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DPP I - Apontamentos das aulas teóricas de Direito


Processual Penal I
Prof. Dra. Sandra
Direito Processual Penal II (Universidade do Porto)

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Baixado por Marcia Gonçalves (marcia83as@hotmail.co.uk)
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2016/2017 [DIREITO PROCESSUAL PENAL I]

Considerações Iniciais

A “ciência total do direito penal” e o direito processual penal :


Na expressão acima, inserida dentro de aspas, podemos englobar o direito penal em sentido
amplo, a criminologia e a política criminal. Aprofundadamente, o direito penal em sentido
amplo subdivide-se em direito penal substantivo, direito da execução de penas e medidas de
segurança e o direito processual penal (direito adjetivo – expressão cuja autoria remonta a
Franz von Lizst). Assim, enquanto que ao direito penal substantivo cabe indicar quais os
comportamentos que se traduzem na violação de uma norma de determinação e quais as
respetivas consequências jurídicas, ao direito processual penal cabe a regulamentação jurídica
da forma de investigação da prática de um crime.
Apesar da denominação de von Lizst, o direito processual penal não é meramente
instrumental face ao direito penal substantivo, entre um e outro existe uma “relação mútua de
complementaridade funcional”, nas palavras de Figueiredo Dias. Esta relação é torna-se
evidente em certos institutos: na declaração de inimputabilidade do agente (art. 20º do CP),
pressupõe-se a existência de um duplo juízo, de um nexo entre concreto agente e concreto
facto, ou seja, entre a anomalia psíquica e o facto praticado, duplo juízo este que é tratado de
forma unitária no próprio processo do facto, como qualquer outra questão atinente à culpa
levando, eventualmente, à aplicação de uma medida de segurança (arts. 1º al. a) e 368º do
CPP). Anteriormente a 1987, o juízo de inimputabilidade era tratado num outro processo
denominado de Incidente de Alienação Mental.
O princípio de ressocialização do agente e a exigência de que a sentença refira expressamente
os fundamentos da medida de pena (art. 40º nº1 e 71º nº3 do CP) ditam que à determinação
da pena seja atribuído um relevo específico na tramitação do processo (num primeiro
momento aferir da personalidade e perigosidade do agente (art. 160º do CPP) e , num segundo
momento, distinguir a culpabilidade da determinação da sanção (arts. 368º e 369º do CPP) –
césure de audiência ou audiência bipartida).
O direito processual penal também influi sobre o direito penal substantivo e não lhe é
simplesmente instrumental (nulla poena sine judicio – art. 32º CRP), de forma bem evidente
nas dificuldades de natureza processual em provar o “poder agir de outra maneira”.
Exemplificando, em matéria de corrupção é necessária a prova de um nexo entre a vantagem
recebida e o ato praticado pelo corrupto, algo de difícil obtenção. Desta forma, através de
alterações introduzidas ao CP em 2010, tipificou-se de forma autónoma o crime de
recebimento indevido de vantagem, expresso no art. 372º do CP. Nos casos de participação em
rixa, devido às dificuldades probatórias de indicar qual dos participantes provoca a morte ou
ofensa à integridade física grave da vítima, estabelece-se que todos os participantes nesta
sejam punidos de igual forma (art. 151º do CP). Assim, o processo i nfluencia a própria
estatuição de direito penal substantivo, por razões de ordem prática.
Em certos institutos de natureza duplamente substantiva e adjetiva é ainda mais visível a
relação entre ambos – prescrição do procedimento criminal (arts. 118º a 120º do CP), queixa
(arts. 113º a 116º do CP e 49º a 51º do CPP) e acusação particular (arts. 117º do CP e 50º e 51º
do CPP). Quanto à queixa e acusação particular: tratando-se de um crime público, não há
necessidade de queixa para que o ministério público investigue e acuse; tratando-se de um
crime semi-público, há necessidade de queixa para que o ministério público investigue e acuse;
sendo um crime particular, no fim da fase de inquérito e depois de ser apresentada queixa, é

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necessário que o ofendido deduza acusação particular.


O direito processual penal bebe diretamente da fonte que a criminologia proporciona: o
surgimento, nos anos 60 do século XX, da chamada Labeling Approach, que demonstrava o
fenómeno de estigmatização daqueles que entravam em contacto com o processo e a possível
degradação social daí decorrente poderia suscitar casos de delinquência. Pelo simples facto de
se “etiquetar” a pessoa como criminosa, ela pode comportar-se como tal. É ainda de destacar
o “efeito de funil” que demonstra a discrepância entre crimes cometidos e denunciados, entre
denunciados e processados e, por fim, entre crimes processados e aqueles a que
corresponderá uma decisão final.
Acerca do efeito estigmatizador ou vitimizador, será importante referir os casos em que o crie
cometido contende, especialmente, com a liberdade ou autodeterminação sexual. Nestas
situações, a prestação múltipla de declarações por parte da vítima pode fazer da audiência de
julgamento uma situação emocional gravíssima para esta, o processo é “pior” do que o mal
causado pelo crime em si (vitimização secundária). Assim destaca-se, por exemplo, o instituto
das declarações para memória futura (art. 271º e 294º do CPP).
Em resposta aos estímulos proporcionados pela criminologia surgem, por exemplo e em
resposta ao concreto problema da estigmatização pelo envolvimento no processo,
mecanismos de diversão/divergência como a dispensa de pena (art. 280º CPP), suspensão
provisória do processo (art. 281º do CPP) e o processo sumaríssimo. Neste ultimo elimina-se a
fase de julgamento pela produção de efeitos nefastos sobre o arguido.
Cabe ainda referir a relação entre o direito processual penal e a política criminal. Esta pretende
que o processo esteja funcionalmente organizado, que cumpra os mandamentos da
necessidade de tutela de bens jurídicos essenciais e de reintegração do agente na sociedade.
Para que tal aconteça, estabelece-se para cada biénio, uma lei-quadro com as prioridades
concretas que irão influenciar a atuação do ministério público.
A título de nota final, e para integrar o direito processual penal na summa divisio do Direito,
coloca-lo-emos no ramo do direito público. Até 1929 não existia CPP, havia um Código
Judiciário Geral. Tentou-se, entre 1849 e 1929, criar uma teoria geral do direito adjetivo – este
projeto não singrou em grande medida pelo facto do direito processual penal prosseguir
finalidades muito próprias e distintas das dos outros direitos adjetivos.

Finalidades próprias do direito processual penal:


São apontadas três finalidades essenciais: realização da justiça e a descoberta da verdade
material; proteção perante o Estado dos direitos fundamentais das pessoas; restabelecimento
da paz jurídica. Estas serão desenvolvidas infra, na parte referente aos “Modelos Processuais”.

Teoria da Lei Processual Penal

Fontes:
Essencialmente a lei, com um valioso papel da doutrina e, nos casos não antecipados pelo
legislador, da jurisprudência.
A partir de 25 de abril de 1974 inicia-se uma caminhada tendente à reforma do processo penal
português e, prosseguindo o princípio do Estado de direito democrático plasmado no art. 2º da
CRP, é criado o CPP de 1987, cujo anteprojeto foi desenvolvido por uma comissão presidida
por Figueiredo Dias. A este novo CPP subjaz uma estrutura acusatória integrada por um

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princípio de investigação – estrutura acusatória (art. 32º nº5 da CRP) porque contem um
princípio de acusação que se traduz no facto da entidade que investiga e acusa (ministério
público) ser distinta daquela que julga (juiz), tendo ainda em atenção a repartição de funções
entre magistraturas distintas para garantir o máximo de acusatoriedade possível.
Olhando agora para a CRP como fonte interna, “o direito processual penal é o sismógrafo da
Constituição de um Estado”, de acordo com Roxin e Schünemann. Pode considerar-se que o
direito processual penal é direito constitucional aplicado, com a dupla função de que os
fundamentos deste são os alicerces constitucionais de um Estado. Em especial, cabe analisar o
art. 32º da CRP em pormenor: no seu nº1 temos um mandado de otimização e concordância
prática, com estrutura de princípio, entre os interesses do processo e os interesses do arguido;
no nº2 temos o princípio da presunção de inocência; no nº3 consagra-se o direito à defesa
técnica, nos casos em que a defesa seja obrigatória (este direito ainda engloba o direito a
escolher o defensor que se entenda ter (art. 64º do CPP). Diferentemente sucede no EUA, com
a aplicação do US Patriot Act, que exclui a possibilidade de escolha do defensor a suspeitos da
prática de atos de terrorismo); no nº4 consagra-se a competência reservada do juiz para a
instrução e prática dos atos instrutórios que se prendam diretamente com os direitos
fundamentais; no nº5 estabelece-se a submissão da audiência de julgamento e dos atos
instrutórios que a lei determinar ao princípio do contraditório; no nº6 estabelece-se a
possibilidade de julgamento à revelia; no nº8 está plasmado o regime estrutural das proibições
de prova; no nº9 consagra-se o princípio do juiz natural; no nº10 estende-se o direito de
audiência e defesa aos processos contraordenacionais.
Acerca do CP como fonte interna, são de destacar os institutos que se encontram a paredes
meias com os de direito processual penal, acima referidos – queixa, acusação particular e
prescrição.
Já no plano internacional, cabe referir primeiramente a Carta Europeia dos Direitos do
Homem, de 1950, e, especialmente, o seu art. 6º (garantia de fair trial, princípio do
contraditório, garantia de um processo célere e presunção de inocência). É de especial
importância por permitir um acesso direto à jurisdição do Tribunal Europeu dos Direitos do
Homem.
É de relevar, também, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, assinado sob a égide
da ONU em 1976. O seu art. 14º confere garantias similares às do art. 6º da CEDH e acrescenta
ainda o direito à não autoincriminação.
Acerca do Direito da UE, é importante mencionar que a justiça penal é o último bastião da
soberania estadual. Com o fenómeno da globalização e com a facilidade de circulação dentro
da UE e, em especial, no espaço Schengen, surge um tipo de criminalidade que se volta contra
a própria União, por exemplo, atribuição irregular de subvenções ou fraudes contra a própria
UE. Assim, a partir da década de 90, com a introdução de um terceiro pilar em matéria de
cooperação em matéria judicial (com o Tratado de Maastricht, em 1992), com a criação da
Europol (1992) e da Eurojust (2002), surgem novos mecanismos de cooperação mais estrita
num esforço de maior facilidade de obtenção de meios probatórios e detenção em crimes
plurinacionais. É especialmente necessário que os atos praticados num Estado sejam
reconhecidos num outro.

Interpretação e Integração de Lacunas:


Recorre-se ao art. 9º do CC mas, quando a interpretação contenda com os direitos

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fundamentais, dá-se especial importância ao elemento teleológico-racional e ao princípio de


interpretação conforme à CRP, sempre consideradas as finalidades do processo penal.
Já acerca da problemática da integração de lacunas, dita o art. 4º do CPP que, em primeiro
lugar, se deve recorrer à analogia (diferentemente do que sucede quanto à lei penal, no art. 1º
nº3 do CP). Por exemplo, num processo com co-arguidos onde um deles requeira a abertura
de instrução e os outros não e manifestem acerca desta questão, entende-se que a decisão de
um aproveita aos demais (v. arts. 303º nº5 e 402º do CPP). No direito processual penal, o
recurso à analogia é menos restrito do que no direito penal por se tratar de direito adjetivo.
Contudo, defende Figueiredo Dias que o princípio da legalidade criminal se deve estender ao
processo de forma a assegurar ao arguido a defesa dos seus direitos fundamentais – assim, a
analogia é proibida quando venha a traduzir-se num enfraquecimento da posição ou
diminuição dos direitos processuais do arguido (proibição da analogia in malam partem).
Em segundo lugar, indica o art. 4º do CPP que se deve recorrer às normas de processo civil que
se harmonizem com o processo penal.
Em terceiro e último lugar, deve recorrer-se aos princípios gerais de processo penal que têm
uma dupla função – uma negativa que funciona como mecanismo de controlo de recurso ao
direito subsidiário (normas de processo civil não compatíveis com o processo penal) e outra
função, positiva/diretamente integradora na falta das outras duas fontes de integração de
lacunas.

Âmbito de Aplicação:
Quanto ao âmbito de aplicação material, existe uma coincidência tendencial entre os âmbitos
de aplicação do direito penal e do direito processual penal. Assim, se uma conduta
corresponde à violação de uma norma de determinação então a sua apreciação e valoração
cabe ao direito processual penal. Contudo, não é uma coincidência total, como acima referido:
no processo penal conhecem-se matérias que não cabem no direito penal, como por exemplo,
a dedução de pedido cível (à responsabilidade criminal muitas vezes soma-se responsabilidade
civil e, assim, à pretensão punitiva soma-se a pretensão ressarcitória que é materialmente
gerida pelo direito civil mas cuja pretensão é deduzida no processo penal – nisto consiste o
princípio da adesão do art. 71º do CPP); à responsabilidade criminal pode ainda somar-se
responsabilidade contraordenacional, muito patente nos casos de acidentes rodoviários
(nestes casos de concurso entre responsabilidades, é competente a jurisdição penal embora,
substantivamente, compita à jurisdição contraordenacional (art. 38º do Regime Geral das
Contraordenações)); e ainda questões prejudiciais que se subordinam ao princípio da
suficiência do art. 7º do CPP.
Acerca do âmbito de aplicação pessoal, também existe uma coincidência tendencial entre o
âmbito pessoal do direito penal substantivo e o do direito processual penal. Assim, aplica-se a
todas as pessoas, nacionais ou não, a quem seja aplicável o direito penal português. Há,
contudo, limitações fundadas em preceitos de direito internacional, por exemplo, fundadas na
Convenção sobre Relações Diplomáticas, assinada em Viena em 1961. Há ainda limitações
fundadas no nosso direito constitucional e que têm o sentido da lei processual não se aplicar a
determinadas pessoas em razão das funções exercidas (arts. 130º nº 1,2 e 3, 163º al. c), 157º
nº2 e 3 e 196º nº1 da CRP).
Quanto ao âmbito de aplicação espacial, estabelece o art. 6º do CPP um princípio de
territorialidade que coincide com o âmbito de aplicação do direito penal substantivo. O art. 6º

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do CPP estabelece ainda o princípio do auxílio jurídico interestadual em matéria penal que é
identificável nos arts. 229º e ss. do CPP e em legislação extravagante como a lei da cooperação
judiciária internacional em matéria penal, de aplicação supletiva em matéria de extradições e
transmissão de processos, por exemplo.
Acerca do âmbito de aplicação temporal se suscitam maiores questões, especialmente no que
toca à sucessão de leis penais no tempo. Primeiramente cabe distinguir entre âmbito de
vigência (período temporal entre a entrada em vigor e a cessação de vigência) e âmbito de
eficácia (havendo a possibilidade de existência de leis com eficácia retroativa ou ultrativa) –
não há coincidência entre ambos os âmbitos. Dita o art. 12º do CC que o princípio geral é da
aplicação para o futuro. No direito adjetivo vigora o princípio da aplicação imediata ou tempus
regit actum, isto é, a lei nova aplica-se a todos os atos processuais praticados depois da
entrada em vigor desta, mesmo que estes digam respeito a crimes praticados anteriormente e,
respetivamente, processos iniciados anteriormente também. Adota-se aqui um conceito
atomístico de ato processual que não equivale ao processo e, assim, refere -se a todo o
acontecimento individual e juridicamente relevante (art. 5º nº1, primeira parte, do CPP). Na
segunda parte do nº1 do art. 5º do CPP estabelece-se que a entrada em vigor da lei nova não é
causa superveniente de invalidade dos atos regularmente praticados à luz da lei anterior.
Surgem, a este respeito, certas dificuldades de aplicação. O processo não é uma série
desordenada de atos – é uma sequência de atos organizados e concatenados. Desta forma,
com a lei nova, dá-se uma quebra na harmonia processual dos atos praticados (art. 5º nº2 al.
b) do CPP). Por exemplo, com a entrada em vigor do CPP de 1987, com uma estrutura
completamente diferente do anterior, decidiu-se que o CPP de 1987 seria aplicado a todos os
processos iniciados a partir de 1 de janeiro de 1988, data de entrada em vigor, e que o CPP de
1929 seria aplicado a todos os processos pendentes – assim, existia uma situação de
sobrevigência/ultratividade da lei antiga ou, por outro prisma, de eficácia diferida da lei nova.
É importante, neste ponto, apresentar uma distinção, avançada por Figueiredo Dias, entre
normas processuais materiais (embora inscritas no corpo normativo do processo, condicionam
a efetivação da responsabilidade criminal como um todo ou contendem com os direitos
fundamentais – expandindo ou comprimindo o estatuto processual do arguido) e normas
processuais formais (limitam-se a disciplinar o trânsito do processo). Assim, quando em causa
estiverem normas processuais materiais, proíbe-se a retroatividade in malam partem e
permite-se a retroatividade in bonam partem. Para Taipa de Carvalho, o critério que fixa qual a
lei a aplicar-se é o do direito penal substantivo (arts. 2º e 3º do CP), relevando o momento da
prática do facto. Nesta linha, em matéria de recursos, teria de se consultar toda a legislação
em vigor desde a prática do facto e aplicar aquela que seja mais favorável. Desta forma, corre-
se o risco de o processo se tornar ingovernável por não ser necessária uma extensão tão
alargada das garantias e, ainda, o processo não é um relação bilateral entre arguido e Estado,
mas antes uma relação triangular onde participam as vítimas (poderá haver normas que
favoreçam o arguido mas prejudiquem a vítima). Ainda neste domínio, Mario Chiavario
introduz a teoria das expectativas que, aparentemente, trará uma solução ao empeno
encontrado na tese de Taipa de Carvalho. Assim, as exigências de aplicação da lei processual
devem pautar-se pelas concretas expectativas a tutelar em cada caso, proteção essa que
deverá ir tão longe quanto a norma permita – desta forma, quando a questão contenda com a
efetivação da responsabilidade criminal, com normas incriminadoras, fará sentido que se
tenha em conta o momento da prática do facto; nos outros casos, o momento dependerá do

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assunto em causa (em matéria de recursos, será sensato que o momento a considerar seja o
da prolação da decisão de que se recorre (v. Ac. 4/2009 do STJ).
No especial caso de leis que alterem a natureza juridico-processual dos crimes, cabe primeiro
distinguir três caraterísticas essenciais: nos crimes públicos não há necessidade de queixa para
que o ministério público investigue, nos crimes semi-públicos há necessidade de queixa e nos
crimes particulares é necessário que, depois da apresentação de queixa e no fim do inquérito
se deduza acusação particular. Assim, a lei que converta um crime semi -público num crime
público, como desfavorável ao arguido e de acordo com Taipa de Carvalho e com os arts. 2º e
3º do CP, será aplicável a crimes praticados depois do momento de entrada em vigor (ex: se o
crime é praticado no dia 1 de setembro e a lei nova entra em vigor a dia 10 de setembro, esta
não lhe é aplicável, mas antes a todos os crimes praticados depois da data de entrada em
vigor). Na situação inversa, se a lei nova converter um crime público em semi -público, como
mais favorável ao arguido, aplicar-se-á retroativamente (ex: se o crime for praticado no dia 1
de setembro e a lei nova entrar em vigor a dia 10 de setembro, é aplicável porque in bonam
partem). E no caso em que, no dia 1 de setembro, é cometido um crime cujo procedimento
criminal depende de queixa (no prazo de 6 meses) e no dia 1 de outubro entra em vigor uma
nova lei que reduz o prazo de queixa para 3 meses. Nestas questões a jurisprudência segue no
sentido de se aplicar a lei nova, porque in bonam partem. Todavia, como há expetativas do
ofendido a proteger, o prazo novo (mais curto) só se vai contar a partir do momento da
entrada em vigor dessa lei nova. Em suma, quando a lei nova encurta o prazo, ela aplica-se
mas o prazo começa a ser contado no momento da entrada em vigor da lei nova, a não ser
que, contando o prazo pela lei antiga, faltasse menos tempo para apresentar queixa, nesta
última situação o ofendido já teria de contar com essa situação e com esse prazo. E se o
processo já se tivesse iniciado (sem queixa por ainda se tratar de um crime público), com
investigação em curso pelo ministério público, antes da entrada em vigor da lei nova (que
converte o crime público em semi-público)? Nestes casos, se era legítimo à altura que o
ministério público investigasse, a sua conduta não é censurável e alteração apenas vale para o
futuro, não invalida os atos processuais regularmente praticados.

