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UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA - UFV

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES- CCH


DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - DCS
Disciplina: Política Brasileira I (CIS320)
Semestre 2016-II
Professor: Diogo Tourino de Souza

Avaliação 1 – Mito fundador, Estado e cidadania.


Discente: Luis Gustavo de Paiva Faria (85488)

Segundo Marilena Chauí (2012), o Brasil possui aquilo que chamou de mito
fundador; este entendido pela autora como uma justificação imaginária (ideológica) do
Brasil enquanto nação (p.155). Tal justificativa mítica, além de justificar uma formação
histórica, possibilitaria certas posições ideológicas, ao longo do tempo, tornadas
naturais, isto é, inerentes ao Estado, à população e às instituições sociais, de modo que
tal mito fundador, mais do que apresentar elementos narrativos, cumpre o papel de
solucionar certos tensionamentos no interior de uma sociedade. Não precisamos, nesse
ponto, de exemplos abstratos, nosso cotidiano e nós mesmos, por que não, nos pegamos
reproduzindo noções histórica e socialmente construídas como inatas e inerentes: a
justificação da hierarquia (“cada um deve estar em seu lugar”), o etnocentrismo (“índios
são excessivamente preguiçosos”) e o fatalismo (“sempre foi, é e será desse modo”) são
exemplos de ideias, ditados e falas incorporadas ao senso comum da população
brasileira, perpassando todas as classes. O que Chauí (2012) mobiliza como argumento
antropológico é a ideia de que o mito fundador brasileiro embasa posições ideológicas
(p.155-156) vistas como universais, conforme a própria acepção do termo ideologia
entendida aqui. E essa ideologia, esse conjunto de narrativas fundacionais-míticas,
alimentam certas características. Dentre as quais (algumas já citadas): o mito de que o
povo brasileiro é um povo pacífico1, não-violento, “tropical, abençoado por Deus e
bonito por natureza”. Naturalizar tais características, segundo a autora, funcionaria para
estabelecer e manter uma ordem autoritária, sendo a própria sociedade brasileira, por
consequência, autoritária. Dada, em termos gerais, a construção do argumento
defendido por Chauí, contextualizaremos através de situações e exemplos retirados dos
documentários “Choque” (BRASIL, 2009) e “À sombra da marquise” (BRASIL, 2010),
ambos dirigidos por Vladimir Seixas, algumas noções e imagens relacionadas ao
autoritarismo da sociedade brasileira bem como a ação do Estado em consonância a esse
mito fundador a que nos referimos.
Ambos os documentários, lidos sob a óptica do mito fundador, trazem situações
e relações autoritárias. Por um lado, o primeiro, Choque, apresenta um conflito entre
Estado (Guarda Municipal) e sociedade (camelôs, trabalhadores informais); por outro
lado, o segundo, À sombra da marquise, apresenta um conflito na dimensão das
próprias relações entre grupos sociais. O caminho que traçaremos aqui se embasa na

