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TESTEMUNHO DE CONVERSÃO

Meu nome é Arthur Olinto, 27 anos, Administrador, natural de João Pessoa,


capital da Paraíba. Meu email é olintoarthur@gmail.com. Escrevo esse relato sobre
minhas convicções religiosas, especialmente sobre o meu processo de conversão do
protestantismo ao catolicismo, a pedido do meu amigo Lucas Cavalcante. Também,
estendo o convite à leitura desse relato aos meus amigos e a todos que, por ventura,
venham a me questionar a respeito dos porquês de eu ter abandonado o
protestantismo em que fui educado com tanto zelo.
Embora eu tenha 27 anos, a expectativa médica era que eu vivesse apenas
12 anos (devido a minha deficiência, a síndrome de Conradi–Hünermann1). Como
primeiro neto do lado materno, cheguei a este mundo cercado de alegria e cuidado.
Apesar da minha limitação física, meus pais não me educaram embebido num
vitimismo, mas estimularam, desde cedo, a minha capacidade intelectual. Na minha
pré-adolescência, por exemplo, aprendi a jogar xadrez, obtendo êxito em vários
torneios a nível municipal, estadual, regional e nacional. Desde cedo, fazia muitas
viagens por causa do xadrez, o que me proporcionou conhecer as cinco regiões do
Brasil e dois países (Argentina e Paraguai). Foi nesse meio, cheio de amor familiar,
com os mimos de primogênito que cresci, alçando voos a cada dia maiores.
No âmbito religioso, apesar de ter sido batizado na Igreja Católica 2, ante o
divórcio dos meus pais quando eu ainda era muito pequeno, acabei que fiquei do
lado protestante da minha família3. Na minha infância, frequentei a Assembleia de
Deus, que era a denominação na qual meu padrasto e minha mãe iam. Apesar disso,
porém, eu nunca simpatizei com a espiritualidade pentecostal. Aos 15 anos, por
influência da minha tia, Elizete Olinto, que, inclusive, será, em breve, pastora
anglicana, fiz um Encontro de Jovens com Cristo na Igreja Anglicana, na qual
congreguei até pouco antes de optar pelo catolicismo. Pedi desligamento da Igreja
Anglicana em setembro de 2012, vindo a converter-me ao catolicismo em março de
2013. Por ter um temperamento sanguíneo, extrovertido, sempre gostei de estar
cercado de muitos amigos. A Igreja Anglicana proporcionou-me isto com os seus
inúmeros eventos, congressos, cultos etc. . Havia um clima de camaradagem e

1
A condrodisplasia punctata é ligada ao X dominante (ou síndrome Conradi-Hünermann-
Happle; ver este termo) é caracterizada pela associação de membros assimétricos,
eritrodermia ictiosiforme lamelar e catarata que pode ser unilateral. A inteligência é normal.
A doença afeta predominantemente indivíduos do sexo feminino e é grave ou até mesmo
letal para os indivíduos do sexo masculino. Disponível em:
https://www.orpha.net/consor/cgi-bin/OC_Exp.php?Lng=PT&Expert=176
2
Descobri, recentemente, o dia do meu batismo: 20 de dezembro de 1998, a cinco dias do
Natal, na festa litúrgica de São Bernardo de Silos, monge beneditino.
3
É interessante notar que boa parte da minha família é formada por ex-católicos. É de uma
clareza monumental o desconhecimento que muitos católicos têm da sua própria fé, o que
os torna vulneráveis a qualquer um que possua uma argumentação minimamente razoável.
Conheci católicos que hoje são Testemunhas de Jeová ou Mórmons, por exemplo. Uma
vez, discutindo em um almoço com uma ex-católica, hoje, professora de um conceituado
seminário protestante no Nordeste, ela admitiu com orgulho que já foi católica. Quando
perguntei-a, num simples quesitonamento de catequese, quais eram os 7 sacramentos, ela,
com muita dificuldade, nomeou somente 3. Um amigo meu, protestante, que estava
presente neste dia, acabou tornando-se católico pouco tempo depois.
comunhão muito fortes. É triste constatar, contudo, que, tão logo admiti que não era
mais protestante muitos dos meus amigos que me mandavam mensagem com
frequência, sequer lembram de mim hoje (nem mesmo no dia do meu aniversário,
30 de maio, recebo uma ligação telefônica). O único que veio conversar comigo
depois da minha admissão na Igreja Católica foi o Pastor Dr. Marcus Throup,
reverendo anglicano que havia acabado de terminar seu doutorado sobre o
evangelho de São Marcos pela Universidade de Nottingham, na Inglaterra. Ele
questionou-me, com muito respeito, sobre minhas razões de ter abandonado a Igreja
Anglicana. Quando apresentei meu argumento a favor do papado4, retirado do livro
do Scott Hahn (ex-pastor calvinista converso ao catolicismo), o referido pastor
limitou-se a dizer que a sua divergência era histórica, não estritamente teológica, e
que os pastores protestantes pecaram por tratar o catolicismo de maneira superficial,
não munindo seus fiéis com um alimento sólido capaz de persuadi-los a não
abandonarem a fé reformada. Ele, então, convidou-me para tomar um açaí e nós
apenas trocamos impressões sobre o cristianismo brasileiro e suas perspectivas para

4
Scott Hahn descreve um debate informal que ele, na companhia de mais um amigo que
estava se convertendo ao catolicismo, tiveram com um famoso professor calvinista
chamado Dr. John Gerstner, o qual chamava a Igreja Católica de “sinagoga de Satanás”,
um teólogo calvinista formado em Harvard e com fortes convicções anticatólicas.

A certa altura, perguntou-me:– Scott, que suporte bíblico encontra você para o Papa?

– Doutor Gerstner, o senhor recorda como o Evangelho de Mateus enfatiza o papel de Jesus
como Filho de Davi e Rei de Israel, enviado pelo Pai para inaugurar o Reino dos
céus? Creio que Mateus 16, 17-19 nos mostra como Jesus estabeleceu esse Reino. Deu a
Simão três coisas: primeiro, um novo nome, Pedro(ou Pedra); segundo, o seu compromisso
de edificar a sua Igreja sobre Pedro; e, terceiro, as chaves do Reino dos Céus. É este terceiro
aspecto que me parece mais interessante. Quando Jesus fala das “chaves do Reino” está se
referindo a um importante texto do Antigo Testamento, Isaías 22, 20-22, onde Ezequias, o
herdeiro do trono real de Davi e rei de Israel nos tempos de Isaías, substitui o seu velho
primeiro-ministro, Chebna, por um novo, chamado Eliacim. Qualquer pessoa podia
perceber qual dos membros do gabinete real era o novo primeiro ministro, pois tinham-lhe
sido entregues as chaves do Reino. Ao confiar a Pedro “as chaves do Reino”, Jesus
estabelece o cargo de primeiro-ministro para administrar a Igreja como o seu Reino na
terra. Portanto, as “chaves” são um símbolo da missão e do primado de Pedro, para
ser transmitido ao seu sucessor; assim, foi sendo transmitido ao longo das épocas.

– É um argumento muito engenhoso, Scott – replicou.

– E como o refutamos nós, os protestantes?

– Bom, não creio tê-lo ouvido antes. Teria que pensar sobre isso um pouco mais. Continua
com os outros argumentos.

Prossegui então descrevendo como a família da Aliança era o princípio central ou a ideia-
chave da fé católica. Expliquei Maria como nossa Mãe, o Papa como nosso pai, os santos
como nossos irmãos e irmãs, e as celebrações e dias de festa como festas de aniversário.

