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ntrodução

A Constituição da República Federativa do Brasil (1988) estabelece que a família é a “base da sociedade” e
“tem especial proteção do Estado” (art. 226). A redação afirma, ao longo do documento, a preocupação com a
garantia dos direitos da criança e do adolescente, enfatizando o dever do Estado de garantir mecanismos que
possibilitem a manutenção da família nos diversos âmbitos da vida: saúde, educação, lazer e cultura,
assegurando desenvolvimento integral a salvo de quaisquer situaçõesde negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão (art. 227).

Na mesma direção, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), lei sancionada em 1990 com o objetivo de
dispor sobre a proteção integral à criança e ao adolescente, preconiza que “toda criança ou adolescente tem
direito a ser criado e educado no seio da sua família” (art. 19). Tais legislações vigoram no Brasil a partir do
entendimento de que o cotidiano da família, com sua dimensão afetiva, social e educacional, é o espaço
propício para o desenvolvimento saudável da criança e do adolescente.

Entretanto, também está prevista pela mesma lei a possibilidade de afastamento da criança e do adolescente
do convívio familiar. Visto como situação de exceção, o afastamento é colocado como medida de proteção nas
situações em que os direitos das crianças estejam ameaçados ou forem violados (art. 98). Entendidos como
medidas provisórias e excepcionais, o acolhimento institucional e o acolhimento familiar (art. 101) são
estratégias definidas e reguladas pelo ECA visando não só à retirada da criança do convívio cotidiano da família
natural, mas, principalmente, visando garantir o direito ao desenvolvimento pleno, saudável e digno, a salvo de
violações.

No que diz respeito ao acolhimento institucional,

[Ainda que] o Estatuto da Criança e do Adolescente tenha determinado que a colocação de crianças e
adolescentes em abrigo é uma medida de proteção que se caracteriza pela provisoriedade, persistem as
contradições que não são superadas pela simples definição legal (SILVA e MELLO, 2004, p. 28).

Nesse sentido, o presente artigo tem como objetivo compreender historicamente a emergência de práticas e
discursos que possibilitaram os arranjos político-institucionais de acolhimento de crianças e adolescentes da
maneira como se configuram na atualidade. Trata-se de práticas que têm se mostrado seletivas, na medida em
que veremos o quanto elas têm se direcionado a determinado grupo social, e de falhas em sua execução, já
que as ações direcionadas à reintegração familiar não têm se efetivado da maneira prevista.

O acolhimento institucional de crianças e adolescentes: a realidade em números


No ano de 2003, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a partir de solicitação da Secretaria
Especial de Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, desenvolveu o Levantamento Nacional de
Abrigos para Crianças e Adolescentes da Rede de Serviços de Ação Continuada do Ministério do
Desenvolvimento Social (Rede-SAC/MDS). Para a construção do referido levantamento foi feita uma
caracterização de cerca de 20 mil crianças e adolescentes em situação de acolhimento em 589 instituições em
todas as regiões brasileiras, número que representa 88% das que recebiam recursos da Rede-SAC.

Os dados revelados pela pesquisa em tela retratam uma realidade que difere daquela idealizada pela Lei.
Constata-se que o motivo mais frequente para a situação de abrigamento é a pobreza (24,2%) e que a maioria
dessas crianças e adolescentes é negra (63,6%). Outros motivos de abrigamento que devem ser ressaltados
são: o abandono (18,9%); a violência doméstica (11,7%); a vivência de rua (7,0%). O Levantamento nos mostra
que, embora camuflada, é a pobreza que está por trás das situações citadas. Ao contrário do que está previsto
em lei, são os filhos de famílias pobres que continuam a ocupar esses lugares, são as crianças e adolescentes
pobres e negros que estão nos abrigos. As famílias negras e pobres permanecem submetidas aos processos
de desqualificação por sua condição econômica e social, e seus filhos vão para essas instituições por meio de
laudos e pareceres de especialistas, como mostram Nascimento, Cunha e Vicente (2008).

