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O significado dos Sacramentos

5 anos ago
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by Católico Porque...
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Para começar, devemos retornar aos tempos da Reforma Protestante, quando
milhares de cristãos abandonaram a Igreja Católica para fundar grupos eclesiais
separados da autoridade de Roma. A ideia original dos autoproclamados
reformadores era formar uma só igreja separada do Papa. Contudo,
rapidamente suas discordâncias e desavenças resultaram em divisões que
continuam até os nossos dias. Da longa lista de diferenças e separações, existe
algo que sobressai em particular: a questão dos sacramentos.

Escrevo assim, com inicial minúscula, porque não estou me referindo aos
Sacramentos cristãos de sempre, mas das diferentes concepções e definições
que surgiram na era que se seguiu à Reforma alemã. Pode-se afirmar, de
maneira geral e sem medo de errar em demasia, que o Protestantismo
considera os sacramentos como meras representações simbólicas de uma
realidade espiritual. Repassemos os sete Sacramentos da Igreja Católica, que
são:

– Batismo

– Confirmação

– Eucaristia

– Penitência (ou Reconciliação)

– Matrimônio

– Ordenação Sacerdotal

– Unção dos Enfermos

UMA BREVE HISTÓRIA E DEFINIÇÃO

A maioria dos grupos eclesiais protestantes mantém o batismo e o matrimônio.


Alguns praticam a “ ceia do Senhor” e certa espécie de ordenação para o
ministério [pastoral]. Confirmação, penitência e unção dos enfermos são menos
praticados entre os cristãos separados. Pode-se afirmar que estes grupos
eclesiais consideram seus sacramentos como gestos, votos ou testemunhos,
cujo valor reside em simbolizar uma realidade espiritual. A pergunta que surge
é: em que se diferenciam os Sacramentos católicos dos seus equivalentes no
Protestantismo? A definição clássica no Catolicismo é esta: “ Os Sacramentos
são sinais externos da graça interna, instituídos por Cristo para a nossa
santificação” (Catecismo Tridentino, nº 4, ex S. Aug.” De catechizandis
rudibus” ). Esta definição sucinta nos transmite primeiramente o conceito de
Sacramento como “ sinal” , ou seja, um sinal que significa ou evidencia algo.
Neste caso, o sinal sacramental evidencia uma realidade da graça de Deus que
nem sempre está evidente aos sentidos.

A diferença entre o conceito católico e o protestante está na apreciação da


realidade que subjaz ao sinal: para o católico, o sinal é a evidência de algo que
não pode ser facilmente visto, como, por exemplo, as pintinhas vermelhas na
face de uma criança nos dão a evidência de que está com sarampo, que é uma
realidade à qual o sinal está sujeito, realidade que não pode existir separada do
sinal. Para o protestante em geral, o sinal é puramente simbólico, como o
uniforme desportivo que identifica um atleta em uma competição. Dessa
maneira, para o protestante, o batismo é um testemunho ao mundo de sua fé
em Cristo; para o católico, o Batismo não somente é testemunho como também
o início de um processo regenerativo que conduz a pessoa à sua plenitude em
Cristo. Tanto o sinal (isto é, a aspersão) quanto o processo de regeneração que
se segue são partes inseparáveis do Sacramento.

AS RAÍZES DO SIGNIFICADO

Veja também Peço Respeitosamente a Sua Santidade

Quando nos comunicamos, fazemos uso de sinais. Por exemplo: este mesmo
artigo que você está lendo agora não poderia ser compreendido se não
existissem vários sistemas de comunicação simbólica. Os dois mais evidentes
são: o alfabeto latino e o idioma português. Ambos colaboram para que você e
eu possamos nos comunicar neste momento. Também estamos usando a
Internet e toda uma série de protocolos e meios de comunicação; mas, para
não complicarmos muito, vamos reduzir ao mais essencial: o alfabeto e o
idioma.