1
Tal mito, não apenas incorporado ao senso comum, também atinge instituições e outras esferas da
sociedade, como a imprensa e o próprio Estado. Cito aqui o fato corrente, em termos de Relações
Internacionais, de que o Brasil é um dos únicos países que não se envolve em conflitos e guerras, sendo o
país pacífico e apaziguador por excelência em comparação a outros. (Cf. SILVA (2013), Os princípios
das relações internacionais e os 25 anos da Constituição Federal. Disponível em
https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/502935/000991762.pdf?sequence=1).
ideia de que tanto a sociedade brasileira como o Estado são ecos ou modificações da
ideologia do mito fundador, assumindo, portanto, ambos como autoritários.
O que se vê, primeiramente, é uma contradição entre a ideologia da sociedade
não-violenta em relação à sociedade civil como ela se apresenta na realidade. Se, por
um lado, existe uma noção corrente de que a sociedade brasileira é fundada em
princípios pacíficos, a realidade se mostra completamente diferente: o conflito, o
autoritarismo e a violência perpassam diversas imagens dos dois documentários citados.
O que estamos contrapondo, nesse sentido, é a ideologia em relação à realidade; até
mesmo porque dentre os mecanismos de reprodução dessa ideologia está a inversão da
realidade social; inversão porque apresenta a sociedade em bases pacíficas, mas o que
os documentários (e nosso cotidiano) nos mostram são bases autoritárias, jurídicas e de
exclusão (CHAUÍ, 2012, p.156-157), outros mecanismos para manutenção da
ideologia. O que se mostra também interessante para ilustrar essa contradição entre
ideologia versus realidade é que o autoritarismo não está pautado apenas na dimensão
do Estado jurídico-legal, mas também nas ações da própria sociedade. À sombra da
marquise exemplifica de maneira genial a dimensão do autoritarismo de um grupo em
relação a moradores de rua que dormiam na marquise do prédio dos primeiros. O que
mais nos chama atenção é a aparente naturalidade com que o síndico do prédio assume
as ações utilizadas para repressão dos moradores de rua. Abertamente autoritário, o
argumento do síndico não deixa de reproduzir certos princípios ideológicos, como o
direito à propriedade2, defendida, no entanto, não pelo Estado, mas por mecanismos
individuais e autoritários. Além dessa dimensão da ideologia versus realidade, há
também a hierarquia social, conforme expõe Chauí (2000) a respeito do período
colonial, mas que pode ser lido sob uma óptica atual: “(...) os homens livres pobres,
mulatos e mestiços, não conseguirão se mover porque não tinham lugar, sua utilidade
estando em servir de figuração da vadiagem com que se podia deixar invisível a base
da hierarquia social (...)” (p.84). Tal ponto também esbarra no autoritarismo, já que se
afirma a necessidade de permanecer cada qual em seu “lugar”, sua classe, reafirmando
uma hierarquia (quase) colonial. Desse ponto, percebemos que tais questões possuem
também relação com o Estado e a própria constituição da cidadania no Brasil.
Há em Choque um choque entre o Estado e um grupo auto-organizado, isto é,
trabalhadores informais, camelôs, como são popularmente conhecidos; tendo o Estado,
na obra em questão, a função de controlar relações econômicas que não sejam,
necessariamente, reguladas em termos legais e de mercado. O seguinte trecho de Chauí
(2012) poderia ser lido como uma análise sociológica do filme: “(...) conflitos e
contradições são considerados sinônimo de perigo, crise, desordem e a eles se oferece
uma única resposta: a repressão policial e militar, para as camadas populares, e o
desprezo condescendente, para os opositores em geral. Em suma, a sociedade auto-
organizada é vista como perigosa para o Estado e para o funcionamento ‘racional’ do
mercado.” (p.159). Nesse sentido, o Estado assumiria uma faceta autoritária para
manter uma ‘ordem’ não-violenta e pacificadora. Weber? Nem tanto. A faceta do
Estado Moderno no Brasil assume caracteres patrimonialistas em conjunção a essa
faceta autoritária, associada, novamente, ao possível pacifismo do mito fundador.
Segundo José Murilo de Carvalho (2002), em contramão à ideia de cidadania, no Brasil
2
Cf. CARVALHO (2000) atentando para a cidadania nos moldes liberais, esta que tende a desconsiderar
o bem comum e a ideia de comunidade, mas que, curiosamente, não é predominante no que o brasileiro
entende por cidadania, mas que pode, em certa medida, aplicar-se à situação de que falamos no texto,
exceto pela ideia de que é o próprio indivíduo que está defendendo sua propriedade, e não o Estado liberal
[p.105-113].
se desenvolveu aquilo que o autor cunhou de estadania, onde a população assumiria o
Estado como uma instituição divina3 e não como representante dos cidadãos. Sendo,
pois, o Estado sagrado, patrimonialista e autoritário, sua ação se desenvolve na linha do
mito fundador, isto é, a partir de um autoritarismo abafado, como vemos em Choque.
O que Chauí defende, e o que nós procuramos defender aqui, é o argumento de
que tanto a sociedade como o Estado brasileiros estão embasados em um autoritarismo
abafado pela ideia de mito fundador, narração mítica que embasa a ideologia da não-
violência, mas que na realidade se apresenta completamente invertida, conforme vimos
nos documentários Choque e À sombra da marquise, e também em nosso cotidiano.

Referências
CARVALHO, J. M. de. Cidadania na encruzilhada. In: BIGNOTTO, Newton.
(Org.) Pensar a república. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. P.105-130.
CARVALHO, ________. Conclusão. In: Cidadania no Brasil, o longo
caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 219-229.
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária. Ed.
Fundação Perseu Abramo. SP, 2000.
CHAUÍ, _______. Democracia e sociedade autoritária. In: Comunicação &
Informação, v. 15, n. 2, p. 149-161, 2012. Disponível em
<https://revistas.ufg.br/ci/article/view/24574/14151> acesso em 17/09/2016.
SILVA, A. P. Os princípios das relações internacionais e os 25 anos da
constituição federal. Revista de informação legislativa, v. 50, n. 200, p. 15-32, 2013.
Disponível<http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/502935/000991762.pdf
?sequence=1> acesso em 17/09/2016.

3
Ponto que nos remonta ao conceito de sagração do governante desenvolvida por Chauí (2000),
especialmente o capítulo ‘O Mito Fundador`.