Modelos Processuais

O processo é condicionado pelas circunstâncias politico-sociais, enquanto instrumento do


poder, sendo diferente segundo as conceções de um estado liberal ou de um estado
autoritário. Por isso, pelas razões já referidas supra, o direito processual penal é verdadeiro
Direito Constitucional aplicado. Irá, portanto, orientar-se por finalidades que, por sua vez,
poderão fazer com que o processo seja visto de duas formas distintas: como função (de acordo
com a teoria dos sistemas, avançada por Niklas Luhmann, o processo é um sistema dentro de
um sistema social mais vasto e amplo. A função do primeiro é a legitimação da decisão
absorvendo os protestos – assim, em gesto de conclusão, aceitamos mais facilmente uma
decisão menos justa se esta for legítima) ou de uma perspetiva normativa/valorativa, que
iremos adotar e que se traduz, grosso modo, nos fins ou valores que o processo deve
prosseguir numa dada sociedade e num dado momento histórico. Como referido
anteriormente, são três as finalidades que, de acordo com Figueiredo Dias, podem ser
apontadas ao direito processual penal: realização da justiça e descoberta da verdade material,
proteção perante o Estado dos direitos fundamentais das pessoas e restabelecimento da paz

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jurídica. A realização da justiça e descoberta da verdade material reconduz-se a condenar os


culpados e absolver os inocentes. Esta decisão deve assentar em pressupostos fácticos
verdadeiros, a reconstrução dos factos deve ser o mais aproximado possível à realidade.
Quanto a este ponto, preferimos não utilizar a expressão “verdade material” por duas razões
apresentadas por Luigi Ferrajoli: a verdade absoluta é uma ingenuidade epistemológica (nunca
conseguimos apurar a verdade total, absoluta pelas próprias falhas da cognição humana) e
uma perigosa ilusão (em certos regimes autoritários, descobrir a verdade a todo o custo
implica a violação de direitos fundamentais como, por exemplo, a legitimação da tortura como
meio de obtenção de prova). Assim, tendemos a uma verdade processualmente válida,
limitada pelo próprio objeto do processo, uma verdade contingente e limitada f ormalmente
pela admissibilidade (ou não) de certos meios probatórios.
Quanto à primeira finalidade, poderá contender com a segunda no que diga respeito, por
exemplo, a certos métodos de obtenção de prova e a admissibilidade de certas medidas de
coação como a prisão preventiva. Pode ainda contender com a terceira finalidade quando, por
exemplo, se admita reabertura da fase de inquérito.
Acerca da segunda finalidade, pode contender com a primeira nos mesmíssimos termos acima
descritos. Ao proibir-se certos métodos de prova e, também, quando se proíba a valoração do
silêncio do arguido quanto a factos que lhe sejam imputados (art. 345º do CPP). Conflitua esta
finalidade com a terceira quando, por exemplo, se admita, já depois de trânsito em julgado, a
revisão de sentença de alguém entretanto falecido.
A terceira finalidade encontra consagração constitucional no nº5 do art. 32º da CRP. Esta pode
conflituar com a primeira quando exista, por exemplo, efeito de irrecorribilidade da decisão.
Pode ainda contender com a segunda sempre que se sujeite o arguido a prisão preventiva por
razões de perigo acerca das circunstâncias do crime ou da personalidade do arguido.
Desta forma, todas as finalidades são antinómicas entre elas e, para superar estas dificuldades,
Figueiredo Dias apresenta uma opção de “concordância prática de forma a minimizar as
perdas axiológicas e funcionais”, sempre com o limite inviolável da dignidade da pessoa
humana. Elegendo este limite, atribui-se a sanção de nulidade e proibição de utilização de
determinados meios de prova (art. 126º do CPP).

Explicadas as finalidades, é importante indicar que cada uma delas terá uma maior relevância
num ou noutro modelo processual. Assim, podemos observar estas diferenças através de uma
dupla perspetiva: vendo as finalidades como modelos teoréticos/abstratos ou como categorias
históricas.
Aludindo à primeira perspetiva podemos, numa primeira linha traçar a distinção entre o
modelo acusatório (o nosso, v. art. 32º nº5 CRP) e o modelo inquisitório. Segundo o primeiro
modelo, o processo penal é visto como uma disputa entre indivíduo (que tem o estatuto de
sujeito processual) e Estado, com igualdade de armas para ambos. Há uma separação entre a
entidade que investiga, a que acusa e a que julga. Já no segundo, a contrario, domina o
interesse estadual e, assim, as funções de investigação, acusação e julgamento cabem ao juiz.
O arguido tem o estatuto de objeto do processo e não de sujeito processual.

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Modelo Acusatório Modelo Inquisitório

1. Existência de separação absoluta 1. As entidades investigadora e


entre acusador e julgador julgadora não estão separadas
(princípio da acusação); materialmente – imparcialidade
2. O juiz tem um papel passivo, não comprometida;
tem iniciativa, esta compete ao 2. Ampla iniciativa e domínio do
ministério público – o juiz é julgador sobre a matéria
imparcial; probatória, o juiz é a figura
3. Paridade entre acusação e defesa central;
(no plano jurídico e não factual); 3. Desigualdade de posições entre
4. O julgamento é a fase mais acusação e defesa – o arguido é
importante; objeto processual e não sujeito
5. O julgamento é caraterizado pelos processual;
princípios da oralidade, imediação, 4. O eixo do processo é a
contraditório e publicidade. investigação (a prova é aqui
colhida e apenas lida/repetida na
fase de julgamento);
5. Processo secreto, quase todo
reduzido a escrito, sem
contraditório e sem imediação.

Dentro do modelo acusatório podem distinguir-se dois subtipos, de acordo com Mirjan R.
Damaška: modelo hierárquico/vertical (o nosso modelo, bastante patente na Europa
Continental) e paritário/horizontal (adversarial norte-americano). O primeiro, modelo
hierárquico/vertical, associa-se, pela estrutura do poder estadual, a um Estado
ativo/intervencionista, onde o estado prossegue finalidades públicas. Neste seguimento, o
modelo paritário/horizontal associa-se a um Estado reativo/abstencionista.

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Modelo Hierárquico/Vertical Modelo Paritário/Horizontal

1. Fragmentarização do processo e 1. Concentração da atividade


sua compreensão como sucessão processual no julgamento, com
escalonada e ordenada de atos tempo limitado e concentrado –
processuais; day in court;
2. Múltiplos níveis de decisão e 2. Um único nível decisório e
controlabilidade destas por limitação dos recursos a casos
diferentes instâncias; quase excecionais – em caso de
3. Existência de dever estrito de vício processual invocado e
fundamentação das decisões, provado (dá-se anulação do
instrumental face ao recurso; julgamento e sua subsequente
4. Necessidade de completa e repetição – mistrial) e quando
exaustiva documentação de toda a tenha havido decisão absolvitória
marcha do processo (conexão com por parte do juiz, apesar de ter
a 1ª e 2ª caraterísticas); havido veredito condenatório por
5. Como existe parte dos jurados) – nos EUA o
documentação/dossier, este recurso é visto como um duplo
repercute-se no julgamento, não julgamento, como que uma
sendo permitida a repetição do contradição ao ne bis in idem ou
testemunho em audiência de double jeopardy clause;
julgamento mas, pode o juiz ser 3. Não existe dever de
influenciado “subterraneamente” fundamentação das decisões;
pelo conteúdo dos papéis. 4. Não há documentação da marcha
processual;
5. Os elementos probatórios
recolhidos não são tidos em conta
na audiência de julgamento, a
prova é produzida nesta fase.

Aludindo agora à segunda perspetiva, vejamos os modelos através da sua evolução histórica.
A partir do século VI d.C., com a queda do Império Romano do Ocidente e com as invasões
bárbaras, a ação civil e a ação penal começaram a perder a sua distinção e, assim, ambas se
iniciavam com uma accusatio. Desta forma, aquele que era acusado teria de purgar essa
suspeita através da prova que poderia assumir três modalidades distintas: juramentos
purgatórios (destinados aos clérigos), gottesurteil ou ordálios (destinados aos servos e às
mulheres) e os duelos (destinados aos cavaleiros) – não tinham qualquer função probatória
mas antes decisória, aparentemente, revelariam a vontade de Deus que se manifestava no
desfecho. Dentro dos ordálios existiam diversos institutos como a prova caldária (escaldava-se,
com um ferro em brasa, a mão do acusado que, em seguida era ligada. Se a ferida se curasse,
seria considerado inocente, a contrario, seria considerado culpado, caso a ferida gangrenasse,
por exemplo) e uma prova que consistia em amarrar o acusado e atirá-lo para dentro de um
lago ou rio de água fria, sob a convicção de que água pura expurgaria o impuro (ou seja, caso o

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acusado flutuasse seria considerado culpado) e que não expurgaria o puro (se o acusado
afundasse seria considerado inocente). Dentro dos juramentos purgatórios, os clérigos fariam,
como indicado, um juramento que apontasse no sentido da inocência e eram assistidos,
geralmente, por compurgatores, figura semelhante à das testemunhas abonatórias, que
atestam a credibilidade da pessoa em causa.
Ao modelo anteriormente descrito surgem críticas valorativas, por parte da Igreja, referindo,
por exemplo, que o juramento era uma contradição aos mandamentos de Cristo e outras
críticas, de ordem epistemológica, que fundamentalmente referiam que os duelos não eram a
forma mais eficaz de comprovar a verdade porque, a certa altura, era recorrente o recurso a
pessoas contratadas para substituir o próprio no duelo e, por conseguinte, não parecia revelar
a vontade de Deus.
Desta forma, a partir do IV Concílio de Latrão, em 1215, a Igreja proíbe os ordálios. Instaura-se
a partir deste momento, o processo per inquisitione – já não se esperava pela accusatio,
bastava uma suspeita ou um rumor para que o processo se iniciasse, bastava que se
conhecesse de algo para começar a acusação – tudo isto era fundado na Bíblia, mais
especificamente no episódio de Caim e Abel, onde Deus conhece da morte de Abel porque “o
seu sangue subiu aos Céus”. Alteram-se também os meios de prova, e procede-se a uma
hierarquização destes, pré-determinando o seu valor: prova notória (flagrante delito, confissão
(regina probationum) – podia condenar-se logo, sem necessidade de qualquer outra prova
adicional), prova plena (testemunhos concordantes de duas testemunhas capazes, imparciais
e, por exemplo, documentos autênticos – havendo-os, seriam suficientes para a condenação),
prova semi-plena (testemunho de uma pessoa, documento não autêntico) e indícios (fuga do
acusado antes da obtenção de prova, presença no local do crime. Legitimava-se a tortura uma
vez que “estimulava” a confissão, promovia-se a descoberta da verdade a todo o custo,
acreditava-se que aquele que fosse inocente teria a força dada por Deus para resistir à tortura
e provar a sua inocência). Assim era numa fase inicial, quem resistisse à tortura era absolvido
mas, nos séculos XV e XVI, estes moldes endurecem e, aparecendo novos indícios, o suspeito
poderia ser torturado novamente. Assistiu-se também a um sistema aritmético de prova, que
consistia na soma dos indícios – oito indícios eram suficientes para uma condenação, tal como
duas provas semi-plenas.
Nos séculos XVII e XVIII, com o advento do iluminismo, a tortura começa a ser entendida como
algo inconciliável com os postulados do jusnaturalismo. Voltaire, no seu “Tratado sobre a
Tolerância”, critica o sistema aritmético de prova dizendo que “se admitem semi-provas que
nada mais são do que rumores, bem como quartos de prova e metades de prova”. Com a
Revolução Francesa, em 1789, cai o sistema inquisitório medieval. Com a necessidade de um
novo modelo decide-se, assim, copiar o exemplo do direito inglês, em moldes acusatórios –
existia um júri de acusação e um júri para julgar. Contudo, ao arguido que se recusasse a ser
presente a julgamento, era-lhe colocada uma pedra pesada em cima do tronco e forçado num
dia a comer apenas pão e no outro apenas água, para que tomasse uma decisão acertada –
peine fort et dure. Assistia-se a uma separação material entre entidade acusadora e julgadora,
como referido acima, não existia tortura (excetuando-se o caso referido anteriormente) e,
assim, substitui-se o sistema de prova legal pelo sistema de intime conviction (dir-se-ia, “se
entendes, perdoai”) – as provas afetavam o íntimo daquele que julgava, havia assim uma livre
apreciação do que era apresentado à entidade julgadora.
Este modelo não vigorou durante longo tempo e, com Napoleão, foi aprovado um Código de

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Instrução Criminal, que na verdade era um código de processo penal, mas era assim chamado
porque a fase de maior relevo era a fase de instrução/investigação e não a fase de julgamento
que era vista como uma encenação dramática daquilo que havia sido recolhido na fase
anterior. Este processo dura até ao início do século XX e conhece aí endurecimentos com o
surgimento dos regimes autoritários e, posteriormente, conhece enfraquecimentos com o
advento do Estado de Direito Democrático.
Entre nós, em traços gerais, ao CPP de 1929, cujo projeto se deve a Beleza dos Santos, está
inerente uma filosofia ligada à conceção politico-social dos inícios do Estado Novo. Assim,
correspondia-lhe uma estrutura processual de tipo inquisitório ou acusatório formal – o juiz
que julgava também instruía e cabia ao ministério público deduzir a acusação. Em 1945 dá-se
uma alteração que entrega a instrução preparatória ao ministério público e a instrução
acusatória cabe ao juiz (modelo acusatório em sentido próprio). Tratava-se de um ministério
público governamentalizado que, por vezes, se intrometia na esfera dos direitos fundamentais
das pessoas. Em 1972 o ministério público passa a ser controlado judicialmente, através da
criação da figura do juiz de instrução. Depois do 25 de abril de 1974 e depois de aprovada a
Constituição de 1976, é aprovado o CPP de 1987, cujo anteprojeto foi desenvolvido por uma
comissão presidida por Figueiredo Dias. A este novo CPP subjaz uma estrutura acusatória
integrada por um princípio de investigação – estrutura acusatória (art. 32º nº5 da CRP) porque
contem um princípio de acusação (princípio da acusação material – art. 39º nº1 al. c) do CPP)
que se traduz no facto da entidade que investiga e acusa (ministério público) ser distinta
daquela que julga (juiz), tendo ainda em atenção a repartição de funções entre magistraturas
distintas para garantir o máximo de acusatoriedade possível. Quanto ao princípio de
investigação referido supra, diz Figueiredo Dias que este se reporta a um poder-dever
conferido ao juiz para investigar anteriormente os factos trazidos a julgamento (v. arts. 340º
nº1 e 348º nº5 do CPP, como concretizações do princípio da investigação).

Tramitação do Processo Penal Português – Quadros Gerais

Entre nós, o processo conhece duas formas – a comum e a especial. A primeira desdobra-se
em três fases em primeira instância – fase de inquérito, fase de instrução (eventual ou
facultativa) e fase de julgamento. As formas especiais têm três tipos de processo: sumário,
sumaríssimo e abreviado – são formas simplificadas de processo para crimes com pena de
prisão não superior a cinco anos e, em nenhuma das formas, existe fase de instrução (art. 286º
nº3 do CPP). Vejamos, primeiramente, as formas especiais de processo.

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Formas Especiais do Processo

É um seu pressuposto a apresentação de prova clara e evidente, sem


necessidade de um inquérito alargado. Neste incluem-se os casos de
Processo Abreviado flagrante delito em que não tenham sido cumpridos os prazos para
tramitação em processo sumário.

Tem lugar quando tenha havido detenção em flagrante delito e, desta


forma, não há fase de inquérito. Havendo-a, é reduzidíssima,
reconduzindo-se ao interrogatório. Apenas se pretende densificar uma
Processo Sumário
suspeita para que o estigma associado não seja injustificado. Incluem-se
aqui processos, por exemplo, que envolvam condução sobre efeito de
álcool e condução sem título habilitante.

Neste não há fase de julgamento – então, qual o fator que legitima a sua
ausência? O acordo (entre o ministério público, juiz e arguido) é o fator de
legitimação. O ministério público investiga de forma normal, havendo
indícios suficientes, em vez de acusar, elabora um requerimento com
característica de acusação (art. 394º do CPP) onde apresenta uma
Processo proposta de pena não privativa da liberdade e entrega-a ao juiz
Sumaríssimo competente para julgar. Se o juiz concordar, notifica-se o arguido, a
contrario, segue o processo por forma comum ou abreviada e impede-se o
juiz de participar num subsequente julgamento.
Pode tramitar o processo nesta forma quando diga respeito a qualquer
tipo de crime e quando se trate de um delinquente primário, por
exigências de celeridade e para evitar submeter o arguido à cerimónia
degradante do julgamento.

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Fases do Processo Comum

Aqui tem competência o ministério público (art. 267º e 263º, este último
acerca da competência de direção da fase, que reside no ministério público
e nos órgãos de polícia criminal, ou seja, todos aqueles que desempenhem
Fase de Inquérito funções próprias de investigação em processo penal) e o juiz de instrução
criminal (arts. 268º e 269º do CPP), especialmente em todos os atos que
contendam com direitos fundamentais.
A sua finalidade é a recolha de prova em ordem à decisão de acusar (art.
262º do CPP).

A esta fase preside o juiz de instrução criminal (pode entender-se agora


que pelo facto de existir a intervenção de um juiz de instrução criminal,
não implica que tenha havido fase de instrução).
Fase de Instrução Esta fase pode dividir-se em dois momentos: atos instrutórios (que podem
(só é aberta por ou não ter lugar e podem ser delegados nos órgãos de polícia criminal, v.
requerimento) art. 290º nº2 do CPP) e debate instrutório (tem sempre lugar e introduz
uma aproximação às formalidades da fase de julgamento).
A sua finalidade é servir como uma fase de controlo da decisão de acusar
ou não acusar, tomada pelo ministério público, é um mecanismo de
impugnação, das decisões do ministério público não se recorre, impugna-
se por requerimento de abertura de instrução

A esta fase preside o tribunal que pode ser singular (um juiz), coletivo (três
juízes) ou de júri (três juízes do coletivo, quatro jurados e quatro suplentes
– esta forma é utilizada apenas quando requerida e apenas quando o
crime em causa comporte uma moldura penal abstrata igual ou superior a
oito anos de prisão; tem competência para a requerer o ministério público,
o arguido ou o assistente; decidem por maioria).
Esta fase é encabeçada pelo princípio da imediação na sua dupla
dimensão: formal (postela uma relação de proximidade comunicante entre
juiz e meios de prova, que este irá avaliar, especialmente os meios de
prova pessoal (hesitação na resposta, tremores – elementos
Fase de Julgamento paralinguísticos do discurso) e material (relação entre os meios de prova e
os factos a provar, escolher os meios mais próximos aos próprios factos –
deverá escolher-se aquele que testemunhou presencialmente os factos ou
aquele que é mais eloquente a descrevê-los? – deve escolher-se quem os
viu pois a probabilidade de erro é menor (a propósito, v. art. 129º do CPP).
O princípio da oralidade é essencial por força do princípio da imediação em
sentido formal, o veículo de transmissão deve ser oral. Vigora também o
princípio da publicidade, salvo contadas exceções e ainda o princípio do
contraditório que é transversal a todas as fases do processo. Na fase de
inquérito nem sempre há contraditório, imagine-se, por absurdo,
perguntar ao arguido se se pode ou não fazer uma busca.

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Analisadas de forma breve as diferentes fases do processo comum, cabe agora referir como se
dá a passagem entre elas, desde a fase de inquérito até à fase de julgamento.

O que despoleta o inquérito?


Depende do tipo de crime: tratando-se de crime público, basta que haja notícia de crime cujo
veículo será a denúncia (que pode ser facultativa ou obrigatória para certas pessoas – para
agentes das forças policiais e para funcionários públicos em exercício de funções e por causa
delas) ou o conhecimento próprio. Nos crimes semi-públicos ou particulares em sentido
estrito, sempre que se adquira notícia de crime tem de se iniciar o inquérito, por imposição do
princípio da legalidade em sentido estrito e, por imposição do princípio da especialidade, a
competência para abrir o inquérito reserva-se ao ministério público, enquanto entidade oficial
(“obrigado a” e “com competência para”). A respeito dos parêntesis anteriores, é importante
distinguir, a traços largos, a denúncia da queixa. A queixa não pode ser feita anonimamente
porque tem de ser feita por pessoas determinadas, dentro de um prazo de seis meses. Já a
denúncia, por sua vez, pode ser anónima e nada mais é do que um relato (vs. natureza de
manifestação de vontade da queixa) e não depende de prazos.

