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I m 1

II ■

0 CORPO DE CRISTO PELOS


ÂNGULOS DAS ESCRITURAS, DA
HISTÓRIA E DA CULTURA

Gene A. Getz
IGREJA:
FORM AE
ESSÊNCIA
O CORPO DE CRISTO PELOS
ÂNGULOS DAS ESCRITURAS, DA
HISTÓRIA E DA CULTURA

Gene A Getz
Tradução
M árcio Loureiro R e d o n d o

EH
° 1984 de SP Publications, Inc.
Título do original: Sharpening the Focus of the Church
Traduzido da edição amplamente revisada,
publicada por Victor Books (Wheaton, II, EDA)
Publicado no Brasil com a devida autorização
e com todos os direitos reservados por
S o c ieda de R eligio sa E dições Vida N o v a ,
Caixa Postal 21486, São Paulo, SP.
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eletrônicos, xerográficos, fotográficos, gravação,
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ou resenhas, com indicação de fonte.

2 4 6 8 10 9 7 5 3 1
95 97 98 96 94
ISBN 85-275-0204-6
Printed in Brazil / Impresso no Brasil

C o o rd en ação d e p ro d u ção • R obinso N M alkomes


Revisão • L ucy Yam akam i e F abia ni M edeiros
C o m posição • Valdem ar Kr Óker
D iagram ação * R o ger L. M alkomes e J a n ete D . C elestino
C apa • Íbis R oxan e

Dados internacionais de "M ieação (CIP)


(Cârpara Brasileira do Livro, SP, II)

Getz, Gene A. |
Igreja; forma e essência: o corpo de Cristo
pelos ângulos das Escrituras, da história e da
cuftura ( Gene A.. Getz ; ( tradução Márcio Lo u re i|
Redondo | . — São Paulo : Vida Nova, 1994 ,

Bibliografia
ISBN 85-275-0204-6

1. Igreja 2. Igreja - Renovação 3. Teologia prática


I, Título.

94-2817

para catálogo sistemático

lAZINHO RODRIGUES
Prefácio à edição em português 7
Prefácio ã edição em inglês 9
Introdução 11

P r im e ir a P a r t e • 0 ângulo das Escrituras

Um Uma perspectiva da renovação da igreja 15


Dois Uma visão por três ângulos 35
Três Por que a igreja existe? 53
Quatro A formação de discípulos 63
Cinco Os princípios de evangelização do Novo
Testamento 77
Seis A edificação da igreja 93
Sete As experiências vitais do Novo Testamento 107
Oito Os princípios de edificação do Novo Testamento 123
Nove A liderança na igreja do Novo Testamento — primeira
fase 137
Üez A liderança na igreja do Novo Testamento — segunda
fase 153
Onze O corpo em ação 173
Doze Os princípios de liderança do Novo Testamento 187
Treze Os exemplos bíblicos de administração e de
organização 209
Quatorze Os princípios bíblicos de administração e de
organização 229
Quinze A comunicação no Novo Testamento 249
Dezesseis Os princípios de comunicação do Novo
Testamento 267

S e g u n d a P a r t e • O ân gu lo da h istó ria

Dezessete O institucionalismo na história 285


Dezoito Os reflexos do institucionalismo na igreja
evangélica 297

T e r c e ir a P a r t e • O ângulo da cultura

Dezenove As implicações culturais para a igreja do


século XX 309

Q\járta P arte * O desenvolvimento de m a


estratégia contemporânea

Vinte O desenvolvimento gradual de uma perspectiva


correta 327
Vinte e um A formulação de objetivos, alvos e padrões 347
Apêndice a Uma oportunidade de fazer o seu próprio
estudo indutivo 359
Apêndice b Atividades e diretrizes — resultados e objetivos 403
O autor 419
Todos nós, que já sonhamos e nos compfometemos com o surgimento
de uma igreja mais dinâmica e mais pertinente ao seu meio, já depa­
ramos com o mesmo problema: a questão da fotma c da rssêuúâ'
Desejamos uma igreja que seja, simultaneamente, a “cara” de nosso
povo e fiel aos princípios neotestamentários; desejamos uma igreja de
impacto, sem, contudo, sacrificar seu entendimento teológico no
processo.
Quando li este livro pela primeira vez, há cerca de 12 anos, muitas
verdades se esclareceram. Todos sabemos que a Bíblia não nos
apresenta formas imutáveis, mas, sim, elementos fundamentais que se
revestem (ou, pelo menos, deveriam revestir-se) de roupagem nova em
cada situação. Quando não aplicamos essa verdade, criamos igrejas
que, por estarem tão apegadas à forma, perdem o contato com sua
essência. Nossa mensagem é tão importante, que não nos devemos
deixar prender a práticas e costumes que, embora possam ter sido
adequados na origem, hoje são, na melhor das hipóteses, inócuos.
Vivemos uma época em que o movimento evangélico está buscando
novas fórmulas de sucesso. Muitas vezes temos buscado apenas uma
roupa nova ou novas palavras de ordem. Precisamos aprofundar nossa
compreensão da essência da igreja, se quisermos ser tudo o que Deus
pretende que ela seja. Apesar de ter escrito originariamente em 1974,
em outras circunstâncias (EUA), o Dr. Gene Getz, pastor de muitos
anos, mostra-se sobremodo atual e pertinente. Igreja: Forma e Essên­
cia vai oferecer-lhe um roteiro pelo qual você poderá desenvolver a
filosofia de ministério e a estratégia que Deus tem para sua igreja em
seu tempo e lugar.
Nós, do Conselho de Igrejas para Desenvolvimento de Líderes
( b il d ), nos consideramos privilegiados por poder facilitar a publicação
deste livro em português. Acreditamos que, utilizado com seriedade,
ele possa libertar sua comunidade de muitas formas, possibilitando um
ministério muito mais aplicável a sua situação e muito mais harmônico
com o propósito de Deus para sua igreja.

P r . D a n ie l L im a
Igreja Batista do Morumbi
Os livros não cessam de vir à luz. Mas poucos com mensagens bem
definidas, pertinentes e orientadoras. É difícil produzir livros assim.
Exigem mente imaginativa, criadora. Não desaparecem com a crítica
e a depreciação. Desbravam novas trilhas a exploradores corajosos do
reino de Deus. E o caso de Igreja: Forma e Essência.
Segundo o NT, a igreja é gloriosa. Cristo amou-a e deu-se por ela.
Ele a edifica. Caminha entre os candeeiros de ouro. Ela é a sua igreja,
e apresentá-la-á a si mesmo sem mácula nem ruga.
Mas, na história, essa glória nem sempre se refletiu nas igrejas
locais. Deve-se admitir humildemente esse fato trágico. Daí serem
muitas delas duramente criticadas, cruelmente atacadas, tristemente ne­
gligenciadas e friamente rejeitadas pelos que as consideram inapli­
cáveis, antiquadas e sem sentido. Em alguns lugares, os edifícios das
igrejas quase não passam de monumentos históricos ou museus.
Sem dúvida, o julgamento do mundo é cruel; às vezes, injusto.
Mas será sem razão? As igrejas têm sido fiéis ao chamado divino, ao
propósito que Deus traçou para elas? Não deveríamos, até, dizer-lhés:
“Corrias berr»; quem te impediu...?” . Essa é, assim, a situação hoje.
Mas nossc> Senhor não cortou relações com a igreja. Agora canii-
nha entre os candeeiros. Por sua graça, está levando alguns de seus
servos a aplicar as habilidades e o conhecimento no diagnóstico das
enfermidades das igrejas e na ajuda para que elas encontrem o ca­
minho da renovação e da reconstrução. Gene Getz foi dirigido p ^ o
Senhor nos diagnósticos e nas indicações de saída do dilema.
Os três ângulos, Escrituras, história e cultura, aplicam-se com efi­
cácia e coerência, sendo muito reveladores e úteis. Essa abordagem
ressalta que'as igrejas não devem viver na)Bíblia,“mas por ela, na his­
tória e no ambiente cultural. E, embora a Bíblia permaneça constante
e seja a norma absoluta da vida eclesiástica, a história e a cultura mu­
dam constantemente e requerem alterações na forma e na estrutura,
para continuarem relacionadas com o mundo em que atuam. O pro­
cesso de institucionalização pode “congelar” as igrejas em padrões que
geram estagnação e morte. A saída é a contínua metamorfose das
igrejas, sem ^Iterar a mensagem imutável, nem deixar os padrões, os
ideais e os objetivos encontrados na Bíblia. '
A apresentação bíblica das igrejas do NT feita por Getz trata-se
eclesiologia prática em forma viva e bem fundamentada na Bíblia. Põe
as igrejas locais no centro dos movimentos cristãos e evangélicos —
como faz o NT. Define claramente o propósito delas, a função e os
cargos nas igrejas, e traça uma linha divisória entre essencial e se-
cuwAino *funcional e estrutural, conteúdo e forma, “çnêumenos” e fe­
nômenos organismo bíblico dinâmico e organização cultural.
O detalhes sobre as distinções e as definições de palavras
f e r e c e t n ' s e

como pregação, ensino, evangelização e testemunho e as descrições de


c a r g o s e pessoas. Distingue-se entre os ministérios nas (para as) igfe-

jas locais e na (para a) igreja universal, em que as diferenças de opi­


nião e de interpretação são permissíveis sem ser conflitantes.
O livro tem uma mensagem para a igreja hoje, e será bom que pen­
semos sobre e^a-

G e o rg e W. P e te r s
Professor Emérito de Missões Mundiais,
Dallas Theological Seminary
Tenho uma grande dívida com inúmeros cristãos que ajudaram a
tornar este livro uma realidade. Devo especial reconhecimento a meus
alunos e irmãos em Cristo do Dallas Theological Seminary, que me
KAYffiüVàràTn àfcm tro e, iwàfíiea\grais atíCft,
minha reflexão em torno das necessidades e dos problemas da igreja
do século xx. Suas perguntas francas, seus comentários e especial­
mente suas reações positivas diante dos conceitos apresentados nesta
obra foram fonte perpétua de estímulo e incentivo.
Dois alunos em especial — ambos missionários na Europa,
atualmente — tiveram a ousadia de me desafiar a tomar parte na
abertura de igrejas. “A teoria parece muito boa” , davam sempre a
entender em nossas conversas depois da aula, “mas quando você vai
demonstrar que pode funcionar numa situação real?”
De início, respondia que era tarefa deles aplicar esses princípios
em situações culturais variadas. A minha era pesquisar, ensinar e
preparar outros — como eles — para fundar e também renovar igrejas.
Suas palavras, entretanto, martelavam na minha mente. Nem
imaginava que, depois de 20 anos como professor de tempo integral,
deixaria os meios acadêmicos de estudo sacro para tornar-me pastor
de tempo integral. Embora eu ainda lecione em tempo parcial no
seminário de Dallas, desde 1973 tenho gastado a maior parte do meu
tempo junto às bases, abrindo e pastoreando igrejas.
Que grande experiência de aprendizado! Aquilo que descobri
alguns anos atrás acerca dos princípios do Novo Testamento quanto
à vida da igreja — o tema principal deste livro — ainda creio de todo
o coração. No entanto, agora sei bem mais sobre como aplicar esses
princípios. E ainda estou aprendendo! E o que estou aprendendo,
estou tentando partilhar com outras pessoas. Esta revisão bastante
ampla de Escrituras, História e Cultura é um reflexo desse esforço.
O ângulo
das Escrituras
A primeira parte tem o propósito de ajudá-lo a ver a igreja de hoje
pelo ângulo das Escrituras. É o segmento maior do livro por ser o
alicerce. É um estudo bíblico, e escrevi estes capítulos com o
propósito de levantar algumas perguntas fundamentais acerca da igreja
no Novo Testamento, a elas respondendo, e, depois, procurar
princípios que servirão de diretrizes para a igreja do século xx.
Quais eram suas funções e quais os resultados? Quais eram suas
diretrizes e objetivos? Como a igreja se relacionava com a cultura e
a comunidade do século I? Quais eram as experiências significativas
dos cristãos do Novo Testamento quando se reuniam para a edifi­
cação? Quem eram seus líderes? Como eram escolhidos e quais eram
suas qualificações? Como os membros da igreja do Novo Testamento
se comunicavam entre si e com o mundo? Quais eram suas estruturas
e formas?
Certamente este estudo não é exaustivo, pois quem pode desvendar
sozinho as profundezas da eterna Palavra de Deus? Mas espera-se que
seja suficientemente abrangente para colocá-lo de frente, de modo
novo e vital, com o dinâmico grupo de pessoas que mudou o curso da
história — a igreja do século I.

Os três ângulos
!

Uma
perspectiva da
renovaçao da
igreja

O que ocorreu nas igrejas evangélicas nas últimas duas décadas não
está desvinculado do que aconteceu com a nossa cultura em geral.
Jamais está. A “infiltração cultural” é inevitável.
No final da década de 60 e no início da de 70, os Estados Unidos
começaram a experimentar um clima antiinstitucional que chegou a
ameaçar os próprios alicerces de nossa sociedade. Foi sobretudo
nesses anos que os alunos das universidades se rebelaram.
Essas agitações e crises culturais de fato “se infiltraram” em nossas
subculturas evangélicas. A maioria de nós, que estávamos lecionando
em faculdades evangélicas naqueles dias, lembra-se claramente das
perguntas ameaçadoras e dos ataques verbais disparados contra as
várias instituições em que lecionávamos, bem como das atitudes
negativas dos alunos em relação à igreja como instituição (veja a
figura 2).
Vários educadores, teólogos e clérigos começaram a enfrentar essas
perguntas com sinceridade e procuram destrinchar o problema fazendo
separação entre o que era realmente válido nessas reações e o que era
simplesmente infelicidade, frustração e desilusão causadas por uma
sociedade em crise.
O que estava ocorrendo na cultura em geral e de modo particular
na subcultura evangélica na época também tinha raízes históricas
significativas. Nenhuma crise se dá no vazio. No mundo secular, a
“vaca sagrada” da ciência e os resultados por ela prometidos não
estavam funcionando. Não havia nenhum indício da “grande so­
ciedade”. Além disso, o mundo adulto estava em processo de
modificação de seu sistema de valores morais, o que provocou, de

Figura 2: Infiltração cultural

modo especial, uma desilusão entre nossa juventude. Além disso, mais
e mais jovens estavam ficando muito insatisfeitos com o que sentiam
ser uma sociedade despersonalizada, que os estava devorando,
esmigalhando sua individualidade e destruindo seus impulsos criativos.
Sentiam-se perdidos em meio a uma imensa máquina cultural que
estava ficando descontrolada. Sentiam-se arrasados. O principal recur­
so deles era descarregar a ira nas instituições americanas. E a crise no
Vietnã só pôs mais lenha na fogueira.
Entrelaçadas de forma intricada com essas instituições nos Estados
Unidos estavam as igrejas e as escolas evangélicas. A “infiltração”
negativa foi imediata. Mas havia algumas razões válidas. Para muitos,
as instituições evangélicas, juntamente com as instituições seculares,
pareciam desprovidas de significado e distantes da realidade. O
cristianismo parecia meramente acadêmico e cognitivo, muitas vezes
legalista e freqüentemente superficial e irreal. Em sua forma corrente,
parecia carecer de soluções aceitáveis para as grandes questões do
momento. O fato é que, em muitos casos, nem estávamos falando
sobre essas questões.

O movimento de renovação da igreja


Foi naqueles dias que os escritores da renovação da igreja começaram
a se manifestar acerca desses temas. Os próprios títulos dos livros
mostram um perfil sem igual das preocupações básicas que ocupavam
o pensamento de muitos líderes cristãos.

O Grupo dos Consagrados. No início da década de 60, Elton


Trueblood publicou o livro The Company ofth e Committed [O Grupo
dos Consagrados]. Citando Karl Heim em Christian Faith and Natural
Science [A Fé Cristã e a Ciência Natural], ele viu a igreja como:'

Um navio em cujo convés a festa ainda corre solta e se ouve uma música
maravilhosa, enquanto bem abaixo da linha de flutuação abriu-se um
buraco e grande volume de água está entrando aos borbotões, de modo
que a cada hora a embarcação vai afundando um pouco mais, embora as
bombas de recalque funcionem dia e noite.1

Em Busca da Vitalidade na Religião. Findley Edge retomou,


alguns anos mais tarde, o tema abordado por Trueblood. Experimen­
tando, ele próprio, a desilusão, especialmente com o que sentia ser
uma falta de realidade cristã, apesar do contínuo crescimento de sua
própria denominação, ele escreveu A Quest fo r Vitality in Religion
[Em Busca da Vitalidade na Religião], Afirmou:

Atualmente, as igrejas estão experimentando um período de popularidade


e prosperidade quase sem precedentes. Normalmente uma situação dessas
seria motivo de olimismo e satisfação irrestritos. Por estranho que pareça,
não é o que acontece. Muitos líderes religiosos sérios e cristãos leigos
maduros manilcstain o crescente tumulto de agitação e ansiedade. A
despeito dos edifícios suntuosos, do crescimento no número de membros
e do vigor de muitas das atividades realizadas dentro das igrejas, algum
problema muito sério está afetando o cristianismo contemporâneo. Existe
alguma coisa errada em seu cerne. Corre o perigo de perder a vida e a
dinâmica.2

Um Novo Rosto para a Igreja. Poucos anos depois, a amplitude da


preocupação se alargou quando um grupo de educadores evangélicos,
representando várias escolas cristãs, encontrou-se no Acampamento de
Honey Rock, do Wheaton College, em meados de 1967 e 1968. O
resultado foi o livro A New Face fo r the Church [Um Novo Rosto para
a Igreja], escrito por Larry Richards, que representa de forma geral
o pensamento do grupo de Honey Rock e, de forma particular, o
pensamento de seu autor.
Para a maioria, o livro era radical e idealista. Conclamava a uma
completa avaliação e revisão de nossas formas e estruturas ecle­
siásticas atuais e, caso necessário, a um novo começo. Foi, no entan­
to, um livro instigante. Motivou muitos de nós a voltar para o Novo
Testamento, para dar uma nova olhada naquilo que Deus havia dito
sobre a igreja.3

A Igreja no Ano 2001. O segundo livro que apareceu no início da


década de 70 foi A Igreja no Ano 2001, de autoria do Dr. Francis
Schaeffer. Escrevendo com base em sua abrangente compreensão da
história e da cultura, abordou diretamente o problema da diferenciação
entre os absolutos e os não-absolutos nas Escrituras. “Numa época de
! mudanças rápidas como a nossa”, escreveu, “época de total convulsão
como a nossa, fazer absoluto o que não é assegura o isolamento e a
morte da igreja organizada e institucional.”4 Esse foi um livro
particularmente perspicaz acerca da renovação da igreja.

O Problema dos Odres. Também no início da década de 70,


começamos a ouvir outra voz. Howard A. Snyder, missionário atuante
em São Paulo, no Brasil, começou a enviar artigos para várias revistas
americanas. Os próprios títulos revelavam suas preocupações:
“The Fellowship of the Holy Spirit” [“A Comunhão do Espírito
Santo”],5 “Church Renewal through Small Groups” [A Renovação da
Igreja Através de Grupos Pequenos”],6 “Does the Church Suffer an
Edifice Complex?” [“A Igreja Padece de um Complexo de Edi­
fícios?”],7 “ ‘The People of God’ — Implications for Church
Structure” [‘“ O Povo de Deus’ — Implicações para a Estrutura da
Igreja”]8 e “Should the Protestant Pastor Be a Superstar?” [“O Pastor
Protestante Deve Ser um Superastro?”].9 Depois de voltar aos Estados
Unidos, ele utilizou esses artigos como base para a publicação de um
livro intitulado The Problem o f the Wineskins [O Problema dos
Odres], “O fato de sair do cenário americano e passar a me envolver
com o trabalho da igreja noutra cultura” , escreveu, “levou-me a uma
reavaliação fundamental acerca da missão e da estrutura da igreja no
mundo de hoje.”10
Tanto as descobertas de Snyder quanto as de Schaeffer estavam
diretamente relacionadas com suas experiências com a igreja após
deixarem a cultura americana e atuarem no ministério em outra parte
do mundo. Essa observação é significativa, porque muitas vezes
nossas experiências culturais embaçam nossa visão no que diz respeito
à natureza supracultural das Escrituras. Especificamente como pessoas
que vivem nos Estados Unidos, com freqüência “americanizamos” a
Bíblia e, inadvertidamente, impomos à Bíblia formas e estruturas
culturais que não se encontram ali. Schaeffer e Snyder ajudaram á
superar alguns desses erros de interpretação.

Círculo Completo. Aqui e ali, líderes cristãos fizeram experiências


com novas formas e estruturas. David Mains, especialmente in-
lluenciado pelos escritos de Elton Trueblood, deu início a uma expe­
riência ousada no centro de Chicago. Todos ficamos impressionados
c animados com a Igreja do Círculo, que se tornou conhecida pela
própria história de Mains, contada no livro Full Circle [Círculo
Completo].u Aqueles de nós que acompanharam os esforços de Mains
admiramos seu desejo de enfrentar o centro decadente da cidade e os
problemas de integração e de diferenças sociais que infestavam não
iípcnas nossa sociedade americana, mas também a subcultura
evangélica.
A experiência, no entanto, não satisfez as expectativas de Mains
Uma razão que ele apresenta é quefnão deu atenção ao princípio que
eslava sendo proposto pelos especialistas em crescimento da igreja no
ijtic diz respeito à necessidade de analisar uma estrutura para alcançar
ii "unidade homogênea” . Mais tarde, afirmou que teria sido sábio se
llvesse dado atenção a Wagner. Mains escreveu:
Ele me advertiu para não tentar alcançar, numa única igreja, pessoas
muito diferentes entre si. Exatamente como ele havia predito, por fim, a
congregação se dividiu, em meio à nossa tentativa de estender demais, e
muito rápido, o nosso amor imperfeito. Éramos jovens e estávamos
obcecados com a idéia de solucionar, em poucos anos, problemas que
vinham-se formando havia séculos.12

A Igreja nos Lares. Alguns (até mesmo eu) tentaram, no início da


década de 70, o conceito de igreja nos lares, e freqüentemente
ficávamos desapontados por não levarmos em conta os problemas do
século XX. As exigências do estilo de vida imposto às famílias ameri­
canas logo fizeram com que fosse um fardo ter um lar sempre disponí­
vel para uma reunião da igreja, especialmente quando envolviam pes­
soas de todas as idades. Além do mais, nessas experiências não calcu­
lamos o enorme impacto da mentalidade de “igreja-edifício” , que se
desenvolveu em nossa cultura e está inegavelmente relacionada com
nosso senso de segurança e com a necessidade de estabilidade.
Essa experiência ensinou-me como é importante olhar não apenas
pelo “ângulo das Escrituras”, mas também pelo “ângulo da cultura”,
quando tentamos desenvolver formas e estruturas contemporâneas para
a igreja de nossos dias. f
Alguns líderes cristãos tentaram desfazer-se dos ministérios
educacionais tradicionais voltados para as crianças e para os jovens,
passando a concentrar sua atenção na unidade familiar como um todo.
Embora fosse um objetivo louvável, mais uma vez essas pessoas
desprezaram a cultura. Muitos logo aprenderiam que essa abordagem
funcionava somente com pessoas solteiras e com casais jovens sem
filhos. Assim que os filhos começavam a nascer, acrescentavam-se
programas educacionais ou as pessoas se desculpavam e passavam a
freqüentar igrejas mais tradicionais, com berçários e programas
educacionais para seus filhos. Embora muitas vezes perdessem a
dinâmica gerada por uma estrutura eclesiástica simples, as necessi­
dades dos filhos superavam as suas, na hora de escolher um local de
adoração.
Com esse êxodo constante ou com a impossibilidade de atrair
famílias, ou as duas coisas ao mesmo tempo, geralmente essas novas
igrejas eram constituídas de pessoas solteiras ou de casais jovens. Isso
apresentava outro problema. Faltava, nessas igrejas, líderes m aduros,
homens e mulheres de mais idade, com famílias bem estruturadas.
Além disso, essas igrejas careciam da dinâmica que uma fam ília
completa traz para o corpo de fiéis.
O Dr. George Peters, grande líder missionário por seus p ró p rio s
méritos e uma pessoa que influenciou meus pensamentos mais do que
qualquer outro líder evangélico, acredita que, para serem saudáveis,
“as igrejas devem ser construídas a partir de unidades fam iliares, e
não a partir de cristãos isolados” .13

Irmãos, Fiquem à Vontade. Alguns entusiastas da renovação da


igreja reagiram fortemente contra a estrutura em si e tentaram p lanejar
igrejas “sem estrutura” e “sem líderes” , cuja melhor ilustração está
no livro Brethren, Hang Loose [Irmãos, Fiquem à Vontade], 14 de
Bob Girard. Embora Girard na verdade não pensasse ser possível
funcionar sem forma ou haver grupos sem líderes, ele parecia carreg ar
uma inquietação, quando a igreja começou a se tornar organizada. P or
outro lado, sua preocupação com o “funcionamento do corpo” sob a
liderança do Espírito Santo é, com certeza, algo elogiável e, em m inha
opinião, uma perspectiva bíblica. Mas, na época, representou um a
reação excessiva e um ‘ movimento pendular de afastamento da
síndrome institucional. Parecia que ele desejava um “organism o” sem
“organização” — uma impossibilidade funcional.

Corpo Vivo. Nessa época, algumas igrejas tradicionais com eçaram


a fazer mudanças significativas. A Península Bible Church, d e Paio
Alto, na Califórnia, é um excelente exemplo. Sob a liderança d e Ray
Sledman, essa igreja popularizou o culto do “corpo vivo” . O liv ro de
Slcdman Igreja: Corpo Vivo de Cristo disseminou o conceito e
incentivou várias igrejas tradicionais a incorporar mais as funções de
"corpo vivo” em suas estruturas.15
Fui muito inspirado pelo ministério de Stedman. Aliás, passei
iilgum tempo naquela igreja, observando o fenômeno e gravando em
vlileo os cultos de “corpo vivo” da Peninsula Bible C hurch e
mmpartilhando-os com meus alunos no Dallas Theological Sem inary.
Logo, porém, tornou-se óbvio que muito da dinâmica na Peninsula
liihlc Church estava diretamente relacionado com a cultura d a costa
oeste dos Estados Unidos e com o movimento de Jesus que ganhava
impulso rapidamente naquela época. No £ntanto, o ministério de Ray
Stedman inspirou muitos líderes cristãos.16

O tradicionalismo reavivado
Ironicamente, outro grande movimento começou praticamente ao
mesmo tempo em que a busca pela renovação da igreja, que acabamos
de descrever. Ao passo que muitos estavftm questionando o conceito
tradicional de estrutura eclesiástica, tanto na formação teológica
quanto na igreja como um todo, alguns começaram a incentivar a
escola dominical tradicional. Quando Richards e muitos outros
estavam questionando a validade dos meios educacionais tradicionais
e sua contribuição para o fortalecimento da igreja, Elmer Towns, por
exemplo, publicava um livro intitulado The Bright Future o f the
Sunday School [O Futuro Brilhante da Escola Dominical]}1 No
mesmo ano ele publicou The Ten Largest Sunday Schools and What
Makes Them Grow [As Dez Maiores Escolas Dominicais e o que as
Faz Crescer].1*
Esse destaque estava destinado a ser mais do que uma influência
sobre a escola dominical. Envolvia pastores, já que uma das
descobertas de Towns era que “grandes pastores” criavam “grandes
escolas dominicais”, e “grandes escolas dominicais” formavam
“grandes igrejas” .
Towns conseguiu despertar o interesse de inúmeros líderes
religiosos, basicamente porque, naquela época, teve na revista
Christian Life [Vida Cristã] um canal para expor publicamente as
estatísticas e as conclusões de suas pesquisas. A par com seus próprios
escritos, ele começou a divulgar grandes escolas dominicais, seu
crescimento estatístico e as classificou tanto por tamanho como por
taxa de crescimento. E talvez seja muito significativo que ele tenha
identificado cada pastor.
Essa foi uma idéia engenhosa, apoiada numa técnica de motivação
intrínseca. Lamentavelmente, o principal destaque recaía no cresci­
mento numérico. Isso estimulou uma competição prejudicial e, em
alguns casos, gerou relatórios estatísticos pouco éticos; mas gerou uma
grande dose de atividades para alcançar novas pessoas com o
evangelho.
Uma das coisas mais importantes que resultou dessa ênfase é que
os pastores de algumas dessas igrejas grandes têm ministrado cursos
com o propósito de motivar pastores jovens, convencendo-os de que
também podem ser tão bem-sucedidos no desenvolvimento de uma
grande escola dominical e igreja, caso sigam certas técnicas e méto­
dos. Infelizmente, esses líderes têm desconsiderado o meio cultural
que contribuiu significativamente para o seu próprio fenômeno de
crescimento. Além disso, têm desprezado a força e a singularidade de
suas próprias personalidades no crescimento dessas igrejas.
William J. Petersen, editor da revista Eternity assinalou que essas
“igrejas menores que seguiram o exemplo de evangelização su-
peragressiva e gastaram dinheiro em ônibus, televisão, terrenos &
instalações maiores (e até salários para evangelistas da igreja) muitas
vezes não se saíram tão bem” .19 O fato é que algumas dessas igrejas
íoram à falência.

O movimento de crescimento da igreja


No início dal década de 70, começou outro movimento simultâneo ao
movimento de renovação da igreja e ao renovado destaque no cres­
cimento da escola dominical. É o que identifico como o movimento
“oficial” de crescimento da igreja, com pessoas de destaque como
\I)onald A. McGavran, Winfield Arn e Peter Wagner. Escrevendo
livros como How to Grow a Church [Como Fazer uma Igreja
Crescer],10 Your Church Can Grow [A Sua Igreja Pode Crescer]2'
c Ten Steps fo r Church Growth [Dez Passos para o Crescimento da
Igreja],22 esses homens fizeram uma abordagem mais elaborada desse
processo. Aplicando boas técnicas de pesquisa, trouxeram à tona
vários princípios e diretrizes que conduzem ao crescimento da igreja.
Embora esses autores ressaltem a necessidade de evangelização e
dc edificação e um compromisso com a autoridade das Escrituras, o
resultado prático desse destaque ainda se concentra no crescimento
quantitativo. Embora tentenyintegrar princípios bíblicos com diretrizes
científicas, salientandoy4 necessidade de uma experiência cristã quali-
laliva, muitas vezes os aspectos pragmáticos e científicos parecem
obscurecer o bíblico. Parece que deliberadamente focalizam princípios
ivlesiológicos gerais de modo que possam relacioná-los a uma ampla
variedade de igrejas e denominações no mundo religioso.
Pessoalmente, minha principal preocupação é que a maioria dos
escritores do movimento de crescimento da igreja não principia com
um estudo e uma exposição da Bíblia para sustentar suas posições. Em
vez disso, começa com “o que funciona” e depois tenta integrar a base
bíblica ao seu sistema pragmático. Freqüentemente, isso resulta numa
perspectiva nebulosa daquilo que a Bíblia realmente ensina acerca da
igreja. Entretanto, esses homens e muitos que foram inspirados por
eles estão exercendo uma influência significativa e contínua sobre
igrejas e líderes cristãos. O que estão dizendo não pode e não deve ser
subestimado. Valiosas descobertas quanto à cultura e uma elaborada
metodologia de pesquisa tornam esse movimento digno de elogios,
especialmente em se tratando de ajudar a alcançar mais pessoas para
Cristo.

Um momento decisivo
No final da década de 70, uma nova dinâmica penetrou na cultura em
geral, afetando a vertente principal do movimento de renovação da
igreja. Como se delineou há pouco, houve de início um grande
volume de atividades, artigos, livros e experiências. Mas, quase
simultaneamente, o movimento de renovação da igreja foi obscurecido
pelo movimento de crescimento da igreja. Ao mesmo tempo, os
movimentos anti-institucionais radicais existentes na cultura em geral
começaram a acalmar-se, fazendo até com que alguns evangélicos
radicais ficassem mais satisfeitos com a igreja institucional. O
movimento de Jesus reforçou o ímpeto dessa tendência, representando
em certo sentido, uma espécie de retorno da cultura jovem às
estruturas institucionais, em busca de segurança e esperança. O
movimento de renovação carismática também fortaleceu bastante essa
tendência, particularmente em algumas denominações tradicionais que
se caracterizavam pela falta de um bom ensino bíblico e de um
cristianismo relacional. De fato, esse movimento vem causando um
impacto significativo nas missões e na igreja desde a década de 80.
Tem atraído a atenção dos especialistas em crescimento oficial.23
Tornou-se claro para todos que, dentro da sociedade, os evan­
gélicos estavam-se transformando numa força que precisava ser levada
em consideração. Em 1978, George Gallup Jr. “predisse um contínuo
crescimento do vigor evangélico” .24 Richard Quebedeaux ampliou
essa análise ao escrever:

Os evangélicos são tema de conversa em todos os lugares. Suas igrejas


em crescimento, seus ministérios bem visíveis nas universidades, a
publicação de livros e revistas de espantoso sucesso e outras realizações
com o uso dos meios de comunicação, e os improváveis “novos
nascimentos” de celebridades nacionais [...] chamam a atenção de
protestantes liberais, católicos romanos e jornalistas seculares.25

Para a maioria dos cristãos não era hora de rachar e dividir, mas
de esquecer nossas diferenças e nos unir para a glória de Deus.
Muitos escritores que haviam criticado a igreja começavam a enxer­
gar, no renascimento do evangelicalismo, as respostas em potencial
para suas preocupações.
Mas a que leva tudo isso? Como se podia prever, os escritores do
crescimento da igreja estão entusiasmados. Vêem nesse ímpeto de
atividades o movimento do Espírito de Deus, E quem pode negar que
Deus esteja atuando neste mundo? Além disso, com certeza faz bem
ao ego o fato de participar de um movimento que tem sido
desconsiderado com freqüência.
Entretanto, para ser franco, estou preocupado. Estou bem animado
com o crescimento da igreja. Eu o experimentei pessoalmente,
ajudando a começar várias igrejas nos últimos anos. E, enquanto
escrevo este capítulo, pastoreio uma igreja de rápido crescimento no
complexo metropolitano de Dallas.
Contudo, quando viajo pelo país para participar de reuniões com
pastores, quando leio o que se está escrevendo sobre a igreja, quando
observo o que está acontecendo com o cristianismo evangélico em
geral e quando penso em minha própria experiência pastoral, con­
venço-me de que, normalmente, tanto a igreja quanto as organizações
pareclesiásticas realmente não possuem uma compreensão clara do que
a Bíblia ensina sobre a igreja. Ainda confundimos função com forma,
princípios com padrões, absolutos com não-absolutos e o que deve ser
supracultural com o que é estritamente cultural. Muitos líderes cristãos
não possuem uma filosofia de ministério claramente definida, firmada
numa eclesiologia satisfatória que brote de um estudo cuidadoso das
Escrituras. Sem esse fundamento, muitos líderes cristãos avaliam o
sucesso com base na experiência pessoal ou grupai, não na teologia
bíblica. Além do mais, a resposta quantitativa ainda parece ser o
critério final.26
Hoje, a necessidade de renovação da igreja é igualmente grande,
se não maior do que no final da década de 60 e início da de 70. A
popularidade dos evangélicos, por mais animadora que tenha sido, só
nos desviou daquelas coisas básicas e contribuiu para o avanço do
processo de institucionalização. Em muitas igrejas que crêem na
Bíblia, prolifera a influência do humanismo, tanto na função como na
forma. As preocupações levantadas no início da década de 70 podem
ser èxpressas ainda hoje. Em alguns aspectos, demos uma volta
completa. O que precisamos, entretanto, não é de teoria, reações
.exageradas nem experiências superficiais que caracterizavam as
tentativas iniciais de renovação da igreja. Necessitamos de uma
perspectiva bíblica abrangente que oriente pastores, missionários e
todos os líderes da igreja em meio a um emaranhado de concepções,
que freqüentemente causam confusão.

A renovação bíblica
Qual seria a perspectiva bíblica acerca da renovação? Paulo foi o
único escritor do Novo Testamento a empregar várias formas dessa
palavra, mas o conceito subjacente às palavras permeia todos os
escritos do Novo Testamento. A renovação está no cerne do cris­
tianismo. É uma palavra ativa e descreve a experiência de conversão,
bem como o processo de crescimento em Cristo.

A renovação e a salvação. Escrevendo a Tito, Paulo definiu a


“renovação” em termos da obra do Espírito Santo na regeneração de
um coração não-salvo. Deus “nos salvou” , escreveu, “não por obras
de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia [...]
mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).
A “renovação bíblica” envolve, então, a própria experiência de
salvação. É uma obra realizada pelo Espírito de Deus. Nesse sentido,
acontece no instante em que pomos nossa fé em Jesus Cristo. Diz
respeito a um instante de nossa história pessoal em que passamos das
trevas para a luz e nos tornamos membros da família eterna de Deus.
A renovação e o crescimento espiritual. Paulo também empregou
a palavra “renovação” para descrever 0 processo de nos ajustarmos à
imagem de Cristo, depois de sermos renovados pelo Espírito Santo.
A renovação inicial acontece instantaneamente, na hora em que
confiamos em Cristo para a salvação. A renovação contínua, que nos
conforma à imagem de Cristo, é constante e progressiva.
O uso mais vívido e abrangente que Paulo faz da palavra
“renovação” , nesse sentido, encontra-se na carta que escreveu aos
romanos. Depois de lançar, nos primeiros onze capítulos dessa carta,
um amplo alicerce teológico, que ele resumiu em Romanos 12.1 como
as “misericórdias de Deus” , Paulo instou esses cristãos a apresentar
seus corpos a Deus como sacrifício vivo e santo. “Não vos conformeis
com este século” , escreveu, “mas transformai-vos pela renovação da
vossa mente”. Esse processo, disse Paulo, é o meio pelo qual o cristão
consegue verificar a vontade de Deus (Rm 12.1, 2).
Paulo referiu-se ao mesmo processo em suas cartas aos efésios e
aos colossenses. “ ... vos despojeis do velho homem” , escreveu aos
efésios, “ ... e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos
revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade” (Ef 4.22-24; veja também Cl 3.9-11).

A renovação — tanto pessoal quanto coletiva. A experiência inicial


de renovação é sem dúvida alguma pessoal. Envolve um rela­
cionamento individual com Jesus Cristo. A conversão é uma transação
entre cada indivíduo e Deus. No entanto, a renovação progressiva é
ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Apresentar meu corpo a Cristo é,
certamente, uma experiência pessoal. Conformar minha vida a Cristo,
mediante a renovação da minha mente, também é uma experiência
pessoal. Mas, no contexto, Paulo deixou claro que a renovação
também é coletiva. Não são apenas os indivíduos que devem
desenvolver a mente de Cristo; a igreja também. É por isso que Paulo
falou a toda a congregação de fiéis de Éfeso, exortando-os a que
fossem renovados no espírito de sua mente. Também é por isso que
as Escrituras falam que os cristãos tinham um coração e uma mente
(At 4.32).
A renovação pessoal, tal como Deus a planejou, não acontecerá a
menos que ocorra no contexto de renovação coletiva. Por outro lado,
a renovação coletiva, tal como Deus a planejou, não acontecerá a
menos que envolva a renovação pessoal. Ambas são necessárias. É
por isso que vemos o conceito de renovação empregado nas Escrituras
às vezes com sentido coletivo e às vezes com sentido pessoal.
Pode-se ilustrar uma perspectiva bíblica acerca da renovação com
os seguintes círculos:

Renovação bíblica

Figura 3: Romanos 12.1, 2

A renovação da igreja. O círculo maior representa a “renovação


da igreja” . Esse é o conceito mais abrangente no Novo Testamento e
se estende até chegar ao centro do círculo. Na maioria dos casos, as
diretrizes bíblicas estão dirigidas às congregações locais de fiéis — não
aos cristãos como indivíduos.
No entanto, é importante observar que, muito embora Deus
quisesse que cada corpo local de cristãos fosse sua unidade de pessoas
fundamental e dinâmica na sociedade, o corpo também consiste em
unidades sociais menores, independentes, mas inter-relacionadas — o
casamento e a família.
A renovação da família. A família (o círculo seguinte) aparece nas
Escrituras como a “igreja em miniatura” . Por sua própria natureza,
cada igreja local é constituída de várias unidades familiares. Dessa
forma, a família cristã é uma parte complexa da igreja local. O que
Deus diz à igreja, também diz à família, embora às vezes diga
algumas coisas especiais para os membros de cada unidade familiar.
(Veja Ef 5 .2 2 -6 .4 ; Cl 3.18-21; 1 Pe 3.1-7).

A renovação do casamento. A família, por sua vez, é constituída


de uma unidade ainda menor — o marido e a esposa. De fato, o
relacionamento entre marido e esposa deve ser um constante lembrete
do relacionamento que deve existir entre Cristo e a igreja. Deve ser
o mais íntimo de todos os relacionamentos humanos.

A renovação pessoal. O círculo central representa a renovação


pessoal, que está inseparavelmente ligada a todas as outras unidades
básicas. Por exemplo, o casamento é constituído de dois indivíduos
distintos que se tornam um. Além disso, a família é formada por pais
e filhos, os quais, como uma unidade familiar, também devem refletir
a mente de Cristo. E a igreja é formada não apenas de indivíduos,
mas também de casais e de famílias.
Na perspectiva bíblica, é impossível renovar a igreja sem renovar
famílias, cônjuges e indivíduos cristãos. Por outro lado, não é possível
renovar indivíduos cristãos sem renovar cônjuges, famílias e a igreja.

O processo de renovação
É possível iniciar a renovação bíblica dentro de qualquer uma das
diferentes unidades sociais incluídas na figura 3. Mas, não importa por
onde você inicie — pela igreja, pelas famílias, pelos cônjuges ou pelos
indivíduos — você vai mexer imediatamente com todas as demais
unidades sociais do esquema divino. Além disso, a menos que
compreendamos as funções e os princípios que Deus estabeleceu para
cada unidade, não conseguiremos provocar uma mudança positiva,
inspirada no exemplo de Cristo, tal qual Deus planejou. De fato,
podemos cometer sérios erros de julgamento e, em alguns casos,
“encurralar as pessoas” naquilo que pensamos que Deus está dizendo
a determinada unidade social ou a um indivíduo, quando na realidade
temos uma visão bitolada. Por outro lado, podemos inconscientemente
ir além dos princípios das Escrituras e dar liberdade excessiva, sem
perceber que estamos sendo afetados pela nossa cultura, humanista.
Portanto, os princípios bíblicos de renovação devem incluir aquilo
que Deus diz primeiramente à igreja, depois a pais e filhos, em
seguida a maridos e esposas e>finalmente aos cristãos como indi­
víduos. Isso é importante por ser difícil compreender e discernir as
coisas especiais que Deus diz às famílias, aos casais e aos indivíduos
cristãos, sem compreender aquilo que disse à igreja. Como se afirmou
anteriormente, aquilo que se diz à igreja constitui a maior parte
daquilo que Deus diz nas cartas do Novo Testamento. Sem essa
perspectiva total, desenvolvemos pontos cegos em nossa filosofia de
ministério.
Quero ilustrar como uma visão restrita pode levar a uma
interpretação incorreta das Escrituras. Certo dia estive conversando
com duas pessoas profundamente ativas no processo de renovação
matrimonial. Com um estudo das Escrituras, chegaram à conclusão de
que o conceito de “cabeça da família” não era bíblico. Ambos
acreditavam que Paulo havia ressaltado essa responsabilidade em razão
do contexto cultural do Novo Testamento. Insistiram que Jesus jamais
tivera a pretensão de mantê-la continuamente daquela forma. Em
outras palavras, para eles a liderança masculina dentro do casamento
não era um absoluto, mas uma adaptação cultural.
Naquela altura perguntei-lhes sobre a autoridade na igreja local.
“Que dizer dos presbíteros?”, indaguei. “Que dizer da autoridade
delesT A resposta que deram à minha pergunta foi esclarecedora.
Não tinham dificuldade com o fato de que os presbíteros devessem ser
os líderes da igreja, com uma autoridade conferida por Deus; no
entanto, acreditavam que o plano de Deus para o casamento era
diferente.
Nesse momento ficou claro — pelo menos no meu próprio
raciocínio — que a interpretação bíblica dos dois tinha sido influen­
ciada pelo fato de que não haviam desenvolvido uma eclesiologia
adequada, isto é, o que o Novo Testamento ensina sobre a igreja.
Pareciam não perceber a coerência presente no Novo Testamento.
Vemos essa coerência no fato de que os presbíteros devem liderar a
igreja, os pais devem liderar suas famílias e os maridos devem ser os
cabeças de suas esposas, assim como Cristo é o cabeça da igreja. Na
realidade, é impossível separar a função da família e a função do
casamento da função da igreja local. Todas essas unidades sociais
estão inter-relacionadas. Não seria lógico que Deus tivesse uma série
de princípios supraculturais para a igreja, outra para a família e ainda
outra para o relacionamento marido—esposa.
Isso ajuda a convergir a atenção para um problema enfrentado por
fundadores e líderes de muitas organizações pareclesiásticas que
surgem em razão de necessidades específicas do corpo de Cristo em
geral. Há muitos exemplos. Uma organização pode surgir em virtude
de um senso de responsabilidade na área da evangelização pessoal.
Sem uma eclesiologia satisfatória, os líderes freqüentemente negli­
genciam aquilo que a Bíblia diz a respeito da evangelização coletiva.
Outra organização pode surgir por causa de um senso de respon­
sabilidade na área do discipulado pessoal. Sem uma eclesiologia
satisfatória, os líderes vão negligenciar a importância da atuação do
corpo no processo de levar as pessoas à maturidade em Cristo. '
O problema se complica quando algumas organizações iniciam um
ministério junto a unidades sociais menores e depois tentam expandi-lo
para incluir o conjunto mais amplo abordado nas Escrituras. Por
exemplo, estou-me lembrando de certa organização que começou
ajudando os jovens a se relacionarem com seus pais. Desenvolveu-se
uma série de princípios, sem levar em conta aquilo que a Bíblia diz à
igreja local. O passo seguinte foi envolver-se na área do relacio­
namento marido—esposa. De novo, desenvolveu-se uma série de
princípios sem levar em conta aquilo que a Bíblia diz sobre a igreja
local. Todavia, por causa da necessidade, por fim os princípios foram
expandidos para incluir a igreja local. O problema é que, quando
partimos do interior para o exterior do círculo, podemos desenvolver
“pontos cegos” em nossa interpretação bíblica. Por isso é tão vital
desenvolver todos os princípios para dirigir a família, o casamento e
os indivíduos, levando em conta os princípios mais abrangentes que
Deus estabeleceu para a igreja. Afinal, essa é a essência do Novo
Testamento. A maior parte do Novo Testamento foi escrita para o
corpo de cristãos, não para os cristãos como indivíduos, nem mesmo
para as unidades familiares.
A renovação bíblica — e a evangelização
Devemos recordar que a renovação bíblica não é um fim em si. O
corpo de Cristo deve edificar-se em amor, de maneira que a unidade
resultante sirva de ponte para trazer até Jesus Cristo o mundo perdido
— seja como indivíduos, casais, famílias ou a igreja como um todo.
Essa foi a essência da oração de Cristo em favor dos fiéis: “Que eles
sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me
enviaste, e os amaste como igualmente me amaste” (Jo 17.23, NVI).

Resumo
A renovação baseada na bíblia é um processo abrangente. É a essência
do cristianismo, o objetivo principal da igreja e a mensagem
fundamental da Bíblia. Abarca todos os segmentos da comunidade
cristã. Portanto, a primeira tarefa diante de nós é descobrir aqueles
princípios que Deus estabeleceu para a igreja. A partir daí, podemos
focalizar os princípios bíblicos de renovação para a família, para o
relacionamento marido—esposa e para o crescimento pessoal em
Cristo. Há um meio de alcançar esses objetivos — é o tema do nosso
próximo capítulo.

Notas

1 Elton T r u e b LOOD, The company of the committed, Harper Brothers, p. 5.,


apud Karl H e i m , Christian faith and natural science, Harper Brothers, p. 2 4 .
2 Findley B. E d g e , A quest for vitality in religion, Broadman, p . 9.
3 Larry R i c h a r d s , A new face for the Church, Zondervan, p . 9. [Larry
Richards continua escrevendo sobre a questão da renovação da igreja.
Embora tenha em Larry um bom amigo e colega e admire sua capacidade
como escritor, pessoalmente acredito que ele tem-se desviado cada vez mais
para a estrada do idealismo. Suas concepções sobre liderança, em especial,
e sobre o funcionamento do corpo da igreja não se baseiam numa experiência
realista. Levada a sério, sua teoria de liderança é inexeqüível, especialmente
numa igreja em expansão. Aliás, sob certas circunstâncias, pode acabar
levando ao caos e à divisão na igreja. Veja “A Biblical Style of Leader­
ship?”, artigo em que rebato Larry Richards na questão da liderança, na
revista Leadership (vol. 2 , número 2 , primavera de 1981), p . 68-78. Veja
também os livros de Richards A Theology of Church Leadership, Zondervan,
e Teologia do Ministério Pessoal, Vida Nova.
4 Francis SCHAEFFER, A igreja no ano 2001, APLIC, p. 90.
5 Howard S n y d e r . The fellowship of the Holy Spirit, Christianity Today, p.
4-7.
6 Idem, Church renewal through small Groups, United Evangelical Action,
verão 1971, p. 29-31.
7 Idem, Does the Church suffer an edifice complex?, World Vision, Sept.
1971, p. 4s.
8 Idem, ‘The people of God’ — implications for Church structure,
Christianity Today, 27 Oct. 1972, p. 6-11.
9 Idem, Should the protestant pastor be a superstar?, The Other Side, Mar.-
Apr. 1973, p. 8-11.
10 Idem, The problem of the wineskins, Intervarsity, p. 11.
11 David M a i n s , Full circle, World Book, p. 22.
12 Idem, A balanced stride, Christianity Today, 18 Aug. 1971, p. 22.
13 George W. PETERS, Saturation evangelism, Zondervan, p. 153.
14 Robert G i r a r d , Brethren, hang loose, Zondervan.
15 Ray S t e d m a n , Igreja, corpo vivo de Cristo, Mundo Cristão.
16 Abaixo alguns dos livros escritos durante esse período que contam a
história de várias igrejas que estavam fazendo mudanças significativas em
suas estruturas:
Dan B a u m a n n , All originality makes a dull Church, Vision;
Bernard P a l m e r , Pattern for a total Church, Victor Books;
Larry R i c h a r d s , Three Churches in renewal, Zondervan;
Mike T u c k e r , The Church that dared to change, Tyndale;
Frank TlLLAPAUGHT, The Church unleashed, Regal.
17 Elmer T o w n s , The brightfuture of the Sunday School, F. C. Publications.
18 Idem, The ten largest Sunday Schools and what makes them grow, Baker.
19 William J. P e t e r s e n , Thinking Big, Eternity, Feb. 1978, p. 21.
20 Donald A . M c G a v r a n , H o w to grow a Church, Regal.
21 C. Peter W a g n e r , Your Church can grow, Regal.
22 Donald A . M c G a v r a n & Winfield A r n , Ten steps for Church growth,
Harper and Row.
23 Veja na revista Christian Life de outubro de 1982, um número dedicado ao
movimento carismático e ao crescimento da igreja.
24 Albert J. M e n e n d e z , Who are the evangelicals?, Christianity Today, 27
Jan. 1978, p. 42.
25 Richard Q u e b e d e a u x , The worldly evangelicals, Harper and Row, p . 3 .
26 Para um ótimo estudo que trata dessas preocupações, veja George W.
P eters, A theology of Church growth, Zondervan,
Crédito: Mazinho Rodrigues

Doação Exdusiva pant:

http:';ciitrctc\l()Stcolo|f(()S.bloí>'spot.coin.

Uma visão
- por três ângulos

Sempre que há pessoas, há função. E, sempre que você encontrq.


‘anção, você encontra forma. Ou seja, a “forma” e a “estrutura” sãq
inevitáveis. Em outras palavras, não se pode ter “organismo” sem
organização” . Sempre que se tenta alcançar um objetivo ou aplicai-
um princípio, precisa-se desenvolver um procedimento ou um padrãq
para fazê-lo. Não se consegue comunicar uma “mensagem” sem
“método” . Não se consegue ensinar uma “verdade” sem desenvolvei
algum tipo de “tradição” . E, citando o Dr. George Peters, “Sempre-
que houver ‘pnêumenos’, haverá ‘fenômenos’” . I
A igreja local não foge à regra. Sempre que houver pessoa^
ativamente atuantes em várias funções, haverá forma e estrutura. Um^
1
pressupõe a outra
Atenção!nÉ possível descrever a ati.idaae sem descrevei a forma.
Os escritores da Bíbiia fizeram isso o tempo todo Mas você podç
estar certo de que, no exercício das funções do Novo Testamento.1
sempre houve algum tipo de forma cultural. ^
A inc ispensabilidade da forma

PESSOAS
\
FUNÇÃO
-------- v1
\
FORMA

Figura 4

Todos nós podemo-nos identificar com es§a realidade. Vivemos


dentro do círculo da forma e da estrutura (veja a figura 5). É o que
nos dá sensação de segurança. Mas a pergunta importante diante de
cada líder de igreja é: Que tipo de forma e estfutura devemos ter em
nossa igreja?

Figura 5: O círculo da fortna

Uma filosofia de ministério adequada


Não temos condições de responder a essa pergunta, para nós mesmos
ou para qualquer outra pessoa, sem que tenhamos uma filosofia de
ministério adequada, que levanta uma pergunta fundamental: “por
quê?” . Por que fazemos o que fazemos? Mesmo como indivíduos,
temos uma filosofia que determina a maneira como atuamos na vida.
Talvez não a tenhamos explicitado ou articulado para nós mesmos ou
para os outros. Mas está presente, determinando as nossas ações e a
maneira como agimos.
Acontece o mesmo com a igreja. Todos os líderes de igreja
possuem mna^filosofia de ministério. Embora talvez não seja óbvio
para os próprios líderes nem para as congregações em que atuam, ela
está presente, determinando como cada igreja atua (veja a figura 6).
Minha preocupação ao escrever este livro é ajudar os cristãos £

Figura 6: A filosofia de ministério

desenvolver uma filosofia bíblica de ministério. Só assim poderemos


estruturar e organizar devidamente as nossas igrejas. Só assim
poderemos escolher métodos e padrões que ajudarão a igreja a tornar-
se aquilo que Deus planejou que ela fosse neste mundo.
É interessante que os que escrevem sobre o “crescimento da
igreja” ressaltem a importância de os líderes da igreja darem atenção
à sua filosofia de ministério, a fim de experimentarem crescimento
numérico. Entretanto raramente especificam, pelo menos com minú­
cia, qual deve ser essa filosofia. Aliás, muitas vezes reconheceiri
várias filosofias de ministérios como válidas e aceitáveis.1
{ Será possível desenvolver uma filosofia de ministério verda-
< deiramente bíblica — algo reconhecido como aquilo que as Escrituras
( ilustram e ensinam? Creio que sim — se empregarmos uma
metodologia de pesquisa adequada que nos ajude a ter uma idéia nítida
do que Deus está dizendo. Embora tenhamos diferenças de opinião
acerca de questões secundárias, creio que certamente ,é possível
compreender o plano específico de Deus para as igrejas locais da
mesma forma que é possível descobrir a verdade a respeito da
) divindade de Cristo, da Trindade, da salvação — e de outras doutrinas
(bíblicas importantes.
Para desenvolvermos uma filosofia de ministério adequada —
endossada por Deus — precisamos olhar pelo menos por três ângulos
(veja a figura 7). O primeiro é básico e fundamental — o ângulo das
Escrituras. Em seu conteúdo, os ângulos da história e da cultura não
estão dissociados do ângulo das Escrituras, mas também revelam
percepções extrabíblicas e são muito importantes para evitar uma
“visão bitolada” e uma miopia eclesiástica à medida que desen-
—volvemos uma filosofia pessoal de ministério. Ou, falando
positivamente e levando adiante nossa analogia, os três ângulos podem
auxiliar-nos no desenvolvimento de uma visão 6/6 acerca do plano de
Deus para a igreja.
Como podemos chegar aos três ângulos? Esse é o propósito deste
livro. O que temos depois deste capítulo são os resultados desse
processo. Todavia, o que temos logo a seguir, neste capítüfõ", é uma
\expi icâçãoj íustradasobre como utilizar esse processo. Nesse sentido,
a abordagem dos três ângulos compreende um método de pesquisa
bíblica, histórica e cultural.

(JO ângulo das Escrituras. E aí que se começa a formular uma


filosofia bíblica, de ministério. Vamos ilustrar. Examine as seguintes
exortações na Epístola aos Hebreus:

Não deixemos de nos reunir como igreja, segundo o costume de alguns,


mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que
se aproxima o Dia (Hb 10.25, nvi).
Figura 7: Os três ângulos

Essa passagem bíblica delineia claramente duas diretrizes e funções


do Novo Testamento. Os cristãos devem^“reunir-se regularmente” a
fim d e '“encorajarem-se uns aos outros” . No entanto, também está
claro que esse versículo não menciona nenhuma_ “ forma” ou
“estrutura” para essas duas funções. Isso não significa que para o
autor dessa epístola os cristãos deveriam reunir-se sem nenhuma
forma. Eles também não poderiam “animar-se uns aos outros” sem
algum tipo de estrutura.
Vamos olhar a primeira diretriz com mais cuidado (veja a figura
8). Esses cristãos deviam Treunir-se regularmente. Entretanto, a
passagem não especifica quando deviam reunir-se, com que freqüência V
deviam reunir-se, onde deviam reunir-se nem a ordem específica de
qdto que deviam seguir quando se reunissem.
Se olharmos mais atentamente para o contexto maior do Novo
Testamento — aspecto muito importante numa interpretação precisa da
Bíblia — encontraremos exemplos que nos indicam quando a igreja se
reunia, com que freqüência ela se reunia e onde ela se reunia. Em
proporção menor, encontraremos algumas referências à maneira como
estruturavam seus cultos. Entretanto, ao se aprofundar na questão,
você vai observar algo bem significativo.
Em primeiro lugar, muitas vezes o Novo Testamento descreve
funções e diretrizes, sem descrever formas, exatamente como na
passagem de Hebreus. Por exemplo, Lucas registrou no livro de Atos
que os apóstolos “não deixavam de ensinar e proclamar que Jesus é
o Cristo” (At 5.42). “Ensinar” e “pregar” são fimçôes. Embora Lucas
tenha feito referência a essas funções, não descreveu a metodologia
(forma) de ensino e de pregação utilizada pelos apóstolos; entretanto,
sabemos ser impossível “ensinar” e “pregar” sem alguma espécie de
forma e de metodologia.

A função no Reuniam -se A forma


século 1 regularmente variava

Função Princípio
I I
1 1
A função no _ ___ Reúnem-se Liberdade
século xx regularmente na forma

(AbsoJuto) (Não-Abso!uto)

Figura 8: Função e forma

Em segundo lugar, quando existe alguma descrição de forma, é


sempre parcial ou incompleta. Nunca é possível copiar com exatidão
a forma e a estrutura bíblica porque sempre faltam certos pormenores
e informações no texto bíblico. Por exemplo, Lucas registrou na
mesma passagem que os apóstolos “não deixavam de ensinar e
proclamar ” à medida que iam “de casa em casa” (5.42b). Ir “de casa
em casa” é, sem dúvida alguma, forma e estrutura. Entretanto, q
processo não é delineado com minúcia. Será que paravam em cada
casa? Ou iam somente aos lares daqueles que já acreditavam em
Cristo? Será que as pessoas convidavam os vizinhos para ir ouvir os
apóstolos? Os apóstolos “entravam na casa”, “ficavam do lado de
fora” ou “iam ao terraço” como seria possível naquela cultura? Não
sabemos as respostas a essas perguntas, porque a forma descrita (ir
“de casa cm casa") é incompleta e parcial.
Em terceiro lugar, -a forma e a estrutura descritas parcialmente
variam de um cenário do Novo Testamento para outro. De fato,
encontramos variações dentro do texto que estamos observando. Os
apóstolos não apenas ensinavam e pregavam de casa em casa, mas
também iam ao “templo” (5.42a, nvi).
Imediatamente, surge um problema. Em algumas culturas talvez
não seja muito problemático ir “de casa em casa” para ensinar o
evangelho de Cristo. Entretanto, teríamos de escolher cuidadosamente
nossa metodologia, pois, caso empregássemos a abordagem apostólica
descrita nos Atos dos Apóstolos, provavelmente violaríamos a
legislação de muitas cidades e teríamos problemas com as autoridades
locais.2
O jro b lern a das restrições culturais em relação ao cristianismo
causou um forte impacto em mim há alguns anos, quando eu estava
compartilhando princípios da vida da igreja neotestamentária com
pastores atrás da cortina de ferro. Nesse país, era ilegal grupos de
pessoas se reunirem em residências. Nem mesmo parentes podiam
reunir-se em grande número. Não era uma determinação dirigida
apenas a cristãos. Essa política governamental havia sido estabelecida
para evitar qualquer possibilidade de conspiração contra a autoridade
do Estado. Naturalmente, restringia bastante os cristãos, impedindo-os
de usar seus lares para qualquer tipo de reunião religiosa que
envolvesse mais do que os parentes mais próximos.
Entretanto, nosso maior desafio, em qualquer cultura da atualidade,
seria ensinar o evangelho no “pátio do templo” . Esse fenômeno
cultural era exclusivamente judaico, relacionado com os primeiros dias
do cristianismo. Todavia não levou muito tempo para que o “templo”
fosse vedado aos cristãos judeus.
Vamos resumir.
• Com freqüência, a Bíblia ensina função sem descrever a forma.
/A • Quando chega a descrever a forma, ela é parcial e incompleta.
A forma descrita varia de uma situação para outra.
A
Isso conduz a uma conclusão muito importante. Em conferências
sobre renovação da igreja, muitas vezes me perguntam [como é
possível fazer distinção entre absolutos e não-absolutos nas Escrituras.
à resposta está nessas três observações a respeíto da forma no Novo
V Testamento.^ Não é possível tornar absoluto algo que não esteja)
í ■!descrito, que esteja sempre incompleto e que esteja sempre mudando
l ; de um contexto para outro. É por isso que a forma e as estruturas não j
são absolutas na Bíblia. Não encontrei uma que não se encaixasse^
nesse critério tríplice. De fato, existe somente uma estrutura, em toda
a Bíblia, descrita circunstanciadamente — ,o tabernáculo no Antigo -
Testamento. Mas, mesmo assim, não é possível reconstruir esse local
de adoração do Antigo Testamento sem acrescentarmos alguns
pormenores nossos. v
Por outro lado, as funções e os princípios são absolutos — se
aparecem invariavelmente ao longo de j oda a história do Novo
Testamento e não são circunstanciais.3(^josso desafiõ é “olhar pelo ^
ângulo das Escrituras” e isolar aquelas fiinções e diretrizes absolutas
e supraculturais.

ângulo da história, Observe, antes de mais nada, que podemos


sobrepor o ângulo das Escrituras ao da história. As Escrituras são<
história, isto é, história divina, história inspirada ou história “soprada
por Deus” . É aqui que encontramos diretrizes e funções absolutas que
nos permitem lançar os alicerces de uma filosofia bíblica de
ministério. .
Além disso, podemos aprender lições valiosas com nossos antepas­
sados..Paulo ilustrou essa questão em sua primeira epístola aos corín­
tios, quando escreveu: “Estas cousas lhes sobrevieram [aos filhos de
Israel] como exemplos, e foram escritas [no Antigo Testamento] para
advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm
chegado” (1 Co 10.11). Hoje, os cristãos têm não apenasta história do
Antigo Testamento, mas tambénAa história do Novo Testamento — a
história divinamente inspirada da igreja. Ela também foi registrada
para nossa instrução, para nos ensinar a dirigir sua igreja.
Uma visão por três ângulos 43
' j ^ '
} i. -A1 •i'>- ;y‘
Entretanto, há/um a história que se estende além das páginas
sagradas das Escrituras i A história da igreja está repleta de lições para
os cristãos do século XX. É esse jângulo que nos permite voltar os
holofotes para a igreja do final do século I e de todos os séculos que
se seguiram. É esse processo que noí proporciona uma compreensão
que nos permitirá/ressaltar o que oy cristãos têm feito acert|damente,
/ eliminar (assim se espera) o que temos feito de errado e/corrigir o que
temos feito mal. Esse processo, à semelhança do estudo da igreja nas
Escrituras, não tem limites.
Existe, entretanto, um tipo, especial de história que também pode
ser estudado e oferece descobertas incomuns para os cristãos. Vamos
ilustrar. Não é de surpreender queivos historiadores sociais tenham <
descoberto que em ^qualquer lugar em que haja pessoas, haverá y
função,fe em qualquer lugar em que houver função, haverá forma,//
Mas eles descobriram outra coisa extremamente cabível à nossa
preocupação principal neste livro.

P E S S O A S ---------► F U N Ç A O
fixação |
FORM A
crise

\
Começa a ocorrer
uma mudança...

Figura 9: Fixação, crise e mudança

■. ( A resistência a mudanças. Os historiadores sociais fizeram duas


observações importantes (veja a figura 9). Em primeiro lugar, ao
estudar as pessoas e as estruturas sociais, descobriram que as pessoas
têm a tendência de se fixarem por um período de tempo — espe­
, cialménte nas formas. As pessoas não desejam mudanças. Estudos
1 revelam que existe uma constante na história. Essa constante é a
fixidez. f
Todavia, os estudos sociológicos também assinalam quetaspessoas
na verdade operam mudanças em suas formas e estruturas na
sociedade, basicamente sob uma condição alguma espécie de crise.
Então, e só então, as pessoas estão abertas a uma mudança. Geral­
mente essa crise surge porque as formas e as estruturas já não são
aplicáveis. Já não servem de meio eficaz para atender às necessidades
das pessoas daquela determinada sociedade. ,z:- d
Recentemente isso vem sendo ilustrado de forma incomum em
nossa própria sociedade e também em outras. Há anos estamos
^construindo a economia de nosso país com base em fontes energéticas
importantes, tais como ftpetróJeo, a gasolina e o carvão. Compreende-
se que esses recursos vão-se esgotar um dia.
Que aconteceu? Essa crise energética precipitou amplos projetos de
pesquisa para superar esse problema. Se o Senhor tardar, sem dúvida
alguma desenvolveremos novas formas de energia; talvez cheguemos,
por fim, a substituir totalmente as antigas. Já aprendemos maneiras
novas e diferentes de utilizar jjeneigia solar, e aperfeiçoaremos esse
processo nos próximos anos.
O fato importante é que não estaríamos explorando novas fontes
,\ energia se não tivéssemos enfrentado crises nacionais e internacionais.
-J=r E o mesmo acontece com a igreja. Os cristãos pouco diferem das
( demais pessoas em sua constituição psicológica. /A s estruturas
„ i proporcionam uma sensação de segurança. E, quando interferimos nas
£ 1estruturas da sociedade, estamos interferindo na estabilidade emocional
k ; das pessoas. Isso provoca ansiedade, e a ansiedade sempre resulta em
h resistência a mudanças.
" Permita-me ilustrar essa questão com uma experiência pessoal.
Alguns anos atrás deixei as sagradas salas do saber — o seminário
teológico. Depois de quase 20 anos como professor, primeiramente no
Moody Bible Institute, em Chicago, e depois no Dallas Theological
Seminary, decidi tornar-me pastor de tempo integral. Ajudei a fundar
a Fellowship Bible Church (Igreja Bíblica Comunitária) em Dallas e,
desde então, várias igrejas têm surgido em conseqüência da primeira
igreja em 1972. Embora naqueles primeiros dias eu estivesse
apreciando muito essa experiência, por vários meses também experi­
mentei uma ansiedade incomum. Não conseguia entender por quê.
Então, certo dia, obtive a resposta àquela pergunta. De repente
ficou claro para mim que, depois de 20 anos dentro de um tipo de
estrutura (estrutura que eu conhecia muito bem), eu havia feito uma
mudança radical. De fato, eu estava pastoreando uma igreja de
renovação que havia começado primeiramente com as funções . )
.'deixando que as forrpas se desenvolvessem naturalmente em nosso
próprio contexto cultural. Eu conhecia as formas de uma igreja
tradicional de cor e salteado. Já havia trilhado esse caminho. Mas lá
estava eu, trocando as formas da vida acadêmica pelas formas de uma
igreja local, as quais eram novas e inovadoras. Eu ainda não havia
trilhado esse caminho. Se tivesse parado para pensar antes de fazer a
mudança, poderia ter predito a ansiedade que se seguiu. Era natural.
Assim que compreendi a origem de minha ansiedade, pude lidar com
ela e, por fim, desenvolver uma segurança dentro das novas formas
que eu estava ajudando a criar. ,
Vejo com freqüência esse fenômeno psicológico (em pessoas que -
participam de nossos cultos pela primeira vez, especialmente se mais
enraizadas em estruturas eclesiásticas tradicionais do que o normal.
Inicialmente, sentem-se pouco à vontade. É uma reação emocional
compreensível.

..Falta de compreensão ' Precisamos, portanto./compreender por que -


as pessoas resistem a mudanças. Mas também precisamos compreen­
der que às vezes os cristãos enfrentam um “problema dobrado” . Por
crermos que há coisas que nunca devem mudar, é comum
confundirmos não-absolutos (aquelas coisas que devem mudar) com
absolutos (coisas que não devem mudar). Muitas vezes essa resistência
tem raízes na insegurança e no medo, conduzindo à racionalização.
Afinal, qual a melhor maneira de racionalizar, senão p ensar que <
estamos defendendo a verdade das Escrituras?
Muitos cristãos, no entanto, resistem a mudanças porque estão -
realmente confusos.(Não compreendem as diferenças entre absolutos
e não-absolutos. Colocam “iniciar o culto com a doxologia” na mesma
categoria do “nascimento virginal” . Ou então pensam que “reunir-se
às onze da manhã no domingo” é tão significativo quanto o que a
Bíblia ensina acerca da “segunda vinda de Cristo” . Embora eu esteja
falando de forma hiperbólica, essas ilustrações apontam para o
problema.
f% importante ajudar os cristãos a compreender a diferença entre
' absolutos e não-absoíutos (veja a figura 10), entreJunções e formas,
entre princípios e padrões, entre verdade e tradição, entre organismo
organização, entre mensagem e método, entre aquilo que é supra-
_cultural e aquilo que é puramente cultural. E por essa razão que é
importante observar com cuidado as igrejas do Novo Testamento pelo
ângulo das Escrituras. E, conforme foi ilustrado, o ângulo da história
vai ajudar-nos a descobrir quando acertamos e quando erramos no
passado, ao estabelecer essas distinções. »
_ Além disso, na qualidade de líderes cristãos,/temos um meio dado
por Deus para provocar, na vida dos cristãos £crises'que podem trazer
mudanças significativas. Falo da Palavra de Deus. Em qualquer lugar
e em qualquer época em que a verdade de Deus seja ensinada, ela
deve criar uma crise dirigida pelq/Espírito, na vida de cada cristão que
está em desarmonia com aquela verdade. Se desejamos estar dentro da
vontade de Deus, devemos mudar nossas atitudes e comportamento e
conformar nossas vidas à Palavra de Deus.
Por isso é importante usar o ângulo das Escrituras para ajudar os
cristãos a compreender oplano de Deus para a igreja. À medida que
começarem a entender o que é absoluto e o que não é absoluto, o que
é supracultural e o que é cultural, e à medida que compreenderem que
a Bíblia ensina “liberdade na forma” para cumprir com eficácia a
grànde comissão de nossopenhor Jesus Cristo em todos os lugares do
mundo e em qualquer momento da história, a maioria deles estará
pronta para mudar em. áreas onde deve mudar. Ao mesmo tempo,
estarão seguros quanto ao fato de que não estão mudando aquelas
coisas que Deus desejava que permanecessem. Quando isso acontecer,
vão compreender aquilo que Paulo realmente quis dizer quando
escreveu: “Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar
os judeus [...]. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse [...]. Fiz-me
tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar
alguns” (1 Co 9.20-22).
ABSOLUTOS NÃO-ABSOLUTOS

Função Forma
Princípio Padrão
Organismo Organização
Verdade Tradição
Mensagem Método

SUPRACULTURAL CULTURAL

Figura 10: Absolutos versus não-absolutos

/ [O ângulo da cultura.; Mais uma vez, esse ângulo está claramente


relacionado com os ângulos das Escrituras e da história. Não se pode
estudar a Bíblia sem que se veja a influência da cultura. E não se pode
estudar a história — especialmente a história social — sem se deparar
com a cultura.
Jesus desenvolveu seu ministério dentro de várias culturas e
compreendeu muito bem essas culturas. Isso está ilustrado de modo
impressionante no encontro que teve com a mulher samaritana, junto
ao poço de Jacó. A cultura dela era diferente. A visão que tinha
acerca da religião e da vida em geral era bem diferente da concepção
de um indivíduo de formação tipicamente judaica. Jesus empregou seu
conhecimento cultural para comunicar-se eficazmente com essa
mulher. Isso teve efeito visível em sua metodologia ao aproximar-se
dela e ensinar-lhe a verdade divina. Também teve efeito inegável na
resposta que ela deu.
Paulo, mais que qualquer outro apóstolo, ilustrou como é impor­
tante compreender a cultura. É o que esperávamos, visto que seu
ministério esteve voltado basicamente para os gentios. Conforme
veremos em nosso capítulo sobre as funções e os princípios de lide­
rança no Novo Testamento, o conhecimento que Paulo tinha das cul­
turas grega e romana influenciaram, por exemplo, sua maneira de se
expressar.
Dessa forma, a partir do próprio ângulo da Escritura, podemos
elaborar um forte argumento que revela a importância da compreensão
da cultura e como ela afeta a maneira de as pessoas pensarem e
sentirem em relação à vida. Mas, assim como ocorre na história,
precisamos olhar além das Escrituras para obtermos uma compreensão
da cultura e vermos suas implicações.
O analista secular Alvin Toffler ajudou a todos nós a melhor
compreender a influência da cultura. Seu livro O Choque do Futuro
foi um estudo instigante sobre o rumo que a história está tomando. No
entanto, seu livro A Terceira Onda foi particularmente útil para mim,
sobretudo por me ajudar a compreender como a cultura afeta a forma
e a estrutura. É interessante que li boa parte desse livro, pela primeira
vez, enquanto viajava para Quito, no Equador, para falar a
missionários sobre os princípios da igreja no Novo Testamento. Achei
úteis as idéias de Toffler quando entrei nesse contexto para ministrar
a líderes cristãos atuantes em diferentes culturas, todas muito
diferentes da minha própria.4
Toffler assinalou que, durante muitos anos, grande parte da
civilização sobreviveu numa cultura agrícola. As formas e as
estruturas da sociedade eram relativamente pequenas porque a forma
“conforma-se” ao número de pessoas de determinada situação.
Falando em termos gerais, isso descreve a cultura bíblica, embora
certamente haja exceções, especialmente no Império Romano, que se
orgulhava de possuir cidades bem grandes. Mesmo assim, a maior
parte das estruturas era relativamente pequena, à exceção dos
anfiteatros e de alguns templos religiosos.
Toffler ainda afirma que tudo isso estava destinado a mudar há
algumas centenas de anos. Passamos da “onda agrícola” para a “onda
industrial” , que provocou a centralização da população, que por sua
vez gerou as grandes estruturas sociais — tais como vilas, cidades e
comunidades residenciais. Esses centros populacionais também gera­
ram fábricas, universidades, hospitais e ainda igrejas. Surgiram
grandes formas e estruturas para acomodar funções que envolviam
milhares de habitantes de determinada área geográfica.
Essa é uma percepção cultural significativa. Em minha própria
experiência de abertura de igrejas na área metropolitana de Dallas,
durante algum tempo decidi manter pequenas as estruturas da igreja,
com o intuito de estimular a função de “corpo vivo” . Para atingir esse
objetivo, utilizamos os edifícios de diversas maneiras e demos início
a certo número de igrejas filiais. No entanto, quanto mais abríamos
igrejas, maior era o crescimento que experimentávamos, fundamen­
talmente porque estávamos numa área de crescimento populacional. As
igrejas que iniciamos em outras áreas da cidade não solucionavam o
problema de crescimento da nossa igreja sede.
Aconteceram algumas coisas diretamente relacionadas à cultura.
Em primeiro lugar, logo esgotamos os horários culturalmente
aceitáveis para os períodos de adoração e de ensino. Em segundo, em
cerca de quatro anos esgotamos as áreas geográficas que ofereciam
boas perspectivas para iniciar novas igrejas, especialmente em relação
à nossa igreja sede. Em terceiro lugar, logo atingimos o número
máximo de pessoas que podíamos acomodar em nosso próprio
edifício. Em quarto, isso começou a causar uma “mentalidade
introspectiva” — um desejo de parar de alcançar novas pessoas.
Também começamos a recusar pessoas, provocando sentimentos
negativos nos recém-chegados, bem como nos freqüentadores regu­
lares.
Foi então que percebi que estávamos começando a violar os
próprios princípios em que críamos — por exemplo, o de que a forma
segue a função. Para solucionar o problema, tivemos de mudar a
forma — em resumo, tivemos de construir um edifício maior. Isso,
por sua vez, afetaria a forma do culto. E, nesse aspecto, as pessoas do
“crescimento de igreja” também fizeram um comentário cultural
significativo. À medida que a igreja crescia em tamanho, foi
necessário passar a ter a “celebração” quando a igreja se reunia como
corpo. O desafio que encontramos foi o de estimular e desenvolver
formas que continuassem a acomodar a função de “corpo vivo” . Com
esse objetivo, desenvolvemos células nos lares, que denominamos
“famílias de comunhão” e mini-igrejas.
No fundo, estou dizendo que você não pode obrigar as estruturas
da igreja a permanecer pequenas, quando você está situado num
contexto cultural saturado de pessoas e de grandes estruturas. Isto é,
não dá para você permanecer pequeno caso esteja envolvido nos
negócios de nosso Pai para alcançar pessoas para Cristo. E, se você
está alcançando essas pessoas, precisa planejar estruturas que
acomodem essas pessoas em seu próprio ambiente cultural, sem violar
os princípios neotestamentários para a vida da igreja.

Resumo
Este é um livro escrito com o propósito de ajudar a igreja a
desenvolver formas e estruturas eficazes no cumprimento da grande
comissão em qualquer meio cultural. Não é um livro sobre forma e
estruturas. É um livro que, antes de tudo, focaliza as diretrizes e as
funções encontradas no Novo Testamento, que, por sua vez, podem
ser traduzidas em princípios absolutos aplicáveis em qualquer cultura
do mundo desde o século I. Nesse sentido, se forem focalizadas
corretamente, tornam-se diretrizes supraculturais normativas para
todas as épocas.
O ângulo das Escrituras é fundamental na formulação desses princí­
pios. O ângulo da história e o ângulo da cultura nos proporcionam
mais percepção, especialmente ao nos ajudarem a discernir e aplicar
esses princípios bíblicos. Juntos, os três ângulos ajudam qualquer
pessoa que queira formular uma filosofia adequada de ministério. É
esse tipo de filosofia que capacitará cada líder de igreja a desenvolver
formas e estruturas e a usar métodos e técnicas atualizados e
contextualizadas, mas em harmonia com os absolutos bíblicos. Essa
é a combinação que cria igrejas dinâmicas que refletem os propósitos
e os planos de Deus em qualquer cultura do mundo, em qualquer
momento da história.

Notas

1 Veja C. Peter W agner, Leading your Church to growth, Regai Books, p.


175-181, 214-216.
2 Não há dúvida de que os apóstolos se viram em apuros por pregarem o
evangelho. Aliás, alguns acabaram na prisão. Foram, no entanto, encar­
cerados por desafiarem teologicamente seus compatriotas judeus e líderes
religiosos. No século xx, na maioria dos casos as leis civis têm o propósito
de garantir aos cidadãos da localidade o direito à privacidade. Nesse sentido,
estaríamos violando a admoestação de Paulo a que obedeçamos às autoridades
e aos magistrados locais (Rm 13.1-7).
3 Uma função ou diretriz circunstancial não pode ser repetida. Por exemplo,
Paulo pediu a Timóteo que trouxesse sua capa e seus pergaminhos (2 Tm
4.13).
4 Alvin T o f f l e r , A terceira onda, Record.
Por que
a igreja existe?

Quem quer que tente formular uma filosofia bíblica do ministério e


desenvolver uma estratégia e uma metodologia contemporânea fir­
memente alicerçada em fundamentos bíblicos deve fazer algumas
perguntas bem fundamentais e a elas responder. Por que a igreja
existe? Qual é seu propósito principal? Por que, antes de qualquer
coisa, Deus a deixou no mundo?
Jesus Cristo, antes de subir ao Pai, tratou diretamente dessas
questões. Certo dia, numa montanha na Galiléia, falou usando uma
linguagem clara e simples: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as
nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo;
ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis
que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt
28.19-20).
Anteriormente, havia dito na presença dos discípulos, mais
especificamente a Pedro: edificarei a minha igreja, e as portas do
inferno [o poder da morte] não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).
Agora, antes de deixá-los dando continuidade à sua obra e cum­
prindo suas palavras proféticas, disse-lhes o que deviam fazer: “FAZEI
d is c íp u l o s d e t o d a s a s n a ç õ e s !” . A ordem é clara, concisa, abran­
gente! Primeiramente, deviam aguardar em Jerusalém a vinda do
Espírito Santo (At 1.4, 5). Depois receberiam “poder” e se tornariam
suas “testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e
Samaria, e até aos confins da terra” (1.8).
Os discípulos começaram a entender. Atos demonstra isso, sem
nenhuma sombra de dúvida. O documento de Lucas é um registro
preciso das atividades e das realizações dos discípulos à medida que
cumpriam, de forma séria e sistemática, a ordem de marcha dada por
Jesus Cristo.

Um exame mais atento


Examine com mais cuidado o conteúdo dessa ordem tremenda. Eles
deviam fazer discípulos — um imperativo. No versículo 19, a palavra
“ide” no texto original é um particípio, tal como os dois outros
particípios do versículo 20, “batizando” e “ensinando” . Mas todas
essas formas verbais implicam ação e descrevem com mais minúcia
o que Cristo queria que fizessem. No fundo, Jesus estava dizendo:
“Enquanto forem, façam discípulos, batizem esses discípulos e
ensinem-lhes o que ensinei a vocês” . Expressando-o de forma ainda
mais simples, naquele dia os discípulos ouviram Jesus dizer: “Vão a
todos os lugares e ganhem pessoas para Cristo [isto é, façam cristãos],
e depois os batizem e ensinem a esses cristãos a verdade que tenho
ensinado a vocês” .
Os que se tornavam seguidores de Cristo eram imediatamente
identificados como “discípulos” . Só vieram a ser chamados de cristãos-
quando foi fundada a igreja de Antioquia (At 11.26). Em Atos 14.21,
22a vê-se uma clara ilustração do cumprimento das instruções de Jesus
de fazer discípulos e ensinar-lhes: “E, tendo anunciado o evangelho
naquela cidade [Derbe], e feito muitos discípulos, voltaram para
Listra, e Icônio e Antioquia, fortalecendo as almas dos discípulos,
exortando-os a permanecer firmes na fé ...” .1
Em outras palavras, na primeira viagem missionária de Paulo, ele
e Barnabé pregaram o evangelho e ganharam muitos para Cristo
(fizeram muitos discípulos). Posteriormente, na mesma viagem,
retornaram a Listra, a Icônio e a Antioquia, e fortaleceram os novos
cristãos (os discípulos) — um cumprimento direto da comissão dada
por Cristo em Mateus 28.19-20.
A igreja existe, portanto, para cumprir duas funções fundamentais
— a evangelização (fazer discípulos) e a edificação (ensinar-lhes). Por
sua vez, essas duas funções respondem a duas perguntas — primeira:
“por que a igreja existe no mundo?” e segunda: “por que a igreja
existe como comunidade congregada?” .
Quando você indaga “Por que a igreja existe no mundo?” , você
está perguntando o que Deus espera realizar por meio de seu povo à
medida que este entra em contato com o mundo incrédulo! Quando
você indaga “Por que a igreja existe como comunidade congregada?” ,
você está indagando o que Deus espera que aconteça aos fiéis à
medida que se reúnem como membros do corpo de Cristo.2

Uma visão geral


A evangelização e a edificação são funções distintas, mas inter­
relacionadas no Novo Testamento. Os dois tipos de atividade são bem
claros e observáveis, mas nem sempre se excluem mutuamente. A
igreja como “comunidade congregada” é apresentada como algo com
atividades e objetivos bem delimitados. De modo análogo, a igreja,
enquanto ministra ao mundo, possui atividades e objetivos bem
definidos.
Isso fica mais claro com o quadro seguinte (figura 11), intitulado
“Por que a igreja existe?” . Embora as limitações de espaço impeçam
uma apresentação completa de todo o conteúdo do Novo Testamento
que ilustra como a igreja primitiva cumpriu a grande comissão de
nosso Senhor, a maior parte das referências e das passagens bíblicas
fundamentais está classificada nesse quadro, de modo que você possa
fazer o seu próprio estudo.
As duas tarefas, evangelização e edificação, estão classificadas em
duas colunas. Foram incluídos textos bíblicos que ilustram tanto as
funções e as diretrizes (isto é, como essas tarefas foram realizadas),
quanto os resultados e os objetivos alcançados. Em alguns casos, as
funções de evangelização e de edificação encontram-se tão entre­
laçadas no registro de Lucas, que são indistinguíveis. Nesses casos,
os textos bíblicos aparecem no meio do quadro.
Ao examinar o Novo Testamento tendo em mente essas duas per­
guntas básicas (quais sejam, “por que a igreja existe no mundo?” e
“por que a igreja existe como comunidade congregada?”), você
descobrirá que as cartas, que constituem grande parte do Novo
Testamento, foram escritas tendo por propósito básico a edificação.
Essas cartas deviam ser lidas e estudadas na igreja, tendo em vista o
crescimento e o desenvolvimento espiritual. Portanto, todo esse
conteúdo bíblico poderia ser incluído na segunda coluna do quadro.
Conseqüentemente, cada epístola é identificada (apenas pelo nome) em
algum ponto do quadro.
Entretanto, muitas epístolas incluem material biográfico e outras
informações e instruções que ilustram, de modo todo especial, alguns
aspectos da evangelização e da edificação. Dessa forma, além de
incluir o nome de cada epístola na coluna edificação, também in­
cluímos textos selecionados das epístolas nas duas colunas.3

Resumo
É por aqui que devemos começar um estudo acerca da igreja do Novo
Testamento. Em termos gerais, a comissão de Cristo declara por que
ele deixou a igreja na terra. Atos dos Apóstolos e as epístolas
demonstram, primeiramente, que seus discípulos levaram a sério as
instruções de Cristo e, depois, a maneira como cumpriram sua ordem.
Mateus 28.19, 20 esboça as tarefas básicas, e o restante do Novo
Testamento completa esse esboço com exemplos dinâmicos e outras
instruções, que nos ajudam a compreender de modo mais abrangente
o que Cristo tinha em mente para sua igreja na terra.
Os capítulos de 4 a 8 deste livro trazem uma apresentação e uma
interpretação pormenorizadas das passagens bíblicas esboçadas no
quadro a seguir. Entretanto, antes de passar a ler as minhas inter­
pretações, faça o seu próprio estudo indutivo. O modelo de pesquisa
ilustrado na figura 11 vai ajudá-lo a compreender como ir até o fim
desse processo estimulante. Para ajudá-lo em seu próprio estudo
indutivo, o “Apêndice A ” apresenta, por escrito, uma compilação das
passagens bíblicas esboçadas no gráfico que segue. São também
oferecidas instruções específicas sobre como realizar esse estudo.
Por Que a I g r e ja E x is t e ?