Todos os caminhos Levam a Roma, p.75. Disponível em:


https://kupdf.net/download/todos-os-caminhos-levam-a-roma-scott-
hahn_59f1b0dee2b6f500535daad0_pdf
o futuro, assunto que tinha sido tema de um livro escrito por ele, com o qual me
presentou na ocasião5. Não quero entrar aqui em divagações sobre minha vida
pessoal, mas sim condensar as razões que me fizeram abandonar o protestantismo
e abraçar o catolicismo. Em primeiro lugar, é impressionante observar a assimetria
que há nas produções de livros apologéticos de ambos os lados: os protestantes, de
sua parte, produzem muita coisa contra o catolicismo; os católicos, por sua vez, em
muitas ocasiões, limitam-se apenas em rebater as críticas protestantes. Diria, sem
medo de errar, que a produção apologética protestante supera em dez vezes ou mais
a produção católica. Creio que isso se deva a uma desproporção numérica dos
ministros (pastores e padres), que é quem geralmente se engaja com essas
temáticas6. Aos poucos, irei citando alguns livros que esbarrei durante a minha
investigação. É preciso dizer, antes de tudo, que tornar-se católico foi umas das
decisões mais felizes que tomei na vida, enchendo-me de paz e serenidade, o que
me fazia ir dormir todas as noites com tranquilidade, mesmo tendo ciência que
estava nadando contra a maré. Achei, a principio, que o catolicismo não me traria
grandes vantagens em comparação ao protestantismo, mas, posso falar, assim como
Thomas Merton, um monge trapista que também foi um converso:
“Contudo, o que acabei verificando logo que comecei a jejuar, a fugir
dos prazeres e a devotar-me à oração, à meditação e aos diversos
exercícios inerentes à vida religiosa, foi que se acabou todo e qualquer
mal-estar e me tornei forte e imensamente feliz. [...] Uma paz que não
dependia de casas, de empregos, de lugares, de ocasiões, de condições
exógenas. Tratava-se duma paz que o tempo e as situações materiais
criadas não podiam conceder nunca. Era uma paz que o mundo não
podia outorgar”. A montanha dos sete patamares. Petra, 2018. p. 319,
p. 383

Enquanto anglicano, tinha muitas discussões com várias pessoas da


minha igreja e de outras denominações, cristãos comprometidos, de oração,
estudiosos, mas que chegavam a conclusões diversas e que tornavam,
necessariamente, os outros redondamente enganados. Além das divergências
teológicas, havia também a questão numérica, que tornava a situação ainda mais
difícil de ser contemplada em sua totalidade.
“Segundo a edição de 2010 do Atlas do
cristianismo global calcula que haja mais
de quatro milhões de congregações no
mundo todo, e trinta e oito mil
denominações.” 7

5
Marcus Throup. Reflexões sobre o cristianismo brasileiro por um filho adotivo, 2011.
6
Enquanto um padre passa por uma década de formação antes de ser ordenado, por duas
graduações (Filosofia e Teologia), boa parte das igrejas evangélicas têm um processo de
formação mais curto e em maior número, visto que não exigido dos protestantes a disciplina
do celibato para o presbiterado.
7
Citado em Kevin J. Vanhoozer. Autoridade bíblica pós reforma. Vida nova,
2017, p. 19.
Há protestantes que argumentam que esse número é menor, variando entre 8 e 9
denominações, mas isto não torna a questão menos problemática, pois, como pontua
Kevin Vanzoonher, famoso no meio protestante por seus livros:

“O Novo Testamento Jamais fala de igrejas que se separam uma das


outras no plano denominacional. [...] O NT desconhece estruturas
denominacionais, pois se concentra nas divisões dentro da Igreja, não
entre elas.8”

Os protestantes tentam resolver a questão das divisões de diversas formas:


embora admitam que há um problema quantitativo onde se é simplesmente
impossível examinar todas as comunidades interpretativas9, não dão o braço a
torcer, admitindo a necessidade de uma tradição normativa, de um magistério
infalível, como fazem os católicos. A principal dificuldade que emerge nessa
discussão entre católicos versus protestantes é que não é possível tratar o
protestantismo de maneira homogênea. Então, diante de um argumentação católica,
sempre é possível ao protestante a artimanha de negar as premissas católicas porque
outro protestante pode recair naquele erro, mas não ele. Um tradicional exemplo é
quando os católicos exortam sobre a necessidade de uma tradição, a qual norteie as
Escrituras e o Magistério, numa lógica de continuidade10, tem como resposta o
seguinte raciocínio: os protestantes não negam toda a tradição, mas somente aquela
que vai contra a Escritura. Ok, pensemos um pouco. Tomemos, por exemplo, a
questão do batismo. Um batista aceitaria uma tradição patrística do batismo
infantil? Não! Já um presbiteriano, sim. Isto mostra que apelar para uma tradição
meramente secundária, não só não resolve o problema, como ainda torna-o mais
complicado por acrescentar outra variável à equação (Escritura + Tradição).
A ideia luterana de que a Escritura interpreta a si mesma, testa, julga e
ilumina todas as coisas, simplesmente é impraticável sem um magistério infalível e
uma tradição normativa (quod semper, quod ubique, quod ab omnibus11). Se as

8
Kevin J. Vanhoozer. Autoridade bíblica pós reforma. Vida nova, 2017, p.253-255.
9
Ibid, p.139
10
De modo que os Concílios e os Papas, ao longo dos 2000 mil anos da História
da Igreja, quando falando infalivelmente, jamais podem se contradizer.
11
No caso dos dogmas, por sua vez, somos (os católicos) obrigados a acolhê-los
diligentemente porque, ao contrário dos protestantes, nossa fé não se fundamenta
em juízos particulares, mas no juízo dos pastores, que são assistidos pelo poder do
Espírito Santo e, que, portanto, não se enganam. Conforme explica o padre Royo
Marín, "isso se dá porque não podemos ter certeza de que conhecemos e acolhemos
o autêntico testemunho de Deus a não ser pela luz profética (que ilumina somente
aqueles que recebem diretamente a divina revelação) ou pela proposição infalível
da Igreja". Essas proposições podem manifestar-se de dois modos: por uma
declaração solene de um Papa ou de um Concílio — a chamada declaração ex
cathedra — ou por meio do Magistério ordinário e universal — ou seja, o
ensinamento comum feito pelo Papa e pelos bispos reunidos a ele daquilo que é a
coisas não assim, não posso nunca afirmar uma verdade objetiva, visto que tudo
será um eterno empate: a minha interpretação contra a sua; ou, se preferir, a
interpretação da minha denominação contra a da sua. Os protestantes abominam a
ideia de magistério católico, mas, na prática, não vivem sem seus próprios
magistérios, o que os condenam a uma torre de babel infindável de interpretações
bíblicas. A situação já era tão confusa no século XVI que Calvino, Melâncton e
Cramner, queriam convocar um concílio para aplainar suas diferenças 12. Por não
conseguirem resolverem suas diferenças teológicas, os protestantes nem sempre
amaram os outros protestantes, seus próximos. Seria uma caricatura dizer que a
Eclesiologia Protestante é um “cada um por si”, embora muitas vezes não vá além
desse conselho de desespero13.
As discussões no meio protestante são acaloradas. Acusam uns aos outros
de heresia, dizendo: “você está errado com relação a tema x ou y, porque a Bíblia
diz em...”. Basta ver, por exemplo, a eterna discussão entre calvinistas e arminianos,
tão comum no meio protestante. Negam a interpretação alheia, com orgulho, certos
de estarem seguindo a “verdade” projetada a sua imagem e semelhança. Como
ironiza Chesterton, acertadamente:

“No passado, o herege se orgulhava de não ser herege.


Os reinos do mundo, a polícia e os juízes é que eram
hereges. Ele era ortodoxo. Não se orgulhava de ter se
rebelado; eles é que tinham se posto contra o acusado.
[...] Mas umas poucas palavras modernas o fizeram
orgulhar-se disso. Diz, com um sorriso deliberado,
"Acho que sou muito herético" e olha ao redor em busca
de aplausos. 14

Li, certa feita, sobre um episódio que bem revela o modus operandi que reina
no protestantismo. Em uma aula de doutorado, discutindo com seus alunos sobre
interpretação bíblica, o professor perguntou-os sobre o que acontecia nas suas
respectivas denominações quando as pessoas discordavam uma das outras sobre
interpretações bíblicas. Um aluno da Filipinas, rapidamente, levantou a mão e
respondeu: “Essa é fácil! Começamos uma nova Igreja!”15
Historiadores protestantes como Alister McGrath pensam que seja,
inclusive, mais acertado falar “protestantismos”, no plural, pelo fato de o

fé de sempre da Igreja: "quod ubique, quod semper, quod ab omnibus — o que [foi
crido] em todo lugar, sempre e por todos", diria São Vicente Lérins.
https://padrepauloricardo.org/blog/aparicoes-marianas-o-que-sao-e-qual-o-seu-
papel-na-vida-crista

12
Ibid, p.234
13
Ibid, p.296
14
- G. K. Chesterton. Hereges, p. 37.
15
Kevin J. Vanhoozer. Autoridade bíblica pós reforma. Vida nova, 2017, p. 42.
movimento protestante estar longe de ser algo homogêneo. Além disso, McGrath,
que é anglicano, prefere o termo “revolução” ao invés de reforma16. Meu amigo
Fábio Salgado, um ex-batista converso ao catolicismo, um dos que me
influenciaram bastante na minha própria conversão, foi na raiz do problema: com
as ferramentas disponibilizadas pelo protestantismo, é simplesmente impossível se
chegar a um conhecimento teológico objetivamente verdadeiro. Eis a sua
explicação:

2 João 9 afirma que "Todo aquele que não permanece no


ensino de Cristo, mas vai além dele, não tem Deus; quem
permanece no ensino tem o Pai e também o Filho.". Como eu
posso saber qual foi o ensino de Cristo? Lendo a minha Bíblia?

Jesus disse aos discípulos: "Portanto, vão e façam discípulos de


todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a TUDO o que eu lhes
ordenei [...].".

