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NOVO TESTAMENTO 1

C o m e n t á r io B íblic o

Ex p o s it iv o

Novo Testamento
Volume I

W arren W. W iersbe
C o m e n t á r io B íb l i c o
Ex p o s it iv o

Novo Testamento
Volume I

W a r r e n W . W ie r s b e

T r a d u z id o po r

S u s a n a E . K la s s e n

I a Edição

Santo André, SP - Brasil


2007
Comentário Bíblico Expositivo
Categoria: Teologia / Referência

Copyright ® 2001 por Warren W. Wiersbe


Publicado originalmente pela Cook Communications Ministries,
Colorado, e u a .

Título Original em Inglês: The Bible Exposition Commentary - New


Testament: Vol. I

Preparação: Liege Maria de S. Marucci


Revisão: Theófilo Vieira
Capa: Cláudio Souto
Diagramação: Viviane R. Fernandes Costa
Impressão e Acabamento: Geográfica Editora

Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida


Revista e Atualizada, 2a edição (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indi­
cação específica.

A 1a edição brasileira foi publicada em maio de 2006.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Wiersbe, Warren W.
Comentário Bíblico Expositivo : Novo Testamento : volume I / Warren
W. Wiersbe ; traduzido por Susana E. Klassen. - Santo André, SP :
Geográfica editora, 2006.

Título original: The Bible Exposition Commentary -


New Testament: Vol. I

ISBN 85-89956-54-7

1. Bíblia A.T. - Comentários I. Título.

06-3696 CDD-225.7
índice para catálogo sistemático:
1. Comentários : Novo Testamento : Bíblia 225.7
2. Novo Testamento : Bíblia : Comentários 225.7

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pela:

Geo-Gráfica e editora ltda.


Av. Presidente Costa e Silva, 2151 - Pq. Capuava - Santo André - SP - Brasil
Site: www.geograficaeditora.com.br
S u m á r io

M a t e u s ........................................................................................................ 0 7

M a r c o s .....................................................................................................1 4 2

L u c a s .........................................................................................................2 1 8

J o ã o .......................................................................................................... 3 6 4

A t o s .......................................................................................................... 5 1 8

R o m a n o s ................................................................................................. 6 6 7

1 C o r í n t i o s ..............................................................................................741

2 C o r í n t i o s .............................................................................................8 2 0

G á l a t a s ..................................................................................................... 8 9 1
M a teu s

ESBOÇO IV. A REJEIÇÃO DO REI -


Tema-chave: O Rei e seu reino CAPÍTULOS 21 - 27
Versículos-chave: Mateus 2:2; 4:17 ("O reino de Deus vos será tirado"; 21:43.)
A . Sua apresentação pública com o Rei -
I. A REVELAÇÃO DO REI - 21:1-16
CAPÍTULOS 1 - 1 0 B. Seu conflito com os líderes - 21:17-23:39
A . Sua pessoa - 1 - 4 C. Sua mensagem profética - 24 - 25
B. Seus princípios - 5 - 7 D. Seu sofrimento e morte - 26 - 27
C. Seu poder - 8 - 1 0 '
(O bservação: A mensagem nesse período V. A RESSURREIÇÃO DO REI -
de seu ministério foi: "O reino dos céus está CAPÍTULO 28
próxim o" [3:2; 4:17; 10:7].)
CONTEÚDO
II. A REBELIÃO CONTRA O REI - 1. Boas-Novas!..........................................09
CAPÍTULOS 11 - 13 2. O nascimento do Rei
A. Seu mensageiro é rejeitado - 11:1-19 (M t 1 - 2 )..............................................13
B. Suas obras são negadas - 11:20-30 3. As credenciais do Rei
C. Seus princípios são recusados - 12:1-21 (M t 3 - 4)............................................. 18
D. Sua pessoa é atacada - 12:22-50 4. O s princípios do Rei: a verdadeira
E. Resultado: "os mistérios do reino" - 13 justiça (M t 5)........................................ 23
5. O s princípios do Rei: a verdadeira
III. O AFASTAMENTO DO REI - adoração (M t 6)................................... 29
CAPÍTULOS 1 4 - 2 0 6. O s princípios do Rei: o verdadeiro
(Jesus procura deixar as multidões para ficar julgamento (M t 7)................................ 34
a sós com seus discípulos.) 7. O poder do Rei
A. Antes da confissão de Pedro - 14:1 - (M t8 - 9)............................................. 39
16:12 8. O s embaixadores do Rei
B. A confissão de Pedro - 16:13-28 (M t 10)................................................. 45
(A cruz é m encionada pela primeira vez - 9. O s conflitos do Rei
16:21) (M t 11- 12)......................................... 50
C. Depois da confissão de Pedro - 17:1 - 10. O s segredos do Rei
20:34 (M t 13)................................................. 56
(A cruz é m encionada pela segunda vez - 1 1 . 0 afastamento do Rei
17:22) (M t 14)................................................. 62
(A cruz é m encionada pela terceira vez - 12. As preocupações do Rei
20:17-19) (M t 15)................................................. 68
8 MATEUS