Por que a igreja existe Por que a igreja existe como


no mundo “comunidade congregada”

I n d o — F a z e i D is c íp u l o s B a t iz a n d o — E n s in a n d o -l h e s

E v a n g e l iz a ç ã o E d if ic a ç ã o
1 i

Funções e i Resultados e Funções e i Resultados e


Diretrizes i Objetivos Diretrizes ■ Objetivos
Atos 1.8
Atos 2.41, 42
Atos 2 46, 47

Atos 4.1, 2, 4
Atos 4.31
Atos 5.12-14 Atos 4.32
Atos 5.19-21a
Atos 5.25
Atos 5.27, 28
Atos 5.42
Atos 6.4, 7
Atos 8.16-4
Atos 8.5 Atos 8.12
Atos 8.25
Atos 8.35 Atos 8.36, 38
Atos 9.20
Atos 9.31
Atos 10.42, 43
Atos 11.19-21 Atos 11.22-26
Atos 12.24
Atos 13.5a
Atos 13.13-16, 42-44
Atos 13.45-49

A EPÍSTOLA DE TiAGO
Tiago 3.1, 2
Atos 14.1
Atos 14.5-7
Atos 14.19-21« Atos 14.216-23
Atos 14.25 Atos 14.26-28
Atos 15.2-4
Atos 16.31, 32 Atos 16.33-34 , 40
Atos 17.2-4
As EPÍSTOLAS AOS
TESSALONICENSES
(escritas em Corinto)
1 Tessalonicenses 2,7-12
1 T essalo n icen ses 1 Tessalonicenses 3.1-5
1.5-10 1 Tessalonicenses 3.10-13
1 Tessalonicenses 5.11
1 Tessalonicenses 5.14,
15
2 Tessalonicenses 3.1

Atos 17.10-12
Atos 17.16, 17
Atos 17.22, 34
Atos 18.4, 5
Atos 18.8-11

AS EPÍSTOLAS AOS CORÍNTIOS


(escritas em Éfeso e na
Macedonia)
1 Coríntios 1.17 1 Coríntios 1.10
1 Coríntios 1.21-24 1 Coríntios 4.17
1 Coríntios 2.1-5
1 Coríntios 5,9, 10
1 Coríntios 9.16
1 Coríntios 11.26
1 Coríntios 14.23-25
1 Coríntios 15.58
2 Coríntios 1.9
2 Coríntios 4.5
2 Coríntios 5.18-20

Atos 18.19-21 Atos 18.22, 23


Atos 18.24-28
Atos 19.1-7
Atos 19.9
Atos 19.8 I Atos 19.23; 20.1, 2
Atos 19.10, 20

A EPÍSTOLA AOS ROMANOS


Romanos 1.8 Romanos 1.9-13
Romanos 1.14-16
Romanos 13.8-10
Romanos 16.25-27
Atos 20.6, 7
Atos 20.17-21
Atos 20.22-24 Atos 20.25-35
Atos 22—26
(testemunho de
Paulo em
Jerusalém, diante
de Félix, Festo e
Agripa)
Atos 28.23, 24
Atos 28.30, 31
AS EPÍSTOLAS DA PRISÃO
Filemom

Efésios 3.8, 9 Efésios 1.15~19a; 3.14-19


Efésios 2.19-22
Efésios 4.11-16
Efésios 6.1-4

Colossenses 1.25-28a Colossenses 1.9-12


Colossenses 4.5, 6 Colossenses 1.286-29
Colossenses 2.2-5
Colossenses 3.16
Colossenses 3.18-23
Filipenses 1.12-14
Filipenses 1.27, 28
Filipenses 2.1-4
Filipenses 2.19-24
Filipenses 4.9

AS EPÍSTOLAS PASTORAIS
1 Timóteo 2.1-7 1 Timóteo 1.3-7
1 Timóteo 4.11-16
1 Timóteo 5.17
1 Timóteo 6.1 1 Timóteo 6.2

2 Timóteo 1.6-11
2 Timóteo 2.2
2 Timóteo 3.14-17
2 Timóteo 4.1, 2
2 Timóteo 4.4, 5
Tito 1.5
Tito 2.1-15

O utras c o r r e s p o n d ê n c ia s

Hebreus 3.12-14
Hebreus 5.12-14
Hebreus 6.1
Hebreus 10.24, 25

1 Pedro 2.12 1 Pedro 2.1-5


1 Pedro 2.18 1 Pedro 4.10-11
1 Pedro 3.1, 2 1 Pedro 5.1-3
1 Pedro 3.15
2 Pedro

1 João 1.1, 2 1 João 1.2-4

2 João

3 João

Judas 3
Judas 20-21
Judas 24

Apocalipse 1—3

A lista das epístolas na coluna “edificação” não tem o objetivo de apresentar uma ordem
absolutamente cronológica e seqüencial. Em alguns casos apresenta tal ordem; em outros, essas
epístolas são mencionadas de modo que estejam junto ao registro em Atos da fundação daquela
igreja específica. A cronologia geral baseia-se, no entanto, na obra de Merrill C. Tenney, O
Novo Testamento: sua Origem e Análise, publicado por Edições Vida Nova.
Notas

1Observe que, no Novo Testamento grego, as expressões “fazei discípulos”,


em Mateus 28.19, e “tendo [...] feito [...] discípulos”, em Atos 14.21,
apresentam a mesma forma verbal.
2 Mais tarde se verá que a “igreja congregada” existe para desempenhar mais
que uma mera função didática. Entretanto, o ensino é o primeiro passo no
desenvolvimento de um corpo de cristãos maduros. Isso é demonstrado
claramente em Atos.
3 Um raro exemplo disso encontra-se em 1 Tessalonicenses, especialmente
nos capítulos 1 e 2, em que Paulo reflete acerca de seu ministério em
Tessalônica, onde a igreja fora fundada inicialmente (veja Atos 17). Em 1
Tessalonicenses, Paulo expressa idéias e conceitos que muito bem ilustram
tanto seu trabalho evangelístico entre eles (1 Ts 1), quanto seu ministério
junto aos novos convertidos, conduzindo o processo de edificação (1 Ts 2).
formação
de discípulos

Antes de ler este capítulo, termine o estudo indutivo do “Apêndice A ”


e depois estude o “Apêndice B” . Esse estudo lhe dará base bíblica
para o material que se segue.

Uma vista panorâmica


Jesus Cristo passou três anos e meio ministrando aqui na terra. Foi a
todo lugar, pregando o reino de Deus às multidões, ensinando âs
pessoas sobre quem ele era e demonstrando sua divindade mediante a
operação de milagres (Jo 20.30, 31).
Mas ele também gastou boa parte de seu tempo com doze homens
que havia selecionado e, depois, treinado cuidadosamente, não numa
situação formal de educação mas numa experiência de aprendizado
“no campo” , em situações reais. Os discípulos associaram-se a ele rio
ministério e viram-no demonstrar, com sua própria vida, como fazer
a obra de Deus. Por fim, ele enviou-os para agir por si mesmos e
depois, com todo o cuidado, ajudou-os a aprender com os sucessos e
os fracassos.1
Ao fim desses três anos e meio, Jesus havia alcançado basicamente
dois alvos importantes tratando-se de estratégia: havia saturado a
mente das multidões com seus ensinamentos e preparado um pequeno
grupo de homens afundo, para participarem de seu trabalho e fazerem
a colheita (4.35-38). Depois de sua morte e ressurreição (o propósito
básico de sua vinda a este mundo), deu a seus seguidores uma grande
tarefa evangelística: “Fazei discípulos!” .
E eles obedeceram! Imediatamente edificaram sobre os alicerces
que Jesus havia lançado. Começaram por Jerusalém, onde ele havia
ensinado, morrido e ressuscitado. Foram a todos os lugares — ao
templo, de casa em casa, perante o Sinédrio, às sinagogas e às ruas.2
Os corações estavam preparados. O Espírito Santo operou com
poder! A colheita foi grande! ... tão grande que os líderes judeus
sentiram-se ameaçados e reagiram com ódio e contra-ataques.
Entretanto, essa reação só serviu para cumprir o plano máximo de
Deus, porquanto os fiéis foram espalhados por toda a Judéia, e por
Samaria, e até pelas regiões mais remotas do mundo conhecido na
época. Por todos os lugares levavam a mensagem da morte e da
ressurreição de Cristo e de que ele verdadeiramente era o Messias
prometido — não apenas para os judeus, mas também aquele
mencionado tantos anos antes a Abraão — aquele em quem seriam
“benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). “Ainda tenho outras
ovelhas” , Jesus disse, “não deste aprisco; a mim me convém conduzi-
las; elas ouvirão a minha voz; então haverá um rebanho e um pastor
(Jo 10.16)” . Tanto judeus como gentios entraram na família de Deus
depois que a igreja aumentou sua área de atuação e seu impacto no
mundo.
Em conseqüência disso, surgiu um novo fenômeno — algo
inexistente enquanto Cristo estava na terra. Começou em Jerusalém
após a ascensão de Cristo e, em seguida, espalhou-se por todo o
mundo do Novo Testamento. Onde quer que os cristãos fizessem
discípulos, ali surgiam igrejas. Pessoas de várias comunidades e
culturas foram reunidas para estabelecer novos relacionamentos.
Tornaram-se irmãos e irmãs em Cristo — membros da família de
Deus. Surgiu uma nova força, não na forma de “grupo itinerante” ,
mas de povo “estabelecido em comunidade” , na qual viviam,
trabalhavam e desempenhavam outras atividades rotineiras da vida. E,
à medida que eram ensinados e edificados, logo descobriam que
tinham duas responsabilidades básicas — uma “para com o mundo”
e outra “para com os irmãos” .

O poder do amor. É interessante notar que as epístolas contêm


poucas instruções acerca da evangelização direta, tal como era
praticada por aqueles que “viajavam” no livro de Atos. Deu-se grande
importância à responsabilidade “do corpo” . O destaque na “apre­
sentação verbal” do evangelho estava subordinada à “manutenção de
um relacionamento dinâmico dentro da igreja” e à “manutenção de um
relacionamento amoroso e exemplar” com as pessoas do mundo.
As oportunidades de apresentar verbalmente o evangelho de Cristo
deviam surgir naturalmente, em conseqüência da saturação que
ocorreu na comunidade, saturação que refletia “amor e interesse por
todos os homens” . Os estilos de vida deviam ser tão diferentes; e
transformados por Cristo de forma tão impressionante, que os
incrédulos não pudessem deixar de perceber e perguntar o que havia
causado a diferença.
Acima de tudo, o amor que existia entre o grupo local de fiéis
devia ser tão intenso que os incrédulos pudessem perceber que se
tratava de discípulos de Jesus Cristo. E, mais, que pudessem
convencer-se de que Jesus realmente era o que dizia ser.
Certa ocasião, ao se aproximar o dia de sua crucificação, Cristo
comentou com seus discípulos: “Novo mandamento vos dou: que vos
ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis
uns aos outros” . Repare no objetivo que se segue a essa diretriz dada
pelo Senhor Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos,
se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34, 35).
A evangelização da comunidade devia ser precedida de um
exemplo coletivo de “amor” entre os fiéis. Seria uma “prova positiva”
de que os discípulos de Cristo estavam presentes naquele lugar. Pois
nenhuma seita, religião ou grupo jamais foi capaz de atingir o nível
de amor que era potencialmente possível na verdadeira família de
Deus. E, sem sua existência, os esforços evangelísticos seriam
frustrados.
O poder da unidade. Mas há aqui outro fator fundamental na
evangelização da comunidade. É, na realidade, um reflexo do “amor” .
Francis Schaeffer chamou-o de “a apologética final” .3 Jesus falou a
respeito disso em João 17.21,23, enquanto orava pelos seus
discípulos. Ele pediu ao Pai: “que todos sejam um; e como és tu, ó
Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o
mundo creia que tu me enviaste. [...] eu neles e tu em mim, a fim de
que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que
tu me enviaste, e os amaste como também amaste a mim” .
Aqui Cristo fala dos resultados do amor — a saber, unidade e
harmonia. Ao verem o amor, os não-cristãos viriam a saber e a
entender que aquelas pessoas eram cristãs, seguidoras de Jesus Cristo.
Mas, ao observarem a unidade e a harmonia, ficariam convencidos de
que Cristo realmente veio da parte de Deus, que verdadeiramente era
o Filho de Deus, o Salvador do mundo.
Esse fenômeno foi demonstrado com vigor no livro de Atos. Foi
o amor e a unidade entre os cristãos de Jerusalém que serviu de base
para um testemunho eficaz. E essa idéia, como se demonstrou
anteriormente, é reforçada repetidas vezes no transcorrer das epístolas.
Mas vai-se tornar ainda mais evidente quando, posteriormente,
examinarmos o processo de edificação, conforme é ilustrado pelas
igrejas do Novo Testamento.

Um exame mais atento


A transmissão do evangelho no livro de Atos. Embora várias palavras
sejam utilizadas para relatar as atividades e as funções evangelísticas
dos cristãos do século I, Lucas utilizou algumas palavras básicas para
descrever o processo da comunicação com os não-cristãos. As
apresentadas a seguir aparecem com maior freqüência e, embora
similares no significado, cada uma, conforme utilizada no contexto,
contribui para nossa compreensão de como o mundo não-salvo era
alcançado com o evangelho de Cristo no século I.

Eles falavam. Uma das palavras mais comuns é o verbo traduzido


por “falar” ou “anunciar” . A palavra laleõ significa apenas
“conversar” ou “contar” . Lemos que Pedro e João estavam no templo
e “falavam [...] ao povo” (At 4.1). Mais tarde, quando o grupo dos
discípulos recebeu a plenitude do Espírito Santo, todos, “com
intrepidez, anunciavam a palavra de Deus” (4.31).4
Embora essa palavra (laleõ) seja a mais usada para descrever a
maneira como a mensagem do cristianismo era apresentada, podemos
aprender algumas lições acerca desse processo a partir do contexto em
que a palavra foi empregada. Freqüentemente as Escrituras nos dizem
que eles “anunciavam a palavra” (a mensagem deles) falavam “em
nome de Jesus” (a autoridade deles) e anunciavam “com intrepidez”
(a maneira deles). Eles deviam anunciar “todas as palavras desta
Vida” e “falaram de tal modo que veio a crer grande multidão” .

Eles evangelizavam. Muitas vezes, essa palavra é traduzida pela


expressão “pregavam o evangelho” ou “traziam boas novas” . Ao
contrário da palavra “falar” , esta palavra (euangelizõ) possui um
“conteúdo” próprio. Refere-se à mensagem que estava sendo dita, bem
como ao processo de comunicação. Em Atos 5.42, Lucas registrou
que “todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam [...]
de pregar Jesus, o Cristo”, isto é, não cessavam de anunciar as Boas
Novas: Jesus é o Salvador Prometido.5
Esse processo era desenvolvido por grupos e por indivíduos. Era
desenvolvido por todos os cristãos; acontecia no templo, de casa em
casa, de vila em vila, de cidade em cidade, numa estrada no deserto,
e seu alcance se estendia constantemente a regiões ainda mais
distantes. Eles iam a todos os lugares, anunciando as boas novas.

Eles ensinavam. Embora didaskõ (que significa ensinar) seja uma


das palavras mais usadas no Novo Testamento para descrever a
edificação, é também utilizada para descrever a evangelização. Neste
último sentido, a palavra aparece com maior freqüência nos capítulos
iniciais de Atos e, em algumas ocasiões, foi empregada num contexto
de desagrado e insatisfação por parte dos judeus. Eles ficaram
“ressentidos por ensinarem eles [Pedro e João] o povo” (4.2).6
Depois que os apóstolos foram libertados sigilosamente da prisão,
todos, “ao romper do dia, entraram no templo e ensinavam” (5.21).
Surpreendido com sua aparição, alguém apressou-se em ir contar ao
sumo sacerdote que os homens a quem haviam trancafiado na prisão
no dia anterior estavam agora “no templo, ensinando o povo” (5.25).
Imediatamente os apóstolos foram mais uma vez levados em custódia
e, consternado, o sumo sacerdote disse: “Expressamente vos ordena­
mos que não ensinásseis nesse nome, contudo enchestes Jerusalém de
vossa doutrina [isto é, ensino]”1 (5.28).
Talvez a observação mais significativa acerca do processo de
ensino aos não-cristãos nos primeiros dias da igreja é que ele foi
utilizado basicamente pelos apóstolos. Isso pode deixar implícito que
se trata de um processo mais complexo do que simplesmente “falar”
ou “evangelizar” , requerendo maior habilidade e conhecimento.
Obviamente acarretava mais do que apenas apresentar o evangelho de
Cristo, incluindo, certamente, a apresentação da mensagem total das
Escrituras (veja 5.21, 22). É claro que os apóstolos encontravam-se
numa situação singular para comunicar essa mensagem, depois de
passarem três anos e meio sendo treinados pelo maior Mestre que já
existiu. E significativo que as autoridades e os escribas viram “a
intrepidez de Pedro e João” , e perceberam “que eram homens
iletrados e incultos” . Em conseqüência, “admiraram-se e reconhe­
ceram que haviam eles estado com Jesus” (4.13).
Observe também que o ensino dos apóstolos entre os não-cristãos
ocasionou resultados tanto positivos quanto negativos. Os resultados
positivos eram conversões, inicialmente entre os leigos judeus. Por
conseguinte, os resultados negativos partiram dos líderes religiosos
deles. Aqui havia um grupo de líderes religiosos em oposição a outro
grupo de líderes religiosos, falsos mestres reagindo a verdadeiros
mestres. Os apóstolos estavam apresentando a verdade, que colocava
a descoberto os pecados e as idéias infundadas dos sacerdotes e dos
líderes de Israel. Eles ficaram enciumados e irados, e reagiram com
veemência.
Curiosamente, porém, depois dessa perseguição, lemos no capítulo
seguinte que, quando os apóstolos solucionaram os problemas
materiais em Atos 6 e conseguiram manter a prioridade de ensinar as
Escrituras, “muitíssimos sacerdotes” também aceitaram o evangelho
(6.7).
Aqui encontramos o verdadeiro teste do ensino eficaz entre os não-
cristãos. Os apóstolos não apenas ganharam os leigos para Cristo,
mas, no final, também ganharam muitos líderes religiosos.
Eles proclamavam ou pregavam. A palavra kerussõ significa gritar
ou proclamar como um arauto. “Filipe, descendo à cidade de Samaria,
anunciava-lhes a Cristo. As multidões atendiam, unânimes, às coisas
que Filipe dizia (8.5, 6).”8
A palavra “pregar” é empregada basicamente com respeito às
atividades de certas pessoas-chave no livro de Atos, especificamente,
o evangelista Filipe, o apóstolo Pedro e o apóstolo Paulo. Tal como
o “ensino” , a responsabilidade de exercer essa atividade entre não-
cristãos também parecia recair sobre certos indivíduos capacitados que
haviam sido escolhidos por Deus para proclamar o evangelho de
Cristo de modo especial (veja Atos 10.40-42). É claro que todos os
cristãos falavam de Cristo e testemunhavam a seu respeito, mas nem
todos pregavam a Cristo de maneira formal.

Eles anunciavam. Uma palavra de sentido bem próximo ao de


kerussõ é katangellõ, que significa “anunciar publicamente” ou
“proclamar e contar minuciosamente” . À semelhança de kerussõ, essa
palavra é utilizada em Atos para descrever a comunicação dos líderes
apostólicos, especialmente o ministério de Paulo.9
Na maioria dos casos, essa palavra era usada para descrever a
comunicação nas várias sinagogas judaicas. Ali, nesses centros
religiosos de ensino e adoração, Paulo “proclamou” e “anunciou
plenamente” a Palavra de Deus.

Eles testificavam solenemente. Uma palavra comum para testificar


é martureõ, que tem o sentido de “dar testemunho” (1.8). No entanto,
em todo o livro de Atos também se empregou alguma forma do verbo
diamarturomai para descrever o processo evangelístico; esse verbo
pode ser traduzido por “testificar solenemente” . Significa “afirmar e
atestar veementemente” e tem fortes conotações intelectuais e
emocionais. A Palavra de Deus estava sendo apresentada de maneira
séria, cuidadosa e com determinação. Se martureõ significa “dar
testemunho” , diamarturomai significa “dar um testemunho minu­
cioso” .
Esse conceito apareceu pela primeira vez em Atos no sermão de
Pedro no Dia de Pentecoste, quando “com muitas outras palavras deu
testemunho [solene; “conjurava-os” na B J], e exortava-os dizendo:
Salvai-vos desta geração perversa” (2.40). E, por fim, apareceu no
último capítulo de Atos, quando encontramos Paulo em Roma. “Uma
vez em Roma, foi permitido a Paulo morar por sua conta, tendo em
sua companhia o soldado que o guardava” (28.16). Paulo reuniu os
líderes judeus e relatou os acontecimentos ocorridos desde Jerusalém.
Os judeus marcaram uma data para Paulo apresentar todo o seu
argumento. E naquele dia “vieram em grande número ao encontro de
Paulo na sua própria residência. Então”, naquele dia, “desde a manhã
até a tarde, lhes fez uma exposição em testemunho [solene] do reino
de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de
Moisés, como pelos profetas” (28.23).10
A medida que você acompanha o uso dessa palavra através do livro
de Atos, ela vai adquirindo uma forte síndrome “apologética” . Tanto
Pedro quanto Paulo, os dois apóstolos cuja comunicação foi descrita
com essa palavra, estavam tentando convencer seus ouvintes de que
Jesus Cristo era verdadeiramente o Messias prometido no Antigo
Testamento. Não estavam simplesmente apresentando o evangelho,
mas estavam atestando e dando provas de que Jesus era o Cristo, a
partir do Antigo Testamento e de suas próprias experiências pessoais.

Eles arrazoavam. A palavra dialegomai, que significa “arrazoar,


argumentar ou discutir”, é empregada exclusivamente em relação à
comunicação de Paulo com o mundo não-cristão. E, além disso, a
palavra não aparece em Atos antes de Paulo chegar a Tessalônica.
Aqui nós o encontramos indo à sinagoga, e “por três sábados
arrazoou com eles, acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter
sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos”
(17.2, 3).11
Ao observar o processo de comunicação que se deu nessa nova
dimensão que envolvia amplo diálogo e interação, repare que o
ministério de Paulo levava-o cada vez mais a um ambiente pagão
saturado pelo pensamento e pela cultura grega e romana. Tanto os
judeus como os gregos ignoravam totalmente o que de fato havia
ocorrido na terra da Palestina ao longo dos últimos anos. Para os
judeus religiosos, o Messias prometido não era uma idéia nova, mas
provavelmente pouco sabiam sobre Jesus de Nazaré. Sem sombra de
dúvida, o que eles tinham ouvido fora influenciado por interpretações
tendenciosas. Os gregos, é claro, teriam um conhecimento ínfimo, se
é que sabiam de alguma coisa, tendo a comunidade judaica por única
fonte de informações. .
Repare também que Lucas começou a registrar dados relativos ao
tempo, no contexto em que essa palavra foi empregada. Por exemplo,
Paulo permaneceu em Corinto um ano e meio (18.11)eem Éfeso dois
anos (19.10).
Levando em consideração a mentalidade dessas pessoas, sua forma­
ção cultural, seu total desconhecimento do cristianismo, bem como o
método de comunicação a que estavam acostumadas, a implicação é
óbvia. Paulo adotou uma metodologia evangelística que poderia
alcançar essas pessoas com maior eficácia. Além do mais, ele sabia
não haver nenhum alicerce sobre o qual pudesse construir. Conse­
qüentemente, estabeleceu-se nessas localidades estratégicas, pôs-se a
conhecer a maneira de pensar dessas pessoas e ensinou a fundo as
Escrituras, levando em conta a estrutura emocional e mental delas.

A transmissão do evangelho nas epístolas


Quando se estuda o processo de comunicação ao longo do livro de
Atos, a ênfase naturalmente se concentra nas atividades e nas funções
dos cristãos do século I à medida que falavam de Cristo, anunciavam
as boas novas, ensinavam, proclamavam, testificavam aos incrédulos
e arrazoavam com eles. Mas, quando se passa a estudar as epístolas,
as atividades tornam-se diretrizes. Isso, é claro, é o que seria de
esperar. O propósito de Lucas foi registrar os “atos” dos seguidores
de Cristo, e as epístolas foram escritas para ensinar e nutrir aqueles
que reagiram favoravelmente ao evangelho.
Há também uma inegável mudança de destaque. As epístolas
acrescentam uma nova dimensão à maneira como as igrejas formadas
realizavam a evangelização.
É claro que a investida evangelística iniciada em Atos devia
continuar nas comunidades em que as igrejas locais se haviam
estabelecido. Paulo ficou muito satisfeito com o impacto das igrejas
em Tessalônica e em Roma (1 Ts 1.9; Rm 1.8). Ao que parece, em
todos os lugares por onde passava recebia relatórios positivos acerca
do testemunho desses cristãos.
Mas, quando você percorre as epístolas tendo em mente a questão
da “evangelização” , logo descobre que, para se estabelecer numa
comunidade, é necessário mais do que mera verbalização. Em rigor,
a comunicação deve estar perfeitamente alinhada a um estilo de vida
cristão — tanto no plano individual como no plano coletivo. Esse
estilo de vida cristão deve ficar demonstrado nos vários contextos da
vida — na vida profissional do cristão, sua vida social, sua vida
familiar, sua vida na igreja e sua vida em geral.

Vida profissional. Paulo admoestou especialmente os tessa­


lonicenses a conduzir seus negócios de modo correto. Alguns deles
estavam usando a doutrina da segunda vinda de Cristo como desculpa
para a preguiça. “Procurai [...] tratar dos vossos próprios negócios,
e trabalhar com vossas próprias mãos” , exortou Paulo (1 Ts 4.11,
ibb ), e depois explicou o motivo disso — “a fim de que andeis
dignamente para com os que estão de fora, e não tenhais necessidade
de coisa alguma” (4.12, ib b ). Paulo ensinou que, quando o cristão
passa por necessidades materiais por causa de preguiça, isso traz má
reputação para o evangelho e para a igreja de Jesus Cristo. Se
quisessem evangelizar eficazmente seus semelhantes não-salvos, com
certeza não poderiam levar vidas irresponsáveis para poderem
transmitir o evangelho com proveito.
Tanto Paulo quanto Pedro preocupavam-se com o fato de que os
cristãos deviam manter um bom testemunho perante seus senhores
não-salvos. “Considerem dignos de toda honra os próprios senhores,
para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (1 Tm
6.1). “Sede submissos [...] aos vossos senhores” , disse Pedro (1 Pe
2.18).
Que maneira de atacar os males da escravidão! Em muitos casos
eles ganharam seus senhores não-salvos para Cristo e também
ganharam sua liberdade. Naqueles dias, uma atitude oposta teria
provocado perseguição imediata e, talvez, até mesmo a morte. Mas,
acima de tudo, teria prejudicado a causa de Cristo.
Acerca da perspectiva de Paulo quanto ao problema da escravidão,
Merrill Tenney comenta sucintamente:
Em parte alguma dos seus escritos é atacada ou defendida a escravatura.
Segundo as cartas de Paulo às igrejas da Ásia, havia, entre os crentes,
tanto escravos como donos de escravos. Os escravos eram exortados a
obedecer aos seus senhores, e aos senhores mandava-se que não fossem
cruéis para com eles. Tal era, no entanto, o poder da sociedade cristã,
que a escravatura foi gradualmente enfraquecendo sob seu impacto e,
finalmente, desapareceu.12

Vida social. Para viver numa comunidade dia após dia e semana
após semana, é necessário manter os relacionamentos. Muitos dos
convertidos do Novo Testamento eram provenientes de uma sociedade
cujo estilo de vida era impróprio para um cristão. Tendo em vista seus
amigos não-salvos, os cristãos foram admoestados por Paulo a não se
tornarem “causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios” na
vida social que levavam. “Portanto” , disse Paulo, “quer comais, quer
bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de
Deus [...] para que sejam salvos (1 Co 10.31-33).”
Tendo em vista a cultura pagã de Corinto, não é difícil entender
essas palavras. A maneira de ganhar as pessoas para Cristo não era
falar-lhes a respeito de Jesus Cristo e depois participar de suas
atividades imorais e anticristãs, fosse dentro da igreja, fosse fora, na
comunidade. Isso apenas escandalizaria o incrédulo e criaria decepção
com a verdadeira mensagem do cristianismo.
“Mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios” ,
escreveu Pedro, “para que [•••] glorifiquem a Deus no dia da
visitação” (1 Pe 2.12). Ele também escreveu: “fazendo-o [...] com
boa consciência, de modo que [...] fiquem envergonhados os que
difamam o vosso bom procedimento em Cristo” (3.16).
Pedro não estava afirmando que todos aceitariam o evangelho.
Mas, sim, que, quando o Espírito Santo começa sua obra no coração
dc um homem, tal pessoa necessita do contexto de um estilo de vida
crUlAo para poder avaliar objetivamente as exigências do cristianismo.
Além ilo mais, Pedro estava dizendo que aqueles que não aceitassem
lliitilam "envergonhados" ou seriam silenciados.

Vida familiar. Nos dias do Novo Testamento, havia aqueles que


eram casados com pessoas incrédulas. Seus cônjuges, especialmente
quando se tratava de maridos, ainda não tinham vindo a Cristo.
Será que essas esposas cristãs deviam bombardear verbalmente seus
maridos não-salvos com o evangelho? Será que deviam ir atrás deles
para levá-los à igreja, a fim de que ouvissem o pastor ou um
evangelista visitante? Será que deviam falar a respeito das virtudes de
outros homens cristãos, especialmente dos líderes da igreja?
De modo algum! “Mulheres, sede vós [...] submissas a vossos
próprios maridos” , escreveu Pedro, “para que, se alguns deles ainda
não obedecem à palavra, sejam ganhos sem palavra alguma, por meio
do procedimento de suas esposas (1 Pe 3.1).”
O apóstolo estava declarando uma verdade profunda! Não é uma
montanha de palavras que convence os cônjuges incrédulos de que
necessitam de Cristo, mas, sim, o impacto de um estilo de vida cristão
permanente, que reflete a realidade da habitação do Espírito Santo
(3.2-7).

Vida na igreja. Quase nada se diz no Novo Testamento sobre a


pregação de mensagens do evangelho quando os fiéis se reuniam para
a edificação. Por outro lado, os cristãos deviam dedicar-se ao “ensino
dos apóstolos” , isto é, ao aprendizado da Palavra de Deus. Deviam
dedicar-se à “comunhão” com os irmãos e com Deus. E, nesse
processo, contariam “com a simpatia de todo o povo” , isto é, de todo
o mundo não-salvo. Vemos esse modelo na primeira igreja, a igreja
de Jerusalém (At 2.42-47). E, conforme se verá mais tarde,
encontramos essa ênfase ao longo das epístolas.
A igreja de Corinto destaca-se como um exemplo negativo. As
reuniões da igreja eram caóticas. As pessoas falavam em línguas —
uma atrás da outra — sem nenhum intérprete. Não há dúvida de que
mais de um falava ao mesmo tempo, e é óbvio que as mulheres
estavam produzindo grande parte desse falatório. “No caso de
entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais
loucos?” , indagou Paulo (1 Co 14.23).
É por essa razão que ele enfatizou que as profecias nas reuniões da
igreja e a Palavra de Deus deviam ser enunciadas de modo claro e
ordeiro. Para serem salvos, os incrédulos têm de compreender a
Palavra (1 Co 14.25).
A igreja também devia tomar parte em outro ministério evange-
lístico importante — o da oração. Devia orar a favor de todas as
pessoas para que fossem salvas (1 Tm 2.1-4). Também devia orar a
favor daqueles que foram especialmente chamados a pregar o
evangelho em outros locais, fora de suas comunidades. Em várias
ocasiões Paulo pediu orações a favor de seu próprio ministério
evangelístico, “para que a palavra do Senhor se propague, e seja
glorificada” (2 Ts 3.1).

Vida em geral. Embora as epístolas dêem destaque a situações e


contextos especiais em que os cristãos devem manter um bom
testemunho, também tratam da vida em geral. “Vós sois a nossa carta
[...] conhecida e lida por todos os homens” , disse Paulo aos coríntios
(2 Co 3.2). “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” , escreveu aos
romanos (Rm 13.9). “Portai-vos com sabedoria para com os que são
de fora; aproveitai as oportunidades” , admoestou os colossenses. “A
vossa palavra séja sempre agradável, temperada com sal, para
saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.5, 6). A isso,
Pedro acrescenta: “estando sempre preparados para responder a todo
aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15).
Os filipenses receberam a ordem de se comportarem de “modo digno
do evangelho” (Fp 1.27).

Resumo
O livro de Atos e as cartas do Novo Testamento não deixam margem
a dúvidas de que o grande impacto evangelístico de um grupo de
cristãos em determinada comunidade baseava-se, antes de qualquer
coisa, num testemunho individual e coletivo diante do mundo não-
salvo, refletindo amor, unidade e uma vida piedosa. Isso devia tornar-
se uma moldura para um testemunho verbal vital que devia ser
partilhado com aqueles que eram influenciados diariamente, à medida
que os cristãos realizavam seus negócios na comunidade, relacio­
navam-se com os não-salvos por meio de contatos sociais, demons­
travam uma vida familiar dinâmica em cada comunidade específica,
refletiam amor, unidade e maturidade como corpo local de fiéis e, em
geral, levavam uma vida cristã, tanto naquilo que diziam quanto
naquilo que faziam.
Notas

1 No que se refere a um ótimo estudo de como Jesus trabalhou com os doze,


veja Robert E. C o l e m a n , O plano mestre de evangelismo, Mundo Cristão.
2 O “Apêndice B ” fornece uma compilação das funções e dos resultados, bem
como das diretrizes e dos objetivos bíblicos, fruto de um estudo indutivo das
passagens bíblicas esboçadas no capítulo 2 e compiladas no “Apêndice A”.
3 Francis S c h a e f f e r , A igreja no ano 2001, a p l i c , p. 176.
4 Veja também Atos 5.20, 40; 11.19, 20; 14.1, 25; 16.13, 32.
5 Veja também Atos 8.4, 25, 35; 11.20; 14.5, 7, 21; 16.10.
6 Veja também Atos 5.41, 42; 28.30, 31.
7O substantivo didachê (etimologicamente derivado de didaskõ) é geralmente
traduzido por “doutrina”.
8 Veja também Atos 9.20; 10.39, 42; 20, 25; 28.30, 31.
9 Veja Atos 4.2; 13.5, 38; 15.36; 17.3.
10 Veja também Atos 10.42; 18.5; 20.24; 23.11.
11 Veja também Atos 17.17; 18.4, 19; 19.8-10; 24.24, 25.
12Merrill C. T e n n e y , O Novo Testamento: sua origem e análise, Vida Nova,
p. 80.
princípios de
evangelização
do Novo
Testamento

O que um estudo sobre a evangelização no século I tem a dizer à


igreja do século xx, onde quer que ela esteja? Que princípios abran­
gentes podemos tirar desse estudo, que possam, por sua vez, ser
estabelecidos como propósitos para a igreja de hoje, em qualquer
cultura ou subcultura?
A seguir há sete princípios-chave que surgem naturalmente do
estudo das atividades e das funções evangelísticas descritas no livro de
Atos e das diretrizes apresentadas nas epístolas.

Formar uma base de evangelização


Em primeiro lugar, cada corpo local de cristãos é responsável pela
saturação de sua comunidade com amor e pela demonstração de uma
unidade e de uma harmonia que forneçam uma base de comunicação
verbal, pela demonstração de um estilo de vida cristão em todos os
relacionamentos humanos, a fim de criar uma base sobre a qual se
discuta acerca daquele que transforma vidas, Cristo.
Esse princípio evidencia-se nas atividades dos cristãos do Novo
Testamento e nas diretrizes que as epístolas dão aos grupos locais de
cristãos. Começaram por Jerusalém e, depois, à medida que se abriam
as igrejas em outras comunidades e países, os cristãos eram instruídos
a viver como Jesus Cristo em cada relacionamento humano, de modo
que pudessem partilhar vigorosamente o evangelho.
Com freqüência, as igrejas locais negligenciam as próprias
comunidades. Um forte programa de missões estrangeiras substitui a
evangelização local. As ofertas missionárias tomam o lugar da
evangelização “na praça” . Missionários fora do país, sustentados pela
igreja, passam a substituir o engajamento na evangelização da própria
comunidade.
Isso não pode ser assim! Não podemos negligenciar nossa própria
“Jerusalém” . O campo é o mundo — é claro — mas o mundo começa
em nosso próprio quintal, em nossa própria cidade, em nossa própria
comunidade. Essa foi a história dos cristãos do Novo Testamento.
Sem dúvida, eles deram o exemplo para o trabalho de missões
estrangeiras, mas eles viam o mundo pelo ângulo certo. Incluíam
“Jerusalém” , “Judéia”, “Samaria” e depois “os confins da terra” (At
1 . 8).
É verdade que uma das maiores realizações do cristianismo
evangélico foi seu esforço em missões estrangeiras. Isso é digno de
elogio! E deve ser mantido e expandido. Mas as palavras de Jesus se
aplicam nessa questão: “devíeis [...] fazer estas cousas, sem omitir
aquelas” (Mt 23.23).
É importante sublinhar mais uma vez que, quando Jesus Cristo
esteve na terra, as pessoas puderam vê-lo e ouvi-lo. Seus milagres e
seu estilo de vida tornaram-se o meio pelo qual os descrentes podiam
avaliar suas exigências (Jo 20.20-31). Mas quando voltou para o céu,
seu corpo, a igreja, tornou-se o meio visível mediante o qual as
pessoas podiam avaliar a mensagem de Cristo. (Leia mais uma vez
João 13.13-15; 17.19-23.)
Um dos desafios que encontramos no complexo metropolitano de
Dallas é como aplicar esse princípio. Fizemos algumas tentativas.
Primeiramente, trabalhamos duro para criar uma atmosfera de calor
humano e de amor quando a igreja se reúne como corpo. Tanto os
dirigentes quanto os participantes de qualquer culto são estimulados a
encarar o local em que nos reunimos como uma sala de estar ampla
e confortável. Isso, por sua vez, influencia a maneira como agimos e
nos comportamos no púlpito, e também influi na atitude de nosso povo
para com as outras pessoas — especialmente os recém-chegados.
Queremos que as pessoas sintam que somos gente de carne e osso, que
nos importamos uns com os outros e com elas, mesmo que sejam
novas na igreja.
Também estruturamos um grupo denominado “equipe de hospi­
talidade” . Esse grupo, treinado e incentivado para alcançar espe­
cialmente as novas pessoas, não negligencia, todavia, os que vêm à
igreja regularmente. Após cada culto, apresentamos as novas pessoas
e pedimos que os voluntários se encontrem com cada visitante depois
do culto para uma xícara de café (de chá, ou de qualquer outra coisa)
numa área designada para comunhão.

A evangelização coletiva é fundamental


Isso nos conduz a um segundo princípio do Novo Testamento: a
evangelização coletiva é fundamental para a evangelização pessoal.
No Novo Testamento, o corpo de Cristo em ação preparava o
cenário para o testemunho pessoal. É por isso que Jesus disse “Novo
mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros” , e assim
“conhecerão todos que sois meus discípulos” (Jo 13.34, 35). É por
isso que Paulo disse “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Rm
13.9). Pedro exortou os fiéis a manter um procedimento “exemplar
[...] no meio dos gentios” (1 Pe 2.12). A evangelização pessoal
assume significado fora do comum quando realçado por um corpo
amadurecido de fiéis locais — cristãos que estão causando um impacto
em suas comunidades em razão de sua integridade (1 Ts 4.11, 12),
seu comportamento altruísta (Rm 13.7), sua conduta ordeira (1 Co
6.1), sua humildade (1 Pe 2.18) e, ao mesmo tempo, seu testemunho
claro a favor de Jesus Cristo (3.15).
É difícil testemunhar em isolamento. Muitas vezes, isso é
necessário, mas o plano geral de Deus é que a evangelização da
comunidade ocorra no contexto de um cristianismo dinâmico e de um
“corpo vivo” cheio de vigor.
A igreja local, unida, funcionando em todas as suas partes, pode
causar poderoso impacto numa comunidade pagã. Assim, não são
tanto os indivíduos extrovertidos que muitas vezes são exaltados como
os “mais espirituais” pelo fato de testemunharem, mas, se torna um
ministério de toda a igreja, em que todos partilham da alegria e da
recompensa dos que têm o privilégio de “lançar a rede” para Cristo.
A aplicação desse princípio no século xx requer estruturas
eclesiásticas exclusivas. A maioria das formas tradicionais não pro­
porciona as melhores oportunidades de demonstrar o amor em ação.
É verdade que podemos criar uma atmosfera agradável, receptiva,
quando a igreja se reúne, mas, à medida que a igreja cresce, logo se
torna necessariamente difícil manter o “corpo vivo” em ação.
Ademais, muitas pessoas não-salvas, que necessitam ver o corpo
agindo em amor e em unidade, não entram em uma igreja.
Entretanto, muitos virão a uma reunião numa casa. Nesse sentido,
podemos levar o “corpo em ação” até o mundo — mediante estudos
bíblicos evangelísticos em lares, encontros para discussões abertas e
aquilo que, em nosso próprio ministério, chamamos mini-igrejas. Esse
tipo de “estrutura” tem grande potencialidade para aplicar os
princípios do Novo Testamento recém-apresentados. Pessoalmente,
sinto que ainda nem começamos a implementar esse princípio nesse
tipo de “contexto familiar” .

Evangelizar com amor


Em terceiro lugar, quando possível, a apresentação do evangelho aos
não-salvos deve ocorrer sobre o pano de fundo de um corpo amoroso
e unido de cristãos.
As Escrituras não sugerem que os não-cristãos devam ser excluídos
da “igreja congregada” . Ao contrário, a Bíblia ensina que os
incrédulos devem ser expostos à igreja congregada como um corpo
ordeiro e unido.
Esse foi outro problema de Corinto. Os incrédulos que entrassem
poderiam interpretar mal o que estava acontecendo, dada a falta de
ordem. Mas Paulo também se referiu a não-cristãos que poderiam
entrar, e ser convencidos, e chegar até Cristo (1 Co 14.23-25).1
Observe nessa passagem que o incrédulo será “por todos
convencido, e por todos julgado” (14.24). Aqui há uma referência
clara à “evangelização pelo corpo”. Era a igreja toda em ação que
devia ser usada pelo Espírito Santo para ganhar essa pessoa para
Cristo.
Repare também que ela não viria a Cristo por uma mensagem
evangelística especial, pregada no púlpito por um pastor, destinada aos
não-salvos ali presentes. Ao contrário, ela seria tocada pelos próprios
cristãos, por seu comportamento e pelo processo de edificação
mútua.2
Recordo-me de um homem de negócios não-cristão que estava
freqüentando uma nova igreja, nos seus primeiros dias, que eu estava
pastoreando. Ele me perguntou se podia conversar comigo acerca da
sua situação espiritual.
Mais tarde, quando entrou em meu gabinete, contou-me como
estava impressionado com o amor e o interesse manifestados pelos
membros dessa nova igreja. “Já estive em muitas igrejas” , disse, “e
fui membro da diretoria de várias delas, mas nunca experimentei o
tipo de cristianismo que estou vendo nesta nova igreja” .
Então declarou abertamente estar certo de que não conhecia
pessoalmente a Cristo. .
É interessante que não me disse o quanto tinha ficado impres­
sionado com as minhas mensagens, embora eu soubesse que ele as
apreciava. Na verdade, ele estava impressionado com o “corpo” . Sim,
tive o privilégio de conduzi-lo a Cristo, mas foi o corpo local de
cristãos em ação que foi usado por Deus para trazer convencimento
a esse homem.
O Novo Testamento apresenta, então, a “igreja congregada” como
uma situação em que não-cristãos podem ver e experimentar as
realidades do cristianismo — amor, unidade e vida semelhante à de
Cristo. E, dentro disso, o Espírito Santo tem condições de operar
arrependimento e despertar um desejo de adorar o mesmo Deus e
conhecer o mesmo Salvador.
A evangelização no Novo Testamento se deu não apenas na igreja
como “comunidade congregada” , mas também quando ela foi
“dispersada” pelo mundo — no trabalho, nas localidades onde os
cristãos viviam, em seus lares. De fato, parece que foi nessas
situações que o evangelho de Jesus Cristo com mais freqüência foi
apresentado verbalmente aos não-cristãos.
Buscar os adultos (ou as famílias)
Em quarto lugar, o alvo principal da evangelização devem ser os
adultos e, conseqüentemente, as famílias inteiras.
Em lugar algum do Novo Testamento existem exemplos de
“evangelização de crianças” , tal como costumamos praticar hoje, ou
seja, ganhar as crianças da comunidade para Cristo, fora do ambiente
familiar. Mas não interprete mal. Isso não significa que não se ressalte
a importância da vida da criança e da conversão dela. O próprio Jesus
Cristo deu o exemplo supremo em sua atitude para com as crianças.
Também Paulo escreveu a Timóteo, lembrando-o de sua herança
religiosa: “ ... desde a infância sabes as sagradas letras que podem
tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3.15).
Os dados do Novo Testamento são também sustentados pelos
exemplos formidáveis do Antigo Testamento acerca da criação de
filhos. Aliás, quando a Escritura trata da família, parece que ela fala
mais dos filhos — suas necessidades e sua importância — do que de
qualquer outro aspecto da vida familiar.3
O padrão do Novo Testamento é claro! O alvo da conversão eram
os adultos. Jesus escolheu doze homens feitos — não crianças. Ele
falou às multidões (sem dúvida havia crianças nas multidões), mas
eram comentários dirigidos aos adultos.
De modo análogo, antes de qualquer coisa, os apóstolos ganhavam
adultos para Cristo. Não iam atrás das crianças como o alvo principal,
com a esperança de fazer uso disso como meio de chegar aos pais,
nem iam atrás das crianças por serem elas mais suscetíveis a
influências ou por ser mais fácil alcançá-las para Cristo.
Não. Eles inverteram o processo. Foram atrás dos adultos —
sabendo que a conversão dos pais significava alcançar toda a família.
Dr. George Peters chega a ponto de dizer em seu excelente livro
Saturation Evangelism [.Evangelização pela Saturação] que a
“evangelização de famílias e a salvação de famílias são o ideal e a
norma bíblica no que diz respeito à evangelização e à salvação” .4
Com isso, não quer dizer que as crianças se tornam cristãs porque os
pais crêem. Nem quer dar a entender uma “idéia de aliança” , que
ensina que os filhos de pais cristãos experimentam a regeneração
mediante o “batismo infantil”, ou que, mediante esse rito, a criança
estabeleça um relacionamento com Deus, de alguma maneira singular
que a torna candidata real e potencial à conversão mais tarde em sua
vida.5
A conversão não é automática para nenhum ser humano. É uma
questão individual baseada numa decisão inteligente e responsável:
receber a Cristo como Salvador pessoal.
A salvação da família implica, todavia, alcançar primeiramente os
pais e, por conseguinte, alcançar a família toda para Cristo. O Novo
Testamento dá algumas ilustrações excelentes desse processo. Em
Filipos, Paulo primeiramente falou a Lídia, à beira do rio. Ela se
converteu e, em seguida, toda a sua família veio a Cristo (At 16.15).
Mais tarde, na mesma cidade, o carcereiro filipense creu em Cristo e,
por conseqüência, toda a sua casa se converteu (16.31-34).
Outros exemplos no Novo Testamento incluem Zaqueu e o oficial
do rei nos evangelhos (Lc 19.9; Jo 4.53). Em Atos e nas epístolas
vemos Cornélio (At 10), Crispo (18.8), Estéfanas (1 Co 1.16),
Onesíforo (2 Tm 1.16) e Filemom (Fm 1). Na realidade, as igrejas
nos lares, freqüentemente mencionadas tanto em Atos quanto nas
epístolas, eram, sem dúvida alguma, o resultado da conversão de
famílias inteiras.
Existem algumas vantagens bem práticas em alcançar adultos para
Cristo e, conseqüentemente, toda a família. Em primeiro lugar, muitas
vezes é psicologicamente frustrante que uma criança pequena se torne
cristã sem que haja a compreensão e a bênção do pai e da mãe e dos
demais membros da família. Aliás, a necessidade básica de uma
criança é a “aceitação” e o “amor” dentro do ambiente familiar, e
experimentar esse tipo de rejeição pode ser algo psicologicamente
devastador. Em geral uma criança é emocionalmente incapaz de
suportar esse tipo de “perseguição familiar” .
Em segundo lugar, os pais que também são cristãos tornam-se o
principal meio de crescimento espiritual da criança após a conversão.
Se os adultos necessitam de cuidado e de ajuda após a conversão
(como necessitam), quanto mais as crianças. A família é o ventre
espiritual natural para o crescimento e o desenvolvimento espiritual.
Em terceiro lugar, uma família inteira alcançada para Cristo pode
causar enorme impacto numa comunidade. Cada membro da família
torna-se, por sua vez, uma influência para ganhar outras famílias para
Cristo.
Em quarto lugar, as “unidades familiares” são tijolos para a
construção de uma igreja saudável. Mais uma vez, o Dr. Peters chama
nossa atenção:

Só as igrejas edificadas a partir de unidades sociais básicas possuem saúde


de verdade e a potencialidade para um rápido crescimento e uma firme
expansão. A questão decisiva na fundação de uma igreja não é quantas
pessoas estão interessadas no projeto, mas quantas famílias constituem o
alicerce da igreja. As igrejas fundadas por famílias têm o potencial para
florescer.6

No entanto, para concluir, quero dizer que isso não significa que
não se devam alcançar as crianças para Cristo antes que os pais sejam
alcançados. Embora os exemplos bíblicos não apóiem a seqüência,
isso certamente também não elimina tal possibilidade. O Senhor está
interessado nas crianças; ele quer que elas venham a conhecê-lo
pessoalmente.
Contudo, o que os exemplos bíblicos afirmam é que, quando a
criança é alcançada para Cristo por meio de um cristão ou mediante
uma igreja, devem-se empreender todos os esforços para também
alcançar os pais para Cristo e, ao fazê-lo, tentar não prejudicar a
unidade e a harmonia da família. Isso também pode significar que a
igreja deve proporcionar, de alguma forma, um “pai (ou mãe)
substituto” , quando os pais não-cristãos não respondem ao evangelho
e especialmente se são hostis a ele. A própria natureza da criança
torna isso quase um imperativo, a fim de evitar que a experiência
traumática de rejeição dos pais crie problemas psicológicos que
poderão até mesmo afetar a vida adulta e, talvez, levar a pessoa a
finalmente se voltar contra o cristianismo.
E, por fim, isso significa que os cristãos não devem deixar que a
dificuldade de alcançar os adultos e o medo de serem rejeitados os
levem a dedicar todos os esforços para ganhar crianças, por serem
mais receptivas e por ser mais fácil “conseguir decisões” .
Uma razão pela qual as estatísticas mostram ser maior o número
de crianças que aceitam Cristo é que não estamos ganhando os adultos
de form a eficaz. As estatísticas apenas refletem nosso fracasso. Se
famílias inteiras puderam ser alcançadas para Cristo na comunidade
pagã do século I, podemos alcançar famílias inteiras no século XX.
Nossa tarefa é desenvolver a estratégia e a abordagem correta que
funcionem na América do Norte pagã.
Entretanto, precisamos notar que a cultura americana em particular
e a cultura ocidental em geral são bem diferentes da cultura do Novo
Testamento. Quando um pai e uma mãe aceitam Cristo, não significa
que automaticamente os filhos se tornarão cristãos, especialmente se
forem maiores. Além disso, se um marido aceita Cristo, não significa
que a esposa também se converterá, ou vice-versa.
Vi essa diferença cultural ilustrada de modo impressionante certa
ocasião, quando uma família vietnamita veio para os Estados Unidos
e entrou em contato com um dos membros de nossa igreja. O pai
tornou-se cristão, contou à sua esposa, e ela imediatamente também
quis aceitar Cristo. E então todos os filhos que tinham idade suficiente
para entender fizeram automaticamente o mesmo. Aí vimos a cultura
“bíblica” ou “oriental” em ação na nossa sociedade ocidental, que,
com tanta freqüência, estimula decisões individualistas e não coletivas.
De qualquer forma, a influência do adulto sobre a criança é bem
maior do que a da criança sobre o adulto — mesmo na cultura
ocidental. O destaque bíblico é ainda normativo e transcende a cultura.

Identificar missionários
Em quinto lugar, a igreja tem a responsabilidade de identificar os que
têm um desejo todo especial de levar as boas novas à comunidade e,
além da comunidade imediata, talvez “aos confins da terra
Conforme ressaltamos anteriormente, o caráter inigualável da
igreja, com seu potencial de amor e de unidade mútuos, proporciona
oportunidades ilimitadas para um ministério “apologético” entre os
não-salvos. Mas dentro do corpo existem certas pessoas que sentem
uma responsabilidade especial pelo trabalho evangelístico. Essas
pessoas devem ser estimuladas a empregar seus talentos e representar
o corpo local num ministério especial de evangelização.
Eles, porém, não devem tornar-se substitutos de outros membros
da igreja; pelo contrário, devem atuar como pessoas especialmente
habilitadas para apresentar Cristo a diversos grupos e indivíduos.
Vemos esse princípio demonstrado claramente em Atos. Muitos
cristãos “falavam” sobre a mensagem de Cristo, e todos os cristãos
pareciam estar de alguma forma “anunciando as boas novas” , mas
foram especialmente os apóstolos que tomaram parte no ensino e na
pregação evangelística. Foram Pedro e, principalmente, Paulo que se
envolveram num ministério evangelístico de características diferentes,
pois “testificavam solenemente” aos incrédulos e “arrazoavam” com
eles.
Além disso, a igreja tem a responsabilidade de orar, pedindo a
bênção de Deus sobre essas pessoas, e, em alguns casos, de sustentá-
los financeiramente quando tomam parte num ministério evangelístico
ou missionário de tempo parcial ou integral. A igreja de Antioquia deu
exemplo desse princípio quando separou Barnabé e Saulo e os
comissionou para um ministério evangelístico (At 13.1, 2).
A igreja, contudo, deve ser cuidadosa nessa questão! Ela tem a
tendência de olhar além de sua comunidade imediata e desprezar
aqueles que fazem parte de seu grupo de fiéis e não se sentiram
levados a deixar a comunidade e percorrer os sete mares. Esses são
os que devem ser estimulados, treinados e usados de modo especial
para alcançar a comunidade que circunda a igreja e conduzir as
pessoas a Cristo. Entretanto, não se deve fazer como um trabalho de
“uns poucos indivíduos” isolados, mas de forma que todo o corpo
participe, saturando a comunidade com as realidades do cristianismo
e a mensagem do evangelho. Talvez nem todos consigam “puxar a
rede” com facilidade, mas todos têm a capacidade de amar as pessoas
e de “semear” e preparar o caminho para aqueles que conseguem.
Uma das maneiras que encontramos para criar uma sede de
evangelização e de missões é incentivar os jovens a participarem de
ministérios no exterior, especialmente em caráter temporário. A
organização missionária Teen Missions7 oferece ótima oportunidade
tanto para os jovens quanto para a igreja. Os jovens podem passar o
verão ajudando missionários veteranos, e a igreja pode sustentá-los
financeiramente.
Vi os efeitos dessa oportunidade em minha própria família. Meu
filho passou dois verões com Teen Missions, um na Suécia e o outro
na Suíça. Nas duas vezes, participou de uma equipe de trabalho, mas
teve oportunidades de atuar na evangelização. Foi enorme o impacto
na sua vida.
Integrar os novos convertidos
Em sexto lugar, devem-se integrar os novos convertidos na vida da
igreja local o mais rápido possível.
Mais tarde vamos discutir com mais minúcia o que significa fazer
parte de uma igreja, mas no momento é importante ressaltar — e
ressaltar bem — que, fora do ambiente da igreja e da experiência de
depender de outros membros do corpo, a pessoa recém-nascida em
Cristo não crescerá até se tornar um discípulo de Jesus Cristo maduro
e responsável. Seria impossível, pois ela não partilha das experiências
básicas que Deus estabeleceu por absolutamente essenciais para o
crescimento espiritual.
Há quem interprete essas idéias como críticas contra organizações
e atividades pareclesiásticas. Deixe-me esclarecer! Creio que Deus
levantou muitas organizações, primeiramente, para suplementar o
trabalho da igreja local e, em segundo lugar, para fazer aquilo que,
em muitos casos, as igrejas não estão conseguindo fazer. Mas creio
firmemente que essas organizações não podem desprezar os exemplos
e os princípios bíblicos, pois, nesse caso, as mais ricas bênçãos de
Deus não estarão sobre elas. O exemplo e princípio mais óbvio é que
Deus determinou que a igreja local seja o principal lugar onde os fiéis
devam ser alimentados e edificados. Cada novo cristão necessita do
corpo de Cristo a fim de ser edificado na vida cristã.
Cada organização pareclesiástica deve examinar seriamente seu
relacionamento com a igreja local. Deve ensinar essa doutrina bíblica,
promovê-la como algo fundamental ao crescimento cristão e esforçar-
se por corrigir os erros teológicos e funcionais da igreja com amor e
cautela. Não deve substituir a igreja local, nem deve ter atitude
antagônica em relação a ela. Deve cooperar, de todas as formas, para
promover o ministério e a expansão desse plano determinado por
Deus.

Desenvolver novos métodos


Em sétimo lugar, a igreja do século x x deve desenvolver seus próprios
métodos e abordagens evangelísticas atualizadas utilizando como
diretrizes bíblicas os princípios expostos acima.
Uma coisa torna-se clara com o estudo das funções da igreja do
Novo Testamento. O que eles diziam é constante; a maneira como
diziam e a. forma como saíam evangelizando variam de situação para
situação. Eles consideravam as diretrizes absolutas. Mas seus métodos
eram relativos e serviam, ap en as, de meio para alcançar os objetivos
divinos.
Esse é o caráter distintivo das Escrituras. Elas deixam as pessoas
livres para criar propostas singulares e idealizar métodos exeqüíveis
em qualquer cultura e em qualquer momento da história.
Quer se estude a estrutura das mensagens de Pedro, quer se
acompanhe Paulo afastando-se da comunidade judaica em direção ao
mundo gentílico, uma coisa é certa: esses homens não estavam presos
a uma única proposta ou a uma única maneira de apresentar a
mensagem divina. Variavam a metodologia de acordo com as
circunstâncias. Por conseqüência, conforme já observamos, à medida
que Paulo ia entrando no mundo pagão e se afastava mais e mais do
ambiente previamente saturado com os ensinos de Jesus Cristo, ia
mudando seus métodos de comunicação. Aquilo que antes fora uma
proposta de “pregação” deu lugar a uma que se caracterizava por
“diálogo” e “interação” . No trabalho inicial, Paulo podia, pelo
menos, presumir a existência de uma crença básica em Deus e na
revelação divina, mas no mundo pagão não podia presumir nem uma
coisa, nem outra. Havia necessidade de tratar o evangelho de forma
diferente, apologética.
Desse modo, a nova cultura, a nova mentalidade, a diferença de
percepção, tudo isso serviu para ajudar Paulo a decidir os métodos
que devia utilizar para alcançar tais pessoas com o evangelho de
Cristo. É verdade que ele sem p re transmitiu o “evangelho simples” e
o fez “com humildade”, mas isso diz respeito à mensagem e à atitude,
não aos métodos.
Um dos problemas-chave da igreja evangélica no século xx é que
deixamos que os não-absolutos se tornassem absolutos. Permitimos
que o “jeito de fazer as coisas” se tornasse norma.
De um lado pegamos padrões bíblicos (que variam considera­
velmente através de toda a Bíblia) e nos fixamos naquele que achamos
o certo — talvez aquele com que nos sentimos mais à vontade. Em
vez de encarar todos os exemplos bíblicos como recursos divinos que
fornecem princípios e diretrizes absolutos, desenvolvemos uma visão
bitolada e nos deixamos prender a um único método.
Além do mais, temos deixado que padrões e formas puramente
humanos desenvolvidos nos últimos 50 ou cem anos se tornem abso­
lutos. Chegamos a crer que algumas das maneiras como fazemos as
coisas atualmente sejam normas bíblicas.
Exemplo típico do modo de ver puramente humano que acabou
tornando-se absoluto é o que pensamos acerca do culto evangelístico
do domingo à noite (ou, nesse sentido, qualquer outro culto
evangelístico da igreja). Muitos cristãos realmente acreditam que essa
é a maneira como a igreja do Novo Testamento funcionava, embora
não tenhamos um único exemplo desse padrão, nem uma alusão a
isso. Na realidade, como já foi assinalado, todas as reuniões da igreja
mencionadas no Novo Testamento tinham o propósito de edificar os
cristãos, não de “pregar” aos incrédulos.
Quer dizer, então, que é errado ter um culto evangelístico no
domingo à noite? É claro que não. Com certeza, o Novo Testamento
permite que tenhamos essa liberdade. Mas é bom lembrar que esse
método foi desenvolvido nos Estados Unidos na virada do século e
funcionou muito bem em virtude de uma situação cultural e uma
mentalidade religiosa completamente diferentes. Hoje em dia, em
muitos lugares dos Estados Unidos, o culto evangelístico do domingo
à noite é um fracasso total, pois os incrédulos já não vêm à igreja. E,
assim mesmo, alguns pastores continuam pregando suas mensagens
evangelísticas do domingo à noite a uma multidão de cristãos e
chegam a se sentir culpados só de pensar em mudar a forma e a ênfase
do culto.
A igreja evangélica não pode e não deve deixar-se prender a
formas e padrões — do século i ou do século XX — elaborados como
meio de alcançar os objetivos bíblicos. Toda igreja em toda cultura e
subcultura precisa desenvolver seus próprios métodos particulares para
a evangelização da comunidade. Sob a liderança criativa do Espírito
Santo e empregando todos os recursos humanos disponíveis, preci­
samos desenvolver igrejas dinâmicas, dignas do século xx, que
estejam criando estratégias evangelísticas atualizadas, fundamentadas
nos princípios e nas diretrizes do Novo Testamento.
Resumo
Por que a igreja existe no mundo é fácil de ver! Deus está convocando
um povo para ser o seu próprio povo. Um dia Cristo voltará para
levar a igreja para estar com ele.
Mas por que ele não voltou? Essa pergunta foi feita até pelos
céticos do século l (2 Pe 3.4). Observe a resposta de Pedro! “Não
retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada;
pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que
nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (3.9).
Como sua igreja está se saindo na tarefa de alcançar pessoas para
Jesus Cristo — primeiramente em sua própria “Jerusalém” e depois
“em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”?
Os seguintes princípios do Novo Testamento orientá-lo-ão na
execução desse aspecto da grande comissão:

1. Todo corpo de cristãos deve ser responsável principalmente por


sua própria comunidade.
2. A evangelização corporativa é fundamental para a evangelização
pessoal.
3. Quando possível, a apresentação do evangelho aos não-salvos
deve ocorrer sobre o pano de fundo de um corpo amoroso e
unido de cristãos.
4. O alvo principal da evangelização devem ser os adultos e, conse­
qüentemente, famílias inteiras.
5. A igreja tem a responsabilidade de identificar que têm um desejo
todo especial de levar as boas novas à comunidade e para além
da comunidade imediata, talvez até “aos confins da terra” .
6. Devem-se integrar os novos convertidos na vida da igreja o mais
rápido possível.
7. A igreja do século xx deve desenvolver seus próprios métodos e
propostas evangelísticas atualizadas, utilizando como diretrizes
bíblicas os princípios e as diretrizes expostos acima.
Notas

1Repare que essa é a única ilustração específica no Novo Testamento acerca


da evangelização “na igreja”.
2 Isso não significa que é “errado” pregar uma mensagem evangelística num
culto de igreja. Deus usou e continua a usar esse método. Na verdade,
porém, significa que o Novo Testamento não apresenta esse método como
modelo de desempenho da evangelização na igreja local.
3Veja Gene G e t z , A medida de umafamília espiritual, Literatura Evangélica
Internacional. [A Editora Vida editou algumas das obras do autor e reeditou
outras, a saber: A Estatura de um Cristão (Filipenses e Tito), A Estatura de
um Homem Espiritual, A Estatura de uma Igreja Espiritual, A Estatura de
uma Mulher Espiritual. As indicações feitas neste livro referem-se às edições
da Literatura Evangélica Internacional.]
4 George W. PETERS, Saturation evangelism, Zondervan, p. 160. O Dr.
Peters, professor emérito de Missões Mundiais do Dallas Theological
Seminary, discute essa idéia a fundo nas páginas de 147 a 167 desse livro.
5 Ibid., p. 148-9.
6 Ibid., p. 155.
7 P. O. Box 1056, Merrit Island, FL 32952, United States of America.
edificação
da igreja

Os discípulos deviam ser ensinados! Essa é a segunda grande tarefa


expressa na comissão de Cristo. Os cristãos deviam reunir-se como
uma “comunidade congregada” a fim de se tornarem um organismo
maduro.
Assim como há uma variedade de palavras empregadas para
descrever as atividades dos discípulos quando saíam “evangelizando” ,
também há uma porção de palavras diferentes empregadas para relatar
seu ministério de “edificação” . É claro que eles batizavam e
ensinavam os novos convertidos, conforme Jesus havia ordenado na
grande comissão. Mas nesse processo de crescimento e desen­
volvimento também tinham comunhão uns com os outros, partiam o
pão, uniam os corações em oração e louvor a Deus. Eles foram
incentivados, fortalecidos, instados, exortados, admoestados e
firmados na fé.
Também recebiam relatórios verbais que descreviam os resultados
da ação evangelística em outras partes do mundo. Também recebiam
várias cartas (as epístolas) instruindo-os em como levar a vida cristã.
Sempre que necessário também havia discussão e dissensão,
quando os apóstolos e líderes enfrentavam outros cristãos culpados de
causar confusão entre os irmãos em conseqüência de um ensino falso
e incorreto. Atos dos Apóstolos descreve da seguinte forma os
resultados dessa atividade: os discípulos estavam de “comum acordo” ,
eram “unidos de coração e alma” e se “edificavam” . Lemos que “as
igrejas eram fortalecidas na fé” e “a palavra do Senhor crescia e
prevalecia poderosamente” . Também experimentavam “alegria” ,
“singeleza de coração” e “grande alegria” . Por exemplo, quando os
discípulos de Antioquia receberam a carta vinda de Jerusalém,
“sobremaneira se alegraram, pelo conforto recebido” (At 15.31).
Quando se deixa o estudo das funções e dos resultados entre os
convertidos em Atos e se passa a analisar as epístolas, novamente as
funções muitas vezes se tornam diretrizes e os resultados muitas vezes
se tornam objetivos. “Consolai-vos uns aos outros” , “edificai-vos
reciprocamente” , “admoesteis os insubmissos” , “ampareis os fracos”
e “sejais longânimos para com todos” são exemplos de diretrizes
paulinas para a igreja local (1 Ts 5.11-15). Todos os fiéis deviam
tomar parte no processo de edificação, ministrando uns aos outros.
Deviam ser “sempre abundantes na obra do Senhor” (1 Co 15.58) e
instruir-se e aconselhar-se “mutuamente [...] com salmos e hinos e
cânticos espirituais” (Cl 3.19).
Timóteo, sendo um pastor jovem, também recebeu diretrizes
específicas: “Prescreve [...] estas coisas” , “procure dedicar-se à
leitura em público das Escrituras Sagradas, à pregação do evangelho
e ao ensino cristão” (B L H ) . Ele devia pregar “a palavra” , agir “quer
seja oportuno, quer não” , corrigir, repreender e exortar. Tito, por sua
vez, devia pôr “em ordem as coisas restantes”, constituir
“presbíteros” e falar “o que convém à sã doutrina” .
Os presbíteros deviam pastorear “o rebanho de Deus”, e todos os
cristãos deviam batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por
todas foi entregue aos santos”. Os maridos receberam a seguinte
ordem: “ ... amai vossas mulheres”; e as esposas: “ ... sede submissas
aos próprios maridos” . Os pais: “ ... não provoqueis vossos filhos à
ira” e “não irriteis os vossos filhos” , para evitar que ficassem
“desanimados” . Em vez disso, deviam criá-los “na disciplina e na
admoestação do Senhor” .
Nas epístolas, muitas vezes as diretrizes referentes à edificação
eram seguidas imediatamente de uma declaração dos “resultados
esperados” ou objetivos, assim como na área da evangelização. Paulo
escreveu aos coríntios que ele, juntamente com Timóteo e Silas, havia
exortado, e incentivado, e suplicado que “cada um andasse conforme
Deus o tem chamado” . Mais tarde ele disse que oravam cons­
tantemente para tornar a ver os tessalonicenses de modo que pudessem
“completar” o que faltava em sua fé. Paulo instou os cristãos de Roma
a se apresentarem a Deus, para que experimentassem “qual seja a [...]
vontade de Deus” . Orou a favor dos efésios para que fossem
“tomados de toda a plenitude de Deus” . Instruiu os colossenses a
estarem “frutificando em toda boa obra” . “Deixemo-nos levar para o
que é perfeito” , disse o autor de Hebreus.
Por que, então, a igreja existe como comunidade congregada? A
resposta a essa pergunta está bem clara no Novo Testamento. A igreja
deve tornar-se um organismo maduro, mediante o processo de
edificação, para honrar e glorificar a Deus, e, ao fazê-lo, deve tornar-
se uma testemunha dinâmica no mundo.
Lucas registrou que “a igreja [...] tinha paz por toda a Judéia,
Galiléia e Samaria, edificando-se” (At 9.31). Paulo informou-nos que
a igreja ganhou os líderes capacitados para equipar todos os cristãos
ao serviço, de modo que o corpo de Cristo fosse edificado (Ef 4.11,
12, 16). “Edificai-vos reciprocamente” , exortou os tessalonicenses (1
Ts 5.11).
Algumas formas da palavra “edificação” aparecem mais vezes na
carta aos coríntios (especialmente na primeira) que em qualquer outro
livro do Novo Testamento (1 Co 8.1; 10.23; 14.4, 5, 12, 17, 26; 2
Co 12.19). Isso, é claro, não nos surpreende, pois dentre todas as
igrejas do mundo do Novo Testamento, ela era a mais carnal e
imatura, e a que mais necessitava de crescimento e desenvolvimento
espirituais (1 Co 3.1-3).
A edificação deve conduzir à maturidade ou perfeição em Cristo.
Nós o “anunciamos” , escreveu Paulo aos colossenses, “advertindo a
todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de
que apresentemos todo homem perfeito [maduro] em Cristo” (Cl
1.28). A preocupação primordial do apóstolo, em relação ao corpo de
Cristo, era que todos chegassem “à unidade da fé e do pleno conhe­
cimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da
estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13).

Uma igreja madura — que é isso?


Como se pode reconhecer uma igreja madura? Com que critérios
podemos medir a nós mesmos como corpo local, para verificar se
chegamos a um nível de perfeição? O Novo Testamento é, mais uma
vez, muito claro. “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o
amor, estes três: porém o maior destes é o amor” (1 Co 13.13). A
maturidade no corpo de Cristo pode ser identificada pelas virtudes
permanentes. O grau de perfeição pode ser medido pelo grau em que
a igreja manifesta fé, esperança e amor. Isso fica bem claro nos
escritos de Paulo, visto que empregou freqüentemente essas três
virtudes para medir o nível de maturidade das igrejas do Novo
Testamento.1 Observe estes parágrafos introdutórios nas cartas que
escreveu às várias igrejas.

A PR IM EIR A CA RTA AOS TESSA LO N ICEN SES


Damos sempre graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas
orações, e sem cessar recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da
operosidade da vossa FÉ, da abnegação do vosso a m o r e da firmeza da
vossa e s p e r a n ç a em nosso Senhor Jesus Cristo... (1 Ts 1.2, 3)

A SE G U N D A C A RTA AOS TESSA LO N ICEN SES


Irmãos, cumpre-nos dar sempre graças a Deus no tocante a vós outros,
como é justo, pois a vossa FÉ cresce sobremaneira, e o vosso mútuo
a m o r de uns para com os outros, vai aumentando a tal ponto que nós
mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, à vista da vossa
constância e FÉ, em todas as vossas perseguições e nas tribulações que
suportais... (2 Ts 1.3, 4)

A C A R T A AOS COLOSSENSES
Damos sempre graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando
oramos por vós, desde que ouvimos da vossa FÉ em Cristo Jesus, e do
AMOR que tendes para com todos os santos; por causa da e s p e r a n ç a que
vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da
verdade do evangelho... (Cl 1.3-5)
A C A R T A AOS E FÉ SIO S
Por isso também eu, tendo ouvido a FÉ que há entre vós no Senhor Jesus,
e o a m o r para c o m todos os santos, não cesso de dar g ra ç a s p o r v ó s ,
fazendo menção de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso
Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria
e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso
coração, para saberdes qual é a e s p e r a n ç a do seu chamamento, qual a
riqueza da glória da sua herança nos santos... (Ef 1.15-18)

A PR IM E IR A CA RTA A T IM Ó T E O
Ora, o intuito da presente admoestação visa o a m o r que procede de
coração puro e de consciência boa e de FÉ sem hipocrisia (1 Tm 1.5)

Pedro também faz referência a essa trilogia:

... Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém


manifestado no fim dos tempos, por amor de vós, que, por meio dele,
tendes FÉ em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu
glória, de sorte que a vossa FÉ e e s p e r a n ç a estejam em Deus.
Tendo purificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade,
tendo em vista o AMOR fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos
outros ardentemente... (1 Pe 1.20-22)

A C A R T A AOS H EBREU S
... aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de FÉ [ . . . ] .
Guardemos firme a confissão da e s p e r a n ç a [...]. Consideremo-nos
também uns aos outros, para nos estimularmos ao a m o r e às boas obras
(Hb 10.22-24).

Está claro quais são os critérios do Novo Testamento para saber


com precisão o nível de maturidade de um corpo local de cristãos. Em
primeiro lugar, existe amor que se manifesta para com os outros
membros do corpo de Cristo? Em segundo, existe um a/é forte e vital?
Em terceiro, existe demonstração de esperança? Mas talvez essas
palavras não passem de conceitos teológicos. Que significam? Só
quando reforçamos o significado e o conteúdo dessas palavras é que
temos a idéia completa. Mais uma vez o Novo Testamento fala com
desenvoltura.
O amor
“O maior destes é o amor”, conclui Paulo (1 Co 13.13). Nas cartas
às igrejas, constantemente o apóstolo traz à lembrança essa verdade
que corresponde à exortação de Cristo registrada em João 13.34: “que
vos ameis uns aos outros” .

A C A R T A AOS COLOSSENSES
Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de temos
afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de
longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente,
caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor
vos perdoou, assim também perdoai vós; a c im a d e tu d o is to , p o r é m ,
e s te ja o a m o r , que é o vínculo da perfeição (Cl 3.12-14).

A PR IM EIR A CA RTA AOS TESSA LO N ICEN SES


Ora, o nosso mesmo Deus e Pai, com Jesus, nosso Senhor, dirijam-nos
o caminho até vós, e o Senhor vos faça c re sc e r, e a u m e n ta r n o a m o r uns
para com os outros e para com todos, como também nós para convosco...
(1 Ts 3.11, 12)

A C A R T A AOS FIL IPE N SES


E também faço esta oração: que o vosso AMOR a u m e n te m a is e m a is em
pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as cousas
excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo... (Fp 1.9,
10).

A C A R T A AOS EFÉSIOS
... para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para
outro, e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos
homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, s e g u in d o [ f a la n d o ]
a v e r d a d e em AMOR, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo,
de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda
junta, segundo a justa cooperação de cada parte, e fe tu a o s e u p r ó p r i o
a u m e n to p a r a a e d ific a ç ã o d e s i m e sm o em a m o r (Ef 4.14-16).

O apóstolo Pedro também eleva o amor ao “nível mais alto”


quando diz: “Acima de tudo, porém, tende a m o r intenso uns para
com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pe 4.8).
E não se questiona a preocupação de João a esse respeito, pois só em
sua primeira epístola ele declara quatro vezes que os cristãos devem
“amar uns aos outros” (1 Jo 3.11, 23; 4.7, 11).
Mas que é o amor? Como se manifesta? Como pode ser
reconhecido no corpo de Cristo? A mais destacada passagem que
apresenta os aspectos particulares do amor é, obviamente, 1 Coríntios
13. Nela, Paulo esclarece para a imatura igreja de Corinto exatamente
o que é o amor — como deve ser manifestado pelo corpo de Cristo.
Infelizmente, esse “magnífico capítulo sobre o amor” é, com
freqüência, desviado de seu contexto e utilizado isoladamente. Para ter
o significado e o impacto completo das palavras de Paulo, você
precisa ver sua descrição do amor à luz de toda a epístola aos
coríntios e interpretar suas definições à luz da carnalidade de Corinto.
Depois, também precisamos observar as palavras de Paulo em 1
Coríntios 13 em relação ao corpo de Cristo, não apenas em relação
aos cristãos como indivíduos.
Repare, primeiramente, que os coríntios não tinham falta de
“nenhum dom” (1 Co 1.7). Assim mesmo, eram uma igreja imatura.
Paulo classificou-os como “crianças em Cristo” (3.1), carnais (3.3).
Obviamente, a manifestação de dons espirituais numa igreja local não
é sinônimo de espiritualidade e maturidade. Certamente não era o caso
em relação aos coríntios.
Essa é a declaração principal de Paulo em 1 Coríntios 13. Não há
dúvida de que, na igreja de Corinto, havia mais indivíduos que
falavam em línguas que em qualquer outra igreja no Novo Testa­
mento; apesar disso, havia falta de amor, e, conseqüentemente, eles
eram “como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine” (13.1).
Esses coríntios também possuíam os dons de profecia, sabedoria,
conhecimento e fé, mas não possuíam amor, e, por conseguinte, Paulo
deixou implícito, eles eram “nada” (13.2).
Sem dúvida, alguns desses cristãos de Corinto possuíam o dom de
“dar” e estavam até mesmo dispostos a sacrificar fisicamente a vida
em gestos de martírio, mas, sem amor, disse Paulo, esse tipo de
comportamento é totalmente inútil (13.3).
Em contraste com o uso dos dons espirituais, Paulo então
descreveu como reconhecer o amor no corpo de Cristo:
• O amor é paciente (13.4). Em outras palavras, é o oposto
daquilo que os coríntios estavam demonstrando. Eles eram impacientes
uns com os outros, e havia dissensões e divisões entre eles (1.10).
• O amor é benigno e não arde em ciúmes (13.4). Antes, nessa
mesma carta, Paulo havia escrito a respeito de “ciúmes e contendas”
entre os coríntios (3.3).
• O amor não se ufana nem se ensoberbece (13.4). Paulo teve de
advertir os coríntios contra a vanglória (1.29). “Se alguém dentre vós
se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio [...].
Portanto, ninguém se glorie nos homens [...]. Que tens tu que não
tenha recebido? e, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o
não tiveras recebido?” (3.18, 21; 4.7).
• O amor não se conduz inconvenientemente (13.5). Havia
imoralidade na igreja de Corinto, “e imoralidade tal, como nem
mesmo entre os gentios” (5.1; 6.15-20). Além do mais, estavam
comportando-se de modo muito inconveniente à mesa do Senhor —
alguns chegavam a comer e a beber além dos limites — a ponto de
ficarem embriagados (11.20, 21).
• O amor não procura os seus interesses, não se exaspera, não se
ressente do mal (13.5). Ali havia cristãos que estavam levando uns aos
outros aos tribunais (6.1-7). Estavam fazendo o mal uns contra os
outros e defraudando uns aos outros (6.8). Eram também insensíveis
em relação aos membros mais fracos do corpo de Cristo, e alguns
permitiam que sua liberdade em Cristo se tornasse “tropeço para os
fracos” (8.9). Aliás, alguns chegavam a participar de idolatria (10.14).
• O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a
verdade (13.6). É difícil conceber que cristãos com tantos dons se
vangloriassem da imoralidade na igreja, mas Paulo declara
enfaticamente: “Andais vós ensoberbados [quanto a essa imoralidade],
e não chegastes a lamentar” (5.2).

Após definir o amor e contrastar seus ingredientes com aquilo que


tanto faltava aos coríntios, Paulo fez algumas declarações positivas so­
bre o amor (13.7). "... tudo sofre” (isto é, fica firme em meio à pres­
são e ao sofrimento). "... tudo crê” (isto é, está “sempre desejoso de
acreditar no que é melhor” [Moffatt]). “ ... tudo espera” (isto é,
demonstra confiança no futuro, não pessimismo irremediável). “ ... tu­
do suporta” (isto é, permanece firme e permite que o cristão prossiga
em meio ao fragor da batalha).
Os coríntios, é claro, eram culpados em todos os aspectos. Não
estavam suportando uns aos outros; estavam prontos a crer em
afirmações falsas, mesmo acerca do apóstolo Paulo (4.3-5; 9.1-3);
eram negativos em suas atitudes e estavam sucumbindo às pressões do
mundo e ao seu sistema.
Agora, ao nos aproximarmos dos versículos de 8 a 12 de 1
Coríntios 13, alguns aspectos das afirmações de Paulo tornam-se um
tanto quanto difíceis de compreender. Mas, no contexto, certas
verdades tornam-se muito óbvias. Paulo conclui de forma natural e
lógica que o “amor jamais acaba” (13.8). Os dons são temporários,
mas o amor permanece para sempre (13.8).
“ ... porque” , diz Paulo, “em parte conhecemos, e em parte
profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é em
parte será aniquilado” (13.9, 10). .
A que Paulo está-se referindo? Observe as palavras e expressões
que empregou nesses versículos citados logo acima, em contraste com
as que se seguem (ou seja, nos versículos de 9 a 12):

E M PA R T E OU PA R C IA L «------------------- ►P E R F E IT O O U C O M PL E T O
menino ■*------------------------------------►homem
(infantil) «----------------------------------►(maduro)
vemos obscuramente,
como num espelho ■*------------------- ►veremos face a face
conheço em parte ------------ ►conhecerei perfeitamente

Olhando para toda a primeira carta aos coríntios e comparando-a


às epístolas que Paulo escreveu às outras igrejas, destacam-se algumas
conclusões. Esses cristãos não haviam atingido o grau de maturidade
e de perfeição que outras igrejas do Novo Testamento haviam
atingido. Ainda eram crianças ou recém-nascidos. Eram infantis no
comportamento. Haviam progredido muito pouco em se conformarem
à imagem de Jesus Cristo.2 No desenvolvimento espiritual, ainda não
haviam atingido um ponto que permitisse a Paulo escrever-lhes tal
como havia escrito aos tessalonicenses, aos colossenses, aos efésios e
aos filipenses e dar graças a Deus por sua fé, esperança e amor. Ao
contrário, parecia que, como corpo local de cristãos, estavam quase
desprovidos dessas virtudes. Estavam vivendo num estado de
“parcialidade” , “infantilidade” e “obscuridade” na vida espiritual.3
A fim de corrigir a situação, Paulo admoestou-os a que revissem suas
prioridades. Em primeiro lugar, orientou-os a lutar por “um caminho
sobremodo excelente”; deviam buscar o amor (12.31; 14.1) e depois
procurar, “com zelo, os melhores dons” (12.31).4

Fé e esperança
A fé e a esperança, as duas outras virtudes apresentadas como padrões
pelos quais podemos medir o nível de maturidade da igreja local, são
também descritas no Novo Testamento de forma toda especial. Embo­
ra não haja uma passagem central que descreva essas virtudes, tal
como 1 Coríntios faz em relação ao amor, existem várias palavras e
frases descritivas, empregadas pelos escritores do Novo Testamento,
que adicionam sentido e conteúdo a essas palavras. A seguir há
algumas dessas frases:

FE ESPE R A N Ç A

Operosidade da fé (1 Ts 1.3) Firmeza da esperança (1 Ts


Couraça da fé (1 Ts 5.8) 1.3)
Fé em Cristo Jesus (Cl 1.4) Esperança da salvação (1 Ts
Fé no Senhor Jesus (Ef 1.15) 5.8)
Fé em Deus (1 Pe 1.21) Esperança que vos está pre­
A vossa fé cresce sobremaneira servada (Cl 1.5)
(2 Ts 1.3) Para saberdes qual é a espe­
Fé sem hipocrisia (1 Tm 1.5) rança do seu chamamento
A fé que tens para com o (Ef 1.18)
Senhor Jesus e todos os san­ Esperança em Deus (1 Pe 1.21)
tos (Fm 5) Guardemos firme a confissão da
Plena certeza da fé (Hb 10.22) esperança, sem vacilar (Hb
10.23)
Cristo Jesus, nossa esperança (1
Tm 1.1)
Temos posto a nossa esperança
no Deus vivo (1 Tm 4.10)
Nem depositem a sua esperança
na instabilidade da riqueza,
mas em Deus (1 Tm 6.17)
Esperança da vida eterna (Tt
1.2)
Aguardando a bendita esperança
(Tt 2.13)
Nos regenerou para uma viva
esperança (1 Pe 1.3)
Ponham toda sua esperança na
bênção que será dada a vo­
cês quando Jesus Cristo for
revelado (1 Pe 1.13, b l h )

Mesmo uma leitura rápida dessa lista revela que fé e esperança


estão intimamente relacionadas quanto ao significado. O escritor de
Hebreus esclarece esse relacionamento quando afirma que a “fé é a
certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não
vêem” (11.1). A fé diz respeito aos próprios cristãos — suas
personalidades — isto é, suas mentes, suas atitudes, suas vontades.
Acarreta convicções e certeza íntimas. O objeto básico de nossa fé é
Deus Pai e seu Filho Jesus Cristo, mas também inclui fé em nossos
irmãos cristãos (1 Co 13.7; Fm 5).
A esperança, por outro lado, embora ligada à fé, diz respeito ao
objeto e ao conteúdo da fé. É empregada com maior freqüência para
referir-se à salvação e ao livramento final deste mundo, para estarmos
na presença de Jesus Cristo quando ele vier de novo.
A palavra esperança também é empregada para descrever a
condição dos cristãos. É utilizada em conexão com palavras e
expressões como “firmeza” (1 Ts 1.3), “sem vacilar” (Hb 10.23),
“pôr” , “colocar” ou “depositar” (1 Tm 4.10; 6.17; 1 Pe 1.13). É
empregada para descrever “certeza” e “estabilidade” .
Concluindo, é óbvia a razão de Paulo referir-se à/é, à esperança
e ao amor como as virtudes básicas pelas quais podemos medir o nível
de maturidade de uma igreja local. O amor diz respeito aos
relacionamentos moldados segundo Cristo, entre os membros do corpo
e para com todas as pessoas — uma atitude que cria unidade e
unanimidade.
A f é diz respeito à confiança que o corpo de Cristo tem em seu
Cabeça, o Senhor Jesus Cristo. Existe aquela convicção e certeza
unânime de que Deus existe, responde às orações e é nossa fonte
divina de vida e existência.
A presença da esperança manifesta-se em estabilidade, firmeza e
certeza e, de modo particular, olha além do presente, para aquele dia
p m m i? Tp s iis P r i s t n v ir á rlp n n v n n a r a su a ia r p ia n a ra p s ta h p lp r p r «pn
reino eterno.

Resumo
Por que, então, a igreja existe como con tó id ad e congregada'? A4grem>'
deve tornar-se um organismo m aá^ ^ m & lísíite o processg de edifi­
cação, e essa maturidade rçflete-se,: antes de tudo, no amor
que existe no corpo de Crjsto e, em segundo lu^ . , nojgráu de fé e de
esperança manifesta põjetivãmente.
“Cada u m edifica!” , advertftj Paulo. A igreja pode ser
fraca e imatura — construída co m ^áâeteâ, feno e palha. Ou pode ser
forte^m am u-a — feita de oura? .prata e pedras preciosas (1 Co 3.10-
a s k # i m a t u r a , reflete<yánigMência, ciúme, dissensão, divisões,
^ g u f h o , arrogância^^0iriportam ento inconveniente. Se madura,
reflete um amor eféscénte, uma unidade de fé e uma esperança firme.