A pesquisa aponta dados específicos relacionados à garantia do direito à convivência familiar e social. Verifica-
se que apenas 6,6% das instituições pesquisadas promovem a preservação dos vínculos com a família de
origem; 14,1% das instituições apoiam a reestruturação familiar; 23,8% incentivam a convivência com outras
famílias; 14,9% guardam semelhança residencial; 34,1% possibilitam participação na vida da comunidade local;
18,5% garantem participação de pessoas da comunidade no processo educativo. Estes dados tornam-se ainda
mais alarmantes quando se constata, no mesmo Levantamento, que 86,7% dos que estão em acolhimento
institucional possuem família e que apenas 5,8% estão impedidos judicialmente de contato com os familiares.
Na mesma linha de raciocínio, pesquisa feita em João Pessoa – PB no ano de 2005 em 17 instituições
(Almeida, 2008) identificou que, dentre as 487 crianças e adolescentes acolhidos institucionalmente, 51,3%
eram pardos e 18,1%, pretos; que a pobreza é o motivo mais recorrente para o acolhimento (23,8%); e que sua
maioria possui família natural identificada (77,4%). Verificou-se ainda que aproximadamente 70% da população
infanto-juvenil acolhida vive há mais de dois anos nessa condição – um contingente mais alarmante que a
média nacional apresentada pelo Levantamento Nacional de Abrigos (2005), realizado pelo IPEA, no qual se
constatou que mais de 50% dos 20 mil abrigados já se encontravam nessa situação há mais de dois anos. De
acordo com esses dados, as instituições, tanto em João Pessoa como a nível nacional, parecem contrariar a
legislação, uma vez que o ECA, no seu artigo 19, parágrafo segundo, determina que a permanência em
programa de acolhimento institucional não deve se prolongar por mais de dois anos.

Os dados obtidos através da pesquisa do IPEA e da pesquisa em João Pessoa indicam que as crianças não
estão acolhidas em instituições por terem sido abandonadas pela família de origem, por exemplo. Além disso,
importa salientar que, historicamente, é um determinado perfil de grupo social que ocupa essas instituições,
como mostra Lima (2007) ao trazer as raízes históricas da institucionalização de crianças e adolescentes nos
períodos colonial, imperial e republicano. Se o problema da institucionalização não é, como podemos perceber,
simplesmente a falta de uma família ou de leis específicas que amparem o direito à convivência familiar, qual
seria o problema?

Na Lei o direito está positivado, os cuidados com a proteção à infância mostram-se democráticos e atrelados
aos ideais dos direitos humanos. Entretanto, apesar de já se passarem duas décadas, o ECA ainda não atingiu
plenamente a realidade do cotidiano brasileiro. Em relação a isso, Bobbio (2004) aponta que o reconhecimento
dos Direitos Humanos está claro, justificado e acordado em nossa sociedade. O necessário agora é proteger
esses direitos, saber qual o modo mais seguro para garanti-los, construir uma cultura dos Direitos Humanos.

O acolhimento institucional precisa ser compreendido como uma prática que ganha seus contornos nos
processos históricos que possibilitaram a sua emergência e nos discursos que legitimam sua manutenção. O
modo como tal estratégia funciona (ou não) nos dias atuais deve ser colocado nessa rede de relações para que
compreendamos as engrenagens que a sustentam e que podem e devem ser transformadas para a efetivação
da garantia dos direitos das crianças e adolescentes em nosso país.

É preciso ressaltar que a história da institucionalização de crianças e adolescentes no Brasil está marcada pela
privação do contato familiar e social sob o discurso de desqualificação da família (pobre), e marcada pelo
desenvolvimento de políticas assistencialistas que tinham como pano de fundo a contenção e o controle social
(NASCIMENTO, CUNHA e VICENTE, 2008). O questionamento a essas práticas e discursos contribuiu para
tornar o direito de convivência um dos direitos fundamentais na nova legislação e ponto fundamental para as
atuais diretrizes nesse campo de ação social. Cabe-nos questionar que processos históricos operam na
manutenção desse contexto.

