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Notas Sobre a Noção de


Caráter em Reich1

Notes on Reich’s notion of character

João Rodrigo
Oliveira e Silva
Universidade Ibirapuera

Paulo Albertini
Universidade
de São Paulo
Artigo

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (2), 286-303


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PSICOLOGIA CIÊNCIA E
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Resumo:Este estudo visa ampliar o conhecimento a respeito da fundamentação


teórica das proposições do analista austríaco Wilhelm Reich. Investiga-se a noção
de caráter presente em trabalhos reichianos da década de 1920 e início dos anos
1930. Foi sobretudo nessa época que o autor, então engajado no movimento
psicanalítico, desenvolveu a conceituação de caráter e organizou a sua primeira
técnica terapêutica, a análise do caráter. Em termos mais específicos, esta pesquisa
busca: a) mostrar a vinculação entre as idéias reichianas de caráter com
determinadas orientações presentes em escritos freudianos; b) contribuir para o
esclarecimento da noção de caráter contida em textos reichianos publicados
originalmente no período de 1922 a 1933. Dentre os pontos levantados nas
abordagens de Freud e Reich, pode-se destacar a importância de se investigar o
caráter como fonte de resistência. Já particularmente no domínio reichiano, merece
relevo a aproximação efetuada pelo autor entre caráter e forma do comportamento.
Palavras-chave: Reich, caráter, resistência, forma do comportamento.

Abstract: This article intends to extend the understanding of the theoretical


foundations of the propositions made by the Austrian analyst Wilhelm Reich. It
examines the notion of character as it appears in reichian work in the 1920’s and
in the beginning of the 1930’s. It was mainly during this period of time that the
author, then engaged with the psychoanalytical movement, developed the concept
of character and organized his first therapeutic method: the character analysis. In
more specific therms, this research aims: a) to present the connection between
reichian reflections on character and certain approaches that appear in freudian
writings; b) to contribute to the explanation of the notion of character as it is used
in reichian texts published originally from 1922 to 1933. Among the subjects
arising out of the study of Freud’s and Reich’s ideas on character, it can be
emphasized the importance of investigating the character as a source of resistance.
On the reichian particular ground, it ought to be pointed out the interrelation
made by the author between character and ways of behavior.
Key words: Reich, character, resistance, ways of behavior.

Hoje, é fácil constatar a existência de sobretudo nessa época que o autor, então
psicólogos que trabalham tendo como engajado no movimento psicanalítico,
referência as idéias desenvolvidas pelo analista desenvolveu a conceituação de caráter e
austríaco Wilhelm Reich. Contudo, apesar de organizou a sua primeira técnica terapêutica,
se observar certo incremento nas pesquisas a análise do caráter. Em termos mais
científicas dedicadas às formulações desse específicos, esta pesquisa busca: a) mostrar a 1 Trabalho é parte da
autor, particularmente a partir dos anos 90, vinculação entre as idéias reichianas de caráter Dissertação de Mestrado
intitulada “O desenvol-
pode-se afirmar que ainda existe uma carência e determinadas orientações presentes em vimento da noção de caráter
2 no pensamento de Reich”,
nesse domínio . escritos freudianos; b) contribuir para o defendida pelo primeiro
autor e orientada pelo
esclarecimento da noção de caráter contida segundo, no Instituto de
Este trabalho se insere entre aqueles que visam em textos reichianos publicados originalmente Psicologia da Universidade
de São Paulo, em 2001.
contribuir para um maior esclarecimento a no período de 1922 a 1933.
2 Um levantamento das
respeito da fundamentação teórica do dissertações e teses rela-
pensamento de Reich. Ele investiga a noção Deve-se dizer que a noção de caráter é central cionadas ao pensamento
reichiano defendidas até o
de caráter presente em estudos reichianos da na obra de Reich. Isso se dá por diversas ano de 2001 pode ser
encontrado em Matthiesen
década de 1920 e início dos anos 1930. Foi razões. Em primeiro lugar, por ela estar (2001).
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Notas sobre a noção de caráter em Reich

presente nas três técnicas terapêuticas por ele contínua e parece-nos difícil reconhecer, em
organizadas: análise do caráter, vegetoterapia Freud, uma teoria do caráter propriamente dita
carátero-analítica e orgonoterapia; além disso, (diferentemente do que ocorre com a teoria
por ser uma noção que, no pensamento desse das pulsões, por exemplo). Entretanto, há que
autor, perpassa a dimensão educacional e se reconhecer que Freud concede, em alguns
clínica, visto que as mesmas contribuem para de seus textos, razoável importância a essa
a formação e transformação do caráter. Esse noção, o que provavelmente serviu de estímulo
conceito articula, ainda, para Reich, as às investigações de seus seguidores, como
perspectivas psicológicas e sociopolíticas. As Abraham, Jones, Ferenczi e o próprio Reich.
reflexões psicológicas ganham um matiz
histórico, sociológico e político com base na A primeira aparição do termo nos escritos
marca que o caráter traz em si de sua época. freudianos se dá nos Estudos sobre a Histeria
Já as análises sociológicas ganham maior (1893-1895/1974). Relatando dois de seus
consistência psicológica ao remeterem à casos (Frau Emmy von N. e Fraülein Elisabeth
construção do caráter como um fator social e von R.), o autor faz menção ao caráter como
político relevante. Por fim, esse conceito um conjunto de traços ou características
carrega ainda uma dimensão ética, pois, como
psicológicas pessoais, como, por exemplo, a
referência teórica e técnica, estrutura práticas
desobediência, a ambição, a violência, a
e concepções sobre o ser humano.
independência, a irritabilidade etc. Esse seria
um uso descritivo e moral do vocábulo,
Para cumprirmos os objetivos expostos, este
bastante convencional, diga-se. No capítulo
estudo foi estruturado da seguinte forma:
sete de A Interpretação de Sonhos (1900-1901/
como entendemos que o enfoque de Reich
1972), Freud faz também uma pequena
a respeito do caráter está vinculado a uma
referência ao caráter, mas apenas para auxiliar
série de formulações freudianas -
seu esforço de construir um modelo do
desenvolvidas, basicamente, até o livro O Ego
aparelho psíquico, sem formular acréscimos
e o Id (Freud, 1923/1976) - iniciaremos nosso
de qualquer elemento novo ao uso dessa
trajeto com um levantamento a respeito dos
noção.
usos do termo caráter na bibliografia freudiana
até esse livro. A seguir, deter-nos-emos nas
Também no artigo O método psicanalítico de
idéias de Reich sobre o caráter presentes nos
Freud (1904[1903]/1972), no qual o autor
seguintes trabalhos: Dois tipos narcisistas
apresenta o método psicanalítico desde sua
(Reich, 1922/1975), O caráter impulsivo: um
estudo psicanalítico da patologia do ego (Reich, origem, no método catártico, até sua proposta
1925/1975) e Análise do Caráter (Reich, 1933/ de então, baseada na regra da associação livre,
1995). A escolha desses escritos se deu pelo é possível observar a utilização do termo
fato de eles serem, no período, os mais caráter no sentido mais convencional, moral,
significativos no que diz respeito à acrescida, porém, de uma outra perspectiva
conceituação reichiana de caráter. Fecha este que vai repetir-se, de maneira mais
artigo um tópico dedicado às conclusões. desenvolvida, em escritos subseqüentes: a do
caráter como fonte de resistência. No texto
O termo caráter em Freud freudiano:

Caráter é um termo que aparece disperso na (...) se o médico tem que lidar com um
obra freudiana. Não tem uma presença indivíduo de caráter desprezível, logo perde o

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interesse que lhe torna possível penetrar Aquilo a que chamamos ‘caráter’ de um
profundamente na vida mental do paciente. homem constrói-se, numa boa medida, a partir
Deformações de caráter muito arraigadas, do material das excitações sexuais, e compõe-
traços de uma constituição realmente se de pulsões fixadas desde a infância, de
degenerada, mostram-se durante o tratamento outras obtidas por sublimação, e de
como fontes de uma resistência que construções destinadas ao refreamento eficaz
dificilmente pode ser superada (1904[1903]/ de moções perversas reconhecidas como
1972, p. 262). inutilizáveis (1905/1996, p. 225).