Notas

1 Desejando o leitor um estudo profundo dos conceitos de fé, esperança e


amor, veja Gene A. G e t z , A medida de uma igreja espiritual, Literatura
Evangélica Internacional, 1979.
2 Observe que Paulo faz uso da mesma técnica literária ao longo de todo esse
capítulo. Ele usa pronomes pessoais e aplica essas afirmações a si mesmo:
“Ainda que eu fale [...] serei [...]. Ainda que eu tenha o dom [...] nada
serei. E ainda que eu distribua [...] nada disso me aproveitará [...]. Quando
eu era menino, falava como menino [...] quando cheguei a ser homem,
desisti das coisas próprias de menino. [...] Agora conheço em parte, então
conhecerei como também sou conhecido”. Considerando o contexto, é óbvio
que ele está falando a respeito das profundas necessidades espirituais dos
coríntios, mas ele ilustra essas verdades com referências à sua própria vida.
Os coríntios não tiveram nenhuma dificuldade em entender o que Paulo
queria dizer.
3 Compare a carta aos hebreus com a carta aos coríntios e observe as
semelhanças (Hb 5.1—6.2).
4 O conceito de “melhores dons” é longamente desenvolvido no capítulo 7.
As experiencias
A • A •

vitais do Novo
Testamento

Ao tentar formular diretrizes para a igreja do século XX e estabelecer


objetivos e princípios que brotem do Novo Testamento, precisamos
olhar cuidadosamente para as experiências dos cristãos do século I.
Embora haja uma variedade de tais experiências registrada em Atos,
além de instruções adicionais acerca dessas experiências dadas nas
epístolas, parece que se enquadram em três categorias básicas:
experiências vitais de aprendizado da Palavra de Deus, experiências
vitais de relacionamento com Deus e de uns para com os outros e
experiências vitais de testemunho ao mundo não-cristão.

As experiências vitais de aprendizado


A grande comissão de nosso Senhor ressalta a importância de ensinar
aos novos convertidos a Palavra de Deus. “Fazei discípulos”, exortou
Jesus, e depois “ensinai” esses discípulos.
E isso, os apóstolos fizeram, pois os novos convertidos de
Jerusalém “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At 2.42). Houve
uma assimilação imediata da verdade e da doutrina bíblica. “ ... desejai
ardentemente” , escreveu Pedro, “como crianças recém-nascidas, o
genuíno leite espiritual, para que por ele vos Seja dado crescimento
para salvação” (1 Pe 2.2).
Embora no Novo Testamento grego haja várias palavras utilizadas
para designar o “ensino” , a forma empregada em Mateus 28.20 é a
mais comum. Há aproximadamente cem ocorrências do verbo didaskõ,
e elas estão uniformemente distribuídas por cada um dos evangelhos,
por Atos e pelas epístolas. É interessante que, em Atos, metade das
vezes a palavra é utilizada para descrever o processo de aprendizado
entre os não-cristãos, e a outra metade, entre os cristãos.1
Ninguém pode negar a importância da “transmissão de infor­
mações” no processo de edificação. A igreja que não fornece um bom
ensino bíblico não pode ser classificada entre as que praticam os
princípios neotestamentários para a vida da igreja. No entanto, esse
ensino assumiu enorme varíecfade de formas. Não há diretrizes
absolutas nem padrões estereotipados. Os métodos e técnicas — quer
usados por Jesus, pelos apóstolos quer por outros membros do corpo
de Cristo — variavam de acordo com a situação. Às vezes o grupo era
grande; às vezes, pequeno. Às vezes o ensino era ministrado por uma
pessoa; outras vezes, por duas ou mais. Às vezes a apresentação era
longa; às vezes, breve. Às vezes o ensino acontecia espontaneamente;
às vezes era planejado. Às vezes era basicamente uma palestra. Às
vezes era verbalizado; às vezes, visualizado, Às vezes envolvia
principalmente a transmissão da verdade; às vezes, a interação. Mas
sempre havia um objetivo em mira (quando se dava entre os cristãos):
sua edificação. Os métodos e as técnicas eram meios de atingir esse
alvo divino.

As experiências vitais de relacionamento


O Novo Testamento está repleto de ilustrações e de instruções acerca
de experiências de relacionamento que os cristãos tinham entre si e
com Deus. Ademais, esses dois relacionamentos estão entrelaçados e
ligados de tal maneira que é difícil separá-los, mesmo quando se
escreve a respeito deles.
Por exemplo, os novos cristãos de Jerusalém, além de ser ins­
truídos na doutrina, “perseveravam [...] na comunhão [koinõnia], no
partir do pão e nas orações” (At 2.42). Quando comiam juntos e
oravam juntos, experimentavam uma comunhão dinâmica uns corri os
outros e com Deus. Nessa situação específica, estavam, sem dúvida
alguma, partilhando literalmente suas refeições uns com os outros —
e ao mesmo tempo lembrando-se do corpo partido do Senhor e do seu
sangue derramado. Quando oravam uns pelos outros, adoravam a
Deus com louvor e ações de graças.
João reconheceu o inter-relacionamento dessas duas experiências
ao escrever: “ ... o que temos visto e ouvido anunciamos tambérn a
vós outros, para que vós igualmente mantenhais comunhão conosco.
Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo *’ (1
Jo 1.3).

A oração no corpo
Quando a igreja nasceu, uma das experiências mais fortes dos que
estavam aguardando no cenáculo foi a oração coletiva. No espírito de
unidade e de unanimidade, os 120 fiéis “perseveravam em oração” (At
1.14), enquanto aguardavam a vinda do Espírito Santo, conforme
Jesus havia prometido.
Quando o Espírito Santo desceu sobre eles no Dia de Pentecoçte,
Pedro, que passou a ser um freqüente porta-voz dos cristãos de
Jerusalém, interpretou essa maravilhosa manifestação para a multidão.
E, quando pregou o evangelho com poder e convicção, imediatamente
os 120 fiéis aumentaram para mais de 3 000 (2.41). Então lemos que
esses novos cristãos, dentro do contexto de ensino e de comunhão,
“perseveravam [...] nas orações” (2.42).
Em muitas das epístolas, a igreja foi instruída a se engajar na
oração coletiva.2 Paulo disse que os cristãos de Roma e de Colossos
se dedicassem à oração (Rm 12.12; Cl 4.2). Ele exortou os cristãos
de Éfeso e de Tessalônica a orar “em todo tempo” e “sem cessar” (Ef
6.18; 1 Ts 5.17). Aos filipenses escreveu: “Não andeis ansiosos de
coisa alguma; em tudo, porém sejam conhecidas diante de Deus as
vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça” (Fp
4.6). Tiago admoestou os cristãos a orar “uns pelos outros” (Tg
5.16), e Paulo disse que Timóteo usasse “a prática de súplitas,
orações, intercessões, ações de graça, em favor de todos os homens”
(1 Tm 2.1).
É interessante que muitas dessas referências à oração estão num
contexto que parece deixar implícitos o “corpo vivo” e a koinonia.
Por exemplo, observe o contexto de oração em cada uma das
passagens a seguir, dedicando atenção especial às expressões uns aos
outros, uns pelos outros e similares.

Amai-vos cordialmente u n s a o s o u tr o s com amor fraternal, preferindo-vos


em honra u n s a o s o u tr o s . No zelo não sejais remissos: sede fervorosos de
espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes
na tribulação,(na oração pcrsevõrantès^compartilhai as necessidades dos
santos; praticai a hospitalidade... (Rm 12.10-13)

Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos,


consoleis os desanimados, ampareis os fracos, e sejais longânimos para
com todos. Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo
contrário, segui sempre o bem, e n tr e v ó s , e para com todos. Regozijai-
vos sempre. fOraPsêm cessar?} Em tudo dai graças, porque esta é a
vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco ( 1 Ts 5. 14-18).

Está alguém entre vós sofrendo?(Faça oração^ Está alguém alegre? (Cante)
louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja,
e estes{façãm oração)sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor.
E a^OTãgãQ^daftTsãívará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver
cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos
pecados u n s a o s o u tr o s , e (orai) u n s p e lo s o u tr o s , para serdes curados.
Muito pode, por sua eficácia, afsúplica)do justo (Tg 5.13-16).

Ora, o fim de todas as cousas está próximo; sede, portanto, criteriosos e


sóbrios a bem das vossas (frações) Acima de tudo, porém, tende amor
intenso u n s p a r a c o m o s o u tro s , porque o amor cobre multidão de
pecados. Sede m u tu a m e n te hospitaleiros sem murmuração. Servi u n s a o s
o u tr o s , cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros
da multiforme graça de Deus (1 Pe 4.7-10).

Observe, também, a freqüência com que a oração coletiva é situada


no contexto de sermos gratos (Ef 5.20; Fp 4.6; Cl 4.2; 1 Ts 5.17-18;
1 Tm 2.1). Ainda que devesse incluir petição e súplica a favor de
necessidades pessoais, a oração não devia estar voltada para um
“comportamento egoísta” , mas devia fluir de corações transbordantes
de “ações de graça para com Deus” .
Em várias ocasiões, Paulo pediu orações a seu favor (2 Ts 3.1; Ef
6.19), especialmente para que a Palavra do Senhor se espalhasse
rapidamente e fosse glorificada (2 Ts 3.1) e para que fosse capaz de
falar com ousadia e com convicção ao apresentar o “mistério do
evangelho” (Ef 6.19). Por outro lado, Paulo freqüentemente recordava
os cristãos acerca das orações que fazia a favor deles (Rm 1.8; Ef
1.16; 3.14; Fp 1.9, 10).
Essas eram as características de uma “reunião de oração” no Novo
Testamento. Parece que essas experiências de oração não eram apenas
“períodos de oração” , nem um “momento” nem uma “noite” nem um
“dia” separado para oração, embora certamente incluíssem esses
aspectos. Eles se reuniam para orar em ocasiões especiais, princi­
palmente quando tinham necessidades especiais (At 12.12). Todavia,
ao que parece, na maioria das vezes a oração estava entrelaçada com
uma variedade de experiências de que os fiéis participavam quando se
reuniam para ser edificados. E, quando oravam, oravam pelas
necessidades uns dos outros. Oravam por aqueles que levavam o
evangelho aos outros, e oravam por todos os homens.3

Os cânticos no corpo
A música sempre fez parte da vida do povo de Deus. O Antigo
Testamento está repleto de exemplos de vários tipos de expressão
musical, especialmente o cântico. Davi, é claro, é o exemplo mais
destacado de alguém que usou a voz tanto para cantar quanto como
instrumento para louvar a Deus.
No Novo Testamento, Jesus exemplificou o lugar do cântico, pois
cantou um hino com os discípulos após a última ceia, logo antes de
irem para o monte das Oliveiras (Mc 14.26).
Paulo, em especial, fez referência ao cântico: “... falando entre vós
com salmos” , escreveu em Efésios, “entoando e louvando de coração
ao Senhor, com hinos e cânticos espirituais” (Ef 5.19).
Aos colossenses, disse: “Habite ricamente em vós a palavra de
Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria,
louvando a Deus, com salmos e hinos e cânticos espirituais, com
gratidão em vossos corações” (Cl 3.16).
Observe de novo o contexto do “cântico coletivo” e especialmente
o seu propósito. Deviam ministrar uns aos outros — “instruir” e
“aconselhar” uns aos outros, Esse cântico devia edificar o corpo de
Cristo; devia, também, brotar de um coração pleno de gratidão a
Deus. Tal como acontecia com a oração coletiva, o cântico coletivo
devia ser uma expressão natural e espontânea e uma experiência
específica que estivesse relacionada de forma vital com a experiência
básica de “corpo vivo” e de koinõnia.
Observe também que Paulo relaciona o cântico coletivo com a
experiência básica de aprender a verdade bíblica. Aliás, o cântico
devia ser um meio concreto de os cristãos “instruírem” e “acon­
selharem” uns aos outros e de a “palavra de Cristo” habitar
“ricamente” dentro deles (Cl 3.16).
Acerca desse conceito, Herbert Carson afirma o seguinte:

A experiência que têm com a Palavra não é uma mera experiência


individual, pois é na situação de comunhão da igreja que devem aprender
as verdades dessa Palavra. Dessa forma, deve haver um partilhar mútuo
da Palavra. É a partir da Palavra habitando neles que aprenderão a
sabedoria de Deus, e então essa sabedoria passará a ser a atmosfera em
que eles se movimentam enquanto procuram edificar uns aos outros no
conhecimento. Aqui, a adoração da igreja é considerada do ângulo da
edificação dos fiéis [...] tal cântico não se constituirá em mera forma de
extravasamento, mas será um meio de instrução.4

Há uma correlação direta entre o propósito do cântico coletivo e o


conteúdo a que Paulo se refere, tanto em Efésios quanto em
Colossenses. Esses cristãos deviam instruir e aconselhar uns aos
outros “com salmos e hinos e cânticos espirituais” (Cl 3.16; Ef 5.19).
Alguns crêem que o apóstolo talvez estivesse referindo-se ao sal­
tério do Antigo Testamento quando empregou a palavra “salmos” .
Nesse caso, não há necessidade de mais comentários para salientar a
qualidade desse conteúdo. Nada é capaz de sobrepujar as próprias
“palavras de Deus” como base para a edificação.
A palavra hino refere-se a “salmos de louvor” — uma composição
poética que, da perspectiva da revelação bíblica, não era inspirada,
mas muito “inspirada” em se tratando do espírito humano. Embora de
origem humana, esses hinos deviam ser usados para ensinar uns aos
outros e para glorificar a Deus.
“Cânticos espirituais” podem ser denominados “odes espirituais” .
A palavra ode, em si, tem significado amplo e refere-se a qualquer
poesia, sacra ou profana. Os cristãos, entretanto, deviam compor
melodias no coração com odes espirituais, isto é, com músicas que
expressassem suas atitudes e sentimentos para com o Senhor e uns
para com os outros.
Mas tenha o cuidado de não interpretar as palavras de Paulo nessa
passagem usando uma classificação tradicional das várias formas
cristãs de “expressão musical” ao longo dos anos. Paulo não está
falando aqui d e. formas musicais, ou seja, de compasso, de ritmo, de
melodia ou de harmonia. As “palavras” ou a “expressão poética” são
o ponto de convergência. As palavras empregadas devem ser, no dizer
de Paulo, primeiramente, as próprias palavras de Deus (como os
salmos); em segundo lugar, palavras de louvor a Deus (as escritas
pelos fiéis) e, em terceiro, palavras que expressem experiências cristãs
autênticas.
Seria difícil reconhecer a maneira como a igreja do Novo Testa­
mento se expressava musicalmente, usando como referência um hiná­
rio típico das igrejas evangélicas de hoje.
Porém, a questão não é a maneira como ela se expressava — mas
o que ela expressava! Conforme será tratado em minúcias mais tarde,
a Bíblia permite grande dose de liberdade no que diz respeito à forma
musical, mas é específica quanto ao conteúdo e ao propósito. Aqui,
Paulo estava falando de um elemento da experiência cristã: a música.
O compasso, o ritmo, a melodia e os meios utilizados para expressar
essa música são, todos, fatores relativos. Estão relacionados à cultura.
Mas o propósito da música cristã — a edificação — é absoluto. E a
Bíblia é clara ao dizer que é necessário que os cristãos cantem juntos
a fim de se edificarenr uns aos outros. Na realidade, as formas de
expressão musical não importam, contanto que criem um cristianismo
dinâmico, relacional, e ajudem os fiéis a aprender a Palavra de Deus.

A oferta no corpo
A história da igreja do Novo Testamento é a história de um grupo de
pessoas que “se importavam com os outros” , especialmente com os
outros cristãos. “ ... façamos o bem a todos, mas” acrescentou Paulo,
“principalmente aos da família da fé” (G1 6.10; 1 Ts 5). Escrevendo
aos cristãos de Roma, exortou-os a contribuírem para as necessidades
dos santos e a praticarem a hospitalidade (Rm 12.13).
O compartilhamento e a oferta coletiva são exemplificados por
cristãos já bem no início da igreja em Jerusalém. Em decorrência dos
fatores socioeconômicos daquela época, eles “tinham tudo em
comum” . Os cristãos “vendiam as suas propriedades e bens, distri­
buindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”
(At 2.44, 45).
Mas o conceito de compartilhamento e oferta coletivas não se
perdeu à medida que os discípulos iam sendo dispersos e a Palavra era
proclamada e ensinada por toda a Judéia e Samaria e todo o mundo do
Novo Testamento. Muito embora as condições socioeconômicas
fossem diferentes — as pessoas possuíam as próprias residências,
tinham as próprias profissões e sustentavam-se por si mesmas —,
ainda assim demonstravam interesse por outros cristãos necessitados.
Quando escreveu à igreja de Filipos, Paulo agradeceu a Deus pela
“cooperação” (koinõnia) deles “no evangelho, desde o primeiro dia
até agora” (Fp 1.5). Sem dúvida, ele estava referindo-se ao fato de
que esses cristãos haviam, “não somente uma vez” , enviado dádivas
para atender às necessidades materiais do apóstolo (4.14-16).
Escrevendo aos coríntios e instando-os a se envolverem na “obra
graciosa” da oferta coletiva, Paulo usou a igreja da Macedônia como
exemplo: “Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e
mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com
muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos” (2 Co
8.3, 4).
Paulo acreditava e ensinava que a oferta coletiva era uma
experiência essencial a todos os cristãos. Conforme ele escreveu aos
coríntios, eles seriam enriquecidos “em tudo para toda a generosi­
dade” (2 Co 9.11). E passou a explicar que a experiência da oferta
coletiva trará edificação mútua. “Porque o serviço desta assistência
não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em
muitas graças a Deus, visto como na prova desta ministração,
glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao
evangçlho de Cristo, e pela liberalidade com que contribuís para eles
e para todos, enquanto oram eles a vosso favor, com grande afeto, em
virtude da superabundante graça de Deus que há em vós” (9.12-14).
Essa mesma passagem de Coríntios (caps. 8 e 9) proporciona um
estudo fascinante sobre o cristianismo relacional. Demonstra a impor­
tância de cuidar das necessidades de outros membros do corpo de
Cristo; enfatiza o crescimento espiritual que ocorre na vida daquele
que partilha; refere-se não apenas aos benefícios físicos experimen­
tados por aqueles que recebem as dádivas, mas também aos benefícios
espirituais; ilustra o desenvolvimento do cuidado mútuo, não apenas
na dádiva, mas também na oração mútua (9.14).
Além disso, é clara a implicação (tal como ocorreu em Jerusalém
nos primeiros dias da igreja) de que os não-cristãos tomavam
consciência de que o corpo de Cristo estava ativo, cuidando de si
mesmo, não apenas em locais específicos, mas em todo o mundo do
Novo Testamento. Esse mesmo fato tornou-se um pano de fundo que
dava sentido e verdadeiro significado teológico ao evangelho de
Cristo, à medida que ia sendo pregado ao mundo pagão. Afora o
compartilhar as bênçãos materiais, nenhuma outra atividade consegue
demonstrar tão bem os conceitos do “verdadeiro amor cristão” , da
“unidade” e da “realidade da fé cristã” . Palavras de elogio e de
preocupação nada custam, sendo atos de bondade relativamente fáceis.
Mas compartilhar de forma concreta aquilo que é “seu” com os outros
tem o seu “preço” , e é uma experiência com a qual toda a
humanidade (salvos e não-salvos) pode identificar-se. Como é fácil
“amar a nós mesmos” , mas como é difícil “amar” o nosso próximo
da mesma forma que amamos a nós mesmos.
Os incrédulos que presenciavam esses atos sacrificiais de bondade
não podiam deixar de ficar impressionados com as qualidades
sobrenaturais da vida em Cristo. Isso era contrário à natureza! Era o
oposto do que o homem deseja fazer! Era uma demonstração das
qualidades incomuns que procedem de uma fonte sobrenatural — o
Cristo que habita na pessoa — aquele que estava sendo proclamado
como o Filho de Deus.

Refeição coletiva
É impossível ler cuidadosamente o Novo Testamento sem chegar à
conclusão de que a “refeição coletiva” era uma experiência
significativa para os cristãos do século I. É claro que era uma
experiência corriqueira para os discípulos de Jesus, especialmente os
doze, que viajaram com ele durante seu ministério na terra. Mas a
refeição que fizeram juntos, logo antes de Jesus ser preso, assumiu um
novo significado. Foi durante essa refeição que Jesus tomou “um pão
e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai,
comei; isto é o meu corpo” (Mt 26.26).
Em seguida o Senhor “tomou o cálice e, tendo dado graças, o deu
aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue,
o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para
remissão de pecados” (26.27, 28).
Não há dúvida que, nos primeiros dias da igreja, os novos cristãos
de Jerusalém repetiam essa experiência que os doze haviam tido com
Cristo. Lucas registra que eles "... perseveravam [...] no partir do
pão e nas orações. [...] Diariamente perseveravam unânimes no
templo, partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições
com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e contando com
a simpatia de todo o povo” (At 2.42, 46, 47a).
Essas refeições não eram meras refeições comuns para esses novos
cristãos. Sem dúvida, eles partiam o pão e bebiam do cálice
freqüentemente e, ao fazê-lo, proclamavam a morte de Cristo. Alguns
acreditavam que, no início, eles relembravam a morte do Senhor dessa
forma, diariamente.
As refeições religiosas não eram prática rara naqueles dias, mesmo
entre os pagãos e outras seitas religiosas. É claro que, historicamente,
os judeus haviam guardado a Páscoa. De modo que, para esses judeus
cristãos, não era uma experiência totalmente nova participar de uma
refeição religiosa. O novo, entretanto, é que parte da refeição havia-se
agora tornado um meio todo especial de lembrar a morte sacrificial de
Jesus Cristo.
Quando Paulo escreveu aos cristãos de Corinto, teve de corrigir o
desvirtuamento dessa refeição religiosa (1 Co 11.28-34). Alguns
estavam vindo e comendo logo no início; alguns não estavam
ganhando nenhuma comida e permaneciam com fome; alguns chega­
vam a comer e a beber além dos limites. No geral, estavam sendo
egoístas, usando a refeição para benefício próprio, não para o
propósito inicial.
Paulo teve de lembrá-los acerca do exemplo do Senhor, de como,
durante a última ceia, ele havia partido o pão em lembrança de seu
corpo partido, e de como, após a ceia, havia partilhado com os
discípulos o cálice como “a nova aliança” em seu sangue. Os coríntios
estavam participando “indignamente” desses elementos (11.27). Não
estavam dando o devido valor ao propósito e ao significado original
dessa experiência sagrada.
O aspecto mais importante dessa refeição religiosa era partir o pão
e participar do cálice. Assim, esses dois elementos vêm sendo
compartilhados pelos cristãos através dos anos como uma refeição
simbólica, e têm sido concebidos como uma santa comunhão.
No entanto, não há razões bíblicas para rejeitar o conceito da refei­
ção religiosa, considerando-o “impraticável” ou impróprio na igreja
do século XX. Aliás, Zane Hodges, professor de Literatura e Exegese
do Novo Testamento no Dallas Theological Seminary, crê que a
refeição religiosa deveria ter um lugar bem definido na adoração e na
experiência cristãs nos dias de hoje. Ele defende sua posição
mencionando o exemplo do Senhor com os discípulos, além da óbvia
prática dos coríntios e das instruções de Paulo em 1 Coríntios 11.20­
24. Ele acha que rejeitar o conceito de “refeição religiosa” pelo fato
de os coríntios a terem desvirtuado não fornece base suficiente para
o abandono de toda essa experiência e a substituição dela por uma
refeição simbólica.
O aspecto crucial, acredita ele, é partir o pão e beber do cálice.
Ele acredita, todavia, que esses elementos são apenas parte da ceia do
Senhor, e que a refeição propriamente dita provê uma oportunidade
de comunhão cristã e edificação mútua à medida que se conversa
informalmente sobre a Palavra de Deus. Além disso, ele acredita que
essa experiência ajuda a criar um ambiente familiar para o corpo de
Cristo e que, quando feito com respeito e reverência, é uma grande
ajuda no processo de crescimento cristão mútuo.
Não se pode negar que a “refeição coletiva” seja um conceito do
Novo Testamento. Em minha opinião, se deve ou não ser praticada da
mesma maneira que nos primeiros dias da igreja, é uma questão de
interpretação. Ninguém que leia objetivamente as Escrituras pode
negar a necessidade de nos lembrarmos do Senhor mediante a ceia.
Paulo disse: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes
o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Co
11.26). Obviamente Paulo acreditava e ensinava que esse aspecto da
refeição devia perdurar até a volta de Jesus.
Naturalmente, muitos fatores culturais do século xx são diferentes
dos do primeiro século, especialmente em Jerusalém, onde a vida
comunal da igreja fez da ceia do Senhor uma experiência freqüente e
natural. Entretanto, mesmo que essa refeição religiosa não constitua
padrão normativo para a igreja de hoje, será que não há um princípio
implícito nesses exemplos bíblicos — o de utilizar a “refeição
coletiva” como uma experiência vital para os cristãos? Em seu
comentário sobre 1 Coríntios, Leon Morris nos faz recordar que “há
um marcante destaque nessa passagem toda sobre a natureza coletiva
do rito e sobre a responsabilidade de cada um por todos”.5
Já se disse muito acerca do cristianismo relacional. Não há
ambiente melhor que possa ser usado para criar esse tipo de
experiência do que quando um grupo de cristãos consagrados se reúne
em torno de uma mesa para tomar uma refeição. Quer isso esteja
relacionado, quer não com a ceia, sempre deve e pode ser uma
experiência espiritual “com os outros” e “com Deus” . Pois, disse
Paulo em outra passagem, “quer comais, quer bebais, ou façais outra
coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31).
Todas as famílias unidas hão de testemunhar que não há
experiência que se compare à comunhão íntima de se reunir em torno
de uma mesa e tomar uma refeição em conjunto. Todos os cristãos
não são irmãos e irmãs em Cristo? Os cristãos não são membros da
família de Deus? Não somos um corpo? Será que a igreja de hoje está
utilizando a experiência da “refeição coletiva” como a forma mais
vital de contribuir para a edificação do corpo de Cristo?

As experiências vitais de testemunho


Existe outra dimensão do processo de edificação que pode ser — e é,
em muitas igrejas — facilmente desprezada, especialmente entre aque­
las que procuram repetir o padrão do Novo Testamento. Uma igreja
pode tornar-se tão obcecada por cumprir seu propósito como
“comunidade congregada” que, sem chegar a ter consciência do que
está acontecendo, vai-se tornando um “grupo voltado para si próprio”
em vez de um “grupo voltado para os outros” .
A igreja existe para cumprir dois propósitos básicos (recorda-se?):
“fazer discípulos” e “ensinar-lhes” . Uma igreja “voltada para si
própria” torna-se um fim em si mesma. Vai-se tornando “insossa”,
“egocêntrica” e “sem vida” . As experiências fundamentais de apren­
der a verdade bíblica podem tornar-se puramente acadêmicas, e as
experiências relacionais podem tornar-se bem superficiais.
Só quando uma igreja, como corpo e como indivíduos, membros
desse corpo, sair de si mesma e alcançar o mundo perdido, é que
manterá o revigorante fluxo de vida e de poder que faz com que
“aprender a verdade bíblica” e “viver um cristianismo relacional”
continuem sendo realidades dinâmicas e estimulantes.
As igrejas mencionadas em Atos são ótimos exemplos disso! Após
a perseguição iniciada em Jerusalém, os cristãos experimentaram
“paz” . Mas lemos que a igreja ia “edificando-se e, caminhando no
temor do Senhor e, no conforto do Espírito Santo, crescia em
número” (At 9.31).6
O livro de Atos e as epístolas registram com clareza o impacto
total da igreja no mundo. A história extrabíblica também registra a
contínua influência que a igreja exerceu no mundo. Os cristãos
ajudaram a transformar toda a cultura. Afetaram e infectaram toda a
comunidade. Somando-se ao registro das Escrituras, a história relata
que “no mundo grego e romano se difundiu esta exclamação: ‘Vejam
como amam uns aos outros”’.7
Os tessalonicenses são, provavelmente, um dos mais destacados
exemplos de igreja que testemunha. “Porque”, disse Paulo, “de vós
repercutiu a palavra do Senhor, não só na Macedônia e Acaia, mas
por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de
não termos necessidade de acrescentar coisa alguma” (1 Ts 1.8). Aos
cristãos de Roma também escreveu: “Primeiramente dou graças a meu
Deus mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque em todo
o mundo é proclamada a vossa fé” (Rm 1.8).
Observe também que, na igreja do Novo Testamento, o testemunho
cristão era tanto “coletivo” como “individual” . O corpo em ação
tornava-se o pano de fundo para um testemunho pessoal eficaz.
A essa altura é importante novamente recordar as palavras de Jesus
aos discípulos e suas palavras ao Pai na oração sacerdotal. “Nisto” ,
disse Jesus, “conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes
amor uns aos outros” (João 13.35). E ao Pai, orou para que seus
discípulos “sejam um [...] a fim de que sejam aperfeiçoados, para que
o mundo conheça que tu me enviaste” (17.21, 23).

Resumo
Então, que é edificação no sentido neotestamentário da palavra?
Parece ser aquela experiência contínua em que se aprende a verdade
(doutrina) bíblica dentro do contexto do “cristianismo relacional” e do
“testemunho cristão dinâmico” . As três experiências são necessárias
para criar um corpo maduro de cristãos. Negligenciar qualquer uma
dessas facetas da vida do Novo Testamento é prejudicar o plano deter­
minado por Deus para a edificação na igreja local. Sem essas três
experiências, uma igreja não crescerá até o ponto de refletir as três
características da maturidade coletiva — fé, esperança e amor.8

Notas
1Roy B. Zuck apresenta um excelente estudo das palavras gregas traduzidas
por “ensinar” . Veja Greek words for teach, Bibliotheca Sacra, 122, Apr.-
June 1965: 158-68.
2 Nem todas essas passagens estariam restritas à oração coletiva. Também se
aplicariam à vida de oração pessoal do cristão. No entanto, o contexto em
que aparece a maioria dessas instruções quanto à oração mostra fortemente
a idéia de oração coletiva.
3 Estudo mais aprofundado sobre a oração corporativa seria Gene A. G e t z ,
Praying for one another, Victor Books.
4 Herbert M. CARSON, The epistles of Paul to the Colossians and to
Philemon, Eerdmans, p. 90.
5 Leon M o r r i s , I Coríntios, introdução e comentário, Vida Nova; Mundo
Cristão, p. 132.
6 Nesse versículo, aparentemente, a palavra empregada para designar a igreja
é utilizada para referir-se à igreja universal; no entanto, o contexto todo deixa
implícito que havia muitas igrejas locais espalhadas por toda a Judéia,
Galiléia e Samaria. Esse crescimento geral era o reflexo do crescimento de
cada igreja local.
7 Francis A. S c h a e f f e r , A igreja no ano 2001, p. 92.
7 Francis A. S ch a effer , A igreja no ano 2001, p. 92.
8 Em se tratando de uma exposição básica de Atos 2.42-47, que esboça as
três experiências vitais vistas na igreja de Jerusalém, veja Gene A. Getz A
medida de uma igreja espiritual, Literatura Evangélica Internacional, cap 12
p. 132-4. ’ ' ’
Os princípios
de edificação
do Novo
Testamento

Para uma igreja local tornar-se um corpo maduro de cristãos que


reflita fé, esperança e amor, é preciso aplicar certos princípios do
Novo Testamento. Esses princípios brotam naturalmente do nosso
estudo das atividades e das funções dos cristãos do Novo Testamento
e das diretrizes que lhes foram dadas nas epístolas.

Todo o corpo, um organismo maduro


Em primeiro lugar, concentre a atenção na igreja local como o meio
básico pelo qual deve ocorrer a edificação. O interesse supremo de
Paulo era que todo o corpo, a igreja universal, se tornasse um
organismo maduro (Ef 4.11-13), mas ele demonstrou inequivocamente
em seu próprio ministério que a maneira de atingir esse alvo era
fundar igrejas locais e depois ajudar esses “microcosmos” da igreja
universal a se tornar entidades maduras e unidades independentes. Ele,
juntamente com seus cooperadores, fez discípulos, ensinou-lhes e
incentivou-os, e ajudou cada grupo a tornar-se uma koinõnia dinâmica.
Parte de seus ensinos, é claro, destinava-se a ajudá-los a reconhe­
cer o relacionamento que tinham com a igreja universal, isto é, que
faziam parte do todo. Era bem mais difícil conseguir isso na época do
Novo Testamento, visto que esses grupos locais estavam geo­
graficamente muito mais isolados uns dos outros. O principal meio de
relacionamento com outros corpos locais de cristãos eram os relatórios
orais dados por emissários viajantes e por cartas. Entretanto, mesmo
com um meio de comunicação limitado, é óbvio que se desenvolveram
laços e relacionamentos fortes entre os grupos locais, mesmo que
nunca se tivessem encontrado pessoalmente (2 Co 8.1-6).
Não se fará nenhuma tentativa de examinar em toda a extensão as
várias idéias acerca dos componentes necessários para que se tenha
uma igreja local. Há diversas opiniões. Pessoalmente, inclino-me para
uma concepção simples. Aparentemente, um corpo de cristãos pode
ser classificado como igreja sempre e onde quer que se reúna com
regularidade com o propósito da edificação mútua. A razão por que
um grupo se reúne é mais significativa, ao que parece, do que
produzir uma lista de normas ou especificações que devam ser
cumpridas para que se tenha realmente uma igreja. Deve-se, porém,
acrescentar que qualquer grupo assim descrito pode ser uma igreja
recém-nascida^"E\a. deve crescer e desenvolver-se, cumprindo certas
normas e práticas para ser uma igreja plenamente crescida, madura e
dinâmica. Essas normas básicas estão bem claras nas Escrituras. A
mais fundamental delas já foi expressa: a igreja é um corpo de
convertidos — pessoas nascidas de novo; em segundo lugar, eles
devem reunir-se regularmente. A Bíblia também afirma claramente
que se deve chegar ao ponto de haver líderes qualificados1 e uma
forma de disciplina para aqueles que afirmam ser convertidos, mas
violam os ensinos bíblicos acerca da vida cristã. Certamente também
deve haver o ensino da Palavra, a oração, a prática do batismo e a
participação na ceia do Senhor. Todos esses fatores indicam uma
igreja com potencial para a maturidade. Mas deve-se ressaltar com
todas as letras que muitas dessas práticas podem estar presentes numa
igreja, e ainda assim ser morta, estéril, imatura. E necessário vida
autêntica e vitalidade para que essas experiências tenham sentido. O
plano de Deus é que, à medida que essas normas se cumpram, elas
contribuam para a edificação.
Concluindo, deve-se ressaltar novamente e ampliar esse primeiro
princípio neotestamentário de edificação. Trata-se simplesmente disto:
qualquer um de nós que deseje ter sucesso espiritual no ministério e
ter todas as bênçãos de Deus em seus esforços ou deve trabalhar com
o objetivo de fundar igrejas locais à medida que novos convertidos
sejam ganhos para Cristo, ou, caso esteja atuando numa organização
pareclesiástica, deve encaminhar os novos cristãos para uma igreja já
existente. É ali que podem ser alimentados para ser cristãos plena­
mente desenvolvidos quando se tornam parte de um corpo local de
cristãos, recebendo força de outros membros do corpo, bem como
contribuindo para o crescimento da igreja.
Uma das experiências mais estimulantes que tive em ambiente
transcultural, ao partilhar princípios sobre a vida da igreja no Novo
Testamento, ocorreu no Brasil. Lá me encontrei com vários líderes
cristãos locais que haviam conhecido Cristo através do ministério dos
Navegadores. Jim Pederson, diretor da América Latina, convidou-me
para partilhar com esse grupo dinâmico o que a Bíblia ensina a
respeito do processo de edificação. Jim reconhece que, para que as
pessoas que eles estão alcançando para Cristo cresçam espiritualmente,
elas devem ter as experiências que Deus designou para o contexto de
uma “igreja local” .
Entretanto, esses líderes cristãos têm um problema. Não existem
igrejas locais “tradicionais” que possam absorver esses novos
convertidos. Um dos motivos é que isso prejudicaria sua estratégia
inigualável de continuar alcançando pessoas como eles próprios —
pessoas totalmente secularizadas. Portanto, deviam enfrentar cria­
tivamente esse problema — e enfrentaram! Depois falaremos mais
sobre a solução encontrada. Por enquanto, basta dizer que Jim
concorda com esse princípio do Novo Testamento. A “igreja local”
deve permanecer em foco como o meio básico em que se processa a
edificação. Contudo, a forma como a igreja se identifica nessa cultura
é outra história.

Mergulhe os cristãos na Palavra


Em segundo lugar, forneça aos fiéis um conhecimento básico da
Palavra de Deus. É por isso que Paulo passou um ano inteiro em
Antioquia, ensinando os discípulos e é por isso que Paulo e Barnabé
voltaram a Listra, e a Icônio, e a Antioquia, “fortalecendo as almas
dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé” . É por isso
que, em outra ocasião, Paulo disse: “Voltemos agora para visitar os
irmãos por todas as cidades, nas quais anunciamos a palavra do
Senhor, para ver como passam” . É por isso também que Paulo passou
um ano e meio em Corinto e três anos em Éfeso, ensinando e
exortando os convertidos.
Paulo também foi além de um mero ministério pessoal entre seus
convertidos. Enquanto estava em Atenas, enviou Timóteo de volta a
Tessalônica para confirmar e exortar na fé os que haviam crido (1 Ts
3.2). Da mesma forma, enviou Timóteo de volta a Corinto para lhes
ensinar as doutrinas que ele, Paulo, estava ensinando “por toda parte
[...] em cada igreja” (1 Co 4.17). Tito permaneceu em Creta para
falar “o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1). Não há sombra de
dúvida de que a preocupação vital de Paulo era que os cristãos fossem
instruídos nas doutrinas básicas.
O fundamental para o crescimento espiritual é a Palavra de Deus.
“Desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas”, disse Pedro,
“o genuíno leite espiritual, para que por ele vos seja dado crescimento
para salvação” (1 Pe 2.2). Infelizmente, na igreja do século xx
existem alguns que são cristãos há anos, mas nunca aprenderam nem
mesmo as doutrinas mais elementares da Bíblia. É aqui que devemos
iniciar o processo de edificação, quer estejamos ministrando a bebês
“novos” , quer a bebês “velhos” .

Proporcione um ensino aprofundado


Em terceiro lugar, proporcione aos fiéis um conhecimento apro­
fundado da Palavra de Deus. Na opinião de Paulo, ensinar seus novos
convertidos face a face e enviar outros para instruí-los e orientá-los
não era um acompanhamento suficiente. Seu próximo passo era a
correspondência — cartas aos tessalonicenses, aos coríntios, aos
gálatas, aos efésios e aos filipenses. Todas essas epístolas foram
escritas para proporcionar a esses convertidos não apenas um
conhecimento básico da Palavra de Deus, mas um conhecimento mais
profundo da verdade divina. E grande é o significado de ter colocado
essa instrução de forma duradoura, de modo que pudesse ser
reexaminada vez após vez, estudada e difundida em outras igrejas. Às
vezes, elas mandavam respostas, indagando-lhe o que ele queria dizer,
e ele, por sua vez, escrevia outra carta, explicando melhor sua
correspondência anterior. (Por exemplo, 1 e 2 Coríntios.) É claro que,
em última instância, ele estava deixando para nós grande parte da
Palavra escrita de Deus, que temos hoje à disposição para ser utilizada
da mesma forma que se pretendia fosse usada no século I, isto é, para
proporcionar aos cristãos um conhecimento abrangente da mensagem
de Deus para o homem.

Desenvolva outras capacidades, além do conhecimento


Em quarto lugar, proporcione aos fiéis oportunidades de desenvolver
outras capacidades, além do conhecimento — para passarem a ter
sabedoria, iluminação, critério e uma percepção e sensibilidade em
relação ao Espírito de Deus. É por isso que Paulo orou daquela
maneira a favor dos efésios! Provavelmente nenhum outro cristão teve
a oportunidade de estar em contato com o ensino de Paulo como os de
Éfeso. Eles tiveram o maravilhoso privilégio de ouvi-lo ensinar mês
após mês; e lembre-se de que foi em Éfeso que Paulo ensinou
diariamente na escola de Tirano, por dois anos. Isso ajuda a explicar
a profundidade da carta aos efésios. Esses indivíduos já não eram
“bebês” !
Repare, entretanto, como Paulo ora a favor desses cristãos bem
nutridos: para que adquirissem um “espírito de sabedoria” , para que
tivessem “iluminados os olhos” do coração, para que realmente
soubessem o que significa ser chamado, para que realmente soubessem
o quanto eram ricos e a dimensão do poder demonstrado neles ao
serem salvos. Além disso, Paulo ora para que fossem fortalecidos com
poder, pelo Espírito, no homem interior, de modo que pudessem
“compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o compri­
mento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que
excede todo entendimento” , a fim de que fossem “tomados de toda a
plenitude de Deus” (Ef 1.16-19; 3.14-19).
Note bem: Paulo desejava que conhecessem o amor de Cristo, que
ultrapassa o entendimento! Hoje, o maior perigo no processo de
edificação é que os cristãos aprendam as verdades profundas da
Palavra de Deus, mas nunca passem para o nível de comportamento
que demonstre sabedoria, critério, profunda percepção e sensibilidade
em relação à sua posição em Cristo.
Devemos conduzir os cristãos para além do âmbito do conhe­
cimento, meramente superficial. A experiência demonstra, sem
margem de dúvida, que o conhecimento não conduz automaticamente
à ação. A “psicologia associativa” é uma teoria morta. Simplesmente
não funciona. Um cristão pode conhecer muitas coisas a respeito de
Deus e não sentir sua grandeza, seu poder, suas riquezas e sua graça;
nem ser tocado pela maravilha de tudo isso. É possível conhecer cada
i e cada til das Escrituras, e ainda assim não ter a convicção e a
motivação para cumprir a menor letra de suas verdades. Em resumo,
é possível ter doutrina e verdade “saindo pelas narinas” sem ser
discípulo maduro de Jesus Cristo.2
Demonstramos, no entanto, que o conhecimento é fundamental
para se atingir a maturidade. Então, qual é o meio pelo qual os
cristãos podem ultrapassar o nível de conhecimento? A resposta
encontra-se em outro princípio do Novo Testamento.

Proporcione experiências que excedam o conhecimento


Em quinto lugar, proporcione aos fiéis uma soma de experiências que
os ajude a ultrapassar o nível do conhecimento.
Isso começa com experiências de ensino e de aprendizado, mas é
bem mais abrangente que um processo do tipo transmitir-e-receber.
Deve ir além da simples difusão do conteúdo bíblico e até mesmo
além da interação entre esse conteúdo e as pessoas que estão sendo
ensinadas.
Esse processo de aprendizagem deve ocorrer dentro do contexto do
cristianismo relacional — comunhão com Deus e uns com os outros.
Também deve ocorrer no contexto de um testemunho cristão e de uma
expansão dinâmica. Se os cristãos forem meros receptáculos da
verdade, sem a oportunidade de verdadeiramente adorar a Deus,
ministrar entre si e ganhar outros para Cristo, não sairão do nível do
conhecimento.
O grande problema em muitas igrejas evangélicas é manter o
equilíbrio entre as três experiências vitais do Novo Testamento. Aliás,
é quase possível classificar as igrejas com base nesses destaques.
Existe a igreja que dá forte destaque ao testemunho cristão. (Veja
na figura 13, as igrejas estruturadas em relação à “evangelização” .)
Na maior parte do tempo, os fiéis ouvem mensagens evangelísticas
pregadas no púlpito, e o ensino da Bíblia que recebem muitas vezes
é superficial. Os que são sensíveis ao Senhor anseiam um ensino
sólido e uma boa exposição da Bíblia. Muitos dos insatisfeitos acabam
deixando a igreja e encontram outra, com um bom ensino da Bíblia.
(Veja na figura 13 as igrejas estruturadas em relação ao “ensino da
Bíblia” .) Aqui, a Palavra de Deus é ensinada fielmente todos os
domingos de manhã e todos os domingos à noite e algumas vezes
durante a semana. Por um tempo, seus corações são desafiados e suas
almas, alimentadas. Mas, depois de um período, o prazer de ouvir o
ensino da Palavra começa a desaparecer. Tomar notas e sublinhar
verdades na Bíblia tornam-se uma rotina meramente acadêmica. De
mais a mais, aqueles que são sensíveis ao Senhor começam a indagar:
“O que está errado na minha vida cristã?” .
Então existem aqueles que estão famintos de comunhão e que
anelam por relacionamentos íntimos dentro do corpo de Cristo. Saem
em busca de uma igreja em que exista compartilhamento, e troca de
idéias, e informalidade, e comunhão agradável. (Veja na figura 13 as
igrejas estruturadas em referência a “relacionamentos” .) Elas possuem
envolvimento em grupos pequenos e dão ênfase à “honestidade” e à
“transparência” . Existe um “corpo vivo” . Os membros da igreja
atuam. Por um tempo, o vácuo de suas vidas é preenchido. Ficam ani-

Figura 13: Estruturas eclesiásticas em desequilíbrio

mados e vibram com seus novos relacionamentos. Mas pouco a pouco


parece que essas experiências se tornam mecânicas e rotineiras, e até
superficiais. Em alguns casos, os relacionamentos degeneram em
comportamentos duvidosos e, às vezes, até levam a práticas imorais.
Qual é o problema? Os fiéis necessitam das três experiências vitais
para amadurecer como cristãos. Necessitam de bom ensino bíblico que
lhes forneça estabilidade teológica e espiritual; necessitam de rela­
cionamentos profundos e satisfatórios, tanto com os outros quanto com
Jesus Cristo e necessitam da experiência de ver as pessoas vindo a
Jesus Cristo em conseqüência do testemunho coletivo e individual ao
mundo não-cristão. (Veja as “Três experiências vitais” , na figura 12,
na p. 129).
E precisam das três\ Não serão suficientes uma nem duas.
Nenhuma outra combinação, que não as três em devido equilíbrio,
dará os resultados do Novo Testamento. É, portanto, tarefa de cada
líder de igreja idealizar e planejar para a igreja do século x x uma
estrutura que permita aos cristãos ter essas experiências vitais, que
também foram as experiências dos cristãos do século r.

Prepare para o serviço


Em sexto lugar, prepare os fiéis para o serviço cristão. Repare de
novo: isso implica todos os convertidos.
Este é o destaque básico de Efésios 4:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros
para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao
aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a
edificação do corpo de Cristo [...]. Mas, seguindo a verdade em amor,
cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o
corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo
a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a
edificação de si mesmo em amor (Ef 4.11, 12, 15, 16).

A igreja é um organismo sem paralelos. É edificada e torna-se


madura à medida que cada membro entra em ação. Deus nunca quis
que os membros do corpo de Cristo dependessem de um líder para
realizar “a obra do ministério”. Conforme se verá adiante com mais
pormenores, Deus nem mesmo queria que alguns líderes realizassem
a obra do ministério. Pelo contrário, desejava que toda a igreja
realizasse essa obra. É responsabilidade dos líderes da igreja “equipar
os santos” para que sirvam uns aos outros. Então — e só então — um
corpo local de fiéis poderá crescer e desenvolver-se até se tornar uma
igreja madura.

Desenvolva a vida familiar


Em sétimo lugar, ajude os fiéis a desenvolver uma vida familiar de
qualidade. Os maridos e as esposas devem crescer em seu rela­
cionamento assim como a igreja cresce em seu relacionamento com
Cristo (Ef 5.24-33). Os pais e as mães devem receber ajuda para criar
os filhos na disciplina e na instrução do Senhor (6.1-4).
A unidade familiar ocupa um lugar central na Bíblia. É anterior à
igreja, sendo uma unidade básica em todo o Antigo Testamento. E, no
Novo Testamento, deve formar os “tijolos” da igreja. As famílias
cristãs fortes fazem igrejas fortes, sob os aspectos da evangelização e
da edificação. E, por sua vez, as igrejas fortes criam famílias fortes.
Aliás, o Novo Testamento apresenta a família como a “igreja em
miniatura” ., _
Deuteronômio 6.6-9 é um exemplo bíblico clássico de como um lar
dever funcionar de acordo com o modelo divino. Essa mensagem foi
entregue aos filhos de Israel antes de entrarem na Terra Prometida.
Eles tinham vagueado pelo deserto em conseqüência de sua deso­
bediência. Nessa altura, prontos para dar o último passo de conquista
da terra que Deus havia prometido, recebiam estas instruções: “Estas
palavras que hoje te ordeno, estarão no teu coração; tu as inculcarás
a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo
caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te” (Dt 6.6, 7).
Essas instruções foram seguidas de uma advertência. Tem cuidado,
disse Moisés, pois, quando entrares na terra, a tua tendência será
“esquecer o Senhor” . Quando, então, herdares “casas cheias de tudo
o que é bom” . e “poços abertos” , e “vinhais e olivais” , “guarda-te,
para que não esqueças o S e n h o r , que te tirou da terra do Egito, da
casa da servidão” (6.11, 12).
Infelizmente, quando chegaram à terra, de fato se esqueceram de
Deus. Quando “comeram” e ficaram “fartos” , quando seus “gados” ,
e “rebanhos” , e sua “prata” , e seu “ouro” se multiplicaram (8.12,
13), disseram em seus corações: “A minha força e o poder do meu
braço me adquiriram estas riquezas” (8.17).
O mais trágico de tudo é que esqueceram de instruir e ensinar os
filhos por meio dos preceitos e do exemplo. As instruções de
Deuteronômio 6 passaram a ser uma simples lembrança, tão distante
da consciência, que, sem dúvida alguma, não percebiam sua exis­
tência. O resultado foi lamentável! Em conseqüência, “outra geração
após deles se levantou, que não conhecia ao SENHOR, nem tão pouco
[sic\ as obras que fizera a Israel” (Jz 2.10).
O resto da história é simples. A unidade familiar fracassou, e
igualmente a nação, pois uma nação forte não é mais forte do que suas
unidades familiares. O mesmo acontece com a comunidade cristã ou
com a igreja. Se a família deixa de funcionar, se os maridos e as
esposas não experimentam a verdadeira koinõnia, se os membros da
família como um todo não conseguem relacionar-se uns com os
outros, como podemos contar com uma comunhão dinâmica no âmbito
da igreja? É praticamente impossível!
Então — repito — temos o dever de ajudar os maridos e as esposas
a desenvolver-se na vida a dois, e as igrejas devem ajudar os pais e
as mães a criar filhos na disciplina e na instrução do Senhor.
Precisamos ajudá-los a desenvolver famílias cristãs de qualidade, que
servirão de tijolos maciços dentro da igreja local, também servindo de
exemplo dinâmico nas respectivas comunidades. Isso tem especial
valor nessa época em que estamos começando a experimentar a
desintegração. É interessante que muitos sociólogos concordem em
que a desintegração está nitidamente relacionada ao colapso no nível
familiar. Assim, a igreja pode ter um duplo papel no fortalecimento
da família: pode ajudar a edificar igrejas dinâmicas e viçosas e
também ajudar a preservar o vigor da nação.3

Desenvolva formas e estruturas atualizadas


Em oitavo lugar, a igreja do século x x deve desenvolver formas
próprias e estruturas atualizadas para aplicar os princípios bíblicos
que acabamos de esboçar.
Uma coisa fica evidente em um estudo cuidadoso do Novo Testa­
mento: as formas e as estruturas são apresentadas nas Escrituras como
um meio para alcançar fins bíblicos. Em si, não são absolutas. Essa
é uma área de perigo para os evangélicos, porque pensamos sob o
aspecto de absolutos. Cremos num Deus que falou por intermédio da
Palavra inspirada e nos deu verdades proposicionais absolutas que
“nunca mudam” . Cremos num Deus eterno e num Salvador que
“ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre” (Hb 13.8).
Conseqüentemente, para nós é fácil deixar que as formas, os padrões
e as maneiras de fazer as coisas se tornem tão sagrados quanto a nossa
teologia.
A igreja do século xx deve ser criativa nas áreas em que Deus
planejou que houvesse,liberdade. Por exemplo, a Bíblia não dita a
freqüência com que os cristãos devem reunir-se, nem quando. A
Bíblia não nos fala dos tipos de reuniões que devemos ter, nem nos
prende a certas formas ou padrões que deveriam caracterizar tais
reuniões. Além disso, a Bíblia não dita onde nos devemos reunir. Na
verdade, a Bíblia nem mesmo “nos prende” a uma nomenclatura ao
descrever a igreja. Em todas essas áreas temos liberdade.
Quero retornar à minha experiência no Brasil. Como já disse no
início deste capítulo, os líderes cristãos a quem ministrei defrontam-se
com desafios incomuns. A grande maioria chegou a Cristo vinda de
uma sociedade totalmente secular. São médicos, advogados, dentistas,
arquitetos, professores e outros profissionais liberais. Cresceram
secularizados, rejeitando a igreja institucional tal como a conhecem em
sua cultura. Embora hoje, como cristãos, compreendam melhor que
a igreja que conheceram antes de se converterem não é um reflexo
verdadeiro da igreja que Deus idealizou, continuam preocupados em
alcançar outras pessoas que ainda são como eles eram — “desligam-
se” totalmente só de ouvirem mencionar a igreja e sua liderança.
Dessa maneira, compreendendo a liberdade na forma, reúnem-se
em grupos para ser edificados. Mas não se denominam “igreja” . Em
vez disso, empregam a palavra turma. Não usam a palavra pastor. Em
lugar dela, empregam a palavra mestre. E não construíram prédios
para a igreja, visto que isso também cria uma barreira para aqueles a
quem estão tentando alcançar. Em resumo, esses cristãos brasileiros
estão aplicando os princípios do Novo Testamento à vida da igreja,
mas estão usando a liberdade que Deus lhes deu para fazer a sua obra
numa situação supracultural.
Concluindo, o fato importante é que, qualquer que seja a
terminologia que empreguemos e quaisquer que sejam as estruturas
que desenvolvamos, devemos assegurar-nos de que estejam ajudando
os cristãos a tornar-se um corpo maduro de fiéis e não nos estejam
levando a violar os princípios bíblicos de edificação já esboçados. E,
acima de tudo, quaisquer que sejam as formas e as estruturas que a
igreja do século XX desenvolva e qualquer que seja a cultura em que
isso aconteça, jamais se deve permitir que se tornem absolutas ou um
-- fim em si mesmas. Caso contrário, cairemos na mesma armadilha sutil
em que a igreja sucumbiu várias e várias vezes ao longo de sua
história.
Resumo
1. É preciso concentrar a atenção na igreja local como o meio
básico pelo qual a edificação deve ocorrer.
2. Os fiéis devem receber um conhecimento básico da Palavra de
Deus.
3. Os fiéis devem receber um conhecimento aprofundado da Palavra
de Deus.
4. Os fiéis devem ter a oportunidade de desenvolver outras capa­
cidades, que ultrapassam o conhecimento.
5. Os fiéis devem receber uma soma de experiências que os ajude
a superar o nível do conhecimento — experiências vitais de
aprendizado da Palavra de Deus, experiências vitais de rela­
cionamento uns com os outros e com Deus e experiências vitais
de testemunho, tanto individual quanto coletivamente.
6. Todos os fiéis devem ser equipados para o serviço cristão.
7. Os fiéis devem receber ajuda para desenvolver uma vida familiar
de qualidade.
8. A igreja do século xx deve desenvolver formas próprias e
estruturas atualizadas para aplicar os princípios bíblicos esbo­
çados.

Notas

1 Observe em Atos 14.21-23 que o texto parece mostrar que, em Listra, em


Icônio e em Antioquia, os presbíteros foram escolhidos depois que os grupos
de convertidos foram chamados de igrejas. Em outras palavras, não era
necessário haver presbíteros antes que um grupo de fiéis fosse chamado
igreja. Sou de opinião que não havia presbíteros na igreja de Corinto,
especialmente quando Paulo escreveu sua primeira carta, porque não havia
homem suficientemente maduro para tal. (Veja 1 Coríntios 6.5.)
2 A psicologia associativa foi uma teoria de destaque no século xix,
advogando que o conhecimento resultava automaticamente em sentimento, em
vontade e em ação. O conjunto das idéias constituía a vontade. Uma vez na
mente, as idéias tenderiam a reaparecer, e as idéias semelhantes tenderiam
a reforçar-se mutuamente. Por outro lado, idéias contrárias tenderiam a
repelir-se mutuamente.
Mesmo uma breve reflexão da nossa experiência mostrará claramente porque
essa teoria tem recebido descrédito. Ainda assim muitos cristãos parecem crer
que, uma vez ocupada a mente da verdade e da doutrina bíblica, estas
automaticamente se tomam parte da vida.
3 Veja Gene A. G e t z , A medida de um casamento espiritual, Literatura
Evangélica Internacional; veja também A medida cie uma família espiritual.
A liderança
na igreja
do Novo
Jestam ento —
primeira fase

O estudo sobre a liderança da igreja no Novo Testamento deve ser


dividido em duas fases. As duas fases se sobrepõem; mesmo assiin,
cada uma é bem definida.
A primeira diz respeito aos primeiros dias da igreja e, em especial,
da igreja universal. A segunda fase emerge naturalmente da primeira
e diz respeito à liderança em cada igreja local.

Precedentes históricos
Para compreender a necessidade das duas fases no plano de Deus p^ra
a liderança da igreja, é necessário que se chegue a uma perspectiva
histórica.
Quando os seguidores de Cristo começaram a executar a grande
comissão e a “fazer discípulos” , a única Bíblia que tinham era o
Antigo Testamento, que era basicamente utilizado para convencer as
pessoas de que Jesus Cristo era o Messias prometido.1 Mas não
dispunham de nenhuma parte do Novo Testamento com a qual pud^s-
sem instruir esses novos cristãos. Mesmo depois do Pentecoste,
levaram aproximadamente 15 ou 20 anos para que essa literatura, tal
como a conhecemos hoje, começasse a surgir.2
À medida que as igrejas eram fundadas, as epístolas foram gra­
dualmente sendo escritas — especialmente as cartas de Paulo às
igrejas. Foram escritas na década de 50 d.C., quase 30 anos depois do
Pentecoste.3 As epístolas pastorais foram escritas ainda mais tarde, no
início da década de 60, e João não terminou de compor suas epístolas
senão em algum período da década de 80.
Na realidade, foi durante o período de 60 a 100 d.C. que as igrejas
do Novo Testamento começaram a ter coesão. Comentando sobre esse
desenvolvimento, Merrill Tenney afirma:

Um levantamento desses escritos mostrará que no último terço do século


i a igreja se tomou rapidamente uma instituição reconhecida. Depois de
ter sido um conjunto disperso de grupos isolados de fiéis, cada qual com
os próprios problemas e padrões de vida, começava a adquirir solida­
riedade doutrinária e social e a ser encarada como um fator poderoso na
sociedade.4

Obviamente a tarefa de edificar a igreja durante os primeiros 30 ou


50 anos de existência trouxe consigo alguns problemas incomuns.
Humanamente falando, sem um corpus literário não poderia existir um
conjunto sistemático de doutrinas. Mas Deus tinha um plano para
equipar e estabilizar a igreja.

Os melhores dons
Nos últimos anos, Efésios 4.4-16 tornou-se objeto de muitas
discussões, palestras, mensagens, artigos e mesmo livros — especial­
mente no que tange à liderança da igreja.
Nesse trecho de Efésios, lemos que Deus concedeu certos dons a
alguns (não a todos), para equipar todos os membros do corpo para
0 serviço e o ministério. Uma passagem que lhe serve de corolário é
1 Coríntios 12.28-31. É significativo que a passagem de Efésios se
refira basicamente à igreja universal, enquanto a passagem de
Coríntios também se refere à igreja universal, mas com uma aplicação
mais específica à igreja local. Observe as semelhanças:
E f é s io s 1 C o r ín t i o s

4.11 E ele mesmo concedeu 12.28 A uns estabeleceu Deus na


uns para (apóstolos^ igreja, _
outros parã(profetas^, primeiramentè^apóstolòs^
outros para ~ém segundo lugajgfofetãs^
evangelistas, em terceiro lugar (méstre§
e outros para pastores e depois operadores de
fméstres\ milagres,
4.12 com vistas ao depois dons de curar,
aperfeiçoamento socorros,
dos santos governos,
para o desempenho do seu variedades de
serviço, para a edificação línguas.
do corpo de
Cristo...

12.29 Porventura / são/ todos


/apóstolos?)
ou todosfpròfetas?)
são todosfméstres?/
ou operadores de milagres?
12.30 Têm todos dons de curar?
falam todos em outras lín­
guas?
interpretam-nas todos?
12.31 Entretanto, procurai, com
zelo, os melhores dons.
E eu passo a mostrar-vos
ainda um caminho sobre­
modo excelente.

Quando se comparam essas duas passagens, várias coisas tornam-se


claras:
1. No texto de Coríntios, Paulo classificou apóstolos, profetas e
mestres como os “melhores dons” e instruiu a igreja — como corpo
— a desejar que os melhores dons fossem ativos no corpo local (1 Co
12.31).5
2. O texto de Efésios relaciona somente os melhores dons,
enquanto o de Coríntios também relaciona os menores.
3. Existe semelhança e, ao mesmo tempo, diferença nas listas dos
melhores dons apresentadas nas duas passagens. A seqüência é
basicamente a mesma, mas há o acréscimo de evangelistas na pas­
sagem de Efésios, e o dom de pastor é combinado com o dom de
mestre.
Por que essas duas listas dos “melhores dons ” não são exatamente
iguais?
Para responder a essa pergunta, examine os indivíduos que
possuíam esses melhores dons no Novo Testamento. Quem eram essas
pessoas, e como esses dons se manifestavam?

Apóstolos
Quase sem exceção, a palavra apóstolo é utilizada no Novo
Testamento com sentido bem específico. A palavra refere-se
basicamente aos doze homens que Jesus Cristo escolheu dentre o
grupo maior de discípulos, “aos quais deu também o nome de
apóstolos” (Lc 6.13; veja também Mt 10.1-4). A palavra grega
apostolos significa literalmente “um delegado, um mensageiro, alguém
enviado com ordens” . Quando Judas deu as costas para o Senhor e em
seguida deu cabo da própria vida, foi substituído por Matias, que foi
“contado com os onze apóstolos” (At 1.26, i b b ) . Paulo também
classifica a si mesmo como um apóstolo “nascido fora do tempo” . Ele
descreve-se como alguém chamado para ser apóstolo, mas indigno “de
ser chamado apóstolo” , pois havia perseguido “a igreja de Deus ” (1
Co 15.8, 9).6 O registro de Lucas em Atos confirma, com absoluta
certeza, a afirmação e o testemunho de Paulo. Ele é apresentado como
o grande apóstolo aos gentios, que, de forma especial, deixou a
posição privilegiada que ocupava no judaísmo e penetrou no mundo
pagão com o evangelho de Jesus Cristo.
Há, todavia, um sentido secundário em que se usa a palavra
apóstolo no Novo Testamento. Lucas chamou Barnabé de apóstolo
quando se referiu ao seu “ministério” com Paulo (At 14.4-14).7
Aparentemente Paulo também classificou Silas e Timóteo de
companheiros de apostolado (1 Ts 2.6, 7), e também é possível que
tenha usado a mesma descrição para Andrônico e Júnias, dizendo que
eram “notáveis entre os apóstolos” (Rm 16.7). Mas está bem claro nas
Escrituras que essas descrições são usadas em sentido secundário. De
um lado, eram mensageiros e delegados enviados por Jesus Cristo,
como qualquer missionário ou líder cristão envolvido na proclamação
do evangelho de Cristo. Mas, no sentido básico, os apóstolos eram
aqueles homens que foram testemunhas oculares de Jesus Cristo,
pessoalmente ensinados por ele e especialmente escolhidos para um
ministério inicial de dar origem ao corpo de Cristo — sua igreja.
Em seu próprio estudo sobre o papel desses homens, o Dr. George
Peters reconheceu o chamado singular deles e escreveu a respeito. Ele
afirma: “A posição exclusiva que os apóstolos tiveram nos ministérios
iniciais da igreja é reconhecida em todo o Novo Testamento —
somente eles são conhecidos como os apóstolos de Jesus Cristo,
enquanto os outros são conhecidos simplesmente como apóstolos ou
como apóstolos da igreja” ,8
Em Atos, Lucas confirmou esse papel apostólico específico quando
registrou o trabalho deles. Os apóstolos de Jesus Cristo testemunharam
e exortaram (At 2.4) ensinaram (2.42), operaram sinais e milagres
(2.43; 5.12) e deram testemunho acerca da ressurreição de Jesus
Cristo (4.33).
Os apóstolos também ajudaram a organizar a igreja de Jerusalém,
que experimentava um rápido crescimento, mas não se permitiram
atolar em minúcias administrativas. Ao contrário, dedicaram-se à
oração e ao ministério da Palavra (6.1-7). Nos primeiros anos da
igreja, a grande maioria dos apóstolos passou quase todo o tempo em
Jerusalém. Mesmo quando a perseguição fez muitos discípulos saírem
de Jerusalém, os apóstolos permaneceram (8.1), talvez porque
achassem ser o seu dever. F. F. Bruce especula também que, naquela
ocasião, talvez a perseguição não fosse dirigida contra eles
propriamente, mas contra os helenistas da igreja.9
Lucas assinala uma exceção ao fato de permanecerem em Jerusalém
quando Pedro e João deixaram a cidade para ir a Samaria, a fim de
ajudar a confirmar os novos convertidos dali e a usar sua autoridade
e poder apostólicos de impor as mãos sobre esses novos convertidos
de modo que pudessem receber o Espírito Santo (8.14-17).
Fica claro, no entanto, que Deus teve um propósito quando
planejou que os apóstolos permanecessem em Jerusalém. Foi ali que
eles, com os presbíteros, forjaram as soluções para os problemas
teológicos e práticos da nova igreja que crescia. Lucas dedicou uma
longa porção de sua narrativa à descrição da liderança dos apóstolos
e os presbíteros na solução dos problemas judeu-gentílicos, espe­
cialmente no que diziam respeito aos ensinos sobre a lei e a graça.
Depois de muita discussão e debate (15.7), os apóstolos e os
presbíteros redigiram e enviaram uma carta a Antioquia, esclarecendo
algumas das questões (15.22-29).
Depois de Atos 15, os apóstolos foram mencionados uma única
vez, e nessa ocasião Lucas registrava o ministério de Paulo e de
Timóteo enquanto viajavam de cidade em cidade, entregando “as
decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém” (16.4).
Daí em diante, o ministério do apóstolo Paulo recebeu a maior
parte da atenção no relato de Lucas. É claro que Paulo possuía um
ministério apostólico singular em comparação aos outros apóstolos que
permaneceram em Jerusalém. Ele fora chamado de forma especial
para ser um fundador de igrejas. Era um homem de múltiplos dons.
Tinha sido “designado pregador, apóstolo e mestre” (2 Tm 1.11; veja
também 1 Tm 2.7). Apresentava “as credenciais do apostolado [...]
sinais, prodígios e poderes miraculosos” (2 Co 12.12). E a ele, mais
do que a qualquer outro apóstolo, tinha sido revelado de forma muito
detalhada o mistério da igreja (Ef 3.1-12; Cl 1.24-28).
A obra dos apóstolos foi, portanto, fundamental, como vemos nas
palavras de Paulo:

Assim já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos,


e sois da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos
e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo
edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual
também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no
Espírito (Ef 2,19-22).

Por essa razão, quando Paulo colocou a palavra “apóstolo” no topo


da lista, tanto em 1 Coríntios 12.28 como em Efésios 4.11, estava,
sem dúvida, empregando essa palavra no sentido básico. Não estava
meramente descrevendo um “ministério ou trabalho apostólico” , mas
estava referindo-se ao fato de Deus chamar e designar algumas
pessoas específicas para realizar um ministério único de evangelização
e de edificação nos primeiros dias da igreja.
Profetas
O segundo dos “melhores dons” relacionados em Efésios 4 e em 1
Coríntios 12 é a profecia. Literalmente, “profetizar” significa “falar
em nome de” ou “falar ousadamente”, assim, um profeta era uma
pessoa que falava “em nome de alguém” .
Todavia, tal como empregada no Antigo e no Novo Testamentos,
a palavra “profeta” designava uma função bem definida. Essa pessoa
não era um simples mestre ou pregador como os outros. Ao contrário,
ele tinha acesso a informações por meio de um dom sobrenatural da
parte de Deus. Mediante inspiração divina, ele era capaz de transmitir
informações pertinentes a acontecimentos futuros. Isso é ilustrado com
abundância no Novo Testamento.
Alguns dos apóstolos, se não todos, também eram profetas. Eles
não apenas confirmaram isso em seu ministério apostólico tal como se
encontra registrado em Atos, mas também Pedro, Tiago, João, Mateus
e Paulo, todos eles deixaram para nós uma porção considerável do
Novo Testamento que certamente inclui informações transmitidas
mediante o dom de profecia.
Porém, nos dias do Novo Testamento, também houve indivíduos
que não eram apóstolos no sentido primeiro da palavra, mas rece­
beram o dom de profecia. A primeira referência a um profeta do
Novo Testamento que não era apóstolo ocorre em Atos 11. Alguns
chegaram a Antioquia, vindos de Jerusalém. Lucas identificou um
deles como Ágabo, que se apresentou, dando a entender, “pelo
Espírito, que estava para vir grande fome por todo o mundo” (At
11.28). Em decorrência dessa declaração, a igreja preparou-se para
esse acontecimento futuro, e os fiéis puderam ajudar os cristãos de
outras partes do país, que passavam por necessidade (11.29, 30).
Ágabo voltou a aparecer mais tarde em Atos e, mais uma vez,
demonstrou seu dom de profecia quando advertiu Paulo acerca dos
problemas e das perseguições que encontraria em Jerusalém (21.10­
14).
Houve outros indivíduos, citados nominalmente em Atos, que
tinham essa mesma capacidade divina de Ágabo. Na igreja de Antio­
quia, Barnabé, Simeão, Lúcio, Manaém e Saulo foram classificados
como profetas (13.1).
Judas e Silas, “notáveis entre os irmãos” da igreja de Jerusalém
(15.22), também foram citados como detentores desse dom de
profecia. Quando chegaram a Antioquia para entregar a carta de
Jerusalém, lemos que eles “eram também profetas ”e que “consolaram
os irmãos com muitos conselhos e os fortaleceram” (15.32).
Esse dom profético especial não se limitava a homens. Filipe, um
dos sete homens designados em Atos 6 para cuidar da distribuição dos
mantimentos, tinha quatro filhas, sendo que todas “profetizavam”
(21.9). Dessa forma, as mulheres também eram receptáculos dessa
capacidade divina. Isso, sem dúvida, também acontecia na igreja de
Corinto (1 Co 14.27-35).
Com certeza, Lucas, Marcos e Judas também possuíam o dom de
profecia, embora não se mencione especificamente esse fato. No
entanto, demonstraram esse dom nas revelações proféticas incor­
poradas em seus escritos no Novo Testamento.
Com base nos dados bíblicos, podemos concluir que o dom de
profecia mencionado em 1 Coríntios 12 e em Efésios 4 se referia a um
grupo especial de indivíduos que, nos dias do Novo Testamento,
receberam revelações especiais da parte de Deus a fim de ajudar a
nova igreja recém-nascida a crescer e a desenvolver-se até se tornar
um organismo maduro. Assim como o dom de apóstolo, este também
era um dom “fundamental” . Vocês foram “edificados sobre o
fundamento dos apóstolos eprofetas”, escreveu Paula aos efésios.

Evangelistas
O dom de evangelização é mencionado na passagem de Efésios, mas
não na de Coríntios. Sem dúvida, era classificado como um dos
“melhores dons” , pois estava incluído na lista de Efésios.
Literalmente, a palavra evangelista significa “alguém que traz boas
notícias” . No Novo Testamento, esses indivíduos traziam as boas
notícias do evangelho — as boas notícias da vinda, da morte e da
ressurreição de Jesus Cristo. No entanto, dentre todos os dons
relacionados como os “melhores dons” , a evangelização é a mais
difícil de associar a indivíduos específicos no Novo Testamento. Há
somente uma referência bem clara a um “evangelista” , Filipe, um dos
sete e o pai das quatro profetisas (At 21.9). Há, no entanto, ampla
demonstração de seu dom no ministério que realiza em Samaria (8.5­
13) e especialmente em seu encontro com o eunuco etíope (8.26-30).
Filipe não era uma pessoa comum no corpo de Cristo. Seu dom de
evangelização tornava-o alguém especial. Ele, da mesma forma que os
apóstolos e os profetas, foi especialmente dotado de capacidades
incomuns e sobrenaturais. Ele expulsou espíritos imundos e curou
coxos e paralíticos (8.7). Recebeu do Senhor uma revelação direta a
respeito do etíope (8.29) e, depois que ele levou o eunuco a Cristo,
“o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe” (8.39). “Arrebatou” é uma
palavra forte, dando a idéia de ser capturado ou tomado. Claro que o
Senhor retirou Filipe em corpo desse lugar e, miraculosamente, ele se
viu num local diferente e prosseguiu seu trabalho evangelístico, a
saber, o de pregar o evangelho (8.40).
Embora no Novo Testamento haja poucas referências explícitas a
“evangelistas” , existem outros meios de identificar aqueles que
possuíam esse dom. Por exemplo, havia “alguns [...] de Chipre e de
Cirene, [...] que foram até Antioquia [e] falavam também aos gregos,
anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus” (11.20). A oração
“anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus” na realidade identifica
o ministério evangelístico deles, pois de fato tem o sentido de
“evangelizar” . Vemos os resultados de sua obra evangelística
porquanto “muitos [...] se converteram ao Senhor” (11.21).
Os apóstolos, e especialmente Paulo, também demonstraram o dom
de evangelização. Na realidade, todos esses pioneiros do Novo
Testamento eram homens de múltiplos dons. Isso fornece-nos uma
pista significativa para entendermos por que a lista dos “melhores
dons” não tem um paralelo exato nos textos de Coríntios e de Efésios.
Isso ficará mais óbvio quando examinarmos o dom de ensino
mencionado a seguir na lista.

Mestres e pastores-mestres
A palavra didaskalos, ou mestre, foi empregada no Novo Testamento
para descrever uma pessoa que, em sentido mais abrangente, ensinava
as doutrinas cristãs fundamentais. A palavra pastor (poimên) designa
aquele que cuida do rebanho e inclui o conceito de “apascentar” . Seria
impossível ser um bom pastor sem “alimentar o rebanho de Deus” .
Os apóstolos também tinham o dom de ensino (4.2; 5.21, 25, 28).
Acerca de seu ministério naqueles dias iniciais em Jerusalém, lemos:
“E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de
ensinar, e de pregar Jesus, o Cristo” (5.42).
Alguns dos profetas do Novo Testamento que não eram apóstolos
no sentido básico da palavra também possuíam o dom de ensino.
Barnabé, Simeão, Lúcio e Manaém são chamados profetas e mestres
(13.1). Saulo (mais tarde chamado Paulo) também foi incluído nessa
lista, provavelmente antes de a chamada apostólica tornar-se clara para
ele. Vemos Barnabé e Saulo utilizando seus dons de ensino em
Antioquia. Lucas nos conta que “por todo um ano se reuniram naquela
igreja, e ensinaram numerosa multidão” (11.26).
Isso leva-nos a observar com maior cuidado a razão pela qual, ao
classificar os “melhores dons” , Paulo especifica somente “mestres” na
passagem de Coríntios e relaciona “pastores e mestres” na lista de
Efésios. Na verdade, ele está fazendo o mesmo que Lucas fez em Atos
13.1, quando identificou esses quatro homens como profetas e
mestres. Em outras palavras, é essa a razão de vermos semelhanças,
mas também diferenças, nas duas listas. Conforme já demonstramos,
no início da igreja, alguns homens eram apóstolos-profetas-evan-
gelistas-pastores-mestres. Paulo, ao que parece, possuía todos os cinco
dons. Outros, no entanto, eram profetas-mestres. E também alguns
eram classificados apenas como profetas. Parece que ainda outros
foram evangelistas-mestres. Apoio enquadra-se nessa categoria. Ele
era um “homem eloqüente e poderoso nas Escrituras” (18.24).
Enquanto esteve na Acaia, “auxiliou muito aqueles que mediante a
graça haviam crido; porque com grande poder convencia publicamente
os judeus, provando por meio das Escrituras que o Cristo é Jesus”
(18.27, 28).
Parece que aqui temos um ministério combinado de ensino e de
evangelização apologética. Paulo também fez referência a esse
ministério combinado em Corinto quando indagou “Quem é Apoio?
e quem é Paulo” . Então deu a seguinte resposta a essas perguntas:
“Servos por meio de quem crestes [...]. Eu plantei, Apoio regou; mas
o crescimento veio de Deus” (1 Co 3.5, 6). Observe que,
evidentemente, os coríntios tinham conhecido Jesus Cristo mediante
o ministério evangelístico tanto de Apoio como de Paulo, pois vieram
a “crer” por intermédio do ministério desses homens. Mas repare
também que tanto um como o outro tiveram um ministério de
edificação entre essas pessoas, porquanto Paulo plantou a semente e
Apoio continuou o ministério de Paulo, regando a semente.
Timóteo é o exemplo de pastor-mestre que se destaca no Novo
Testamento. Paulo empregou Timóteo nessa função muitas vezes,
deixando-o para ajudar uma igreja nova e atribulada a aprumar-se
espiritualmente. Ele o enviou de volta a Tessalônica para fortalecer e
encorajar aqueles cristãos na fé (1 Ts 3.2). Da mesma forma, pediu-
lhe que fosse a Corinto para ensinar as doutrinas que ele mesmo,
Paulo, estava ensinando “por toda parte [...] em cada igreja” (1 Co
4.17). Pediu-lhe que permanecesse em Éfeso para admoestar “certas
pessoas a fim de que não ensinem outra doutrina” (1 Tm 1.3).
Mais tarde Paulo escreveu a Timóteo: “E o que de minha parte
ouviste, através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a
homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2 Tm 2.2).
Talvez Paulo estivesse referindo-se aos dons de pastor-mestre em suas
duas cartas a esse jovem. Parece haver alguns indícios que favorecem
essa conclusão. Repare no contexto em que Paulo faz referência ao
dom de Timóteo.

Ordena e ensina estas cousas. Ninguém despreze a tua mocidade; pelo


contrário, toma-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no
amor, na fé, na pureza. Até à minha chegada, aplica-te à leitura [pública
das Escrituras], à exortação, ao ensino. Não te faças negligente para com
o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a
imposição das mãos do presbitério. Medita estas cousas, e nelas sê
diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto. Tem cuidado
de ti mesmo e da doutrina [ensino]. Continua nestes deveres; porque,
fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes (1 Tm
4.11-16).

Observe também que, em sua segunda carta, Paulo advertiu


Timóteo a não ser tímido, mas a reavivar “o dom de Deus” (2 Tm
1.6). Indubitavelmente ele havia sido criticado por ser jovem (1 Tm
4.12). Seu sensível coração de pastor podia ter feito com que ele se
retraísse, negligenciando suas responsabilidades. É lógico que Paulo
o encorajasse a não se retrair, mas a prosseguir em seu ministério
pastoral e didático com ousadia.
Provavelmente Tito também foi um pastor-mestre do Novo Testa­
mento. Ele, tal como Timóteo, esteve imediatamente associado a
Paulo em suas viagens missionárias (2 Co 2.13; 7.6, 7, 13, 14). Paulo
descreveu-o como “verdadeiro filho, segundo a fé comum” (Tt 1.4)
e como seu “companheiro e cooperador” (2 Co 8.23). Paulo deixou
Tito em Creta para realizar um ministério pastoral-didático, para pôr
as coisas em ordem e para constituir presbíteros em cada cidade (Tt
1.5). Enquanto estivesse ali, Tito devia falar “o que convém à sã
doutrina” (2.1) e exortar e repreender “com toda a autoridade” (2.15).
Pode ter havido outros homens intimamente associados a Paulo que
tenham sido pastores-mestres como Timóteo e Tito. Lucas permaneceu
em Filipos para ajudar a formar a nova igreja. E Paulo fez referências
a Gaio, Aristarco e Erasto, que podem ter desempenhado função
semelhante.
Concluindo, vemos várias combinações de dons atuando em Atos.
É por isso que Paulo não se preocupava em apresentar uma uni­
formidade total, mesmo ao relacionar os melhores dons. Há, contudo,
uma seqüência natural, clara em ambas as passagens, partindo dos
dons fundamentais (apóstolos, profetas e evangelistas) até aqueles
empregados mais especificamente na fundação e no fortalecimento das
igrejas (pastores e mestres). Em vista de todas as combinações, seria
perigoso tentar produzir uma lista unifome. Aparentemente, é a razão
de Paulo falar em “pastores e mestres” . Nem todos possuíam essa
combinação de dons. Conquanto Apoio tivesse o dom de ensino,
provavelmente não possuía o dom de pastor. É possível que Silas
tenha sido profeta, e pastor, e mestre. Ele é claramente identificado
como profeta (At 15.32) e certamente tomou parte num ministério de
ensino em suas viagens com Paulo (15.40, 41). E, além disso,
obviamente ele envolveu-se num ministério de pastorado enquanto
permaneceu em Tessalônica (1 Ts 1.1; 2 Ts 1.1).
É importante observar mais uma vez que Paulo exortou a igreja de
Corinto a dar destaque aos “melhores dons” . Como corpo, os cristãos
de Corinto deviam desejar a ajuda daqueles indivíduos que possuíssem
esses dons. Deviam estimular aqueles que eram apóstolos, profetas e
mestres a realizarem um ministério entre eles, para poderem ser
edificados, crescer e amadurecer.10

Resumo
Um estudo atento de Atos deixa pouca margem a dúvidas quanto ao
que significa possuir os melhores dons. Na maioria das vezes, as
pessoas que possuíam esses dons foram usadas por Deus para fundar
e fortalecer a igreja. Os apóstolos eram aqueles especialmente
chamados, designados e treinados por Cristo para constituir um
pequeno núcleo que daria origem à igreja.
Os profetas, também classificados entre os que haviam recebido um
ministério fundamental, tinham acesso, mediante revelação direta, a
informações da parte de Deus e eram capazes de predizer
acontecimentos futuros a fim de ajudar o corpo de Cristo em seu
crescimento e desenvolvimento. A maioria dos apóstolos também era
profeta.
Os evangelistas haviam recebido capacidades especiais para pregar
o evangelho. Assim, em sua maioria, os apóstolos (no sentido básico
da palavra) também eram evangelistas.
Os mestres eram aqueles que transmitiam a verdade de Deus de
forma abrangente. O dom foi empregado tanto na evangelização
quanto na edificação.
Nos primórdios da igreja, antes do estabelecimento do cânon,
aparentemente, aqueles que possuíam o dom de ensino tinham acesso
a verdades doutrinárias mediante revelação direta de Deus. Os
apóstolos, de modo particular, conseguiam recordar aquilo que haviam
aprendido de Jesus por intermédio do Espírito Santo. Quando estava
com eles, Jesus disse: “Isto vos tenho dito, estando ainda convosco;
mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu
nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o
que vos tenho dito” (Jo 14. 25, 26).
Os pastores eram aqueles que davam ajuda especial às novas
igrejas. Em sua maioria, também eram mestres, que ajudavam tanto
na organização da igreja quanto em seu crescimento mediante o
processo de instrução." Na igreja do século i, tinham um ministério
fundamental, juntamente com os demais, que possuíam os melhores
dons. Iam de igreja em igreja, ajudando na escolha da liderança local
e garantindo que a igreja aprendesse as doutrinas básicas do
cristianismo.
Parece, portanto, que esses melhores dons de 1 Coríntios 12 e de
Efésios 4 foram, em sentido básico, idealizados por Deus para o
ministério de “formação de igrejas” nos primeiros dias do cristianismo
c estiveram diretamente relacionados com a igreja universal. Eram
dons especiais dados antes da composição do Novo Testamento. Esses
primeiros líderes cristãos receberam capacidades e habilidades
sobrenaturais, incluindo conhecimento e destreza, a fim de equipar “os
santos para o desempenho do seu serviço” . Sempre que se formavam
igrejas locais, e à medida que as pessoas vinham a Cristo e formavam
esses grupos de fiéis em determinados pontos geográficos, Deus
instituía sua segunda fase ou plano para a liderança da igreja — um
plano claramente voltado para a igreja local. Conforme será mostrado,
esse novo fenômeno requeria líderes que, embora não classificados
como indivíduos que possuíssem os melhores dons, deviam, em
sentido secundário, desempenhar um ministério que incluísse uma
função similar à daqueles que realmente possuíam esses melhores
dons.

Notas

1 É muito esclarecedor estudar Atos acompanhando a maneira como os


apóstolos empregavam o Antigo Testamento para ganhar as pessoas para
Cristo.
2 Muitos estudiosos acreditam que Tiago e Gálatas representam algumas das
epístolas mais antigas do Novo Testamento, provavelmente escritas entre 45
e 50 d.C.
1 Datas aproximadas: 1 e 2 Tessalonicenses e 1 Coríntios — 52 d.C.; 2 Co­
ríntios — 54 d.C.; Romanos — 55 d.C.; Colossenses, Efésios e Filemom —
56 d.C.; Filipenses — 60 d.C.
4 Merrill C. T e n n e y , O Novo Testamento, sua origem e análise, p. 25.
5 A conclusão de que Paulo está classificando apóstolos, profetas e mestres
como os “melhores dons” baseia-se em algumas observações. 1) Paulo
estabeleceu uma ordem definida de importância quando disse: “primeiramente
apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres”. 2) Além
disso, ele colocou esses três dons numa categoria à parte quando prosseguiu
sua lista dizendo: “depois operadores de milagres, depois dons de curar,
socorros, governos, variedades de línguas” . 3) Repare também que Paulo não
estava instruindo esses cristãos a buscar esses dons individualmente. Em vez
disso, ele empregou a segunda pessoa do plural no grego, o que deixa
claramente implícito que os coríntios, como grupo, deviam desejar que os
melhores dons, e não os menores, fossem empregados na igreja. O contexto
geral também confirma essa observação.
6 Veja também Gálatas 1.1, 11, 12; 2.8; 1 Coríntios 9.1, 2; 2 Coríntios
12.11, 12; 1 Timóteo 2.7; 2 Timóteo 1.11.
7 Embora Barnabé seja descrito como apóstolo (isto é, como alguém
envolvido num trabalho apostólico), aparentemente ele reconheceu existir um
grupo especial de homens designados como apóstolos e do qual não fazia
parte (At 9.27).
8 George W. P eters , A theology ofchurch growth, Zondervan Publishing
House, p. 17.
9 F. F. B r u c e , The book ofActs, Eerdmans, p. 175.
10 Alguns dos coríntios estavam rejeitando o ministério apostólico de Paulo
a favor de outros que estavam exercendo os menores dons.
11 Também é possível que o dom de pastor fosse sinônimo do dom de ensino.
Jamais se faz referência ao dom de pastor à parte do dom de ensino.
Ademais, conforme demonstraremos no próximo capítulo, a função de
“pastorear” sempre inclui “ensinar”.
10 A liderança
na igreja
do Novo
Testamento —
segunda fase

Conforme assinalamos no capítulo anterior, os líderes da igreja no


Novo Testamento enfrentaram alguns problemas incomuns nos
primeiros anos de existência da igreja. Não possuíam escritos ins­
pirados de onde pudessem extrair doutrinas caracteristicamente
neotestamentárias. É possível que, mesmo no final do século I, alguns
cristãos ainda não tivessem tido contato com todos os evangelhos, as
cartas de Paulo e as outras epístolas.1
Entretanto, Deus tinha um plano que permitiu que os apóstolos, os
profetas, os evangelistas, os pastores e os mestres equipassem “os
santos para o desempenho do seu serviço” — mesmo sem terem os
escritos do Novo Testamento. Ele outorgou a esses indivíduos
capacidades e habilidades sobrenaturais — que importavam tanto
conhecimento como destreza — para permitir que edificassem a igreja
(Ef 4.7-12).2
No entanto, à proporção que as igrejas iam sendo fundadas e
firmadas na fé, desdobrava-se um novo plano para a liderança da
igreja — um plano que, por razões práticas, é chamado de segunda
fase.

