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Universidade Federal de Viçosa

Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes


Departamento de Artes e Humanidades
Curso de Comunicação Social - Jornalismo

O sóbrio e o caricato:
representações homossexuais em Páginas da Vida e Zorra Total

Tiago Ferreira Pereira


Orientadora: Alice Inês de Oliveira e Silva

Viçosa - MG
Fevereiro de 2007
Universidade Federal de Viçosa
Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes
Departamento de Artes e Humanidades
Curso de Comunicação Social - Jornalismo

O sóbrio e o caricato:
representações homossexuais em Páginas da Vida e Zorra Total

Tiago Ferreira Pereira

Monografia apresentada ao curso de


Comunicação Social – Jornalismo da
Universidade Federal de Viçosa, como parte
dos requisitos necessários à obtenção do
grau de bacharel.

Orientadora: Alice Inês de Oliveira e Silva

Viçosa - MG
Fevereiro de 2007

1
O sóbrio e o caricato:
representações homossexuais em Páginas da Vida e Zorra Total

Tiago Ferreira Pereira

Monografia submetida ao Curso de Comunicação Social – Jornalismo do Departamento de


Artes e Humanidades, do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Viçosa,
como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de bacharel.

Banca examinadora:

____________________________________
Drª. Alice Inês de Oliveira e Silva

____________________________________
João Paulo Cordeiro Reis

____________________________________
Profª. Ms. Ana Carolina Beer Figueira Simas

Viçosa - MG
Fevereiro de 2007

2
À Dona Dedê,
do princípio ao fim.

3
AGRADECIMENTOS

Se realmente vivemos num grande teatro, muitos são os que merecem toda a
gratidão por tornar meu espetáculo particular mais dramático, vivaz e, absolutamente,
inesquecível.
A começar por Alice Inês, de onde retirei grande parte das experiências nesses
palcos científicos. Por fazer-me compreender que o ato de pesquisa é muito mais “humano”
que propriamente “científico”. Pela oportunidade de desenvolver este trabalho, no qual,
merecidamente, figura como “mocinha”. Pela confiança e “corujice”, enfim, obrigado.
A Eduardo e João Paulo, arquétipos profissionais e pessoais, a fim de redimir-me
por não dispor dos troféus de “melhor ator coadjuvante” que ambos merecem.
Aos mestres Juliana, Fatinha, Ana Carolina, Letson, Ana Louise e Juliano, que
aqui não figuram em ordem de importância, mas em uma desordem de memórias flutuantes de
diálogos humanizados, sensíveis, quentes, vivos demais. Mestres de vida, afinal.
Aos meus amigos de sempre e de depois, Tainá, Agatha, Fábio, Jória, Edilson,
Renata, Dani, Bebel, Bela, Karoley, Bruna, Lulu, Nata, Hortência, Fabiano, Jurema, Mara,
Julinha, ai, ai, ai... Uma Zorra Total! Especialmente à Gabi, Maíra, André e Paola, pelos
divinos esquetes cotidianos, por dissimularem minhas quedas em cena e reforçarem a
iluminação nos grandes atos. É cedo pra que desçam as cortinas.
Ao Hugo, a quem poucas palavras já deverão ser suficientes para exprimir o
grande motivo para perpetuarmos nossa parceria: “Eu te amo, amigo”.
À Grasiella, por suas figurações genuínas de mãe e de amiga. Pela veracidade do
amor e da atenção que me confere, e pela felicidade ilógica de seu olhar.
Aos meus avós de coração, Lúcia, Sebastião, Zizi e Cordeiro, ao meu pai, Jairo, e
minha irmã, Daniele, pelas participações mais que especiais em minha vida. Ainda, à Águida
e Ideraldo, pelas atuações legítimas de tios e amigos.
Por último, à minha mãe, pelo amor incondicional, sublime, impossível de ser
representado. Meu único ídolo, e o mais real. Estrela que domina os céus dessa arena, desvio
de qualquer norma ou sentido que se preste a limitar o que é “ser mãe”. Eterna, enfim.
Abate-me uma vontade irreprimível de eternizar essas personagens que dividiram
comigo em palco viçosense. Estão gravadas estas memórias, em Páginas da Vida que
guardarei com cuidado. E muita gratidão.

4
Passo por uma rua e estou vendo na face dos
transeuntes, não a expressão que eles
realmente têm, mas a expressão que teriam
para comigo se soubessem a minha vida, e
como sou, se eu trouxesse transparente nos
meus gestos e no meu rosto a ridícula e tímida
anormalidade da minha alma. Em olhos que
não me olham, suspeito troças que acho
naturais, dirigidas contra a excepção
deselegante que sou entre um mundo de gente
que age e goza; e no fundo suposto de
fisionomias que passam gargalha da acanhada
gesticulação da minha vida uma consciência
dela que sobreponho e interponho. Debalde,
depois de pensar isto, procuro convencer-me
de que de mim, e só de mim, a idéia da troça e
do opróbio leve parte e esguicha. Não posso já
chamar a mim a imagem do verme ridículo,
uma vez objectivado nos outros. Sinto-me, de
repente, abafar e hesitar numa estufa de mofas
e inimizades. Todos me apontam o dedo do
fundo de suas almas. Lapidam-me de alegres e
desdenhosas troças todos que passam por mim.
Caminho entre fantasmas inimigos que a
minha imaginação doente imaginou e localizou
em pessoas reais. Tudo me esbofeteia e me
escarnece. E às vezes, em pleno meio da rua –
inobservado, afinal, paro, hesito, procuro
como que em uma súbita nova dimensão, uma
porta para o interior do espaço, para o outro
lado do espaço, onde sem demora fuja da
minha consciência dos outros, da minha
intuição demasiado objectivada da realidade
das vivas almas alheias.

(Fragmento de “Diário ao acaso”, de Fernando Pessoa)

5
RESUMO

Perfazemos, neste trabalho, uma análise comparativa entre a telenovela Páginas


da Vida e o humorístico Zorra Total, buscando evidenciar a forma como as representações
homossexuais são concebidas nestes dois programas da Rede Globo de Televisão. O
protocolo metodológico da pesquisa consiste na apreciação qualitativa de tapes dos programas
e arquivos recolhidos na mídia impressa e eletrônica, através dos quais delimitamos a
composição imagética e gestual das personagens Rúbens e Marcelo, da obra de Manoel
Carlos, e Patrick Pax, do Zorra Total.
A metodologia proposta está direcionada para o entrecruzamento de campos de
saberes distintos: a teoria das representações, cuja aplicação se fez determinante para a
compreensão dos conceitos de estereotipia e estigma, e a perspectiva de gênero, que permitiu
situar e relativizar essas categorias dentro das particularidades da “sociedade midiática”.
Em Páginas da Vida, identificamos representações homossexuais desprovidas de
traços de estereotipia. Manoel Carlos negocia, possivelmente a favor de uma normatividade
discursiva, os símbolos de estigma das personagens homossexuais que, se os manifestassem,
tornariam incoerente a harmonia das relações que estabelecem com a comunidade de
personagens heterossexuais da novela.
Do contrário, a composição imagética e discursiva de Patrick, personagem do
Zorra Total, é plenamente comprometida com traços de estereotipia homossexual. Desde a
aparência, muitas vezes bizarra, passando pelos gestos, falas e gargalhadas, tudo assemelha-se
ao que espera-se de uma personagem feminina (em seu “ridículo” estigmatizante).

Palavras-chave: homossexualidade, telenovela, humorístico, representação, estigma.

6
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..........................................................................................................................8
CAPÍTULO I. CONSOLIDANDO UMA PERSPECTIVA DE GÊNERO .............................11
CAPÍTULO II. O ESPETÁCULO DA VIDA COTIDIANA ..................................................21
II.1. Estereotipia e estigmatização...................................................................................24
II.2. O estigma do passivo (homos)sexual.......................................................................27
CAPÍTULO III. A SÍNDROME DO RÓTULO.......................................................................33
CAPÍTULO IV. MÍDIA E HOMOSSEXUALIDADE: UM ACORDO VELADO ................37
IV.1. Mocinho com mocinho, mocinha com mocinha ....................................................40
IV.2. O cômico e o desvio ...............................................................................................46
CAPÍTULO V. ANÁLISES, OBSERVAÇÕES E REFLEXÕES ...........................................49
V.1. Sobre a coleta e análise de dados.............................................................................49
V.2. Sobre o protocolo metodológico..............................................................................49
V.3. “Assistindo” o corpus da pesquisa ..........................................................................51
V.3.1. Páginas da Vida: a “limpeza” do estereótipo homossexual ..................................52
V.3.2. Zorra Total: a “poluição” do estereótipo homossexual.........................................57
V.3.3. Salientando contrastes ...........................................................................................60
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................................63
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .....................................................................................65

7
INTRODUÇÃO

A comunicação de massa adquiriu status singular na ordem dos discursos da


sociedade contemporânea. Essencialmente contraditória, a mídia detém extraordinários
instrumentos de interferência na coletividade. Ora atuando como estandarte da liberdade de
expressão, ora traduzindo o verdadeiro espetáculo da alienação, na mídia persistem arquétipos
idealizados da mesma forma que se destroem estereótipos estigmatizados. Num momento de
incessante preocupação com a questão ética evidenciada pelas empresas de comunicação, a
própria mídia às vezes arroga para si o papel de mediadora entre o que seria a expressão da
verdade e da justiça, ou entre valores morais e aqueles ditos imorais. Ao assumir o papel de
interlocutora e porta voz de seu público, a mídia dissemina e reforça aspectos centrais da
cultura e identidade nacionais. Nesse contexto, um nicho muito promissor da televisão
brasileira parece encerrar grandes resquícios de discriminação social/sexual: os programas de
humor e algumas telenovelas.
O presente estudo caminha ao lado de experiências anteriores à sua execução:
uma pesquisa de iniciação científica1, desenvolvida entre 2005 e 2006, que buscava identificar
a dissonância entre a narrativa homossexual presente nas telenovelas Senhora do Destino, de
Aguinaldo Silva, e América, de Glória Perez. Nesta pesquisa, enfocamos, principalmente, a
participação dos autores na construção das personagens homossexuais, de suas histórias e de
seus “finais”. O que nos interessava era decifrar os códigos utilizados por esses escritores para
conceber essas personagens, tanto do ponto de vista estético quanto moral, ideológica e
discursivamente.
Caminhando em volume e essência, as páginas seguintes dirigem-se, agora, à
análise de dois produtos midiáticos que oferecem representações homossexuais (a saber, o
humorístico Zorra Total e a telenovela Páginas da Vida, ambos da emissora Rede Globo).
O sentido desta análise recai sobre a confrontação de representações
homossexuais em programas distintos: a telenovela e o humorístico. Cabe, no âmbito desse
estudo, uma análise sobre a possível estigmatização dos estereótipos homossexuais veiculados
em determinados produtos da Rede Globo, como o Zorra Total. Em complemento, interessa-

1
A pesquisa se inseria na linha “Gênero e Sexualidade na Mídia Brasileira”, do Núcleo Interdisciplinar de
Estudos de Gênero, NIEG/UFV. Dela faziam parte dois outros projetos já concluídos em 2005: Religião e Mídia:
as mensagens sobre sexualidade veiculadas pela TV Canção Nova e Estética Corporal e Violência Simbólica na
Sociedade Ocidental Contemporânea.

8
nos investigar a contradição narrativa entre esse programa e a novela Páginas da Vida.
Recorreremos, oportunamente, à identificação dos possíveis traços de estereótipo amplamente
utilizados como elemento humorístico pela mídia, que poderia, oportunamente, promover e
reforçar a estigmatização do indivíduo homossexual na sociedade.
Partimos da hipótese que o condicionamento da imagem do indivíduo
homossexual à estereotipia e conseqüente estigmatização, no programa Zorra Total,
contrapõe-se à suposta naturalidade com que este traço identitário é apresentado na novela
Páginas da Vida.
A apropriação da estereotipia homossexual pelo gênero humorístico parece-nos
preponderante em Zorra Total. A frivolidade e “escracho” da narrativa humorística são
características encaradas como permissivas, tanto por parte dos produtores quanto por parte
dos receptores, para que problemáticas muitas vezes tidas como “tabus” (tal qual a
homossexualidade) sejam enquadradas no âmbito do ridículo e, conseqüentemente, do
vergonhoso.
Não nos atemos, propriamente, à análise dos efeitos dessas representações no
cotidiano dos telespectadores, mesmo considerando a relevância da veiculação desse tipo de
conteúdo pela grande mídia, e de seus efeitos. Busca-se, propriamente, oferecer um retrato
analítico das representações que selecionamos como amostra, dentre um universo de pesquisa
demasiadamente vasto e inadvertidamente fluido e, portanto, incompatível com o porte deste
trabalho. No Zorra Total, por exemplo, encontramos diversas personagens, centrais ou
periféricas, que poderiam ser investigadas. Optamos, porém, por concentrarmos-nos na
estereotipia presente na composição imagética, gestual e textual da personagem Patrick Pax,
interpretada por Rodrigo Fagundes, dada sua popularidade crescente entre a população
telespectadora do programa. Isso significa pensar em conseqüências futuras para os resultados
obtidos com este trabalho, como por exemplo, um estudo de recepção. A escolha das
personagens a serem analisadas em Páginas da Vida se deu de forma igualmente pontual,
procurando atender a um critério cronológico.
A estrutura do trabalho está dividida em quatro momentos de explanação teórica
que, em verdade, somam-se epistemologicamente a fim de elucidar a análise do corpus
realizada ao final. No Capítulo I, apresentamos as colaborações dos estudos de gênero para a
formação de um olhar antropológico que possa desvelar a formação das caracterizações
homossexuais em questão como reflexos de uma sólida heteronormatividade ainda presente
no campo das relações sociais e, conseqüentemente, na mídia.
No Capítulo II, discorremos sobre o conceito de representação, vastamente
9
utilizado neste estudo, bem como os de estereotipia e estigmatização. Neste momento,
introduzimos uma breve explanação sobre a questão homossexual, objetivando elucidar os
conceitos que nos propiciem analisar as representações midiáticas da homossexualidade.
No terceiro capítulo, investigamos a forma como, ao longo dos anos, a
homossexualidade foi abordada pelos “olhares” da ciência e, mesmo, da sociedade. “A
Síndrome do Rótulo”, como assim nomeamos esta seção, é aquela que diríamos responsável
pela excessiva necessidade de entendimento/enquadramento dessa categoria “desviante” pelo
olhar normatizante, em suas diversas modalidades.
Prosseguindo, no Capítulo IV expomos uma análise sucinta sobre o lugar social e
ideológico ocupado pelos veículos de comunicação de massa no campo da sexualidade, a
partir de um mapa cronológico das representações homossexuais em telenovelas e programas
humorísticos da Rede Globo. Por último, apresenta-se a análise do corpus da pesquisa,
amparada pelo protocolo metodológico que, neste ponto, já estará plenamente definido.

10
CAPÍTULO I. CONSOLIDANDO UMA PERSPECTIVA DE
GÊNERO

Uma das marcas mais evidentes nos estudos de gênero é a sua familiaridade com
projetos e discussões interdisciplinares. Diversas situações podem ser mais bem observadas a
partir de uma perspectiva de gênero, que compreenda a distinção sexual como uma base
importante das estruturas sociais, na qual se instauram complexas relações de dominação do
perfil masculino sobre o feminino. Esses perfis não são concebidos de forma fixa e imutável,
uma vez que as relações de gênero se estabelecem internamente a processos sociais que
envolvem outras variáveis, como classe social, etnia etc., e não só entre sexos distintos, como
também entre o mesmo sexo. Contudo, parece existir um esforço de determinadas instâncias
sociais (como a família, a igreja, a escola, a mídia etc.) em perpetuar valores tradicionais da
cultura ocidental, que impele o imaginário social a concepções relativamente “fixas” e
“polarizadas” do que seria o masculino e o feminino. Tais concepções são marcadamente
mais presentes ao nível das expectativas sociais que no âmbito das práticas vivenciadas
cotidianamente.
Os estudos feministas percorreram um longo caminho em busca de um status
epistemológico que lançasse seus olhares para as ditas “sexualidades periféricas”. Em
decorrência disso, parece ter havido, em algum momento, uma espécie de cisma acadêmico
entre os estudos feministas e aqueles que tentavam elucidar questões relativas à
homossexualidade, por exemplo. De fato, desde o princípio, a perspectiva de gênero
possibilitou compreender a reprodução de um discurso heteronormativo nas relações
homossociais, homoafetivas ou homossexuais, e também entre heterossexuais e
homossexuais. Contudo, o relativo desencontro de interesses políticos das esferas feminista e
homossexual, ou ainda, a incompatibilidade epistemológica inicial entre esses “olhares”
determinou uma relação instável entre os estudos de gênero e os estudos de gays e lésbicas.
Trataremos desse aspecto mais profundamente, em breve.
Por ora, interessa-nos entender a formação da perspectiva feminista, seus
percalços e vitórias, tanto no campo acadêmico quanto no político e, oportunamente, em
ambos. A princípio, a possibilidade de “repensar” a história a partir do olhar feminino2

2
Como no artigo de Lola G. Luna, intitulado La historia feminista del género y la cuestión del sujeto, que perfaz
a constituição histórica do sujeito mulher e da categoria gênero, especialmente na América Latina. (In: Labrys.
Brasília: UNB, n. 1-2, julho/dezembro de 2002)

11
conferia grandes possibilidades metodológicas aos estudos feministas, que se direcionavam,
primeiramente, à crítica ao papel da mulher na sociedade. O crescimento da atuação feminina
(feminista) no setor acadêmico, científico e profissional em geral, aliado ao afloramento de
sua participação política, indicavam o aumento da participação da mulher na esfera pública.

Nos Estados Unidos, a origem dos estudos feministas, juntamente com a


dos estudos raciais, encontra-se nos movimentos de protesto ocorridos nas
universidades americanas ao longo da década de sessenta. Este movimento
inspira o questionamento da visão e prática despolitizada do establishment
profissional e acadêmico das ciências sociais. As feministas estarão à frente
da crítica à organização científica e profissional dominante, suas divisões
disciplinares, seus critérios de autoridade científica, hierarquia e deferência
acadêmicas e dos fundamentos científicos sobre os quais repousavam as
3
correntes dominantes da sociologia.

No Brasil, porém, o movimento feminista se estabelece de forma diferente.


Prezando (ou acolhendo) uma atuação mais moderada, ele se incute em núcleos acadêmicos já
constituídos, numa postura paralela ao movimento político, esse, menos expressivo.