13. A surpresa do Rei 20. A acusação do Rei


{Mt 16)...........................................72 (M t23)..................................... ... 108
14. A glória do Rei 21. A volta do Rei - Parte 1
(Mt 17)............................................ 78 (Mt 24:1-44)............................. ... 113
15. A repreensão do Rei 22. A volta do Rei - Parte 2
(Mt 18)............................................ 83 (Mt 24:45- 25:46).................... ... 118
16. As instruções do Rei 23. A preparação do Rei
(Mt 19:1-15)..................................... 89 (Mt 26:1-56)............................. ... 123
17. As exigências do Rei 24. O julgamento do Rei
(Mt 19:16-20:34)........................... 94 (Mt 26:57- 27:26).................... ... 128
18. Os juízos do Rei 25. O sofrimento e morte do Rei
(Mt 21:1 -22:14)............................. 99 (Mt 27:27-66)............................ ... 133
19. A defesa do Rei 26. A vitória do Rei
(Mt 22:15-46)................................. 104 (M t28)..................................... ... 137
e estes se mostraram tão pecadores quanto
1 seus pais. Não importa com o lemos o Anti­
go Testamento, sempre encontramos peca­
dos e pecadores.
B o a s -N o v a s ! O Novo Testamento, porém, é o "Livro
da genealogia de Jesus Cristo" (M t 1:1). Je ­
sus é o último Adão (1 C o 15:45), e ele veio
ao mundo para salvar as "gerações de A dão "
(da qual, a propósito, fazemos parte). A pe­
sar de não ser uma escolha nossa, nasce­
mos na geração de Adão, e isso nos torna
pecadores. M as, por uma escolha de fé,
erca de vinte a trinta anos depois de podem os nascer na geração de Jesus Cristo
C Jesus ter voltado para o céu, um discí­
pulo judeu cham ado M ateus foi inspirado
e nos tornar filhos de Deus!
Q uando lemos a genealogia em Gênesis
pelo Espírito Santo a escrever um livro. Dis­ 5, a repetição da expressão e ele m orreu soa
so resultou o que conhecem os hoje com o com o o badalar fúnebre de um sino. O An­
o "Evangelho Segundo M ateus". tigo Testamento mostra que "o salário do
Nenhum dos quatro Evangelhos regis­ pecado é a m orte" (Rm 6:23). M as quando
tra qualquer palavra proferida por Mateus. passamos ao Novo Testamento, sua primei­
A ind a assim, em seu Evangelho, ele nos ra genealogia enfatiza o nascim ento, não a
apresenta as palavras e os atos de Jesus Cris­ morte! A mensagem do N ovo Testamento
to, o "filho de Davi, filho de A braão" (M t diz que "o dom gratuito de Deus é a vida
1:1). Apesar de M ateus não ter escrito para eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm
falar de si mesmo, convém nos fam iliari­ 6:23).
zarmos com o apóstolo e com o livro que O A ntigo Testam ento é um livro de
escreveu. Assim, poderem os descobrir tudo promessas; o Novo Testamento, por sua vez,
o que ele desejava que soubéssem os so­ é um livro de cum prim ento (por certo, há
bre Jesus Cristo. inúm eras prom essas preciosas no N o vo
O Espírito Santo usou M ateus para reali­ Testamento, mas me refiro, aqui, à ênfase
zar três tarefas importantes ao escrever este principal de cada parte da Bíblia). Deus pro­
Evangelho. meteu um Redentor em Gênesis 3:15, e Je ­
sus Cristo cumpriu essa promessa. Cum prir
1 . O CO NSTRUTO R DE PO NTES: é uma das palavras-chave do Evangelho de
APRESEN TO U U M N O V O LIVRO Mateus, usada cerca de vinte vezes.
Esse novo livro é o Novo Testamento. Se um Um dos propósitos deste Evangelho é
leitor da Bíblia pulasse de M alaquias para mostrar que Jesus Cristo cumpriu as promes­
M arcos, Atos ou Romanos, ficaria totalmen­ sas do A ntigo Testam ento a respeito do
te confuso. O Evangelho de M ateus é a Messias. Seu nascimento em Belém cumpriu
ponte de transição entre o Antigo Testamen­ Isaías 7:14 (M t 1:22, 23). Foi levado ao Egi­
to e o N ovo Testamento. to, onde ficaria mais seguro e, desse modo,
O tema do Antigo Testamento é apre­ cumpriu Oséias 11:1 (M t 2:14, 15). Q uan­
sentado em Gênesis 5:1: "Este é o livro da do José e sua família decidiram se estabele­
genealogia de Adão". O Antigo Testamento cer em Nazaré, cumpriram várias profecias
mostra a história, extrem am ente triste, da do Antigo Testamento (M t 2:22, 23). Em seu
família de Adão. Deus criou o homem a sua Evangelho, M ateus apresenta pelo menos
im agem , mas o hom em pecou e, desse 129 citações ou alusões ao Antigo Testamen­
modo, distorceu sua imagem original. D e­ to. Escreveu principalmente a leitores judeus
pois disso, o homem gerou filhos "à sua se­ para mostrar-lhes que Jesus Cristo era, de
melhança, conforme a sua imagem" (G n 5:3), fato, o Messias prometido.
10 MATEUS

2 .0 b ió g r a f o : a presen to u u m n o v o R ei no monte das Oliveiras (caps. 24 - 25). Pelo


A julgar pela definição moderna, nenhum menos 60% do livro é dedicado aos ensi­
dos quatro Evangelhos pode ser considera­ namentos de Jesus.
do uma biografia. Aliás, o apóstolo João Ê importante lembrar que Mateus con­
duvidou de que fosse possível escrever uma centra-se no reino. No Antigo Testamento, a
biografia completa de Jesus (Jo 21:25). Os nação de Israel era o reino de Deus na Ter­
Evangelhos deixam de fora uma série de ra: "Vós me sereis reino de sacerdotes e
detalhes sobre a vida de Jesus aqui na Terra. nação santa" (Êx 19:6). Muitos, nos dias de
Cada um dos quatro Evangelhos tem uma Jesus, esperavam pelo libertador enviado por
ênfase particular. O Livro de Mateus é cha­ Deus, que os libertaria da escravidão romana
mado de o "Evangelho do Rei" e foi escrito e restabeleceria o reino glorioso de Israel.
principalmente para leitores judeus. O Livro A mensagem do reino dos céus foi pre­
de Marcos, o "Evangelho do Servo", foi es­ gada inicialmente por João Batista (M t 3:1,
crito para instruir os leitores romanos. Lucas 2). Jesus também pregou essa mensagem no
escreveu principalmente para os gregos e começo de seu ministério (M t 4:23) e en­
apresentou Cristo como o "perfeito Filho do viou os doze apóstolos com a mesma pro­
homem". João é de interesse universal, e sua clamação (Mt 10:1-7).
mensagem é "Este é o Filho de Deus". Ne­ Porém, as boas novas do reino exigiam
nhum dos Evangelhos é suficiente para con­ do povo uma resposta moral e espiritual, não
tar toda a história da forma que Deus quer apenas a aceitação de um conjunto de re­
que a vejamos. Porém, quando juntamos os gras. João Batista pedia arrependimento.
quatro relatos, vemos uma imagem mais Semelhantemente, Jesus deixou bem claro
complexa da Pessoa e obra de nosso Senhor. que não tinha vindo para conquistar Roma,
Uma vez que estava acostumado a man­ mas para transformar o coração e a vida
ter registros sistemáticos, Mateus apresenta daqueles que cressem nele. Antes de entrar
um relato extremamente organizado da vida na glória do reino, Jesus suportou o sofri­
e ministério de nosso Senhor. O livro pode mento da cruz.
ser dividido em dez seções, que alternam o Podemos observar, ainda, que Mateus
"fazer" e o "ensinar". Cada seção de ensina­ organizou seus textos de acordo com tópi­
mentos termina com a frase: "Quando Jesus cos, não em seqüência cronológica. Agru­
terminou estas palavras" ou uma declaração pou dez milagres nos capítulos 8 - 9 em
semelhante de transição. Os capítulos po­ vez de colocá-los dentro de sua seqüência
dem ser divididos da seguinte maneira: histórica ao longo da narrativa do Evange­
lho. Sem dúvida, vários outros acontecimen­
Narrativa Ensinamentos Transição tos foram totalmente omitidos. Ao conside­
1-4 5-7 7:28 rar a harmonia existente entre os Evangelhos,
8:1 - 9:34 9:35 - 10:42 11:1 vemos que Mateus segue um padrão pró­
11:2 - 12:50 13:1-52 13:53 prio sem, no entanto, contradizer os outros
13:53 - 17:27 18:1-35 19:1 evangelistas.
19:1 - 23:39 24:1 - 25:46 26:1 Além de ser responsável pela transição
26:1 - 28:20 (a narrativa da Paixão) do Antigo para o Novo Testamento e de
apresentar a biografia de um novo Rei, Je­
Mateus descreve Jesus como um Homem sus Cristo, Mateus também cumpriu um ter­
de ação e um Mestre, registrando pelo me­ ceiro propósito ao escrever seu livro.
nos vinte milagres específicos e seis mensa­
gens principais: o Sermão do Monte (caps. 3 . O HOMEM DE FÉ: APRESENTOU UM
5 - 7 ) , a comissão dos apóstolos (cap. 10), NOVO POVO
as parábolas do reino (cap. 13), as lições so­ Esse novo povo era, evidentemente, a Igre­
bre o perdão (cap. 18), as acusações contra ja. Mateus é o único escritor a usar a pa­
os fariseus (cap. 23), e o discurso profético lavra igreja em seu texto (Mt 16:18; 18:17).
MATEUS 11