Raízes históricas da justiça e da proteção à infância no Brasil


No Brasil, desde o período colonial, registra-se o abandono de crianças nas portas de igrejas, conventos, ruas e
residências. Para acolhê-las e assisti-las, foram implementadas ações de inspiração religiosa, dentre as quais
pode ser citada a iniciativa formal da implantação da Roda dos Expostos, dispositivo colocado nos muros das
Santas Casas de Misericórdia. As Rodas dos Expostos foram uma das modalidades de mais longa vida,
sobrevivendo aos três grandes regimes de nossa História. Criada no Brasil Colônia, perpassou e multiplicou-se
no período imperial, conseguiu manter-se durante a República e só foi extinta definitivamente na década de
1950, sendo talvez o Brasil o último país a abolir esse sistema (MARCILIO, 2011; ARANTES, 2011).

O estabelecimento destinava-se à proteção dos bebês abandonados e ganhou esse nome porque em seus
muros era instalado um mecanismo em forma de cilindro que rodava por um eixo vertical, cuja abertura ficava
virada para a rua, permitindo a entrada de crianças e mantendo anônima a pessoa que ali depositava o
enjeitado. Nesse momento da história, o atendimento à criança abandonada era marcado por uma assistência
predominantemente caritativa, fase esta que durou até meados do século XIX (BULCÃO, 2001).

Foi a partir do século XIX que se iniciou no Brasil uma forte campanha para a abolição da roda dos expostos. O
movimento partiu inicialmente dos médicos higienistas: horrorizados com os altos níveis de mortalidade infantil
no país, pregavam a extinção dessa modalidade de acolhimento de crianças, em função de sua característica
caritativa e desvinculada de preceitos científicos. Porém, esse movimento não foi suficiente para extingui-las: as
mais importantes sobreviveram no século XX (MARCILIO, 2011; RIZZINI & RIZZINI, 2004).

O movimento higienista no Brasil era formado por uma elite científica – médicos, pedagogos, juristas,
arquitetos/urbanistas, entre outros – que acreditava ter a missão de construir uma “Nação moderna” e para isso
deveria efetuar medidas que promovessem um “saneamento moral” do país (COIMBRA & NASCIMENTO,
2005). Pautados em teorias racistas, eugênicas e no darwinismo social, tais especialistas buscavam inserir-se
no cotidiano da cidade, das famílias e das instituições promovendo as ideias de higienização e modernização
do país como garantia de “ordem e progresso”.

As origens dessa forma de pensamento higienista podem ser encontradas nas mudanças da Idade Média para
a Moderna, do homem do feudalismo para o do capitalismo, do rural para o urbano. Fatores como a erradicação
da escravatura e migrações no campo contribuíram para um inchaço nas cidades e para a saturação no
mercado de trabalho. Segundo Santos (2010), observou-se, assim, o surgimento ou agravamento de crises
sociais que antes eram pouco relevantes no cotidiano da cidade e o consequente aumento da ocorrência de
crimes. Os chamados “menores” estavam nas fábricas, mas também perambulando pelas ruas, envolvendo-se
muitas vezes em atos ilegais. A transição do trabalho escravo para o trabalho livre cria o discurso da vadiagem,
a qual é vista como perigosa porque está desatrelada da ordem, do controle. Assim, o pobre passa a ser
considerado um perigo que precisa ser contido por meio de medidas como correção, internamento e
judicialização da infância e adolescência pobres.

É nesse contexto que tem início as práticas higienistas e normalizadoras das cidades e de seus habitantes, o
que contribuiu para as separações institucionalizadas de categorias de pessoas. A ideia de cidade organizada,
para os higienistas, correspondia a uma cidade livre dos dejetos e impurezas. Assim, “seria preciso intervir nos
amontoados de pobreza (…), naturalizar a relação entre sujeira física e moral e, finalmente, tornar correlatas as
noções de pobreza, sujeira e perigo social” (LOBO, 2003, p. 308). Esses elementos começaram a incidir sobre
a criança pobre no final do século XIX. Dessa forma, quando as crianças nascidas em situação de pobreza e/ou
em famílias com dificuldades de criarem seus filhos buscavam apoio do Estado acabavam quase sempre sendo
encaminhadas para instituições como se fossem órfãs ou abandonadas (LOBO, 2003; RIZZINI, 2004).

