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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

DEPARTAMENTO DE TEORIA DA ARTE DE MÚSICA


CURSO DE LICENCIATURA EM MÚSICA

Idayana Maria Borchardt Leite

RELATÓRIO DE ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM MÚSICA

Vitória
2019
Idayana Maria Borchardt Leite

RELATÓRIO DE ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM MÚSICA

Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura


em Música da Universidade Federal do Espírito
Santo como requisito parcial de notas do
componente curricular Estágio Supervisionado
no Ensino da Música IV. Professor responsável
Gean Pierre.

Vitória
2019
1. INTRODUÇÃO

Este relatório aborda a nossa experiência no Estágio Supervisionado no Ensino


da Música II, que ocorreu ao longo primeiro semestre de 2019. Nesse estágio
deveríamos nos alocar em instituições que desenvolvam projetos em Música ou
em escolas do ensino regular que atendam a Educação de Jovens e Adultos –
EJA. Nosso estágio foi cumprido acompanhando as atividades do projeto
“Coralitto”, que atende crianças de 3 a 5 anos no bairro Jardim Camburi em
Vitória. As observações e intervenções ocorreram às quintas-feiras, no horário
de 08:30 às 09:30

O período de realização do estágio ocorreu entre os meses de março a maio de


2019. A instituição “Instituto dos os Cantos” é a responsável por desenvolver este
projeto e aulas, acontecem no espaço da Escola São Bernardo, com a qual o
instituto possui uma parceria. O instituto todos os cantos pertence ao chamado
terceiro setor e além desta iniciativa, organiza mais três outros projetos em
outros bairros da cidade de Vitória, sendo todos voltados para a musicalização
com ênfase em canto.

Como apresentado no blogspot do Instituto, a associação visa promover


atividades educacionais e literárias. Atua na promoção da prática coral,
trabalhando com concertos, seminários, realização de cursos e outros eventos.
Entre os projetos que são administrados pelo instituto destaca-se a atuação do
Coro juvenil Algazarra, que já se apresentou em grandes encontros de corais,
como o evento “Cantares”, que ocorre anualmente no teatro da Universidade
Federal do Espírito Santo – UFES.

O Instituto Todos os Cantos – ITC é uma associação de direito privado,


de fins não econômicos, sediada na cidade de Vitória, capital do
Espírito Santo. Sua fundação se deu numa união de músicos,
educadores e promotores culturais com objetivos em comum como é
definido em seu Estatuto consolidado em 20 de outubro de 2009.
(Fonte: Blog oficial do Instituto)
Projetos sociais que abarcam a Música se enquadram no que chamamos de
educação não-formal. Podemos descrever que a educação não-formal é aquela
que promove:

“[...] processos de ensino e aprendizagem musical que ocorrem fora do


espaço escolar. Sejam em manifestações culturais, em projetos
comunitários, em grupos musicais, em programas de rádio ou
televisão,ou em processos de auto-aprendizagem”. (ALMEIDA, 2005,
p. 49).

Almeida (2005) neste artigo que destaca o papel da educação musical não-
formal para a formação profissional do professor de Música justamente destaca
o terceiro setor como um dos contextos de trabalho para os profissionais da área,
destacando também locais como associações de bairros, casas de apoio aos
idosos e outros espaços alternativos de aprendizagem, que não as escolas
regulares de ensino fundamental e médio.

A autora continua descrevendo que o educador musical tem uma importante


atuação nestes espaços, considerando sua ação social e o oferecimentos de
atividades que muitas vezes cativam jovens, considerando que a Música
participa de forma considerável do nosso cotidiano. (ALMEIDA, 2005).

Por sua vez, Santos (2005), reforça que na época da escrita do artigo, a música
não estava presente os diversos níveis da educação básica e que, a atuação dos
projetos em música apresentava-se não só como uma alternativa de oferecer
ensino-aprendizagem nesta linguagem artística como também, criar de espaço
de sociabilidade e interação fora dos espaços de violência e marginalidade:

Fora da escola, projetos comunitários e sociais têm se dedicado com


freqüência cada vez maior ao ensino da música, com diferentes
ênfases. A música tem sido apresentada como forma de afastar jovens
da marginalidade social, como alternativa de profissionalização, como
instrumento de valorização da cultura popular, de melhorar a qualidade
de vida da população atendida. (2005, p. 32)

O artigo foi escrito a quase 14 anos atrás e ainda assim, boa parte das
colocações do autor ainda postulam como atuais. O fato é que mesmo após
diversas mudanças na legislação em torno do ensino de Música em nosso país,
continuamos nos encontrando em um cenário em que há uma “inexistência de
uma educação musical para todos” (SANTOS, 2005, p. 32) e que muitas pessoas
acabam só tendo contato com o aprendizado de música em espaços como
corais, aulas em projetos sociais e iniciativas privadas, reforçando assim a
importância que o ensino ofertado nestes locais seja de qualidade que que tange
o processo pedagógico-musical.