O termo grego traduzido por "igreja" signifi­ forma de exclusão racial ou social. Pela fé
ca "um a assembléia chamada para fora". No em Jesus Cristo, os cristãos são "todos um "
N ovo Testamento, esse termo refere-se, em no corpo de Cristo, a Igreja.
geral, à congregação local dos cristãos. No A própria experiência de M ateus com o
Antigo Testamento, Israel era escolhido por Senhor, relatada em M ateus 9:9-1 7, é um
D eu s, co m e ça n d o com o ch am ad o de belo exemplo da graça de Deus. Seu antigo
Abraão (G n 12:1ss; Dt 7:6-8). Aliás, Estêvão nome era Levi, o filho de Alfeu (M c 2:14).
chama a nação de Israel de "a congregação "M ateus" significa "o dom de Deus". Ao que
[igreja] no deserto" (At 7:38), pois era o povo parece, esse nome lhe foi dado para com e­
de Deus cham ado para fora. morar sua conversão e seu cham ado para
Porém, a Igreja do Novo Testamento é ser discípulo.
formada por um povo diferente, pois é cons­ E importante lembrar que os coletores
tituída tanto de judeus quanto de gentios. de impostos faziam parte de uma das clas­
Nessa Igreja, não há qualquer distinção racial ses mais odiadas da sociedade judaica. Para
(G l 3:28). Apesar de ter escrito principalmen­ começar, eram traidores da própria nação,
te para judeus, ainda assim o Evangelho de pois ganhavam o sustento "vendendo-se" aos
M ateus possui um elemento "universal" que romanos ao trabalhar para o governo. Cada
inclui os gentios. Por exemplo, líderes gen­ coletor adquiria de Roma o direito de reco­
tios vão adorar o menino Jesus (M t 2:1-12). lher impostos; quanto mais recolhia, mais
Jesus realiza milagres para os gentios e até conseguia guardar para si. O s coletores eram
os elogia por sua fé (M t 8:5-1 3; 15:21-28). A considerados ladrões e traidores, e seus con­
rainha de Sabá é louvada por se mostrar dis­ tatos com os gentios também os colocavam
posta a fazer uma longa jornada a fim de à margem da religião, a ponto de serem ti­
ouvir a sabedoria de Salom ão (M t 12:42). dos com o impuros. Jesus refletiu a opinião
Num momento de crise em seu ministério, popular acerca dos publicanos ao classificá-
Jesus fala de uma profecia sobre os gentios los junto a prostitutas e a outros pecadores
(M t 12:14-21). M esm o nas parábolas, Jesus (M t 5:46, 47; 18:17), mas deixou claro que
indica que as bênçãos que Israel recusou era "amigo de publicanos e pecadores" (M t
seriam compartilhadas com os gentios (M t 11:19; 21:31, 32).
22:8-10; 21:40-46). De acordo com o discur­ M ateus abriu seu co ração para Jesus
so no monte das Oliveiras, a mensagem se­ Cristo e se tornou uma nova pessoa. N ão
ria levada "a todas as nações" (M t 24:14); e foi uma decisão fácil para ele. Era de Cafar-
a comissão do Senhor envolveria todas a na­ naum, cidade que havia rejeitado o Senhor
ções (M t 28:19, 20). (M t 11:23). Também era um negociante co­
N a Igreja primitiva, havia apenas cristãos nhecido na cidade e, provavelm ente, foi
judeus e prosélitos (At 2 - 7). Q uando o perseguido pelos amigos de outros tempos.
evangelho chegou a Samaria (At 8), o povo Sem dúvida, perdeu muito dinheiro quando
mestiço de judeus e gentios passou a fazer deixou tudo para seguir a Cristo.
parte da Igreja. Depois que Pedro foi à casa M ateus não apenas abriu seu coração,
de Cornélio (At 10), os gentios também co­ mas também abriu sua casa. Sabia que mui­
meçaram a participar da Igreja. A assembléia tos de seus velhos amigos, senão todos, o
de Jerusalém (At 15) determinou que os gen­ abandonariam quando com eçasse a seguir
tios não precisavam tornar-se judeus antes Jesus Cristo. Por isso, aproveitou a situação
de se tornar cristãos. e os convidou para conhecer Jesus. Deu uma
M ateus apresenta toda essa questão de grande festa e convidou todos os coletores
antemão, e quando seu livro foi lido pelos de impostos (é possível que alguns deles fos­
membros judeus e gentios da Igreja primiti­ sem gentios) e judeus que não guardavam a
va, ajudou a resolver diferenças e a promover lei ("pecadores").
a unidade. M ateus deixa claro que esse novo Evidentemente, os fariseus criticaram Je ­
povo, a Igreja, não deveria apoiar qualquer sus por assentar-se à mesma mesa que toda
12 MATEUS