Em nome da preservação da saúde pública, os médicos higienistas invadiam o espaço privado dos pobres para
“desinfecção”. Mecanismos de repressão como esse produziam a culpabilização do pobre pela exclusão a que
estava sujeito, por causa de sua miséria moral e material, pelo atraso da nação e por ser foco de moléstias que
contagiavam a sociedade (Lobo, 2003).

O movimento higienista no Brasil atingiu seu apogeu nos anos 1920, com a criação da Liga Brasileira de
Higiene Mental por Gustavo Riedel. Entre os médicos representantes desse movimento, destacaram-se o
pediatra Moncorvo Filho, responsável por projetar um modelo de proteção com base na implementação da
educação higiênica, e os psiquiatras da Liga Brasileira de Higiene Mental. Já entre os juristas, destacou-se
Evaristo de Moraes, grande incentivador de uma legislação específica para “menores” e da criação de casas de
preservação e reforma de “menores abandonados e delinquentes” (COIMBRA & NASCIMENTO, 2005;
ZANIANI & BOARINI, 2011).

A iniciativa de médicos, posteriormente seguida por outros profissionais, de promover a higienização das
famílias e tê-las como alvo principal em seu projeto saneador, legitimava-se por seu intuito de proporcionar uma
maior racionalidade à assistência através da intervenção do Estado.

O discurso de proteção à infância baseado no modelo da educação higiênica propagado nesse período colocou
em prática ações e/ou estratégias de criminalização e medicalização da pobreza para concretizar seus fins.
Como esclarece Rizzini (2008): “Para se ter como moldar a criança com propósito de civilizar o país, era preciso
primeiro concebê-la como passível de periculosidade” (p. 140).

Nesse sentido, a atuação de médicos e juristas ocorreu de modo complementar: a intervenção junto à criança
pobre e sua família, a possibilidade da transferência do pátrio poder da família para o Estado – sendo que, no
caso das crianças abandonadas, restava a tutela do Estado – e o complexo aparato jurídico-assistencial
encarregado de educá-las e contê-las.

A normatização das famílias, a intervenção do saber especialista nas “casas para menores” antes monitoradas
exclusivamente pela Igreja Católica, a fundação de novas instituições destinadas à criança abandonada, o
amplo debate sobre uma legislação destinada às questões da infância que se adequasse aos interesses
vigentes foram alguns dos acontecimentos que tinham a infância como foco, alvo do interesse nacional.

Os debates que giravam em torno dos “menores de idade”, nos meios médicos e jurídicos, possibilitaram os
contornos dados à primeira legislação: o Código de Menores de 1927. Assim, destaque-se que, em seu Artigo
1º, o Código define para que público está voltado: o menor abandonado ou delinquente, definindo também suas
medidas de assistência e proteção (RIZZINI, 2009).

Criado no círculo jurídico, os primeiros empregos do termo “menor” se deram após a Proclamação da
Independência, quando “menor e menoridade foram utilizados por juristas na determinação da idade, como um
dos critérios que definiam a responsabilidade penal do indivíduo pelos seus atos” (LONDOÑO, 1992, p. 130).
Nesse sentido, houve uma judicialização da infância: o termo “menor” passou a fazer parte de um discurso que
se referia à criança pobre, que por sua situação social era alvo de preocupação: ora por ser considerada
virtualmente perigosa, ora por ser um estorvo social. Também a categoria “delinquente” fazia parte desse
discurso; segundo Foucault (1975/2010), não seria tanto seu ato quanto sua vida o que mais o caracterizaria.
Há a produção de um caráter delinquente, de um criminoso, antes do crime. Procuram-se na história de sua
vida as inclinações perigosas de sua organização e as predisposições nocivas de sua posição social. De acordo
com Silva Júnior e Andrade (2007), o saber do especialista ganhou espaço no meio jurídico, justificando a
intervenção do Estado junto aos considerados desviantes; estes eram alvo de disciplinarização e para eles
eram reservadas a reeducação, a preparação para o trabalho e a internação.

