanto a área
agrícolas. O advento do Proálcool urbanizada expandiu 124,57%,
havia possibilitado a manutenção superando bastante as necessida-
do nível de emprego e permitiu des de ocupação.
a modernização de suas usinas, A cidade enfrentou, ainda,
graças aos financiamentos em problemas na sua infra-estrutura,

158 Dedini 85 anos

Capitulo5 158 11/4/05, 17:04


com o aparecimento de inúme- condições de vida da população,
ros loteamentos periféricos, nor- aumentando o número de favelas
malmente afastados do centro, e o desemprego. A crise atingiu
que provocaram a ocorrência de em cheio o próspero município e
enormes vazios na malha urbana. uma de suas principais indústrias,
Ocorreu, assim, uma especulação a Phillips, fechou suas portas,
descontrolada e mau uso do solo, transferindo-se da cidade. A de-
com evidente prejuízo sobre a saceleração fez-se sentir na queda
qualidade de vida. da arrecadação de impostos e foi
No início dos anos 1980, agravada, ainda mais, pelo desa-
surgiu uma nova característica quecimento do Proálcool.
no desenvolvimento de Pira-
cicaba, que modificou consi-
deravelmente sua paisagem: a
Crise no setor de
bens de capital
verticalização das construções,
fenômeno também observado O agravamento da crise do
em outras cidades brasileiras. álcool, no entanto, podia ser
Naquela época, Piracicaba já se observado na safra 1988-1989,
destacava como centro regio- quando o setor canavieiro
nal de comércio e serviços. passou a priorizar, em lugar do
A rede bancária era bastante combustível, a fabricação do
ampla e a cidade continuava a açúcar. O resultado foi verifi-
destacar-se na educação, com cado, assim como em outras
inúmeras universidades. regiões brasileiras, pela falta do
Os tradicionais estabeleci- produto para o abastecimento
mentos comerciais, concentrados dos veículos, seguida pela
na área central, foram obrigados queda progressiva e acelerada da
a enfrentar a concorrência do demanda por carros a álcool.
Shopping Center Piracicaba, instalado O esvaziamento do Pro-
em 1987, em terras da Dedini, álcool, na segunda metade dos
à margem direita do rio, nas anos 1980, foi compensado pela
proximidades da ponte conhecida alta dos preços do açúcar no
como “Lar dos Velhinhos”. mercado internacional. Assim,
No final dos anos 1980, diversas destilarias autônomas,
observou-se a deterioração das que só produziam álcool, equi-

a força de um ideal 159

Capitulo5 159 11/4/05, 17:04


param-se para produzir também desenvolvimento mais adequado
açúcar. Sensivelmente prejudi- para realizar o sonho de “Brasil
cada pela recessão, a indústria de Potência”, a ABDIB transformou-
bens de capital ficou aliviada com se, em 1990, em um “autêntico
essa safra de novas encomendas. clube de falidos”. Todas as em-
Muitos chegaram a acreditar que presas do setor sofreram pro-
os bons tempos haviam voltado. fundas transformações: algumas
Naquela época tão auspiciosa, simplesmente desapareceram,
nos anos 1970, esse segmento outras fundiram-se, deixaram-se
industrial, representado pela As- absorver, ou foram obrigadas a
sociação Brasileira da Infra-estru- reduzir suas atividades.
tura e Indústrias de Base (ABDIB), Dessa forma, não surpreendia
empregava 150 000 pessoas e que, nas próprias reuniões da
faturava mais de US$ 8 bilhões por ABDIB, na década de 1990, os em-
ano. No final de 1980, o número presários começassem a admitir
de trabalhadores caíra para 30 000 algo que, até então, significaria
e obtinha cerca de US$ 2 bilhões uma capitulação: a fusão entre
com suas vendas anuais. eles. Como recurso extremo,
Logo, os empresários os industriais ainda tentaram
perceberam que o aumento promover sua atividade, por meio
das encomendas era ilusório. de uma campanha publicitária,
A situação agravou-se ainda elaborada gratuitamente pela
mais quando Collor cancelou agência MPM Propaganda, cujo lema
reajustes previstos e, também, era: “Um país que não investe no
muitos contratos firmados com futuro não tem futuro”.
as companhias estatais siderúr- A primeira tentativa de fusão
gicas, como a Cosipa e Companhia entre a Confab e a Filsan, no âmbito
Siderúrgica Nacional, que supriam, da ABDIB, não obteve sucesso. A
com seus pedidos, as empresas de Zanini S.A. Equipamentos Pesados, por
bens de capital. sua vez, iniciou negociações para
O jornalista Geraldo Hasse se associar à Nardini, uma fundi-
(1996) comenta que, de um grupo ção de Limeira (SP), e, quando
empresarial de elite que, em 1980, essa iniciativa fracassou, passou
assumira a liderança no debate a estudar a fusão com a Dedini,
sobre qual seria o projeto de retomando uma antiga conver-

160 Dedini 85 anos

Capitulo5 160 11/4/05, 17:04


sação. Nos anos 1960, quando
Mario Dedini ainda dirigia a
empresa, já haviam sido entabu-
ladas algumas negociações com a
família Biagi, para a realização de
algumas operações em conjunto,
que não obtiveram êxito.
A oportunidade de formar
uma parceria surgiu, novamen-
te, no início de 1990, com a idéia
de um consórcio entre as duas
empresas para trabalhar no Irã.
O objetivo era “consolidar uma
forte posição competitiva nos
mercados nacional e interna-
cional, mediante um processo
de racionalização operacional a
Catálogo de
ser executado por uma admi- divulgação dos
nistração profissionalizada, produtos da antiga
empresa DZ, em
sem interferências familiares”,
meados de 1990
dizia um documento redigido
naquela época.
iraniano pretendia desenvolver
uma região muito pobre daquele
A proposta do Irã país, procurando aumentar a
A possibilidade de forneci- oportunidade de emprego com a
mento de cinco usinas no Irã instalação das indústrias.
foi apresentada à diretoria da O valor do “pacote” estava
Dedini pelo empresário Wolfgang estimado em mais de US$ 600
Sauer, que fora presidente da milhões, valor bastante significa-
Volkswagen do Brasil e estava, na tivo para a Dedini. Dessa forma,
época, atuando no comércio a empresa aliou-se à Zanini para
exterior. Tratava-se de um tentar concretizar o interessante
empreendimento com finalidade negócio e, juntas, investiram
estratégica, pois o governo mais de US$ 2 milhões na

a força de um ideal 161

Capitulo5 161 11/4/05, 17:04


elaboração da proposta. As duas Foi preciso até atrasar em três
Fabricação de equipamentos companhias concorriam com horas a partida do vôo para em-
pesados na unidade fabril da quinze consórcios de várias barcá-los, a tempo de participar
Dedini, em Sertãozinho (SP)
partes do mundo. da concorrência internacional.
Os engenheiros encarregados Os brasileiros tinham todas
desse trabalho demoraram um as vantagens competitivas, mas
ano nessa tarefa e recordam-se não conquistaram o negócio.
da correria e das noites passadas O governo iraniano preferiu
em claro para preparar os docu- entregá-lo para o Egito, com
mentos exigidos para seleção dos quem possuía créditos. Aliás,
fornecedores. Depois de emba- das cinco usinas previstas,
lados, os volumes contendo as acabou concretizando-se a
propostas, em sete vias, pesaram construção de apenas uma
setecentos quilos e lotaram uma unidade. De qualquer forma,
caminhonete de grande porte. essa proposta serviu de “balão

162 Dedini 85 anos

Capitulo5 162 11/4/05, 17:04


de ensaio” e acabou unindo as ficaram de fora algumas empre-
tradicionais concorrentes no sas pertencentes ao grupo Biagi,
Brasil – Dedini e Zanini –, que como a Zanini Internacional, a Ser-
passaram, a partir de então, a matec e a Renk-Zanini, e, também, a
estudar a participação conjunta divisão de turbinas, da Dedini.
em outros empreendimentos. As duas ferrenhas concorren-
tes que, muitas vezes, mediram
suas forças para conquistar
A fusão Dedini e Zanini clientes, implantar novas tec-
Assim, ainda no embalo do nologias e superar recordes de
consórcio para venda de equipa- produção tiveram trajetórias, até
mentos ao Irã, em 1990, as duas certo ponto, semelhantes.
empresas emitiram uma nota A Zanini havia iniciado suas
oficial, manifestando a intenção atividades nos anos 1950, a partir
da fusão. A iniciativa recebeu o de uma oficina mecânica, que
apoio do então ministro da Ad- prestava serviços na região de
ministração, João Santana, e foi Sertãozinho (SP). Em 1951, fabri-
estimulada por Wolfgang Sauer, cou seu primeiro equipamento:
mentor da criação da indústria uma caldeira, fornecida à usina
Autolatina (consórcio entre a Ford Bela Vista. Sete anos depois,
e a Volkswagen do Brasil), o mesmo produzia sua primeira moenda.
que fizera a prospecção da venda A primeira usina completa, a
para o Irã. Sauer tornara-se Vale do Rosário, foi projetada e
presidente do conselho da Zanini instalada em 1965.
e, com a colaboração do prefeito O crescimento dessa empresa
Waldyr Trigo e do Sindicato dos familiar foi rápido. Em 1964, já
Metalúrgicos de Sertãozinho, era uma sociedade anônima com
conseguiu um empréstimo-pon- a denominação de Zanini S.A.
te junto ao BNDES para viabilizar Equipamentos Pesados, atuando, além
o empreendimento. do mercado sucroalcooleiro,
Os preparativos para a fusão em mineração, papel e celulose,
duraram dois anos, consumidos controle ambiental e transporte
em discussões e estudos para de cargas industriais.
compatibilizar ativos, passivos, A nova empresa formada
débitos e créditos. Da fusão pela Dedini e Zanini chamou-se

a força de um ideal 163

Capitulo5 163 11/4/05, 17:04


DZ S.A. Engenharia, Equipamentos Somando a capacidade
e Sistemas, e desde a sua criação, instalada das duas empresas, a DZ
já era a maior fornecedora apresentava números impressio-
para o setor sucroalcooleiro. nantes: a sede era em Piracicaba,
No ano seguinte, aumentou onde, também, havia unidades
seu capital com o ingresso fabris, além de Sertãozinho.
da ATB-Badoni, representante Possuía escritórios regionais no
brasileira do conglomerado Nordeste e representantes comer-
italiano E. Fochi, com sede em ciais em vários países. Seu parque
Bologna, detentora de tecno- industrial ficou com 74 200 metros
logia sofisticada e muito bem- quadrados de área construída, e
sucedida. A multinacional com capacidade de produção de
atuava nas áreas de petróleo 154 000 horas/homem por mês,
e petroquímica, mineração, segundo propagandas da época.
portos, energia, cimento, aço As duas empresas somaram,
e meio ambiente, por meio de também, seus acervos tecnoló-
sua coligada no Brasil. gicos, as parcerias firmadas ao
Acreditava-se que este logo do tempo e seu histórico de
grupo estrangeiro auxiliaria no certificações de qualidade. Dessa
aumento da participação da DZ forma, tornou-se a maior fabrican-
fora do país, pois possuía no te mundial de equipamentos para
currículo atividades nas áreas o mercado de açúcar e álcool.
da petroquímica, mineração, Procurando oferecer trata-
portuária, energia, cimento, aço mento mais ágil e personalizado
e meio ambiente. A DZ tinha a seus clientes, e buscando maior
áreas distintas de atuação: equi- controle de qualidade, a DZ criou
pamentos para açúcar e álcool o conceito de “células-de-pro-
e equipamentos industriais para dutos”. Cada célula era espe-
atender outros setores, como cializada em determinada área
petroquímica, petróleo, portos, de produção, com organização
mineração, siderurgia, papel interna própria, e “sub-células”
e celulose, cimento, controle de engenharia, custos, adminis-
ambiental, energia, hidroelé- tração de contratos, engenharia
trica, elevação e transporte de industrial e planejamento de
cargas industriais. controle da produção.

164 Dedini 85 anos

Capitulo5 164 11/4/05, 17:04


PROGRAMA RGD:
GARANTIA DE QUALIDADE
O Programa de Reposição Garantida Para tanto, a equipe de técnicos
Dedini (RGD) foi criado em 1982, com do RGD vive sempre a campo, agindo
o objetivo de oferecer ao cliente “o como elo de ligação entre o fornecedor
melhor preço, o melhor prazo, a melhor e seus clientes, buscando atender suas
qualidade e o melhor atendimento ao necessidades, ouvindo atentamente
mercado”. Estava voltado, também, suas sugestões e detectando as difi-
para efetuar um trabalho de pós-venda, culdades do dia-a-dia. Dessa forma, foi
fornecendo informações sobre o andamento das encomen- possível aprimorar as tecnologias de produção e melho-
das, e oferecendo serviço de assistência técnica permanen- rar a qualidade dos serviços ao longo do tempo.
te ao setor sucroalcooleiro. O sistema RGD tornou-se tão forte dentro do grupo que
Naquela época, foi feito um zoneamento para cobrir hoje permeia todas suas atividades industriais, e está sendo,
todo o campo de atuação da empresa, criando-se “territó- inclusive, difundido por outros locais, como Estados Unidos,
rios” para melhor racionalizar o trabalho da equipe de ven- Américas e Indonésia. Segundo seus idealizadores, o progra-
das e planejando cuidadosamente as atividades de atendi- ma alavanca a venda de outros equipamentos e fornece mui-
mento ao mercado de açúcar e álcool em todo Brasil. ta segurança para os clientes: eles sabem que podem contar
com assistência técnica, a qualquer dia e hora, pois existem,
O programa foi importantíssimo para a Dedini, quan-
sempre, plantonistas para efetuar serviços de emergência.
do o setor mergulhou em profunda crise, no final da
A assistência técnica opera em três níveis: dimensionan-
década de 1990, e os projetos de construções de novas
do o maquinário de acordo com a capacidade produtiva
unidades, ampliações e modernizações ficaram com-
prevista; efetuando análises críticas para sua melhor utili-
pletamente paralisados. Foi a reposição de peças que
zação, e realizando a manutenção propriamente dita. Além
conseguiu sustentar o nível de faturamento do grupo na
disso, os profissionais do RGD fornecem consultoria na
virada do milênio.
aquisição de peças de reposição, em otimização de equi-
Com as mudanças implementadas, a partir de 1983, pamentos (repotenciamento), na atualização tecnológica e
o sistema RGD obteve um crescimento espetacular: o nas reformas e ampliações.
volume de negócios, equivalente a R$ 8 milhões naquele
Desde 2004, o RGD vem sendo implementado em ou-
ano, deve atingir, em 2005, mais de R$ 100 milhões no
tras áreas de atuação do grupo, principalmente no setor
mercado nacional.
de energia (caldeiras). Procura, também, divulgar, tanto
Esse sucesso é decorrência do trabalho integrado de interna como externamente, sua filosofia de trabalho de
todas as áreas que compõem o sistema RGD: desde a “fornecedores de soluções”, pois, afinal, estão plenamente
equipe de prospecção de negócios, passando pela en- conscientes de que o sucesso de qualquer empreendimen-
genharia, áreas fabris, controle de qualidade, expedição to envolve sempre uma equipe bem entrosada e eficiente
e assistência técnica pós-venda. para deixar o cliente cada vez mais satisfeito.

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Para que todo o esquema grupo italiano Fochi, que entrou
montado funcionasse, contava para auxiliar no processo, acabou
com o apoio da estrutura dos atrapalhando mais ainda. Houve
departamentos já instalados muitas dissensões e a cisão aca-
das duas empresas, como, por bou sendo oficialmente assinada
exemplo, o Sistema de Reposição em 31 de dezembro de 1994.
Garantida da Dedini (RGD), servi- Pelo acordo, a Zanini retirava-
ço de atendimento personalizado, se da sociedade, ficando com os
que garantia, inclusive, serviços de imóveis em Sertãozinho. A Dedini
emergência durante 24 horas aos assumiu o controle da DZ, para
clientes (ver boxe p. 165). evitar sua falência, com a missão
Formalizada a união, a DZ de promover o saneamento
nasceu com um passivo de cerca financeiro e dar continuidade
de US$ 50 milhões, equacionado às atividades em Sertãozinho, e,
em longo prazo, com taxas de desde então, não tem economi-
juros máximas de 12% ao ano. zado esforços e sacrifícios nesse
Segundo Geraldo Hasse (1996), se propósito. Nesse empreendimen-
a nova empresa tivesse conseguido to, as duas companhias perderam
implementar adequadamente o considerável patrimônio, mas o
plano de fusão, poderia ter-se sus- realismo acabou impondo uma
tentado com a simples unificação reengenharia em ambos os lados.
operacional, pois possuía tecnolo- A demissões inevitáveis de
gia e mercados para prosseguir. trabalhadores, voluntárias ou
não, ocorridas em Sertãozinho,
acabaram por ter um aspecto
Choque cultural positivo: muitos desses ex-fun-
Ocorreu, no entanto, o cionários da DZ aproveitaram
que foi chamado de “choque seu conhecimento e acabaram se
cultural”, entre Piracicaba e estabelecendo por conta própria.
Sertãozinho. O primeiro proble- Em conseqüência, surgiram inú-
ma foi o atraso em oito meses nas meras indústrias metalúrgicas
medidas de saneamento previstas e mecânicas de pequeno porte,
no documento de fusão. Em vez geridas com eficiência, que hoje
de representar uma solução, a são bastante significativas para
DZ produziu mais prejuízos. O a economia local.

166 Dedini 85 anos

Capitulo5 166 11/4/05, 17:05


Agrava-se a crise a crise da empresa prejudicasse
os acionistas, ou seus credores.
Ao assumir o controle
Ele sinalizou de forma clara à
acionário da DZ S.A. Engenharia,
comunidade e ao mercado que
Equipamentos e Sistemas, em 1995,
a situação era séria, mas que a
a primeira medida tomada pela
empresa estava disposta a honrar
Dedini foi efetuar a divisão da
seus compromissos.
empresa em duas unidades de
negócios, uma exclusiva para Segundo esses observadores,
atender o mercado de açúcar e tal atitude não é muito comum,
álcool, a outra para variados tipos quando se trata de companhias
de equipamentos industriais. de propriedade familiar, como é
As altas taxas de juros pra- o caso da Dedini. Só foi possível
ticadas naquela época inibiam devido à personalidade singular
os investimentos das indústrias, de Dovilio Ometto, caracte-
provocando diminuições das rizada por grande confiança
encomendas. A diretoria da Dedini na tradição da sua indústria, e
estimava redução de 22% nas suas na crença inabalável de uma
atividades entre 1995-1996. reação positiva do mercado.
Na Siderúrgica, a situação era, Com uma visão otimista e
também, difícil, devido à estagna- dinâmica, ele agiu como sempre
ção do setor de construção civil. fez: continuou trabalhando em
Dessa forma, o consumo de ver- negócios não-especulativos,
galhões permaneceu estacionado preocupando-se em desenvolver
entre 1995-1996, em níveis de tecnologias e preservando seus
1,65 milhão de toneladas anuais, colaboradores. De qualquer
representando consumo de onze forma, foi forçado a desfazer-se
quilos por ano por habitante. de muitos ativos importantes,
Assim, a Dedini foi obrigada que apresentavam maior liqui-
a efetuar uma recomposição dez, para saldar seus débitos.
financeira, tanto acionária, como
de seus débitos. Nessa época,
o presidente, Dovilio Ometto, Denúncias e
teve, segundo seus assessores impeachment
mais diretos, uma postura Desde de 1991, no entanto,
muito firme e não permitiu que as dificuldades encontradas

a força de um ideal 167

Capitulo5 167 11/4/05, 17:05


pelo plano de estabilização Fazenda o sociólogo e senador
econômica, que não acabou Fernando Henrique Cardoso
com a inflação e aumentou a que, no final de 1993, anunciou
recessão no país, começaram a várias medidas para estabiliza-
minar o governo de Fernando ção da moeda. Em 1º de julho
Collor. A situação se agravou de 1994, implantou o Plano
com denúncias de corrupção e Real, novo pacote econômico
mau uso do dinheiro público, que, entre outras disposições,
envolvendo ministros, altos mudou a moeda de “cruzeiro
funcionários e familiares do real” para “real”.
presidente. Assim, foi instalada O Plano Real, lançado em
uma Comissão Parlamentar de julho de 1994, foi o programa
Inquérito, em maio de 1992. de estabilização de maior êxito
Diante da confirmação das no país. Ao contrário de outros,
denúncias, a população se mani- com apenas alguns meses de
festou em todo o país, pedindo duração, conseguiu ultrapassar
o impeachment (impedimento) do a gestão de Itamar Franco e per-
presidente, votado em setembro petuar-se no governo seguinte.
daquele ano pelo Congresso Além do sucesso no declínio da
Nacional, sob forte pressão da inflação, procurou preservar as
vontade popular. Collor foi atividades econômicas e manter
afastado do cargo e teve seus o nível do emprego.
direitos políticos cassados por As denúncias de irregulari-
oito anos. Foi denunciado, dades, no entanto, não pararam.
também, pela Procuradoria- Entre 1993 e 1994, nova Comissão
Geral da República por crimes Parlamentar de Inquérito do
de formação de quadrilha e de Congresso Nacional investigou
corrupção. Dessa forma, em 29 problemas na elaboração do
de dezembro de 1992, assumiu, Orçamento da União, provando
em caráter definitivo, o vice- o envolvimento de ministros,
presidente, Itamar Franco. parlamentares e altos funcio-
Na tentativa de debelar a nários em um esquema de
crise econômica e controlar manipulação das verbas públicas,
a inflação, o novo presidente desviadas para empreiteiras e
chamou para ocupar a pasta da apadrinhados políticos.

168 Dedini 85 anos

Capitulo5 168 11/4/05, 17:05


A autoridade do presidente, à disputa eleitoral como o idea-
contudo, não foi abalada pelo resul- lizador do Plano Real. Seu pro-
tado das investigações. Em janeiro grama de campanha foi centrado
de 1995, Itamar Franco deixou o na estabilização da moeda e na
governo com um dos mais altos reforma da Constituição. Assim,
índices de popularidade verificado conquistou a presidência no
na República, apoiando a candida- primeiro turno das eleições, der-
tura de seu ministro da Fazenda, rotando inúmeros candidatos. Seu
Fernando Henrique Cardoso. primeiro mandato foi de janeiro
de 1995 a dezembro de 1998. Com
sua reeleição, pôde permanecer
Novo governo no cargo até o final de 2002. Em
Senador e ex-chanceler, ambos os pleitos, teve como
Fernando Henrique apresentou-se principal concorrente o candidato

a força de um ideal 169

Capitulo5 169 11/4/05, 17:05


do Partido dos Trabalhadores político, mas os conflitos de inte-
(PT), Luiz Inácio Lula da Silva. resses impediram sua aprovação.
No dia em que Fernando O presidente deu conti-
Henrique assumiu a presidência nuidade ao Plano Real. Em
pela primeira vez, passou a seguida, promoveu alguns
vigorar o Tratado de Assunção, ajustes na economia, como o
negociado durante o governo aumento da taxa de juros para
Collor, com o objetivo de desaquecer a demanda interna,
implantar o Mercosul. Esse e a desvalorização do câmbio,
acordo, assinado pela Argentina, para estimular as exportações e
Uruguai, Paraguai e Brasil, esta- equilibrar a balança comercial.
belecia a criação de uma área de Com a implementação do plano,
livre-comércio. Houve muitos obteve-se, finalmente, o controle
atritos entre os países-membros, da inflação em níveis mais baixos:
mas, apesar dos desentendimen- no final de 1995, situava-se em
tos, o Mercosul propiciou um torno de 23% ao ano.
melhor intercâmbio comercial No segundo semestre de
na América Latina. 1996, porém, surgiram sinais
de recessão econômica, como a
queda nos níveis de consumo, de-
Reforma constitucional missões de empregados em massa
No início de sua adminis- e o aumento da inadimplência.
tração, Fernando Henrique A redução da atividade econô-
esforçou-se para conseguir a mica provocou desemprego nos
aprovação de suas propostas. setores industrial e agrícola. Por
Dentre as principais, destacaram- outro lado, a demora na imple-
se: a quebra dos monopólios do mentação da reforma agrária
petróleo e das telecomunicações agravou os conflitos no campo.
e a alteração do conceito de Outro problema enfrentado
empresa nacional, para não pelo governo foi o aumento
discriminar o capital estrangeiro. da dívida interna que passou
Diversas outras reformas de US$ 60 bilhões de dólares
foram discutidas pelo Congresso para mais de US$ 500 bilhões. A
Nacional, nos anos seguintes, nos situação piorou no final de 1997,
âmbitos tributário, financeiro e com a crise na bolsa de valores

170 Dedini 85 anos

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de Hong Kong, que se alastrou mover a estabilização econômica,
pelo resto do mundo, atingindo a Dedini viu-se com alto nível de
fortemente o Brasil. As reservas endividamento. A situação ficou
monetárias brasileiras caíram ainda pior com o fracasso da
de US$ 74 bilhões, em abril de fusão com a Zanini, que impingiu
1998, para US$ 42 bilhões, em prejuízos à companhia.
outubro daquele ano. Completamente descapita-
O governo procurou salvar lizada, a empresa foi obrigada,
o Plano Real e impedir a saída de em 1994, a vender 49% das
divisas, mediante a elevação das ações da Siderúrgica para a Belgo-
taxas de juros e com o anúncio Mineira, com sede em Minas
de novas medidas econômicas. Gerais. Desde sua fundação,
Foi obrigado, também, a recorrer em 1921, essa companhia
ao Fundo Monetário Internacio- pertencia ao grupo Arbed, de
nal, obtendo um empréstimo Luxemburgo; em 2002, uniu-se
emergencial da ordem de US$ 40 à Usinor (França) e Aceralia (Es-
bilhões. Em contrapartida, teve panha), para formar o maior
de adotar um rigoroso reajuste conglomerado siderúrgico do
fiscal, com desvalorização cam- mundo: Arcelor.
bial, aumento da arrecadação e Mesmo diante das difi-
diminuição de gastos públicos. culdades financeiras, o grupo
Tais medidas agravaram, ainda Dedini promoveu, em 1996, a
mais, a recessão no país. ampliação da destilaria São João,
transformando-a em uma usina
de açúcar e álcool para processar
Sacrifício inevitável
cerca de um milhão de toneladas
Diante da difícil conjuntura de cana. O projeto, que consu-
nacional, que continuava abalada miu investimentos de US$ 13
devido a dificuldades para se pro- milhões foi instalado em 1998.

a força de um ideal 171

Capitulo5 171 11/4/05, 17:05


CAPÍTULO 6

Retomada do
desenvolvimento
“A Dedini tem uma história de tenacidade e
esperança, fé e coragem, vitórias e crises, e,
principalmente, de muito trabalho e desprendimento.”
Dovilio Ometto, em 1980, por ocasião do 60º
aniversário da empresa, que dirige desde 1970.