No fim do inquérito:
O ministério público ou acusa (profere despacho de acusação – art. 283º nº1 do CPP) ou não
acusa (profere despacho de arquivamento por falta de indícios, art. 277º nº2 do CPP (ver, a
propósito, arquivamento rec sic stantibus ou arquivamento sob condição, devido à
possibilidade de reabertura do inquérito nos termos do art. 279º do CPP) , ou por falta de
pressupostos processuais, art. 277º nº1 do CPP (não ser apresentada a queixa dentro do prazo,
haver queixa depois do prazo de prescrição, haver queixa mas não haver legitimidade
processual para o fazer, morte do arguido). Nos crimes particulares em sentido estrito, não
basta a queixa, aquele que a faz tem de se constituir assistente no processo e, havendo
indícios, abre-se uma exceção ao princípio da oficialidade e é sobre o assistente que recai a
competência para acusar, cumprindo-se também os pressupostos do princípio da legalidade
uma vez que o ministério público não tem poder da oportunidade. Contudo, há casos em que
se arquiva o processo mesmo havendo indícios por concessões em favor do princípio da
oportunidade/mecanismos de diversão: arquivamento por dispensa de pena (art. 280º do CPP,
ex vi, art. 74º do CP – referente à criminalidade dita bagatelar) e suspensão provisória do
processo (de forma a evitar fenómenos de estigmatização e vitimização secundária; tem lugar
se o crime for punível com pena de prisão não superior a cinco anos, pode suspender-se o
processo durante dois a cinco anos durante os quais o arguido está sujeito a injunções e regras
de conduta que determinarão a reabertura ,ou não, do processo – arts. 281º e 282º do CPP).
Tanto a acusação como o arquivamento são impugnáveis.

Em caso de acusação pelo ministério público, quem fica descontente?


O arguido, que pode requerer abertura de instrução.

Em caso de arquivamento pelo ministério público, quem fica descontente?


O ofendido, podendo requerer abertura de instrução ou intervenção hierárquica (art. 278º do
CPP).

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Como conclui o juiz?


Havendo indícios, há despacho de pronúncia; não havendo indícios, há despacho de não
pronúncia. Pode também o juiz por fim ao processo por dispensa de pena, que requer
concordância entre ministério público, juiz e arguido (o porquê da inclusão deste último para
que haja concordância explica-se pelo facto deste, por já ter sido chamado solenemente à
responsabilidade, poder querer “limpar o seu nome”) ou por suspensão provisória do
processo, quando cumpridos os seus requisitos. No art. 399º do CPP estabelece-se um
princípio geral de recorribilidade. A contrario, o art. 310º do CPP estatui acerca da
irrecorribilidade do despacho de pronúncia favorável a que seja deduzida acusação porque o
caminho das duas entidades públicas, ministério público e juiz, é convergente. Em suma, sendo
deduzida acusação pelo ministério público e havendo despacho de pronúncia pelo juiz, há
irrecorribilidade; sendo deduzida acusação pelo ministério público e despacho de não
pronúncia pelo juiz, há recorribilidade; havendo arquivamento do processo por parte do
ministério público e despacho de pronúncia pelo juiz, há recorribilidade; e, havendo
arquivamento do processo por parte do ministério público e despacho de não pronúncia pelo
juiz, há recorribilidade. Neste último caso, há-a porquê? Admite-se recurso desta decisão
porque se entende que o julgamento é a sede própria da decisão penal e, assim, permite-se o
recurso para a relação.

Salto para o julgamento:


Neste nível de decisão, como já mencionado supra, nas considerações iniciais, segue-se um
modelo de césure de audiência ou audiência bipartida, no nosso caso, um modelo de césure
mitigado. Bipartição esta entre a aferição da culpabilidade num primeiro momento (art. 368º
do CPP) e, num segundo momento e aferida positivamente a questão da culpa, a questão da
determinação da sanção (art. 369º do CPP) – é de especial importância concluir primeiro
acerca da personalidade do agente, dos factos da sua vida anterior para, no momento
subsequente aferir da existência de dolo eventual ou negligência consciente, nestas duas
figuras cuja pedra de toque reside precisamente no facto de agir fielmente ao Direito, que se
repercute na previsibilidade e conformação ou previsibilidade e não conformação com o
resultado. Na fase da prova, as testemunhas abonatórias são ouvidas no fim. Caso se refiram
também a factos e não apenas à personalidade do agente, a prova é contínua, a testemunha
não irá dar o seu testemunho em momentos distintos mas sim continuamente. Para satisfazer
razões de prevenção especial positiva e de ressocialização, existe a possibilidade de esforços
de técnicos e especialistas de outras áreas que não do Direito. Desfavoravelmente, esta cisão
de audiência conduz a uma perda de celeridade.
Em último lugar, acerca da contestação (art. 315º do CPP) – tem lugar ou não, tendo lugar,
ocorre depois da notificação do despacho saneador por parte do juiz, tendo o arguido vinte
dias para invocar a seu favor as provas produzidas em audiência de julgamento, indicando os
peritos e técnicos que devem ser notificados para a audiência.

Princípios do Direito Processual Penal

De acordo com a sistemática de Figueiredo Dias, os princípios encontram-se subdivididos em


quatro categorias expositivas: promoção processual (princípio da oficialidade, princípio da
legalidade e princípio de acusação), prossecução processual (princípio de investigação,
princípio da suficiência, princípio do contraditório e princípio da concentração), prova
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processual (princípio da investigação – art. 340º nº1 do CPP, princípio da livre apreciação da
prova – art. 127º do CPP, princípio in dubio pro reo (que se retira do princípio da presunção de
inocência, plasmado no art. 32º nº2 da CRP)) e forma processual (princípio da publicidade,
princípio da oralidade e princípio da imediação).
Pelo exposto, alguns dos princípios encontram consagração normativa expressa nos preceitos
legais e outros, por sua vez, depreendem-se de outros ou ainda da conjugação de diversos
princípios. Cabe referir que a cada um destes princípios existe um outro, de sinal oposto, pelo
qual o legislador não optou por adotar (princípio da legalidade vs. princípio da oportunidade;
princípio da oralidade vs. princípio do processo escrito; princípio da publicidade vs. princípio
do processo secreto).
A este respeito, há que referir dois grandes princípios transversais às categorias apresentadas
supra: o princípio da presunção de inocência, plasmado no art. 32º nº2 da CRP; e o princípio
do fair trial ou do processo equitativo que, por sua vez, está consagrado nos arts. 6º da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem (CEDH) e 14º do Pacto Internacional dos Direitos
Civis e Políticos (PIDCP), com reflexo no art. 20º nº4 do nosso texto constitucional.
O princípio da presunção de inocência deve ser entendido num duplo sentido: enquanto regra
decisória/de juízo ou regra de tratamento. Na primeira vertente, surge primeiramente no art.
9º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) com a intenção de refrear os
abusos do poder estadual, pretendendo assegurar um tratamento digno ao presumível
inocente, passível de ser absolvido. De forma extrema, poderia ser entendido como uma
proibição a qualquer privação da liberdade – desta forma, é importante uma enunciação dos
fins das medidas de coação e explicitar, por exemplo, que a prisão preventiva não prossegue
quaisquer fins punitivos mas sim estritas prevenções cautelares endoprocedimentais. As regras
penitenciárias auxiliam, neste campo, diferenciando os regimes para presos preventivos e
efetivos com reflexos, por exemplo, na forma como este primeiro é apresentado na audiência
de julgamento, sem estar algemado e vestido com as suas roupas (diferentemente do que se
assiste nos EUA onde o preso preventivo é apresentado a julgamento num uniforme de uma
penitenciária, por vezes algemado). É importante associar a esta vertente da presunção de
inocência exigências de celeridade que se contrapõem ao estigma da dúvida que degrada, pelo
decurso do tempo do processo, a agora “ilusória presunção de inocência”. De igual modo
certas restrições ao princípio da publicidade se entendem numa perspetiva de diminuição do
estigma que do processo pode advir. Enquanto regra decisória/de juízo, a presunção de
inocência pode ser vista como uma regra de distribuição de encargos probatórios (não é o
arguido que faz prova da sua inocência mas sim outrem que terá de provar o contrário ( v. art.
6º nº2 CEDH)) e como uma regra de valoração da prova (existe condenação apenas quando a
convicção de culpabilidade existir para lá de qualquer dúvida razoável, a contrario, in dubio pro
reo, com a absolvição associada).
Já o princípio do fair trial ou do processo equitativo acentua a dimensão procedimental da
justiça, pretende garantir-se um resultado materialmente justo quanto às garantias de defesa
processuais. Funciona, assim, como uma cláusula geral de inclusão de todas as garantias do
arguido, expressas na lei ou implícitas nesta. A doutrina norte-americana tende a associá-lo ao
princípio da igualdade de armas que, entre nós, apenas pode ser entendido de forma mitigada
dada a natureza assimétrica do processo, podendo ser entendida como meios de prova
equilibrados, por exemplo.

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1ª – Princípios da Promoção Processual


Princípio da Oficialidade:
O princípio da oficialidade é acolhido no art. 219º nº1 da CRP, onde se estabelece que o
ministério público tem competência para exercer a ação penal.
Historicamente, na Alta Idade Média, nos direitos bárbaros, a competência cabia aos privados,
que a exerciam através da accusatio e, posteriormente, tinha o acusado de purgar a acusação
através dos ordálios, dos duelos ou dos juramentos purgatórios. Diferentemente sucedia com
o Direito Romano, onde era a comunidade que se solidarizava com o ofendido, pondo em
marcha o processo. A partir do século XIII, com a centralização do poder na figura do monarca
e com o consequente monopólio estadual da justiça penal, o cri me começa a ser entendido
como um interesse comunitário cuja incumbência de prosseguir se deve ocupar o Estado.
Podemos desdobrar este princípio em dois momentos distintos: abertura de inquérito (cabe ao
ministério público, enquanto titular da ação penal (art. 219º nº1 da CRP), a iniciativa de
promoção do processo e, consequentemente, receber as denúncias e queixas e decidir do
destino a dar-lhes (arts. 48º e 53º nº2 al. a) do CPP) e submissão ou não a julgamento (é
também ao ministério público que compete acusar ou não acusar e, nesta última situação,
arquivar o processo (arts. 277º e 283º do CPP).

 Desvios ao princípio da oficialidade:


No caso de se tratar de crimes públicos, vale por inteiro o princípio da oficialidade,
quer quando estejamos perante da tutela de bens jurídicos supraindividuais, quer
estejamos perante a tutela de bens jurídicos individuais, devido à sua importância e
relevância. No caso dos crimes semi-públicos, – crimes cujo procedimento criminal
depende de queixa – existe uma limitação ao supracitado princípio na medida em que
é necessário que o ofendido ou outras pessoas deem conhecimento ao ministério
público para que este promova o processo, ou seja, a competência cabe ao ministério
público mas a manifestação de vontade exprimida através da queixa como que integra
esta competência. Deve ser apenas tido este aspeto em conta apenas como uma
limitação ao princípio da oficialidade e não uma exceção a este. Já quanto aos crimes
particulares em sentido estrito se verifique uma verdadeira exceção ao princípio da
oficialidade, uma vez que é necessário que o ofendido ou outras pessoas apresentem
queixa e se constituam como assistentes (arts. 246º nº4 e 68º nº2 do CPP), para que
depois o ministério público conduza a fase de inquérito e, finda esta, o particular
deduza ou não acusação particular (art. 285º do CPP). A falta de queixa, ou
constituição como assistente, ou ainda falta de acusação particular correspondem à
falta de pressupostos processuais e resultam, assim, no arquivamento do processo.

Porque existem, no nosso ordenamento jurídico, crimes semi-públicos e crimes particulares


em sentido estrito, uma vez que o direito penal é um direito de ultima ratio? Esta questão
encontra resposta no facto de existirem infrações de pequena gravidade, que se prendem com
a esfera mais individual (ex: furto simples, difamação, injúria, ofensas à integridade física
simples), que o Estado apenas persegue através de queixa ou queixa e acusação particular.
Ainda assim, existem crimes particularmente graves que são semi-públicos, como por
exemplo, crimes sexuais cometidos contra maiores de idade – entende-se que exista aqui um
reduto de intimidade cujo desvelar poderia ser mais gravoso e danoso para o ofendido do que

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o próprio crime. Por fim, há certos crimes que contendem com a vida familiar em que o Estado
não deve ingerir-se sob pena de agravar o conflito (ex: o crime de furto simples, semi-público,
torna-se particular em sentido estrito quando praticado entre familiares). Por razões
probatórias, os familiares podem recusar depoimento (art. 134º do CPP) e, assim, inviabiliza-se
a tarefa do Estado. Por razões pragmáticas, o facto de existirem crimes semi-públicos ou
particulares em sentido estrito traduz-se num alívio do sistema de perseguição penal. Releva
ainda o facto da resolução consensual de litígios, entre nós a partir de 2007, através do
sistema de mediação penal.
A natureza juridico-penal dos diferentes tipos de crime afere-se expressamente da redação
dos preceitos do Código Penal ou por remissão de um para outro artigo (ex: 203º do CP para o
207º do CP; 180º e 181º do CP para o 188º do CP).
Em suma, nos crimes públicos a competência é do ministério público, o ofendido pode
constituir-se como assistente em certos tipos de crime, pode haver acusação particular,
ancilar/subsidiária à deduzida pelo ministério público e não pode extravasar o seu âmbito (art.
284º do CPP); nos crimes semi-públicos a competência é do ministério público, mediante
queixa (transporta uma manifestação de ciência e vontade de que se mova procedimento
criminal contra determinada pessoa), apresentada por quem tenha legitimidade (art. 113º do
CP), dentro de um prazo de seis meses; nos crimes particulares em sentido estrito é necessário
queixa, que o ofendido ou outras pessoas se constituam como assistente (art. 68º nº2 e 246º
nº4 do CPP) e que este/estes deduzam acusação particular (art. 285º do CPP – o ofendido, na
veste de assistente, decide da submissão do arguido e dos factos a julgamento) – pode o
ministério público acusar também, no prazo de cinco dias (art. 285º nº4 do CPP – acusação
também ancilar/subsidiária, não podendo alargar o leque de factos que constem da acusação
particular, mas diferente da acusação ancilar/subsidiária plasmada no art. 284º do CPP).

 Acerca da queixa:
Cabe ao ofendido, titular dos bens jurídicos que a lei pretende proteger com a
incriminação, apresentá-la (art. 113º nº1 do CP). Nos crimes de violação de domicílio
considera-se que o titular do bem jurídico perturbado é aquele ou aqueles que
habitem nesse domicílio, não sendo tutelado o bem jurídico “propriedade” (uma vez
que pode existir uma locação) mas sim a esfera de intimidade da vida privada. Mutatis
mutandi no caso de burla para obtenção de géneros alimentícios – o ofendido é o
funcionário engando ou o sócio anónimo? – proteger-se-á aqui o património e não a
honra, sendo a pessoa do ofendido o sócio.
Trata-se de um direito estritamente pessoal cuja titularidade não se extingue com a
morte do ofendido (art. 113º nº2 do CP) – o direito transmite-se a uma das duas classe
de, em linguagem civilista, sucessíveis: a primeira, a que se dá prioridade, integrada
pelas pessoas referidas na al. a) do nº2 do art. 113º do CP e a segunda classe na al. b)
do mesmo número. As pessoas incluídas na segunda categoria de sucessíveis apenas
têm direito de queixa quando não exista ninguém que preencha as caraterísticas para
pertencer à primeira. Qualquer uma das pessoas pertencentes a uma das classes
acima pode exercer o seu direito independentemente das outras (art. 113º nº 3 do
CP). Não havendo ninguém que integre ambas as categorias, pode o ministério público
dar início ao procedimento criminal (art. 113º nº5 al. b) do CP). A capacidade para
apresentar queixa adquire-se aos 16 anos (em paralelo com a imputabilidade penal) e

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é caraterizada pelo discernimento natural de querer e entender (v. art. 113º nº4 do CP
acerca da incapacidade do ofendido). A falta de capacidade é suprida pelos pais ou
representantes legais e, na falta destes, às pessoas a quem cabe o direito de queixa
em caso de morte (art. 113º nº2 e 4 do CP). O menor continua a ser titular do direito
de queixa, nos termos do nº6 do art. 113º do CP podendo, assim, exercer o direito de
queixa quando este não tenha sido exercido pelas pessoas a que se refere o nº4 do art.
113º do CP e nos termos deste e ainda quando não tenha sido iniciado o
procedimento criminal nos termos da al. a) do nº5 do art. 113º do CP.
No caso de crimes sexuais, existe uma diferença de regime quando estes sejam
praticados contra maiores (crime semi-público – ao “mal do crime” pode somar-se o
“mal do processo”, na expressão de Maria João Antunes) ou quando sejam praticados
contra menores (crime público) – o exposto retira-se da leitura conjugada dos arts.
113º nº5 e 178º nº1 e 2 do CP.
O direito de queixa pode ainda ser exercido por mandatário judicial, com poderes
genéricos, ou ainda por mandatário que esteja munido de poderes especiais.
No art. 115º nº1 do CP está plasmada a extinção do direito de queixa no prazo de seis
meses depois do conhecimento (não obrigatoriamente coincidente com o momento
da produção do resultado e, ainda, não se trata de um conhecimento absoluto quanto
à pessoa do agente) por parte do titular deste direito. Contudo, este prazo conhece
especificidades: caso o ofendido morra no decurso do prazo de queixa, este contar-se-
á a partir da data da sua morte; no caso de um indivíduo capaz e que se torne incapaz
no decurso do prazo de queixa, este contar-se-á a partir da data da sua incapacidade;
sendo o indivíduo menor, nos termos do art. 113º nº6 do CP, o direito de queixa
extingue-se findos seis meses a contar da data em que perfizer 18 anos.
Da leitura conjugada dos arts. 114º e 116º nº3 do CP retira-se o princípio da
indivisibilidade passiva da queixa. Assim, sendo vários os agentes do crime, o titular
não pode escolher contra quais pretende apresentar queixa. Este princípio não existe
numa vertente ativa uma vez que, nos termos do art. 113º nº3 do CP, qualquer um dos
titulares do direito de queixa pertencentes a cada uma das categorias pode exercer o
seu direito independentemente dos demais, fá-lo autonomamente.
Cabe ainda referir que o direito de queixa é um direito renunciável, nos termos do art.
116º do CP, renúncia esta que pode ser expressa ou tácita (quando depree ndida dos
factos). Quanto à renúncia tácita, rege o art. 72º nº2 do CPP que, quando se trate de
crime cujo procedimento dependa de queixa ou acusação particular, a prévia dedução
de pedido cível perante tribunal civil, em separado, vale como renúncia ao direito de
queixa.
 Desistência de queixa (art. 51º do CPP):
Tem de ser homologada (na fase de inquérito, pelo ministério público, na fase de
instrução, havendo-a, pelo juiz de instrução e na fase de julgamento pelo juiz
presidente) e notificada ao arguido para que este, no prazo de cinco dias, se oponha
ou não à mesma. Esta pode ser feita em qualquer fase do processo em primeira
instância, incluindo na fase de julgamento, marcando-se como momento-limite o da
publicação da sentença (art. 116º nº2 do CP – em primeira instância as sentenças não
são publicadas mas sim tornadas públicas através da leitura da sentença). O momento
eleito foi este porque, depois de lida a sentença e sendo esta condenatória, poderia

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implicar a prestação de contrapartidas pelo arguido face ao ofendido, contrapartidas


muito sérias e não razoáveis a impor ao arguido, para que o ofendido desistisse da
queixa. Pelo nº2 do art. 113º do CP, in fine, conclui-se que a desistência de queixa é
irretratável – diferentemente sucede no âmbito da mediação penal, onde o acordo
transigido entre as partes equivale a desistência de queixa mas, havendo
incumprimento deste acordo, o direito de queixa pode ser renovado. Pelo art. 117º do
CP, podemos concluir que o exposto supra se aplica, com as devidas adaptações, aos
crimes particulares em sentido estrito. Em última nota, é importante referir ainda a
desistência tácita de acusação particular (art. 330º nº2, in fine, do CPP), quando falte o
representante do assistente no procedimento, de forma não justificada.