Quando eu descrevo um conceito, por exemplo, “ Arco do Triunfo em Paris” ,


a imagem do famoso monumento nos vem à mente. Primeiro começamos com
o “ a” , que representa um som, e logo acrescentamos mais letras até
completar uma palavra; a seguir vem outra; e mais outra… Assim, invocamos
em umas tantas palavras a um objeto real que existe em Paris. Como é de se
imaginar, nenhum de nós – espero! – acredita possuir um Arco do Triunfo
dentro da cabeça. No entanto, somos capazes de recordar essa realidade que
vimos antes em um livro, ou em filme, ou – para alguns felizes viajantes –
pessoalmente. Em suma: invocamos a um símbolo que nos refere a uma
realidade.

Poderíamos mudar um pouquinho e dizer desta vez: “ O Arco do Planeta


Marte” . Como nenhum de nós sabe [da existência] de semelhante Arco, resta
à imaginação de cada um resolver como o veria na realidade. E por mais que
falemos acerca desse monumento inexistente, nunca existirá em Marte, exceto
que alguém o construa. Em poucas palavras: falta-nos o elemento comum a
representar; a realidade que estamos tentando representar ainda não existe.
Os humanos apenas podem usar a palavra para invocar algo já existente.

É esse o caso com Deus? Lemos em Gênesis: “ E Deus disse: ‘ Faça-se a luz’
e a luz se fez” . O maravilhoso disto que acabamos de ler é que a mera
invocação por Deus de uma realidade inexistente faz com que essa realidade
“ seja” . De fato, nós, cristãos, cremos que Deus é tão real que Sua própria
Palavra é uma Pessoa: Deus Filho. Na fé cristã, a Memrah da fé hebraica se
torna manifesta ao mundo na pessoa de Cristo, o Logos, o Verbum Dei, a
Palavra de Deus.

O que apreciamos aqui é a diferença entre Criador e criatura: Deus é e ao


mesmo tempo causa com que outras coisas sejam, iniciando ex nihilo, a partir
do nada. O “ meio” que Deus emprega é sua Palavra – assim como nós,
para invocarmos um conceito como o Arco do Triunfo, usamos primariamente o
alfabeto – Deus se vale do Alfa e Ômega, Jesus Cristo.

Chegando neste ponto, você se perguntará por que trago tudo isto aqui. Todos
nós sabemos que não podemos criar como Deus faz, mediante nomear algo e a
partir do nada. Eis aí a diferença fundamental entre o Criador e a criação. Não
aprendemos nada de novo, exceto, talvez, que podemos apreciar o seguinte: as
representações de Deus não são apenas símbolos, mas ingressam na realidade
como uma nova criação, sem a mediação anterior de algo que as represente. E
o que isto tem a ver com os Sacramentos? Absolutamente tudo!

Veja também Se as imagens não são proibidas, por que os cristãos de


Éfeso não encomendavam imagens dos artífices?

OS SACRAMENTOS: UM DOM DE DEUS

Quando nossos primeiros pais desobedeceram a ordem de Deus, toda a


natureza começou a se degradar. A terra produziu cardos e espinhos; o corpo
do homem e da mulher começaram sua lenta declinação à velhice e à morte.
Pode-se dizer que o pecado original começa a destruir a criação que Deus havia
declarado boa.

Após a desobediência, Deus se faz presente no Jardim que havia dado ao


homem para viver. A visita não é de surpresa, pois constatamos na Escritura
que Deus “ passeava pelo Jardim na parte arejada do dia” . Deus aparece no
horto à hora de costume. Não nos esqueçamos que Deus é Deus e que nada
pode surpreendê-Lo. Ele já sabia que o homem havia desobedecido. O homem,
no entanto, ao ouvir a voz de Deus no horto, se enconde porque algo lhe diz
em seu interior que “ está nu” , que não está com pureza suficiente para
aparecer diante de Deus. A presença de Deus é real para o homem Adão e essa
realidade deixa-o perturbado. Notemos isto na frase do homem: “ Ouvi tua voz
no horto e me escondi porque estava nu” . Novamente a voz de Deus, a
Palavra proferida, tem um efeito direto no mundo natural – neste caso, o de
tornar manifesta a falta de santidade do homem desobediente. Mas agora,
inverte-se a função: a voz de Deus não cria coisas novas, mas coloca em
evidência a desordem que ingressou na Criação através do pecado.