É nesse contexto que os discursos de desqualificação da família pobre (que estava entre os considerados
desviantes), o fortalecimento do saber e da intervenção especialista para normatização das famílias e da
infância e, ainda, a criação das primeiras instituições de abrigamento tornam-se elementos primordiais para a
compreensão da naturalização da prática de internação de crianças e adolescentes.

Nas três primeiras décadas do século XX houve, em todo o país, a criação de instituições para atender aos
menores abandonados e delinquentes. No que diz respeito à assistência pública, foram décadas com propostas
semelhantes, que enfatizavam a centralização dos serviços, o controle do Estado sobre eles e a aliança dos
setores públicos e privados na execução do atendimento.

Uma dessas instituições foi o Instituto de Proteção e Assistência à Infância no Rio de Janeiro. Fundada em
1901, tratava-se de uma entidade filantrópica que previa a proteção das crianças “material e moralmente
abandonadas”, o combate à mendicância e o fomento à criação de maternidades e creches. Outro exemplo é o
Pavilhão-Escola Bourneville (1903), criado dentro do Hospício Nacional de Alienados, o primeiro serviço
organizado de assistência a “crianças anormais” (ZANIANI & BOARINI, 2011).

Nesse contexto foram criados também os centros agrícolas e as escolas correcionais. Os centros ou patronatos
agrícolas respondiam a uma dupla função: a regeneradora e a formativa, porém a ênfase maior era dada na
regeneração. Estavam direcionados a uma clientela pobre, numa época em que a pobreza era vista como
empecilho à modernização do país (OLIVEIRA e ROCHA, 2006; NERY, 2006).

As escolas correcionais representaram a entrada do Estado na área da educação dos chamados “desvalidos”,
que até então era de responsabilidade da Igreja. A primeira escola no Brasil foi criada em 1898 com a finalidade
de dar educação física, profissional e moral aos menores abandonados e recolhidos ao estabelecimento por
ordem das autoridades competentes. As outras escolas correcionais implantadas depois no Brasil seguiram a
mesma finalidade (MÜLLER e BAZÍLIO, 2006; CUNHA, 2007).

De uma visão regeneradora e correcional, com foco na repressão à ociosidade, passou-se, da segunda década
do século XX até o surgimento do Serviço de Assistência a Menores – SAM, em 1941, a uma visão de cunho
assistencialista/paternalista. A criança continua sendo objeto de políticas públicas, mas há um discurso de
proteção à infância, pois salvar a criança significaria salvar o futuro do país. Cresceu a demanda por
internações e começaram a surgir problemas de superlotação (RIZZINI e PILOTTI, 2009).

Criado no governo Vargas (1930 - 1945), o SAM foi um órgão federal responsável pelo controle da assistência
pública e privada, em escala nacional. Herdou o modelo e a estrutura do Juízo de Menores, atendendo aos
“menores abandonados” por meio do encaminhamento às instituições oficiais e particulares, em um contexto de
estreitamento da relação entre os setores público e privado. Entretanto, o órgão foi tomado por relações
clientelistas, abusos e corrupções: recursos foram distribuídos sem fiscalização rígida e verbas foram
desviadas, nunca chegando a beneficiar as crianças.

Com as diversas críticas ao SAM, surge em 1964 uma nova instituição, a Fundação Nacional do Bem-Estar do
Menor – FUNABEM, bem como uma nova política: a Política Nacional de Bem-Estar do Menor (PNBEM). Sua
tônica era de valorização da vida familiar e da “integração do menor na comunidade” e trazia um discurso de
que só se deve recorrer à internação em último caso. Todavia, a despeito de seu discurso, durante sua
existência foi bastante difundido o modelo do internato de menores e houve intensificação da prática de
recolhimento de crianças na rua (Rizzini e Rizzini, 2004).