Princípio da Legalidade:
Decorre do art. 219º nº1 da CRP e, por força deste, o ministério público está obrigado a, num
primeiro momento, abrir inquérito sempre que haja notícia de crime e, num segundo
momento, deduzir acusação sempre que recolher indícios suficientes da prática do crime e de
quem foi o seu agente e, a contrario, arquivar o processo (respetivamente, art. 262º nº2 e arts.
283º e 277º nº 1 e 2 do CPP). Sempre que o ministério público não o faça, incorre em
responsabilidade disciplinar (arts. 162º e 163º do Estatuto do Ministério Público (Lei nº47/86,
de 15 de Outubro)) e em responsabilidade criminal (crime de denegação de justiça e
prevaricação – art. 369º do CP).
Na sua origem histórica, o princípio da legalidade prende-se com o modelo inquisitório e com
conceções absolutas e retribucionistas dos fins das penas. Contudo, entre nós, o que se
pretende com a pena é a reafirmação contrafática da norma e satisfazer finalidades de
ressocialização do agente. De acordo com Maria João Antunes, a exclusão da ponderação de
razões de oportunidade de qualquer ordem (raison d’état, política, económico-financeira,
religiosa, social) põe a justiça penal a coberto de suspeitas e de tentações de parcialidade e de
arbítrio, ligando-se por esta via ao princípio da igualdade na administração da justiça penal
(art. 13º da CRP) – entende-se que não deve haver qualquer tratamento diferenciado, exceto
quando existam razões racionais e objetivas para tal (ex: imunidades diplomáticas).
Deste princípio decorre um outro, o princípio da imutabilidade da acusação pública, de acordo
com o qual não pode haver renúncia ou desistência de acusação que ministério público tenha
deduzido, não pode sobre ela transigir. Diferentemente sucede no direito anglo-americano,
através do instituto de plea bargaining, pelo qual só há julgamento quando o arguido se
declarar inocente (cabe referir que em cerca de 95% dos casos o arguido dá-se como culpado
devido ao sistema de cúmulo jurídico entre eles vigente e devido ainda ao facto de que pode
vir a provar-se que, por exemplo, não se tratou de um homicídio negligente e que o agente
agiu dolosamente e devido ainda às decisões incertas que de um júri podem advir).
Paralelamente ao instituto de plea bargaining, temos os acordos sobre sentenças, introduzidos
primeiramente na Alemanha, em 2009, em casos em que o arguido tenha um maior poder de
ação, que possa servir-se de mais incidentes processuais (cfr. §257c StPO).

 Desvios ao princípio da legalidade:


Desde logo cabe afirmar que o princípio de sinal oposto deste será o princípio da
oportunidade, com especial reflexo no direito anglo-americano onde o ministério
público não se encontra vinculado à lei para deduzir acusação – contudo, não significa

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que não haja um ónus de fundamentação nas suas atuações, não se trata de um livre
arbítrio.
Assim, há uma certa abertura em favor da oportunidade, de acordo com Figueiredo
Dias, legalidade aberta, especialmente no domínio da pequena e média criminalidade
onde se reconhece uma certa gradação entre necessidade de pena e dignidade penal
em resposta à heterogeneidade do fenómeno criminal (assim, gravidade diferente,
tratamento diferente). Admite-se uma maior formalização do processo quanto mais
grave for o fenómeno criminal e, inversamente, uma menor formalização do processo
quanto menos grave for o fenómeno criminal. A este propósito, Costa Andrade refere,
na expressão de Riess, “uma transferência da política criminal para o processo”, com
reflexo nos mecanismos de diversão (como traduzem uma situação desviada do
processamento normal, traduzem-se, num certo sentido, numa limitação ao princípio
da legalidade uma vez que constituem uma alternativa à dedução de acusação (são
estes mecanismos o arquivamento por dispensa de pena, suspensão provisória do
processo, a mediação penal e o processo sumaríssimo (este último ponto será tratado
mais adiante)). Estes desvios ao princípio da legalidade colocam-se no segundo
momento, a seguir à abertura de inquérito pelo ministério público, sempre que haja
notícia de crime, aquando do momento de acusar, depois de recolhidos indícios
suficientes para a deduzir. Todos estes mecanismos se traduzem na materialização de
um programa politico-criminal surgido nos anos 60 do século XX, nos EUA,
denominado de intervencionismo simbólico, de onde decorre a labeling approach
(demonstra o fenómeno de estigmatização daqueles que entravam em contacto com o
processo e a possível degradação social daí decorrente poderia suscitar casos de
delinquência. Pelo simples facto de se “etiquetar” a pessoa como criminosa, ela pode
comportar-se como tal – criminalidade secundária). Perspetivando estas teorias de
uma forma extrema, levaria a uma não intervenção total do direito penal mas, de
ângulo mais mitigado, conduz a fenómenos de descriminalização cujo correlato
adjetivo são os supracitados mecanismos de diversão – a função primeira destes
institutos é a proteção do arguido, garantindo a ressocialização, poupando-o à
“cerimónia degradante do julgamento”. Já quanto à mediação penal (Lei 21/2007, de
12 de Junho), não se trata de proteger o arguido mas sim de atender aos interesses da
vítima, evitando fenómenos de vitimização secundária decorrentes do “mal do
processo”. Muitas vezes o processo é um “roubo do conflito à vítima” e, através da
mediação, conseguem satisfazer-se exigências de justiça restaurativa através da
promoção do consenso (onde o ofendido tem um papel constitutivo, uma voz ativa) e
através da revalorização da reparação como dritte spur (terceira via) em
sancionamento criminal – desta última decorre que pode interessar mais ao ofendido
ver reparados os seus danos (no caso de furto simples, por exemplo) do que a
aplicação da pena em si. Contudo, entre nós, há quem considere que se trata de uma
aproximação da justiça penal à justiça civil, como por exemplo, Almeida Costa.
o Arquivamento em Caso de Dispensa de Pena (art. 280º do CPP e art. 74º do
CP): trata-se de um mecanismo de diversão simples, em contraposição aos
mecanismos de diversão com intervenção (na suspensão provisória do
processo). Do art. 74º nº1 do CP decorre que este instituto se aplica a crimes
de pequena gravidade, cuja moldura penal abstrata seja não superior a seis

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meses de prisão ou não superior a 120 dias de multa. No nº3 do mesmo artigo
apresentam-se exceções ao nº1, ou seja, apenas se têm de cumprir os
requisitos das als. a), b) e c) mas não o requisito formal da moldura penal
abstrata (v. arts. 143º nº3, 186º nº2, 278º-B, 286º e 374º-B do CP).
Dentro do nº1 do art. 74º do CP enunciam-se, nas várias alíneas, vários
requisitos a preencher: que a ilicitude e a culpa sejam diminutas, que em caso
de dano, este seja reparado pelo lesante e que às razões de dispensa de pena
não se oponham razões de necessidade de pena.
Assim, no final do inquérito, a decisão cabe ao ministério público enquanto
dominus desta fase, por razões de economia processual – contudo, tem de
obter a concordância do juiz de instrução criminal (para cumprimento da
função de garantia dos direitos fundamentais das pessoas. No fim da fase de
instrução, o arquivamento em caso de dispensa de pena cabe ao juiz de
instrução criminal, obtendo a concordância do ministério público e ainda a do
arguido (art. 280º nº2 do CPP) – exige-se a concordância deste último uma vez
que pode, por já ter havido um chamamento solene à responsabilidade,
querer obter uma sentença absolutória. No caso do art. 277º do CPP, o
arquivamento é uma manifestação do princípio da legalidade, diferentemente
da situação descrita no art. 280º do CPP, que contém uma discricionariedade
limitada que Figueiredo Dias chama de legalidade aberta.
o Suspensão Provisória do Processo (art. 281º do CPP e arts. 52º e 53º do CP):
trata-se de um mecanismo de diversão com intervenção, aplicável a crimes
punidos com pena de prisão não superior a 5 anos, correspondendo a uma
fatia mais larga da criminalidade. Quando decidida na fase de inquérito impõe-
se o requisito acima enunciado, impõe-se ainda, como requisitos de ordem
formal, que haja concordância do arguido (por se tratar de diversão com
intervenção, existe a aplicação de injunções e regras de conduta, equivalentes
funcionais das penas), concordância do assistente (Odete Oliveira defende
que, mesmo que o ofendido não se constitua como assistente, deve-lhe ser
dada voz ativa nestas situações; diferentemente afirma Sónia Fidalgo, de
forma consentânea com o texto da lei, que é necessária a constituição como
assistente para que a sua vontade possa ser manifestada neste sentido – entre
nós, trata-se da posição dominante), ausência de condenação anterior por
crime da mesma natureza e ausência de aplicação anterior de suspensão
provisória do processo por crime da mesma natureza; enquanto requisitos de
ordem material, atende-se à gravidade concreta do crime e impõe-se a
ausência de um grau de culpa elevado e ainda que seja de prever que o
cumprimento das injunções e regras de conduta responda suficientemente às
exigências de prevenção geral e especial, uma vez que são equivalentes
funcionais das penas (em paralelo, art. 281º nº2 do CPP e arts. 51º e 52º do
CP). Acerca do disposto no art. 281º nº2 al e) e no nº4 do CPP, cabe
fiscalização por parte do juiz de instrução criminal.
Na fase de inquérito é competente para a decisão o ministério público com a
concordância do juiz de instrução criminal (v. Ac. 7/87 do TC). Não pode a
concordância entre ambos ser vista como um mero requisito formal mas

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também não se trata de um ato decisório e, por isso, havendo concordância, a


decisão é irrecorrível (art. 281º nº6 do CPP e ainda cfr. Ac. de Fixação de
Jurisprudência 16/2009 do STJ). Na fase de instrução é competente para a
decisão o juiz de instrução criminal em concordância com o ministério público
(art. 307º nº2 do CPP).
O processo fica suspenso até um máximo de 2 anos durante os quais o arguido
deverá cumprir as injunções e regras de conduta e abster-se de praticar crimes
de semelhante natureza. A contrario, o processo segue a tramitação normal e
há lugar a julgamento.
Os nos 7 e 8 do art. 281º do CPP constituem, na expressão de Costa Andrade,
um “corpo estranho” na redação do artigo uma vez que o que está em causa
são considerações de proteção do ofendido e não do arguido, nos casos de
violência doméstica e crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual de
menores.

Princípio da Acusação (art. 32º nº5 da CRP):


Tem um âmbito histórico relativamente recente muito embora tenha vigorado na Alta Idade
Média, até ao século XIII, tendo havido um interregno onde vigorou o inquisitório e, a partir do
século XVIII, voltou a encontrar aplicação.
Traduz-se na separação material entre a entidade pública competente que investiga e acusa e
a entidade pública competente para julgar. Diz-se separação material e não apenas formal,
como ocorria durante a vigência do CPP de 1929 até 1945 onde a acusação deduzida pelo
ministério público era feita com base na investigação (corpo de delito) feita pelo juiz que
também presidia à fase de julgamento. Também não se diz que é uma separação funcional
pois não basta que as entidades públicas competentes sejam distintas mas sim que as próprias
pessoas o sejam (art. 39º nº1 al. c) do CPP – separação em sentido material – o relevo deste
princípio é na garantia de imparcialidade e objetividade do julgador. Para que a imparcialidade
seja assegurada não basta que haja entidades separadas, é preciso assegurar que os poderes
de cognição do tribunal se desenvolvam dentro dos limites do objeto do processo inicialmente
delineados. Concretizando, o juiz investiga também mas apenas dentro de um quadro factual
traçado pela acusação deduzida pelo ministério público e dentro dos seus limites. O despacho
de acusação não é só facto desencadeador da investigação, traça também o quid da atividade
cognitiva do tribunal).
Do exposto supra, emergem três corolários: o princípio da acusação implica que não é o
tribunal de julgamento a ter iniciativa para investigar – iudex ne procedat ex officio; a atividade
cognitiva do tribunal depende de prévia acusação por entidade distinta – nihil judicio sine
accusatione (a acusação é pressuposto de todo o processo); a acusação desencadeante
delimita a baliza temática do tribunal.

2ª – Princípios da Prossecução Processual


Princípio da Investigação:
Transversal a toda a marcha processual e caraterizador do nosso modelo processual (modelo
acusatório integrado por um princípio subsidiário de investigação), cujo estudo caberá na
temática da prova, desenvolvida infra, porque com esta se prende mais intimamente e tem
nesta um reflexo mais direto.

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Princípio da Suficiência (art. 7º nº1 do CPP):


Segundo este, o processo penal é promovido independentemente de qualquer outro e nele se
resolvem todas as questões que interessarem à razão da causa. De facto, no decurso da
marcha processual, para além da questão principal podem surgir outras, diversas, cujo
conhecimento prévio seja indispensável à decisão da questão principal (no crime de furto, será
relevante saber quem é o dono da coisa roubada (questão juridico-civil) ou, no crime de
bigamia, será importante aferir da existência ou não de casamento prévio (questão juridico-
civil)) – este princípio pretende responder ao quando e ao onde da resolução das questões
prejudiciais (questões jurídicas autónomas, quanto ao objeto ou natureza, cujo conhecimento
prévio seja indispensável, porque do sentido da resposta a dar-lhe depende a resposta à
questão principal). Existem questões prejudiciais penais em processo penal (por exemplo, na
denúncia caluniosa acresce à ofensa à honra, um crime contra a justiça), questões prejudiciais
penais em processo não penal (por exemplo, uma ação executiva cujo título executivo é um
cheque cuja assinatura se julga falsificada – levanta-se a questão de saber se há ou não um
crime de falsificação) e questões prejudiciais não penais em processo penal, aquelas que mais
relevam para o nosso estudo (como os aludidos exemplos do crime de bigamia e do crime de
furto). Quanto a estas questões, existem três possíveis caminhos a seguir: devolução
obrigatória (o tribunal penal devolveria a questão não penal para o tribunal competente –
vantagem: estaria assegurada a adequação do processo; inconvenientes: falta de celeridade
processual e ainda o facto da questão prejudicial não ser julgada à luz dos interesses do direito
penal (imagine-se a situação do furto, descrita supra: se se concluir que o ofendido não é dono
apesar de pensar que o é, há um erro sobre as circunstâncias de facto, exclui-se o dolo, não é
admitida punição por negligência e, em suma, há absolvição)); suficiência
absoluta/conhecimento obrigatório (o tribunal penal é competente para todas as questões
prejudiciais não penais em litispendência ou caso julgado); suficiência discricionária/devolução
facultativa, acolhida na nossa lei no art. 7º nº2 do CPP (preenchidos vários pressupostos –
haver uma questão prejudicial não penal, sendo necessária a informação para conhecer da
existência de crime (reportar-se a questão ao tipo objetivo) e ainda o facto da questão não
poder ser convenientemente (a utilização deste conceito indeterminado justifica a razão da
denominação “suficiência discricionária”) resolvida no processo penal. Pode assim o tribunal
suspender o processo para que se decida esta questão no tribunal competente. Da decisão
que suspende ou não o processo não cabe qualquer recurso (art. 400º nº1 al. b) do CPP).
Assim, a devolução/suspensão não pode ocorrer na fase de inquérito por prejudicar as
exigências de celeridade que a caraterizam e para evitar que se prolongue o “mal do processo”
(art. 7º nº3 do CPP). A suspensão deve ter um prazo fixado pelo juiz que, na prática, deverá ser
menor ou igual a um ano, com a prorrogação incluída no cômputo final. No art. 7º nº4, in fine,
do CPP, estatui-se que, esgotado o supracitado prazo sem que a questão prejudicial tenha sido
resolvida, pode o tribunal penal avocar a questão para que nele seja decidida.

Princípio da Concentração:
Este princípio aponta para uma prossecução processual unitária e continuada de todos os
termos e atos do processo, quer de temporalmente, quer espacialmente. Rege o art. 276º do
CPP, acerca dos prazos ordenadores do inquérito. Acerca da fase de julgamento, convoca-se
uma ideia de imutabilidade do juiz, com intenção de manter a continuidade psicológica, uma
ideia de concentração espacial, também denominada de princípio da localização e que se

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traduz em trazer todos aqueles que devem intervir (ver, a contrario, art. 318º e 139º nº1 do
CPP e ainda a Lei de Proteção de Testemunhas em Processo Penal (Lei nº 93/99 de 14 de Julho)
que por razões de especial vulnerabilidade consente que sejam ouvidas por videoconferência)
e ainda uma ideia de concentração/continuidade temporal (é precisamente este o sentido do
art. 328º nº1 do CPP quando estatui acerca da continuidade da audiência, esta deve decorrer
sem interrupções ou adiamentos desde a abertura da audiência até à leitura da sentença.
Quis-se também que a produção de prova fosse contínua para porque o princípio da livre
apreciação da prova pressupõe imediação e concentração, especialmente quando se trate de
prova pessoal, para que a impressão seja mais pura, o peso que se atribui a esta pressupõe
imediação. No nº3 do art. 328º do CPP estão previstas as causas de adiamento, num elenco
não taxativo, a que acrescem as demais dispersas pelo CPP. No nº6 do mesmo artigo estatui -se
que o adiamento nunca deve exceder 30 dias (anteriormente a 2015, se se excedesse este
prazo, haveria consequências probatórias – a prova pessoal, mesmo que gravada, nos termos
do art. 373º do CPP, teria de ser repetida. Assim, retirou-se algum peso ao princípio da
concentração deixando de haver consequências a nível probatório).

Princípio do Contraditório (art. 32º nº5 da CRP):


Assume este princípio uma dupla valência: subjetiva (enquanto garantia para o arguido) e
objetiva (para uma melhor obtenção da verdade através do jogo entre posições antagónicas).
Historicamente, remontando ao Direito Romano, reconhecia-se este princípio como o direito a
ser ouvido – nemo potest inauditus damnare e, ainda, audiatur et altera pars (que a outra
parte seja ouvida).
Atualmente surge como direito a defender-se, provando – ou seja, não devem ser aceites
meios probatórios que desfavoreçam o arguido e que não lhe possibilitem a produção de
prova que infirme esta primeira acusação contra ele apresentada – materializa-se
especialmente no direito à prova.
Trata-se de um princípio transversal a todas as fases processuais, com especial relevo na fase
de julgamento (v. arts. 321º nº3 e 327º do CPP) e na fase de instrução, quando esta tenha
lugar (o contraditório reflete-se no debate instrutório (art. 298º do CPP) mas não se reflete nos
demais atos instrutórios realizados (v. Ac. 329/2005 do TC)). Na fase de inquérito verifica-se
uma maior compressão ao princípio do contraditório, colocam-se certas limitações, não sendo
este princípio, regra geral, concomitante com os atos praticados. Contudo existem exceções
que se refletem, por exemplo, no direito que ao arguido assiste, de estar presente aos atos
que lhe digam diretamente respeito (art. 61º nº1 al. a) do CPP), de ser ouvido pelo tribunal ou
pelo juiz de instrução criminal sempre que eles devam tomar alguma decisão que
pessoalmente o afete (art. 61º nº1 al. b) do CPP) e de intervir no inquérito e na instrução,
oferecendo provas e requerendo as diligências que se afigurem necessárias (arts. 61º nº1 al. g)
e 69º nº2 al. a) do CPP).

3ª – Princípios da Prova Processual


Cabe, como nota introdutória, referir breves considerações acerca da temática em causa,
objeto de estudo aprofundado na unidade curricular de Direito Processual II.
A temática da prova pode ser decomposta analiticamente em três categorias distintas: fase de
admissibilidade da prova, fase de produção/formação da prova e fase de valoração da prova.
Quanto à primeira, é nela que se estabelecem quais os meios de prova admissíveis, se existe
ou não admissibilidade de meios de prova atípicos, ou seja, não tipificados na lei, é nesta fase
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que se define o objeto sobre que a prova deve incidir e quem tem iniciativa para a produzir –
desta forma, à iniciativa associa-se o princípio da investigação (art. 340º nº1 do CPP) e à
admissibilidade associa-se o princípio da legalidade da prova (art. 125º do CPP). Dentro da
segunda, dá-se especial importância às regras de produção de prova, que variam consoante o
meio em causa. Por fim, na terceira, há um especial reflexo do princípio da livre apreciação da
prova (art. 127º do CPP) e do princípio in dubio pro reo (retira-se do princípio da presunção de
inocência, contido no art. 32º nº2 da CRP). Transversal às três fases referidas é o princípio da
imediação, tendo um especial reflexo no domínio da prova pessoal.