essa gente impura e até tentaram instigar os escrever! Mal sabia ele, na época, que um
discípulos de João Batista a criar uma desa­ dia seria usado pelo Espírito para escrever
vença (Lc 5:33). No entanto, Jesus explicou o primeiro dos quatro Evangelhos do Novo
por que estava andando com "publicanos e Testamento!
pecadores": eram espiritualmente enfermos Diz a tradição que Mateus ministrou na
e precisavam de um médico. O Senhor não Palestina durante vários anos, depois que
veio chamar os justos, pois não havia justos. Jesus voltou para o céu, e que fez viagens
Veio chamar pecadores, e isso incluía os missionárias para levar o evangelho aos ju­
fariseus. Por certo, seus críticos não se con­ deus dispersos entre os gentios. Seu traba­
sideravam "enfermos espirituais", mas isso lho é relacionado à Pérsia, Etiópia e Síria, e
não muda o fato de que eram isso mesmo. algumas tradições incluem ainda a Grécia.
Mateus não apenas abriu seu coração O Novo Testamento não diz coisa alguma
e sua casa como também abriu suas mãos sobre sua vida, mas podemos afirmar com
e trabalhou para Cristo. Alexander W hite certeza que, por onde quer que as Escritu­
de Edimburgo disse, certa vez, que, quan­ ras passem neste mundo, o Evangelho escri­
do Mateus deixou seu emprego para se­ to por Mateus continua a ministrar ao cora­
guir a Cristo, levou consigo sua pena de ção de seus leitores.
Essa genealogia também ilustra a maravi­
2 lhosa graça de Deus. É muito raro encontrar
nomes de mulheres em genealogias judaicas,
pois os nomes e heranças eram passados
O N a s c im e n t o d o R ei para os homens. N o entanto, encontram os
nessa lista referências a quatro mulheres do
M ateus 1-2 Antigo Testamento: Tamar (M t 1:3), Raabe e
Rute (M t 1:5), e Bate-Seba, "a que fora mu­
lher de U rias" (M t 1:6).
Fica claro que M ateus deixa alguns no­
mes de fora dessa genealogia. É provável que
tenha feito isso a fim de apresentar um
e um homem aparece de repente dizen­
S
sum ário sistem ático de três períodos na
do ser rei, a primeira coisa que as pes­ história de Israel, cada um com catorze ge­
soas querem ver são as provas. De onde rações. O valo r num érico das letras em
vem ? Q uem são seus súditos? Quais são suas hebraico para "D a vi" é igual a catorze. Tal­
credenciais? Prevendo essas perguntas im­ vez Mateus tenha usado essa abordagem a
portantes, M ateus com eça seu livro com um fim de ajudar seus leitores a memorizar essa
relato detalhado do nascim ento de Jesus lista complicada.
Cristo e dos acontecim entos subseqüentes. Muitos judeus eram descendentes do rei
Ele apresenta quatro fatos sobre o Rei. Davi. Seria preciso mais do que um certi­
ficado de linhagem para provar que Jesus
1. A l in h a g e m d o Rei ( M t 1:1-25) Cristo era "filho de D avi" e herdeiro do tro­
Um a vez que a realeza depende da linha­ no de Davi. D aí a grande im portância de
gem, era importante determinar o direito de sua linhagem divina.
Jesus ao trono de Davi. M ateus apresenta a A linhagem d ivin a (w . 18-25). M ateus
linhagem humana de Jesus (M t 1:1-17) bem 1:16 e 18 deixam claro que o nascimento
com o a divina (M t 1:18-25). de Jesus Cristo foi diferente daquele de qual­
A linhagem hum ana (w . 1-17). O s ju­ quer outro m enino judeu m encionado na
deus davam grande im portância às genea­ genealogia. M ateus ressalta que José não
logias, pois, sem elas, não podiam provar que "gerou" Jesus Cristo. Antes, José foi "m arido
faziam parte de determinada tribo nem quem de M aria, da qual nasceu Jesus, que se cha­
possuía direito de herança. Q ualquer um que ma o C risto ". Jesus nasceu de uma mãe
afirm asse ser "filh o de D a vi" deveria ser terrena, sem a necessidade de um pai ter­
capaz de provar tal asserção. Costuma-se reno. Esse fato é cham ado de doutrina do
concluir que M ateus apresenta a genealo­ nascimento virginal.
gia de Jesus pelo seu padrasto, José, enquan­ Cada criança que nasce é uma criatura
to Lucas fornece a linhagem de M aria (Lc totalmente nova. M as Jesus Cristo, sendo o
3:23ss). Deus eterno (Jo 1:1, 14), existia antes de
M uitos leitores pulam essa lista de nomes M aria, de José ou de qualquer outro de seus
antigos (e, em alguns casos, impronunciá- antepassados. Se Jesus Cristo tivesse sido
veis). M as essa "lista de nom e" é essencial concebido da mesma forma que qualquer
para o registro do Evangelho, pois mostra outra criança, não poderia ser Deus. Era
que Jesus Cristo faz parte da história. M os­ necessário que viesse ao mundo por meio
tra também que toda a história de Israel pre­ de uma mãe terrena, mas sem ser gerado
parou o cenário para seu nascimento. Em por um pai terreno. Assim, por um milagre
sua providência, Deus governou e prevale­ do Espírito Santo, Jesus foi concebido no
ceu sobre os acontecim entos históricos, a ventre de Maria, uma virgem (Lc 1:26-38).
fim de realizar seu grande propósito de tra­ Há quem questione se, de fato, M aria
zer seu Filho ao mundo. era virgem , d izen d o que "v irg e m ", em
14 MATEUS 1 - 2

Mateus 1:23, deve ser traduzido por "moça". reconheceu sua realeza? Sim, os magos que
Porém, a palavra traduzida por virgem nesse vieram do Oriente e o adoraram.
versículo tem sempre esse significado e não
permite qualquer outra tradução, nem mes­ 2. A r e v e r ê n c ia a o Rei (Mt 2:1-12)
mo "moça". Devemos reconhecer que sabemos muito
Tanto Maria quanto José pertenciam à pouco sobre esses homens. A palavra
casa de Davi. As profecias do Antigo Testa­ traduzida por "magos" refere-se a eruditos
mento afirmavam que o Messias nasceria de que estudavam as estrelas. O título dá a im­
uma mulher (Gn 3:15), da descendência de pressão de que eram mágicos, mas é pro­
Abraão (Gn 22:18), pela tribo de Judá (Gn vável que fossem apenas astrólogos. No
49:10) e da família de Davi (2 Sm 7:12, 13). entanto, sua presença no relato bíblico não
A genealogia de Mateus acompanha a linha­ deve ser interpretada como corroboração
gem através de Salomão, enquanto Lucas divina para a prática da astrologia.
acompanha sua linhagem através de Natã, Deus lhes deu um sinal especial, uma
outro filho de Davi. É interessante observar estrela miraculosa que anunciou o nascimen­
que Jesus Cristo é o único judeu vivo que to do Rei. A estrela guiou-os a Jerusalém; lá,
pode provar seu direito ao trono de Davi! os profetas de Deus lhes disseram que o Rei
Todos os outros registros foram destruídos nasceria em Belém. Assim, os magos foram
quando os Romanos tomaram Jerusalém em a Belém e, quando chegaram lá, adoraram
70 d.C. o menino Jesus.
Para o povo judeu daquela época, o Não sabemos quantos magos havia. Por
noivado eqüivalia ao casamento - exceto causa dos três presentes relacionados em
pelo fato de que o homem e a mulher não Mateus 2:11, costuma-se supor que os ma­
coabitavam. Os noivos eram chamados de gos também eram três, mas não sabemos
"marido e esposa", e, ao fim do período de ao certo. De qualquer modo, quando a ca­
noivado, o casamento era consumado. Se ravana chegou a Jerusalém, trouxe consigo
uma mulher que estava noiva ficava grávida, gente suficiente para causar tumulto em toda
isso era considerado adultério (ver Dt 22:13­ a cidade.
21). Porém, José não pediu nenhuma puni­ E preciso lembrar que esses homens eram
ção nem o divórcio quando descobriu que gentios. Desde o começo, Jesus veio para
Maria estava grávida, pois o Senhor havia ser "o Salvador do mundo" (Jo 4:42). Além
lhe revelado a verdade. Todas essas coisas de ricos, esses homens eram estudiosos -
cumpriram Isaías 7:14. poderiam ser considerados os cientistas da
Antes de terminar nosso estudo desta época. Nenhuma pessoa culta que siga a
seção importante, devemos considerar três luz que Deus lhe mostra pode deixar de
nomes dados ao Filho de Deus. O nome adorar aos pés de Jesus. Em Cristo, "todos
Jesus significa "Salvador" e vem do hebraico os tesouros da sabedoria e do conhecimen­
Josué ("Jeo vá é salvação"). Havia muitos to estão ocultos" (Cl 2:3). Nele habita "cor­
meninos judeus chamados Josué (ou, no poralmente, toda a plenitude da Divindade"
grego, Jesus), mas o filho de Maria chama­ (Cl 2:9).
va-se "Jesus o Cristo". O termo Cristo quer Os magos estavam à procura do Rei, mas
dizer "ungido" e é o equivalente grego da Herodes temia esse Rei e desejava destruí-
designação Messias. Ele é "Jesus o Messias". lo. Trata-se, aqui, de Herodes, o Grande,
Jesus é o seu nome humano; Cristo (Mes­ chamado de rei pelo senado romano por
sias) é o seu título oficial; e Emanuel descre­ causa da influência de Marco Antônio. He­
ve quem ele é - "Deus conosco". Jesus rodes era um homem cruel e astucioso que
Cristo é Deus! Encontramos a designação não permitia a ninguém, nem mesmo aos
"Emanuel" em Isaías 7:14 e 8:8. membros da própria família, qualquer inter­
Assim, o Rei era um homem judeu e tam­ ferência em seu governo nem que se impe­
bém o Filho de Deus. Mas será que alguém disse a satisfação de seus desejos perversos.
MATEUS 1 15