Assim, a diferença fundamental entre a institucionalização dos estudos


feministas nos Estados Unidos e no Brasil é que aqui as acadêmicas, ao
invés de construírem espaços alternativos, procuraram integrar-se à
dinâmica da comunidade científica nacional mediante a obtenção do
reconhecimento do valor científico de suas preocupações intelectuais pelos
4
profissionais das ciências sociais.

Em ambos os casos, porém, o que se percebe é a preocupação inicial com a


demarcação de um espaço para o debate teórico e a problematização da condição social da
mulher. Tantas foram as teóricas que se debruçaram sobre a questão da opressão feminina,
quantas foram as formas de explicá-la5.
Em 1949, com o lançamento de O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir abre a
pauta de discussões acerca da opressão da mulher, deslocando-a do eixo biológico para o
sociológico, delineando a mulher que “torna-se mulher”, desde já oprimida pela própria
sociedade que a comporta. Acreditando que a causa da opressão feminina não era
naturalmente dada, Beauvoir possibilitava uma leitura histórica da condição da mulher que,
precisamente por isso, seria perfeitamente mutável. Dessa forma, as teóricas feministas, a
princípio, se debruçaram sobre a construção de paradigmas que pudessem explicar a opressão

3
HEILBORN; SORJ, 1999, p. 185.
4
Ibidem, p. 187.
5
Cf. FRANCHETTO; CAVALCANTI; HEILBORN, 1981, p. 19-30 passim.

12
da mulher. Apropriando-se do determinismo biológico, que recorria à demarcação de
diferenças entre os sexos e corpos como determinantes na distinção social entre o masculino e
o feminino, acabavam limitando, substancialmente, as bases epistemológicas de sua categoria
analítica. Segundo Bila Sorj, “estes esforços acabaram por produzir, na verdade, um discurso
metaessencialista sobre os sexos e suas relações”6.
Na década de 70, Gayle Rubin traz expressiva colaboração ao arcabouço
epistemológico feminista, criticando postulados de Levi Strauss como a “troca de mulheres” e
propondo novas leituras, como a “assimetria sexual”, através da aplicação da categoria
“gênero” 7. Rosaldo & Lamphère organizam uma coletânea de artigos seminais em que
buscam explicar uma suposta universalização da opressão feminina8 – pressupostos que a
própria Rosaldo questionaria alguns anos mais tarde9. Sorj explica que

As hipóteses explicativas sobre as origens da opressão feminina foram


sendo gradualmente questionadas e abandonadas na busca de ferramentas
conceituais mais apropriadas para desnaturalizar a opressão. Esse quadro de
efervescência intelectual é o contexto no qual se desenvolve o conceito de
10
gênero.

Contudo, não se averigua uma transformação epistemológica completa ou


imediata em um momento inicial dos estudos de gênero, dado que estes surgem menos como
um olhar alternativo ao essencialismo biológico que como uma expansão de suas bases para
os domínios sociais11. Percebe-se, a princípio, uma analogia ainda determinista: “O sexo está
para a natureza, assim como o gênero está para a cultura”.

Desta forma, os estudos sobre o gênero, durante longo tempo, viram a


heterossexualidade como uma realidade dada, natural, sem questionamento,
ligada ao sexo biológico, enquanto que o gênero, o papel social, era
concebido como construto social e organização primária das relações
12
humanas.

6
SORJ, 1992, p. 17.
7
RUBIN, Gayle. The Traffic in women: notes on “the political economy” of sex. In: REITER, R. (ed). Toward
an anthropology of women.
8
ROSALDO & LAMPHERE. Mulher, Cultura e Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
9
ROSALDO, M. The use and abuse of anthropology: reflections on feminism and cross-cultural understanding.
Signs. 5,3:389-417.
10
PISCITELLI, 2004, p. 49.
11
COSTA, 2003.
12
SWAIN, 2001, p. 90.

13
Esta assertiva pode ser mais facilmente apreendida a partir de uma análise
histórica: a categoria gênero brota em um contexto de efervescência feminista, tanto política
quanto intelectualmente, onde era necessário – e até mesmo urgente – que se legitimasse um
discurso teórico voltado para a análise das relações entre os sexos e que, mais que isso, fosse
capaz de averiguar e compreender socialmente o peso dos contrastes entre o masculino e o
feminino. No bojo dessas elucubrações, a aplicação da categoria gênero se consolidaria, em
substituição à categoria mulher.
Conforme salienta Joan Scott, “a maneira pela qual esta nova história iria, por sua
vez, incluir a experiência das mulheres e dela dar conta dependia da medida na qual o gênero
podia ser desenvolvido como uma categoria de análise”13. Poderíamos pensar, de forma
simplificada, que a categoria gênero possibilitou entender o “tornar-se mulher”, estabelecendo
a princípio a diferenciação entre sexo (biológico) e gênero (cultural) e assumindo o discurso
antropológico de que “não existe uma mulher, existem mulheres”. Esse olhar fragmentado
será construído a partir de um processo auto-investigativo posto em prática por alguns estudos
de gênero, que visavam, antes de tudo, um mapeamento da teoria feminista e de suas
contribuições para os estudos sociológicos.
A consolidação da categoria analítica gênero se daria, efetivamente, no final dos
anos 70, ilustrando uma nova demanda por parte de seus pesquisadores: o alargamento
epistemológico do universo de análise da Teoria Feminista, um desejo não só de ordem
teórica (acadêmica), mas igualmente de ordem prática (política), e conseqüentemente, não só
por parte das feministas, como de toda a gama de pesquisadores interessados na aplicabilidade
dessa perspectiva em outros contextos sociais e políticos, como aqueles diretamente ligados
aos movimentos de visibilidade sexual.

Somente a partir desses movimentos, nos últimos 20 anos,


aproximadamente, vem-se estabelecendo com mais visibilidade no meio
acadêmico uma categoria de pesquisa que se convencionou chamar de
“estudos gays e lésbicos”, contemporaneamente incluídos na categoria de
“estudos de gênero”. Certamente, houve outras iniciativas antes daquela
época, porém não em tal quantidade e de tal forma estruturadas, que
14
pudessem ser categorizadas em um grupo específico.

No Brasil, o feminismo e o movimento homossexual estiveram ligados desde o


início. Esta união se expressava na congruência de causas e ações políticas traduzidas

13
SCOTT, 1995, p. 73.
14
PERET, 2005, p. 57.

14
principalmente através da luta pela democracia. Este “engajamento” tinha como meta não
apenas o fim da ditadura militar, como também eliminar de qualquer tipo de opressão.
Academicamente, no entanto, as propostas de investigação dos movimentos
feministas e homossexuais eram, em amplos aspectos, dissonantes, muitas vezes
contraditórias. Conquistada a anistia e a instauração de um regime democrático no país, a
“sociedade” política travada entre os movimentos de gays e lésbicas e os movimentos
feministas ficou bastante comprometida. Começam a aparecer fissuras naquilo que antes
parecia um bloco homogêneo e coeso15. Nos centros universitários, a pouca representatividade
de teóricos interessados em lidar com a categoria gênero, aliada à atomização desses estudos e
à dissidência política dos movimentos feministas e homossexuais boicotaram uma almejada
integração inicial.
João Bosco Hora Góis16 problematiza a relação entre estudos de gênero e de
homossexualidade, salientando como principais dificuldades: a acessibilidade dos acadêmicos
aos debates de gênero, bem como aos estudos feministas em geral; a presença de um forte
heterossexismo nos estudos feministas/de gênero, impedindo ou dificultando o tratamento da
experiência homossexual; e por fim, o distanciamento das causas políticas feministas e
homossexuais, que sucederam às fissuras nas relações entre estes dois movimentos. Góis
denuncia que

[...] no esforço de formação e legitimação dos estudos contemporâneos


sobre a homossexualidade está presente a necessidade de demarcação de um
lugar especificamente seu. Daí porque não parece ser de interesse para os
agentes diretamente envolvidos em sua formatação que eles sejam vistos
como parte de um outro campo mais amplo – o de gênero, particularmente –
ou mesmo como especialização de dadas disciplinas – uma sociologia da
17
homocultura ou antropologia das homossexualidades, por exemplo.

O autor parece se basear, para essa afirmação, no ensaio de Adrienne Rich,


Compulsory heterosexuality and lesbian existence, de 1980. Recentemente, porém, esse
quadro parece ter se alterado significativamente, sendo cada vez mais evidentes produções
feministas que tratem da homossexualidade, especialmente a feminina.

15
É importante registrar que não havia também convergência, dentro do movimento homossexual, entre gays e
lésbicas. Por exemplo, o grupo SOMOS, que originalmente pretendia abrigar homossexuais como um todo,
acaba se constituindo como um grupo masculino apenas. Esse histórico é detalhadamente relatado em
MACRAE, 1990, e MACRAE, 1982.
16
GÓIS, 2003, p. 10-11.
17
Ibidem, p. 10.

15
Recorremos, novamente, à perspectiva histórica para elucidar os conflitos
inicialmente colocados entre os estudos feministas e os estudos gays e lésbicos. Existia uma
tendência da corrente feminista marxista à binarização da sexualidade através da dicotomia
masculino/feminino, reflexo de uma categorização sistemática dos papéis de gênero, de base
essencialista, que não abria espaço para se pensar em outras formas de organização da
sexualidade. Esse modelo é resquício de uma política feminista que atravessou os estudos de
gênero durante longa data com uma “heterossexualidade compulsória”18, dita natural, e que
preocupava-se basicamente com as relações de opressão estabelecidas entre homem e mulher
(heterossexuais). Embora não propositadamente, esses estudos não percebiam – ou não se
interessavam em perceber – as relações homossexuais masculinas (homoafetivas) como
munidas de um “sentido opressor”, ao modo dos relacionamentos heterossexuais19.
Chegamos ao que se entende hoje como feminismo contemporâneo, corrente
fortemente arraigada à abordagem pós-estruturalista, que propõe a discussão, a desconstrução,
a desessencialização, o esvaziamento, enfim, a problematização de uma série de paradigmas
ligados às identidades feminina e masculina. A referenciada crise epistemológica presente na
produção teórica feminista pós-70 gerou um mapeamento crítico da aplicação da categoria
gênero20. A mais recente safra de teóricos feministas tem se preocupado demasiadamente com
os reflexos dessa epidemia de conceitos e paradigmas e da multiplicação de papéis sexuais,
sociais e de gênero que afloraram no contexto da modernidade reflexiva.21
Paralelamente a essa revolução epistemológica nos estudos feministas, a academia
contemporânea assistiu a emergência de um novo esquadrinhamento teórico: os estudos
queer, uma resposta à heteronormatividade radical que se refletiu em alguns estudos
feministas ao longo de tantos anos, à custa de sua origem focada nas relações sociais

18
SWAIN, 2001, p. 90.
19
Cumpre notar que a demasiada necessidade de estabelecer discussões que demarcassem um lugar para as
mulheres na academia, bem como na política e na sociedade, acabou anulando ou desestimulando estudos que se
propusessem a lidar com a esfera masculina. Num momento de incessante reafirmação da(s) identidade(s)
femininas, é perfeitamente compreensível que seria mais atrativo ao movimento lidar com os problemas da
“mulher”.
20
HEILBORN; SORJ, 1999, p. 196.
21
O conceito de modernidade reflexiva é utilizado por Anthony Giddens com o objetivo de refletir sobre o
impacto dos meios de comunicação de massa na sociedade contemporânea. Segundo o autor, a difusão em massa
representa um dos aspectos centrais na radicalização da modernidade, proporcionando mudanças significativas
no seio social. A exposição crescente do público aos conteúdos midiáticos teria como conseqüência principal um
aumento bastante marcado no grau de reflexividade individual e institucional, afetando de forma direta as
maneiras de se pensar a identidade e os papéis sociais. Para mais informações sobre reflexividade e radicalização
da modernidade ver GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade (1993).

16
heteronormativas.
Partindo de uma política pós-identitária (a saber, pós-estruturalista) que busca o
esvaziamento de valores previamente conferidos ao sujeito, os estudos queer alargam os
horizontes de interpretação da identidade, admitindo que o indivíduo, em sociedade,
desempenha “papéis” muito variáveis. Traduzindo: a “performatividade”22 do sujeito
possibilitaria a manifestação de sua sexualidade – bem como de outras instâncias de sua(s)
identidade(s) – de formas distintas, em diversos contextos específicos e inter-relacionados,
trabalhando com a idéia de uma infinita teia de relações interpessoais, onde, a cada momento,
o indivíduo constrói, reconstrói e transforma sua representatividade social.
A prerrogativa do discurso queer é situar-se justamente na fronteira das
denominações categóricas. Problematizam-se conceitos que possam essencializar ou limitar a
identidade do sujeito; essa nova perspectiva entende a sua constituição em trânsito identitário
constante. O fenômeno queer proporia justamente o rompimento com determinados padrões
pré-estabelecidos, e a conseqüente instauração de “lugares de representação”, onde “somos
sempre o queer de alguém”23.

A queerness desafia igualmente a noção de identidade, nega o


essencialismo generalizado ou homossexual, na medida em que se organiza
na performance de identidades plurais, que se constroem a cada dia. [...]
Neste sentido, a identidade não é o sexo, não é a sexualidade, eu não sou
24
um ser generizado ou desviante da norma, EU SOU EU.

A perspectiva queer coloca novos problemas para os estudos de gênero, na


medida em que toma a identidade como um construto social definido histórica e culturalmente
através das “performances” do indivíduo em sociedade, e pelo mesmo caminho acaba por
fragmentá-la inteiramente. Para a queerness, a identidade não se encontraria “fechada” em si,
mas “aberta” a uma gama de possibilidades de representação que passeiam pela sexualidade,
classe social, etnia, escolaridade, etc.25 Stuart Hall evidencia essa “mutabilidade” do sujeito
ao argumentar que

Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades


modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens
culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no

22
BUTLER, 2003.
23
SWAIN, 2001, p. 96.
24
Ibidem, p. 95-96. (grifos da autora)
25
Ibidem, p. 91.

17
passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais.
Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais,
abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta
perda de um “sentido de si” estável é chamada, algumas vezes, de
deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento –
descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural
quanto de si mesmos – constitui uma “crise de identidade” para o
26
indivíduo.

Essa forma, até então inédita, de se conceber a identidade como algo “em
construção” ou “em trânsito” já é hoje uma prerrogativa para os estudos sociológicos que se
debruçam sobre as transformações oriundas da quebra de uma série de paradigmas que, tanto
teórica quanto socialmente, começam a se desfacelar, em face da própria radicalização da
modernidade.

Que a identidade, seja dos indivíduos (por definição, seres não-divididos e


indivisíveis), seja das agremiações como estado e nação, seja dos objetos de
estudo em análise – e, com freqüência, defendida com amor e paixão –
como língua e pátria, é um construto e não algo que se encontra por aí in
natura, já se transformou em um lugar comum nos círculos acadêmicos [...].
Com certeza, essa nova percepção significa uma guinada radical na forma
27
como a identidade era pensada até então.

São marcadamente recentes as lentes teóricas que passam a perceber os sujeitos


cada vez mais distantes de planos cartesianos geometricamente limitados. O deslocamento
dos olhares antropológicos para lugares indeterminados, e ainda, a fragmentação desses
olhares, oferecem novos arranjos que, até então, não seriam facilmente observáveis através de
uma perspectiva iluminista. Acreditamos que os estudos de gênero, imersos nessa atmosfera
contemporânea, oferecem instrumentos epistemológicos determinantes para o estudo de
representações sociais e, mais ainda, dessas representações no que tange a esfera da
homossexualidade.
Esta relativa “liberdade” oferecida pela perspectiva de gênero é valida, contudo,
somente quando somada a ela está a constatação de que a contemporaneidade comporta (e
legitima) um leque de representações díspares e incongruentes; quando admitirmos, enfim,
que em determinados lugares e momentos de representação, encontraremos sujeitos ainda
arraigados a valores de concepção identitária tradicionais, se confrontados a outros que, ao
contrário, trazem consigo a insígnia contemporânea da fragmentação, da diversidade, da

26
HALL, 2004, p. 9.
27
RAJAGOPALAN, 2002, p. 77.

18
fluidez, da reflexividade, da transitoriedade, enfim, da indeterminação.
A conhecida “crise identitária”28 do sujeito contemporâneo provavelmente não
será superada; antes, vem se somar ao inventário social, como o espaço de fronteira, o “vazio”
ou o “desconhecido”. Algumas vezes, aproximando-o da loucura, outras, da perversão,
insistimos em um posicionamento científico clássico de observação do sujeito: atribuir
espaços, períodos e valores. Corremos, a todo instante, o risco de utilizarmos uma perspectiva
ingenuamente enviesada, dada a incessante necessidade de compreensão e, antes disso, de
classificação.
Tomemos como exemplo o “discurso da inversão de gênero”, utilizado por Peret
(2005) em seu estudo sobre a representação social da homossexualidade em telenovelas, para
identificar personagens de um determinado sexo que detém gestualidade e fala que o senso
comum define como sendo do sexo oposto. Essa apreensão das representações sociais face ao
comportamento masculino e feminino reflete o binarismo preponderante no senso comum,
definindo-as a partir de uma lógica heteronormativa. Há pouco salientamos que a fixidez das
categorias masculino e feminino se instala, propriamente, nas expectativas de que esses
“papéis” sejam cumpridos socialmente. A “inversão de gênero”, portanto, figuraria como
expressão legítima de um comportamento tido como desviante e que o imaginário social
pretende reenquadrar em uma ordem de gênero polarizada.
Essa perspectiva contradiz a proposta queer de se pensar a identidade de forma
fragmentada, fluida, transitória, corroborando, portanto, os moldes iluministas de
conformação de um sujeito fixo, homogêneo, coerente. Tornaria-se, dessa forma,
inapropriada, se aplicada à análise de representações homossexuais que se tecem em solo
“real”. De outra forma, na mídia constatamos que a maioria das representações homossexuais
oferecidas se constrói de forma “fechada”, tornando-se, inclusive, um instrumento de
propagação de estereótipos. Tais representações, portanto, conformam-se à lógica de um
discurso de inversão de gênero.
É a partir desse quadro que serão observadas as “personagens” escolhidas para
nossa análise. Contudo, persiste uma espécie de “faro” ou intuição que pretende negar
qualquer espécie de fatalismo ou essencialismo das referências aqui apresentadas. Não só por
se tratar de um trabalho que discorre sobre um “tabu”, mas antes, por se posicionar
epistemologicamente como um estudo aliado a uma perspectiva de gênero que, somada ao

28
Cf. HALL, 2004.

19
contexto teórico no qual se insere, afasta de si a prepotente intenção daqueles que pretendem
demarcar lugares, como masculino e feminino, heterossexual e homossexual, certo e errado.
Não se descarta, portanto, a problematização acerca da essencialização das
qualidades atribuídas às personagens homossexuais na mídia, e a forma como podem tornar-
se prejudiciais à visibilidade social das experiências identitárias.
A perspectiva de gênero aqui adotada pretende somar-se a uma exposição teórica
que lida com representações concretas e firmemente reproduzidas pela mídia: os estereótipos
de indivíduos homossexuais. Através desse olhar, poderemos reconhecer e desconstruir esses
signos familiares que se encontram fortemente incorporados à vida cotidiana, perpetuando
uma normatividade que já não se sustenta apenas de “intenções”. Poderemos, também,
questionar a coerência dessa “estabilidade normativa”, a saber, a conformidade de
estereótipos homossexuais e a força com a qual se propelem e adquirem legitimidade em
sociedade, através de esquemas heteronormativos que, isolados em família, no trabalho e até
mesmo nos templos religiosos, já começam a se desfacelar. Em termos extremamente claros,
diríamos que nosso “olhar” nos impele a desmontar a lógica dos papéis sociais de homem e
mulher, explicitando a contradição discursiva das instituições que, em moldes iluministas,
pretendem regular a sexualidade do sujeito, quando esse nem mesmo possuiria qualquer
atribuição passível de “regularidade”.