N
o final do século XX, a Dedini apresentava-se como sobre-
vivente de um passado tumultuado, sofrendo, ao longo do
tempo, todos os reflexos das crises econômicas ocorridas
no país, que, praticamente, destruíram a indústria de bens de capital
nacional. Segundo um de seus diretores, o que mais impressiona na
empresa é sua enorme capacidade de resistência às inúmeras dificulda-
Na página seguinte, detalhe de des, além do firme propósito de gerar e manter empregos.
trabalho na unidade fabril de Devido ao fato de ser familiar e ter capital nacional, a grande
Sertãozinho (SP)
vantagem competitiva da Dedini é a agilidade nas decisões, por meio
de uma administração – formada por executivos e acionistas – com
visão compartilhada, que sabe conviver com suas diferenças e chegar
ao consenso. Tal fato compensa, em parte, as dificuldades para atrair
capitais para transformá-los em investimentos, geralmente, mais fáceis
de serem obtidos pelas empresas multinacionais.
Por volta de 1996, o tradicional grupo se via mergulhado em
profunda crise, e só conseguiu sobreviver promovendo a desmobi-
lização de parte de seu patrimônio. Paralelamente à venda de ações
da Siderúrgica e de outros ativos, a Dedini apresentou ao BNDES um
projeto de reestruturação econômica e financeira, propondo o
equacionamento de suas pendências.

172 Dedini 85 anos

Capitulo6 172 11/4/05, 17:05


Capitulo6 173 11/4/05, 17:05
O grupo passou a constituir- As demais coligadas do grupo
se, basicamente, de duas unidades continuaram a ser controladas
operacionais: a Dedini S.A. Agro pela holding Dedini S.A. Administra-
Indústria e a Codistil S.A. Dedini. A ção e Participações.
primeira reunia as usinas e fazen- Dessa forma, em 1997, a Dedi-
das, e a segunda englobava as ni vendeu o restante de suas ações
atividades de produção de bens da Siderúrgica (51%) para a Belgo-
de capital, agindo como âncora Mineira, e desfez-se de mais alguns
dessa sociedade. imóveis. Pôde, assim, saldar suas
No âmbito desse projeto, foi dívidas, pagando, inclusive, as
adquirido, em junho de 1996, ações resgatáveis adquiridas pelas
o controle acionário total da holdings dos acionistas: Doado S.A.
Codistil (34,664% das ações, que se Participações (constituída pelos
encontravam nas mãos de ter- descendentes de Dovilio e Ada
ceiros). Parte do pagamento foi Dedini Ometto), AD Participações
efetuado com a cessão da uni- Ltda. (descendentes de Armando
dade de fabricação de turbinas. e Norma Dedini) e Nidar Participa-
O endividamento com bancos e ções Ltda. (família Arnaldo e Nida
tributos, no entanto, continuava Dedini Ricciardi).
alto: em dezembro daquele ano, O BNDES forneceu fundings
ultrapassava os R$ 351 milhões, necessários para os bancos
equivalentes, na época, a mais de privados prorrogarem algumas
US$ 338,2 milhões. pendências mais cruciais do
O plano de reestruturação grupo: o débito da DZ com os
societária foi aprovado por bancos privados e o da Dedini
unanimidade pelos acionistas em Agro Indústria com o Banco do
dezembro de 1996. Estabeleceu Brasil. Diante desses acertos
que parte do acervo patrimonial financeiros, as dívidas caíram,
da Dedini S.A. Administração e passando para R$ 257,3 milhões
Participações – investimentos que em dezembro de 1997, equi-
possuía nas empresas controladas valentes a US$ 230,7 milhões.
Dedini S.A. Agroindústria e Codistil Eram, ainda, valores muitos al-
– seria separado, e passaria a tos, constituídos, principalmen-
compor uma nova empresa, de- te, por empréstimos em bancos
nominada DDN Participações Ltda. e por débitos com impostos.

174 Dedini 85 anos

Capitulo6 174 11/4/05, 17:05


Livre mercado a necessidade de encontrar um
novo modelo de gestão para o
Apesar da grande diver-
setor, capaz de associar ações
sificação da Dedini, a atuação
públicas e privadas, assegurando a
no mercado sucroalcooleiro
estabilidade dos preços e a disponi-
continuava a ser, ainda, bastante
bilidade dos principais produtos.
significativa na transição para o
século XXI. Por isso, a situação Devido às suas características
desse setor apresentava grande especiais, ou seja, à possibilidade
influência no desempenho de gerar produtos tão distintos
do grupo. E, naquela época, a – como o açúcar, o álcool e a
conjuntura não poderia ser pior. energia elétrica –, a cadeia cana-
Segundo a pesquisadora vieira encontrou grandes dificul-
Márcia Azanha Ferraz Dias dades para atuar em ambiente de
de Moraes (2004), enquanto livre mercado, pois são muitas as
o governo ditou a política de variáveis que a influenciam.
comercialização para os produtos Se por um lado, a redução
da cadeia da cana-de-açúcar, da intervenção governamental,
os efeitos do excesso de oferta como era exercida, com con-
dessa matéria-prima ficaram trole nos preços, a definição
minimizados. Quando, a partir de nas quantidades fabricadas e a
1998, diminuiu a intervenção do interferência na comercialização,
Estado no setor, sentiram-se os aumentavam a eficiência do siste-
impactos negativos, com reduções ma, por outro, impuseram novos
importantes no preço do álcool desafios para o setor privado.
e, também, no do açúcar, cujas Dessa forma, um dos ramos
cotações apresentaram queda no do grupo, a Dedini S.A. Agro Indústria
mercado internacional. (DAI) enfrentou grandes dificul-
A situação se agravou ainda dades naquela época, prejudicada
mais com uma supersafra obtida pela queda da receita, devido ao
em 1998-1999. Em conseqüência, “achatamento” dos preços do
houve diminuição no número açúcar e do álcool, e, também,
de usinas em operação. A oferta pela forte pressão dos bancos para
de empregos foi menor e os receber dívidas vencidas, amea-
fornecedores de cana enfrentaram çando sua execução. Por causa
inúmeros problemas. Reforçou-se disso, outra empresa da Dedini, a

a força de um ideal 175

Capitulo6 175 11/4/05, 17:05


Dulcini, fabricante de açúcar líqui- ção Agrícola (PESA), oferecido
do e do açúcar invertido (Gludex), pelo governo, naquela época,
Visão noturna da usina de açúcar apresentou grande prejuízo no para auxiliar as empresas rurais a
e álcool Vale do Paranaíba, em
Capinópolis (MG) seu balanço de 1999. escapar da insolvência.
Diante dessa difícil situa- A Dedini Agro Indústria
ção, a administração da Dedini conseguiu, assim, regularizar
resolveu vender a terceiros sua situação junto ao Banco do
seus negócios na área de açúcar Brasil. Posteriormente, em 2001,
líquido e invertido, mantendo o controle acionário dessa em-
o patrimônio da usina instalada presa foi transferido para outros
em São João da Boa Vista. Com membros da família Ometto,
os recursos obtidos na transação, deixando de fazer parte do grupo,
pôde adquirir títulos do tesouro com uma nova denominação:
nacional, enquadrando-se no Dedini S.A. Indústria e Comércio,
Programa Especial de Securitiza- englobando as usinas São João e São

176 Dedini 85 anos

Capitulo6 176 11/4/05, 17:06


Luiz. Viviam-se, então, momentos energia elétrica para dez estados
difíceis na conjuntura nacional, do Centro-Sul sofreu interrup-
que prejudicavam bastante as ção, em virtude da queda do sis-
atividades empresariais. tema, atingindo cerca de sessenta
milhões de consumidores.
Com a popularidade em
Problemas políticos queda, Fernando Henrique
Turbulências na área econô- promoveu uma reforma minis-
mica marcaram o início do segun- terial e anunciou um plano para
do mandato de Fernando Henri- aumentar as exportações e a
que Cardoso, iniciado em janeiro produção de grãos. Os ruralistas,
de 1999 e finalizado em dezembro por sua vez, exigiam a renegocia-
de 2002. Simultaneamente, fortes ção de suas dívidas para corrigir o
ataques especulativos à moeda, descompasso entre os preços dos
o real, reduziram as reservas produtos agrícolas, e os valores
financeiras do país, obrigando o dos financiamentos, reajustados
governo a abandonar a política de pelas elevadas taxas de juros.
sobrevalorização cambial. Mesmo O governo cedeu às pressões,
assim, foi feito novo acerto com revendo débitos de R$ 25 bilhões.
o FMI. O Brasil conseguiu obter Mesmo assim, em 1999, o
empréstimo de US$ 41,5 bilhões presidente obteve os mais baixos
de dólares, com o compromisso índices de popularidade, desde
de reduzir gastos públicos, quando assumiu a presidência
incrementar as exportações e pela primeira vez. Em agosto,
aumentar a arrecadação por meio os partidos de oposição organi-
de impostos. Em conseqüência, zaram a Marcha dos Cem Mil, em
a taxa de juros foi elevada mais protesto contra o governo.
uma vez. A mudança do sistema A reação de Fernando Henri-
cambial, porém, não conseguiu que veio com o anúncio do Plano
trazer segurança ao mercado. Plurianual (PPA), em outubro de
O desgaste na área econômi- 1999, que previa investimentos
ca repercutiu em outros setores de R$ 1,1 trilhão de reais em
do governo. O processo de várias áreas. Para o ano de 2000, o
privatizações foi posto em dúvi- governo estabelecia as seguintes
da, quando o fornecimento de metas: crescimento de 4% do

a força de um ideal 177

Capitulo6 177 11/4/05, 17:06


Produto Interno Bruto (PIB), des continuassem trabalhando
inflação em torno de 4% e gera- e, em conseqüência, a partir de
ção de 8,5 milhões de empregos. 2000, o desempenho da economia
O plano de reformas sofreu, nacional melhorou. Contribuiu,
porém, duro golpe, com a também, para esse fato, a acomo-
decisão do Supremo Tribunal dação ao ajuste cambial efetuado
Federal (STF) de considerar no ano anterior. A Dedini pôde,
inconstitucional a cobrança assim, retomar seu ritmo normal
de aposentadoria de servidores de produção, compensando as
ativos e inativos. Com a decisão, quedas ocorridas nos anos ante-
o governo deixou de arrecadar riores e logo estava, novamente,
cerca de R$ 2,4 bilhões de reais; operando no limite máximo da
para compensar o rombo no capacidade instalada.
orçamento, anunciou cortes de A expansão teria sido maior
investimentos e passou a conside- no ano seguinte, se não fosse a
rar novo aumento de impostos. instabilidade ocorrida em nível in-
ternacional, como a crise político-
financeira ocorrida na Argentina
Recuperação
e os atentados terroristas nos
Reconhecendo o alto Estados Unidos, que ocasionaram
endividamento tributário elevação na cotação do dólar e
apresentado pelas empresas em geraram novas incertezas nos
geral, o governo promulgou a mercados. Com a globalização,
Lei no 9964/2000, que instituiu o a economia nacional ficara mais
Programa de Recuperação Fiscal suscetível ainda às turbulências
(Refis), permitindo o parcelamen- provenientes do exterior.
to de débitos tributários federais, Às voltas, também, com uma
vencidos até fevereiro de 2000. Em crise energética, que exigiu gran-
troca, as companhias recolheriam de esforço de toda a sociedade
aos cofres públicos, mensalmente, para economizar energia elétrica
um percentual que variava entre e evitar um temido “apagão”
0,3% a 1,5% sobre sua receita, – o colapso no fornecimento de
dependendo da sua atividade. eletricidade –, o empresariado
Este programa possibilitou brasileiro foi obrigado a enfren-
que muitas firmas em dificulda- tar, ainda, a drástica redução das

178 Dedini 85 anos

Capitulo6 178 11/4/05, 17:06


linhas de crédito internacionais, que o saldo da balança comercial
tanto para exportação como para deixasse de ser negativo. De 1993
capital de giro. até 2001, o Brasil não parou de
Além disso, no mercado crescer, a taxas médias de 3,3% ao
cambial, a forte desvalorização do ano. O país conseguiu um fato
real em relação ao dólar, ocorrida raro: estabilizar sua economia e,
na segunda metade de 2002, teve ao mesmo tempo, desenvolver-se
um impacto negativo, aumentan- em todos os setores.
do os custos das empresas, prin- Mesmo diante de tantas
cipalmente, daquelas que tinham conquistas positivas, o desgaste
seus passivos indexados à moeda político do governo, aliado à
norte-americana. Todos esses grave recessão, impediram que
fatos refletiram negativamente, Fernando Henrique fizesse seu
prejudicando o desempenho das sucessor à presidência, José Serra.
atividades econômicas. Após três derrotas em pleitos
Ao final de dois mandatos, anteriores, foi eleito, com mais de
Fernando Henrique exibia um 60% dos votos válidos, o candida-
balanço social positivo de suas to da oposição, o ex-metalúrgico
realizações, mostrando que, por Luiz Inácio Lula da Silva, em
exemplo, entre 1993 e 2000, a per- outubro de 2002.
centagem da população abaixo Foi o primeiro líder de
do nível de pobreza diminuíra esquerda que chegou ao poder
de 43% para 30%. O número de no Brasil e, logo depois de sua
crianças fora da escola tinha se posse, as preocupações com uma
reduzido, assim como a mortali- eventual instabilidade política se
dade infantil. Além disso, de 1994 dissiparam. O novo mandatário
a 2001 foram criados 1,8 milhão assumiu o cargo em momento de
de novos empregos, o que permi- normalidade e manteve, em parte,
tiu manter a taxa de desemprego a política monetária do governo
por volta de 6%. anterior, com taxas de juros altas
Na área econômica, além do para conter a inflação, e procu-
controle da inflação, a adminis- rando trazer a taxa de câmbio a
tração de Fernando Henrique patamares mais compatíveis.
conseguiu estimular o fluxo do Verificando que o primeiro
comércio exterior, possibilitando programa de recuperação fiscal

a força de um ideal 179

Capitulo6 179 11/4/05, 17:06


A mais nova não tinha sido suficiente para Canavieira de São Paulo (Unica),
que as empresas cumprissem as usinas processaram cerca de
fábrica Dedini é a seus compromissos tributários 256 milhões de toneladas de
Fundição, ocupando e previdenciários, o governo matéria-prima, o volume mais
acenou com um novo Refis (Lei baixo dos dez anos anteriores,
uma área construída de
n. 10.684, de 30-5-2003). Abria-se, mas logo depois, em 2003-2004,
18 000 metros quadrados. assim, a possibilidade de parcelar no entanto, observou-se uma
É a maior do Brasil no débitos com vencimento até recuperação: moeram quase
fevereiro de 2003. 360 milhões de toneladas, repre-
seu segmento e uma
sentando incremento de mais
das maiores da América de 40%. A reação do mercado
Volta à normalidade exigiu novos equipamentos para
Latina, com capacidade
Ao enquadrar-se no primeiro seu processamento. Essa era a
projetada de produção de grande especialidade da Dedini,
programa de parcelamento de dé-
22 000 toneladas por ano. bitos fiscais, em 2000, a Dedini pôde que possuía, então, dois focos de
equacionar todas suas pendências negócios: um, de equipamentos
Pode fundir peças pesan-
com a Receita Federal e com o para açúcar e álcool e, outro,
do até 35 toneladas. englobando todos os demais.
Instituto Nacional de Seguridade
Social (INSS), passando a operar Procurando, também, apro-
com maior tranqüilidade. veitar todas as oportunidades,
Nos anos seguintes, o grupo a empresa forneceu, durante
assistiu, também, à lenta retoma- algum tempo, equipamentos para
da do nível de vendas, inclusive usinas termoelétricas, que sempre
no setor sucroalcooleiro, cujas tiveram um papel reduzido na
atividades estavam restritas à matriz energética brasileira. Em
simples reposição de peças. Entre decorrência da crise, que atingiu
1997 e 2000, a Dedini não fabricara o auge em 2001, o uso dessas
nenhuma moenda nova – o unidades passou a ser aventado,
tradicional carro-chefe das vendas. para que funcionassem como
Isso significava estagnação, pois a reguladoras de oferta de eletri-
indústria canavieira havia paralisa- cidade, compensando situações
do os investimentos no aumento críticas de escassez de chuvas e de
da capacidade de moagem. extremo esvaziamento dos re-
Na safra de 2000-2001, se- servatórios. Dessa forma, a Dedini
gundo a União da Agroindústria buscou parceiros estratégicos para

180 Dedini 85 anos

Capitulo6 180 11/4/05, 17:06


viabilizar tais empreendimentos e aquela companhia, que previa a
Colaborador da Fundição
conseguiu, naquela época, efetuar mudança da fundição existente Dedini em 2005
algumas vendas nessa área. para outro local.
Essa instalação deu-se em
momento desfavorável, em
Novos investimentos
que muitas plantas congêneres
Mesmo sem completar seu estavam sendo desativadas em
saneamento financeiro, a Dedini várias partes do mundo, por falta
viu-se obrigada, no final de 2002, de encomendas. Foi considerado,
a investir na implantação de na época, um “verdadeiro ato de
uma nova unidade fabril, para coragem” do presidente Dovilio
cumprir seu acordo com a Belgo- Ometto, que tirou do próprio
Mineira, efetuado por ocasião bolso o investimento necessário
da transferência do controle à adaptação da fábrica existente
acionário da sua siderúrgica para (antiga Caldeiraria Pesada) ao

a força de um ideal 181

Capitulo6 181 11/4/05, 17:06


TECNOLOGIA DHR PERMITE AUMENTAR O
RENDIMENTO NA PRODUÇÃO DE ÁLCOOL

O sistema Dedini Hidrólise Rápida (DHR) é um projeto vel a celulose e a hemicelulose. A hidrólise pôde ser feita,
muito especial dentro da empresa, pois, no Brasil, é raro o então, em apenas quinze minutos, em vez de quatro a seis
envolvimento tão grande de uma indústria na pesquisa e horas, como antes. Sendo assim, os açúcares não precisam
no desenvolvimento de um sistema, desde protótipos em ficar tanto tempo dentro de um meio tão agressivo.
laboratório, até sua implantação em larga escala. O produto formado era, então, retirado do reator utiliza-
O que animou sua implementação foi a pouca aten- do para essa finalidade, interrompendo-se sua degradação,
ção dada pelo setor sucroalcooleiro ao bagaço e à palha com resfriamento da temperatura (“flasheamento”); o cal-
da cana-de-açúcar (conjunto de pontas e folhas, de alto do obtido era enviado para fermentação e, posteriormente,
potencial energético, responsáveis por 2/3 da energia para a destilação (ver esquema).
contida na planta). Durante quase quinhentos anos de ex- O projeto começou a ser desenvolvido em escala de
ploração, praticamente, só se utilizou o caldo da cana nas laboratório pela Dedini, entre 1981 e 1982. Tempos depois,
usinas, e a tecnologia desenvolvida visava, principalmen- em 1991, foi montada uma unidade piloto, no bairro Capim
te, sua máxima extração e seu máximo aproveitamento. Fino, ao lado do prédio da Fundição, com capacidade para
Por ocasião do Proálcool, nos anos 1980, no entanto, co- produzir cem litros de álcool por dia, a partir do bagaço,
meçou-se a pensar em otimizar o aproveitamento do bagaço que funcionou durante três anos.
para produção de mais açúcar e álcool, disponibilizando o res- A conclusão dos testes foi que, utilizando a palha da
tante para diversos fins. Além da geração elétrica excedente, cana e o bagaço gerado pela usina, poder-se-ia, pratica-
sabia-se que o material podia ser aproveitado na produção de mente, dobrar a produção de álcool hidratado em uma
ração animal para engorda de bovinos em confinamento, e na mesma área: 12 050 litros, em vez de 6 400 litros de álcool
fabricação de celulose e papel. por hectare de cana plantada. Outra vantagem é essa fabri-
Na busca incessante para agregar mais valor à cana, a cação ter um custo 40% menor do que o produto obtido a
Dedini começou a investigar a hidrólise, a partir de uma partir do caldo.
sugestão do próprio presidente da empresa, Dovilio Omet- Segundo os responsáveis pelo projeto Dedini Hidrólise
to, que estudara a literatura pertinente. A seu pedido, a Rápida (DHR), foram enfrentadas dificuldades de todo o
equipe de pesquisa e desenvolvimento começou a analisar tipo para o desenvolvimento dessa tecnologia. Inicialmen-
o estado da arte mundial desse processo, que consiste na te, foram usados dois reatores para o processo, mas, de-
transformação da celulose em açúcares. pois, decidiu-se utilizar apenas um, contínuo, para obter-se
A reação é feita, por meio da água, em meio ácido, por o mesmo resultado.
catalisadores, mas precisa, para tanto, vencer a lignina, ma- Em determinados momentos, o trabalho envolveu
terial resistente, que bloqueia o acesso à celulose e à he- uma equipe de quase vinte pessoas, pois o projeto de-
micelulose, outros componentes do bagaço, responsáveis mandava especialistas em várias áreas. Calcula-se que já
pela formação dos açúcares. foram investidos aproximadamente US$ 12 milhões. Para
Delineou-se, assim, uma tecnologia que utilizava sol- viabilizá-lo, a Dedini obteve financiamento do Banco
ventes da lignina menos agressivos, mais eficientes e mais Mundial, por meio do governo brasileiro. Em novembro
rápidos. Dessa forma, a fibra do bagaço era colocada, em de 1997, a empresa assinou contrato de cooperação téc-
alta temperatura, em um meio contendo água e ácido. Em nica com a Copersucar, visando otimizar algumas fases
alguns minutos, a lignina se solubilizava, tornando acessí- desse processo.

Capitulo6 182 11/4/05, 17:06


Planta industrial com o processo Dedini Hidrólise
Rápida: aproveitando o bagaço e a palha da
cana-de-açúcar para produzir mais álcool

Essa parceria teve desdobramento: em feverei-


ro de 2002, a Dedini, Copersucar e a Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
assinaram novo convênio para instalação de uma
unidade semi-industrial, na usina São Luiz, em Piras-
sununga (SP), para produção de 5 000 litros de álcool
por dia, a partir do bagaço, que começou a funcionar
no ano seguinte. Assim, a escala do projeto foi au-
mentada em cinqüenta vezes.

Nessa etapa, os técnicos trabalharam inicialmente


com a hidrólise por carga (batelada) e, depois, em sis-
tema contínuo. Várias modificações foram efetuadas
ao longo do tempo, principalmente com relação à
alimentação do reator com o bagaço.

O objetivo é estabelecer parâmetros de engenha-


ria para trabalhar em escala industrial, pois não há, ain-
da, nada conhecido na literatura a respeito. Por isso,
os técnicos estão realizando cuidadosas medições. Já
existem várias usinas interessadas em implantá-lo, ao
final do estágio de desenvolvimento.

Acredita-se que essa tecnologia, mais acessível


em termos de custos de implantação, terá, em breve,
grande impacto na produção de álcool, principalmen-
te em países com poucas áreas destinadas ao plantio
de cana. É importante, também, pelo valor conferido
à palha e ao bagaço, materiais desperdiçados pelas
usinas no passado, que estão adquirindo, hoje, um
significado econômico cada vez maior.