Princípio da Investigação (art. 340º nº1 do CPP):


Responde, essencialmente, à questão de saber quem tem iniciativa de adução de material
probatório (nos modelos inquisitórios, seria o juiz; nos modelos acusatórios puros, caberia às
partes, tendo o juiz um papel passivo; no modelo acusatório integrado por um princípio de
investigação judicial, – o nosso – o tribunal tem um papel de cognição e incumbe-lhe a tarefa
de adução de material probatório ordenando, oficiosamente ou a requerimento, a produção de
todos os meios de prova cujo conhecimento se afigure necessário à descoberta da verdade e à
boa decisão da causa, como decorre da leitura do nº1 do art. 340º do CPP. Do art. 348º nº5 do
CPP se extrai o papel ativo do juiz, que constrói autonomamente as bases da sua decisão
formulando à testemunha as perguntas que se afigurem necessárias.
O âmbito deste princípio conhece como limites aqueles que se colocam ao objeto, o juiz tem o
poder-dever de esgotá-lo, explorando todos os contornos factuais da imputação, ainda que o
arguido não os invoque (imagine-se, por exemplo, explorar a hipótese do arguido ter agido em
legítima defesa ainda que o arguido a não tenha invocado) ou mesmo até contra a sua própria
vontade. Contudo, o juiz não pode ultrapassar estes limites – o seu desrespeito conduz a uma
nulidade processual. No momento da valoração da prova, este princípio torna legítima a
aplicação do princípio in dubio pro reo quando exista uma dúvida insanável, esgotado o poder-
dever de investigação que ao juiz incumbe.
No nº2 do art. 340º do CPP surge-nos o contrapeso deste princípio, assegurando o
contraditório de modo a garantir que não existam “surpresas probatórias” para os sujeitos
processuais.

Princípio da Livre Apreciação da Prova (art. 127º do CPP):


Intervém no momento de valoração da prova e tem especial importância na fase de
julgamento embora nela não se esgote, em todas as fases se valoram provas (por exemplo, o
ministério público na fase de instrução e o juiz de instrução criminal na fase de inquérito e
instrução).
A este propósito, conhecem-se diferentes respostas: sistema da prova legal estrita (o julgador
está limitado a regras estabelecidas pela doutrina (como sucedia no inquisitório medieval) ou
pelo legislador, os elementos de prova já tinham o seu quantum pré-definido (documento
autêntico, testemunho de mulher, servo, nobre, cada um assumia diferente quantum
valorativo)) e sistema da intime conviction (surge com a Revolução Francesa, em 1789 – as
provas afetavam o íntimo daquele que julgava, havia uma livre apreciação do que era
apresentado à entidade julgadora, sem necessidade de justificação por parte desta última). A
expressão “prova legal” pode entender-se, por sua vez, em dois sentidos: sentido negativo
(exclui ou diminui o peso probatório de certos elementos, fixando um conjunto de situações,
na falta das quais o julgador não pode dar como provados, apesar da sua convicção ser nesse
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sentido – por exemplo, testis unus, testis nullus (literalmente, “uma testemunha não é
testemunha), seriam necessários dois testemunhos para dar como provado determinado facto
mesmo que houvesse um que, para além de toda a dúvida, o desse como provado) e sentido
positivo (as regras legais pré-fixam ou definem o peso de cada elemento probatório,
incumbindo ao julgador, mesmo contra a sua convicção, decidir no sentido de acusar sempre
que esteja preenchido aquele quantum probatório pré-estabelecido – era um sistema
garantístico porque limitava a arbitrariedade mas, por outro lado, pervertido porque, por
exemplo, extorquindo a confissão através da tortura obrigava-se o julgador a condenar mesmo
que, pelas razões óbvias, este estivesse convicto do contrário (vigorou na Baixa Idade Média,
entre os séculos XV e XVIII)). O principal perigo das provas legais é o de converter uma máxima
da experiência (por exemplo, em princípio o testemunho concordante de duas testemunhas
corresponderá à realidade fáctica) em premissa maior do silogismo judicial, resulta numa
generalização indevida.
No início do século XVIII, com a queda do sistema inquisitório medieval e com a adoção do
sistema inglês de jurados, incompatibiliza-se este com o sistema ainda vigente da prova legal
uma vez que os jurados, enquanto expressão e manifestação da vontade popular que
deveriam decidir com base na impressão causada pelos elementos que lhe eram apresentados,
eram leigos quanto às regras estritas do sistema de prova legal. Desta forma, o sistema vigorou
por pouco tempo e logo em 1808, Napoleão aprova o Code d’Instruction Criminelle – os juízes
de carreira passam a decidir também segundo o sistema da intime conviction e
“reinterpretam” o princípio da livre apreciação da prova de forma a introduzir meios
probatórios não admitidos pelo legislador, seguindo caminhos atípicos e fugindo aos esquemas
fixados. Atualmente, já não é visto o princípio como forma de desvincular o julgador das regras
legais pré-fixadas mas antes de afirmar que o julgador deverá apreciar livremente mas dentro
de certos limites:
Limites internos: respeito pelas regras da experiência (cânones normais do acontecer e agir
humanos, que poderão firmar certas convicções probatórias (por exemplo, àquele que foge
pode-lhe ser associada alguma responsabilidade pelo crime cometido; lei da não ubiquidade:
se X está em Lisboa no momento em que o crime é cometido no Porto, é impossível que o
tenha cometido (nesta assenta a força que um alibi pode ter); leis científicas não
probabilísticas e leis científicas probabilísticas (por exemplo, a frequência de um determinado
grupo sanguíneo numa determinada comunidade pode auxiliar na identificação do agente));
limites externos: motivação da convicção (dever de fundamentação da convicção em matéria
probatória (motivação de direito e de facto, especialmente densificado no que diz respeito a
decisões condenatórias, “exame crítico das provas” que servem para fundar a convicção do
tribunal, explicando porque se retira peso a determinado elemento probatório, porque se
considera certo testemunho como mais ou menos credível, explicando quais os critérios legais
de que se serviu – art. 374º do CPP; dever de fundamentação – art. 97º nº5 do CPP), controlo
em sede de recurso (especial relevo do recurso em matéria de facto, decorrente do art. 32º
nº1 da CRP – é admitido recurso para o Supremo Tribunal de Justiça sobre matéria de facto
ainda que a regra seja a de recurso de matéria de direito (art. 410º nº2 do CPP, revista
ampliada); regras probatórias legais negativas ou positivas: certos casos contados onde o
legislador intervém na quantificação do valor a atribuir a certos elementos de prova,
geralmente em sentido negativo ((v. desde logo, arts. 343º nº1, 345º nº1 e 61º nº1 al. c) do
CPP) proibição da valoração desfavorável do silêncio – este nunca pode ser valorado

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desfavoravelmente face ao arguido, mesmo que se entenda que possa ser indício de culpa
deste. Pode o arguido, todavia, prestar declarações que afetem, caso existam, os co-arguidos,
sendo apenas valoradas (doutrinalmente indica-se que deverá ser feito escrupulosamente)
caso o este não se exima ao contraditório – acontecendo, o próprio legislador retira o valor
probatório destas declarações, como resulta do art. 345º nº4 do CPP), o depoimento indireto
(depoimento de ouvir dizer, hearsay ou Hörensagen) em princípio não é valorado (art. 129º do
CPP e, a propósito, v. art. 130º do CPP), no caso de testemunhos anónimos, por falta do
reconhecimento destas no âmbito do processo, o peso do seu testemunho é atenuado (v. art.
19º da Lei 93/99, de 14 de Julho); mas também em sentido positivo (a confissão (art. 344º nº2
als. a) e b) do CPP) livre (não coagida nem induzida), integral (acerca da totalidade dos factos
imputados) e sem reservas (o confitente não pode opor nenhuma condição que importe a
apreciação dos factos de forma diferente da descrita – por exemplo, invocando que agiu a
coberto de uma causa de exclusão da ilicitude) adquire valor de prova plena, não carecendo de
qualquer outra atividade probatória ulterior, passando-se de imediato para as alegações orais
– contudo, a confissão não se estende aos demais co-arguidos, apenas vale como prova plena
em crimes punidos com pena de prisão não superior a 5 anos (casos de pequena e média
gravidade onde haverá um maior consenso quanto à decisão tomada; diferentemente se
verifica nos crimes mais graves, onde é dada uma maior importância à descoberta da verdade,
não se cedendo ao consenso). Não é, verdadeiramente, uma exceção ao princípio da livre
apreciação da prova, mas apenas uma aparência de sobreposição da prova legal à livre
apreciação do julgador, este pode, pelo disposto no art. 344º nº3 al. b) do CPP, recusar a
atribuição de valor de prova plena quando, “em sua convicção”, suspeite do caráter livre da
confissão ou mesmo da veracidade dos factos. Cumpridos os requisitos supra, a confissão terá
então um valor de prova plena mas, contudo, sendo apenas parcial, terá ainda o valor
probatório que, pela sua convicção lógica, o julgador lhe atribua; há um especial valor
atribuído à prova pericial (parece, pela leitura do nº1 do art. 163º do CPP, que a prova pericial
se encontra subtraída ao livre arbítrio do julgador. Contudo, pode o julgador afastar-se do
juízo técnico (art. 163º nº2 do CPP) sempre que a base factual seja equívoca, quando possa
invocar conhecimentos, sempre que os possua ou ainda pedindo oficiosamente uma nova
perícia, sempre que o julgue necessário) – estes também não comportam uma verdadeira
limitação ao princípio da livre apreciação da prova, mas antes uma vinculação a
conhecimentos específico de certas áreas técnicas).

Princípio in dubio pro reo:


Consubstancia-se no facto de que o tribunal deve dar como provados os factos favoráveis ao
arguido, sempre que fiquem aquém da dúvida razoável, apesar de toda a prova produzida.
Distingue-se, desde logo, dos cânones do processo civil, onde o objeto do processo encontra-
se na disponibilidade das partes, existindo repartição do ónus probatório. Assim, parece que o
princípio in dubio pro reo é um ónus unilateral que favorece o arguido desfavorecido pela
acusação – não o é, uma vez que, por exemplo, cabe ao ministério público provar tanto os
factos inculpatórios como os factos exculpatórios.
Do supracitado princípio decorre que, apesar de todas as diligências probatórias oficiosas, ou
mesmo aquelas requeridas pelas partes, persistir uma dúvida acerca da verificação ou não dos
factos imputados ao arguido, a decisão a proferir deve ser num sentido mais favorável – em
suma, dar como provados os factos favoráveis ao arguido e como não provados aqueles que

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lhe sejam desfavoráveis.


De acordo com a doutrina mais tradicional, o in dubio pro reo decorre do princípio da
presunção da inocência, plasmado no art. 32º nº2 da CRP (encontrando melhor reflexo no art.
6º da CEDH e no art. 14º do PIDCP), e traduz-se no correlato adjetivo do princípio da culpa, ou
seja, nulla poene sine culpa – adaptando, não pode haver pena nos casos em que, para lá de
toda a dúvida razoável, não se consiga provar a culpa (entendida num sentido amplo, incluindo
também o juízo de ilicitude e de punibilidade). Esta solução encontra, assim, dois empenos:
não permite superar a dúvida quando a situação verse sobre medidas de segurança (onde há
ausência de culpa) e ainda quando se trate de pressupostos processuais. Contudo, existe uma
outra tese, cuja figura principal é Cristina Líbano Monteiro, que pretende alargar o princípio in
dubio pro reo às dúvidas que versem sobre medidas de segurança e pressupostos processuais.
Fá-lo fundamentando a sua posição no art. 205º da CRP, ou seja, pela exigência de
fundamentação das decisões prevista no nº1, seria de fácil conclusão provar se o dito princípio
foi ou não aplicado. Pretende-se, assim, ver o in dubio pro reo de um outro prisma – ao invés
de ser o correlato adjetivo do princípio da culpa, é antes entendido como um travão ao ius
puniendi do Estado, como forma de preservação da legitimidade da intervenção penal, aliada
ao princípio da proporcionalidade do art. 18º nº2 da CRP, em conjunto com o princípio do
Estado de Direito Democrático, plasmado no art. 2º da CRP.
Quanto ao seu conteúdo e alcance, este só vale em matéria de facto e nunca de direito. Se o
julgador se encontrar em dúvida quanto à interpretação do tipo legal, deve recorrer às regras
gerais de interpretação (art. 9º do CC), ainda que não sejam as mais favoráveis.
A observância ou inobservância deste princípio é ou não uma questão de direito? Poderá ser
fundamento de recurso para o STJ? A resposta é positiva a ambas as questões, estando a
violação deste princípio, como qualquer outra violação de um princípio jurídico, no âmbito de
cognição do STJ (art. 434º do CPP). Contudo, é rara a vez em que o julgador, na
fundamentação da sua decisão, justifica a dúvida em questão, tornando esta apreciação
bastante mais restrita.
Assim, no que diga respeito a dúvidas acerca dos elementos constitutivos do tipo legal de
crime ou circunstâncias modificativas agravantes, o princípio in dubio pro reo vale
inteiramente – no primeiro caso verifica-se a absolvição do arguido e, no segundo caso, há
condenação pelo tipo legal simples. Vale ainda quanto às causas de exclusão da ilicitude ou da
culpa e quanto às circunstâncias modificativas atenuantes, onde há, respetivamente,
absolvição ou uma diminuição da pena. Vale também acerca das bases factuais e que
assentam as condições objetivas de punibilidade – não se provando as primeiras, a condição
não se preenche e, consequentemente, não existe punição. De acordo com Figueiredo Dias e
Cristina Líbano Monteiro, havendo uma dúvida insanável acerca dos pressupostos processuais,
deve sempre decidir-se de forma mais favorável para o arguido, por exemplo, havendo dúvidas
quanto à suspensão do prazo de prescrição causada por um determinado facto que tornaria o
prazo mais alargado, deve ser este dado como não provado, uma vez que um alargamento do
prazo de prescrição em nada é favorável ao arguido.
Contudo, existem exceções a este princípio:

 Nos crimes contra a honra (art. 180º nº2 al. b) do CP), incumbe ao arguido fazer prova
da veracidade da imputação, sob pena de, não o fazendo, se afastar o in dubio pro reo
e ser punido pelo crime cometido. Para os autores que entendam que o princípio in

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dubio pro reo decorre do princípio da presunção da inocência ou do princípio do


Estado de Direito Democrático, esta norma não é inconstitucional uma vez que o seu
âmbito de aplicação é extremamente estrito, valendo como causa de exclusão da
ilicitude apenas nas restritíssimas situações referidas, valendo o in dubio pro reo em
todas as outras normas relativas aos crimes contra a honra e, ainda, por se tratar de
uma restrição justificada uma vez que é a contrapartida de agir dentro do risco
permitido referente aos crimes contra a honra.
 Nos crimes economico-financeiros, especialmente nos mais sofisticados e rebuscados
(branqueamento de capitais, corrupção, participação económica em negócio), pela
especial dificuldade probatória, existem mecanismos expeditos para dissipar as
dúvidas existentes – por exemplo, a perda alargada de bens, regulada nos arts. 7º e ss.
da Lei nº 5/2002, de 11 de Janeiro (no art. 9º da referida lei, incumbe ao arguido o
ónus de provar a origem lícita dos referidos bens (ver, a propósito, Ac. TRP de
11/06/2014 – “IX. O titular de direitos afetados pela decisão pode, tal como o arguido,
ilidir a presunção do art. 7.º, n.º 1, da Lei n.º 5/2002, nomeadamente provando
(através da demonstração inteligível dos fluxos económico-financeiros na origem das
aquisições em causa) que os bens foram adquiridos com proventos de atividade
lícita.”), a contrario, a sua proveniência é considerada ilícita e dá-se o confisco dos
bens – entende-se, contudo, que não se trata de uma pena, mas antes de uma reação
administrativa de natureza não penal justificando-se, assim, o afastamento do
princípio in dubio pro reo (ver, a propósito, Ac. 179/2012 e Ac. 392/2015 do TC – “Não
julga inconstitucionais as normas constantes dos artigos 7.º e 9.º, n os 1, 2 e 3, da Lei n.º
5/2002, de 11 de janeiro, respeitantes ao regime probatório da factualidade
subjacente à perda alargada de bens a favor do Estado”, in Diário da República n.º
186/2015, Série II de 2015-09-23). Seria inconstitucional se, diferentemente, se a
própria presunção residisse no cerne da incriminação penal, na presunção de culpa.
Ainda neste âmbito, cabe referir as normas dos arts. 109º e ss. do CP, em particular o
art. 111º, acerca da perda das vantagens associadas a uma carreira criminosa anterior,
ainda que não esteja completamente ligada ao crime em apreço.

4ª – Princípios da Forma Processual


Devem recobrir toda e qualquer toda e qualquer decisão penal, tendo particular incidência na
fase de julgamento, estando ligados ao princípio da concentração e sendo instrumentais face
ao princípio da livre apreciação da prova. Em comum têm a matriz histórica, nascendo no
período posterior à Revolução Francesa, que influenciou a maior parte da Europa Continental,
estabelecendo-se um corte com o inquisitório medieval e a marcha processual secreta e
maioritariamente escrita, com reduzido valor da oralidade.

Princípio da Oralidade:
De acordo com este, toda a decisão penal, máxime a final, deve assentar em elementos de
prova produzidos em audiência oral. A consagração do princípio da oralidade em nada colide
com a documentação das declarações – na fase de inquérito, através da redução a auto,
porventura em súmula (art. 275º nº1 do CPP), na fase de instrução, art. 296º do CPP, quanto
ao debate instrutório, art. 305º do CPP e quanto à fase de julgamento, arts. 363º a 365º do
CPP - no debate instrutório e na audiência de julgamento as declarações constam de suporte

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magnetofónico e ainda se redige um tipo de auto designado de ata (a consagração deste


princípio de documentação na fase de julgamento permite que haja recurso em matéri a de
facto; a consequência de não se observar o princípio da documentação das declarações orais
produzidas em audiência de julgamento traduz-se numa nulidade processual sanável). A
documentação é feita, em regra, através de registo áudio. Esta redução a escrito tem
relevância para efeitos de controlo e recurso (senão houvesse qualquer registo das
declarações prestadas anteriormente, em sede de recurso seria necessária a repetição da
prova produzida anteriormente, afastando a celeridade e podendo a prova testemunhal não
corresponder aos mesmos termos em que foi prestada primeiramente).