20
CAPÍTULO II. O ESPETÁCULO DA VIDA COTIDIANA

“A vida é um grande teatro”. À primeira vista, pode parecer ingênuo – e um tanto


perigoso – iniciar este capítulo com uma expressão popular, já tão massacrada pelo senso
comum. Justificamo-nos, contudo, a partir das leituras que dão corpo a este estudo,
proporcionando-lhe, mais do que “lentes científicas”, a vontade de observar, pesquisar,
assistir ao incessante espetáculo da vida cotidiana. Antes de tentar circunscrever e analisar, no
âmbito das representações oferecidas pela mídia, um determinado comportamento social – a
saber, a homossexualidade –, primeiramente, é necessário perceber a própria representação
como fronteira entre o que “é” e o que “parece ser” a homossexualidade.
A conveniência em se acreditar que a vida cotidiana é uma encenação
interminável reside unicamente, a nosso ver, na possibilidade de utilizarmos esse artifício para
interpretar os “grandes momentos”, ou ainda, o grand finale. Assassinatos, partos, casamentos
e divórcios, baladas, brigas, promoções ou dispensas, grandes paixões que se iniciam ou
findam... Todos esses fatos tornam-se referências para a construção de uma narrativa
dramática sobre a vida, sobre a sociedade e sobre si próprio. Ao contrário, dias nublados,
gripes inconvenientes, conversas desconcertadas, preguiça, tédio, estafa, trabalho e outras
coisas menos “interessantes” do ponto de vista “dramatúrgico” passam despercebidas nessa
encenação, ou são ignoradas, por se tratarem de leves fissuras frente às grandes rupturas,
desmoronamentos e soerguimentos na estrutura social. Algo injusto, de fato. E possivelmente
incorreto.
Por mais reducionista que possa parecer a assertiva de que “vivemos
representando”, esta não é de todo ingênua. É possível, com um olhar mais atento, perceber
que a vida social é tecida por diversas representações. Nosso posicionamento perante o
mundo se coloca num tênue limiar, estrategicamente posicionado de forma a selar a
individualidade e inteirar a coletividade. Sintetizamos, de forma naturalizada e, na maioria das
vezes, inconsciente, aquilo que compartilhamos com o exterior, em termos de aparência,
gestualidade, fala e costumes. Caminhando sob essa perspectiva, chegaríamos à constatação
de que existem certos modelos culturalmente prescritos para a construção dessas
representações.
Os estudos de Serge Moscovici, na década de 60, começavam a delinear a
categoria das representações sociais, partindo da teoria de Durkheim sobre as representações
coletivas, complexificando-as a partir de loci individuais, e conferindo dessa maneira, mais

21
propriedade e liberdade ao sujeito/objeto de estudo. A representação aparecia, dessa forma,
como “um conjunto de conceitos, proposições e explicações criados na vida quotidiana no
decurso da comunicação interindividual”29.
A Teoria das Representações que aí se configura reemerge num contexto onde as
formas clássicas de conformação do sujeito30 começam a tornar-se um empecilho à
configuração da sociedade contemporânea. A representação surge como aquilo que está entre
o objeto e observador (o sujeito, embora este também possa, em determinados momentos,
ocupar o lugar de objeto), originando um elaborado repertório de papéis, por sua vez
compartilhado entre as pessoas, a partir das quais a realidade vai sendo recriada,
primeiramente a partir de percepções individuais, para então atingir o status de coletividade.
O estudo mais esclarecedor selecionado para incorporar nosso referencial teórico
sobre as representações sociais, certamente, é o de Goffman (1975), acerca do comportamento
humano em sua situação social, e do modo como aparecemos aos outros. Esclarecedor, por
tratar, através de termos e situações originalmente “cênicas” – o ator, o cenário, a farsa, os
bastidores – de situações cotidianas, desembaçando a vidraça que se instala entre a vida real e
a ficção. É dessa forma que acaba definindo representação como “toda atividade de um
indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um
grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência”31. Esta concepção
está fortemente atrelada à existência de relações interpessoais e, conseqüentemente, da forma
como se oferece a mostrar a representação, Goffman acaba por confirmar que esta é uma
instância situada entre o observador e o observado.
Assim, nos tornaríamos personagens de nós mesmos, oferecendo um banquete aos
sentidos alheios, e a nós mesmos, um “sentido” em existir. O ato de “ser”, portanto,
vincularia-se ao “parecer”, à medida que a própria existência do indivíduo subscreveria
incessante confirmação das existências alheias.
As representações adquirem uma ordem prática no modo de organização da
realidade social, acionando mecanismos cognitivos que penetram nas relações sociais,
fazendo com que a comunicação entre os indivíduos e entre eles e o mundo exterior adquira

29
MOSCOVICI, 1981, p. 181 apud BAPTISTA, 2006, p. 2.
30
Referimo-nos ao sujeito cartesiano do Iluminismo (determinado por uma identidade própria e interior, cunhada
pela racionalidade e pela expressão de uma individualidade indivisível) e ao sujeito sociológico (cuja identidade
se constrói a partir de sua interação com a sociedade, sendo a forma como ele “costura” sua subjetividade à
objetividade do mundo exterior). Cf, HALL, 2004.
31
GOFFMAN, 1975, p. 29.

22
sentido a partir de experiências previamente compartilhadas32. A Teoria das Representações
oferece uma percepção sobre identidade que será bastante apropriada pelo pós-estruturalismo,
vertente teórica que busca compreender a forma como a realidade é tecida através da
linguagem (ou propriamente dos discursos), em conformidade com uma rede de significados
infindáveis, que acabam por estruturar a ordem (mas também o caos) social.
Digamos que a questão primordial referente às esferas de representação e a todas
aquelas direta ou indiretamente ligadas a esta e cravadas no social seja a necessidade de
classificação inerente ao conhecimento humano. A realidade em si é concebida através de
sistemas de classificação, diversos e muitas vezes dissonantes, mas que constituem a própria
cultura. Referimos-nos, basicamente, à capacidade humana de nomear e organizar as coisas,
torná-las diferentes ou semelhantes, opostas ou interligadas. Esses “quadros de significação”,
já vastamente analisados por cientistas sociais, são responsáveis pela organização da
realidade; ou em termos que nos interessam, da sociedade.

Modernamente, existe acentuada tendência a se encarar a vida social como


um sistema no qual a razão de ser dos elementos que o constituem é
significar; da mesma forma, considera-se que as relações entre esses
elementos significantes são sempre produtoras de significação.33

A afirmativa de Rodrigues determina o terreno sobre o qual diversos teóricos –


significativamente Foucault – se debruçaram para tecer considerações acerca da manifestação
do poder através do discurso. Quando experimentamos o ato de nomear e classificar coisas,
sejam elas objetos ou pessoas, estamos, paralela ou sobrepujantemente, hierarquizando e
postulando, dando significado primário ao que chamamos de “poder”. O poder do discurso,
apropriando-nos da e avançando na concepção de Foucault, residiria na capacidade de
negociar o distanciamento e a qualidade diferenciada das coisas que nos circulam e constróem
a nossa realidade. Continua Rodrigues:

[...] os sistemas de representação atuam como uma grade que se estende


sobre o mundo, buscando classificá-lo, codificá-lo e transformar suas
dimensões sensíveis em dimensões inteligíveis. São como uma rede, cujas
malhas instituem os domínios da experiência sobre um terreno antes
indiferenciado e estabelecem os limites dos comportamentos dos indivíduos
e dos grupos; como códigos constituídos, aplicam-se a esses componentes
para decifrá-los, pois, ao dividir os domínios da experiência, os sistemas de

32
Cf. BAPTISTA, 2006, p. 3.
33
RODRIGUES, 1979, p. 9.

23
representação estabelecem cortes e contrastes e instituem diferenças.34

Experimentemos pensar o discurso como algo mais amplo, que nos permita
compreendê-lo como inerente a qualquer manifestação do poder. Na acepção de Foucault,

[...] o discurso – a psicanálise mostrou-o –, não é simplesmente o que


manifesta (ou esconde) o desejo; é também aquilo que é objeto do desejo; e
porque – e isso a história desde sempre o ensinou – o discurso não é
simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas
é aquilo pelo qual e com o qual se luta,é o próprio poder de que procuramos
assenhorear-nos.35

Por sua vez, o “sujeito”, que tece seu discurso através de atos, fala e expressões,
está “sujeito” a uma hierarquia discursiva, uma evolução complexa do que primeiro
determinamos como discurso36. Haveria, assim, uma “ordem dos discursos” na qual os atores
sociais, dotados de suas mais diversas fachadas, desempenham, dia após dia, seus papéis em
sociedade.

II.1. Estereotipia e estigmatização

Se as representações sociais possibilitam um extravasamento identitário dos


sujeitos (e dos objetos), uma vez que externalizam sua pluralidade de manifestações
identitárias, decorre desse conceito, paradoxalmente, um grande entrave à alteridade: a
estereotipia.
Quando assistimos uma peça de teatro, ou determinado filme ou qualquer outra
forma de encenação consciente, tão melhor será a representação de um ator quanto mais
verídica parecer. Bons atores são aqueles que mais se aproximam da veracidade em sua
declarada intenção de representar. Em outras palavras, melhores são os que mais convencem
ser aquilo que representam.
Na vida cotidiana, algo similar e exponencialmente superior poderia se configurar.

34
Ibidem, p. 12.
35
FOUCAULT, 2002, p. 2.
36
Esclareçamos, a partir de agora, que a noção de “discurso” geralmente empregada neste estudo corrobora as
investigações de cunho antropológico acerca da genealogia do poder, a partir da teoria foucaultiana.
Primeiramente atrelada à linguagem, essa concepção de discurso transcende a Teoria Lingüística e se acresce de
ares “institucionais”, através da instrumentalização e hierarquização das vivências e práticas cotidianas. Dessa
forma, o poder do discurso se desmaterializa da linguagem, podendo manifestar-se até mesmo em “completo”
silêncio. Cf. FOUCAULT, 1985.

24
O “peso” do que denominamos “realidade” – em contraposição à ficção – nos atrela de tal
maneira ao(s) nosso(s) personagem(ns) que não mais nos desvinculamos deles. Tornamo-nos
atores presos em uma substância corpórea embaçada pelo véu da cultura, circunscritos por
fachadas de nós mesmos. Rompemos, muitas vezes, com uma pluralidade infindável de
comportamentos, ao elegermos algumas categorias de representação às quais julgamos mais
“pertinentes” para nossas práticas sociais.

[...] o indivíduo pode envolver profundamente o seu eu em sua identificação


com um determinado papel, instituição ou grupo, e em seu conceito de si
mesmo como alguém que não rompe a interação social ou desaponta as
unidades sociais que dependem dessa interação. Quando acontece uma
ruptura, portanto, verificamos que as concepções de si mesmo em torno das
quais foi construída sua personalidade podem ficar desacreditadas.37

Essa solidificação – ou aprisionamento – do sujeito em determinadas


manifestações identitárias é quase sempre percebida e reforçada pelo olhar alheio. Da mesma
forma, ao olharmos, paramos o olhar em determinado ponto que definitivamente não é o mais
distante, mas justamente aquele mais próximo e mais facilmente perceptível e classificável.
Enquanto atores sociais, representamos determinados papéis sobre os quais
recaem as expectativas de uma “narrativa” coerente por parte da platéia – a saber, nossos
observadores. Esses “olhares de cobrança” são prescritos culturalmente, de acordo com cada
representação, ou com o que se espera ver delas. Algumas representações tornam-se
socialmente tão disseminadas e conhecidas – portanto, tão concretizadas – que acabam
exigindo do ator um legítimo modus operandi, isto é, um comportamento “fechado” em
determinados aspectos, de forma que ficam “impedidos” outros vestígios comportamentais
que possam comprometer a “boa” encenação. A essa extrema determinação do desempenho
do ator social, poderíamos chamar de estereótipo.
A estereotipia – isto é, a capacidade de determinar os “limites” de certa
representação, somada a expectativas que ora se instalam para que estes limites sejam
preservados – é instrumento dos mais eficazes à coesão das práticas sociais. Explica-se: a todo
o momento, acrescentamos e organizamos um quadro referencial particular, uma espécie de
“catálogo” onde se listam certas representações sociais muito conhecidas, que podemos
vasculhar livremente, sempre que necessário, a fim de facilitar uma possível interação social.
Seria, em outras palavras, uma forma alternativa de classificar – e assim, conhecer e agrupar –

37
GOFFMAN, 1975, p. 223.

25
um indivíduo que, de fato, ainda não conhecemos, a partir de certos vestígios de seu
comportamento que nos levam a enquadrá-lo em determinada representação por nós já
catalogada. Partem daí as expectativas de que a sua “performance” expresse uma coerência
com aquilo que, particularmente, já pensamos conhecer de seu “papel”.
Embora nem toda representação social implique necessariamente a agregação de
um estereótipo, este surge como uma estratégia prática e simplista de classificação das coisas
(inclusive das pessoas ou grupos de pessoas) concebida por observadores externos ao
contexto submetido ao estereótipo, geralmente agregada a juízos de valores, tornando-se,
conseqüentemente, um forte instrumento de discriminação social. O estereótipo é uma forma
de representação social que “trata de um tipo específico de esquema ou atitude, fundado
freqüentemente em crenças, origem de opiniões e atribuições, relativamente a determinados
grupos sociais e que encontra a sua gênese em processos de categorização”38. Dessa forma, se
as representações “não incluírem claras categorizações de grupos sociais, podem não remeter
para qualquer tipo de estereotipia social, não implicando, por isso, fenômenos de
discriminação social”39.
No entanto, a necessidade de classificação das coisas, inerente ao pânico que ora
se instala com a ameaça de que as “categorias venham a perder o controle que exercem, ou
parecem exercer, sobre o mundo”40, impele o conhecimento humano a buscar esquemas
(limitados) de classificação nos quais possa enquadrar os objetos e indivíduos, munindo a si
próprio de certa aura eternizante, capaz de conceber as qualidades das coisas de forma fixa e,
até certo ponto, imutável. Na maioria das vezes, esses esquemas apresentam-se de forma
binária e, muito embora existam “freqüências” intermediárias entre as duas instâncias opostas,
persistem, de forma unívoca, uma tendência à transposição desses “lugares de fronteira” para
as extremidades, e outra, que obedece prioritariamente à ordem dos discursos41: a polarização,
entendida aqui como a atribuição de valores hierárquicos à esfera do binário.
Um desdobramento facilmente verificável desses “processos de estereotipização”
diz respeito à capacidade de anularem a individualidade do sujeito, em prol de uma
diferenciação coletiva daquilo que estabelece-se como “normal” e “diferente”. Este fator é

38
BAPTISTA, 2006, p. 5.
39
Ibidem, p. 4.
40
RODRIGUES, 1979, p. 14.
41
Partimos do que Foucault determina como “sistemas de exclusão que incidem sobre o discurso”, dentre os
quais, figuram a “interdição” – aquilo que “não se deve dizer” –, a “partilha da loucura” – razão e verdade versus
loucura e falsidade –, e a “vontade de verdade” – a institucionalização dos discursos. FOUCAULT, 2002.

26
indispensável à compreensão de uma outra categoria, decorrente e potencializadora do
estereótipo: o estigma, sobre o qual discorreremos mais profundamente, logo em seguida. Por
ora, vale ressaltar que o estereótipo é um elemento de diferenciação/discriminação social,
capaz de atribuir indivíduos em categorias coletivas – isto é, grupos – que carregam traços
salientes de inconformidade com uma normalidade pré-estabelecida por aqueles que a esta
pertencem. O “enigma” dessa usurpação da individualidade, o qual pretendemos apontar, é
desvendado por Joan Scott, em palavras que nos servirão para contestá-lo.

[...] a abstração do conceito de indivíduo mascara a particularidade da sua


figuração. Somente aqueles que não se assemelham ao indivíduo normativo
têm sido considerados diferentes. A dimensão relacional da diferença – seu
estabelecimento em contraste com a norma – também tem sido mascarada.
A diferença tem sido representada como um traço fundamental ou natural
de um grupo enquanto a norma padronizada (o indivíduo homem branco)
não é considerada como possuidora de traços coletivos.42

Kanavillil Rajagopalan43 disserta a respeito dos perigos gerados pela estereotipia,


citando a forma como os judeus foram “demonizados” durante o período da II Guerra
Mundial, através da política de representação empreendida por Hitler na Alemanha nazista. A
identidade judia, naquela época, marcava um contraponto à identidade ariana, que se colocava
como detentora de um discurso dominante, de forma superior, num processo de categorização
que inferiorizava a alteridade. Têm-se, portanto, que a polarização e conseqüente binarização
dos papéis sociais coletivos constituem aspectos fundamentais à conformação e propagação
de estereótipos e, conseqüentemente, de estigmas.
Assim, o conhecimento humano ocidental forjou socialmente o “homem” e a
“mulher”. Nossos “personagens” mais ilustres, mais facilmente identificáveis, compreensíveis
e perceptíveis, mais sólidos, concretos e estáticos.