Capitulo6 183 11/4/05, 17:06


novo uso, orçado, na época em de produção de bens de capital: a
R$ 40 milhões. antiga Codistil S.A. Dedini transfor-
A iniciativa acabou se tornan- mou-se em Dedini S.A. Indústrias de
do um sucesso. Em 2005, a Fundição Base. A nova companhia passou
operava no limite máximo de sua a ter quatro focos principais
produção, sendo que, a maior de negócios, que apresentam
parte é destinada ao consumo de independência entre si nas ações
outras unidades fabris da Dedini e comerciais e na elaboração de
o restante vendido a terceiros. O projetos. São eles: equipamentos
mercado apresenta-se em expan- pesados, para açúcar e álcool,
são, efetuando, inclusive, negócios para energia e em aço inoxidável.
em outros países (Suécia, Estados
Unidos, Áustria, França).
A inauguração da nova Fundi- Novidades tecnológicas
ção realizou-se no dia 16 de janeiro Firme na sua tradição de
de 2004, com a presença do presi- desenvolver e lançar novas tecno-
dente Luiz Inácio Lula da Silva, do logias no mercado, a Dedini conti-
governador de São Paulo, Geraldo nuou investindo no aumento da
Alckmin, da então ministra de produtividade no processamento
Minas e Energia, Dilma Rousseff, da cana-de-açúcar. Esse assunto
e do prefeito de Piracicaba, na já vinha sendo pesquisado pelos
época, José Machado. Além dessas técnicos da empresa, desde a
autoridades, estiveram presentes metade da década de 1980, quando
os deputados Antonio Carlos de começou a estudar-se a utilização
Mendes Thame (federal) e Ro- do bagaço e da palha para aumen-
berto Moraes (estadual), o então tar a produção de álcool.
secretário estadual da Habitação, O sistema, denominado
Barjas Negri, o presidente do Dedini Hidrólise Rápida (DHR), foi
Sindicato dos Metalúrgicos, José submetido a inúmeros testes
Luiz Ribeiro, entre outros. de laboratório. Em 1991, foi
Esse evento marcou uma instalada uma unidade piloto
nova etapa na vida do tradicional para avaliar sua eficiência. Os
grupo empresarial piracicabano, resultados foram analisados du-
que passou a concentrar suas ati- rante vários anos e, em 2002, foi
vidades, principalmente, na área montada a operação em caráter

184 Dedini 85 anos

Capitulo6 184 11/4/05, 17:06


semi-industrial, com capacidade
de 5 000 litros diários.
Os trabalhos prosseguiram
em parceria entre o Centro de
Tecnologia Canavieira (Copersucar),
a Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp) e a
Dedini. Assim, o processo pôde ser
aperfeiçoado e patenteado pela
empresa no Brasil, União Euro-
péia, Rússia, Estados Unidos e
diversos outros países. Atualmen-
te, reúne equipamentos capazes
de hidrolisar o bagaço da cana
em alguns minutos, enquanto os
convencionais levam horas para
efetuar o trabalho.
Hoje, o DHR está em fase
final de testes na instalação
semi-industrial na usina São Luiz,
em Pirassununga (SP). Os pes-
quisadores acreditam que, com o
uso do bagaço, será possível obter
aumento de 87% no rendimento
industrial, utilizando-se a mesma
área plantada de cana.
E explicam por quê: con-
siderando uma produtividade
média de oitenta toneladas de
cana por hectare, e que toda
ela será destinada à fabricação
de álcool, haverá 6 400 litros de
álcool produzido diretamente da
cana e outros 5 600 litros a partir
do bagaço e da palha. Em outras

a força de um ideal 185

Capitulo6 185 11/4/05, 17:06


BIODIESEL: ALTERNATIVA
ENERGÉTICA PROMISSORA
Não foi por acaso, em visita recente a Piracicaba, que fabricado a partir de várias matérias-primas – soja, mamona,
o ministro da Agricultura e Abastecimento, Roberto Ro- palma (dendê), girassol, amendoim, caroço de algodão, entre
drigues, referiu-se à cidade como “a locomotiva da agro- outras, conforme a disponibilidade regional. Este é o primeiro
energia brasileira”. Escolhida como o “pólo nacional de consórcio formado para o fornecimento desse tipo de equipa-
biocombustíveis”, em 2003, por sua forte tradição em pes- mento para plantas industriais que operam volumes superio-
quisa e desenvolvimento de energias renováveis, a cidade res a 40 milhões de litros de biocombustível por ano.
se projeta, em nível nacional, como um centro articulador Dentre as inúmeras vantagens do processo, estão o fato
dessas políticas tão ecologicamente corretas. de ser contínuo e de permitir a utilização de multi-óleos.
Por isso, o pólo, que funciona nas dependências da Es- Pode operar tanto por rota metílica como por etílica. Permi-
cola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq-USP), te, ao mesmo tempo, um alto rendimento de conversão da
pretende catalisar as discussões sobre o assunto, liderando matéria-prima em produto final e apresenta baixo consumo
e estimulando o uso dessas fontes energéticas, iniciando de utilidades. Além disso, apresenta geração reduzida de
seu trabalho com o biodiesel. O principal objetivo é trans- efluentes e menor custo operacional.
formá-lo em uma commodity, facilitando sua inserção no A parceria firmada entre a Dedini e a empresa italiana Bal-
mercado internacional. lestra tem o respaldo do Programa Nacional de Produção e
O biodiesel é definido, quimicamente, como ésteres Uso do Biodiesel, pelo qual a Agência Nacional do Petróleo
derivados de lipídeos ou ácidos graxos, que pode ser pro- reconhece oficialmente o produto como combustível, acom-
duzido, juntamente como a glicerina, a partir de uma rea- panhando-o por um conjunto de regulamentações, que de-
ção provocada por etanol ou metanol, na presença de um finem suas especificações, estruturam a cadeia produtiva e
catalisador. Sua produção significa menor poluição, mais apresentam critérios para tributação e fiscalização.
empregos no campo, menor dependência de importações Inicialmente, o programa prevê, até 2006, a mistura facul-
e mais recursos na balança de pagamentos do país. tativa de 2% de biocombustível ao diesel derivado do petró-
Trata-se de uma alternativa inesgotável e renovável ao leo. Com isso, cria-se uma demanda de 720 milhões de litros
uso do combustível de origem fóssil, com a grande vantagem por ano do produto. A lei define, também, que a percenta-
de ser “limpo”. Os técnicos calculam que uma tonelada de gem será maior até o final de 2005, com adição de 5%.
biodiesel evita a emissão de 2,5 toneladas de gás carbônico Os analistas do setor acreditam que, até 2020, a mistura
na atmosfera, se comparado ao diesel. Contribui, também, atinja 20% de combustível vegetal, criando uma demanda
para eliminação do enxofre, que aproximada de treze bilhões de
provoca a “chuva ácida”. litros por ano. Por isso, já prevê-
Dessa forma, apostando fir- em que o Programa do Biodiesel
me no aumento desse mercado adquirirá, então, uma relevância
no país, a Dedini firmou parceria para o país semelhante a do Pro-
com a empresa italiana Ballestra, álcool, nos anos 1970 e 1980.
em julho de 2004, para fabricação Tal objetivo não é difícil de ser
no país de unidades industriais atingido, principalmente quando
destinadas à produção em larga se observa o uso de biocombustí-
escala de biodiesel, que pode ser vel nos países mais desenvolvidos.

Capitulo6 186 11/4/05, 17:06


A Alemanha, por exemplo, maior produtora mundial, já
possui uma parcela bastante significativa de sua frota de
veículos movida a esse tipo de produto, contando com
uma rede de mais mil postos de abastecimento.

Atualmente, o Brasil consome quase 40 bilhões de


litros de diesel por ano. Desse volume, cerca de seis
bilhões são importados, a um custo de US$ 1,1 bilhão.
Portanto, a utilização de combustível vegetal possibilita a
obtenção de expressivos benefícios econômicos, contri-
buindo para o equilíbrio da balança comercial brasileira e
desenvolvendo, ainda mais, a agroindústria nacional.

Para que o programa brasileiro de biodiesel se


concretize, no entanto, é preciso, ainda, equacionar
o problema do fornecimento de grãos para atender
à demanda de matéria-prima e resolver a questão tri-
butária que onera a cadeia produtiva. Como é feito na
Europa, deve-se adotar uma política fiscal inteligente
para conferir viabilidade à produção de biodiesel.

Mesmo diante do impasse econômico, a Dedini


já começa a atender os interessados na fabricação
de biodiesel. Para a Agropalma, no Pará, forneceu
recentemente a engenharia, e todos os equipamentos
necessários: tanques para matéria-prima e insumos,
reatores, destilador, condensadores, torre e acessórios
para recuperação do metanol, reservatórios de produ-
tos, caldeira de fluido térmico, torres de resfriamento,
instalações elétricas e sistema de automatização.

Inaugurada em abril de 2005, a usina tem capaci-


dade para produzir 8,5 milhões de litros de biodiesel
por ano, a partir de um subproduto da refinaria de
óleo de palma (dendê), denominado borra ácida, que
consiste basicamente de ácidos graxos. O processo é
flexível, pois prevê a utilização como reagente tanto
do álcool como do metanol.
Posto de abastecimento de Os técnicos da Dedini vão ainda mais longe. Na
biodiesel na capital de São Paulo, sua visão, o que se apresenta para o futuro próximo
em outubro de 2005
é a instalação de usinas integradas para produção
simultânea de açúcar, etanol e biodiesel, utilizando a
infra-estrutura disponível em plantas que processam a
cana como matéria-prima (ver boxe p. 194).

Capitulo6 187 11/4/05, 17:06


palavras: a produção de álcool por prejuízo ao ambiente, levando em
hectare pode aumentar de 6 400 consideração a relação de custo
Agropalma no Pará: produzindo
biodiesel a partir de resíduos do para 12 000 litros, ou seja, quase e benefício, economia de vapor e
óleo de dendê duplica, na mesma área cultivada qualidade final do produto.
(ver boxe p. 182). A definição da alternativa
Outro assunto bastante estu- mais adequada – sistema ciclo-
dado pelos profissionais da empresa hexano, destilação extrativa
foram as técnicas para desidratação ou peneira molecular – fica
do álcool. Desde que o uso do por conta dos seus clientes, e,
benzeno foi compulsoriamente sabendo disso, a Dedini passou
“aposentado”, por ser considerado a oferecer, a partir de 2003,
muito poluente, a indústria vem equipamentos de desidratação
analisando diversas possibilidades por ciclohexano otimizados, após
para efetuar essa operação, sem testes em unidade piloto.

188 Dedini 85 anos

Capitulo6 188 11/4/05, 17:06


Dessa forma, foi possível a Petrojam Petroleos Jamaicanos, em
obter um consumo energético Kingston, na Jamaica.
quase nulo de vapor em plantas
industriais já existentes, efetuando
somente a alteração de fluxos e Apostando no biodiesel
refluxos e com o aproveitamento Em janeiro de 2004, a Dedini
da energia utilizada na produção divulgou mais uma vez seu enga-
de álcool hidratado. Em unidades jamento em programas de substi-
novas, o sistema consome pouco tuição ao diesel. Assim ocorreu nos
mais que o da peneira molecular anos 1980, quando lançou o Methax
(cerca de meio quilo de vapor (ver Capítulo V). A partir de então,
por litro de álcool). diversos estudos foram realizados,
Outro processo disponível pois existem várias matérias-primas
para desidratação do álcool anidro que podem ser utilizadas para a
que tem despertado interesse é fabricação do biodiesel, princi-
a destilação extrativa (etileno palmente, os derivados da soja,
glicóis). Esse sistema, desenvolvido algodão, amendoim e dendê. Este
com tecnologia nacional, apre- último, de origem africana, também
senta as vantagens de ter custos conhecido como palma, está sendo
de instalação e operação relativa- utilizado na primeira usina em
mente baixos, além de consumo funcionamento no país. Inaugurada
razoável de vapor. em abril de 2005, com a presença do
A peneira molecular, por sua presidente Lula, a Agropalma, a planta
vez, cujo investimento exigido é industrial foi fornecida em regime
maior do que para instalação da de “chave-na-mão” pela Dedini.
destilação extrativa, é extrema- A usina, instalada em Tailân-
mente vantajoso nas indústrias de dia, a 150 quilômetros de Belém,
grande porte. Como não utiliza pertence ao grupo Faria, atualmen-
produtos químicos, possibilita te, o maior fabricante de óleo de
a produção de álcool anidro de palma da América Latina. O pro-
qualidade, atendendo as exigências duto é usado na indústria alimentí-
do mercado internacional. Em cia. Antes de serem transformados
meados de 2004, a Dedini exportou em combustível vegetal, os resíduos
a primeira planta desidratadora de provenientes da indústria eram
álcool via peneira molecular para aproveitados na fabricação de sabo-

a força de um ideal 189

Capitulo6 189 11/4/05, 17:06


PIRACICABA: RUMO AO FUTURO

Piracicaba em 2005: retomando


o crescimento industrial

No final do milênio, Piracicaba atingiu a população de fabricar um aminoácido utilizado na ração animal, a partir
328.312 habitantes. A seu redor, gravitam onze municípios da cana-de-açúcar.
(Águas de São Pedro, Capivari, Charqueada, Jumirim, O município deixou de ser, entretanto, grande produtor
Mombuca, Rafard, Rio das Pedras, Saltinho, Santa Maria da dessa cultura, apesar da área plantada ter diminuído ao
Serra, São Pedro e Tietê), constituindo uma das microrregiões longo do tempo. A cana continua a ser, no entanto, cadeia
do estado de São Paulo. produtiva muito significativa, pois emprega (em 2005) qua-
Segundo o diagnóstico, elaborado em 2001 pela or- se 4 000 trabalhadores, no campo e na indústria.
ganização não-governamental Piracicaba 2010, todos os Dessa forma, o diversificado parque fabril instalado no
problemas decorrentes do modelo de desenvolvimento município, que conta com empresas de porte e com tecno-
nacional, adotado a partir dos anos 1970, reproduziram-se logia avançada e competitiva, é um de seus principais pon-
em menor escala no município nos anos seguintes, como, tos fortes, vetor do desenvolvimento regional e permanen-
por exemplo, a concentração de terras e de renda, a dimi- te gerador de riquezas, de empregos e de renda, que vem
nuição da produção per capita de alimentos e o êxodo ru- contribuindo cada vez mais para a melhoria da qualidade
ral. A isto, podem ser acrescentados: o aumento do número de vida da sua população.
de favelas e a pressão de demanda sobre a infra-estrutura Nesse contexto, a atual administração municipal está
existente de saúde, educação e transporte. procurando consolidar Piracicaba “como uma cidade com
A cidade possui hoje um perfil agroindustrial, e continua características industriais que constrói fábricas, monta
sendo bastante influenciada pela cultura da cana-de-açú- usinas de açúcar e álcool, em momento que aumenta a
car, que tanto contribuiu para a formação sócio-econômica demanda por combustíveis ecologicamente corretos e
da região. Exemplo recente desse fato é a notícia, em abril crescem as vendas de veículos com combustível flexível”.
de 2005, da instalação de empresa multinacional da Coréia Assim, pensa-se até em instalar um terceiro distrito indus-
do Sul, a Cheil Jedang Corporation, em uma área de cinco trial no setor noroeste do município, para abrigar novos em-
milhões de metros quadrados, no distrito de Ártemis, para preendimentos decorrentes da nova onda de progresso.

Capitulo6 190 11/4/05, 17:07


netes. São ácidos graxos, espécie de Diante dessa possibilidade, o setor
borra, de pouco valor econômico. sucroalcooleiro reagiu positiva-
Para construir a planta de mente, retomando o nível dos
biodiesel, os técnicos da Dedini investimentos em ampliação da
receberam informações sobre o capacidade produtiva, e impulsio-
processo dos docentes da Univer- nando as vendas de equipamentos. Em outubro de
sidade Federal do Rio de Janeiro, Por outro lado, a reação posi- 2005, a Dedini fechou
proprietária da patente, com base tiva do mercado, aliada ao esforço
em testes de laboratório. Coube para operacionalizar as atividades e contrato com o grupo
à equipe da Dedini desenvolver a equacionar os débitos, fez com que Bertin, de Lins (SP), para
concepção, a engenharia (inclusi- o nível de endividamento caísse,
fornecimento da maior
ve o sistema de automação) e efe- em 2003, para R$ 24,3 milhões.
tuar o detalhamento do projeto. Contribuiu para esse resultado, a planta do mundo de
Também executou a montagem alienação de sua participação acio- biodiesel a partir de sebo
da unidade fabril, colocando-a em nária junto à Dedini S.A. Indústria e
marcha (ver boxe p. 186). bovino, com capacidade
Comércio, que controlava as usinas
de açúcar e álcool. de produção de 110 mi-
No final de 2004, a Dedini lhões de litros por ano.
Clima de otimismo
equacionou seus débitos fiscais
Depois de muitos anos de e previdenciários, destinando
dificuldades, a administração 1% de seu faturamento para
da Dedini pôde respirar aliviada, a Receita Federal e 1% para o
com a esperança de realizar bons INSS. Pôde, também, voltar a
negócios. A expectativa criada recolher em dia seus impostos.
em torno do Protocolo de Kioto, Estava, assim, preparada para
que prevê a redução gradativa das retomar seu crescimento,
emissões de gás carbônico (CO2) expandir sua área de atuação
na atmosfera e a ampliação do uso e voltar a investir em recursos
dos combustíveis provenientes humanos, operacionais e, prin-
da biomassa, como o álcool, cipalmente, em novas tecno-
e sua mistura com a gasolina, logias, recuperando as marcas
aumentaram as chances de o Brasil registradas que fazem parte de
tornar-se o maior exportador sua longa história: dinamismo,
de biocombustíveis do mundo. pioneirismo e competência.

a força de um ideal 191

Capitulo6 191 11/4/05, 17:07


As empresas Dedini influenciam
Campus Unimep-Taquaral
a vida da cidade de Piracicaba
Desde o passado, a participação da Dedini no desenvolvimento da ci- Sempre estimulando o
dade foi bastante significativa. Com o apoio de seu fundador, Mario Dedini,
desenvolvimento do município,
e de seus sucessores, foram construídos hospitais, pontes, creches, igrejas,
a Dedini permutou, por uma área
espaços para lazer e esportes. Eis algumas contribuições mais recentes.
de cinco alqueires às margens
do rio Piracicaba, uma gleba de
Copersucar Ceagesp-Piracicaba terras da antiga fazenda Taquaral,
Em 1953, Dovilio Ometto No início da década de 1970, com a Universidade Metodista
coordenou um grupo de Dovilio Ometto resolveu estimu- de Piracicaba (Unimep), onde foi
empresários para criar uma lar o desenvolvimento na zona instalado o novo campus daquela
associação, denominada Coopera- sul da cidade, onde a Dedini era instituição de ensino, inaugurado
tiva Piracicabana de Usinas de Açúcar proprietária de terras: a fazenda em 1972. Ali estudam hoje mais
e Álcool (Copira), para cuidar Taquaral. Dessa forma, doou de 14 000 alunos, em 39 cursos de
dos interesses do setor sucroal- uma área para implantação do graduação, várias especializações
cooleiro, que seis anos depois, entreposto municipal de horti- e sete cursos de pós-graduação.
foi transformada na Cooperativa granjeiros, o Ceagesp-Piracicaba, Shopping Center Piracicaba
Central dos Produtores de Açúcar e de em março de 1983. Atualmente, Em outubro de 1987, a cidade
Álcool do Estado de São Paulo (Coper- existem 130 permissionários ganhou seu primeiro centro de
sucar). Esta, por sua vez, é uma atuando no local, que comercia- compras, o Shopping Center Piracicaba.
das maiores do mundo na sua lizam cerca de 4 600 toneladas de O empreendimento foi erguido
área de abrangência. mercadorias por mês. pela construtora paulista Chap
Chap, em um terreno de 70 000
metros quadrados, às margens
do rio Piracicaba, de propriedade
da Dedini, com o apoio da pre-
feitura municipal. Atualmente,
funcionam no local 140 lojas,

Nesta página, ao lado: aspecto


do Ceasa que abastece Piracicaba
com produtos hortifrutigranjeiros.
Na página seguinte, alunos
do Senai (acima) e crianças em
atividades de esporte e lazer

192 Dedini 85 anos

Capitulo6 192 11/4/05, 17:07


que empregam cerca de 1 500
funcionários. O local é visitado
mensalmente por 600 000 pessoas.
Casas populares

Por volta de 1995, começou


a ser implantado o núcleo habi-
tacional Comendador Mario Dedini,
em terras pertencentes à Dedini na
zona norte da cidade. O empreen-
dimento resultou de uma parceria
com a Prefeitura, por meio da
Centro de Atividades “Mario Mantoni” (Sesi)
Empresa Municipal de Desenvolvi-
mento Habitacional de Piracicaba, Para o Serviço Social da Indústria (Sesi), no bairro Vila Industrial,
que ali implantou a infra-estrutura a Dedini doou uma área de 70 000 metros quadrados para construção
necessária. Em 2005, o índice de do Centro de Atividades “Mário Mantoni”, inaugurado em maio de
ocupação do loteamento é de 70%, 1995. No local, são ministrados cursos de ensino e telecursos, com
onde reside uma população de mais de 700 alunos em vários níveis. São, também, realizadas ativida-
quase 10 000 pessoas. des sócio-culturais, de recreação e esporte.
Senai – Bairro Alto

Desde a sua criação, em 1947,


a unidade do Serviço Nacional de
Aprendizagem Industrial (Senai)
vem recebendo apoio das empre-
sas Dedini. Por isso, leva o nome
do seu patrono, Mario Dedini,
permanente incentivador da
capacitação profissional de jovens
para atuar na indústria piracica-
bana. Atualmente, a escola possui
285 alunos. Muitos deles são
contratados como aprendizes e,
até hoje, encontram seu primeiro
emprego na própria Dedini.

a força de um ideal 193

Capitulo6 193 11/4/05, 17:07


NOVA ONDA DE PROGRESSO NA INDÚSTRIA
CANAVIEIRA: A USINA INTEGRADA

Observando a possibilidade cada vez mais próxima de


alcançar-se uma perfeita integração da fabricação de álcool
com a de biodiesel, os profissionais da Dedini acreditam
que o setor sucroalcooleiro está prestes a ingressar no quin-
to estágio de sua evolução.

As fases anteriores são: aumento da capacidade dos


equipamentos; aumento dos rendimentos; maior aprovei-
tamento da energia da cana-de-açúcar; e maior aprovei-
tamento dos produtos e subprodutos da cana-de-açúcar.
Na quinta fase, a usina deve se transformar em unidade de
produção simultânea de alimentos e energia.

De acordo com essa ótica, a integração oferece várias


vantagens, pois a usina pode oferecer sua capacidade
instalada na indústria e na lavoura, e todos seus recursos
humanos, gerenciais, operacionais, logísticos na integração
econômica, energética e de processos.

Nos dias atuais, grande parte da agroindústria cana-


vieira já produz grãos, principalmente soja, em rotação
com a cana-de-açúcar, pois ela serve para incorporar
nitrogênio no solo e, ao mesmo tempo, contribuem
para que a cana-de-açúcar crie defesas para livrar-se de
pragas e doenças.

Além disso, a usina pode fornecer, ainda, a energia


obtida a partir do bagaço e a outra matéria-prima ne-
cessária para o biodiesel: o álcool. Calcula-se que, para
obter uma tonelada do biocombustível são necessários
130 litros de etanol.

O desafio da Dedini é desenvolver equipamentos para


promover essa integração. Aliás, isso é não é novidade para
a empresa: em 1985, forneceu equipamentos para a Coa-
mo, cooperativa que reúne produtores de soja, em Campo
Mourão (PR). Essa usina, além de fabricar álcool, fornecia
vapor de processo e energia elétrica para movimentar uma
planta vizinha daquela associação, produtora de óleo.

Capitulo6 194 11/4/05, 17:07


Filial Vale do Paranaíba da usina Laginha Agro
Industrial S.A., em Capinópolis (MG)

Os técnicos acreditam que tal integração vai ocorrer No sistema proposto, existe possibilidade do uso do
em três etapas: a primeira, na indústria – o setor agrícola biodiesel na própria frota da unidade de produção – má-
cultiva os grãos, troca por óleo e produz o biodiesel na usi- quinas, caminhões, veículos leves, motores –, possibilitando
na, aproveitando o álcool ali fabricado. Na segunda fase – significativa redução no custo dos combustíveis.
agrícola e industrial –, o óleo já será processado na própria
A Dedini se declara, desde já, disposta a encarar os de-
usina, e não trocado ou comprado de terceiros, utilizando
a energia gerada pelo conjunto. Assim, o biodiesel será safios dessa tarefa de implementar esse novo conceito: o

fabricado de forma mais econômica. Na terceira etapa, a Brasil é imbatível na produção de soja e de cana, e quando

idéia é promover a integração de processos nas cadeias utilizar tal potencial da produção canavieira e de grãos em
produtivas de cana e de grãos. A planta industrial deve sinergia, acredita-se que os resultados serão fantásticos.
aproveitar a sinergia de todas as operações da fabricação Por isso, essa idéia está causando grande interesse e entu-
(ver esquema na página anterior). siasmo no setor sucroalcooleiro.

Capitulo6 195 11/4/05, 17:07


Capitulo7 196 11/4/05, 17:08
CAPÍTULO 7

Conquistando
mercados
“Não é necessário esperar para empreender,
nem ter êxito para perseverar.”
Guilherme de Orange, príncipe
holandês, no século XVII.