A liderança da igreja local


Atos, bem como parte do material das epístolas, demonstram
claramente que, em sua maioria, esses indivíduos que possuíam os
“melhores dons” — os de apóstolo, profeta, evangelista, pastor e
mestre — tinham um ministério abrangente. Faziam discípulos,
fundavam igrejas e iam de um grupo de fiéis para outro, ajudando-os
a firmar-se na fé.
A responsabilidade básica do pastor-mestre do século I era ajudar
a igreja nova e atribulada a organizar-se e a crescer espiritualmente.
Como mencionamos anteriormente, Timóteo foi um dos mais
destacados pastores-mestres do Novo Testamento. Quando a igreja de
Corinto estava debatendo-se na carnalidade e na imaturidade, Paulo
enviou Timóteo para ensinar-lhes (1 Co 4.17). Paulo também revelou
seus planos de enviá-lo a Filipos, para ministrar entre os cristãos dali
(Fp 2.19, 20). Ele o deixou em Éfeso para instruir e orientar os fiéis
(1 Tm 1.3). Em sua segunda viagem missionária, Paulo deixou
Timóteo em Beréia juntamente com Silas (At 17.14), ao que parece
para ajudar a formar a igreja. Na mesma viagem, depois de começar
a igreja em Tessalônica, Paulo enviou Timóteo de volta a essa igreja
para confirmar e exortar os seus membros (1 Ts 3.1, 2).
Timóteo e outros homens como ele, tais como Tito, serviam a
igreja do Novo Testamento quando o plano de Deus para a liderança
da igreja passava da primeira fase para a segunda. Instituíam a
segunda fase logo que houvesse na igreja local cristãos suficientemente
maduros para ser designados como presbíteros. Paulo e Barnabé
deram demonstração disso quando percorreram novamente o caminho
que tinham feito e retornaram às cidades em que haviam “feito muitos
discípulos” e então “em cada igreja [...] escolhiam presbíteros” (At
14.23; a r a e b l h ).

Presbíteros ou bispos?
A seguir encontram-se algumas observações importantes acerca desse
processo:
1. Esses líderes da igreja local são identificados nas Escrituras por
dois títulos básicos.
As duas palavras empregadas para descrever esses líderes espi­
rituais eram “bispo” (episkopos) e “presbítero” (ou “ancião” ; no
grego, presbyteros). As palavras eram usadas como sinônimos,
especialmente por Paulo.3
Na verdade, a palavra bispo significa “supervisor” . Essa palavra
era utilizada como título oficial entre os gregos, e Lightfoot lembra-
nos que, “na língua de Atenas, era usada especialmente para designar
comissários nomeados para governar novas colônias ou conquistas” .4
Os sinônimos da palavra bispo podem ser: supervisor, curador,
guardião ou superintendente.
A palavra presbítero, embora utilizada na literatura de muitas
sociedades, é encontrada com maior freqüência nos escritos que
descrevem as atividades do povo escolhido de Deus. Novamente,
Lightfoot faz alguns comentários significativos:

Durante a vida do legislador, nos dias dos juizes, ao longo de toda a


monarquia, durante o cativeiro, após o retomo, e sob o domínio romano,
os “presbíteros” aparecem como parte integrante do corpo governamental
do país[...]. Um conselho de “presbíteros” presidia... cada sinagoga
judaica. De modo que não era estranho que, quando a sinagoga cristã se
estabeleceu ao lado da sinagoga judaica, se adotasse uma organização
semelhante, modificada de acordo com as circunstâncias. Dessa forma,
a palavra que era familiar sob a antiga dispensação foi mantida sob a
nova.5

Além disso, a palavra presbítero aparece com maior freqüência no


Novo Testamento do que a palavra bispo, especialmente em Atos.
Lucas utilizou a palavra em referência aos “anciãos de Israel” ,6 e,
depois da fundação da igreja em Jerusalém e em outras partes do
mundo, foi utilizada para designar os “presbíteros da igreja“ .7 A
referência aos bispos aparece apenas uma vez em Atos, e isso ocorre
quando Paulo está discursando aos presbíteros de Éfeso (20.28). No
restante das vezes, aparece nas epístolas paulinas e, como acabamos
de dizer, a palavra é usada como sinônimo de presbítero.
Alguns acreditam que a palavra bispo faz referência à função e
presbítero (isto é, ancião) diz respeito ao homem ou à pessoa. Parece
existir explicação mais exata. Se Paulo desenvolveu um ministério
especial junto aos gentios e se empregou a palavra bispo com maior
freqüência do que qualquer outro escritor do Novo Testamento, parece
que fez isso para ter uma comunicação mais eficaz com o amálgama
de convertidos judeus e gentios na igreja do Novo Testamento.
Observe que a palavra é usada quando escreve aos Filipenses (Fp 1.1),
a Timóteo, que na época estava em Éfeso (1 Tm 3.1, 2), e a Tito, que
estava em Creta (Tt 1.7). Todas essas igrejas foram fundadas no
mundo pagão e eram formadas por convertidos judeus e gentios. Se
for assim, isso revela a sensibilidade de Paulo para com a cultura e a
importância de se comunicar na linguagem do povo. Ele desejava
levar os dois grupos à unidade, mostrar-lhes que não havia nenhuma
barreira nem “parede de separação” , mas, sim, “um novo homem” .
Cristo havia reconciliado “ambos em um só corpo com Deus” (Ef
2.14-16). Já não eram judeus e gregos, mas a “igreja de Deus” (1 Co
10.32).8
Paulo deixou implícito, portanto, que não importa se os chamamos
presbíteros (palavra bem conhecida dos judeus) ou bispos (palavra
bem conhecida dos gregos). O importante é o que caracterizava suas
vidas e o que faziam. O título era secundário; suas qualificações e
funções, fundamentais.9

2. Esses líderes espirituais deviam administrar e pastorear o povo


de Deus.
Usam-se, também, duas palavras para descrever as respon­
sabilidades gerais dos presbíteros. Eram governar e pastorear (ou
apascentarj . 10 “Governar” é palavra mais técnica, enquanto
“pastorear” e “apascentar” são conceitos mais vívidos e ilustrativos.

Governar a Igreja. Em seus escritos, Paulo empregou pela


primeira vez a palavra “governar” ao arrolar as qualificações dos
presbíteros. Repare que isso ocorreu quando ele se referia ao papel do
pai no contexto da família. O presbítero deve ser alguém “que governe
bem a sua própria casa” , escreveu Paulo (1 Tm 3.4). Ele então fez
uma correlação entre essa observação e a liderança de uma igreja
local. “Se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da
igreja de Deus?” (3.5).
Essa é uma observação muito significativa. Primeiramente, de­
monstra que, no pensamento de Paulo, há uma relação entre uma
“unidade familiar” e a “igreja local”. Muitas vezes, uma única família
era uma igreja em miniatura. O pai devia dirigir a família da mesma
forma que os presbíteros deviam dirigir a igreja. Aliás, em alguns
casos, o pai provavelmente era tanto pai como presbítero.
Em segundo lugar, é importante observar que a ilustração de Paulo
nos oferece uma definição funcional da palavra governar. É um
conceito totalmente abrangente. Nada há que não esteja incluído nessa
tarefa. Acarreta uma supervisão total e completa da família ou da
igreja. Em outras palavras, Deus considera que o pai é responsável
pela liderança geral de um lar, e que os presbíteros são os respon­
sáveis pela liderança geral de uma igreja.
Em terceiro lugar, essa relação entre a família e a igreja também
demonstra a importância de não se tentar elaborar uma filosofia de
ministério, seja para a igreja, seja para o lar, sem que se compreenda
essa relação. Isso quer dizer que Deus não determinou uma série de
princípios para a igreja e outra para a família. Pode-se dizer o mesmo
acerca do relacionamento marido—esposa, bem como da maneira
como um indivíduo cristão leva a vida dentro do corpo de Cristo.11
Em quarto lugar, essa relação família—igreja, conforme descrita
por Paulo, conduz a uma questão bem prática. Com base nas
Escrituras, fica claro que Deus jamais teve a intenção de que o lar
funcionasse com mais de um líder principal — o marido e pai.
Pensando especialmente na referência de Paulo à administração da
família e da igreja, será que isso implica que as igrejas locais também
necessitam de um líder principal? Precisamos analisar essa questão,
sobretudo em vista das várias opiniões que existem a seu respeito nas
igrejas de hoje. Mas, antes de qualquer coisa, precisamos de mais
dados bíblicos.

Pastorear o rebanho. Nas Escrituras, as palavras pastorear e


apascentar são utilizadas com mais freqüência do que as palavras
governar e presidir para indicar a responsabilidade geral de um
presbítero.12 Esse conceito era significativo para os cristãos do século
i, que conheciam, por experiência própria, o relacionamento entre um
pastor e suas ovelhas. Infelizmente, muitos cristãos do século XX não
captam todo o significado desse tipo de analogia, conforme Phillip
Keller assinala em seu livro agradável e informativo, Nada Me
Faltará. Ele afirma: “Muitos dos que lêem ou estudam as Escrituras
no século x x provêm de um centro urbano, vivendo em ambientes
criados pelo homem. As pessoas que moram nas cidades, princi­
palmente, muitas vezes não se acham bem familiarizadas com assuntos
tais como gado, colheita, terra, fruto ou vida animal” .13
O apóstolo Pedro usou essa analogia de modo mais vívido do que
qualquer outro escritor do Novo Testamento. Em sua primeira
epístola, ele exortou os presbíteros: “Pastoreai o rebanho de Deus” .
Eles deviam fazê-lo com liberdade (“não por constrangidos”) e com
motivações puras (“nem por sórdida ganância”). Além disso, não
deviam realizar essa tarefa com uma atitude autoritária, sendo o
senhor absoluto daqueles que lhes haviam sido “confiados” . Em vez
disso, deviam ser “modelos do rebanho” (1 Pe 5.1-3). Pedro então
concluiu esse parágrafo sobre liderança pastoral, referindo-se ao maior
Pastor que já andou sobre a face da terra — o próprio Jesus Cristo.
“Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a
imarcescível coroa da glória”, escreveu Pedro (5.4).
Tal como acontece com a palavra governar, pastorear é uma
palavra de sentido bem abrangente. O pastor é responsável pelo bem-
estar total de suas ovelhas. Ele deve “guardá-las” dos “lobos vorazes”
— falsos mestres (At 20.28, 29). Deve alimentá-las, anunciando e
ensinando a elas “todo o desígnio de Deus” (20.27; Tt 1.9). Deve
cuidar delas e orar por elas quando estão doentes (Tg 5.14).
O salmo 23 ilustra a responsabilidade do pastor de forma mais
completa que qualquer outra passagem das Escrituras. A descrição
feita por Davi do cuidado pessoal de Deus para com ele fornece um
magnífico exemplo para os homens que atuam como pastores do povo
de Deus:
Salmo 23

nada me faltará.” Ele satisfaz minhas necessidades


espirituais.

“Ele me faz repousar em pastos Ele me faz sentir seguro e descan­


verdejantes.” sado.

“Leva-me para junto das águas de Ele cuida de minha sede espiritual.
descanso...”

“ ... refrigera-me a alma.” Ele me fortalece quando fracasso e


fico desanimado.

“Guia-me pelas veredas da jus­ Ele me guia para a vontade de


tiça...” Deus.

“Ainda que eu ande pelo vale da Ele fica a meu lado nas horas de
sombra da morte, não temerei mal dificuldade e de perigo.
nenhum, porque tu estás comi­
go...”

“... a tua vara e o teu cajado me Ele me disciplina com amor quan­
consolam. ” do me afasto da vontade de Deus.

“Preparas-me uma mesa na pre­ Ele fornece alimento espiritual em


sença dos meus adversários...” meio a um mundo que se banque­
teia com o conhecimento mundano.

“... unges-me a cabeça com ó­ Ele proporciona cura para minhas


leo...” dores e feridas.

Assim, um presbítero pastoreia e governa seu povo

• satisfazendo suas necessidades espirituais;


• fazendo-o sentir-se seguro e descansado;
• cuidando de sua sede espiritual;
• fortalecendo-o quando fracassa e está desanimado;
• guiando-o para a vontade de Deus;
• ficando ao seu lado nas horas de dificuldade e de perigo;
• disciplinando-o com amor quando se afasta;
• fornecendo-lhe alimento espiritual e
• proporcionando-lhe cura para as dores e as feridas.

“Governar” e “pastorear” descrevem, portanto, funções sinônimas.


São conceitos abrangentes que incluem funções mais específicas, tais
como ser um exemplo de imagem de Cristo, pregar o evangelho,
exortar e advertir os cristãos contra comportamentos inconvenientes,
ensinar a verdade de Deus e orar por aqueles que estão enfermos.
Esse é o significado que pudemos observar — esses líderes deviam
governar ou pastorear o povo de Deus.

3. Alguns desses líderes deviam ser remunerados por seu


ministério.
Na primeira carta a Timóteo, Paulo referiu-se especificamente a
essa responsabilidade da congregação. Ele escreveu que “devem ser
considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que
presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no
ensino” (1 Tm 5.17). Isso fica bem claro a partir do contexto. Após
essa exortação, Paulo citou o Antigo Testamento: “Pois a Escritura
declara: Não amordaces o boi, quando pisa o grão. E ainda: O
trabalhador é digno do seu salário” (5.18).
Essa é a base bíblica para os líderes espirituais identificados hoje
como pastores de tempo integral. Quando uma pessoa dedica a maior
parte de seu tempo ao ministério, geralmente não lhe sobra tempo para
ter um emprego regular a fim de poder sustentar a família. Se um
corpo de fiéis incentiva e aceita esse tipo de esforço, então essa igreja
é responsável por remunerar tal pessoa pelos esforços que faz.
Observe que esse é o versículo utilizado por alguns para determinar
duas funções dos presbíteros — “presbíteros que governam” e
“presbíteros que ensinam” . Não creio que a passagem esteja ensinando
essa dicotomia, nem que outros textos do Novo Testamento o façam.
Paulo simplesmente está dizendo que há presbíteros que, no de­
sempenho de sua função de “governar” ou “presidir” , ficam mais
desgastados nas áreas da pregação e do ensino. Quem trabalhou como
pastor de tempo integral, tendo essa responsabilidade básica, pode
confirmar que, na tarefa de governar ou pastorear, esses são os
aspectos que mais tomam tempo — isso para que a pregação e o
ensino sejam de qualidade.

4. É evidente que as igrejas do Novo Testamento tinham mais de


um presbítero ou bispo.
A essa altura o registro do Novo Testamento torna-se um tanto
quanto obscuro. A razão é que não conseguimos chegar a conclusões
precisas acerca das formas e dos padrões exatos das igrejas do Novo
Testamento. E, a menos que compreendamos suas estruturas, é difícil
fazer uma afirmação dogmática sobre como os presbíteros
desempenhavam suas funções.

Múltiplos presbíteros
Que podemos dizer com certeza acerca da existência de múltiplos
presbíteros em uma determinada igreja?
Primeiramente, é certo que a Bíblia sempre fala de “presbíteros”
da igreja, ou seja, a palavra vem no plural. A única exceção é quando
o presbítero é mencionado como pessoa (veja 1 Tm 3.1, 2), mas aí
também esse tipo de referência está sempre no contexto de plu­
ralidade.
Em segundo lugar, a palavra igreja, quando empregada para falar
de igrejas locais, foi usada pelos escritores bíblicos em referência a
todos os fiéis de determinada área, quer se reunissem regularmente,
quer não. Por exemplo, Lucas referiu-se à “igreja em Jerusalém” (At
8.1). Mas, pelos registros bíblicos, sabemos que os cristãos não
puderam continuar reunindo-se num só local. Não havia um prédio
suficientemente grande, nem teriam permissão para se reunir, caso
houvesse. O fato é que, no início, reuniam-se no templo (2.46a). Em
conseqüência, pouco depois da fundação da igreja, eles reuniram-se
junto ao pórtico de Salomão para ouvir Pedro pregar. Em
conseqüência, tanto Pedro quanto João foram presos (3.11; 4.1-3).
Finalmente, a perseguição atingiu toda a igreja, e Lucas registrou que
“todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia
e de Samaria” (8.1). Até isso ocorrer, em Jerusalém, o lugar normal
para reuniões eram as casas. Eles se reuniam “de casa em casa”
(2.46b). ^
A igreja de Éfeso dá-nos outro exemplo. Lucas referiu-se aos
“presbíteros da igreja” daquela cidade (20.17). Nessa passagem a
palavra presbítero está no plural, sendo usada em conjunto com um
singular, a igreja local, única, da mesma forma que em Jerusalém
(21.28). Mas isso não se refere ao fato de que a igreja possuísse um
local de reuniões permanente ou mesmo temporário, como é comum
em nossa cultura americana no século xx. E verdade que Paulo se
reuniu com cristãos (e provavelmente não-cristãos) diariamente na
escola de Tirano durante um período de dois anos (19.9, 10). Mas o
contexto deixa claro que esse não era o lugar em que a igreja se
reunia regularmente para comunhão, adoração e ensino. Em vez disso,
sem dúvida também se reunia em lares. '
O fato é que não conseguimos encontrar nenhum registro sobre
prédios de igrejas, tal como estamos acostumados a pensar neles,
senão nalgum momento do século III. Aliás, um dos primeiros prédios
utilizados basicamente como lugar de reuniões regulares dos cristãos
foi descoberto por arqueólogos nas ruínas da antiga cidade de Dura-
Europus, no deserto da Síria. Era usada como residência de uma
pessoa de posses. A data da construção seria 232-233 d.C .14
Antes de tirar alguma conclusão, examine mais um exemplo do
Novo Testamento. Paulo deixou Tito em Creta para ajudar essas novas
igrejas a se organizar. O processo era nomear “presbíteros [...] em
cada cidade” (Tt 1.5). Mais uma vez encontramos a palavra
presbítero no plural. Mas também temos menção a mais de uma
cidade. De modo que podemos concluir somente uma coisa: Tito devia
nomear mais de um presbítero em cada cidade.
Presumindo-se que as “igrejas-lares” eram a norma quanto ao local
de reunião das igrejas em Creta, da mesma forma que em outros
locais no mundo do Novo Testamento, podemos agora levantar
algumas indagações interessantes (veja a figura 14).
1. Havia somente um presbítero para cada igreja-lar? Em caso
afirmativo, isso certamente não estaria contradizendo a menção
anterior à pluralidade de presbíteros em Jerusalém ou em Éfeso.
Simplesmente significaria que haveria mais de uma igreja-lar em cada
cidade.
2. Havia mais de um presbítero em cada igreja-lar? Talvez, mas
provavelmente só quando a igreja-lar era excepcionalmente grande.
Entretanto, existe essa possibilidade, visto que descobriram residências
utilizadas para reuniões da igreja, nas quais havia salas onde podiam
sentar-se até 500 pessoas. De uma perspectiva prática, provavelmente
seria preciso mais de um presbítero para governar e pastorear
adequadamente uma igreja desse tamanho.
Com base nesses exemplos bíblicos, podemos concluir com segu­
rança que havia mais de um presbítero nas igrejas de Jerusalém, de
Éfeso e das cidades de Creta. O mesmo seria o caso de Listra, de
Icônio e de Antioquia da Pisídia, visto que nessas cidades Paulo e
Barnabé “em cada igreja [...] escolhiam presbíteros ” (At 14.23; b l h ).
Mas não se pode afirmar mais que isso. Não há dados bíblicos
suficientes sobre a estrutura da igreja para explicar de forma mais
completa o conceito da pluralidade de presbíteros e como isso
funcionava de fato em determinada localidade. Podemos, no entanto,
fazer algumas considerações pragmáticas que dizem respeito à obser­
vação de que as igrejas do Novo Testamento aparentemente pos-

cidade

Figura 14: As estruturas do Novo Testamento


suíam mais de um presbítero ou bispo. Mas falaremos disso mais
tarde.

5. Esses líderes espirituais deviam delegar responsabilidades a


outros homens e mulheres qualificados que cuidariam das neces­
sidades culturais da igreja.
Os presbíteros não eram os únicos líderes nomeados para cuidar
dos negócios da igreja local nos dias do Novo Testamento. A Bíblia
também se refere a diáconos e diaconisas.
Na carta de Paulo a Timóteo, que na ocasião estava morando em
Éfeso, o apóstolo especificou, antes de tudo, as qualificações dos
presbíteros (1 Tm 3.1-7). E então especificou as qualificações dos
diáconos, homens com a função de servir (3.8-10, 12), e das
diaconisas, mulheres com a função de servir (3.I I ) .15

As funções dos diáconos e das diaconisas. Que deviam essas


pessoas fazer na igreja? Para alguns, pode ser surpreendente que os
escritores bíblicos não tenham especificado as funções desses líderes
como o fizeram em relação aos presbíteros. Em vez disso, as
Escrituras especificam qualificações para os dois postos, mas deixam
abertas as funções dos diáconos e das diaconisas. (Veja a figura 15.)

L íd e r e s Q u a l if ic a ç õ e s Fu n çõ es

Pastor e
Presbíteros ou
Especificadas mestre
supervisores
(supraculturais)

D iáco no s
Várias
e/ou Especificadas
(culturais)
diaconisas

Figura 15: Comparação da liderança

Por quê? Uma vez mais, vemos a importância de compreender a


cultura. O papel dos presbíteros é supracultural. Não importa o
contexto social, sempre será necessário que os cristãos sejam
governados, pastoreados, ensinados na Palavra de Deus e ministrados
em outras formas espirituais. Por outro lado, as necessidades culturais
variam de uma sociedade para outra e até de uma época para outra
numa mesma comunidade.
Exemplo disso é a igreja de Jerusalém. Quando as viúvas helenistas
estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de mantimentos
(At 6.1-7), os apóstolos indicaram sete homens para certificarem o
atendimento das necessidades das viúvas. Embora não tenham sido
diretamente identificados como diáconos, fica evidente que eles
estavam agindo como diáconos.16 Posteriormente, quando a igreja foi
dispersa, esses homens já não eram necessários para tal tarefa. De
fato, sabemos que pelo menos dois, Estêvão e Filipe, tornaram-se
evangelistas (At 7—8).
Repare em outro detalhe. Quando Paulo instruiu Tito a constituir
“presbíteros [...] em cada cidade” de Creta (Tt 1.5), nada disse a
respeito de diáconos. No entanto, quando Timóteo esteve em Éfeso,
Paulo deu instruções acerca de presbíteros e também de diáconos e de
diaconisas. A questão é: por quê? Com base num estudo de todos os
textos que tratam da liderança da igreja local, parece que a razão está
relacionada a necessidades culturais. A igreja de Éfeso já se tinha
firmado e vinha funcionando havia algum tempo. Quando a igreja
cresceu, com o tempo foram surgindo necessidades culturais. No en­
tanto, as igrejas de Creta eram novas. O primeiro passo era nomear
presbíteros que atendessem às necessidades espirituais, tal como Paulo
e Barnabé haviam feito em Listra, em Icônio e em Antioquia da
Pisídia (At 14.21-23). A implicação é clara. Os diáconos seriam
nomeados em Creta quando surgisse a necessidade.

6. Esses líderes espirituais deviam ser nomeados de acordo com


sua condição espiritual.
Há duas passagens que especificam as qualidades dos presbíteros
(1 Tm 3.1-13; Tt 1.5-9, NVi). A carta de Paulo a Timóteo contém as
qualificações de presbíteros, diáconos e diaconisas. Sua Carta a Tito
contém apenas as qualificações dos presbíteros.
Embora cada “perfil de maturidade” dos presbíteros seja completo
em si mesmo e, em essência, seja qualitativamente igual ao outro, é
útil juntá-los para termos uma perspectiva mais completa daquilo que
Deus espera que os líderes espirituais reflitam com suas vidas. Esta é
a lista conjunta:17
1. Irrepreensível (1 Tm 3.2; Tt 1.6), ou seja, sem culpa ou de boa fama.
Não devia haver margem para acusar tal homem de comportamento
cristão impróprio. Em resumo, isso significa ter boa reputação. E a
qualificação de maior importância, aparecendo no topo de cada lista.

2. Marido de uma só mulher (1 Tm 3.2; Tt 1.6), ou seja, sem


envolvimento com mais de uma mulher. Numa cultura onde os homens
freqüentemente possuíam mais de uma mulher em suas vidas, Paulo
deixou claro que um presbítero da igreja devia ser um “homem de uma
só mulher” — leal a sua esposa e somente a ela.

Dessa maneira, não parece que Paulo esteja-se referindo à poligamia,


visto que ter mais de uma esposa era ilegal no Império Romano. Também
não parece que esteja referindo-se ao divórcio e a um novo casamento.
Aparentemente Paulo está declarando um fato simples: numa cultura em
que os homens casados freqüentemente se envolviam sexualmente com
outras mulheres, que não suas esposas legítimas, o cristão devia ser um
“homem de uma só mulher” . E, visto que alguns desses novos cristãos
não modificavam seus estilos de vida imediatamente, Paulo deixou claro
que jamais se devia colocar em função de liderança na igreja um homem
que ainda violasse esse padrão moral.18

3. Sóbrio (1 Tm 3.2; Tt 1.8), ou seja, que tem domínio próprio, que sabe
controlar-se. Não deve ser um homem escravizado a si mesmo e aos
desejos da carne. Além disso, não deve ser dado a desvios. Enxerga
claramente para onde a história está indo. Percebe que sua principal
preocupação deve ser cumprir a grande comissão do Senhor, não importa
qual seja sua ocupação. Assim, não deixa que os interesses morais,
políticos, materiais ou sociais o afastem do propósito básico de sua
vida.19

4. Deve ser prudente (1 Tm 3.2; Tt 1.8), ou seja, sensato, sábio e


equilibrado em seus juízos. Não deve ser dado a decisões apressadas e
superficiais, baseadas num pensamento imaturo. Nem pensa “de si mesmo
além do que convém”. Pelo contrário, ele tem “uma justa estima” (Rm
12.3; B J).20

5. Respeitável (1 Tm 3.2), ou seja, deve ter uma vida ordeira. Deve


revelar bom comportamento. A palavra respeitável é tradução da palavra
grega kosmios, da qual vem a palavra “cosmético”. Muitas vezes o verbo
kosmeõ é traduzido por “adornar”.
KOSMIOS KOSMEO

cosmético * * adornar

RESPEITÁVEL
Figura 16

Podemos, assim, ver o jogo de palavras feito por Paulo. Um cristão


que é respeitável “adorna o evangelho de Deus”. Sua vida é como um
“cosmético” para o evangelho. Um estilo de vida respeitável torna a
mensagem de Cristo atraente aos outros, assim como o cosmético
corretamente utilizado faz uma pessoa ser atraente para outras.

6. Ele deve ser hospitaleiro (1 Tm 3.2; Tt 1.8), ou seja, deve ser altruísta
e desejar partilhar suas bênçãos materiais com os outros. Sua vida
familiar e sua vida pessoal devem ser caracterizadas pela “hospitalidade” .

7. Apto para ensinar (1 Tm 3.2; Tt 1.9), ou seja, capaz de comunicar a


verdade de Deus aos outros e de “exortar pelo reto ensino”, de maneira
sensata, que não resvale para a discussão nem tenha uma atitude defensiva
e melindrosa (2 Tm 2.24-26).21

8. Não apegado ao vinho (1 Tm 3.3; Tt 1.7), ou seja, não deve ser


escravo do vinho. É importante entender que Paulo não estava ensinando
a abstinência absoluta com essa declaração. A abstinência total pode ser
um padrão que alguns cristãos devem praticar, especialmente em certas
situações culturais, mas estabelecê-la como absoluto bíblico com base
nessa qualificação dos presbíteros não constitui uma interpretação bíblica
precisa. Pode-se elaborar um argumento melhor a favor da abstinência
total a partir do “princípio da pedra de tropeço” em Romanos 14, 15 e
em 1 Coríntios 8.
9. Não violento, mas amável (1 Tm 3.3; Tt 1.7), ou seja, não deve ser
um “brigão” ou uma pessoa dada a violência física ou verbal, mas alguém
caracterizado pela paciência e pela brandura.

10. Pacífico (1 Tm 3.3), ou seja, não dado a discussões e a polêmicas


egoísticas.

11. Não apegado ao dinheiro (1 Tm 3.3; Tt 1.7; 1 Pe 5.2), ou seja, livre


do amor ao dinheiro, “não cobiçoso de torpe ganância” nem movido por
“sórdida ganância”, nem mesquinho em relação às bênçãos materiais.

12. Alguém que governe bem a sua própria família, criando os filhos sob
disciplina, com todo respeito (1 Tm 3.4; Tt 1.6), ou seja, ele deve ter o
respeito da família e ser reconhecido como o líder do lar. Paulo
acrescenta: “Pois se alguém não sabe governar a própria casa, como
cuidará da igreja de Deus?” (1 Tm 3.5).

13. Não recém-convertido (1 Tm 3.6), ou seja, alguém que não seja novo
convertido nem criança em Cristo. Deve ser um cristão maduro e,
obviamente, alguém convertido há algum tempo — por um período
suficientemente longo para, pelo menos, demonstrar a realidade de sua
conversão e a profundidade de sua espiritualidade.

14. Boa reputação perante os de fora (1 Tm 3.7), ou seja, os incrédulos


também devem respeitar seu caráter e sua integridade.

15. Não orgulhoso (Tt 1.7), ou seja, não alguém rebelde, que esteja
sempre tentando fazer as coisas à sua própria maneira. Não deve ser uma
pessoa insensível, impondo idéias e opiniões próprias aos outros.

16. Não briguento (Tt 1.7), ou seja, alguém que não se irrita facilmente,
“perdendo as estribeiras”. Ele deve controlar os ânimos. Quando fica
irado (e todos ficamos), não deve pecar, deixando que o sol se ponha
sobre a sua ira (Ef 4.26).

17. Amigo do bem (Tt 1.8), ou seja, não deve desejar e buscar as coisas
más e pecaminosas. Deve ser o tipo de pessoa que deseja fazer a vontade
de Deus em tudo (1 Pe 5.2).
18. Justo (Tt 1.8), ou seja, deve ser imparcial. Deve ser alguém que
consiga fazer juízos objetivos, baseados em princípios justos e santos.

19. Consagrado (Tt 1.8), ou seja, santo e separado do pecado.

20. Apegado à mensagem fiel (Tt 1.9), ou seja, deve ser estável em sua
fé e obediente à Palavra de Deus em todos os aspectos. Não deve ser
hipócrita, ensinando uma coisa e vivendo outra.

Paulo também incluiu, em 1 Timóteo 3, uma lista das qualidades


dos diáconos e das diaconisas. Repare na semelhança com as quali­
ficações dos presbíteros:

D iá c o n o s
1. Respeitáveis (1 Tm 3.8)
2. De uma só palavra (3.8)
3. Não inclinados a muito vinho (3.8)
4. Não cobiçosos de sórdida ganância (3.8)
5. Conservando o mistério da fé com a consciência limpa (3.9)
6. Irrepreensíveis (3.10)
7. Maridos de uma só mulher (3.12)
8. Que governe bem seus filhos e sua própria casa (3.12)

D ia c o n is a s
1. Respeitáveis (3.11)
2. Não maldizentes (3.11)
3. Temperantes (3.11)
4. Fiéis em tudo (3.11)

7. Raramente as Escrituras descrevem especificamente a forma


como atuavam os presbíteros e os diáconos.
Quanto à descrição de como os líderes espirituais (em particular os
presbíteros) trabalhavam, os escritores da Bíblia nos contam menos a
respeito do assunto do que a respeito de qualquer outra área da vida
da igreja do Novo Testamento. Por exemplo, as funções dos pres­
bíteros estão claras, e as qualidades que devem ornar as suas vidas são
apresentadas minuciosamente. Mas a Bíblia não responde às seguintes
“perguntas sobre a forma” :
1. Qual deve ser a idade desses líderes?
2. Como devem ser escolhidos?
3. Quantos líderes deve haver numa única igreja?
4. Durante quanto tempo devem trabalhar?
5. Qual a melhor maneira de desempenharem suas funções?
6. Quando existe mais de um líder espiritual, quem tem a pri­
mazia?

Resumo
Que aprendemos sobre a segunda fase do plano de Deus para a
liderança na igreja do Novo Testamento?
1. Deus não nos prende a títulos específicos para os nossos líderes
espirituais na igreja.
2. Os líderes espirituais devem governar e pastorear o povo de Deus.
3. Os líderes espirituais que gastam muito tempo no ministério
devem receber ajuda financeira.
4. Quando possível, as igrejas devem ter mais de um líder espiritual
para servir de modelo de vida cristã.
5. Quando necessário, os líderes espirituais devem delegar respon­
sabilidades a outros líderes qualificados para que cuidem das
necessidades culturais.
6. Todos os líderes da igreja devem estar espiritual e psicolo­
gicamente qualificados para liderar.
7. Devem-se desenvolver formas apropriadas a culturas específicas,
para que os líderes da igreja desempenhem suas funções da melhor
maneira possível.

Notas

1Acerca do cânon do Novo Testamento, Tenney observa: “ ... É evidente que


nem todos os atuais livros do Novo Testamento eram conhecidos ou aceitos
por todas as igrejas do Oriente e do Ocidente durante os primeiros quatro
séculos da era cristã”. (Merrill C. T e n n e y , O N o v o Testamento, sua origem
e análise, p. 438.)
2 Todos os membros do corpo de Cristo receberam dons espirituais. Contudo,
conforme vimos no capítulo anterior, os “melhores dons” eram importantes
dentro do plano de Deus para o “aperfeiçoamento dos santos para o
desempenho do seu serviço”, e devia dar-se a prioridade à manifestação
desses dons nas igrejas locais.
3 Compare Atos 20.17 com 20.28; Tito 1.5 com 1.7; 1 Timóteo 3.1, 2 com
1 Timóteo 5.17, 19.
4 J. B. L i g h t f o o t , Saint Paul: The Epistle to the Philippians, McMillan, p.
95.
5 Ibid., p. 96.
6 Veja Atos 4.5, 8, 23; 6.12; 23.14; 24.1; 25.15.
7 Observe que, quando empregada para referir-se aos “presbíteros da igreja”,
na maioria das vezes, a palavra é utilizada em relação aos presbíteros da
igreja de Jerusalém, que era constituída basicamente de judeus cristãos. (Veja
Atos 11.30; 14.23; 15.2, 4, 6, 22, 23; 16.4; 20.17; 21.18). Em Apocalipse
também ocorrem várias referências aos presbíteros.
8 Há três passagens básicas que fazem referência a bispos e presbíteros: 1
Timóteo 3.1-7; Tito 1.5-10; 1 Pedro 5.1-5. Tiago 5.14 faz alusão à função
dos presbíteros.
9 O único autor da Bíblia que registrou a palavra “bispo” como sinônimo de
presbítero foi Lucas. Significativamente, ele utilizou a palavra para descrever
os líderes espirituais de Éfeso (At 20.17), e depois citou Paulo, que se dirigiu
a esses líderes como “bispos” (20.28). Também é interessante notar que
Lucas era um gentio convertido e devia compreender essa adaptação cultural.
10 Visto que a palavra “presbítero” é usada com mais freqüência em nossa
cultura, será usada neste livro, daqui para a frente, para descrever os líderes
da igreja local. Na Tealidade, muitas vezes a palavTa bispo é empregada com
sentido diferente do que tinha no Novo Testamento. Hoje, freqüentemente se
refere a um indivíduo responsável pela supervisão de um grupo de igrejas
e/ou pastores. A palavra presbítero, entretanto, continua a ser usada de forma
similar à do Novo Testamento. Conseqüentemente, a palavra presbítero é
mais aceita por muitos evangélicos.
11 Veja uma vez mais a seção introdutória deste livro, nas páginas 26-9,onde
se descreve de forma mais completa esse inter-relacionamento, no tópico “A
renovação bíblica”.
12A palavra presidir, que vem da mesma palavra grega traduzida também por
“governar”, é empregada por Paulo em sua carta a Timóteo para descrever
os presbíteros remunerados financeiramente pelos seus esforços (1 Tm 5.17).
13 Phillip K eller , Nada me faltará, Betânia, p. 9.
14 Jack F in e g a n , Light from the ancietit past, v. 2, Princeton University
Press, p. 495-9.
15 Embora haja alguma ambigüidade acerca do papel das diaconisas, parece
que as “mulheres” mencionadas por Paulo em 1 Timóteo 3.11 eram aquelas
que atuavam como diaconisas (3.8). Tem-se a impressão de que Paulo estava
esboçando as qualificações dos homens e, então, com toda naturalidade,
inseriu a afirmação “da mesma sorte, quanto a mulheres [que estão numa
função de serviço], é necessário que” tenham certas qualificações. De outra
maneira, o fluxo do pensamento de Paulo seria interrompido por uma idéia
totalmente diferente — as “qualidades das mulheres cristãs em geral”. Se isso
procede, e tendo em vista o contexto, é válido indagar: “Qualificações para
que posição?” . Parece que a única resposta lógica a essa pergunta é:
“Diaconisas” . Deve-se notar que alguns crêem que Paulo estava referindo-se
às “esposas dos diáconos”. Mas, sendo assim, por que Paulo não especificou
as qualificações das “esposas dos presbíteros”? Tendo em vista a função de
um presbítero na igreja, devia parecer mais importante incluir as
qualificações das esposas dos presbíteros ou, pelo menos, incluí-las também.
16Esses homens foram nomeados para “servir as mesas”, e a palavra diácono
vem da palavra servir. Nesse sentido podemos legitimamente chamar tais
homens “diáconos”.
17 Para um estudo mais aprofundado dessas qualidades, veja Gene A . G e t z ,
A medida de um homem espiritual, Literatura Evangélica Internacional.
18 Veja Robert L. S a u c y , The husband of one wife, in: Bibliotheca Sacra,
131 (523): 229-40.
19 Veja, em 1 Tessalonicenses 5.1-11, um comentário que bem descreve essa
qualidade.
20 Veja Romanos 12.3, que descreve um cristão “sóbrio”.
21 Veja na página 182 uma definição abrangente do que significa ser “apto
para ensinar”.
corpo
em ação

Não podemos formular os princípios de liderança sem examinar


cuidadosamente outra importante dimensão das igrejas do Novo
Testamento — o corpo todo em ação. A igreja é uma entidade sem
paralelos. Mesmo em sua manifestação local, ela é muito mais que
uma organização. Cada grupo local de fiéis é constituído de membros
que devem estar em ação e fazer parte do todo. A igreja deve ser um
organismo dinâmico.
Existem algumas figuras de linguagem usadas para descrever a
igreja, mas nenhuma é tão expressiva quanto a palavra sõma ou
“corpo” .1 Embora uma analogia exclusivamente paulina, a palavra
aparece cerca de 30 vezes para ilustrar e descrever o corpo de Cristo
em ação. Em aproximadamente metade das vezes, Paulo empregou a
palavra literalmente para referir-se ao corpo físico. Nas demais vezes,
aplicou a palavra à “igreja” e chamou o povo de Deus de corpo de
Cristo. Ele descreveu a igreja como “muitos membros” , ainda que
“um só corpo” . No entanto, “nem todos os membros têm a mesma
função” (Rm 12.4). Todospossuem diferentes dons, “segundo a graça
que foi dada” por Cristo (12.6). Um membro do corpo não pode dizer
ao outro: “Não tenho necessidade de ti” (1 Co 12.21; ibb). Visto que
a igreja é “muitos membros, mas um só corpo” (12.20), todos os
membros devem contribuir para o crescimento do corpo. Qualquer
coisa que prejudique o “corpo em ação” prejudica o processo de
edificação.
Isso significa, antes de qualquer coisa, que cada membro do corpo
de Cristo é importante! Num sentido, cada membro é um líder,
chamado por Deus para ajudar os outros membros do corpo a crescer
e amadurecer. Cada “junta” deve funcionar e “cada parte” deve fazer
sua contribuição para a vida da igreja. Quando isso ocorre, o corpo
de Cristo edifica a si mesmo em amor (Ef 4.16).

Os dons espirituais
Ao estudar os conceitos do “corpo em ação” no Novo Testamento,
você não pode passar ao largo das referências aos “dons espirituais” .
Além do mais, existe um renovado interesse em torno desse assunto
na igreja do século XX. Isso é compreensível, pois há anos a igreja
evangélica vem negligenciando a importância do corpo vivo e do
cristianismo relacional. Passamos a depender do “pregador” e do
“pastor” para a “obra do ministério” .
Que realmente ensina a Bíblia sobre os dons espirituais? Muitos
tentaram responder a essa pergunta. Há anos alguns evangélicos têm
ensinado que todos os dons estão presentes na igreja de hoje. Eles
constituem um grande segmento do corpo de Cristo e identificam-se
como “cristãos carismáticos”.2 Há também um grande segmento que
se classifica como “não carismático” . Por outro lado, alguns não-
carismáticos acreditam que alguns dons estão presentes, mas nem
todos. De modo geral, eles argumentam que havia “dons de sinais” ,
os quais cessaram — tais como o dom de línguas, profecia, cura, etc.
Por outro lado, crêem que existem dons que não são de sinais, que
continuam a estar presentes na igreja — tais como os dons de
pastorear, ensinar, evangelizar, administrar, etc.
Há uma terceira categoria de evangélicos, que acredita que todos
os dons cessaram. Ensinam que os dons originais foram todos dons de
sinais, com o propósito de demonstrar a validade do evangelho, e que
também foram dados para ajudar o corpo de Cristo a se manter em
funcionamento até que um corpus de verdade cristã fosse revelado
para permitir que os cristãos atuassem dentro do corpo de Cristo.
Deve-se acrescentar que dentro de cada uma dessas concepções
genéricas existem opiniões variadas acerca da natureza desses dons,
dos seus propósitos, de como devem ser usados na igreja e de como
os cristãos descobrem seus dons.
Considerando o número tão grande de opiniões diferentes, é
possível descobrir o que a Bíblia de fato ensina sobre o assunto? Al­
guns anos atrás decidi enfrentar essa pergunta da forma mais objetiva
que pudesse. Dentro do que me era possível, tentei deixar de lado
minhas próprias pressuposições sobre esse assunto e uma vez mais
estudar o Novo Testamento de ponta a ponta, anotando cada referência
aos dons espirituais e o contexto em que ela aparecia, a fim de tentar
descobrir o que os escritores bíblicos estavam realmente dizendo. Em
decorrência desse processo, fiz as seguintes observações:

1. O número e os tipos de dons variavam significativamente de


uma igreja para outra no mundo do Novo Testamento.
Essa observação baseia-se na lista de dons mencionados nas cartas
escritas a várias igrejas. Repare no que segue:

A CARTA AOS CORÍNTIOS

(1 Co 12.8-10) (1 Co 12.28)

palavra da sabedoria apóstolos


palavra do conhecimento profetas
fé mestres
cura operações de milagres
operações de milagres cura
profecia socorros
discernimento de espíritos governos
variedade de línguas variedade de línguas
interpretação de línguas
A CARTA AOS ROMANOS
(Rm 12.6-8)

profecia
ministério
ensino
ex o rta çã o
contribuição
liderança
misericórdia

A CARTA AOS EFÉSIOS


(Ef 4.11)

apóstolos
profetas
evangelistas
pastores
mestres

A carta de Pedro a v á r i a s ig r e ja s

(1 Pe 4.11)

falar
servir

Por que uma discrepância tão grande? A igreja de Corinto possuía


a manifestação de mais dons do que qualquer outra igreja do Novo
Testamento. Paulo afirmou isso nas observações introdutórias de sua
primeira carta àquela igreja quando escreveu que ela havia sido
aquinhoada “em toda palavra e em todo o testemunho” de maneira que
não lhes faltava “nenhum dom ” (1 Co 1.5, 7).
A igreja de Roma também era uma igreja com muitos dons. Mas
repare que somente dois dos dons mencionados na lista de Romanos
(profecia e ensino) são mencionados na lista de Coríntios.
Semelhantemente, a “lista de Efésios”, embora mais curta, inclui dois
dons (evangelização e pastor) que não estão nas cartas aos Coríntios,
nem na lista de Romanos.
O que isso parece indicar é que havia significativa diferença nos
tipos de dons manifestos em cada igreja do Novo Testamento. Além
do mais, algumas delas possuíam muitos dons; outras, poucos.
Portanto, na qualidade de cristãos do século xx, devemos ter o
cuidado de não somar as listas de dons no Novo Testamento,
chegando à conclusão de que a vontade e o plano de Deus é que essa
“lista completa” se manifeste em cada igreja do século xx. Se não era
assim entre as igrejas do Novo Testamento, é de concluir que também
não deva ser assim nas igrejas de hoje.

2. Os textos que tratam longamente dos dons foram escritos para


corrigir o uso indevido dos dons espirituais.
A igreja de Corinto. Os coríntios, que representam a igreja com
maior manifestação de dons no Novo Testamento, sem dúvida estavam
utilizando os dons da forma errada. Não era uma questão de saber
quais eram os seus dons, mas de saber que os estavam usando
indevidamente.
Primeiramente, era óbvio que alguns estavam usando seus dons
para “sua própria edificação” enquanto “menosprezavam os outros” .
Eram culpados do orgulho espiritual. Caso contrário, por que Paulo
haveria de gastar a maior parte do capítulo 12 ressaltando que “uma
parte do corpo” não devia dizer a “outra parte do corpo” que não
precisava dela (1 Co 12.21)? Observe as seguintes afirmações-chave
que salientam esse argumento:

• Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso
deixa de ser do corpo. (12.15)
• Se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por
isso deixa de o ser. (12.16)
• Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse
ouvido, onde o olfato? (12.17)
• Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo? (12.19)
• Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a
cabeça, aos pés: Não preciso de vós. (12.21)
• Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos, são
necessários; e os que nos parecem menos dignos no corpo, a estes damos
muito maior honra; também os que em nós não são decorosos, revestimos
de especial honra. Mas os nossos membros nobres não têm necessidade
disso. Contudo Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra
àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo
contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos
outros. (12.22-25)

Em segundo lugar, os coríntios estavam dando atenção aos


“menores dons”, enquanto negligenciavam os “melhores dons”.
Paulo deixou bem claro que os melhores dons eram “primeiramente
apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres” . Em
seguida arrolou os “menores dons” — operações de milagres e dons
de curar, socorros, governos, variedades de línguas (12.28). Fez então
a afirmação principal: os coríntios deviam procurar, “com zelo, os
melhores dons” (12.31). O contexto mostra claramente que eles
estavam dando atenção principalmente aos menores dons (veja o
capítulo 14).
Em terceiro lugar, os coríntios estavam não apenas dando
prioridade aos “menores dons” , mas também usando-os de forma
errada na igreja. (Nesse caso também, leia cuidadosamente o capítulo
14.) Havia desordem e confusão. Por isso Paulo concluiu o capítulo
14 com esta exortação: “Tudo, porém, seja feito com decência e
ordem” (14.40).

A igreja de Roma. Percebe-se que a igreja de Roma não possuía


tantos problemas quantos os coríntios no que diz respeito à maneira
como estavam usando seus dons espirituais. No entanto, um problema
parece ser o mesmo: a presença do orgulho espiritual. Esse é o
contexto em que Paulo discutiu os dons que possuíam e ressaltou a hu­
mildade. Por isso, antes de alistar os dons, escreveu: “Porque, assim
como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os mem­
bros têm a mesma função; assim também nós, conquanto muitos, so­
mos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Rm 12.4, 5).
Além disso, antes de dar ressalto à unidade do corpo e arrolar os
dons, ele advertiu contra o orgulho e enfatizou a humildade. Por isso
lemos: “Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre
vós que não pense de si mesmo, além do que convém, antes, pense
com moderação segundo a medida da f é que Deus repartiu a cada
u m ” (12.3).
A igreja de Éfeso. Vemos a mesma ênfase na carta aos Efésios.
Antes de relacionar os dons, ele escreveu: “Rogo-vos [...] que andeis
de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda humil­
dade [...] esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do
Espírito no vínculo da paz [...]. E a graça foi concedida a cada um de
nós segundo a proporção do dom de Cristo” (Ef 4.1-3, 7).
Essas observações são importantes. Com freqüência utilizamos
essas passagens para ensinar que os dons são importantes e que cada
cristão deve tentar descobrir o seu dom (ou dons). Essa não é a
questão central de Paulo nessas três cartas. Se há algo que pode-se
dizer com certeza é que Paulo estava buscando uma moderação no uso
dos dons e, acima de tudo, exortando todos os cristãos a não usar os
dons para se exaltar na reunião local, e assim destruir a unidade da
igreja. Empenhar-se pela unidade e pela harmonia, mediante a
humildade, é o tema básico de todos os textos bíblicos que tratam dos
dons espirituais.3

3. Em parte alguma da Bíblia é dito que nós, como indivíduos,


devemos buscar ou tentar descobrir nossos dons espirituais.
Essa é uma observação igualmente importante — uma que eu,
pessoalmente, achei difícil admitir e aceitar. A razão é que eu vinha
enfatizando o contrário, da mesma forma que hoje muitos cristãos
enfatizam a procura e a descoberta dos dons. Ademais, empregamos
os textos esboçados na seção anterior para sustentar essa posição.
Conforme acabamos de ver, decididamente essa não é a tônica dessas
passagens. Aquelas pessoas sabiam muito bem quais eram os seus
dons. Elas não os estavam procurando. Ao contrário, estavam usando
d efo rm a errada os dons que eram tão óbvios entre eles.
Que dizer de 1 Coríntios 12.31 e 14.1? Essa é uma pergunta muito
válida. Precisamos examinar esses versículos, que podem parecer estar
em contradição com essa terceira observação. Depois de esboçar os
melhores dons na carta aos Coríntios (1 Co 12.28-30), ele então
exortou: “Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons” (12.31).
E então, no início do capítulo 14, escreveu: “ ... procurai com zelo os
dons espirituais... ” (14.1).
Uma avaliação cuidadosa desses textos específicos, bem como dos
contextos, mostra que Paulo não estava estimulando os cristãos de
Corinto, como indivíduos, a procurar ser apóstolos, profetas e mestres
(os melhores dons — 12.28). Em vez disso, estava exortando esses
cristãos a dar prioridades àqueles que possuíam esses melhores dons.
Por isso empregou a segunda pessoa do plural no texto grego.
Podemos legitimamente parafrasear da seguinte maneira sua afirmação
de 12.31: “Entretanto, vós, como igreja, desejai a manifestação dos
melhores dons e não a dos menores”. Em 14.1 ele ampliou o alcance
de sua afirmação. Podemos de novo parafrasear: “Como um corpo de
cristãos, segui o amor, e, como um corpo, desejai com zelo a
manifestação dos dons espirituais, mas dai especial atenção aos
profetas, em lugar dos que falam em línguas” (veja 14.2-4).
Vemos uma ênfase semelhante quando Paulo escreveu aos romanos
e lhes contou que ele ansiava vê-los, a fim de “repartir” com eles
“algum dom espiritual” (Rm 1.11). Quando nos damos conta de que
Paulo nunca havia estado em Roma e quando examinamos o contexto
de sua afirmação no versículo 11, conseguimos entender melhor o que
Paulo quis dizer. O dom que ele desejava repartir era sua própria
contribuição particular para o crescimento espiritual deles. Visto que
Paulo possuía todos os melhores dons (1 Tm 2.7; At 13.1), seria
capaz de ajudá-los de forma especial. Além disso, ele desejava que os
cristãos de Roma também ministrassem a ele, mediante um
relacionamento mútuo (Rm 1.12).
_Assim, temos de concluir, com base nas Escrituras como um todo,
que, como indivíduos, os cristãos jamais são instruídos a procurar ou
a tentar descobrir os dons espirituais. Fazê-lo significaria salientar
algo que a Bíblia não ressalta. Paulo deixou especialmente implícito
que, se uma pessoa é dotada de forma toda especial, ela ficará
sabendo, e outros cristãos também. Isso nada tem que ver com o
esforço humano, porquanto Deus soberanamente escolheu outorgar
esses dons independentemente de qualquer busca ou mesmo pedido (At
2.1-4; 10.44-48; 1 Co 1.4-7; 2 Tm 1.6). Por isso lemos na carta aos
Hebreus que Deus deu testemunho acerca da mensagem do evangelho
“por sinais, prodígios e vários milagres, e p o r distribuições [dons] do
Espírito Santo segundo a sua vontade” (Hb 2.4).
4. As Escrituras ressaltam que existe um caminho mais excelente
do que um destaque aos dons do Espírito.
Já vimos que isso é verdadeiro em nosso estudo daquilo que a
Bíblia define como igreja madura (veja as páginas 96-104). Depois de
pedir que os coríntios desejassem com zelo os melhores dons em vez
de os menores (1 Co 12.28-31a), ele continuou: “E eu passo a
mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente” (12.31 b). Paulo
então deixou claro que um cristão pode ter o dom de línguas (13.1),
os dons de profecia, conhecimento e fé (13.2), e também o dom de
contribuição (13.3), e assim mesmo carecer de amor, a qualidade mais
importante na vida cristã. Nesse caso, “nada” somos (13.2); todos
esses dons para nada aproveitam (13.3).
Os coríntios careciam de amor, e mesmo assim, segundo nos
consta, constituíam a igreja com mais dons do Novo Testamento. E,
por serem carnais e imaturos, Paulo instou-os a se desfazerem das
“coisas próprias de menino” (13.11). Embora não os tenha proibido
de desejar o uso dos dons espirituais (14.1), Paulo os exortou a dar
prioridade à busca do amor, pois sem essa qualidade todos os seus
dons na verdade não teriam significado algum.

5. Quando deviam nomear os líderes das igrejas locais, Paulo não


instruiu Timóteo e Tito a procurar dons espirituais; em vez disso,
instruiu-os a procurar qualificações espirituais e maturidade.
Essa é uma das observações mais significativas a respeito dos dons
espirituais. Quando reparei nisso, algumas perguntas passaram pela
minha mente. Por que Paulo não disse para Timóteo e Tito procurar
os dons de governo e de liderança? Afinal, esses homens adminis­
trariam a igreja (1 Tm 5.17). Por que Paulo não os instruiu a procurar
o dom de pastor? De mestre? Da mesma forma, essa seria a
responsabilidade deles (1 Pe 5.2; At 20.28; Tt 1.9). E, uma vez que
deviam orar pelos enfermos (Tg 5.14), será que não necessitariam do
dom de cura?
Embora essas funções dos presbíteros estivessem bem esboçadas
nas Escrituras, Paulo nada disse sobre escolher esses homens de
acordo com os dons espirituais relacionados com essas funções. Uma
vez mais a pergunta é: por quê?
Vemos o mesmo enfoque na questão da nomeação de diáconos e
diaconisas. Se essas pessoas deveriam assumir funções de “serviço” ,
por que Paulo não especificou que deveriam ser escolhidos caso
possuíssem o dom de servir? E que dizer dos dons de socorros e de
misericórdia? E, com certeza, dentro de suas culturas, suas
responsabilidades requeriam que fossem bons organizadores. E, assim
mesmo, nada se fala do dom de administração e de liderança. E uma
vez mais temos de perguntar: por quê?
Alguns assinalam que Paulo, na verdade, menciona o requisito:
“apto para ensinar” (1 Tm 3.2). Esse não é o dom de ensino?
Primeiramente, seria estranho que Paulo se referisse a esse dom sem
dizer nada sobre os dons de administração e de pastor, uma vez que
essas deveriam ser as funções básicas de um presbítero. O fato é que
Paulo é bem pragmático quanto à habilidade administrativa, utilizando
a família como critério básico para aferir a habilidade de um homem
nessa área. Por isso, disse: “Se alguém não sabe governar a própria
casa, como cuidará da igreja de Deus?” (3.5). Com esse requisito,
Paulo estava deixando implícito que cada pai cristão era responsável
pela boa administração de sua casa. Ele não poderia dar a desculpa de
não ter habilidade especial nessa área.
A respeito de ser “apto para ensinar” , Paulo ilustra o significado
desse conceito de forma muito bonita na segunda carta a Timóteo. Ali
Paulo empregou essa qualidade no contexto de várias outras
características espirituais. Escrevendo a Timóteo, ele disse: “Ora, é
necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e, sim, deve
ser brando para com todos, apto para instruir, paciente; disciplinando
com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes
conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a
verdade...” (2 Tm 2.24, 25).
Observe o conjunto de palavras em torno da qualidade de ser “apto
para instruir” . (Veja a figura 17.) A partir dessas características fica
claro que Paulo está lidando com um estilo de vida que demonstre um
temperamento equilibrado, bondade, paciência e mansidão. Em suma,
Paulo estava dizendo que, quando um líder espiritual enfrenta pessoas
que se opõem àquilo que ele está ensinando, se for “apto para
instruir” , reagirá de maneira não defensiva e não ameaçadora. Embora
firme naquilo em que crê, não reagirá de forma agressiva, negativa e
insensível. Isso, Paulo estava dizendo, é muito importante para se
poder comunicar com aqueles que, no início, não são receptivos à
Palavra de Deus.

2 Timóteo 2.24, 25

Figura 17: “Apto para instruir”

É difícil explicar satisfatoriamente por que Paulo passou ao largo


de todas as referências aos dons do Espírito quando relacionou as
qualificações dos líderes espirituais. Contudo, não é preciso ter uma
resposta cristalina quando percebemos que essa observação tem
correlação com uma observação anterior, a saber, que em lugar algum
da Bíblia se diz que nós, como indivíduos, devemos buscar ou tentar
descobrir nossos dons espirituais antes de podermos atuar no corpo de
Cristo. E isso nos conduz a uma última observação, talvez a mais
interessante de todas.

6. O funcionamento do corpo não depende dos dons espirituais,


mas do ensino bíblico e do amor e interesse uns pelos outros.
A palavra grega allelõn, freqüentemente traduzida por “uns aos
outros” , é usada cerca de 60 vezes no Novo Testamento, com exceção
dos evangelhos. Paulo é quem mais usa a palavra, tendo-a empregado
40 vezes. E, da mesma maneira que as doutrinas básicas são repetidas
de uma carta para outra no Novo Testamento, muitas dessas exigên­
cias de reciprocidade também se repetem. Isso é compreensível, uma
vez que originalmente, essas cartas tinham o propósito de serem
completas em si mesmas, destinadas a uma igreja específica.

O perfil paulino de reciprocidade


A carta de Paulo aos romanos inclui o mais amplo perfil de
reciprocidade. Existem sete afirmações básicas de reciprocidade nos
capítulos d e l 2 a l 6 — a parte dessa epístola a que denominamos
seção prática. Os primeiros 11 capítulos são doutrinários e esboçam
grandes verdades sobre a salvação. Os capítulos de 12 a 16 esboçam
como os cristãos devem viver em vista da posição que têm em Cristo.
As sete afirmações de reciprocidade são:

1. Somos “membros uns dos outros” (Rm 12.5);


2. Devemos nos amar “cordialmente uns aos outros com amor
fraternal” (12.10a);
3. Devemo-nos “preferir em honra uns aos outros” (12.10c);
4. Devemos “ter o mesmo sentimento uns para com os outros”
(12.16a);
5. Devemo-nos “acolher uns aos outros, como também Cristo nos
acolheu” (15.7);
6. Devemo-nos “admoestar uns aos outros” (15.14);
7. Devemo-nos “saudar uns aos outros” (16.16);

Outras cartas do Novo Testamento incluem algumas afirmações


exclusivas de reciprocidade, ainda que um tanto quanto semelhantes
no significado àquelas de Romanos:

• “Sede servos uns dos outros” (G1 5.13);


• “Levai as cargas uns dos outros” (6.2);
• “Suportai-vos uns aos outros” (Ef 4.2);
• “Sujeitai-vos uns aos outros” (5.21);
• “Consolai-vos uns aos outros” (1 Ts 5 .II).4

Ao estudar as exigências de reciprocidade esboçadas acima e ao


compará-las com o total de reciprocidade relacionadas no Novo
Testamento (cerca de 60), você observará o seguinte:
í . As primeiras sete injunções de reciprocidade que aparecem na
carta de Paulo aos romanos constituem um perfil básico que inclui, em
essência, todas as demais injunções de reciprocidade do Novo
Testamento. Isso não nos surpreende quando compreendemos o
propósito básico e o conteúdo da carta aos Romanos. É uma epístola
muito abrangente. Os primeiros 11 capítulos incluem todas as
principais doutrinas do cristianismo. E os capítulos de 12 a 16 (onde
aparecem as exigências de reciprocidade) incluem todos os principais
conceitos sobre como os membros do corpo de Cristo devem viver e
atuar.
2. Essas funções recíprocas devem ser desempenhadas por todos os
membros do corpo de Cristo, não apenas por aqueles que foram
especialmente agraciados com dons. Isso significa que todos os
cristãos devem dedicar-se uns aos outros, honrar uns aos outros,
aceitar uns aos outros, ensinar e admoestar uns aos outros, saudar uns
aos outros, servir uns aos outros, levar as cargas uns dos outros,
sujeitar-se uns aos outros e incentivar uns aos outros.

Resumo
Um corpo em ação é absolutamente essencial para que haja
crescimento e maturidade em qualquer igreja. A própria natureza do
corpo de Cristo torna importante que cada membro funcione e
contribua para o processo de edificação. Isoladamente, os cristãos não
podem crescer de verdade. Eles precisam de experiências mútuas. De
fato, as palavras edificar e edificação são utilizadas com maior
freqüência no contexto do corpo em ação.
Também é verdade que a Bíblia descreve os dons espirituais em
conjunto com a função de corpo vivo e de edificação mútua. No
entanto, as Escrituras não salientam a busca ou a tentativa de
descobrir os próprios dons espirituais. Em vez disso, ressaltam
repetidas vezes a importância de se tornar maduro em Cristo, tanto no
âmbito individual quanto no âmbito coletivo. Além do mais, os
cristãos do Novo Testamento não podiam escolher se queriam ou não
funcionar. Como vimos em nosso estudo sobre as injunções de
reciprocidade, foi-lhes dito que ajudassem “uns aos outros” de
inúmeras maneiras. Esse processo não dependia de terem ou não dons
nessas áreas.
Ademais, caso uma pessoa desejasse ser um líder espiritual na
igreja — o que, no dizer de Paulo, é uma “excelente obra” — devia
estar basicamente interessada em manifestar as qualificações de
maturidade especificadas no Novo Testamento, não em ser capaz de
identificar seus dons espirituais.

Notas

1 A seguir há mais algumas metáforas e figuras de linguagem, usadas pelos


escritores bíblicos para descrever a igreja: a família de Deus (Ef 2.19); o
edifício de Deus (1 Co 3.9; Ef 2.20-22); o rebanho de Deus (At 20.28; 1 Pe
5.2); a esposa de Cristo (2 Co 11.2; Ef 5.22-32); o santuário de Deus (1 Co
3.16, 17; Ef 2.20-22).
2 A palavra carismático deriva da palavra grega charisma, usada
freqüentemente para referir-se aos dons do Espírito Santo. No Brasil,
popularmente se conhecem esses cristãos por “pentecostais” ou “renovados”.
3 Observe que o mesmo é o caso do contexto de 1 Pedro 4.11.
4 Para um estudo aprofundado das exigências de reciprocidade no Novo
Testamento, veja os seguintes livros escritos por Gene A. Getz e publicados
por Victor Books: Building Up One Another, Loving One Another,
Encouraging One Another, Praying for One Another e Serving One Another.
Os princípios
de liderança
do Novo
Testamento

Um estudo sobre a liderança no Novo Testamento fornece alguns


princípios bem claros para a igreja do século xx. Tais princípios
podem servir de diretrizes e objetivos para iniciar novas igrejas em
nossa cultura contemporânea — onde quer que isso possa acontecer —
e também podem proporcionar critérios para as igrejas já existentes
avaliarem sua própria filosofia e prática de liderança na igreja.

Faça a distinção entre as fases da liderança


1. Ao discernir e pôr em prática o plano de Deus para a liderança
na igreja de hoje, precisamos fazer uma distinção cuidadosa entre as
duas fases da liderança no Novo Testamento, mas ao mesmo tempo
compreender a aplicabilidade tanto de um ministério “apostólico”
quanto de um ministério de igreja local no desempenho da grande
comissão no mundo do século xx.
Mesmo um estudo breve e uma reflexão pouco profunda sobre o
contexto em que a igreja veio a existir revelam alguns problemas
singulares que não enfrentamos hoje. Primeiramente, o mundo
religioso judaico ao qual veio Cristo havia-se tornado totalmente
institucionalizado. Seus líderes tinham passado a preocupar-se só
consigo mesmos e a manipular as pessoas. Tinham torcido as leis de
Deus em benefício próprio. Os ataques mais fortes de Jesus foram
dirigidos contra os líderes de Israel. “Ai de vós, escribas e fariseus,
hipócritas!”, disse ele, “porque sois semelhantes aos sepulcros
caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão
cheios de ossos de mortos, e de toda imundícia” (Mt 23.27). Jesus
então aplicou essa ilustração mais especificamente: “Assim também
vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais
cheios de hipocrisia e de iniqüidade” (23.28).
Em segundo lugar, Jesus veio para dar início à igreja, um
fenômeno completamente novo. Embora Israel representasse o povo
de Deus na terra, a igreja devia ser diferente e exclusiva. Seria
composta de judeus e de gentios, pessoas nascidas de novo, em quem
habitava o Espírito Santo. Paulo resumiu isso muito bem quando
escreveu aos efésios, dirigindo-se especificamente aos gentios,
lembrando-os de que já não eram “estrangeiros e peregrinos, mas
concidadãos dos santos” . Eles eram “da família de Deus; edificados
sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo
Jesus, a pedra angular; no qual todo edifício, bem ajustado, cresce
para santuário dedicado ao Senhor, no qual”, disse Paulo, “também
vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no
Espírito” (Ef 2.19-22).'
Em terceiro lugar, quando Jesus voltou ao céu, seus seguidores não
possuíam um conjunto de textos para orientá-los em sua nova missão.
Embora o Antigo Testamento registrasse as leis de Deus e a história
de Israel, não continha as doutrinas e os ensinos que seriam neces­
sários para equipar os membros do corpo de Cristo para o ministério.
Em quarto lugar, o mundo que os seguidores de Cristo tinham
diante de si era um mundo hostil. A própria mensagem de Cristo
questionava os líderes judeus, que rejeitavam seu messiado. E o
mundo pagão encarava o cristianismo como outra religião fanática
merecedora de pouca atenção.
O primeiro desafio especificamente diante dos apóstolos era dar
início a esse novo movimento apesar dos problemas acima expostos.
Armados com a promessa de Cristo de que ele os guiaria em toda a
verdade e lhes ensinaria o que dizer mediante o Espírito Santo que
neles habitava (Jo 14—16), eles simplesmente agiram. A igreja
nasceu. Além disso, Deus deu testemunho “por sinais, prodígios e
vários milagres, e por distribuições do Espírito Santo segundo a sua
vontade” (Hb 2.4). Sobre os apóstolos em particular, mas não
exclusivamente sobre eles, Deus derramou os “melhores dons” (1 Co
12.28-31) para habilitá-los a executar a grande comissão. Mediante
esse processo surgiram as igrejas locais, o que primeiramente con­
duziu à nomeação de presbíteros e, mais tarde, de diáconos e de
diaconisas. A verdade primeiramente revelada aos apóstolos mediante
revelação direta e inspiração do Espírito Santo foi transmitida aos
líderes das igrejas locais, que, por sua vez, ensinaram outros. Dessa
forma, Paulo escreveu a Timóteo: “E o que de minha parte ouviste,
através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis
e idôneos para instruir a outros” (2 Tm 2.2). Assim os santos foram
equipados para o ministério, e cada junta pôde cooperar, fazendo com
que o corpo de Cristo edificasse a si mesmo em amor (Ef 4.11-16).
Hoje, enfrentamos um mundo semelhante. No entanto, temos à
nossa disposição toda a Palavra escrita de Deus. No princípio, os
apóstolos e uns poucos indivíduos escolhidos falaram a mensagem sob
a liderança do Espírito Santo, mas por fim registraram-na para nós
como Escrituras Sagradas. Armados com a verdade de Deus, podemos
enfrentar um mundo hostil, tanto religioso como pagão. Guiados pelo
Espírito Santo, que habita em nós, podemos falar da verdade de Deus
com autoridade divina. Além disso, podemos demonstrar a realidade
do cristianismo por meio de igrejas locais visíveis. E, quando essas
igrejas estão unidas em amor, isso constitui a prova que confirma que
a mensagem de Cristo é verdadeira (Jo 13.34, 35; 17.20-23).
As duas fases da liderança são essenciais ainda hoje. Há uma
necessidade de pessoas que realizem um ministério apostólico,
profético e didático mediante a evangelização dos não-salvos e da
fundação de igrejas — da mesma forma que Paulo, Barnabé, Silas,
Timóteo e Tito fizeram nos dias do Novo Testamento. Embora os
missionários do século xx possam não ser dotados dos mesmos
poderes miraculosos dos primeiros líderes da época do Novo
Testamento, em muitos aspectos eles devem atuar de modo se­
melhante. Embora o poder de Deus possa revelar-se de forma
diferente, esses pioneiros espirituais ainda possuem a mesma men­
sagem divina, mas de forma completa, acabada, e também a mesma
autoridade básica que Cristo concedeu quando pronunciou a grande
comissão.1
A segunda fase do plano divino para a liderança está sendo
executada ininterruptamente desde os dias do Novo Testamento.
Devem-se equipar os homens para ser presbíteros e nomeá-los para
governar e pastorear as igrejas locais. Isso conduz-nos a um segundo
princípio neotestamentário de liderança.

Nomeie líderes qualificados


2. O primeiro passo para ajudar as igrejas locais em seu crescimento
espiritual é nomear pessoas espiritualmente qualificadas para liderar
essas igrejas. Esses líderes devem ser, antes de tudo, escolhidos tendo
em vista as qualificações espirituais, e não os dons, os talentos e as
habilidades.
Qualidades versus habilidades. Das 20 qualificações específicas
alistadas por Paulo em 1 Timóteo 3 e em Tito 1, quase todas dizem
respeito à reputação, à ética, à moralidade, ao temperamento, aos
hábitos e à maturidade espiritual e psicológica da pessoa. Precisamos
reconsiderar o que pensamos sobre isso hoje. As pessoas são
qualificadas para um ministério na igreja local quando satisfazem os
critérios estabelecidos no Novo Testamento. Infelizmente, com
freqüência olhamos para as habilidades, os talentos e os dons, que
aparecem, e não para as qualidades mais básicas e fundamentais.
Quando se conhece bem uma pessoa, podem-se discernir cla­
ramente as qualificações do presbítero, alistadas por Paulo. Isso não
significa que esse indivíduo seja perfeito. Longe disso. Mas significa
que o rumo de sua vida é claro.
No entanto, deve-se notar que é impossível fazer juízos precisos a
respeito das qualificações de uma pessoa, sem que haja uma avaliação
cuidadosa e ampla feita por aqueles que estão vivendo bem perto dela.
É por isso que uma igreja que convida um “pastor” em função da
“pregação dele” pode cometer sérios erros de julgamento. A pessoa
pode ser capaz de induzir as pessoas com sua oratória e ainda assim,
lamentavelmente, não possuir as qualificações apresentadas de forma
tão clara no Novo Testamento.
Além disso, nas igrejas do século xx, freqüentemente nomeamos
para a diretoria homens bem-sucedidos em seus negócios. Eles cons­
truíram grandes empresas no mundo secular. Nesses casos, às vezes
baseamos nossos juízos no tino financeiro e nas habilidades admi­
nistrativas. No processo de seleção, esses talentos podem ter primazia
em relação às qualificações básicas arroladas por Paulo. Por exemplo,
muitos homens têm sucesso no mundo dos negócios, mas lamen­
tavelmente fracassam como administradores de seus próprios lares. Se
desconsiderarmos essa qualificação dos líderes espirituais, que é muito
importante, a igreja está fadada a sérios problemas.
Esse mesmo erro básico é cometido em nossos seminários teo­
lógicos e em outras escolas que têm o propósito de preparar homens
e mulheres para o serviço cristão de tempo integral. Na maioria das
vezes, os alunos são avaliados, e os que se formam são recomendados
para vários ministérios não com base nas qualificações espirituais
esboçadas nas Escrituras, mas no sucesso acadêmico e na capacidade
de comunicação. É verdade que a maioria das escolas exalta as
qualificações espirituais da boca para fora, mas na realidade o sucesso
acadêmico ainda é fundamental. Além disso, é fácil ocultar as
fraquezas espirituais em nossas vidas, especialmente se somos
aquinhoados com uma capacidade intelectual ou uma sociabilidade
incomuns. Além disso, a maior parte dos ambientes acadêmicos não
está estruturada para trazer à tona esses disparates.

Idade e experiência. Outro fator significativo na escolha de anciãos


qualificados é a idade e a experiência. Não é por acaso que a palavra
grega presbyteros, em si, refira-se à idade.
Isso, no entanto, apresenta um problema, por algumas razões.
Primeiramente, a Bíblia não dá uma idade mínima para os presbíteros.
Em segundo lugar, ser de mais idade não assegura maturidade. Em
terceiro lugar, alguns homens mais jovens são maduros para a idade
— bem mais do que alguns indivíduos mais velhos.
Entretanto, permanece o fato de que existem certas coisas que só
podem ser aprendidas com o passar do tempo. A idade e a experiência
produzem sabedoria nos cristãos, que estão tentando realmente seguir
a vontade de Deus. Pois todos nós podemos aprender tanto com
nossos erros quanto com nossos acertos.
Como alguém envolvido na fundação de igrejas, cheguei à con­
clusão de que, na maioria, os problemas nas igrejas que ajudei a
iniciar foram provocados pelo fato de homens jovens demais terem
sido nomeados para a liderança — como pastores tanto de tempo
integral como de tempo parcial. Faltava-lhes experiência e sabedoria.
Além disso, alguns sentiam-se ameaçados pelos líderes mais velhos e
experientes. Alguns ficaram emocionalmente comprometidos, o que,
por sua vez, lançou-os numa trágica crise de identidade e, em alguns
casos, levou ao fracasso no ministério.
Por outro lado, existem homens jovens que se sobressaem em
importantes posições na liderança da igreja. Entretanto, em geral se
saem bem porque têm uma boa auto-imagem, são suscetíveis de ensino
e procuram aprender com os líderes espirituais de mais idade e
experiência. Não reagem defensivamente contra aqueles que podem
discordar deles, mas procuram aprender nesse processo.
Timóteo, é claro, destaca-se como um exemplo singular de um
jovem que tinha uma pesada responsabilidade de liderança. Ele não
apenas tinha a responsabilidade de ajudar a fundar igrejas, mas
também de nomear presbíteros (anciãos) para a liderança de tais
igrejas. Provavelmente, na maioria das vezes esses homens eram mais
velhos que Timóteo.
Devemos perceber, entretanto, que Timóteo provavelmente tinha
pelo menos 30 anos de idade quando iniciou seu ministério. Nesse
sentido, era mais velho e tinha mais experiência do que muitos
homens que se tornam líderes em nossas igrejas nos dias de hoje.
Além disso, ele colocou-se sob a autoridade do apóstolo Paulo, que
pôde orientá-lo e guiá-lo nos aspectos difíceis do ministério. Quando
ele ficava desanimado, Paulo o animava. Ademais, Paulo construiu
pontes para Timóteo. Ele não apenas incentivou Timóteo a viver uma
vida que conquistaria o respeito dos outros, mas também incentivou
os cristãos de várias igrejas a aceitar Timóteo, mesmo sendo ele
jovem (1 Co 16.10, 11). Nesse sentido, Timóteo serve de excelente
modelo para os jovens que estão entrando no ministério.
Com freqüência me defronto com a questão da “idade” , pois
muitos homens se formam em seus cursos de seminário com vinte e
poucos anos de idade. Estarão qualificados para dirigir uma igreja? É
uma pergunta difícil, porquanto a resposta depende de alguns fatores.
Apesar de sua idade cronológica, qual é o nível de maturidade da
pessoa? Qual o tamanho da igreja? Qual é o nível de expectativa na
comunidade e na igreja?
Em geral recomendo que os jovens (especialmente com menos de
30 anos) procurem uma posição de pastor-auxiliar para ajudar, por
alguns anos, um líder espiritual de mais idade e experiência. Isso pode
ser feito mesmo que não se concorde totalmente com a filosofia de
ministério de um líder em particular. O objetivo, entretanto, deve ser
aprender — não mudar o pastor titular e a orientação da igreja.
Embora essa possa ser uma tarefa difícil, pode proporcionar
oportunidades extraordinárias para amadurecer e crescer espiritual e
psicologicamente, e em muitas áreas que envolvem habilidades
administrativas.

Dirigentes e pastores
3. Os líderes espirituais devem atuar como dirigentes e pastores, não
apenas como administradores e tomadores de decisões. '
Infelizmente, muitos líderes nas igrejas do século x x têm sobre­
posto uma definição moderna de administração ao conceito bíblico de
ser um dirigente do povo de Deus. Conforme,observamos ao estudar
a liderança do Novo Testamento num dos capítulos anteriores, a
“administração do presbítero” é, sob os aspectos funcionais, idêntica
ao conceito de “pastorado”. Dessa maneira, um homem que atua
como presbítero deve ser pastor.
O maior exemplo de pastor é o próprio Senhor Jesus Cristo. Em
certa ocasião ele disse:

Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O


mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir
o lobo, abandona as ovelhas e foge; então o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado com as
ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me
conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheço o
Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas (Jo 10.11-15).

Que exemplo de alguém com verdadeiro coração de pastor! Ele


está disposto a dar a própria vida aos membros do corpo de Cristo que
fazem parte de seu aprisco. Ele fica junto a elas, não importa o preço.
Ele conhece suas ovelhas. Ele as chama pelo nome! E as ovelhas o
conhecem; conhecem sua voz.
Não há como escapar das implicações do que significa ser um
verdadeiro presbítero. Ele deve estar com o seu povo — não distante
dele. Ele deve conhecer pessoalmente as ovelhas — suas necessidades,
suas preocupações, seus problemas! Deve estar disposto a deixar as 99
no aprisco e sair nas trevas da noite para encontrar a ovelha perdida
que se distanciou da segurança do rebanho e ficou enroscada na moita
da desilusão e do pecado (Mt 18.12, 13).
Sua porta deve estar aberta para o rebanho. Nenhum bom pastor
exclui uma única ovelha do aprisco. Ele deve estar à disposição — não
apenas da boca para fora, mas realmente disposto!^ Sua personalidade
deve dizer, de forma firme e segura: “Eu amo vocês, eu me importo
com vocês e estou aqui ao lado de vocês; vocês podem conversar
comigo a qualquer hora, em qualquer lugar e sobre qualquer assunto
que queiram. Não vou condenar vocês! Não vou machucar vocês! Eu
vou ajudar vocês a se tornar as pessoas que realmente desejam ser —
membros maduros do corpo de Cristo” .
Esse conceito de pastorado é válido tanto para presbíteros
remunerados quanto para presbíteros não remunerados. Pois os
presbíteros “merecedores de dobrados honorários” — isto é, os
presbíteros “que se afadigam na palavra e no ensino” e recebem
remuneração (lT m 5 .1 7 , 18) — não devem de modo algum evitar as
pessoas. A mesa de estudo não deve tornar-se uma barreira entre o
pastor e o rebanho. Jamais deve tornar-se um esconderijo, um lugar
para defesa das fraquezas pessoais, uma posição vantajosa de onde
descarregar uma barragem de munição bíblica e depois uma trincheira
para que não seja visto e não corra o risco de ser atingido pelo revide.
Os presbíteros não remunerados também devem ser pastores. Para
agirem biblicamente, não devem ser meros membros de uma junta que
se reúna para tomar decisões administrativas. E verdade que isso faz
parte do comando sobre o povo de Deus. Mas é apenas um aspecto do
que significa ser um bom pastor. Na verdade, os presbíteros que são
apenas “administradores” e simplesmente “tomam decisões” , não
decidem acertadamente, pois não estão em contato com as neces­
sidades do povo. Na realidade, não “conhecem as ovelhas” .
Dirigir e pastorear também importa em ensinar (3.2; Tt 1.9). Isso
significa que um presbítero deve conhecer a Palavra de Deus e ser leal
a ela. Deve ser capaz de compartilhar sua verdade dinâmica com os
membros do corpo de Cristo. Essa é uma responsabilidade tanto dos
presbíteros remunerados quanto dos não-remunerados.
Obviamente, o pastor de tempo integral terá um ministério mais
público do que o presbítero de tempo parcial. É ele quem está-se
afadigando na pregação e no ensino (1 Tm 5.17). Mas as Escrituras
ensinam que todos os presbíteros devem estar envolvidos no processo
de ensino. Infelizmente, temos deixado prevalecer as nossas idéias
pessoais sobre o que significam o ensino e a pregação. Para com­
preendermos o processo bíblico, precisamos voltar um pouco e
examinar os exemplos bíblicos. Obviamente, Jesus Cristo é o exemplo
supremo de desenvolvimento desse processo.
Quando viajamos pelos evangelhos seguindo o Homem da Galiléia,
enxergamos um Mestre que refletia muitas características diferentes.
Ele ensinou indivíduos, pequenos grupos, grandes grupos — e.até
grupos diferentes ao mesmo tempo (Lc 15.1—7.11). Não estava
limitado a uma sala de aula; mas ensinava em todo lugar em que
encontrasse pessoas necessitadas — numa colina, num cenáculo, na
sinagoga, junto a um poço, num telhado, num barco num lago, no
cume de uma montanha e até mesmo quando estava pendurado numa
cruz, entre dois ladrões. Algumas vezes as pessoas vinham a ele;
outras vezes ele ia a elas. As vezes ele fazia um discurso e outras
vezes fazia perguntas. Algumas vezes, contava histórias. Com
freqüência, ilustrava suas palavras mencionando as aves, a água do
poço, o semeador ou mesmo as próprias pessoas. Nunca foi estereo­
tipado; nunca foi inflexível; nunca deixou de ter as palavras certas.
Estava sempre atendendo às necessidades dos ouvintes, fazendo-os
envolver-se intelectual e emocionalmente, e sempre penetrando nos
recônditos mais profundos de suas personalidades. Ele realmente foi
o Mestre dos mestres! ' " - ..
Como isso é diferente do modo estereotipado de encararmos o
ensino na igreja de hoje, especialmente entre nós que somos pastores
remunerados. Muitas vezes subimos aos nossos púlpitos e entregamos
nossos pacotes, esperando que sejam homileticamente perfeitos.
Raramente vamos até as pessoas; elas vêm até nós, ao lugar de cos-
tume, onde se ajeitam em seus bancos confortáveis e esperam ser
despertadas. Raramente há oportunidades para o povo reagir, há bem
pouca variação no processo, e raramente se utiliza uma visualização.
Além disso, com essa definição limitada de ensino, eliminamos
aquelas oportunidades de ensino pessoais, de um a um — que podem
ser desenvolvidas com eficácia pelos presbíteros de tempo parcial.
Não entenda mal. Não estou levando a supor que só conseguiremos
ser eficazes seguindo exatamente o padrão didático exemplificado por
Jesus. Vivemos numa cultura diferente, num mundo diferente. Mas eu
gostaria de dizer que em muitos casos nem mesmo chegamos perto de
uma aplicação dos princípios do Novo Testamento. Presumimos que
nossas formas e estruturas atuais são adequadas para criar uma
experiência dinâmica de aprendizado. Quase adoramos o aspecto
transmissivo da comunicação — especialmente a “pregação” .2 Glo­
rificamos o estudioso que conhece o conteúdo da Bíblia, ao passo que
desprezamos o corpo de Cristo e seus muitos membros que também
têm algo a contribuir para o ministério e a edificação do corpo.
Desejamos uma igreja dinâmica? Um ministério dinâmico? Sugiro,
então, que desenvolvamos uma filosofia de liderança que brote das
Escrituras. Precisamos de líderes espirituais que sejam pastores —
homens que ensinem o povo de Deus de maneira íntima e pessoal.
Além disso, precisamos de estruturas que deixem esses homens ser e
fazer o que Deus planejou que fossem e fizessem.

Prioridades e delegação
4. Os líderes espirituais devem manter suas prioridades e delegar as
responsabilidades de natureza cultural a outros homens e mulheres
qualificados.
Os apóstolos do passado, quando diante dos problemas de
Jerusalém, disseram ao povo: “Não é razoável que nós abandonemos
a palavra de Deus para servir às mesas”. Eles solucionaram o
problema estabelecendo prioridades: providenciaram a nomeação de
sete homens para cuidar desse assunto e continuaram dedicando-se “à
oração e ao ministério da palavra” (At 6.2,4). Não que essas questões
não fossem importantes, nem que fossem questões que não exigissem
líderes com qualificações espirituais (6.5), mas eram questões que
poderiam afastar os apóstolos de sua tarefa básica. ?
Os presbíteros das igrejas locais também recebem prioridades. Eles
devem governar eficazmente o rebanho de Deus, o que significa
pastorear, ensinar e orar pelas pessoas. Sua responsabilidade básica é
atender às necessidades espirituais das pessoas.
Portanto, Deus estabeleceu um plano de delegação. Assim,
consideramos importante o papel do diácono e da diaconisa. Suas
responsabilidades e funções são basicamente culturais, conforme já
destacamos num capítulo anterior. Embora suas qualificações sejam
mencionadas nas Escrituras, suas funções são abertas.
A falha na manutenção das prioridades e na delegação de
responsabilidades é uma das explicações para o fato de os presbíteros
muitas vezes se tornarem típicos administradores e tomadores de
decisão. O tempo deles é totalmente consumido na participação em
reuniões de diretoria e de comissões, na tomada de decisões adminis­
trativas e na atenção a outros pormenores de rotina. Quando isso
acontece, os presbíteros não estão agindo como Deus havia planejado.
É claro que os presbíteros e pastores remunerados freqüentemente
se tornam vítimas dessa síndrome. Muitos homens ficam atolados nas
minúcias administrativas e deixam de servir as pessoas como pastores
e mestres. Os contatos pessoais com os membros do corpo de Cristo
limitam-se a reuniões de grandes grupos, em que, separados do povo
por um púlpito, eles expõem a Palavra.
É por essa razão que, à medida que uma igreja cresce, torna-se tão
importante uma liderança múltipla. Um único pastor de tempo integral
(ou mesmo alguns pastores de tempo integral) não consegue atender
as necessidades de todas as pessoas do corpo. Existem maneiras sem
paralelos e criativas de os líderes remunerados utilizarem os
presbíteros não remunerados para ajudá-los a ministrar às necessidades
espirituais do povo.
Em muitas das igrejas que ajudei a fundar — bem como na igreja
que pastoreio atualmente — pede-se que todos os nossos presbíteros
e suas esposas ministrem às pessoas em grupos pequenos, que
chamamos de mini-igrejas. Além disso, temos um grande grupo de
homens que trabalham como pastores, embora não sejam identificados
como presbíteros. Mas, juntamente com suas esposas, também estão
ministrando sob a orientação e a liderança dos presbíteros e de outros
pastores de tempo integral. Dessa forma, os pastores de tempo integral
têm condições de ministrar com maior dedicação aos presbíteros, aos
outros líderes espirituais da igreja e de se concentrar para ensinar e
pregar com eficiência ao corpo em geral.
É importante notar que, em nossa cultura, repleta de grandes
centros populacionais, as igrejas vão crescer em número. Obviamente
isso requer líderes espirituais fortes para atuar como pastores de tempo
integral. Deus precisa de homens polivalentes que possam liderar essas
grandes igrejas dinâmicas. Mas precisamos lembrar que Deus também
idealizou um corpo polivalente — um corpo constituído de pessoas que
contribuem, todas, de forma especial para a edificação da igreja. ^
A esta altura devo acrescentar uma palavra de advertência. Uma
das coisas mais trágicas de nossas culturas hoje é o fato de homens
altamente habilitados estarem tentando treinar homens comuns para ser
como eles próprios. Infelizmente, esses homens comuns (que cons­
tituem a maioria de nós) não possuem nem a capacidade, nem a
habilidade de se tornar esse tipo de líder. O resultado é uma frus­
tração. Ou, ainda mais trágico, esses homens tentam imitar a vida de
um homem polivalente e terminam num fracasso total — muitas vezes
dividindo a igreja, ferindo o corpo de Cristo e, finalmente,
abandonando o ministério.
Isso quer dizer que um pastor de grandes habilidades não deve
treinar outros homens para ser pastores? De modo algum! Mas ao
treiná-los deve reconhecer que, talvez, nem todos sejam capazes de
fazer aquilo de que ele é capaz. É possível pôr uma pessoa “fora de
si” , pensando que ela é capaz de funcionar como seu mentor em todos
os aspectos. Quando ela não consegue, está fadada ao fracasso.
Os líderes fortes devem, então, ter o cuidado de não pensar de
maneira irrealista. Ao mesmo tempo, devem inspirar outros a atingir
o maior nível de realização possível, mas sem estabelecer seus alvos
com base nas habilidades de outra pessoa.