Assassino im placável, ordenou a morte da Herodes fingia querer adorar o Rei recém-
própria esposa e dos dois irmãos dela por nascido (M t 2:8), quando na verdade queria
suspeitar de traição. Casou-se pefo menos matá-lo. Deus mandou a José pegar a crian­
nove vezes, a fim de satisfazer sua luxúria e ça e M aria e fugir para o Egito, pois era per­
de fortalecer alianças políticas. to e havia muitos judeus naquela região. O s
Não é de se admirar que Herodes tenha tesouros recebidos dos magos seriam mais
tentado matar Jesus. Afinal, desejava ser o do que suficientes para pagar as despesas
único a usar o título de "Rei dos Judeus". da viagem e de estadia nessa terra estran­
N o entanto, havia outra razão para desejar geira. Além do mais, havia outra profecia a
se ver livre de Jesus. Herodes não era judeu ser cumprida, Oséias 11:1: "do Egito chamei
puro, mas idum eu, descendente de Esaú. o meu filho".
Vem os aqui um retrato do conflito antiqüís- A fúria de Herodes mostra seu orgulho;
simo entre Esaú e Jacó, que teve início an­ não perm itiria que ninguém o enganasse,
tes mesmo de os m eninos nascerem (G n especialmente um bando de estudiosos gen­
25:19-34). É o espiritual contra o carnal, o tios! Assim, decretou a morte de todos os
piedoso contra o impiedoso. meninos com até 2 anos de idade que ainda
O s magos procuravam o Rei; Herodes permaneciam em Belém. Não devemos ima­
opunha-se a ele e os sacerdotes judeus o ginar aqui centenas de garotinhos sendo
ignoravam. O s sacerdotes conheciam as Es­ mortos, pois não havia tantos meninos dessa
crituras e mostravam o Salvador a outros, idade em Belém naquela época. M esm o hoje,
mas eles mesmos se recusaram a adorá-lo! a população em Belém é de cerca de vinte
Citaram M iquéias 5:2, mas não obedeceram mil habitantes. É bem provável que não te­
à Palavra. Estavam a m enos de 10 quilô­ nha havido mais de vinte execuções. M as é
metros do Filho de Deus e, no entanto, não claro que uma só morte já teria sido demais!
foram vê-lo! O s gentios o buscaram e en­ Mateus introduz aqui o tema da hostili­
contraram, mas os judeus não. dade, do qual trata ao longo de todo o livro.
De acordo com Mateus 2:9, a estrela que Satanás é mentiroso e assassino (Jo 8:44), e
guiava os magos não ficava sempre visível. o rei Herodes não era diferente. M entiu para
Dirigindo-se a Belém , eles a viram novamen­ os magos e mandou matar os meninos. Mas,
te, e ela os conduziu à casa onde Jesus esta­ até mesmo esse crim e hediondo foi o cum ­
va. A essa altura, José e M aria haviam saído primento da profecia em Jerem ias 31:15. A
do local tem porário onde Jesus havia nas­ fim de entenderm os esse cum prim ento,
cido (Lc 2:7). O s presépios tradicionais que convém fazer uma recapitulação da histó­
reúnem pastores e sábios não são fiéis às ria judaica.
Escrituras, pois os magos chegaram bem Belém é m encionada pela primeira vez
depois. nas Escrituras com referência à m orte de
M ateus cita outra profecia que se cum­ Raquel, a esposa predileta de Jacó (G n 35:16­
priu para provar que Jesus Cristo é o Rei (M t 20). Raquel morreu ao dar à luz um filho ao
2:5). Sua m aneira de nascer cumpriu uma qual chamou Benoni, que significa "filho do
profecia, e o lugar onde nasceu cum priu meu sofrimento". Jacó mudou o nome do me­
outra. Belém significa "casa do pão" e foi nino para Benjamim, "filho da minha destra".
onde o "p ão da vid a" veio ao mundo (Jo O s dois nomes são relacionados a Jesus Cris­
6:48ss). N o Antigo Testamento, Belém é as­ to, pois eie foi um "hom em de dores e que
sociada a Davi, um tipo de Jesus Cristo em sabe o que é padecer" (Is 53:3), e agora é o
seu sofrimento e glória. Filho de Deus, sentado a sua destra (A t 5:31;
H b 1:3). Ja c ó levantou uma coluna para
3 . A H O STILID AD E CO NTRA O R E I marcar o lugar da sepultura de Raquel nas
(M t 2:13-18) cercanias de Belém.
Identifica-se alguém não apenas por seus A profecia de Jerem ias foi proferida cer­
am igos, mas tam bém por seus inim igos. ca de seiscentos anos antes do nascimento
16 MATEUS 1 - 2

de Cristo, no contexto da captura de Jerusa­ entanto, os judeus descobriram que, apesar