Após décadas de debates e formulação de diversos anteprojetos, foi aprovada a Lei nº 6.697, de 10 de outubro
de 1979, que estabeleceu o novo Código de Menores, o qual se destina aos menores em “situação irregular”,
que era, portanto, objeto de medidas. Estar irregular é, conforme o Código, entre outras coisas, a
impossibilidade de os pais proverem condições essenciais à sua subsistência e à de seus filhos, concepção não
muito diferente da vigente no Código de 1927 (SCHEINVAR, 2002).
Este novo Código de Menores teve vida curta, pois suas determinações seriam consideradas arbitrárias fora de
um regime ditatorial. Com a redemocratização do país, um dos setores da sociedade que emergiu, se fazendo
ouvir através de denúncias e propostas, foi o da militância em prol da infância e da juventude. Reivindicava,
principalmente, o status de sujeitos de direitos para crianças e adolescentes e, consequentemente, mudanças
na concepção do atendimento a eles dirigido.

Em fins da década de 1980, as demandas dos movimentos foram ouvidas, contempladas na Carta
Constitucional de 1988 (art. 227) e consolidadas em 1990, na forma de uma legislação específica sobre o tema:
o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, promulgado como a Lei Federal nº 8.069, de 13 de julho de
1990 (FRANCISCHINI e CAMPOS, 2005).

O ECA instaura a Doutrina da Proteção Integral e com ela é introduzida a obrigatoriedade de garantia de
direitos das crianças e dos adolescentes e de afirmação de sua cidadania. Nesse sentido, o ECA trata das
atribuições do Estado e do papel da família e da sociedade em relação a eles, o que pode ser lido em seu artigo
4º:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta


prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, além de deixá-los a salvo de
toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1990).

O ECA defende também o direito ao convívio familiar e comunitário e finda com a tradição do “menor”, expressa
no Código de Menores de 1927, e com a Doutrina da Situação Irregular, presente no Código de 1979 (RIZZINI
& RIZZINI, 2004).

Entretanto, conforme Ayres, Cardoso e Pereira (2009):

Tal redirecionamento das políticas públicas no que tange à infância e juventude, ainda que propusesse
uma mudança na lógica de proteção, agora vinculada à garantia dos direitos humanos e da cidadania,
permanece no viés da assistência, da vitimização. Esse pensamento coincide, temporalmente, com o
neoliberalismo, com a lógica do chamado Estado mínimo nas questões sociais, o que acaba por abrir
um fosso entre o que há na lei e o que acontece nas práticas cotidianas. (p. 130)

A constatação das autoras indica o quanto a realidade contemporânea está marcada pelas estratégias
montadas pelo Higienismo do início do século XX e que, nos dias de hoje, ganha nova roupagem em função do
contexto histórico marcado pelo neoliberalismo, não só em sua dimensão econômica, mas política, social e
subjetiva. Transcorrido mais de um século entre aquele momento e os dias atuais, a desqualificação da família
pelo discurso especialista, a legitimação da intervenção deste naquela, a lógica assistencialista e a ausência do
Estado na efetivação de políticas públicas que garantam acesso aos direitos básicos permanecem como alguns
dos ingredientes que perpassam as relações entre o que está na Lei e o que efetivamente acontece no
cotidiano de crianças, adolescentes pobres e suas famílias. Em jogo nesse contexto está o lugar do
especialista, sobretudo o do psicólogo.

O acolhimento institucional na atualidade e os processos de subjetivação


Entre os discursos que circulavam nos meios médicos e jurídicos, o de classe perigosa ou do pobre como
sendo perigoso somou-se à noção de virtualidade e colaborou para sustentar uma série de justificativas sobre a
legitimação de ações de desqualificação da família pobre pelo discurso especialista. Contar com o respaldo
científico do conhecimento “Psi” e de suas técnicas de mensuração tornou-se uma das estratégias de sucesso
para controle dos indivíduos (FOUCAULT, 1984/2011; NASCIMENTO, CUNHA e VICENTE, 2008).