É no seu texto de 1905, Três Ensaios sobre a Temos, nesse excerto, uma ponderação mais
Teoria da Sexualidade (1905/1972), que sofisticada sobre a formação do caráter e a
elementos novos e ricos nos são fornecidos, apresentação de uma tese sobre sua matéria
permitindo uma considerável ampliação da constitutiva. A tese, inequívoca, é de que o
noção de caráter. Nesses ensaios, quatro caráter se constrói pela transformação de
pontos merecem destaque no que diz respeito excitações sexuais, especialmente as ligadas
ao entendimento do caráter. à disposição sexual perversa polimorfa da
infância, pelas fixações, sublimações e
Primeiramente, o autor faz uso semelhante formações reativas. Indo mais além, a solução É no seu texto de
ao que já descrevemos, quando considera os psíquica da construção do caráter é vista 1905, Três Ensaios
sobre a Teoria da
traços de caráter atributos do sujeito, os quais, favoravelmente como alternativa à perversão
Sexualidade (1905/
observados por um prisma convencional, – que se desenvolveria caso essas excitações 1972), que
elementos novos e
distinguem, por exemplo, um caráter sexuais não fossem transformadas e se
ricos nos são
masculino de um caráter feminino – mantém- fortalecessem – e à neurose – que se instalaria fornecidos,
caso essas excitações fossem totalmente permitindo uma
se o sentido moral. Mais adiante, porém, faz considerável
uma comparação importante: entende algumas contidas mediante recalque e encontrassem ampliação da
solução apenas por meio do sintoma. noção de caráter.
impressões profundas, inconscientes,
derivadas do desenvolvimento sexual infantil, Novamente se situa o caráter mais próximo à
como determinantes do caráter nos indivíduos normalidade do que à patologia.
sadios e da sintomatologia nos neuróticos. Ora,
dessa colocação, extraímos a primeira O quarto ponto a observar sobre a consideração
consideração de Freud sobre a formação do de caráter nesse texto abre uma ampla frente
caráter – ligando-o ao desenvolvimento sexual de investigação psicanalítica. Trata-se do
infantil – mas também vemos um paralelo reconhecimento de que é possível, em certos
entre o caráter e o sintoma, como se parte da casos, observar a ligação entre o traço de
distinção entre eles derivasse do fato de o caráter e um determinado componente
primeiro estar presente na saúde, ao passo erógeno, o que não quer dizer,
que o último só se faria presente na neurose. necessariamente, que as tendências mais
Essa é uma relação que, veremos, vai fortes da infância dominarão o caráter do
transformar-se mesmo na obra de Freud. adulto, até porque o processo de
transformação de um componente erógeno
Um terceiro ponto de destaque que esse artigo em traço de caráter não é automático. De
de Freud apresenta sobre o caráter surge qualquer forma, essa constatação estimula a
quando o autor afirma que: busca clínica de tal ligação. Alguns anos após
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Notas sobre a noção de caráter em Reich

a publicação desse livro, Freud se debruçou (1908/1976b). Nesse trabalho, aponta o


sobre essa busca no artigo Caráter e erotismo impacto, sobre a saúde e também sobre a
anal (1908/1976a). constituição do caráter, das restrições morais
à sexualidade. Nas palavras do autor:
No referido artigo, o autor investiga a conexão
existente entre alguns traços de caráter e o Costuma-se dizer que a luta contra um instinto
funcionamento, na infância, de determinados tão poderoso, com a acentuação de todas as
órgãos, ou, noutras palavras, a relação entre forças éticas e estéticas necessárias para tal,
esses traços e o erotismo infantil. Com tal ‘enrijecem’ o caráter. Isso pode ser verdadeiro
orientação, considerando a experiência com no caso de algumas naturezas de organização
pacientes que apresentavam certos traços de muito favorável. Devemos admitir também
caráter, como a ordem, a parcimônia e a que a diferenciação do caráter individual, tão
obstinação, Freud começou a reconhecer a marcante hoje em dia, só se tornou possível
possibilidade de inferir que a dimensão com a existência da restrição sexual. Contudo,
erógena da zona anal fora especialmente forte na imensa maioria dos casos, a luta contra a
na infância, o que se identificava por histórico sexualidade consome toda a energia disponível
de dificuldade de superação da incontinência do caráter (...) (Freud, 1908/1976b, p. 201).
fecal e por uma experiência infantil prazerosa
na retenção das fezes, por exemplo. Dessa Esse trecho ilustra o sentido complementar que
ligação, formula que esses traços de caráter o artigo tem em relação às reflexões acerca
surgiriam com o desaparecimento do erotismo da formação do caráter se comparado com o
anal, num processo de substituição, por meio precedente. Enquanto em Caráter e Erotismo
tanto da sublimação desse erotismo quanto Anal (1908/1976a) Freud enfatiza a força do
da formação reativa ao mesmo. Freud oferece erotismo como elemento fundante da
como exemplo desse processo a obstinação, constituição do caráter, nesse último texto, o
enquanto traço de caráter que representaria realce segue em direção inversa: seria a força
a sublimação do exercício de vontade própria da repressão moral da sociedade a marcar essa
da criança em reter as fezes, e a limpeza e a constituição. Que não se entendam tais
ordem como formações reativas derivadas do considerações como antagônicas: elas
interesse pela imundice, próprio a essa fase. simplesmente apontam para extremidades
Desse exercício analítico, emerge um reforço diferentes do conflito entre as pulsões sexuais
da tese apresentada nos Três Ensaios...(1905/
e a repressão.
1996) sobre a formação do caráter. É o que
fica expresso quando afirma, em Caráter e
Até aqui, viu-se que Freud se deteve,
Erotismo Anal (1908/1976a), que: “(...) o
inicialmente, no interesse descritivo e moral
caráter, em sua configuração final, se forma a
da noção de caráter, apontou o seu papel de
partir dos instintos constituintes: os traços de
3 Nessa e em outras resistência e, em seguida, focalizou a
citações de Freud utilizadas
caráter permanentes são ou prolongamentos
promissora relação entre o erotismo e o
neste artigo, seguindo inalterados dos instintos originais, ou
orientação presente em desenvolvimento do caráter. Já em 1916, sob
Laplanche e Pontalis sublimação desses instintos, ou formação
(1983, p. 314), em 3 o título Alguns tipos de caráter encontrados no
português, ao invés de reativa contra os mesmos ” (p. 181).
instinto, que sugere um trabalho psicanalítico (Freud, 1916/1974), o
padrão de comportamento
herdado e pouco mutável, o No mesmo ano, Freud publicou o artigo Moral autor publicou um novo trabalho relacionado
termo mais apropriado seria
pulsão. sexual civilizada e doença nervosa moderna ao tema caráter. Nesse estudo, três tipos de