lém em cativeiro. Alguns dos cativos foram de suas promessas de bondade, Arquelau
levados a Ramá, em Benjamim, perto de Je­ era tão perverso quanto o pai. Assim, os ju­
rusalém, episódio que lembrou Jeremias do deus enviaram uma delegação a Roma para
sofrimento de Jacó quando Raquel morreu. protestar contra sua coroação. César Augus­
No entanto, na passagem de Jeremias é Ra­ to concordou com os judeus e o rebaixou a
quel quem chora, representando as mães de etnarca, com autoridade somente sobre
Israel chorando ao ver seus filhos sendo le­ metade do reino de seu pai (talvez, Jesus
vados para o cativeiro. Era como se Raquel estivesse pensando nesse fato histórico quan­
dissesse: "Entreguei minha vida para dar à do contou a parábola das dez minas em Lc
luz um filho, e agora seus descendentes es­ 19:11-27).
tão sendo destruídos". Esse episódio todo é um bom exemplo
Jacó viu Belém como um lugar de mor­ de como Deus conduz seus filhos. José sa­
te, mas o nascimento de Jesus transformou- bia que, sob o governo de Arquelau, ele e
o num lugar de vida! A vinda do Messias sua família não estariam mais seguros do
traria libertação espiritual a Israel e, no futu­ que estavam sob o governo de Herodes, o
ro, o estabelecimento do trono e do reino Grande. É provável que estivessem indo
de Davi. Um dia, Israel - "o filho do meu para Belém quando descobriram que
sofrimento" - seria chamado de "o filho da Arquelau estava no trono. Sem dúvida, José
minha destra". Jeremias deu à nação a pro­ e Maria oraram, esperaram e buscaram a
messa de que seriam restaurados a sua terra vontade de Deus. O bom senso lhes reco­
(Jr 31:16, 17), e a promessa foi cumprida. mendou cautela, e a fé pediu que esperas­
Porém, prometeu-lhes algo ainda maior: al­ sem. No tempo apropriado, Deus falou a
gum dia, a nação seria reunida e o reino José em sonho, depois do qual ele levou
seria estabelecido (Jr 31:27ss). Essa profecia sua família para Nazaré, onde haviam vivi­
também se cumprirá. do antes (M t 2:19, 20).
Hoje em dia, poucos identificam Belém Até essa mudança cumpriu uma pro­
como um lugar de sepultamento. Para mui­ fecia! Mais uma vez, Mateus ressalta que
tos, é o lugar onde Jesus Cristo nasceu. Por cada detalhe da vida de Jesus foi profetiza­
ter morrido por nós e ter ressuscitado, te­ do nas Escrituras. É importante observar que
mos um futuro promissor. Viveremos com Mateus não se refere a um único profeta
ele para sempre na cidade gloriosa, onde em Mateus 2:23; antes afirma que tudo ocor­
não haverá mais morte nem lágrimas. reu "para que se cumprisse o que fora dito
por intermédio dos profetas" (plural).
4. A h u m il d a d e d o R ei (M t 2:19-23) Jesus não é chamado de "nazareno" em
Herodes morreu em 4 a.C., o que significa nenhum a profecia específica. O termo
que Jesus nasceu entre os anos 6 e 5 a.C. É nazareno costumava ser usado em tom de
impossível não ver o paralelo entre Mateus reprovação: "D e Nazaré pode sair alguma
2:20 e Êxodo 4:19, o chamado de Moisés. coisa boa?" (Jo 1:46). Várias profecias do
Como Filho de Deus, Jesus estava no Egito Antigo Testamento mencionam a rejeição do
e foi chamado para ir para Israel. Moisés es­ Messias em sua infância, e taivez seja a elas
tava fora do Egito, escondendo-se para não que Mateus esteja se referindo (ver SI 22; Is
ser morto, e foi chamado para voltar ao Egi­ 53:2, 3, 8). O termo "nazareno" passou a
to. Mas os dois faziam parte do plano de ser usado tanto para Jesus quanto para seus
Deus para a redenção da humanidade. José seguidores (At 24:5). Em diversas ocasiões,
e sua família precisaram de coragem para o Mestre é chamado de "Jesus de Nazaré"
deixar o Egito, a mesma coragem que Moisés (M t 21:11; M c 14:67; Jo 18:5, 7).
precisou ter ao voltar para o Egito. No entanto, é possível que, guiado pelo
Arquelau era um dos filhos de Herodes, Espírito, Mateus tenha observado uma liga­
escolhido pelo pai para ser seu sucessor. No ção espiritual entre o nome "nazareno" e a
MATEUS 1 - 2 17