A
Dedini ingressou no novo milênio como uma das poucas
remanescentes da indústria nacional de bens de capital sob
encomenda. A empresa suportou, nos últimos vinte e cinco
anos, inúmeros planos econômicos. Conseguiu sobreviver à implanta-
ção de quinze diferentes regulamentações salariais, a dezoito políticas
cambiais, cinco controles de preços e a 21 renegociações da dívida
externa, segundo cálculos de seus diretores.
Essa sobrevivência obstinada a tantas crises não foi por acaso. Den-
tre os fatores que contribuíram para isso, pode-se citar, entre outras,
a diversificação oportuna da sua produção, com a atuação em novos
mercados, como o de alimentos, sucos, bebidas, energia, equipamentos
pesados e tratamento de efluentes, firmando, para tanto, parcerias
tecnológicas com empresas de renome mundial.
Além disso, conseguiu preservar as equipes de engenharia internas,
altamente especializadas, e, ao mesmo tempo, aproveitou a flexibilida-
de da sua capacidade industrial para se ajustar aos diferentes ciclos de
crescimento da economia nacional. Paralelamente, manteve um forte
relacionamento com os clientes, embasado na confiabilidade da marca
dos produtos e serviços Dedini e na imagem de uma empresa responsá-
vel no cumprimento de contratos.

a força de um ideal 197

Capitulo7 197 11/4/05, 17:08


Com o recente conjunto crescimento sustentado, voltan-
de medidas adotado por sua do-se a investir.
administração, as empresas Ao completar 85 anos de exis-
Dedini conseguiram recompor tência, a Dedini S.A. Indústrias de Base,
o capital de giro e salvaguardar que concentra as atividades de
boa parte do patrimônio. Essa fabricação de bens de capital sob
atuação firme e corajosa baseou- encomenda, é a principal empre-
se, especialmente, no princípio sa. Suas atividades estão centradas,
da transparência, estabelecendo basicamente, em quatro focos de
negociações com fornecedores e negócios, incluindo equipamentos
instituições financeiras. Permitiu pesados, de aço inoxidável, de
que se mantivesse a visão para o energia e de açúcar e de álcool.

Principais focos de negócios e áreas de atuação da


Dedini Indústrias de Base S. A. em 2005

FATURAMENTO
PRINCIPAIS ÁREAS DE
SETOR (R$ MIL)
ATUAÇÃO
2004 2005 (*)

Usinas de açúcar e de
Açúcar e álcool (**) álcool; fornecimento de 214 708 324 000
peças de reposição
Equipamentos de
Cervejaria, tratamento de
aço inoxidável e 142 663 179 000
efluentes, biodiesel (***)
sistemas
Siderurgia, energia,
Equipamentos
petroquímica, mineração 54 921 124 000
pesados
e fundidos
Plantas de co-geração,
Energia 38 916 70 000
caldeiras
Total 451 208 697 000

(*) Previsão

(**) Inclui o Sistema Reposição Garantida Dedini (RGD).

(***) Nesses setores atua com tecnologia própria e, também, com licença de fabricação; nos demais

(indústrias de alimentos, bebidas, sucos, química, papel e celulose, fertilizantes, estruturas

metálicas, automotiva e tampos industriais) projeta e fabrica com base em informações de

clientes, ou tecnologia licenciada.

198 Dedini 85 anos

Capitulo7 198 11/4/05, 17:08


Além de liderar o mercado Reposição Garantida Dedini
de bens para o setor sucroalcoo- (RGD) fornece peças e compo-
leiro (inclusive de co-geração de nentes de reposição, executa
energia), cervejaria e tratamento reformas, otimizações e presta
de efluentes industriais, a em- serviços permanentes de enge-
presa é importante fornecedora nharia e assistência técnica. Missão
para a indústria de sucos, es- Para ter idéia da importância Dentro da sua visão de
truturas metálicas, siderurgia, da Dedini nesse mercado, basta
fertilizantes e controle ambien- dizer que, até 2004, já vendera procurar ser, antes de tudo,
tal. Está capacitada a fornecer, mais de 730 destilarias e mais de uma empresa de excelência,
também, produtos para as uma centena de usinas de álcool
indústrias de papel e celulose, a Dedini tem como missão:
completas, fornecidas em regime
cimento, mineração, hidrome- de ”chave-na-mão”, que pro- “desenvolver, produzir e
cânica, química, petroquímica, duzem cerca de doze bilhões de comercializar bens de capital
farmacêutica, metalúrgica, de litros de etanol por ano, o equi-
petróleo, gás e automotivo. sob encomenda e serviços,
valente a 80% do total fabricado
Fabrica peças fundidas, equipa- no país, atualmente. No exterior, com tecnologia, qualidade
mentos para energia térmica e 23 plantas industriais completas e condições adequadas às
tampos industriais. Efetua, ainda, levam a marca da empresa.
serviços de engenharia, executa necessidades dos clientes,
montagens e oferece assistência visando assegurar e ampliar
permanente a seus clientes. Novos lançamentos
a participação no mercado
Sempre atenta às necessida-
global, proporcionando
Açúcar e álcool des dos clientes do setor sucroal-
cooleiro, a Dedini lançou em 2004, retorno aos acionistas e
O principal foco de negócios através do sistema de Reposição
promovendo o desenvolvi-
da Dedini sempre foi o atendimen- Garantida Dedini, algumas
to ao setor sucroalcooleiro. Nessa inovações que contribuíram mento sustentável”.
área, produz usinas completas para melhorar a performance
de açúcar e de álcool, além de das usinas de açúcar e álcool. As
equipamentos para recepção moendas foram otimizadas, pos-
e preparo da cana-de-açúcar; sibilitando um aumento de 20%
extração e tratamento do caldo; na capacidade de processamento.
estocagem de produtos e geração Além disso, uma nova concepção
de energia. Por meio do sistema de seu acionamento propor-

a força de um ideal 199

Capitulo7 199 11/4/05, 17:08


cionou dobrar a potência, sem Caldeiras para biomassa
modificações no layout original. A
As caldeiras são um capítulo
placa desfibradora, também, teve
à parte na produção da Dedini.
seu ângulo modificado, melho-
Além de ser a mais tradicional
rando a operação de preparo da
fabricante nacional no setor
cana-de-açúcar.
sucroalcooleiro, possui o maior
Outra tecnologia revolucio- número de unidades instaladas
nária em termos de refinação nas indústrias, bem superior
do açúcar foi apresentada em aos demais concorrentes. Com
2005, durante o Terceiro Sim- grande experiência e forte
pósio Internacional e Mostra presença no mercado, a empresa
de Tecnologia da Agroindústria possui parque fabril dotado de
Em agosto de Sucroalcooleira (Simtec), em excelentes qualificações técnicas,
2005, a Dedini fechou Piracicaba, com lançamento que dispõe de certificação de
comercial previsto para o ano qualidade (selo da American Society
contrato para fornecimento
seguinte. Trata-se do sistema of Mechanical Engineers, ASME e ISO
da maior destilaria de álcool Dedini Refinado Direto (DRD), 9000, versão 2000).
que consiste na produção de A linha atual compreende
hidratado do mundo, a partir
açúcar sem a necessidade de seu variados tipos para atender
do caldo de cana-de-açúcar, posterior deslocamento para diferentes capacidades de geração
com capacidade de produzir a refinaria. Além de garantir e pressões de operação. Podem
maior qualidade, o novo proces- ser verticais e com um só passe de
700 000 litros de álcool por
so reduz os custos de produção gases, com queima sobre grelha
dia. A planta, com tecnologia quase pela metade. (linha AZ), ou sustentadas em
Destiltech, será instalada na O projeto, desenvolvido estruturas metálicas, com quei-
durante dois anos, atualmente, ma predominante em suspensão
usina Volta Grande, em Minas
está, em fase de testes. Quando (linha AT). A linha Cogemax é
Gerais, e deve entrar em for implantado em larga especialmente projetada para
operação em 2006. escala, poderá dar às usinas operação de plantas de co-gera-
uma importante possibilidade ção com queima suplementar.
de escolha e de barganha: a Nesse segmento de caldeiras
fabricação de açúcar bruto que consomem biomassa, a Dedini
ou refinado, de acordo com atua com sua própria tecnologia,
as variações do mercado e do fruto da experiência consolidada
andamento de negociações. pelo fornecimento de mais de

200 Dedini 85 anos

Capitulo7 200 11/4/05, 17:08


1 400 caldeiras, no Brasil e no atividade em todo o país, que
exterior, nos seus 85 anos de entram em operação em dois
existência. Antecipando a futura períodos distintos: entre setem-
demanda por produtos de maior bro e março, no Norte-Nordeste,
volume e pressão, motivada pela e entre abril e novembro, no
geração de maiores excedentes de Centro-Sul. Com o passar
energia, a empresa está preparan- do tempo, a maioria passou a
do o lançamento de uma linha produzir, ao mesmo tempo,
de caldeiras do tipo single drum, álcool anidro e hidratado, além
que podem suportar pressões de açúcar, montando sistemas de
superiores a 80 kg/cm2, e com grande flexibilidade.
capacidades superiores a 250 to- Em 2005, o setor canavieiro
neladas de vapor por hora. vive um bom momento; a
maioria das usinas possui projetos
de ampliação e estão previstos,
Bom momento nos próximos anos, investimentos
O mercado sucroalcooleiro, significativos na instalação de
no qual a Dedini é tradicional- quase cinqüenta novas plantas
mente líder em fornecimento de no país. O objetivo é aumentar a
produtos e serviços, é composto capacidade de fabricação de álcool,
por mais de 300 indústrias em atualmente, no limite máximo.

a força de um ideal 201

Capitulo7 201 11/4/05, 17:08


de liderança assegurada, devido
às condições extremamente fa-
voráveis de solo, clima, topogra-
fia, da disponibilidade de áreas
agricultáveis em seu território, e
do domínio completo da tecno-
logia. Mesmo diante da projeção
de crescimento vegetativo da
produção mundial, estimado
em 2,5% ao ano, são processadas,
atualmente, mais de 180 milhões
de toneladas de cana para
fabricação de açúcar.
Além disso, com a recente
decisão da Organização Mundial
do Comércio (OMC) de reduzir
os subsídios concedidos aos
produtores de açúcar da União
Européia, espera-se uma queda
no volume da oferta naquele
continente. Acredita-se que o
Brasil tem grandes chances de
Os especialistas acreditam suprir o mercado europeu, por
que essa expansão, no entanto, possuir o menor custo de pro-
Caldeira Dedini instalada na
usina Coinbra Cresciumal S. A., será insuficiente para atender às dução do mundo.
em Leme (SP) projeções da demanda interna e de Nessa área, a Dedini fechou,
exportações, diante do sucesso das recentemente, importantes
vendas nacionais de veículos com negócios: além de vender a
combustível flexível e das elevações maior usina de álcool hidratado
sucessivas nas cotações do petró- do mundo, para o grupo Caeté
leo, que fazem crescer, em todo (MG), assinou contrato com a
o mundo, a procura por outras empresa norte-americana U.S.
fontes alternativas de energia. Sugar Corporation para fornecer
Por outro lado, com relação o maior conjunto de moendas
ao açúcar, o Brasil tem posição (tandem) do mundo, com ca-

202 Dedini 85 anos

Capitulo7 202 11/4/05, 17:08


pacidade de moagem de 28 000 Petróleo e gás
toneladas de cana por dia. No caso do petróleo, o
Brasil deu um grande salto na
Equipamentos pesados exploração marítima em águas
profundas e hoje produz 90% do
Ao longo do tempo, a Dedini que consome, cerca de 1,6 milhão
vem abastecendo com equipa- de barris por dia. Esta é uma
mentos de grande porte alguns atividade em expansão: a Petrobras
dos setores mais expressivos da sinaliza com o crescimento de
economia nacional, tais como 8% ao ano da produção nacional.
as indústrias de petróleo, de gás, Para tanto, aquela companhia
petroquímica, mineração, side- planeja grandes investimentos
rurgia e hidrogeração. Atende, globais, no Brasil e no exterior.
também, a produção de peças Tais recursos serão aplicados em
fundidas para terceiros. várias áreas, desde a exploração
Até 1990, a participação nesses e produção, até transportes,
segmentos era bastante expres- passando pelas refinarias.
siva, mas, ao longo do tempo, A iniciativa implica na aqui-
diminuiu. Por volta de 2001, os sição de variados equipamentos,
negócios estavam concentrados tais como vasos, torres, tanques
na unidade de Sertãozinho, que e trocadores de calor. Como há,
contava, apenas, com 200 funcio- ainda, muitos itens importados, a
nários. Havia muitos problemas Petrobras vem incentivando, desde
na execução dos contratos. 2002, o aumento da participação
A partir dessa época, o da indústria brasileira em seus
setor começou a se recuperar, programas de desenvolvimento,
principalmente, com a expansão trabalhando em conjunto com as
dos investimentos no país em entidades de classe, e procurando
siderurgia, petroquímica, co- que, pelo menos, 60% do maqui-
geração e energia termoelétrica. nário necessário seja adquirido
A preocupação passou a ser a no mercado nacional.
reativação da carteira dos clien- Além disso, a Petrobras opera
tes. Nos dias atuais, os negócios hoje onze refinarias; algumas
estão bem ativos em diversas possuem vários equipamentos
áreas desse mercado. instalados há mais de trinta

a força de um ideal 203

Capitulo7 203 11/4/05, 17:09


anos, portanto, em fase final de no entanto, com a realização dos
sua vida útil. Assim, existe um novos investimentos, aumentar a
mercado potencial para repo- presença nessa área, melhorando
sição que começa a apresentar as condições de competitividade
demanda crescente. e diversificando a linha de pro-
A estatal também trabalha dutos. O setor em que se espera
com expectativa de crescimento maior expansão é o petroquími-
na demanda de gás natural, o que co, onde a empresa possui maior
exigirá grandes investimentos tradição de atuação.
para dar maior segurança ao
sistema e atender a um número
Geração hidrelétrica
maior de usuários. Nessa área,
a Dedini espera também realizar Hoje, a capacidade instalada
bons negócios. de geração do sistema interligado
Outro setor que apresenta nacional (considerando a metade
boas perspectivas de cresci- brasileira de Itaipu), situa-se
mento é o petroquímico. Essa em 72 843 MW. A distribuição
indústria está apostando na por fonte de geração é: usinas
revitalização da economia e hidráulicas, com 87,6%, térmicas
deve ter sua rentabilidade im- convencionais, com 9,6%, e
pulsionada, pois a demanda por nucleares, com 2,8%.
tais produtos está diretamente Com a definição do Pro-
relacionada com o crescimento grama de Incentivo às Fontes
do Produto Interno Bruto Alternativas de Energia (Proinfa),
(PIB). Caso essa recuperação se que liberou, em março de 2004,
confirme, haverá necessidade a instalação de mais 3 300 MW,
de novos empreendimentos e observa-se a retomada dos
ampliação dos existentes. projetos de expansão, em grande
Para a indústria de petró- parte, pelas usinas hidrelétricas.
leo, de gás e petroquímica, a De acordo com as concessões já
Dedini vem fornecendo, prin- outorgadas, a geração de energia
cipalmente, vasos de pressão, hídrica deverá crescer 29 000 MW,
reatores, torres de resfriamento, até 2010. Esta situação implicará
trocadores de calor e tanques de no aumento de investimentos na
armazenamento. Pretende-se, capacidade instalada.

204 Dedini 85 anos

Capitulo7 204 11/4/05, 17:09


redução de custos e economia de
tempo. Dessa forma, tornou-se
conhecida na indústria auto-
mobilística, fechando contratos
para fornecer 2 500 toneladas de
peças por ano. São bases, anéis,
punções e outros componentes,
utilizados em estampagem e
laterais, portas, capôs e outros
itens dos veículos.

Mineração
O minério de ferro é, hoje,
o mais extraído no mundo. O
Brasil lidera essa produção:
em 2002, gerou 240 milhões de
A Dedini pode contribuir toneladas, das quais 170 mi-
para o fornecimento de equi- lhões foram exportadas. Esse
Teste de qualidade em
equipamento para hidrelétrica pamentos para atender essa mercado vem apresentando,
fabricado pela Dedini demanda (diversos tipos de nos últimos anos, excelentes
comportas, grades, caixas espi- taxas de crescimento, até
rais, pré-distribuidores e partes acima de 10% ao ano, por
de turbinas hidráulicas e de causa da maior demanda pelo
hidrogeradores), cujo mercado aço. A grande consumidora é
estava estimado em cerca de a indústria siderúrgica, princi-
R$ 1,1 bilhão (em 2004). palmente a da China que, nos
dias atuais, tem liderado os
investimentos nesse setor.
Indústria automobilística Em decorrência, os preços
A partir de 2004, a Dedini do minério de ferro subiram,
dominou e aprimorou a tecno- estimulando os produtores a
logia para fornecimento de peças efetuarem novos investimentos.
fundidas no processo full mold, Por isso, as grandes empresas que
que permite alta produtividade, atuam no setor, como a Companhia

a força de um ideal 205

Capitulo7 205 11/4/05, 17:09


Vale do Rio Doce (CVRD), MBR e lingotamento contínuo, fornos
Samarco, de Minas Gerais, estão de calcinação, equipamentos
planejando um aumento de de movimentação e portas para
suas atividades para os próximos coquerias, entre outros.
anos, não só na extração de ferro, Com a retomada das
mas em outros minerais, como oportunidades comerciais nesse
o cobre e o alumínio, também segmento, concretizadas a partir
bastante procurados. de 2004, bem como o aumento de
Para atender a esses investi- produtividade e a atualização dos
mentos, a Dedini pode fornecer equipamentos decorrentes dos
vários itens, como britadores, investimentos previstos, estima-
moinhos, fornos e peneiras. A se que a participação da empresa
maior competitividade da empre- seja bem expressiva.
sa fica por conta dos equipamen- Para tanto, já vem man-
tos de maior porte, destinados à tendo entendimentos com
moagem e à britagem. os principais detentores de
tecnologia, como a SMS, Voest
Alpine e um grupo de empresas
Siderurgia japonesas (Hitachi Metals Ltd.,
O crescimento da produção Sumitomo Heavy Industries Ltd.,
mundial de aço bruto continua Kawasaki Heavy Industries Ltd.,
em ritmo acelerado e o Brasil está denominado JP Steel Plantech
inserido nesse mercado como o Company (SPCO). Na área de
maior fornecedor da América do coqueria, possui licenciamento
Sul, seguido pela Argentina. A da SHI (equipamentos de mo-
expectativa é que a produção na- vimentação) e YTT (portas).
cional de aço cresça cerca de 20%
entre 2004 e 2010, exigindo novos
investimentos, com expansão de Contrato recorde
usinas existentes e implantação Em 2005, a Dedini assumiu a
de novas unidades. liderança do consórcio interna-
Para esse setor, a Dedini cional para ampliação de uma
fabrica sistemas de lavagem unidade da aciaria da Companhia
e de recuperação de gases, Siderúrgica de Tubarão (CST), em
convertedores, máquinas de Vitória (ES). O contrato, no

206 Dedini 85 anos

Capitulo7 206 11/4/05, 17:09


valor de R$ 250 milhões, prevê o Este mercado apresentou
fornecimento de equipamentos uma boa expansão conjuntural
para o setor de lingotamento em 2001, influenciado pela crise
contínuo. A encomenda é um da energia elétrica, voltando
desafio para a fábrica, que há 25 depois à normalidade. Espera-se
anos não fazia algo no gênero. que, em médio e longo prazo,
O conjunto sairá praticamente no entanto, com o aumento
montado, para facilitar a instala- do uso do gás natural, retome
ção no local definitivo. o crescimento, pois as plantas
de co-geração elétrica e de
gás natural representam uma
Consumidoras de vapor boa alternativa para certas
Dentro do foco de negócio indústrias que não dispõem de
da energia, um produto impor- resíduos combustíveis suficien-
tante oferecido pela Dedini são as tes para suprir suas demandas
caldeiras industriais, adquiridas de vapor e eletricidade.
pelas grandes consumidoras de A Dedini atua de forma ampla
vapor, tais como as indústrias e flexível nesse mercado. Com
de alumínio, energia elétrica, tecnologia própria, a empresa
papel e celulose, química, petro- fornece caldeiras convencionais
química, siderúrgica, alimentos, de médio porte para queima de
petróleo e gás. As melhores gás natural, óleo combustível e
oportunidades de negócio estão biomassa florestal. Em parceria
nos seis primeiros segmentos. com fornecedores brasileiros, co-
Até 2010, calcula-se que a mercializa caldeiras de pequeno
maior parte das vendas para esses e médio portes para recuperação
setores se destine a ampliações de de calor e de gases em indústrias
plantas já existentes e a instalações químicas e de gases de exaustão
de novas unidades. No futuro de turbinas a gás em termelétri-
próximo, prevê-se, também, a cas do tipo heat and power.
substituição de equipamentos Possui, também, licença de
antigos, desgastados ou obsoletos, detentores internacionais de tec-
por outros mais modernos, para nologia para fabricação de caldei-
atender às exigências da legislação ras especiais, de médio e grande
ambiental, cada vez mais rigorosa. portes, para queima de carvão,

a força de um ideal 207

Capitulo7 207 11/4/05, 17:09


oil-emulsion, óleo combustível, e Fontes Alternativas de Energia
biomassa florestal. Produz, ainda, (Proinfa), a geração de energia
Detalhe da unidade fabril de
Sertãozinho (SP), em 2005 caldeiras para combustíveis eólica é uma alternativa recente
especiais e para recuperação de no Brasil, com maior potencial
calor em plantas de co-geração e de expansão, basicamente, em
ciclos combinados. Finalmente, três pólos: no Nordeste, na
pode efetuar otimizações e região de Cabo Frio (RJ) e no
reformas de produtos próprios Rio Grande do Sul, próximo a
ou de terceiros. Porto Alegre. Assim, atualmen-
te, algumas empresas estran-
geiras se instalaram no Brasil
Energia dos ventos com a idéia de comercializá-la,
Bastante incentivada pelo colocando-a na rede de trans-
Programa de Incentivo às missão de energia elétrica.

208 Dedini 85 anos

Capitulo7 208 11/4/05, 17:09


A Dedini está sendo procurada Dessa forma, pode atender
por esses grupos internacionais aos mais diversos ramos indus-
para estabelecer parcerias, devido triais: cervejaria, tratamento de
à sua capacidade de fabricar as efluentes, biodiesel, alimentos,
torres, que apresentam até cem bebidas, sucos, química, papel e
metros de altura e, também, às celulose, fertilizantes, estruturas
peças de ferro fundido para su- metálicas, automotiva e tampos
porte das pás, colocadas na parte industriais. Nos três primeiros,
superior. O mercado foi dimen- atua com tecnologia própria, nos
sionado para o fornecimento de demais, a empresa desenvolve
cerca de 2 000 torres, até 2007. a engenharia e se encarrega da
fabricação, a partir de projeto
básico fornecido pelo cliente.
Material imbatível Hoje, esse foco de negócio,
O aço inoxidável participa, isoladamente, representa, na
cada vez mais, da vida das indús- empresa, cerca de 30% a 35%, em
trias de todo mundo, por permi- termos de vendas e de produção.
tir grande flexibilidade no uso e Nesse mercado, um forneci-
devido às inúmeras qualidades: mento significativo ocorreu em
é durável, resistente, bonito e julho de 2004. O Departamento
limpo. Novos tipos estão sur- Municipal de Águas e Esgoto de
gindo, possibilitando aplicações, Poços de Caldas (MG), colocou
até então, impensadas, como, em operação a primeira unidade
por exemplo, em revestimentos do mundo para tratamento
externos de prédios e paredes de de esgotos domésticos com
estações metroviárias. o reator Ubox, fabricada pela
A Dedini possui amplo Dedini. A planta, que contempla
domínio no processamento o sistema aeróbio e anaeróbio
desse material, compreendendo em um mesmo tanque, objetiva
a recepção da matéria-prima, a descontaminação das águas
passando por seu manuseio e de uma represa e servirá a uma
por todas as etapas da fabricação, população de 10 000 pessoas,
empregando as técnicas mais aproximadamente. Acredita-se
modernas disponíveis em dobra- que sistemas semelhantes possam
mento, corte e soldagem. ser instalados, também, em várias

a força de um ideal 209

Capitulo7 209 11/4/05, 17:09


Cervejaria Lokal, em
Teresópolis (RJ)

Capitulo7 210 11/4/05, 17:09


outras cidades do Brasil, pois são Em maio de 2005, havia várias
compactos e flexíveis. encomendas em andamento:
uma sala de cozimento para a
Cia. Ambev, na República Domi-
Constante expansão nicana, e outra para a Lokalbier,
Com a crise do Proálcool, em Teresópolis (RJ). Estava fa-
a partir de 1985, a Codistil, uma bricando tanques fermentadores
das empresas Dedini, começou para a Cervejaria Petrópolis (Boituva,
a buscar novos mercados para SP) e três plantas completas: uma
ocupar seu parque fabril já para IBI, em Igaraçu (PE), outra
instalado. O foco centralizou- para Coroa, em Domingos Martins
se, em primeiro lugar, nas (ES), e a terceira para Schincariol,
cervejarias, que apresentavam, em Três Lagoas (MS).
então, grande potencial de Para melhor atender as
expansão. O período áureo de demandas de mercado, a Dedini
fornecimento ocorreu entre possui licenças tecnológicas de
1991 e 1995, quando essas in- duas conceituadas empresas,
dústrias expandiram bastante a alemã Huppmann (desde 1991)
sua produção, exigindo novos e a suíça Filtrox (desde 1995). A
equipamentos e plantas. primeira possibilita o forneci-
Nos anos seguintes, a Dedini mento de unidades completas
tornou-se altamente capacitada do tipo chave-na-mão (turn
para atender as necessidades key), e a segunda fornece
de crescimento da indústria tecnologia para filtração e
cervejeira, tanto em unidades estabilização da cerveja.
completas (turn key), como em Buscando sempre maior
equipamentos isolados, como aprimoramento nessa área de
cozedores, reatores, fermenta- bebidas, a Dedini foi buscar na
dores, reservatórios e tanques, Holanda uma moderna tecno-
silos, roscas transportadoras etc. logia na fabricação de tanques
Atualmente, a empresa é líder cilíndricos verticais de aço inoxi-
nacional, possuindo uma fatia de dável para armazenar líquidos.
mais de 60% desse mercado, hoje Adaptada às condições brasileiras,
bastante aquecido, inclusive, com associa mesa rotativa, sistema
vendas para o exterior. de soldagem de serpentinas no

a força de um ideal 211

Capitulo7 211 11/4/05, 17:09


costado, e pórtico, permitindo em 2002, cada um deles com
sua verticalização. Além disso, capacidade para armazenar mais
dispensa o uso de guindastes para de 3,7 milhões de litros de suco.
movimentação na montagem.
Atualmente, existe uma
Tanques cilíndricos
equipe de dez engenheiros para
verticais
atender somente esse segmento,
que apresenta grande potencial A Dedini vive sempre em
de vendas. A produção brasileira busca de inovações. Por isso,
gira, hoje, em torno de 8,5 bi- em janeiro de 2004, trouxe da
lhões de litros de cerveja e doze empresa holandesa Oostwalder
bilhões de litros de refrigerantes (OTS) a tecnologia de fabricação
por ano. A cerveja é feita em dos tanques cilíndricos verticais,
47 fábricas, que geram 150 000 construídos tanto em aço ino-
empregos diretos e indiretos. xidável como em aço carbono,
A AmBev lidera as vendas dessa em que a solda das virolas é
bebida, com quase 70% do mer- realizada em um ponto fixo.
cado. Quanto aos refrigerantes, Para que isso aconteça, o tanque
os mais vendidos são os de sabor precisa rotacionar. Dessa forma,
cola (46%) e guaraná (27%). A o produto obtido é de qualidade
Coca-Cola detém 77,5% do mer- superior e sua instalação se torna
cado de refrigerantes com sabor 40% mais rápida, comparado com
cola (seguida pela Pepsi). a dos processos tradicionais, pois
A categoria da bebidas não- reduz-se a movimentação duran-
carbonatadas (sem gás) também te a montagem.
vem apresentando crescimento, Tais tanques são muito
tanto no Brasil como no exterior, utilizados para armazenagem de
tais como sucos de fruta, águas e sucos de laranja (tanks farms) e são
chás, por causa da maior procura construídos em várias dimensões.
por bebidas saudáveis e nutritivas. Para a unidade da Cutrale, em
A Dedini espera expandir sua Conchal (SP), a Dedini fabricou
atuação nessa área. Recentemen- oito deles, em tempo recorde.
te, foi efetuado um fornecimento Esses produtos servem, também,
importante: a venda de 36 tanques para estocar aguardente. A Caninha
de aço inoxidável para a Citrosuco, 51, por exemplo, adquiriu várias

212 Dedini 85 anos

Capitulo7 212 11/4/05, 17:09


unidades, com capacidade de três
milhões de litros cada, para sua
fábrica em Pirassununga (SP).