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caráter são descritos e ilustrados por meio da Vê-se, então, o reconhecimento de Freud de
utilização de personagens da literatura. O que o interesse psicanalítico não só pode,
primeiro congrega aqueles indivíduos que, como deve voltar-se sobre o caráter em
sentindo-se, em certo ponto de suas histórias, determinadas situações clínicas. Além disso,
vítimas ou sofredores de um destino infeliz, tal como já aparecera no trabalho O método
passam a considerar-se exceções, com direito psicanalítico de Freud (1904[1903]/1972),
a serem poupados das exigências apresenta-se a possibilidade de se pensar em
desagradáveis da vida. Ilustra esse tipo Ricardo resistências de caráter. Como veremos mais
III, personagem de Shakespeare. O segundo adiante, afiguram-se aí duas entradas
caso seria o dos indivíduos “arruinados pelo significativas que Reich viria desenvolver.
êxito”, que adoecem justamente em
decorrência da realização de um desejo. Freud Se o texto de 1916 marca claramente o campo
procurou explicar dinamicamente esse tipo
da reflexão sobre a técnica da análise do
ilustrando-o com as personagens de
caráter, é apenas em O Ego e o Id (Freud,
Shakespeare e Ibsen, Lady Macbeth e Rebecca
1923/1976) que os elementos de uma
(de Rosmersholm). O último tipo seria o dos
ponderação metapsicológica sobre o caráter
criminosos cujas ações decorrem de um
se alinham efetivamente. Nesse trabalho,
sentimento pré-existente de culpa.
Freud conduz o leitor, gradativamente, a
reflexões desveladoras das três estruturas
Ainda nesse trabalho de 1916, Freud tece
psíquicas que vieram constituir sua chamada
algumas observações sobre as dificuldades
segunda tópica.
técnicas que esses tipos de caráter tendem a
apresentar na clínica. Como ele não aprofunda
No primeiro capítulo do livro, retoma-se a
muito a discussão técnica nesse texto, deixa-
perspectiva da primeira tópica, a saber, a
a em aberto, fomentando sua necessidade.
divisão do aparelho psíquico entre três
Vejamos um fragmento no qual o autor sinaliza
a importância das resistências associadas ao sistemas: inconsciente, pré-consciente e
caráter: consciente. Nessa divisão, a instância mental
chamada ego – responsável pelo controle da
Quando um médico empreende o tratamento motilidade e pela conseqüente descarga das
psicanalítico de um neurótico, seu interesse excitações para o mundo externo bem como
não se dirige, de modo algum, em primeiro pelo recalcamento de certas tendências – se
lugar, para o caráter do paciente. Prefere saber ligava ao consciente. Em seguida, porém,
o que significam os sintomas (...) Contudo, a demonstrada pelo próprio autor, a insuficiência
técnica que ele é obrigado a seguir logo o dessa formulação o conduziu ao
compele a dirigir sua curiosidade imediata para reconhecimento de que há também, no ego,
outros objetivos. Observa que sua investigação uma significativa dimensão inconsciente. Tal
se acha ameaçada por resistências erguidas insuficiência se revelara na sua consideração
contra ele pelo paciente, podendo o médico, do inconsciente, que seria sempre o reduto
com razão, encarar essas resistências como de conteúdos recalcados; a essa altura, Freud
parte do caráter do paciente. Isso passa a passava a admitir a existência de uma
adquirir a prioridade de seu interesse (Freud, importante parte não recalcada do
1916/1974, p. 351). inconsciente.
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Notas sobre a noção de caráter em Reich

Explorando essa idéia nos dois capítulos construção do caráter; segundo, a consideração
seguintes, Freud reformulou sua tópica. de que o caráter está ligado ao ego, mais ainda,
Principiou diferenciando o id do ego: o é o caráter do ego. São essas as principais
primeiro seria o manancial inconsciente e contribuições do referido texto ao nosso
desconhecido de paixões, gradualmente propósito.
modificado no contato com o mundo, em
decorrência do que se originaria o ego, uma Quanto à primeira, destaque-se que, quando
instância intermediária entre o id e a realidade Freud apresenta a construção do superego a
externa, instância que busca “(...) aplicar a partir da diferenciação do ego, tem de reportar-
influência do mundo externo ao id e às se ao processo de identificação como o
tendências deste, e esforça-se por substituir modelo dessa diferenciação, ou alteração, do
o princípio de prazer, que reina irrestritamente ego. E como se dá o processo de identificação?
no id, pelo princípio de realidade” (Freud, O modelo que Freud adota é semelhante ao
1923/1976, p. 39). que supõe ocorrer na melancolia, isto é, em
seguida à perda de um objeto sexual, o ego
Em seguida, o autor apresenta o ideal do ego, introjeta as características desse objeto,
ou superego, como uma diferenciação mais facilitando o abandono do mesmo e se
tardia do ego, realizada com base em oferecendo ao id como um substituto. Esse
processos de identificação, cuja função é processo remete à organização sexual da fase
julgar, interditar e fornecer um ideal forjado oral, quando a catexia de objeto e a
por meio do prisma constituído com a identificação estão juntas, posto que a meta
interiorização das exigências e das interdições da pulsão é a incorporação ou absorção do
derivadas da resolução do complexo de Édipo. objeto. Assim, face ao abandono de um objeto
sexual, como o que necessariamente ocorre
É nesse ponto que Freud enuncia algumas em relação aos pais na solução do complexo
considerações sobre o caráter. Embora elas de Édipo, o ego se altera com base nas
não forneçam explicações definitivas sobre o características do objeto abandonado.
conceito nem elevem sua eventual definição
ao patamar de importância das instâncias O caráter, então, seria o conjunto resultante
acima referidas, tais considerações aportam dessas modificações no ego. Ele seria,
elementos inéditos ao exame da formação do conseqüentemente, “(...) um precipitado de
caráter. Assim, na primeira referência feita ao catexias objetais abandonadas (...)”(Freud,
caráter, no trabalho mencionado, afirma: “(...) 1923/1976, p. 43), funcionando como um
esse tipo de substituição [de uma catexia do cemitério de relações objetais a atrair para si
objeto por uma identificação] tem grande parte investimentos pulsionais. Evidentemente, o
na determinação da forma tomada pelo ego caráter não deve acolher quaisquer
e efetua uma contribuição essencial no sentido identificações, uma vez que elas podem opor-
da construção do que é chamado de seu se umas às outras, arriscando, em última
‘caráter’” (Freud, 1923/1976, p. 43). análise, a própria integridade do ego. Assim,
também o caráter passa a resistir ao retorno
Aqui, recolhemos dois novos elementos. das catexias objetais, tornando-se mais fixo.
Primeiro, a observação de que o processo Com isso, “(...) os efeitos das primeiras
chamado de identificação participa da identificações efetuadas na mais primitiva

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infância serão gerais e duradouros” (Freud, psicanalítico, Reich escreveu o trabalho