palavra hebraica rtetzer, que significa "um Um a pesquisa dos registros do tem plo te­
ramo ou renovo". Vários profetas deram esse ria lhes revelado que ele havia nascido em
título a Jesus (ver Is 4:2; 11:1; Jr 23:5; 33:15; Belém .
Z c 3:8; 6:12, 13). O nde já se viu um rei nascer num vilarejo
Jesus cresceu em Nazaré e foi associa­ e crescer numa cidade desprezada? A hu­
do a essa cidade. D e fato, seus inim igos mildade do Rei é, sem dúvida alguma, digna
pensavam que ele havia nascido lá, pois di­ de nossa adm iração e um exem plo a ser
ziam que ele era da G aliléia (Jo 7:50-52). seguido (Fp 2:1-13).
se julgava tão virtuosa (Mt 12:34; 23:33; Jo
3 8:44).
Os fariseus eram os tradicionalistas de
seu tempo, enquanto os saduceus eram mais
As C redenciais do R ei liberais (ver At 23:6-9). Os saduceus abasta­
dos controlavam os "negócios do templo",
M a teu s 3 - 4 o comércio que Jesus removeu daquele lugar
de oração. Os fariseus e saduceus disputa­
vam entre si o controle de Israel, mas uni­
ram forças para se oporem a Jesus Cristo.
João proclamava uma mensagem de jul­
gamento. Israel havia pecado e precisava
ntre os capítulos 2 e 3 de Mateus, passa­ arrepender-se, e cabia aos líderes religiosos
E ram-se cerca de trinta anos, durante os
quais Jesus viveu em Nazaré e trabalhou
dar o exemplo ao restante do povo. O ma­
chado estava posto à raiz da árvore, e se
como carpinteiro (Mt 13:55; Mc 6:3). Che­ esta (Israel) não desse bons frutos, seria cor­
gou, enfim, o dia de começar o ministério tada (ver Lc 13:6-10). Se a nação se arrepen­
público que culminaria na cruz. Suas qualifi­ desse, o caminho estaria preparado para a
cações para ser Rei ainda eram válidas? Ha­ vinda do Messias.
via ocorrido algo nesse tempo que pudesse Sua autoridade (w . 3, 4). João cumpriu
desqualificá-io? Nos capítulos 2 e 3, Mateus a profecia dada em Isaías 40:3. Em termos
reúne os depoimentos de cinco testemunhas espirituais, João foi o "espírito e poder de
quanto à pessoa de Jesus Cristo, afirmando Elias" (Lc 1:16,17). Até se vestia como Elias
que ele é o Filho de Deus e o Rei. e pregava a mesma mensagem de julgamen­
to (2 Rs 1:8). João foi o último dos profetas
1. J o ã o B a t ist a ( M t 3:1-15) do Antigo Testamento (Lc 16:16) e o maior
A nação havia passado mais de quatrocen­ de todos (Mt 11:7-15; ver 17:9-13).
tos anos sem ouvir a voz de um profeta. Seu batismo (w . 5, 6, 11, 12). Os ju­
Então, aparece João, iniciando um grande deus batizavam gentios convertidos, mas
reavivamento. Consideremos quatro fatos João estava batizando judeus! O batismo
sobre João Batista. não era algo que João havia inventado ou
Sua mensagem (w . 1, 2, 7-10). A pre­ tomado emprestado de alguma outra reli­
gação de João concentrava-se no arre­ gião, antes, era realizado com autoridade
pendimento e no reino dos céus. A paíavra do céu (Mt 21:23-27). Era um batismo de
arrepender significa "mudar a forma de pen­ arrependimento, que antevia a chegada do
sar e agir de acordo com essa mudança". Messias (At 19:1-7) e que cumpriu dois pro­
João não se contentava com remorso ou pósitos: preparou a nação para Cristo e apre­
pesar. Desejava ver "frutos dignos de arre­ sentou Cristo à nação (Jo 1:31).
pendimento" (Mt 3:8). Era preciso provas de Mas João mencionou outros dois batis­
que a vida e a forma de pensar do indivíduo mos: um batismo do Espírito e um batismo
haviam sido transformadas. de fogo (Mt 3:11). O batismo do Espírito veio
Gente de todo tipo ia ouvir João pregar em Pentecostes (At 1:5; observar também
e vê-lo realizar os batismos. Muitos publica­ que Jesus não fala nada sobre fogo). Hoje,
nos e pecadores o procuraram com sincera sempre que um pecador crê em Cristo, é
humildade (M t 21:31, 32), mas os líderes nascido de novo e batizado no mesmo ins­
religiosos recusaram sujeitar-se a sua pre­ tante pelo Espírito Santo, passando a fazer
gação. Consideravam-se bons o bastante parte do corpo de Cristo, a Igreja (1 Co
para agradar a Deus. No entanto, João os 12:12, 13). O batismo de fogo, por outro
chamava de "raça de víboras". Jesus usou a lado, refere-se ao julgamento futuro, como
mesma linguagem ao tratar dessa gente que Mateus explica (Mt 3:12).
MATEUS 3 - 4 19

Sua obediência (w . 13-15). jesus não foi (M t 17:3) e pouco antes de Cristo ser cruci­
batizado por ser um pecador arrependido. ficado (Jo 12:27-30). Naquele tempo, Deus
Até mesmo João tentou detê-lo, mas Jesus falou a seu Filho; hoje, ele fala por m eio de
sabia que essa era a vontade do Pai. Por que seu Filho (H b 1:1, 2).
Jesus foi batizado? Em primeiro lugar, seu A declaração do Pai vinda do céu pare­
batismo foi uma forma de aprovar o ministé­ ce repetir o Salmo 2:7: "Tu és meu Filho, eu,
rio de João. Em segundo lugar, mediante o hoje, te gerei". De acordo com Atos 13:33,
batismo, Cristo identificou-se com os publi­ esse ato de "gerar" refere-se à ressurreição
canos e pecadores, as pessoas que veio salvar. de Cristo dentre os mortos, não a seu nasci­
Mas, acima de tudo, foi um retrato do futuro mento em Belém. Essa declaração encaixa-
batismo na cruz (M t 20:22; Lc 12:50) no qual se perfeitamente com a experiência de ba­
seria coberto por todas as "ondas e vagas" tismo de Jesus em sua morte, sepultamento
do julgamento de Deus (SI 42:7; Jn 2:3). e ressurreição.
Assim, João Batista testemunhou que Je­ M as a declaração do Pai também asso­
sus Cristo é o Filho de Deus e, também, o cia Jesus Cristo com o "Servo Sofredor" pro­
Cordeiro de Deus (Jo 1:29), e seu testemu­ fetizado em Isaías 40 a 53. Em Mateus 12:18,
nho levou muitos pecadores a crer em Jesus Mateus cita Isaías 42:1-3, em que o Servo
Cristo (Jo 10:39-42). Messias é chamado de "m eu escolhido, em
quem a minha alma se compraz". O Servo
2. O E s p ír it o S a n t o ( M t 3:16) descrito em Isaías é humilde, rejeitado, desti­
A vin d a do Espírito Santo em form a de nado a sofrer e morrer, mas é retratado como
pomba foi um modo de identificar Jesus para aquele que virá em vitória. Apesar de ser
João (Jo 1:31-34); também serviu para ga­ possível detectar uma imagem vaga de Israel
rantir a Jesus, naquele momento em que ini­ como nação em alguns desses "cânticos do
ciava seu ministério, que o Espírito estaria servo", a revelação mais clara dessas passa­
sempre com ele (Jo 3:34). A pomba é um gens diz respeito ao Messias, Jesus Cristo.
símbolo muito bonito do Espírito de Deus Mais uma vez, vemos a associação com Cristo
em sua pureza e seu ministério de paz. Essa em sua morte, sepultamento e ressurreição.
ave aparece nas Escrituras pela primeira vez Por fim, a declaração do Pai deixou pa­
em Gênesis 8:6-11. Noé soltou dois pássa­ tente sua aprovação de tudo o que Jesus
ros, um corvo e uma pomba, mas apenas a havia feito até aquele momento. O s anos
pomba voltou. O corvo representa a carne, que Jesus passou "escondido" em Nazaré
e não teve dificuldade em encontrar alimen­ alegraram muito o Pai. Sem dúvida, esse elo­
to fora da arca. M as a pomba não se conta­ gio foi um grande estímulo para o Filho ao
m inaria com carcaças e, portanto, voltou com eçar seu ministério.
para a arca. Da segunda vez que foi solta, a
pom ba voltou trazendo no bico o ramo de 4. S a t a n á s (M t 4:1-11)
uma oliveira, um símbolo da paz. Da tercei­ Da experiência sagrada e sublime das bên­
ra vez que foi solta, não voltou. çãos no Jordão, Jesus foi conduzido ao de­
Podem os ver mais um significado nessa serto para ser testado. Jesus não foi tentado
imagem. O nom e Jonas significa "pom ba", para que o Pai pudesse aprender alguma
e ele também passou por um batismo! Jesus coisa sobre seu Filho, pois o Pai já havia lhe
usou Jonas com o um tipo do próprio Messias dado sua aprovação divina. Jesus foi tenta­
em sua morte, sepultamento e ressurreição do para que toda criatura, no céu, na terra
(M t 12:38-40). Jonas foi enviado aos gentios, ou abaixo dela, soubesse que Jesus Cristo é
e Jesus também ministraria aos gentios. o Conquistador. Desmascarou Satanás e suas
táticas e o derrotou; por causa de sua vitó­
3. O Pai (M t 3:17) ria, hoje podemos vencer a tentação.
O Pai falou dos céus em três ocasiões espe- Assim com o o primeiro Adão encontrou
20 MATEUS 3 - 4