Entretanto, o que é o batismo? Quem pode ser batizado?

Há várias respostas entre os protestantes:

1) infantil e não regenerativo (presbiterianos);


2) infantil e regenerativo (luteranos e anglicanos);
3) adulto e não regenerativo (batistas, maior parte dos
pentecostais e não denominacionais);
4) adulto e regenerativo (Igreja de Cristo, Discípulos de Cristo);
5) nenhum batismo (Quakers e Exército da Salvação).

Nas opções acima não foram consideradas as opções referentes


à forma do batismo, se ele tem de ser por imersão, por aspersão
ou por infusão. Se, pela metodologia protestante, não temos
como saber nem isso, como podemos ser obedientes a Jesus
Cristo? A situação já era assim no tempo de Lutero. Os primeiros
reformadores já não conseguiam concordar entre si sobre
inúmeros pontos e lançavam anátemas entre eles. Crer na
Bíblia, mas não ter meios de saber qual é a interpretação correta
dela não adianta absolutamente nada!

Lutero, por exemplo, considerava o batismo como um sacramento que ficou


preservado da corrupção teológica que, segundo ele, na idade média, contaminou o
evangelho17. Além disso, Lutero vai além e diz que, mesmo querendo, um batizado
não pode perder sua salvação com pecados quaisquer, a não ser que se negue a
crer18, o que também é afirmado pelo Catecismo Maior de Westminster no ponto
79.19 Mesmo sendo essa a doutrina protestante clássica referente à salvação e ao

16
Christianity's Dangerous Idea: The Protestant Revolution--A History from the
Sixteenth Century to the Twenty-First. HarperOne,2009, p.62-63.
17
Cativeiro Babilônico da Igreja. Martin Claret, p.15
18
Ibid, p.61
19
79. Não poderão os crentes verdadeiros cair do estado de graça, em razão das suas
imperfeições e das multas tentações e pecados que os surpreendem?
Os crentes verdadeiros, em razão do amor imutável de Deus e do seu decreto e pacto de
lhes dar a perseverança, da união inseparável entre eles e Cristo, da contínua intercessão de
estado de justificação diante de Deus, se você fizer uma pergunta a 100
evangélicos/protestantes de várias denominações, como batistas, Assembleia de
Deus etc., muitos irão discordar destas duas afirmações sobre batismo (infantil e
regenerativo) e sobre soteriologia (não é possível perder a salvação, conceito
também conhecido como perseverança dos santos). O próprio Fábio Salgado, a
quem já citei, enquanto protestante, negava a perseverança dos santos20. “Meus
dezessete anos no meio erudito protestante tornou claro pra mim: sola scriptura é
um eufemismo para “Sola ego”. O que quero dizer é que todo protestante tem sua
própria interpretação do que a Bíblia diz e, claro, ele acredita que a sua interpretação
é superior a de todo mundo. Cada um defende sua visão, assumindo (isso quando
não afirmando) que o Espírito Santo o guiou pessoalmente até aquela
interpretação21.”

Em outras palavras: como protestante, simplesmente sou condenado a um


eterno jogo de xadrez onde nunca ninguém dá um xeque-mate pra finalizar a
partida.
O texto da Bíblia NÃO PODE, por si só, ser o juiz último de todas as
questões, pelo simples fato de que não traz em si mesmo a sua própria
interpretação para todas as circunstâncias da vida, mas depende daquela
que o leitor lhe atribua. Ou existe a interpretação canônica, inspirada
pelo Espírito Santo e consolidada numa tradição, e esta sim é a
autoridade última -- é nisto que os católicos acreditam --, ou não faz
sentido atribuir essa autoridade a um texto que cada um pode interpretar
à sua maneira. Se existe a livre interpretação, então a autoridade final
não está no texto e sim na cabeça de cada um. Isso não tem escapatória.
É por isso que as igrejas protestantes se multiplicam como coelhos, cada
uma proclamando representar a autoridade última e única do texto e
desmentindo-se a si própria no ato mesmo de fazê-lo. Se você rejeita a
interpretação canônica e opta pela livre interpretação, então a única
autoridade final é você mesmo. Quanto mais você espernear contra este
argumento, mais provará que ele está certo, pelo simples fato de que
cada um dentre milhões de esperneios diferentes alegará, com igual
direito, personificar a unidade da mensagem divina. Ou você aceita um
Papa, ou cada um é um Papa. E, se existem vários Papas, nenhum deles
é o único. Argumentar contra isso, mesmo um pouquinho, só resultará
em proclamar que o Papa é você, coisa na qual me permito, gentilmente,
não acreditar.22

É muito didático a leitura de algumas críticas ao catolicismo


escrita por pastores protestantes. Vejamos algumas delas: sabemos que uma das
diferenças mais marcantes entre catolicismo e protestantismo são as suas bíblias: a

Cristo por eles e do Espírito e semente de Deus permanecendo neles, nunca poderão total
e finalmente cair do estado de graça, mas são conservados pelo poder de Deus, mediante a
fé para a salvação. Disponível em:
http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm
20
http://fabiosalgado.blogspot.com/2010/07/sobre-perseveranca-dos-santos.html
21
Testemunho de conversão de Robert Sungenis. Disponível em: Surprised By Truth: 11
Converts Give the Biblical and Historical Reasons for Becoming Catholic (English
Edition). Basilica Press, p.119.
22
Professor Olavo de Carvalho, no seu perfil do Facebook.
bíblia católica tem livro a mais, ou a protestante tem livros a menos, como queira23.
O Novo Testamento contém 27 livros tanto na Bíblia católica quanto na protestante:
ele se inicia no Evangelho de Mateus e termina no Apocalipse. O número de livros
do Antigo Testamento, contudo, é diferente. O cânon (lista) católico contém 46
livros e o protestante, 39. Neste, estão ausentes os livros de Tobias, Judite,
Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (Sirácida ou Sirac), I Macabeus e II Macabeus. Além
disso, faltam alguns fragmentos dos livros de Ester e de Daniel.
Os sete livros adicionais recebem o nome de
deuterocanônicos. A palavra "deuteros" vem do grego δευτεροσ e significa
"segundo". Eles são assim chamados pois, apesar de já constarem no cânon no
Concílio de Cartago, no século IV, só foram oficializados pelo Concílio de Trento,
no século XVI. Em verdade, eles já se encontravam na versão grega da Bíblia,
chamada Septuaginta, só não faziam parte do texto hebraico. A partir disto, no
século XIX, os protestantes decidiram abolir definitivamente os sete livros de seu
cânon24. Os protestantes argumentam que o cânon é uma lista falível de livros
infalíveis25. O ponto central é que o cânon é necessariamente extra bíblico. Além
disso, o conhecimento de quais livros compõem o cânon do Novo Testamento deve
ser infalível; se não, não há como saber com certeza se os livros que consideramos
realmente inspirados são inspirados. Além disso, esse conhecimento deve ser
vinculativo; caso contrário, os homens seriam livres para criar seu próprio cânon
personalizado contendo os livros que eles valorizam e os que eles desvalorizam.
Esse conhecimento também deve fazer parte da revelação divina; se não, é
meramente uma tradição de homens, e se assim fosse, os protestantes seriam
forçados a assumir a posição intolerável de defender um cânone de origem
puramente humana26.

23
Para uma argumentação densa sobre esse assunto, veja: Gary Michuta. Why Catholic
Bibles Are Bigger, 296p.
24
Gary Michuta no seu livro mostra que, por exemplo, na primeira versão das Institutas,
Calvino cita Baruc como inspirado.
25
Sola Scriptura: numa época sem fundamentos, o resgate do alicerce bíblico. Editora
Fiel, 2000.
26
Robert Sungenis (Editor) Not by Scripture Alone: A Catholic Critique of the Protestant
Doctrine of Sola Scriptura,1998,p.20.
1) Onde o "Sola Scriptura27" pode ser encontrado na Bíblia? Se é
verdadeiro que somente a Bíblia deve ser a nossa regra última para
normas referentes à fé e à prática, o princípio deve estar na própria
Bíblia.

2) Onde está na Bíblia quais são os livros inspirados que devem fazer
parte das Escrituras? Se o cânon da Bíblia, ou seja, quais livros devem
constar ou não entre aqueles inspirados, não está em lugar algum, como
você sabe que os evangelhos de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João
são a Palavra de Deus, mas não o evangelho de Pedro ou de
Bartolomeu? Como você sabe que é o apocalipse de São João que deve
estar na Bíblia, e não o apocalipse de Tomé, de Estêvão ou de Tiago?
Como você saberia que é o texto de Atos escrito por Lucas que deve
estar na Bíblia, e não o texto de Atos de Barnabé, de André ou de Filipe?