Indústria química
A abertura do Brasil ao
comércio internacional e à inte-
gração do Mercosul, levaram o
setor químico a apresentar uma
tendência de substituição de fábri-
cas polivalentes de especialidades
químicas, com até quatrocentos
diferentes produtos em linha,
por estruturas mais enxutas e
especializadas, que passaram a
atuar somente em determinados
segmentos onde detém a tecno-
logia. Hoje, a tendência geral é
produzir, por encomenda, um
número menor de produtos, mas
com maior valor agregado e em
maiores volumes.
A administração da Dedini
acredita que a empresa possui
grande potencial para aumentar
sua atuação no segmento químico,
fornecendo equipamentos em aço
inoxidável e carbono, reatores, va-
sos de pressão, trocadores de calor,
e outros equipamentos especiais
sob encomenda. Para tanto, inves-
tiu na produção, de acordo com as
Tanques em aço inoxidável
mais modernas tendências tecno-
na unidade de Piracicaba
lógicas, introduzindo inovações

a força de um ideal 213

Capitulo7 213 11/4/05, 17:09


como corte a plasma, soldagem jornal) é o único que ainda depen-
orbital e no uso de ligas dúplex no de, em parte, de importações.
processo, entre outras. Em condições normais, o
Dessa forma, pôde vender, consumo geral de papel é um
em 2004, uma torre de processa- dos melhores indicadores para a
mento contínuo para secagem, avaliação do desempenho da eco-
destinada à fábrica de sabão em nomia. E, no caso brasileiro, desde
pó da Unilever do Brasil, situada em o início da década de 1990 até hoje,
Indaiatuba (SP). A encomenda, as fábricas do setor apresentam
com nove metros de diâmetro e índices de ocupação acima de 80%.
cinqüenta metros de altura, foi Os investimentos anunciados são
fabricada e instalada no prazo voltados, principalmente, para
recorde de seis meses. produção da celulose.
A participação da Dedini no
setor de papel e celulose é bastan-
Auto-suficiência
te estimulada pela capacidade de
Desde a década de 1970, o produção e pelo excelente nível
Brasil passou da condição de de qualidade. Engloba sistemas de
importador de papel e celulose evaporação, vasos de pressão, tor-
para um dos maiores produtores res, colunas, reatores, trocadores
do mundo. A indústria nacional de calor, digestores, tanques e
passou a atender a demanda para reservatórios, entre outros.
Equipamento Dedini destinado à
produção de fertilizantes
os diversos tipos de papéis, e hoje,
aquele destinado à imprensa (papel
Fertilizantes
A produção nacional de
fertilizantes é quase totalmente

Capitulo7 214 11/4/05, 17:09


destinada ao abastecimento do sistemas de dosagem e pesagem,
mercado interno. O consumo resfriadores rotativos, fornos de
anual gira hoje em torno de sete transferência e sistemas transpor-
milhões de toneladas de NPK tadores, entre outros.
(nitrogênio, fósforo e potássio), Nessa área, atualmente, a
sendo que mais de metade ainda Dedini está fabricando tambores
é importada. Para aumentar a rotativos e secador granulador
competitividade, ganhar escala para a planta da Ultrafertil, em
e reduzir custos, o caminho Indaiatuba (SP), com entrega
encontrado pelo setor, recen- prevista para 2005.
temente, foi realizar fusões,
aquisições e associações.
Inovações tecnológicas
O processo de concen-
tração, caracterizado pela Graças ao empenho de seus
expansão ou entrada de grandes colaboradores, as empresas Dedini
grupos multinacionais na área, geraram, ao longo do tempo,
veio acompanhado por novos treze invenções, que resultaram
investimentos. As indústrias na concessão de doze registros
que produzem matérias-primas de patentes, nas diversas áreas
básicas e fertilizantes estão de atuação. Há, ainda, mais
melhorando o processo produ- uma dezena de processos em
tivo, ampliando a capacidade andamento, com solicitações já
instalada, e aperfeiçoando a depositadas no Brasil e em vários
logística da distribuição. países do exterior.
Com tecnologia de ponta Somente no período de
desenvolvida em parceria com 2003-2004, as empresas Dedini
seus clientes, ou trabalhando investiram aproximadamente
sob licença de empresas espe- R$ 70 milhões, equivalentes a
cializadas, a Dedini detém cerca US$ 25 milhões, procurando
de 10% desse mercado e pode manter a capacidade produtiva
fornecer projetos completos para instalada. Além disso, confirman-
a indústria de fertilizantes, além do seu histórico de pioneirismo e
de diversos equipamentos, como liderança tecnológica, continuam
misturadores, secadores rota- aperfeiçoando e lançando cons-
tivos, silos de armazenamento, tantemente novos produtos.

a força de um ideal 215

Capitulo7 215 11/4/05, 17:10


CAPÍTULO 8

A Dedini no
terceiro milênio
“Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que
o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas
tantos sonhos se realizaram que não temos
o direito de duvidar de nenhum.”
Monteiro Lobato (1882-1948), escritor paulista.

A
estabilização das principais variáveis macroeconômicas, a
redução das taxas de juros, a retomada dos créditos interno
e externo e a redução do “risco” Brasil, que passou a atrair
os desconfiados empreendedores estrangeiros, foram aspectos deter-
minantes para a retomada dos investimentos da iniciativa privada,
nos primeiros anos de 2000.
Acreditando nas possibilidades do futuro, a Dedini se comprometeu
com o crescimento e preparou um plano em longo prazo, que previa
aplicação de recursos da ordem de R$ 270 milhões em expansão indus-
trial, modernização tecnológica, incremento às exportações, conserva-
ção do ambiente e inclusão social.
Com a implementação desse projeto, a Dedini pretendia, de acordo
com as expectativas e projeções daquela época, atingir, em 2008, um
faturamento bruto anual próximo a US$ 400 milhões, exportando
cerca de 20% a 40% de sua produção e mantendo importantes posições
de mercado nos seus quatro focos de atuação: equipamentos pesados,
de açúcar e álcool, de aço inoxidável, e de energia.
Dessa forma, em julho de 2004, a empresa encaminhou carta-
consulta ao BNDES, visando a obtenção de parte dos recursos para

216 Dedini 85 anos

Capitulo8 216 11/4/05, 17:10


Capitulo8 217 11/4/05, 17:10
viabilização de seu projeto. Para investimentos, calculados em
tanto, em uma primeira etapa, cerca de R$ 90 milhões, para
pretendia financiar, junto àquele dar seqüência à proposta de
órgão governamental, cerca de atender, de forma satisfatória,
R$ 130 milhões, em dez anos. O ao crescimento do setor su-
restante dos recursos necessários croalcooleiro, em função das
seria obtido com o lançamento possibilidades efetivas de expor-
de R$ 100 milhões em debêntu- tação do álcool, principalmente
res. Os recursos seriam empre- para o Japão e países europeus.
gados para atender às exigências Nesse caso, o Brasil coloca-se
do mercado, canalizados, com excelentes possibilidades
basicamente, para a moderni- de atender esse mercado. Tal
zação de equipamentos, para o atuação depende, no entanto,
desenvolvimento tecnológico de da assinatura de acordos gover-
processos e para a expansão da namentais com os países signa-
capacidade produtiva. tários do Protocolo de Kioto.
Na segunda fase do pro- Após o equacionamento
jeto, estavam previstos mais dos seus débitos fiscais, a Dedini

Evolução do faturamento bruto em bens de capital das


empresas Dedini*

(*) valores históricos em R$ mil

(**) previsão

218 Dedini 85 anos

Capitulo8 218 11/4/05, 17:10


precisou, novamente, efetuar ao parque fabril, visando sua
reformulações no seu planeja- modernização e adequação aos
mento estratégico. Em conso- novos tempos de expansão.
nância com essas modificações,
deverá apresentar, brevemente,
um novo projeto de investi- Aniversário feliz
mentos ao BNDES. Deixando as dificuldades no
No documento, foram revis- passado, a Dedini passou a encarar
tas as previsões de faturamento o futuro com maior confiança e
até o final da década, superadas otimismo, principalmente por
antes do tempo, devido à melho- causa da melhoria do cenário
ra da conjuntura econômica e ao político e econômico, mais
aumento das vendas no setor de favorável à realização de negó-
bens de capital sob encomenda. cios. Por isso, ao completar 85
Como no plano anterior, grande anos de existência, não faltavam
parte do financiamento se destina motivos para as comemorações.

Evolução dos investimentos* efetuados pelas empresas


Dedini** (1999 – 2005)

(*) valores históricos em R$ mil


(**) investimentos efetuados em manutenção de capacidade e treinamento de pessoal; tecnologia;
desenvolvimento; produtividade; nova Fundição; sistema Oracle.

a força de um ideal 219

Capitulo8 219 11/4/05, 17:10


Suas fábricas funcionavam em denominado “grande projeto
plena capacidade e as vendas Dedini”, pretende aumentar a
Sede das empresas Dedini em
ultrapassaram as previsões mais receita líquida e criar centros Piracicaba (SP), em 2005
otimistas. Nos últimos dois anos, de excelência de desempenho
seu faturamento praticamente em todas atividades, imple-
dobrou. Acredita-se que, nesse mentando ações estratégicas e
ritmo, o valor previsto de um projetos de inovação e melhoria
bilhão de reais para 2010 talvez contínua. Assim, as empresas
seja atingido até 2008. Dedini pretendem expandir sua
A nova estratégia para atuação no mercado global e
o primeiro decênio de 2000, aumentar sua competitividade.

220 Dedini 85 anos

Capitulo8 220 11/4/05, 17:10


Para tanto, utiliza modernas
ferramentas e métodos de
gestão, com eficiência reconhe-
cidamente comprovada.

Em busca da qualidade

Desde sua fundação, a Dedini Capacidade fabril


sempre trabalhou para aperfei-
A Dedini S.A. Indústrias de Base possui, atualmente, uma das maiores
çoar a qualidade de seus produ-
estruturas produtivas de bens de capital sob encomenda instaladas no Bra-
tos e serviços, e essa iniciativa sil, com seis parques industriais e onze fábricas em operação, localizadas
tornou-se um diferencial no estrategicamente em quatro importantes regiões, duas no estado de São
seu mercado de atuação. No Paulo e duas no Nordeste (Pernambuco e Alagoas), representando uma
início dos anos 1980, no entan- área total de mais de um milhão de metros quadrados, em 2005.
to, começaram a ser exigidos CAPACIDADE
vários requisitos na atuação UNIDADE/ DE PRODUÇÃO
FÁBRICA
das indústrias brasileiras. LOCAL ANUAL (HORAS/
HOMEM)
Adequando-se à nova realidade,
a empresa passou a formular Equipamentos em aço inoxidável 1 000 000

políticas específicas nessa área, Perfis e estruturas metálicas


Piracicaba (SP)
envolvendo, entre outros Caldeiraria
fatores, os procedimentos mais Tampos industriais
adequados para planejamento, Piracicaba (SP) Usinagem (mecânica pesada) 483 000
execução e controle de todas as Piracicaba (SP) Fundição 670 000
operações e atividades. Caldeiras 714 000
Assim, nessa época, foi Sertãozinho (SP) Equipamentos pesados 1 000 000
desenvolvido o sistema de Garan- Usinagem (mecânica pesada) 500 000
tia de Qualidade Dedini (GQD) na Recife (PE) Caldeiraria (aço carbono e inoxidável)
Metalúrgica, focado, principalmen- 144 000
Maceió (AL) Mecânica pesada
te, na produção, desde o processo
Fonte: Dedini.
de pré-venda até a entrega final.
O objetivo era dotar a empresa de
gerenciamento prático e estrutu-
rado, incrementando a produti-
vidade e a eficiência operacional,

a força de um ideal 221

Capitulo8 221 11/4/05, 17:10


EMPRESAS DEDINI
Posição Acionária em 2005
A Dedini se constitui hoje de empresas com capital nacional,
pertencentes às famílias Ometto e Dedini, conforme se vê no quadro:

Capitulo8 222 11/4/05, 17:11


Conselho de Administração da DDP
para atender plenamente os de bens e serviços de terceiros. Participações S.A., em outubro de
requisitos exigidos e garantir a A Dedini tratou de habilitar-se 2005 (da esq. para a dir.):
satisfação dos clientes. Sergio Leme dos Santos,
como fornecedora, o que repre-
José Luiz Olivério,
Para desenvolver esse sentava, então, uma referência Tarcisio Angelo Mascarim,
trabalho, organizaram-se e um diferencial importante Giuliano Dedini Ometto Duarte,
Juliana Dedini Ometto
equipes multifuncionais dentro no mercado. Assim, em 1988, (Presidente),
da empresa, que elaboraram obteve o certificado de cadastro, Adriana Dedini Ricciardi,
Marco Renaux Dedini Ricciardi,
os manuais de procedimentos tornando-se qualificada, ofi- Márcia Farah de Toledo Dedini e
para atender os requisitos cialmente, para vender à estatal Mário Dresselt Dedini

normativos e, também, as brasileira do petróleo uma série


necessidades operacionais de de produtos, como caldeiras,
todas os departamentos. turbinas, vasos de pressão e
Naquela época, a Petrobras redutores, entre outros.
contribuiu e incentivou bastante Paralelamente, começou
essa mudança de comporta- a trabalhar, também, na ob-
mento nas empresas brasileiras, tenção da certificação junto à
apresentando uma série de conceituada American Society of
exigências nas suas aquisições Mechanical Engineers (ASME). Os

a força de um ideal 223

Capitulo8 223 11/4/05, 17:11


primeiros produtos que con-
quistaram o direito de usar os
selos concedidos pela institui-
ção foram as caldeiras (selo “S”)
e os vasos de pressão (selo ”U”),
fabricados, respectivamente,
pela unidade da caldeiraria da
Metalúrgica e por uma das em-
presas do grupo, a Codistil.
Os certificados são datados
de 1988, e chegaram após
rigoroso processo de avaliação
pelos técnicos do National Board
e da Lloyd’s Register do Brasil.
Assim, a Dedini passou a fazer
parte de um grupo seleto de
companhias nacionais que
obtiveram o reconhecimento
internacional na fabricação de
produtos determinados.
Ao longo do tempo, a quali-
ficação se estendeu para outros
bens fabricados pela Dedini. Além
das revalidações e ampliações
para outros produtos, várias
certificações específicas foram
conquistadas junto a diversos
órgãos, com destaque para
aquelas obtidas junto à Coorde-
nadoria de Projetos Especiais do
Ministério da Marinha (Copesp),
e ao Instituto Brasileiro de
Cenas do trabalho na sede da Siderurgia (1994).
Dedini, em 2005
Em 1992, a Dedini tornou-se a
primeira companhia de Piracicaba

224 Dedini 85 anos

Capitulo8 224 11/4/05, 17:11


Evolução das Certificações de Qualidade na Dedini

a obter a certificação de aprovação ISO 9001, concedido pela Lloyd’s Register


Quality Assurance do Brasil. O documento foi validado nos anos seguintes, e
em 1996, quase todas as unidades da Dedini (mecânica, fundição, equipa-
mentos pesados, caldeiraria) possuíam os certificados ISO 9001/9002.

Aperfeiçoamento constante
Como a busca pela qualidade é incessante, os processos de revalidação
e manutenção dos certificados prosseguiram nos anos seguintes, com a
unificação dos sistemas de gestão aplicáveis aos projetos de fabricação de
caldeiras, vasos de pressão, tanques de armazenagem e equipamentos para
indústria de cimento, mineração, aço, papel e celulose, siderurgia, papel e
celulose, química e petroquímica, açúcar e álcool, cervejaria, entre outros.
Por outro lado, a Petrobras, que hoje modificou sua estratégia de
avaliação, incluiu as unidades da Dedini situadas em Piracicaba e Sertão-
zinho no seu cadastro de fornecimento técnico “nível A”, em 2005.
Dessa forma, no decorrer do tempo, estruturou-se na Dedini um
sistema de gestão da qualidade na indústria que estabelece todos os

a força de um ideal 225

Capitulo8 225 11/4/05, 17:11


procedimentos para fornecimen- • Produtividade
tos de bens e serviços. A partir • Treinamento
das solicitações dos clientes, são
• Pontualidade na entrega
utilizados os recursos materiais e
humanos disponíveis para mate- Nesse contexto, a política de
rializar as soluções. qualidade estabelecida hoje para
Todas as operações realizadas as empresas Dedini consiste em
são medidas por indicadores “atender plenamente às expecta-
predeterminados. No final, tivas atuais e futuras dos clientes,
realizam-se avaliações das através da responsabilidade e
diversas etapas para se definir lealdade, como valores indiscu-
eventuais correções. Os técnicos tíveis na condução dos negócios;
que atuam na área comentam modernização tecnológica e
que se, no passado, a busca pela capacitação dos recursos huma-
excelência era um diferencial nos como diferenciais no merca-
para as empresas, hoje tornou-se do; agilidade no fornecimento de
obrigação, um requisito básico soluções completas; parcerias com
para a produção. fornecedores para obter excelên-
cia na qualidade dos produtos e
comprometimento de todos na
Indicadores da busca de melhorias contínuas”.
qualidade na produção
Essa política tem trazido
A performance nas resultados palpáveis e positivos. Os
empresas Dedini é medida indicadores dos custos da não-con-
sistematicamente, por meio de formidade são sistematicamente
indicadores preestabelecidos, medidos, desde a implantação da
definidos pelas metas a serem gestão de qualidade, na década de
atingidas, comparadas com o 1980. Hoje, a Dedini está procurando
real. Os fatores analisados são implementar uma abordagem
os seguintes: sistêmica, dividindo a empresa
• Satisfação do cliente por processos, de acordo com o
• Custos provenientes da ISO 9001:2000, para facilitar a gestão
não-qualidade e agregar melhorias na companhia.
• Resultados de A busca pela excelência já
auditoria interna deu bons resultados. Em 2004,

226 Dedini 85 anos

Capitulo8 226 11/4/05, 17:11


Colaborador da Dedini na fábrica
de Piracicaba (SP), em 2005

Capitulo8 227 11/4/05, 17:12


a empresa recebeu o prêmio de certificações. Em 2005, a Dedini
melhor desempenho, no setor se prepara para adquirir o selo
de máquinas e equipamentos, ISO 14 000, relativo à gestão
concedido pela Fundação ambiental, nas unidades da
Instituto Miguel Calmon de caldeiraria e fundição.
Estudos Sociais e Econômicos. No ano seguinte, procu-
A homenagem procura estimu- rará credenciar-se para o ISO
lar a busca da produtividade e 18 000, que trata da segurança
lucratividade nas companhias e saúde ocupacional; a etapa
brasileiras e foi recebida em seguinte será a responsabili-
cerimônia no Rio de Janeiro, dade social (norma SA 8000).
por um dos acionistas, neto do Finalmente, caminha para
fundador da empresa, Mario atingir, por volta de 2010, o
Dresselt Dedini. sistema de gestão integrada,
quando se tornará, então, uma
empresa de excelência.
Novas metas
No caso da gestão ambien-
Dentro de seu Plano Estraté- tal, o trabalho realizado pro-
gico, traçado para o período de cura identificar as atividades
2005 a 2010, o objetivo da Dedini que, eventualmente, possam
é tornar-se uma empresa de causar impactos ambientais,
excelência. Não se trata apenas e define as formas para sua
de aperfeiçoar os produtos e o minimização. Essa tarefa prevê
Reprodução de um dos
controle das operações, mas, a implementação de ações
certificados de qualidade
(ISO 9001:2000) recebido pelas também, de proporcionar a preventivas e corretivas, tais
empresas Dedini seus colaboradores melhoria como reciclagem de materiais,
na qualidade de vida. As metas disposição final de resíduos e,
envolvem, ainda, a consolidação também, o treinamento para
da certificação. o pessoal que atua nas várias
O caminho a ser traçado unidades operacionais. Para
nessa área é longo e envolve tanto, está sendo efetuado o
a plena conscientização da mapeamento de cada um dos
diretoria e o constante treina- processos, trabalho que envol-
mento de pessoal. O processo ve, praticamente, quase todas
passa por várias etapas de as áreas da produção.

228 Dedini 85 anos

Capitulo8 228 11/4/05, 17:12


Programas de produtividade
Para aumentar a competi- nos seus processos operacionais.
tividade nos mercados em que Para controlar sua variação,
atua, a Dedini mantém, siste- é utilizada a metodologia Seis
maticamente, os investimentos Sigma, de forma integrada ao
em programas de qualidade e sistema Kawasaki Production System
produtividade, voltados para a (KPS), destinado à redução de
melhoria de competitividade e desperdícios na indústria. Tanto
atendimento a seus clientes. um como outro método consti-
Buscando sempre a excelên- tuem-se em práticas modernas
cia, a companhia vem adotando para a melhoria dos resultados
várias ferramentas gerenciais e competitividade da empresa.

a força de um ideal 229

Capitulo8 229 11/4/05, 17:12


Capitulo9 230 11/4/05, 17:12
CAPÍTULO 9

Atravessando
fronteiras
“Vivemos em uma aldeia global, um acontecimento simultâneo em
que o tempo e o espaço desapareceram. Os meios de comunicação nos
envolvem a todos e nos aproximam. Eles estão nos colocando, de novo, em
contato com as emoções tribais das quais havíamos nos afastado.”
Marshall McLuhan (1911-1980), pensador canadense, em 1967.