II.2. O estigma do passivo (homos)sexual

Partindo dos preceitos anteriormente explicitados acerca da genealogia do


conhecimento ocidental capitalista, verificamos que as categorias de representação “homem”
e “mulher” são frutos da binarização e polarização da sexualidade reprodutiva humana. Mais
do que isso, essas categorias oferecem arranjos determinantes para a configuração de

42
SCOTT, 2005, p. 24.
43
RAJAGOPALAN, 2002, p. 83.

27
relacionamentos sócio-afetivos tecidos a partir ou em torno dos sexos, que, ao calcarem-se no
terreno social, adquirem o status de “gênero”. Ao masculino e ao feminino, assim
determinados, foram incorporados portfolios específicos munidos de atribuições sociais
distintas, essencialmente tradicionais em relação à cultura, que nos levam ao que conhecemos
hoje como “ser homem” e “ser mulher”.
É sob o viés desse discurso normativo sobre os sexos que se organiza grande parte
da sociedade que conhecemos. Modos distintos de comportamento, vestuário, fala, diversão,
acesso à informação e a educação foram lentamente traçados para o “homem” e a “mulher” ao
longo das história. Nem mesmo as formas de amar e se relacionar sexualmente foram
poupadas. A ordem dos discursos foi buscar na biologia do corpo humano as referências
necessárias para elaborar um quadro hierárquico pertinente ao sistema patriarcal: a identidade
masculina, representada pelo falo (o pênis) imediatamente se sobrepõe à identidade feminina,
expressa pelo receptáculo (a vagina).
Dadas as conseqüências44 geradas pela desigualdade valorativa atribuída aos
sexos, pode-se questionar até que ponto os sistemas de classificação mais íntimos aos
ocidentais são pertinentes à construção de um corpo social coeso e promissor.
Fortes traços de estereotipia são encontrados, ainda hoje e potencialmente, nas
representações sociais de “homem” e “mulher”. Talvez justamente por serem o terreno fértil
onde ora se instalam todas as outras representações, exija-se, socialmente, que os papéis de
“homem” e “mulher” sejam piamente cumpridos, a fim de assegurar a coesão genealógica do
próprio conhecimento, dos sistemas de classificação e, especialmente da ordem dos discursos.
Pensemos, portanto, que o peso dessas representações reside em sua onipresença na
composição de qualquer personagem.
Ao modo das demais categorias estereotipadas, as representações de “homem” e
“mulher” obedecem a uma série de critérios de encenação, talvez os mais severos de todo o
universo social. Embora alguns contrastes possam se evidenciar entre lugares geográficos ou
sociais, é quase sempre preponderante que essas categorias se contraponham em termos de
comportamento, atitude, vestuário, gestualidade, fala etc. A mulher existindo em
contraposição ao homem, embora o inverso não seja necessariamente verdadeiro.
Fatores de ordem religiosa, ligados à gênese dos valores morais judaico-cristãos, e

44
O sistema patriarcal relegou às mulheres um papel periférico na história clássica ocidental, e mais
recentemente, uma série de celeumas sociais no que tange a valorização da identidade feminina, principalmente
através da atuação política do Movimento Feminista.

28
tantos outros que buscaram forjar tradições e paradigmas que pudessem compreender – e
reger – a ordem dos discursos das sociedades ocidentais, acabaram difundindo e
concretizando um contorno negativo à identidade feminina, em contraste à masculina, num
sentido de complementariedade. Em termos mais claros, podemos pensar que a identidade
masculina é munida de individualidade, ao passo que a feminina existe como complemento
desta. A discussão sobre os processos de diferenciação e coletivização45 dos indivíduos que há
pouco expusemos é capaz de ilustrar a maneira como a identidade feminina se constituiu em
complementaridade à masculina, sendo esta dotada de um sentido normativo, regencial, ou
ainda, positivo. Caminhando com a noção de estereotipia, já detemos os instrumentos
necessários ao entendimento do “desmerecimento” social relativo à identidade feminina.
O resumido trabalho do sociólogo Michel Misse, publicado em 1979, e que serviu
como inspiração para a finalidade desse estudo, já traz no título a síntese das conseqüências
geradas pela “síndrome de classificação” das sociedades ocidentais: O estigma do passivo
sexual. Fortemente amparado pelos trabalhos de Erving Goffman – também essenciais a esta
pesquisa –, Misse tece sua argumentação em torno da desvalorização feminina no discurso46
cotidiano, devido a transposição simbólico de sua qualidade de “passivo” sexual para o
terreno das relações sociais. O “passivo sexual” (entenda-se, a princípio, a “mulher”
heterossexual) é definido claramente como uma representação social inferior em uma
hierarquia de valores heteronormativos, encontrando-se aprisionado a uma biologia
incompleta, a qualidades frágeis e perniciosas, e por conseqüência, ao pólo negativo do
binarismo “homem versus mulher”.

A mútua referência entre “passivo sexual” e o conjunto do comportamento


sexual feminino (ou de seu “equivalente” homossexual) envolve uma
distinção ideológica entre superioridade e vantagem do “ativo” em relação à
inferioridade e desvantagem do “passivo”, representada já neste nível como
“natural” e “imutável”47

Reunimos, até agora, artifícios já suficientes ao esclarecimento deste tópico. Ao

45
Uma discussão mais aprofundada sobre os conceitos de igualdade e diferença, das identidades individuais e de
grupo pode ser encontrada em SCOTT, 2005.
46
Novamente, atentamos para a utilização do termo “discurso”, uma vez que Misse faz uso dele em um sentido
muito mais “lingüístico” que “antropológico”. Aliás, essa acepção o faz distinguir, em diversos momentos de seu
texto, a linguagem de atributos (propriamente, a língua, onde se manifesta o estigma por ele estudado) e a
linguagem de relações sociais (o que vem a ser o que mais se aproxima de nossa acepção do termo “discurso).
De outra forma – aliás, aquela a qual Misse se contrapõe nitidamente –, Goffman (1970) limita os símbolos de
estigma à “linguagem das relações sociais”, transpondo-os para o lugar das “representações”.
47
MISSE, 1979, p. 33.

29
falarmos inicialmente sobre a genealogia do conhecimento ocidental, pretendíamos deixar
claro que sua coesão depende da aplicabilidade de certos parâmetros, a relembrar, a
binarização e a polarização inerentes aos sistemas de classificação. A situação hipotética
descrita a seguir ilustra a concretude destes fatores na organização e determinação dos papéis
sociais:
Para um indivíduo de sexo masculino e orientação homossexual que esteja
disposto – ou seja proposto – a revelar sua opção sexual, o estereótipo no qual se enquadrar
(ou for enquadrado) determinará uma certa “previsão” de qual papel (ativo, passivo) sexual
ele supostamente vivenciará em seus relacionamentos.
Esclarecendo: se o indivíduo manifesta uma fachada masculinizada (entendendo-
se por isso os traços discursivos que o levarão a ser enquadrado como “homem”), poderá, com
certa “cautela”, ser identificado como “ativo sexual”. Sobre ele ainda recairá o estigma de
“homossexual”, uma categoria desviante dos padrões relacionais heteronormativos, mas
permanecerá livre do estigma do “passivo sexual”. Do contrário, adotando uma fachada
feminilizada (ou mesmo apenas alguns traços concebidos como “tipicamente femininos”)
então estará fadado a uma complexa estigmatização: primeiramente, por manifestar uma
inversão na ordem dos comportamentos de gênero, isto é, uma representação social oposta
àquela que seu sexo biológico determinaria; segundo, por admitir, social e sexualmente, um
comportamento “feminino” que, na concepção clássica, é estigmatizado; por último, ao
renegar o papel sexual que sua biologia “superior” lhe oferece, entregando-se como
receptáculo, traindo sua corporalidade e ferindo a normatividade biológica que organiza os
sexos.
Esse breve exemplo parece ser suficiente para ilustrar o complexo universo das
representações sociais que se tecem em torno da sexualidade (neste caso, a
homossexualidade). Reiteramos que os dois casos acima explorados são extremos de uma
infinidade de representações e comportamentos que se distribuem entre os binarismos homem
versus mulher, masculino versus feminino, heterossexual versus homossexual e ativo sexual
versus passivo sexual. O cruzamento aleatório de todas estas atribuições resultaria num
contingente demasiadamente vasto de representações.
Há muito tempo, as representações sociais da homossexualidade que permeiam o
imaginário coletivo (e a mídia) estiveram bastante impregnadas de traços estereotipados.
Esses estereótipos são reproduzidos e reforçados, ainda hoje, por discursos conservadores que
estariam em consonância com o pensamento de uma possível maioria, detentora de vasto
poder na constituição da ordem social. Dessa forma, o indivíduo homossexual tem sido
30
retratado comumente através de traços de inversão de gênero, que se opõem formalmente ao
comportamento “normal” (previsto pela norma) heterossexual. Ainda que os movimentos
homossexuais busquem esvaziar o preconceito dirigido às identidades homossexuais que
contemplam um comportamento adverso ao que comumente é atribuído ao sexo biológico do
indivíduo, o estigma incutido neste tipo de manifestação continua preponderante. Acresce-se a
isso o fato de poder ser “cobrado” por toda a comunidade homossexual. Esta “marca” de
estigma é incorporada mesmo naqueles indivíduos que se assumem como homossexuais, mas
que praticam um comportamento que poderia ser visto como “normal”, “heterossocial”.

Para Goffman, o “estigma” é, antes de mais nada, uma relação formal pela
qual são atribuídos comportamentos e expectativas “desacreditados” ao
indivíduo que tenha mostrado ser dono de um “defeito, falha ou
desvantagem”. Desse modo deixamos de vê-lo como uma pessoa “normal”
para reduzi-lo a um ser “diferente, estranho e menosprezado”. A
classificação social do que pode constituir a base para um estigma, em
outras palavras, o discernimento social do “defeito” ou da “diferença” é
uma forma de estereótipo e, como tal, possui elementos etnocêntricos. Por
conseguinte, é provável que ao encontrarmos um “estranho” as primeiras
aparências nos permitam prever em que categoria se encontra e quais seus
48
atributos, isto é, sua identidade social.

Conforme explica resumidamente Michel Misse, o estigma impregnado no


indivíduo homossexual, por sua condição “desviante da norma”, se agrava ao somar-se a
outro, no caso dos passivos sexuais. O “estigma do passivo sexual”49 estaria, dessa forma,
localizado no sexo biológico e estendido à sexualidade e à sociabilidade. A ele se agregam
uma série de atributos desacreditadores que estabelecem uma ordem de valores promíscua,
tornando os passivos sexuais vítimas de uma biologia submissa aos papéis sexuais ativos.

O “normal” é associado ao estereótipo de “ativo” e o “estigmatizado” ao de


“passivo”, correspondendo o primeiro à função sexual do heterossexual
masculino e o segundo, à função sexual do heterossexual feminino. Por
extensão, e numa ordem inversa [que no caso, é pertinente à idéia de
inversão de gênero], o homossexual masculino “passivo” e o homossexual
feminino “passivo” corresponderão ao “estigmatizado”, e o homossexual
50
masculino “ativo” e feminino “ativo” equivalerão ao normal.

Os estereótipos gerados pelo discurso da inversão de gênero e pela passividade


sexual, nesse caso, atuam em esferas de sociabilidade distintas. O primeiro, mais presente na

48
MISSE, 1979, p. 23.
49
Ibidem.
50
Ibidem, p. 23.

31
relação entre indivíduos homossexuais e heterossexuais que na sociabilidade homossexual; o
segundo, igualmente distribuído nas duas esferas. O imaginário social, por sua vez, acaba
condicionando o indivíduo estigmatizado ao comportamento de inversão total (de gênero e
papel sexual). Decorre da análise de Misse que os homossexuais masculinos seriam mais
prejudicados pela inversão de gênero que os femininos51.
A discussão de Misse a respeito de estigma concentra-se na questão do passivo
sexual. Em decorrência disso, o discurso da inversão de gênero é pouco apropriado no todo de
sua obra. Deve-se ressaltar que a partir da década de 80, essa homologia entre inversão de
gênero e papéis sexuais, e a própria coerência dessas categorias, vêm se dissolvendo mais e
mais, em razão do vislumbramento de novas identidades homoeróticas – como travestis e
transexuais – que não são mais compreensíveis através desses esquemas simplificadores.
Entretanto, mesmo que de maneira discreta, persiste na sociedade (marcadamente
através da normatividade que impera no imaginário social) a demarcação de lugares comuns
de representação homossexual, que se apropriam da inversão de gênero para sintetizar o
estereótipo dominante no discurso anti-homossexual.

51
Isso devido ao fato de a inversão de gênero poder ser, ocasionalmente, uma característica positiva entre as
lésbicas, em seu status perante outras mulheres homossexuais que não apresentam esses traços. Contudo, isso
também depende de outras variáveis, como por exemplo, a postura política.

32
CAPÍTULO III. A SÍNDROME DO RÓTULO

Desde o final do século XIX, médicos e psiquiatras tentavam enquadrar a


homossexualidade – esta orientação sexual, ou ainda, esta “condição social”52 –, no âmbito de
uma “patologia” ou “deficiência mental”, da mesma forma que criaram outras categorias
patológicas. À “mulher histérica”, à “criança pervertida”, vinham se juntar o pederasta, o
uranista, o invertido, o sodomita – como eram denominados os homossexuais, marcando a
medicalização da sexualidade. Essas análises científicas se multiplicaram ao redor do globo,
investigando menos a condição do homossexual e seu papel na sociedade que as causas desse
“desvio”. Pergunta Foucault:

O que significa o surgimento de todas essas sexualidades periféricas? [...]


será que o fato de atraírem tanta atenção prova a existência de um regime
53
mais severo e a preocupação de exercerem sobre elas um controle direto?

Explica o autor que essa caça às sexualidades que ele denomina de periféricas
provoca, em suas palavras, “a incorporação das perversões e nova especificação dos
indivíduos”54. Isso se distancia do tratamento dispensado aos homossexuais até o século XIX,
quando a homossexualidade era pecado punido pela Inquisição, e seu autor não passava de
seu sujeito jurídico, ou de um pecador. A partir do período vitoriano,

[...] o homossexual torna-se um personagem: um passado, uma história,


uma infância, um caráter, uma forma de vida; também uma morfologia com
55
uma anatomia indiscreta e talvez uma fisiologia misteriosa.

Na concepção médica/psicológica, a homossexualidade designaria menos um tipo


de relação sexual do que “uma certa qualidade de sensibilidade sexual, uma certa maneira de
inverter em si mesmo, o masculino e o feminino”56. Descobrir a etiologia da
homossexualidade não só era a grande proposta, mas também o embate que segmentava a
classe médica entre aqueles que a consideravam como patologia congênita, e os que a
concebiam como mera perversão. Dessa forma, enquanto para uns, as causas eram biológicas,

52
FRY; MACRAE, 1983.
53
FOUCAULT, 1985, p. 41.
54
Ibidem, p. 43.
55
Ibidem, loc. cit. (grifos nossos)
56
Ibidem, loc. cit.

33
para outros as razões deveriam ser buscadas na moralidade – para esses tratava-se de
perversão, falta de caráter, pecado nefando, como consta nos processos inquisitoriais da Igreja
Católica. Havia mais ou menos o consenso de que a pederastia passiva seria explicada por
problemas congênitos, enquanto os ativos o seriam por “sem-vergonhice”, estando as suas
causas instaladas no ambiente social. Para os que se guiavam pela “ciência”, três seriam as
causas biológicas da homossexualidade – hereditariedade, defeitos congênitos e desequilíbrios
hormonais, e em geral seria acompanhada de outras patologias médicas tornando-se “um
problema social a ser resolvido pela medicina”57. Discorrer sobre elas extrapola os limites
deste trabalho.
Ao ser classificada como questão médica, a homossexualidade passa a ser vista
como doença, passível de tratamento, admitindo-se, ainda, a possibilidade de cura. Nessa
concepção, o indivíduo homossexual não poderia ser punido como criminoso, por não ter
controle sobre sua própria gênese. Mostram Peter Fry e Edward MacRae que, apesar das
críticas que os movimentos gays fazem hoje a esse tipo de categorização, na época isso
representou um ganho, citando o caso de Febrônio Índio do Brasil, que foi confinado num
manicômio judiciário, ao invés de ir para a prisão, exatamente por ser visto como uma pessoa
doente e não um simples criminoso pervertido58.
A partir dos anos 70 (no bojo dos movimentos de afirmação política, motivados
pela bandeira comum da luta pela Anistia), a homossexualidade, antes velada nos “guetos”
que abrigavam essa categoria de indivíduos, começou a adquirir maior visibilidade. O que
marca esse momento é o discurso proferido pelos próprios homossexuais, sobre suas
reivindicações, questões e problemas. Até então, outros eram os atores sociais – médicos,
psiquiatras, o poder judiciário – que se debruçavam sobre essa questão.
Na década de 80, com a explosão da epidemia de AIDS, a questão médica passa a
ser abordada sob uma ótica mais politizada59, marcada pelo posicionamento de diversas
militâncias homossexuais e de personalidades dos meios acadêmico e artístico. A
homossexualidade já não estaria mais ligada a nenhuma espécie de patologia, passando a se
firmar como uma qualidade do indivíduo.

57
FRY; MACRAE, 1983, p. 66.
58
No Brasil, a homossexualidade jamais foi instituída como crime, embora já tenha sido classificada como
“desvio mental” pelo código do INPS, sob o item 302.0. Para maiores informações sobre o caso “Febrônio
Índio”, ver FRY, 1982b.
59
GÓIS, 2003, p. 8.

34
O termo homossexualidade, que é mais aceito na atualidade para definir de
maneira genérica o contexto dos homossexuais, se refere a uma qualidade,
não uma condição. A homossexualidade passou a ser vista não mais como
uma doença, mas sim como uma possibilidade legítima de expressão sexual.
Recentemente, alguns autores se referem ao homoerotismo, à
homoafetividade e à homoconjugalidade para expressarem diferentes visões
60
e elementos desse tipo de relação social.