No espaço onde as ações do estágio IV foram desenvolvidas, as aulas no


Coralitto, as crianças participam de atividades lúdico-musicais, focadas no uso
da voz infantil e na sua introdução ao mundo da Música. Os alunos tem aulas
dois dias na semana, sendo que seus momentos no projeto tem duração de uma
hora e meia cada encontro.

2.DESENVOLVIMENTO

2.1 Contextualização da Instituição

Nome da Escola: Coralitto e Musicalização Infantil.


Endereço: Rua Carlos Martins, 185 – Jardim Camburi em Vitória.
Presidente da Instituição e regente do grupo: Alice Nascimento. Mestre em
Música e Regência pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
Total de alunos matriculados na turma: 06 alunos.

2.2 Observações

As observações iniciaram no dia 14 de março. Era a terceira aula do ano e boa


parte da turma chegou acompanhada pela família. O momento inicial dos
encontros é o de conversa com os pais, espaço do qual a regente destaca que
se faz o trabalho de construção da confiança: tanto dos familiares para com a
professora, quanto da turma para com ela.

As aulas acontecem em uma sala de aula no espaço da Escola São Bernardo.


Todo o material usado nas intervenções é levado pela professora Alice. Em
geral, ela traz consigo sempre o teclado musical e uma bolsa com instrumentos
musicais variados, brinquedos e materiais para serem usados na confecção de
atividades pelas crianças. Além disso, em algumas aulas, a educadora traz uma
caixa de som que usa para promover momentos de apreciação musical.

No primeiro encontro, a professora trabalhou com canções do cancioneiro


popular, como a cantiga da “Borboletinha” e o “Sapo não lava o pé”. Em algumas
canções, ela mescla movimentos e palmas a prática da canção, como no caso
da dinâmica que realizou em torno da música “Marcha soldado” na qual fez com
os alunos uma dobradura de chapéu usando papel chamex e ela com a turma,
marchou pela classe enquanto cantavam, levando consigo seus chapéus.

A professora recolheu nesse dia uma tarefa para casa em que os alunos
coloriram o “M” de Música e como uma atividade de sala, decoraram uma folha
com o “M” de Mozart, tendo um momento de apreciação musical ouvindo uma
peça instrumental do compositor.

No segundo encontro, no dia 21 de março, começamos a aula promovendo uma


interação com uma série de instrumentos musicais, no qual ela deixou os alunos
os tocarem e explora livremente. Ela voltou com as práticas com os cancioneiros
populares, mesclando palmas no final de frases melódicas e tentando incentivar
os alunos a tocarem os instrumentos de percussão acompanhando o pulso das
cantigas, enquanto cantam.

No final do segundo encontro, ela ensinou um trecho de uma canção que fará
parte do repertório da final de semestre do grupo. A música “Viva a Música” do
compositor Roberto Sion e trata-se de um arranjo pensando para coro infantil e
em sua letra, trata da música como uma arte e destaca uma série de
compositores, como Pixinguinha e Tom Jobim.

A terceira observação aconteceu no dia 28 de março. Neste dia ela ensino uma
nova canção na qual, apresentava a primeira nota musical, o Dó. A música é de
autoria da própria professora, que relatou que eventualmente cria pequenas
canções assim para trabalhar com a musicalização de alunos tão pequenos.
Dó, dó, dó
É a nossa nota
Dó, dó, dó
É a nossa nota
(Palma, palma, palma)
É a nossa nota
(Palma, palma, palma)
É a nossa nota

A regente usa muitas figuras de linguagem para fazer os alunos assimilarem os


nomes das notas musicais. Assim, o Ré é de Relógio, o Mi de Miau, o Fá de
Fada e o Dó, nesta aula, foi apresentado como o “Dó de Dodói”. Fizemos uma
atividade de desenho da mão dos alunos em chamex em que eles colocavam
um curativo no polegar, representando o “Dodói”.

Também exploramos a questão de explorar a voz das crianças cantando de


formas diferentes a mesma música em roda. Neste dia, a professora propôs que
os alunos cantavam a cantiga da borboletinha usando a “língua do cachorro’
(trocando a letra por au au), com a “língua do gato” (trocando a letra por miau
miau), com voz mais fina e mais grave. A atividade visava fazer as crianças
conhecerem mais a sua voz e se mostrou lúdica e levou a participação de todos.