Princípio da Imediação:
Em sentido subjetivo/formal (art. 355º do CPP), enquanto princípio relativo à forma, é visto
como impondo uma relação de proximidade comunicante entre o juiz e os sujeitos
processuais, por não ser apenas relevante aquilo que se diz, mas também a forma como se diz,
nomeadamente para o efeito de formação da convicção do julgador. Em suma, trata-se da
relação entre juiz e meios de prova. No sentido objetivo/material (arts. 129º, 356º e 357º do
CPP), enquanto princípio relativo à prova, impõe que o juiz escolha o meio de prova mais
próximo dos factos, ou seja, trata-se da relação entre meios de prova e factos que integram o
thema probandum. Entre os dois sentidos não há, obrigatoriamente, coincidência – no
testemunho indireto existe uma imediação subjetiva/formal mas não objetiva/material, uma
vez que a testemunha não é próxima dos factos que declara.
Existe, na prática, uma regra de preferência pelas provas mais próximas dos factos, o que no
direito anglo-americano se chama de best evidence rule, que se consubstancia na maior
relevância dada a provas de melhor qualidade epistemológica.
Desta forma, porque se exclui o peso probatório do testemunho indireto (art. 129º do CPP)?
Pela simples razão de se tratar de uma prova mais distante dos factos, prefere-se o
testemunho presencial por assentar na memória do declarante (apesar de, no complexo
processo de recordar, existam erros, por exemplo, quanto à perceção dos próprios factos; será
de acrescentar que a probabilidade de erro cresce com o aumento de elos na cadeia
probatória) e na sua sinceridade (embora se jure declarar a verdade, o tribunal é um dos locais
onde mais se mente e esta é, de facto, a grande fragilidade da prova testemunhal, cujo
controlo é mais difícil). Contudo, esta exclusão do peso probatório do testemunho indireto não
é absoluta uma vez que o juiz pode chamar as pessoas que presenciaram a depor e, em caso
de morte, anomalia psíquica superveniente ou impossibilidade de serem encontradas, o
testemunho terá valor probatório, uma vez que é a melhor prova disponível – prevalece, aqui,
a imediação em sentido objetivo/material.
Quanto aos arts. 356º e 357º do CPP, em regra, em audiência de julgamento não há lugar à
leitura das declarações prestadas em anteriores fases da tramitação, ou seja, proíbe-se a
leitura destas e proíbe-se qualquer atividade probatória acerca daquilo que nelas está
cristalizado. Contudo, existem exceções a esta regra e que têm em vista o equilíbrio entre a
imediação em sentido objetivo/material e a finalidade de descoberta da verdade material:

 Art. 356º do CPP: declarações das testemunhas, assistentes e partes civis.


o Leitura Aquisitória:

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 Declarações cuja produção observe a judicialidade e o contraditório,


art. 356º nº1 al. a) do CPP – atos de produção de prova já no contexto
do julgamento mas anteriores à audiência de julgamento (v. arts. 318º
a 320º do CPP) e art. 356º nº2 al. a) do CPP – tomada de declarações
para memória futura prestadas na fase de inquérito ou de instrução
para evitar discrepâncias; art. 356º nº4 do CPP – hipóteses em que a
inquirição na audiência de julgamento já não é possível por morte,
anomalia psíquica superveniente ou impossibilidade duradoura; art.
356º nº2 al. b) do CPP – quando os sujeitos processuais estejam de
acordo com a leitura das declarações prestadas;
o Leitura Não Aquisitória: a leitura apenas visa esclarecer discrepâncias e
contradições e ainda quando se afigure necessário avivar a memória de quem
declarar, na audiência de julgamento, de que não se lembra de certos factos
(art. 356º nº3 als. a) e b) do CPP) – não se trata aqui de valorar novamente
esses elementos.
 Art. 357º do CPP: permite-se sempre que o arguido solicite a leitura das declarações
prestadas anteriormente (art. 357º nº1 al. a) do CPP – manifestação da liberdade do
arguido, em sentido positivo, decidindo este acerca do se e do como desta leitura); até
2013, para além desta situação descrita, apenas se permitia a leitura de declarações
do arguido quando houvesse algumas contradições ou discrepâncias (por exemplo,
poderia dar-se a situação de confessar perante o juiz de instrução criminal e na fase de
julgamento recusar-se a prestar declarações, assim, houve necessidade de adotar
estratégias que, por vezes, contrariavam o próprio direito positivo: usar outros meios
de prova para tentar cristalizar em audiência de julgamento a prova produzida em
fases anteriores, por exemplo, a reconstituição dos factos, cujo resultado negativo,
fazendo prova de que determinado facto não aconteceu da forma descrita, fazia
excluir a possibilidade em causa, e cujo resultado positivo apenas levanta a
probabilidade de ter acontecido da forma reconstituída). Em 2013, houve alterações
legislativas no sentido de possibilitar a leitura ou reprodução de declarações prestadas
pelo arguido sempre que este se remeta ao silêncio, se contradiga ou não esteja
presente na audiência de julgamento. Contudo, será necessário que se preencham três
requisitos que estão presente no art. 357º nº1 al. b) do CPP, para que se possam ler ou
reproduzir as declarações prestadas pelo arguido:
o Quando as declarações tenham sido prestadas perante autoridade judiciária
(ministério público, juiz de instrução criminal e juiz que preside à fase de
julgamento, excluindo-se as declarações prestadas às entidades policiais);
o Quando tenham sido prestadas com assistência do seu defensor (art. 64º nº1
al. b) do CPP);
o Quando tenham sido prestadas após ter sido dada informação ao arguido de
que goza do direito ao silêncio e que se não o exercer, as declarações
prestadas podem ser utilizadas no processo (art. 141º nº4 al. b) do CPP).

Cabe apenas referir, por fim, que, em regra, o interrogatório do arguido é gravado através de
registo áudio ou audiovisual ou ainda documentação em auto quando tais meios não estejam
disponíveis, o que deverá constar do próprio auto (art. 141º n os 7 e 8 do CPP).

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Princípio da Publicidade:
Por um lado, visto por um prisma subjetivo, traduz-se na garantia que é reconhecida ao
arguido, integrando os seus direitos de defesa, enquanto garantias de um processo público e
equitativo como decorre do art. 6º da CEDH e do art. 14º do PIDCP. Por outro lado, visto por
um prisma objetivo, consubstancia-se na forma de assegurar, aos olhos da comunidade, a
regularidade, imparcialidade e confiança na administração da justiça em nome do povo, autor
ideal das decisões judiciais.
Consagra-se expressamente no art. 206º da CRP, indicando-se apenas que vale na fase de
julgamento – o art. 321º do CPP estatui que a inobservância deste princípio da fase de
julgamento comina numa nulidade insanável.
Atenderemos agora ao conteúdo deste princípio e aos seus reflexos: primeiramente, implica a
assistência, pelo público em geral, à realização do debate instrutório e dos atos processuais na
fase de julgamento – art. 86º nº6 al. a) do CPP (contudo, é de excluir do âmbito dos atos
processuais em geral aqueles que se encontrem sob segredo de justiça); em segundo lugar, o
direito de crónica/narração/menção pública dos atos processuais, ou reproduções dos seus
termos, pelos órgãos de comunicação social – art. 86º nº6 al. b) do CPP; por último, a
possibilidade de leitura dos autos e obtenção de cópias de quaisquer partes do processo – art.
86º nº6 al. c) do CPP. Assim, este princípio ilumina de forma mais intensa a fase de julgamento
e, de forma menos intensa, ilumina as fases de inquérito e instrução. Mesmo na fase de
julgamento não é um princípio absoluto, observa certas restrições. A primeira delas coloca-se à
assistência pelo público em geral (art. 87º do CPP), podendo o juiz restringir este livre acesso
quando se presuma grave dano à dignidade das pessoas, à moral pública ou ao normal decurso
do ato (art. 87º nº2 do CPP) – não sendo a regra no nº2, é-o, contudo, no nº3, sempre que o
processo seja por tráfico de pessoas ou crime contra a liberdade e autodeterminação sexual,
não se exigindo sequer despacho do juiz para que a audiência não seja pública; e a segunda
delas coloca-se ao direito de crónica (art. 88º do CPP) – por um lado pretende conjugar-se o
direito de informar e ser informado (arts. 37º e 38º da CRP) e, por outro lado, o direito à
honra, à imagem, à intimidade e reserva da vida privada, ao bom nome – os meios de
comunicação conseguem ter um potencial amplificador da adulteração da imagem,
contribuindo para o “mal do processo” (o Caso Lebach, na Alemanha, julgou culpados dois
soldados por homicídio e, no momento em que iriam ser libertados, uma cadeia televisiva
pretendia exibir um documentário sobre o caso em apreço, ao que ambos se opuseram por
violação do seu direito à ressocialização, atendendo o tribunal ao seu pedido). É permitido aos
órgãos de comunicação social, dentro dos limites da lei, a narração circunstanciada do teor de
certos atos processuais não cobertos por segredo de justiça e a que seja permitida assistência
pelo público em geral (art. 88º nº1 do CPP) – o nº2 do mesmo artigo comporta as devidas
exceções à regra do nº1, sob pena de incorrer em desobediência simples: na al. a) estatui-se a
proibição de reprodução de peças processuais (por exemplo, despacho de pronúncia ou
contestação) ou documentos incorporados no processo, salvo se houver autorização expressa
da autoridade judiciária que presida a essa concreta fase; na al. b), a proibição de transmissão
ou registo de imagens ou tomada de som relativas à prática de atos processuais, salvo se a
autoridade judiciária referida na al. a) autorizar por despacho e, ainda, se a pessoa em apreço
não se opuser ao registo ou transmissão de imagens ou à tomada de som; na al. c), proíbe-se a
publicação da identidade da vítima de crime de tráfico de pessoas ou de crime contra a
liberdade ou autodeterminação sexual, honra ou reserva da vida privada, salvo se a vítima o

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consinta – pretende-se, fundamentalmente, não converter a justiça num reality show,


permitindo-se que os órgãos de comunicação possam assistir a atos processuais considerados
pela lei como públicos, sem que isso signifique uma mediatização desmesurada.
Contudo, as compressões aludidas tornam-se ainda mais evidentes nas fases anteriores à de
julgamento, com o objetivo de proteger o segredo de justiça. A doutrina italiana distingue o
segredo em duas vertentes: segredo interno (impede o conhecimento dos autos pelos próprios
sujeitos processuais (arguido, assistente, partes civis, advogado), pretendendo garantir-se a
eficácia da máquina judiciária impedindo a manipulação ou destruição das provas que servirão
para densificar a suspeita) e segredo externo (diversamente, afasta do conhecimento dos
autos a comunidade em geral, sem prejuízo de se permitir aos sujeitos processuais o acesso
aos mesmos. O que está sobretudo em causa é a proteção da intimidade e reserva da vida
privada, honra, imagem, bom nome do arguido e a proteção da própria vítima, nos
mesmíssimos termos referidos acerca do arguido. Pretende impor-se, também, uma garantia
de solenidade do processo).
Até 2007, nas fases anteriores à audiência de julgamento, o legislador distribuía,
diacronicamente, os momentos onde se verificaria, ou não, o princípio da publicidade:

Fase de Julgamento Totalmente pública, interna e externamente Decorrente


de norma
Fase de Instrução Publicidade interna e segredo externo
geral e
Fase de Inquérito Segredo interno e externo sobre os autos abstrata

Do exposto decorre, contudo, um problema: seria conforme à Constituição privar o arguido de


aceder aos autos, para que os possa impugnar, na fase de inquérito (por exemplo, aplicação da
medida de coação mais gravosa, prisão preventiva)? Assim, o que se permitia era um mero
recurso de direito sem qualquer incidência sobre a matéria de facto, nada mais era do que um
recurso de revista encapotado, uma vez que não se sabia sobre que matéria factual assentaria
a decisão. O Tribunal Constitucional pronunciou-se (v. Ac. 128/97 do TC), julgando
inconstitucional tal solução que dissesse respeito aos despachos. Anos mais tarde, em 2003 e
levantou-se, no âmbito do processo Casa Pia, a questão de saber se, ao poder aceder-se aos
autos para os poder impugnar, se não se poderia também aceder-lhes num momento prévio
ao despacho e não apenas subsequentemente, para poder emendar um possível erro judicial.
Entendeu o Tribunal Constitucional (Ac. 607/2003 e Ac. 416/2003 do TC) que, de facto, tem o
arguido direito a consultar os autos assim que seja ouvido em primeiro interrogatório judicial,
antes da aplicação de qualquer medida de coação (arts. 141º nº4 e 194º n os 4, 6 e 8 do CPP). O
nº8 do art. 194º do CPP, acerca da consulta dos autos, é duplamente limitado – primeiramente
quanto ao objeto (não se podem consultar todos os autos, apenas aqueles que sustentam a
aplicação da medida de coação) e quanto ao tempo (não podem ser consultados ad aeternum,
mas apenas no decurso do interrogatório judicial que preceda à aplicação da medida de
coação e durante o prazo para impugnação do relativo despacho).
Em 2007, eliminou-se o segredo como regra geral para uma fase processual, passando a valer
amplamente o princípio da publicidade – há segredo de justiça quando a sujeição a este seja
feita por uma autoridade judiciária, após uma ponderação concreta. Assim, concretizando:
cabe ao ministério público sujeitar, na fase de inquérito, os autos a segredo de justiça, sempre

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que entenda que os interesses da investigação ou os direitos dos sujeitos processuais o


justifiquem, decisão esta sujeita a validação pelo juiz de instrução criminal, no prazo de 72
horas (art. 86º nº3 do CPP) – uma vez que o ministério público é o dominus da fase de
inquérito e que em causa não estão os direitos fundamentais do arguido, entende Paulo Pinto
de Albuquerque que a norma é inconstitucional por violação do art. 219º da CRP; pelo disposto
no art. 86º nº2 do CPP, não cabe ao ministério público mas antes ao juiz de instrução criminal,
submeter o processo a segredo de justiça na fase de inquérito porque se entende que em
causa já não estará o interesse na perseguição penal mas antes a defesa dos direitos
fundamentais do arguido ou do assistente.
Quando o inquérito for submetido a segredo, sujeita-se a segredo interno e externo, com uma
ressalva: pode suceder que o segredo interno seja levantado quando o prazo máximo de
duração do inquérito seja ultrapassado (art. 89º nº6 do CPP), salvo se o juiz de instrução
criminal, a requerimento do ministério público, adie o acesso aos autos por um período
máximo de 3 meses, podendo ser prorrogado uma única vez quando se trate de criminalidade
muito grave (als. i) a m) do art. 1º do CPP).

1º Prazo Prorrogação
3 meses ?
O Ac. 5/2010 do STJ fixou jurisprudência no sentido de entender que a prorrogação do prazo
de sujeição a segredo de justiça está sujeita a um limite simplesmente relativo. Contudo, não
poderá o arguido aceder a todos os elementos que constem dos autos, podendo estes
contender com elementos de terceiros, violando-se a integridade da vida privada destes (v. Ac.
428/2008 do TC).
Questiona a doutrina se não se terá ido longe demais eliminando o segredo de justiça como
regra, violando o art. 20º nº3 da CRP. Parece, por esta ótica, que se perverte a natureza do
inquérito penal enquanto fase célere e breve (v. especialmente, art. 120º nº3 do CPP) para
investigação da suspeita e sua densificação, segundo a teleologia do CPP, na versão original de
1987. Por força da prática, o inquérito tornou-se uma fase mais alargada, sujeita agora ao
princípio da publicidade e contraditório, sendo, assim, uma espécie de antecâmara que
antecede a fase de julgamento.

Sujeitos Processuais

O processo é uma realidade dinâmica cujo desenvolvimento depende do impulso de pessoas.


Os participantes serão todos aqueles que praticam atos singulares cujo conteúdo processual se
esgota na própria atividade, nas palavras de Maria João Antunes. Já os sujeitos processuais,
segundo Figueiredo Dias, são titulares de direitos (que surgem, muitas vezes, enquanto
poderes-deveres) autónomos de conformação da concreta tramitação do processo como um
todo, em vista da sua decisão final. Beling, no início do século XX, definia como sujeitos
processuais, todos aqueles sem os quais o processo não poderia existir, numa relação de mera
causalidade necessária para a subsistência da relação triádica típica do processo penal. Assim,
podemos apontar como sujeitos processuais, o tribunal/juiz, o ministério público, o arguido, o
assistente, o defensor e as partes civis (estas últimas apenas em sentido formal, adjetivo, uma
vez que não penais).
Desta forma, como se caracterizam as relações entre os sujeitos processuais? Comecemos por

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referir que o nosso processo não é um processo de partes, como sucede noutros
ordenamentos jurídicos, nomeadamente nos sistemas anglo-americanos onde reina o
antagonismo entre defesa e acusação, típico do acusatório puro. O nosso modelo, a contrario
sensu, não se carateriza por esta contraposição referida, servindo como exemplo bastante a al.
a) do nº1 do art. 401º do CPP – “O Ministério Público, de quaisquer decisões, ainda que no
exclusivo interesse do arguido” (acerca da legitimidade para recorrer). É de referir ainda que
não existe disponibilidade sobre o objeto do processo, não se podendo transigir ou desistir
deste. Por último, a produção de prova não incumbe à acusação e à defesa mas também ao
juiz, não se traduzindo num ónus que recai única e exclusivamente na competência do
ministério público.

Juiz/Tribunal:
O estatuto de sujeito processual deste funda-se na prerrogativa do poder judicial (e nunca
legal, político ou negocial) de aplicação de penas – estrito monopólio da função jurisdicional
decorrente do art. 202º da CRP. O texto constitucional garante ao juiz independência e
imparcialidade. Acerca da primeira (art. 203º da CRP), confere-se inteira liberdade ao órgão
judicial, no exercício da função judicativa, sem qualquer tipo de contingentes – independência
face ao poder executivo e face ao poder legislativo e mesmo face ao poder disciplinar,
exercido independentemente pelo Conselho Superior da Magistratura, sendo o juiz inamovível
e irresponsável (art. 216º nos 1 e 2 da CRP). Entre si, os tribunais são também independentes,
não estando vinculados às decisões de outros tribunais salvo em questões de recurso, onde o
tribunal ad quem depende da decisão do tribunal a quo. Os juízes são apenas dependentes
face à lei e ao Direito. No plano fáctico, a sua independência diz-se assegurada pela sua
remuneração, referindo-se que não deverá estar sujeito a quaisquer pressões e devendo
manter uma posição de recato. Acerca da segunda, surge como corolário do princípio da
independência mas, desta vez, acerca da posição do juiz enquanto terceiro face aos factos e
aos intervenientes no processo penal. A imparcialidade é assegurada pelos impedimentos,
recusas (quando pedida pelos sujeitos processuais) e escusas (quando pedidas pelo juiz), todas
enquanto concretizações práticas de suspeitas. Os impedimentos, surgem em elenco taxativo
e operam automaticamente, não se exigindo mais do que a mera aplicação subsuntiva da
norma. Os impedimentos fundam-se na relação do juiz com os intervenientes (art. 39º nº1 als.
a) e b) e nº3 do CPP), quando tiver intervindo no processo de forma ativa (arts. 39º nº1 als. c) e
d) e 40º do CPP) e ainda quando se tiver oferecido como testemunha (art. 39º nº2 do CPP). De
acordo com as várias alíneas do art. 40º do CPP, nenhum juiz pode intervir em julgamento,
recurso ou pedido de revisão relativos a processo em que tenha aplicado medida de coação
sempre que haja “fortes indícios” da prática de crime doloso (v. arts. 200º a 202º do CPP),
sempre que tenha presidido a debate instrutório, participado em julgamento anterior,
participado ou proferido em decisão em que tenha conhecido do objeto do processo e ainda
quando tenha recusado o arquivamento em caso da dispensa de pena, suspensão provisória
do processo ou forma sumaríssima (mecanismos de diversão) ou ainda por discordar da
sanção proposta. As escusas e recusas surgem no art. 43º nº1 do CPP, num elenco meramente
exemplificativo, consubstanciando-se numa cláusula geral, exigindo uma ponderação caso a
caso, concreta, e não uma mera subsunção. Para que haja causa de suspeição, não tem
necessariamente de haver uma falta de imparcialidade por parte do juiz, mas uma aparência
desta, aos olhos da comunidade. Nas recusas, é raro verificar-se a procedência destas porque

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os tribunais superiores dificilmente consideram o motivo invocado pelo sujeito processual


como devidamente fundado para justificar a não intervenção de um juiz no processo.