E
m agosto de 2004, um ônibus, trafegando pelas rodovias da
região de Queensland, na Austrália, chamava a atenção de quem
por ali passava. Na carroceria, levava escritas as mensagens “the
clean green machine” e “ethyl: renewable fuel and home grown energy”. Algo que
poderia ser traduzido como a “máquina verde e limpa” e “álcool: combustível
renovável e energia produzida em casa”. Era o “Expresso Etanol”, conduzindo
uma caravana de empresários, técnicos e membros do governo
brasileiro, que viajou para o longínquo continente, com a missão de
divulgar as vantagens do combustível nacional: o álcool.
Distribuindo material publicitário, conversando com produ-
tores de açúcar, dirimindo dúvidas, e realizando palestras para os
interessados, os integrantes do Brazilian Ethanol Roadshow percorreram
várias cidades, levando a proposta de montar um programa de uso do
combustível naquele país, denominado Ethanol Program in Australia.
A idéia foi muito bem-recebida e obteve grande divulgação nos
meios de comunicação, tornando-se até assunto de uma matéria de
capa em revista especializada. Atualmente, cresce o movimento para
transformar a mistura de álcool, obrigatória na Austrália por motivos
ambientais; hoje ela é apenas autorizada.

a força de um ideal 231

Capitulo9 231 11/4/05, 17:12


Do grupo que participou da ser ampliadas para a fabricação
viagem, fazia parte um diretor de álcool. A partir de agora,
da Dedini, José Luiz Olivério, hoje prevê-se, também, a instalação
encarregado de uma missão de novas unidades.
muito especial: consolidar a Oportunidades como essa
posição da empresa no mercado demonstram que a Dedini está no
internacional. Ele retornou ao caminho certo. Aliás, dentro de
Brasil com boas notícias. Um dos seu planejamento estratégico,
empresários locais, representante considera-se a exportação como
de uma associação de fornece- um dos principais pilares de
dores de cana, lançou, há pouco sua expansão e ampliação de
tempo, o Austcane Project, que mercado. A premissa assumida
pretende utilizar a tecnologia é de que, nos próximos anos, as
Dedini na instalação da planta exportações estarão centradas,
industrial já projetada. principalmente, em unidades de
O empreendimento, cujo fabricação de álcool a partir da
projeto foi aprovado em abril cana-de-açúcar, aproveitando
último, possibilitará a produção o reconhecimento da marca
de açúcar, álcool e energia de Dedini no exterior, em face de sua
forma integrada, processando liderança no mercado nacional.
12 000 toneladas de cana por Afinal, a empresa é responsável
dia. De posse do projeto de uma por mais de 80% dos equipamen-
usina ideal com base na tecnolo- tos instalados em usinas de álcool
gia brasileira, os empreendedores e destilarias do país.
solicitaram o apoio do governo Na área de manutenção
local, obtendo o financiamento da indústria sucroalcooleira
para a realização desse estudo; (fornecimentos de peças e
este estímulo significa uma componentes de reposição), a
espécie de “sinal verde” para o empresa exporta, atualmente,
uso do etanol na Austrália. cerca de 20% de seu faturamento,
Acredita-se que o mercado com significativa participação
para bens de capital na Austrá- em alguns mercados, como o do
lia apresente bom potencial: Paraguai, Colômbia, República
existem hoje 29 usinas de açú- Dominicana, Estados Unidos e
car em atividade, que podem América Central. Este comércio

232 Dedini 85 anos

Capitulo9 232 11/4/05, 17:12


está em expansão, devido ao exterior. Não se atuava com
aumento do interesse mundial foco, objetivos precisos ou cotas
em torno da produção de etanol. a serem atingidas. Havia cinco
Outro campo em que a De- representantes, atendendo os Es-
dini espera obter bons resultados tados Unidos, América Central,
no exterior, em futuro próximo, Colômbia, Peru e Argentina.
é no fornecimento de caldeiras A partir de uma determina-
a biomassa, para co-geração de ção direta do presidente Dovilio
energia elétrica. Nessa área, a Ometto, a empresa passou a prio-
empresa detém a tecnologia rizar as exportações. Ele tratou
e lidera as vendas nacionais. pessoalmente da dinamização do
Acredita-se que, a exemplo da novo departamento, acompa-
situação ocorrida no Brasil, esse nhando sua evolução e os acon-
setor deverá crescer em outros tecimentos. A seus subordinados
países significativamente nos contou que obter sucesso no
próximos anos, em paralelo exterior era um de seus maiores
com a expansão da indústria de sonhos, pois enxergava o grande
açúcar e álcool. potencial de sua empresa lá fora,
Um sinal dessa abertura devido ao domínio da tecnologia
ocorreu recentemente, quando, e à qualidade de seus produtos.
em parceria com a empresa De olho na globalização, e
finlandesa Kvaerner, a Dedini diante da melhora da conjuntura
forneceu tubulões e partes de nacional, que permitiu a reto-
pressão para caldeiras destinadas mada das atividades da Dedini no
a indústrias do setor de papel e mercado interno, Dovilio Ometto
celulose, como a Arauco e CPMC decidiu que havia chegado a hora
Pacifico (ambas do Chile). de investir na atuação junto a
outros países. Além disso, obser-
vando a boa aceitação do sistema
Mudança de Reposição Garantida Dedini
mentalidade (RGD), cobrindo praticamente
Até o ano 2000, existia na todo o território de um país com
Dedini um setor de exportação, dimensões continentais como o
voltado, praticamente, a atender Brasil, concluiu que poderia atuar,
as consultas que vinham do também, com sucesso no exterior.

a força de um ideal 233

Capitulo9 233 11/4/05, 17:12


Para aumentar sua parti- técnicos da companhia efetua-
cipação no mercado externo, ram palestras e demonstraram a
a administração da Dedini está linha de produtos.
bem consciente que precisa Em um esforço de marketing, a
acompanhar a tendência mun- empresa tornou-se também mais
dial do comprometimento com presente em acontecimentos
responsabilidade: hoje, não basta como este, no Brasil e no exte-
mais colocar produtos, é preciso rior: a participação em feiras de
vender performance. Isso implica negócio subiu de duas, em 2000,
em manter um relacionamento para dez, em 2005, e de cinco
duradouro e aberto com o para trinta eventos por ano, no
cliente, prestando-lhe assessoria mesmo período.
em engenharia, manutenção,
reposição de peças e eventuais
expansões e reformas. Vendendo tecnologia
Paralelamente, além de
exportar bens e serviços, a Dedini
Vitrine para o mundo
está negociando a transferência
Aproveitando a conjun- de tecnologia no exterior. His-
tura favorável à realização de toricamente, a empresa sempre
negócios, a Dedini aumentou, preferiu vender os equipamentos,
nos últimos anos, sua partici- mas essa ação apresenta um
pação em congressos, feiras e limite logístico: pode haver perda
seminários, com o objetivo de de competitividade quando for-
aumentar sua visibilidade. Assim, nece para países muito distantes,
enviou delegações às reuniões levando em consideração o peso
promovidas a cada quatro anos e as grandes dimensões das peças.
pela International Society of Sugar Por isso, vem estudando a
Cane Technicians Congress (ISSCT), comercialização de suas tecnolo-
realizadas em setembro de 2001 gias, o que, em alguns casos, pode
e fevereiro de 2005, respectiva- ser mais interessante do que o
mente, em Brisbane (Austrália) próprio fornecimento de bens. Foi
e na cidade de Guatemala (Gua- o que ocorreu em 2003, quando
temala). Nesse último encontro, assinou contrato para transferência
do qual participaram 54 países, os de conhecimentos sobre processo

234 Dedini 85 anos

Capitulo9 234 11/4/05, 17:12


DEDINI EXPORTA O MAIOR E MAIS MODERNO
CONJUNTO DE MOENDAS DO MUNDO
Uma notícia promissora na área de exportação surgiu Nessa venda, a Dedini concorreu com cinco outras em-
em dezembro de 2004, quando a Dedini assinou importan- presas de vários países, inclusive do Brasil. Vários fatores
te contrato com a empresa norte-americana U.S. Sugar Cor- parecem ter contribuído para o resultado final: desde a bem
poration, para fornecimento da engenharia de instalação, elaborada proposta, que apresentou soluções inovadoras
diversos equipamentos, instalação e treinamento de pes- em diversos aspectos, até as reuniões realizadas nos Estados
soal, destinados a ampliar a sua planta industrial, situada Unidos pelos profissionais da empresa, quando os consulto-
em Clewiston, na Flórida. res da U.S. Sugar Corporation ficaram satisfeitos com o alto

O “pacote” adquirido, no valor de US$ 13 milhões, englo- nível de conhecimento técnico dos engenheiros brasileiros.

ba equipamentos para preparo da matéria-prima (picador, Colaborou também para decisão a visita realizada pe-
jogo de facas, desfibrador e peneiras rotativas); condutores los técnicos da companhia norte-americana ao Brasil. Na
de cana, instrumentação e controles; um tandem, com seis ocasião, puderam verificar o desempenho e a performance
ternos de moendas (com dimensões de 56 por 100 polega- dos equipamentos instalados em algumas usinas nacio-
das), com capacidade de moagem de até 28 000 toneladas nais. A delegação ficou, também, bem impressionada com
por dia, além da supervisão de montagem e instalação. a simplicidade de solução, tanto em nível dos equipamen-
tos como na forma operacional.
Esse será o maior em capacidade e o mais moderno tan-
dem do mundo. Contará com os mais avançados conceitos O projeto incorpora uma série de avanços em relação
de engenharia, aplicação de materiais e controle já emprega- aos já existentes: na mecânica, na configuração e no acaba-
dos em instalações similares. Trata-se de projeto inédito, pois mento. Possui, também, alto grau de automação, sistemas
o maior conjunto de moendas fabricado pela Dedini, até especiais de travamento e de acompanhamento. Na
então, possuía as dimensões de 54 por 90 polegadas. sua fabricação estão sendo empregados materiais
de alta qualidade, para diminuir os custos de sua
manutenção, tais como aços inoxidáveis, ligados,
temperados e revestidos (submetidos a tratamento
térmico para aumentar sua durabilidade).
As encomendas começam a ser entregues a
partir de outubro de 2005, sendo necessários
inúmeros embarques sucessivos no porto
de Santos, com destino a Miami. O início
da operação está previsto para setembro
de 2006, possibilitando que a empresa
norte-americana passe a processar, dia-
riamente, 38 000 toneladas de cana, em
uma só unidade. Atualmente, a U.S. Sugar
Corporation possui duas plantas de fabrica-
ção de açúcar tipo cristal, mas pretende fechar
uma delas para aumentar a produtividade,
diminuir os custos e melhorar assim sua
competitividade no mercado.

Capitulo9 235 11/4/05, 17:12


de destilação para uma empresa são necessários amplos estudos
indiana, a Uttan. O negócio, com prévios, a respeito da legislação,
Moenda fabricada para a U.S.
Sugar Corporation (EUA), montada duração de dois anos, objetiva cultura, gostos, preferências,
em Piracicaba, em outubro de 2005 aproveitar o grande interesse hábitos de compra e diferenças
internacional no know-how brasileiro políticas, entre outros fatores,
na fabricação de usinas de álcool. dos países com os quais se pre-
tende desenvolver negociações.
Além disso, exige-se pessoal
Diferentes culturas habilitado para essa tarefa, que
Para atender essa nova pressupõe desde o perfeito
política de expansão, foi reor- domínio de idiomas estrangeiros,
ganizado o departamento de conhecimento dos procedi-
exportação, pois, para atuar com mentos de exportação, até uma
eficiência em mercados externos cultura exportadora de todos os

236 Dedini 85 anos

Capitulo9 236 11/4/05, 17:13


setores participantes no processo. Considerando a grande di-
Envolve, ainda, a adequação dos mensão das obras que envolvem a
documentos internos (manuais, construção de uma planta indus-
desenhos, especificações etc.) às trial no exterior, a Dedini sempre
normas internacionais. buscou parcerias na implantação
Dessa forma, a empresa tra- desses empreendimentos, com
tou de capacitar os colaboradores o objetivo de somar esforços e
encarregados do trabalho. Cursos baratear custos. Na maioria das
de idiomas foram disponibilizados vezes, essa estratégia revelou-se
para a equipe, ministrados na pró- acertada, pois cada empresa
pria empresa. Foram organizados, envolvida trabalha em sua área de
também, treinamentos sobre os especialidade, com entrosamento
diversos aspectos da exportação, e foco bem definido nas atividades
envolvendo logística, administra- propostas, agregando, assim,
ção e legislação específica. Além maior valor ao produto final.
disso, sabe-se que é preciso ter
bastante sensibilidade e experiên-
cia para lidar com os diferentes
Bons resultados
costumes de cada povo. Nos dias de hoje, a Dedini
atua no mercado externo
oferecendo seus produtos e
Parcerias estratégicas serviços, procurando expandir
Ao longo do tempo, a Dedini sua carteira de clientes, por
efetuou inúmeras vendas para o meio de intermediários: tradings e
exterior, destacando-se o forneci- empresas exportadoras. Trabalha,
mento de seis usinas completas, também, diretamente, com
“chave-na-mão”, para a Vene- pessoal próprio, operando a rede
zuela e Paraguai, além de mais de representantes mantidos no
de vinte destilarias de álcool. O exterior ou, ainda, em parcerias.
fornecimento englobava não só Dessa forma, por meio da
os equipamentos, mas, também, multinacional Andritz, instalada
a engenharia civil, elétrica e de no Brasil e nos Estados Unidos, a
interligações. Além de trabalhar Dedini está conseguindo efetuar
com equipes próprias, a empresa negócios interessantes. Recente-
contratava serviços no local. mente, conseguiu comercializar

a força de um ideal 237

Capitulo9 237 11/4/05, 17:13


partes de pressão de caldeira ram onze vezes entre 2000 e 2004,
de recuperação química, que passando de R$ 6,8 milhões para
opera em temperatura de 441ºC e R$ 75 milhões, enquanto as tran-
capacidade de processamento de sações globais da empresa cresce-
171 toneladas por hora. ram três vezes: de R$ 203,5 para
Transações internacionais R$ 597,9 milhões. Assim, adquiri-
podem ser efetuadas, ainda, pela ram maior significado nas vendas
empresa, com a utilização de totais. O bom desempenho deve
programas bilaterais de governo, continuar em 2005, quando se
sendo o brasileiro uma das espera atingir R$ 78 milhões. A
partes, ou, ainda, por meio de meta da administração é dobrar
formação de joint ventures (associa- sua participação no faturamento
ções) com companhias de outros global da empresa até 2010.
países. Participa, também, de Existem, também, projetos
licitações de organismos finan- para instalar unidades de
ceiros internacionais e de auxílio operação em outros países,
a países em desenvolvimento. principalmente para atender
Em conseqüência dos esfor- os grandes centros produtores
ços e mudanças implementadas, de açúcar e álcool, a partir da
as exportações da Dedini evoluí- cana-de-açúcar. No início, tais
locais efetuarão serviços de
reformas em peças e fornecerão
componentes de reposição, mas,
no futuro, poderão se transfor-
mar em unidades produtoras.
Atualmente, está sendo analisada
a possibilidade de implantação de
tais plantas no México e Estados
Unidos e, também, em outros
países na América Central.
Nesses postos avançados
pretende-se, no início, co-
mercializar peças de reposição
destinadas aos equipamentos de
fabricação do setor sucroalcoo-

238 Dedini 85 anos

Capitulo9 238 11/4/05, 17:13


leiro. Em uma primeira etapa, a ocorreu em 2004, quando, em
Dedini está interessada em con- caráter pioneiro, a empresa
Preparo para embarque de
solidar sua posição na América vendeu no exterior uma planta alguns componentes do maior
Latina, mas pretende, também, desidratadora de álcool, por conjunto de moendas do mundo,
exportado para os Estados Unidos
atuar nos mercados de vários meio de peneira molecular,
países, como Estados Unidos, para a empresa Coimex Trading
México, Índia, Filipinas, Senegal, Company. Os equipamentos foram
Ilhas Maurício, Suécia, Paquistão instalados na Petrojam – Petroleos
e Etiópia, entre outros. Jamaicanos, na cidade de Kingston,
na Jamaica. A unidade, que en-
trou em funcionamento no ano
Desidratação de álcool seguinte, objetiva desidratar o
Um passo importante para etanol exportado para os Estados
a internacionalização da Dedini Unidos, para adição à gasolina.

a força de um ideal 239

Capitulo9 239 11/4/05, 17:13


Para os técnicos que atuam sa holandesa Paques já forneceu,
na área, a parceria estabelecida pelo menos, dezesseis unidades
com a Coimex coloca a Dedini de tratamento de efluentes para
num seleto grupo de fornece- diversos países. Estimulada pela
dores internacionais e abriu as aplicação de leis ambientais mais
portas de um mercado muito rigorosas e pelo aumento da
promissor: o de tratamento conscientização ecológica, essa
do etanol. Nos últimos anos, área apresenta grande potencial
o produto se transformou em de negócios na América do Sul,
commodity, e vem apresentando com vendas estimadas, em 2005,
grande procura. em cerca de US$ 15 milhões.
Em conseqüência, será Outro setor atraente é o de
necessária a instalação de um fornecimento de peças fundidas
maior número de unidades em aço e ferro, principalmente, de
desidratadoras, normalmente grande porte (acima de dez tone-
próximas aos terminais portuá- ladas), com maior valor agregado.
rios de descarga e embarque. Os principais clientes são empresas
Hoje, tais plantas existem em fabricantes de bens de capital, na
alguns portos, como nos de área de mineração, siderurgia,
Roterdã (Holanda) e Mobile cimento e hidrogeração. Nesse
(Estados Unidos), bem como no campo, a Dedini exporta cerca de
da Rússia, entre outros. Nesses 3 000 toneladas por ano.
locais é efetuado o tratamento,
que visa incorporar ao etanol as
características e peculiaridades de
Exportação: importância
estratégica
cada país que irá consumi-lo.
Para a Dedini, a política de ex-
portações não se constitui apenas
Novos caminhos em representação física fora do
Além da especial ênfase Brasil. Assume, antes de tudo,
no mercado sucroalcooleiro, grande importância estratégica,
a Dedini vem procurando, sob diversos pontos de vista:
também, expandir sua lista de • Insere-se na orientação da
clientes no exterior em outras política global de marke-
áreas. Em parceria com a empre- ting da empresa

240 Dedini 85 anos

Capitulo9 240 11/4/05, 17:13


• Representa a internacionali- países compradores, assim como
zação da marca Dedini os subsídios concedidos aos con-
• Reduz a dependência da em- correntes provenientes de países
presa em relação ao mercado desenvolvidos, que possuem
doméstico fartos recursos financeiros.
• Pode ampliar o ciclo de vida Dessa forma, a administra-
de seus produtos ção da Dedini vem trabalhando
• Contribui para o apri- para conseguir, junto às insti-
moramento da qualidade tuições governamentais brasilei-
dos produtos e de seus ras, a disponibilização de linhas
colaboradores de financiamento que operem
• É compatível com a cultura, com taxas de juros compatíveis
responsabilidade e visão com o mercado internacional
delineadas para a empresa para seus clientes, além de uma
• Possibilita a redução dos maior abertura para garantias
custos operacionais, à medi- diferenciadas. Acredita-se que
da que oferece flexibilidade estes são fatores relevantes
para trabalhar nos períodos para estimular o crescimento
de baixa carga nas fábricas das exportações do país, espe-
• Facilita o acesso às tecnolo- cialmente do setor de bens de
gias mais avançadas capital sob encomenda.
Além disso, considerando
a volatilidade cambial reinante
Vencendo obstáculos em quase todos os países, e não
Para conseguir seu intento apenas naqueles em desenvol-
de internacionalização, os vimento, é preciso haver um
profissionais da Dedini sabem mecanismo de proteção contra
que é preciso ultrapassar muitas as variações das moedas. Essa
barreiras. Dentre as que mais di- proteção é de grande importân-
ficultam os negócios no exterior cia para minimizar o risco das
podem ser citadas a burocracia, exportações, uma vez que, nesse
a estrutura deficiente dos portos segmento, as operações de venda
marítimos, a política cambial, o são, sempre, de prazo mais longo,
protecionismo à importação nos variando de seis a doze meses.

a força de um ideal 241

Capitulo9 241 11/4/05, 17:13


242 Dedini 85 anos

Capitulo9 242 11/4/05, 17:13


A PRESENÇA DA DEDINI NO MUNDO
Acordos tecnológicos
• Alemanha • Holanda • Suíça
• Áustria • Itália • Suécia
• Estados Unidos • Japão

Representantes e agentes (julho de 2005)


• Argentina • Guadalupe • Panamá
• Austrália • Guatemala • Paquistão
• Barbados • Guiana Francesa • Paraguai
• Belize • Haiti • Peru
• Bolívia • Honduras • Porto Rico
• Chile • Ilhas Maurício • República Dominicana
• China • Indonésia • Senegal
• Colômbia • Jamaica • St. Kitts
• Costa Rica • Martinica • Trinidad Tobago
• El Salvador • México • Uruguai
• Equador • Nicarágua • Venezuela
• Estados Unidos • Nigéria

Clientes
• Argentina • Filipinas • Paquistão
• Austrália • Guadalupe • Panamá
• Barbados • Guatemala • Paraguai
• Belize • Haiti • Peru
• Bolívia • Honduras • República Dominicana
• Canadá • Ilhas Maurício • Senegal
• Chile • Índia • Suécia
• Colômbia • Indonésia
• Tailândia
• Costa Rica • Jamaica
• Trinidad e Tobago
• Equador • Martinica
• Estados Unidos • México • Uruguai

• El Salvador • Nicarágua • Venezuela


• Etiópia • Nigéria

a força de um ideal 243

Capitulo9 243 11/4/05, 17:13


CAPÍTULO 10

Responsabilidade
corporativa
“O desenvolvimento sustentável coloca um desafio ao tradicional
modo de pensar das organizações, pois a melhoria de sua performance não
depende apenas dos produtos vendidos, dos serviços prestados e do lucro
auferido, mas, também, do impacto sobre o bem-estar humano e social e
da manutenção do ambiente, do qual a vida depende.”
Instituto Ethos, em 2005.

M
uito tempo antes que se tornasse uma prática comum nas
empresas brasileiras, a Dedini já exibia uma extensa folha
de serviços prestados a seus colaboradores e à comunidade
em que se insere. Essa mentalidade pioneira, tão preconizada nos dias
atuais, se deve a seu fundador, Mario Dedini.
Ele deixou registradas, tanto na cidade em que viveu, como na
memória das pessoas que amparou, inúmeras provas de solidariedade e,
principalmente, de respeito por quem com ele trabalhava. A ponto de uma
funcionária da empresa, com bastante atuação na área social comentar:
“Mario Dedini foi um daqueles homens que nascem com uma aura clara, transparente, e uma
vocação para se tornar uma alma solidária, que deixa marcas para sempre”.
Quem concorda com esse testemunho é o advogado Gustavo
Jacques Dias Alvim, hoje reitor da Universidade Metodista de Piracicaba
(Unimep), que atuou na Dedini durante dezessete anos, entre 1965 e
1982. Ele conta, em depoimento de junho de 2005, que, quando foi
Colaborador da Dedini na
fábrica de Sertãozinho (SP)
contratado, a empresa não enfrentava, na realidade, grandes problemas
jurídicos; havia algumas questões tributárias, dúvidas na elaboração de
contratos, cobranças e poucas pendências trabalhistas.
Aliás, a respeito de seus funcionários, o advogado foi instruído
por Mario Dedini, por ocasião de sua contratação: “Veja bem, não quero

244 Dedini 85 anos

Capitulo10 244 11/4/05, 17:14


Capitulo10 245 11/4/05, 17:14
que sejam ignorados os direitos dos meus ma. Mario Dedini contribuía com
trabalhadores. Tudo deve ser pago e o equivalente ao dobro do valor
cumprido direitinho”. Gustavo Alvim arrecadado junto a seus colabo-
diz que tal declaração o impres- radores. Com isso, o empresário
sionou muito, pois na época a garantia, de forma sustentável,
maior parte de seus clientes não assistência médico-hospitalar
adotava essa filosofia. e farmacêutica a todos. Exigia,
O atual reitor da Unimep também, que esse atendimento
guarda boas recordações do fosse sempre de boa qualidade.
trabalho na Dedini: “Para mim, foi O sistema evoluiu com
uma verdadeira escola, pude crescer o tempo, acompanhando a
profissionalmente e aprendi muito com expansão das empresas. Trans-
a figura inesquecível de Mario Dedini, formou-se em Serviço Social e
homem simples, de pouca instrução, mas Beneficente dos Empregados de M.
inteligente e criativo. Era um grande Dedini S.A. Metalúrgica e, mais
empreendedor, dotado de generoso coração, tarde, em Serviço Social dos Empre-
sempre preocupado em ajudar na solução gados do Grupo Dedini.
dos problemas da comunidade”.
Assim, em consonância
A Fundação Mario Dedini
com seu modo de ser, Mario
Dedini fundou, em caráter A partir dos anos 1980,
pioneiro, a Caixa Beneficente dos passou a chamar-se Dedini Serviço
Empregados da Oficina Dedini, em Social, que cuidava, também,
1954. Era uma organização de outras unidades do grupo,
jurídica de direito privado, sem sendo sucedido, em 2004, pela
fins lucrativos, com autonomia Fundação Mario Dedini, com
administrativa para gerar objetivos mais abrangentes. É
recursos e oferecer benefícios dirigida por um conselho deli-
de amparo aos trabalhadores. berativo e uma diretoria execu-
Os fundos necessários para tiva, que definem e coordenam
seu funcionamento provinham os programas, as campanhas e
dos próprios funcionários, que, a os projetos solidários na área da
cada mês, colaboravam com 2% ação comunitária.
de seus vencimentos e, também, Os principais objetivos da
do próprio idealizador do siste- Fundação são proporcionar

