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7 O QUE SE FALA E O QUE SE LE: LINGUA, INSTRUCAO E LEITURA Luiz Carlos Villalta 332 + HISTCRA DA VIDA >RNADA NO BRASIL | + VIDA PRIVADA E COLONIZACAO: O LUGAR Da LINGUA, DA INSTRUGAO E DOS LIVROS. m dos primeiros cronistas da colonizacao portuguesa [ na América, Pero de Magalhaes Gandavo, escreveu que os indios do litoral brasileiro nao tinham as letras “F, nem L, nem R’, nao possuindo “Fé, nem Lei, nem Rei” e vivendo “desordenadamente”! Essa suposigao de uma auséncia linguistica e de “ordem” revela, um tanto avant la lettre, 0 ideal de colonizacao trazido pelas autoridades civis € eclesidsticas portuguesas: superar a “desordem’”, fazendo obe- decer a um Rei, difundindo uma Fé e fixando uma Lei. Um. Rei com interesses temporais (e, portanto, materiais); uma Fé, a da Igreja da Contrarreforma; e uma Lei, misto de normas juridicas fixadas pelo Estado e pela Igreja, e de modelo de ci- vilizagdo. F, Le R, associados e misturados, pois Coroa e Igreja irmanavam-se.’ Mas F, L e R enfrentaram muitas resisténcias na América portuguesa, decerto mais que no Reino, motivo pelo qual os agentes d’el-rei repetiram constantemente que os povos do Brasil eram “barbaros’, deslocando ou estendendo essa pecha dos indigenas para outros sujeitos histéricos e, com isso, legitimando a continuidade da colonizacao.’ Lingua, instrucao ¢ livros, nesse quadro, em termos das expectativas metropolitanas, deveriam desenvolver-se sob a égide de um Rei, uma Fé e uma Lei. Mas, na realidade colonial, sujeitaram-se as concessoes ¢ a ineficcia dos agentes d’el-rei, & confusio do priblico com o privado, permearam-se pela socia- © QU: SE FALAE © QUE Dilidade comunitdria e pela civilidade das aparéncias vigente no Antigo Regime — um padrio de civilidade que cindia 0 parecer € 0 ser €, a0 mesmo tempo, conferia ao espaco publi- co grande importancia na identificacao dos individuos e dos grupos, tornando a glorificacao das aparéncias, a simulagao e a dissimulagao uma regra basica de sociabilidade.* Lingua, ins- truco e livros, além disso, foram vitimas e evidéncias de que as terras brasilicas fizeram-se a porgao mais preciosa do Impé- rio colonial portugués sem, contudo, tornarem-se um imenso Portugal. Vitimas, porque a Coroa procurou controlé-los para manter a obediéncia, 0 que, na Col6nia, exigia dependéncia — com tal tutela, mais incisiva no que toca 4 imposicao da lingua portuguesa, a instrucao escolar e a circulagao de livros, ja gravados na Metrépole, prejudicaram-se sobremaneira. Ao mesmo tempo, como a instrugio escolar ¢ os livros rareavam e, ‘em muitos espagos, falavam-se “linguas gerais” de origem tupi, evidenciava-se a distancia que separava a Colonia do Reino, sinalizando que a primeira era menos “civilizada’ e, por conse- guinte, justificando a preservacao do vinculo colonial. As autoridades metropolitanas, por um lado, interessava sobretudo fixar exemplos edificantes para os povos mediante a aterrorizacao, propésito nao propriamente pedagdgico... Entre as camadas humildes, por outro, difundiu-se 0 apren- der-fazendo: extramuros da escola, na luta pela sobrevivén- cia, adquiriam-se os rudimentos necessirios para garantir a subsisténcia e para reproduzir os papéis que lhes eram reser- vados na sociedade. Em alguns casos, esse aprender-fazendo engastava-se em vinculos menos informais, envolvendo uma relacgao claramente contratada entre mestres e aprendizes; era normal em particular para o aprendizado de habilidades, ofi- cios e primeiras letras. Nessa situa¢ao, alargava-se 0 campo educacional, mas se empobrecia a instrugdo escolar: mais do que polir, cabia, na perspectiva das autoridades, cultivar a obediéncia, e, aos olhos das camadas mais humildes, garantir a sobrevivéncia. Quanto a lingua, a imposigao do portugués foi vista como forma de preservar a Coldnia; porém, tal impeto foi contrabalancado pelas necessidades cotidianas, que requereram as linhas gerais e se acomodaram a elas com variacdes no tempo ¢ no espaco. Por F, Le R, ¢ também pelas expectativas dos grupos sociais da Coldnia, a lingua portugue- sa avangou, na proporcao da passagem dos séculos, enquanto vemura + 333