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Abdias do Nascimento: Quilombola ou Capitão-do-Mato?

Mário Maestri
Em Tempo, São Paulo, 3 a 16/07/1980
A desunião dos oprimidos foi sempre melhor arma dos opressores : nossa história
colonial é marcante exemplo. “Quando os senhores de escravos da Bahia - escreveu o
historiador Décio Freitas, em Insurreição escravas - se queixaram à Coroa pelo fato do
governador, conde de Arcos, permitir aos negros a prática dos seus rituais religiosos, ele
assim se justificou: “O governo […] olha para os batuques como para um ato que obriga
os negros […] a renovar as ideias de aversão recíproca que lhes eram naturais e que
todavia se vão apagando pouco a pouco com a desgraça comum […] pois que se uma vez
as diferentes nações da África se esquecerem totalmente da raiva com que a natureza as
desuniu e então os agomés vierem a ser irmãos com os nagôs, os gegês com os aussás
[…] grandíssimo e inevitável perigo então assombrara e desolará o Brasil […].” [Porto
Alegre: Movimento, 1976.]
A tendência à unificação nacional dos oprimidos do Brasil, que renasce com força
com as importantes lutas sindicais dos últimos tempos e se estrutura na luta pela unidade
política do classismo e por uma central única de trabalhadores, é vista, portanto, com
receio [das classes dominantes]. Tudo que dívida os trabalhadores será tentado. Fala-se
em desmembrar os sindicatos combativos. Na passada grande greve metalúrgica [1979], o
governo procurou jogar os pessimamente pagos contra os “privilegiados”, ou seja, os
somente mal pagos.
Como na Europa e nos Estados Unidos, onde se atiça o ódio racial entre os
trabalhadores para melhor dominá-los, no Brasil, a agitação racista será uma das grandes
armas da reação. E isto, para melhor enfrentar - e utilizar - o profundo descontentamento
e indignação das camadas populares afro-brasileiras, exploradas e discriminadas por
excelência. A importância do livro do prof. Abdias do Nascimento, O quilombismo,
apresenta e defende, sob um palavreado radical, os grandes argumentos com que se
procurara dividir os oprimidos no Brasil. [Rio de Janeiro: Vozes, 1980.]
Como contribuição científica ao estudo do escravismo ou do racismo no Brasil, o
livro é extremamente pobre. Podemos até dizer que é uma involução no relativo a
posições já alcançadas por honestos estudiosos, tais como, só para citar alguns, Edison
Carneiro, Manuel Querino, Clóvis Moura, Arthur Ramos, Luiz Viana Filho, L.A. Costa
Pinto, Décio Freitas, Vicente Salles, Jacob Gorender, Maurício Goulart. Todos eles, o sr.
Abdias, com pretensão quase messiânica, desconhece desdenhosamente. Vejamos, porém,
as idéias principais do professor.