Refletindo um pouco na intenção de Deus, observamos que o pecado começou


a revelar um aspecto da pessoa de Deus que o universo não conhecia: Sua
misericórdia! Por que digo isto? Porque Deus, conhecendo a injustiça que havia
sido cometida, não executa a justa sentença prometida, mas “ pretende” por
um instante, não saber de nada do que havia ocorrido até tornar-Se manifesto
ao homem. A seu tempo, Deus deve expulsar o homem do Jardim, mas não
sem antes dar-lhe peles para se abrigar e não sem prometer que, a partir desse
mesmo momento, começa a trabalhar na Redenção da raça humana que está
para nascer. De certa forma, estas duas ações de Deus são formas incipientes
dos Sacramentos que virão muitos séculos depois, a partir da Cruz. A
Misericórdia Divina provê abrigo e sobrevivência para os desobedientes do Éden.
De maneira semelhante, os Sacramentos operam como um refúgio ao qual
podemos acudir para nos sustentar; refúgio de Deus para aqueles que
simplesmente não podem ser santos suficientemente para comparecer à Sua
presença.

OS SACRAMENTOS: PODER DE DEUS

Frequentemente ouvimos dizer que os Sacramentos “ levam a cabo o que


significam e significam o que levam a cabo” . Esta definição parece-lhe
familiar? Espero ter-lhe feito recordar da ação criadora de Deus no Gênesis
quando disse: “ ‘ Faça-se a luz’ e a luz se fez” . Os Sacramentos
compartilham da ação criadora de Deus essa “ efetividade imediata” que faz
com que as coisas “ sejam” , ainda que não tenham existido até então. Com a
mesma efetividade, os Sacramentos são os instrumentos de Deus nesta nova
criação em que o cristão é transformado em uma “ nova criatura” capaz de
herdar a Vida Eterna e ver Deus face a face sem perecer. Quando recebemos o
Batismo, recebemos aquilo que os primeiros Padres da Igreja chamavam de
“ magnífico selo” da salvação. Nossa alma começa a ascensão a Deus, até
então impossível. Quando recebemos do sacerdote a absolvição dos nossos
pecados, um milagre ainda mais assombroso que o da ressurreição de Lázaro
ocorre no confessionário: uma alma perdida por efeito do pecado é renovada e
readmitida à presença divina. Coisas semelhantes podem ser ditas de cada um
dos Sacramentos e é bom refletir sobre cada um deles e perceber como o
poder e a misericórdia divinos agem em cada Sacramento em particular,
transformando as almas dos fiéis, ordenando e limpando, regenerando e
iluminando, para cumprir as palavras de Jesus a São João: “ Observa! Estou
fazendo novas todas as coisas!” . Algo muito mais espantoso que a primeira
Criação material está ocorrendo dentro de nós mesmos: “ O Reino dos Céus
está entre vós!”

Veja também SCP5 - OS SETE SACRAMENTOS E A CRIAÇÃO

TUDO PARA A GLÓRIA DE DEUS

Encontramos esta frase no Novo Testamento, geralmente como reação a um


milagre: “ E os que estavam ali presentes davam glória a Deus por ter dado
semelhante poder aos homens” . Deus, ao nos dar os Sacramentos na Igreja,
tem querido que o homem participe na tarefa da Criação. Graça sobre graça,
misericórdia sobre misericórdia, o homem perdido recebe outra vez sua volta ao
abrigo divino, desta vez magnificado infinitamente, pois o mantém a salvo da
morte eterna e não somente do frio.

É necessário meditar uma e outra vez sobre estás dádivas para não rejeitá-las
de pronto e, com isso, deixar de prestar a Deus o agradecimento e a glória que
Ele merece, por todo o bem que faz para nós. Aqueles que pensam – em sua
ignorância – que podem reorganizar estas coisas a seu próprio gosto e prazer,
se equivocam completamente. Os Sacramentos não são meros símbolos, mas
são dons de Deus, poder de Deus, ação real de Sua graça que nos redime,
educa, alimenta, forma e fortalece.

Ninguém espere um dia estar de pé na corte de Deus se quer se dar ao luxo de


ignorar os Sacramentos que Deus nos tem dado em Sua Igreja.

“ Observa! Estou fazendo novas todas as coisas!” (Apocalipse 21,5).