3) Como é possível que um princípio como o "Sola Scriptura" seja


verdadeiro se até o século IV os cristãos não tinham a Bíblia como a
conhecemos hoje e se, simplesmente, até a invenção da Imprensa, era
praticamente impossível que cada cristão tivesse a sua própria Bíblia, a
despeito do fato de quase todo mundo ser analfabeto durante anos?
Deus teria criado um princípio inaplicável durante séculos?

4) Onde estão os textos originais infalíveis? Os copistas eram infalíveis


também? Qual é a versão grega infalível?

5) Os tradutores são infalíveis? Do contrário, por que todos os


protestantes não aprendem Hebraico, Aramaico e Grego para,
realmente, terem acesso à única fonte de regras de fé e de prática? 28

27
Os protestantes costumam citar II Timóteo 3,16 para validar a sua doutrina (cf. Catecismo
de Westminster, ponto 3). Neste texto, o apóstolo afirma a necessidade das Escrituras,
falando que toda ela é útil para o ensino etc. . Ora, se eu digo que toda galinha tem asas,
isto não significa que só as galinhas as possuem. A situação para os protestantes torna-se
ainda mais delicada quando levamos em consideração o fato de, à época em que foi escrito
a carta paulina em questão, muitos livros do Novo Testamento ainda não tinham sido
escritos. Ou seja, São Paulo falava sobre os livros do Antigo Testamento, pois a idéia de
cânon de um Novo Testamento sequer existia no primeiro século. Além disso, as escrituras
atestam a necessidade de uma tradição oral em pé de igualdade com a palavra escrita (II
Tes 3, 6; II Tes. 2, 15; 1 Cor 11, 2). Para uma argumentação mais elaborada sobre este
tema, veja: Robert Sungenis. Not by Scripture Alone: A Catholic Critique of the Protestant
Doctrine of Sola Scriptura,1998,p.101-119
28
Fábio Salgado, post do seu Facebook.
Quantos aos chamados livros deuterocanônicos29, os protestantes
argumentam que estes nunca tiveram relevância, nem para Cristo30, nem para os
apóstolos31. Essas pessoas, ao que parecem, nunca leram um livro de apologética
católica, os quais desmentem toda essa conversa que só pegam os incautos. Em
Mateus 2232, Jesus é interpelado por pessoas que querem saber sobre o casamento
na eternidade. Ora, para os que já leram os deutorocanônicos, sabem que a história
usada pelos Saduceus para questionar Jesus vem do livro de Tobias33. Outro
clássico exemplo da presença dos deuterocanônicos na Bíblia é o que está escrito
em Mateus 1,23: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e Ele será
chamado de Emanuel”, que significa ‘Deus conosco’ ”. Isto é uma referência a
Isaias 7,14. O problema é que, na versão em hebraico, o que está escrito não é
“virgem”, e sim “jovem”. São Mateus usa virgem exatamente por estar usando a
Septuaginta34, tradução do antigo testamento para o grego, que era usada pelos
apóstolos. Lá, estavam presente os livros que os protestantes chamam jocosamente
de apócrifos. Se eu troco “virgem” por “jovem”, o dogma do parto virginal de Jesus
fica seriamente comprometido.

Na minha biblioteca particular, há dezenas de críticas ao catolicismo, sendo


que pouquíssimas35 lidam com as objeções católicas com seriedade e honestidade
intelectual. A maioria, infelizmente, só jogam no texto alguns versículos que,
supostamente, provam a argumentação protestante sem lidar de maneira alguma
com o que os eruditos católicos têm a dizer36.

29
Para uma defesa católica sobre o assunto, veja: Rafael Rodrigues. Manual de Defesa dos
Livros Deuterocanônicos, 2013, 276p.
30
“Não há nenhum registro de que Cristo ou qualquer um dos apóstolos jamais citassem os
livros apócrifos ou que lhe fizessem alguma referência, embora, sem dúvida, os
conhecessem.” Loraine Boettner. Catolicismo Romano. Editora Batista Regular, p.72.
31
“Nem Cristo nem nenhum dos autores inspirados jamais citou os livros ‘apócrifos’, nem
sequer a eles se referiam.” Carlos H. Collette. Inovações do Romanismo. Edições
Parakletos, 2001, p.35.
32
No mesmo dia chegaram junto dele os saduceus, que dizem não haver ressurreição, e o
interrogaram, Dizendo: Mestre, Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará
o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós
sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua
mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; Por fim, depois
de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a
mulher, visto que todos a possuíram? Mateus 22,23-28
33
"Aconteceu que, precisamente naquele dia, Sara, filha de Raguel, em Ecbátana, na Média,
teve também de suportar os ultrajes de uma serva de seu pai. Ela tinha sido dada
sucessivamente a sete maridos. Mas logo matava que eles se aproximavam dela, um
demônio chamado Asmodeu os matava." Tobias3,7-8
34
Veja mais em: https://www.bibliacatolica.com.br/conhecendo-a-biblia-sagrada/56/
35
Uma das exceções é o livro do Pastor Scott McKnight sobre Maria: A verdadeira Maria:
podem os cristãos evangélicos acolher a mãe de Jesus?. Curitiba. Publicações RBC, 2006,
36
Minha Segunda Conversão — Como um ex-protestante abraçou o Catolicismo:
http://documents.scribd.com.s3.amazonaws.com/docs/6yosunehhc3mn07f.pdf
Para todas as argumentações protestantes contra catolicismo37, há respostas
repletas de fundamentos bíblicos e históricos: purgatório3839, Imaculada
Conceição40, intercessão dos santos41, o sacrifício da Missa42, diferença entre
pecado mortal e venial43 etc. . Outro tópico que os protestantes costumam implicar
bastante com os católicos é a questão das imagens, por causa da suposta proibição
que há em Êxodos 20,4, acusando os católicos de “adorarem imagens”. Diz Loraine
Bottner, no seu famoso livro “Catolicismo Romano”, a Bíblia anticatólica, que: “A
igreja católica romana comete um grave pecado de promover o culto à Maria. Eles
desonram a Deus, em primeiro lugar, por causa do uso de imagens; e, em segundo
lugar, por conceder a uma criatura a adoração que pertence apenas ao
Criador.(p.72)”. De fato, como diz-nos o católico Patrick Madrid em um texto
sobre o assunto44:
As repreensões contra a idolatria aparecem em toda a Escritura
(e.g. , Números 33:52; Deuteronômio 7:5,25; 9:12; 12:3; 2 Reis 17:9-
18, 23:24; 2 Crônicas 23:17, 28:1-3, 22:18-25, 34:1-7). Em 1 Coríntios
10:14, São Paulo escreve: “bem-amados, deveis fugir da idolatria”
(Romanos 1:18-23). Deus condena o pecado da idolatria, seja na forma
de adoração de estátuas, ou de bolsa de valores, de sexo, de poder, ou
de um novo carro, qualquer coisa que seja como um ídolo. Entretanto,
Ele não proíbe imagens religiosas contanto que sejam usadas
apropriadamente. Por exemplo, em Êxodo capítulo 25, Deus ordena a
Moisés que esculpa estátuas de anjos. “Iaweh falou a Moisés, dizendo...
farás dois querubins de ouro, de ouro batido os farás, nas duas
extremidades do propiciatório; faze-me um dos querubins numa
extremidade e o outro na outra: farás os querubins formando um só
corpo com o propiciatório, nas duas extremidades. Os querubins terão
as asas estendidas para cima e protegerão o propiciatório com suas asas,
um voltado para o outro. As faces dos querubins estarão voltadas para
o propiciatório... Ali virei a ti, e, de cima do propiciatório, do meio dos
dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo
acerca de tudo o que eu te ordenar para os israelitas.”. (Êxodo 25:1, 18-
20, 22; cf. 26:1). Isso mostra claramente que existem circunstâncias nas
quais imagens religiosas não são meramente permitidas, mas realmente
agradam a Deus. Outro exemplo é o incidente bastante engraçado