Nomeie e remunere
5. As igrejas devem nomear certos líderes espirituais para atuar em
cargos de tempo integral e remunerá-los adequadamente por seus
esforços.
Esse princípio está claro nas Escrituras. Um “trabalhador é digno
do seu salário” (1 Tm 5.18). É lamentável que muitos pastores e
outros obreiros cristãos não recebam remuneração adequada. Alguns
cristãos crêem que os obreiros cristãos de tempo integral devem viver
de modo mais sacrificial do que eles. Infelizmente, muitas vezes isso
leva ao desânimo. Além disso, faz com que os filhos dos obreiros
cristãos padeçam necessidades, criando sentimentos negativos e até
mesmo uma rebeldia contra as coisas espirituais.
É verdade que uns poucos pastores se aproveitam de seus
rebanhos. No que diz respeito ao dinheiro, não prestam contas a um
grupo de presbíteros piedosos. Mas esses homens são a minoria. Em
relação à ajuda financeira aos líderes espirituais, é bem melhor estar
no “lado alto” do que no “lado baixo” . Deus honrará essa gene­
rosidade. Além disso, Deus também tratará daqueles que “servem”
por “sórdida ganância” (1 Pe 5.2).
Uma boa regra prática é que um pastor e outros líderes cristãos
recebam ajuda financeira com base na média da renda das famílias da
igreja. Além disso, também se devem considerar a idade, o tempo de
serviço, a experiência, a formação e as habilidades da pessoa,
exatamente como em qualquer empresa bem administrada. Além disso,
deve-se dar atenção especial aos benefícios (seguro de vida,
aposentadoria, assistência médica, etc.), da mesma maneira que
acontece com os membros da igreja em geral.
Mesmo assim, precisamos entender que há épocas em que os
líderes espirituais devem abrir mão de seus direitos, pois estão no
ministério. O apóstolo Paulo ilustrou isso muitas vezes. Mas, por
outro lado, os cristãos não devem tirar vantagem de seus líderes
espirituais. Caso o façam, a bênção maior de Deus não repousará
sobre esse ministério.

O líder principal
6. Quando exeqüível, as igrejas devem ser dirigidas por mais de um
líder espiritual, mas é importante designar um deles como o principal.
A Bíblia ensina sem sombra de dúvidas a liderança múltipla. Aliás,
quanto mais líderes piedosos (que atinjam o padrão de qualidade
exposto em 1 Timóteo 3 e em Tito 1) tivermos em determinada igreja
local, maior será o impacto nos membros em geral. Um grupo de
presbíteros e de pastores piedosos serve de exemplo múltiplo para uma
vida que imita a Cristo.
Todavia, alguns ensinam que uma igreja deve ser dirigida por
“uma equipe” . Ninguém deve ser indicado para ser o líder principal.
Em geral, nos últimos anos isso tem sido fruto de uma reação
extremada contra homens que surgiram como personalidades
autoritárias nas igrejas. Alguns pastores têm o controle absoluto. Seus
presbíteros e diáconos são meros fantoches, que fazem o que lhes é
determinado.
É verdade que as Escrituras não contêm modelos de estrutura para
os nossos padrões atuais no que diz respeito à nomeação de pastores
titulares, co-pastores, pastores auxiliares, etc. Mas também não temos
modelos para a estrutura de liderança múltipla que, com freqüência,
tentamos praticar em nossas igrejas atuais. Conforme se destacou num
capítulo anterior, precisamos lembrar que nos primeiros dias da igreja
era impossível os cristãos se reunirem num único local. Embora
houvesse presbíteros em Éfeso, sem dúvida eram responsáveis por
várias igrejas-lares. O mesmo acontecia na igreja de Jerusalém. Por
isso, não sabemos quem era responsável por essa igreja. Embora
leiamos acerca dos presbíteros de Jerusalém, parece evidente que, por
fim, Tiago despontou como o líder principal.
Há uma porção de dados bíblicos que apontam para o fato de que
é preciso estabelecer linhas de autoridade para que a igreja tenha uma
vida de funcionamento normal. Por exemplo, reconhecia-se claramente
que Paulo tinha autoridade sobre Timóteo, sobre Tito e sobre outros
homens que ajudaram a fundar igrejas. Por sua vez, reconhecia-se
claramente que Timóteo e Tito tinham autoridade para nomear
presbíteros em determinadas cidades. A conclusão lógica é que certos
presbíteros receberam autoridade para dar direção ao ministério em
certas localidades.
Lembre-se também da probabilidade de que a igreja do Novo
Testamento tenha sido influenciada de modo significativo pela
sinagoga. Embora houvesse um conselho de anciãos (presbíteros) que
dirigia dada sinagoga, a Bíblia fala também daqueles que eram os
líderes principais nas sinagogas (At 18.8, 17).
Não são apenas os dados bíblicos que apontam para o fato de que
alguém deva ser nomeado líder principal em determinada situação; a
prática fornece abundância de provas a respeito. Isso acontece
sobretudo quando uma igreja começa a crescer e outros pastores de
tempo integral passam a integrar a equipe de líderes. Sem o
estabelecimento de linhas de comando, é comum surgir insegurança
entre os membros da equipe remunerada da igreja. Além disso, abre-
se uma porta para o surgimento de uma disputa pelo poder, que
sempre resulta em desunião.
É verdade que, quando uma igreja é pequena e existe um só pastor
remunerado, esse pastor pode atuar com um grupo de presbíteros não
remunerados como se eles fossem os líderes da igreja. Aliás, eles são.
Mas, mesmo aí, o pastor remunerado despontará como um presbítero
de presbíteros, um pastor de pastores. E, quando a igreja passa a ter
outro pastor remunerado, é muito importante que essa pessoa preste
contas ao líder espiritual principal. Ele não pode estar no mesmo nível
de autoridade, pois, caso esteja, isso geralmente leva à ineficiência e,
finalmente, ao conflito.
Veja, por exemplo, um aspecto prático. Quem determina a política
salarial numa igreja em que não há normas de comando entre a equipe
remunerada? É impossível os homens que fazem parte da equipe
remunerada reunirem-se para decidir quais serão seus próprios
salários. Alguém precisa ser o líder principal para recomendar os
aumentos de salário, conhecendo aqueles que fazem parte da sua
equipe. Os presbíteros de tempo parcial não estão suficientemente em
contato com as atividades cotidianas de uma igreja para poderem
julgar corretamente se alguém está ou não desempenhando bem as
tarefas.
Todavia, é importante salientar que, quanto mais um líder
espiritual recebe autoridade e responsabilidades, tanto mais deve
servir. Não deve reinar sobre aqueles que estão debaixo de sua
liderança. É possível ser um pastor titular e ainda ser um servo de
toda a equipe remunerada, dos líderes não-remunerados, bem como de
todo o corpo de Cristo. Jesus demonstrou esse princípio em sua
própria vida, ao ensinar que aquele que queria ser o maior devia ser
o servo de todos.

Liberdade para desenvolver


7. As igrejas devem ter a liberdade de desenvolver formas e estruturas
criativas para pôr em prática as funções e os princípios acima
esboçados.
Existem muitas perguntas quanto à “forma” de liderança a que as
Escrituras não respondem especificamente. Algumas dessas perguntas
são:

1. Qual deve ser a idade dos líderes espirituais?


2. Como deve ser feita a escolha deles?
3. Quantos líderes devem existir em determinada igreja?
4. Por quanto tempo devem servir?
5. Qual é a melhor maneira de esses líderes desempenharem suas
funções?
6. Quando existe mais de um líder espiritual, quem assume a
liderança principal?
7. Que designações se devem dar a esses líderes espirituais?

Embora não haja respostas específicas a tais perguntas, as Escri­


turas de fato apresentam princípios específicos, e os ângulos da
história e da cultura oferecem mais diretrizes:

1. Devem-se escolher os líderes espirituais dentre aqueles que


aprenderam após anos de experiência que os tornaram pessoas de
sabedoria e de discernimento.
2. Deve-se desenvolver um sistema de seleção que descubra e
indique líderes qualificados, profundamente respeitados pelas pessoas
da igreja. Em nossa própria igreja, os presbíteros são escolhidos
dentre homens bem-sucedidos na tarefa de ministrar a um pequeno
grupo de cristãos durante um bom período de tempo. Além disso,
devem ser aprovados pelo pequeno grupo, sendo considerados
qualificados para atuar como presbítero. Afinal, as pessoas a quem
esse líder ministrou são as que o conhecem melhor.
3. A junta de presbíteros deve ser suficientemente pequena para
tomar decisões com rapidez, mas também com sabedoria. Em minha
própria experiência, já vi o resultado de uma junta grande demais.
Quando isso ocorre, o comparecimento varia de uma reunião da junta
para outra. A comunicação começa a entrar em colapso. Por fim, fica
difícil manter a união em torno das decisões, e, quando isso acontece,
o processo torna-se demorado, trabalhoso, repetitivo e ineficiente.
4. Caso se limite o tamanho da junta da igreja para que a tomada
de decisões seja eficaz, então se deve desenvolver um sistema de
revezamento entre os líderes, a fim de abrir espaço para que outros
líderes qualificados atuem na junta. De outro modo, a junta fica
“ensimesmada” .
5. Deve-se desenvolver um plano que permita aos líderes
espirituais cumprir eficazmente suas funções como pastores. Caso
contrário, eles se tornarão apenas administradores, o que leva a
decisões não de acordo com as necessidades das pessoas.
6. Finalmente, é lógico e prático que os líderes da igreja local
atribuam a função principal de liderança na igreja ao pastor ou
presbítero “titular” . É de redobrada importância estabelecer normas
de comando quando mais de um presbítero é acrescido à equipe
remunerada, de modo que essas pessoas estejam subordinadas ao
pastor principal.

Um exemplo
A seguir, temos uma apresentação que preparamos para usar na
Fellowship Bible Church North. Esse documento foi desenvolvido
após dez anos de experiência na fundação de igrejas, tentando aplicar
os princípios esboçados neste capítulo.

A LIDERANÇA
... uma filosofia de forma e função

Talvez você esteja imaginando por que, na Fellowship Bible Church


North ( f b c n ) , temos um impresso que trata exclusivamente de liderança
e de formas e funções da liderança dentro da igreja. A razão é que
fazemos distinção entre forma e função no Novo Testamento. A Bíblia é
bem específica quanto às funções da liderança no Novo Testamento, mas
nos deixa livres para desenvolver as formas. Ao descrevermos nossas
formas, não acreditamos ter a única ou mesmo a melhor forma.
Desenvolvemos as formas em tomo das nossas necessidades e expe­
riências.

O que se segue é um esboço das formas de liderança na f b c n .


Obviamente, uma vez que não são absolutas, estão sempre sujeitas a
mudanças.
Idade. A Bíblia não especifica a idade que um homem deve ter para
poder ser um presbítero. No entanto, a palavra presbítero, em si,
significa um “homem mais velho” . Mas ainda assim a Bíblia não
especifica o que significa “mais velho” cronologicamente falando.
A idade é relativa. Alguns homens, dada a experiência, desenvolvem
qualidades de maturidade e de sabedoria antes dos outros. Todavia, as
Escrituras deixam implícito, com o que a maioria das pessoas concorda,
que existem certas habilidades que não desenvolvemos sem a experiência.
E a experiência leva tempo.
Na FBCN, decidimos que um presbítero deve ter aproximadamente 40
anos ou mais. Reconhecemos ser essa uma decisão arbitrária, sem valor
absoluto. No entanto, serve de diretriz na escolha dos presbíteros. Uma
vez que essa decisão não tem valor absoluto, a qualquer momento os
próprios presbíteros podem fazer exceções.

Normas de escolha. As Escrituras não especificam como se devem


escolher ou nomear os presbíteros. Sabemos que Paulo e Barnabé
nomearam presbíteros (At 14.23) e sabemos que Timóteo e Tito devem
ter nomeado presbíteros (1 Tm 3.1; Tt 1.5).
Entretanto, o nosso problema hoje é que não somos “apóstolos”, no
sentido principal da palavra, nem temos homens nomeados pelos
apóstolos, tais como Timóteo e Tito, que permaneceram em certas loca­
lidades e ajudaram a desenvolver igrejas que foram fundadas durante as
viagens missionárias.
No entanto, existe um princípio que surge para nos orientar. Numa
nova igreja, os presbíteros podem ser nomeados por alguém já
reconhecido como líder espiritual qualificado.
Há outras situações no Novo Testamento que ilustram outro princípio.
Numa igreja em que já exista um considerável corpo de fiéis, parece
sábio conseguir a aprovação dos que tomam parte na escolha e na
nomeação dos presbíteros. Não parece cabível uma “votação”, ou seja,
que se faça uma escolha entre possíveis candidatos. Em vez disso, parece
que as pessoas devem “aprovar” ou “desaprovar” um indivíduo
recomendado para essa função com base em suas qualificações. Em outras
palavras, se um homem é recomendado por outros líderes qualificados da
igreja, parece sábio obter a aprovação de todo o corpo.
Em vista desses princípios, estabelecemos o seguinte procedimento:

1. No início, os presbíteros devem ser recomendados pelo pastor


titular e aprovados pela maioria do corpo.
2. A partir daí, os presbíteros devem ser recomendados pelos outros
presbíteros e aprovados pela maioria do corpo.

Número de presbíteros. As Escrituras, uma vez mais, não especificam


quantos presbíteros devem trabalhar numa igreja local. Uma vez que,
muitas vezes, a igreja do Novo Testamento abrangia várias igrejas-lares
em determinada cidade (ao contrário do que ocorre em nossa cultura, elas
não podiam possuir prédios próprios), não temos certeza sobre como isso
funcionava. Eles tinham um presbítero para cada igreja-lar? Talvez, mas
não temos certeza. Pode ser que eles tivessem mais de um presbítero nas
igrejas-lares maiores, visto haver provas de que, na época do Novo
Testamento, algumas residências podiam acomodar até 500 pessoas.
Uma coisa sabemos: em geral eles tinham mais de um presbítero
numa única igreja. No entanto, a igreja do Novo Testamento estava
dispersa em várias unidades, mas ainda assim era vista como uma única
igreja (e.g., a igreja de Jerusalém e a igreja de Éfeso).
O princípio de liderança múltipla no Novo Testamento é bem claro.
O número específico de líderes por igreja não é claro. Isso envolve
forma. Na FBCN, decidimos ter um mínimo de sete presbíteros e um
máximo de 12 atuando ao mesmo tempo na junta diretora da igreja. A
experiência nos ensinou que um grupo grande atrapalha o processo de
tomada de decisões. Além disso, é difícil agir com base no consenso,
embora a Bíblia também não especifique como tomar as decisões.
Todavia, quando o grupo é pequeno, é muito mais fácil chegar a uma
decisão unânime mediante discussão do que quando o grupo é grande.

Duração do mandato. Mais uma vez, mediante um estudo da Palavra


de Deus, chegamos à conclusão de que não há orientação específica
quanto ao tempo que um presbítero deve trabalhar na igreja. A Bíblia
parece deixar implícito que, quando um homem se toma presbítero, tem
diante de si uma oportunidade ilimitada e pode obrar nessa função en­
quanto tiver tempo para isso e permanecer qualificado. Certamente essa
“forma” é permitida. Contudo isso cria alguns problemas sérios em nossa
cultura contemporânea, quando as igrejas crescem bastante. Um problema
é que, com o intuito de manter aberta a oportunidade para novos pres­
bíteros, o corpo de presbíteros cresce tanto que não consegue funcionar
direito quando precisa tomar decisões. E deve-se dizer que, quando se
adota um sistema “fechado” de presbíteros, também surgem sérios
problemas. Em primeiro lugar, existe o perigo de o grupo de presbíteros
tomar-se “ensimesmado”. Em segundo lugar, esse sistema não oferece
aos outros homens do corpo a oportunidade de atuar como presbíteros.
Podemos desenvolver várias formas para solucionar esse problema.
Uma é que o corpo de presbíteros seja sempre aberto, mas um grupo
menor de presbíteros seja escolhido para atuar como o grupo que toma as
decisões. Entretanto, um dos problemas desse sistema é que os presbíteros
não escolhidos para participar do grupo menor podem sentir-se deixados
de lado. Visto que são presbíteros, tendem a achar que devem tomar parte
em todas as decisões.
Na f b c n escolhemos outra forma. Os presbíteros nomeados para a
junta diretora da igreja trabalham durante três anos, com exceção dos que
fizeram parte da primeira junta de presbíteros. Anualmente, um terço dos
homens deixará a junta, o que significa que um terço da junta inicial
atuará somente um ano e outro terço, dois anos.
Depois de um ano de ausência, um homem pode trabalhar como
presbítero por mais três anos. Deve-se também mencionar que um homem
poderá renunciar à sua participação na junta a qualquer momento, quando
sentir que deve fazê-lo, ou se os outros presbíteros sentirem que, de
alguma forma, ele se desqualificou.

Aptidão. Qualquer homem que 1) tenha cerca de 40 anos ou mais de


idade, 2) esteja qualificado de acordo com as especificações paulinas
encontradas em 1 Timóteo 3 e em Tito 1 e 3) tenha atuado satis­
fatoriamente como pastor de uma mini-igreja durante um bom período de
tempo está apto para compor a junta de presbíteros. Além disso, um
presbítero deve continuar a ser um pastor ativo, trabalhando numa mini-
igreja enquanto atua na junta de presbíteros. Cremos ser isso importante,
pois um homem que não é um pastor atuante tende a tomar decisões em
desacordo com as necessidades do povo. Não cremos que a Bíblia faça
concessões à existência de um presbítero exclusivamente “ administrativo ” .

Resumo
1. Ao discernir e pôr em prática o plano de Deus para a liderança na
igreja de hoje, devemos fazer uma distinção cuidadosa entre as
duas fases da liderança no Novo Testamento, mas ao mesmo tem­
po compreender a aplicabilidade tanto de um ministério “apos­
tólico” , quanto de um ministério junto à igreja local no desem­
penho da grande comissão no mundo do século XX.
2. O primeiro passo ao ajudar igrejas locais no crescimento espiritual
é nomear pessoas espiritualmente qualificadas para liderar essas
igrejas. Tais líderes devem ser, antes de tudo, escolhidos por qua­
lificações espirituais, não por dons, talentos e habilidades.
3. Os líderes espirituais devem atuar como dirigentes e pastores, não
apenas como administradores e tomadores de decisões.
4. Os líderes espirituais devem manter suas prioridades e delegar as
responsabilidades de natureza cultural a outros homens e mulheres
qualificados.
5. As igrejas devem nomear certos líderes espirituais para assumirem
cargos de tempo integral e remunerá-los adequadamente por seus
esforços.
6. Quando possível, as igrejas devem ser dirigidas por mais de um
líder espiritual, mas é importante designar um deles como o prin­
cipal.
7. As igrejas devem ter a liberdade de desenvolver formas e
estruturas criativas para pôr em prática as funções e os princípios
acima esboçados.

Notas

1 É verdade que hoje em dia algumas pessoas afirmam ter o mesmo poder
dos apóstolos e de outros líderes do século i. Alguns afirmam ter expe­
rimentado e/ou observado esse poder. Pessoalmente, não tenho lido nem
observado nada que me convença de que aquilo que afirmam seja equivalente
às manifestações reveladas no Novo Testamento. Não significa que Deus não
possa fazê-lo ou que não o tenha feito. Mas tenho visto muitas alegações que,
mais cedo ou mais tarde, revelam-se pouco autênticas, o que leva as pessoas
a ter cautela em relação a tais afirmações.
2 Infelizmente temos imposto estereótipos a essa palavra bíblica. No Novo
Testamento a pregação nunca teve somente um caráter transmissivo. As
mensagens de Pedro em Atos demonstram a presença de dinâmica de grupo,
interação e reação.
Os exemplos
bíblicos de
administração e
de organização

A Bíblia pouco fala de padrões de organização e de administração.


Mas isso tem um motivo, pois nada se toma tão rapidamente obsoleto
quanto as formas estruturais. Elas não passam de meios para chegar
aos fins que Deus estabeleceu. Além disso, a vida é feita de tantas
variáveis e de tantos acontecimentos imprevisíveis, que a criatividade
deve ser constante nessa área.
Mas a Bíblia/a/c sobre o assunto e, quando o faz, seus exemplos
revelam alguns princípios dinâmicos e poderosos.
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, as ilustrações sobre
a organização e a administração trazem à tona os mesmos princípios
básicos. Mais uma vez, isso ajuda a mostrar que os padrões não são
absolutos, mas sim os princípios.
O propósito deste capítulo é apresentar quatro exemplos de
estruturas — dois do Antigo Testamento e dois do Novo Testamento.
Primeiramente traçaremos um paralelo entre um exemplo do Antigo
Testamento e um exemplo do Novo Testamento, para mostrar como
é clara a semelhança na natureza dos problemas, das soluções e dos
resultados. Os dois exemplos seguintes são bem distintos um do outro,
mas também demonstram princípios semelhantes.

Um estudo comparativo
Dois dos problemas mais óbvios que requeriam organização e
administração encontram-se em Êxodo 18 e em Atos 6. O primeiro
era um agrupamento de, sem dúvida alguma, mais de dois milhões de
pessoas acampadas no deserto. O segundo tratava-se de um grupo de
cristãos que se multiplicavam rapidamente em Jerusalém e já havia
chegado à casa dos milhares.1
O quadro a seguir ajudará a isolar os problemas, as soluções e os
resultados registrados nessas passagens.

M o is é s n o D e s e r t o A s V iú v a s N e g l ig e n c ia d a s
(Ê x 1 8 .1 3 -2 7 ; D t 1 .9 -1 8 ) (A t 6 .1 -7 )

P roblem a Problem a

Êxodo 18 Atos 6
v . 13 — 0 p o v o ficav a d e p é v. 1 — O n ú m e ro d e d isc íp u lo s
ju n to a M o isés d e sd e a c re s c ia ra p id a m e n te . C o m
m a n h ã até o fim d a ta rd e . tal c re sc im e n to :
v . 14 — M o isés assen tav a -se só, • o siste m a c o m u n itá rio e s­
te n ta n d o fazer so zin h o to d o ta v a -se d e sg a sta n d o ;
o tra b a lh o . • c e rto s in d iv íd u o s d e n tre
v v . 15, 16 — M oisés estav a os ju d e u s h e le n ista s e sta v a m
te n ta n d o re s o lv e r o p ro ­ sen d o e sq u e c id o s n a d is tr i­
b le m a do p o v o ; e le se rv ia b u iç ã o d iá ria d e a lim e n to ;
d e ju iz em q u estõ es d e re la ­ • c o n se q ü e n te m e n te , os
ç õ es in terp esso ais e e n sin a ­ h e le n ista s c o m e ç a ra m a
v a ao p o v o as le is d e D e u s. q u e ix a r-se .
v . 18 — E sse p ro cesso la b o rio so v. 2 — O s d o z e a p ó sto lo s v ira m -
c a u sa v a u m d e sg a ste d e s­ se e n v o lv id o s n e ss a d is ­
n ecessário tan to p a ra M o i­ c u ssã o , e o s re s u lta d o s d e s­
sés q u an to p a ra o p o v o . se descontentamento fize­
ram com que eles come­
çassem a negligenciar sua
responsabilidade básica: en­
sinar a Palavra de Deus.
So l u ç ã o Solu çã o

Êxodo 18 Atos 6
v. 19 — Jetro, o sogro de Moi­ v. 2 — Os doze convocaram
sés, serviu-lhe de consultor. uma reunião dos discípulos,
Jetro aconselhou Moisés a vv. 3, 4 — Nessa reunião,
estabelecer prioridades: informaram as pessoas a
• servir de mediador entre respeito de sua res-
o novo e Deus; oonsabilidade maior na
• ensinar ao grupo os esta­ qualidade % doze após­
tutos e as leis de Deus. tolos: a e o minis-
vv. 20, 21 — Delegar a
responsabilidade de lidar v.o 3 í& e^ ^ ^u íram os cristã
com os problemas inter­ '■Qb-escolherem sete
pessoais da vida cotidiana a qualificados para cuic
um grupo seleto de hoj das necessidadepèxfstentes:
qualificados: “hc “hom e^ dgVboa reputação,
capazes, tementçs a Deus, do Espírito e de
homens dsvfv&raape, que loria. ”
aborrè0^a§vareza” . ^ congregação escolheu
v. 22 — homens deviam fp ) sete homens — obviamente
'^aidaP dos assuntos meu helenistas.
ííportantes, e sor v. 6 — Os apóstolos con­
de maior gravidáâif^â&viam firmaram a escolha do povo
ser passados^. Mbisés. mediante oração e impo­

Deute)
áCT sição de mãos.

Moisés comunicou seu


problema ao povo.
Moisés instruiu cada
tribo a escolher “homens
sábios, entendidos e expe­
rimentados”; em seguida,
Moisés nomeou-os como
chefes.
vv. 16-18 — Moisés instruiu
cuidadosamente os líderes
acerca de tudo que deviam
fazer.
Resultad o s R esultad o s

Ê x o d o 18 A to s 6
v. 22 — Moisés recebeu ajuda em v.7 — As necessidades do povo
suas responsabilidades, foram atendidas; restaurou-
v. 23 — Moisés pôde suportar o se a unidade; os apóstolos
peso de seu papel de líder. puderam realizar sua tarefa
• as necessidades das pes­ principal:
soas foram atendidas, e • a Palavra de Deus conti­
elas ficaram satisfeitas. nuou a se espalhar;
• o número de cristãos con­
tinuou a se multiplicar.

Embora esses dois acontecimentos tenham ocorrido em épocas


diferentes, em ambientes diferentes e em circunstâncias diferentes, e
embora tenha havido muitas outras diferenças cercando os detalhes
dessas duas situações, a natureza dos problemas, a maneira como os
problemas foram solucionados e os resultados são impressionan­
temente parecidos.

A natureza do problema
Tanto Moisés quanto os apóstolos tinham de fazer pessoalmente mais
do que conseguiam e começaram a envolver-se com detalhes que os
impediam de dar conta de suas responsabilidades básicas. Moisés, em
particular, não conseguia suportar as tensões físicas e psicológicas.
Ademais, nas duas situações, o próprio povo estava sob tensão,
insatisfeito, porque suas necessidades pessoais estavam sendo negli­
genciadas. Os filhos de Israel vinham até Moisés para receber
instrução, para receber a solução dos problemas existentes entre eles,
para apresentar suas queixas e para fazer suas petições. É evidente que
algumas pessoas ficavam o dia inteiro na fila e, talvez, assim mesmo
não conseguissem uma oportunidade de ter uma audiência com seu
líder (Êx 18.13).
Em vista dos problemas anteriores que Moisés havia tido com essas
pessoas — desejo de retornar para o Egito, suas queixas contra ele por
tê-los levado à experiência no deserto, sua carnalidade e pecado —
não é preciso muita imaginação para ter uma idéia do ambiente tenso
e das explosões emocionais que devem ter ocorrido entre elas.
Os discípulos em Jerusalém devem ter enfrentado problemas
parecidos. Embora se espere que fossem mais “maduros espiri­
tualmente” que seus antepassados, esses novos cristãos também
ficaram muito descontentes quando suas necessidades físicas não foram
atendidas. Além do mais, é possível que, em Atos 6, vejamos uma
manifestação de favoritismo em relação a determinada classe ou grupo
de pessoas.
Eram os judeus helenistas contra os hebreus. Os hebreus eram
judeus naturais da Palestina, ao passo que os helenistas residiam em
outros países, tais como a Síria, o Egito e a Ásia Menor. Os judeus
da Palestina falavam sua própria língua, enquanto os helenistas
falavam grego. Além disso, os hebreus provavelmente constituíam a
maioria dos cristãos, e os judeus de língua grega estavam em minoria.
Acrescente-se a isso que, sem dúvida, os judeus da Palestina refletiam
os aspectos mais rigorosos do judaísmo puro, enquanto os helenistas
refletiam a influência de costumes gregos.
Conseqüentemente, temos uma combinação de fatores que podem
ter forte correspondência com alguns dos problemas de preconceito
existentes na igreja do século XX. Mas talvez seja da maior impor­
tância o fato de que o crescimento da igreja foi tão rápido que a
tendência natural de negligenciar determinadas pessoas pode ter-se
tornado o fator principal no surgimento desse problema.

A solução do problema
Embora os passos específicos tomados na solução dos problemas
existentes fossem diferentes em certos aspectos, houve quatro
semelhanças importantes. Em primeiro lugar, tanto Moisés como os
apóstolos estabeleceram prioridades. No caso de Moisés, foi seu
sogro, Jetro, que o ajudou a ver e a analisar os problemas. Ele
aconselhou Moisés a dedicar maior atenção à sua tarefa de mediador
entre o povo e Deus (Êx 18.19) e de mestre, para ensinar ao povo a
Palavra de Deus (Êx 18.20).
Assim que perceberam os problemas em Jerusalém, os apóstolos
comunicaram à multidão de cristãos que não podiam-se sobrecarregar
com os detalhes acerca do serviço às mesas, mas deviam continuar
dedicando o melhor de seus esforços ao ensino da Palavra de Deus e
à oração (At 6.2-4). Não estavam negando a importância de tais
detalhes, mas sabiam que não conseguiriam alcançar seus objetivos
espirituais maiores e, ao mesmo tempo, estar envolvidos no aten­
dimento das necessidades físicas do povo.
A segunda semelhança é a delegação de responsabilidade a homens
qualificados. Moisés escolheu homens capazes: tementes a Deus,
honestos, que também aborreciam a avareza (Êx 18.21)2 Os apóstolos
instruíram o povo a escolher sete homens de boa reputação, cheios do
Espírito e de sabedoria (At 6.3). Aqui é importante assinalar os
elevados padrões espirituais estabelecidos para a escolha de homens
que dessem conta da responsabilidade de atender às necessidades
físicas das pessoas.
Na verdade, em ambas as situações, esses padrões elevados foram
o segredo que garantiu a solução dos problemas. Moisés e os
apóstolos necessitavam de homens em quem pudessem confiar. Ho­
mens desonestos, sem espiritualidade, egoístas e sem tato só teriam
aumentado o problema. Por outro lado, homens qualificados poderiam
solucioná-lo.
A terceira semelhança é que eles se organizaram para atender à
necessidade existente naquele momento e naquelas circunstâncias
específicas. Na situação do Antigo Testamento, “escolheu Moisés
homens capazes, de todo o Israel e os constituiu por cabeças sobre o
povo: chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta, e chefes de
dez” (Êx 18.25). Essa foi a melhor estratégia para a ocasião. Esse
plano organizacional era uma estrutura adequada para uma nação em
marcha, e “essa solução estava relacionada com a divisão natural do
povo, e das tribos, e das famílias, etc” .3
Robert Jamieson comenta:

Foi uma solução admirável, baseada numa divisão do povo adotada não
somente em questões civis, mas também em militares; de modo que as
mesmas pessoas que, na guerra, eram oficiais, eram juizes em tempos de
paz (veja Números 31.14) [...]. Dessa forma, mediante a minuciosa
subdivisão que se procedeu no sistema judicial, cuidou-se para que todas
as pessoas tivessem o que era justo e eqüânime nas ações e nos processos
judiciais, sem ir muito longe para buscá-lo, sem esperar muito para obtê-
lo e sem ter de pagar uma exorbitância.4
Por outro lado, os apóstolos instruíram o povo (sem dúvida, so­
mente os cristãos helenistas) a escolherem sete homens dentre eles
mesmos. Essa foi uma decisão sábia, pois as próprias pessoas conhe­
ciam aqueles que preencheriam as qualificações prescritas pelos
apóstolos. Além do mais, se o povo escolhesse esses homens, não
haveria acusações de uma escolha preconceituosa por parte dos doze
(repare que todos os sete homens escolhidos tinham nomes gregos).
Novamente, a estrutura elaborada nessa ocasião era cabível à
situação. O número sete é significativo apenas pelo fato de ter sido
recomendado pelos apóstolos, porque calcularam que esse era o
número necessário para realizar o trabalho.5
A quarta semelhança é que, em ambas as circunstâncias, a estru­
tura estabelecida era temporária. Quando os filhos de Israel se
estabeleceram na terra, os planos organizacionais mudaram. Também
num período de tempo relativamente curto, a perseguição levou os
cristãos para fora de Jerusalém, e alguns dos homens que estavam
servindo às mesas tornaram-se evangelistas (At 7—8). A situação
havia mudado, criando novas necessidades, e exigia novas formas e
estruturas, especialmente quando as igrejas foram-se estabelecendo em
várias comunidades em caráter permanente.

O significado dos resultados


Os resultados dos passos organizacionais dados para solucionar os
problemas de Êxodo 18 e de Atos 6 estão claramente esboçados na
Palavra de Deus. Dito de forma simples, os problemas foram
resolvidos — pelo menos por algum tempo (problemas organizacionais
nunca têm solução definitiva). Moisés e os apóstolos puderam
desincumbir-se de suas tarefas primordiais. As necessidades das
pessoas foram atendidas, e elas ficaram satisfeitas. Também foram
atendidas as necessidades físicas e psicológicas de Moisés; e, em
conseqüência da nomeação dos sete homens em Atos, “crescia a
palavra de Deus e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos
discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé” (At 6.7).
R eco n stru çã o dos M uros

0 Livro de Neemias

0 problema

1.2, 3 Neemias, copeiro do rei da Pérsia, teve a informação de que,


em Judá, o remanescente que havia retomado estava em grande
miséria e desprezo, porque os muros de Jerusalém estavam
derrubados e queimados a fogo.

1.4 Neemias reagiu com depressão e tristeza.

A solução

1.4-11 Neemias jejuou e orou.

2 .1 , 2 Não hesitou em revelar sua tristeza ao rei.

2.3 Ele contou ao rei por que estava deprimido.

2.4 O rei perguntou a Neemias: “Que me pedes...?”.

2.4 Neemias pediu orientação a Deus para responder a essa


pergunta.

2.5 Ele pediu ao rei que o enviasse até Judá para reconstmir os
muros.

2 .6 0 rei atendeu ao pedido.


00

Neemias pediu que o rei lhe desse cartas oficiais para que
to

pudesse viajar livremente e também obter madeira da floresta


do rei.

2.12-16 Quando Neemias chegou, passou três noites inspecionando


secretamente a situação. A essa altura, desenvolveu uma
estratégia para reconstmir os muros.

2.17-20 Neemias então revelou seu plano e pediu ao povo que o aju­
3.1-32 dasse a reconstmir os muros.
4.1-13 Quando os inimigos de Israel tentaram interromper o trabalho,
o povo fez duas coisas: orou e estabeleceu uma guarda de dia
e à noite.

4.14 Quando o povo ficou mais assustado, Neemias disse 1) que não
temessem, 2) que se lembrasse da grandeza de Deus e 3) que
lutasse por amor a suas famílias.

4.15 Assim que a notícia de que eles estavam preparados para


defender-se chegou aos inimigos, retomaram ao muro para
prosseguir na sua edificação.

4.16-23 Neemias idealizou um novo plano de trabalho e de guarda, de


modo que pudessem continuar construindo, mas também estar
prontos para a guerra.

6.15 Eles terminaram os muros em 52 dias.

Os resultados imediatos

12.27-29, 0 povo cantou e louvou a Deus.


31-42

12.30 0 povo purificou a si mesmo e a cidade.

12.43 Eles ofereceram sacrifícios a Deus.

6.16 Quando os inimigos de Israel testemunharam esse feito incrível


e ouviram o júbilo de Israel, “decaíram muito no seu próprio
conceito” . Reconheceram que isso só pôde acontecer “por
intervenção de [...] Deus”.

A natureza do problema
Os problemas em Jerusalém concentravam-se nos muros derrubados.
Essa situação era motivo de ridicularização, deboche e humilhação
para o povo de Judá. Eles eram maltratados e sofriam abusos. Muitos
dos judeus tinham medo até mesmo de viver dentro da cidade. Eles
continuavam sendo um povo disperso, temeroso, muito embora esti­
vessem vivendo na terra de Judá. Quase não tinham segurança diante
dos inimigos ao redor, e viviam o tempo todo temerosos e ansiosos.
Conseqüentemente, muitos não estavam vivendo em comunhão com
Deus. Não adoravam a Deus, nem estavam tendo contato com as leis
de Deus. Alguns judeus até estavam aproveitando-se de seu próprio
povo (Ne 5). Não davam o dízimo, nem se mantinham puros e
separados do paganismo e da idolatria que os cercavam.

A solução do problema
A forma de Neemias solucionar esse problema foi um magnífico
exemplo de habilidade organizacional e administrativa, abrangendo as
dimensões tanto humanas como divinas. Elas misturam-se de tal forma
ao longo de toda a narrativa, que é difícil separá-las, mas ambas estão
presentes.
Em primeiro lugar, Neemias buscou sabedoria e ajuda da parte de
Deus (1.4-11).
Chocado com a terrível situação de seu povo, a providência inicial
de Neemias foi orar e jejuar. Ele reconheceu a grandeza de Deus,
confessou os pecados do povo (até mesmo os seus próprios), recordou
a Deus as suas promessas de tornar a congregar os filhos de Israel
caso se arrependessem e depois pediu ao Senhor que lhe concedesse
misericórdia diante do rei a quem servia.
Em segundo lugar, Neemias construiu pontes até o rei (2.1-10).
Ele já havia lançado os alicerces dessa ponte. Havia sido um bom
servo. Sua tristeza era bem visível para o rei, contrastando com seu
semblante sempre alegre. E, além disso, Neemias não teve medo de
revelar seus verdadeiros sentimentos, uma demonstração de certo grau
de familiaridade com o rei — e de fé.
A oração de Neemias foi respondida. O rei indagou por que ele
estava tão prostrado. Mas mesmo nesse instante Neemias dependeu de
Deus. Deixando um fator puramente humano (revelar sua tristeza), ele
sussurrou uma oração a Deus, pedindo sabedoria para responder à
pergunta do rei. Aí estava a oportunidade pela qual vinha ansiando.
Sua resposta, a maneira como respondeu e o que ele disse foram
cruciais!
Deus respondeu à oração de Neemias assim que ele orou. A
resposta de Neemias foi clara, porém cuidadosa. Ele pediu que o rei
o enviasse para reconstruir os muros.
Ao receber uma resposta favorável, Neemias deu outro passo, um
passo bem ousado! Solicitou ao rei que lhe desse cartas oficiais para
que pudesse atravessar vários países sem problemas. Chegou a ponto
de requerer o privilégio de derrubar árvores da floresta real.
Solicitação atendida! E com essas credenciais Neemias não apenas
construiu pontes até o rei, mas também construiu pontes para toda sua
viagem até Jerusalém e até seu próprio povo. Para surpresa dos
inimigos de Judá, Neemias chegou até com oficiais do exército e
cavaleiros designados pelo rei para acompanhá-lo.
Em terceiro lugar, Neemias verificou secretamente a situação em
Jerusalém e desenvolveu sua estratégia (2.11-16; 3.1-32).
Por três noites sucessivas, ele inspecionou e avaliou, em silêncio,
mas com cuidado, o dano sofrido pelos muros. Aqui temos, nas
entrelinhas, a personificação da sabedoria administrativa. Neemias
sabia que era preciso ter os dados em mãos antes de desafiar o povo
a reconstruir os muros. Além disso, só o fato de deixá-los conhecer
o propósito de sua vinda, antes de desenvolver sua estratégia, seria
fatal. Humanamente falando, ele podia ter perdido as pessoas antes
mesmo de tirar o plano do papel. E, mais, soltar a informação logo
no início seria revelar o plano aos inimigos de Israel, que zom b ariam
ainda mais.
O povo, é claro, não precisava ser mais desmoralizado. Eles já
estavam lá embaixo. O grande desafio de Neemias era erguer o m o r a l
do povo e convencê-lo de que era possível fazer o trabalho. Assim,
passou a desenvolver uma estratégia específica. Os sacerdotes
trabalhariam na Porta das Ovelhas, deduzindo que essa atribuição
mexia com os sentimentos pessoais deles. Alguns estudiosos acreditam
que essa porta ficava próxima ao templo e que seria através dela que
os sacerdotes traziam o gado miúdo para o sacrifício. Os homens de
Jericó receberam a incumbência de trabalhar na parte do muro que
ficava mais perto daquela cidade. De modo análogo, caso as espe'
culações arqueológicas estejam corretas, os ourives e os perfumistas
receberam como trabalho uma seção do muro mais próxima de suas
lojas.
Quaisquer que sejam os detalhes, está claro que Neemias elaborou
seu plano cuidadosamente, com sabedoria. As expressões “ao lado
dele” , “junto a ele” , “junto deles” , “ao lado destes” ou “depois dele’
são empregadas mais de 25 vezes para designar a estrutura
organizacional. Cada pessoa ou grupo que pudesse trabalhar, até
mesmo algumas mulheres, recebia alguma tarefa.
Em quarto lugar, Neemias revelou o plano ao povo, motivando-o
com fatores humanos e divinos (2.17-20).
Neemias apelou primeiramente para a condição miserável deles —
a zombaria que estavam suportando por causa dos muros derrubados
e a condição desoladora de Jerusalém. Em seguida, disse-lhes como
Deus o havia ajudado a conquistar o favor do rei e seu apoio nessa
empreitada.
Os resultados foram positivos. “Disponhamo-nos, e edifiquemos”
foi a reação; e assim sucedeu. Quando os inimigos ouviram a respeito
e viram as pessoas ocupando seus lugares ao redor do muro, reagiram
com zombaria e ódio! Mas o povo estava preparado. Seus alvos
estavam estabelecidos — sua estratégia estava delineada! Não
sucumbiram aos ataques desmoralizantes dos inimigos.
Repare que Neemias disse “Nós nos disporemos e reedificaremos”
(2.20). Ele era o líder do grupo, mas também era “um” deles. Fazia
parte da equipe e também estava na linha de frente, envolvido na
mesma obra difícil (5.16). Isso é liderança dinâmica. Essa é uma
razão fundamental por que esse povo viu tal projeto chegar a seu
término apesar de as probabilidades serem quase nulas. O exemplo de
Neemias superou em muito aquilo que se espera normalmente. Sua
vida foi de um contraste tal com aqueles “oficiais” e “líderes” ao seu
redor, que ele gerou uma lealdade e uma motivação incomuns.
Em quinto lugar, Neemias supervisionou a obra de perto, enfren­
tando e solucionando os imprevistos à medida que surgiam (4.1-12;
6.15).
Lançar os alicerces de qualquer empreendimento é somente parte
do processo organizacional-administrativo. Muito embora o povo
estivesse disposto a trabalhar, teve de enfrentar zombarias e
hostilidades constantes. O trabalho prosseguiu, e quando ficou óbvio
que os inimigos estavam planejando atacar para interromper o
trabalho, Neemias preparou-se para a batalha, colocando pessoas ao
redor de todo o muro. Ele os instalou por famílias (4.13). Esse foi um
gesto sagaz, mas necessário. Garantia uma boa atuação, caso fossem
atacados. Se suas famílias estivessem em outra parte da cidade ou fora
dos muros, a tentação seria correr para elas. Agora, teriam de lutar
para protegê-las — ali mesmo!
Neemias sabia que era exatamente isso que os motivaria. De
maneira que, quando viu o medo deles, deu-lhes três ordens: 1) “Não
os temais” ; 2) “Lembrai-vos do S e n h o r , grande e temível” e 3)
“Pelejai pelos vossos irmãos, vossos filhos, vossas filhas, vossas
mulheres e vossas casas” (4.14).
Felizmente, a batalha nunca se concretizou. O inimigo, eviden­
temente apavorado com essa determinação e com a posição corajosa
dos judeus, deu um passo atrás em suas ameaças (4.15). E, uma vez
mais, todos retomaram a tarefa no muro.
Neemias idealizou nova estratégia. A partir daí alguns passaram a
trabalhar e outros a guardar; alguns trabalhavam com uma mão e
carregavam sua arma com a outra; aqueles que precisavam trabalhar
com ambas as mãos tinham as espadas ao lado. E uma trombeta seria
usada para reunir o povo rapidamente em caso de ataque. Ninguém
deveria sair de Jerusalém à noite; ao contrário, todos deviam montar
guarda. E, nos dias finais da construção, Neemias e muitos de seus
trabalhadores e guardas nunca tiravam as roupas nem descansavam as
armas, mesmo quando paravam para beber água (4.23). Contra todas
as probabilidades, terminaram o muro em 52 dias!

O significado dos resultados


Os resultados da habilidade organizacional e administrativa de
Neemias são patentes durante todo o programa de construção. Esse foi
um projeto amplo, e a cada etapa Neemias alcançou certos alvos
significativos. Ele conquistou o favor do rei, motivou o povo a
começar o trabalho, manteve o povo nessa tarefa apesar das ameaças
de seus inimigos e, finalmente, reconstruiu o muro. E, enquanto fazia
tudo isso, Neemias ajudou a corrigir problemas sociais e financeiros
(5.1-9) e protegeu-se de uma armadilha contra sua própria vida,
preparada por Sambalá e Gesém (6.1-14).
Os resultados finais desse projeto foram intensamente recom­
pensadores. Neemias deve ter ficado com o coração cheio de ações de
graças e louvor a Deus, pois ao longo de toda essa experiência
avassaladora, ele louvou o Deus do céu a cada vitória.
Imagine a sensação que teve ao ouvir o povo cantando e louvando
a Deus por ocasião da dedicação do muro (12.27-29,31-42). Os dois
grandes coros no alto dos muros devem ter sido uma visão inacre­
ditável para os inimigos de Judá. Os sons de suas vozes e de seu
júbilo eram tão altos que podiam ser ouvidos “até de longe” (12.43),
e seus inimigos ficaram tão espantados com essa fantástica realização
que “decaíram muito no seu próprio conceito” (6.16). Nas palavras
do próprio Neemias, “reconheceram que por intervenção de nosso
Deus é que fizemos esta obra” .
Seguiram-se outros resultados. O povo conseguiu desenvolver um
sistema defensivo que proporcionava segurança contra o inimigo
(4.17). Houve mais reformas sociais, quando conseguiram reorganizar
e desenvolver a ordem na comunidade (11.1, 2). E o mais importante,
houve reformas religiosas. Mais uma vez, o povo pôde reunir-se para
ouvir a lei de Deus (8.1-18). E o resultado mais gratificante para
Neemias foi ver o povo — como um povo reunificado — confessando
seus pecados, adorando ao Deus do céu e fazendo uma aliança com
ele.

O C o n c íl io de Jeru salém
Atos 15.1-35

P ro b le m a

15.1 Certos homens estavam ensinando doutrinas falsas em


Antioquia: “Se não vos circuncidardes [...], não podeis ser
salvos”.

15.2 Paulo e Barnabé discutiram publicamente a questão, mas não


conseguiram resolver o problema.

Solução

15.2, 3 A igreja de Antioquia decidiu buscar a orientação dos apóstolos


e dos presbíteros de Jerusalém.
Os exemplos bíblicos de administração e de organização 223

15.4 A delegação de Antioquia relatou como os gentios estavam-se


convertendo somente pela fé.

15.6 Os apóstolos e presbíteros reuniram-se a sós para discutir a


questão.

15.7-11 Pedro lembrou o povo acerca do que Deus fizera com Comélio
e sua família.

15.12 Paulo e Barnabé testemunharam especificamente sobre os


“sinais e prodígios [que] Deus fizera por meio deles entre os
gentios”.

15.13-18 Tiago mencionou a obra dos profetas do Antigo Testamento e


como eles haviam predito a conversão dos gentios.

15.19-21 Tiago propôs uma solução.

15.22 Os apóstolos, presbíteros e toda a igreja concordaram com essa


proposta.

15.22-30 Escreveu-se uma carta detalhando a solução.

15.22 A igreja escolheu Judas e Silas para entregar a carta.

15.30,32 Judas e Silas entregaram a carta e também deram “muitos


conselhos” .

Resultados

15.31 A igreja regozijou-se quando ouviu o conteúdo da carta.

15.33 Judas e Silas foram enviados em paz de volta a Jerusalém.

15.35 A obra de Deus prosseguiu sem obstáculos.

16.4, 5 As instruções da carta foram entregues por Paulo, Silas e


Timóteo a muitas das novas igrejas.
A natureza do problema
Aí estava um problema que afetaria todas as igrejas recém-orga-
nizadas. Antioquia era um destacado centro de atividade cristã, e não
demoraria muito para que a notícia da discórdia e da discussão se
espalhasse entre os novos convertidos espalhados por todo o mundo
do Novo Testamento. O resultado seria confusão, desilusão e desu­
nião.
Não era um problema de pouca monta! Encontramos Paulo e
Barnabé discutindo abertamente com homens vindos de Jerusalém, o
nascedouro de todo o movimento cristão. A questão era simplesmente
crucial: ou o homem era “salvo pela graça mediante a fé” ou então a
salvação também dependia das obras. Não podia ser as duas coisas ao
mesmo tempo. Os resultados dessa controvérsia, ou uniriam, ou
dividiriam as igrejas.

A solução do problema
Não levou muito para os líderes da igreja de Antioquia reconhecer a
natureza explosiva desse problema. Eles agiram rapidamente e com
sabedoria. Enfrentaram o problema de frente. Reuniram-se e con­
cluíram que esse problema escapava à sua capacidade. Precisavam de
ajuda. Agindo com perspicácia, decidiram levar o problema de volta
à sua fonte. Escolheram uma delegação —para acompanhar Paulo e
Barnabé — e partiram para Jerusalém.
Repare na maneira como agiram ao chegar. Nenhuma acusação
contra pessoas! Nenhuma acusação contra a igreja de Jerusalém!
Simplesmente relataram o que Deus estava fazendo no mundo gentio.
E foi essa tática não-crítica e objetiva que estabeleceu o tom de toda
essa conferência.
O resultado imediato foi a discordância de certas pessoas — que
Lucas identificou como procedentes da “seita dos fariseus” (15.5).
Mas em vez de permitir que a questão se tornasse um assunto de
discussão pública, o que teria degenerado rapidamente num xinga-
mento descontrolado, os apóstolos e os presbíteros realizaram uma
reunião fechada para discutir o problema.
A seqüência exata dos acontecimentos e as implicações estão um
tanto quanto obscuras no relato bíblico. Mas há informações sufi­
cientes para tirar algumas conclusões precisas. Houve mais discussão
e debate, provavelmente dentro do grupo menor (15.6, 7).
Por fim, Pedro pôs-se de pé diante de toda a congregação (15.7-12)
e confirmou o relatório inicial, recordando às pessoas algo que elas já
sabiam (15.7): sua experiência com Cornélio. Deus havia salvado esse
gentio e sua família “pela fé” e havia-lhes dado o Espírito Santo,
exatamente como havia feito no Pentecoste (15.9). Houve os mesmos
“sinais” como no início (At 19.44-46).
A essa altura, Paulo e Barnabé deram mais sustentação ao
argumento, tomando por base o testemunho de Pedro. Eles também
relataram os sinais e as maravilhas que Deus havia operado por meio
deles entre os gentios (15.12).
O passo seguinte foi decisivo! Tiago (sem dúvida, o irmão de
Cristo, e obviamente o líder mais respeitado da igreja de Jerusalém)
falou sobre o assunto. Começou dando apoio ao testemunho de Pedro
e depois, numa maravilhosa demonstração de sabedoria e percepção,
resumiu os ensinos de alguns dos profetas do Antigo Testamento,
relacionados diretamente com o problema. Em seguida, fez uma
proposta — na realidade sugeriu uma solução conciliatória — que não
violaria a “justificação pela fé” , mas pacificaria os cristãos judeus,
que ainda achavam difícil compreender a “liberdade em relação à lei”
(15.19-21).
Não está claro se essa proposta foi apresentada primeiramente aos
apóstolos e aos presbíteros ou se a toda igreja. Obviamente a carta
teve de ser redigida por um grupo seleto. O registro bíblico deixa
claro que “toda a igreja” considerou boa a decisão e participou da
escolha de Judas e de Silas para entregarem a carta.
De modo que, passo a passo, sob a liderança de homens que
estavam buscando a vontade de Deus, solucionou-se o problema
imediato. Ninguém podia realmente predizer o que ia acontecer ao
longo do processo. Uma abordagem objetiva do problema, o desejo
de enfrentar a questão de forma correta e aberta e o emprego de muita
sabedoria e habilidade administrativa — tudo isso fez com que a
reunião em Jerusalém fosse um sucesso. Alcançaram ali o que não
conseguiram alcançar em Antioquia — isto é, resultados muito mais
amplos e significativos do que conseguiriam, se tivessem meramente
amainado a tempestade local.
O significado dos resultados
Em geral, os resultados de um problema bem solucionado podem ser
vistos imediatamente. As pessoas ficaram felizes e satisfeitas. Houve
paz entre os irmãos, e a obra de Deus prosseguiu sem interrupção e
sem se desviar para assuntos periféricos. É talvez muito significativo
que o apóstolo Paulo tenha ficado feliz com a decisão. Paulo, em
pessoa, junto com sua equipe missionária, entregou a carta de
Jerusalém a todas as igrejas que havia fundado. É evidente que os
encontros anteriores com Paulo haviam convencido Pedro e Tiago de
que ele não toleraria nenhuma discordância nas questões teológicas de
peso. Uma coisa era conciliação legítima, mas vacilar e ser incoerente
era outra (G1 2.1-21).6

Resumo
Aqui, então, temos quatro exemplos bíblicos de estrutura e habilidade
organizacionais e administrativas. Embora diferentes, têm todos algo
em comum: surgiu um problema, buscou-se uma solução e alcança­
ram-se resultados. Mais que isso, cada problema foi enfrentado com
uma variedade de métodos que obedeciam aos princípios básicos. E
é desses princípios que trataremos no próximo capítulo.

Notas

1 É interessante observar os dados estatísticos existentes na parte inicial de


Atos. A igreja começou com aproximadamente 120 (At 1.15); em 2.41, cerca
de 3 000 foram acrescidos aos 100 iniciais; em 4.4, lemos que subiu “o
número de homens a quase cinco mil”. Alguns crêem que a menção a
“homens” refira-se a 5 000 lares. Nesse caso, o número de discípulos teria
sido de cinco a dez vezes maior, ou talvez mais, quando ocorreram os
acontecimentos de Atos 6.
1 Deuteronômio 1.13 descreve esses homens como “sábios, entendidos e
experimentados”.
3 C. F. K e i l & F. D ELITZSCH , The Pentateuch, 2:87.
4 Robert J a m i e s o n , Genesis-Deuteronomy, Eerdmans, p. 348-9.
5 É verdade que uma diretoria ou comissão de aproximadamente sete
componentes representa um número praticável para um trabalho eficaz,
especialmente quando o grupo precisa tomar decisões.
6 Alguns crêem que o relato dado por Paulo em Gálatas 2 também é uma
descrição da reunião de Jerusalém, registrada em Atos 2. Em virtude de
certas “aparentes” discrepâncias desse relato em comparação ao de Lucas,
existem alguns sérios problemas nessa hipótese. Conseqüentemente, alguns
crêem que o acontecimento relatado em Gálatas ocorreu antes, quando Paulo
e Barnabé entregaram a contribuição aos irmãos de Jerusalém (At 11.27-30).
Ainda outros acreditam que se deu após o acontecimento de Atos 15.
Os princípios
bíblicos de
administração e
de organização

Atuando no século XX, nós, líderes cristãos, defrontamo-nos com uma


série de problemas. O mundo em rápido processo de mudanças não
nos ajuda a reduzir o número de problemas, nem a sua complexidade.
Mas o povo de Deus sempre enfrentou problemas e, em muitos casos,
os problemas que enfrentamos hoje são, no fundo, os mesmos pro­
blemas. Mas todos os problemas — antigos ou novos — requerem
certas ações administrativas e estruturas organizacionais para
solucioná-los. Isso aconteceu tanto no Antigo como no Novo
Testamento.
Na Bíblia, há relativamente poucos exemplos de ação adminis­
trativa e de estrutura organizacional; e os que aparecem são muito
diferentes entre si. Graças à falta de uniformidade, esses padrões e
estruturas não podem ser classificados como normativos. Todavia, o
que encontramos são alguns exemplos bem escolhidos que nos
fornecem princípios profundos e normativos de organização e de
administração. São esses princípios bíblicos que nos podem fornecer
diretrizes para desenvolvermos padrões e estruturas que, por sua vez,
podem ajudar-nos a cumprir as diretrizes bíblicas.

Os princípios de administração

Encarar a r e a l id a d e

Em primeiro lugar, encare a realidade dos problemas. Não passe por


cima deles. Se o fizermos, não irão embora! Ficarão piores! Podemos
“varrê-los para baixo do tapete” , mas vão acabar aparecendo de novo
— com força redobrada. Podemos “esconder a cabeça na areia” , mas
quando desenvolvermos coragem suficiente para olhar para eles,
estarão maiores e mais assustadores que nunca. E se conseguirmos
“imaginar que não existem” , no final as pessoas a quem ministramos
dolorosamente nos lembrarão de que a realidade existe.
Não é preciso muita criatividade para imaginar o que poderia ter
acontecido em Israel se Moisés tivesse desconsiderado o conselho de
Jetro, ou se os apóstolos tivessem fechado os olhos para a murmu­
ração dos helenistas. Que teria acontecido se os cristãos de Antioquia
tivessem “dado as costas” , não enfrentando a heresia que estava sendo
ensinada pelos judaizantes? Poderia ter tido repercussões negativas em
todo o mundo do Novo Testamento.
Os problemas de Neemias eram diferentes! Por comodidade, ele
poderia ter dado de ombros com a difícil situação de seu povo. Mas
jamais se teria livrado da consciência e da dor que sentia no coração.
Embora a tarefa fosse árdua e repleta de acontecimentos imprevisíveis
— alguns que até ameaçavam sua própria vida — ele cumpriu a
vontade de Deus. E o povo beneficiou-se de seus esforços altruístas.
Há ocasiões, embora bem poucas, em que nós, líderes cristãos,
podemos fechar os olhos para os problemas da igreja — sem que haja,
algumas vezes, muita repercussão externa. Mas, em nossos corações,
devemos arcar com a decisão de escapar de situações desesperadoras
para termos um caminho mais fácil a percorrer. Quando as neces­
sidades das pessoas não são atendidas em virtude do nosso egoísmo e
da nossa falta de vontade de enfrentar problemas, devemos aceitar as
conseqüências das nossas decisões. E, como ocorre freqüentemente,
Deus nos deixa de lado, para atingir seu objetivo mediante outro vaso
mais sensível às necessidades humanas e ao seu Espírito.
Hoje, como na época do Novo Testamento, as igrejas estão
enfrentando problemas. Alguns são puramente organizacionais; outros,
teológicos; outros, culturais. Muitos, é claro, encerram os três aspec­
tos. Embora alguns desses problemas sejam tão velhos quanto o
próprio homem e embora outros sejam recentes e característicos do
mundo atual, são problemas e devem ser solucionados para que as
mais ricas bênçãos de Deus repousem sobre a igreja local.
Jamais feche os olhos para os problemas. Pois, se fizer isso, eles
poderão dominá-lo, derrotá-lo e fazer com que deixe a obra de Deus,
sentindo-se hostil e amargurado ou deprimido e desanimado. E, pior
de tudo, você poderá racionalizar o fracasso, culpando os outros pela
sua própria falta de disposição em encarar os problemas de frente.

D e s e n v o l v e r u m a p e r s p e c t iv a c o r r e t a
Em segundo lugar, desenvolva uma perspectiva correta acerca do
problema, antes de chegar a uma solução concreta. Algumas vezes
isso se pode fazer rapidamente; outras vezes, exige um período de
avaliação cuidadosa.
Em Atos 6, não levou muito tempo para que os apóstolos iden­
tificassem a natureza do problema e chegassem a uma solução. A
causa era óbvia, assim como “qual era” e “qual não era” a melhor
maneira de resolver o problema. Não foi preciso um longo período de
oração, de avaliação e de busca da vontade de Deus para se chegar a
um a solução.
No caso de Neemias, a história foi diferente. Ele estava bem longe
do local em que o problema ocorria. Sua única fonte de informação
era um relato oral (Ne 1.1, 2), e foram poucas as coisas que
conseguiu saber com esse relato (1.3). Conseqüentemente, ele passou
um longo período buscando a orientação de Deus, e seu primeiro
passo, ao chegar a Jerusalém, foi passar três noites inspecionando e
avaliando cuidadosamente os muros da cidade. Em virtude da
complexidade do problema e da natureza explosiva da situação, usando
a sabedoria, ele decidiu ter uma “perspectiva pessoal” antes de anun­
ciar publicamente sua estratégia.
Para os líderes da igreja de Antioquia e de Jerusalém, o problema
de Atos 15 também era diferente. Era um problema teológico — um
problema emergido do judaísmo e da lei de Moisés. Havia surgido na
transição dos dias do Antigo Testamento para os do Novo, quando até
os próprios apóstolos tentavam esclarecer em suas mentes “como uma
pessoa é salva” . O fato de Deus escolher esses homens para “estarem
com Jesus” , “fundarem a igreja” e “falarem a verdade de Deus” não
era uma garantia automática de que teriam uma “visão completa” de
todo o plano redentor. Muitas vezes deixamos de perceber esse fator,
tão óbvio na revelação bíblica.
Em Jerusalém levou tempo para resolver os problemas do conflito
entre o cristianismo e o judaísmo. Envolveu um processo de
relatórios, debates e discussões, em particular e em público. Envolveu
pesquisa histórica e bíblica, e também uma análise do que Deus estava
realizando naqueles dias. E foi o resultado desse processo que
conduziu a uma perspectiva e a uma resposta “organizacional e admi-
nisrativa” : uma carta e seu envio às igrejas.
Enquanto guiava o povo pelo deserto, Moisés parecia não ter
consciência alguma de que enfrentava um problema, ou de que isso
poderia ser solucionado com um bom plano organizacional e
administrativo. Foi preciso que seu sogro, Jetro, solucionasse o
problema.
Uma das dificuldades de ser líder é que às vezes ficamos tão
próximos de uma situação que “não conseguimos enxergar a floresta
por causa das árvores” . Essa era a dificuldade de Moisés. Ele sabia
que tinha uma porção de trabalho para fazer e estava lidando com um
grupo de pessoas “sem espiritualidade” e “imprevisíveis” , mas ele não
tinha a “visão global” que o teria ajudado a simplificar suas
responsabilidades. É aí que os outros nos podem ajudar a solucionar
um problema. Foi preciso um “Jetro” até para ajudar Moisés a
enxergar seu problema. Foi preciso que a igreja de Jerusalém ajudasse
a igreja de Antioquia a resolver o problema com que esta já estava
preocupada. Ou, mais especificamente, foi preciso que Pedro e Tiago
ajudassem Paulo e Barnabé a esclarecer o problema da lei e da graça.
Um grande perigo que todo líder cristão enfrenta é sentir-se
ameaçado pelos conselhos. Por alguma razão sentimos ser essa uma
crítica à nossa competência e, dessa forma, passamos a tentar resolver
o problema sozinhos. Infelizmente, se o problema estiver além de
nosso alcance, provavelmente acabaremos fracassando, muito mais
humilhados do que se tivéssemos admitido que necessitávamos de
ajuda. Procurar conselho é sinal de força, não de fraqueza. Isso não
significa que poremos em prática cada conselho que os outros nos
derem. Significa na verdade que vamos ouvir, selecionando cuida­
dosamente as idéias e escolhendo um procedimento na dependência do
Espírito de Deus.

E s t a b e l e c e r a s p r io r id a d e s
Em terceiro lugar, estabeleça as prioridades. Na realidade, essa pode
ser uma das principais razões por que não conseguimos solucionar os
nossos problemas organizacionais e administrativos. Tentamos solucio­
nar todos eles por nós mesmos.
Esse foi o problema de Moisés, até que aceitou o conselho do
sogro. Ele estava passando por um processo de deterioração física e
psicológica em virtude de uma pressão excessiva. Ele não tinha
condições de fazer tudo; felizmente reconheceu o fato e tomou alguma
providência. .
Os apóstolos, em Atos 6, também estavam conscientes desse
princípio. Rapidamente estabeleceram suas prioridades e fizeram com
que o povo tomasse conhecimento delas. Isso não significava que
“servir às mesas” fosse algo sem importância — longe disso — mas
significava que eles precisavam cumprir certas responsabilidades
espirituais. Eles não podiam fazer as duas coisas.
Hoje, os pastores e outros líderes espirituais sofrem o bombardeio
de muitas atividades que lhes tomam o tempo. A cultura
contemporânea e suas pressões complicaram a vida das pessoas,
criando necessidades maiores. A “grande sociedade” e os “grandes
negócios” criaram uma “mentalidade de grandiosidade” . Automa­
ticamente, exigimos mais de nossos líderes e de nós mesmos. De
maneira que é absolutamente essencial, sobretudo para os líderes
espirituais das igrejas, estabelecer as prioridades. Caso contrário,
estará sendo negligenciada a vocação principal de “pastorear” e “ensi­
nar” .

D e l e g a r r e s p o n s a b il id a d e s
Em quarto lugar, delegue responsabilidades a pessoas qualificadas.
Esse princípio segue naturalmente ao “estabelecimento de priori­
dades” . Vimos isso demonstrado por Moisés, pelos apóstolos e por
Neemias.
Podemos concluir que esse princípio tem sido o segredo do sucesso
de todo líder. Peter Drucker, que fez um estudo cuidadoso sobre os
dirigentes, chegou à conclusão de que uma característica significativa
de todo líder bem-sucedido — seja ele o presidente dos Estados
Unidos, seja o presidente da General Motors — é que ele sabe “usar
todos os recursos disponíveis — os recursos dos assistentes, os
recursos dos supervisores e seus próprios recursos” .1
Repare, no entanto, que a Bíblia acentua claramente que a
delegação de responsabilidades deve ser feita a pessoas espiritualmente
qualificadas. É isso o que Moisés e os apóstolos fizeram em Êxodo
18 e Atos 6. Procuraram homens honestos e cheios de fé, sábios e
cheios de discernimento e experiência. Sabiam que nomear homens
fracos, em vez de fortes, seria devastador para toda a operação.
Também sabiam que homens de qualidade poderiam cuidar dos
problemas organizacionais.
Neemias, é claro, tinha um problema parecido. No entanto, ele
precisava de cada pessoa que estivesse disponível para reconstruir os
muros, e as empregou. Mas, no que se refere à administração dos
negócios de Jerusalém após a reconstrução dos muros, ele nomeou
Hananias, que tinha sido comandante dos soldados, para administrar
a cidade. Neemias escolheu esse homem por ser “fiel e temente a
Deus, mais do que muitos outros” (Ne 7.2). Ele já havia comprovado
que era um líder apto.
A escolha de pessoas aptas espiritual e psicologicamente para os
cargos de liderança na igreja é um dos princípios administrativos mais
importantes do Novo Testamento. E por isso que a maioria das
qualificações de presbíteros e de diáconos em í Timóteo 3 e em Tito
1 diz respeito à reputação, à ética, à moralidade, ao temperamento,
aos hábitos e à maturidade espiritual e psicológica.
Hoje, muitas igrejas erram por preencher os cargos com pessoas
— não com pessoas qualificadas. Freqüentemente fazemos juízos com
base nas “habilidades” ; mas, se essas habilidades são postas em
funcionamento num contexto de carnalidade, pode ser devastador.
Infelizmente, a “habilidade” e a “carnalidade” se dão bem, para fins
escusos. E muito melhor uma pessoa que tenha uma capacidade não
desenvolvida, mas seja espiritualmente forte.
M a n t e r u m b o m e q u il íb r io
Em quinto lugar, mantenha um bom equilíbrio entre os fatores divinos
e os humanos.
A tentação de todos os líderes é cair nos extremos. De um lado,
podemos racionalizar a indecisão e a inércia com base na vontade
soberana e na graça de Deus. É fácil isso tornar-se numa “fuga” para
a irresponsabilidade e — Deus nos livre — até para a preguiça. Por
outro lado, podemos tomar as questões em nossas próprias mãos e
desprezar a vontade, o poder, a sabedoria e a orientação de Deus.
Ambos os extremos são incabíveis. Dentre todos os exemplos
básicos, Neemias é o que demonstra melhor o equilíbrio. Ele orou e,
depois, “agiu” . E algumas vezes “agiu” e, depois, “orou” . E vez por
outra orou enquanto agia. Enquanto buscava constantemente a
orientação de Deus, usava a mente e as energias que Deus lhe havia
dado, para fazer aquilo que ele sabia ser preciso.
Talvez o exemplo mais claro desse princípio na vida de Neemias
tenha sido quando chegou a Jerusalém. Levantou-se à noite, saiu e
inspecionou os muros. Mas, disse Neemias, “não declarei a ninguém
o que o meu Deus me pusera no coração para eu fazer em Jerusalém”
(Ne 2.12). Aqui fica evidente que ele estava elaborando seus planos
enquanto inspecionava os muros, mas também tinha convicção plena
de que Deus estava orientando seus pensamentos.
Os líderes cristãos que atuam na igreja do século xx também
devem manter o mesmo equilíbrio. Como é fácil cair em extremos,
tentar solucionar os problemas com nossas próprias forças e habi­
lidades, e negligenciar a oração e a ajuda, a direção e a orientação de
Deus. Por outro lado, como é fácil fugir, gastar tempo orando ou
lendo a Bíblia e negligenciar a responsabilidade humana. Que Deus
nos ajude a dar o devido destaque aos dois aspectos, o divino e o
humano — nessa ordem.

L e v a r e m c o n t a a s a t it u d e s e s e n t im e n t o s
Em sexto lugar, procure uma maneira de solucionar os problemas e
tomar as decisões levando em conta as atitudes e os sentimentos
daqueles que estão diretamente envolvidos.
Para uma aplicação eficaz desse princípio, é fundamental a
comunicação. Antes de dar passos concretos rumo à solução de seu
problema, Moisés explicou ao povo que ele não tinha condições de
carregar sozinho aquela responsabilidade (Dt 1.9). No momento
oportuno, Neemias reuniu o povo e explicou sua estratégia para
reconstruir os muros (Ne 2.17). Os apóstolos em Jerusalém
“convocaram a comunidade dos discípulos” e explicaram a situação
(At 6.2), e, em Atos 15, por fim, a igreja inteira tomou parte na
solução do problema da “lei e da graça” . Não é possível solucionar
satisfatoriamente problemas organizacionais e administrativos sem que
haja a devida comunicação. As circunstâncias variam (conforme
ocorreu nos exemplos bíblicos), afetando o que se diz, quanto se diz,
quando se diz e a quem se diz. Mas sempre houve comunicação com
tantas pessoas quantas fossem necessárias.
Outro fator que surge em todos os quatro casos bíblicos estudados
é a participação do grupo no processo de tomada de decisões. Uma
vez mais, vemos diferenças nos detalhes, mas sempre havia par­
ticipação e concordância final do grupo. Moisés instruiu cada tribo a
escolher líderes que a representassem e a governassem (Dt 1.13). Os
apóstolos deram à “comunidade dos discípulos” a incumbência de
escolher sete homens para servir às mesas (At 6.1-3). E, embora os
apóstolos e os presbíteros evidentemente se tenham reunido a sós para
destrinchar alguns dos aspectos do problema da lei e da graça que não
podiam ser tratados num grupo grande, a igreja inteira ajudou a tomar
a decisão final (At 15.22).
O problema de Neemias foi, sem dúvida alguma, bem diferente. A
responsabilidade básica de reconstruir os muros repousava sobre seus
ombros. Ele era o líder. A idéia e a estratégia eram dele. Mas
Neemias sabia que jamais conseguiria alcançar seu objetivo sem a
cooperação do povo. Conseqüentemente, com todo o cuidado,
comunicou suas idéias e assim emitiu uma convocação para “virem”
e, como equipe, reconstruírem os muros de Jerusalém. Os resultados
de seu sucesso como líder refletem-se na resposta do povo:
“Disponhamo-rcos, e edifiquemos” (Ne 2.18).
Muitos dos problemas na igreja do século XX resultam do descaso
a esse importante princípio bíblico. Só estamos arranjando problemas
quando tentamos fazer as coisas acontecerem na marra e agimos como
ditadores. Até mesmo os apóstolos, representantes diretos do Senhor
Jesus Cristo, não usaram de sua autoridade apostólica para se desviar
desse princípio. Naturalmente existem muitos problemas que não
precisam ser levados à igreja toda para discussão e debate, mas,
repito, nossos exemplos bíblicos dão-nos diretrizes significativas para
a aplicação do princípio de “participação da igreja” .
Em Êxodo 18 e em Atos 6, os detalhes menos importantes foram
resolvidos por pessoas escolhidas pelo grupo. Esse foi o momento
decisivo em que houve participação do grupo. Repare, no entanto, que
em Atos 6 é compreensível que somente os cristãos de origem grega
estivessem tomando parte na solução do problema. Não havia neces­
sidade de convocar toda a igreja de Jerusalém para solucionar um
problema que afetava apenas determinado segmento da igreja.2 Em
Atos 15, parece que toda a igreja foi conscientizada do problema, mas
a proposta básica foi formulada em conseqüência de discussão e de
debate entre os apóstolos e os presbíteros. Foi, no entanto, a igreja
toda que aprovou a proposta e participou da escolha de homens para
pôr o plano em prática.
Nessas passagens das Escrituras vemos quatro diretrizes
significativas para averiguar quando o grupo todo deve-se envolver:

1. em geral, é melhor envolver somente as pessoas diretamente


implicadas no problema específico ou afetadas por ele;
2. explique claramente a natureza do problema;
3. envolva esse grupo na escolha de pessoas qualificadas para
representá-lo na busca de uma solução para o problema;
4. consiga a aprovação do grupo para a solução proposta.

S e r c r i a t iv o
Em sétimo lugar, solucione cada problema criativamente sob a
liderança do Espírito Santo. Nunca se deixe prender a rotinas
administrativas que possam ter dado certo no passado.
Devemos recordar que na Bíblia não houve uma maneira única de
atacar ou resolver um problema. Cada situação era diferente. As
circunstâncias variavam, a natureza do problema variava e as soluções
variavam.
Hoje, muitas vezes os líderes cristãos se deixam prender a padrões
administrativos. Tentam tomar padrões e métodos “emprestados” de
outras igrejas ou continuam a usar padrões que deram certo no
passado. Quando procedemos desse modo, estamos fechando a mente
e o coração para Deus, que sempre utilizou meios criativos para
administrar sua obra ao longo da história. Para descobrirmos a
vontade de Deus em todos os assuntos, devemos ser dirigidos por
princípios bíblicos, pelas circunstâncias e pelo Espírito Santo.
Uma coisa fica clara quando estudamos a administração na Palavra
de Deus: os princípios são normativos — os padrões não!

Os princípios de organização

E s t a b e l e c e r o s p r in c í p i o s c o m o a l v o s
Em primeiro lugar, estruture-se para aplicar os princípios do Novo
Testamento e para alcançar os propósitos do Novo Testamento.
Ao longo destes capítulos, apresentamos princípios que cremos ser
princípios bíblicos. Se colocados em prática, fornecerão diretrizes
neotestamentárias à igreja do século xx.
Na Bíblia, as estruturas organizacionais são sempre apresentadas
como um meio para atingir um fim. Nunca são fins em si mesmas.
Portanto, o primeiro e mais importante princípio bíblico de orga­
nização é sempre desenvolver, para a igreja, estruturas que nos
ajudarão a atingir os objetivos do Novo Testamento.
Isso, na verdade, torna-se um dos critérios pelos quais podemos
avaliar as nossas estruturas organizacionais. Estamos realmente ope­
rando de acordo com os princípios neotestamentários? Estamos
atingindo os propósitos neotestamentários?

S a t is f a z e r a s n e c e s s id a d e s
Em segundo lugar, estruture-se para satisfazer as necessidades. Essa
foi uma característica da igreja do Novo Testamento. A igreja não se
organizava só por se organizar. Pelo contrário, organizava-se quando
surgia uma necessidade, quer fosse “alimentar pessoas necessitadas” ,
quer fosse “resolver um problema teológico” .
A primeira necessidade enfrentada pela igreja do Novo Testamento,
e a mais abrangente e contínua, foi cumprir a grande comissão. Eles
tinham o dever de “fazer discípulos” e de “ensinar-lhes” . Eles
estruturaram-se para fazê-lo. Mas, conforme já foi assinalado, há bem
poucas ilustrações de “como” isso foi feito. Infelizmente, hoje alguns
interpretam a ausência de pormenores sobre a organização no Novo
Testamento como uma indicação de que a igreja deva atuar sem
estruturas. Obviamente, isso é impossível. Citando o Dr. George
Peters, professor de Missões pelo Dallas Theological Seminary,
“Onde quer que haja pessoas, existe função; e, onde quer que haja
função, existe forma” . Essa é uma realidade.
É verdade que há poucas referências à estrutura organizacional nas
Escrituras, mas, repetindo, não sem razão. Há ilustrações em número
suficiente para mostrar que a estrutura organizacional é necessária, e
há variedade suficiente para mostrar que determinadas estruturas não
são absolutas. E as ilustrações que temos oferecem princípios
dinâmicos aplicáveis em qualquer cultura e em qualquer momento da
história. Tudo isso aponta para a liberdade de elaborar e criar
estruturas organizacionais mais eficazes para alcançar os objetivos
neotestamentários no mundo de hoje.
Donald Guthrie falou a esse respeito no comentário que escreveu
sobre as epístolas pastorais:

Há, portanto, consideráveis indícios de que Paulo não estava alheio à


organização eclesiástica. A falta de uniformidade no governo eclesiástico
das igrejas paulinas pode ter outras explicações, menos a de que Paulo
estivesse totalmente desinteressado. Parece que ele foi suficientemente
flexível em seu método de modo que permitisse qualquer sistema cabível
às condições locais e ditado pelo Espírito Santo.3

Já se verificou que Paulo estava mais interessado em homens


qualificados que em padrões específicos de organização. Entretanto,
ele também tinha interesse pela organização, pois determinou aos
coríntios: “Tudo [...] seja feito com decência e ordem” (1 Co 14.40).
Também instruiu Tito a permanecer em Creta para pôr “em ordem as
coisas restantes” (Tt 1.5).
Mas também sabia que cada cultura (até as várias subculturas do
mundo do Novo Testamento) requeria diferentes métodos para
diferentes problemas organizacionais. De forma que ele se concentrou
nos absolutos — as qualificações para os cargos de liderança —
sabendo que os homens de Deus sábios e prudentes podem
desenvolver as estruturas necessárias para atender as demandas
específicas de qualquer cultura em qualquer época da história.
Conforme disse o Dr. Francis Schaeffer, “qualquer coisa que o Novo
Testamento não ordene como forma nem considere forma no que se
refere à igreja constitui uma liberdade a ser exercida sob a liderança
do Espírito Santo, de acordo com cada época e cada lugar”.4

M a n t e r a s im p l ic id a d e
Em terceiro lugar, mantenha a organização simples. Esse princípio
anda de mãos dadas com o anterior, ou seja, organizar para atender
às necessidades. Para ser funcional, a organização deve ser o mais
simples possível. Os padrões organizacionais complicados freqüen­
temente se tornam “fins” em si mesmos.
Isso não significa que os padrões organizacionais nunca sejam
complexos. Por exemplo, o padrão de Êxodo 18 era bem intricado,
mas também foi feito para cuidar de mais de dois milhões de pessoas
que estavam viajando pelo deserto. Mas, embora complexo, era
funcional e foi cuidadosamente elaborado para atender às necessidades
dos filhos de Deus naquele momento específico de suas vidas.
Um bom teste para descobrir se a simplicidade está ou não
perdendo-se, mesmo numa estrutura complexa, é verificar se ela está
ou não servindo a objetivos bíblicos. Em caso negativo, ela precisa ser
cuidadosamente avaliada à luz de critérios bíblicos.
É importante que cada líder cristão perceba que uma “igreja que
anda sem problemas” não é necessariamente bem-sucedida de acordo
com os padrões da Palavra de Deus. O mundo, grupos pseudocristãos
e também muitos grupos cristãos têm produzido estruturas organi­
zacionais dinâmicas. Alguns são tão eficientes, que atingem mais
pessoas e levantam mais recursos financeiros do que os evangélicos.
Estão alcançando os objetivos? Sim, mas os objetivos errados!
Como você pode ver, uma boa organização pode ser utilizada para
alcançar qualquer propósito ou fim — admirável ou desprezível,
bíblico ou não-bíblico. E, infelizmente, alguns não-cristãos utilizam
princípios bíblicos para alcançar objetivos não-bíblicos.
M a n t e r a f l e x ib il id a d e
Em quarto lugar, mantenha a organização flexível. As estruturas
estabelecidas no deserto para um povo “em movimento” foram
modificadas quando ele se “instalou na terra” . Quando os muros
ficaram prontos, elaborou-se uma nova maneira de governar
Jerusalém. Quando a perseguição atingiu Jerusalém, acabou a estrutura
de Atos 6, e, quando se solucionaram os problemas específicos sobre
“lei e graça” registrados em Atos 15, eles continuaram procurando
novas maneiras de solucionar novos problemas. Os líderes da Bíblia
jamais ficaram presos a estruturas organizacionais.
Os padrões organizacionais que desenvolvem rigidez e “fecham ás
categorias” correm o risco de ser vistos como incontestáveis e
absolutos. Isso está errado. Não temos a liberdade de tornar imutável
aquilo que Deus planejou que fosse mutável. “Numa época de
mudanças rápidas como a nossa” , disse o Dr. Schaeffer, “fazer
absoluto o que não o é acarreta o isolamento e a morte da igreja
organizada, institucional” .5
Há muitas áreas em que a igreja evangélica de hoje precisa
repensar suas estruturas organizacionais, áreas que deixamos tornar-se
absolutas e inflexíveis. As perguntas a seguir têm o propósito de testar
as nossas idéias e de “afrouxar” a nossa rigidez e inflexibilidade.

Quantas reuniões e quando?


Quem determina quantas reuniões uma igreja deve realizar a cada
semana? Certamente a Bíblia não dita padrões nessa área.
Além do mais, quem determina quando devem ocorrer essas
reuniões? Além de poucas referências a reuniões “no primeiro dia da
semana” (At 20.7; 1 Co 16.2), quase nada se diz nas Escrituras a
respeito de quando a igreja neotestamentária se reunia. Alguns podem
até questionar se reunir no domingo é uma diretriz absoluta para a
igreja ou, pelo contrário, um exemplo de quando a igreja se reunia.
Lembre-se de que a igreja de Jerusalém reunia-se diariamente no
princípio.
Sem dúvida, os coríntios reuniam-se nas noites de domingo para
participar da ceia do Senhor e para exercitar os dons espirituais (1 Co
11), mas será esse um padrão absoluto? Penso que não! Se for, a
maioria das igrejas está em desacordo com as Escrituras há muitos
anos. Mas mesmo diante dos dados bíblicos (ou da falta deles) acerca
de quando os cristãos devem reunir-se, existem muitos cristãos que
acham que você está pervertendo a autoridade bíblica se, por exemplo,
sugerir que o culto de domingo à noite seja cancelado a favor de uma
reunião mais significativa noutro dia.
A reunião de oração do meio da semana provavelmente se tornou
um dos mais rígidos de todos os padrões, pois (na mente de alguns)
sugerir uma mudança é sinônimo de “ser contrário à oração” . O fato
é que não há nenhuma ordem bíblica que obrigue a igreja a “reunir-se
para orar no meio da semana” . Pode ser uma idéia excelente, mas em
si não há nada de sagrado numa “reunião de oração no meio da
semana” . O que a torna sagrada é o que acontece ali, pois ninguém
questiona que os cristãos devam orar. Mas o dia em que se reúnem
para orar não passa de um meio para alcançar um fim.
Também é interessante que muitos líderes cristãos avaliem o clima
espiritual da igreja pela freqüência à reunião de oração do meio da
semana. Pode haver alguma verdade nisso, mas a questão mais
fundamental é se o corpo de fiéis representa ou não uma igreja que
ora. Quando se reúnem ou quantos se reúnem cada vez não é tão
significativo. Uma resposta quantitativa sobre “quantos freqüentam a
reunião de oração no meio da semana” pode ser um indicador de
maturidade espiritual — ou de ausência dela. Mas também pode ser
verdade que uma reunião de oração no meio da semana, tal como veio
a ser praticada tradicionalmente, talvez já não seja o melhor meio ou
padrão para a igreja do século XX. Devido aos horários de trabalho,
às atividades escolares e a outras mudanças culturais, talvez o horário
e a noite escolhidos no passado já não sejam os melhores.
Provavelmente essa é uma razão importante pela qual os fiéis não
estão freqüentando ativamente o culto como o faziam no passado.

Que tipos de reuniões?


Nos últimos anos se têm multiplicado os tipos de reuniões feitos pelas
igrejas. A igreja do século XX tem reuniões de crianças, reuniões de
jovens e reuniões de adultos. Temos classes de estudo bíblico,
reuniões de confraternização, sessões de treinamento, períodos de
adoração, cultos de pregação e reuniões de oração. Temos aulas de
escola dominical, escolas bíblicas de férias, uniões de treinamento,
culto infantil, culto jovem, culto dos adultos, reuniões da união
missionária feminina, estudos bíblicos nos lares, aulas de evan­
gelização de crianças, encontros de jovens. Temos reuniões de dire­
toria, reuniões de comissões, encontros de professores e ensaios do
coral. Outros tipos de reuniões, é claro, poderiam ser acrescentados
a essa lista, dependendo da igreja e da situação.
Na realidade é impossível encontrar no Novo Testamento algum
padrão que se assemelhe ao padrão atual de reuniões e organizações
que temos nas igrejas em geral. Sabemos que os cristãos do século I
tinham reuniões, mas é bem difícil determinar o tipo e as caracte­
rísticas dessas reuniões.
Isso, é claro, não significa que seja errado ter os diferentes tipos
de reuniões e de organizações que temos hoje. A própria liberdade
concedida no Novo Testamento é a razão fundamental da existência
dessa variedade. O princípio importante do Novo Testamento é por
que se realizam essas reuniões; em outras palavras, elas existem para
alcançar os objetivos neotestamentários?
Todavia, o que estou ressaltando aqui é que a própria liberdade que
temos para desenvolver as formas e as estruturas existentes hoje tem
sido sufocada, pois permitimos que aquilo que estamos fazendo no
momento presente se torne o método. Por exemplo, será que a escola
dominical típica é a melhor forma de educação cristã em nossa
sociedade contemporânea? Será que as uniões de treinamento, que se
reúnem aos domingos no início da noite, são a melhor maneira de
equipar os vários membros do corpo de Cristo para o serviço? Será
que o culto matutino de domingo é o melhor tipo de reunião para
ajudar os fiéis a aprender as Escrituras e adorar a Deus?
É hora de a igreja avaliar os tipos de reuniões que realiza e
justificar sua existência com base nos princípios e nos propósitos do
Novo Testamento.