A Revolução no Brasil: um grande pega pra capar racial
A grande tese do sr. Abdias é simples. No Brasil não existiria uma sociedade de
classes, mas sim racial. Os inimigos sociais não seriam explorados e exploradores,
trabalhadores e patrões. Seriam negros e brancos. “Um férreo e rígido monopólio do
poder permanece, no Brasil, nas mãos da camada ´branca´ minoritária, desde os tempos
coloniais […].” “O fator ´raça´ permanece, irredutivelmente, como fundamental
contradição dentro da sociedade brasileira.” [p.17]
Não existe outra solidariedade senão a racial. Trabalhadores brancos e negros,
mulatos e amarelos [sic], são, naturalmente inimigos. “No fim do século passado, os
imigrantes europeus chegaram ao pais e imediatamente passaram a usufruir as ´benesses´
do racismo: tomaram os lugares do negro recém-liberto da escravidão e rapidamente
ascenderam na escala social […].” “Que eu saiba, nunca houve qualquer solidariedade
dos trabalhadores do Rio ou de São Paulo aos negros operários discriminados. O que se
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pode constatar é o silêncio conivente dos trabalhadores bancos, que desde o século
passado se beneficiaram […].” [p. 171]
Contra o negro brasileiro existiria, também, uma conspiração racial. “O regime
branco procura seu aniquilamento. “Sob a lógica desse processo as massas negras do
Basil só têm uma opção: desaparecer. Seja aniquiladas pela força compulsória da
miscigenação-assimilação, ou através da ação direta da morte pura e simples.” [p.22]
Necessitariamos de uma revolução racial. Os negros devem “tomar posse e controle” do
país, claro está, em “fraterna igualdade e comunhão com os poucos índios brasileiros que
sobreviveram a idêntico massacre e espoliação racista […].” [p.23] Tomado o poder, se
instituiria um não bem explicado “comunalismo africano”. Para não ser mal interpretado
no seu “ismo”, o prof. Abdias ajusta as contas, de passagem com os marxistas e
socialistas. Estes, no Brasil, parecem ter “compartilhado, ativamente ou por omissão, no
processo de liquidação da raça negra […].” Pecado não específico aso socialismo
tupiniquim. Marx já se tinha provado uma espécie de racista e nazista quando “defendia”
a escravidão, pois a explicava como “pivô” da “revolução industrial”. [p.169.] O que
prova também ser Marx um capitalista, pois afirmava ser o capitalismo “pivô” do
socialismo!
O sr. Abdias só não diz quando proclamará o início deste pega pra capar racial, se
durante um curso em sua Universidade nos Estados Unidos ou no intervalo de alguma
recepção em uma embaixada neocolonialista africana, das quais é tão assíduo
frequentador.
Na defesa de suas teses, o sr. Abdias mistifica a história. Não houve exploração
racial em nossa história. Ela tomou, isto sim, aparências raciais. Nunca houve, no Brasil
ou na África, solidariedade de “pele”. O sentido da exploração colonial foi, sempre,
social. Só os oprimidos foram solidários [entre si] na luta contra os opressores. O
mercantilismo português, inglês, etc. nunca teve preconceitos de cor para alcançar lucros.
O africano - nos lembra Eric Williams, em Capitalismo e escravidão - foi preferido como
escravo, devido às vantagens econômicos que permitia, não por sua cor. [Rio de Janeiro:
CEAL, 1975.] Nas plantações inglesas, os primeiros servos foram os indígenas e,
terminados estes … o inglês pobre. O africano toma o lugar [dos últimos] porque era mais
“barato” e a mão-de-obra inglesa se fazia necessária na Inglaterra para lá ser …
duramente explorada. São mecanismos econômicos e sociais os que regeram a vida [do
Brasil] colonial e [imperial] e deram origem ao racismo moderno.
Na África nunca houve, também, solidariedade de cor. Os milhares de homens
arrancados do coração do continente eram levados aos entrepostos negreiros da costa
pelos senhores africanos que controlavam o “comércio” [de cativos]. Era aquela
aristocracia negra que dirigia e controlava o “comunalismo africano”, tão ao gosto do sr.
Abdias. A força dos senhores ashantis, do reino do Kongo, de uma rainha Nzinga Mbundi
- a Ginga de Angola - e inúmeros outros, se assentava, portanto, sobre o sofrimento e a
miséria do africano escravizado. A história nos mostra que os escravistas europeus - os
grandes responsáveis por aquele genocídio - encontraram sempre cúmplices e associados
nas capas senhoriais africanas. Ontem e hoje.
Escravismo, racismo e mistificação histórica
As loas que levanta o sr. Abdias à condição e ascensão social do imigrante no
Brasil são inconsequentes. Repete, ponto por ponto, as mitologias da historiografia
tradicional [conservadora]. Esquece nosso professor que, para cada trabalhador [euro-
descendente] que alcançou a elevar-se sobre as condições de sua classe e passar a
explorá-la, existiram centenas [de outros] vivendo a miséria brasileira. Os imigrantes
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foram “importados” para serem explorados no lugar do escravo [já numericamente
insuficiente]. É certo que eles tomaram, em alguma medida, o lugar do ex-escravo. Mas
em outro sentido. O escravismo já desorganizara o ex-escravo para o trabalho livre. Para
ele, trabalhar, era sinônimo de condição servil. Em grande quantidade, [no campo], [ali
onde puderam], preferiram, nos primeiros tempo, se marginalizar e viver uma economia
de subsistência, do que trabalhar como assalariados.