 Competência dos Tribunais Penais:


O princípio do juiz natural ou legal, plasmado no art. 32º nº9 do CRP, significa que
nenhuma causa pode ser subtraída ao tribunal cuja competência esteja fixada em lei
anterior. Trata-se de um princípio recente, que surge em finais do século XVIII, depois
do absolutismo, período no qual o monarca gozava de especiais prerrogativas de
poder que lhe permitiam avocar a competência sempre que assim o entendesse.
Assim, do supracitado princípio extraem-se três corolários: reserva de lei formal (art.
165º nº1 al. p) da CRP), anterioridade da fixação das competências face ao momento
da prática dos factos ou do momento em que o processo se inicia e, por fim, que essa
fixação seja feita em lei geral e abstrata e não concreta e taxativa – assim, proibição da
definição individual e arbitrária da competência, proibição de criação de tribunais ad
hoc (tribunais de exceção, para uma concreta causa) e proibição do desaforamento
concreto de uma certa causa penal (e, por isso, discricionário). Em relação aos dois
últimos corolários (anterioridade da fixação das competências face ao momento da
prática dos factos ou do momento em que o processo se inicia e, ainda, que essa
fixação seja feita em lei geral e abstrata e não concreta e taxativa) se levantam
maiores críticas – em relação a quê, tem a lei de ser anterior? Taipa de Carvalho
entende que a lei tem de ser anterior à prática do facto, a anterioridade surge
enquanto correlato adjetivo do princípio da irretroatividade. De forma menos rígida,
Figueiredo Dias entende que a anterioridade se reporte a momento anterior à prática
do facto mas, havendo modificações ulteriores à fixação das competências, não serão
inconstitucionais sempre que não sejam concretas e individualizáveis.
 Ordem de Competências estabelecida no CPP – divisão em quatro modalidades:
o Funcional: repartição da jurisdição dos tribunais pelos vários segmentos em
que o processo se divide, pelas suas diversas fases – tribunais de instrução
criminal, tribunais de julgamento, tribunais de recurso e tribunais de execução
de penas; ou por graus – primeira instância, segunda instância e terceira
instância;
o Material: reporta-se ao tipo legal de crime e às causas criminais, considerando
a gravidade da imputação de que cada tribunal é chamado a conhecer, uma
adequação formal do tribunal à gravidade objetivamente considerada. O
primeiro critério de repartição, subjetivo, atende às qualidades do concreto
arguido sujeito a julgamento, à especial dignidade das funções que exerce
(arts. 11º e 12º, mais especificamente, 11º nº3 al. a), nº4 al. a) e 12º nº1 al. a)
do CPP) – este critério não releva na generalidade dos casos. O segundo
critério, objetivo, subdivide-se na sua vertente qualitativa (atende-se ao
concreto tipo legal, à sua natureza – critério regra) e na sua vertente
quantitativa (atende-se à moldura penal estabelecida). O critério subjetivo
prevalece sobre o objetivo, não sendo regra (art. 12º nº3 al. a) do CPP) mas
sim exceção. Dentro da competência material, podemos distinguir três
categorias de tribunais:

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 Tribunais Singulares (art. 16º do CPP): encontra consagração expressa


do critério objetivo qualitativo (art. 16º nº2 al. a) do CPP – arts. 347º a
358º do CP (pode ultrapassar-se o limite estabelecido na al. b) do nº2
do art. 16º do CPP). Contudo, na al. b) do nº2 expressa-se o critério
objetivo quantitativo, ou seja, o tribunal singular é também
competente para julgar crimes cuja moldura penal abstrata seja igual
ou inferior a 5 anos de prisão. No nº1 estabelece-se ainda que estes
têm uma competência residual/subsidiária – “julgar os processos que
por lei não couberem na competência dos tribunais de outra espécie”.
No nº3 surge-nos uma determinação concreta da competência,
indicando que o tribunal singular é competente para julgar os
processos por crimes puníveis com pena de prisão superior a 5 anos,
quando o ministério público entenda, na acusação ou requerimento, e
de forma concreta, que não deva ser aplicada pena de prisão superior
a 5 anos, mesmo que essa competência recaísse sobre aquela dos
tribunais coletivos (v. infra). Aparentemente, esta norma parece
violadora do princípio do juiz natural ou legal, uma vez que este
princípio impõe que a competência seja fixada de forma geral e
abstrata. Contudo, o Tribunal Constitucional pronunciou-se sobre a
validade desta norma, indicando que não é violadora do princípio
referido, uma vez que ainda é a lei a atribuir a competência, limitando-
se o ministério público a concretizá-la quando preenchidos os
requisitos para que tal aconteça. Não se viola o núcleo essencial do
princípio porque apenas se modifica a competência material,
mantendo-se a competência territorial, não havendo qualquer
desaforamento. Por fim, no nº4, que se reporta ao nº3, parece impor-
se uma vinculação ao tribunal acerca da aplicação de pena de prisão
nunca superior a 5 anos. Assim, parece que a norma colide com o
núcleo essencial do princípio da reserva da função jurisdicional e do
monopólio da função judicativa dos tribunais, parece que o poder de
cognição destes se encontra limitado não pela lei mas pelo ministério
público. O Tribunal Constitucional entendeu que a norma não é
inconstitucional por violação deste princípio, uma vez que os tribunais
estão sempre limitados a decidir dentro das molduras penais abstratas
fixadas na lei e, pela atribuição da titularidade da ação penal ao
ministério público, está a própria lei a delimitar o objeto do processo
que, por sua vez, será correspondente ao escopo do tribunal.
Pode ainda recorrer da decisão final condenatória o arguido, ou o
ministério público no interesse do primeiro ou ainda o arguido e o
ministério público, agindo o segundo no interesse do primeiro,
proibindo-se a reformatio in pejus (art. 409º do CPP) – “o tribunal
superior não pode modificar, na sua espécie ou medida, as sanções
constantes da decisão recorrida, em prejuízo de qualquer dos arguidos,
ainda que não recorrentes”;

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 Tribunais Coletivos (art. 14º do CPP): a estes competem julgar de


todos os processos que recaiam sob a competência dos tribunais de
júri (v. infra), de escopo mais estreito. Assim, no nº1 e na al. a) do nº2
estabelece-se o critério objetivo qualitativo e, na al. b) do nº2,
estabelece-se o critério objetivo quantitativo;
 Tribunais de Júri (art. 13º do CPP): historicamente ligados às
revoluções liberais e à participação democrática na administração da
justiça. Entre nós, esta vertente não tem um peso muito significativo –
tem-no apenas quando em causa estejam crimes puníveis com pena
de prisão superior a 8 anos (art. 13º nº2 do CPP – critério objetivo
quantitativo) e crimes previstos e punidos pelos arts. 236º a 246º e
308º a 346º do CP e ainda aqueles contidos na Lei Penal Relativa às
Violações do Direito Internacional Humanitário, a Lei nº 31/2004, de
22 de Julho (consagração do critério objetivo qualitativo). É necessário
requerimento do arguido, do assistente ou do ministério público para
que a competência de julgar pertença ao tribunal de júri.
No caso de crimes de terrorismo e de criminalidade altamente
organizada, o tribunal de júri não é competente, pela possibilidade de
intervenção das organizações criminosas sobre os jurados, correndo
estes sérios riscos.
Estes tribunais são compostos por 3 juízes do coletivo, 4 jurados
efetivos e 4 suplentes – contudo, todos devem assistir a todas as
sessões de julgamento (reflexo do princípio da imutabilidade do juiz e
do princípio da concentração) – a composição é regulada pelo DL nº
387º-A/87, de 29 de Dezembro. Por fim, os jurados devem pronunciar-
se acerca de todas as questões, acerca a culpabilidade e da medida
concreta da pena, decidindo por maioria.
o Territorial: rege-se pelo disposto nos arts. 19º e ss. do CPP e visa a
comodidade no levantamento de material probatório sendo, em princípio,
competente o tribunal da área da consumação do crime (art. 19º nº1 do CPP –
tratando-se de crime material ou de resultado, releva o local onde se verificou
o resultado típico). A esta regra surge a exceção do art. 19º nº2 do CPP, onde
se refere a crimes que compreendam como elemento do tipo a morte de uma
pessoa, estabelecendo como competente o tribunal em cuja área o agente
atuou ou, em caso de omissão, deveria ter atuado – especialmente relevante
nos casos de atropelamento do quais decorra a morte de uma pessoa, num
dos hospitais centrais, em local diverso daquele de onde se verificou a conduta
conducente ao referido resultado. No nº3 do art. 19º do CPP, referente a
crimes de execução fracionada e permanentes, é competente o tribunal da
área onde se tiver praticado o último ato ou tiver cessado a consumação. Por
fim, no nº4 do art. 19º do CPP, acerca de crimes sob a forma tentada, é
competente o tribunal da área onde o agente tenha praticado o último ato de
execução ou, sendo puníveis, o último ato preparatório.
o Por Conexão: reconduz-se às situações em que o agente tenha cometido
vários crimes ou quando existam diversos crimes com uma conexão material

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entre eles. Explica-se a existência desta modalidade de competência (na


verdade um desvio às modalidades supra) por razões de economia processual
(um só processo e um só julgamento) e por razões de boa administração da
justiça (aproveitamento do material probatório tendente a uma boa decisão,
materialmente não contraditória). Assim, pode dar-se o caso de se verificar
uma conexão originária, sempre que os fundamentos para que tal aconteça
sejam verificados ab initio, existindo desde logo um só processo e, por outro
lado, podemos estar perante uma conexão superveniente sempre que os
fundamentos para que tal aconteça se verifiquem depois de iniciados os
processos, dando-se posteriormente a sua apensação. Pode ainda haver
conexão subjetiva sempre que exista a mesmidade do agente
independentemente de haver conexão material entre os crimes ou, por outro
lado, conexão objetiva, referente à relação existente entre os diferentes
delitos, independentemente de existir ou não pluralidade de agentes.
Regem os arts. 24º nº1 als. a) e b) do CPP acerca da conexão subjetiva – não
há, em caso algum, conexão apenas subjetiva, exige-se uma certa ligação entre
as infrações, por exemplo, vários crimes cometidos pela mesma ação ou
omissão (situações de concurso de crimes), materialmente ligados (ligados
temporal ou espacialmente, podendo até verificar-se uma ligação
consequencial entre os crimes e ainda aqueles que se limitam a complementar
ou ocultar outro, por exemplo, furto e recetação, fraude fiscal e
branqueamento de capitais e, em certas situações, roubo seguido de
homicídio). O art. 24º nº1 als. c), d) e e) do CPP trata, por sua vez, da conexão
objetiva, referindo-se às situações de comparticipação ou mesmo a situações
onde haja pluralidade de crimes e de agentes mas entre eles se verifique
alguma ligação material.
Havendo concurso de crimes, é aplicada uma só pena, apesar de não existir
um único processo. A respeito desta situação rege o art. 471º do CPP,
estatuindo que a competência de determinação da pena única é atribuída ao
tribunal que proferiu a última decisão – se este não for materialmente
competente, atribui-se a competência ao tribunal competente da comarca da
última condenação.


Homicídio – pena de 10 anos de Neste caso, a competência é
prisão atribuída ao tribunal coletivo (não
podendo ser atribuído ao tribunal
Competência do tribunal coletivo singular por não preencher nem o
da comarca de Lisboa critério da al. a) nem da al. b) do
nº2 do art. 16º do CPP) da

comarca do Porto (tribunal da
Furto – pena de 4 anos de prisão
última condenação), para que
Competência do tribunal singular este determine a pena única a
da comarca do Porto aplicar ao concurso de crimes
referido.

Francisco Godinho 40

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1º Neste caso, a competência é atribuída ao


Furto – pena de 4 anos de prisão tribunal coletivo (pelas regras do cúmulo
jurídico, apesar de cada um dos crimes,
Competência do tribunal singular individualmente apreciado, compita a um
da comarca de Lisboa
tribunal singular, a pena aplicável será de 8
anos de prisão, não se enquadrando no
2º limite da al. b) do nº2 do art. 16º do CPP nem
Furto – pena de 4 anos de prisão nos casos da al. a) do mesmo número e
artigo) da comarca do Porto (tribunal da
Competência do tribunal singular última condenação), para que este
da comarca do Porto determine a pena única a aplicar ao concurso
de crimes referido.

Pode acontecer que por força da conexão se tenha de alterar as regras de


competência: no art. 27º do CPP, acerca da competência material e funcional,
estatui-se que, por força da apensação de processos, será competente para
todos eles o tribunal de hierarquia (instâncias) ou espécie (de júri, coletivo,
singular – por ordem decrescente de gradação em espécie) mais elevada.
Acerca da competência territorial temos, por fim o art. 28º do CPP.
Contudo, estabelecem-se limites à conexão, plasmados no art. 24º nº2 do CPP
– a conexão não opera quando os processos se encontrarem em diferentes
fases; no art. 26º do CPP – sempre que um dos processos seja de competência
do tribunal de menores e o outro não seja, os processos não podem ser
apensados e a conexão não opera; e ainda nos termos do art. 46º do Regime
Geral das Infrações Tributárias (RGIT), do art. 113º do Código de Justiça Militar
e do art. 42º da Lei 43/87, de 16 de Julho, pela especial titularidade do cargo
dos agentes.
Como inconvenientes temos, primeiramente, a formação de processos de
enorme dimensão, a existência de diversos incidentes e ainda a possibilidade
de prescrição do processo. Para evitá-los, a lei pode determinar a separação
dos processos, nos termos do art. 30º do CPP – quando em causa esteja a
pretensão punitiva do Estado (sempre que esteja iminente a prescrição),
quando estiverem em causa os direitos do arguido, do ofendido ou do lesado
ou, por exemplo, quando a conexão retardar excessivamente o julgamento de
qualquer dos arguidos. Quando seja ordenada a separação dos processos,
mantém-se, em princípio, a competência anteriormente fixada em conexão,
prorroga-se a competência (art. 31º do CPP) – perpetuatio iurisdictione – em
todos os casos exceto quando um dos arguidos requeira intervenção do
tribunal de júri e os outros co-arguidos não o pretendam (art. 31º al. b) do
CPP, a contrario).

Francisco Godinho 41

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Ministério Público:
Trata-se de uma magistratura com estatuto de autonomia, que age pautada por critérios de
legalidade e objetividade, sendo os seus agentes magistrados hierarquicamente subordinados
(art. 219º da CRP e art. 53º do CPP). O ministério público colabora com o tribunal na
descoberta da verdade, competindo-lhe dirigir a fase de inquérito, orientando as diligências de
prova a efetuar na referida fase ainda que por ele não sejam diretamente realizadas mas sim
através dos órgãos de polícia criminal. Cabe-lhe ainda deduzir acusação e sustentá-la em juízo
(salvo quando se trate de crimes particulares em sentido estrito) e interpor recursos ainda que
no interesse da defesa (art. 413º nº1 al. a) do CPP). Como referido, certos atos desenvolvidos
em inquérito não são efetuados diretamente pelo ministério público mas sim pelos órgãos de
polícia criminal que têm uma dependência funcional (arts. 56º e 263º nº2 do CPP) face ao
primeiro e uma autonomia organizatória e institucional (v. art. 1º al. d) do CPP). Existem assim
órgãos de polícia criminal com competência genérica (GNR, PSP e PJ) e com competência
específica (ASAE, AT e SEF). Nos termos dos arts. 248º e ss. do CPP, cabe aos órgãos de polícia
criminal proceder a medidas cautelares quanto aos meios de prova, mesmo antes de
receberem ordem da autoridade judiciária competente para que se iniciem as investigações,
ou seja, mesmo antes da comunicação da notícia de crime ao ministério público. A
dependência funcional traduz-se, em suma, na possibilidade de o ministério público conduzir a
investigação dando as ordens necessárias e, em última instância, pode até avocar essa
possibilidade, encabeçando todas as diligências.

Arguido:
Na letra da lei não se encontra uma definição precisa, como sucede com a figura do “suspeito”
(art. 1º al. e) do CPP), mas antes são definidos os pressupostos que dão lugar aos momentos
de aquisição do estatuto de arguido (arts. 57º, 58º e 59º do CPP). No art. 58º do CPP, referem-
se as situações em que a constituição como arguido é obrigatória, com base na fundada
suspeita de prática de um crime, nas situações em que haja fundado motivo para restrição dos
seus direitos, entre outras situações. Assim, a constituição como arguido é uma garantia que
assiste à pessoa, conferindo-lhe o direito a ser devidamente informado e a recorrer, por
exemplo. Do ponto de vista social, da posição de quem está sob a suspeita, para evitar o
estigma injustificado, circunscreveram-se os casos em que a pessoa se deve constituir arguida
(v. as expressões “suspeita fundada” (art. 58º nº1 al. a) do CPP) e “salvo se a notícia for
manifestamente infundada” (art. 58º nº1 al. d) do CPP)). No art. 59º do CPP aparecem
enunciadas outras situações onde se dá a constituição como arguido – no nº1 referem-se os
casos em que, após a inquirição de testemunha, surja fundada suspeita de crime por ela
cometido e, no nº2, situações em que, caso sobre determinada pessoa recaia suspeita simples
(não necessita de ser fundada) de ter cometido um crime, assiste à mesma o direito de se
constituir, a seu pedido, como arguida. A pessoa sobre quem recai a suspeita é constituída
arguida pelo menos no despacho de acusação, caso não o tenha sido antes (art. 57º nº1 do
CPP). Caso o processo seja arquivado, não se torna necessária a constituição com arguido; e
assume a qualidade de arguido todo aquele contra quem foi requerida abertura de instrução
(art. 57º nº1, in fine, do CPP). Contudo, a constituição como arguido não opera oper legis, é
necessário que se cumpra um formalismo: a constituição como arguido dá-se através da
comunicação feita ao visado por um órgão de polícia criminal que deve explicitar os direitos e
deveres que lhe passarão a caber (art. 58º nº2 do CPP, valendo para os arts. 57º e 59º do CPP),

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sendo comunicada à autoridade judiciária no prazo de 10 dias para que possa ser validada (art.
58º nº3 do CPP, valendo para os arts. 57º e 59º do CPP). A preterição das formalidades
invocadas determina a proibição de valoração das declarações prestadas pela pessoa visada
(art. 58º nº3 do CPP, valendo para os arts. 57º e 58º do CPP).

Defensor:
Trata-se de um sujeito processual porque não é um mero representante judiciário do arguido,
é um órgão de administração da justiça, agindo no exclusivo interesse do arguido. É-o ainda
porque intervém mesmo contra a vontade do arguido ou nas situações em que este perca o
interesse em defender-se (por exemplo, por se encontrar fragilizado na posição de imputado).
Em processo penal existe proibição de autodefesa e há certos atos em que é obrigatória
assistência do defensor – art. 64º do CPP – situações em que a posição do arguido, pelas suas
qualidades ou pela natureza da situação em que se encontra, seja de maior fragilidade (art.
64º nº1 als. a), c) e d) do CPP); situações em que para a prática de certos atos seja necessário
possuir conhecimentos técnicos (art. 64º nº1 al. e) do CPP); e ainda sempre que forem
praticados atos com eficácia probatória (art. 64º nº1 als. b), f), g) e h) do CPP). No art. 61º nº1
als. e) e f) do CPP (v. também art. 32º nº3 da CRP) vem plasmado o direito que ao arguido
assiste de constituir advogado e de ser assistido por defensor em todos os atos processuais em
que participar. Ainda a este respeito cabe referir as normas dos arts. 143º nº4 e 179º nº2 do
CPP acerca da incomunicabilidade com qualquer pessoa, enquanto detido, exceto com o
defensor e, ainda, a proibição de escutas telefónicas ou qualquer outra forma de
correspondência entre arguido e defensor, salvo se o juiz tenha fundadas razões para crer que
constituem objeto ou elemento de um crime. De acordo com o art. 65º do CPP, cada arguido
pode ter mais do que um defensor e vários arguidos podem ter um só defensor.