Que dizer dos padrões e da forma?


Em algumas igrejas, se você tiver a ousadia de modificar a ordem do
culto matutino de adoração, ficará com a clara sensação de que está
corrompendo a própria Bíblia. Quem vai dizer como deve ser a
seqüência de um culto? Não existe quase nada na Bíblia que apresente
respostas específicas a tal pergunta.
Encontramos de fato menção das experiências que os cristãos
devem ter quando o corpo de Cristo se reúne, mas não há ilustrações
detalhadas de como isso se processa. Temos algumas referências
àquilo que os coríntios faziam em suas reuniões de domingo à noite,
mas é difícil reconstruir a forma específica delas.
Minha opinião é que aquilo que vemos em Coríntios ilustra a
maneira como eles se reuniam e, à exceção de certos aspectos do que
faziam, não oferece nenhuma diretriz absoluta para a igreja. Isso fica
claro quando percebemos que todo o teor das Escrituras enfatiza a
liberdade quanto à “estrutura organizacional” . E esse ponto torna-se
ainda mais incisivo quando percebemos que os coríntios, que estavam
fazendo uso dessa liberdade, estavam agindo como um grupo carnal
de cristãos. Mais do que qualquer coisa, esse é um motivo para não
ficarmos presos aos padrões deles.
Portanto, o corpo de Cristo precisa decidir acerca dos padrões e da
forma de suas reuniões, estabelecendo, antes de tudo, objetivos
bíblicos bem definidos para essas reuniões. Os padrões escolhidos
devem então ser o melhor meio possível de atingir esses fins bíblicos
dentro do contexto da cultura contemporânea, levando em conta as
muitas variáveis que afetam um grupo de pessoas que vivem num
momento específico da história, em determinada região específica do
mundo e em comunidades específicas. Isso também é válido para
determinar o número de reuniões, o horário delas e os vários tipos de
reuniões. Deixar que os nossos padrões vigentes nos aprisionem a
determinado método significa tornar não-absolutos em absolutos, e
esse é um passo decisivo rumo à institucionalização.

E quanto ao local das reuniões?


Uma tendência interessante nas igrejas de hoje é realizar reuniões fora
da propriedade da igreja. Mas ainda mais interessante que esse
fenômeno é a atitude de certos cristãos diante dessa tendência. Alguns
se sentem profundamente ameaçados, pois acham que a hierarquia da
igreja poderá perder o controle do que está acontecendo. Para alguns,
qualquer coisa que descentralize o corpo de Cristo ao invés de
centralizá-lo (isto é, reunir todos num único local) é um sinal de
perigo.
É “esclarecedor” ouvir de alguns cristãos que o “prédio da igreja”
é o local bíblico de reunião. Isso é especialmente interessante, já que
os cristãos do Novo Testamento não possuíam edifícios especiais em
que pudessem reunir-se. De início, reuniam-se no templo de Jerusalém
e nas residências. Quando, por fim, os líderes judeus rejeitaram o
cristianismo, alguns cristãos tiveram de reunir-se em seus lares. Essa
é a principal razão por que temos muitas referências a “igrejas-lares”
no Novo Testamento.
Será que isso significa que as “igrejas-lares” são o padrão do Novo
Testamento — um padrão absoluto ao qual temos de retornar para que
as mais ricas bênçãos de Deus repousem sobre a igreja? Novamente,
creio que não! No entanto, gostaria de dizer que há algo de especial
nas “igrejas-lares” que ajuda a criar uma “atmosfera familiar” para o
corpo de Cristo. E lamentável que o grande destaque em prédios nos
tenha impedido de também usarmos as residências como locais de
reunião dos cristãos, para experimentarem o cristianismo dinâmico.
Por outro lado, nossa cultura cria muitos problemas que dificultam
a manutenção de reuniões regulares da igreja exclusivamente numa
“igreja-lar” . Muitas viagens de negócios do chefe da casa, períodos
de férias, o estilo de vida das pessoas nos fins-de-semana, as várias
necessidades de todas as idades, um tempo restrito até para as famílias
se reunirem em seus lares — todos esses fatores dificultam a
manutenção de “igrejas-lares” em muitas comunidades.
Porém, dizer que o “prédio da igreja” é o lugar bíblico para a
igreja reunir-se é estar completamente fora da Bíblia. Dizer que algum
lugar em particular é o lugar bíblico é tornar absoluto um não-
absoluto. Em virtude das várias mudanças culturais e das necessidades
das pessoas de hoje, o corpo de Cristo precisa ser flexível quanto ao
local de reunião. Uma aula de escola dominical para universitários
reunidos no câmpus da universidade pode ser muito mais eficaz que
na igreja. Usar uma série de lares para encontros de estudo bíblico e
oração no meio da semana, dirigidos por alguns cristãos leigos
maduros, pode ser bem mais significativo do que tentar reunir todo o
mundo na igreja, sob a liderança do pastor.
Alugar instalações que não sejam prédios de igreja também pode
ser um jeito melhor de empregar o dinheiro do Senhor que construir
um enorme edifício para a igreja. Algumas igrejas usam prédios da
A C M , escolas públicas, câmpus universitários e outros prédios dispo­
níveis. Por outro lado, em algumas localidades é difícil funcionar
dessa maneira, especialmente se a igreja está crescendo. Além disso,
em nossa cultura, muitas vezes as pessoas hesitam em considerar
seriamente a possibilidade de envolver-se de forma permanente com
uma igreja que se reúne num local provisório. Trataremos dessa
implicação cultural mais tarde!
Todavia, a questão importante é que o corpo de Cristo seja flexível
ao decidir onde suas reuniões vão acontecer. Não há nenhum absoluto
bíblico que dite respostas a essas perguntas.

Resumo
As formas e os padrões desenvolvidos para pôr em prática esses
princípios administrativos e organizacionais são uma questão de
liderança criativa sob a direção do Espírito Santo. É impossível extrair
do Novo Testamento padrões e estruturas específicos (o que também
se comprova claramente pelos muitos e diferentes tipos de governo
eclesiástico existentes hoje entre os cristãos evangélicos).
Entretanto, parece que o Espírito Santo de fato planejou essa
“ambigüidade” . Devido à variedade de ambientes, culturas e
mentalidades no mundo de hoje, Deus sabia que emitir absolutos na
área de estrutura e forma na organização e na administração seria
fornecer diretrizes específicas difíceis de pôr em prática nas várias
regiões do mundo. Aliás, se Deus tivesse ditado a forma, teria
“aprisionado” a igreja à cultura do Oriente Médio no século I. Teria
restringido enormemente a disseminação do cristianismo em outras
culturas.
Mas Deus não nos aprisionou a uma cultura. Os princípios que nos
deu são supraculturais, podendo e devendo ser aplicados à igreja do
século xx, onde quer que ela se encontre.
Esses princípios são:

ADMINISTRAÇÃO

1. Encare a realidade dos problemas.


2. Desenvolva uma perspectiva correta acerca dos problemas, antes
de buscar soluções concretas.
3. Estabeleça as prioridades.
4. Delegue responsabilidades a pessoas qualificadas.
5. Mantenha o devido equilíbrio entre os fatores divinos ehumanos.
6. Procure uma maneira de solucionar os problemas e tomar as
decisões levando em conta as atitudes e os sentimentos daqueles
que estão diretamente envolvidos.
7. Solucione cada problema criativamente sob a liderança do
Espírito Santo.

ORGANIZAÇÃO

1. Estruture-se para aplicar os princípios do Novo Testamento e


para alcançar os propósitos do Novo Testamento.
2. Estruture-se para satisfazer as necessidades.
3. Mantenha a organização simples.
4. Mantenha a organização flexível.

Notas

1 Peter F. D r u c k e r , The effective executive, Harper & Row, p. 71.


2 O argumento a favor disso baseia-se no fato de que só foram escolhidos
homens com nomes gregos. Encontra ainda maior apoio no fato de que eram
os judeus de origem grega que estavam sendo negligenciados. Parece que os
apóstolos reuniram essas pessoas e ajudaram-nas a solucionar seu problema
particular.
3 Donald G u t h r i e , The pastoral epistles, p . 2 8 .
4 Francis S c h a e f f e r , A igreja no ano 2001, p. 89.
5 Ibid., p. 90.
coromscaçào no
Novo Testamento

A maneira como os cristãos do Novo Testamento se comunicavam é


outra área de estudo ampla e significativa. Na realidade, muitas
facetas da comunicação já apareceram em nossa investigação sobre os
cristãos do século I e sobre a maneira como cumpriam a grande
comissão.
Entre ®s não-salvos eles ensinavam, falavam, proclamavain,
pregavam, testificavam, testemunhavam, exortavam, louvavam, arra­
zoavam, refutavam, explicavam, demonstravam, persuadiam e d a v a m
provas daquilo em que criam.
Como igreja “congregada” para edificação, ensinavam e exortavam
uns aos outros. Tinham comunhão, partiam o pão, oravam e louvavam
a Deus. Incentivavam e fortaleciam uns aos outros, relatando e
descrevendo a obra e as bênçãos de Deus em outras regiões ão
mundo. E, quando tinham dificuldades teológicas e éticas, escreviam,
imploravam, admoestavam uns aos outros e, às vezes, participavam
de debates acalorados.
Todas essas palavras são empregadas no Novo Testamento para
descrever o processo de comunicação, quando os cristãos evange­
lizavam (faziam discípulos) e também quando se reuniam para edificar
uns aos outros. Um estudo cuidadoso dessas palavras no seu devido
contexto torna bem claro que foram utilizadas para descrever um
processo caracterizado pela variedade e por muitos métodos diferentes.
Quer a comunicação envolvesse os sermões de Pedro registrados por
Lucas, quer envolvesse a comunicação de Paulo com vários indivíduos
ou grupos, não há um padrão constante quanto à forma como
apresentaram sua mensagem. E todas as cartas do Novo Testamento
revelam uma variedade de estilo e de forma literária. Mesmo entre as
epístolas paulinas, não há forma nem estrutura constante.
Tudo isso aponta para a “liberdade” na comunicação. Mas os
muitos exemplos do Novo Testamento, à semelhança de tantas outras
áreas da vida da igreja do século i, fornecem alguns princípios
profundos que podem ajudar a igreja do século xx a ser uma “igreja
que se comunica” — como igreja “no mundo” e “comunidade
congregada”.
Por Paulo ter dito “Sede meus imitadores, como também eu sou de
Cristo” (1 Co 11.1), seguem-se dois modelos básicos de comunicação.
O primeiro apresenta o próprio Jesus Cristo, o supremo modelo! O
segundo apresenta o ministério de Paulo, bem como de dois de seus
colaboradores. Ambos os modelos propiciam princípios neotesta-
mentários de comunicação.

O modelo de comunicação em Jesus Cristo


Os métodos de comunicação de Cristo foram estudados e pesquisados
por muitos anos, e o processo revelou alguns fatos e princípios
importantes. Mas existe uma perspectiva “global” que, segundo me
consta, não foi explorada ou pelo menos não foi apresentada de forma
escrita.
Uma relação minuciosa das situações específicas de comunicação,
principiando pelo ministério público de Cristo até a época em que foi
preso, apresenta cerca de 194 exemplos. Presumindo-se que todos
esses casos registrados nos evangelhos são exemplos gerais dos três
anos e meio de ministério de Cristo na terra, podem-se fazer algumas
observações bem interessantes a partir do quadro “Situações de
Comunicação no Ministério de Cristo” .1
Essas situações de comunicação podem ser divididas nos vários
casos alistados na tabela 1. Quando esses casos são divididos em duas
categorias, a saber, o de pessoas neutras ou hostis e o de pessoas
seguramente receptivas, temos então os dados estatísticos da tabela 2.
Se dividirmos aqueles casos, separando as situações que envolvem
indivíduos e as situações que envolvem grupos, temos a tabela 3.
Classificando as situações que envolvem “grupos” entre as receptivas
e as neutras ou hostis em relação a Cristo, temos a comparação
apresentada na tabela 4.

SITUAÇÕES DE COMUNICAÇÃO NO MINISTÉRIO DE CRISTO

tabela 1

Quadro percentual das ocasiões em que Cristo ministrou a vários


indivíduos e grupos (conforme alistadas nos quatro evangelhos)

Situação de comunicação Número Percentual

Os discípulos (grupo maior de


seguidores) 29 15,8
Os escribas e fariseus (como grupo) 28 15,5
Dois ou mais apóstolos 24 13,0
Enfermos (apenas curas individuais) 22 11,9
Grupos em geral (que não os
discípulos)* 20 10,8
Indivíduos em geral** 19 10,3
Apóstolos individualmente (os doze) 19 10,3
As multidões 18 9,7
Enfermos (envolvendo curas
coletivas) 5 2,7

Total 184 100,0


TA BELA 2

Percentual das ocasiões em que Cristo ministrou a vários indivíduos e


grupos receptivos para com ele em comparação com o percentual das
ocasiões com aqueles que lhe eram hostis

Seguramente receptivos Neutros ou fechados


Discípulos 15,8% Escribas e fariseus 15,5%
Enfermos (indivíduos e Grupos em geral 10,8%
grupos) 14,6% Indivíduos em geral 10,3%
Dois ou mais apóstolos 13,0% Multidões 9,7%
Apóstolos individualmente 10,3%

Total 53,7% Total 46,3%

T A B E LA 3

Percentual das ocasiões em que Cristo esteve com


indivíduos em comparação com o percentual
das ocasiões em que esteve com grupos

Indivíduos Grupos

Indivíduos enfermos 11,9% Discípulos 15,8%


Indivíduos em geral 10,3% Escribas e fariseus 15,5%
Apóstolos individualmente 10,3% Dois ou mais apóstolos 13,0%
Grupos em geral 10,8%
Multidões 9,7%
Grupos de enfermos 2,7%

Total 32,5% Total 67,5%


T A B E LA 4

O número de vezes em que Cristo ministrou a grupos que lhe eram


receptivos em comparação com o número de vezes em que
ministrou a grupos neutros ou hostis

Grupos receptivos Grupos fechados ou neutros

Discípulos 29 Escribas e fariseus 28


Dois ou mais apóstolos 24 Grupos em geral 20
Enfermos 5 Multidões 18

Total 58 (46,8%) Total 66 (53,2%)

Com base nessas tabelas, repare nos seguintes pontos específicos:


1. Cristo deu equilíbrio a seu ministério, comunicando-se com
muitos tipos diferentes de pessoas. Levando em conta todos os
subgrupos e indivíduos a quem ministrou, o percentual de
ocasiões em que esteve com cada um desses grupos varia de
aproximadamente 10% a 15% (tabela 1).
2. Ele passou aproximadamente metade das ocasiões comunicando-
se com aqueles que eram receptivos para com seu ministério e
a outra metade comunicando-se com aqueles que eram ou
neutros ou hostis (tabela 2).
3. Passou cerca de um terço das ocasiões com indivíduos, e cerca
de dois terços com grupos (tabela 3).
4. Das ocasiões em que ele esteve comunicando-se com grupos,
passou cerca de metade com grupos receptivos para com seu
ministério e a outra metade comunicando-se com os neutros ou
com os hostis (tabela 4).
5. Das vezes que ele passou com indivíduos (32,5% do total),
cerca de um terço ele se passou comunicando com enfermos,
um terço comunicando-se com indivíduos em geral e cerca de
um terço comunicando-se individualmente com os apóstolos. E
interessante que as três categorias que envolvem indivíduos
ocupam cada uma aproximadamente 10% (tabela 3).
Todas essas observações indicam que Jesus Cristo a ninguém
negligenciou. Ele tinha suas prioridades, mas estava tão interessado
naqueles que lhe eram hostis ou neutros quanto naqueles que lhe eram
receptivos. Também dividiu seu tempo entre grupos e indivíduos, E,
mesmo entre os tipos de indivíduos a quem ministrou, distribuiu
eqüitativamente seus esforços.

O treinamento dos doze


Não há modelo de comunicação melhor que esse! Entretanto, muito
mais do que o quadro global, é magnífica a maneira como ele treinou
os doze. Eles constituíam o seu grupo especial. Muito embora pareça
que ele tenha passado com os indivíduos em geral o mesmo número
de vezes que passou comunicando-se com os apóstolos individual­
mente, na realidade ele passou quase 100% de seu tempo com os
doze.
Como isso é possível? Repare na sua técnica geral para o
treinamento desses homens escolhidos. Primeiramente, depois de
chamá-los para segui-lo, juntamente com o grupo de discípulos em
geral, ele chamou-os para estarem com ele de forma especial: para
observarem, verificarem, ouvirem enquanto ele pregava às multidões,
debatia com os escribas e fariseus, ensinava o grupo maior de
discípulos e ministrava a indivíduos. Então ele os enviou para fazerem
aquilo que ele vinha fazendo. Finalmente, deu início a um ministério
especial, concentrado, com eles, preparando-os para sua morte, sua
ressurreição e a grande comissão.
Enquanto Cristo desempenhava seu ministério geral, comunicando-
se com todas as classes de pessoas, de forma toda especial, ele passou
todo o seu tempo treinando esses doze homens. Todas as vezes em
que falava às multidões, os apóstolos tinham a oportunidade de ouvir
o que dizia. Todas as vezes em que curava uma pessoa, eles podiam
observar. Todas as vezes em que dialogava e discutia com os fariseus,
eles acompanhavam atônitos. Em quase todos os casos em que
conversou com indivíduos, eles ficavam escutando — ou pelo menos
tinham informações de primeira mão (por exemplo, no caso da mulher
junto ao poço).
Repare também no padrão singular que freqüentemente brotava do
ministério global de Cristo. Às vezes ficava ensinando às multidões;
depois se voltava para os grupos maiores de discípulos e lhes falava
em tom mais pessoal. E, vez por outra, voltava-se para os doze e
falava de modo ainda mais específico e íntimo acerca da verdade que
estava ensinando ao grupo maior. Dando mais um passo, algumas
vezes se voltava para um indivíduo, ou talvez para dois ou três dos
doze, para compartilhar alguma verdade ainda mais incisivamente.
(Veja a figura 18.)

Figura 18: O padrão de comunicação no ministério de Cristo

O que vemos em Jesus Cristo é um exemplo sem igual de comu­


nicação. Enquanto alcançava as multidões, estava equipando um grupo
de doze homens para um ministério em profundidade. E, enquanto
estava equipando os doze homens, esteve equipando especialmente a
Pedro e João para um ministério mais fundamental, que iria até além
do ministério dos demais apóstolos. Isso fica patente pelo ministério
desses dois homens, conforme se vê em Atos e também na literatura
do Novo Testamento escrita por eles. Não era segredo para os doze
que Jesus Cristo tinha um ministério especial para eles, e espe­
cialmente para o apóstolo Pedro. A maneira como escolheu Pedro para
receber lições e instruções especiais confirma esse fato.
Havia motivo para Paulo, Silas e Timóteo serem escolhidos como
líderes do Novo Testamento. Primeiramente, eram três homens que
representavam de forma especial aqueles que possuíam os melhores
dons (1 Co 12.31). Paulo era apóstolo; Silas foi descrito como profeta
(At 15.32) e Timóteo, sem dúvida, era um mestre}
O segundo motivo por que esses homens foram escolhidos como
exemplo é que, através dos escritos de Paulo, eles deixaram-nos um
dos mais abrangentes padrões de comunicação entre os que fundaram
e organizaram igrejas.

O ministério deles em Tessalônica


Lucas registra os acontecimentos principais que conduziram à
fundação da igreja em Tessalônica (At 17.1-9). O próprio Paulo
“arrazoou” na sinagoga durantes três sábados, cobrindo, prova­
velmente, um período de três semanas (vv. 2, 3). Alguns judeus
converteram-se e também um grande número de gregos e mulheres de
destaque (v.4). Além desses fatos básicos, Lucas diz-nos muito pouco
acerca do ministério que esses três homens realizaram nessa cidade da
Macedônia.
Entretanto, quando nos deparamos com a primeira carta de Paulo
a esses novos cristãos, vemos que grande parte dela é dedicada à
descrição do início do ministério que tiveram entre essas pessoas.
Essas reflexões feitas por Paulo fornecem-nos animadores vislumbres
quanto à maneira como esses homens, na qualidade de equipe,
comunicaram-se com essas pessoas — antes e depois de elas se
tornarem cristãs.
A primeira carta aos Características de comunicação
tessalonicenses

1.1 Paulo, Silvano [Silas] e Paulo escreveu essa carta, falando


Timóteo, à igreja dos tessa­ também em nome de seus dois
lonicenses em Deus Pai e colaboradores, Silas ,e Timóteo,
no Senhor Jesus Cristo: que trabalharam com ele quando
Graça e paz a vós outros. foi fundada a igreja de Tessa-
lônica.

1.2 Damos sempre graças a No acompanhar os tessalonicenses,


Deus por todos vós, men­ parte do trabalho deles era a ora­
cionando-vos em nossas ção.
orações, e sem cessar...

1.3 ... recordando-nos, diante Os critérios para avaliar a eficácia


do nosso Deus e Pai, da do ministério deles era o grau de
operosidade da vossa fé, da fé, de esperança e de amor mani­
abnegação do vosso amor e festos por aqueles cristãos.
da firmeza da vossa espe­
rança em nosso Senhor
Jesus Cristo...

1.4 ... reconhecendo, irmãos, Eles reconheciam a obra soberana


amados de Deus, a nossa de Deus na vida das pessoas.
eleição...

1.5 ... porque o nosso Não dependiam apenas de suas


evangelho não chegou até habilidades de oratória e de comu­
vós tão-somente em pala­ nicação, mas principalmente do
vra, mas sobretudo em poder do Espírito Santo.
poder, no Espírito Santo e
em plena convicção, assim
como sabeis ter sido o nos­
so procedimento entre vós,
e por amor de vós.

1.6 Com efeito vos tomastes Viviam de modo que fossem exem­
imitadores nossos e do Se- plos vivos da vida de Cristo, que
nhor, tendo recebido a pala­ essas pessoas podiam imitar.
vra, posto que em meio de
muita tribulação, com ale­
gria do Espírito Santo...

1.7, 8 ... de sorte que vos tor­ Um de seus objetivos era multi­
nastes o modelo para todos plicarem-se; também mediam a efi­
os crentes na Macedônia e cácia de seu trabalho em função da
na Acaia. Porque de vós obra realizada por esses fiéis.
repercutiu a palavra do
Senhor, não só na Mace­
dônia e Acaia, mas por toda
parte se divulgou a vossa fé
para com Deus, a tal ponto
de não termos necessidade
de acrescentar cousa algu­
ma...

1.9, 10 ... pois eles mesmos, no Paulo jamais hesitou em reagir


tocante a nós, proclamam positivamente para incentivar seus
que repercussão teve o nos­ convertidos a continuar levando
so ingresso no vosso meio, vidas dinâmicas para Jesus Cristo.
e como, deixando os ídolos,
vos convertestes a Deus,
para servirdes o Deus vivo
e verdadeiro, e para aguar­
dardes dos céus o seu Fi­
lho, a quem ele ressuscitou
dentre os mortos, Jesus,
que nos livra da ira vin­
doura.

2.1, 2 Porque vós, irmãos, sabeis Quando se comunicaram com os


pessoalmente que a nossa não-cristãos de Tessalônica pela
estada entre vós não se tor­ primeira vez, pregaram o evan­
nou infrutífera; mas, apesar gelho com ousadia.
de maltratados e ultrajados
em Filipos, como é do
vosso conhecimento, tive­
mos ousada confiança em
nosso Deus, para vos
anunciar o evangelho de
Deus, em meio de muita
luta.

2.3 Pois a nossa exortação não Esses homens eram honestos, aber­
procede de engano, nem de tos e sinceros.
impureza, nem se baseia em
dolo...

2.4 ... pelo contrário, visto que Antes de tudo, desejavam agradar
fomos aprovados por Deus a Deus, não aos homens.
a ponto de nos confiar ele o
evangelho, assim falamos,
não para que agrademos a
homens, e, sim, a Deus que
prova os nossos corações.

2.5 A verdade é que nunca usa­ Suas motivações eram puras.


mos de linguagem de ba­
julação, como sabeis, nem
de intuitos gananciosos.
Deus disto é testemunha.

2.6, la Também jamais andamos Não exigiam honra por serem


buscando glória de homens, representantes de Cristo; pelo con­
nem de vós, nem de outros. trário, conquistavam respeito por
Embora pudéssemos, como causa de seu procedimento.
enviados de Cristo, exigir
de vós a nossa manuten­
ção...

2.1b ... todavia, nos tomamos Ministraram a essas pessoas em


dóceis entre vós, qual ama espírito de docilidade, como uma
que acaricia os próprios fi­ mãe acariciando o filho.
lhos...

2.8 ... assim, querendo-vos Eram altruístas, tendo a disposição


muito, estávamos prontos a de, literalmente, dar as próprias
oferecer-vos, não somente o vidas, se necessário, para ganhar
evangelho de Deus, mas, essas pessoas para Cristo.
igualmente, a nossa própria
vida, por isso que vos
tomastes muito amados de
nós.

2.9 Porque, vos recordais, ir­ Trabalharam dia e noite para que
mãos, do nosso labor e suas motivações não fossem mal
fadiga; e de como, noite e interpretadas.
dia labutando para não
vivermos à custa de ne­
nhum de vós, vos procla­
mamos o evangelho de
Deus.

2.10 Vós e Deus sois teste­ Levaram vidas exemplares entre


munhas do modo por que aqueles que vieram a Cristo (veja
piedosa, justa e irrepreen­ 1.5, 6).
sivelmente procedemos em
relação a vós outros que
credes.

2.11, 12 E sabeis, ainda, de que Mantiveram um ministério indi­


maneira, como pai a seus vidualizado entre esses novos
filhos, a cada um de vós, cristãos; literalmente ensinaram e
exortamos, consolamos e incentivaram “cada um”, tal qual
admoestamos, para viverdes um pai faria com cada um de seus
por modo digno de Deus, filhos.
que vos chama para o seu
reino e glória.

2.13 Outra razão ainda temos Exaltavam a Palavra de Deus, não


nós para incessantemente as suas próprias idéias ou filo­
dar graças a Deus: é que, sofias.
tendo vós recebido a
palavra que de nós ouvistes,
que é de Deus, acolhestes
não como palavra de ho­
mens, e, sim, como, em
verdade é, a palavra de
Deus, a qual, com efeito,
está operando eficazmente
em vós, os que credes.

2.17-20 Ora, nós, irmãos, orfana- Continuavam tendo interesse por


dos por breve tempo de aquelas pessoas, mesmo depois de
vossa presença, não, po­ as terem deixado.
rém, do coração, com tanto
mais empenho diligen­
ciamos, com grande desejo,
ir ver-vos pessoalmente.
Por isto quisemos ir até vós
(pelo menos eu, Paulo, não
somente uma vez, mas
duas), contudo Satanás nos
barrou o caminho. Pois,
quem é a nossa esperança,
ou alegria, ou coroa em que
exultamos, na presença de
nosso Senhor Jesus na sua
vinda? Não sois vós? Sim,
vós sois realmente a nossa
glória e a nossa alegria!

3.1, 2 Pelo que, não podendo Acompanharam o ministério dos


suportar mais o cuidado por tessalonicenses ao fazerem com
vós, pareceu-nos bem ficar que Timóteo retomasse a Tessa-
sozinhos em Atenas; e en­ lônica para fortalecer e incentivar
viam os nosso irmão esses fiéis.
Timóteo, ministro de Deus
no evangelho de Cristo,
para, em benefício da vossa
fé, confirmar-vos e exortar-
vos...

3.3-5 ... a fim de que ninguém se Eram objetivos e honestos com


inquiete com estas tri­ essas pessoas a respeito da rea­
bulações. Porque vós mes­ lidade de Satanás, e das tribulações
mos sabeis que estamos que teriam de suportar por causa
designados para isto; pois, de sua decisão de seguir a Cristo.
quando ainda estávamos
convosco, predissemos que
íamos ser afligidos, o que
de fato aconteceu, e é do
vosso conhecimento. Foi
por isso que, já não me
sendo possível continuar es­
perando, mandei indagar o
estado da vossa fé, temendo
que o tentador vos provas­
se, e se tomasse inútil o
nosso labor.

3.6-9 Agora, porém, com o re­ Não hesitavam em compartilhar


gresso de Timóteo, vindo seus sentimentos humanos com
do vosso meio, trazendo- essas pessoas — estavam deses­
nos boas notícias da vossa peradamente preocupados com elas
fé e do vosso amor e, ain­ e, quando receberam um relatório
da, de que sempre guardais animador acerca do progresso
grata lembrança de nós, delas na fé, sentiram-se enco­
desejando muito ver-nos, rajados no meio de suas próprias
como aliás também nós a tribulações e privações. Não he­
vós outros, sim, irmãos, sitavam em compartilhar esses
por isso fomos consolados sentimentos íntimos.
acerca de vós, pela vossa
fé, apesar de todas as nos­
sas privações e tribulação,
porque agora vivemos, se é
que estais firmados no Se­
nhor. Pois que ações de
graça podemos tributar a
Deus no tocante a vós ou­
tros, por toda a alegria com
que nos regozijamos por
vossa causa, diante do nos­
so Deus,

3.10-13 orando noite e dia, com Desejavam retomar como equipe e


máximo empenho, para vos ajudar esses fiéis a prosseguir
ver pessoalmente, e reparar ainda mais em seu desenvol-
as deficiências da vossa fé? vimento cristão.
Ora, o nosso mesmo Deus e
Pai, com Jesus, nosso Se­
nhor, dirijam-nos o cami­
nho até vós, e o Senhor vos
faça crescer, e aumentar no
amor uns para com os ou­
tros e para com todos, co­
mo também nós para con­
vosco; a fim de que sejam
os vossos corações con­
firmados em santidade,
isentos de culpa, na pre­
sença de nosso Deus e Pai,
na vinda de nosso Senhor
Jesus, com todos os seus
santos.

4.1 ss. Finalmente, irmãos, nós Paulo utilizou essa carta como um
vos rogamos e exortamos recurso adicional de acompanha­
no Senhor Jesus que, como mento. Certas áreas necessitavam
de nós recebestes, quanto à de instrução adicional: sobre a
maneira por que deveis moral (4.2-8); os negócios (4.10­
viver e agradar a Deus, e 12); a segunda vinda de Cristo
efetivamente estais fazendo, (4.13-17); as atitudes diante de
continueis, progredindo ca­ seus líderes espirituais, diante dos
da vez mais. mais necessitados e diante de todos
os homens (5.12-15) e também so­
bre sua vida na igreja (5.16-21).

Resumo
Tendo como base o modelo de Cristo, examinamos uma estratégia
global na área da comunicação. O Senhor Jesus demonstrou de
maneira singular como atender às necessidades de todos e, ao mesmo
tempo, comunicar-se de maneira especial com grupos especiais, tendo
em vista um treinamento e um desenvolvimento real.
O modelo de comunicação exemplificado em Paulo, Silas e
Timóteo demonstra de maneira mais específica como esses homens
ganharam pessoas para Cristo e, depois, como eles as ajudaram no
crescimento espiritual. Em resumo, a comunicação deles tinha as
seguintes características:

OS HOMENS COMO EQUIPE


1. Eram exemplos vivos do estilo de vida cristã.
2. Eram sinceros e honestos, e mantinham uma motivação pura.
3. Eram ousados e destemidos.
4. Eram dóceis e amorosos.
5. Eram altruístas e tinham um interesse sincero pelas pessoas.

SEUS MÉTODOS NO NÍVEL DIVINO


1. Incluíam um ministério de oração.
2. Reconheciam a soberania de Deus.
3. Dependiam do Espírito Santo.
4. Exaltavam a Palavra de Deus.

SEUS MÉTODOS NO NÍVEL HUMANO


1. Conquistavam o respeito por meio da conduta.
2. Mantinham um ministério com indivíduos e com grupos.
3. Deram acompanhamento ao grupo, fazendo Timóteo retornar
para ensinar-lhes.
4. Eram honestos e abertos quanto às suas próprias características
humanas.
5. Planejavam voltar em equipe para continuar o processo de
edificação.
6. Reagiram positivamente diante desses novos irmãos pelo
progresso que estavam tendo na vida cristã.
7. Mantinham um ministério escrito, enviando-lhes cartas para
incentivo e instrução.

SUA EFICÁCIA
1. Avaliavam o sucesso pelo grau de fé, de esperança e de amor
presentes e manifestos na congregação.
2. Avaliavam o sucesso pela maneira como esses fiéis estavam
multiplicando-se dentro de sua esfera de influência.
Notas

1 Para esse estudo, usou-se a obra de A. T. Robertson, A Harmony of the


Gospels. A pesquisa propriamente dita teve início com o “Ministério público
de Cristo”, Parte VI, p. 19, e concluiu com a parte xill, p. 205, intitulada “A
Prisão, o Julgamento, a Crucificação e o Sepultamento de Jesus” . Antes de
seu ministério público não há referência alguma a situações específicas de
comunicação, e após Sua prisão as menções são bem limitadas.
Fizeram-se certos juízos quanto ao que seria uma situação “específica” de
comunicação. Além disso, foram excluídas as referências genéricas, tais
como “e percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas
sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças
e enfermidades” (Mt 9.35; veja também Mc 16.20).
* Indica grupos tais como os “judeus”, os “servos”, etc.
** Tais como Nicodemos, a mulher à beira do poço, um escriba, etc. Não
inclui indivíduos que são claramente classificados como discípulos, que são
incluídos no primeiro item dessa tabela. Dentre as 29 referências aos
discípulos, só oito dizem respeito a algum discípulo individualmente.
2 As comprovações bíblicas indicam que todos esses homens possuíam
múltiplos dons. Por exemplo, Paulo classifica-se não apenas como apóstolo,
mas também como pregador e mestre. Lucas classifica Paulo também como
profeta. Não há dúvida alguma de que ele também era evangelista. Silas não
foi somente profeta, aparentemente ele também foi mestre e pastor. Timóteo
tinha o dom de ensinar e de pastorear.
Os
princípios de
comunicação do
Novo Testamento

Um estudo dos modelos de comunicação do Novo Testamento, tendo


por base a vida de Cristo e as vidas dos líderes do Novo Testamento,
traz à tona alguns princípios significativos. Esses princípios podem
servir de diretrizes para permitir que os cristãos sejam mais eficazes
na apresentação da Palavra de Deus, tanto aos cristãos como aos
demais.

Um processo divino/humano
Em primeiro lugar, a comunicação cristã é um processo singular com
elementos divinos e humanos. Conforme está ilustrado na figura 19,
a comunicação pode ocorrer, e com bons resultados, no nível humano.
A graça comum de Deus dá aos homens a capacidade de se
comunicarem uns com os outros.
Entretanto, a comunicação cristã inclui alguns elementos especiais
que vão bem além do nível puramente horizontal. Mesmo quando a
comunicação é voltada para os não-cristãos, a Palavra de Deus, o
Espírito Santo e o próprio Deus participam do processo. O líder
sensível e aberto à orientação espiritual vai descobrir que o próprio
Deus está esperando para comunicar-se por meio de sua Palavra e
mediante seu Espírito. (Veja a figura 20.) Por sua vez, o cristão tem
acesso ao coração e ao poder divino por intermédio da oração.
Enquanto todos esses elementos estão em operação no processo de
comunicação, Deus está agindo sobre o coração do não-cristão
mediante seu Santo Espírito (João 16.7, 8).
A comunicação cristã, no entanto, torna-se um processo
absolutamente único quando os indivíduos em jogo são cristãos. (Veja
a figura 21.) Aqui temos o conceito do “corpo”. Agora a comunicação
pode fluir em todas as direções.
O plano de Deus requer aqueles que são especialmente qualificados
para se comunicar com a igreja. Isso fica bem evidente nos atributos
exigidos de um líder espiritual. Mas as Escrituras também são muito
explícitas quanto ao fato de que o plano de Deus requer que cada
membro do corpo se comunique com os demais, para que seja
devidamente edificado (Cl 3.16; Ef 4.16; 5.19).
No entanto, à medida que consideramos esse processo peculiar que
inclui elementos divinos e humanos, repare que, de um lado, alguns
cristãos tendem a dar destaque excessivo aos elementos humanos,
enquanto outros dão um destaque excessivo aos elementos divinos. Os
líderes do Novo Testamento demonstraram de modo maravilhoso a
importância dos dois. Mantiveram um equilíbrio notável.
Paulo, Silas e Timóteo reconheceram que “ninguém pode dizer:
Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3). É por isso que,
ao escreverem aos tessalonicenses, testemunharam que o evangelho
não chegou até esses fiéis “tão-somente em palavra, mas sobretudo em
poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Ts 1.5). Fora Deus
quem estivera atuando em seus corações, fazendo com que fossem
receptivos à Palavra (1.4). Eles conheciam o poder da oração (1.2) e
a influência sobrenatural da Palavra de Deus (2.13).
Também tinham consciência da importância do esforço humano.
Tinham pleno conhecimento do fato de que Deus havia escolhido
instrumentos humanos para alcançar seus propósitos soberanos. É por
isso que eles gastavam tempo com cada um individualmente (2.11). É
por isso que, depois de partirem de Tessalônica, enviaram Timóteo de
volta para fortalecê-los e encorajá-los (3.2). É por isso que Paulo
desejava que a equipe toda voltasse a Tessalônica para continuar
ministrando entre eles (3.11-13). Não hesitaram em dar respostas
positivas àquelas pessoas. E eles sentaram-se e escreveram cartas para
lhes dar mais instruções e ajuda.
Todos esses fatores apontam claramente para a responsabilidade
humana na comunicação cristã. Na realidade, a maioria dos princípios
a seguir emergem da “dimensão humana” da comunicação no
ambiente do Novo Testamento. São esses fatores que despontam nas
páginas da Bíblia quando estudamos os exemplos bíblicos. Não
podemos desconsiderá-los, mas também não podemos deixar que
tomem o lugar dos elementos divinos no processo singular da comu­
nicação cristã.

Figura 19: A comunicação: eficaz no nível puramente humano

Comunique a todos
Em segundo lugar, a comunicação cristã deve estar voltada para
todos os tipos e classes de pessoas.
Jesus demonstrou incisivamente esse princípio. Ele foi a todos os
lugares e comunicou-se com todas as pessoas! Quer fariseu, quer
discípulo, já apóstolo, já outro indivíduo necessitado, ele procurou
alcançar a todos. Quer a um admirador, quer a um crítico, ele dividiu
os esforços de maneira surpreendente.
Figura 20: A comunicação cristã: peculiar no processo de
evangelização

Paulo também disse: “Sou devedor tanto a gregos como a


bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes” (Rm 1.14). Não havia
distinção de classe na mente desse homem. Todos necessitavam do
evangelho. Ninguém era muito pobre ou muito rico, muito religioso
ou pagão, muito perto ou muito distante, para estar dentro do círculo
de interesse de Paulo.
Os cristãos, à semelhança de todos os seres humanos, podem
tornar-se preconceituosos. É fácil “selecionar” aqueles com quem
queremos nos comunicar.
Tiago denunciou veementemente esse tipo de “favoritismo pessoal”
quando escreveu:
Figura 21: A comunicação cristã: ainda mais peculiar no processo
de edificação

Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro
nos dedos, em trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e
tratardes com deferência o que tem os trajes de luxo e lhe disserdes: Tu,
assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em
pé, ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizeste
distinção entre vós mesmos, e não vos tomastes juizes tomados de
perversos pensamentos? (Tg 2.2-4)

Isso é errado! Essas coisas não devem acontecer, exclamou Tiago.


“Se, todavia, fazeis acepção de pessoa, cometeis pecado” (2.9).
Todos os cristãos — especialmente os líderes espirituais da igreja
— devem avaliar sua esfera de comunicação. É óbvio que precisamos
estabelecer prioridades, especialmente na qualidade de líderes
espirituais. Nossa primeira obrigação é “alimentar o rebanho de
Deus” . Mas isso não é nenhuma desculpa para nos afastarmos do
ministério a todo o rebanho de Deus, e também ao homem não salvo,
não importa quem seja ou onde esteja. E, como pastores e mestres,
precisamos comunicar esse conceito a toda a família de Deus. Em
rigor, é o corpo todo funcionando tal como Deus planejou que nos
possibilita alcançar a humanidade toda. Isso é impossível para um
indivíduo sozinho, mas unido, o povo de Deus pode pôr em prática
esse princípio que foi exemplificado de modo tão magnífico por Jesus
Cristo.

Grupos e indivíduos
Em terceiro lugar, a comunicação cristã deve ser cuidadosamente
equilibrada entre o ministério a grupos e o ministério a indivíduos.
Mais uma vez, Jesus Cristo, bem como Paulo, Silas e Timóteo, de­
monstrou esse princípio.
Talvez você fique imaginando por que esses líderes do Novo
Testamento com freqüência deixavam atrás de si uma igreja forte e
pujante. Não acontecia por acaso! Se os tessalonicenses são um bom
exemplo da filosofia de comunicação daqueles homens, eles passaram
um bom tempo discipulando indivíduos e falando a grupos.
Hoje, entre os cristãos evangélicos, existe uma tendência de se
satisfazer falando “às multidões” . Com freqüência, os pastores passam
a maior parte do tempo atrás do púlpito ou à frente do grupo. Isso é
passar por cima de um princípio dinâmico de comunicação cristã,
demonstrado pelo nosso Senhor e pelos líderes da igreja no Novo
Testamento.
É certo que isso toma tempo! Mas é tempo bem empregado. Pois,
sem esse método equilibrado, a comunicação cristã torna-se impessoal
e dura. Perde a dinâmica e a força. O indivíduo perde-se na multidão,
e tornamo-nos culpados de comunicar a uma congregação, não a
indivíduos; a grupos, não a pessoas; a classes, não a estudantes.
Você não está contente pelo fato de Jesus Cristo ter morrido por
você, bem como pelo mundo? Lembre-se: na mente dele você é um
entre muitos, mesmo assim os próprios fios de cabelo da sua cabeça
estão contados! t
Esse princípio neotestamentário é especialmente importante na
nossa cultura contemporânea em que a tecnologia e a comunicação de
massa estão em voga. A tendência é esquecer o indivíduo.
Nada substitui o contato pessoal. A figura de Paulo de ministração
aos tessalonicenses como uma “ama que acaricia os próprios filhos”
e de comunicação com cada um “como pai a seus filhos” é um
exemplo marcante (1 Ts 2.7, 11). As pessoas reagem positivamente
à atenção pessoal. É assim que Deus nos fez. Portanto, a comunicação
de massas jamais deve substituir uma interação face a face.
É interessante que alguns evangélicos reagem contra a tecnologia
em si. Deve-se ressaltar que a tecnologia propriamente dita não é
“má” . Na realidade, a tecnologia — empregada devidamente e com
sabedoria — pode ajudar-nos muito na tarefa de devolver o toque
pessoal à comunicação. Mas, ironicamente, muitos daqueles cristãos
que mais reagem contra a tecnologia são, com freqüência, os que
violam o princípio do contato pessoal. Eles fazem isso substituindo-o
por um ministério “só de púlpito” . Basicamente alcançam grupos, e
seu principal método é a verbalização. Infelizmente, estão batendo na
coisa errada. Uma preocupação maior, e bem mais significativa, é o
fato de que estão violando um princípio bíblico de comunicação
demonstrado de forma tão clara na Palavra de Deus. É necessário
tomarmos todo o cuidado para mantermos o equilíbrio entre o nosso
ministério a grupos e o nosso ministério a indivíduos.
Ao fazê-lo, o líder cristão deve estabelecer prioridades. Além-do
mais, é impossível aplicar esse princípio a uma igreja em expansão,
sem desenvolver uma equipe de pastores que o leve a sério. É por isso
que a liderança múltipla é um conceito tão importante no Novo
Testamento. Antes ainda de nomearem presbíteros em Tessalônica,
Paulo, Silas e Timóteo deram uma bela demonstração desse princípio
quando fundaram e estruturaram a igreja. Um homem sozinho nunca
conseguiria comunicar com cada um “como pai a seus filhos” . Mas,
juntos, realizaram a tarefa.

Grupos pequenos e grandes


Em quarto lugar, a comunicação cristã eficaz deve incluir um
ministério em profundidade a um grupo seleto de pessoas e um
ministério ao grupo maior de cristãos.
Uma vez mais, vemos esse princípio exemplificado no modelo de
comunicação de Cristo e, em especial, no ministério de Paulo. Ao
mesmo tempo em que ministrava a uma variedade de grupos e
indivíduos, Jesus estava preparando os doze para um ministério
especializado. Enquanto viajava por todos os lugares pregando e
ensinando, Paulo estava investindo sua vida em Timóteo, seu
companheiro de viagem.
Os resultados do “processo de discipulado” que Paulo realizou na
vida de Timóteo foram sintetizados quando escreveu a esse jovem
pastor-mestre que, na época, encontrava-se em Éfeso: “E o que de
minha parte ouviste, através de muitas testemunhas, isso mesmo
transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2
Tm 2.2).
Nessas palavras de Paulo a Timóteo temos não apenas um tributo
à maneira singular de Paulo encarar a comunicação, mas também um
reforço desse princípio de comunicação dentro do ministério de
Timóteo. Esse processo devia continuar. Timóteo devia escolher
“homens fiéis” a quem pudesse, por sua vez, discipular. E,
posteriormente, esses homens deveriam “instruir a outros” .
Não temos condições de nos comunicar em profundidade com todas
as pessoas. Humanamente, é impossível! Até Cristo, nosso Senhor,
concentrou-se em poucos escolhidos. Mas, enquanto “equipamos todos
os santos para realizarem a obra do ministério”, podemos equipar, de
forma especial, algumas pessoas escolhidas. São essas pessoas que
multiplicarão nosso ministério de modo singular.
Todavia, aqui também muitos cristãos perdem o equilíbrio. É a
“multidão” ou o “indivíduo”. É o “grupo grande” ou o “grupo
pequeno” . É um “ministério em profundidade” ou uma “exposição
geral” . A Bíblia, é claro, ensina que deve ser “um e outro” , não “um
ou outro” . E, aqui também, é preciso uma equipe de líderes espirituais
para aplicar eficazmente esse princípio.

Vá além do nível da "palavra"


Em quinto lugar, para ser qualitativa, a comunicação tem de
ultrapassar o nível da verbalização. Isso sobretudo no caso do
treinamento em profundidade.
Muitas vezes, os cristãos param no nível da “palavra” . Estamos tão
condicionados a pensar “verbalmente”, que nos sentimos embaraçados
num contexto caracterizado por absoluta interação.
Com Cristo havia verbalização, mais visualização, mais interação
de verdade. (Veja a figura 22.) Ele não parou no primeiro nível. É
verdade que ele verbalizou, mas visualizou sempre que possível e,
enquanto treinava os doze, manteve-os totalmente envolvidos nesse
processo. Eles aprenderam fazendo. Seus fracassos, bem como suas
vitórias, passavam a ser oportunidades para Cristo falar das verdades
profundas de Deus. E, mesmo depois que tinham experimentado
muitas coisas, ele ainda comentou: “Tenho ainda muito que vos dizer,
mas vós não o podeis suportar agora” (Jo 16.12). Eles ainda não
haviam “experimentado” a separação dele e o trauma de sua prisão,
crucificação e ressurreição. Só então compreenderiam melhor suas
palavras.
E claro que as “palavras” são fundamentais para a comunicação.
São uma invenção toda especial de Deus e, por meio da Palavra
escrita, tornaram-se o principal meio para a revelação da sua vontade
à humanidade.
Mas, para seguir o exemplo dos líderes do Novo Testamento,
especialmente no que diz respeito ao treinamento de indivíduos para
um ministério em profundidade, precisamos ir além do nível da
verbalização, especialmente numa cultura cada vez mais voltada para
os estímulos sensoriais. A geração da “Vila Sésamo” está diante de
nós, e, em muitos aspectos, McLuhan estava certo: “o meio tornou-se
a mensagem”. Nenhuma crítica ou reação vai mudar essa realidade.
Ela está aí! Nossa responsabilidade é atender a esse desafio com uma
comunicação cristã eficaz.
Esses “novos” conceitos não deviam ser novos para os cristãos. De
jeito nenhum. Deus sempre quis que a comunicação fosse além do
nível de verbalização. Sempre foi seu desejo que experimentássemos
a verdade cristã, não apenas que a ouvíssemos. É por isso que o
conceito do corpo de Cristo é tão excepcional. Ele cria um ambiente
em que podemos não apenas ter uma experiência com Cristo, mas
realmente “ter uma experiência com o outro” . Ele oferece
oportunidade para experiências relacionais bidimensionais: com Deus
e com o outro. Quando o corpo funcionar como Deus planejou, os
cristãos irão além do nível da verbalização em sua comunicação e
além do nível de conhecimento em seu aprendizado da verdade divina.
O corpo de Cristo também é o meio divino para ir além do nível
da verbalização em nosso testemunho cristão. É quando os não-
cristãos vêem o corpo funcionando em amor e em unidade, que ficam
convencidos da realidade do cristianismo. Isso passa a ser o pano de
fundo vivencial contra o qual “as palavras sobre Jesus Cristo” pas-

1. VERBALIZAÇÃO

Figura 22: Os níveis de comunicação bíblica

sam a ter verdadeiro significado. Na realidade, a expressão de


McLuhan, “o meio ê a mensagem” , é um conceito bíblico. É o meio
(o corpo de Cristo) que realmente se torna a mensagem para o mundo
não-saívo. E é o “corpo em ação” que se torna o ambiente em que os
cristãos podem crescer rumo à maturidade.
Mas isso nos conduz a outro princípio significativo de comunicação
no Novo Testamento.

O exemplo é fundamental
Em sexto lugar, na comunicação cristã, o exemplo é fundamental para
a verbalização eficaz. As palavras nunca são suficientes para a vencer
a força da hipocrisia. E, sozinhas, nunca conseguirão atingir tudo o
que o poder de um exemplo positivo é capaz.
Essa era a principal característica de Paulo, de Silas e de Timóteo.
Essa é a principal razão pela qual esses missionários entre os
macedônios conseguiram resultados tão notáveis. “Vós e Deus sois
testemunhas” , escreveram eles, “do modo por que piedosa, justa e
irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros que credes”
(1 Ts 2,10). Nem uma só pessoa podia levantar o dedo contra esses
líderes cristãos e acusá-los de uma vida cristã inconseqüente. Eles
demonstravam com a vida o que estavam comunicando com os lábios.
É por isso que Paulo deu destaque tão grande a um comportamento
moral e ético adequado como critério pelo qual os líderes das igrejas
deviam ser escolhidos. É por isso que escolheu Timóteo: “dele davam
bom testemunho os irmãos” (At 16.2). É por isso que todos os
escritores do Novo Testamento sublinharam a importância de “andar
dignamente” diante dos outros, especialmente diante do mundo não-
salvo. É quando Cristo se encarna dentro do corpo de Cristo que a
comunicação cristã se desenvolve em força, e as “palavras” tornam-se
significativas. As pessoas podem esquecer “o que dizemos” , mas
jamais esquecem “o que somos” .
Isso conduz a outro ponto importante na discussão do princípio de
vida exemplar. Com freqüência a maneira como se diz alguma coisa
é bem mais importante do que aquilo que se diz. “Ora, é necessário
que o servo do Senhor não viva a contender, e, sim, deve ser brando
para com todos [...] disciplinando com mansidão os que se opõem” (2
Tm 2, 24, 25), escreveu Paulo a Timóteo. Os presbíteros também não
devem ser “arrogantes” nem “irascíveis” (Tt 1.7). Muitos cristãos
nem conseguem “ser ouvidos” em virtude de um mau exemplo ou de
um uso imprudente das palavras. E verdadeira aquela frase: “a
maneira como vivemos fala tão alto que as pessoas não conseguem
ouvir o que dizemos” .
Você já parou para pensar por que Paulo pôde dizer algumas coisas
e ficar impune? Afinal, “não economizou palavras” ao escrever aos
coríntios e “não fez rodeios” em sua comunicação com os gálatas.
Na realidade, a resposta é bem simples. Quando as pessoas sabem
que “você as ama” , é impressionante o que você pode dizer e ainda
ser ouvido. Mas deixe-as duvidar do seu amor, do seu interesse e da
sua sinceridade, e suas palavras se tornarão “como o bronze que soa,
ou como o címbalo que retine” .
Sacrifício e trabalho árduo
Em sétimo lugar, a comunicação cristã eficaz não acontece por acaso
— requer sacrifício pessoal e trabalho árduo.
É muito extenuante ocupar-se da vida das pessoas. É preciso pagar
um preço. Não é só energia física que você gasta: existe um desgaste
emocional e espiritual que freqüentemente deixa exausto o líder cristão
consagrado.
Enquanto esteve na terra, Jesus Cristo foi, sem dúvida, a pessoa
mais abnegada que já existiu. Deu tudo — até mesmo a vida — para
que os homens pudessem viver. Mas, no nível humano, o apóstolo
Paulo é um exemplo notável. Enquanto esteve em Tessalônica, ele,
Timóteo e Tito trabalharam “dia e noite” para não serem pesados
àquelas pessoas. Paulo estava tão decidido a não dar a entender falsas
intenções que, às vezes, não recebia o que, por direito, lhe cabia (1
Co 9.1-15).
Mas Paulo pagou um preço por sua devoção à obra de Cristo. Ele
mesmo testemunhou que seu maior peso era a “preocupação com todas
as igrejas” que o fustigava “diariamente” (2 Co 11.28). Era comum
ele se esforçar desesperadamente pelos cristãos imaturos, que
necessitavam de crescimento e de desenvolvimento espiritual (G14.19,
20). Ele, mais do que qualquer outro servo de Jesus Cristo, carregava
no corpo “as marcas de Jesus” (G1 6.17).
Para sermos comunicadores eficazes, não podemos rejeitar o
trabalho árduo e a interação. Alcançar todas as classes de pessoas —
tanto grupos como indivíduos — e investir nossas vidas em ocupação
profunda com certas pessoas, tudo isso requer esforço e trabalho
árduo. Deus nunca nos chamou para uma vida fácil e despreocupada.
Nossas vidas não nos pertencem. Fomos comprados por um alto
preço! Responsabilidade implica prestação de contas.
Aqui, uma vez mais, vemos a singularidade do corpo de Cristo.
Deus não convocou cada um de nós para cumprirmos sozinhos a
grande comissão. Não convocou cada um de nós para sermos um
“apóstolo Paulo” ou mesmo “um Timóteo” . Mas espera que cada
membro do corpo funcione e contribua para a obra de Cristo. Com a
graça dada a cada um “segundo a proporção do dom de Cristo” (Ef
4.7), precisamos participar diligentemente do grande plano de Deus.
Seja livre e flexível
Em oitavo lugar, os cristãos nunca devem ficar presos a certos
métodos de comunicação, mas estar sempre livres e flexíveis.
Como evangélicos, permitimo-nos tornar absoluto o uso de várias
formas de comunicação. Temos a tendência de nos prender a
determinados padrões de comunicação, especialmente em nossa
metodologia de pregação e de ensino.
Em que lugar da Bíblia se escreve que devamos pregar sermões
tripartidos ou entregar mensagens ininterruptas de 30 minutos?
Em que lugar está escrito que preparemos e demos estudos sobre
os vários livros da Bíblia? ou que façamos estudos sobre tópicos
detalhados, percorrendo toda a Bíblia?
Não me entenda mal! Esses meios de comunicação são eficazes. O
problema é que há quem pareça acreditar que o método dele é o
método bíblico.
O fato é que encontramos fortes pressões para acharmos exemplos
da maneira como pregamos e ensinamos hoje em dia. Nas Escrituras,
a maioria dos exemplos apresenta grande variedade e é desenvolvida
e apresentada de forma muito mais espontânea que os nossos padrões.
E, com certeza, é impossível achar alguma forma ou padrão constante
na maneira em que a Bíblia foi escrita. As técnicas de comunicação
escrita variam grandemente de um livro da Bíblia para outro, e o
Novo Testamento é formado, na maioria, de cartas pessoais. A
maioria delas não é muito estruturada. Cada uma varia em forma e em
estilo literário, de acordo com a necessidade dos destinatários e a
formação do autor.
É difícil perceber que os padrões de comunicação são relativos e
têm muita relação com a cultura em que vivemos em determinado
período da história. Mesmo em nossa própria cultura americana,
estamos assistindo a algumas enormes mudanças no modo de
estabelecer uma comunicação e nos fatores que levam as pessoas a
uma reação. Conforme assinala McLuhan, passamos daquilo que ele
chama destaque “quente” na comunicação para um destaque “frio” .
No fim mudaremos para outra direção, especialmente nesta era
tecnológica, que está criando inúmeras revoluções em muitas áreas de
nossas vidas.
Muitos cristãos atribuem à Bíblia certos métodos que consideram
bíblicos, os quais, não obstante, são puramente culturais. Por
exemplo, em que você pensa quando ouve a instrução de Paulo a
Timóteo: “prega a palavra” (2 Tm 4.2)? Se você for como a maioria
das pessoas, não vai pensar nessa função em si, mas na maneira como
você vivenciou a pregação ao longo de sua existência. A tendência é
igualar a maneira como pregamos com a ordem bíblica de pregar. Na
verdade, Paulo não nos diz como pregar, e aí o sentido correto da
palavra é proclamar. Mas ele também não nos fala como proclamar
a Palavra. No entanto, ele demonstrou à sua própria maneira uma
variedade de métodos para cumprir essa ordem.
A metodologia de pregação que aceitamos como “método bíblico”
chegou até nós por meio de desdobramentos culturais e educacionais.
A comunicação de “mão única” , em especial, é produto do
desenvolvimento de habilidades oratórias com origem nas culturas
grega e romana.
O objetivo disso tudo não é afirmar que o uso desses métodos seja
errado. Eles demonstraram sua eficácia em certas situações, sob certas
circunstâncias. O errado é ficar preso a um “método” de comunicação
que deveria ser apenas um meio para atingir um fim divino. E
duplamente errado é classificá-lo como norma bíblica. Precisamos
estar livres para desenvolver novas formas de comunicação e livres
para nos desfazer de métodos e estruturas velhas e ineficientes. O
desafio é deixar-nos guiar pelos princípios bíblicos que manterão
nosso olhar fixado em diretrizes e nos ajudarão a ser atuais, ainda que
bíblicos.

Resumo
Nossa sociedade está passando por uma revolução na comunicação. Os
cristãos evangélicos devem aceitar o desafio de comunicar
criativamente a mensagem de Cristo e sua Palavra a pessoas que são
bombardeadas com as técnicas de comunicação mais recentes. Numa
época de comunicações via satélite e de conversas entre a Terra e a
Lua, os cristãos precisam focalizar claramente os princípios neotes-
tamentários da comunicação. Esses princípios resguardam-nos de in­
fluências exageradas da ciência e da tecnologia e, ao mesmo tempo,
deixam-nos livres para sermos criativos sob a liderança do Espírito
Santo.
1. A comunicação cristã é um processo singular com elementos
divinos e humanos.
2. A comunicação cristã deve estar voltada para todos os tipos e
classes de pessoas.
3. A comunicação cristã deve ser cuidadosamente equilibrada entre
o ministério a grupos e o ministério a indivíduos.
4. A comunicação cristã eficaz deve incluir um ministério em
profundidade a um grupo seleto de pessoas e um ministério ao
grupo maior de cristãos.
5. Para ser qualitativa, a comunicação tem de ultrapassar o nível da
verbalização.
6. Na comunicação cristã, o exemplo é fundamental para uma ver­
balização eficaz.
7. A comunicação cristã eficaz não acontece por acaso — requer
sacrifício pessoal e trabalho árduo.
8. Os cristãos nunca devem ficar presos a certos padrões e formas
de comunicação, mas estar livres e flexíveis sob a liderança do
Espírito Santo.
O ângulo
da história
A segunda parte deste estudo tem o propósito de ajudá-lo a
enxergar a igreja contemporânea por meio do ângulo da história. A
primeira parte tratou da história bíblica, especialmente a do Novo
Testamento.
A segunda parte, porém, focaliza um aspecto específico da história
da igreja: a história das formas e das estruturas. Analisa, em especial,
os reflexos do institucionalismo nas páginas do passado. Mas, talvez
mais importante que tudo o mais, são as lições que podemos obter do
passado próximo, aquelas lições que emergem do estudo da igreja no
século XX.

O ângulo da história
institucionalismo
na história

O processo de institucionalização é um fenômeno repetido entre o


povo de Deus. O que torna essa armadilha especialmente perigosa é
o fato de não ser um problema exclusivo da igreja ou de outras
organizações cristãs. Ocorre naturalmente sempre que as pessoas se
reúnem para alcançar certos objetivos. Na maioria das vezes, pessoas,
mais estrutura, mais tempo é igual a institucionalismo.
Todos os elementos são necessários, pois, sempre que houver
pessoas, haverá função; e, onde houver função, será necessário algum
tipo de forma e de estrutura. E, obviamente, o tempo é inevitável,
pois ele nunca pára.
Entretanto, que é, especificamente, “institucionalismo”? Primei­
ramente, vamos examiná-lo como um fenômeno natural.

Que acontece no mundo secular?


John W. Gardner, antigo presidente das Empresas Carnegie, disse:
“Assim como as pessoas e as plantas, as organizações têm um ciclo
de vida. Têm uma juventude verde e flexível, um período de vigor
florescente e uma velhice nodosa” .1
Em vez de definir o “institucionalismo” em si, talvez seja mais
fácil examinar os sintomas do institucionalismo — quando ele ocorreu?
Ou quando começa a ocorrer?
A institucionalização processa-se quando:

1. A organização (a forma e a estrutura) torna-se mais importante


do que as pessoas que a constituem.
2. Os indivíduos começam a agir dentro da organização mais como
engrenagens de uma máquina.
3. A individualidade e a criatividade se perdem na massa
estrutural.
4. O ambiente da organização torna-se ameaçador, em vez de
arejado e livre; muitas vezes, as pessoas têm receio de fazer
perguntas desagradáveis.
5. As disposições estruturais da organização tornam-se rígidas e
inflexíveis.
6. As pessoas servem mais à organização do que aos objetivos que
geraram a organização. Em outras palavras, os meios tornaram-
se os fins.
7. Com freqüência a comunicação entra em colapso, especialmente
devido a um ambiente repressivo e ao excesso de burocracia.
8. As pessoas tornam-se prisioneiras da rotina de trabalho. O
“manual da empresa” e o “regimento interno” crescem cada
vez mais, e as novas idéias vão escasseando.
9. Para sobreviver numa estrutura fria, as pessoas desenvolvem
seus próprios interesses particulares dentro da organização
criando uma competição entre departamentos e divisões. Os
objetivos da empresa dão lugar a uma multidão de objetivos
desconexos, que resultam, inevitavelmente, numa falta de união
na organização como um todo.
10. O estado de ânimo se degenera; as pessoas perdem a iniciativa;
tornam-se abatidas e muitas vezes passam a criticar a orga­
nização e as outras pessoas da organização, especialmente seus
líderes.
11. À medida que o tempo passa e a organização fica maior, muitas
vezes o processo de institucionalização se acelera. Desenvolve-
se uma hierarquia de liderança, aumentando os problemas de
comunicação de cima para baixo e de baixo para cima. As
pessoas mais próximas do nível inferior, ou mesmo no meio da
estrutura organizacional, sentem cada vez mais que “realmente
não são importantes” na organização.

Quando se encontram esses sintomas numa organização, o insti­


tucionalismo já atingiu estágios avançados.
Existe, no entanto, uma nota de otimismo que surge do estudo da
história de organizações e instituições. Mais uma vez cito Gardner:

As organizações diferem das pessoas e das plantas porque não é possível


predizer o seu ciclo, nem aproximadamente. A organização pode passar
da juventude para a velhice em duas ou três décadas, ou pode durar
séculos. E o mais importante é que ela pode atravessar um período de
estagnação e depois recuperar o vigor. Em suma, o declínio não é
inevitável. As organizações não precisam estagnar. É verdade que isso
acontece com freqüência, mas é porque a arte da renovação organi­
zacional ainda não é amplamente compreendida. As organizações pódem
renovar-se continuamente.2

Os princípios de renovação organizacional realmente funcionam.


Cada vez mais, até as pessoas do mundo secular estão descobrindo
essas regras e começando a aplicá-las na comunidade secular.

Que acontece entre o povo de Deus?


A história da igreja revela pelo menos três períodos principais de
institucionalismo entre o povo de Deus, com muitos outros períodos
e fases mais curtos de institucionalismo entre um e outro.

Judaísmo. O primeiro grande período de institucionalismo concerne


aos filhos de Israel depois de retomarem do cativeiro babilónico.
Durante algum tempo, sob a liderança de Esdras e Neemias, era
evidente a nova vida entre o povo escolhido de Deus. Mas, na época
de Jesus Cristo, a nação de Israel como um todo e, em especial, seu
sistema religioso estavam tão marcados pelo institucionalismo que era
praticamente impossível fazer distinção entre a verdade e a tradição.
Foi contra esse “sistema religioso” que Jesus disparou suas farpas
mais afiadas. Por exemplo, quando seus discípulos foram criticados
pelos fariseus por colherem espigas num sábado, Jesus redargüiu: “O
sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por
causa do sábado” (Mc 2.27). Em outras palavras, ele estava dizendo:
“Vocês pegaram um meio e o transformaram num fim em si.
Perderam totalmente de vista o espírito da lei. Perderam o indivíduo
dentro do sistema religioso de vocês. Tudo que lhes sobrou é uma
forma vazia” .
Várias e várias vezes, Jesus apontou o dedo contra os resultados
devastadores do institucionalismo. Ele lembrou aos líderes religiosos
que eles tinham sido bem-sucedidos na preservação de seu sistema
religioso, de sua “ortodoxia” e de sua tradição e até tinham induzido
a maioria do povo a uma conformidade externa às expressões visíveis
de sua religião. Mas tinham perdido o indivíduo; não tinham
entendimento profundo da verdade divina; seus seguidores não tinham
experiência vital e real com o Deus vivo.

Catolicismo romano. No panorama da história da igreja, a igreja


neotestamentária palpitante, vibrante, que surgiu do judaísmo, deu
lugar a uma igreja romana estagnada, sem vida. Como sempre, havia
bolsões de vitalidade e cristianismo puro, mas, no geral, a igreja
estava fadada a centenas de anos de religião institucionalizada. Quando
o Edito de Milão deu caráter legal ao cristianismo, muitos se tornaram
“cristãos” porque era moda.
Foi contra esse sistema religioso que os reformadores se
levantaram para defender a verdade bíblica e o cristianismo perso­
nalizado. A religião havia-se tornado uma questão de forma e de rito,
não de vida e de experiência. Todos os tipos e variedades de tradições
começaram a ofuscar a verdade bíblica. Não havia limites para os
desmandos e as práticas pagãs.
Mas atenção! A igreja romana foi preservada — com toda a sua
“grandeza” e poder — até os dias de hoje. Seu modo autoritário de
encarar a educação e sua comunicação transmissiva preservaram a
“ortodoxia” da igreja, e, até pouco tempo atrás, eram raríssimas as
pessoas de dentro do sistema que questionavam suas exigências e
dogmas.
É importante assinalar neste momento que a “grandeza” não é
obrigatoriamente sinal de sucesso espiritual verdadeiro. As
“estatísticas” podem ser muito enganosas. É relativamente fácil achar
“seguidores” se alguém se esforça o suficiente e grita o suficiente para
que sua voz seja ouvida acima das muitas que estão clamando pela
atenção das pessoas hoje. E, uma vez que as pessoas entram num
sistema religioso e aceitam seus dogmas, a maioria pode ser
controlada pela manipulação da culpa e pelo medo de rejeição.
Mas que estão seguindo? Em que crêem? Como são suas vidas?
Para onde as estamos conduzindo?
Essas perguntas são cruciais! Não vamos deixar-nos iludir pelas
estatísticas, pois, se o sucesso de Jesus Cristo na terra tivesse sido
medido pelos números, ele devia ser classificado como um fracasso.
E claro que houve ocasiões em que as multidões o seguiram e seus
discípulos se multiplicaram; mas também houve uma época em que
“muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com
ele” (Jo 6.66). Para essas pessoas, o preço de seguir a Jesus Cristo
era grande demais (6.60).
Isso não quer dizer que os números não sejam significativos. Nos
primeiros dias da igreja, o grupo de fiéis foi acrescido em milhares
(At 2.41), e “se multiplicava o número dos discípulos” (At 6.7). Mas
o verdadeiro sucesso era medido pelos resultados que estavam sendo
alcançados na vida das pessoas. Da mesma forma hoje, precisamos
medir nosso sucesso pelos critérios bíblicos — não pelo número de
pessoas no domingo de manhã, ou no domingo à noite, ou na quarta-
feira à noite, ou pelo número de matriculados em nossa escola
dominical. Alguns chegam a medir o sucesso pelo número total de
reuniões realizadas durante determinado período. A atividade em si
não é um padrão correto de avaliação. Os resultados dessas atividades
(resultados bíblicos) são!

Igrejas reformadas. E assim os reformadores reagiram contra o


institucionalismo e contra a ortodoxia morta da igreja romana. Mas
qual foi o substituto que encontraram?
Por algum tempo, houve vida e vitalidade! A autoridade da Bíblia,
a justificação pela fé e o sacerdócio de todos os fiéis mais uma vez se
tornaram doutrinas cardeais. A conversão tornou-se uma questão de
relacionamento pessoal com Jesus Cristo, especialmente entre os
adultos que enxergavam a luz. Mas e os seus filhos? E a tolerância em
relação aos outros? E as suas formas, estruturas e técnicas de
comunicação? E o resultado final disso?
Não se pode obrigar a comunidade cristã. Por fim, alguns líderes
negaram aos outros a mesma liberdade que haviam exigido para si. A
educação era controlada e dirigida pelas igrejas estatais protestantes e
degenerou no mesmo sistema estereotipado, tradicional e autoritário
de que tinham saído. Em si, a doutrina correta não era a resposta!

O movimento das igrejas livres. A partir da religião insti­


tucionalizada que logo se instalou nas igrejas da Reforma, surgiu uma
variedade de grupos desejosos de manter a vitalidade e a pujança que
viam espelhadas no Novo Testamento. O descobrimento da América
proporcionou um meio natural pelo qual muitos puderam começar de
novo. Mas, em muitos casos, até naqueles primeiros dias, o mesmo
“institucionalismo” foi transferido do Continente Europeu para o
Novo Mundo. Para os verdadeiros cristãos, era uma luta constante,
como sempre tem sido, manter o olhar fixo em objetivos e princípios
bíblicos e evitar a institucionalização.
Mas atracou nos Estados Unidos, no início do século, um fenô­
meno que estava destinado a ser uma bênção disfarçada para a igreja
evangélica. Os ventos tempestuosos da teologia liberal ameaçavam a
própria existência de cristãos que acreditavam na Bíblia. Apontando
as baterias contra os próprios alicerces do cristianismo histórico, os
teólogos liberais e os naturalistas fizeram com que os cristãos que
acreditavam na Bíblia estudassem, pensassem, orassem e agissem
como nunca.
É verdade que a maioria dos seminários tornou-se liberal e muitas
faculdades de orientação evangélica acompanharam a onda, mas em
seu lugar surgiram os institutos bíblicos e o movimento de con­
ferências bíblicas e, por fim, os seminários evangélicos. Nessas
instituições de treinamento surgiram homens e mulheres que
acreditavam na Bíblia como a Palavra de Deus; acreditavam na
conversão pessoal e, falando em termos genéricos, acreditavam na
igreja local como o principal meio divino para a edificação de
cristãos.
Nas décadas de 40 e de 50 o liberalismo começou a refluir, não
obrigatoriamente em virtude do fervor dos cristãos evangélicos, mas
muito mais por causa dos próprios teólogos liberais, que começaram
a questionar as pressuposições de sua própria teologia. Duas guerras
mundiais haviam atingido duramente o âmago de suas idéias, a saber,
que o homem é essencialmente bom e que o mundo está destinado a
melhorar. Em seu lugar surgiu uma nova teologia, geralmente
denominada neo-ortodoxia, mas que pouco tem de comum com o
cristianismo clássico, à exceção da terminologia. Seus proponentes
tentaram desesperadamente ser pertinentes e atuais e atender às
necessidades dos homens num mundo que parecia à beira da ca­
tástrofe. O ódio racial, as guerras, a poluição, a explosão demo­
gráfica, as ideologias conflitantes e a ameaça da hecatombe nuclear
eram assuntos habituais entre os líderes do mundo, tanto nos círculos
religiosos como nos seculares.

A igreja em geral. No geral, sem dúvida alguma a igreja


protestante é uma igreja institucionalizada. É criticada igualmente por
jovens e velhos. Não somente se tornou vítima de sua forma e
ritualismo, mas também perdeu o rumo. Já não tem um guia absoluto
para determinar seus objetivos e extrair os princípios que a conduzirão
em sua função.
Muitos líderes religiosos reconhecem os sintomas do insti­
tucionalismo na igreja em geral. Desesperadamente, tentam bombear
vida nova num corpo moribundo mediante mudanças de “forma” e
novo destaque sobre o indivíduo. De fato tentam ajudar — lidar com
os assuntos que nos cercam por todos os lados — causando, em alguns
casos, vergonha aos cristãos evangélicos.
Mas não alcançam mais sucesso do que as universidades ou as
organizações sociais na obtenção de resultados definitivos, pois, muito
embora consigam atender às necessidades físicas das pessoas e, em
alguns aspectos, suas necessidades psicológicas, não têm nenhum meio
de transformar o coração, o ser interior. A verdadeira mensagem do
cristianismo (a conversão pessoal e um novo nascimento sobrenatural
por meio do Cristo vivo) foi basicamente eliminada da teologia
moderna. O universalismo cômodo substituiu a dura realidade da
perdição eterna para quem está fora de Jesus Cristo, e a “ética
situacional” ou relativista, sem nenhum fundamento nos valores
absolutos da Bíblia, está proliferando dentro da comunidade religiosa.
Sem a verdadeira mensagem do evangelho e sem as eternas leis
divinas para uma vida semelhante à de Cristo, todos os esforços no
sentido de ajudar as pessoas estão fadados ao fracasso. Nenhuma
renovação organizacional conseguirá salvar a igreja em geral.
Deve-se notar que muitas das principais denominações protestantes,
bem como a Igreja Católica Romana, têm sido influenciadas
significativamente pelo movimento de renovação carismática. Não há
dúvida de que isso tem causado impacto nas igrejas basicamente
dominadas pela ortodoxia morta ou pelo ensino liberal, criando
bolsões de vitalidade espiritual. Infelizmente, grande parte do que vem
ocorrendo é direcionado mais para a experiência do que para a
Palavra. Às convicções teológicas têm crescido mais de fatores
pessoais e existenciais do que da Bíblia. Conseqüentemente, é difícil
predizer por quanto tempo esse fenômeno continuará causando
impacto no cristianismo. Sempre que se negligenciar o estudo e o
ensino sólido e sistemático da Bíblia, haverá falta de profundidade que
conduz a uma experiência superficial e a vários tipos de excessos.

A igreja evangélica. E a igreja que crê na Bíblia? Ela cresceu, está


mais popular do que nunca e penetrou na sociedade. Alguns de seus
porta-vozes mais importantes são nomes familiares entre os líderes do
mundo.
O evangelicalismo é reconhecido como um movimento mundial. Há
muitos sinais estimulantes. A despeito das pressões do secularismo e
do materialismo, e do evidente declínio moral da nossa cultura como
um todo, o cristianismo evangélico continua a causar impacto. O
advento da cultura das drogas, do sensualismo e das religiões místicas
criou na realidade um vácuo pelo qual os cristãos que crêem na Bíblia
estão conseguindo entrar com a mensagem de Jesus Cristo. Os jovens
em especial, que sutilmente foram levados a um estilo de vida que os
lançou na roda-viva do desespero, estão reagindo positivamente à
autoridade da Bíblia e à sua mensagem redentora. Organizações
universitárias, tais como Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo,
Aliança Bíblica Universitária e Os Navegadores, estão experimentando
oportunidades sem precedentes de comunicar o evangelho a jovens
desiludidos. Além disso, essas organizações também estão causando
impacto na igreja, em suas áreas fracas.
Que dizer, porém, da igreja local na comunidade evangélica? Aí
também existem alguns pontos animadores. As igrejas que crêem na
Bíblia estão crescendo. Em geral, existe uma fé forte na autoridade
das Escrituras e na necessidade de salvação pessoal. Muitos cristãos,
embora afetados pelo materialismo e pelo secularismo na maneira de
pensar, ainda possuem um profundo desejo de estar dentro da vontade
de Deus. Muitos, mesmo aqueles que dirigem organizações
pareclesiásticas, mantêm um forte compromisso com a própria igreja
local. Muitos pastores estão ensinando a Palavra de Deus como nunca,
e também há um interesse geral pela evangelização e pela edificação.
Nunca tivemos tantas organizações educacionais dentro da igreja e
tantos materiais e recursos excelentes à disposição para alcançar todas
as faixas etárias.
Mas, de alguma forma, com todas essas virtudes, a voz do velho
apóstolo vem ecoando através dos séculos: “Conheço as tuas obras,
assim o teu labor como a tua perseverança [...]. Conheço as tuas
obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço [...]. Tenho, porém, contra
ti...” (Ap 2.2, 19, 20). Há algo de errado com a igreja evangélica! É
claro que isso não é uma expressão desconhecida, pois sempre há
algum erro e sempre haverá, na igreja, enquanto estiver na terra.
Nunca conseguiremos ser perfeitos enquanto estivermos amarrados à
mortalidade. Mas parece que existe um erro bem claro na igreja local,
uma falta de foco que não precisa existir, algo que se pode corrigir
com os devidos ajustes.
Aqui podemos aprender uma lição vital com a história. Todo
movimento que cresce defronta-se inevitavelmente com a ameaça da
infiltração de um institucionalismo. O cristianismo evangélico está
enfrentando essa ameaça hoje, especialmente numa época em que a
igreja cresce rapidamente. Corre um risco especial porque saiu da
crise de lutar pela própria sobrevivência para entrar num período de
popularidade sem paralelo — uma tendência que geralmente produz a
institucionalização.
Nesse aspecto, precisamos recordar-nos do que aconteceu aos
movimentos anteriores que ocorreram entre o povo de Deus. Preci­
samos examinar cuidadosamente os resultados da religião institu­
cionalizada.

Reflexos do institucionalismo
O judaísmo, o catolicismo romano e as igrejas da Reforma preser­
varam seu sistema religioso, mas perderam de vista o indivíduo.
Aliás, em todos os casos, o sistema — seus dogmas, tradições, formas
e estruturas — por fim se tornaram mais importantes do que as
próprias pessoas.
Esses movimentos também preservaram sua “ortodoxia” , mas seus
adeptos não conseguiram obter uma compreensão mais profunda e
pessoal da verdade divina. As pessoas aceitavam intelectualmente a
doutrina, mas havia pouca relação com a vida diária. Quase não havia
diferença entre fazer parte desses movimentos e pertencer a um clube,
uma associação ou um grupo qualquer no mundo secular. Em muitos
casos, as tradições ofuscavam a Palavra de Deus.
Todos esses movimentos ganharam uma semelhança exterior da
parte de seus seguidores, sem que houvesse, no entanto, uma
experiência interior. As pessoas cumprem religiosamente os rituais e
as rotinas, mas sem verdadeiro significado espiritual. A religião delas
passou a ser uma questão de forma e cerimonial, não de vida e
experiência. O relacionamento pessoal com Deus foi substituído pelo
relacionamento impessoal com uma organização.
Todos esses movimentos perpetuaram-se mediante uma educação
autoritária, estereotipada e transmissiva. Empregavam o doutri-
namento, dando pouco espaço para o pensamento criativo e a
liberdade. O ambiente de aprendizado tornou-se não-permissivo.
Todos esses movimentos desenvolveram uma hierarquia de líderes
que, por sua vez, desenvolveram um sistema de teologia minucioso e
lógico. Os líderes cuidavam de “pensar” e de “comunicar” , enquanto
as pessoas comuns tornavam-se receptáculos e seguidores da sabedoria
dos eruditos.
À medida que esses movimentos cresciam e se ampliavam, a
estrutura e a forma foram-se tornando rígidas e inflexíveis. Na
realidade, seus meios e métodos tornaram-se um fim em si e, na
mente do povo, tão sagrados quanto suas crenças.3
Resumo
A tese deste capítulo é que a história pode ensinar-nos algo muito
importante. Como evangélicos, muitas vezes fazemos confusão entre
funções e formas e entre o que é absoluto e o que não é. Quando isso
acontece, nossas igrejas caminham rapidamente para uma institu­
cionalização.
Quais são, porém, alguns dos sintomas específicos? É dessa
pergunta que trataremos no próximo capítulo.

Notas

1 John W. G a r d n e r , H ow to prevent organizational dry rot, Harper, Oct.


65, p. 20.
2 Ibid.
3 No que diz respeito a uma abordagem oportuna dos problemas do
institucionalismo na igreja, veja Findley B. E d g e , A quest for vitality in
religion, Nashville, Broadman, 1963. Embora esse livro tenha sido escrito
há mais de 20 anos, sua mensagem básica acerca desse fenômeno é, hoje,
ainda mais pertinente.
Os reflexos do
institucionalismo
na igreja
evangélica

O fenômeno do institucionalismo que se vai insinuando na igreja


evangélica no final do século XX é algo sem precedentes. Em alguns
aspectos é um institucionalismo diferente do de qualquer outra época
da história.
É verdade que o institucionalismo que vemos hoje tem muitas
semelhanças com o do passado. Existem certos elementos comuns a
todas as institucionalizações, qualquer que seja o lugar e a época em
que ocorram.
Todavia, também há alguns elementos particulares, sendo o mais
importante a nossa ortodoxia bíblica. Será possível crer que a Bíblia
é a Palavra de Deus e comunicá-la com desenvoltura aos outros, e, ao
mesmo tempo, ser vítima do institucionalismo?

Os problemas criados
1. A nossa maior virtude ajudou a criar alguns dos nossos maiores
problemas. O aspecto mais forte da igreja evangélica tem sido a
fidelidade à Bíblia como a autoridade máxima nas questões de fé e de
prática. Embora haja uma variedade de interpretações em algumas
áreas da teologia, a maioria dos evangélicos, a despeito da polêmica
em torno da inerrância, concorda que a Bíblia é a Palavra inspirada e
inerrante de Deus.
Esse destaque ajudou em muito a preservação do cristianismo
histórico. A história revela que, sempre que os grupos se distanciaram
desse ponto de partida básico, aconteceu, por fim, um movimento de
afastamento dos ensinos claros das Escrituras a respeito de Jesus
Cristo e da salvação, como também de outras doutrinas fundamentais
importantes.
Nossa brava luta pela sobrevivência contra as incursões do
liberalismo no início do século conseguiu preservar os fundamentos da
fé. De fato, ela foi a raiz daquilo que por fim se tornou um momento
forte de estudiosos evangélicos, que deu ao cristianismo evangélico
uma clara posição de respeitabilidade e aprimoramento.
Mas aconteceu alguma coisa, especialmente em nossas igrejas com
forte ensino bíblico. Por enfatizarmos, e com razão, a Bíblia como a
Palavra de Deus, bem como seus ensinos doutrinários, temos dado um
grande destaque ao estudo da Bíblia e à transmissão dela aos outros.
Isso, por sua vez, tornou-se o objetivo maior de muitas igrejas
evangélicas, objetivo louvável, para dizer pouco.
Aconteceram algumas coisas. Em primeiro lugar, para alcançar
esse objetivo, começamos a treinar pessoas qualificadas para ensinar
a Bíblia. As escolas evangélicas — primeiramente os institutos e
faculdades bíblicas e mais tarde os seminários — elaboraram
currículos para transmitir aos jovens um conhecimento do conteúdo
das Escrituras, de modo que pudessem ensiná-los a outros.
Em segundo lugar, as pessoas treinadas nessas escolas iam para as
igrejas e ensinavam tal qual eram ensinadas. Muitos se tornaram
expositores ardorosos (em alguns casos, “pequenos catedráticos”), e
as pessoas eram seus “alunos” . No culto matutino e vespertino,
durante o culto do meio da semana e nas classes de escola dominical,
algumas pessoas têm ouvido três, quatro, ou até mesmo cinco
exposições bíblicas por semana. Nas décadas de 20 e de 30, quando
as pessoas estavam famintas da Palavra de Deus, que tinha sido
arrancada dos púlpitos do país, essa era uma brisa refrescante vinda
do céu.
No entanto, surgiu um problema. Muitos leigos tornaram-se
“ouvintes” ardorosos. Há poucas oportunidades de interação pessoal
com outros membros do corpo de Cristo, ou de manifestar a Palavra
em suas próprias vidas. Em muitas igrejas o corpo em ação foi
substituído por um indivíduo treinado e talentoso.
Felizmente, os pastores jovens podem pegar aquilo que aprenderam
nas escolas e transmiti-lo aos outros quando transformam suas igrejas
em escolas bíblicas e seminários em miniaturas. Contudo, na maioria
das vezes, aqueles que estão nas igrejas, escutando, absorvem a
Palavra, mas não têm uma saída semelhante.
Em terceiro lugar, geralmente as estruturas e os padrões ecle­
siásticos têm o propósito de atingir esse objetivo de ensinar a Bíblia.
Do ponto de vista funcional, é comum o templo transformar-se em
“sala de conferências” , e o edifício educacional transformar-se em
centro acadêmico. A pregação de sermões bem preparados (ou, em
outras palavras, a apresentação de palestras bíblicas vigorosas) tornou-
se o principal método de ensino da Palavra de Deus.
Dessa maneira, o destaque na autoridade bíblica e na importância
de aprender e transmitir sua mensagem levou alguns evangélicos a
negligenciar alguns outros destaques bíblicos extremamente impor­
tantes. Como já observamos em nosso estudo, aprender a Palavra de
Deus é fundamental para o crescimento cristão. Mas que dizer das
outras experiências de que os cristãos necessitam para se tornar
maduros? Que dizer da ênfase neotestamentária à importância do
funcionamento de todas as partes do corpo de Cristo para sua própria
edificação? Como todos os membros do corpo podem participar desse
processo, se são sistematicamente “forçados” a permanecer sentados,
ouvindo uma única pessoa ensinar ou pregar? Em muitos casos não há
oportunidade de ministério mútuo.
E que dizer do contexto neotestamentário que ressalta a koinonia,
aquela comunhão mútua sem igual em que os cristãos levam as cargas
uns dos outros e assim cumprem “a lei de Cristo”? Até que ponto as
estruturas e os padrões de nossas igrejas se prestam ao desen­
volvimento desse tipo de experiência neotestamentária?
E que dizer daquela experiência neotestamentária única de adoração
e de comunhão com Deus que brota naturalmente de um coração cheio
de gratidão a Deus, não apenas por sua Palavra, mas também pelos
irmãos na fé? Até que ponto os nossos “cultos de adoração” e as
“reuniões de oração” costumeiros resultam em verdadeira adoração?
Em muitas igrejas, a nossa incapacidade de proporcionar
experiências neotestamentárias equilibradas para os fiéis resultou num
destaque à doutrina correta e num conhecimento das Escrituras, mas
negligenciou outras necessidades importantes que geram perso­
nalidades cristãs maduras. Conseqüentemente, temo-nos encaminhado
para uma ortodoxia estéril, ainda que bíblica, mudança muito perigosa
rumo à religião institucionalizada. Uma leiga bem intencionada se
expressou muito bem quando afirmou: “A cada reunião da igreja faço
anotações em minha Bíblia e tenho todas essas informações
maravilhosas acerca da Bíblia, mas realmente está faltando algo na
minha vida. Alguma coisa está errada na minha experiência cristã”.