37
Para uma compilação dessas críticas, veja Tony Coffey. Respostas às perguntas que os católicos
costumam fazer. CPAD, 2007, 236p.
38
A realidade bíblica do Purgatório (Mario P. Romero). Disponível em:
http://fabiosalgado.blogspot.com/2016/11/a-realidade-biblica-do-purgatorio-mario.html
39
https://www.youtube.com/watch?v=aaQwy-6Sxiw
40
https://www.youtube.com/watch?v=XSCNtHGe6Uc&t=10s
41
https://www.youtube.com/watch?v=oYFr9q8616Y&t=1s
42
https://www.youtube.com/watch?v=0uL_IAJWvX0
43
Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida
àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore.
Toda a iniqüidade é pecado, e há pecado que não é para morte. Sabemos que todo aquele
que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o
maligno não lhe toca. 1 João 5,16-18
44
Você escutou alguém dizendo que católicos adoram estátuas? Disponível em:
http://olintoarthur.blogspot.com/search?updated-max=2014-01-03T08:43:00-
08:00&max-results=7
descrito em 1 Samuel 6:1-18. Em Êxodo 28:31-34, o Senhor ordenou
que as vestimentas sacerdotais de Arão fossem adornadas com imagens
de romãs. Em Números 21:8- 9, Ele ordenou a Moisés que
confeccionasse uma imagem de escultura de uma cobra que iria
miraculosamente curar mordidas de cobras venenosas (um misterioso
prenúncio da cruz de Cristo [cf. João 3.14; 8:28]). E em 2 Reis 18:4,
quando o povo começou a adorar a serpente de bronze, o rei
imediatamente a destruiu. O que outrora foi uma legítima imagem
sagrada tinha se tornado um objeto de idolatria. (Uma narrativa de
advertência para qualquer um tentado pela superstição ou pela
idolatria). E note o que Deus disse a Salomão no que concerne à
construção do Templo: “Quanto a esta casa que estás construindo, se
procederes segundo os meus estatutos, se observares as minhas normas
e seguires fielmente os meus mandamentos, eu cumprirei em teu favor
a minha palavra, que dei a teu pai Davi, e habitarei no meio dos
israelitas e não abandonarei meu povo, Israel. Salomão edificou o
Templo e o concluiu.”. (1 Reis 6:12-14). Essa declaração é importante
porque o Templo continha um vasto número de estátuas e imagens
incluindo de anjos, de árvores, de flores, de bois e de leões (cf. 1 Reis
6:23-35,
7:25,36). A decisão de Salomão de incluir essas imagens religiosas vei
o do presente de sabedoria com que Deus abençoou-
o (cf. 1 Reis 3:12). E longe de estar descontente com essas imagens,“I
aweh lhe disse: ‘Ouvi a oração e a súplica que me dirigiste. Consagrei
esta casa que construíste, nela colocando meu Nome para sempre; me
us olhos e meu coração aí estarão para sempre.”. (1 Reis 9:3).Obviame
nte, Deus não iria abençoar a Salomão e “consagrado” seu templo chei
o dessas estátuas e imagens se Ele não as aprovasse — mais uma prov
a de que as imagens podem ser boas quando usadas para pôr em orde
m as nossas mentes em direção a Deus e às realidades celestiais. Lemb
re-
se também de que São Paulo chamou Cristo de “a imagem expressa” d
o Deus invisível (Colossenses 1.15). A palavra grega aqui para “image
m” é eikonos, da qual deriva a palavra “ícone”. Assim como guardam
os fotos de nossos familiares e amigos para lembrarmonos deles, nós t
ambém guardamos estátuas e imagens nas nossas casas e igrejas para l
embrarmo-nos do nosso Senhor, na Nossa Senhora e dos Santos.

Alguns ainda objetam o fato dos católicos fazerem orações diante de


imagens, fazendo algum ato de homenagem (veneração). Ora, estes gestos são
abundantes na Bíblia, não sendo necessariamente algo exclusivo a Deus. Várias
vezes na Bíblia, ajoelhar-se ou prostrar-se significa veneração, homenagem,
respeito, saudação, súplica, reconhecimento, humildade e não adoração. Veja, por
exemplo: 1 Reis 1,16-22: E Bate-Seba inclinou a cabeça, e se prostrou perante o
rei; e disse o rei: Que tens? E ela lhe disse: Senhor meu, tu juraste à tua serva pelo
Senhor teu Deus, dizendo: Salomão, teu filho, reinará depois de mim, e ele se
assentará no meu trono.
Confira também Gênesis 27.29; Gênesis 44.14; 1 Samuel 25.23; 2 Samuel 14.22;
Mateus 18.26; Êxodo 18.7; Gênesis 42.6; Números 22.31; 2 Reis 4.37; 1 Crônicas
29.20; Atos 16.29.
Boa parte das objeções protestantes seriam resolvidas com um pouco de boa
vontade e empatia, querendo entender o pensamento dos católicos ao invés de
simplesmente protestar por protestar. Por exemplo, por não entenderem o que é uma
indulgência, os protestantes dizem que a Igreja Católica vendia indulgências, ou
que seu espírito foi transgredido45. Quanto a questão em tela, é interessante a
reflexão feita por Dom Estevão Bittencourt, monge beneditino:

Lutero era professor de S. Escritura em Wittenberg quando surgiu a


questão das indulgências. De que se trata?

1) Todo pecado acarreta consigo a necessidade de expiação depois de


ter sido perdoado. Com outras palavras:

O pecado não é somente a transgressão de uma lei, mas é a violação de


uma ordem de coisas estabelecida pelo Criador; é sempre um dano
infligido tanto ao indivíduo que peca46, como à comunidade dos
homens. Por conseguinte, para que haja plena remissão do pecado, não
somente é necessário que o pecador obtenha de Deus o perdão, mas
requer-se também que repare a ordem violada. Assim, por analogia,
quem rouba um relógio violando a ordem da propriedade não precisa
apenas pedir perdão a quem foi prejudicado, mas deve também restaurar
a ordem ou devolver o relógio ao respectivo proprietário. A reparação
da ordem há de ser sempre dolorosa, pois significa mortificação do
velho homem pecador ou das concupiscências desregradas que o
pecado só faz aguçar.

2) Consciente disto, a Igreja antiga ministrava a reconciliação dos


pecadores em duas fases. Sim, o pecador confessava seus pecados a um
ministro de Deus. Este não o absolvia imediatamente (cf. Jo. 20.20-22),
mas impunha-lhe uma satisfação adequada, correspondente à gravidade
das suas faltas; este exercício de penitência devia proporcionar ao
cristão o domínio sobre si, a vitória sobre as paixões e a liberdade
interior. A satisfação assim imposta, para ser realmente medicinal,
costumava ser penosa; assim, por exemplo, uma quaresma de jejum, em
que o penitente se vestia de peles de animais (para praticar tal
penitência, o cristão tinha de exercitar dentro de si um vivo amor a Deus
e um profundo horror do pecado). Somente depois de terminar a
respectiva satisfação, era o pecador absolvido. Julgava-se então que
estava isento não apenas da culpa, mas também de toda expiação devida
aos seus pecados; estaria livre não só da culpa do pecado, mas também
das raízes e das conseqüências deste.

Esta prática penitencial conservou-se até fins do século VI. Tornou-se,


porém, insustentável, pois exigia especiais condições de saúde e

45
Loraine Boettner. Catolicismo Romano. Editora Batista Regular, p.213.
46
A própria Sagrada Escritura atesta tal doutrina. Por exemplo: Davi recebeu perdão dos pecados
de homicídio e adultério, mas teve que sofrer a pena de perder o filho do adultério (II Sm 12, 13ss)
Moisés e Aarão foram privados de entrar na Terra Prometida, embora a sua culpa lhes tenha sido
perdoada (Nm 20, 12;27.12-14; Dt 34,4s. Ver também Dn 4,24; Jl 2, 12s).
acarretava conseqüências penosas para todo o resto da vida de quem a
ela se submetera. Eis por que, aos poucos, foi sendo modificada.

3) No século IX, a Igreja julgou oportuno substituir certas obras


penitenciais muito rigorosas por outras mais brandas; a estas a Igreja
associava os méritos satisfatórios de Cristo, num gesto de indulgência.
Tais obras foram chamadas "obras indulgenciadas", porque
enriquecidas de indulgências: podiam ser assim indulgenciadas
orações, esmolas, peregrinações...

Está claro, porém, que estas obras mais brandas enriquecidas pelos
méritos de Cristo só tinham valor satisfatório se fossem praticadas com
as disposições interiores que animavam os penitentes da Igreja antiga a
prestar uma quarentena de jejum ou outras obras rigorosas. Não
bastava, pois, rezar uma oração ou dar uma esmola para se libertar das
conseqüências do pecado, mas era preciso fazê-lo com o amor a Deus e
o repúdio ao pecado que encorajavam os penitentes da Igreja Antiga.
Vê-se, pois, que era (e fé) muito difícil ganhar indulgências.

Mais: ninguém podia (ou pode) ganhar indulgência sem que tivesse (ou
tenha) anteriormente confessado as suas faltas e houvesse (ou haja)
recebido o perdão delas. A instituição das indulgências não tinha em
vista apagar os pecados, mas contribuir (mediante a provocação de um
ato de grande amor) para eliminar as conseqüências ou os resquícios do
pecado.

Por conseguinte, a Igreja nunca vendeu o perdão dos pecados nem


vendeu indulgências. O perdão dos pecados sempre foi pré-requisito
para as indulgências. Quando a Igreja indulgenciava a prática de
esmolas, não tencionava dizer que o dinheiro produz efeitos mágicos,
mas queria apenas estimular a caridade ou as disposições íntimas do
cristão para que conseguisse libertar-se das escórias remanescentes do
pecado. Não há dúvida, porém, de que pregadores populares e muitos
fiéis cristãos dos séculos XV e XVI usaram de linguagem inadequada
ou errônea ao falar de indulgência. Foi o que deu ocasião aos protestos
de Lutero e dos reformadores.

