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Universidade Federal do Maranhão

Curso de Direito
Disciplina Hermenêutica Jurídica
Professor Danilo Rodrigues Martins

Maria Cecília Ribeiro dos Santos

Fichamento do livro Hermenêutica Constitucional – Métodos e


princípios específicos de interpretação”, de Márcia Haydée Porto
de Carvalho

São Luís
2019
Fichamento do livro Hermenêutica Constitucional – Métodos e princípios
específicos de interpretação”, de Márcia Haydée Porto de Carvalho

1. Introdução

Na introdução, a autora destaca a razão da obra citada: tratar de problemas


relacionados com à hermenêutica, a interpretação e aplicação da Constituição. Como
hermenêutica pode ser definida como a teoria da interpretação jurídica, deve-se conceituar os
seguintes vocábulos:

- Teoria: sistema de definições, leis e axiomas com a ajuda dos quais se procura
compreender determinados fenômenos.

- Interpretação jurídica: a arte de se determinar o sentido e o alcance das expressões do


Direito.

Desse modo, o objeto de estudo da obra é o sistema de definições, leis e axiomas com
a ajuda dos quais se define o significado e a amplitude das normas constitucionais.

Finalmente, a autora delineia os objetivos do livro: confirmar, com base científica, a


hipótese de uma teoria da interpretação específica da norma constitucional, ou seja, da
existência de métodos e princípios próprios para a interpretação da Constituição; e fazer a
sistematização, a partir de uma análise crítica dos teóricos pesquisados, de métodos e
princípios sem os quais a interpretação constitucional corre o risco de não criar certeza
jurídica nem demonstrar previsibilidade.

2. Constituição

O conceito de Constituição como documento escrito surge na idade moderna, tendo


como principal objetivo frear as tendências absolutistas, elaboradas pela elite burguesa a fim
de garantir os direitos fundamentais (na época, a propriedade, a igualdade e a liberdade) e
promover a separação de poderes, e por consequência, limitar o poder estatal.

No entanto, todas as sociedades politicamente organizadas possuíram, em algum


momento, uma Constituição real e efetiva. Na Grécia Antiga, Aristóteles conceitua a politeia,
o modo de ser da polis, e pode ser apontado como o primeiro conceito de Constituição. Em
1215, a ideia ressurge com a Carta Magna imposta à João Sem Terra pela nobreza, clero e
burguesia descontentes. O documento fixava os direitos e deveres do rei e de seus vassalos.
Surge assim o pré-constitucionalismo. Nos séculos XVII e XVIII, surgiu um conceito mais
nítido e preciso, grade parte devido à elaboração doutrinária do conceito de lex fundamentalis.

Somente no século XVIII, a Constituição surge como um documento escrito,


estabelecido de uma só vez, como expressão de um pacto fundador de uma sociedade política.
Seguia-se sempre o ideal de separação dos três poderes e visava garantir os direitos
individuais fundamentais, com caráter bem mais amplo. Essa concepção está vinculada à ideia
de Estado Liberal e ao racionalismo.

No século XX, com as profundas transformações no campo político e social, o


conceito passou a abranger ainda mais coisas, cuidando do Estado, do indivíduo e da
sociedade. Direitos econômicos, sociais e culturais, direitos de participação e trabalhistas
foram incorporados ao documento, que agora assumia um papel de extenso programa de
reformas econômicas e sociais a ser implementado pelo Estado e pela sociedade.

Na divisão do capítulo, a autora elenca algumas concepções doutrinárias em destaque,


apresentando brevemente cada uma delas. A existência de tantas concepções está
majoritariamente ligada à questão eficácia material versus eficácia formal, que é
relativamente antiga na Ciência Jurídica.

- Lassalle: para ele, a Constituição de um país é, em sua essência, a soma dos fatores
reais de poder que regem uma nação. Chama-se de concepção sociológica. Essa corrente
doutrinária é amplamente defendida pelos marxistas atuais, defendendo que a Constituição é
um produto das relações de produção e tem como fim assegurar os interesses da classe
dominante. Porém, a concepção de Marx diverge da de Lassalle em pontos referentes à função
social do Estado.

- Carl Schmitt; formulou o conceito ideal de Constituição. Para ele, esta é a decisão
política fundamental adotada pela unidade política, através do titular do poder constituinte,
sobre a forma concreta pela qual ela mesma se pronuncia ou decide.

- Hans Kelsen: no livro Teoria Pura do Direito, o conceito de Constituição adquire um


teor mais radical e acabado, sendo definido pelo jurista austríaco como a norma positiva
através da qual é regulada a produção das normas jurídicas gerais. No sentido lógico-jurídico,
seria uma norma fundamental hipotética que serve de pressuposto para a Constituição em
sentido formal. Logo, todo constitucionalismo seria válido desde que parta da autoridade ou
órgão dotado de competência pela própria Constituição.
- Carl Schmitt, Rudolf Smend e Herman Heller: precursores da compreensão material
da Constituição, em oposição à teoria kelseniana, de inspiração filosófica e sociológica. Tinha
base, não reconhecida, de Ferdinand Lassalle. A base principal desses teóricos é o livro
Constituição e Direito Constitucional, de Smend, que define o documento como a ordenação
jurídica da dinâmica vital do processo de integração do Estado, cuja finalidade é a perpétua
reimplantação da realidade total do Estado. Herman Heller diverge de Smend e Schmitt, para
ele a constituição normada seria uma normalidade de conduta não normada, enquanto a
constituição normada, em uma normalidade de conduta normada. Logo, o conceito de Heller
ficaria num ponto intermediário entre as concepções de Smend e Schmitt.

Após apresentar as principais correntes doutrinárias, a autora faz uma síntese de sua
própria concepção acerca do tema. Para ela, a Constituição é a norma fundamental de todo o
ordenamento jurídico, visto que conforma e regula condutas básicas dos poderes públicos, dos
indivíduos e dos grupos sociais, além de prescrever os fins do Estado, fixar programas
públicos essenciais e conceder direitos e garantias fundamentais aos indivíduos e aos
agrupamentos sociais. Por outro lado, a autora admite que a norma também traduz a vontade
dos fatores reais de poder (a dimensão sociológica).

Para dimensionar o conceito como um todo, harmonizando todas as dimensões, deve-


se usar a expressão sistema constitucional, de modo a englobar todo o fenômeno da ordenação
jurídica fundamental do Estado e da sociedade. A ideia de sistema permite traçar os contornos
do ordenamento jurídico, sem impor a ideia de limite. Mais tarde, é apresentada a ideia de
sistema autopoiético, ou seja, onde há autonomia dentro do próprio sistema, havendo algumas
interações com o meio exterior através de acoplamentos estruturais, isto é, relações entre o
sistema e o meio envolvente, desde que não vá contra a autopoiésis.

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