A lógica da “boa vontade” que, ainda nos dias de hoje, maquia-se sob o discurso de proteção, particulariza e
individualiza a situação de pobreza, servindo para culpabilizar os sujeitos à margem da lógica do capitalismo
pela sua situação de vida, retirando da análise toda a construção histórica e social da exclusão dessas pessoas
(NASCIMENTO e SHEINVAR, 2005).

A desqualificação das famílias pobres cria, por consequência, uma lógica de que as instituições do Estado ou
famílias mais abastadas são mais competentes para criar as crianças e adolescentes, tanto que as primeiras
acabam supondo não ter condições de criá-las. Os processos de adoção-pronta são exemplos disso. Ayres
(2010), em seu estudo sobre esses processos, aponta que, nos discursos produzidos pelos laudos dos
especialistas, as mães biológicas são vistas como “mães desnaturadas”, ditas com comportamentos levianos
que não correspondem à figura de uma boa mãe; enquanto as mães adotivas são ditas como “mães afetuosas”,
enaltecidas com qualidades positivas, colocadas como de natureza responsável e solidária.
Nesse tipo de situação, a violação de direitos – a que essas famílias pobres, que abrem mão de seus filhos, são
submetidas cotidianamente, e que inviabiliza uma vida digna – não é colocada em jogo. A entrega do filho para
a adoção é analisada fora do contexto social, sem nenhuma problematização, e considerada como abandono e
escolha, um ato individual de desistência da maternidade. Não se vê que os fracassos familiares são também
fracassos sociais; as famílias que “abandonam” seus filhos são também famílias abandonadas (AYRES, 2010;
MELO, SANTOS, OLIVEIRA e FREITAS, 2013).

Pautados na mesma lógica da desqualificação, os discursos de proteção justificam a exclusão e o sofrimento de


famílias pobres quando da necessidade do acolhimento institucional. Segundo Silva e Aquino (2005):

(...) para além das restrições financeiras, materiais e de recursos humanos enfrentadas cotidianamente,
ainda é muito presente entre as entidades de abrigo a percepção de que, havendo problemas familiares,
o melhor lugar para crianças e adolescentes é a instituição, onde podem “ter melhores condições de
vida”. Isto acaba resultando em certa “apropriação” desses meninos e meninas pelos abrigos e na
ausência de preocupação com a promoção de seu direito à convivência familiar e comunitária. (p. 192)

Uma vez acolhidos institucionalmente, essas crianças e adolescentes enfrentam diversos desafios: a separação
comumente abrupta da família de origem, a inserção em ambiente institucional, a incerteza quanto ao futuro.
Quando há destituição do poder familiar, vivenciam o luto e a expectativa de uma adoção. A tudo isso se soma,
na maioria dos casos, uma história pregressa caracterizada por negligência e violência e um contexto de
acolhimento marcado pelos problemas da má administração pública (MELO et al, 2013). Todos esses fatores
terão repercussões nos seus processos de subjetivação.

De acordo com Rizzini e Rizzini (2004), em alguns casos, as instituições de acolhimento são vistas como
espaços de revitimização, pois se caracterizam por uma intervenção coercitiva, tendendo a negar a vontade das
crianças e adolescentes abrigados. Tais instituições possuem características como o atendimento a uma faixa
etária predeterminada; número de crianças superior ao limite; estrutura física geralmente não adequada a seu
fim.

Diferentes estudos apontam práticas e características observadas em crianças que estão em acolhimento
institucional. Marques e Czermak (2008), por exemplo, apresentam práticas existentes no acolhimento
institucional que aniquilam/sufocam a singularidade e a criatividade. Segundo os autores, as residências de
acolhimento, previstas para substituir as grandes instituições de abrigamento, expõem nos detalhes de seu
cotidiano os vestígios de herança do modelo anterior:

Outro resquício das Instituições Totais, presente ainda hoje, é o recebimento de tudo pronto e
padronizado, como a comida, as roupas, os materiais escolares. Os abrigados não passam pela
experiência de escolher a comida; na hora do almoço, são obrigados a comer até o que não gostam,
devido às recomendações da equipe de nutrição; não escolhem roupas, não escolhem praticamente
nenhum dos objetos que irão acompanhá-los no dia a dia. Em algumas casas, nem sequer se servem
da comida nos próprios pratos. São situações como essas que massificam e prejudicam a emergência
de singularidades (p. 04).