Em poucas palavras: não houve venda de indulgências, mas houve


esmolas meritórias, que, praticadas com profundo repúdio do pecado e
intenso amor a Deus, podiam contribuir para extinguir todo resíduo de
pecado no doador da esmola.

[Retirado do opúsculo "Lutero e 'venda de indulgências’”].


Agora, passemos para outro tema espinhoso. Kimberly Hahn, no relato de
conversão escrito juntamente com seu marido, diz que ela relutava em ser católica
por três razões: Maria, Maria e Maria! A devoção mariana soa de muito mal gosto
para os protestantes, temerária, senão idolátrica. Dar alguma atenção a Maria é
obscurecer a redenção dada por Cristo, como se colassem um coadjuvante no papel
principal47. Todo o receio dos protestantes com o amor dado à Maria pelos católicos
não passa de uma falácia da ladeira escorregadia48: pensam que, caso seja dado
algum crédito ou homenagem à Maria, isto obscureceria Cristo, deixando-o à
margem. Eu, particularmente, rezo o terço todos os dias há anos e, longe de
diminuir meu amor a Cristo, a contemplação diária em pelo menos cinco cenas dos
evangelhos, elevou meu amor a Jesus a um patamar totalmente novo e superior.
Scott Hahn, no livro supracitado, comenta um episódio interessante que aconteceu
quando ele estava ainda nos seus primeiros dias como católico:
– Quer dizer que você já adora Maria, não é, Scott?

– Escute, Chris, você sabe muito bem que os católicos não “adoram”
Maria; simplesmente a veneram.

– E qual é a diferença, Scott? Nenhuma das duas coisas tem base


bíblica. Não sabia o que dizer. De terço na mão, invoquei Maria para
que me ajudasse.

Revigorado, respondi:

– Olhe que pode ter uma surpresa.

– Ah, é? Por quê?

Comecei a dizer a primeira coisa que me veio à cabeça:

– Realmente é muito simples, Chris. Simplesmente recorda dois


princípios bíblicos básicos. Primeiro: você sabe que, como homem,
Jesus Cristo cumpriu com perfeição a lei de Deus, incluindo o
mandamento de honrar pai e mãe. A palavra hebreia para honrar,
kabodah, significa literalmente “glorificar”. Ou seja, que Cristo não só
honrou o seu Pai celeste, como também honrou perfeitamente a sua mãe
terrena, Maria, outorgando-lhe a sua própria glória divina. O segundo
princípio é ainda mais simples: a imitação de Cristo. Imitamos Cristo
não só honrando as nossas próprias mães, como também honrando
aqueles que Ele honra, e com o mesmo tipo de honra que Ele lhes dá.

47
“O nosso mediador é só um, segundo a palavra do Apóstolo: «não há senão um Deus e
um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo
para redenção de todos (1 Tim. 2, 5-6). Mas a função maternal de Maria em relação aos
homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes
a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens
se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos
méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda
a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a
favorece.” Lumen Gentium, documento do concílio Vaticano II.
48
Falácia da ladeira escorregadia ocorre quando uma proposta é criticada, sem provas
suficientes, sob a alegação de que vai levar a um resultado catastrófico. Cf. Douglas
Walton. Lógica Informal: manual de argumentação crítica. Martins Fontes, 2012, p.31.
Seguiu-se uma longa pausa antes que Chris dissesse:

– Nunca tinha ouvido as coisas apresentadas desse modo.

-- Para ser franco, eu também não.

– Chris, isto é apenas um resumo do que os Papas têm dito ao longo dos
séculos sobre a devoção a Maria.

Chris voltou ao ataque:– Uma coisa são os Papas, mas onde é que isso
aparece na Escritura? Respondi instintivamente.– Chris, Lucas 1, 48
diz: “De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-
aventurada”. É isso que faz o terço, cumprir a Escritura.

Seguiu-se outra longa pausa, antes de Chris mudar rapidamente de


tema.

Os protestantes levantam a voz contra as devoções marianas, especialmente o terço,


que é um conjunto de 20 “mistérios”, ou seja, 20 passagens bíblicas sobre a vida de
Jesus e Maria49. Acusam-nos de burlar a regra de Jesus sobre as vãs repetições.
Acontece que, no terço, concentra-se em contemplar os mistérios --- se colocar na
cena, como se você estivesse vivenciando-a ---, não em rezar muitas orações com a
intenção de ser atendido mais rápido ou melhor. As orações servem como um
cronômetro, de modo que se dedica o tempo de 1 pai-nosso e 10 ave-marias para
cada mistério. Longe de ser algo mecânico, aumentou o meu amor por Jesus: é como
se eu visse um “filme” da vida de Jesus todos os dias.
Encontramos na Bíblia um tipo semelhante de repetições na forma desse canto de
fundo. Tomem, por exemplo, o Salmo 136, no qual a mesma frase "o seu amor dura
para sempre" é repetida por 26 versículos! Os "Ave Maria" do Rosário são algo
semelhante a isso. Eles não são, entretanto, "vãs repetições" (Mt. 6.7; cf. "não useis
de vãs repetições"; também, Eclesiástico 7.15: "não multipliques as palavras em tua
oração".). As repetições vãs é que são condenadas, não as repetições em si mesmas.
O próprio Jesus fez uso de repetições ao orar: "Então, deixou-os novamente e orou
pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras" (Mt. 26.44; cf. Mc. 14.39). A
adoração no Céu é extremamente repetitiva: Apocalipse 4.8: "... dia e noite repetem
sem cessar: 'Santo, santo, santo é o Senhor Deus todo-poderoso, que era, que é e

49
MISTÉRIOS GOZOSOS (segunda-feira e sábado): 1. A Anunciação (ou A Encarnação do Senhor).
2. A visitação de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel. 3. O nascimento do Filho de Deus em
Belém. 4. A purificação de Nossa Senhora (ou A Apresentação do Senhor). 5. O Menino-Deus
perdido e achado no Templo.
MISTÉRIOS LUMINOSOS (quinta-feira): 1. O batismo do Senhor no Jordão. 2. A auto-revelação de
Cristo nas bodas de Caná. 3. O anúncio do Reino de Deus, convidando à conversão. 4. A
Transfiguração do Senhor. 5. A instituição da Santíssima Eucaristia.
MISTÉRIOS DOLOROSOS (terça e sexta-feira) 1. A oração no Horto. 2. A flagelação do Senhor. 3. A
coroação de espinhos. 4. A Cruz às costas. 5. Jesus morre na Cruz.
MISTÉRIOS GLORIOSOS (quarta-feira e domingo) 1. A Ressurreição do Senhor. 2. A Ascensão do
Senhor aos céus. 3. A vinda do Espírito Santo. 4. A Assunção de Nossa Senhora. 5. A coroação de
Maria Santíssima.
que há de vir". O Rosário, então, é completamente cristocêntrico, bem como todas
as devoções e doutrinas marianas quando compreendidas de maneira correta50.
Santo Tomás de Aquino, o maior teólogo de todos os tempos, diz que pode haver
uma tríplice atenção na oração vocal: a de quem pronuncia corretamente todas as
palavras, a daquele que repara mais no sentido dessas palavras e a dos que se
concentram na finalidade da oração, quer dizer, em Deus e naquilo por que se ora.
Esta última é a atenção mais importante e necessária, e é acessível mesmo a pessoas
pouco cultas ou que não entendem bem o sentido das palavras que pronunciam,
“podendo ser tão intensa que arrebate a mente para Deus”..
“Uma das vantagens do terço é que se pode rezá-lo em qualquer
lugar: na igreja, na rua, no carro..., sozinho ou em família,
enquanto se aguarda na sala de espera do médico ou na fila da
agência bancária. Quando há esforço, pode-se rezar o terço
cada vez melhor; cuidando da pronúncia, das pausas, da
atenção, detendo-se por uns instantes a considerar o mistério
que se inicia, oferecendo talvez essas dez ave-marias por uma
intenção concreta (a Igreja Universal, o Sumo Pontífice, as
intenções do bispo da diocese, a família, as vocações
sacerdotais, o apostolado, a paz e a justiça em determinado
país, um assunto que nos preocupa...), procurando que essas
“rosas” oferecidas à Virgem não estejam fanadas ou murchas
pela rotina ou pelas distrações mais ou menos consentidas.”51

A Igreja católica possui quatro dogmas sobre Maria: Maternidade Divina


(Maria é Mãe de Deus52), Virgindade Perpétua (Maria não teve relações sexuais,
nem outros filhos além de Jesus53), Imaculada Conceição5455(Maria não foi