246 Dedini 85 anos

Capitulo10 246 11/4/05, 17:14


assistência social, médica, hospi- oferecer oportunidades de
talar e farmacêutica, procurando aprendizado, e incentivar ações
oferecer melhor qualidade de de responsabilidade social e de
vida a seus participantes, além preservação do meio ambiente.
de criar um elo de segurança Outra missão da Fundação é
e responsabilidade entre os intensificar programas de parce-
colaboradores e a empresa. rias na comunidade, por meio de
Dessa forma, age diretamente, ações consistentes, principalmen-
mantendo serviços próprios, ou te, aquelas voltadas para o desen-
celebrando convênios, contratos volvimento social. Nesse sentido,
e acordos com terceiros. promove doações a entidades
Além disso, participa e assistenciais, cumprindo as condi-
promove congressos, seminá- ções e limites estabelecidos pelo
rios, fóruns, campanhas, feiras seu Conselho Deliberativo.
e outros encontros de interesse A Fundação Mario Dedini é
para o desenvolvimento da composta por todos os colabora-
educação familiar. Organiza, dores da Dedini que, com seus de-
ainda, oficinas de motivação pendentes, somam mais de 8 000
com caráter educacional, usuários do sistema. Em 2004,
artístico e cultural, bem como possuía uma receita de aproxi-
palestras, enfocando temas madamente R$ 4,5 milhões por
que estimulam valores éticos ano. Os fundos para sua manu-
e a cidadania. Procura, ainda, tenção provêm da contribuição

a força de um ideal 247

Capitulo10 247 11/4/05, 17:14


efetiva das empresas (70%) e dos instalar-se na cidade (a primeira
funcionários associados (30%). foi a Cooperativa do Engenho Central).
Controle automatizado de
operações na Fundição Dedini, Além das contribuições, fazem O principal objetivo era
em Piracicaba (SP) parte do seu patrimônio os restaurar o poder de compra
recursos oriundos de diversas dos operários, castigados pela
ações, como, por exemplo, inflação e pelos altos preços
doações espontâneas e receitas de praticados pelo comércio local.
promoções, entre outras. Em 1965, a Cooperativa possuía
novecentos associados e sede
própria. A diretoria era constitu-
Driblando a inflação
ída pelos próprios trabalhadores,
No passado, outra importan- enquanto a Dedini fornecia
te iniciativa de cunho social foi subsídios e toda a infra-estrutura
a Cooperativa de Consumo das Firmas necessária. A entidade funcio-
Dedini Ltda., onde os colaborado- nou durante muito tempo com
res da empresa podiam adquirir sucesso, e foi desativada somen-
gêneros de primeira necessidade te em outubro de 1996.
com excelentes condições de
preço e qualidade. Surgiu em
dezembro de 1964, pelo idealismo Mudança de
mentalidade
e entusiasmo de 62 fundadores,
tendo Dovilio Ometto como No decorrer do tempo,
presidente. Foi a segunda a o trabalho na área social nas

248 Dedini 85 anos

Capitulo10 248 11/4/05, 17:14


empresas Dedini abandonou tituição, em 2003, do Comitê
o caráter, até certo ponto, de Responsabilidade Social.
assistencialista, em que se Composto por acionistas,
procurava cobrir quaisquer diretores e profissionais do
necessidades de seus colabora- setor, a entidade recebe, analisa
dores, em termos de orçamen- pedidos e aprova doações para
to, saúde e educação. os programas considerados
A Dedini tem como
Nos dias atuais, os con- consistentes, e que possam
agregar maior responsabilidade princípios do seu compor-
ceitos e valores da moderna
administração se modificaram à sua imagem institucional. tamento e do seu processo
e se ampliaram. As ações Segundo os especialistas
decisório: a tradição, a quali-
empresariais se afastam da da área, o trabalho de inserção
simples benemerência; pensa- social caminha em paralelo dade, o empreendedorismo,
se mais em termos de inclusão com a inovação tecnológica, o comprometimento, além
social. Por isso, desenvolvem- priorizando a conservação do
da responsabilidade técnica,
se na Dedini os projetos com ambiente e o uso de energias
potencial transformador, “limpas”, como formas de comercial e social. Esses
priorizando atividades cultu- reduzir o impacto das atividades valores são exercitados no
rais, educacionais, esportivas econômicas sobre os recursos
recreativas, entre outras. naturais, e beneficiando a comu- cotidiano pela administra-

Nesse sentido, procura-se nidade como um todo. ção e colaboradores.


dialogar com as partes interes-
sadas (stakeholders), mobilizando
a rede de contatos, descobrindo Valores imutáveis
formas de melhor inseri-las na Dessa forma, a administra-
estrutura corporativa, sempre ção da Dedini tem plena consci-
respeitando sua diversidade ética, ência que seu maior patrimônio
religiosa e cultural. Um exemplo são seus colaboradores e,
disso são os programas desen- portanto, vem se adequando
volvidos com voluntários, que aos novos tempos para melhor
contam, inclusive, com a partici- cumprir as responsabilidades.
pação de outras companhias. Assim, formulou uma abran-
Uma das primeiras ações gente política com base em sua
realizadas com esse enfoque missão, valores e crenças, que
nas empresas Dedini, foi a cons- norteiam seu desempenho.

a força de um ideal 249

Capitulo10 249 11/4/05, 17:14


Política corporativa Dedini atua em sintonia com
das empresas Dedini o departamento de recursos
em 2005 humanos. A primeira propor-
ciona a necessária assistência
• Satisfazer as necessidades de
de saúde aos funcionários e
seus clientes
seus familiares. Promove ati-
• Proporcionar o mais alto vidades educativas e culturais,
nível de satisfação de seus cumprindo variado calendário
colaboradores anual de eventos, estimulando
• Promover a iniciativa, a a comunicação social e a inte-
criatividade, as competên- gração, por meio de diversas
cias técnica e gerencial, dinâmicas de grupo.
visando à permanente
Por sua vez, o departamen-
melhoria em todos os níveis
to de recursos humanos cuida
da empresa
dos aspectos relacionados ao
• Buscar a contínua utiliza- pessoal: provisão (planejamen-
ção de novas tecnologias to, recrutamento e seleção);
para operar com elevada aplicação (administração e
qualidade, produtividade e avaliação de desempenhos);
lucratividade manutenção (salários e benefí-
• Conciliar o desenvolvimento cios); desenvolvimento (treina-
de suas atividades com a mento) e monitoração (seguran-
preservação do ambiente ça e relações de trabalho).
• Atuar com responsabilidade Os profissionais dessa área
social na comunidade na são encarregados da organização
qual está inserida do banco de horas de trabalho e
• Atender aos interesses de do programa de participação nos
seus acionistas resultados. O objetivo do setor é
cumprir a legislação trabalhista
e promover justiça social, por
Valorizando as pessoas
meio de benefícios e salários
Ao longo do tempo, bus- compatíveis. A atuação nessa
cou-se, também, maior pro- área transformou a Dedini em
fissionalização na companhia, uma verdadeira referência no
sendo que, hoje, a Fundação Mario mercado de trabalho.

250 Dedini 85 anos

Capitulo10 250 11/4/05, 17:14


Evolução do número de colaboradores* (1999-2005)
Dedini S.A. Indústrias de Base
A Dedini considera
seu grande diferencial
competitivo os colabora-
dores que contribuem na
produção de bens e na
prestação de serviços. Em
2005, eles somam quase
4 000 pessoas, atuando
nas diversas unidades de
São Paulo (Piracicaba e
Sertãozinho) e do Nor-
Fonte: diretoria Dedini.

(*) inclui efetivos e terceirizados deste (Recife e Maceió).


(**) previsão

Saúde em primeiro lugar Mantendo benefícios


A Fundação Mario Dedini tem Apesar da grave crise enfren-
procurado aperfeiçoar cada tada pela Dedini nos anos 1990,
vez mais seu sistema adminis- houve muita preocupação da
trativo. Ampliou o número de administração em resguardar, na
convênios com hospitais, com medida do possível, os benefícios
médicos de várias especiali- adquiridos. Mesmo assim, foi ine-
dades, e com laboratórios de vitável a realização de algumas
análises clínicas, colocados à mudanças, de forma a assegurar
disposição dos colaboradores da esses ganhos e, ao mesmo tempo,
empresa. Sistematicamente, ou- adequar o nível de gastos na área
vem-se os usuários para avaliar com que a empresa poderia arcar,
a qualidade do atendimento, e em tempos de dificuldades.
hoje o índice de satisfação com A partir de 2001, foram
os serviços recebidos se situa firmados contratos para
por volta de 80%. atendimento com três redes

a força de um ideal 251

Capitulo10 251 11/4/05, 17:14


de farmácias da cidade, que gando, a cada ano, o balanço
dão abatimento de 20% sobre social de suas empresas. Este
tudo que vendem. Além documento é, hoje, o ponto
disso, os medicamentos com alto da gestão de responsabi-
receita são comprados com lidade social, ferramenta fun-
30% de desconto e debitados damental para a consolidação
na folha de pagamento. de uma cultura empresarial
Foram contratadas também que privilegia a transparência e
duas cooperativas da cidade permite à sociedade conhecer
para prestar atendimento e valorizar os esforços para
odontológico aos colaboradores conciliar o sucesso econômico
da Dedini e suas famílias, que com resultados positivos na
operam com tabelas de preços área sócio-ambiental.
subsidiados e permitem, tam- É, também, um instru-
bém, o desconto em folha. mento de diálogo entre as
Atualmente, a Dedini possui, partes interessadas, permitindo
também, seis ambulatórios mé- que se situem em relação aos
dicos para atendimento exclusivo concorrentes e à comunidade, e
dos colaboradores e prestadores aumentando a comunicação das
Atendimento ambulatorial a
colaborador da Dedini, em de serviços, instalados em suas oportunidades e dos desafios na
Piracicaba (SP) área de abrangência.
plantas industriais.
Uma pesquisa recente da
Associação Brasileira dos Diri-
Passaporte para a gentes de Vendas e Marketing
modernidade
(ADVB), de agosto de 2005, que
Desde 2003, a Dedini recolheu dados junto a cerca de
vem preparando e divul- 3 000 empresas de todos os portes

Assistência médico-hospitalar oferecida aos


colaboradores da Dedini

REDE CREDENCIADA 2003 2004 2005 (*)

Total de atendimentos 32 727 38 480 45 290


Número de usuários 8 006 8 223 9 008
Fontes: Balanços Sociais (2003 e 2004).

(*) previsão

252 Dedini 85 anos

Capitulo10 252 11/4/05, 17:14


Investimentos sociais realizados pelas empresas
Dedini (em reais)

ITEM 2003 2004 2005 (*)

Remunerações de
53 906 292,63 59 436 626,00 79 830 830,30
funcionários
Remunerações de
24 724 839,00 26 402 008,00 30 516 015,00
terceiros
Encargos 48 162 861,96 52 151 887,99 61 498 945,77
Alimentação 5 972 176,31 6 260 355,17 7 957 178,67
Assistência à saúde 4 162 832,84 4 279 629,21 5 763 953,52
Transporte de pessoal/
“Não há melhor
treinamento/ comunida- 2 452 674,88 2 461 756,93 4 879 163,11 investimento
de e eventos educativos
do que apostar nas
Total 139 381 677,62 150 992 263,30 190 446 086,37

Fontes: Balanços Sociais (2003 e 2004); diretoria Dedini.


pessoas, em sua capa-
(*) previsão
cidade de aprender e
e regiões do Brasil, mostrou que a Participação dos lucros multiplicar conhecimen-
maioria delas – 72% – não publica
Acreditando que o trabalho tos e, assim, promover
balanços sociais, apesar de reco-
nhecer sua grande importância. de seus colaboradores é fator a transformação social.”
Além disso, o estudo detectou decisivo na construção de seu
(Zilda Arns Neumann,
uma queda nos investimentos em sucesso, a Dedini criou e incentiva
ações sociais de 14% em 2004, em a participação de seus colabora- fundadora e coorde-
relação ao ano anterior. dores no programa de resultados. nadora das pastorais
Nessa área, a Dedini segue O projeto estimula a melhoria
contínua da qualidade e da da criança e da pessoa
caminho inverso, contrariando
a tendência geral. Aproveitando produtividade e procura reduzir idosa, em 2004, no
a recuperação financeira de suas o absenteísmo, à medida que
prefácio do balanço
empresas nos últimos anos, estabelece compensações finan-
ceiras por essas atitudes positivas. social Dedini 2004).
retomou suas aplicações, am-
pliando o leque de atuação para O sistema de participação
beneficiar um número maior nos lucros foi criado por uma
de pessoas, não só em suas medida provisória do governo, e,
fábricas, mas também junto à posteriormente, transformou-se
comunidade em que atua. em lei com o nome de política de

a força de um ideal 253

Capitulo10 253 11/4/05, 17:14


firmados com os sindicatos
de trabalhadores das duas
cidades, e mediante a divul-
gação interna de gráficos e
informações consolidadas
dos resultados atingidos,
foi possível efetuar, a mais
de 2 600 colaboradores, o
pagamento de valores em
torno de R$ 1 100,00 a cada
funcionário, referentes ao
período e 2003 e 2004.
Essa quantia corres-
pondia, na época, à de
um salário médio dos
funcionários que recebem
o pagamento por hora tra-
participação nos resultados. Tra- balhada (horistas). Para a grande
ta-se de uma proposta defendida maioria dos colaboradores
Capas dos Balanços Sociais da
Dedini de 2003 e 2004 há tempos pelos sindicatos, nem (cerca de 70%), esta participação
sempre praticada pelas empresas. representou o recebimento de
Em 1996, a Dedini instituiu o um 14º salário no ano. A partir
primeiro programa nessa direção. de 2005, também as unidades
A partir de 2002, o projeto fabris do Nordeste se beneficia-
foi ampliado, contando com rão desse programa.
a representação de comissões
dos funcionários, nas unidades
Perfeita simbiose
situadas em Piracicaba e em
Sertãozinho, discutindo-se metas Ao longo do tempo, as
e estabelecendo desafios. Assim, empresas Dedini conseguiram
cada colaborador podia conhecer estabelecer um nível adequado
a influência de sua participação de relacionamento com as
efetiva nos resultados do negócio. entidades sindicais. Trata-se de
Dessa forma, através da um convívio mais amadurecido
assinatura de acordos coletivos e responsável, privilegiando as

254 Dedini 85 anos

Capitulo10 254 11/4/05, 17:14


negociações ponderadas, em vez Desde então, as convenções
de atitudes radicais que, eventu- coletivas são negociadas em
almente, conduzem a greves e Piracicaba por meio de acordos.
conflitos trabalhistas. O resultado disso foi o fim das
Um ato positivo nesse sen- greves. Além disso, o Sindicato
tido foi o movimento liderado dos Metalúrgicos possui, hoje,
pela Dedini, por meio de seu di- uma liderança ponderada, mais
retor Tarcisio Angelo Mascarim, voltada para a conservação de
em 1991, para a criação de uma empregos, que dialoga bem
entidade patronal com sede na com os empresários.
cidade de Piracicaba, o Sindica- Prova incontestável desse
to das Indústrias Metalúrgicas, bom relacionamento ocorreu
Mecânicas, de Material Elétrico, por ocasião das comemorações
Eletrônico, Siderúrgico e Fun- do 85º aniversário da Dedini,
dições de Piracicaba, Saltinho e em setembro de 2005. Uma
Rio das Pedras (Simespi). Nos das homenagens prestadas à
primeiros tempos, a iniciativa empresa, na Câmara munici-
contou com a adesão de apenas pal, foi iniciativa de um de seus
nove empresas locais, mas, em colaboradores, o vereador José
meados de 2005, possuía mais Luiz Ribeiro, o mais votado da
de 170 filiadas. história da cidade, que também
A entidade passou a é líder sindical.
participar de todas as decisões Na oportunidade, ele
importantes para os trabalha- ofereceu à diretoria uma
dores, principalmente aquelas escultura em bronze, com 22
relativas aos aumentos sala- centímetros de altura, da ar-
riais, antes atreladas ao sindi- tista plástica Shirley Xavier da
cato da categoria estabelecido Silveira, denominada Integração:
em São Paulo. Dessa forma, são duas figuras, um executivo
foi possível estabelecer uma e um operário, fundidos em
negociação mais direta, rápida uma única peça, em perfeita
e positiva, uma vez que a rea- simbiose, representando,
lidade da Capital é totalmente como explicou Ribeiro, que na
diferente daquela reinante nas Dedini “uma não vive sem a outra,
cidades do interior. convivendo em harmonia”.

a força de um ideal 255

Capitulo10 255 11/4/05, 17:14


Escultura em bronze denominada
“Integração”, oferecida pelo
Sindicato dos Metalúrgicos de
Piracicaba a Dedini, por ocasião
de seu 85º aniversário

256 Dedini 85 anos

Capitulo10 256 11/4/05, 17:14


Geração de empregos
A Dedini sempre praticou
política de manutenção de postos
de trabalho, evitando, dentro do
possível, as temidas demissões.
Mesmo em fases críticas, recorreu
à alternativa de estabelecer “ban-
cos de horas”, recurso previsto
na legislação. Por essa estratégia,
em tempos de recessão e de
baixas encomendas, o funcionário
permanece em casa, e, quando a
situação melhora, volta ao servi-
ço, recebendo as horas em haver.
Em uma das suas fases mais
difíceis, nos anos 1990, a Dedini foi
obrigada a recorrer, pela primeira
vez, ao mecanismo, também legal, preocupação constante da
de redução de salário e de trabalho, Dedini. Desde 2000, vem promo- Capacitação de pessoal em
na sua unidade de Sertãozinho. vendo, em média, 55 000 horas Escola Senai, em Piracicaba (SP),
Naquela época, havia necessidade de treinamento ao ano. Somen- entidade apoiada pela Dedini

de demitir cem dos trezentos te em 2004, cada funcionário


colaboradores daquela fábrica. recebeu, em média, 21 horas de
Graças a esse recurso, as dispensas cursos de aperfeiçoamento.
puderam ser, então, evitadas. Com
A partir de agora, essas ações
a recente melhoria da conjuntura,
devem ser ampliadas mais ainda,
a unidade de Sertãozinho retomou
pois uma das estratégias estabe-
o ritmo de trabalho, e hoje conta
lecidas pela administração, para
com 1 300 operários.
o primeiro decênio de 2000, é
desenvolver seu capital humano.
Como diz um dos diretores:
Investindo no pessoal
“As máquinas podem ser vendidas, se
A capacitação de todos os deterioram, ficam ultrapassadas, mas as
colaboradores sempre foi uma pessoas e o conhecimento adquirido são,

a força de um ideal 257

Capitulo10 257 11/4/05, 17:14


Capacitação e aperfeiçoamento de mão-de-obra nas
empresas Dedini

2000 2001 2002 2003 2004 2005(*)

Número de
2 131 2 644 2 682 2 520 2 600 3 111
pessoas treinadas

Fonte: Departamento de Recursos Humanos.


(*) previsão

realmente, nossa prioridade. Investindo Após a fase de adaptação, efe-


nelas se ganha em comprometimento, em tuou-se uma customização das
produtividade e em resultados”. atividades e projetos a serem
Dessa forma, buscando a ele- desenvolvidos pelos novos
vação gradativa das competências profissionais, em suas respectivas
de seus colaboradores, a Dedini áreas de trabalho.
organiza sistematicamente vários Nessas atividades, os jovens
programas de desenvolvimento estiveram sempre acompanhados
profissional. Fiel ao objetivo por funcionário experiente
de preparar futuros gestores e designado pela empresa, uma es-
lideranças, desenvolvidos em pécie de “padrinho”. Da mesma
paralelo ao crescimento previsto forma que ocorria no passado, na
dos negócios, no Brasil e no exte- antiga Oficina Dedini, quando os
rior, o departamento de Recursos aprendizes se desenvolviam com
Humanos também iniciou, em a bênção de um operário mais
março de 2005, o programa de velho que ensinava e “avalizava”
trainees das empresas Dedini, que seu desempenho.
contou com a inscrição de 250
candidatos, dos quais dezoito
foram selecionados.
Buscando integração
Inicialmente, os contratados Propiciar condições favorá-
passaram, durante sessenta dias, veis para melhorar a qualidade
por período de integração e de vida de seus colaboradores é
ambientação. Na oportunidade, um desafio constante de todos
conheceram em detalhes todas os gestores das empresas Dedini.
áreas, negócios e mercados de Procurando estreitar os relacio-
atuação das empresas Dedini. namentos e promover a inte-

258 Dedini 85 anos

Capitulo10 258 11/4/05, 17:14


ESPORTE PARA TODOS
As empresas Dedini possuem longa tradição no apoio cidade de Piracicaba em competições esportivas, como,
aos esportes amadores em Piracicaba, revelando talentos por exemplo, nos Jogos Regionais, pode ser creditada ao
e contribuindo para que a cidade se sobressaísse em inú- trabalho esportivo de base, que propicia condições para o
meras competições esportivas. Desde 1989, por exemplo, aprimoramento dos atletas.
patrocina o programa municipal Desporto de Base, criado Uma das prioridades da iniciativa é tirar menores caren-
com o objetivo de oferecer oportunidades para que os ci- tes das ruas, oferecendo-lhes boas opções de recreação,
dadãos – crianças, jovens, adultos, portadores de deficiên- dirigindo-os para atividades positivas e educando-os, atra-
cias e grupos de terceira idade – possam praticar e vivenciar vés da prática do esporte. Nesse quesito, os resultados têm
esportes, e não somente assisti-los. demonstrado eficiência no desenvolvimento da capacida-
O projeto é considerado um sucesso e já recebeu até de física, motora e mental dessas crianças e, especialmente,
prêmios, por ter possibilitado a instalação de ampla e diver- na melhoria da sua socialização.
sificada rede de inter-relações na cidade. Compõe-se de um Fiel à sua tradição de apoio na área dos esportes, a Dedini
grupo de vinte professores de educação física e dez estagiá- é, hoje, também, uma das patrocinadoras da Associação de
rios, que se revezam, de duas a cinco vezes por semana, para Basquetebol XV de Piracicaba, nas categorias adulto e juvenil.
atender cerca de 3 000 interessados por ano. As diversas mo- Dessa forma, contribui para resgatar a tradição nessa moda-
dalidades (futebol, voleibol, basquetebol, futebol de salão, lidade, na qual, no passado, a cidade se destacou bastante.
handebol, natação, tênis de mesa, canoagem etc.) são de- Ao mesmo tempo, colabora para a inclusão social de cerca de
senvolvidas em escolas, centros comunitários e outros locais uma centena de jovens participantes.
disponíveis, em quinze diferentes
bairros da cidade.

A metodologia aplicada
envolve três fases distintas: a lú-
dica, de iniciação e recreação; a
de aperfeiçoamento técnico-es-
portivo, de treinamento, e a de
especialização e performance
de alto nível. Não raramente, os
participantes do programa pas-
sam pelas três etapas e alcan-
çam bom nível técnico e com-
petitivo. Acredita-se que parte
do sucesso recente obtido pela

Atividades esportivas
patrocinadas pela Dedini em
Piracicaba (SP)

Capitulo10 259 11/4/05, 17:14


gração de seus colaboradores e Dessa forma, desde 2003,
familiares, a Dedini desenvolve, formou-se um grupo de uma
sistematicamente, diversos centena de voluntários, que
programas para aumentar o promove campanhas de doação
bem-estar e a satisfação de uma (tais como alimentos e agasa-
população estimada em mais lhos), realizam visitas e prestam
de 8 000 pessoas. apoio financeiro a entidades
Muitas atividades realiza- assistenciais, hospitais, mora-
das visam integrar a família dores de rua etc. As iniciativas
no contexto da organização, recebem pleno apoio da admi-
promovendo, periodicamente, nistração da companhia.
visitas de seus filhos e esposas O pessoal envolvido já
às fábricas. Nessas ocasiões, são conhece o reforço que receberá
realizados eventos culturais e no seu trabalho: normalmente,
recreativos. São oficinas de artes, ao volume recolhido por meio
de reciclagem de materiais, pa- de doações, a administração e os
lestras, apresentações de artistas, acionistas acrescentam o dobro.
visitas monitoradas etc. Para ter uma idéia da importân-
cia social dessas realizações, basta
saber que, somente com a arreca-
Atuação na comunidade dação obtida em uma das recen-
Nos dias atuais, os profissio- tes campanhas de doação de leite,
nais que atuam na área social foi possível abastecer, durante
têm procurado aprimorar a três meses, as entidades sociais de
consciência comunitária dos Piracicaba com o produto.
colaboradores, estimulando uma Além disso, a Fundação Mario
“visão para fora” em direção Dedini realiza programas espe-
às pessoas mais necessitadas. O cíficos, junto a seus colabora-
trabalho, realizado nas cidades dores e à comunidade, visando
onde existem unidades fabris à prevenção de doenças,
instaladas, procura despertar a combate aos vícios, ao estresse,
cooperação no fortalecimento à obesidade, entre outras. Esti-
de ações sociais que contribuam mula, ainda, práticas saudáveis
para amenizar os problemas da como os esportes (ver boxe na
população mais carente. página anterior).