Na mesma linha de raciocínio, Cabral, Francischini e Cid (2012) argumentam que o abrigo, com suas rotinas
preestabelecidas e dissolução de singularidades, acaba por habituar as crianças a imposições vindas do
exterior, de modo que as mudanças passam a ser incorporadas sem questionamento. Brito e Anthony (2010),
estudando o funcionamento psicológico de crianças em situação de acolhimento, afirmam que elas recorrem a
mecanismos defensivos para se proteger dos sentimentos de desamparo, insegurança e rejeição. Segundo as
autoras, crianças abrigadas precocemente podem apresentar falta de confiança própria e nos outros, falta de
autodomínio institucional e dificuldades para formar vínculos afetivos.

Pode-se perceber, a partir desses estudos, que o acolhimento institucional tem efeitos no processo de
subjetivação das crianças e adolescentes acolhidos/abrigados. Por meio da leitura de Foucault (1979/2007;
1982/2011), compreende-se que o processo de subjetivação une o externo e o interno, segundo uma
multiplicidade histórica, que surge na confluência de aspectos políticos, econômicos, sociais; e a
institucionalização é uma das ferramentas utilizadas para a construção do sujeito. Vivendo em um contexto
institucional, essas crianças e adolescentes têm seus processos de subjetivação formados a partir da norma, do
controle, da vigilância e do abafamento da singularidade, o que pode criar pessoas que internalizam imposições
e discursos, atuando com pouca autonomia na sociedade.

Considerações Finais
O presente artigo se propôs a compreender historicamente a emergência de práticas e discursos que
possibilitaram os arranjos político-institucionais do acolhimento de crianças e adolescentes da maneira como se
configuram na atualidade.

Foi possível perceber a existência de discursos de desqualificação da família de origem para sustentar o
controle, a institucionalização, o acolhimento. Percebeu-se também a permanência, na realidade
contemporânea, de estratégias montadas no início do século XX, como a lógica assistencialista e a ausência do
Estado na efetivação de políticas públicas. As práticas de acolhimento têm se mostrado seletivas e falhas em
sua execução, além de camuflarem, em nome do cuidado e da proteção, práticas de sufocamento da
singularidade e da criatividade, produzindo subjetividades controladas, determinadas, pouco autônomas.

Conhecer os processos históricos que embasam o surgimento dessas práticas e compreender os discursos que
as sustentam possibilita uma problematização e uma atuação, enquanto psicólogos, no sentido da garantia dos
direitos das crianças e adolescentes, oportunizando a autonomia e a singularidade.

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[1]
Segundo Coimbra (2001) o neoliberalismo em algumas palavras pode ser descrito assim: “Estado
mínimo, livre mercado, livre comércio, privatizações, marketing, rotação rápida, capitalismo financeiro,
isolamento tecnocrático, cultura-mercado, dentre outros”.

Referências
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Autores
Leilane Cristina Oliveira Pereira, Mestre em Psicologia, doutoranda do PPGPsi/UFPB, professora da Faculdade
Santa Maria – FSM.

Tâmara Ramalho de Sousa Amorim, Mestre em Psicologia, doutoranda do PPGPsi/UFPB.

Renata Monteiro Garcia, Mestre em Psicologia Social, doutoranda do PPGPsi/UFRN, professora do


Departamento de Educação/UFPB. regarciapsi@hotmail.com

Maria de Fátima Pereira Alberto, professora doutora, Departamento de Psicologia, Programa de Pós-graduação
em Psicologia Social/UFPB.

Nelson Gomes de Sant’Ana e Silva Junior, Mestre em Psicologia, doutoranda do PPGPsi/UFRN, professor do
Departamento de Ciências Jurídicas/UFPB.