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Maria entre os Santos Padres

5 anos ago
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by Veritatis Splendor
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Por Pe. Chrystian Shankar.
Designamos com o nome de “Santos Padres”, Padres da Igreja” ou “Pais da
Igreja”, aqueles escritores cristãos dos primeiros séculos, que se distinguiram
pela exposição da doutrina cristã. Eles defenderam as verdades do Cristianismo
contra as heresias que surgiram e que procuravam se infiltrar no mundo cristão
do seu tempo. Na Igreja Latina, como na Oriental, apareceram nomes
preeminentes, em cujos escritos se encontram os fundamentos das pregação
da Igreja Primitiva. Ambrósio, Agostinho, Jerônimo, Atanásio, João Crisóstomo,
etc. – são alguns desses Santos Padres que nos transmitem a fé e a vivência
das primeiras gerações cristãs.

No Brasil, D. Antonio Figueiredo publicou um Curso de Teologia Patrística, em


que focaliza a contribuição dos Padres da Igreja para a vida do Cristianismo
primitivo. Das obras desses escritores, o autor faz emergir a Igreja, em suas
estruturas e funções. A maior parte dos escritos patrísticos é formada de
comentários à Sagrada Escritura.

A veneração a Nossa Senhora foi se manifestando paulatinamente. Ela foi


tomando formas diferentes e crescendo na vida dos cristãos, através dos
séculos. Nós não a encontramos, por exemplo, nos escritores do 2° e 3°
séculos, como apareceu no século 5°, no tempo de S. Bernardo (século XII), ou
em nossos dias. Mas, desde as primeiras gerações cristãs, vão surgindo
depoimentos, reflexões sobre o papel de Maria na Economia da Salvação, que
levaram os cristãos a prestar uma homenagem especial Àquela que foi
escolhida por Deus para ser a Mãe do Verbo Encarnado.

Em dois grossos volumes, J.B. Terrien agrupou dezenas e dezenas de textos


dos Santos Padres sobre “A MÃE DE DEUS E A MÃE DOS HOMENS”. Os
primeiros escritores cristãos gostavam de focalizar, de modo especial, a fé e a
obediência da Santíssima Virgem. Estes eram, certamente, os pontos da vida de
Maria, que mais estimulavam os cristãos. Vejamos como a Virgem aparece nos
escritos de alguns Padres, anteriores ao Concílio de Éfeso.

Veja também São Máximo de Turim

Irineu, bispo de Lião na França, morreu por volta do ano 202. Foi discípulo de
Policarpo que, por sua vez, o fora do apóstolo S. João. Irineu é um escritor
muito importante. Nos seus escritos, são muitos os artigos do símbolo católico,
cuja apostolicidade se encontra atestada. Contra alguns hereges de sua época,
levanta-se o bispo de Lião, afirmando a maternidade divina de Maria e a sua
virgindade, e mostrando o plano divino, por ele chamado de “recirculatio”, em
que a nova Eva, MARIA, se apresenta digna e merecedora da nossa veneração
e amor. Diz Irineu: “Consequentemente a este plano, Maria Virgem nos aparece
obediente, ao dizer: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua
palavra. Eva, porém, foi desobediente, embora ainda fosse virgem. Do mesmo
modo que Eva, tendo Adão por esposo, desobedeceu e tornou-se causa de
morte para si e para todo o gênero humano, assim também Maria, tendo um
varão predestinado e, contudo, permanecendo virgem, obedeceu e tornou-se
para todo o mundo causa de salvação.” (ENCHIRIDION PATRISTICUM, N° 224).
São de Irineu também estas palavras: “Assim como Eva, seduzida pela palavra
do maligno, para que se afastasse de Deus, pecou contra a palavra d’Este,
assim Maria, evangelizada pela palavra, mereceu trazer a Deus. E se aquela
desobedeceu a Deus, esta foi obediente a Ele, para que a Virgem Maria se
tornasse advogada de Eva.” (ADVERSUS HAERESES L. 5, cap. 19).

Percebemos como Irineu gostava de comparar Eva com Maria, para salientar o
papel de Mãe de Deus, no plano da salvação. Maria é a advogada de Eva e de
todos os seus filhos. Há, nas palavras de Irineu, um certo reconhecimento a
Maria, pela sua obediência, pela sua fé, pela sua fidelidade ao Senhor. Esse
reconhecimento iria levar muitos a manifestá-lo em gestos e palavras de louvor
e veneração.