1923/1976, p. 45). intitulado Dois tipos narcisistas (1922/1975).
Já nesse artigo, o jovem psicanalista faz suas
Agora, considerando as relações entre o primeiras referências ao termo caráter, ainda
caráter, o ego e o superego, veremos que o que apenas vinculadas à concepção de uma
caráter se afigura justamente como a dimensão neurose de caráter.
do ego erigida pelas diversas marcas que lhe
foram impressas pelas identificações, Reich, em tal texto, aprova a distinção
atribuindo-lhe singularidade e, ao mesmo apresentada por Alexander no trabalho
tempo, assinalando a história de suas perdas Complexo de Castração e Caráter (Alexander
de objetos. No que diz respeito ao superego, apud Reich, 1922/1975) entre neurose – na
arriscaríamos dizer que, no artigo mencionado,
qual os sintomas estariam localizados e
sua formação também se dá por meio de
definidos – e neurose de caráter – na qual os
identificações; contudo, essas identificações
sintomas estariam difusos, sem clara
se mantêm, de alguma forma, à parte,
exercendo certo domínio sobre o ego, localização, e misturados ao conjunto do modo
enquanto as alterações constitutivas do caráter de ser do paciente. Mas, para além de acatar
Tendo percorrido a
são, pelo ego, incorporadas. essa distinção, Reich elabora uma tese própria bibliografia
sobre a origem dessa diferença. Ele formula freudiana no que
tange à noção de
Tendo percorrido a bibliografia freudiana no uma distinção entre os caminhos que caráter até o Ego
que tange à noção de caráter até o Ego e o Id conduzem à neurose ou a uma neurose de e o Id (1923/1976),
(1923/1976), traçamos os contornos do que, traçamos os
caráter: o tipo de investimento libidinal – no contornos do que,
no conceito freudiano, pode ter
que diz respeito ao alvo desse investimento – no conceito
desempenhado algum papel na formulação de freudiano, pode
que está prejudicado. Em outras palavras, se a ter
Reich. Viu-se como Freud, partindo de um uso
libido de objeto, ou seja, aquela parcela das desempenhado
convencional, descritivo e moral do termo, algum papel na
começou a incorporá-lo ao interesse pulsões sexuais que toma por alvo um objeto
formulação de
psicanalítico: primeiramente, como possível externo encontra-se mais intensamente Reich.
fonte de resistência, depois, investigando a perturbada, por exemplo, pelo recalcamento
relação entre caráter e erotismo e, também, das pulsões sexuais objetais, há possibilidade
apontando algumas situações técnicas de se desenvolver uma neurose com
desafiadoras marcadas pela presença de certos delineamento claro dos sintomas, separado do
traços de caráter. Por fim, verificou-se como o conjunto da personalidade e em estreita
autor chegou a dar lugar a essa noção na relação simbólica com o desejo recalcado e
apresentação de sua segunda tópica, de modo
as pulsões em jogo. Porém, se a libido do ego,
que o caráter, além de estar relacionado, ou
a parcela das pulsões que tomam o próprio
melhor, ser constituído pelo prolongamento
ego por objeto, é que se encontra mais
ou transformação de pulsões parciais, é
também, simultaneamente, fruto de predominantemente perturbada, então os
identificações com objetos amorosos sintomas são difusos e extensos, impossíveis
abandonados. de serem separados do conjunto da
personalidade. A diferença entre ambas,
Reich e o conceito de caráter porém, coloca-se mais quantitativa que
qualitativamente, sendo as respectivas
Em 1922, apenas dois anos após ter sido características descritas correspondentes a
formalmente aceito no movimento configurações extremas, visto que,
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Notas sobre a noção de caráter em Reich

freqüentemente, o que se encontra é uma e principal objeto da libido o próprio ideal de


mistura de neurose sintomática e de caráter, ego. O segundo tipo contrasta com o primeiro:
em graus variados. Tanto é assim, que o promove um narcisismo compensatório
próprio autor afirma: “(...) não há neurose, manifesto e sentimentos latentes de
não importa quão claramente definida, sem inferioridade decorrentes do complexo de
traços de um distúrbio de toda a castração inconsciente que, impedindo a
personalidade” (1922/1975, pp. 134-135). construção de um ideal de ego, obteve
compensação através de uma supervalorização
Em seguida, Reich delineia algumas do ego. É dessa supervalorização que extrai
características típicas da clínica de pacientes sua satisfação, por meio, por exemplo, de uma
com neuroses de caráter, no sentido em que postura exibicionista.
utilizou o termo, contrastando ainda com os
pacientes neuróticos (sintomáticos). Uma Numa apreciação global, diríamos que, no
dessas características é a menor intensidade trabalho em foco, Reich sinaliza pontos
conjugada à maior demora no importantes que envolvem o tema caráter,
estabelecimento de uma transferência sem, no entanto, explorar mais detidamente
positiva, no caso dos pacientes com neuroses as implicações teóricas associadas a esses
de caráter. Outra é a presença, muito pontos. Assim, antes de mais nada, deve-se
freqüente, de uma transferência negativa notar que o autor tende a empregar o termo
inicial vigorosa, explícita ou latente, caráter como um contraponto a sintoma. Se o
decorrente da dimensão ameaçadora que a último aparece na neurose, isolado e
análise assume para esses pacientes. Eles facilmente localizado, por exemplo, num
percebem a análise como uma castração, comportamento, o primeiro, quando é usado
sendo o analista o inimigo a infligi-la. Como numa expressão como neurose de caráter,
conseqüência desse processo, surgem sempre agrega uma qualidade difusa à perturbação,
defesas (couraças) narcísicas que o analista envolvendo a totalidade do indivíduo.
deve habilidosamente penetrar. Aqui, vale Contudo, essa dimensão difusa não é
observar que Reich, nesse texto, já utiliza o especialmente discutida nesse texto. Ademais,
termo couraça, que, posteriormente, assumiu quanto à distinção apresentada, institui-se certo
grande importância em sua obra. paradoxo: ao mesmo tempo em que o autor
busca discernir neurose e neurose de caráter,
Após ter delineado diferenças entre neurose noutro momento, ressalta que toda neurose
de caráter e neurose, Reich, finalmente, passa traz uma dimensão “total” ou narcísica, que,
a discorrer sobre os dois tipos de neurose de a princípio, seriam as características
caráter ou os “dois tipos narcisistas” que determinantes de uma neurose de caráter;
intitulam o artigo. De forma sintética, tem-se refaz-se, com isso, determinada unidade entre
que o primeiro tipo descrito congrega os dois tipos de neurose.
pacientes acometidos de sentimentos
expressos de inferioridade, os quais encobrem Além disso, a discussão das singularidades que
4 Reich emprega os termos (ou encouraçam) uma crença íntima e secreta essas neuroses de caráter criam, em termos
ideal de ego e superego como
sinônimos, em concordância, de superioridade, depositada da situação clínica, com suas couraças narcísicas
inclusive, com o uso freudiano e transferências negativas, é outro aspecto
dos termos em O Ego e o Id
inconscientemente na posse de um ideal de
4
(Freud, 1923/1976). ego nobre e inatingível, sendo fonte de prazer relevante desse trabalho, que acena para a