50
. - Dave Amstrong: Rezar o Rosário é "vã repetição"?)
http://fabiosalgado.blogspot.com.br/2016/09/rezar-o-rosario-e-va-repeticao-
dave_25.html
51
Pe. Francisco Carvajal, meditação do TEMPO PASCAL. QUINTA SEMANA.
SÁBADO. https://www.hablarcondios.org/pt/meditacaodiaria.aspx
52
De todos os dogmas marianos, este parece ser o que causa menos problemas entre os
protestantes. “Se Jesus é Deus-homem em uma só pessoa e não só Deus e homem, então
Maria deu à luz a uma só pessoa que é Deus-Homem. Se ela o fez, então ela é de algum
modo “berço ou portadora de Deus” e não simplesmente berço de Cristo (como Nestório
ensinava ). [...] Se “Mãe de Deus” significa “portadora de Deus” como aquela que deu à
luz ao Jesus humano, que como uma só pessoa era o Deus-homem, então nós também
podemos ficar junto com os católicos e declarar Maria como a “Mãe de Deus”. “
McKnight, Scott. A verdadeira Maria: podem os cristãos evangélicos acolher a mãe de
Jesus?. Curitiba. Publicações RBC, 2006, p.135-136
53
https://www.youtube.com/watch?v=R6OorpEZa74
54
https://www.youtube.com/watch?v=XSCNtHGe6Uc&t=10s
55
“Pode ser uma surpresa para muitos leitores saber, que Santo Agostinho, que ficou
famoso por sua discussão em prol do ensino da absoluta pecabilidade de todos e que
moldou o entendimento sobre o pecado original da Igreja Católica, e da Protestante, ele
contaminada pela mancha do pecado original) e Assunção (Maria foi assunta de
corpo e alma ao céu56). Limitei-me a colocar trechos de vídeos e textos que fazem
uma breve defesa de cada dogma, mas, caso vocês queiram se aprofundar,
aconselho a leitura do excelente livro do Tim Staples, também um ex-protestante,
Behold Your Mother: A Biblical and Historical Defense of the Marian Doctrines,
201757. Fiquem com as palavras do protestante Scott McKnight:
“O Vaticano afirma que não só a mediação de Maria
aponta para Cristo, mas também é alicerçada cem por cento
no poder salvador e na mediação de Jesus Cristo. [...] Se
nosso compromisso é sermos justos uns com os outros,
então, temos que admitir que os católicos romanos com
relação à mediação de Maria, não ensinam que ela seja mais
do que um ser humano, nem que sua mediação deprecia a
Cristo. Este é o ensinamento oficial” McKnight, Scott. A
verdadeira Maria: podem os cristãos evangélicos acolher a
mãe de Jesus?. Curitiba. Publicações RBC, 2006, p.146

“Não podemos culpar a devoção a Maria por alguma


superstição da era medieval. A devoção a Maria começou
cedo, e um exemplo disso é ninguém mais que Atanásio,
defensor e um assessor eclesiástico arquiortodoxo que
definiu como entendemos a doutrina da Trindade. Aqui está
algo que ele escreveu na sua Homilia do Papiro de Turim:
“Ó nobre virgem, verdadeiramente tu és maior do que
qualquer grandeza. Pois quem é igual a ti em grandeza, no
lugar da habitação de Deus, o Verbo? A quem entre as
criaturas poderia eu comparar-te, Ó Virgem? Tu és maior
que todas elas... Se eu disser que o céu é exaltado, ainda sim
não se igualaria a ti.” Ibid, p.150-151

mesmo cria que Maria não tinha pecado. Aqui estão as palavras dele, que muitas vezes
chocam os protestantes:

“Temos que isentar a Santa Virgem Maria, sobre quem não desejo questionar quando se
trata do assunto de pecados, por honra ao Senhor, pois dele sabemos que abundância de
graça para vencer cada pecado em particular, foi conferida a ela, que teve o mérito de
conceber e dar à luz Jesus, que sem dúvida não tinha pecado.” Muitos seguiram
Agostinho nesta conclusão, inclusive alguns dos grandes teólogos protestantes – como
Martinho Lutero”.

McKnight, Scott. A verdadeira Maria: podem os cristãos evangélicos acolher a mãe de


Jesus?. Curitiba. Publicações RBC, 2006, p.133
56
https://www.youtube.com/watch?v=V3H1B-FFrB8
57
https://www.amazon.com.br/Behold-Your-Mother-Historical-
Doctrines/dp/1938983912/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%9
1&keywords=behold+your+mother&qid=1558817883&s=gateway&sr=8-1
“Irineu, 100 anos depois de Jesus, sugere que [...] Da
mesma forma que, Adão desobedeceu e Jesus obedeceu.
Assim: se há um Segundo Adão (Cristo), há também uma
segunda Eva (Maria). Por mais incômoda que esta idéia
possa ser, a analogia feita dentro de um espaço de um século
depois de Jesus, moldou a teologia católica romana.” Ibid,
p.134

“Pode ser uma surpresa para muitos leitores saber, que


Santo Agostinho, que ficou famoso por sua discussão em
prol do ensino da absoluta pecabilidade de todos e que
moldou o entendimento sobre o pecado original da Igreja
Católica e da Protestante, ele mesmo cria que Maria não
tinha pecado. Aqui estão as palavras dele, que muitas vezes
chocam os protestantes:
“Temos que isentar a Santa Virgem Maria, sobre quem não
desejo questionar quando se trata do assunto de pecados,
por honra ao Senhor, pois dele sabemos que abundância de
graça para vencer cada pecado em particular, foi conferida
a ela, que teve o mérito de conceber e dar à luz Jesus, que
sem dúvida não tinha pecado.”
Muitos seguiram Agostinho nesta conclusão, inclusive
alguns dos grandes teólogos protestantes – como Martinho
Lutero”.

Ibid, p.133

Ao ponto que fui compreendendo que, longe de não serem bíblicas, a


doutrina católica sorvia sua estrutura e substância das Escrituras: O Catecismo da
Igreja Católica, por exemplo, tem mais de 3000 citações bíblicas! A Igreja, na sua
práxis, usa a Bíblia58 com abundância: ao se começar a Missa é dito um versículo
bíblico (antífona de entrada), antes da comunhão (antífona da comunhão). A missa
tem duas partes: Palavra e Eucaristia. Na primeira parte (palavra), aos domingos,
são lidos 4 textos bíblicos (um salmo, um do antigo testamento, uma carta paulina
--- geralmente --- e um trecho dos evangelhos). Se um católico vai à Missa todos os
domingos, em 3 anos, ele terá escutado os 4 evangelhos e boa parte do restante das
Escrituras. Se vai diariamente, em três anos, terá lido praticamente toda a Bíblia.
Além disso, as leituras bíblicas escolhidas estão inter-relacionadas. Por exemplo,
ano passado, as da Solenidade de Pentecostes foram: Atos 2,1-11: onde relata-se a

58
“Concede-se indulgência parcial ao fiel que ler a Sagrada Escritura, com a veneração devida à
palavra divina, e a modo de leitura espiritual. A indulgência será plenária, se o fizer pelo espaço
de meia hora pelo menos.” Manual de Indulgências. Disponível em:
http://www.presbiteros.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/Manual-de-
Indulg%C3%AAncias.pdf
descida do Espírito Santo sobre a primeira geração cristã; Salmo 103: Enviai o
vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai; 1Cor 12,3b-7.12-13: aqui, o
apóstolo fala dos diversos dons, falando que a certeza do senhorio de Cristo nos
nossos corações é inspirada pelo Espírito Santo. No evangelho, João 20,19-23, onde
Jesus sopra o Espírito Santo sobre o colégio apostólico, dando-lhes a faculdade de
perdoar pecados (Sacramento da Confissão).
Isto é muito interessante, visto que a palavra de cada domingo não fica refém
a subjetividade do presbítero, coisa que pode acontecer numa igreja protestante: um
evangélico pode ficar anos sem escutar uma pregação sobre algum profeta menor,
por exemplo. A Igreja Católica, com sua rica espiritualidade, faz com os que os
católicos não se prendam só a escuta da Bíblia, mas usem todos os cinco sentidos
no culto, numa experiência de comunhão com Deus, onde a totalidade do nosso
corpo é imersa na liturgia:

O incenso e os ícones, as prostrações e as reverências, o canto e os sinos.