Com expressões semelhantes, Tertuliano, no século 3, também escreveu: “Deus


recuperou, por um desejo de emulação, a sua imagem e semelhança,
arrebatadas pelo demônio. Em Eva, virgem, insinuou-se a palavra que gerou a
morte. É também numa virgem que devia nascer o Verbo que gerasse a vida, a
fim de que a humanidade, perdida pelo sexo feminino, recebesse a salvação
por esse mesmo sexo. Eva creu na serpente, Maria acreditou em Gabriel. A
falta cometida pela credulidade de uma foi destruída pela fé da outra.”
(ENCHIRIDION, N° 358). A fé de Nossa Senhora é exaltada. Tertuliano, por
assim dizer, repete o louvor que Isabel havia feito. Maria é a Mãe do Senhor da
vida. Sua fé, sua plena adesão à vontade de Deus, fez dela um modelo perfeito
para cristão.

Veja também O papel singular de Maria na economia da Salvação

Justino, apologista do século 2, no seu “Dialogus cum Tryphone”, faz este


comentário: “A Virgem estremeceu de fé e de alegria, ao receber da boca do
anjo a boa nova de que o Espírito de Deus desceria ao seu seio, de que a
virtude do Altíssimo a cobriria com a sua sombra, e que, em conseqüência, o
Santo que nasceria dela seria o Filho de Deus. Sua resposta foi: “Faça-se em
mim segundo a tua palavra.” Dela nasceu Aquele que foi predito pelas
Escrituras, Aquele por meio do qual Deus esmagou a serpente com os anjos e
os homens degradados, e livrou da morte os pecadores que, crendo n’Ele,
fizeram penitência de seus crimes.” (D. Ruiz Bueno – PADRES APOLOGISTAS
GREGOS, séc. II, pág.479).

Como Mãe do Salvador do mundo é que Maria merece um destaque todo


especial, na Igreja de Cristo. Sendo a Mãe de Jesus, ela se tornou a fonte de
alegria para toda a humanidade. “Eis que vos anuncio uma grande alegria:
nasceu-vos hoje um Salvador que ó Cristo Senhor.” (Lc. 2, 10-11).

Orígenes, outro escritor do século 3 da era cristã, considerado o “engenho mais


universal e o varão mais douto da época ante-nicena”, comentando o primeiro
capítulo de Mateus, escreveu: “Esta virgem Maria é chamada mãe do Filho
único de Deus. Digna mãe de um digno Filho; mãe imaculada de um Filho santo
e imaculado; mãe única de um Filho único. Tomai a Maria como um trono
celeste que se vos dá a guardar, diz o anjo a José, como todas as riquezas da
divindade, como a plenitude da santidade, como uma justiça perfeita. Tomai-a
e guardai-a, como residência do Filho único de Deus, como seu templo
honorável, como o dom de Deus, como a morada imaculada do rea1 e celeste
esposo.” (Apud. A. Nicolas – LA VIERGE MARIE ET LE PLAN DIVIN, tomo 4°
págs.l03-104).

Veja também Romano, o melodista

A partir do quarto século, os pronunciamentos e sermões dos Santos Padres


sobre Nossa Senhora se multiplicam. Ela foi proclamada “BEM-AVENTURADA”,
em todos os recantos do mundo cristão. 0 entusiasmo por aquela que é o
modelo fiel do verdadeiro discípulo de Jesus Cristo cresceu de modo
impressionante. Nas catacumbas, nas artes, nos templos, na liturgia, na
pregação, foi sempre mencionada com muito amor e com muita gratidão, pois,
afinal, ela é a Mãe de Nosso Senhor. (Lc. 1, 43). 0 culto Mariano foi tomando
dimensões sempre maiores e bem expressivas. Se abusos houve ou aparecem
ainda hoje, a Igreja procurou sempre corrigi-los. A atitude de alguns fiéis
menos esclarecidos e afastados da orientação da Igreja não significa a
ilegitimidade da devoção à Virgem Santíssima. A profecia bíblica “Todas as
gerações me chamar-se-ão Bem-aventurada” vem se realizando através dos
séculos.

As coletâneas de Barbier (4 volumes), de Terrien (2 volumes) e outros estudos


que reuniram tópicos dos Santos Padres sobre a Mãe de Jesus, são mananciais
onde encontramos o pensamento e o afeto das primeiras gerações cristãs para
com a Mãe do Senhor.
Tudo por Jesus! Nada sem Maria! Que alegria!