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abordagem das conseqüências técnicas da à repressão das pulsões das crianças, a ausência
nova formulação sobre a neurose. Nesse de modelos externos (parentais) para o
sentido em particular, o esforço é coerente superego, a alternância muito grande da
com a sugestão feita por Freud em Alguns Tipos apresentação de figuras ideais, entre outras.
de Caráter Encontrados no Trabalho
Psicanalítico (1916/1974), de se explorarem A tese que Reich defende nesse texto é a de
as sutilezas técnicas da abordagem de uma que, no processo de educação saudável, as
neurose de caráter ou de uma resistência de pulsões infantis sejam parcialmente gratificadas
caráter. e parcialmente reprimidas pelos pais, numa
medida e numa forma tais que essa repressão
Por fim, pode-se dizer que, do conjunto das seja suportada pela criança por amor aos pais
considerações que Reich faz nesse trabalho, (particularmente àquele que é responsável
não é possível ainda deduzir, de forma pela interdição) e, assim, incorporada como
estruturada e fidedigna, o que ele chama de ideal de ego em seu psiquismo,
caráter, embora sua relação com o narcisismo, proporcionando, desse modo, um
com a formação do ego e do ideal de ego, desenvolvimento egóico integrado e dirigido
bem como com as resistências à análise, já se à realidade. No caso do caráter impulsivo, a
afigurem. pulsão teria seguido muito tempo sem ser
reprimida, fortalecendo as demandas pulsionais
No percurso teórico reichiano, um outro marco e o ego primitivo, estando impedido o
para se investigar a noção de caráter é o livro desenvolvimento de tolerância à frustração,
O Caráter Impulsivo: um Estudo Psicanalítico por um lado, e obstaculizada a constituição
da Patologia do Ego (Reich, 1925/1975). Nesse gradual de um ideal de ego, por outro. Frente
livro, o conjunto de elaborações mais afinado a esse quadro, em dado momento, far-se-ia
com a noção de caráter está presente nos dois uma interdição com intensidade e violência
primeiros capítulos. Nestes, Reich esboça o brutais, desfavoráveis ao processo de
que entende por caráter, traz alguns elementos assimilação e identificação com a figura
sobre sua formação, integrando-a ao processo repressora. Constitui-se, daí, não um superego
de formação do superego e, por fim, dialoga fundido ao ego do indivíduo, como seria o
com O Ego e o Id, (1923/1976) de Freud. usual, mas um superego isolado, composto
de elementos da autoridade repressora,
Em linhas gerais, de acordo com a concepção adotados de forma dissociada do ego. Assim,
reichiana, o caráter impulsivo seria uma forma o que chama a atenção nesse escrito dos
específica de caráter neurótico dominado pela primeiros anos da produção reichiana é o fato
pulsão, donde surge seu nome – impulsivo. de o autor advogar a necessidade de coerência
Essa dominação ocorre quando a inibição da e, em certa medida, de repressão no processo
pulsão se deu de forma defeituosa, geralmente educativo, isso ao contrário da imagem de
muito tardia e traumática, de modo que, no “plena liberdade” que tende a embalar e a
desenvolvimento do ego, ao invés de haver uniformizar a leitura dos textos desse pensador.
uma integração do superego ao conjunto do
psiquismo, ele fica isolado. Diversas razões Especificamente no que diz respeito à
poderiam contribuir para esse isolamento: uma concepção de caráter, como dissemos, esse
postura muito ambivalente dos pais em relação livro traz alguns elementos bastante
296
Notas sobre a noção de caráter em Reich

relevantes. Logo na primeira frase, Reich caráter” (p. 238). Isso se devia, em parte, à
aponta a ausência de uma teoria psicanalítica compreensão de Freud de que o fator crucial
sistemática do caráter. Em suas palavras: do trabalho analítico é a dissolução das
5
resistências , e não apenas a remissão dos
(...) no presente, nós não temos uma teoria sintomas. Reich dá ares definitivos a essa
psicanalítica do caráter que seja sequer direção quando afirma que “(...) se alguém
parcialmente sistemática (...). O pré-requisito pretende alcançar recuperação genuína, na
para uma caracterologia psicanalítica seria o qual a recaída está fora de questão, então a
conhecimento exato dos mais detalhados análise do caráter deve substituir a análise de
mecanismos do desenvolvimento psíquico, sintomas” (pp. 238-9).
uma demanda que estamos longe de satisfazer
(Reich, 1925/1975, p. 237). Com base nesse primeiro apanhado de
referências, já podemos elencar elementos
Dessa forma, Reich destaca que não havia, para nossa reflexão. Reencontramos, aqui,
nesse momento do pensamento psicanalítico, como um marco da noção de caráter, a mesma
uma teoria estruturada e sistemática sobre distinção entre sintoma e caráter encontrada
caráter. Além disso, as reflexões mais em Dois tipos narcisistas (Reich, 1922/1975).
avançadas, particularmente O Ego e o Id Essa diferenciação continua em destaque
(Freud, 1923/1980), indicavam que, para além mesmo em textos posteriores do autor, e
das considerações sobre a importância do vemos que embasa parte das proposições
erotismo na constituição do caráter, o campo técnicas por ele estabelecidas, a começar pela
novo da Psicologia – ou metapsicologia – do própria direção do foco da análise para o caráter
ego surgia como a nova fronteira da teoria dos pacientes e o reconhecimento da
psicanalítica, promissora para o estudo do superioridade da análise do caráter, em termos
caráter. Para o autor, nem mesmo a coerência de eficácia clínica, se comparada à análise de
dos elementos da teoria do desenvolvimento sintomas. Desse modo, parece-nos justo
sexual de então auxilia suficientemente a colocar em relevo esse contraste, ou
tarefa de uma compreensão caracterológica contraponto, entre sintoma e caráter como
da personalidade, até porque “(...) as uma relação cuja dinâmica seguirá atribuindo
dinâmicas do ego são mais difíceis de significado a este último.
compreender do que as dinâmicas do
desenvolvimento sexual” (Reich, 1925/1975, Ainda no primeiro capítulo do trabalho em
p. 237). exame, Reich faz outras três observações, as
quais, embora um pouco isoladas e
Do ponto de vista do interesse terapêutico, descontínuas, alimentam nossa investigação.
Reich já se mostrava convicto da importância A primeira delas é tecida quando o autor
do entendimento sobre o caráter dos comenta que a análise do caráter deve,
pacientes. Ademais, reconhecia que essa necessariamente, exercer mais a análise das
5 Pensadas como a
organização psíquica que importância já vinha sendo absorvida pela ações e dos comportamentos do que se faria
impede determinado
conteúdo inconsciente de psicanálise, que “(...) deixou há muito de ser usualmente, numa “análise da memória”
se tornar consciente, ao
mesmo tempo em que ela
meramente uma terapia de sintomas; pelo (1925/1975, p.239), isto é, numa análise
mesma, enquanto contrário, vem-se transformando, voltada para as lembranças do paciente.
resistência, mantém-se
inconsciente. constantemente, em uma terapia de todo o Fundamenta essa proposição seu

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João Rodrigo Oliveira e Silva & Paulo Albertini PSICOLOGIA CIÊNCIA E
PROFISSÃO, 2005, 25 (2), 286-303

entendimento de que as peculiaridades do pela criança como ideal de ego positivo ou