Todos os seus sentidos foram absorvidos. Depois um seminarista
pergunta a Scott:

"O que achou?" Scott só consegue dizer: "Agora sei porque Deus me
deu um corpo: Para adorar o Senhor com seu povo na liturgia". Os
católicos não apenas ouvem o Evangelho. Na liturgia, nós a ouvimos,
vemos, cheiramos e saboreamos.59

Jesus disse que podemos ter certeza de que somos seus amigos se fizermos
tudo que ele nos ordenar (João 15,14). Nosso Senhor toma como sinal visível da
Igreja verdadeira uma caridade voltada para o próximo (cf. Mateus 25,34-40). Com
1.2 bilhões de fieis, a Igreja Católica é a maior família religiosa e a maior instituição
de caridade do planeta. Segundo revelam os dados do último “Anuário Estatístico
da Igreja”, publicado pela Agência Fides por ocasião da Jornada Missionária, a
Igreja administra 115.352 Institutos sanitários, de assistência e beneficência em
todo o mundo.
Graças ao celibato60 abraçado por padres, monges e freiras, a Igreja chega e
permanece aonde outros grupos cristãos não têm alcance. Caridade, fé e esperança
(cf.1 Co 13,13). As virtudes teologais são vividas de modo tão pleno por mim no

59
Scott Hahn. O banquete do cordeiro: a Missa segundo um convertido, p.26.
60
Infelizmente, a disciplina do celibato inexiste no meio protestante, mesmo sendo
claríssima a sua presença na Escritura. “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre
da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a
si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.” (Mateus
19,12); “Estes são os que não estão contaminados com mulheres; porque são virgens. Estes
são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vá. Estes são os que dentre os homens
foram comprados como primícias para Deus e para o Cordeiro. E na sua boca não se achou
engano; porque são irrepreensíveis diante do trono de Deus.” (Apocalipse 14:4,5); “E bem
quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há
de agradar ao Senhor; Mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de
agradar à mulher. Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas
do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas
do mundo, em como há de agradar ao marido.” (1 Coríntios 7,32-34)
catolicismo, que eu, por vezes, lamento não ter me tornado católico mais cedo. O
sistema sacramental, longe de afastar as pessoas de Deus, como julgam os
protestantes61, são um manancial de graças e mudança de vida. A confissão, com
seu efeito medicinal, é um auxílio poderoso contra os nossos pecados mais
ferrenhos. Eu, graças a ela, consegui abandonar “pecados de estimação” que tinha
enquanto protestante com relativa facilidade. A esperança do céu enche minha alma
a cada semana, quando me ajoelho no confessionário para receber o perdão de Deus
vindo das mãos chagadas do Cristo ressuscitado. Algo notório na confissão é que,
sob nenhuma circunstância, pode o padre revelar os pecados do penitente. “O que
acontece em Vegas, fica em Vegas”. O sigilo da confissão tranquiliza o fiel, na
certeza de quem vai como num médico de quem é um velho amigo. Os sacerdotes
escutam milhares de confissões durante seus anos de sacerdócio, não há nada que
os espante: são como aquele médico experiente que bate o olho, intui o diagnóstico,
prescrevendo o remédio acertado para cada situação62
Outra crença distintiva de católicos é a chamada presença real63 de Cristo na
Eucaristia (Santa Ceia, como é conhecida no meio protestante). Jesus, ressuscitado,
está presente de verdade no pão consagrado, como no céu! Não quero aqui fazer
uma defesa teológica64 desse dogma, coisa que já foi feita por pessoas mais
competentes do que eu65. Pretendo, somente, falar sobre a minha experiência com
a Eucaristia. Ao lado do meu trabalho, há uma Igreja franciscana, cheia de
belíssimos vitrais com cenas dos evangelhos. No altar, ficam guardadas num
recipiente chamado sacrário, as hóstias consagradas. Ou seja, Jesus está ali presente,
me vendo, me ouvindo66. Como é bom saber disso! É necessário ser digno para
recebe-Lo quando se vai à Missa, tendo um cuidado especialíssimo na preparação67.

61
“Os sacramentos, disponíveis unicamente por meio da Igreja Católica Romana, eram
entendidos como meios que conferiam a graça que aperfeiçoa a natureza. Os reformadores
entenderam esse sacramentalismo, principalmente o atalho para a graça proporcionado
pelas indulgências, como quase uma comoditização da salvação.” Kevin J. Vanhoozer.
Autoridade bíblica pós reforma. Vida nova, 2017, p. 75.
62
Cf. Por que confessar-se. Rafael Stanziona de Moraes. Quadrante.
63
877. Uma vez, porém, que Cristo Nosso Redentor disse que aquilo que oferecia sob a
espécie de pão era verdadeiramente o seu corpo (Mt 26, 26; Mc 14, 22 ss; Lc 22, 19 ss; l
Cor 11, 24 ss.), sempre houve na Igreja de Deus esta mesma persuasão, que agora este santo
Concilio passa a declarar: Pela consagração do pão e do vinho se efetua a conversão de
toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo Nosso Senhor, e de toda a
substância do vinho na substância do seu sangue. Esta conversão foi com muito acerto e
propriedade chamada pela Igreja Católica de transubstanciação [cân. 2]. Concílio de
Trento. Disponível em: http://www.montfort.org.br/bra/documentos/concilios/trento/
64
Cf. As diferenças entre a Igreja Católica e as Igrejas evangélicas. Jaime Francisco de
Moura.
65
Cf. Not by bread alone. Robert Sungenis, editor.
66
Faço, todos os dias, uma hora de oração, uma conversa amorosa com Jesus. Meia hora
pela manhã e meia hora à tarde. Começo a oração invocando a Deus da seguinte maneira:
Meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estás aqui, que me vês, que me ouves.
Adoro-Te com profunda reverência. Peço-Te perdão dos meus pecados e graça para fazer
com fruto este tempo de oração. Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai e Senhor, meu
Anjo da Guarda, intercedei por mim.
67
Vejam essa palestra sobre os Milagres Eucarísticos proferida pelo Dr. Ricardo
Castanon: https://www.youtube.com/watch?v=_w7KHSkGmfI
Enquanto protestante, muitas vezes, não pesava com a devida seriedade na minha
consciência os meus pecados, até por não acreditar que eles mudavam meu estado
de justificação diante de Deus. Embora eu estivesse arrependido deles, eram-me
negados os meios de combate-los com eficiência. A igreja, com sua insistência no
exame de consciência e na mudança de vida68, fez com que eu, gradualmente, fosse
melhorando. A perspectiva sobrenatural que a Teologia Católica proporciona, com
sua devoção ao anjo da guarda69, torna a solidão, algo tão comum ao homem pós-
moderno, um sentimento meramente subjetivo, visto que, objetivamente, nós somos
amados70, cuidados e acompanhados o tempo todo. Eu não sei qual é a fé em que
você foi educado, mas gostaria de, fraternalmente, que você considerasse a
possibilidade de se tornar católico. Estamos longes de sermos perfeitos, mas posso
afirmar com toda convicção do mundo: nada melhor do que ser católico! Conte
comigo para eventuais dúvidas ou esclarecimentos.
“Protestantes com frequência me perguntam por que eu me tornei
católico. Eu respondo falando que a Bíblia diz que a Igreja é o corpo
místico de Cristo, sendo este a Cabeça (Ef. 1,22-23, Col 1,18). Ninguém
pode ter um relacionamento pessoal com a Cabeça, Jesus, senão acolhe
também o seu corpo. Não é isso que Jesus queria para nós (João 17, 20-
23) Nos Atos dos Apóstolos, nós lemos que a comunidade cristã, guiada
pelo Espírito Santo em um organismo visível que São Paulo chama de
“coluna e sustentáculo da verdade” (1 Tm 3,1571). Como evangélico,
não podia pertencer a uma Igreja visível. Agora, como católico,
posso.”72

68
893. E para que não se receba indignamente tão grande sacramento e cause a morte e a
condenação, determina e declara o mesmo santo Concilio que aqueles que se sentem com
consciência oprimida pelo pecado mortal, ainda que se julguem sumamente contritos, se
puderem encontrar confessor, estão necessariamente obrigados a fazer primeiro a
confissão.
69
E, considerando ele nisto, foi à casa de Maria, mãe de João, que tinha por sobrenome
Marcos, onde muitos estavam reunidos e oravam. E, batendo Pedro à porta do pátio, uma
menina chamada Rode saiu à escutar; E, conhecendo a voz de Pedro, de gozo não abriu a
porta, mas, correndo para dentro, anunciou que Pedro estava à porta. E disseram-lhe: Estás
fora de ti. Mas ela afirmava que assim era. E diziam: É o seu anjo. Mas Pedro perseverava
em bater e, quando abriram, viram-no, e se espantaram. Atos 12,12-16
70
Quer dizer, em uma alma em estado de amizade com Deus, a Trindade habita nela como
um amigo. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos
e faremos nele a nossa morada.” (Jo 14, 23)
71
Neste versículo, o apóstolo fala da Igreja. Ou seja, há uma consciência de uma Igreja
visível e tangível que foi instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, a saber, a Igreja
Católica.
72
Testemunho de conversão de T.L.Frazier. Disponível em: Surprised By Truth: 11
Converts Give the Biblical and Historical Reasons for Becoming Catholic (English Edition).
Basilica Press, p.209.