Alguns fatos merecem destaque na análise desse processo de ganho de


visibilidade e da tentativa de familiarizar o público com essa questão. Um deles é a criação do
jornal O Lampião da Esquina e, ainda que tímido, o aparecimento de colunas tratando do
assunto na mídia em geral. Também podem ser incluídos nessa história as propostas de
androgenia61 presentes nos trabalhos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, do grupo teatral Dzi
Croquetes62, que atingiu um público muito restrito nos grandes centros, e os Secos e
Molhados, cuja atuação alcançou altos índices de popularidade através de programas de
televisão de grande audiência. Também podem ser citados ídolos internacionais do público
jovem, como Alice Cooper, David Bowie, dentre outros.
Contudo, muito se deve à atuação de grupos e movimentos de liberação
homossexual que, na mesma linha que os movimentos feministas, atuaram contra a
discriminação sexual e a favor da paridade dos lugares sociais de seus integrantes63. Ainda
que tenham partido de grupos das camadas médias e de uma elite intelectualizada, as
propostas de discussão dos movimentos feminista e homossexual alastraram-se pelas demais
classes sociais, refletindo-se diretamente na mídia. Isso se constituiu como processo, sofrendo
avanços e retrocessos nos campos político e social. Entretanto, essas iniciativas acabaram
suscitando na sociedade a reflexão e reformulação, ainda em andamento, acerca da
diversidade sexual e de seu lugar político e social.
No Brasil, destacou-se o pioneirismo do SOMOS – Grupo de Afirmação
Homossexual – que teve relevante atuação política no combate ao autoritarismo e à
reprodução do machismo nas relações homossexuais. Aliada a estas iniciativas que se
proliferavam nos centros acadêmicos e nos partidos políticos nas grandes cidades, inicia-se a
discussão e representação da homossexualidade na imprensa e em outras mídias.

60
PERET, 2005, p. 54.
61
MACRAE, 1982.
62
A atuação desse grupo foi objeto de uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação
em Antropologia da UNICAMP, em 1979, por Rosemary Lobert.
63
Cf. FRY; MACRAE, 1983.

35
A luta pela liberdade homossexual no Brasil atravessa, portanto, discussões que
giram em torno da sua origem, da sua suposta patologia, de conquistas e derrotas no campo da
política, até a aceitação pública das identidades homoeróticas64 – seja ela a “bicha”, o
“entendido”, o “gay”, a “lady”, o “sapatão” e outras categorias homocorporais existentes ou
que ainda poderão surgir – num processo que vem se concretizando desde meados do século
XX.

64
Para uma análise dessas classificações populares, ver FRY, 1982a.

36
CAPÍTULO IV. MÍDIA E HOMOSSEXUALIDADE: UM
ACORDO VELADO

No decorrer do século XX, a sociedade brasileira, ao modo das sociedades


ocidental-capitalistas, acompanhou uma vasta reformulação em suas bases estruturais. Seria
complexo demais discorrer com profundidade sobre a totalidade de suas transformações, mas
em um esboço pode-se considerar que o conjunto de valores morais, éticos, familiares,
religiosos, jurídicos, políticos e sociais averiguados no despontar do século XXI, em nada –
ou quase – se assemelham aos que vigoravam no início do século anterior. Enfim, valores
ideológicos que não mais compreendiam o modelo de organização social desejado foram aos
poucos cedendo espaço e sendo substituídos ou reformulados. Nesse cenário, ideais libertários
refletidos, em parte, no campo da sexualidade, começam a se concretizar, à medida que
movimentos sociais engajados na luta contra a discriminação ou submissão de papéis sexuais
se estabelecem. Acrescenta-se a isso a percepção de uma realidade favorável à discussão de
temas relacionados à sexualidade, principalmente após a ditadura militar, ajudando na
tentativa de modernização/atualização de valores tradicionais da sociedade brasileira.
O processo de liberação sexual no Brasil se inicia com a mudança do status social,
político e jurídico feminino através da extensão do direito de voto às mulheres depois da
Revolução de 1930, e tem um marco decisivo quando em 1962 é promulgado o Estatuto da
Mulher Casada, e esta deixa de ser equiparada aos menores e incapazes, sendo-lhe outorgada
capacidade jurídica plena, como já acontecia com a mulher solteira de maior idade.
Consensualmente, o processo de liberação sexual feminina é datado da década de 60, a partir
da invenção da “pílula”, isto é, dos contraceptivos orais.
A luta por transformações e abertura no campo da sexualidade ganha visibilidade
nos anos 70, através dos movimentos feminista e homossexual. Embora suas trajetórias sejam
marcadas por encontros e desencontros de ordem ideológica, ambas as “frentes de batalha”
buscavam, inicialmente, a abolição da discriminação sexual. Peter Fry e Edward MacRae
analisam as dissidências e proximidades entre esses movimentos, indicando que tomavam
partido, ocasionalmente, de “outras lutas das assim chamadas minorias a partir do início da
‘abertura política’, participando com elas numa campanha contra o ‘machismo’ e o
‘autoritarismo’ em geral”65.

65
FRY; MACRAE, 1983, p. 114-116.

37
O jornal O Lampião, fundado em 1978 por intelectuais e militantes homossexuais,
pretendia lidar com a questão estabelecendo alianças com as demais “minorias” – feministas,
negros, índios e militantes do movimento ecológico. Como mostram Fry e MacRae:

Embora este projeto de aliança não tenha tido o sucesso desejado, o jornal
certamente foi de grande importância, na medida em que abordava
sistematicamente, de forma positiva e não pejorativa, a questão
66
homossexual nos seus aspectos políticos, existenciais e culturais.

Apesar do abrandamento da censura, o projeto não foi benquisto pelas


autoridades, nem pela sociedade. Em 1979, um dos editores de O Lampião foi alvo de um
inquérito policial, acusado de “atentado contra a moral e os bons costumes”, culminando com
a sua prisão, por motivos mal esclarecidos.
O paladar amargo de O Lampião devia-se, talvez, à excessiva realidade e
naturalidade de suas palavras. Na imprensa, tal como nas outras mídias tradicionais, procura-
se atender públicos muitas vezes distintos, mesmo que socialmente integrados. Esta idéia, que
remete à busca por uma nivelação do gosto e do comportamento da audiência – estratégia
muito utilizada pelos veículos de comunicação de massa na consolidação de públicos mais
abrangentes – acaba muitas vezes por desnaturalizar um determinado conteúdo, a fim de
torná-lo palatável para a massa. De outra forma, conteúdos que se distanciam ao extremo da
normalidade social costumam ferir o gosto da audiência, que, quase sem perceber, pratica
uma espécie de autocensura velada, requerida, desejada.
Nas palavras de Fry, esses movimentos “adquirem maior fôlego no momento em
que o regime brasileiro começa a permitir uma expressão mais livre através da imprensa e dos
meios de comunicação em geral (a assim chamada ‘abertura’)”67. Presencia-se ao longo deste
processo a evolução e disseminação dos veículos de comunicação, que acabaram se
constituindo como importantes interlocutores no processo de renovação e inovação de
parâmetros sociais. Isso se deve, em parte, à intrínseca capacidade desses veículos de se
relacionarem com a sociedade, das mais diversas formas. A comunicação de massa é fator
indissociável da sociedade industrial contemporânea. “A sociedade moderna é uma sociedade
midiatizada. Formas de agir, pensar, de se expressar e se relacionar são mediadas pelos
modernos meios de comunicação”68.

66
FRY; MACRAE, 1983, p.21.
67
FRY, 1982a, p. 110.
68
HELAL, 1998, p. 135.

38
De outra forma, Adorno e Horkheimer (1990), munidos de uma perspectiva
originalmente crítica para o contexto em que sua produção teórica se inseria, questionavam a
originalidade do conteúdo cultural dos media, afirmando que estes apenas repetem modelos
pré-convencionados de interpretação da realidade, orientando o público para o consumo
médio. Além do jornalismo, a programação midiática seria quase sempre direcionada nesse
sentido, na busca por uma fórmula que agradasse a todos os consumidores. Esse movimento
de conservadorismo inerente a mídia é bem retratado por Arthur da Távola, em seu estudo
sobre o “produto” telenovela que, segundo ele, experimenta a dialética de

[...] ser suficientemente conservador para não ameaçar a lógica de prazer do


consumidor e, ao mesmo tempo, de conter todos os signos de renovação que
lhe dêem a impressão de estar sendo deferido intelectualmente com o que
69
há de melhor e mais avançado.

Everardo Rocha chama a atenção para um paradoxo que se estabelece na


sociedade de consumo ao constatar que dentro da mídia se manifesta uma sociedade paralela à
nossa e que, contudo, não contempla os mesmos parâmetros de constituição social70. Nesse
contexto, religiosidade, família, casamento, racismo e outros fatos sociais vêm sendo
presenciados na sociedade industrial e refletidos direta ou indiretamente na mídia, através de
representações na televisão, no rádio, no cinema etc.
Dessa forma, a representatividade da homossexualidade na mídia, bem como a de
outros “tabus”, especialmente na telenovela, acompanha uma demanda que provém muito
mais do público que propriamente dos produtores. É na sociedade que se capturam esses
“signos de renovação”. Signos que muitas vezes acabam reforçando tradições, ao invés de
afrouxá-las.
Nas novelas da Globo, por exemplo, circulam temas os mais variados, que a mídia
ou a crítica especializada muitas vezes rotulam polêmicos, como aqueles ligados ao sexo e a
sexualidade. Nesse produto da indústria cultural, é cada vez mais presente a exposição e
discussão politizada de temas ainda considerados “tabus”: casais onde a mulher é bem mais
velha que o marido; casamentos inter-raciais; adultério; romance com religioso; e no âmbito
de análise deste trabalho, personagens homossexuais, seja declarada ou implicitamente.
De outra forma, figuraram, eventualmente, ao longo da história da televisão
brasileira, representações que, apesar de também incluídas no status de “tabu”, dispunham de

69
TÁVOLA, 1996, p. 54.
70
ROCHA, 1995.

39
discursos que jamais se propuseram à superação ou ao rompimento desse status. Propunham-
se, antes de tudo, à comicidade ingênua, desfigurando qualquer sentido “politizado”, ao
implementarem sua composição imagética/discursiva com fortes traços de estereotipia e
estigma. Esse fenômeno é facilmente observável na maioria dos programas de humor da
emissora, bem como em determinadas telenovelas – geralmente as dos horários menos
“nobres” –, onde os enredos dramáticos cedem lugar às histórias de aventura e comédia.

IV.1. Mocinho com mocinho, mocinha com mocinha

A telenovela adquiriu singular expressão cultural a partir dos anos 70, em plena
ditadura militar. Isso coincide com os esforços de modernização da Rede Globo de
Televisão71, implantando o que mais tarde seria convencionado como “padrão Globo de
qualidade”72, em oposição ao popularesco e ao mau gosto que caracterizariam a programação
das outras redes.73 Mostra Samira Youssef Campedelli que o primeiro passo foi a implantação
de vários horários de novela que atenderiam cada um a um público médio ideal, visando a
conquista de um monopólio do gênero. O outro passo foi a sua modernização técnica,

Absorvendo as inovações do mercado japonês (câmeras, celulóides de


qualidade impecável), acoplando-as ao sistema americano cinematográfico
(locações especialmente fabricadas, escritores em tempo integral, contratos
74
milionários, manutenção de uma imprensa especializada etc).

As inovações técnicas permitiram a aproximação da telenovela à qualidade


cinematográfica. Rompem-se as barreiras geográficas e a produção vai às ruas, descortinando

71
A Rede Globo surge em 1964 – mesmo ano do golpe militar – depois de ter assinado um contrato com o grupo
Time-Life norte-americano em 1962. Diz Roberto Ramos, em seu estudo sobre merchandising em novelas que,
“nesse script geopolítico, a Globo se saiu muito bem”. Como os militares, nutria “ uma preferência pelo capital
internacional. Concomitantemente, os Diários e Emissoras Associados perdiam o fôlego.” Até então, este era o
grupo que dominava a radio e teledifusão no Brasil. Também tinham cadeias de jornais, e a revista de maior
circulação do país (O Cruzeiro). Os Associados, entretanto, “estruturavam-se arcaicamente em consórcio, e
cometiam o pecado de se arregimentaram no capital nacional.” (RAMOS, 1986). O diretor dos Diários
Associados, o jornalista e político João Calmon moveu, em vão, intensa campanha contra a presença do
consórcio Time-Life, pelo que significava de desnacionalização dos meios de comunicação no Brasil. Nesse
mesmo contexto foi estruturado o Grupo Abril.
72
“Rótulo já consagrado e que qualifica todo um modo de fazer televisão” e que se opõe ao das demais redes de
televisão” (PEREIRA; MIRANDA, 1983).
73
Ao ser fundada, em 1967, sua programação era principalmente composta por atrações que, no dizer de Muniz
Sodré, exploravam o grotesco, caracterizando uma programação popularesca, e, de extremo mau gosto, e em
desacordo com o que elegeriam posteriormente como seu padrão de qualidade Cf. SODRÉ, 1975.
74
CAMPEDELLI, 1985, p. 38-39. Para essa autora, a partir daí teriam partido para a terceira fase da
modernização, que seria desenvolver o modo de contar sempre as mesmas histórias.

40
um panorama sócio-político antes ocultado pela limitação dos estúdios. Isso significa, em
termos criativos, a possibilidade de maior interação com a realidade social brasileira, e
conseqüentemente, sua maior representatividade nas telas.
Em 1968, a TV Tupi havia lançado a novela Beto Rockfeller, que revolucionou na
linguagem e no enredo, sendo por isso considerada um divisor de águas na história da
telenovela brasileira, uma vez que até então predominavam os “folhetins exóticos”75. Beto
Rockfeller inaugurava o que Campedelli classifica como “folhetim satírico”, que a Rede
Globo soube explorar muito bem, a partir dos anos 70.

[A Rede Globo] descobriu antes de outras emissoras que poderia tratar de


conteúdos mais ousados, mais atuais, mais realistas (termo que resume as
pretensões revolucionárias da emissora na década de 70), se soubesse
76
transformar tudo em objeto de distração...

As tramas das novelas da Globo foram se aproximando mais e mais do cotidiano


brasileiro, tanto na caracterização dos personagens quanto na linguagem utilizada, retratando
o que seria a realidade brasileira – ainda que construída, idealizada. A censura infligida aos
veículos de comunicação que caracterizou o regime militar não se restringiu às questões
políticas, tentando regulamentar também questões de comportamento, particularmente a moral
sexual.77 Explica Muniz Sodré que não se admitiria um desfecho (e de certa forma, uma
trama) de novela que pusesse em cheque a moral familiar tradicional78.
Nos anos 70, pouco a pouco, o propósito de tratar temas “mais ousados” e
“realistas” fez com que as telenovelas começassem a mostrar outras situações familiares, que
problematizavam o suposto modelo da família nuclear brasileira, em suas várias facetas.
Temas vistos como tabus apareceram, ainda que timidamente: mulheres chefes de família,
relações inter-raciais, mulheres mais velhas se relacionando com homens mais novos,
romances (ou tentativas de romance) com religiosos. Na mesma época, ao modo destes outros
temas, de forma acanhada, periférica, as novelas começam a insinuar relações homoeróticas

75
Incluindo adaptações de romances folhetins estrangeiros datados do século XIX, como A Ponte dos Suspiros
(ambientada em Veneza em 1500), ou A Cabana do Pai Tomás, que retratava a luta abolicionista nos Estados
Unidos da América.
76
KEHL apud CAMPEDELLI, 1985, p. 37.
77
Em relação à música popular brasileira, o tema foi exaustivamente estudado por Paulo César Araújo em Eu
Não Sou Cachorro Não. Música Popular Cafona e Ditadura Militar. Demonstra o autor que a chamada “música
brega”, seus compositores e intérpretes, como Odair José, foram duramente censurados nos anos 70, por tratarem
de temas como adultério, anticoncepcionais.
78
SODRÉ, 1975.

41
entre personagens.
Data de 1974 a primeira representação de homoafetividade79 na telenovela
brasileira80. Em O Rebu, de Bráulio Pedroso, o grande mistério era a identidade oculta do
autor de um trágico assassinato ocorrido numa festa (que, aliás, transcorre ao longo de toda a
obra, de 112 capítulos). Ao final da novela, descobre-se que o criminoso era o próprio
anfitrião, Conrad Mahler (Ziembinski), que matou Silvia (Bete Mendes) por ciúmes do
relacionamento da moça com seu “protegido”, Cauê (Buza Ferraz). Mesmo que apenas
sugerida, a homossexualidade na telenovela era uma grande surpresa, como explica Peret:

A homossexualidade foi retratada de maneira bastante clara para a época, e


explorada do ponto de vista do crime passional e da relação de dependência
financeira de um belo jovem por um homem muito mais velho. Esse fato
marcou a entrada de personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras
de forma considerada socialmente negativa, porém em conformidade com
um dos vários estereótipos que representavam a forma como a
81
homossexualidade era vista.

Deste ponto em diante, as representações homossexuais começam a figurar


ocasionalmente nas telenovelas. Personagens periféricos, geralmente circunscritos em núcleos
mais pobres e sem interferência direta nas tramas eram expostos. A homossexualidade era
quase sempre identificada a partir de gestuais, falas e comportamentos das personagens, e
quase nunca por relações ou interesses afetivos82.
Essa tendência vigorou até a metade dos anos 9083: em sua maioria, as
representações da homossexualidade, nesse período se evidenciam mais na gestualidade, no
comportamento e escolha profissional, caracterizando de forma estereotipada a personagem,
sem considerar propriamente a questão de sua sexualidade. Dessa forma, as personagens

79
Preferimos utilizar o termo homoafetividade ao invés de homossexualidade, porque o primeiro compreende o
relacionamento amoroso entre pessoas do mesmo sexo, não necessariamente baseado em relações sexuais,
enquanto o segundo, mesmo que seja o mais conhecido popularmente, traduz uma condição expressa muito
particularmente pela sexualidade, isto é, mais ancorada nos corpos que propriamente na relação entre eles.
80
PERET, 2005, p. 80.
81
Ibidem, loc. cit.
82
Ibidem.
83
Podemos citar como exemplos Dancing Days (1978), de Gilberto Braga, Marron Glacê (1978), de Cassiano
Gabus Mendes, Pai Herói (1979), Os Gigantes (1979), de Lauro César Muniz, Ciranda de Pedra (1981), de
Teixeira Filho, Brilhante (1981), de Gilberto Braga, Um Sonho a Mais (1985), de Daniel Más, Roque Santeiro
(1985), de Dias Gomes, Ti-ti-ti (1986), de Cassiano Gabus Mendes, Roda de Fogo (1986), de Lauro César
Muniz, Mandala (1987), de Dias Gomes, Vale Tudo (1988), de Gilberto Braga, Bebê à Bordo (1988), de Carlos
Lombardi, Pacto de Sangue (1989), de Regina Braga, Tieta (1989), de Aguinaldo Silva, Mico Preto (1990), de
Marcílio Moraes, Barriga de Aluguel (1990), de Glória Peres, Pedra sobre Pedra (1992), de Aguinaldo Silva, e
Renascer (1993), de Benedito Ruy Barbosa.