caráter encontram sua expressão privilegiada negativo; o padrão de ideal de ego que foi
nas ações. Dessa consideração, engendra-se principalmente seguido, o do genitor de
mais um laço, desta vez, entre caráter e ação, mesmo sexo ou de sexo oposto; o estágio do
o que, do ponto de vista técnico, cria certas desenvolvimento da libido no qual as
dificuldades, posto que “(...) as ações são pouco identificações se deram; o quanto do ideal do
6
adaptadas à interpretação genético-analítica ego pode ser realizado no ego-real e sob quais
7
sem recordações subseqüentes ou sem ao condições, e a atitude do ego-prazer frente
menos uma reconstrução analítica das fontes às primeiras identificações. Esses pontos vão
do comportamento” (Reich, 1925/1975, p. servir ao longo de todo O caráter impulsivo...
239). De qualquer modo, essa constatação de (Reich, 1925/1975) como referências
Reich era compartilhada por outros autores, permanentes para avaliar a formação do caráter
como Ferenczi e Rank, que também vinham e do superego nos casos estudados pelo autor.
buscando novas maneiras de intervenção clínica
capazes de dar conta dessa dimensão recém- No segundo capítulo, Reich prepara-se com
incorporada à análise. vistas a apresentar o quadro clínico que chama
(...) nós podemos
de “caráter impulsivo” e, para tanto, formula
definir ‘caráter’
uma ponderação em torno da conceituação como a atitude
A segunda observação de interesse para nós é
de caráter. Nesta, afirma que vinha usando psíquica particular
bastante mais específica e corresponde a uma em direção ao
indiscriminadamente expressões como caráter mundo externo
equivalência que, a certa altura, Reich propõe
impulsivo e neurose de caráter e seria específica a um
entre o caráter e a personalidade inteira. Não dado indivíduo.
necessário, então, realizar um esforço para
desenvolve, sequer tematiza essa
esclarecer esses termos. Tal esclarecimento é
aproximação, mas, uma vez que garimpamos,
difícil, segundo o autor, porque, em geral, trata-
nesse texto, elementos de proveito para a
se de modo muito vago o conceito de caráter.
nossa pesquisa, podemos empenhar-nos no
Diante disso, assume ele próprio uma
vislumbre do que essa equivalência nos
definição, sendo esta uma das raras passagens
oferece. A nosso ver, ela confirma, a despeito
em que Reich interrompe o fluxo de seu
de haver nessa explicação certa circularidade,
pensamento dedicando-se a explicações
o que era expresso na distinção entre sintoma 6 Nesse texto, ao falar em
terminológicas. No texto: ego-real, Reich se refere à
e caráter, a saber, que a este último cabe a soma dos elementos do ideal
do ego efetivamente
dimensão totalizante e ampla de algo que assimilada e, digamos
(...) nós podemos definir ‘caráter’ como a assim, realizada,
podemos chamar de personalidade.
atitude psíquica particular em direção ao acrescida, nos adultos, dos
impulsos sexuais dirigidos
mundo externo específica a um dado à realidade, sem que
A última dessas considerações consiste num indivíduo. Isso é determinado pela disposição
estejam em conflito com o
superego.
elogio ao livro de Freud, O Ego e o Id (1923/ e pela experiência no sentido da ‘série 7 No trabalho em exame,
1976), reconhecendo-o como um marco da complementar’ (Ergänzungsreihe) de Freud. Reich emprega ego-prazer
e ego-pulsão como
bibliografia psicanalítica na área dos estudos Assim, nós consideramos tipos de caráter sinônimos referentes ao
primitivo ego do bebê,
sobre o caráter. A partir desse reconhecimento, neurótico os indivíduos que apresentam anterior às identificações
Reich arrola os pontos que considera serem desvios mais ou menos amplos em relação a
e à constituição do
superego. Compõe-se “...
indicações derivadas desse artigo, importantes uma norma de comportamento ajustado à inteiramente de tendências
pulsionais de natureza
na explicação da formação do caráter. E que realidade, tanto sexual quanto cultural, bem sexual e destrutiva” (Reich,
1925/1975, p. 301); inclui
pontos são esses? O autor cita como como em relação ao ajustamento social (1925/ tudo que é prazeroso e
estranha tudo que é
significativos: as atitudes dos pais assimiladas 1975, p. 250). desconfortável.
298
Notas sobre a noção de caráter em Reich

Nesse excerto, Reich divide a determinação Vê-se que Reich considera sintoma e caráter
do caráter entre a disposição e a experiência, neuróticos como expressões de uma fixação
de modo que há complementaridade e no âmbito do desenvolvimento psicossexual,
relação inversa entre esses fatores. Se há forte o que ainda não havia enfatizado nesse livro.
disposição endógena, o peso da experiência A diferença entre eles aparece em sua
é menor, e vice-versa. Ele não renega nem amplitude: enquanto o sintoma encontra-se
uma dimensão nem outra, confiando a diretamente ligado a essa fixação, podendo
determinação do caráter à relação entre elas, ser localizado em um comportamento isolado,
tendo por base a noção freudiana de série como o vômito a que o autor se refere, o
complementar. Já a avaliação da neurose como caráter, por sua vez, corresponde às alterações
um desvio de uma norma de ajustamento totais que tal fixação provoca na personalidade,
sexual, cultural e social é, a nosso ver, uma sendo impossível localizá-las em um
consideração bastante discutível no que comportamento, apenas. É notável também
concerne à natureza da neurose. É necessário, que a fixação sempre vai expressar-se
aqui, pontuar que, na seqüência da obra simultaneamente por meio do caráter e do
reichiana, o ajustamento, ou a adaptação, não sintoma, criando uma indissociabilidade entre
vieram estabelecer-se como critérios de saúde ambos. Deve-se notar que, ao pensar no
psíquica; ao contrário, Reich muito combateu caráter como uma expressão abrangente das
essa visão. Um exemplo desse combate pode fixações parciais na personalidade, Reich criou
ser encontrado no trabalho Escuta, Zé condições para colocá-lo como base do
Ninguém (Reich, 1948/1974), uma crítica sintoma neurótico, o que implica conceber a
mordaz à patologia da normalidade. neurose sintomática como sendo sempre, em
termos mais amplos, uma neurose de caráter.
Mais adiante, o autor procura esmiuçar sua Numa apreciação global, pode-se afirmar que
definição. Recorre novamente à distinção
o livro O caráter impulsivo... (1925/1975)
entre sintoma neurótico e caráter neurótico
contém uma série de contribuições ao tema
de modo bastante mais refinado, desta vez.
de nosso estudo. Um esboço mais claro da
Afirma ele:
noção de caráter começa a impor-se: algumas
idéias já presentes no artigo Dois tipos
O sintoma neurótico localizado corresponde
narcisistas (1922/1975), como a distinção entre
diretamente às áreas parciais da personalidade
caráter e sintoma, são mais desenvolvidas, e,
que foram “fixadas” em um estágio ou outro,
além disso, a ação, a forma de expressão do
enquanto o caráter neurótico é sempre uma
comportamento, passa a ser vista como um
expressão da atitude total correspondente à
meio privilegiado de conhecimento a respeito
fixação. Assim, a fixação (e o conflito psíquico
resultante dela) irá sempre exibir do caráter. Contudo, o autor pouco alude às
simultaneamente dois modos de expressão: implicações técnicas desses desenvolvimentos
primeiro, o sintoma neurótico particularmente teóricos; tais implicações serão intensamente
correspondente a ela (por exemplo, vômito focalizadas no texto que veremos a seguir.
histérico como expressão de uma fixação oral-
genital) e segundo, o caráter neurótico que Ainda integrando os quadros da Associação
8
8 Reich permaneceu na corresponde ao distúrbio evocado na Psicanalítica , em 1933, Reich publicou o seu
Associação Psicanalítica até
1934, ano em que foi expulso. personalidade inteira pela fixação parcial trabalho mais desenvolvido sobre o tema
Sobre o assunto, ver Jones
(1961/1979) e Wagner (1996). (Reich, 1925/1975, pp. 250-1). caráter: o livro Análise do Caráter. A edição

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original dessa obra, contendo um prefácio e tomada de consciência – configuram um marco


doze capítulos, reunia artigos de 1926 até 1933 bastante impreciso, dentro do qual são postos
e, em linhas gerais, sintetizava as orientações à prova todos os tipos de táticas pessoais
técnicas formuladas por Reich durante o seu (Dadoun, 1991, p. 100).
envolvimento institucional com a psicanálise.
O texto é dividido em duas partes: a primeira, É inevitável que se levante a pergunta: de que
os seis primeiros capítulos, compõem uma forma esse movimento e essa intenção de
discussão sobre a técnica psicanalítica; a busca de definição da técnica ótima se
segunda, do sétimo ao décimo segundo, relacionam com a noção de caráter? Ora,
aborda a teoria da formação do caráter. Se justamente essa noção vai ser mais
podemos identificar uma intenção em Análise rigorosamente exigida devido a um
do Caráter (Reich, 1933/1995), trata-se de determinado desenvolvimento que a técnica
extrair, da experiência analítica acumulada, as segue. Esse desenvolvimento diz respeito ao
lições que permitissem a formulação de fato de que, progressivamente, o enfoque
preceitos técnicos amplos e universais, a fim clínico vai dirigir-se do sintoma, entendido
de orientar a apreciação de casos individuais. como algo mais restrito e isolado, para o
Logo, podemos dizer que esse é um livro de caráter, concebido como uma dimensão total
finalidade técnica. e ampla.