O posto de salvação de almas


2. A ênfase na igreja como um posto de salvação de almas também
contribuiu para o processo de institucionalização. Sem dúvida, esse
problema é diferente do que acabamos de descrever. Num sentido, é
um problema de natureza oposta, que você não encontra em igrejas
com um forte ensino bíblico. Na igreja de “ênfase evangelística”,
geralmente encontramos uma notória ausência de bom ensino bíblico.
A queixa freqüente é que “tudo o que o pregador sempre prega é uma
mensagem evangelística simples” . E muitas vezes ele prega essas
“mensagens evangelísticas” a uma igreja repleta de cristãos. Os
pastores dessas igrejas dão grande ênfase ao encaminhamento de
pessoas não-salvas à igreja para “ouvirem o evangelho” . A igreja
torna-se o centro de toda a atividade para alcançar o mundo não-salvo.
Ensina-se aos leigos, por palavras e pelo exemplo, que a tarefa
evangelística deles é “trazê-los” para ouvir o evangelho.
Esse método teve resultados relativamente bons no início do século,
basicamente porque, na época, muitas pessoas não-salvas adotavam
princípios religiosos. Muitas já tinham tido contato com os pontos
fundamentais da fé cristã e já tinham freqüentado uma igreja. Mas os
tempos mudaram! Muitos vizinhos e colegas de trabalho são total­
mente pagãos. O que menos lhes interessa é uma igreja — quanto
menos as reuniões evangelísticas. E, assim como os tempos mudaram,
também mudou o número de não-cristãos que aceita ir a uma igreja.
Mas em muitos casos o “pregador” ainda está pregando o evangelho
como se os visitantes estivessem ali. Conseqüentemente, os cristãos
estão sedentos de um bom ensino da Bíblia.
A propósito, essa é a razão de muitos cristãos deixarem essas
igrejas à procura de igrejas com um bom ensino bíblico. A reação
inicial que elas têm em seu novo ambiente é de grande satisfação.
Mas, após algum tempo, ficam saturadas de verdades bíblicas, e então
a experiência delas iguala-se àquela que acabamos de descrever na
seção anterior.
Que dizer, porém, da igreja como centro evangelístico? Antes de
tudo, um dos objetivos básicos da igreja é alcançar o mundo não-
salvo. Mas o propósito da “igreja congregada” , conforme está descrito
no Novo Testamento, não é dar ao pastor oportunidade de pregar
mensagens evangelísticas às pessoas não-salvas trazidas à igreja por
seus membros.
Mais uma vez, não me entenda mal! Isso não significa que não se
deva receber bem ou mesmo convidar as pessoas não-salvas para
virem à igreja. De outra forma, talvez não tenham oportunidade de
ver o corpo de Cristo funcionando em amor e em unidade, meio
importante de alcançar os não-cristãos. Entretanto, no Novo
Testamento não há uma única referência à estruturação do culto em
função dos não-salvos. Somente em 1 Coríntios encontramos Paulo
instruindo os cristãos a ter ordem no culto para que, ao entrar uma
pessoa não-salva, não pense que esses cristãos estão fora de si (1 Co
14.23). Mas aí também Paulo estava sublinhando a importância de um
culto devidamente preparado em função dos cristãos (14.24). O não-
cristão, observando o corpo de Cristo funcionando devidamente para
edificação própria, estaria, então, em condições de ser convencido
pelo Espírito Santo e atender à mensagem do evangelho (14.24, 25).
Muitas igrejas que funcionam como centros evangelísticos têm,
com freqüência, maiores problemas com o institucionalismo que as
igrejas com ênfase no ensino bíblico. Sem uma boa dose da Palavra
de Deus, as atividades e as reuniões tornam-se ainda mais superficiais
e destituídas de verdadeiro significado bíblico. Até as oportunidades
de comunhão degeneram em encontros sociais que pouco diferem das
reuniões sociais do mundo. No sentido bíblico, a comunhão, ou
koinonia, é mais do que “chá com biscoitos” e seres humanos
relacionando-se uns com os outros num nível puramente humano.
Dentro do contexto da koinonia bíblica, até participar de uma refeição
deve tornar-se uma experiência mais significativa (At 2.42).
Além das experiências superficiais (um reflexo inequívoco do
institucionalismo religioso), nessas congregações muitos cristãos
encaram a igreja como local de encontro. Ouvem e experimentam com
tanta freqüência que a igreja é o lugar de atividade espiritual, que
passam a se “nortear pelo prédio” .
O destaque à “igreja congregada” é algo louvável e bíblico. Mas,
no sentido bíblico, a igreja não é um prédio, ou uma simples
organização, ou mesmo um lugar de encontro — mas um organismo,
um corpo de fiéis que se reúnem. E o “motivo” por que os cristãos
se reúnem é da mais alta importância! Da perspectiva bíblica, não
deve ser ouvir o pastor pregar um sermão evangelístico. Nem deve ser
ouvir o pastor-mestre expor a Palavra. Pelo contrário, toda a estrutura
da igreja deve fornecer oportunidade de os cristãos ser edificados
mediante a atuação de todo o corpo. Será preciso ter um tempo para
o ensino da Palavra de Deus. Mas também deverá haver momentos
pata que os fiéis possam experimentai relacionamentos verdadeiros
dentro da “família de Deus” . Como conseqüência dessas experiências
vitais, os cristãos devem, por sua vez, ministrar a suas próprias
famílias, ministrar aos outros irmãos e testemunhar eficazmente de
Jesus Cristo ao mundo não-salvo.

Existência vs. causa


3. Estamos começando a sustentar a “instituição ” em vez de sua razão
de ser. Em outras palavras, estamos mais preocupados com a
existência do que com a razão da existência.
Esse problema reflete-se na forma como avaliamos o progresso.
Enquanto temos uma porção de atividades, muitas pessoas chegando,
várias “decisões”, a receita aumentando, uma equipe pastoral cada vez
maior e um programa de construção em andamento, sentimo-nos
agradavelmente bem-sucedidos e evangélicos. “Deus está abençoan­
do” , é a avaliação que repetimos. “O Espírito Santo está agindo” ,
ecoam os expoentes do crescimento da igreja.
Freqüentemente, demonstramos pouco interesse pelo conteúdo de
nossas atividades, contanto que estejam “progredindo” . Muitas vezes
não vemos se as “decisões” resultam ou não em discipulado maduro,
em meio a tudo o mais que está “acontecendo” .
E as pessoas que chegam? Bem, se as novas pessoas estão
chegando, realmente não importa quem são, nem de onde vêm, nem
quanto tempo vão ficar. Quando elas chegam, registramos que estamos
alcançando as pessoas. Os fatos parecem indicar que muitas igrejas só
crescem porque os cristãos vão-se mudando — do centro para os
bairros residenciais, de uma cidade para outra e de uma igreja para
outra. Parece que poucos são novos convertidos, levados a Cristo pelo
corpo local de fiéis, quando estes compartilham sua fé com vizinhos,
amigos e colegas de trabalho.
E mesmo assim nos achamos bem-sucedidos por estarmos cres­
cendo — e na realidade sem estarmos alcançando o objetivo
neotestamentário de penetrar na comunidade pagã em que vivemos.
O problema de nos preocuparmos mais com a “existência” do que
com a razão da existência também se reflete na maneira como
avaliamos a “espiritualidade” , especialmente se fazemos parte da
equipe pastoral. Nosso povo “sobe no conceito” quando vem e ouve
nossos sermões, traz os filhos para todas as atividades que planejamos
para eles, sustenta a igreja com suas ofertas, serve de bom grado na
diretoria e nas comissões e ajuda a manter em funcionamento as
organizações da igreja, atuando em posições de liderança. Em suma,
enquanto as pessoas apóiam o programa, nós as julgamos
espiritualmente maduras.
Mas que dizer da vida familiar delas? Será que o pai é o chefe
espiritual do lar, gastando tempo com seus filhos individualmente e
em grupo? Que( dizer do relacionamento entre a mãe e o pai? Que
dizer do ambiente espiritual medido com base nos critérios bíblicos?
Será que cada lar é uma força dinâmica na comunidade, refletindo
Jesus Cristo? Como a família está-se relacionando com os vizinhos
não-salvos? A família se dedica à hospitalidade, tanto entre os não-
cristãos quanto entre os cristãos?
Que dizer da ética do pai no campo profissional? Será ele uma
testemunha cristã dinâmica pela maneira como vive e fala?
Que dizer de outros aspectos de nossa vida eclesiástica? Os fiéis
estão realmente ministrando aos outros membros do corpo de Cristo,
ou empregam todo o tempo e esforço apenas para fazer a máquina da
igreja funcionar sem problemas? Estão realmente crescendo e se
desenvolvendo na vida cristã? Ou estão girando freneticamente dentro
de uma roda-viva religiosa, ficando mais cansados e insensíveis a cada
semana e, ao mesmo tempo, mantendo baixo o nível de sentimento de
culpa por causa do “serviço cristão”?
Que dizer do ambiente global da igreja? É caloroso, acolhedor e
pessoal, ou as pessoas vêm domingo após domingo, sentam-se lado a
lado em longos bancos, fazem anotações em suas Bíblias, dizem
“Amém” , põem dinheiro na sacolinha e vão embora sem chegar a
conhecer de fato os outros membros da família cristã, e sem dar
nenhuma contribuição para os outros membros do corpo de Cristo?
Todas essas perguntas podem ficar sem resposta em muitas igrejas
evangélicas — podem, até, receber uma resposta negativa — e ainda
assim podemos considerar nossa igreja bem-sucedida. A verdade é que
a igreja pode ter uma existência maravilhosa como organização, mas
sofrer uma carência deplorável como organismo neotestamentário em
ação. Ela não está atingindo certos objetivos bíblicos fundamentais.

Crença vs. conduta


4. Estamos enfatizando a doutrina correta e, muitas vezes,
negligenciando a qualidade de vida das pessoas. Um importante
critério de avaliação da maturidade espiritual é, com freqüência, “em
que a pessoa crê” e não “a maneira como ela vive” .
Certamente aquilo em que uma pessoa crê é básico e fundamental,
mas a Bíblia é clara e explícita em que é “um e outro” e não “um ou
outro” . Os primeiros 11 capítulos da carta de Paulo aos romanos
enfatizam a doutrina, e os últimos cinco, a vida cristã. Da mesma
maneira, a epístola aos efésios apresenta a doutrina nos primeiros três
capítulos, e os últimos três capítulos apresentam o andar do cristão.
A Bíblia é clara ao afirmar que devemos ser “praticantes da palavra,
e não somente ouvintes” (Tg 1.22).
É possível entrar em algumas igrejas evangélicas e descobrir pouca
diferença de estilo de vida entre seus membros e os não-cristãos.
Podem conhecer a Bíblia, mas suas vidas quase não refletem o fruto
do Espírito. Por outro lado, muitas igrejas evangélicas desenvolveram
critérios errados para medir a espiritualidade — um legalismo
lamentável que evidencia a mesma enfermidade espiritual dos fariseus.
A profundidade espiritual é basicamente medida pelas coisas exteriores
— certos “não faças” que se tornaram padrões em alguns círculos
cristãos. Se os cristãos não fazem determinadas coisas, são
automaticamente considerados espirituais. É possível evitar muitas
atividades e ser extremamente carnal e, assim mesmo, sentir-se
“tranqüilamente espiritual” . E, quando entram em questão as atitudes
cristãs básicas para com os irmãos na fé e as pessoas não-salvas,
especialmente a atitude de amor, existe uma evidente lacuna.
Com isso não se está advogando uma liberdade total — conceito
bem antibíblico. Mas os dois extremos — a licenciosidade e o
legalismo — são um reflexo do cristianismo institucionalizado. Uma
vez mais, devemos avaliar a maturidade espiritual com base nos
devidos critérios bíblicos. E Jesus estabeleceu o critério mais
importante. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se
tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35).

Quando os não-absolutos tornam-se absolutos


5. Temos permitido que os não-absolutos se tornem absolutos. Essa
maneira de pensar é, entre todas, a mais sutil em levar a igreja ao
institucionalismo. Aquilo que devia ser um meio para alcançar um fim,
torna-se um fim em si. Deixamo-nos aprisionar por padrões e
estruturas não mais aplicáveis nem satisfatórios para ajudar-nos a
ministrar às pessoas que vivem em nossa cultura contemporânea.
É de vital importância que cada cristão seja capaz de fazer
distinção entre aquelas áreas da Palavra de Deus absolutas, que nunca
mudam, e as relativas, que apenas ilustram a maneira como o povo de
Deus do passado tentou atingir objetivos bíblicos.
Um estudo cuidadoso das Escrituras deixa claro que os cristãos do
Novo Testamento consideravam absolutas determinadas doutrinas:
Deus existe; ele é Espírito; Jesus Cristo era Deus em carne e veio
para morrer pelos pecados do mundo; o homem necessita de um
Salvador; a salvação é pela graça mediante a fé; existe um mundo
espiritual diabólico que inclui Satanás e suas forças malignas; Jesus
Cristo morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu e virá de novo. Para que
uma igreja seja “cristã” no sentido bíblico da palavra, essas e muitas
outras verdades jamais devem ser modificadas.
Outra área de absolutos óbvios diz respeito às diretrizes e aos
objetivos. A igreja do Novo Testamento sistematicamente levou a
sério a grande comissão, tanto na tarefa de evangelização quanto na
de edificação. E havia certas qualificações para os líderes cristãos!
Não podia haver “barganha” nessas questões.
Todavia, muitos textos bíblicos também mostram que os cristãos
do Novo Testamento não consideravam absolutas certas formas,
padrões e estruturas. Pelo contrário, isso não passava de um meio para
cumprir diretrizes neotestamentárias e alcançar objetivos neotes-
tamentários. Quando aparecem no Novo Testamento, os padrões
variam de uma situação para outra quanto à área de comunicação, de
organização e de administração.
Contudo, é muito importante notar que esses exemplos bíblicos são
apresentados com um propósito: fornecer princípios absolutos para a
igreja. Um estudo cuidadoso da maneira como a igreja do século I
cumpriu a grande comissão revela certas diretrizes óbvias que
permitirão que a igreja do século XX funcione em harmonia com a
igreja do Novo Testamento — absoluta nas coisas essenciais, e livre
e criativa para elaborar métodos atuais de evangelização, liderança,
comunicação, organização e administração. Uma tarefa importante que
se coloca diante dos líderes cristãos de cada geração é garantir que
esses princípios e diretrizes sejam formulados com exatidão e
focalizados com precisão.

Resumo
As igrejas evangélicas do século XX têm um desafio singular de
romper as algemas da institucionalização que já começou a tolher e a
inibir muitos organismos. Uma das lições mais animadoras da história
é a de que não precisamos estar “presos” a um ciclo interminável de
institucionalismo. Pode ser quebrado; a renovação pode e deve ser
constante. Os verdadeiros cristãos têm, como nenhum outro grupo na
terra, os recursos para sempre ser aquilo que Deus deseja que
sejamos. Se as organizações seculares podem aplicar os princípios de
renovação e obter sucesso, quanto mais não teria a família de Deus,
especialmente quando possui princípios que emergem da Palavra
eterna de Deus? E renovação é exatamente isso.
O ângulo
da cultura
A terceira parte trata rapidamente de alguns dos problemas mais
cruciais da cultura contemporânea e de como afetam a igreja. Não tem
a intenção de ser um estudo exaustivo, mas é um ponto de partida.
Este é um desafio que se apresenta a cada geração do povo de
Deus. Fechar os olhos para as mudanças do mundo é desconsiderar a
realidade e a responsabilidade ensinadas pela Bíblia.
Se existe uma lição que o Novo Testamento ensina com clareza, é
a de que a igreja do século I não se afastou da sociedade. Em vez
disso, ela viveu, se expandiu e até floresceu numa cultura pagã. A
igreja do século xx deve fazer o mesmo!

O ângulo da cultura
As implicações
culturais para
a igreja do
século XX 1

As grandes personalidades cristãs que percorriam as páginas do Novo


Testamento não podiam desconsiderar e não desconsideraram as cul­
turas. Jesus levou em consideração as diferenças culturais, o que se vê
claramente na sua maneira de lidar com pessoas como a mulher junto
ao poço ou, em contraposição, com Nicodemos. Vemos uma demons­
tração disso nos apóstolos, quando enfrentaram e solucionaram o
problema entre os judeus helenistas e os hebreus nascidos em
Jerusalém. Vemos uma demonstração disso na igreja de Jerusalém,
quando ela se defrontou com a controvérsia da circuncisão. E vemos
uma demonstração disso, de forma bem peculiar, em Paulo, tanto em
sua metodologia quanto em seu linguajar, quando ele deixou a
comunidade judaica para entrar na cultura grega.

Não podemos desprezar a cultura


“A cultura é uma dura realidade” , reconheceu o Dr. George Peters,
professor de Missões Mundiais do Dallas Theological Seminary. “E
tão vasta quanto o homem e tão abrangente quanto os seus caminhos,
pensamentos, sentimentos e relacionamentos. Para sua existência, a
cultura é a atmosfera não-biológica que abrange todas as coisas, e
também as instituições que tornam sua vida mais tolerável e fazem
dele o ser que de fato é ” .2
A igreja do século xx não deve, portanto, desconsiderar a cultura.
Se o fizermos, estaremos negligenciando um fator significativo na
formulação de uma filosofia de ministério verdadeiramente bíblica e
de uma estratégia atual que seja relevante, prática e funcional.
Quais são, então, algumas implicações culturais para a igreja do
século xx?

Múltiplos fatores em ação


Em primeiro lugar, é fundamental que a igreja de Jesus Cristo
desenvolva uma perspectiva correta em relação aos múltiplos fatores
que influenciam nossa sociedade americana. Precisamos ser realistas
sem ser pessimistas. Também precisamos estar conscientes do
pensamento reducionista, que nos faz dizer que nossos problemas são
causados por “isso” ou “aquilo” ou ainda “outra coisa” . Temos
problemas em virtude de muitos fatores.
Alguns cristãos (juntamente com muitos americanos que são
cristãos só de nome) cometem o erro de crer que uma volta aos “bons
velhos tempos” solucionaria nossos problemas. É preciso encarar o
fato de que aqueles dias se foram para sempre. Já não existem. A
explosão demográfica, o desenvolvimento da tecnologia e uma
sociedade grande transformaram tudo. Não podemos voltar para uma
cultura simples, a não ser que aconteça um holocausto nuclear, que
simplificaria rapidamente as coisas, mas não ao nosso agrado.
Alguns crêem que, se pudéssemos voltar a ser uma “nação cristã” ,
estaríamos a caminho de uma nova estabilidade. Aí também temos de
encarar a realidade. Nunca fomos uma “nação cristã” no verdadeiro
sentido da palavra. Fomos somente uma nação edificada sobre certos
princípios cristãos; uma nação que logo foi povoada por uma maioria
que nada sabia acerca de um “relacionamento pessoal com Jesus
Cristo” . Portanto, jamais poderemos voltar para alguma coisa que
nunca existiu.
Alguns cristãos acreditam que, se destruirmos as forças do
comunismo, salvaremos os Estados Unidos. Ou que, se acabarmos
com a pornografia e erradicarmos o homossexualismo, reverteremos
a maré. Todos esses métodos — ainda que alguns sejam nobres e
louváveis — não se baseiam num pensamento realista a respeito dos
problemas globais. Pois o fato de os cristãos empregarem o melhor
dos seus esforços na tentativa de alcançar esses objetivos os afasta
dessas determinações bíblicas mais fundamentais. Precisamos entender
que, se não houver uma intervenção incomum e sobrenatural do
próprio Deus, a igreja não poderá salvar os Estados Unidos. A
institucionalização profundamente arraigada, o afastamento dos
princípios que levaram à fundação da nação e o pensamento pluralista
tanto nos enfraqueceram política, moral e espiritualmente, que estamos
à beira da decadência e da desintegração total.
Mas o realismo não deve conduzir o cristão a um pensamento
pessimista. Há muito que fazer para ministrar às necessidades da
humanidade e penetrar na cultura, da mesma forma que os cristãos do
Novo Testamento penetraram em sua cultura. E, ainda que pareça
impossível, humanamente falando, reverter a grande maré nos Estados
Unidos, podemos causar enorme impacto a favor de Jesus Cristo.
Uma análise pouco cuidadosa torna difícil, para aqueles que têm
tido o privilégio de viver na sociedade americana, compreender por
que Deus nos concedeu essa bênção. Muitos cristãos antes de nós e
muitos de nossos contemporâneos jamais experimentaram a liberdade
religiosa e as bênçãos materiais de que desfrutamos. Mas uma coisa
é certa: com o privilégio, vem a responsabilidade; a responsabilidade
de sermos totalmente cristãos em todos os nossos relacionamentos e
atividades. Devemos, conforme Jesus ordenou, amar o Senhor com
todo o nosso coração, e com toda a nossa alma, e com toda a nossa
mente, e ao nosso próximo como a nós mesmos (Mt 22.37-39). Isso,
é claro, implica responsabilidades verticais e horizontais. No nível
divino, devemos manter um relacionamento dinâmico com Deus,
mantendo-nos livres das corrupções do sistema deste mundo (1 Pe
2.11). No nível humano, devemos amar todas as pessoas, quer cristãs,
quer não-cristãs.
Desenvolver uma perspectiva correta da história
Em segundo lugar, a igreja deve desenvolver uma perspectiva correta
da história. A vida na terra não vai continuar indefinidamente. A
história caminha inevitavelmente para um grande final. Por fim, a
eternidade começará para os homens como um todo. O tempo, tal qual
o conhecemos, deixará de existir. A maioria dos cristãos, é claro,
“sabe” disso “teologicamente” , mas parece que vivemos como se isso
não fosse verdade.
Parece que muitas forças e fatores estão-se combinando e
aparecendo no ambiente mundial, apontando para o cumprimento das
declarações proféticas que dizem respeito ao fim desta era. O
estabelecimento da nação de Israel é, provavelmente, um dos sinais
mais significativos a indicar o breve retorno de Jesus Cristo.
Essa perspectiva correta da história dá esperança ao cristão, não
importa o que aconteça em nossa sociedade. Ela foi um fator
significativo na sustentação dos cristãos do Novo Testamento, dentre
os quais o apóstolo Paulo. Dentro da perspectiva deles, estavam
esperando que Cristo voltasse enquanto ainda vivessem, para libertá-
los do ambiente cultural em que viviam e, em muitos casos, da
perseguição existente no século I.
A igreja do século XX deve, portanto, desenvolver uma filosofia
correta da história, reconhecendo que, quando o tempo acabar, a nossa
peregrinação na história temporal-espacial deixará de existir.
Estaremos diante de Cristo, para prestar contas daquilo que tivermos
feito com o tempo que ele nos concedeu para cumprir seus propósitos
na terra. Sem dúvida, nós, cristãos americanos, seremos avaliados
com base nas oportunidades que tivemos de viver numa cultura que
nos proporcionou na vida mais bênçãos e recursos do que a qualquer
outro povo antes de nós. Precisamos lembrar-nos das palavras do
próprio Senhor Jesus Cristo, que disse, enquanto esteve na terra:
“Aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e aquele a
quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.48).
Esse conceito nos conduz naturalmente à implicação cultural
seguinte.
Em terceiro lugar, a igreja deve compreender claramente por que
Deus nos deixou na terra e, com sua ajuda, lutar para alcançar esse
propósito. Os problemas culturais podem obscurecer nosso propósito
e desviar-nos para problemas periféricos.
A Bíblia é bem clara a esse respeito. Não estamos aqui basica­
mente para ganhar a vida ou para as conseguir uma segurança material
para nós mesmos e para as nossas famílias, embora ambos sejam
objetivos legítimos. Além do mais, não estamos na terra para salvar
os Estados Unidos da destruição ou para perpetuar o sistema
democrático; também objetivos nobres. Nossa tarefa básica é cumprir
a grande comissão de nosso Senhor Jesus Cristo: “fazer discípulos”
e “ensinar-lhes” . Nossa obrigação é estar ocupados nessa tarefa, até
Jesus Cristo voltar.
Essa tarefa básica não significa que não devamos ter preocupações
terrenas: cuidar do sustento de nossas famílias, pensando tanto no
presente como no futuro. Não significa que não devamos ser bons
cidadãos e fazer o que está a nosso alcance para preservar nosso país
da decadência moral e espiritual. Os cristãos devem ser os melhores
cidadãos. Mas devem-se manter todas essas preocupações na devida
perspectiva, e elas devem estar subordinadas à razão principal pela
qual estamos na terra. Quanto antes percebermos — não só na mente,
mas no coração — que não passamos de “peregrinos e forasteiros”
nesta terra (1 Pe 2.11; Hb 11.13), melhor cumpriremos o propósito
por que Deus nos deixou na terra.

Demonstrar interesse pelos líderes


Em quarto lugar, embora “os Estados Unidos não sejam o nosso
verdadeiro lar", a igreja deve reconhecer que Deus lhe deu a
incumbência de manifestar um interesse real pelos líderes
governamentais na vida da nação. Uma de nossas responsabilidades
básicas especificadas nas Escrituras é orar pelos nossos líderes
nacionais e mundiais. Paulo deixou isso bem claro a Timóteo quando
o instruiu acerca da função da igreja neotestamentária em relação à
estrutura política vigente na época. “Antes de tudo, pois” disse Paulo,
“exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações
de graça, em favor de todos os homens, em favor de reis e de todos
os que se acham investidos de autoridade” . Mas repare que devemos
orar para ter uma “vida tranqüila e mansa, com toda piedade e
respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus nosso Salvador, o qual
deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno
conhecimento da verdade” (1 Tm 2.1-4).3
À medida que passa a cumprir a grande comissão, a igreja não
deve negligenciar a oração a favor dos líderes nacionais e mundiais,
para que sejam capazes de liderar de forma que se mantenha um
ambiente cultural que permita viver para Jesus Cristo e também
compartilhá-lo com todos os homens.
Também está claro nas Escrituras que as “autoridades superiores”
e a posição que ocupam estão relacionadas com a vontade soberana de
Deus (Rm 13.1). Precisamos reconhecer esse fato e cumprir nossa
responsabilidade para com elas, ainda que possam estar erradas. Isso
não significa que haveremos de suportar, resignados, o pecado e a
transgressão das leis de Deus sem erguer a voz em sinal de
desaprovação. Com toda certeza, “antes importa obedecer a Deus do
que aos homens” (At 5.29), especialmente quando estão em posições
antagônicas. Mas também significa respeitar nossos líderes e orar por
eles, reconhecendo que a nomeação e as responsabilidades deles
vieram de Deus.
Uma perspectiva correta da cultura americana deveria colocar todos
os cristãos de joelhos a favor do presidente da república e de seus
colaboradores. Aparentemente a tarefa primordial deles é intrans­
ponível e muitos de seus problemas são quase insolúveis. À
semelhança do povo americano, eles parecem algemados pela mesma
enorme máquina institucionalizada que continua roncando, impedindo-
os de produzir as mudanças necessárias que poderiam suavizar, pelo
menos até certo ponto, a situação americana. E, obviamente, eles não
estão imunes à degeneração moral e ética que está ocorrendo em nossa
cultura. Provavelmente, nunca houve em nossa história uma época
com tanta corrupção e pecado nos altos escalões. O aborto está no
topo da lista. Em minha opinião, legalizamos o assassinato e, a menos
que nos arrependamos desse pecado e nos afastemos dele, essas
atrocidades contra os não-nascidos trarão, por fim, o juízo de Deus
sobre nós.
Mas, como cristãos, além de orar por nossos líderes, também
devemos agir como bons cidadãos. Precisamos ter consciência das
questões e dos problemas culturais, tanto nas eleições municipais
quanto nas nacionais, e usar todos os canais possíveis para estabelecer
mudanças que corrigirão o que está errado em nossa sociedade.
Qualquer que seja nossa posição e vocação na vida do país, seja
numa função governamental, seja num emprego comum, precisamos
lembrar-nos de nossa tarefa básica. Somos testemunhas de Deus neste
mundo e fazemos parte do corpo de Cristo em ação, com a respon­
sabilidade de contribuir para a saúde e o bem-estar desse corpo. Assim
fazendo, a igreja pode tornar-se uma força dinâmica contra muitos dos
fatores externos que estão afastando os Estados Unidos da verdade e
da justiça.

Ajudar os cristãos a relacionar-se entre si


Em quinto lugar, a igreja deve proporcionar um ambiente em que os
cristãos possam-se relacionar uns com os outros num contexto não
institucionalizado. Infelizmente, muitas igrejas locais tornaram-se tão
institucionalizadas quanto as estruturas americanas. As pessoas
cansadas de uma sociedade impessoal freqüentemente encontram uma
atmosfera impessoal também na igreja. As pessoas cansadas de ser
“engrenagens” numa máquina secular descobrem que se tornaram
“engrenagens” numa máquina religiosa.
A “igreja congregada” deve perceber que pode tornar-se um
refúgio para pessoas solitárias e frustradas. Ao proporcionar um
ambiente que é uma comunidade dinâmica e amorosa, ela pode
contrapor-se ao ambiente artificial em que as pessoas vivem. Francis
Schaeffer comenta vividamente esse ponto:

Nossas organizações cristãs devem ser comunidades nas quais outros


vejam o que Deus tem revelado no ensinamento de sua Palavra. Dever-se-
ia considerar que é relevante aquilo que aconteceu na morte e na
reconciliação de Cristo na cruz, bem longe no tempo, no espaço e na
história; que é possível ter algo bonito e diferente neste mundo, em nossa
comunicação, em nossas comunidades, em nossa própria geração [...].
A comunidade cristã e seu desempenho devem transpor todas as
barreiras. Nossas igrejas têm sido principalmente locais de pregação e
agentes promotores de atividades. A comunidade tem desempenhado um
papel pequeno. Na igreja do Novo Testamento, essa comunidade
experiente não era somente um estandarte, mas penetrou profundamente
até as necessidades materiais dos seus membros [...].
Quero ver-nos tratando uns aos outros como seres humanos [...]. Toda
comunidade cristã, em todo lugar, deve ser uma fábrica experimental para
mostrar que podemos ter afinidades horizontais com o homem e que isso
pode resultar em uma comunidade que se interessa não somente pelo
homem com agá maiúsculo, mas pelo indivíduo; não somente pelos
“direitos humanos” com maiúscula, mas pelo homem todo, em todas as
suas necessidades.
A menos que o povo veja em nossas igrejas não somente a pregação
da verdade, mas a prática da verdade, do amor, do que é belo; a menos
que veja que aquilo que os humanistas certamente querem, mas não
podem alcançar humanisticamente — a comunicação e a afinidade humana
— pode ser praticado em nossas comunidades, deixe-me dizer claramente:
eles não ouvirão e não devem ouvir.4

Proporcionar estabilidade e segurança


Em sexto lugar, a igreja deve proporcionar estabilidade e segurança
para as pessoas — algo que, cada dia mais, a cultura está deixando
de fazer. Numa época de mudanças sem precedentes, os cristãos
podem dar às pessoas algo verdadeiro e confiável, em que possam
crer.
Os Estados Unidos — como nação — abandonaram seus absolutos.
É como um navio no mar, surpreendido numa tempestade, sem âncora
nem bússola, com rochedos perigosos nas proximidades.
Não é o que acontece com as igrejas fiéis à Bíblia. Algumas podem
ter perdido o foco. Algumas podem ter-se tornado institucionalizadas.
Outras talvez não estejam cumprindo o objetivo básico de sua
existência. Mas não perdemos nossa âncora nem nossa bússola. Temos
um fundamento ao qual podemos retornar. Temos um conjunto de
textos que podem dar-nos diretrizes e uma filosofia de vida que nos
permite olhar com realismo e certeza para o futuro. É claro que não
se pode dizer isso da igreja liberal, a igreja que, tal qual os Estados
Unidos, abandonou seus absolutos. Seja a igreja que voltou a usar as
“palavras da Bíblia” , seja a igreja do velho liberalismo, que
abandonou até mesmo a terminologia bíblica, ambas deixaram seu
fundamento de autoridade e não possuem algo sólido para oferecer.
Assim, a igreja evangélica deve reconhecer com uma visão
renovada que possuímos as únicas respostas confiáveis para as
necessidades mais profundas de nossa sociedade. Precisamos perceber
que o pluralismo e as muitas vozes incertas da sociedade atual dão-nos
oportunidades de evangelização sem precedentes e sem paralelo. Em
todos os lugares, os homens estão confusos, mas têm a capacidade de
fazer distinção entre a verdade e o erro. O Espírito Santo ainda está
agindo no mundo, iluminando o coração dos homens e honrando a
Palavra de Deus.
Os pais — muitos dos quais retêm os absolutos “só na lembrança”
— estão experimentando uma tremenda insegurança em relação aos
filhos. Vêem sua própria carne e sangue afundando no lamaçal do
relativismo. Embora não o compreendam totalmente, enxergam os
efeitos de filmes, livros, amigos e professores. E muitos estão
interiormente (e alguns até exteriormente) implorando por estabilidade
— algo em que possam realmente crer. Quando tentam dar respostas
aos jovens, seus próprios filhos levantam o dedo e gritam “hipócrita” ,
pois vêem claramente que as respostas que seus pais estão dando não
se baseiam naquilo que eles crêem e vivem.
As pessoas precisam daquilo que a igreja pode fornecer:
estabilidade e segurança, algo para crer e fazer parte de seu estilo de
vida como um todo e que se harmonize com a realidade. Nunca houve
nos Estados Unidos um “momento tão favorável ao ensino” . Nossos
problemas nacionais podem ser uma bênção disfarçada — algo que
pode trazer muitas pessoas para o reino de Deus.

Um sistema de valores cristão


Em sétimo lugar, a igreja deve ajudar os cristãos a “viver no mundo ”
sem “fazer parte do mundo Consciente ou inconscientemente, os
cristãos não devem adotar os aspectos do sistema de valores americano
que são contrários ao sistema cristão.
Deus ainda não falou para a igreja “sair do mundo” (1 Co 5.9-11).
Ele nunca desejou que os cristãos se retirassem da sociedade e
vivessem numa comunidade cristã. Pois de que outra maneira
poderíamos cumprir a ordem dada por Cristo de alcançar todas as
nações com as boas novas, que não seja estarmos “no mundo”? Esse
é um dos motivos por que estamos aqui na terra. Como é lamentável
quando os cristãos confundem “separação” com “isolamento” . Não
devemos tornar-nos parte do mundo — vivendo como o mundo — mas
também não nos devemos isolar do mundo. Outros precisam (aliás,
devem) ver em nós o que significa ser discípulos de Jesus Cristo.
Os líderes da igreja também devem ajudar os cristãos que vivem
em meio a nossa cultura americana a compreender os sistemas de
valores que estão em conflito. No passado, quando a maioria dos
americanos mantinha um sistema de valores cultural compatível com
os valores bíblicos, quase não havia conflito. Os homens eram
honestos nos negócios. Na escola, poucos alunos fraudavam as provas.
Os costumes morais e sexuais eram basicamente cristãos. Em termos
genéricos, cristãos e não-cristãos podiam confiar uns nos outros e
relacionar-se de modo harmonioso, pelo menos no nível social.
Mas hoje não é assim. E o problema não é apenas o de ser incapaz
de confiar no outro. Em alguns casos é um problema de conseguir
sobreviver financeira, acadêmica ou socialmente. Hoje em dia existem
alguns negociantes cristãos que enfrentam a competição de indivíduos
espertos e desonestos que somem com todos os lucros, contando
mentiras descaradas. Em faculdades e universidades, alguns estudantes
conseguem notas altas fraudando provas e plagiando trabalhos,
deixando a pessoa honesta em grande desvantagem. E alguns jovens
são desprezados ou isolados socialmente por não participarem de
práticas e atividades contrárias à Bíblia.
Esses sistemas conflitantes de valores estão fazendo separação entre
cristãos compromissados e não-compromissados. No passado, quando
os sistemas de valores eram quase idênticos, a coexistência não era
muito difícil para os cristãos. Mas hoje a história é outra. Em alguns
casos, existe um “grande abismo” entre alguém que é “cristão” e
alguém que é apenas um “americano”. De novo, temos uma bênção
disfarçada. Costumava ser difícil explicar para as pessoas por que “ter
nascido nos Estados Unidos” não era o mesmo que “ser cristão” . Hoje
em dia, no entanto, isso não é mais um problema. A maioria das
pessoas enxerga a diferença muito bem. E também nos oferece
oportunidades ilimitadas de evangelização.

A revolução na comunicação
Em oitavo lugar, a igreja deve reconhecer e compreender os efeitos
culturais da revolução na comunicação, adaptando-se a eles.
John Culkin, um estudioso de McLuhan, assinala que “cada cultura
desenvolve o equilíbrio dos próprios sentidos em reação às demandas
de seu ambiente. A formulação mais genérica da teoria afirma que os
modos de uma pessoa aprender e perceber as coisas são influenciados
pela cultura em que ela vive, pela língua que fala e pelos meios de
comunicação com que está em contato. Cada cultura, por assim dizer,
fornece a seus componentes um par de viseiras feitas sob medida”.5
A questão importante que desafia a igreja de hoje é como a atual
explosão na comunicação está modificando a cognição e a percepção
tanto dos cristãos quanto dos não-cristãos nos Estados Unidos. Já é
possível concluir que a geração da “Vila Sésamo” é uma nova raça.
Ela está acostumada a técnicas de aprendizado estimulantes e
instigantes. Em cores vivas, as personagens da “Vila Sésamo” fizeram
contato com seus espectadores e quase os tocaram. Conforme
observou Culkin, “no processo de apresentação do conteúdo, o meio
de comunicação também atua no Jado sensorial do consumidor [...].
Apossa-se dele, o empurra, o agita, o massageia. Abre e fecha as
janelas de seus órgãos sensoriais” .6
Para provar sua afirmação, Culkin pede que “vamos até a janela
e olhemos para a geração da televisão. Ela está redescobrindo a
textura, o movimento, as cores e os sons, à medida que retribalizam
a raça” . Especialmente a televisão, diz, “é um verdadeiro arrebatador;
ela realmente massageia aqueles sentidos preguiçosos, em desuso” .7
A questão importante é, de novo, que a igreja não deve (e não
pode) desprezar as implicações culturais que emergem da nossa atual
revolução na comunicação. Como Paulo no passado, que enfrentou o
desafio de uma nova mentalidade quando em contato com a cultura
grega, nós também devemos adaptar nossas técnicas de comunicação
para alcançar as pessoas onde elas estão. Não podemos descartar o
aparato perceptivo delas, passando a comunicar usando métodos que
nos atraíram no passado, mas que já não atraem a nova geração. Quer
estejamos ministrando a crianças, a jovens ou a adultos, precisamos
adaptar e mudar para comunicar com eficácia. Nossa mensagem, é
claro, permanece intacta; nossos métodos devem ser atuais.
Isso, é claro, levanta outro problema! Na igreja temos tanto a
antiga geração quanto a nova. De um lado, a geração mais antiga (não
necessariamente na idade) sente-se ameaçada, insegura e pouco à
vontade com as novas formas de comunicação; e, de outro, a nova
geração é “repelida” pela “velha” .
Esse é um motivo a mais para os membros do corpo de Cristo
entenderem a cultura e o modo como ela nos afeta a todos.
Compreender pelo menos ajuda a criar tolerância, aceitação e amor
uns pelos outros. Ajuda a própria igreja a viver em harmonia e em
unidade — um ingrediente tão fundamental ao crescimento cristão
quanto o testemunho.
O próprio corpo de Cristo em ação é uma resposta significativa à
revolução na comunicação. Ele sempre foi uma “forma” de comunicar
uma mensagem profunda. Em sentido real, a máxima de McLuhan, “o
meio é a mensagem” , aplica-se ao que Deus quis que o corpo de
Cristo fosse. É um corpo de pessoas que, ao agir, criam uma
atmosfera e um ambiente que comunica a mensagem cristã. Para os
outros cristãos, a mensagem é de amor e de realidade. Para os não-
salvos, o corpo unido diz que aqui há seguidores de Jesus Cristo, o
Deus-Homem.
A igreja pode, então, tornar-se o meio que pode oferecer aquilo
que a cultura americana não consegue: um ambiente que irradia
aceitação, segurança e estabilidade — e em nível pessoal. Esse é o
desafio que se apresenta às igrejas do século XX.

Os efeitos da cultura no estilo de vida


Em nono lugar, a igreja deve compreender os efeitos da cultura no
estilo de vida, especialmente de nossa juventude, e aprender a
distinguir entre o que é uma violação dos princípios bíblicos e o que
é uma violação das normas culturais que viemos a aceitar como
absolutas.
Uma das conseqüências mais trágicas da transformação cultural é
que alguns cristãos não conseguem tolerar emocionalmente uma
mudança de estilo de vida porque vieram a equiparar certos aspectos
externos com os absolutos bíblicos. Por exemplo, o comprimento do
cabelo dos homens e o uso da barba têm provocado agitação fora do
comum entre alguns cristãos. Alguns identificam essas duas coisas
como um reflexo de comportamento não-espiritual ou pecaminoso —
esquecendo que alguns de nossos grandes líderes cristãos do início do
século tinham uma aparência bem semelhante.
É fácil ver como surgiu essa falsa conclusão. Aqueles que
apresentaram primeiro esse “novo” estilo de vida eram jovens
radicais, que também foram bem longe na apresentação de caracte­
rísticas de estilo de vida decididamente não-cristãs. Mas muitos
cristãos, como com tanta freqüência acontece conosco, não conse­
guiram fazer distinção entre as características que violavam os valores
cristãos e aqueles que não violavam. Caímos na armadilha sutil de
desenvolver idéias caricatas e fazer generalizações com base em
conclusões falsas.
Ainda mais trágico é o cristão que deixa que seu preconceito contra
os cristãos também se estenda aos não-cristãos. Quando os cristãos
não toleram nas dependências da igreja jovens não-cristãos cujo estilo
de vida não se enquadra em certas normas aceitas pela classe média,
somos culpados daquilo que Tiago chama especialmente p e c a d o (Tg
2.9). Embora, em sua epístola, estivesse falando acerca de preconceito
em relação aos pobres, o princípio é bem claro. O simples fato de
uma pessoa “parecer” diferente, não significa que seja imoral,
efeminada ou, como alguns quase insinuam, subumana. Mas mesmo
que essa pessoa fosse tudo isso, ainda assim é uma pessoa por quem
Cristo morreu. É um ser humano e precisa de amor e compreensão.
Pode-se observar entre os cristãos, é claro, o mesmo problema em
relação aos negros e outros grupos minoritários. Muitas vezes
procuramos fazer racionalizações com base na Bíblia, para defender
nosso pensamento preconceituoso e, à semelhança da maioria das
seitas pseudocristãs, podemos fazer a Bíblia comprovar qualquer
coisa. Basta tirá-la do contexto para sustentar nossos preconceitos
subjetivos.
Que Deus nos livre da culpa de não conseguirmos distinguir entre
normas bíblicas e normas culturais. Nas palavras de Francis Schaeffer
numa palestra no Dallas Theological Seminary, nós, os evangélicos,
temos a tendência de “perder o rumo” . Desenvolvemos uma “feiúra”
que deve ser tremendamente repulsiva para nosso Salvador, que
morreu por todos os homens porque os amava. A “feiúra” cristã é o
tipo mais triste de “feiúra” , porquanto ela é vista naqueles que menos
deveriam mostrá-la.
E realmente lamentável quando nós, que devíamos ser o “sal da
terra” e a “luz do mundo”, estamos tão doutrinados por um sistema
de valores não-cristãos, que já não conseguimos sentir compaixão por
aqueles que estão na mais profunda necessidade espiritual. Que Deus
nos ajude a todos a livrar-nos de nossa carnalidade e preconceito, e
tornar-nos pessoas espirituais — pessoas que amam todos os homens,
não apenas aqueles que conseguimos tolerar intelectual e emocio­
nalmente.
O fortalecimento do lar
Em décimo lugar, a igreja deve fazer tudo o que puder para fortalecer
o lar e se opor aos devastadores ataques culturais contra o funda­
mento de todas as instituições. A vida familiar é a que mais tem
sofrido com a crise americana. O número de divórcios está
aumentando, enquanto, muitas vezes, os filhos dessas uniões rompidas
são vítimas do egoísmo e da insensibilidade cada vez maior dos
adultos, deixando as crianças em estado de desilusão e de insegurança.
O colapso e o abandono da maneira tradicional de encarar a vida
familiar encontra correspondência numa variedade de experiências
matrimoniais, tais como casamentos coletivos, casamentos experi­
mentais e “viver juntos” sem nenhum compromisso legal ou moral.
O lar cristão também está sendo afetado. O número de divórcios
está aumentando num ritmo alarmante entre as famílias cristãs. Mas,
nas famílias cristãs que permanecem unidas, os lares ainda estão-se
dividindo de inúmeras maneiras. As imposições profissionais têm, com
freqüência, deixado a família “sem pai” , e as pressões financeiras ou
sociais têm “obrigado” as mães a trabalhar fora.
A igreja também tem culpa. Imitando inconscientemente uma
sociedade institucionalizada, temos desenvolvido formas e estruturas
que praticamente mantêm divididas as famílias.
A maior contribuição que a igreja pode fazer para a nossa
sociedade decadente é ajudar a edificar o lar. Famílias fortes edificam
igrejas fortes e, mais que qualquer outro fator, lares fortes e igrejas
fortes podem, juntos, estabilizar e revitalizar nossa cultura.

Resumo
A compreensão da cultura americana traz consigo muitas implicações
para a igreja. Como ponto de partida, considere o seguinte:

1. Desenvolva uma perspectiva correta em relação aos múltiplos


fatores que influenciam nossa sociedade americana.
2. Desenvolva uma perspectiva correta da história.
3. Compreenda claramente por que Jesus Cristo deixou a igreja na
terra e, com sua ajuda, lute para alcançar esse propósito.
4. Manifeste um interesse real pelos líderes do governo e pela
situação da nação.
5. Ofereça na igreja um ambiente em que os cristãos possam
relacionar-se uns com os outros num contexto não institucio­
nalizado.
6. Proporcione estabilidade e segurança para as pessoas.
7. Ajude os cristãos a “viver no mundo”, sem “fazer parte do
mundo” .
8. Reconheça e compreenda os efeitos culturais da revolução na
comunicação, adaptando-se a eles.
9. Compreenda os efeitos da cultura no estilo de vida,^especialmente
de nossa juventude, e aprenda a distinguir e n tx g \ que é uma
violação de princípios bíblicos e o que é0$na Violação das
normas culturais que viemos a aceitar cqmo &solutas.
Faça tudo o que puder para foxM<f ;r õ lar e se o aos
devastadores ataques culturais tontrá- ndamento^d^tc c as
instituições. É

ito este capítulo igrejas americanas, na cultura americana,


creditamos que os pri a ele subjacentes também se aplicam às igrejas
da cultura brasileifa:'jl^ecomendamos ao leitor que não deixe de ler o
capítulo, e &â|safianios a fazer a devida adaptação desses dez princípios do
ministfertó^ãètão à sociedade brasileira. (N. do E.)
2 rjsasrg» W. Peters, Saturation evangelism, p. 193.
onhecemos que existe algum problema em estabelecer uma relação entre
os versículos 2 e 3. No entanto, o contexto todo parece apontar para o fato
de que a salvação de todos os homens está diretamente relacionada tanto à
oração quanto a um ambiente que seja propício a uma vida e a um
testemunho cristão dinâmico.
4 Francis Schaeffer, A igreja no ano 2001, p. 54-6.
5 John CULKIN, A guide to McLuhan, Religious Teacher’s Journal, Oct.
1969, p. 26.
6 Ibid.
7 Ibid.
o
desenvolvimento
de uma estratégia
contemporânea
Até agora, em nosso estudo, olhamos por três ângulos com o
objetivo de desenvolver um foco perfeito para a igreja do século XX:
o ângulo das Escrituras, o ângulo da história e o ângulo da cultura.
O ângulo das Escrituras proporcionou princípios neotestamentários
dinâmicos; o ângulo da história refletiu algumas lições significativas
e o ângulo da cultura trouxe à tona implicações importantes.
Agora nossa tarefa é desenvolver, em determinada situação
cultural, formas e estruturas que nos permitam estar em harmonia com
as diretrizes do Novo Testamento e ao mesmo tempo ser relevantes e
atuais em nossa maneira de cumprir a grande comissão de nosso
Senhor Jesus Cristo.

Formas e estruturas
desenvolvimento
gradual de uma
perspectiva
correta

Como podemos renovar nossa igreja? Como podemos dar início a uma
nova igreja que se caracterize pela vida e pela vitalidade do Novo
Testamento?
Muitos cristãos interessados estão fazendo essas perguntas:
pastores, seminaristas e leigos que representam todos os segmentos da
vida eclesiástica.
Os dois capítulos desta última parte do livro têm o propósito de
ajudar a responder a essas perguntas. Apresentam um plano gradual
de renovação — uma estratégia para desenvolver uma perspectiva
correta, e um método prático para introduzir mudanças.
A esta altura é importante lembrar que a renovação da igreja dentro
do movimento evangélico significa lidar com o “corpo de Cristo” .
Cada membro é parte de “nós” — e parte dele. Ferir o corpo é ferir
a nós mesmos e a Jesus Cristo, o cabeça. Além disso, abordar a igreja
com força bruta e insensibilidade é violar os próprios princípios em
que cremos.
É claro que haverá os carnais, insensíveis e inflexíveis. É
impossível avançarmos por Jesus Cristo sem ferir alguém. Mas isso
pode ser uma “ferida” necessária, uma ferida que no final ajudará a
transformar aquela pessoa na imagem de Jesus Cristo.
Mas a preocupação importante que temos é como tratar a
necessidade de renovação de maneira bíblica, que siga o exemplo de
Cristo, e ajudar a maioria a ver o que se deve fazer e, então, como
um corpo, avançar em unidade e harmonia.

O ângulo das Escrituras


Para iniciar um novo trabalho ou renovar uma igreja já existente, é
importante começar com a perspectiva da Palavra de Deus. Os cristãos
fiéis à Bíblia, especialmente por crerem que a Bíblia é a Palavra de
Deus, são receptivos às Escrituras. É para esse livro que precisamos
voltar-nos como nossa autoridade básica. Em muitas igrejas, o
problema é que os cristãos (tanto os pastores como os membros) não
conhecem o que a Bíblia realmente ensina sobre a vida da igreja no
Novo Testamento. Os princípios que emergem de tal estudo não estão
bem nítidos em suas mentes.
Portanto, você deve começar por onde nós começamos este estudo:
pelo ângulo das Escrituras. Você deve iniciar com a grande comissão
e ajudar as pessoas a ver por que a igreja existe, como igreja “no
mundo” e como “comunidade” . Os cristãos devem ver claramente as
cinco áreas importantes do Novo Testamento que dizem respeito à
igreja: evangelização, edificação, liderança da igreja, comunicação, e
organização e administração. A medida que estudam as funções da
igreja e os resultados dessas atividades, no livro de Atos, e à medida
que consideram atentamente as diretrizes e os objetivos dados às
igrejas nas epístolas, os princípios neotestamentários que descobrimos
também surgirão na mente deles.
Deve-se observar, a esta altura, que classificamos esses conceitos
como princípios. No entanto, conforme se mostrará mais tarde, eles
devem ser traduzidos em propósitos neotestamentários, ou seja, em
objetivos bíblicos que devem ser entendidos claramente e estabelecidos
como alvos para a igreja do século XX.
Esses princípios e propósitos do Novo Testamento podem ser assim
resumidos:
Princípios e propósitos de evangelização
1. Cada corpo de cristãos deve ser primeiramente responsável por
sua própria comunidade.
2. A evangelização coletiva é fundamental à evangelização pessoal.
3. Se possível, a apresentação do evangelho aos não-salvos deve
ocorrer no contexto de um corpo amoroso e unido de cristãos.
4. O alvo principal da evangelização deve ser os adultos e,
conseqüentemente, famílias inteiras.
5. A igreja tem a responsabilidade de identificar os que têm desejo
de levar as boas novas à comunidade e para além da própria
comunidade, até “aos confins da terra”.
6. Logo que possível, os novos convertidos devem ser integrados à
vida da igreja.
7. A igreja do século xx deve desenvolver suas próprias formas e
métodos evangelísticos atualizados, utilizando como diretrizes
bíblicas os princípios e as diretrizes aqui apresentados.

Princípios e propósitos de educação


1. É preciso concentrar a atenção na igreja local como o meio
básico pelo qual a edificação deve ocorrer.
2. Os fiéis devem receber um conhecimento básico da Palavra de
Deus.
3. Os fiéis devem receber um conhecimento aprofundado da Palavra
de Deus.
4. Os fiéis devem receber a oportunidade de desenvolver capa­
cidades que ultrapassam o conhecimento.
5. Os fiéis devem receber uma soma de experiências que os ajude
a ir além do nível de conhecimento — experiências vitais de
aprendizado da Palavra de Deus, experiências vitais de
relacionamento uns com os outros e com Deus e experiências
vitais de testemunho, tanto individual como coletivo.
6. Todos os fiéis devem ser equipados para o serviço cristão.
7. Os fiéis devem receber ajuda para desenvolver uma vida familiar
de qualidade.
8. A igreja do século XX deve desenvolver as próprias formas e
estruturas atualizadas para aplicar os princípios e os propnsitos
bíblicos aqui esboçados.
A A
grande grande
comissão comissão

Príncípíos Atividades Princípios Edificação I Atividades


0 Evangelização e e
neotestamentária e neotestamentária
propósitos resultados propósitos resultados

Diretrizes Diretrizes
e e
objetivos objetivos

Figura 26: Os princípios e os Figura 27: Os princípios e os


propósitos de evangelização no propósitos de edificação no No­
Novo Testamento vo Testamento

Princípios e propósitos de liderança


1. Ao discernir e pôr em prática o plano de Deus para a liderança
na igreja de hoje, devemos fazer uma distinção cuidadosa entre
as duas fases da liderança no Novo Testamento, mas ao mesmo
tempo compreender a possibilidade tanto de um ministério
“apostólico” quanto de um ministério junto à igreja local no
desempenho da grande comissão no mundo do século XX.
2. O primeiro passo para ajudar as igrejas locais no crescimento
espiritual é nomear pessoas espiritualmente qualificadas para
liderar essas igrejas. Tais líderes devem ser, antes de tudo,
escolhidos com base em suas qualificações espirituais — não em
dons, talentos e habilidades.
3. Os líderes espirituais devem atuar como dirigentes e pastores, não
apenas como administradores e tomadores de decisões.
4. Os líderes espirituais devem manter suas prioridades e delegar
responsabilidades de natureza cultural a outros homens e
mulheres qualificados.
5. As igrejas devem nomear certos líderes espirituais para trabalhar
em tempo integral e remunerá-los satisfatoriamente por seus
esforços.
A A
grande grande
comissão com issão

\ / N
Princípios Liderança
Atividades Princípios Administração Atividades
e e e e organização e
neotesfamentária neotestamentária
propósitos resultados propósitos resultados

/ \
^ Diretrizes \ Diretrizes ^
e e
objetivos objetivos

Figura 28: Os princípios e os Figura 29: Os princípios e os


propósitos de liderança no Novo propósitos de administração e de
Testamento organização no Novo Testamen­
to

6. Quando exeqüível, as igrejas devem ser dirigidas por mais de um


líder espiritual, mas é importante designar um deles como o líder
principal.
7. As igrejas devem ter a liberdade de desenvolver formas e es­
truturas criativas para pôr em prática as funções e os princípios
aqui esboçados.

Princípios e propósitos de
administração e de organização

Administração
1. Encare a realidade dos problemas.
2. Desenvolva uma perspectiva correta dos problemas, antes de
buscar soluções concretas.
3. Estabeleça prioridades.
4. Delegue responsabilidades a pessoas qualificadas.
5. Mantenha o devido equilíbrio entre os fatores divinos e os huma­
nos.
6. Procure uma maneira de solucionar os problemas e tomar as
decisões levando em conta as atitudes e os sentimentos dos que
estão diretamente envolvidos.
7. Solucione cada problema criativamente, sob a liderança do Espí­
rito Santo.

Organização
1. Estruture-se para aplicar os princípios do Novo Testamento e
para alcançar os propósitos do Novo Testamento.
2. Estruture-se para satisfazer as necessidades.
3. Mantenha a organização simples.
4. Mantenha a organização flexível.

Princípios e propósitos de comunicação


1. A comunicação cristã é um processo bem característico, com
elementos divinos e humanos.
2. A comunicação cristã deve estar voltada para todos os tipos e
classes de pessoas.
3. A comunicação cristã deve ser cuidadosamente equilibrada entre
o ministério a grupos e o ministério a indivíduos.

Figura 30: Os princípios e os propósitos


de comunicação no Novo Testamento
4. A comunicação cristã eficaz deve incluir um ministério em pro­
fundidade a um grupo seleto de pessoas e um ministério junto ao
grupo maior de cristãos.
5. Para ser qualitativa, a comunicação tem de ir além do nível da
verbalização.
6. Na comunicação cristã, o exemplo é fundamental para uma
verbalização eficaz.
7. A comunicação cristã eficaz não acontece por acaso — requer
sacrifício pessoal e trabalho árduo.
8. Os cristãos nunca devem ficar presos a certos padrões e formas
de comunicação, mas estar sempre livres e flexíveis.

O ângulo da história
Os cristãos de hoje precisam “enxergar pelo” ângulo da história. É
óbvio que neste estudo foi impossível examinar cada lição da história
que a igreja do século XX pode aprender. Tentamos desbravar o
terreno, escolhendo uma área importante relacionada especialmente
com as formas e as estruturas da igreja — a área do institucionalismo.
Existem na história muitas outras áreas que também desafiam a nossa
reflexão. Mas, com o estudo do institucionalismo na história, podemos
identificar pelo menos cinco lições importantes:

Perspectiva
histórica Perspectiva
h k t n r ir -n

/
Princípios Perspectiva Atividades Princípios Perspectiva Atividades
e bíblica e e bít
bíblica e
propósitos resultados propósitos resultados

objetivos objetivos

Figura 31: Lições da história Figura 32: Implicações culturais


1. Nossa maior virtude — o destaque ao ensino e ao aprendizado do
conteúdo da Bíblia — também ajudou a criar alguns de nossos
maiores problemas. Em nossa tentativa de ensinar a Bíblia,
negligenciamos duas outras experiências vitais: experiências de
relacionamento com Deus e com os outros e a experiência vital
de testemunho coletivo.
2. Transformamos a igreja num posto de “salvação de almas” , em
vez de um posto de “edificação de vidas”, enfraquecendo tanto
o corpo de Cristo em ação quanto nosso testemunho no mundo.
3. Sustentamos a instituição, em vez de sua razão de ser. Em outras
palavras, estamos mais preocupados com a existência do que com
a razão da existência.
4. Temos enfatizado a doutrina correta e negligenciado a qualidade
de vida das pessoas. Além disso, com freqüência, os critérios de
avaliação da espiritualidade têm-se baseado em aspectos externos,
não em qualidades espirituais interiores.
5. Temos caído na armadilha sutil de permitir que os não-absolutos
se tornem absolutos; de transformar as formas e as estruturas, os
métodos e as técnicas em fins e não em meios para alcançar os
fins bíblicos.

O ângulo da cultura
Para renovarmos a igreja, também precisamos ajudar os cristãos do
século x x a compreender a cultura contemporânea — como ela afeta
nossa maneira de pensar e como é fácil confundir valores puramente
culturais com valores bíblicos. De todas as influências que moldam
nossa maneira de pensar, é a cultura que mais pode manchá-la.
A cultura também é um tema vasto. Conseqüentemente, limita­
mos nosso estudo à cultura americana, que em muitos aspectos reflete
uma “cultura mundial” em surgimento.
A partir dessa análise, chegamos a pelo menos dez implicações
para a igreja do século xx. São as seguintes:

1. A igreja deve desenvolver uma perspectiva correta em relação


aos múltiplos fatores que influenciam a nossa sociedade.
2. A igreja deve desenvolver uma perspectiva correta da história.
Estamo-nos encaminhando para o clímax da história e para a
volta de Jesus Cristo.
3. A igreja deve compreender claramente por que Jesus Cristo nos
deixou na terra e, com sua ajuda, lutar para alcançar esse
propósito. A cultura pode obscurecer esse propósito e desviar-nos
para problemas periféricos.
4. A igreja deve manifestar um interesse real pelos líderes
governamentais, dando atenção especial à oração por eles e
também levando uma vida exemplar.
5. A igreja deve oferecer um ambiente em que os cristãos possam
relacionar-se uns com os outros num contexto não-institu-
cionalizado.
6. A igreja deve proporcionar estabilidade e segurança para as
pessoas — algo que, cada vez mais, a cultura está deixando de
fazer.
7. A igreja deve ajudar os cristãos a “viver no mundo” sem “fazer
parte do mundo” . Consciente ou inconscientemente, os cristãos
não devem adotar os aspectos do sistema de valores americano
contrários ao sistema cristão.
8. A igreja deve reconhecer e compreender os efeitos culturais da
revolução na comunicação, adaptando-se a eles.
9. A igreja deve compreender os efeitos da cultura sobre o estilo de
vida, especialmente de nossa juventude, e aprender a distinguir
entre o que é uma violação de princípios bíblicos e o que é uma
violação das normas culturais que viemos a aceitar como
absolutas.
10. A igreja deve fazer tudo o que puder para fortalecer o lar e opor-
se aos devastadores ataques culturais contra essa instituição bá­
sica.

Assim que tivermos comunicado claramente princípios bíblicos,


as lições históricas significativas e as implicações culturais mais
importantes que dizem respeito à nossa própria comunidade, nosso
próximo passo na renovação da igreja é ajudar os cristãos a ampliar
sua perspectiva, examinando cinco etapas importantes que devem ser
cumpridas no desenvolvimento de uma estratégia atual: 1) identificar
as necessidades existentes em suas próprias igrejas; 2) formular e
estabelecer objetivos e alvos de curto e de longo prazo; 3) alterar,
remodelar e desenvolver formas e estruturas funcionais; 4) descobrir
e empregar todos os recursos relevantes e legítimos e 5) avaliar
constantemente para verificar se a perspectiva toda está bem focalizada
em termos bíblicos, históricos, culturais e funcionais. Esse processo
e essa estratégia global contínua podem ser vistos na figura 33.

O D E SE N V O L V IM E N T O D E U M A E STR A TÉG IA A T U A L

Perspectiva Perspectiva

Figura 33: A estratégia atual numa visão global

A identificação das necessidades existentes


Para identificar as necessidades existentes em nossa igreja local,
precisamos reformular cada princípio bíblico em perguntas signi­
ficativas e perspicazes, que incorporem o que descobrimos na história
e na cultura. Essas perguntas vão formar os critérios pelos quais
podemos avaliar nossa situação atual. Esse processo nos ajudará a
destacar as virtudes e as fraquezas em nossa igreja.
A próxima seção ilustra os tipos de perguntas que podem ser
formuladas.
Evangelização
1. A nossa igreja está preocupada com a comunidade adjacente?
Estamos alcançando as pessoas para Cristo? Ou estamos
substituindo essa responsabilidade por um programa de missões
estrangeiras e negligenciando aqueles que vivem dentro do
contexto de nosso testemunho local?
2. A igreja local atua “como um corpo” na evangelização? Estamos
fornecendo um pano de fundo para que possa ocorrer uma
evangelização pessoal? Ou esperamos que os fiéis testemunhem
no vácuo?
3. Estamos fazendo com que a “igreja congregada” seja o principal
lugar para a “pregação do evangelho” , em vez de um lugar para
desenvolver os cristãos e para servir de exemplo dinâmico do
amor e da unidade cristã para o mundo?
4. Estamos alcançando famílias inteiras como o evangelho, concen­
trando-nos primeiramente em alcançar os pais? Ou estamos
substituindo a evangelização de adultos por um programa de
evangelização de crianças e jovens?
5. Estamos descobrindo e reconhecendo na igreja aqueles que se
sentem especialmente chamados para a evangelização, e estamos
incentivando-os no testemunho junto à sua comunidade e ao
mundo todo, dando-lhes apoio moral e financeiro?
6. Os novos convertidos estão sendo integrados na vida da igreja
local o mais breve possível?
7. Na evangelização da comunidade e do mundo, estamos empre­
gando estratégias e métodos atualizados que sejam singulares e
próprios para os problemas do século XX, no que se refere à
tarefa de alcançar as pessoas para Cristo?

Edificação
1. Estamos oferecendo um local que favoreça a ocorrência da
edificação? Esse local propicia uma atmosfera agradável e
convidativa? Rejeitamos as pessoas ou fazemos com que se
sintam pouco à vontade em virtude dos nossos próprios
preconceitos e barreiras culturais? Estamos fazendo distinção
entre os estilos de vida que violam valores puramente culturais e
aqueles que violam valores verdadeiramente cristãos?
2. Estamos dando aos novos convertidos um conhecimento básico
da Palavra de Deus? Estão aprendendo as doutrinas básicas da
Bíblia que lhes darão estabilidade na fé cristã?
3. Estamos dando aos fiéis um conhecimento aprofundado da
Palavra de Deus? Estamos ajudando-os a compreender e assimilar
as verdades profundas das Escrituras?
4. Estamos ajudando os cristãos a ir aíém do nível de conhecimento
da Bíblia e a desenvolver capacidades que incluem sabedoria,
esclarecimento, reconhecimento, consciência e sensibilidade em
relação ao Espírito Santo; uma sensibilidade para com os
membros do corpo de Cristo e uma sensibilidade para com as
necessidades de todos os homens? Os cristãos estão desen­
volvendo sua sensibilidade para conseguir fazer distinção entre os
valores que são culturais e os que são cristãos?
5. Estamos dando aos fiéis um conjunto de experiências que os
ajudará a ir além do nível de conhecimento, a saber, experiências
vitais de aprendizado da Palavra de Deus, experiências vitais de
relacionamento uns com os outros e com Deus e experiências
vitais de testemunho, tanto coletivo como individual?
6. Todos os fiéis estão sendo equipados para o serviço cristão —
tanto no mundo quanto na igreja?
7. Estamos ajudando maridos e esposas, pais e mães e filhos a
desenvolver uma vida cristã familiar de qualidade? Estamos
fazendo tudo ao nosso alcance para unir famílias, encorajar
famílias e dar-lhes o equipamento espiritual para combater as
influências negativas da cultura secular e materialista?
8. Estamos desenvolvendo formas e estruturas eclesiásticas
atualizadas que nos permitam aplicar os princípios neotes­
tamentários no século XX? Possuímos formas e estruturas que
proporcionam uma sensação de comunidade cristã — uma
atmosfera que contrasta com o ambiente institucionalizado da
cultura americana?

Liderança
1. Estamos discernindo as duas fases de liderança que Deus
determinou no Novo Testamento e, ao mesmo tempo, destacando
tanto um ministério “apostólico” quanto um ministério junto à
igreja local?
2. Estamos escolhendo a liderança da igreja local com base, acima
de tudo, nas qualificações espirituais, e não em dons, talentos e
habilidades?
3. Os líderes espirituais de nossa igreja estão atuando como
dirigentes e pastores no verdadeiro sentido da palavra e não
apenas como administradores e tomadores de decisões?
4. Nossos líderes espirituais estão cuidando de suas funções
prioritárias e delegando as responsabilidades de natureza cultural
a outros homens e mulheres qualificados?
5. Estamos nomeando um número adequado de líderes espirituais
para cargos de tempo integral na igreja e remunerando-os
devidamente?
6. Estamos pondo em prática os princípios de liderança múltipla e
ao mesmo tempo designando uma pessoa como o líder principal?
7. Estamos desenvolvendo formas e estruturas adequadas que
possibilitem que a liderança de nossa igreja cumpra devidamente
suas funções bíblicas e culturais?

Administração
1. Encaramos os problemas com realismo, tomando providências o
mais breve possível?
2. Desenvolvemos uma perspectiva correta dos problemas antes de
tentar chegar a soluções concretas?
3. Estabelecemos prioridades, especialmente como líderes espirituais
na igreja, decidindo a que se deve dedicar a maior atenção?
4. Os líderes espirituais da igreja delegam responsabilidades a
pessoas qualificadas?
5. Os líderes da igreja mantêm o devido equilíbrio entre os fatores
divinos e humanos no desempenho de suas funções adminis­
trativas?
6. Utilizamos em nossa igreja uma maneira de solucionar os
problemas e tomar as decisões, levando em consideração as
atitudes e os sentimentos de todos aqueles que estão diretamente
envolvidos?
7. Solucionamos os problemas com criatividade, sob a liderança do
Espírito Santo? Ou estamos presos a técnicas que funcionaram no
passado ou que funcionaram para alguma outra pessoa?
Organização
1. A organização é utilizada basicamente como meio de aplicar os
princípios neotestamentários e alcançar os propósitos neotes-
tamentários? Ou será que a organização se tornou um fim em si
mesma?
2. Nós nos estruturamos para atender às necessidades? Ou
organizamos apenas por organizar?
3. Mantemos as nossas estruturas organizacionais simples e funcio­
nais?
4. Mantemos a flexibilidade de nossas estruturas organizacionais?
Ou ficamos presos a estruturas ultrapassadas, fora de moda e
pouco funcionais?

Comunicação
1. Reconhecemos tanto os elementos divinos quanto os humanos na
comunicação cristã eficaz? Reconhecemos a obra soberana de
Deus mediante o Espírito Santo e a Palavra de Deus, e ao mesmo
tempo reconhecemos a importância dos fatores humanos tais
como o interesse, bons métodos e trabalho árduo?
2. Estamo-nos comunicando com todos os tipos e classes de pessoas,
tanto cristãs como não cristãs? Ou estamos demonstrando
parcialidade e preconceito?
3. Estamos mantendo o devido equilíbrio entre nosso ministério a
grupos e o ministério a indivíduos?
4. Mantemos um ministério em profundidade com um grupo seleto
de cristãos e um ministério com todo o grupo de fiéis?
5. Estamo-nos comunicando basicamente com “palavras” , ou
estamos integrando totalmente as pessoas no processo de
aprendizado? Estamos indo além do nível de verbalização,
chegando até o nível da visualização e da integração total?
6. Exploramos e levamos em conta a importância do exemplo
cristão como base para a comunicação verbal?
7. Estamos “trabalhando arduamente” na comunicação cristã? Ou
esperamos que ela “simplesmente aconteça”?
8. Estamos sendo criativos no desenvolvimento e no uso de
metodologias do século xx? Ou nos estamos restringindo a
formas que são produtos de uma cultura passada, inocentemente
classificando-as como bíblicas e absolutas?
A formulação dos objetivos e alvos
Depois que tivermos avaliado a função global de nossa igreja local e
tivermos isolado os pontos fortes e também os fracos, vamos precisar
formular objetivos e alvos de curto e de longo prazo. Essa é uma
etapa fundamental, que exigirá uma reflexão bem cuidadosa. Levará
tempo e exigirá esforços, mas é, em alguns aspectos, a etapa mais
importante em todo o processo de renovação. Quando vista
corretamente, pode ajudar a criar uma unidade de pensamento dentro
do corpo local de Cristo — um aspecto fundamental para uma
mudança e uma renovação real.
Por outro lado, caso não se encare essa etapa com muita oração,
cuidado e atenção a todos os pormenores, todos os esforços
empregados para focalizar os princípios bíblicos, as lições da história,
as implicações culturais e as necessidades presentes podem obter
pouquíssimos resultados.
Por essa ser uma etapa tão importante, todo o próximo capítulo
mostra como desenvolver esse processo.

A mudança das formas e das estruturas funcionais


Se a formulação de objetivos e alvos constitui etapa decisiva no
processo de renovação, a mais difícil é a alteração, a remodelação e
o desenvolvimento de formas e estruturas funcionais. E nesse
momento que começamos a interferir nas tradições e nas emoções. As
formas e as estruturas representam nossa maneira de fazer as coisas.
E elas têm-nos proporcionado uma grande dose de segurança.
Sabemos o que vai acontecer em seguida; isto é, sabemos como as
coisas vão ser feitas, por causa das formas e das estruturas que temos.
Se, todavia, certas formas e estruturas já não estiverem
alcançando, mesmo que parcialmente, os propósitos neotestamentários,
por já não serem funcionais, elas devem ser mudadas. Se não forem,
estaremos deixando de ser neotestamentários. Estaremos deixando-nos
prender a não-absolutos. Estaremos resistindo ao Espírito Santo.
Seremos escravos de nós mesmos. Seremos carnais.
Se você chegou até esse momento com cuidado — e espe­
cialmente se você ajudou as pessoas a enxergarem nitidamente os
princípios do Novo Testamento — a maioria delas começará a ver a
diferença entre os absolutos e os não-absolutos. O próprio Espírito
Santo utilizará a Palavra de Deus para esclarecer as idéias confusas e
renovar a visão.
Isso não significa que não haverá pessoas resistindo às mudanças.
Isso é natural entre todas as pessoas, sejam cristãs, sejam não-cristãs.
Estudos na área de administração revelam que, dentro de uma
organização, cerca de 10% das pessoas de um grupo são inovadoras
— pessoas que desejam experimentar praticamente qualquer nova
forma, estrutura ou idéia. Cerca de 80% são conservadoras — pessoas
que hesitam diante de mudanças, até que conheçam todos os fatos e
tenham os pés bem firmes em projeções que pareçam totalmente
viáveis. Somente cerca de 10% são inibidoras — pessoas que são
contra qualquer tipo de mudanças, quer tenham argumentos, quer não.
Se chegarmos a um grupo de cristãos com fatos bíblicos,
históricos e culturais, teoricamente 90% deles estarão prontos a mudar
quando virem claramente o plano de Deus. E, já que temos a
autoridade da Palavra de Deus e o Espírito Santo do nosso lado, é
possível reduzir a menos de 10% o número dos que resistem apenas
por “resistir” . Em outras palavras, as pessoas cristãs devem romper
com as normas estatísticas do mundo.

A identificação e o emprego dos recursos


Vivemos numa era tecnológica que dá recursos excepcionais à igreja.
É claro que não devem ser considerados mais importantes que os
recursos espirituais à disposição da igreja, a saber, a Palavra de Deus,
a oração e o Espírito Santo e a dinâmica do próprio corpo de Cristo.
Mas desprezar os recursos humanos disponíveis no século xx é não
estar espiritualmente alerta.
Jesus Cristo empregou os recursos disponíveis em seus dias. Um
poço, o vento, um semeador ou um templo, todos foram usados para
comunicar sua mensagem eterna. Paulo utilizou a lógica grega, vários
estilos literários, pergaminhos, navios e um serviço de mensageiros.
Sem dúvida eram recursos limitados, mas ele os empregou para
cumprir a grande comissão.
Atualmente a igreja precisa utilizar cada meio relevante e legítimo
para atingir os mesmos objetivos neotestamentários que conquistaram
a mente e o coração de nossos antepassados da Bíblia. Livros,
cassetes, fitas de vídeo, filmes, rádio, televisão — qualquer coisa!
Precisamos considerar novos métodos, novas técnicas, novas idéias
para comunicar a mensagem eterna e imutável. A revolução na
comunicação que ocorreu em nossa cultura preparou o palco para uma
revolução na comunicação dentro da igreja.
Isso não quer dizer que a pregação já não seja aproveitável ou
necessária. Mas o que precisamos fazer é “pregar” com formas novas
e mais criativas. A Bíblia não nos diz como pregar; ela apenas nos diz
para “pregar” e nos apresenta uma variedade de ilustrações sobre
como isso se dava. O mesmo ocorre com o ensino. Se desejamos estar
em pé de igualdade com uma sociedade voltada para os meios de
comunicação, não podemos ficar à toa, passivos, e continuar agindo
da mesma forma de sempre. Muitos não nos ouvirão. O tédio deles
vai “levar a melhor” . Mais do que isso, alguns vão-se tornar
“desistentes” , especialmente se o problema não for contra-atacado no
lar. Ao mesmo tempo, podemos tornar-nos culpados de ficar de
braços cruzados e reclamar da geração indiferente e espiritualmente
endurecida.
Vivemos num mundo diferente. As habilidades cognitivas e
perceptivas das pessoas mudaram. Pensamos mais rápido, sabemos
mais e fazemos mais perguntas; e, ironicamente, em muitos casos
estamos mais confusos. Mas o nosso coração continua o mesmo!
Ainda clamamos por compreensão, solidariedade, apoio e segurança.
E aquilo que cada pessoa precisa é o que a igreja de Jesus Cristo pode
dar. Nosso desafio é empregar todos os recursos disponíveis para
atender essas necessidades humanas.

Avaliação
A palavra avaliação é ameaçadora, mas é um conceito bíblico.
Paulo exortou os coríntios a provarem a si mesmos (2 Co 13.5): a
fazerem um teste consigo mesmos, a se examinarem, a se analisarem.
Aos gálatas, ele escreveu: “Prove cada um o seu labor” (G1 6.4), e
aos tessalonicenses exortou: “Julgai todas as coisas” (1 Ts 5.21).
Paulo também praticou esse conceito em seu próprio ministério.
Enviou Timóteo de volta a Tessalônica para avaliar a situação da
igreja, para ver como estava (1 Ts 3.5). Ele sempre estava ansioso por
ouvir relatórios de várias fontes, para saber o que estava acontecendo
em todas as igrejas, quais eram seus problemas, suas necessidades,
suas preocupações e seu progresso.
Devem-se observar algumas coisas quanto ao processo de
avaliação.
Primeiramente, ela deve ser constante. Conforme ilustra a figura
33, a avaliação aplica-se a cada aspecto do processo de
desenvolvimento de uma filosofia bíblica do ministério. Devemos
sondar constantemente a Palavra de Deus para ver se focalizamos
corretamente os princípios bíblicos. Devemos reconsiderar constan­
temente a história com base na cultura contemporânea. Devemos
decidir constantemente quais são as necessidades do momento, levando
em conta os princípios bíblicos, as lições da história e as implicações
culturais. Devemos reenfocar constantemente os nossos objetivos e
alvos, particularmente levando em conta os propósitos bíblicos.
Devemos avaliar constantemente nossas formas e estruturas para
verificar se estão aplicando os princípios bíblicos e alcançando os
alvos e objetivos neotestamentários de forma satisfatória. Devemos
procurar constantemente os recursos que nos ajudem a aplicar, no
século xx, os princípios do Novo Testamento. E, finalmente,
precisamos avaliar, avaliar e avaliar!
Em segundo lugar, a avaliação deve ser feita por todo o corpo de
Cristo. Só quando todos estiverem envolvidos nesse processo é que
todos vão desejar mudanças. É por isso que é importante ajudar cada
membro do corpo a reconhecer o que é e o que não é um princípio
neotestamentário; o que é e o que não é nórma ou absoluto bíblico;
o que é e o que não é cultural. Quando todo membro do corpo de
Cristo está envolvido nesse processo, isso é uma garantia de que
estamos chegando a uma perspectiva adequada de nossos problemas.
E perigoso quando uma pessoa sozinha faz a avaliação. Até certo
ponto, todos nós estamos presos a sentimentos subjetivos. Precisamos
da ajuda do corpo de Cristo e de seus membros para corrigir
quaisquer percepções incorretas.
Em terceiro lugar, embora ameaçadora, a avaliação é, em última
instância, algo recompensador. Tememos a avaliação porque temos
medo de descobrir que cometemos algum erro.
Mas vamos encarar a realidade! Nenhum de nós é perfeito. Todos
cometemos enganos. É por isso que precisamos do “corpo” . Quando
todos -tomam parte, todos são “culpados” quando cometemos erros.
“Juntos” devemos avaliar, “juntos” devemos planejar e “juntos” nos
tornaremos aquilo que Deus deseja que nos tornemos.

Resumo
Para renovar a sua igreja gradualmente:

1. Ajude a igreja a focalizar os princípios e os propósitos bíblicos,


enxergando pelo ângulo das Escrituras.
2. Ajude a igreja a focalizar as lições da história, enxergando pelo
ângulo da história.
3. Ajude a igreja a focalizar as implicações culturais, enxergando
pelo ângulo da cultura.
4. Ajude a igreja a identificar suas necessidades tendo em conta a
perspectiva bíblica, histórica e cultural.
5. Ajude a igreja a formular objetivos e alvos de curto e de longo
prazo.
6. Ajude a igreja a desenvolver formas e estruturas atualizadas.
7. Ajude a igreja a descobrir e a empregar recursos aplicáveis.
8. Ajude a igreja a utilizar, gradativamente, esse processo para se
avaliar e se examinar constantemente.
A fo rm u la çã o
de objetivos,
alvos e padrões

No capítulo anterior deu-se acento ao fato de que a formulação de


objetivos, alvos e padrões era uma das estapas mais importantes para
começar uma renovação na igreja. Por essa razão, este último capítulo
tem o propósito de ser um “modelo” para o estabelecimento de alvos.
Como se pode fazer isso?

Definição de termos
Primeiramente, precisamos definir os termos.
Propósito é o enunciado abrangente de uma aspiração. Descreve
em termos gerais a direção para onde desejamos ir. É por isso que os
princípios que emergiram de nosso estudo sobre a igreja do Novo
Testamento são identificados como propósitos e princípios. Em todos
os casos, são afirmações bíblicas de caráter amplo, que se aplicam à
evangelização, à edificação, à liderança, à comunicação, à organização
e à administração.1
Objetivo é o enunciado mais específico de uma aspiração que,
quando alcançado, provoca um avanço rumo ao cumprimento de cada
propósito bíblico. Geralmente existem dois ou mais objetivos para
cada propósito.
Alvo é o enunciado ainda mais específico daquilo que se deve
realizar para que haja um avanço rumo a um objetivo. Geralmente
existem dois ou mais alvos para cada objetivo.
Padrão de desempenho é uma medida pela qual podemos avaliar
o desempenho. Os padrões podem ser expressos em relação a um
propósito, objetivo ou alvo. Geralmente existem dois ou mais padrões
para cada alvo.

O modelo básico
Com base nessas definições, o modelo a seguir serve para ilustrar
como um princípio bíblico podem ser traduzido num propósito, e
como se pode formular objetivos, alvos e padrões para uma igreja
local. Um princípio neotestamentário de evangelização é empregado
para ilustrar esse processo.

P r o p ó sit o s O b je t iv o s

Os propósitos devem ser os Os objetivos variam de uma


mesmos para todas as igrejas igreja para outra, de uma
fiéis à Bíblia. Uma vez que se comunidade para outra e de
baseiam em princípios bíblicos, uma cultura para outra. Ba­
são supraculturais. seiam-se nas necessidades e nos
interesses presentes numa igreja
em particular.

Exemplo A Exemplos decorrentes de A


Um dos propósitos da evan­ 1. Instruir as pessoas a respeito
gelização no Novo Testamento desse importante princípio neo­
é dar prioridade à evange­ testamentário.
lização da nossa própria comu­
nidade.
2. Motivar as pessoas em rela­
ção a esse importante princípio
neotestamentário.
A lvos PADRÕES

Os alvos são enunciados espe­ Os padrões são afirmações es­


cíficos que tratam dos passos a pecíficas acerca das condições a
ser tomados para alcançar os ser preenchidas para alcançar
objetivos. Geralmente existem cada alvo. Geralmente existem
dois ou mais padrões para cada dois ou mais padrões para cada
objetivo. alvo.

Exemplos decorrentes de A -l Exemplos decorrentes de A -l-a


a) Pôr as pessoas em contato i) Esse conceito é apresentado a
com esse conceito de evan­ toda a igreja pelo menos uma
gelização da comunidade me­ vez por ano, mediante um ser­
diante o ensino bíblico sobre o mão.
assunto. ii) Um pequeno grupo de
b) Pôr as pessoas em contato pessoas escolhidas examinará
com esse conceito, comparti­ detalhadamente esse conceito
lhando o que outras igrejas es­ numa reunião de treinamento,
tão fazendo para alcançar suas uma vez por ano.
respectivas comunidades.

Um modelo ampliado
Este modelo inclui todos os princípios do Novo Testamento que
vieram à tona em nosso estudo da igreja do século I. Eles foram
traduzidos em propósitos e, na primeira seção, que trata da
evangelização, desenvolvemos dois propósitos para ilustrar o que
qualquer igreja poderá fazer para formular objetivos, alvos e padrões,
para alcançar esses dois propósitos. Daí em diante, só propósitos são
relacionados em cada seção, à exceção do desenvolvimento parcial do
propósito A na seção de edificação. Deve-se desenvolver esse processo
para cada propósito, incluindo pelo menos dois objetivos, dois alvos
para cada objetivo e dois padrões para cada alvo. Entretanto, deve-se
notar que algumas situações podem requerer mais de dois enunciados
em cada categoria, e outras poderão requerer menos. Cada igreja deve
completar essa tarefa levando em conta suas próprias necessidades
atuais. No desenvolvimento de cada seção, será útil reestudar o
material já tratado neste estudo.

Evangelização

Propósito A. Dar prioridade à evangelização de nossa própria


comunidade
Objetivo 1. Instruir as pessoas a respeito desse importante
princípio neotestamentário
Alvo (a). Pôr as pessoas em contato com esse conceito de
evangelização da comunidade mediante o ensino
bíblico sobre o assunto
Padrão (1). Esse conceito é apresentado a toda a
igreja pelo menos uma vez por ano,
mediante um sermão.
Padrão (2). Um grupo pequeno de pessoas esco­
lhidas examina detalhadamente esse
conceito numa reunião de treinamento,
uma vez por ano.
Alvo (b). Pôr as pessoas em contato com esse conceito,
compartilhando o que outras igrejas estão fa­
zendo para alcançar suas respectivas comu­
nidades.
Padrão (1). Para lançar esse destaque, será
mostrado um filme sobre o assunto nu­
ma reunião especial.
Padrão (2). Mediante o boletim da igreja, cada
membro do corpo local é estimulado a
ler um livro sobre o assunto. Uma lista
de livros é publicada mensalmente.
Objetivo 2. Motivar as pessoas em relação a esse importante
princípio neotestamentário.
Alvo (a). Convidar leigos de outras igrejas para compar­
tilhar o que estão fazendo para alcançar suas
comunidades para Cristo
Padrão (1). A cada três meses, separa-se um do­
mingo em que os leigos de outras
igrejas são convidados a vir e comparti­
lhar num culto matutino.
Padrão (2). A cada três meses, separa-se um do­
mingo em que os leigos de outras igre­
jas são convidados a vir e compartilhar
num culto vespertino.
Alvo (b). Dar oportunidades para as pessoas compartilhar
com as outras o que estão fazendo para alcançar
os vizinhos, amigos e colegas de trabalho para
Cristo.
Padrão (1). Todo domingo à noite, as pessoas têm
a oportunidade de compartilhar as
experiências de testemunho.
Padrão (2). As pessoas são regularmente incen­
tivadas a compartilhar com os outros
membros do corpo os pedidos de
oração em relação a vizinhos, amigos e
colegas de trabalho não-salvos.
Propósito B. Enfatizar que a evangelização coletiva é fundamental
à evangelização pessoal.
Objetivo 1. Explicar o que é evangelização coletiva.
Alvo (a). Pôr as pessoas em contato com esse conceito
mediante ensino bíblico.
Padrão (1). Esse conceito é apresentado a toda a
igreja mediante um sermão.
Padrão (2). Após o sermão de introdução, esse
conceito é estudado em cada classe de
adultos na escola dominical, numa série
de quatro estudos bíblicos para grupos
pequenos.
Alvo (b). Demonstrar como funciona esse conceito.
Padrão (1). Faz-se uma apresentação dramatizada
num domingo à noite para mostrar
como a evangelização coletiva abre as
oportunidades de testemunho pessoal.
Padrão (2). Todos os domingos à noite, as pessoas
são incentivadas a compartilhar opor­
tunidades de testemunho cristão que
surgiram como resultado do corpo de
Cristo em ação.
Objetivo 2. Explicar que devemos criar métodos e meios de
expor as pessoas não-salvas ao corpo de Cristo
em ação.
Aivn (a) Incentivar 50 pessoas a convidar não-salvos para
participar de uma atividade espet^al da igreja
que mostre o corpo em a ç ã o ^ ê rs o
Padrão (1). Todos os meses uma ati-ç;
vidade espeeiííVdav igreja, própria
co n v id ^ò s ^ ig o s não-salvos. pai;* rét
0 corpo dê Cristo funcionaifet^m amor

Padrãçr{2)
o ©
Periodicamente, são planejados cultos
regulares de^iM a no corpo em que
qualm egj^^cristão pode ver o corpo

# d ^ CMstd funcionando em amor e


ade'
Alvo (b). InÉpH^ar as famílias a convidar os vizinhos
^O gara uma refeição ou um piquenique, a fim de
mostrar o corpo de Cristo em ação na família.
^ Padrão (1). As pessoas são incentivadas regu­
larmente a compartilhar com os outros
as experiências que estão tendo enquan­
to constroem pontes até os vizinhos
não-salvos.
Padrão (2). Sempre que uma pessoa vem a Cristo,
depois de ver alguma família atuando
em amor e em unidade, tal pessoa é
convidada a dar seu testemunho diante
de toda a família da igreja num culto.
Propósito c. Seguir o exemplo neotestamentário de criar um corpo
amoroso e unido de cristãos que sirva de pano de
fundo para a comunicação do evangelho.
Propósito D. Alcançar famílias inteiras para Cristo, começando
pelos pais.
Propósito E. Identificar na igreja aqueles que desejam estar
envolvidos na evangelização e providenciar apoio
moral e financeiro para que possam atuar eficaz­
mente.
Propósito F. Integrar os novos convertidos na vida da igreja o
mais breve possível.
Propósito G. Desenvolver formas e estruturas atualizadas para
alcançar os propósitos neotestamentários.