42
sequer se assumiam como homossexuais, mas a partir desses estereótipos eram decodificadas
como tal pelo público 84.
Acompanhamos, na década de 90, uma vasta produção telenovelística, de
escritores diversos, onde questões relacionadas à homossexualidade paulatinamente passam a
ganhar mais espaço, aproximando-se de núcleos mais centrais. Em 1995, a novela A Próxima
Vítima, de Sílvio de Abreu, apresenta um casal de rapazes, que foi amplamente rejeitado pelo
público: um dos atores chegou a ser apedrejado enquanto caminhava pela rua. Em 1997 a
novela Por Amor, de Manoel Carlos, mostrou o drama de um pai de família que renuncia ao
casamento de muitos anos em favor de uma relação homossexual. Embora esta questão fosse
inesperada e tivesse um papel periférico na trama, o caso gerou repercussão, mas não causou
maior impacto entre o público85. O mesmo não aconteceria em Torre de Babel (1998) de
Sílvio de Abreu, quando (diz-se que) a pressão da crítica orientou o autor a transformar o
casal de mulheres em vítimas da explosão de um shopping center, e a morte de uma delas
poria fim à relação86.
Com a exposição crescente e mais freqüente da homossexualidade nas
telenovelas e em outras produções televisivas, como seriados e minisséries87, o público
começa a se familiarizar com o assunto e a se posicionar de forma menos preconceituosa.
Neste início do século XXI, os autores passam a utilizar a trama de suas telenovelas para
interferir publicamente em problemáticas sociais, a ponto de diluir as fronteiras entre ficção e
realidade. Há visivelmente um esforço em mostrar à audiência questões relacionadas à
homossexualidade, dando um tratamento ao tema que trabalhe para a diminuição de
preconceitos. Se acompanharmos a história da representação da homossexualidade nas
telenovelas, perceberemos que, recentemente, a questão passa a figurar de forma mais

84
Uma análise detalhada das representações homossexuais na telenovela brasileira neste e em outros períodos
pode ser encontrada na dissertação de mestrado de Luiz Eduardo Neves Peret, Do armário à tela global: a
representação social da homossexualidade na telenovela brasileira.
85
Talvez porque a grande celeuma era a troca de bebês feita na maternidade entre mãe e filha.
86
A representação da homossexualidade e de outras manifestações que quebram a heteronormatividade do
contexto social da época pode ser encontrada também em Explode Coração (1997), de Lauro César Muniz,
Suave Veneno (1999) de Aguinaldo Silva, Um Anjo Caiu do Céu (2001), de Antônio Calmon, As Filhas da Mãe
(2001), de Sílvio de Abreu, Desejos de Mulher (2002), de Euclydes Marinho, Mulheres Apaixonadas (2003), de
Manoel Carlos, Kubanacan (2003), de Carlos Lombardi, Chocolate com Pimenta (2003), de Walcyr Carrasco,
Celebridade (2003), de Gilberto Braga, e Da Cor do Pecado (2004), de João Emanoel Carneiro. Cf. PERET,
2005.
87
Pode-se citar como exemplo, Malhação e Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados. Mesmo sabendo que
esta última é uma adaptação da obra de Nelson Rodrigues, supõe-se que, em um momento anterior, uma peça
com essa temática não seria concebida na televisão, dado seu cunho altamente erótico.

43
elaborada, contextualizada e problematizada em relação ao comportamento das personagens.
Alguns elementos estereotipados continuam presentes, mas de forma geral, outras questões
pertinentes são apresentadas – o preconceito na escola, a aceitação da família, a dificuldade
em assumir sua opção sexual, e a adoção de crianças por casais homossexuais88. Evidencia-se
assim a influência dos autores, que passam a fugir de discursos normatizadores sobre a
sexualidade e começam a elaborar melhor a personalidade, o caráter e as relações sociais de
suas personagens.

No universo criativo e industrial da telenovela, algumas coisas mudam


rápido, outras levam mais tempo. A presença de personagens homossexuais
cresceu nos últimos anos. Quantitativamente, a visibilidade dessa minoria
aumentou; qualitativamente, pode-se notar que há o que ser modificado.
Ainda existem produções que usam o personagem homossexual como
“instrumento cômico” secundário, como uma caricatura estereotipada, nas
89
palavras de Antônio Moreno.

A grande mudança na apresentação do personagem homossexual está na ênfase na


afetividade em si, manifesta através de relacionamentos amorosos, e não mais na mera
composição imagética, gestual e discursiva dessas personagens, cujos relacionamentos
amorosos mereceram todo o destaque ao longo da trama90.
Esse “deslocamento” do foco de representações homossexuais do campo
meramente figurativo para o das relações sociais caracteriza uma “evolução” nos modos de
pensar e encarar a questão, que em algumas novelas passa a ser concebida como manifestação
possível, plausível e “real” de relacionamento afetivo, amoroso, social e sexual, enfatizando a
liberdade de escolha, a dignidade e o direito a viver sua opção sexual. No espaço da
telenovela, assegura-se a liberdade de manifestações da identidade da personagem que,
embora ocasionalmente estereotipada em atos e gestos, passa a traduzir realidades do
cotidiano vivenciado por indivíduos homossexuais de alguns grupos/espaços da sociedade
brasileira, mesmo que não reproduza fielmente as particularidades da vivência homossexual
na sociedade brasileira como um todo.
Embora a presença sem disfarces de pessoas que se assumem como homossexuais
seja cada vez mais comum em todos os lugares, e que a mídia venha abrindo espaço para a

88
Essas problemáticas são tratadas respectivamente em Mulheres Apaixonadas (2003), América (2005) e
Senhora do Destino (2004).
89
PERET, 2005, p. 181.
90
Esse foi o caso das novelas Senhora do Destino e América.

44
divulgação ou discussão de suas bandeiras de luta política, a sociedade brasileira ainda não
está habituada a encarar este fato com naturalidade, preferindo caracterizá-lo como patológico
e degenerativo dos valores morais e religiosos91.
É verdade que a audiência tem encarado personagens homossexuais e de outras
minorias92 “dentro” da sociedade das telenovelas de forma mais asséptica e menos
preconceituosa, parecendo legitimar a condição social dessas personagens e já não impondo
resistência à sua visibilidade. Entretanto, não é um paradoxo que, apesar dessa aceitação do
público, os níveis de discriminação e violência contra homossexuais continuem crescendo?93
Isso pressupõe a quebra do conceito de “autonomia relativa”94, uma vez que a
realidade das tramas parece distante da nossa, e justifica a idéia de que a telenovela não
manipula a opinião pública, embora possa atuar, ainda que lentamente, no processo de
desconstrução ou reformulação de paradigmas sociais
Não obstante, nas telenovelas onde existe uma predominância cômica na
narrativa, as representações homossexuais recaem na ridicularização de características que
consensualmente são atribuídas à “inversão” dos papéis de gênero. O desprovimento de
qualquer caráter politizado no enredo desses folhetins vem se somar à disseminação de
estereótipos estigmatizadores da homossexualidade.
Sendo produtos submersos em características muito particulares de produção,
veiculação, e até mesmo de recepção, as telenovelas são perpassadas por diversas mediações,
que vão desde a subjetividade autoral95 até o próprio cotidiano familiar do telespectador96.
Nestes produtos, persistem nítidas diferenças, inicialmente determinadas pelo horário de
exibição97: aquelas apresentadas às 18 horas cultivam o caráter folhetinesco original das
tramas seriadas – grandes romances de época, com enredos épicos ambientados em tempos
passados; no horário das 19h, é constante a exibição de novelas mais voltadas para humor e a

91
MOTT, 1996.
92
Pode-se fazer um paralelo com os personagens negros que vem deixando de figurar como ocupantes de
profissões subalternas para assumirem lugares centrais nas tramas.
93
MOTT, op. cit..
94
HORKHEIMER; ADORNO, 1990.
95
A comparação entre as telenovelas Senhora do Destino e América, realizada na pesquisa de iniciação científica
inicialmente mencionada neste trabalho, levantou questões sobre o lugar do autor na construção mais ou menos
estereotipada desses personagens.
96
Uma discussão bastante abrangente e concreta sobre essas e outras mediações pode ser encontrada em LOPES;
BORRELLI; RESENDE, 2002.
97
Cf. PERET, 2005, p. 80.

45
ação, com tramas muitas vezes inverossímeis, recheadas de frivolidades, trapaças, namoricos,
tiroteios e outros elementos do gênero; ao horário “nobre” das 20 horas98 são destinadas as
produções mais elaboradas, com elenco e produção mais afinados (e mais caros), onde
transcorrem narrativas contemporâneas do cotidiano brasileiro, quase sempre retratando
dilemas amorosos e familiares da elite brasileira.
Essa forma de se enquadrar o estilo narrativo das telenovelas globais fez parte de
um processo que se estende pela emissora, a fim de compreender e atender o comportamento
e as demandas do público. Atualmente, é de se esperar que em cada horário seja exibida uma
novela com forma e conteúdo distintos, geralmente reduzidos aos dramas de época (horário
das 18h), comédia/ação (horário das 19h) e dramas contemporâneos (horário das 20h).

IV.2. O cômico e o desvio

A demarcação do que se entende como “politizado” e “despretensioso” toca um


elemento central na narrativa: o humor. Neves tece considerações a esse respeito em um breve e
esclarecedor ensaio acerca do que ele mesmo denomina como “ideologia da seriedade”.
Incomodado com o relativo desprezo relegado pela academia ao cômico e à comicidade enquanto
instâncias passíveis de exploração teórica, o antropólogo concebe o “bom senso” e o “bom gosto”
como “formas de dominação cultural”. Como essas são posturas muito valorizadas nas relações
cotidianas, impõem ao conhecimento científico – e mesmo, ao cotidiano – regras à escolha “dos
temas considerados relevantes e pertinentes que deveriam ser honrados pela análise científica”99.

Na realidade, a ideologia da seriedade – como qualquer outra ideologia –


não é ingênua nem seus efeitos são benéficos a todos. O riso, o cômico são
vistos como envoltos em inconseqüência, momentaneidade, irrelevância – a
seriedade seria o inverso. O riso não deve ser “levado a sério”... A ideologia
que só quer permitir que riamos do que é cômico e que nos esqueçamos
dele em seguida exerce, de fato, uma repressão sobre formas mais ou menos
veladas de análise e de crítica social. Não postula, impede que tematizemos
a comicidade como observação lúcida sobre a realidade. Devemos rir e
esquecer.100

98
O horário das 20 horas foi assim demarcado historicamente, propriamente nos anos 70, num período em que a
Rede chegou a transmitir até 4 novelas todas as noites. Hoje em dia, com a inclusão de programas jornalísticos
entre a exibição das tramas seriadas, as “novelas das 8” começam por volta das 21 horas. Contudo, a
denominação continua sendo usada por grande parcela dos telespectadores da emissora, para referir-se a terceira
e última novela exibida diariamente. Cf. PERET, 2005, p. 79.
99
NEVES, 1979, p. 48.
100
Ibidem, p. 49.
46
Desvinculemo-nos, portanto, destas lentes “sérias” para perceber “a comicidade
como forma específica de conhecimento do social e, ainda mais, como forma renegada e
estigmatizada de leitura crítica da opressão”101. A nós, interessa-nos compreender a forma
como o humor tornou-se, contraditoriamente, ao longo dos anos, mais um instrumento da
ideologia dominante, ao oferecer uma crítica velada a categorias “desviantes”, como a
homossexualidade. Não o humor “puro”, mas propriamente o seu desvio: a “chacota”, o
“escracho”, o “ridículo”, o “cinismo” e a “trapaça”, como artífices da estereotipia.
Não precisamos retroceder muito na história da televisão brasileira para encontrar
evidências do movimento de estereotipização da homossexualidade nos programas
humorísticos. Sem a pretensão de fazer um levantamento exaustivo, alguns personagens
merecem ser citados. Em 1981, o programa Viva o Gordo lançava a personagem Comendador
Gouveia e seu secretário Leopoldo, que ao primeiro “grito de socorro” se transformavam no
Capitão Gay e seu auxiliar Carlos Suely, sempre prontos a defender as minorias. Uma outra
personagem do mesmo programa, o Tavares, gabava os feitos – comportamentos
estereotipados homossexuais – de seu filho Dorival, como se fossem expressões do
machismo; e ao contrário, o comportamento marcadamente heterossexual do filho do amigo
era posto em dúvida, através do bordão “Tem pai que é Cego. Abre o olho...”. Essa mesma
situação foi revivida, mais recentemente, pelas personagens de Jorge Doria e Lucio Mauro
Filho, no programa Zorra Total.
Dentre as personagens “afetadas” de Chico Anysio, figuram:

Haroldo, o homossexual de passado "alegre" que hoje tenta “se converter” ;


Mariano, que tem uma relação ótima com o filho Reginaldo, homossexual
como ele (“Pode?”); Marmo Carrara, o policial com o bordão “São esses
meus olhos cor de mel. Mas por que eu? Logo eu com esta cara de macho”;
Dr. Rossetti, advogado que esconde a homossexualidade.102

Vale destacar a figura do Painho, um pai-de-santo diferente – nos dizeres da


enciclopédia – mas que, na verdade, acentua a ideia preconcebida que alia, de forma
pejorativa, homossexualidade e religiões afro.103 Mais recentemente, o “aluno” Seu Peru, da
Escolinha do Professor Raimundo, vivido por um dos artistas convidados para o programa,

101
NEVES, 1979, p. 49.
102
www.wikipedia.com.br. Infelizmente não constam as datas, nem em qual dos vários programas do ator (Chico
Anysio Show, Chico City, Chico Total etc.) essas personagens apareciam.
103
Esse tema foi estudado pela antropóloga norte-americana Ruth Landes, que fez pesquisas na Bahia nos anos
30 (A Cidade das Mulheres. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967). O tema foi retomado e polemizado ou
relativizado pelo antropólogo Peter Fry no início dos anos 80 (Pra Inglês Ver. Rio de Janeiro, Zahar, 1982).

47
exerceu uma presença marcadamente estereotipada. O programa A Praça é Nossa – sucedânea
do programa A Praça da Alegria, criado nos anos 60 – abusaria da temática (com a
personagem Jeca Gay, dentre diversas outras) sendo isso considerado uma evidencia do baixo
nível de humor que o programa teria assumido ao passar para o SBT.
Da mesma forma, o horário telenovelístico das 19 horas, consagradamente
ocupado por produções ao estilo “pastelão”, apresenta o maior número de representações
homossexuais das telenovelas globais, a maioria delas, marcadamente estereotipada, ao modo
das personagens caricatas de programas humorísticos como o Zorra Total. Isso nos impede,
primeiramente, de estender o retrato teledramatúrgico da homossexualidade figurada nas
telenovelas das 20h às suas congêneres do horário das 19h. Por último, nos força a conceber
um perfil narrativo para as tramas deste horário que mais se aproxima dos programas
humorísticos já mencionados104.
Muitos dos defensores desta maneira despretensiosa de “fazer humor” se apóiam
em valores “ditos” genuínos da própria identidade nacional (deboche, malandragem etc.) para
reproduzir em larga escala, no discurso cotidiano, os jargões da personagem do Zorra Total.
Jargões que, isoladamente, já trazem intensa carga de preconceito, e quando somados à
composição imagética e discursiva das personagens, podem transformar-se numa arma
potencialmente nociva à alteridade.
Em relação à sexualidade, esse recurso constitui-se, certamente, como fator
agravante do preconceito de cunho sexual, dada a dimensão social e a visibilidade dos
estereótipos homossexuais apresentados pelo Zorra Total. Graças ao “Olha a Faca!” da
personagem Patrick, diversos foram os protestos que eclodiram nos núcleos de movimentos
GLBTT em todo o país, mas, até hoje, os gritos estridentes da ‘meiga personagem’ ecoam nos
domicílios brasileiros a cada programa exibido – e além deles.

104
Não por acaso, as telenovelas das 19h são as que atingem a maior parte da população, especialmente as
crianças e adolescentes, tanto pelo horário quanto por seu conteúdo dito “mais jovem”. Nesse caso, reside a
delicada questão acerca da influência do conteúdo transmitido a essa faixa etária da população, que começa a
constituir e formular seus valores éticos e sociais. Não só os movimentos GLBTT como até mesmo alguns
setores mais conservadores da sociedade consideram profundamente deseducativo bombardeá-los continuamente
com obras que exploram o ridículo da estereotipia homossexual.

48
CAPÍTULO V. ANÁLISES, OBSERVAÇÕES E REFLEXÕES

É de vital importância nesta pesquisa – por seu caráter multidisciplinar, que


mescla estudos de comunicação e antropologia – delimitar com clareza e convicção a
perspectiva analítica e metodológica que foi empregada durante o trabalho. O mapeamento
teórico-metodológico da pesquisa foi responsável por oferecer os instrumentos necessários à
análise antropológica da questão homossexual a partir de suas representações na mídia.

V.1. Sobre a coleta e análise de dados

Para execução desta pesquisa, foi realizada a análise de tapes dos produtos
selecionados, procedendo-se à discussão teórica embasada pela revisão da literatura proposta.
A análise recaiu sob a composição imagética, gestual e textual (discursiva) das
personagens, o que significa dizer que foram observados os modos como elas se vestem, se
movimentam, se expressam, falam, reagem e interagem com demais personagens, valendo a
análise do contraste entre seu comportamento e o de seus contracenantes.
A Teoria das Representações, embasada fielmente por uma perspectiva de gênero,
além de trabalhos congruentes, como aqueles que tratam de estereotipia e estigma (Goffman,
1963, 1976; Misse, 1979; e outros), estiveram presentes em todo o escopo deste trabalho.

V.2. Sobre o protocolo metodológico

Recorreremos, insistentemente, ao longo da análise, a esquadrinhamentos


clássicos de compreensão do sujeito, aventurando-nos por suas propriedades tangíveis,
estanques, apreensíveis e compreensíveis. Trata-se, enfim, daquilo que definimos como sua
fachada105. Principalmente quando nos depararmos com as personagens televisivas – das mais
rasas às mais elaboradas –, estaremos lidando com elementos fictícios circunscritos num
universo limitado de representações: a mídia – ou, mais precisamente, a televisão.
Esta manifestação cartesiana do “sujeito midiático” nos será favorável à análise de
suas características, como já explicitado no Capítulo I, quando discorremos a respeito do
discurso de inversão de gênero. Conservamos, porém, intrínseca noção de que, por mais nítido

105
Goffman (1975, p. 31) entende por fachada “os itens de equipamento expressivo [...] que de modo mais
íntimo identificamos como o próprio ator, e que naturalmente esperamos que o siga onde quer que vá”.