Pode-se afirmar que Reich não estava sozinho Essa direção, já esboçada em Freud,
nesse caminho de reflexão e reformulação da principalmente em Alguns Tipos de Caráter
técnica psicanalítica. Ferenczi e Rank já Encontrados no Trabalho Psicanalítico (1916/
buscavam, antes dele, rever a técnica com a 1974), e em Reich, está afinada com a crítica
ousadia que levaria ao desenvolvimento das a uma clínica debruçada apenas sobre os
inovadoras propostas de tais autores – a técnica sintomas (e também sobre a transferência 9 Segundo Haynal (1995),
9 Ferenczi “(...) supõe que o
ativa que Ferenczi propõe em 1919 e a terapia positiva) e segue para o elogio a um trabalho analista possa ser capaz de
10 abandonar sua posição,
ativa idealizada por Rank em 1926 . Não é cujo esforço se dirige à análise das dita de ‘receptividade
passiva’, para propor ao
possível, portanto, dizer que, nas décadas de transferências negativas e a todas as outras paciente, por exemplo, fazer
1920 e 1930, a psicanálise já dispusesse de formas de resistências. Isso leva, por fim, à uma experiência de
frustração (interdição de um
preceitos técnicos amplos e consensuais, como sua proposta de análise do caráter, sendo ele gesto, de um movimento),
cujo objetivo é assegurar que
explica o comentador da obra reichiana Roger pensado também como uma resistência, e das as tensões habitualmente
descarregadas pela
Dadoun: mais importantes. Com essa orientação, motilidade possam ter
acesso à análise” (p. 19).
salientou-se a importância de pensar sobre o
10 De acordo com
Quando Reich elabora os conceitos de análise que seja mesmo o caráter e sobre como ele Roudinesco (1998), a
caracterial e suas modalidades de intervenção se forma nas tramas inconscientes que terapia ativa de Otto Rank
preconizava “(...)
(...), a psicanálise, por estranho que pareça, constituem o homem, sujeito da psicanálise. tratamentos curtos e
limitados previamente no
não dispunha de uma verdadeira estratégia Como vimos, já no artigo Dois tipos narcisistas tempo, assim como um
recentramento no presente:
terapêutica. Os poucos princípios propostos (1922/1975) e, de maneira mais acentuada, ao invés de sempre
reconduzir o paciente à sua
por Freud, aprofundados e refinados por no livro O caráter impulsivo... (1925/1975), história passada e ao seu
analistas como Abraham, Rank ou Ferenczi – Reich apontara a relação entre o caráter e inconsciente (...), Rank
julgava preferível solicitar
regra de associação livre, leitura e interpretação resistência. Mesmo assim, a proporção que a vontade consciente deste
e aplicá-la à situação
do material inconsciente, especialmente Análise do Caráter (1933/1995) dá à exploração presente, a fim de estimular
o seu desejo de cura (...)”
onírico, transferência dos afetos ao psicanalista, do significado do caráter como resistência é (p. 643).
300
Notas sobre a noção de caráter em Reich

inédita. Para o autor, o caráter, ou seja, a reagir (...)” (p.150). Vemos, aqui, o caráter
dimensão total e ampla das atitudes individuais delimitado como um elemento individual e
em relação ao mundo, “trabalha”, na situação distintivo, tal qual aparece em O caráter
analítica, no sentido de evitar que certos impulsivo... (Reich, 1925/1975). Assim,
conflitos e sentimentos inconscientes se pensado como modo de agir de um indivíduo,
tornem conscientes. E como o caráter, como o caráter se distancia ainda mais da noção de
resistência, se manifesta? sintoma, pois, além de, diferentemente deste,
não ser localizado e isolado num evento
Ao abordar a manifestação do caráter como específico (como uma conversão histérica ou
resistência, Reich retoma outro aspecto que uma idéia obsessiva), também se notabiliza
enunciara antes: as resistências de caráter ligar- por não ser estranho ao paciente (ego-
se-iam à forma dos comportamentos, aos distônico); o caráter consiste justamente no
pequenos traços de caráter que, revelando que lhe é mais próprio e particular (ego-
dimensões resistentes à análise, davam novas sintônico). É sua forma de se comportar.
possibilidades interpretativas ao psicanalista.
No texto: Apresenta-se, portanto, um quadro mais
elaborado da noção de caráter para esse autor.
Certas considerações clínicas obrigam-nos a Tomamos o conceito como o conjunto de
designar como “resistências de caráter” um atitudes e maneiras de agir de um indivíduo,
grupo particular de resistências que que o singulariza e identifica, podendo operar,
encontramos no tratamento de nossos de forma inconsciente, como resistência à
pacientes. Estas derivam seu caráter especial emergência de conflitos inconscientes e
não de seu conteúdo, mas dos maneirismos também como resistência à análise. Porém,
específicos da pessoa analisada [grifos do Reich] ao identificar o caráter com a forma do
(1933/1995, p.53). comportamento, Reich desloca a técnica
psicanalítica, em termos de foco, do conteúdo
Assim, o que marca essas resistências de narrativo para os modos de sua apresentação,
caráter é o fato de aparecerem e operarem o que é uma mudança significativa decorrente
não por algum conteúdo ideativo isolado, mas dessa reorganização da noção de caráter. Diz
por modos de agir próprios da pessoa, que o autor:
carregam em si, de forma inconsciente,
tendências resistentes e defensivas. Essa A resistência de caráter não se expressa em
direção define o caráter como o conjunto de termos de conteúdo, mas de forma: o
comportamento típico, o modo de falar, andar,
maneirismos, de modos de agir do homem,
gesticular, e os hábitos característicos (como
os quais, na análise, cumprem uma função de
o indivíduo sorri ou escarnece, se fala de
resistência.
maneira coerente ou incoerente, o quanto é
polido e o quanto é agressivo). (...) O indício
Vale destacar que, ao falar em maneirismos,
da resistência de caráter não está naquilo que
Reich não está concebendo comportamentos o paciente diz e faz, mas no modo como fala
excêntricos ou descolados da totalidade da e age. Também não está no que ele revela
pessoa. Para ele, o caráter é “(...) o modo de em sonhos, mas no modo como ele censura,
existir específico de uma pessoa (...)” (1933/ distorce, condensa etc. (...). A resistência de
1995, p. 56), ou ainda o “(...) modo típico de caráter permanece a mesma no mesmo