Na quarta observação, que aconteceu no dia 04 de abril, a professora levou para


a turma um ursinho de pelúcia que ela nomeou como Alfredo. A introdução do
personagem na aula teve como objetivo o trabalho com a dicção das crianças,
pois na pronuncia do nome dele, ela os fazia puxar a consoante “R” na sílaba
“FRE”. Ela também introduziu nesse dia uma canção de chamadinha dos nomes.

Como atividades realizadas, a regente trouxe uma “caixa surpresa” com cartões
com nomes de animais, e as crianças iam repetindo conforme a professora ia
tirando-os da caixa. O momento de apreciação musical da aula abarcou a
audição de uma música instrumento orquestral, enquanto os alunos montavam
com o auxílio da regente e da estagiária, o nome deles usando peças de Lego
com letrinhas.
2.3 Intervenções

Tivemos algumas semanas de pausa entre a última observação e a primeira


intervenção, devido a compromissos da professora com outros grupos e
problemas de saúde da estagiária e da regente. Após conversas com a regente
do grupo, se estabeleceu que eu faria intervenções em quatro aulas seguidas e
que utilizaria o eixo de brincadeiras musicais como temática do trabalho,
considerando este ser um dos objetivos dos encontros no Coralitto.

Como referência bibliográfica para a criação das intervenções fizemos uso do


trabalho da pesquisadora em música Thelma Chan, que desenvolve um trabalho
didático-musical com foco no canto infantil. Duas obras da autora foram usadas
como referência direta para a concepção das intervenções: Coralitto (2006) e
Para ganhar beijo (2008). Para além disso, também temos como referência o
trabalho de Teca de Alencar (2003) com a obra, Música na Educação Infantil.

A primeira intervenção aconteceu no dia 02 de maio. Utilizamos uma canção


apresentada no livro “Coralitto” (2006, p.13) chamada “Bagadalá”. A canção que
tem como temática a” varinha mágica” tinha como objetivo apresentar uma
brincadeira musical na qual os alunos cantam uma canção e ao final, o aluno
que estiver com a varinha mágica enfeitiça os colegas de sala, fazendo-os imitar
animais.

Construímos com os alunos presentes uma varinha de papel chamex colado e


fitas de cetim, tendo eles momento de apreciação musical com a peça “Negro
Céu” do grupo musical “Palavra Encantada” enquanto montam a sua varinha de
papel. Nesta intervenção, também cantamos a canção “A canoa virou” do
cancioneiro popular, usando um barquinho de papel que passava de mão em
mão na roda, para fazer movimentos enquanto as crianças cantavam.

A segunda intervenção aconteceu no dia 09 de maio. Iniciamos o encontro


apresentando o instrumento de percussão indígena “pau de chuva”, permitindo
que cada criança trouxesse a “chuva” para a sala, ao mover o instrumento mais
rápido ou mais devagar.
Começamos a dinâmica pensada para a aula com um aquecimento vocal de tom
em tom, imitando um gatinho, usando assim a palavra “Miau”. O aquecimento
para crianças nesta idade começa em geral na nota Mi ou Fá, pois a região grave
não é uma área confortável para vozes nesta idade (CHAN, 2008).

Após o aquecimento, apresentei uma canção do livro “Coralitto” (2006, p.10)


chamada “Olha o Sapo!”. A música fala de um sapinho que pula, pula sem parar
pelo brejo até se cansar e propõe uma dinâmica em que as crianças aprendem
a cantar a canção e depois são desafiadas a saltar pela sala como sapinhos,
cantando ao mesmo tempo e então, se jogam no chão cansadas no final.

Depois de cantar a música algumas vezes e de fazer a dinâmica saltando pela


classe, passamos para um momento de apreciação musical ouvindo a canção
“Canto do povo de um lugar” do compositor Caetano Veloso, na voz do grupo
“Vuelta Canela”, enquanto pintavam uma atividade com o “Sol” impresso da
primeira nota da música do sapo, continuando o processo das crianças de
conhecerem os nomes das notas usando figuras de linguagem.

A terceira intervenção ocorreu no dia 16 de maio. Neste dia choveu pela manhã
e somente um aluno veio para o encontro. Retomamos as atividades da aula
anterior, relembrando a canção do sapo, só que desta vez usando um fantoche
de sapo para mostrar os movimentos do sapinho saltando de um joelho para o
outro, com o aluno imitando com as mãos e cantando.