Assistente:
A figura do assistente é uma particularidade do direito processual penal português que traduz
a preocupação do legislador para com a vítima, consubstanciando-se na conformação efetiva
da marcha processual (art. 32º nº7 da CRP). O conceito translato de vítima abrange sob a sua
vastidão o ofendido em sentido próprio, titular do bem jurídico atingido (art. 113º nº1 do CP) e
o lesado (que não se pode constituir como assistente quando não seja cumulativamente
ofendido e lesado), conferindo-lhes legitimidade para se constituírem como assistente. No art.
68º nº1 als. c) e d) do CPP apontam-se as situações de morte ou incapacidade do ofendido,
paralelamente aos termos que recobrem a mesma temática quanto ao direito de queixa. Na al.
e) do nº1 do art. 68º do CPP, pela gravidade da infração e pela especial natureza desta, dá-se
uma extensão legal do direito de constituição como assistente, sendo especialmente útil
qualquer contributo ou colaboração de qualquer pessoa. Existe ainda uma extensão, desta vez
por via jurisprudencial, referente a crimes que atinjam bens jurídicos supraindividuais (Acs.
1/2003, 2/2005 e 8/2006 do STJ). No art. 69º do CPP regula-se o estatuto do assistente
enquanto colaborador do ministério público, salvo os casos previstos na lei (ou seja, nos
crimes particulares em sentido estrito onde se exige acusação particular por parte do
assistente, sendo a possível acusação do ministério público meramente subsidiária face à
primeira). O assistente é sempre representado por advogado (art. 70º nº1 do CPP), que não é
um sujeito processual, mas um mero representante judicial cujos poderes e direitos não são
equiparados aos do defensor que pode até agir contra a vontade do arguido ou quando este
não manifeste qualquer vontade de se defender.
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Partes Civis:
São sujeitos processuais apenas do ponto de vista formal, uma vez que a sua natureza não é
penal. Assim, como deverá proceder-se quanto ao tratamento juridico-processual desta figura
e como deve atender-se à natureza substantiva da reparação/indemnização aplicável à vítima
(em sentido translato, como referido supra)? Desta forma, quanto à questão do tratamento
juridico-processual, duas vias surgem: a primeira, de total independência entre pretensão civil
e penal (formula-se o pedido no tribunal competente e em separado), prejudicando a
economia processual uma vez que o mesmo facto está a ser apreciado em dois processos
distintos; a segunda, que entre nós vigora, é a via da interdependência ou de adesão
(obrigatória) (art. 71º do CPP), que se traduz no facto do pedido de indemnização civil fundado
na prática de um crime ser deduzido no processo penal respetivo, salvo casos excecionais .
Aparentemente, poderia haver um paralelismo com o princípio da suficiência do art. 7º do
CPP, situação que não se verifica uma vez que o pedido cível não é uma questão prejudicial, da
sua decisão não depende o desfecho da causa principal. Através da adesão obrigatória evita-se
os inconvenientes de julgamentos possivelmente contraditórios entre si, garante -se a
economia processual quanto à questão de facto, protege-se a vítima conferindo-lhe, sem
implicação de pagamento de taxa de justiça inicial, a possibilidade de deduzir pedido cível
dentro do próprio processo penal. Contudo, no art. 72º do CPP, consagram-se exceções ao
princípio de adesão, consubstanciando-se em situações em que é possível o pedido em
separado, em ação autónoma: sempre que se trate de crime semi-público ou particular em
sentido estrito (art. 72º nº1 al. c) do CPP), o que no fundo parece traduzir uma certa
descriminalização por via adjetiva sempre vez que o pedido cível seja intentado previamente
em separado, optando o ofendido ou o lesado pelo ressarcimento ou pela pretensão punitiva
(esta nota diz respeito, firmando o que atrás foi referido, apenas às situações em que o
procedimento criminal dependa de queixa ou de acusação particular e o pedido cível seja
intentado previamente, valendo como renúncia ao direito de queixa, nos termos do nº2 do art.
72º do CPP); quando o processo penal não tenha conduzido à acusação nem suspensão
provisória no prazo de 8 meses a contar da notícia de crime ou mesmo quando nem sequer
tenha havido qualquer andamento nesse lapso temporal (art. 72º nº1 al. a) do CPP) – não faz
qualquer sentido que o ofendido ou lesado tenha de aguardar pelo fim do processo para ver
ressarcidos os seus danos; admite-se ainda que o pedido cível seja deduzido em separado
sempre que haja responsáveis que o sejam apenas no plano civil e não no plano penal em
sentido próprio, ou seja, concretizando, nas situações de homicídio negligente causado por
condução, no plano civil não se encontra o arguido mas sim a seguradora, a quem cabe a
legitimidade passiva nestas situações (já no plano penal, claramente, a responsabilidade
caberá ao arguido).
Respondendo agora à segunda parte da questão inicialmente colocada, acerca da natureza
substantiva da reparação, dita o art. 129º do CP que deve esta ser regulada pela lei civil
remetendo, assim, para os arts. 483º e ss do CC. Do exposto decorrem alguns corolários: os
critérios substantivos da lei civil podem levar a resultado distinto daquele que a que os
critérios da lei penal conduzam (pode haver absolvição do arguido no caso de crime de dano,
extinguindo-se a responsabilidade criminal deste mas, contudo, pode ter de pagar uma certa
indemnização ao lesado ou ofendido em questão); o pedido cível é enxertado na ação penal,
fazendo-se certas concessões a favor deste – vale, no geral, o princípio do pedido e limitação
deste, ou seja, o tribunal não pode condenar o arguido a pagar uma quantia a título de

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indemnização quando o ofendido ou lesado não o faça, bem como não pode condenar o
arguido a pagar uma quantia a título de indemnização em valor superior àquele que foi pedido
pelo ofendido ou lesado; pode desistir-se ou transigir-se do pedido cível; não há despacho
saneador nem pedido reconvencional; a decisão quanto ao pedido cível forma caso julgado,
não podendo o ofendido ou lesado insatisfeito intentar uma nova ação (art. 84º do CPP).
No art. 82º-A do CPP aparece-nos regulado uma reparação de regime dissonante daquelas
anteriormente referidas. Este artigo abre via para o tribunal, oficiosamente e sempre que haja
condenação, arbitrar uma quantia a título de reparação pelos prejuízos causados. Contudo,
apenas opera quando especiais exigências de proteção da vítima assi m o imponham. Remete-
se do art. 67º-A do CPP onde se define vítima como “a pessoa singular que sofreu um dano,
nomeadamente um atentado à sua integridade física ou psíquica, um dano emocional ou
moral, ou um dano patrimonial, diretamente causado por ação ou omissão, no âmbito da
prática de um crime; os familiares de uma pessoa cuja morte tenha sido diretamente causada
por um crime e que tenham sofrido um dano em consequência dessa morte” para o art. 130º
do CP onde, no nº1, há referência à possibilidade do Estado assegurar a indemnização devida
pela prática do crime sempre que não possa ser satisfeita pelo agente (v. Lei 104/2009, de 14
de Setembro). Na prática, o âmbito é extremamente reduzido porque raramente se
preenchem os requisitos para que se possa recorrer a esta modalidade de reparação. O nº2 e o
nº3 do art. 130º do CP ainda regulam as possibilidades de sub-rogação do Estado no direito do
lesado à indemnização até que o montante esteja satisfeito. De todo o exposto podemos
concluir que se encontra intimamente ligado com o paradigma da justiça restaurativa como
terceira via da pretensão penal, podendo cumprir, também, exigências de prevenção geral e
especial, completando os fins das penas e contribuindo para a ressocialização do agente.
Por fim, nas situações de burla qualificada, furto qualificado e dano qualificado, tratando-se de
crimes públicos que contendem com bens jurídicos patrimoniais, o art. 206º nº1 do CP estatui
que nestes casos extingue-se a responsabilidade criminal, mediante acordo entre arguido e
ofendido, após a restituição da coisa furtada ou ilegitimamente apropriada ou reparação
integral dos prejuízos causados.

Objeto do Processo

De forma sucinta, trata-se do quid sobre o qual incide a investigação e o julgamento. O objeto
encontra-se intimamente ligado ao princípio da acusação, em três distintas vertentes: o
tribunal não tem iniciativa de investigação; a atividade judicativa depende de prévia acusação
deduzida por entidade distinta daquela que julga (ou seja, a acusação é pressuposto/fator
desencadeador da atividade judicativa); não apenas a acusação é o pressuposto formal do
julgamento como também fixa e delimita o objeto sobre o qual irá incidir o juízo (o thema
decidendum é fixado e delimitado pelo thema probandum), evitando-se, assim, surpresas para
o arguido que, a contrario, poderia ser alvo de imputação de factos que não constassem da
acusação – do exposto resulta que o objeto e o princípio da acusação que a ele se liga
determinam o se, como e quando da atividade judicativa, delimitando os poderes de cognição
do tribunal. Para finalizar esta exposição inicial, introduzem-se ainda dois outros conceitos
ligados estreitamente ao objeto do processo: a litispendência (estar pendente num outro
tribunal um processo idêntico) e o caso julgado (saber o que fica ou não consumido por este,
concretização do princípio ne bis in idem – art. 29º nº5 da CRP).

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Assim, será que o objeto do processo é o mesmo nas três situações destacadas? A este
respeito, diversas respostas surgiram na doutrina:

 Tese Minoritária (Karl Peters): o autor em apreço defende uma tese diferenciada
do objeto – o âmbito deve ser distinto consoante os momentos em que o objeto é
analisado, sofrendo estreitamentos sucessivos ao longo das fases, conferindo uma
natureza ampla e dinâmica ao objeto. Valoriza Peters, portanto, as finalidades da
investigação e descoberta da verdade material.

Cognição
Caso Julgado

Aquilo que, considerando as possibilidades


fácticas, poderia o tribunal ter conhecido, não
ficando consumido pelo caso julgado, não
ficando provado ou o que não caberá, por
exemplo, na competência do tribunal mas que
até cabe nos poderes de cognição deste.

 Tese Dominante – conceito unitário de objeto: de acordo com esta orientação, o


objeto não deve sofrer sucessivos estreitamentos, mantendo-se o mesmo para
efeitos de cognição e consunção pelo caso julgado. Assim, a problemática
subdivide-se em três subprincípios:
o Princípio da Identidade: deve o objeto manter-se o mesmo desde a acusação
até ao trânsito em julgado da sentença – o âmbito daquilo que é acusado,
conhecido e decidido é idêntico;
o Princípio da Unidade ou Indivisibilidade: o objeto deve ser conhecido de forma
total e indivisível, não podendo a acusação pretender um conhecimento
apenas parcial deste – os poderes de cognição do tribunal devem estender-se
a todos os elementos do processo, ainda que não constem do despacho de
acusação mas que se mantenham dentro dos seus contornos;
o Princípio da Consunção: o efeito preclusivo do caso julgado estender-se-á a
todas as questões traçadas pelo princípio da identidade e que, assim, integrem
o objeto do processo, tendo-se como irrepetivelmente decididas mesmo que
não apreciadas pelo tribunal.

Os princípios da unidade ou indivisibilidade e o da consunção são face e reverso da


mesma moeda – o primeiro perspetiva o conhecimento a realizar (deve conhecer-se de
tudo o que integre o objeto), enquanto que o segundo tem o seu enfoque no
conhecimento realizado (o tribunal conheceu não só aquilo que realmente conheceu
como ainda aquilo que deveria ter conhecido, mesmo que não o tenha feito.

Desta forma, segundo o princípio da identidade o objeto deve manter-se o mesmo desde a
acusação até ao trânsito em julgado da decisão, estando o tribunal vinculado aos limites que a
acusação consubstancia, permitindo-se ligeiras flexibilizações fruto de apuramentos ou
pequenas alterações ao escopo traçado por esta.

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 Qual o critério de identidade do objeto? – supõe-se, assim, identidade em dois


prismas:
o Subjetivo: tratar-se do mesmo arguido;
o Objetivo: tratar-se do mesmo crime.
Para aferir da identidade objetiva, não nos referimos apenas ao mesmo tipo legal,
pode dar-se o caso do tipo legal ser o mesmo e o crime ser diferente ou,
contrariamente, ser diferente o tipo legal e termos o mesmo crime – concretizando,
pode haver erros de qualificação no despacho de acusação (o despacho acusa por um
crime de furto; o tribunal condena o arguido por roubo; desta forma temos o mesmo
crime, assentando nos mesmíssimos facto traçados pela acusação, mas o fator decisivo
não é o tipo legal mas antes a materialidade dos factos – em suma, mesmo crime e
diferente nomen iuris).
 Pelo prisma objetivo, avançam-se diferentes teses acerca da identidade do objeto:
o Tese Naturalista (Beling e Cavaleiro de Ferreira): o critério de identidade do
objeto do processo é a unidade do facto histórico, a conexão naturalística
entre os factos e as regras normais da experiência, desligado de quaisquer
critérios valorativos ou normativos, apenas afeto a critérios fácticos. Dentro
desta orientação, contudo, o polo aglutinador do acontecimento histórico
diverge – para uns será a conduta (todos os factos que integrem uma mesma
conduta, integrarão o mesmo objeto), para outros será o resultado e para
outros, ainda, será a concreta intenção (o elemento subjetivo do crime). Este
critério, devido à sua elevada fluidez e maleabilidade, acaba por cair num
excessivo casuísmo resultando, por ser tão vago, na possibilidade de colocar
dentro deste aquilo que bem se pretenda;
o Tese Normativista (Eduardo Correia): para este autor, o crime é uma conduta
humana referente a valores e com relevância face a estes traduzindo-se,
assim, na negação de valores juridico-criminais vazados nos tipos legais
existentes. Desta forma, os critérios que distinguem a unidade da pluralidade
de crimes devem ser os mesmos para responder ao problema da unidade ou
pluralidade do objeto do processo. Sob a ótica processual, o objeto será
definido pela concreta e hipotética violação juridico-criminal acusada (aos
factos da acusação somam-se aqueles em estreita conexão com o tipo legal).
Há, assim, diferentes situações reconduzíveis a unidades normativas por se
encontrarem em relações de hierarquia, especialidade, consunção ou
alternatividade – ou seja, pode haver o preenchimento de diferentes tipos
legais sem que com isso seja cometido mais do que um crime – situação de
concurso aparente, legal ou de normas – mantém-se o objeto, dentro dos
limites que o tribunal pode e deve conhecer. Nas situações de crime
continuado (situação de concurso efetivo em que se viola múltiplas vezes o
mesmo tipo legal ou diferentes tipos legais que tutelem o mesmo bem
jurídico, tendo de ser realizados de forma tendencialmente homogénea, sendo
o desvalor da ação idêntico, aproveitando-se o agente de um elemento
facilitador externo-objetivo que diminui consideravelmente a culpa do
agente), funde-se a pluralidade numa unidade, pelas razões apontadas dentro
de parêntesis e, dessa forma, as condutas agora tratadas unitariamente
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corresponderão, no plano adjetivo, a um só objeto do processo. Acerca dos


crimes complexos, como o roubo (resulta da aglutinação de crimes diferentes:
furto e ameaça, furto e ofensas à integridade física, furto e homicídio), pode o
tribunal conhecer, julgar e condenar pela ameaça, pelas ofensas à integridade
física ou pelo homicídio, caso não se prove o furto (pela coisa não pertencer ao
ofendido pelos crimes que expressem o “meio de violência” caraterístico do
roubo), apesar de existir um polo comum aglutinador dos elementos referidos
acima.
Eduardo Correia refere certos alargamentos excecionais que extravasam o
objeto, por razões de economia processual. Nas situações de concurso ideal
(onde o agente, através da mesma ação ou omissão, comete diversos crimes),
defende o autor que a cognição pelo tribunal da violação de outras normas
que não as vertidas no corpo da acusação e que com estas não estejam em
relação de hierarquia, devem ser tratadas em conjunto, sempre que a
realidade imputada venha a reconduzir-se aos factos naturalísticos descritos –
ou seja, a parte não recoberta pela acusação fica não precludida pelo caso
julgado nem, consequentemente, pelo ne bis in idem, podendo ser julgada em
processo autónomo.
Contudo, a esta construção se colocam diversas críticas. De ordem
metodológica, Castanheira Neves aponta um acentuado dogmatismo
unilateral que, pretendendo superar o naturalismo da construção de Beling e
Cavaleiro de Ferreira, acaba por cair num normativismo exacerbado – a
realidade é apreciada apenas para a subsunção e para o “jogo” entre tipos
legais – nas palavras do autor o momento material mais não seria do que um
facto fungível de subsunção legal. Castanheira Neves aponta ainda, desta vez
de um ponto de vista material, outras críticas à tese em apreço, referindo que
a construção de Eduardo Correia se consubstancia numa flagrante violação do
princípio da acusação, permitindo ao tribunal o conhecimento de
factualidades não vazadas no texto da acusação – concretizando, no
supracitado caso do crime complexo e pela tese de Eduardo Correia, seria
possível na situação de roubo que, não se provando o furto, o tribunal pudesse
conhecer das ofensas à integridade física como elemento violento deste tipo
legal. Em suma, Eduardo Correia permite o alargamento dos poderes de
cognição do tribunal para além dos contornos do objeto como se pudesse
postergar-se o princípio da acusação e os direitos de defesa em honra a
interesses funcionalistas (entenda-se economia processual e aproveitamento
do material probatório), no entendimento crítico de Castanheira Neves.
o Tese Fenomenológica/do pedaço de vida (Figueiredo Dias): com esta
construção pretende o autor recobrir o momento fáctico sem deixar de fazer
apelo ao elemento normativo. Assim, segundo Figueiredo Dias, o objeto é a
realidade socio-existencial concreta que consubstancia, assim, o pedaço de
vida vertido no texto da acusação. Desta forma, pode imaginar-se a acusação
como um esboço que, mais tarde, dará origem a um quadro, a uma obra
finalizada – este esquisso não poderá assemelhar-se a um retrato e, na versão
final, se transformar numa natureza morta, o que não impede, contudo, que

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na audiência de julgamento surjam novos factos que modelem este esboço.


Para este autor o critério de identidade do objeto é integrado pelo conjunto
de factos em conexão natural, à luz de todas as relações juridico-sociais, ou
seja, os factos não valem por si mesmos mas sim quando apreciados
valorativamente. Começando por uma valoração jurídica, cabe referir os
valores vertidos nos tipos legais que valem como protetores dos bens jurídicos
em questão (assim, contrariamente ao que afirma Eduardo Correia, não pode
uma acusação por roubo transmutar-se numa por ofensas à integridade física
– critério do bem jurídico). Por outro lado, atendendo a uma valoração social,
o juízo de valor comunitário não deve divergir do momento da acusação para
o momento do julgamento (se no texto da acusação estiver descrito o crime
de furto de um colar de bijuteria e, no decurso do julgamento se apurar que o
objeto furtado é na verdade um colar de diamantes, apesar de haver uma
relação fáctica/material que se traduz na violação do mesmo bem jurídico, a
valoração social conduzirá a resultados diversos). Em suma, haverá um duplo
juízo: ao nível fáctico (os factos da acusação serão os factos em que assentará
a decisão) e ao nível normativo (atendendo à valoração social vertida em cada
tipo legal e o correspondente leque de factualidades que nele se integram sem
extravasar o critério do bem jurídico referido supra).
 O que nos demonstra a lei acerca desta temática?
Começando por expor a problemática pela negativa, a lei não responde à questão de
saber aquilo de que pode conhecer o tribunal, não delimita o âmbito consuntivo do
caso julgado. Contudo, estabelece limites aos poderes de cognição do tribunal.
Assim, no âmbito dos limites estabelecidos pela lei aos poderes de cognição do
tribunal, é estabelecido um critério relacional (adquire esta denominação por se
procurar estabelecer uma relação entre o que é vertido na acusação e/ou no despacho
de pronúncia, sempre que haja abertura de instrução, e aquilo que se apure no
decurso da fase de julgamento) que se traduz no critério de alteração dos factos. A
este respeito rege o art. 1º al. f) do CPP, cuja interpretação se traduz na seguinte
conclusão:
o Alteração substancial dos factos: traduz-se na alteração que tenha por efeito a
imputação de crime diverso ao arguido ou a agravação dos limites máximos
das sanções aplicáveis – destas o tribunal não poderá conhecer;
o Alteração não substancial dos factos: destas já poderá o tribunal conhecer.
O supracitado artigo tem diversos reflexos vertidos em variadas normas contidas no
CPP – arts. 284º e 285º (fase de inquérito), art. 303º (fase de instrução) e arts. 358º e
359º (fase de julgamento).
Regressando ao art. 1º al. f) do CPP, o que se entende por “crime diverso”? A este
respeito, remetemos para as teorias descritas supra apenas quando a dúvida surja
relacionada com aferir do significado a atribuir a “crime diverso” mas nunca quando a
dúvida verse acerca da agravação dos limites máximos das sanções aplicáveis.
Retomando aos reflexos do art. 1º al. f) do CPP nas diversas fases do processo,
iniciemos o seu estudo pela sua influência na fase de julgamento. O art. 358º do CPP
versa acerca das alterações não substanciais dos factos, indicando que o tribunal pode
conhecer de factos novos, estando obrigado a informar o arguido e o seu defensor

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acerca desta alteração concedendo-lhe, caso o requeira, o tempo estritamente


necessário à preparação da sua defesa. Já o art. 359º do CPP se refere à alteração
substancial dos factos. Com efeito, no seu nº1, estabelece-se que, em princípio, o
tribunal não pode conhecer de factos novos que surjam no decurso da audiência de
julgamento vs. aqueles vertidos no texto da acusação e/ou do despacho de pronúncia.
A comunicação destes novos factos ao ministério público vale como denúncia para que
este proceda pelos novos factos quando autonomizáveis (sempre que tenham uma
valoração juridico-criminal autónoma) face ao objeto do processo (nº2 do art. 359º do
CPP), abrindo inquérito para investigá-los (ex: na acusação imputa-se um crime de
furto no entanto, no decurso da audiência de julgamento, surgem factos que
permitem descobrir que se usou de violência – permite-se assim que se abra processo
autónomo para conhecer das ofensas à integridade física). Se os factos não forem
autonomizáveis (imagine-se, por exemplo a relação filial – não se traduz na prática de
crime algum, no entanto, revela especial perversidade e censurabilidade e, assim,
consubstancia um elemento qualificador da conduta (cfr. art. 132º nº2 al. a) do CP))
não pode o tribunal conhecer deles. Até 2007, o tribunal proferia um despacho de
mera forma extinguindo ou suspendendo a instância para que o ministério público
investigasse os factos para, posteriormente, retomar o processo com estes novos
factos. Em 2007 introduziram-se alterações a este ponto, seguindo a linha de
pensamento de Paulo Sousa Mendes, autor que defende, na sua posição, o arguido de
uma falha na investigação que não lhe é imputável, pois na verdade traduz-se numa
falha na investigação levada a cabo pelo ministério público. O nº3 do art. 359º do CPP
estabelece uma ressalva ao disposto nos n os 1 e 2 do mesmo preceito, estabelecendo a
possibilidade de, mediante acordo entre o ministério público, arguido e assistente, os
factos não autonomizáveis serem conhecidos pelo tribunal, continuando-se o
julgamento.

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