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paciente, independente do conteúdo [grifos Freud em O Ego e o Id (1923/1976), o ego,


do Reich] (1933/1995, p.59). do qual o caráter é parte, se situa entre as
demandas pulsionais do id, exigentes e
Ilustrando essa mudança de foco, um imperativas, e o mundo externo. Assim, dada
psicanalista e ex-paciente de Reich, Oliver S. essa posição, o caráter do ego teria a função
English, nos conta, sobre a postura daquele de defendê-lo das exigências de um lado e
como psicanalista, em 1929, o seguinte: do outro, protegendo-o, simultaneamente, da
angústia decorrente desse conflito. Ao pensar
Foi por essa época que me lembro do Dr. dessa maneira, o autor concebe o caráter
De acordo com
Reich utilizando seu interesse em outras como um “muro de proteção” que absorve o Reich, o modo
apresentações da personalidade além das impacto das exigências do id e do mundo pelo qual o
caráter defende o
verbais. Por exemplo, ele iria freqüentemente externo sobre o ego. É por isso que, na situação ego é o
chamar minha atenção para a monotonia de de análise, o caráter, logo que sinta a enrijecimento de
sua forma, ou seja,
meu tom de voz enquanto eu associava aproximação de alguma ameaça (vinda de fora
a adoção
livremente. Ele também chamaria atenção para ou de dentro), passa a exercer sua função de incondicional,
minha posição no divã e me lembro defesa, impedindo, por exemplo, que conflitos estereotipada e
crônica de um
particularmente que ele confrontou-me com inconscientes potencialmente desesta- modo de se
o fato de que, ao entrar e sair do consultório, bilizadores do equilíbrio do ego se tornem comportar, de se
mover etc,
eu não me dirigia para um aperto de mãos conscientes. constituindo o que
com ele, como era costume tanto na Áustria o autor chama de
como na Alemanha (English, 1977, p. 241). De acordo com Reich, o modo pelo qual o couraça de
caráter.
caráter defende o ego é o enrijecimento de
Nessa citação, percebemos o impacto dessa sua forma, ou seja, a adoção incondicional,
reformulação conceitual dentro da clínica, na estereotipada e crônica de um modo de se
direção que leva à análise do caráter. Ora, se, comportar, de se mover etc, constituindo o
11
no contexto analítico, o caráter opera com que o autor chama de couraça de caráter . A
função de resistência à análise, então, do couraça protege o ego, só que, ao mesmo
ponto de vista mais técnico, essa função do tempo, diminui “(...) a habilidade do ego para
caráter exige que ele seja, em primeiro lugar, agir e sua liberdade de movimentos” (Reich,
submetido à análise para que esta tenha 1933/1995, pp. 192-193), restringindo a
condições de se realizar e não apenas parecer capacidade de satisfação sexual e
realizar-se. Tal discriminação, que visa instaurar intensificando, pela estase de libido, os
verdadeiramente as condições de análise, é conflitos que, inicialmente, buscava evitar.
crucial para Reich. O que ele descobre é que, Assim, discorrendo sobre a função defensiva
pela análise do caráter, o caminho para a do caráter, Reich conceitua:
análise dos significados inconscientes vai sendo
espontaneamente aberto, pois o caráter traz O caráter consiste numa mudança crônica do
em si o registro de sua constituição histórica ego que se poderia descrever como um
11 A idéia de que o caráter
pulsional e defensiva. enrijecimento. Esse enrijecimento é a base real possa enrijecer-se ou
encouraçar aparece
para que o modo de reação característico se também em Ferenczi e
Adler. Ferenczi (1930/1992)
Ainda frente à questão sobre a função torne crônico, cuja finalidade é proteger o ego utiliza, inclusive, metáfora
defensiva do caráter na estrutura psíquica do dos perigos internos e externos. Como uma equivalente para indicar
essa situação falando em
homem, Reich remete-se, inicialmente, à sua formação protetora que se tornou crônica, “carapaça” ao descrever
uma resistência
localização original. Para ele, tal como postulou merece a designação de “encouraçamento”, estereotipada de caráter.
302
Notas sobre a noção de caráter em Reich

pois constitui, claramente, uma restrição à aproximação entre caráter e defesa que ajuda
mobilidade psíquica da personalidade como a compreender a perspectiva reichiana nesse
um todo [grifos do Reich] (1933/1995, p. domínio, ou seja, se procurarmos incluir essa
151). dimensão defensiva à concepção acumulada
que temos do caráter, veremos que seus
Cabe notar que, ao atribuir ao caráter a diversos significados se articulam
condição de defesa, Reich o considera uma coerentemente: o caráter está proposto como
abrangente estratégia. Não se trata, portanto, a dimensão total das atitudes individuais que
de um mecanismo de defesa específico, mas singularizam e identificam o indivíduo por
de algo mais vasto, que se diferencia dos meio da forma como essas atitudes se
mecanismos de defesa de forma semelhante apresentam. O conjunto unificado dessas
àquela com que se diferencia dos sintomas atitudes traz, como que decantada nas
– pela sua amplitude. mesmas, a história de sua constituição e seus
elementos constituintes. Ao mesmo tempo,
Conclusão cumpre, permanentemente, a tarefa de
proteger o ego da desintegração e da angústia
Retomando os objetivos norteadores deste
provocadas por sua localização intermediária
trabalho, podemos afirmar, quanto ao
entre o id e o mundo externo. Frente a isso,
primeiro (aquele que trata da vinculação das
o caráter tem a possibilidade de apresentar-
idéias reichianas sobre o caráter com
se mais rígido (encouraçado) ou mais flexível.
determinadas orientações presentes em
É por seu significado defensivo que o caráter,
escritos freudianos), que parte nuclear da
na análise, pode vir a consistir uma forte
teorização reichiana tem sua base fundada
resistência ao trabalho analítico.
em idéias freudianas. Senão vejamos: a) a
leitura reichiana do caráter como possível
Por fim, numa apreciação global, é possível
fonte importante de resistência já havia sido
afirmar que a reflexão de Reich sobre o
sugerida por Freud no artigo O método
caráter, depois de um início ainda incipiente
psicanalítico de Freud (1904[1903]/1972) e,
no artigo Dois tipos narcisistas (1922/1975) e
de forma mais completa, em Alguns Tipos
de algum desenvolvimento em O caráter
de Caráter Encontrados no Trabalho
impulsivo... (1925/1975), ganha contornos
Psicanalítico (1916/1974); b) o entendimento
mais nítidos no livro Análise do Caráter (1933/
reichiano de que o caráter está associado às
1995). Vale lembrar que, mesmo após 1933,
transformações das excitações sexuais é de
quando já se anuncia o afastamento de Reich
origem freudiana; c) a larga utilização, nas
do movimento psicanalítico, a noção de
formulações reichianas sobre o caráter, do
modelo da chamada segunda tópica do texto caráter continua tendo importância

freudiano O Id e o Ego (1923/1976). significativa em seu pensamento e prossegue


sendo esmiuçada a partir das novas
Com relação ao segundo objetivo (aquele que referências técnicas que esse autor elabora.
visa contribuir para o esclarecimento da A apresentação desse desenvolvimento
noção de caráter contida em textos reichianos posterior, porém, excede o objetivo do
publicados originalmente no período de 1922 presente artigo e permanece como uma
a 1933), podemos dizer que é, sobretudo, a sugestão para posteriores investigações.

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (2), 286-303


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João Rodrigo Oliveira e Silva & Paulo Albertini PSICOLOGIA CIÊNCIA E
PROFISSÃO, 2005, 25 (2), 286-303

João Rodrigo Oliveira e Silva

Professor da Universidade Ibirapuera e


Professor do Instituto Sedes Sapientiae.
Mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo
Rua Matheus Grou, 566. CEP: 05415-040. Pinheiros, São Paulo,
SP. Tel: (0—11) 3031 3082 e-mail: jo.rodrigo@ig.com.br

Paulo Albertini

Professor Doutor do Instituto de


Psicologia da Universidade de São Paulo.
Doutor em Psicologia
Rua José Getúlio, 506, apto 81-A. CEP: 01509-000. Aclimação,
São Paulo, SP. Tel: (0—11) 32720658 e-mail: albertin@usp.br

Recebido 05/01/04 Reformulado 13/05/05 Aprovado 30/09/05

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