260 Dedini 85 anos

Capitulo10 260 11/4/05, 17:15


Firme na sua tradição, as em- reconhecimento pela sua atua-
presas Dedini continuam, ainda, ção junto à população local.
contribuindo para o embeleza-
mento e progresso de Piracicaba,
cidade onde está instalada desde Cuidando da
os anos 1920. Recentemente,
saúde da família
colaboraram, junto com a Investindo na prevenção
Prefeitura municipal, no desen- de doenças e na descentraliza-
volvimento de vários projetos, ção do atendimento médico,
como os de revitalização da orla as empresas Dedini formaram,
urbana do rio Piracicaba, do em 2003, parceria com a
Jardim Zoológico, das constru- prefeitura municipal para de-
ções do Memorial à República, senvolver o Programa Saúde
do projeto do Museu de Ciência da Família em Piracicaba.
e Tecnologia e da instalação de O primeiro passo foi a
unidades de saúde em bairros viabilização da construção da
carentes. Incentivam, ainda, a unidade de saúde no bairro
realização de inúmeras atividades Mario Dedini II, levando assis-
culturais. Trabalho semelhante tência médica à sua população,
é realizado, também, em Sertão- estimada em cerca de 3 500
zinho (SP), onde está localizada pessoas, por meio do trabalho de
uma de suas unidades fabris. agentes comunitários – médicos,
Naquela cidade, a Dedini enfermeiros e auxiliares.
recebeu o prêmio Top of Quality Pelo convênio firmado, a De-
2003, da Ordem dos Parlamenta- dini doou os materiais necessários
res do Brasil e do Ministério da à construção do prédio, com cerca
Educação e Cultura, pelos tra- de 200 metros quadrados, orçado,
balhos sociais desenvolvidos na na época, em quase R$ 30 000,00. A
comunidade e pela colaboração municipalidade ficou encarregada
na Campanha Nacional Contra do fornecimento da infra-estru-
as Drogas. Em 2003, foi homena- tura e da mão-de-obra, além da
geada, também, com o título de realização das obras.
“Empresa Cidadã”, concedido Por ocasião da inauguração
por unanimidade pela Câmara do posto de saúde, Juliana
Municipal de Sertãozinho, em Dedini Ometto, membro do

a força de um ideal 261

Capitulo10 261 11/4/05, 17:15


Conselho da Dedini, declarou prever os do futuro”, declararam, na
que a ação da empresa atendia época, as autoridades municipais.
solicitações da comunidade, Em dezembro de 2004, foi
proporcionando condições para inaugurado mais um posto de
que população, principalmente atendimento desse importante
a de baixa renda, tivesse acesso à programa municipal: a unidade
medicina preventiva e assisten- de saúde “Armando Dedini”.
cial: “Esperamos que essa atitude sirva Desta vez, no bairro Bosque dos
de exemplo a outras empresas, para que Lenheiros, no setor oeste de
entendam que o poder público, sozinho, Piracicaba, um dos mais carentes
não consegue desenvolver ações que da cidade. Com recursos doados
modifiquem a realidade. Esta parceria é por membros da família Dedini,
muito positiva, e, certamente, será uma foram erguidos o prédio e adqui-
referência na cidade”. ridos os equipamentos; o pessoal
Com a instalação do progra- foi contratado pela prefeitura.
ma, membros da administração
municipal comentaram, na
ocasião, que pretendiam “mudar Respeito ao ambiente
o perfil da saúde na cidade”. Para Paralelamente ao trabalho
tanto, mantinham, então, vinte social, várias iniciativas são reali-
grupos ligados ao Programa de zadas em defesa do ambiente e na
Saúde da Família, trabalhando utilização racional dos recursos
em diversos bairros, possibili- naturais renováveis. A atuação
tando a elevação do número de se desenvolve em duas direções
atendimentos de 10 000, em 2001, bem definidas. A primeira se
para 60 000, no ano seguinte, revela no seu comprometimen-
segundo dados da assessoria to em fornecer equipamentos
municipal de imprensa. destinados a reduzir a poluição
A prefeitura considerava a e conservar os recursos naturais
participação da iniciativa privada (como as unidades de fabricação
fundamental para o processo: de biodiesel e as unidades de
“Devido ao porte, tradição e competência tratamento de efluentes indus-
técnica das empresas Dedini, essa parce- triais e de esgotos domésticos),
ria torna a cidade mais forte e preparada bem como os que propõem o
para enfrentar os problemas do presente e uso de “energia limpa”.

262 Dedini 85 anos

Capitulo10 262 11/4/05, 17:15


É o caso, por exemplo, de 80 275 quilos de demanda
daqueles direcionados para a química de oxigênio por dia. É
Plantio de árvores nativas às
co-geração de eletricidade com o equivalente à poluição diária margens do ribeirão Guamium,
o aproveitamento da biomassa, gerada por uma população em Piracicaba (SP), promovido
pela Dedini, que mereceu
para a fabricação do álcool, das de 600 000 pessoas. Com esses prêmio de “Destaque ambiental:
peças fundidas para geração de equipamentos contribui, assim, 2005”, concedido pelo Conselho
Municipal de Defesa do Meio
energia eólica e das pequenas para a conservação dos recursos
Ambiente (Condema)
centrais hidrelétricas (PCHs). naturais renováveis.
A atuação da empresa no A segunda vertente do
combate à poluição é crescente. trabalho ambiental realizado pela
Durante 2004, forneceu oito Dedini se refere à gestão praticada
plantas para tratamento de dentro de suas empresas, acompa-
efluentes industriais, metade nhando a tendência mundial de
delas no exterior. O total de maior conscientização em torno
carga orgânica tratada so- dessas questões. Dessa forma, por
mente por essas unidades é volta de 1980, foi iniciado trabalho

a força de um ideal 263

Capitulo10 263 11/4/05, 17:15


que objetiva otimizar o uso dos um futuro solidário” e consiste na
recursos naturais e minimizar os fabricação de artefatos de con-
impactos causados pelos processos creto para pavimentação e guias
industriais no ecossistema. de proteção de calçadas, jardins
Ao longo do tempo, inúme- etc. A produção obtida é doada a
ras ações vem sendo implantadas, entidades carentes.
procurando dar um destino Os resultados dessa inicia-
adequado aos resíduos e efluen- tiva são significativos: permite
tes, e aperfeiçoando o sistema o processamento e reaproveita-
de despoeiramento de materiais. mento de resíduos da areia de
Dessa forma, espera-se reduzir a fundição, cujo descarte é sempre
emissão de particulados e melho- problemático para a indústria
rar a qualidade do ar. Além disso, e representa um resgate da
a Dedini foi pioneira, na região, cidadania dos detentos, contri-
no aproveitamento de um dos buindo para sua reintegração na
resíduos gerados na produção, sociedade. Além disso, favorece
a escória (borra do forno), utili- as entidades beneficentes que
zando-a para pavimentar ruas de recebem, gratuitamente, o
bairros carentes da cidade. produto fabricado.
A idéia de promover a res-
socialização é constante dentro
Resgate da cidadania
do sistema prisional, mas nem
Na nova Fundição, os fornos sempre pode ser implementada,
trabalham com gás natural, em por problemas de segurança.
substituição ao óleo, e o sistema Em Piracicaba, foi preciso vencer
de areia opera em circuitos muitos obstáculos. O sucesso da
fechados. Com isso, é possível iniciativa se deve à ação conjunta
recuperar cerca de 90% do mate- do grupo Dedini, que patrocina
rial utilizado, que é processado o projeto, doa a matéria-prima
para a fabricação de pisos de e fornece os materiais e equi-
concreto. Esse trabalho é desen- pamentos necessários ao seu
volvido com cerca de quarenta funcionamento; da Secretaria de
detentos da unidade prisional de Segurança Pública do Estado de
Piracicaba. Iniciado em 2001, faz São Paulo, e da empresa piracica-
parte do Programa “Construindo bana Ambiental Paulista, encarrega-

264 Dedini 85 anos

Capitulo10 264 11/4/05, 17:15


da da organização das tarefas e do ribeirão Guamium, em Piracica-
treinamento de pessoal. ba nas proximidades da matriz,
Os participantes do progra- de onde é feita a captação da
ma possuem equipamentos de água utilizada pelas fábricas. Em
segurança, uniformes e contam área de 70 000 metros quadrados,
com alimentação adequada. O estão sendo plantadas 11 000 mu-
mais importante, no entanto, é das de espécies arbóreas nativas.
o recebimento de remuneração Uma quantidade equivalente
pelo trabalho, e a possibilidade de árvores está sendo plantada
de obter eventuais reduções na para formar um bosque em área
pena. Com a vantagem adicional de 50 000 metros quadrados, no
de poderem aprender um ofício, entorno da Fundição. No futuro,
que pode lhes ser útil quando o local deverá ser utilizado
ganharem liberdade. para atividades de Educação
Ambiental e de lazer para os
colaboradores da empresa.
Reconhecimento A significância do trabalho
A Dedini possui, ainda, uma na área ambiental começa a ser
estação de tratamento de água reconhecida. Em outubro deste
(ETA), que atende ao consumo das ano, a empresa recebeu o prêmio
unidades fabris de Piracicaba (da “Destaque Ambiental 2005”,
matriz e da Fundição). Por meio dela, categoria “Empresa”, concedido
é possível melhorar a qualidade da pelo Conselho Municipal de
água e permitir sua reutilização, Defesa do Meio Ambiente
reduzindo a necessidade de cap- (Condema). A homenagem se
tação. Investimentos estão sendo refere à implantação do projeto
consolidados para a implantação, de recomposição florestal, que
em breve, de estação de recepção envolveu o plantio de milhares
de esgotos, sendo a água tratada de árvores, acima citado.
obtida no processo reaproveitada Segundo os membros do Con-
no resfriamento dos fornos. dema, “ao longo desses 85 anos, a Dedini
Em relação ao reflores- tem recebido homenagens pela contribuição
tamento, a Dedini iniciou, em à economia nacional, mas é pouco lembrada
2004, projeto para recuperação pelas ações de proteção à poluição atmosfé-
da vegetação das margens do rica, dos resíduos industriais”.

a força de um ideal 265

Capitulo10 265 11/4/05, 17:15


Capitulo11 266 11/4/05, 17:15
CAPÍTULO 11

Trabalhando
pelo amanhã
“O desconhecido de ontem é a
verdade de amanhã.”
Camille Flammarion, astrônomo
francês (1842-1925).

P
or ocasião de seu 85º aniversário, completado em agosto de
2005, o clima é de otimismo e alegria nas empresas Dedini.
Não é para menos. A economia nacional vive um bom
momento. Após apresentar vários meses consecutivos de queda nos
preços, a inflação poderá fechar o ano em 5,1%, atingindo a meta
estabelecida. Em 2006, espera-se que esse índice fique abaixo dos 4,5%
previstos. Com isso, o poder de compra dos consumidores e a renda
das empresas devem crescer mais.
Outro fator positivo foi a gestão bem-sucedida do agronegócio e do
comércio exterior, que trouxe ao país superávits na balança comercial
cada vez mais elevados. As vendas brasileiras bateram sucessivos recor-
des e atingiram pela primeira vez na história, em setembro de 2005, a
marca de US$ 110 bilhões de dólares no período de um ano.
Nesse mesmo mês, como conseqüência do bom desempenho da
economia nacional o “risco Brasil”, ou seja, o indicador que demonstra
a confiança do investidor na capacidade do país arcar com seus com-
promissos externos, atingiu os níveis mais baixos dos últimos anos.
Ainda em setembro, o governo iniciou uma política de diminui-
ção de juros, efetuando uma pequena redução na taxa básica (Selic),
de 19,75% para 19,50% ao ano. Mesmo assim, os índices praticados

a força de um ideal 267

Capitulo11 267 11/4/05, 17:15


no país continuam sendo um com sucesso, pelo tesouro
dos mais altos do planeta, nacional, da emissão de títulos
dificultando os investimentos, da dívida externa no mercado
encarecendo o consumo e internacional em reais ampliou,
prejudicando o crescimento do ainda mais, o clima de confiança
Produto Interno Bruto. na economia brasileira. Dessa
Embora, em 2005, a expansão forma, são vários os fatores que
do PIB deva superar as metas levam à crença da sua definitiva
previstas, situando-se em torno consolidação, a despeito dos
de 3,5%, ou talvez um pouco graves problemas políticos en-
mais, ficará bem abaixo das frentados pela administração de
marcas alcançadas por outros Luiz Inácio Lula da Silva, a partir
países sul-americanos. Venezuela, do segundo semestre de 2005.
Chile, Argentina, Uruguai devem Parece interminável a su-
crescer em torno de 6% no ano. cessão de escândalos e denún-
Sem falar nos gigantes asiáticos, cias de corrupção, envolvendo
como a China e Índia, que parlamentares e altos dirigentes
deverão apresentar expressivos do partido do governo. A crise
incrementos no PIB, da ordem de abalou o índice de popularida-
8,8% e 7%, respectivamente. de do presidente Lula e dificul-
Verifica-se que o Brasil está tou a votação, pelo Congresso,
sendo “arrastado” pela conjun- de matérias de grande interesse
tura mundial favorável, que nacional, como as reformas
atravessa um ciclo de grande política, tributária, trabalhista
expansão. Os países ricos apre- e previdenciária.
sentam grande disponibilidade Os analistas observam, no
para investimentos e têm canali- entanto, uma surpreendente
zado tais recursos para as nações maturidade e independência dos
emergentes. Devido às baixas agentes privados – empresas,
cotações do dólar, as empresas trabalhadores, consumidores,
brasileiras estão, também, com poupadores, donas-de-casa,
maior facilidade de captar estudantes, entre outros – em
fundos no exterior. relação aos problemas políticos.
Para completar o quadro Os mais diversos segmentos que
favorável, o recente anúncio, constituem a sociedade brasi-

268 Dedini 85 anos

Capitulo11 268 11/4/05, 17:15


leira continuam trabalhando, menos, trinta novas unidades
incrementando a economia até 2010. Estima-se que ocu-
e impedindo, pelo menos até parão, juntas, área de 805 000
agora, que a paralisia do governo hectares, e processarão cerca de
prejudique seu cotidiano. sessenta milhões de toneladas
Nem a expectativa de eleições de cana por volta de 2010,
em 2006, que costuma prenun- segundo cálculos da União das
ciar incertezas e turbulências, Usinas e Destilarias do Oeste
reduz o ímpeto da onda otimista Paulista, a UDOP.
que toma conta dos sensíveis A produção nacional de
mercados no país. Atualmente, açúcar bate recordes e o álcool,
existe uma expectativa favorável, mais que nunca, está em alta,
mesmo diante dos inúmeros devido a seu grande apelo
problemas a serem resolvidos, ambiental, como combustível
alguns crônicos, que dificultam o renovável e não-poluente.
desenvolvimento brasileiro. Den- Além disso, com o aumento
tre eles, podem ser citados a má dos preços internacionais do
distribuição de renda, os entraves petróleo, a utilização do etanol
da burocracia, as deficiências na volta a ser uma alternativa
infra-estrutura, a controvertida extremamente interessante, do
política cambial e os juros altos. ponto de vista econômico.

Mais açúcar e álcool Mercado em alta


Nesse contexto, os negócios No início do terceiro mi-
relativos ao setor sucroalcoo- lênio, a cadeia sucroalcooleira
leiro nacional, responsáveis, movimenta cerca de R$ 36
pelo menos, por metade da bilhões por ano, o que corres-
receita da Dedini, também estão ponde, aproximadamente, a
bastante aquecidos. Em vários 3,5% do Produto Interno Bruto.
pontos do território nacional, Possui grande importância
expandem-se as lavouras e social, pois gera cerca de 3,6
cresce o número de usinas. milhões de empregos diretos e
Somente em São Paulo, indiretos, congregando mais de
espera-se a instalação de, pelo 70 000 agricultores.

a força de um ideal 269

Capitulo11 269 11/4/05, 17:15


Capitulo11 270 11/4/05, 17:16
Para se ter idéia do potencial maior do que a atual, que pode
desse mercado, basta citar que fechar o ano de 2005 com até 440
mais de 50 000 empresas brasi- milhões de toneladas de cana-de-
leiras são beneficiadas com as açúcar, segundo recente levanta-
aquisições de equipamentos e mento da Companhia Nacional
insumos e com a contratação de de Abastecimento, a Conab.
serviços, efetuadas pelas usinas de Com relação ao açúcar,
açúcar e de álcool. cujo comércio mundial vinha
O setor apresenta hoje apresentando crescimento
grande dinamismo, em termos vegetativo, também há sinais
de aumento de consumo e de recentes de expansão. Com se
recuperação de preços. No caso não bastasse o incremento nas
do álcool, os fatores que influen- compras da China (que afetou a
ciaram positivamente foram a cotação internacional da com-
intensificação das vendas dos modity) e a momentânea quebra
carros com combustível flexível, na safra de alguns grandes
tendência que parece se estender produtores, como a Índia, há,
para toda a frota nacional de ainda, outro fator positivo: a
veículos; a redução de impostos decisão da Organização Mundial
incidentes sobre o produto e a do Comércio a respeito do
melhoria de seus preços de venda produto europeu. A instituição
no mercado interno. condenou os subsídios concedi-
Detalhe de equipamentos Dessa forma, a previsão dos dos às exportações de açúcar de
destinados à evaporação
empresários é de que, entre 2005 beterraba, fabricado pelos países
do caldo de cana-de-açúcar,
fabricados pela Dedini a 2010, a demanda por etanol que compõem o bloco.
dobre, exigindo que o Brasil Apesar da União Européia ter
passe de uma produção atual de demonstrado intenção de acatar
16,7 bilhões para 27 a 30 bilhões a decisão, ainda não foi tomada
de litros. Para tanto, necessitará nenhuma medida a respeito. O
expandir a área plantada em fato, porém, foi suficiente para
cana-de-açúcar (hoje, são seis movimentar o setor. Especialistas
milhões de hectares). acreditam que o Brasil possui
Com os investimentos em todas as condições de preencher
novas unidades, prevê-se que a uma parcela significativa do
capacidade de moagem seja 50% mercado que se abrirá com o fim

a força de um ideal 271

Capitulo11 271 11/4/05, 17:16


dos subsídios, devido às condições pressão e em redução do consu-
extremamente favoráveis de solo, mo de vapor de processo. Estas
clima, topografia, tradição, dispo- tecnologias são comerciais e já
nibilidade de áreas agricultáveis, utilizadas por várias usinas.
e domínio de tecnologias, que A falta de garantias de mer-
O setor aumentam sua competitividade cado e de uma política de preços
em relação a outros países. para vendas dos excedentes de
sucroalcooleiro é
energia elétrica, que causavam
o único do país a dominar profunda insegurança aos inves-
Energia da biomassa tidores, tendem a ser superadas
todos os estágios da tecnolo-
Outro mercado que evo- com o anúncio do Programa de
gia e da produção agrícola e
luiu bastante nos últimos anos Energias Alternativas, o Proinfa.
industrial. É altamente com- foi o de geração de energia a Acredita-se que esse programa,
petitivo internacionalmente, partir da biomassa. As usinas aliado à abertura de linhas de
brasileiras conquistaram, a crédito disponibilizadas pelo
pois possui o melhor desem-
partir da década de 1980, a BNDES, específicas para compra
penho, no que se refere às auto-suficiência em energia de equipamentos para geração
térmica e, também, na elétrica, de vapor e energia elétrica,
relações entre rendimentos,
por meio de sistemas de co-ge- terão impacto positivo no setor
produtividade e custos. Essa sucroalcooleiro.
ração com uso do bagaço. Essa
situação se deve à integração cômoda posição lhes permite Por isso, no decorrer do
que vendam os excedentes para tempo, a maioria das usinas,
entre as bases que sustentam
o mercado. Nesse item, sabe- buscando ganhos de compe-
esse desenvolvimento: os se que existe, ainda, grande titividade, deverá aderir a esse
fabricantes de equipamentos, potencial de geração energéti- programa. Nessa etapa de seu
ca, com o aproveitamento da desenvolvimento, cada vez mais
as unidades produtivas,
palha da cana. próxima, tornar-se-ão verda-
os centros de pesquisa Essa disponibilidade está deiras centrais energéticas, e
tecnológica, e o conjunto de sendo avaliada, e é provável que não somente produtoras de
esse resíduo seja, também, in- açúcar e álcool.
consultores especializados.
corporado ao sistema de geração Tal fato pode abrir amplo
de energia no futuro próximo. mercado para a venda de novas
A viabilização desse potencial unidades geradoras de vapor e
adicional implica em utilização de energia elétrica, incluindo
de ciclos a vapor de mais alta as caldeiras, indispensáveis à

272 Dedini 85 anos

Capitulo11 272 11/4/05, 17:16


modernização e ao aumento comercializar diesel misturado
da eficiência no parque indus- com biodiesel, na proporção de
trial. No fornecimento desses 2% (B2). O combustível provém
itens, a Dedini possui grande de duas usinas: a Agropalma (PA), e
experiência e tradição e, sem a Soyminas, que fabricam o produ-
dúvida, conquistará significati- to a partir de palma (dendê) e de
va fatia de mercado. girassol, respectivamente.
Alguns grupos empresariais
(inclusive, estrangeiros) estão
Revolução energética anunciando, também, pela
Outro fato novo que vem imprensa, investimentos em
repercutindo positivamente plantas de biodiesel, o que deve
no setor sucroalcooleiro é o aumentar, ainda mais, no futuro
advento do biodiesel. O pro- próximo, a disponibilidade do
grama lançado pelo governo produto para os consumidores.
federal, em dezembro de 2004, Nesse campo, a Dedini sai à
prevê a adição de combustível frente. A planta da usina Agropal-
renovável ao de origem fóssil. ma, recentemente inaugurada no
Por enquanto, a mistura é Pará, foi concebida e fornecida
opcional, mas, a partir de 2008, pela empresa em regime de
se torna obrigatória. Em 2013, a “chave-na-mão” (turn key). Seus
lei prevê o aumento da mistura técnicos têm recebido muitas
ao óleo na proporção de 5%. consultas e, acredita-se que, a
Nesses níveis, não há necessida- partir de agora, muitos negócios
de de adaptação dos motores dos nessa área deverão se concretizar.
veículos. Ao contrário: segundo Além dos benefícios ambien-
os especialistas, com seu uso, o tais, por ser menos poluente, o
desempenho torna-se melhor, uso do biodiesel representará
devido a seu poder lubrificante. ganhos para a economia na-
Apostando no sucesso da cional, pois reduzirá as impor-
iniciativa, alguns postos de tações de diesel importado.
abastecimento de São Paulo e O programa foi criado pelo
Belo Horizonte, da empresa governo, também, como instru-
mineira Ale, começaram, em mento de inclusão social, pois,
2005, em caráter pioneiro, a com sua implementação, deverá

a força de um ideal 273

Capitulo11 273 11/4/05, 17:16


haver maior oferta de emprego fiscal para viabilizar o Programa
e aumento de renda para quem Nacional de Combustíveis. Hoje,
vive e trabalha no campo. o custo do combustível vegetal
Apesar de serem poucas, é equivalente ao do diesel
ainda, as usinas em funciona- derivado do petróleo, e isso
mento no país, espera-se grande não estimula os investimentos
expansão nesse setor. Especia- nesse campo. De acordo com a
listas afirmam que, caso o Brasil legislação em vigor que tributa
consiga implantar um programa o produto com altos impostos,
nacional para utilização do o bioetanol perde mercado até
biodiesel, deverá se tornar uma para o metanol importado.
Cervejaria Lokal, em
potência energética mundial, Em visita recente a Piracica- Teresópolis (RJ)

pois são quase ilimitadas as ba, em julho de 2005, o ministro


possibilidades de produção, e há da Agricultura, Pecuária e Abas-
muitos os países interessados na tecimento, Roberto Rodrigues,
tecnologia desenvolvida no país. reiterou sua confiança no sucesso
Essa iniciativa brasileira se dos combustíveis renováveis:
insere perfeitamente na recente “Tenho certeza de que a única saída é
tendência observada nas nações produzir combustíveis líquidos de origem
desenvolvidas. Na Europa, por vegetal”. E anunciou a criação,
exemplo, a previsão é de que, até em Piracicaba, do Consórcio
2010, 5,75% da energia fóssil seja de Agronegócios. O grupo
substituída pela renovável e, até envolverá todas as áreas ligadas
2020, 20%. A Agência Internacional à bioenergia, em uma integração
de Energia prevê que, até 2020, que pretende a criação de uma
cerca de 30% da matriz energética nova commodity: o biodiesel.
do planeta seja de biocombustíveis. Em apoio a essa tese, foi
Ainda, há, no entanto, anunciado, em agosto de 2005,
algumas dificuldades a serem que o governo federal estuda
vencidas para a expansão do mudanças na lei do biocombustí-
uso do biodiesel no Brasil. Essas vel para estimular o crescimento
barreiras são econômicas, e não da produção até 2008, quando o
tecnológicas. No momento Brasil deverá efetuar a mistura
atual, os empresários estão obrigatória de 2% ao diesel no
aguardando medidas de ordem mercado interno. Atualmente,

274 Dedini 85 anos

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276 Dedini 85 anos

Capitulo11 276 11/4/05, 17:16


Nos oito primei-
ros meses de 2005,
os anúncios de investi-

mentos em energia, tele-

comunicações, petróleo,

gás, transportes e logística

pelas empresas privadas

brasileiras ultrapassaram a

cifra de US$ 18,7 bilhões,

com crescimento de

quase 75% em relação ao

mesmo período do ano

anterior, mostrando que,

superada a crise, é hora

de retomar as expansões.

Vista geral da unidade