As diatribes do prof. Abdias contra os marxistas poderiam ser parte do modismo
acadêmico europeu e norte-americano que acha de bon ton vilipendiar tais filosofias
depassées. Porém, trata-se de algo mais sério. O “quilombismo” de Abdias leva,
efetivamente, à desunião dos oprimidos e ao fortalecimento dos opressores. Os operários
negros devem, [segundo ele], se organizar independentemente. Deve existir solidariedade
entre negros explorados e negros exploradores. A estocada contra o socialismo
completaria o sistema. Incompatibilizaria a vanguarda negra com as de outros setores
sociais em luta [não-negros].
Esta estratégia sui-generis permitirá, no máximo, a ascensão social individual de
alguns intelectuais, políticos, [profissionais] e funcionários negros. Eles terão assim seus
bons serviços - a divisão das forças sociais - reconhecidos pelo regime [burguês]. Aí está
o caso dos Estados Unidos. Estas novas “elites” negras, só se diferenciarão dos negros
que, no passado, alcançaram, individualmente, a se elevar socialmente, pela possibilidade
de manterem a cor da pele. Anteriormente, os afro-brasileiros que penetravam os quadros
sociais dominantes deviam, [como todos os intrusos], renegar as suas origens e vínculos
populares. No caso do negro, tratava-se de renegar a pele. Em uma ou duas gerações
branqueavam. Essas novas “elites”, ao contrário, deverão manter-se negras, na pele. Se
não, perderão o emprego.
As classes populares negras, como todos os oprimidos no Brasil, aceitam cada vez
menos a situação de opressão e miséria que lhes são votadas. As sequelas e humilhações
racistas, heranças de um passado escravista, tornam tudo isso ainda mais inaceitável. No
passado, como no presente, o povo negro deu os mais brilhantes exemplos de heróica
resistência contra a opressão. Mesmo quando lutaram quase completamente isolados.
Hoje, ao seu lado, se encontram os milhares de deserdados - de todas as cores - que pariu
nossa sociedade de classes. Finalmente, o afro-brasileiro [explorado] não se encontra
mais isolado.
O prof. Abdias [aponta], sem dúvida, um caminho para as elites negras. É hoje
conhecido acadêmico, professor, escritor, conferencista necessário de todos os encontros
africanistas internacionais. Outro caminho seria o do mulato quase gigante [Carlos
Marighella], que, há poucos anos deixou - sejam quais forem nossas divergências com
sua concepção [de luta] - o seu nome marcado a ferro vivo nos corações da esquerda e
vanguardas populares brasileiras. Um outro caminho, mais sofrido, divergente. Mas quem
melhor que ele merece o nome de quilombola!
Nas florestas e brenhas distantes do Brasil colonial resistiram milhares de
quilombos. Era costume das forças repressivas enviar, antes de atacá-los, um negro
intitulando-se quilombola, na busca de informações. Quando os caçadores ou vigias de
um reduto se encontravam com um negro dizendo-se fugido, possivelmente se estabelecia
um momento crítico de [enorme] tensão. Era questão de vida ou morte para o quilombo
saber, antes de abrir-lhe as portas da paliçada, se sob a sua falação, as histórias [que
contava], sua pele, encontrava-se um quilombola ou um capitão-do-mato.

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Procederam-se pequenas correções de forma. Termos introduzidos no texto, para
melhor compreensão, encontram-se entre colchetes. Este artigo foi publicado, em
1980, quando da ditadura militar.

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