49
e limitado que um espaço (lugar ou sujeito) nos pareça, o olhar que lançarmos sobre ele será
sempre “fragmentado”, plural e fatalmente subjetivo.
Neste aspecto, a análise que agora iniciamos é regida pela insígnia dos tempos em
que se realiza, captando uma inquietude típica de um olhar reflexivo, nunca satisfeito com o
ideal de “universalidade” e de “verdade”. Esperamos, mais que elaborar um quadro analítico
“concreto” do/sobre o objeto, oferecer um referencial de onde se possa “observá-lo”.

O fato social, tal qual o apreendem as Ciências Sociais, é um fato total do


qual não se pode excluir nem mesmo a relação do observador com o
observado, pois ela é, antes de tudo, uma relação social. Isto significa que
qualquer pesquisa social faz de si mesma um objeto, porque os próprios
métodos e conceitos utilizados podem afastar o sujeito da possibilidade de
ser “objetivo”; além disso, o cientista é um homem [ou mulher] que
observa, descreve e explica, e, como tal, é objeto da observação e da
descrição das Ciências Humanas.106

É preciso esclarecer, portanto, que o protocolo metodológico adotado pretende


ser, mais que consistente, persistente; mais que científico (numa acepção clássica do termo),
crítico (em consonância ao contexto reflexivo). Não se busca, enfim, uma “verdade”: antes,
uma “concepção”.

No quadro epistemológico da atualidade, questionar, ampliar os horizontes


de um mundo cercado por “certezas” revela-se mais importante que buscar
respostas; inverter as evidências, como propunha Foucault (1971, p. 53),
sacudir as verdades que nos definem e nos limitam, revela-se um caminho
para o desvelamento de uma realidade múltipla.107

É por conta desse “refluxo” metodológico que as próprias Teorias Feministas, por
exemplo, muito contribuem à nossa análise, ao expandirem seus “olhar” de gênero a fim de
compreender mais plenamente as novas identidades que surgem (ou ganham visibilidade
social) nos dias de hoje. Gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e transexuais já integram
com maior aceitabilidade a estante de objetos das teóricas feministas, ao mesmo passo que os
estudos queer vêm colaborando sensivelmente para o alargamento da perspectiva de gênero.
Ao mesmo passo, a Teoria das Representações, que tangencia diversos momentos
do presente texto, sofreu remodelagens epistemológicas suficientemente importantes para
serem consideradas. Contudo, na prática cotidiana, seus conceitos clássicos parecem persistir
nas formas predominantes de interação dos indivíduos com o mundo real. O grande paradoxo

106
RODRIGUES, 1979, p. 3.
107
SWAIN, 2001, p. 87.

50
que ora se configura neste estudo é a percepção de que, enquanto algumas categorias de
representação vêm sendo desconstruídas socialmente, por outro lado estariam sendo
possivelmente reforçadas por um grande símbolo – talvez o maior – da contemporaneidade:
os mass media.
Ao elegermos como objeto produtos desse grande fenômeno da comunicação de
massa – a televisão –, debruçamo-nos plenamente sobre a Teoria da Comunicação. Digamos,
então, que esta análise lança um olhar antropológico sobre um objeto da comunicação – a
televisão –, da mesma forma que dispõe de uma perspectiva comunicológica para apreender
um fenômeno social: a homossexualidade.
Indesvinculáveis, essas duas abordagens se complementam de tal forma neste
estudo que só se permitem ser pensadas em conjunto. Embora a mídia ocupe um papel central
na proliferação de discursos normativos sobre a sexualidade, algo que historicamente não foi
problematizado ou desconstruído como se tem feito atualmente; e que contribua para a
formação e fortalecimento de identidades culturais, através da exploração dos lugares onde se
instala a cultura popular, aqui, as particularidades das relações de gênero representadas na
mídia já se constituem, por ora, num amplo universo de análise, sendo incabível estendê-lo
além dos ecrãs.

V.3. “Assistindo” o corpus da pesquisa

Apresentamos, aqui, a análise do corpus da pesquisa – a relembrar, o humorístico


Zorra Total e a telenovela Páginas da Vida. A discussão a seguir não caminha
cronologicamente, da mesma forma que não compreende a totalidade das representações que
poderiam ser analisadas nos produtos selecionados. De outra forma, propõe-se, aqui, um
percurso analítico que irá se deter, de forma pontual, em determinados aspectos considerados
mais relevantes para a construção de um panorama – e mesmo antes, de um “olhar” – sobre a
construção das representações homossexuais nestes programas.
Embora não se preze, como já dito, a cronologia dos acontecimentos que aqui
serão descritos, vale ressaltar que até a redação final deste estudo, todos os programas
analisados permaneciam em exibição e, tratando-se de “obras abertas”, podem trazer
novidades e até mesmo guinadas radicais na forma como, até então, vinham sendo colocadas
as representações analisadas. Pedimos atenção a este ponto, para que a concretização dessas
possibilidades não se torne um empecilho à validade das informações e reflexões a seguir
apresentadas.
51
V.3.1. Páginas da Vida: a “limpeza” do estereótipo homossexual

Na noite de 10 de julho de 2006, os telespectadores brasileiros puderam assistir o


primeiro capítulo de mais um grande sucesso teledramatúrgico de Manoel Carlos: Páginas da
Vida. A novela, que traz em sua abertura regada a Tom Jobim belas paragens do Rio de
Janeiro, traduz o estilo de vida da elite carioca, da mesma forma que dele se apropria para
tecer um enredo suave, que se pretende, cotidiano. Mas não é.
São recorrentes nas obras deste autor representações calcadas em terrenos sociais
e econômicos bastante distintos daqueles vivenciados pelas classes média e baixa brasileiras.
As novelas de Manoel Carlos108 aproximam-se, portanto, de um ideal romântico109
(folhetinesco) que resgata “enredos de corte”, numa apropriação legitimamente
contemporânea, é claro, mas ainda assim, permeada por dramas “existenciais” (românticos),
em contraponto aos dramas “reais”, que eventualmente possam traduzir problemas financeiros
ou políticos, mais afins ao cotidiano das camadas mais pobres da sociedade.
Essa narrativa “destoante” de Manoel Carlos poderia, em certo ponto, deter a
validade de diversos discursos científicos que, ao longo dos anos, enquadraram analiticamente
a telenovela como um legítimo produto da indústria cultural, munido de todos os signos de
perpetuação e renovação de valores da identidade e cultura nacionais. No entanto, pensemos
que suas novelas trazem para um “lugar próximo” à massa de telespectadores contextos
particulares de uma realidade social particular, o que se consubstancia numa das mais
marcantes no contexto da comunicação de massa: a homogeneização.
Também num movimento de produção de identificação com o público, Páginas
da Vida traz, ao final de cada capítulo, o relato fílmico de dramas familiares das classes
populares. Muito embora se contraponham sócio-economicamente àqueles que preenchem o
enredo, estes depoimentos estabelecem uma ponte dramática entre as factualidades do
subúrbio ali expostas, e as da zona nobre, representadas pela novela. Realocam, portanto, a
narrativa teledramatúrgica de Manoel Carlos, antes particular, para um status universal.
De fato, não poderíamos demarcar a narrativa do autor como sui generis, tomando
a demarcação da telenovela como um produto midiático tangido por diversas instâncias

108
Mencionando os exemplos mais próximos cronologicamente da atualidade: as novelas Por Amor (1999) e
Mulheres Apaixonadas (2003), ambas de Manoel Carlos, que também dispunham da preponderância de núcleos
elitizados para a construção de seus enredos. Traziam ainda, tal como Páginas da Vida, representações
homossexuais.
109
Basta citar a memorável arquetipia das “Helenas” de Manoel Carlos, personagens recorrentes em suas
novelas, que traduzem o mito da feminilidade e o ideal de romantismo dos folhetins clássicos.

52
comerciais/produtivas. O artifício melodramático de Páginas da Vida e das outras novelas do
autor pertence muito mais às particularidades das mediações gênero ficcional e
videotécnica110 que, propriamente, a algum elemento discursivo que se proponha a expandir a
barreira entre os caráteres artístico e comercial, que se interpelam neste produto midiático111.
Contudo, no campo do que primeiramente frisamos neste estudo – as
representações homossexuais – Páginas da Vida traz uma novidade, não em termos de
composição, mas de conformação: aquilo que concebemos como uma vontade de enquadrar
uma condição desviante num contexto normativo, transpondo-a de seus limites de
representação e realocando-a num domínio de representações desestigmatizadas, não por
revalorizar qualidades estereotipadas, mas por anulá-las. Percebe-se, nitidamente, o
reenquadramento da condição desviante do homossexual em uma representação admitida pela
esfera heteronormativa das relações sociais. Trata-se, portanto, de uma “limpeza” do
estereótipo homossexual que, desprovido de sua gestualidade e subgestualidade
estigmatizadas, perde o sentido primeiro de estereótipo, diluindo-se no volume das
representações normativas. Em outras palavras, propõe-se, em Páginas da Vida, a
naturalização do disfarce, o esvaziamento da representação homossexual e sua remodelagem,
em parâmetros “admissíveis” de convivência harmoniosa com a sociedade “normal”.
Retornaremos a este ponto, oportunamente.
Manoel Carlos apresenta, na novela que analisamos, o casal homossexual Rúbens
e Marcelo, vivido por Fernando Eiras e Thiago Picchi. A dupla vive problemas cotidianos de
relacionamento e, apesar da reduzida expressividade na trama, já denota, nas poucas aparições
públicas, uma situação confortável de convivência com amigos e familiares. Moram juntos,
no apartamento de Rúbens, mas não desde o princípio. Antes disso, Marcelo encontrava-se
fora do país, por razões profissionais (a personagem é musicista, enquanto Rúbens é médico
residente num hospital de classe alta do Rio de Janeiro – o mesmo onde trabalham Helena e
Diogo, dentre diversos outros personagens mais “centrais”). Não apresentam traços de
inversão de gênero ou qualquer outro elemento gestual ou imagético que denote estereotipia
homossexual, embora deixem nítido às demais personagens da novela, nos jantares e eventos

110
O trabalho de LOPES, BORELLI e RESENDE (2002) é bastante elucidativo a respeito das interferências
dessas e de outras mediações na construção de um sentido comunicativo nas telenovelas.
111
Partindo, inclusive, da perspectiva de Benjamim, podemos considerar que a telenovela, ao modo de muitos
outros produtos da indústria cultural, como o cinema e o rádio, demarcam um relacionamento entre a arte e o
capital, de forma que poderiam vir a constituir um fator de melhoramento estético e intelectual, tendo, portanto,
um caráter progressista. Para uma análise do contexto da expressividade artística na era da reprodutibilidade
técnica, consultar BENJAMIN, 1987.

53
culturais dos quais participam, que configuram um casal, não sendo, em momento algum,
desmerecidos por essa condição.
Uma grande surpresa que se revelou com o decorrer desse estudo e,
concomitantemente, com o acompanhamento diário de Páginas da Vida, foi a relativa
inexpressividade do relacionamento homoafetivo de Rúbens e Marcelo, tanto ao nível do
enredo – uma vez que, até o momento, o casal não se define como essencial ao desenrolar de
nenhuma narrativa paralela à do núcleo protagonista – quanto ao nível particular, pois a
relação amorosa do casal apresenta-se, provavelmente, como a mais “fria” e “desinteressante”
do ponto de vista dramatúrgico, nas últimas novelas do horário das 20h.
Esta constatação se prestou como contraponto às representações analisadas
anteriormente, em Senhora do Destino e América. Nestas duas novelas, o “amor” ou a
“paixão”, mesmo quando aparentemente inalcançáveis (como acontecia com Júnior, na obra
de Glória Perez), eram determinantes na expressividade homoafetiva/homocorporal das
personagens. O “desejo à flor da pele”, diríamos assim, determinava um movimento rumo à
aceitação do “amor entre iguais” nas duas histórias, algo que, em Páginas da Vida, passa a se
exprimir, apenas, através da sociabilidade particular das personagens com outros elementos da
história, ou, ainda, com a visibilidade do casal em público.
Em dois momentos especiais escolhidos para essa análise, Manoel Carlos deixa
nítido que sua narrativa não aprecia os traços sentimentais/românticos do casal112. O primeiro
deles, uma noite comum, onde, Rúbens e Marcelo conversam na cama, ambos já com trajes de
dormir. A conversa transcorre sobriamente, sobre um assunto afim ao cotidiano do casal (a
manutenção de uma empregada doméstica na casa onde habita o casal). Após algumas
palavras, ambos se despedem com um ligeiro “boa noite”; apagam, cada um, as luzes de suas
cabeceiras; e deitam-se, dispostos um para cada lado da cama.
Em outra ocasião, já em um evento social – a saber, a virada de ano, numa festa
entre amigos –, enquanto os fogos eclodem, anunciando a chegada de 2007, e as demais
personagens dessa e das outras festas se emocionam, abraçam-se fortemente e se beijam na
boca – no caso dos casais –, Rúbens e Marcelo conversam serenamente, sentados a uma mesa
“afastada da platéia”. A ocasião era plenamente favorável a um beijo do casal113, mas este foi
substituído por agradecimentos verbais ao mútuo “companheirismo” (termo usado por

112
Uma nítida contraditoriedade à excessiva dramaticidade e romantismo que impregnam o restante das outras
representações.
113
A propósito, aquele que ainda não aconteceu na teledramaturgia brasileira, graças, recentemente, ao boicote
da emissora Rede Globo à cena do beijo entre Júnior e Zeca, no último capítulo de América.

54
Rúbens) durante o ano que se passou. Não houve, explicitamente, qualquer contato físico,
nem implicitamente, qualquer “desejo” de que isso acontecesse.
Esta aparente carência de romantismo entre Rúbens e Marcelo pode soar como
ausência de expressividade do relacionamento homoerótico/afetivo ali manifestado. A
homossexualidade, a princípio, não denota uma característica “essencial” à representação das
personagens, tampouco se instala, de outras formas, ao nível de seus discursos. Somados ao
agravante de o casal não participar efetivamente de nenhuma celeuma de Páginas da Vida, a
presença do casal na novela tem sido acusada de compor um “mero” elemento figurativo na
trama. Algo, em termos populares, que estaria ali para “dar Ibope”...
Existiria, contudo, um ponto de observação alternativa a esse “silêncio”
discursivo: não estaria o autor, ao apresentar um casal homossexual em papéis marginais e
sem expressividade dramática primária – ao modo de tantos outros casais heterossexuais que
foram e são incorporados aos enredos de telenovelas, embuído de uma atitude que busca,
antes de tudo, naturalizar a relação homoafetiva?
Em Páginas da Vida, o relacionamento de Rúbens e Marcelo é visto – e
legitimado – de forma naturalizada em meio àqueles que convivem com o casal – inclusive a
mãe de Marcelo, que, aliás, começa a insinuar o desejo de que seu filho e seu “genro” adotem
uma criança. Também são naturalizadas cenas tipicamente íntimas, como o ato de dormirem
juntos, e de se apresentarem sem reservas – porém, também, sem atos explícitos – como um
casal.
Até este ponto, poderíamos admitir com relativa segurança que Manoel Carlos se
apropria devidamente da condição homossexual para representar personagens que,
legitimados socialmente em suas identidades – e no relacionamento delas – “levam uma vida
normal”. Mas, afinal, onde reside a “normalidade” das representações homossexuais presentes
em Páginas da Vida? Talvez, na “excessiva” desfiguração do sentido primeiro dessas
representações: o estereótipo e, conseqüentemente, o estigma.
Parafraseando Misse, no que ele se apropria de Goffman para tecer considerações
a respeito de estigma, este “é, antes de mais nada, uma relação formal pela qual são atribuídos
comportamentos e expectativas ‘desacreditados’ ao indivíduo que tenha mostrado ser dono de
um ‘defeito, falha ou desvantagem’”114. Eis aquilo que não se presencia em Páginas da Vida:
uma “relação formal”, onde, atribuídos de um sentido heteronormativo, as representações

114
MISSE, 1979, p. 73. (grifos nossos)

55
homossexuais se distingam, em relação ao “comportamento” e às “expectativas”, como donas
de um “defeito, falha ou desvantagem” em relação às representações heterossexuais.
Prosseguindo com a elucidação sobre a enunciação de um estigma, Goffman
determina que, nas relações sociais, depositam-se expectativas sobre os atributos
primeiramente perceptíveis dos sujeitos. A estes atributos, ele responsabiliza pela construção
da “identidade social real”115 do indivíduo. Em contraponto a esta performance116, que muito
se aproxima da “fachada” do indivíduo – isto é, seu contato com o mundo exterior, – tece-se a
“identidade social virtual”, que o pesquisador substancia como a “essência” do indivíduo, um
lugar impenetrável, enfim, o próprio “ator”117.
Goffman tenta compreender esse paradoxo entre a materialização social de uma
representação abstrata e a essencialização da qualidade material do ator buscando elucidar a
forma como a identidade do indivíduo pode ser manipulada, a partir das informações
transmitidas e recebidas pelos indivíduos, e a constante tensão envolvida na negociação do
que “deve” e do que “não deve” ser exposto: os “símbolos de estigma”118.
Esta breve elucubração pretendia tornar explícita a maneira como, em Páginas da
Vida, Manoel Carlos negocia, possivelmente a favor de uma normatividade discursiva, os
símbolos de estigma das personagens homossexuais que, se os manifestassem, tornariam
“incoerente” a “harmonia” das relações travadas com a comunidade de personagens
heterossexuais.
Retomando os sistemas de exclusão do discurso descritos por Foucault119, em
Páginas da Vida o discurso homossexual aparece interditado em substância e efeito; é, se não
o próprio discurso normativo, uma de suas nuances – aquela que preza pelo que “não se deve
dizer”. As personagens homossexuais que se pretendia analisar nesta novela mostraram-se das
menos representativas dentre as representações da homossexualidade já inseridas na
teledramaturgia brasileira, até então. Marcelo e Rúbens não têm um passado120, não mantém

115
GOFFMAN, 1970.
116
Uma apropriação, a nosso ver muito conveniente de BUTLER, 2003.
117
Interessante frisar como as duas obras de Goffman apropriadas nesta análise se complementam e possibilitam
a compreensão de que a identidade social real está para a identidade social virtual (GOFFMAN, 1970) assim
como a representação está para o ator que a manifesta (GOFFMAN, 1975).
118
GOFFMAN, 1970.
119
FOUCAULT, 2002.
120
De fato, a figuratividade homossexual na novela só é colocada no momento em que Marcelo chega ao Brasil,
ou mais especificamente, quando a irmã menciona a sua chegada durante uma conversa com outra personagem.
Só a partir deste ponto, a identidade de Rubens – antes, um médico “normal” – é vinculada a homossexualidade.