Edificação

Propósito A. Desenvolver uma igreja local que realmente possa


servir de canal principal para uma verdadeira
edificação de todos os cristãos do século XX, jovens
ou idosos, de todas as camadas sociais.
Objetivo 1. Pôr todos os membros da igreja em contato com
esse conceito.

Alvo (a). Antes de tudo, apresentar esse conceito aos


líderes espirituais da igreja.
Padrão (1). Esse conceito será tratado numa série
de almoços em que os principais líderes
espirituais da igreja sugerem um con­
junto de estudos bíblicos com toda a
diretoria.
Padrão (2). Esse conceito será então desen-volvido
numa série de estudos bíblicos com os
líderes espirituais da igreja, presu­
mindo-se que isso terá o apoio desses
líderes.
Alvo (b). Depois da apresentação aos líderes espirituais,
apresentar esse conceito especificamente a toda
a igreja.
Padrão (1).
Padrão (2).
Objetivo 2. Pôr todos os membros da igreja em contato com
cristãos que não vivem na mesma situação cul­
tural em que vivemos.
Alvo (a).
Padrão (1).
Padrão (2).
Alvo (b).
Padrão (1).
Padrão (2).
Propósito B. Dar aos novos convertidos um conhecimento das
doutrinas fundamentais da fé cristã.
Propósito C. Dar a todos os fiéis um conhecimento aprofundado
das Escrituras.
Propósito D. Ajudar os fiéis a desenvolver capacidades que vão
além do nível de conhecimento.
Propósito E. Proporcionar experiências neotestamentárias equi­
libradas a todos os líderes.
Propósito F. Equipar todos os fiéis para o serviço cristão.
Propósito G. Ajudar os pais a desenvolver uma vida familiar de
qualidade.
Propósito H. Desenvolver na igreja formas e estruturas atualizadas
que sirvam de melhor meio para alcançar esses pro­
pósitos, objetivos e alvos.
Liderança
Propósito A. Discernir cuidadosamente entre as duas fases de
liderança no Novo Testamento, mas ao mesmo tempo
desenvolver tanto um ministério “apostólico” quanto
um ministério com a igreja local no cumprimento da
grande comissão.
Propósito B. Escolher e nomear líderes da igreja em função, acima
de tudo, de qualificações espirituais, não de dons,
talentos ou habilidades.
Propósito C. Verificar se os nossos líderes espirituais estão atuando
de forma bíblica como dirigentes e pastores, não
apenas como administradores e tomadores de deci­
sões.
Propósito D. Verificar se os nossos líderes espirituais estão
mantendo suas prioridades e delegando responsa­
bilidades de natureza cultural a outros homens e mu­
lheres qualificados.
Propósito E. Nomear um bom número de líderes espirituais a
cargos de tempo integral e remunerá-los devidamente
por seus esforços.
Propósito F. Praticar o princípio de liderança múltipla, mas veri­
ficar que um indivíduo seja então designado como o
líder principal espiritual da igreja.
Propósito G. Ter a liberdade de desenvolver formas e estruturas
criativas que permitam que os líderes de nossa igreja
atuem como Deus planejou.

Organização e administração

A d m in is t r a ç ã o
Propósito a . Encarar todos os problemas imediatamente, com
realismo.
Propósito B. Desenvolver uma perspectiva correta de todos os
problemas, antes de buscar uma solução concreta.
Propósito c. Estabelecer prioridades.
Propósito D. Delegar responsabilidades a pessoas qualificadas.
Propósito E. Adotar uma maneira de solucionar problemas e tomar
decisões, levando em consideração as atitudes e os
sentimentos de todos os que estão diretamente envol­
vidos.
Propósito F. Solucionar cada problema criativamente, sob a
liderança do Espírito Santo.

O r g a n iz a ç ã o
Propósito a . Criar estruturas organizacionais que apliquem os
princípios neotestamentários e atinjam os propósitos
neotestamentários.
Propósito B. Estruturar-se com base nas necessidades.
Propósito c. Manter a organização simples.
Propósito D. Manter a organização flexível.
Comunicação

Propósito A. Manter o devido equilíbrio entre os fatores divinos e


humanos na comunicação.
Propósito b . Comunicar-se com todos os tipos e classes de pes­
soas.
Propósito c. Manter o devido equilíbrio entre um ministério a
grupos e um ministério a indivíduos.
Propósito D. Manter um ministério em profundidade com um
pequeno grupo de cristãos e um ministério geral com
todos os cristãos.
Propósito E. Ir além do nível de verbalização na comunicação.
Propósito F. Garantir que o exemplo cristão esteja sendo a base da
comunicação verbal.
Propósito G. Empregar os esforços necessários para conseguir uma
boa comunicação cristã.
Propósito H. Empregar e desenvolver padrões e formas do século
XX na comunicação.

Resumo
A formulação de objetivos, alvos e padrões com base nos propósitos
do Novo Testamento é um passo muito importante que a igreja local
pode dar para começar uma renovação espiritual. Quando esse
processo é desenvolvido de forma correta — e como corpo —, as
formas e as estruturas necessárias e a utilização de recursos aplicáveis
vão surgir naturalmente.
Isso não significa que todas as pessoas vão deixar de sentir-se
ameaçadas pelas mudanças, mas que, “unido”, o corpo de Cristo
cumprirá com maior eficácia a grande comissão de nosso Senhor Jesus
Cristo. Em certas ocasiões, significará que novas igrejas deverão ser
fundadas, pois algumas igrejas se tornaram tão institucionalizadas e
alguns indivíduos se afastaram tanto da Palavra de Deus, que as
Escrituras pouco significam para suas vidas. Mas, quando os cristãos
crêem na Palavra de Deus e são comprometidos com ela, ficam
endurecidos quando não reagem positivamente ao Espírito Santo, que
lhes expõe os ensinos da Bíblia a respeito da igreja neotestamentária.
Uma oração
Ó Deus, dá-nos perspectiva! Ajuda-nos a ver claramente na tua
Palavra os princípios que darão o rumo às nossas igrejas. Ajuda-nos
a enxergar claramente as lições da história que devemos aprender —
lições que evitarão a repetição dos erros de nossos antepassados, e
lições que nos ajudarão a repetir, até melhor, aquilo que eles
acertaram. Ajuda-nos a compreender a cultura em que vivemos, e a
não estar presos a ela nem totalmente separados dela, mas a usá-la
como ponte para alcançar a humanidade em seus problemas. Ajuda-
nos a não ficar presos aos não-absolutos e guarda-nos de nos desviar
para assuntos periféricos. Acima de tudo, ajuda-nos a cumprir o
grande propósito para o qual nos deixaste aqui na terra: “fazer
discípulos” de todas as nações e ser parte ativa de um corpo dinâmico
de cristãos neotestamentários.
“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que
tudo quanto pedimos, ou pensamos, conforme o seu poder que opera
em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, poj- todas as
gerações, para todo o sempre. Amém” (Ef 3.20, 21).

Notas

' Em muitos aspectos, o Dr. John Alexander, presidente da Inter-Varsity Christian


Fellowship, influenciou decisivamente os líderes evangélicos na questão do
estabelecimento de alvos. As definições e o modelo básico são retirados de seu livro
Managing Our Work [Administrando o nosso Trabalho], Inter-Varsity (p. 15, 22, 23).
A adaptação ao trabalho específico da igreja foi feita com base no material discutido
nesses capítulos.
Uma
o p o rtu n id a d e
de fazer o seu
p ró p rio estudo
in d u tiv o

A comissão dada por Jesus Cristo em Mateus 28.19, 20 é dividida em


duas tarefas básicas: evangelização (a razão de a igreja existir no
mundo) e edificação (a razão de ser da “igreja congregada”). A
evangelização envolve ir e fazer discípulos, e a edificação, batizar e
ensinar tais discípulos.
Essas duas tarefas são empregadas para desenvolver duas colunas
com textos bíblicos que ilustram a maneira como elas eram cumpridas.
Atos dos Apóstolos é utilizado como fonte básica dessas informações,
e as epístolas foram relacionadas de acordo com o fluxo básico dos
acontecimentos que aparecem em Atos.
No entanto, você notará que, embora o propósito básico das
epístolas fosse a edificação e, dessa forma, todo o seu conteúdo
pudesse aparecer na coluna 2, elas também incluem materiais que
ilustram as tarefas das duas colunas e se referem especificamente a
elas. Dessa maneira, versículos bíblicos escolhidos das epístolas
aparecem em ambas as colunas.
Para ter um estudo interessante, examine com cuidado os textos
bíblicos que foram compilados para você neste apêndice. Durante o
estudo, você notará que surgirá um padrão relativo à maneira como
se cumpriu a grande comissão. (Veja o quadro “Por que existe a
igreja?” .)
Na coluna 1 (a coluna da evangelização) você encontrará as funções
e os resultados do livro de Atos. Quando passar para as epístolas da
mesma coluna, você encontrará as diretrizes e os objetivos.
Na coluna dois (a coluna da edificação) você verá surgir o mesmo
padrão, ou seja, as funções e os resultados do livro de Atos e as
diretrizes e os objetivos nas epístolas. (Reveja o quadro que ajudará
a esclarecer esse padrão.)
Agora, mãos à obra!
1. Utilize um código de cores para identificar: funções — vermelho;
resultados — azul; diretrizes — preto; objetivos — verde.
2. Examine atentamente suas descobertas. Que está vendo? Use as
seguintes perguntas para estimular seu pensamento:

Quanto à e v a n g e l iz a ç ã o
a. Em que tipo de atividades evangelísticas os cristãos
tomaram parte no livro de Atos?
b. Quais foram os resultados dessas atividades?
c. Quais são as diretrizes de evangelização que os
escritores das epístolas apresentam?
d. Quais são os objetivos que devem ser alcançados em
conseqüência do cumprimento dessas diretrizes?

Quanto à e d if ic a ç ã o
a. Em que tipo de atividades de edificação os cristãos
participaram no livro de Atos?
b. Quais foram os resultados dessas atividades?
c. Quais são as diretrizes de edificação que os escritores
das epístolas apresentam?
d. Quais são os objetivos que devem ser alcançados em
conseqüência do cumprimento dessas diretrizes?
3. Agora interrompa seu estudo e responda a estas duas perguntas:
a. Como resultado de seu estudo, quais seriam os
princípios de evangelização para uma igreja no último
quartel do século XX?
b. Como resultado de seu estudo, quais seriam os
princípios de edificação para uma igreja no último
quartel do século XX?

V e r s íc u l o s b íb l ic o s s e l e c io n a d o s

Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações,


batizando-os em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as
coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou
convosco todos os dias até à consumação do século
(Mt 28.19, 20).

Por q u e a ig r e ja e x is t e Por q u e a ig r e ja e x is t e c o m o
no m undo? “ c o m u n id a d e c o n g r e g a d a ”?

E v a n g e l iz a ç ã o E d if ic a ç ã o
In d o - B a t i z a n d o -o s —
f a z e i d is c íp u l o s E n s i n a n d o -l h e s

Atos 1.8 — ... ma s


recebereis poder, ao descer
sobre vós o Espírito Santo, e
sereis minhas testemunhas tan­
to em Jerusalém, como em
toda a Judéia e Samaria, e até
aos confins da terra. Atos 2.41, 42 — Então os que
Atos 2.14 — Então se levantou lhe aceitaram a palavra foram
Pedro, com os onze; e, er­ batizados; havendo um acrés­
guendo a voz, advertiu-os nes­ cimo naquele dia de quase três
tes termos: Varões judeus e mil pessoas.
todos os habitantes de Jeru­ E perseveraram na doutrina
salém, tomai conhecimento dos apóstolos e na comunhão,
disto e atentai nas minhas
palavras.

Atos 2.46, 47 — Diariamente perseveravam unânimes no templo,


partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições com
alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e contando com a
simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor,
dia a dia, os que iam sendo salvos.

Atos 4.1, 2, 4 — Falavam eles


ainda ao povo quando sobre­
vieram os sacerdotes, o ca­
pitão do templo e os saduceus;
ressentidos por ensinarem eles
o povo e anunciarem em Jesus
a ressurreição dentre os mor­
tos [...]. Muitos, porém, dos
que ouviram a palavra a acei­
taram, subindo o número de
homens a quase cinco mil.
Atos 4.31 — Tendo eles orado, Atos 4.32 — Da multidão dos
tremeu o lugar onde estavam que creram era um o coração
reunidos; todos ficaram cheios e a alma. Ninguém consi­
do Espírito Santo, e, com derava exclusivamente sua
intrepidez, anunciavam a nem uma das cousas que pos­
palavra de Deus. suía; tudo, porém, lhes era
Atos 5.12-14 — Muitos sinais e comum.
prodígios eram feitos entre o
povo, pelas mãos dos após­
tolos. E costumavam todos
reunir-se, de comum acordo,
no pórtico de Salomão. Mas,
dos restantes, ninguém ousava
ajuntar-se a eles; porém o po­
vo lhes tributava grande admi­
ração. E crescia mais e mais a
multidão de crentes, tanto ho-
mens como mulheres, agre­
gados ao Senhor.
Atos 5.19-21 a — Mas de noite
um anjo do Senhor abriu as
portas do cárcere e, condu­
zindo-os para fora, lhes disse:
Ide e, apresentando-vos no
templo, dizei ao povo todas as
palavras desta Vida. Tendo
ouvido isto, logo ao romper
do dia, entraram no templo e
ensinavam.
Atos 5.25 — Nesse ínterim,
alguém chegou e lhes comu­
nicou: Eis que os homens que
recolhestes no cárcere, estão
no templo, ensinando o povo.
Atos 5.27, 28 — Trouxeram-
nos, apresentando-os ao Siné­
drio. E o sumo sacerdote in­
terrogou-os, dizendo: Expres­
samente vos ordenamos que
não ensinásseis nesse nome,
contudo enchestes Jerusalém
de vossa doutrina; e quereis
lançar sobre nós o sangue
desse homem.
Atos 5.42 — E todos os dias, no
templo e de casa em casa, não
cessavam de ensinar, e de pre­
gar Jesus, o Cristo.
Atos 6.4, 7 — ... e, quanto a
nós, nos consagraremos à
oração e ao ministério da
palavra [...]. Crescia a palavra
de Deus e, em Jerusalém, se
multiplicava o número dos
discípulos; também muitíssi-
mos sacerdotes obedeciam à
fé.
Atos 8.16, 4 — Naquele dia
levantou-se grande perseguição
contra a igreja em Jerusalém;
e todos, exceto os apóstolos,
foram dispersos pelas regiões
da Judéia e Samaria [...].
Entrementes os que foram dis­
persos iam por toda parte pre­
gando a palavra.
Atos 8.5. Filipe, descendo à Atos 8.12 — Quando, porém,
cidade de Samaria, anunciava- deram crédito a Filipe, que os
lhes a Cristo. evangelizava a respeito do
Atos 8.25 — Eles [Pedro e Jo­ reino de Deus e do nome de
ão], porém, havendo testi­ Jesus Cristo, iam sendo ba­
ficado e falado a palavra do tizados, assim homens como
Senhor, voltaram para Jeru­ mulheres.
salém, e evangelizavam muitas
aldeias dos samaritanos.
Atos 8.35 — Então Filipe Atos 8.36, 38 — Seguindo eles
explicou; e, começando por caminho fora, chegando a cer­
esta passagem da Escritura, to lugar onde havia água, disse
anunciou-lhe a Jesus. o eunuco: Eis aqui água, que
impede que seja eu batizado?
[...] Então mandou parar o
carro, ambos desceram à água,
e Filipe batizou o eunuco.
Atos 9.20 — ... e logo [Paulo]
pregava nas sinagogas a Jesus,
afirmando que este é o Filho
de Deus.

Atos 9.31 — A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia,


Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor
e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número.
Atos 10.42, 43 - ... e nos
mandou pregar ao povo e
testificar que ele é quem foi
constituído por Deus Juiz de
vivos e de mortos. Dele todos
os profetas dão testemunho de
que, por meio de seu nome,
todo o que nele crê recebe
remissão de pecados.
Atos 11.19-21 — Então os que Atos 11.22-26 — A notícia a
foram dispersos, por causa da respeito deles chegou aos
tribulação que sobreveio a ouvidos da igreja que estava
Estêvão, se espalharam até à em Jerusalém; e enviaram
Fenícia, Chipre e Antioquia, Barnabé até Antioquia. Tendo
não anunciando a ninguém a ele chegado e, vendo a graça
palavra, senão somente aos de Deus, alegrou-se, e exor­
judeus. Alguns deles, porém, tava a todos a que, com firme­
que eram de Chipre e de Cire- za de coração, permanecessem
ne, e que foram até Antioquia, no Senhor. Porque era homem
falavam também aos gregos, bom, cheio do Espírito Santo e
anunciando-lhes o evangelho de fé. E muita gente se uniu
do Senhor Jesus. A mão do ao Senhor. E partiu Barnabé
Senhor estava com eles, e para Tarso à procura de Saulo;
muitos, crendo, se conver­ tendo-o encontrado, levou-o
teram ao Senhor. para Antioquia. E por todo um
ano se reuniram naquela igre­
ja , e ensinaram numerosa mul­
tidão. Em Antioquia foram os
discípulos pela primeira vez
chamados cristãos.

Atos 12.24 — Entretanto a palavra do Senhor crescia e se


multiplicava.
Atos 13.5a — Chegados a
Salamina, anunciavam a pala­
vra de Deus nas sinagogas
judaicas...
Atos 13.13-16, 42-44 - E,
navegando de Pafos, Paulo e
seus companheiros dirigiram-
se a Perge da Panfília. João,
porém, apartando-se deles,
voltou para Jerusalém. Mas
eles, atravessando de Perge
para a Antioquia da Pisídia,
indo num sábado à sinagoga,
assentaram-se. Depois da lei­
tura da lei e dos profetas, os
chefes da sinagoga mandaram
dizer-lhes: Irmãos, se tendes
alguma palavra de exortação
para o povo, dizei-a.
Paulo, levantando-se e fazen­
do com a mão sinal de silên­
cio, disse: Varões israelitas, e
vós outros que também temeis
a Deus, ouvi: [...].
Ao saírem eles, rogaram-lhes
que no sábado seguinte fa­
lassem estas mesmas palavras.
Despedida a sinagoga, muitos
dos judeus e dos prosélitos
piedosos seguiram a Paulo e a
Barnabé, e estes, falando-lhes,
os persuadiam a perseverar na
graça de Deus.
No sábado seguinte, afluiu
quase toda a cidade para ouvir
a palavra de Deus.
Atos 13.45-49 — Mas os judeus, E p ís to la d e T iago
vendo as multidões, tomaram- Tiago 3.1, 2 — Meus irmãos,
se de inveja e, blasfemando, não vos torneis, muitos de
contradiziam o que Paulo fa­ vós, mestres, sabendo que
lava. Então Paulo e Barnabé, havemos de receber maior
falando ousadamente disseram: juízo. Porque todos trope­
Cumpria que a vós outros em çamos em muitas cousas. Se^
primeiro lugar fosse pregada a alguém não tropeça no falar é
palavra de Deus; mas, posto perfeito varão, capaz de
que a rejeitais e a vós mesmos refrear também todo o seu
vos julgais indignos da vida corpo.
eterna, eis aí que nos volve­
mos para os gentios. Porque o
Senhor assim no-lo determi­
nou:

Eu te constituí para luz


dos gentios, a fim de que
sejas para salvação até
aos confins da terra.

Os gentios, ouvindo isto, re­


gozijavam-se e glorificavam a
palavra do Senhor, e creram
todos os que haviam sido
destinados para a vida eterna.
E divulgava-se a palavra do
Senhor por toda aquela região.
Atos 14 .1 — Em Icônio Paulo e
Barnabé entraram juntos na si­
nagoga judaica, e falaram de
tal modo que veio a crer gran­
de multidão, tanto de judeus
como de gregos.
Atos 14.5-7 — E como surgisse
um tumulto dos gentios e
judeus, associados com as suas
autoridades, para os ultrajar e
apedrejar, sabendo-o eles,
fugiram para Listra e Derbe,
cidades da Licaônia, e circun­
vizinhança, onde anunciavam
o evangelho.
Atos 14.19-21 a — Sobrevieram, Atos 14.216-23 — ... voltaram
porém, judeus de Antioquia e para Listra, e Icônio e
Icônio e, instigando as mul­ Antioquia, fortalecendo as
tidões e apedrejando a Paulo, almas dos discípulos, exor­
arrastaram-no para fora da ci­ tando-os a permanecer firmes
dade dando-o por morto. Ro­ na fé; e mostrando que, atra­
deando-o, porém, os dis­ vés de muitas tribulações, nos
cípulos, levantou-se e entrou importa entrar no reino de
na cidade. No dia seguinte Deus. E, promovendo-lhes em
partiu com Barnabé para Der­ cada igreja a eleição de pres­
be. E, tendo anunciado o bíteros, depois de orar com
evangelho naquela cidade, e jejuns, os encomendaram ao
feito muitos discípulos ... Senhor em quem haviam
crido.
Atos 14.25 — E, tendo Atos 14.26-28 — ... e dali
anunciado a palavra em Perge, navegaram para Antioquia
desceram a Atália. onde tinham sido reco­
mendados à graça de Deus
para a obra que haviam já
cumprido. Ali chegados, reu­
nida a igreja, relataram quan­
tas coisas fizera Deus com
eles, e como abrira aos gentios
a porta da fé. E permaneceram
não pouco tempo com os dis­
cípulos.
Atos 15.2-4 — Tendo havido,
da parte de Paulo e Barnabé,
contenda e não pequena dis­
cussão com eles, resolveram
que esses dois e alguns outros
dentre eles subissem a Jeru­
salém, aos apóstolos e pres­
bíteros, com respeito a esta
questão. Enviados, pois, e até
certo ponto acompanhados pe^
la igreja, atravessaram as pro­
víncias da Fenícia e Samaria
e, narrando a conversão dos
gentios, causaram grande ale­
gria a todos os irmãos. Tendo
eles chegado a Jerusalém, fo­
ram bem recebidos pela igreja,
pelos apóstolos e pelos pres­
bíteros, e relataram tudo o que
Deus fizera com eles.

Gálatas 6.10a — Por isso, en­ A EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


quanto tivermos oportuni­ Atos 15.22-23«, 30-32. Então
dade, façamos o bem a to pareceu bem aos apóstolos e
dos... aos presbíteros, com toda a
igreja, tendo elegido homens
dentre eles, enviá-los, jun­
tamente com Paulo e Barnabé,
a Antioquia: foram Judas,
chamado Barsabás, e Silas,
homens notáveis entre os ir­
mãos, escrevendo por mão
deles [...].
Os que foram enviados
desceram logo para Antioquia
e, tendo reunido a comuni­
dade, entregaram a epístola.
Quando a leram sobremaneira
se alegraram, pelo conforto re­
cebido. Judas e Silas, que
eram também profetas, conso­
laram os irmãos com muitos
conselhos e os fortaleceram.
Atos 15.35 — Paulo e Barnabé demoraram-se em Antioquia,
ensinando e pregando, com muitos outros, a palavra do Senhor.

Atos 15.36, 40, 41 — Alguns


dias depois, disse Paulo a
Barnabé: Voltemos agora para
visitar os irmãos por todas as
cidades, nas quais anunciamos
a palavra do Senhor, para ver
como passam [...]. Mas Paulo,
tendo escolhido a Silas, partiu
encomendado pelos irmãos à
graça do Senhor. E passou
pela Síria e Cilicia, confir­
mando as igrejas.
Atos 16.4—5« — Ao passar
pelas cidades, entregavam aos
irmãos, para que observassem,
as decisões tomadas pelos
apóstolos e presbíteros de
Jerusalém. Assim as igrejas
eram fortalecidas na fé...
Atos 16.56. ... e aumentavam
em número dia a dia.
Atos 16.10 — Assim que teve a
visão, imediatamente procu­
ramos partir para aquele
destino, concluindo que Deus
nos havia chamado para lhes
anunciar o evangelho.
Atos 16.13 — Quando foi
sábado, saímos da cidade para
junto do rio, onde nos pareceu
haver um lugar de oração; e,
assentando-nos, falamos às
mulheres que para ali tinham
concorrido.
Atos 16.31,32 — Responderam- Atos 16.33, 34, 40. Naquela
lhe: Crê no Senhor Jesus, e mesma hora da noite,
serás salvo, tu e tua casa. E cuidando deles, lavou-lhes os
lhe pregaram a palavra de vergões dos açoites. A seguir
Deus, e a todos os de sua foi ele batizado, e todos os
casa. seus. Então, levando-os para a
sua própria casa lhes pôs a
mesa; e, com todos os seus,
manifestava grande alegria,
por terem crido em Deus [...].
Tendo-se retirado do cárcere,
dirigiram-se para a casa de
Lídia e, vendo os irmãos, os
confortavam. Então partiram.

Atos 17.2-4 — Paulo, segundo o A S EPÍSTOLAS AOS


seu costume, foi procurá-los, e TESSALONICENSES
por três sábados arrazoou com (escrita em Corinto)
eles, acerca das Escrituras,
expondo e demonstrando ter 1 Tessalonicenses 2.76-12. ...
sido necessário que o Cristo todavia, nos tornamos dóceis
padecesse e ressurgisse dentre entre vós, qual ama que
os mortos; e que este é o acaricia os próprios filhos;
Cristo, Jesus, que eu vos assim querendo-vos muito,
anuncio. Alguns deles foram estávamos prontos a oferecer-
persuadidos e unidos a Paulo e vos, não somente o evangelho
Silas, bem como numerosa de Deus, mas, igualmente, a
multidão de gregos piedosos e nossa própria vida, por isso
muitas distintas mulheres. que vos tornastes muito ama­
1 Tessalonicenses 1.5-10 — ... dos de nós. Porque, vos recor­
porque o nosso evangelho não dais, irmãos, do nosso labor e
chegou até vós tão-somente em fadiga; e de como, noite e dia
palavra, mas sobretudo em labutando para não vivermos à
poder, no Espírito Santo e em custa de nenhum de vós, vos
plena convicção, assim como proclamamos o evangelho de
sabeis ter sido o nosso Deus. Vós e Deus sois teste­
procedimento entre vós, e por munhas do modo por que pie-
amor de vós. Com efeito vos dosa, justa e irrepreen­
tornastes imitadores nossos e sivelmente procedemos em
do Senhor, tendo recebido a relação a vós outros que
palavra, posto que em meio de credes. E sabeis, ainda, de que
muita tribulação, com alegria maneira, como pai a seus
no Espírito Santo, de sorte que filhos, a cada um de vós,
vos tornastes o modelo para exortamos, consolamos e
todos os crentes na Macedônia admoestamos, para viverdes
e na Acaia. Porque de vós por modo digno de Deus, que
repercutiu a palavra do vos chama para o seu reino e
Senhor, não só na Macedônia glória.
e Acaia, mas por toda parte se 1 Tessalonicenses 3.1-5 — Pelo
divulgou a vossa fé para com que, não podendo suportar
Deus, a tal ponto de não mais o cuidado por vós,
termos necessidade de acres­ p arec eu -n o s bem fic a r
centar cousa alguma; pois eles sozinhos em Atenas; e en­
mesmos, no tocante a nós, viamos nosso irmão Timóteo,
proclamam que repercussão ministro de Deus no evangelho
teve o nosso ingresso no vosso de Cristo, para, em benefício
meio, e como, deixando os da vossa fé, confirmar-vos e
ídolos, vos convertestes a exortar-vos; a fim de que
Deus, para servirdes o Deus ninguém se inquiete com estas
vivo e verdadeiro, e para tribulações. Porque vós
aguardardes dos céus o seu mesmos sabeis que estamos
Filho, a quem ele ressuscitou designados para isto; pois,
dentre os mortos, Jesus, que quando ainda estávamos con­
nos livra da ira vindoura. vosco, predissemos que íamos
ser afligidos, o que de fato
aconteceu, e é do vosso conhe­
cimento. Foi por isso que, já
não me sendo possível conti­
nuar esperando, mandei inda­
gar o estado da vossa fé, te­
mendo que o tentador vos pro­
vasse, e se tornasse inútil o
nosso labor.
2 Tessalonicenses 3.1 — 1 Tessalonicenses 3.10-13 — ...
Finalmente, irmãos, orai por orando noite e dia, com
nós, para que a palavra do máximo empenho, para vos
Senhor se propague, e seja ver pessoalmente, e reparar as
glorificada, como também está deficiências da vossa fé?
acontecendo entre vós. Ora, o nosso mesmo Deus e
Pai, com Jesus, nosso Senhor,
dirijam-nos o caminho até vós,
e o Senhor vos faça crescer,
aumentar no amor uns para
com os outros e para com
todos, como também nós para
convosco; a fim de que sejam
os vossos corações confir­
mados em santidade, isentos
de culpa, na presença de nosso
Deus e Pai, na vinda de nosso
Senhor Jesus, com todos os
seus santos.
1 Tessalonicenses 5.11 —
Consolai-vos, pois, uns aos
outros, e edificai-vos reci­
procamente, como também es­
tais fazendo.
1 Tessalonicenses 5.14, 15 —
Exortamo-vos, também, ir­
mãos, a que admoesteis os
insubmissos, consoleis os de­
sanimados, ampareis os fracos,
e sejais longânimos para com
todos. Evitai que alguém retri­
bua a outrem mal por mal; pe­
lo contrário, segui sempre o
bem, entre vós, e para com
todos.
Atos 17.10 -12 - E logo,
durante a noite, os irmãos
enviaram Paulo e Silas para
Beréia; ali chegados, diri­
giram-se à sinagoga dos ju ­
deus. Ora, estes de Beréia
eram mais nobres que os de
Tessalônica; pois receberam a
palavra com toda a avidez,
examinando as Escrituras
todos os dias para ver se as
coisas eram de fato assim.
Com isso muitos deles creram,
mulheres gregas de alta po­
sição, e não poucos homens.
Atos 17.16, 17 — Enquanto
Paulo os esperava em Atenas,
o seu espírito se revoltava, em
face da idolatria dominante na
cidade. Por isso dissertava na
sinagoga entre os judeus e os
gentios piedosos; também na
praça todos os dias, entre os
que se encontravam ali.
Atos 17.22-31 (Sermão de Paulo
em Atenas)
Atos 17.34 — Houve, porém,
alguns homens que se agre­
garam a ele, e creram; entre
eles estava Dionísio, o areo-
pagita, uma mulher chamada
Dâmaris e com eles outros
mais.
Atos 18.4, 5 — E [em Corinto]
todos os sábados discorria na
sinagoga, persuadindo tanto
judeus, como gregos.
Quando Silas e Timóteo des­
ceram da Macedônia, Paulo se
entregou totalmente à palavra,
testemunhando aos judeus que
o Cristo é Jesus.

Atos 18.8-11 — Mas Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor,


com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, criam
e eram batizados. Teve Paulo durante a noite uma visão em que o
Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales;
porquanto eu estou contigo e ninguém ousará fazer-te mal, pois
tenho muito povo nesta cidade. E ali permaneceu um ano e seis
meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.

A S EPÍSTOLAS AOS CORÍNTIOS


(Escritas em Éfeso e na
Macedônia)

1 Coríntios 1.17 — Porque não 1 Coríntios 1.10 — Rogo-vos,


me enviou Cristo para batizar, irmãos, pelo nome de nosso
mas para pregar o evangelho; Senhor Jesus Cristo, que faleis
não com sabedoria de palavra, todos a mesma cousa, e que
para que se não anule a cruz não haja entre vós divisões;
de Cristo. antes sejais inteiramente uni­
dos, na mesma disposição
mental e no mesmo parecer.
1 Coríntios 1.21-24. Visto 1 Coríntios 4.17. Por esta causa
como, na sabedoria de Deus, o vos mandei Timóteo, que é
mundo não o conheceu por sua meu filho amado e fiel no
própria sabedoria, aprouve a Senhor, o qual vos lembrará
Deus salvar aos que crêem, os meus caminhos em Cristo
pela loucura da pregação. Jesus, como por toda parte
Porque tanto os judeus pedem ensino em cada igreja.
sinais, como os gregos buscam
sabedoria; mas nós pregamos
a Cristo crucificado, escândalo
para os judeus, loucura para
os gentios; mas para os que
foram chamados, tanto judeus
como gregos, pregamos a
Cristo, poder de Deus e sabe­
doria de Deus.
1 Coríntios 2.1-5. Eu, irmãos,
quando fui ter convosco,
anunciando-vos o testemunho
de Deus, não o fiz com osten­
tação de linguagem, ou de sa­
bedoria. Porque decidi nada
saber entre vós, senão a Jesus
Cristo, e este crucificado. E
foi em fraqueza, temor e gran­
de tremor que eu estive entre
vós. A minha palavra e a mi­
nha pregação não consistiram
em linguagem persuasiva de
sabedoria, mas em demons­
tração do Espírito e de poder,
para que a vossa fé não se
apoiasse em sabedoria huma­
na; e, sim, no poder de Deus.
1 Coríntios 5.9, 10 — Já em
carta vos escrevi que não vos
associásseis com os impuros;
refiro-me com isto não pro­
priamente aos impuros deste
mundo, ou aos avarentos, ou
roubadores, ou idólatras; pois,
neste caso teríeis de sair do
mundo.
1 Coríntios 9.16 — Se anuncio
o evangelho, não tenho de que
me gloriar, pois sobre mim
pesa essa obrigação; porque ai
de mim se não pregar o
evangelho!
1 Coríntios 11.26 — Porque
todas as vezes que comerdes
este pão e beberdes o cálice,
anunciais a morte do Senhor,
até que ele venha.
1 Coríntios 14.23-25 — Se,
pois, toda a igreja se reunir no
mesmo lugar, e todos se
puserem a falar em outras
línguas, no caso de entrarem
indoutos ou incrédulos, não
dirão porventura, que estais
loucos? Porém, se todos
profetizarem, e entrar algum
incrédulo, ou indouto, é ele
por todos convencido, e por
todos julgado; tornam-se-lhe
manifestos os segredos do
coração, e, assim, prostrando-
se com a face em terra,
adorará a Deus, testemunhan­
do que Deus está de fato no
meio de vós.

1 Coríntios 15.58. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes,


inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que,
no Senhor, o vosso trabalho não é vão.

2 Coríntios 1.19. Porque o


Filho de Deus, Cristo Jesus,
que foi por nosso intermédio
anunciado entre vós, isto é,
por mim, e Silvano, e Timó­
teo, não foi sim e não; mas
sempre nele houve o sim.
2 Coríntios 3.2, 3 — Vós sois a
nossa carta, escrita em nossos
corações, conhecida e lida por
todos os homens, estando já
manifestos como carta de
Cristo, produzida pelo nosso
ministério, escrita não com
tinta, mas pelo Espírito do
Deus vivente, não em tábuas
de pedra, mas em tábuas de
carne, isto é, nos corações.
2 Coríntios 4.5 — Porque não
pregamos a nós mesmos, mas
a Cristo Jesus como Senhor, e
a nós mesmos como vossos
servos por amor de Jesus.
2 Coríntios 5.18-20 — Ora,
tudo provém de Deus que nos
reconciliou consigo mesmo por
meio de Cristo, e nos deu o
ministério da reconciliação, a
saber, que Deus estava em
Cristo, reconciliando consigo
o mundo, não imputando aos
homens as suas transgressões,
e nos confiou a palavra da
reconciliação. De sorte que
somos embaixadores em nome
de Cristo, como se Deus exor­
tasse por nosso intermédio.
Em nome de Cristo, pois, ro­
gamos que vos reconcilieis
com Deus.
Atos 18.19-21 — Chegados em Atos 18.22, 23 — Chegando a
Éfeso, deixou-os ali; ele, Cesaréia, desembarcou, subin­
porém, entrando na sinagoga, do a Jerusalém e, tendo sau­
pregava aos judeus. Rogando- dado a igreja, desceu para
lhe eles que permanecesse ali Antioquia. Havendo passado
mais tempo, não acedeu. Mas, ali algum tempo, saiu, atra­
despedindo-se, disse: Se Deus vessando sucessivamente a re­
quiser, voltarei para vós gião da Galácia e Frigia, con­
outros. E, embarcando, partiu firmando todos os discípulos.
de Éfeso.
Atos 18.24-28 — Nesse meio
tempo chegou a Éfeso um
judeu, natural de Alexandria,
chamado Apoio, homem elo­
qüente e poderoso nas Escri­
turas. Ele era instruído no
caminho do Senhor; e, sendo
fervoroso de espírito, falava e
ensinava com precisão a res­
peito de Jesus, conhecendo
apenas o batismo de João. Ele,
pois, começou a falar ousa­
damente na sinagoga. Ouvin­
do-o, porém, Priscila e Áqüi-
la, tomaram-no consigo e,
com mais exatidão, lhe expu­
seram o caminho de Deus.
Querendo ele percorrer a
Acaia, animaram-no os ir­
mãos, e escreveram aos dis­
cípulos para o receberem.
Tendo chegado, auxiliou muito
aqueles que mediante a graça
haviam crido; porque com
grande poder convencia publi­
camente os judeus, provando
por meio das Escrituras que o
Cristo é Jesus.
Atos 19.1-7 — Aconteceu que,
estando Apoio em Corinto,
Paulo, tendo passado pelas
regiões mais altas, chegou a
Éfeso e, achando ali alguns
discípulos, perguntou-lhes:
Recebestes, porventura, o Es­
pírito Santo quando crestes?
Ao que lhe responderam: Pelo
contrário, nem mesmo ouvi­
mos que existe o Espírito San­
to. Então Paulo perguntou:
Em que pois, fostes batizados?
Responderam: No batismo de
João. Disse-lhes Paulo: João
realizou batismo de arre­
pendimento, dizendo ao povo
que cressem naquele que vinha
depois dele, a saber, em Jesus.
Eles, tendo ouvido isto, foram
batizados em o nome do Se­
nhor Jesus. E, impondo-lhes
Paulo as mãos, veio sobre eles
o Espírito Santo; e tanto fa­
lavam em línguas como pro­
fetizavam. Eram ao todo uns
doze homens.
Atos 19.8 — Durante três meses Atos 19.9 — Visto que alguns
Paulo freqüentou a sinagoga deles se mostravam empe­
onde falava ousadamente, dis­ dernidos e descrentes, falando
sertando e persuadindo, com mal do Caminho diante da
respeito ao reino de Deus. multidão, Paulo, apartando-se
deles, separou os discípulos,
passando a discorrer diaria­
mente na escola de Tirano.

Atos 19.10, 20 — Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo
a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor,
tanto judeus como gregos [...]. Assim a palavra do Senhor crescia
e prevalecia poderosamente.
Atos 19.23; 20.1, 2. Por esse
tempo houve grande alvoroço
acerca do Caminho [...].
Cessado o tumulto, Paulo
mandou chamar os discípulos
e, tendo-os confortado, despe­
diu-se e partiu para a Mace-
dônia. Havendo atravessado
aquelas terras, fortalecendo-os
com muitas exortações, diri­
giu-se para a Grécia.

A EPÍSTOLA AOS ROMANOS


Romanos 1.8 — Primeiramente Romanos 1.9-13. Porque Deus,
dou graças a meu Deus a quem sirvo em meu espírito,
mediante Jesus Cristo, no no evangelho de seu Filho, é
tocante a todos vós, porque minha testemunha de como
em todo o mundo é pro­ incessantemente faço menção
clamada a vossa fé. de vós, em todas as minhas
orações, suplicando que nal­
gum tempo, pela vontade de
Deus, se me ofereça boa oca­
sião de visitar-vos. Porque
muito desejo ver-vos, a fim de
repartir convosco algum dom
espiritual, para que sejais
confirmados; isto é, para que,
em vossa companhia, reci­
procamente nos confortemos,
por intermédio da fé mútua,
vossa e minha. Porque não
quero, irmãos, que ignoreis
que muitas vezes me propus ir
ter convosco, no que tenho
sido até agora impedido, para
conseguir igualmente entre vós
algum fruto, como também en­
tre os outros gentios.
Romanos 1.14, 15 — Pois sou devedor tanto a gregos como a
bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes; por isso, quanto está em
mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em
Roma.

Romanos 13.8-10 — A ninguém


fiqueis devendo coisa alguma,
exceto o amor com que vos
ameis uns aos outros: pois
quem ama ao próximo, tem
cumprido a lei. Pois isto:

Não adulterarás, não


matarás, não furtarás,
não cobiçarás,

e se há qualquer outro manda­


mento, tudo nesta palavra se
resume:

Amarás ao teu próximo


como a ti mesmo.

0 amor não pratica o mal


contra o próximo; de sorte que
o cumprimento da lei é o
amor.

Romanos 16.25-27 — Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar


segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme
a revelação do ministério guardado em silêncio nos tempos eternos,
e que agora se tornou manifesto, e foi dado a conhecer por meio das
Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para
a obediência por fé, entre todas as nações, ao Deus único e sábio
seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos
séculos. Amém.
Atos 20.6, 7 — Depois dos dias
dos pães asmos, navegamos de
Filipos e, em cinco dias,
fomos ter com eles naquele
porto, onde passamos uma
semana.
No primeiro dia da semana,
estando nós reunidos com o
fim de partir o pão, Paulo que
devia seguir de viagem no dia
imediato, exortava-os e pro­
longou o discurso até à meia-
noite.
Atos 20.17-21 — De Mileto
mandou a Éfeso chamar os
presbíteros da igreja. E, quan­
do se encontraram com ele,
disse-lhes: Vós bem sabeis co­
mo foi que me conduzi entre
vós em todo o tempo desde o
primeiro dia em que entrei na
Ásia, servindo ao Senhor com
toda a humildade, lágrimas e
provações que, pelas ciladas
dos judeus, me sobrevieram;
jamais deixando de vos anun­
ciar coisa alguma proveitosa, e
de vo-la ensinar publicamente
e também de casa em casa,
testificando tanto a judeus
como a gregos o arrepen­
dimento para com Deus e a fé
em nosso Senhor Jesus [Cris­
to],
Atos 20.22-24 — E agora, Atos 20.25-35 — Agora eu sei
constrangido em meu espírito, que todos vós, em cujo meio
vou para Jerusalém, não passei pregando o reino, não
sabendo o que ali me acon­ vereis mais o meu rosto.
tecerá, senão que o Espírito Portanto eu vos protesto, no
Santo, de cidade em cidade, dia de hoje, que estou limpo
me assegura que me esperam do sangue de todos; porque
cadeias e tribulações. Porém, jamais deixei de vos anunciar
em nada considero a vida pre­ todo o desígnio de Deus.
ciosa para mim mesmo, con­ Atendei por vós e por todo o
tanto que complete a minha rebanho sobre o qual o Espí­
carreira e o ministério que rito santo vos constituiu
recebi do Senhor Jesus para bispos, para pastoreardes a
testemunhar o evangelho da igreja de Deus, a qual ele
graça de Deus. comprou com o seu próprio
sangue. Eu sei que, depois da
minha partida, entre vós pene­
trarão lobos vorazes que não
pouparão o rebanho. E que,
dentre vós mesmos, se levan­
tarão homens falando cousas
pervertidas para arrastar os
discípulos atrás deles. Por­
tanto, vigiai, lembrando-vos
de que por três anos, noite e
dia, não cessei de admoestar,
com lágrimas, a cada um.
Agora, pois, encomendo-vos
ao Senhor e à palavra da sua
graça, que tem poder para vos
edificar e dar herança entre
todos os que são santificados.
De ninguém cobicei prata,
nem ouro, nem vestes; vós
mesmos sabeis que estas mãos
serviram para o que me era
necessário a mim e aos que
estavam comigo. Tenho-vos
mostrado em tudo que, tra-
balhando assim, é mister
socorrer aos necessitados, e
recordar as palavras do pró­
prio Senhor Jesus: Mais bem-
aventurado é dar que receber.
Atos 22 (Testemunho de Paulo
em Jerusalém)
Atos 23 (Testemunho de Paulo
diante do Sinédrio)
Atos 24 (Testemunho de Paulo
diante de Félix)
Atos 25 (Testemunho de Paulo
diante de Festo)
Atos 26 (Testemunho de Paulo
diante de Agripa)
Atos 27 (Paulo navega para
Roma)
As EPÍSTOLAS DA PRISÃO
Atos 28.23, 24 — Havendo-lhe FlLEM O M
eles marcado um dia, vieram EFÉSIOS
em grande número ao encontro Efésios 1.15-19a; 3.14-19 -
de Paulo na sua própria Por isso também eu, tendo
residência. Então, desde a ouvido a fé que há entre vós
manhã até à tarde, lhes fez no Senhor Jesus, e o amor
uma exposição em testemunho para com todos os santos, não
do reino de Deus, procurando cesso de dar graças por vós,
persuadi-los a respeito de fazendo menção de vós nas
Jesus, tanto pela lei de minhas orações, para que o
Moisés, como pelos profetas. Deus de nosso Senhor Jesus
Houve alguns que ficaram Cristo, o Pai da glória, vos
persuadidos pelo que ele dizia; conceda espírito de sabedoria
outros, porém, continuaram e de revelação no pleno conhe­
incrédulos. cimento dele, iluminados os
Atos 28.30, 31 — Por dois anos olhos do vosso coração, para
permaneceu Paulo na sua pró­ saberdes qual é a esperança do
pria casa, que alugara, onde seu chamamento, qual a ri­
recebia a todos que o pro- queza da glória da sua herança
curavam, pregando o reino de nos santos, e qual a suprema
Deus, e, com toda a intre­ grandeza do seu poder para
pidez, sem impedimento al­ com os que cremos [...].
gum, ensinava as cousas refe­ Por esta causa me ponho de
rentes ao Senhor Jesus Cristo. joelhos diante do Pai, de quem
Efésios 3.8, 9 — A mim, o toma o nome toda família,
menor de todos os santos, me tanto no céu como sobre a
foi dada esta graça de pregar terra, para que, segundo a
aos gentios o evangelho das riqueza da sua glória, vos
insondáveis riquezas de Cristo, conceda que sejais fortalecidos
e manifestar qual seja a com poder, mediante o seu
dispensação do mistério, desde Espírito no homem interior; e
os séculos oculto em Deus, assim habite Cristo nos vossos
que criou todas as cousas... corações, pela fé, estando vós
arraigados e alicerçados em
amor, a fim de poderdes com­
preender, com todos os santos,
qual é a largura, e o compri­
mento, e a altura, e a profun­
didade, e conhecer o amor de
Cristo que excede todo enten­
dimento, para que sejais toma­
dos de toda a plenitude de
Deus.
Efésios 2,19-22. Assim já não
sois estrangeiros e peregrinos,
mas concidadãos dos santos, e
sois da família de Deus; edi­
ficados sobre o fundamento
dos apóstolos e profetas, sendo
ele mesmo, Cristo Jesus, a
pedra angular; no qual todo
edifício, bem ajustado, cresce
para santuário dedicado ao
Senhor, no qual também vós
juntamente estais sendo edi­
ficados para habitação de Deus
no Espírito.
Efésios 4.11-16 — E ele mesmo
concedeu uns para apóstolos,
outros para profetas, outros
para evangelistas, e outros
para pastores e mestres, com
vistas ao aperfeiçoamento dos
santos para o desempenho do
seu serviço, para a edificação
do corpo de Cristo, até que
todos cheguemos à unidade da
fé e do pleno conhecimento do
Filho de Deus, à perfeita
varonilidade, à medida da esta­
tura da plenitude de Cristo,
para que não mais sejamos
como meninos, agitados de um
lado para outro, e levados ao
redor por todo vento de
doutrina, pela artimanha dos
homens, pela astúcia com que
induzem ao erro. Mas, seguin­
do a verdade em amor, cresça­
mos em tudo naquele que é o
cabeça, Cristo, de quem todo
o corpo, bem ajustado e con­
solidado, pelo auxílio de toda
junta, segundo a justa coope­
ração de cada parte, efetua o
seu próprio aumento para a
edificação de si mesmo em
amor.
Efésios 6.1-4 — Filhos,
obedecei a vossos pais no
Senhor, pois isto é justo.
Honra a teu pai e a tua mãe
(que é o primeiro mandamento
com promessa), para que te vá
bem, e sejas de longa vida
sobre a terra.
E vós, pais, não provoqueis
vossos filhos à ira, mas criai-
os na disciplina e na admoes­
tação do Senhor.

C olossenses
Colossenses 1.9-12. Por esta
razão, também nós, desde o
dia em que o ouvimos, não
cessamos de orar por vós, e de
pedir que transbordeis de
pleno conhecimento da sua
vontade, em toda a sabedoria e
entendimento espiritual; a fim
de viverdes de modo digno do
Senhor, para o seu inteiro
agrado, frutificando em toda
boa obra, e crescendo no
pleno conhecimento de Deus;
sendo fortalecidos com todo o
poder, segundo a força da sua
glória, em toda a perseverança
e longanimidade; com alegria,
dando graças ao Pai que vos
fez idôneos à parte que vos
cabe na herança dos santos na
luz.
Colossenses 1.25-29 — ... da
qual [igreja] me tornei minis­
tro de acordo com a dispensa-
ção da parte de Deus, que me
foi confiada a vosso favor,
para dar pleno cumprimento à
palavra de Deus: O mistério
que estivera oculto dos séculos
e das gerações; agora, todavia,
se manifestou aos seus santos;
aos quais Deus quis dar a
conhecer qual seja a riqueza
da glória deste mistério entre
os gentios, isto é, Cristo em
vós, a esperança da glória; o
qual nós anunciamos, adver­
tindo a todo homem e ensi­
nando a todo homem em toda
a sabedoria, a fim de que
apresentemos todo homem
perfeito em Cristo; para isso é
que eu também me afadigo,
esforçando-me o mais pos­
sível, segundo a sua eficácia
que opera eficientemente em
mim.
Colossenses 4.5, 6 — Portai-vos Colossenses 2.2-5 — ... para que
com sabedoria para com os os seus corações sejam con­
que são de fora; aproveitai as fortados, vinculados junta­
oportunidades. A vossa pala­ mente em amor, e tenham toda
vra seja sempre agradável, riqueza da forte convicção do
temperada com sal, para sa­ entendimento, para compreen­
berdes como deveis responder derem plenamente o mistério
a cada um. de Deus, Cristo, em quem to­
dos os tesouros da sabedoria e
do conhecimento estão ocultos.
Assim digo para que ninguém
vos engane com raciocínios
falazes. Pois, embora ausente
quanto ao corpo, contudo em
espírito estou convosco,
alegrando-me, e verificando a
vossa boa ordem e a firmeza
da vossa fé em Cristo.
Colossenses 3.16 — Habite
ricamente em vós a palavra de
Cristo; instruí-vos e acon­
selhai-vos mutuamente em
toda a sabedoria, louvando a
Deus, com salmos e hinos e
cânticos espirituais, com gra­
tidão, em vossos corações.
Colossenses 3.18-23 — Esposas,
sede submissas aos próprios
maridos, como convém no Se­
nhor. Maridos, amai a vossas
esposas, e não as trateis com
amargura. Filhos, em tudo
obedecei a vossos pais; pois
fazê-lo é grato diante do Se­
nhor. Pais, não irriteis os vos­
sos filhos, para que não fi­
quem desanimados. Servos,
obedecei em tudo aos vossos
senhores segundo a carne, não
servindo apenas sob vigilância,
visando tão-somente agradar
homens, mas em singeleza de
coração, temendo ao Senhor.
Tudo quanto fizerdes, fazei-o
de todo o coração, como para
o Senhor, e não para ho­
mens...

F ilipenses
Filipenses 1.12-14 — Quero
ainda, irmãos, cientificar-vos
de que as coisas que me
aconteceram têm antes con­
tribuído para o progresso do
evangelho; de maneira que as
minhas cadeias, em Cristo, se
tornaram conhecidas de toda a
guarda pretoriana e de todos
os demais; e a maioria dos
irmãos, estimulados no Senhor
por minhas algemas, ousam
falar com mais desassombro a
palavra de Deus.

Filipenses 1.27, 28 — Vivei, acima de tudo, por modo digno do


evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos, ou estando ausente,
ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito,
como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica; e que em
nada estais intimidados pelos adversários. Pois o que é para eles
prova evidente de perdição, é, para vós outros, de salvação, e isto
da parte de Deus.

Filipenses 2.1-4 — Se há, pois,


alguma exortação em Cristo,
alguma consolação de amor,
alguma comunhão do Espírito,
se há entranhados afetos e
misericórdias, completai a
minha alegria de modo que
penseis a mesma cousa, te­
nhais o mesmo amor, sejais
unidos de alma, tendo o mes­
mo sentimento. Nada façais
por partidarismo, ou van­
glória, mas por humildade,
considerando cada um os ou­
tros superiores a si mesmo.
Não tenha cada um em vista o
que é propriamente seu, senão
também cada qual o que é dos
outros.
Filipenses 2.19-24 — Espero,
porém, no Senhor Jesus, man­
dar-vos Timóteo, o mais breve
possível, a fim de que eu me
sinta animado também, tendo
conhecimento da vossa si­
tuação. Porque a ninguém te­
nho de igual sentimento, que
sinceramente cuide dos vossos
interesses; pois todos eles
buscam o que é seu próprio,
não o que é de Cristo Jesus. E
conheceis o seu caráter
provado, pois serviu ao evan­
gelho, junto comigo, como fi­
lho ao pai. Este, com efeito, é
quem espero enviar, tão logo
tenha eu visto a minha situa­
ção. E estou persuadido no
Senhor de que também eu
mesmo brevemente irei.
Filipenses 4.9 — O que também
aprendestes, e recebestes, e
ouvistes, e vistes em mim,
isso praticai; e o Deus da paz
será convosco.

As EPÍSTOLAS PASTORAIS
1 T im ó t e o
1 Timóteo 2.X-7 — Antes de 1 Timóteo 1.3-7 — Quando eu
tudo, pois, exorto que se use a estava de viagem, rumo da
prática de súplicas, orações, Macedônia, te roguei que per­
intercessões, ações de graça, manecesses ainda em Éfeso
em favor de todos os homens, para admoestares a certas pes­
em favor dos reis e de todos soas a fim de que não ensinem
os que se acham investidos de outra doutrina, nem se ocupem
autoridade, para que vivamos com fábulas e genealogias sem
vida tranqüila e mansa, com fim, que antes promovem dis­
toda piedade e respeito. Isto é cussões do que o serviço de
bom e aceitável diante de Deus Deus, na fé. Ora, o intuito da
nosso Salvador, o qual deseja presente admoestação visa o
que todos os homens sejam amor que procede de coração
salvos e cheguem ao pleno puro e de consciência boa e de
conhecimento da verdade. fé sem hipocrisia. Desviando-
Porquanto há um só Deus e se algumas pessoas destas cou­
um só Mediador entre Deus e sas perderam-se em loquaci­
os homens, Cristo Jesus, ho­ dade frívola, pretendendo pas­
mem. O qual a si mesmo se sar por mestres da lei, não
deu em resgate por todos: tes­ compreendendo, todavia, nem
temunho que se deve prestar o que dizem, nem os assuntos
em tempos oportunos. Para is­ sobre os quais fazem ousadas
to fui designado pregador e asseverações.
apóstolo (afirmo a verdade, 1 Timóteo 4.11-16 — Ordena e
não minto), mestre dos gentios ensina estas cousas. Ninguém
na fé e na verdade. despreze a tua mocidade; pelo
contrário, torna-te padrão dos
fiéis, na palavra, no enten­
dimento, no amor, na fé, na
pureza. Até à minha chegada,
aplica-te à leitura, à exortação,
ao ensino. Não te faças negli­
gente para com o dom que há
em ti, o qual te foi concedido
mediante profecia, com a
imposição das mãos do pres­
bitério. Medita estas cousas, e
nelas sê diligente, para que o
teu progresso a todos seja
manifesto. Tem cuidado de ti
mesmo e da doutrina. Conti­
nua nestes deveres; porque,
fazendo assim, salvarás tanto a
ti mesmo como aos teus ouvin­
tes.
1 Timóteo 5.17 — Devem ser
considerados merecedores de
dobrados honorários os pres­
bíteros que presidem bem,
com especialidade os que se-
afadigam na palavra e no enf
sino.
1 Timóteo 6.1 — Todos os ser­
vos que estão debaixo de jugo
considerem dignos de toda
honra os seus próprios senho­
res, para que o nome de Deus
e a doutrina não sejam blas­
femados.
1 Timóteo 6.2 — Também os
que têm senhores fiéis não os
tratem com desrespeito, por­
que são irmãos; pelo contrá­
rio, trabalhem ainda mais, pois
eles, que partilham do seu
bom serviço, são crentes e
amados. Ensina e recomenda
estas cousas.

2 T im ó t e o
2 Timóteo 1.6 -11 — Por esta
razão, pois, te admoesto que
reavives o dom de Deus, que
há em ti pela imposição das
minhas mãos. Porque Deus
não nos tem dado espírito de
covardia, mas de poder, de
amor e de moderação. Não te
envergonhes, portanto, do tes­
temunho de nosso Senhor,
nem do seu encarcerado que
sou eu; pelo contrário, par-
ticipa comigo dos sofrimentos,
a favor do evangelho, segundo
o poder de Deus, que nos sal­
vou e nos chamou com santa
vocação; não segundo as nos­
sas obras, mas conforme a sua
própria determinação e graça
que nos foi dada em Cristo Je­
sus antes dos tempos eternos,
e manifestada agora pelo apa­
recimento de nosso Salvador
Cristo Jesus, o qual não só
destruiu a morte, como trouxe
à luz a vida e a imortalidade,
mediante o evangelho, para o
qual eu fui designado pre­
gador, apóstolo e mestre...
2 Timóteo 2.2 — E o que de
minha parte ouviste, através de
muitas testemunhas, isso mes­
mo transmite a homens fiéis e
também idôneos para instruir a
outros.
2 Timóteo 3.14-17 — Tu,
porém, permanece naquilo que
aprendeste, e de que foste
inteirado, sabendo de quem o
aprendeste. E que desde a
infância sabes as sagradas
letras que podem tornar-te
sábio para a salvação pela fé
em Cristo Jesus. Toda Escri­
tura é inspirada por Deus e
útil para o ensino, para a
repreensão, para a correção,
para a educação na justiça, a
fim de que o homem de Deus
seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra.
2 Timóteo 4.4, 5 — ... e se 2 Timóteo 4.1, 2 — Conjuro-
recusarãt^ a dar ouvidos à te, perante Deus e Cristo Jesus
verdade, entregando-se às fá­ que há de julgar vivos e mor­
bulas. Tu, porém, sê sóbrio tos, pela sua manifestação e
em todas as cousas, suporta as pelo seu reino: prega a pala­
aflições, faze o trabalho de vra, insta, quer seja oportuno,
evangelista, cumpre cabalmen­ quer não, corrige, repreende,
te o teu ministério. exorta com toda a longanimi­
dade e doutrina.

Tito
Tito 1.5 — Por esta causa te
deixei em Creta para que
pusesses em ordem as coisas
restantes, bem como, em cada
cidade, constituísses presbí­
teros, conforme te prescrevi...
Tito 2.1-15 — Tu, porém, fala o
que convém à sã doutrina:
Quanto aos homens idosos,
que sejam temperantes, respei­
táveis, sensatos, sadios na fé,
no amor e na constância.
Quanto às mulheres idosas,
semelhantemente, que sejam
sérias em seu proceder, não
caluniadoras, não escravizadas
a muito vinho; sejam mestras
do bem, a fim de instruírem as
jovens recém-casadas a ama­
rem a seus maridos e a seus fi­
lhos, a serem sensatas, hones­
tas, boas donas de casa, bon­
dosas, sujeitas a seus próprios
maridos, para que a palavra de
Deus não seja difamada.
Quanto aos moços, de igual
modo, exorta-os para que, em
todas as cousas, sejam cri­
teriosos. Torna-te, pessoal­
mente, padrão de boas obras.
No ensino, mostra integridade,
reverência, linguagem sadia e
irrepreensível, para que o
adversário seja envergonhado
não tendo indignidade nenhu­
ma que dizer a nosso respeito.
Quanto aos servos, que sejam,
em tudo, obedientes aos seus
próprios senhores, dando-lhes
motivo de satisfação; não se­
jam respondões, não furtem;
pelo contrário, dêem prova de
toda a fidelidade, a fim de
ornarem, em todas as cousas,
a doutrina de Deus, nosso
Salvador.
Porquanto a graça de Deus
se manifestou salvadora a
todos os homens, educando-
nos para que, renegadas a
impiedade e as paixões mun­
danas, vivamos no presente
século, sensata, justa e pie­
dosamente, aguardando a ben­
dita esperança e a manifes­
tação da glória do nosso gran­
de Deus e Salvador Cristo Je­
sus, o qual a si mesmo se deu
por nós, a fim de remir-nos de
toda iniqüidade, e purificar
para si mesmo um povo exclu-
sivamente seu, zeloso de boas
obras.
Dize estas cousas; exorta e
repreende também com toda a
autoridade. Ninguém te des­
preze.

O utras epístolas
H ebreus , P edro e J oão
Hebreus 3.12-14 — Tende
cuidado, irm ãos, jam ais
aconteça haver em qualquer de
vós perverso coração de incre­
dulidade que vos afaste do
Deus vivo; pelo contrário,
exortai-vos mutuamente cada
dia, durante o tempo que se
chama Hoje, a fim de que
nenhum de vós seja endure­
cido pelo engano do pecado.
Porque nos temos tornado par­
ticipantes de Cristo, se de fato
guardarmos firme até o fim a
confiança que desde o princí­
pio tivemos.
Hebreus 5.12-14 — Pois, com
efeito, quando devíeis ser
mestres, atendendo ao tempo
decorrido, tendes novamente
necessidade de alguém que vos
ensine de novo quais são os
princípios elementares dos
oráculos de Deus; assim vos
tornastes como necessitados de
leite, e não de alimento sólido.
Ora, todo aquele que se ali­
menta de leite, é inexperiente
na palavra da justiça, porque é
criança. Mas o alimento sólido
é para os adultos, para aqueles
que, pela prática, têm as suas
faculdades exercitadas para
discernir não somente o bem,
mas também o mal.
Hebreus 6.1 — Por isso, pondo
de parte os princípios ele­
mentares da doutrina de Cris­
to, deixemo-nos levar para o
que é perfeito, não lançando
de novo a base do arrepen­
dimento de obras mortas, e da
fé em Deus.
Hebreus 10.24, 25 — Conside-
remo-nos também uns aos ou­
tros, para nos estimularmos ao
amor e às boas obras. Não
deixemos de congregar-nos,
como é costume de alguns; an­
tes, façamos admoestações, e
tanto mais quanto vedes que o
dia se aproxima.

I Pedro 2.12 — ... mantendo 1 P edro


exemplar o vosso procedi­ 1 Pedro 2.1-5 — Despojando-
mento no meio dos gentios, vos, portanto, de toda maldade
para que, naquilo que falam e dolo, de hipocrisias e
contra vós outros como de invejas, e de toda sorte de
malfeitores, observando-vos maledicências, desejai arden­
em vossas boas obras, glori­ temente, como crianças recém-
fiquem a Deus no dia da visi­ nascidas, o genuíno leite espi­
tação. ritual, para que por ele vos
1 Pe 2.18 — Servos, sede seja dado crescimento para sal­
submissos, com todo o temor vação, se é que já tendes a
aos vossos senhores, não so- experiência de que o Senhor é
mente aos bons e cordatos, bondoso. Chegando-vos para
mas também aos perversos... ele, a pedra que vive, rejei­
1 Pedro 3 .1, 2 — Mulheres, tada, sim , pelos homens, mas
sede vós, igualmente, submis­ para com Deus eleita e precio­
sas a vossos próprios maridos, sa, também vós mesmos, co­
para que, se alguns deles ainda mo pedras que vivem, sois
não obedecem à palavra, sejam edificados casa espiritual para
ganhos, sem palavra alguma, serdes sacerdócio santo, a fim
por meio do procedimento de de oferecerdes sacrifícios espi­
suas esposas, ao observarem o rituais, agradáveis a Deus por
vosso honesto comportamento intermédio de Jesus Cristo.
cheio de temor. 1 Pedro 4.10, 1 1 — Servi uns
1 Pedro 3.15 — ... antes, san­ aos outros, cada um conforme
tificai a Cristo, como Senhor, o dom que recebeu, como
em vossos corações, estando bons despenseiros da multi­
sempre preparados para res­ forme graça de Deus. Se al­
ponder a todo aquele que vos guém fala, fale de acordo com
pedir razão da esperança que os oráculos de Deus; se al­
há em vós... guém serve, faça-o na força
que Deus supre, para que em
todas as cousas seja Deus glo­
rificado, por meio de Jesus
Cristo, a quem pertence a gló­
ria e o domínio pelos séculos
dos séculos. Amém
1 Pedro 5.1-3 — Rogo, pois,
aos presbíteros que há entre
vós, eu, presbítero como eles,
e testemunha dos sofrimentos
de Cristo, e ainda co-parti-
cipante da glória que há de ser
revelada: Pastoreai o rebanho
de Deus que há entre vós, não
por constrangidos, mas espon­
taneamente, como Deus quer;
nem por sórdida ganância, mas
de boa vontade; nem como do­
minadores dos que vos foram
confiados, antes tornando-vos
modelos do rebanho.

1 J oão
1 João 1.1, 2 — 0 que era
desde o princípio, o que temos
ouvido, o que temos visto com
os nossos próprios olhos, o
que contemplamos e as nossas
mãos apalparam, com respeito
ao Verbo da vida (e a vida se
manifestou, e nós a temos
visto, e dela damos teste­
munho e vo-la anunciamos, a
vida eterna, a qual estava com
oPai e nos foi manifestada)...
1 João 1.3, 4 — ... o que temos
visto e ouvido anunciamos
também a vós outros, para que
vós igualmente mantenhais
comunhão conosco. Ora, a
nossa comunhão é com o Pai e
com seu Filho Jesus Cristo.
Estas cousas, pois, vos escre­
vemos para que a nossa alegria
seja completa.
Atividades e
diretrizes —
resultados e
objetivos

Esta compilação de atividades e diretrizes, juntamente com resultados


e objetivos, baseia-se no livro de Atos e nas epístolas. A primeira
parte diz respeito à evangelização; a segunda parte está relacionada à
edificação.

EVANGELIZAÇÃO

ATIVIDADES E DIRETRIZES RESULTADOS E OBJETIVOS

A tos

Declarar Contavam com a simpatia de


Falar todo o povo (2.47)
Ensinar Muitos creram (4.4)
Proclamar 0 povo lhes tributava grande
Pregar admiração (5.13)
Testificar A Palavra de Deus continuava
Testemunhar crescendo (6.7)
Exortar O número dos discípulos con­
Louvar tinuava a se multiplicar (6.7)
Arrazoar Muitos dos sacerdotes estavam
Refutar obedecendo à fé (6.7)
Explicar As multidões davam atenção ao
Demonstrar que se dizia (8.6)
Provar Falavam em línguas (10.46)
Persuadir Um grande número se con­
verteu ao Senhor (11.21)
As pessoas imploravam para
que essas coisas lhes fossem
faladas no sábado seguinte
(13.42)
Quase toda a cidade (Antioquia
da Pisídia) afluiu para ouvir a
palavra de Deus (13.44)
Fizeram discípulos (14.21)
Alguns foram persuadidos
(17.4)
Receberam a palavra com toda
a avidez, examinando as Es­
crituras todos os dias para ver
se as coisas eram de fato assim
(17.11)

E pístolas

... porque o nosso evangelho


não chegou até vós tão-
somente em palavra, mas
sobretudo em poder, no
Espírito Santo e em plena
convicção [...]. Com efeito vos tornastes
imitadores nossos e do Senhor,
tendo recebido a palavra, posto
que em meio de muita tribu-
lação, com alegria do Espírito
Santo... (1 Ts 1.5, 6)
Porque de vós repercutiu a
palavra dfr Senhor [...] por
toda parte se divulgou a vossa
fé para com Deus [...] pois eles mesmos [...]
proclamam [...] como, dei­
xando os ídolos, vos con­
vertestes a Deus, para servir­
des o Deus vivo e verda­
deiro... (1 Ts 1.8, 9)
... e a diligenciardes por viver
tranqüilamente, cuidar do que
é vosso, e trabalhar com as
próprias mãos [...] de modo que vos porteis com
dignidade para com os de fora
e de nada venhais a precisar (1
Ts 4.11, 12).
... orai por nós [Paulo, Silas e
Timóteo], para que a palavra do Senhor se
propague, e seja glorificada...
(2 Ts 3.1)
Portanto, quer comais, quer
bebais, ou façais outra cousa
qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus. Não vos tor­
neis causa de tropeço nem para
judeus, nem para gentios, nem
tão pouco para a igreja de
Deus, assim como também eu
procuro em tudo ser agradável
a todos, não buscando o meu
próprio interesse, mas o de
muitos, para que sejam salvos (1 Co
10.31-33).
... profetizarem [...] é ele por todos convencido, e
por todos julgado; tornam-se-
lhe manifestos os segredos do
coração, e, assim [...] adorará
a Deus, testemunhando que
Deus está de fato no meio de
vós (1 Co 14.24, 25).
Vós sois a nossa carta [...] conhecida e lida por todos os
homens (2 Co 3.2).
... dou graças a meu Deus
mediante Jesus Cristo, no
tocante a todos vós,
... Amarás ao teu próximo
como a ti mesmo (Rm 13.9) porque em todo mundo é
proclamada a vossa fé (Rm
1.8).

... [orai] por mim; para que me seja dada, no abrir


da minha boca, a palavra, para
com intrepidez fazer conhecido
o mistério do evangelho (Ef
6.19).
Portai-vos com sabedoria para
com os que são de fora;
aproveitai as oportunidades (Cl
4.5)
A vossa palavra seja sempre
agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis
responder a cada um (Cl 4.6).
Vivei [...] por modo digno do
evangelho [...] para que [...] ouça [...] que
estais firmes em um só
espírito, como uma só alma,
lutando juntos pela fé
evangélica; e que em nada
estais intimidados pelos adver­
sários (Fp 1.27, 28).
... [usai] a prática de súplicas,
orações, intercessões, ações de
graça, em favor de todos os
homens [...] para que vivamos vida tranqüila
v e mansa, com toda piedade e
respeito (1 Tm 2.1, 2).
... [considerai] dignos de toda
honra os próprios senhores
[não-salvos], para que o nome de Deus e a
doutrina não sejam blasfe­
mados (1 Tm 6.1).
... desde a infância sabes as
sagradas letras que podem tornar-te sábio para
a salvação pela fé em Cristo
Jesus (2 Tm 3.15).
... faze o trabalho de evange­
lista... (2 Tm 4.5)

... [mantende] exemplar o


vosso procedimento no meio
dos gentios, para que [...] glorifiquem a
Deus no dia da visitação (1 Pe
2 . 12).
... sede submissos [...] aos
vossos senhores... (1 Pe 2.18)

... sede [...] submissas a vossos


próprios maridos [não-salvos], para que [...] sejam ganhos,
sem palavra alguma, por meio
do procedimento de suas espo­
sas... (1 Pe 3.1, 2)
... [estai] sempre preparados
para responder a todo aquele
que vos pedir razão da espe­
rança que há em vós...
(1 Pe 3.15)
... [tende] boa consciência, de modo que [...] fiquem
envergonhados os que difamam
o vosso bom procedimento...
(1 Pe 3.16)

EDIFICAÇÃO

FUNÇÃO E DIRETRIZES resultados e objetivos

Atos

Batizar Eram unânimes (2.46)


Ensinar Tomavam juntos as suas refei­
Ter comunhão ções com alegria e singeleza
Partir o pão de coração (2.46)
Orar Era um o coração e a alma
Louvar a Deus (4.32)
Incentivar A igreja tinha paz (9.31)
Fortalecer A igreja se edificava (9.31)
Relatar Causaram grande alegria a
Descrever todos os irmãos (15.3)
Divergir Alegraram-se por causa do
Debater encorajamento recebido com a
Escrever carta (15.31)
Implorar As igrejas estavam sendo for­
Exortar talecidas na fé (15.32)
Firmar A palavra do Senhor crescia e
Admoestar prevalecia poderosam ente
(19.20)

Epístolas

... a cada um de vós, exor­


tamos, consolamos e admoes­
tamos, para viverdes por modo digno
de Deus, que vos chama para
o seu reino e glória (1 Ts
2.11, 12).
... orando [...] para vos ver
pessoalmente,^ e reparar as deficiências da
vossa fé... (1 Ts 3.10)

... o Senhor vos faça crescer, e aumentar no amor


uns para com os outros e para
com todos, como também nós
para convosco... (1 Ts 3.12)
... nós vos rogamos e exor­
tamos no Senhor Jesus Cristo
que, como de nós recebestes,
quanto à maneira por que de­
veis viver e agradar a Deus
[■••] continueis, progredindo cada
vez mais... (1 Ts 4.1)
... vós mesmos estais por Deus
instruídos que deveis amar-vos
uns aos outros [...]. Contudo vos exortamos, ir­
mãos, a progredirdes cada vez
mais... (1 Ts 4.9, 10)
... consolai-vos [...] uns aos
outros... (1 Ts 5.11)

... edificai-vos reciprocamen­


te... (1 Ts 5.11)

... admoesteis os insubmissos...


(1 Ts 5.14)

... consoleis os desanimados...


(1 Ts 5.14)

... ampareis os fracos... (1 Ts


5.14)
... segui sempre o bem, entre
vós, e para com todos (1 Ts
5.15)
Por isso também não cessamos
de orar por vós, para que o
nosso Deus vos torne dignos
da sua vocação, e cumpra com
poder todo propósito de bonda­
de e obra de fé; a fim de que o nome de nosso
Senhor Jesus seja glorificado
em vós, e vós nele... (2 Ts
1 . 11, 12)
Rogo-vos [...] que faleis todos
a mesma cousa, e que não haja
entre vós divisões; antes sejais inteiramente unidos,
na mesma disposição mental...
(1 Co 1.10)
Por esta causa vos mandei
Timóteo [...] o- qual vos lembrará os meus
caminhos em Cristo Jesus,
como por toda parte ensino em
cada igreja (1 Co 4.17).
Sede meus imitadores, como
[...] eu sou de Cristo (1 Co
11. 1).

... procurai progredir, para a


edificação da igreja (1 Co
14.12).

... quando vos reunis, um tem


salmo, outro doutrina, este
traz revelação, aquele outro
língua, e ainda outro inter­
pretação. Seja tudo feito para a edificação
(1 Co 14.26).
... sede [...] abundantes na obra
do Senhor... (1 Co 15.58)

... e isto é o que pedimos, o vosso aperfeiçoamento (2 Co


13.9).
... aperfeiçoai-vos, consolai-
vos, sede do mesmo parecer,
vivei em paz, e o Deus de amor e de paz
estará convosco (2 Co 13.11).
... muito desejo ver-vos a fim de repartir convosco
algum dom espiritual... (Rm
1. 11)
... acolhei-vos uns aos outros,
como também Cristo nos
acolheu... (Rm 15.7)

Rogo-vos [...] que apresenteis


os vossos corpos por sacrifício
vivo, santo e agradável [...]. E
não vos conformeis com este
século, mas transformai-vos
pela renovação da vossa men­
te, para que experimenteis qual
seja a boa, agradável e perfeita
vontade de Deus (Rm 12.1, 2).
Assim, pois, seguimos as cou­
sas da paz e também as da edifi­
cação de uns para com os
outros (Rm 14.19).
Ora, nós que somos fortes,
devemos suportar as debi-
lidades dos fracos... (Rm 15.1)

Ora, o Deus da paciência [...] vos conceda o mesmo sentir de


uns para com os outros,
segundo Cristo Jesus... (Rm
15.5)
E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz
no vosso crer, para que sejais
ricos de esperança no poder do
Espírito Santo (Rm 15.13).
... não cesso de dar graças por
vós, fazendo menção de vós
nas minhas orações, para que [...] Deus [...] vos
conceda espírito de sabedoria e
de revelação no pleno conhe­
cimento dele (Ef 1.16-17),
iluminados os olhos do vosso
coração,

para saberdes qual é a espe­


rança do seu chamamento (Ef
1.18),

[para saberdes] qual a riqueza


da glória da sua herança nos
santos (Ef 1.18),

e [para saberdes] qual a su­


prema grandeza do seu poder
para com os que cremos [...]
(Ef 1.19).

para que [...] sejais fortalecidos


com poder, mediante o seu
Espírito no homem interior (Ef
3.16) [...]

[para que] habite Cristo nos


vossos corações, pela fé (Ef
3.17) [...]

a fim de poderdes compreender


[...] qual é a largura, e o com-
primento, e a altura, e a pro­
fundidade, e conhecer o amor
de Cristo que excede todo
entendimento (Ef 3.18, 19),

para que sejais tomados de toda


a plenitude de Deus (Ef 3.19).
[Deus levanta apóstolos,
profetas, evangelistas, pastores
e mestres] com vistas ao aperfeiçoamento
dos santos para o desempenho
do seu serviço [...]

até que todos cheguemos à


unidade da fé e do pleno
conhecimento do Filho de
Deus, à perfeita varonilidade
[...]

para que não mais sejamos


como meninos, agitados de um
lado para outro [...] [para que]
todo o corpo [esteja] bem
ajustado e consolidado, pelo
auxílio de toda junta [...]

para a edificação de si mesmo


em amor (Ef 4.11-16).
Filhos, obedecei a vossos
pais... (Ef 6.1)

Honra a teu pai e a tua mãe


[• • • ] para que te vá bem... (Ef 6.2,
3)
... pais, não provoqueis vossos
filhos à ira, mas criai-os na
disciplina e na admoestação do
Senhor (Ef 6.4). [...] não
irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desa­
nimados (Cl 3.21).
... não cessamos de orar por
vós [...] a fim de viverdes de modo
digno do Senhor,
[para viverdes] para o seu
inteiro agrado,
frutificando em toda boa obra...
(Cl 1.9, 10)
... [advertimos e ensinamos]
a todo homem... . . . a fim de que apresentemos
todo homem perfeito em Cris­
to... (Cl 1.28)
Ora, como recebestes a Cristo
Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados
e edificados, e confirmados na
fé, tal como fostes instruídos,
crescendo em ações de graça
(Cl 2.6, 7).

... nele estais aperfeiçoados... (Cl 2.10)


... [retende] a Cabeça, da qual
todo corpo, suprido e bem
vinculado por suas juntas e
ligamentos, cresce o crescimento que pro­
cede de Deus (Cl 2.19).
... acima de tudo isto, porém,
esteja o amor, que é o vínculo da perfeição
(Cl 3.14).
... instruí-vos e aconselhai-vos
mutuamente [...] com salmos e
hinos e cânticos espirituais...
(Cl 3.16)
Esposas, sede submissas aos
próprios maridos... (Cl 3.18)

Maridos, amai a vossas espo­


sas... (Cl 3.19)

Tudo quanto fizerdes, fazei-o


de todo o coração, como para
o Senhor, e não para ho­
mens... (Cl 3.23)

... completai a minha alegria de modo que penseis a mesma


cousa, tenhais o mesmo amor,
sejais unidos de alma... (Fp
2 .2)

... [tende] o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo,


ou vanglória, mas por humil­
dade, considerando cada um os
outros superiores a si mesmo
(Fp 2.2, 3).

... [eu, Paulo,] prossigo para o


alvo para o prêmio da soberana
vocação de Deus em Cristo
Jesus (Fp 3.14).
O que também aprendestes, e
recebestes, e ouvistes, e vistes
em mim, isso praticai... (Fp 4.9)

... o intuito da presente


admoestação visa o amor que procede de coração
puro e de consciência boa e de
fé sem hipocrisia (1 Tm 1.5).
Ordena e ensina estas cousas
[...]. Até à minha chegada,
aplica-te à leitura [pública das
Escrituras], à exortação, ao
ensino (1 Tm 4.11,13).

[Nomeie presbíteros] (1 Tm
5.17)
... não [...] tratem [os senhores
crentes] com desrespeito... (1
Tm 6.2)
E o que de minha parte ouviste,
através de muitas testemunhas,
isso mesmo transmite a ho­
mens fiéis e também idôneos para instruir a outros (2 Tm
2 .2).
Toda Escritura é inspirada por
Deus e útil para o ensino, para
a repreensão, para a correção,
para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus
seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra
(2 Tm 3.16, 17).

... prega a palavra, insta, quer


seja oportuno, quer não, cor­
rige, repreende, exorta... (2
Tm 4.2)
... [põe] em ordem as cousas
restantes... (Tt 1.5)
... fala o que convém à sã
doutrina... (Tt 2.1)

... pondo de parte os princípios


elementares da doutrina de
Cristo, deixemo-nos levar para o que é
perfeito... (Hb 6.1)
Ora, o Deus da paz [...] vos aperfeiçoe em todo bem,
para cumprirdes a sua von­
tade... (Hb 13.20, 21)
... desejai [...] o genuíno leite
espiritual, para que por ele vos seja dado
crescimento para salvação... (1
Pe 2.2)
Sujeitai-vos a toda instituição
humana por causa do Senhor;
quer seja ao rei, como sobe­
rano; quer às autoridades
como enviadas por ele, tanto
para castigo dos malfeitores,
como para louvor dos que
praticam o bem. Porque assim
é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais
emudecer a ignorância dos
insensatos... (1 Pe 2.13-15)
Pastoreai o rebanho de Deus...
(1 Pe 5.2)

Estas cousas [...] vos escre­


vemos para que a nossa alegria seja
completa (1 Jo 1.4).
... [batalhai] diligentemente
pela fé... (Jd 3)

... guardai-vos no amor de


Deus... (Jd 21)
Gene Getz desempenha basicamente duas atividades. É o pastor titular
da Fellowship Bible Church North, igreja de rápido crescimento,
localizada em Plano, Texas. A Fellowship Bible Church North é uma
das muitas igrejas “Fellowship” que o Dr. Getz e seus colaboradores
ajudaram a iniciar no complexo metropolitano de Dallas, no Texas.
Também atua como diretor do Center for Church Renewal [Centro
de Renovação da Igreja], organização fundada para servir à igreja em
geral, tanto na área de implantação como na de renovação de igrejas.
Conseqüentemente, o Dr. Getz e sua equipe do c c r ministram a
pastores, missionários e outros líderes cristãos em praticamente todas
as partes do mundo. Muitos dos seus livros sobre renovação bíblica
já foram traduzidos para vários idiomas.
Indagado acerca do relacionamento entre a igreja e o centro, o Dr.
Getz declarou: “Quando Deus começou a abrir as portas da ministra-
ção a outros líderes cristãos, senti que era importante continuar a
servir o corpo de Cristo em suas bases. É isso que dá credibilidade à
equipe do nosso c c r . Nós também estamos constantemente envolvidos
em enfrentar os mesmos desafios dos líderes espirituais de qualquer
outro lugar, tentando responder a esses desafios de forma bíblica” .
O Dr. Getz escreveu este livro no início da década de 70. Essa
revisão completa inclui aquilo que aprendeu nos últimos anos na área
de implantação e renovação de igrejas. Comentando a respeito de sua
experiência, ele diz: “Em geral, ainda creio firmemente em tudo que
escrevi no início da década de 70. No entanto, agora tenho uma
experiência bem maior na aplicação desses princípios. Os últimos doze
anos foram uma enorme ajuda para eu tornar nítida a minha própria
focalização do que havia pesquisado e escrito originariamente”.
O Dr. Getz ainda atua como professor adjunto no Dallas
Theological Seminary, ensinando na área de renovação de igreja.
Escreveu vários livros sobre renovação bíblica, dentre os quais
Building Up One Another [Edificando Uns aos Outros], Loving One
Another [Amando Uns aos Outros], Encouraging One Another
[Incentivando Uns aos Outros], Prayingfor One Another [Orando Uns
pelos Outros] e Serving One Another [Servindo Uns aos Outros] —
todos publicados pela Victor Books. Também escreveu A Estatura de
um Homem Espiritual, A Estatura de uma Mulher Espiritual, The
Measure o fa Marriage [A Estatura de um Casamento], A Medida de
uma Família Espiritual, A Estatura de uma Igreja Espiritual (neste
livro referenciado de acordo com a edição da Editora Literatura
Evangélica Internacional), A Estatura de um Cristão: Filipenses, A
Estatura de um Cristão: Tito e Vivendo sob Pressão, bem como vários
estudos sobre o Antigo Testamento.
Sugestões Vida IHova
para a sua leitura complementar
□ A Igreja Local e M issões
Edison Queiroz
V Um pastor experiente explica como a igreja local pode desenvolver uma
estratégia missionária. (14 x 21 cm; 152 pp.)

□ A Igreja: o P ovo d e D eus


Bruce L. Shelley
V O autor analisa vários aspectos da igreja, como crescimento, filiação, minis­
tério, liderança, salvação, adoração e destino final. (14 x 21 cm; 144pp.)

□ A m izade, a C have para a E vangelização


Joseph C. Aldrich
V O autor mostra como podemos naturalmente tocar a vida dos que estão ao
nosso redor. (14 x 21 cm; 224pp.)

□ A s M aravilhas d o Corpo — A Igreja R efletida n o Corpo Humano


Paul Brand e Philip Yancey
V Os autores aplicam lições bíblicas e espirituais a partir de dados físicos
fascinantes na área da medicina piodem a. (14 x 21 cm; 216pp.)

□ D isciplina na Igreja
Russell P. Shedd
V O Dr. Shedd expõe a visão neotestamentária da disciplina eclesiástica, para
orientar os que se empenham na árdua tarefa de conduzir a igreja para o
alvo da perfeição. (14 x 21 cm; 72 pp.)

□ Manual d e C rescim ento da Igreja


Juati Carlos Miranda
V Esse livro deve levar todo cristão a trabalhar junto com o Espírito Santo no
cumprimento da Grande Comissão. (14 x 21 cm; 200pp.)

□ O rganização e Liderança na Igreja Local


K. K. Kilinski e J. C. Wofford
V Essa obra trata do papel, dos pré-requisitos e da estrutura de uma igreja
local expressiva em tempos de mudanças culturais. (16x23 cm; 224 pp.)

a Um R ecado para G anhadores d e A lm as


Horatius A. Bonar
V Para obter sucesso na evangelização, é necessário que o ministro tenha uma
vida de total consagração ao seu Senhor. (14 x 21 cm; 48 pp.)

Desejando outras informações sobre esses livros, ligue para


Edições Vida Nova:
(3) (0 11) 5 2 0 -1 9 1 1 ,
(011) 5 2 0 -2 8 3 4 .

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