Então, introduzimos uma nova cantiga do cancioneiro popular, a do Peixe Vivo,


com a qual fizemos uma dinâmica de cantar enquanto realizávamos o pulso da
música usando um chocalho artesanal. Cantamos ela em uma velocidade normal
e depois, trabalhamos com o aluno o acelerar e o ralentar do pulso e da voz, com
a mesma canção. Por fim, realizamos um momento de apreciação musical com
a canção “O gigante” do grupo musical “Tiquequê”, enquanto construímos com
o aluno um peixinho em forma de mobile, usando faixas de TNT coloridos e um
barbante.
A última intervenção estava planejada para o 23 de maio de 2019. Nesta
intervenção, pretendíamos apresentar uma última brincadeira musical, que tem
como fundo a contação de uma historinha infantil: a história “Macaquinho saí daí”
na versão da cantora Bia Bedran. Nesta história musical, baseada no livro infantil
“Macaquinho” do autor Ronaldo Simões Coelho”, o filhotinho de macaco sai de
sua cama toda a noite e vai para a cama dos pais, sempre dando uma desculpa
para isso, como fome, medo, frio. Por final, o filhote conta que sente saudades
dos pais, porque eles chegam em casa e não ficam com ele. Entre os trechos da
narrativa há uma cantiga que o “Pai canta para o filho” e a proposta é que as
crianças na roda cantem a música acompanhando a narradora.

Todavia, a Escola São Bernardo incluiu o feriado da Colonização do Solo Espirito


Santense em seu calendário e avisou a maestrina dias depois da terceira
intervenção e sem a disponibilidade do espaço, não haveria aula nesta data par
ao Coralitto. Assim, nosso plano de curso não pode ser concluído dentro do
tempo hábil para o encerramento do estágio, considerando a data de
apresentação do seminário final.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acompanhar o trabalho de uma experiente maestrina que pesquisa canto infantil


foi algo muito cativante para nossa formação como educadora musical. A forma
como ela planeja cada encontro, entrelaçando atividades que começam a
introduzir a percepção musical nas crianças, bem como as imerge no universo
musical de forma lúdica, muitas vezes por meio de brincadeiras, demonstra que
trabalhar música e canto nesta faixa etária precisa ser algo pensado de modo
muito criativo, alegre, colorido e sim, musical.

As propostas de repertório foram outro ponto importante desta Estágio. Alice em


um encontro aborda desde um arranjo coral uníssimo com uma certa
complexidade até a exploração de um “Parabéns para você” mostram que é
preciso trazer diversas experiências para os alunos, com diferentes graus de
dificuldade para os alunos. Foi um estágio muito produtivo e rico, que inspirou
ações, inclusive, em coros que regemos.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALMEIDA, Cristiane Maria Galdino de. Educação musical não-formal e atuação profissional.
Revista da ABEM, Porto Alegre, V. 13, 49-56, set. 2005.

BEDRAN, Bia; ZARVOS, Nick. Macaquinho. Disponível em: <


http://eraumavezesempreoutra.blogspot.com/2010/02/macaquinho.html >. Acesso em 24 de
maio de 2019.

_____________. Macaquinho - Bia Bedran. 2002. Disponível em: <


https://www.youtube.com/watch?v=Wv73BibbbUY&t=46s >. Acesso em 24 de maio de 2019.

BRITO, Teca Alencar de. Música na educação infantil: propostas para a formação integral da
criança. 2ª ed. São Paulo: Peirópolis, 2003. p. 127-134.

CHAN, Thelma. Para ganhar beijo: almanaque de canções infantis. São Paulo: Irmãos Vitale,
2008.

_____________. Coralitto. São Paulo: Irmãos Vitale, 2006.

INSTITUTO TODOS OS CANTOS. Disponível em: < http://institutotodososcantos.blogspot.com/


>. Acesso em 24 de maio de 2019.

PALAVRA CANTADA. Ouvindo estrelas. Disponível em: <


https://www.youtube.com/watch?v=xXcr4LA7PLc >. Acesso e 20 de abril de 2019.

MORAIS, Fátima. Peixe vivo palavra cantada. Disponível em: <


https://www.youtube.com/watch?v=yJv7xlAYEMo >. Acesso e 20 de abril de 2019.

SANTOS, Marco Antônio Carvalho. Educação musical na escola e nos projetos comunitários
e sociais. Revista da ABEM, Porto Alegre, V. 12, 31-34, mar. 2005.

TIQUEQUÊ. O gigante. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=tqwuP7lzJwY >.


Acesso em 15 de abril de 2019.

VUELTA CANELA. Canto do povo de um lugar. Disponível em: <


https://www.youtube.com/watch?v=_q-ZmOqs6HI >. Acesso em 20 de abril de 2019.