56
relações de amizade com outros indivíduos homossexuais, tampouco freqüentam ambientes
identificados como GLS, e nem mesmo trocam carinhos ou fazem sexo. A ausência da
inversão de gênero, que a princípio poderia ser vista com olhos positivos, perde sua marca,
dado que nada mais parece cravar suas identidades na homossexualidade. São, por último,
representações tecidas, não como “desacreditadas”, mas como “desacreditáveis”121.

V.3.2. Zorra Total: a “poluição” do estereótipo homossexual

O humorístico Zorra Total é lançado em 25 de março de 1999, apropriando-se do


mesmo formato de programas consagrados pela televisão brasileira, como “A Praça da
Alegria”, “A Praça É Nossa” e a “Escolinha do Professor Raimundo”. O programa é exibido
nas noites de sábado, pela Rede Globo, em cadeia nacional.
Desde seu surgimento, o Zorra Total atinge a maior marca de audiência dentre os
programas do gênero, sendo assistido por milhões brasileiros, em todas as partes do país. A
popularidade do humorístico vem crescendo, sendo fácil constatar a sua influência no
cotidiano do brasileiro, através da reprodução dos jargões de seus personagens nas escolas, no
trabalho e até mesmo nos círculos mais íntimos de relacionamento.
Este programa sempre costuma destinar um ou mais de seus diversos quadros a
um personagem com traços fortes de estereotipia homossexual. Atualmente, este lugar é
centralmente ocupado pela personagem Patrick Pax, vivida pelo ator Rodrigo Fagundes.
A composição imagética e discursiva de Patrick é plenamente comprometida com
traços de estereotipia homossexual, marcadamente a inversão de gênero. Desde a aparência,
muitas vezes bizarra, passando pelos gestos, falas e gargalhadas, tudo assemelha-se ao que
espera-se de uma personagem feminina (em seu “ridículo” estigmatizante).
Contudo, algo mais completa a performance da personagem: o fato de sempre
resolver os problemas com pancadaria e destruição, locus onde reside todo o seu teor
masculino. Patrick agencia para si o trânsito identitário entre masculino e feminino, oscilando
entre a “afetação” e a “virilidade”. Quando ainda composto de forma meiga, dócil, é sempre
vítima de repetidas chacotas por parte dos antagonistas, até que, insatisfeito com alguma
questão – que, definitivamente, não é a ridicularização de seu comportamento –, parte de
forma arrasadora em direção aos “maus elementos”, transformando o quadro num espetáculo
de pancadaria e destruição. Nesse ponto, mune-se de uma masculinidade “gloriosa”,

121
GOFFMAN, 1970, p. 14.

57
tornando-se um guerreiro protetor da comunidade. A companhia de seu primo, de modos
grosseiros e aparência vadia, salienta ainda mais a “face louvável” da masculinidade
“contida” de Patrick.
Contudo, a demasiada utilização de traços de estereótipo homossexual, como
forma de provocar o riso nos telespectadores, é o que mais define a personagem. Os jargões,
as caretas, os figurinos, enfim, toda a composição imagética e gestual de Patrick é pensada a
partir de esquemas de estereotipia que se aproximam da ridicularização e conseqüente
estigmatização do indivíduo homossexual.
A conformação dessa representação homossexual em moldes estereotipados, que
salientam a inversão de gênero, tanto pelos modos quanto pelo contraste com outras
personagens do quadro, potencializa sensivelmente a estigmatização da homossexualidade.
Patrick nem mesmo se concebe como um indivíduo de orientação homossexual; ele acaba
sendo, portanto, “mal interpretado” como tal por seus antagonistas. Aquilo que Goffman
define como a “identidade social real” do indivíduo, encontra-se manifesta na personagem de
forma contraditória à sua identidade social virtual. Ele explica que:

O normal e o estigmatizado não são pessoas, mas sim perspectivas. Estas se


generalizam em situações sociais durante contatos mistos, em virtude de
normas não verificadas que provavelmente jogam no encontro. Os atributos
duradouros de um indivíduo em particular podem convertê-lo em
estereótipo; terá que desempenhar o papel de estigmatizado em quase todas
as situações sociais que viver e é natural referir-se a ele, como fiz, como um
estigmatizado cuja situação vital o separa em contraste com os normais.
Mas seus atributos particulares estigmatizadores não determinam a natureza
dos dois papéis, o normal e o estigmatizado, mas simplesmente a freqüência
com que desempenha um deles em especial.122

Em contraponto às personagens analisadas em Páginas da Vida, Patrick está


atrelado ao estereótipo homossexual, graças à aproximação de sua gestualidade e
subgestualidade de elementos enquadrados como “femininos”. Não existiriam, a princípio,
“atributos particulares” que impelissem a personagem a tal comportamento: este se concebe
através do choque entre o “normal” e o “estigmatizado” e de valores que se extraem do
imaginário social e condicionam a inversão de gênero à inversão total123 (de gênero e de papel
sexual).
Ainda apropriando-se do que Goffman identifica como “manipulação da

122
GOFFMAN, 1970, p. 160.
123
A situação hipotética que descrevemos no Capítulo II pode tornar mais clara esta questão.

58
identidade”, percebemos que, a partir do momento em que Patrick desperta seu “lado
masculino”, partindo para a agressão física contra os mal-feitores que pretendem prejudicar a
comunidade onde ele mora, anulam-se ou deslocam-se para o segundo plano de sua fachada
os símbolos de estigma que, até então, preponderavam na identidade social real da
personagem. Patrick transporta-se para outro patamar de representações, onde passa a ocupar
o lugar normativo (honestidade, coragem, heroísmo), em contraste ao estigma do “bandido”,
do “vilão”, do “mau caráter”, do “covarde”.

Uma vez que o implicado são “papéis” de interação, não indivíduos


concretos, não será surpreendente que em muitos casos aquele que tenha
uma certa classe de estigma exiba sutilmente todos os julgamentos normais
dirigidos contra aqueles que tenham outra classe de estigma.124

Os questionamentos dirigidos a esta representação são, efetivamente, de ordem


prática. A princípio, poderíamos examinar a necessidade de imersão da personagem no
estereótipo de homossexual, visto que, declaradamente, Patrick é heterossexual. Seria esta
uma forma de salientar o contraste entre as características mais sensíveis e as mais viris da
personagem? Isso parte da constatação de que o ator que interpreta Patrick é fisicamente
“mirrado”, e sua própria corporalidade já seria, a princípio, determinante para representar a
fragilidade da personagem.
No entanto, a estereotipia homossexual vem somar a essa corporalidade para
demarcar ainda mais na biologia uma fragilidade que seria atribuída ao feminino, enquanto a
masculinidade da personagem, na ausência de traços físicos que a possam representar, é tecida
sobre valores de ordem moral, como a coragem e a honestidade. Masculino e feminino estão
contidos na mesma personagem, em esferas distintas de representação: o ideológico, domínio
da cultura, simbolizando a tradição masculina versus o biológico, essência da natureza, de
onde provém e a onde recai a desvalorização do feminino – o estigma do passivo sexual125.
Perguntamo-nos, ainda, em que instância a comicidade intrínseca a esta
representação, bem como a todo o Zorra Total, interfere na (con)formação de um retrato
“ridículo” do estereótipo homossexual. Teorizamos, no Capítulo IV, acerca da ideologia da
seriedade, e da forma como nos impele, socialmente, a construir o domínio científico sobre
bases racionais, em detrimento daquelas que, por apelo ou real necessidade, acabam se
estabelecendo em bases “irracionais”, tal como o riso, o humor, e suas derivações.

124
GOFFMAN, 1970, p. 70.
125
Cf. SWAIN, 2001.

59
Recorremos a Neves para mostrar que

A permanente diminuição do valor da comicidade como fenômeno cultural


faz com que ela se “esconda” do olhar repressor que, preocupado com
“coisas mais graves e importantes”, esquece um pouco ou dá menor atenção
ao humor. Este, ao ser desqualificado, se protege e ocupa posições
tradicionalmente reservadas a outros gêneros de enfoque social.126

Embora não seja este um estudo que trata de recepção, a tamanha propagação dos
jargões da personagem Patrick nas relações sociais que se constata atualmente leva-nos a
questionar se o humor é, realmente, enfraquecido enquanto fenômeno cultural. É próprio da
comunicação de massa, que numa perspectiva adorniana é pensada como disseminadora da
cultura em moldes de mercadoria, que seus produtos sejam diferenciados, porém, igualmente
valorizados do ponto de vista comercial. Assim, o Zorra Total também pode ser comprado – e
tem sido –, tanto por jovens quanto por adultos, tanto por homens quanto por mulheres, tanto
por heterossexuais quanto por homossexuais.
Patrick resgata da esfera homossexual a verborragia do vocabulário homossexual
nos seus jargões, familiarizando o público com elementos até então particulares de uma
comunidade: os homossexuais. Contudo, ao contrário de Manoel Carlos, que apresenta em
sua obra um estilo de vida “perseguido” pelos telespectadores, Patrick denota um modo de
“não ser”, ou ainda, de não “parecer ser”. O riso, o deboche, a ironia, que a princípio se
investem de ingenuidade, da mesma forma que proporcionam o lazer e o prazer, traduzem, de
outra forma, a desvalorização das características vítimas de chacota, e seu conseqüente
afastamento da esfera normativa das relações sociais.
Pensando, novamente, nos “sistemas de exclusão do discurso”127, acreditamos que
o discurso de Patrick é o manifesto do que Foucault denomina como a “partilha da loucura”.
Ao contrário de Páginas da Vida, onde o discurso homossexual é esvaziado – diríamos, até
mesmo, higienizado –, em Zorra Total esse discurso se instala no âmbito da incoerência, da
petulância, da audácia, fatores que, no entanto, são amenizados pelo “humor”. Patrick “é”
aquilo que “não deveria ser”, primeiro por, efetivamente, não “ser” homossexual; por último,
ainda que fosse, não deveria parecê-lo.

V.3.3. Salientando contrastes

126
NEVES, 1979, p. 52.
127
FOUCAULT, 2002.

60
Existem, de fato, diferenças bastante claras entre a narrativa folhetinesca e a
narrativa humorística128. Em primeiro lugar, estamos lidando, primordialmente, com
discursos. O discurso da telenovela alcançou um status de elaboração teledramatúrgico
tamanho, isto é, voltado para a evolução de grandes romances, prezando pela seriedade e pela
densidade dos enredos e das personagens; por outro lado, o gênero humorístico preza,
essencialmente, pela simplicidade dos enredos, pelos discursos rasos, repetidos, de fácil
compreensão, por formas mais acessíveis de sentir e experimentar o texto. A marca e o
sucesso das personagens cômicas são obtidos através da repetição ad nauseam de ações e
situações com mínimas variantes: não há surpresas, e o riso decorre exatamente desta
previsibilidade.Essa característica também é bastante presente nas novelas de humor.
Segundo: em decorrência da própria superficialidade dos discursos, as
personagens de humor são muito mais facilmente delimitadas em um universo discursivo,
igualmente limitado e repetitivo, claramente sem substância dramática ou realista. Trata-se,
neste caso, da mera “atualização” do mito.
Na comédia, a linha da ficção é muito mais tênue que no folhetim.
Terceiro: a questão da autoria é plenamente dissonante nos dois casos. Enquanto
na telenovela, a narrativa é complexa, graças ao papel do escritor129 e à extensão do universo
narrativo, na comédia, a personagem ganha vida e referência com o ator que a interpreta, de
forma fechada e desconectada dos outros quadros do programa.
Por último, e o mais importante: nas telenovelas das 20h, como Páginas da Vida,
existe uma abertura à discussão política e social da questão homossexual, bem como de outros
“tabus”, como marca de um processo que se iniciou nos anos 70 e foi potencializado com a
queda do autoritarismo e conseqüente ganho de liberdade de expressão por parte dos veículos
de comunicação de massa. Nos programas de humor, ao contrário, mesmo naqueles que se
dizem politizados, exceto em raríssimos casos130, ou ainda naqueles seriados131, não
costumam figurar enredos que busquem algum tipo de reflexão em torno de impasses
políticos, culturais ou sociais, talvez por um único motivo: o fato de almejarem,
primeiramente, divertir. Mesmo que não se tenha identificado uma veia política determinante

128
Embora, em algumas novelas, estes elementos se encontrem perfeitamente conjugados, como em Pé na Jaca.
129
Os co-autores tenham efetiva colaboração nos roteiros de telenovela, mas costumam trabalhar em equipe.
130
O Casseta e Planeta, também transmitido pela Rede Globo, mescla elementos cotidianos da política e cultura
brasileira a caricaturas escrachadas e roteiros insensatos, não sendo comprovado, ainda assim, que possibilitem
alguma reflexão acerca da realidade brasileira.
131
A Diarista, Sob Nova Direção, Os Normais e Minha Nada Mole Vida, da mesma emissora.

61
nas representações homossexuais de Páginas da Vida, o teor dramatúrgico da novela opõe-se
frontalmente à sátira semanal do Zorra Total. Em decorrência, a novela se torna um lugar
mais “propício” à inclusão de temáticas que se pretendam lidar sob um ponto de vista político,
por não se “enviesar” pelo riso, pelo deboche, enfim, por conceber-se num lugar mais
“próximo” à ideologia da seriedade, que ainda normatiza132 o sentido das relações sociais.

132
Cf. NEVES, 1979.

62
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todos os dias, milhões de cidadãos, sejam eles jovens ou adultos, homens ou


mulheres, heterossexuais ou homossexuais, ricos ou pobres, brancos ou negros, assistem
telenovelas e programas de humor. A “sala de tevê” é lugar que sobressai nos domicílios
brasileiros. O “sofá da sala” é um palco recorrente para as conversas com familiares e amigos,
para o almoço apressado, o jantar relaxado, a leitura descompromissada, o cochilo da tarde, os
namoricos e as discussões. Nesses momentos, é quase sempre certo que a televisão estará
ligada, integrando o cenário onde nossos atores diariamente encenam o espetáculo da vida
cotidiana. Da mesma forma, o ecrã nos observa, nos inspeciona, reflete e acompanha-nos
quando estamos sozinhos – ou não. A televisão, enfim, participa de momentos diversos de
nossas vidas: os mais familiares, os mais íntimos, os mais “reais”.
Invejosamente, a televisão nos oferece o seu próprio espetáculo, um conto que
narra “sonhos” possíveis e “realidades” implausíveis. Nesse conto, cabem histórias como as
de Rubens e Marcelo, e como a de Patrick: histórias cotidianamente produzidas pela
sociedade, e reproduzidas pela mídia. Até onde a ordem dessas ações se mantém ou se inverte
é um mistério, e antes de tudo um incômodo, principalmente para a academia, de onde partira
a curiosidade sobre quem “produz” e quem “reproduz” essas histórias.
Ainda hoje preocupamo-nos com a forma como tem sido realizada, pela mídia, a
propagação de discursos. Foi partindo desta inquietação que se concretizou a necessidade de
averiguar o teor das caricaturas homossexuais veiculadas por ela, como forma de propor
novas perspectivas de análise do processo de recepção, e da comunicação midiática, como um
todo. Ainda que se parta do pressuposto que este processo é atravessado por diversas
mediações, das quais a principal seria a própria subjetividade do telespectador, não é menos
importante o cotidiano familiar, onde primeiro se tecem os discursos sobre a sexualidade, e os
demais núcleos de relacionamento, como a escola, o trabalho etc. Nesses lugares, por
exemplo, é uma constante a repetição dos jargões do programa Zorra Total, inclusive o “Olha
a Faca”, da personagem Patrick.
Do oposto, extraímos que a repercussão do casal homossexual de Páginas da Vida
é praticamente nula, talvez devido ao fato de, em essência, não atender às “expectativas” dos
olhares telespectadores. Chegamos a discutir a higienização do estereótipo homossexual nesta
novela, mas não suas possíveis implicações na esfera das relações sociais. Essas, contudo,
também merecem atenção, por se tratarem de algo inédito em termos de representações da

63
homossexualidade na telenovela.
Pouco inéditas seriam as representações homossexuais de caráter cômico, que há
décadas ocupam lugares destacados no cenário midiático. Seja em novelas ou em programas
humorísticos como o Zorra Total, essas aparições estereotipadas “caem na graça” do público
de imediato, mesmo que sofram protestos estridentes dos movimentos homossexuais. O riso,
contudo, releva e permite que continuem reproduzindo-se nesses espaços a estereotipização, a
taxação, a estigmatização de diversos segmentos sociais, num movimento nitidamente
crescente.
As temáticas homossexuais figuram, certamente, como elementos
demasiadamente atrativos aos telespectadores. Nem mesmo imaginamos qual será o grand
finale que Manoel Carlos irá preparar para Rúbens e Marcelo, mas já é amplamente divulgado
pela mídia que a próxima novela das oito, Paraíso Tropical, terá não um, mais dois casais
homossexuais. O diretor, Gilberto Braga, afirmou em entrevista133 que pretende apresentar um
casal “sério” e outro “cômico” – entenda-se “normal” e “estereotipado”. Ambos terão,
novamente, papéis periféricos na trama, mas o autor ainda acredita ser essa uma revolução na
forma de lidar com a questão homossexual na telenovela. Será?
Em resposta a essas informações, eclodiram comentários em blogs que discutiam
a proposta de Paraíso Tropical. Em sua maioria protestos, os argumentos desses internautas –
gays – expressam a inquietação da qual falamos a princípio: “Quando, nas telenovelas, serão
representadas personagens homossexuais ‘reais’, estereotipadas ou não, mas que freqüentam
ambientes GLS, que mantêm núcleos de relacionamentos gays/lésbicos, que namorem ‘de
verdade’, enfim, que produzam discursos verossímeis sobre a condição homossexual, e que
não sejam ridicularizadas por isso?”
O cenário atual parece propício para que questões como essas sejam colocadas, e
que as respostas sejam buscadas efetivamente. Esperamos ter contribuído, compartilhando
nossa inquietação àqueles que, da mesma forma, enxergam nessas representações
homossexuais não apenas um potencial mercadológico, mas principalmente um potencial
transformador, que poderia, eventualmente, abalar a ideologia da seriedade.

133
Site Gay1. Paraíso Tropical vai ter 2° casal gay “mais colorido”. 30 fev 2007. Disponível em:
<http://www.gay1.com.br>.

64
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAPTISTA, Maria Manoel. Estereotipia e representação social: uma abordagem


psicosociológica. Universidade de Aveiro. Disponível em: <http://sweet.ua.pt/~mbaptista>.
Acesso em: 20 mai. 2006.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.

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