seu inimigo (1 Co 15:45). Adão se deparou Para derrotar Satanás, Jesus cita Deute-
com Satanás num belo jardim, mas Jesus o ronômio 8:3. Alimentar-se da Palavra de
enfrentou no deserto. Adão tinha tudo o que Deus é mais importante do que consumir
necessitava, mas Jesus estava com fome de­ alimento físico. Na verdade, a Palavra é nos­
pois de quarenta dias jejuando. Adão per­ so alimento (Jo 4:32-34).
deu a batalha e mergulhou a humanidade A segunda tentação (vv. 5-7). A segun­
no pecado e na morte. Mas Jesus venceu da tentação é bem mais sutil. Dessa vez,
aquela batalha e continuou derrotando Sa­ Satanás também usa a Palavra de Deus.
tanás em outras batalhas, culminando com "Quer dizer que você pretende viver pelas
sua vitória final na cruz (Jo 12:31; Cl 2:15). Escrituras?", insinua. "Então, permita-me ci­
Essa experiência de tentação preparou tar um versículo da Palavra para ver se você
Jesus para ser nosso Sumo Sacerdote (Hb lhe obedece!" Assim, Satanás o colocou no
2:16-18; 4:15,16). É importante observar que pináculo do templo, cerca de cento e cin­
Jesus enfrentou o inimigo como homem, não qüenta metros acima do vale de Cedrom, e
como Filho de Deus. Suas primeiras palavras citou o Saimo 91:11,12, em que Deus pro­
foram: "não só de pão viverá o homem" (Mt mete cuidar dos seus. "Se crê nas Escrituras,
4:4; it. do autor). Não devemos imaginar que pule! Vamos ver se o Pai está mesmo cui­
Jesus usou seus poderes divinos para derro­ dando de sua vida!"
tar o inimigo, pois era justamente isso o que É importante observar com atenção a
Satanás queria que ele fizesse. Jesus usou resposta de Jesus: "TAMBÉM está escrito"
os mesmos recursos espirituais à disposição (Mt 4:7, ênfase do autor). Nunca devemos
de todos nós hoje: o poder do Espírito San­ separar uma passagem do resto das Escritu­
to (Mt 4:1) e o poder da Palavra de Deus ras; antes, é preciso sempre "[conferir] coi­
("está escrito"). Não havia coisa na nature­ sas espirituais com espirituais" (1 Co 2:13).
za de Jesus que servisse de ponto de apoio Podemos usar a Bíblia para provar pratica­
para Satanás (Jo 14:30), mas, ainda assim, mente qualquer coisa, se isolarmos os tex­
suas tentações foram reais. A tentação en­ tos de seu contexto, transformando-os em
volve a vontade, e Jesus veio para fazer a pretextos. Ao citar o Salmo 91, Satanás ha­
vontade do Pai (Hb 10:1-9). via omitido astutamente as palavras "em to­
A prim eira tentação (w . 1-4). Diz res­ dos os teus caminhos". O filho de Deus, que
peito ao amor e à vontade de Deus. "Uma está dentro da vontade de Deus, desfruta a
vez que você é o Filho amado de Deus, por proteção do Pai. Ele cuida daqueles que es­
que seu Pai não o alimenta? Por que colo­ tão andando nos "[seus] caminhos".
cou você neste deserto terrível?" Essa tenta­ Jesus refuta o inimigo com Deuteronô-
ção não é muito diferente das palavras de mio 6:16: "Não tentarás o Senhor, teu Deus".
Satanás a Eva em Gênesis 3: uma insinua­ Tentamos o Senhor quando nos colocamos
ção sutil de que o Pai não nos ama. em situações que o obrigam a intervir de
Mas o inimigo faz ainda outra suges­ modo miraculoso em nosso favor. O diabé­
tão: "Use seus poderes divinos para suprir tico que se recusa a tomar insulina e diz que
suas próprias necessidades". Quando co­ Jesus cuidará dele está tentando o Senhor.
locamos nossas necessidades físicas acima Tentamos Deus quando procuramos fazê-lo
das espirituais, caímos em pecado. Quan­ cair em contradição com sua Palavra. É es­
do permitimos que as situações controlem sencial que cada cristão leia todas as Escri­
nossas ações, em vez de seguir a vontade turas e estude tudo o que Deus tem a dizer,
de Deus, também caímos em pecado. Je­ pois tudo o que se encontra na Bíblia é pro­
sus poderia ter transformado as pedras em veitoso para nossa vida (2 Tm 3:16, 17).
pães, mas com isso teria usado seus pode­ A terceira tentação (w . 8-11). Nessa ten­
res independentemente do Pai, e o Filho tação, Satanás oferece a Jesus um atalho para
veio justamente para obedecer ao Pai (Jo seu reino. Jesus sabia que teria de sofrer e de
5:30; 6:38). morrer antes de entrar em sua glória (Lc 24:26;
MATEUS 3 - 4 21

1 Pe 1:11; 5:1). Se tivesse se prostrado e Depois de derrotar Satanás, Jesus estava


adorado Satanás apenas uma vez (essa é a pronto para iniciar seu ministério. Nenhum
ênfase do verbo grego), teria desfrutado toda homem tem o direito de cham ar outros a
a glória sem qualquer sofrimento. Satanás ob ed ecer enquanto ele próprio não tiver
sempre quis receber adoração, pois sempre obedecido. Cristo provou ser o Rei perfeito
quis ser Deus (is 14:12-14). Adorar a criatu­ cuja soberania é digna de nosso respeito e
ra em lugar do Criador é a mentira que go­ obediência. M as fiel a seu propósito, M ateus
verna nosso mundo nos dias de hoje (Rm tem mais uma testemunha para depor em
1:24, 25). favor da realeza de Jesus Cristo.
N ão existem atalhos para a vontade de
Deus. Se desejam os participar da glória, 5. O M IN IST ÉR IO DE PO D ER DE C R IS T O
devemos participar antes do sofrimento (1 Pe (M t 4:12-25)
5:10). Com o príncipe deste mundo, Satanás M ateus já mostrou que todos os detalhes
tinha autoridade para oferecer esses reinos da vida de Jesus foram governados pela Pa­
para Cristo (jo 12:31; 14:30), mas Jesus não lavra de Deus. Devem os lembrar que, entre
aceitou a oferta. O Pai já havia prom etido o o final das tentações e a declaração de M a­
reino a seu Filho! "Pede-me, e eu te darei as teus 4:12, temos o m inistério descrito em
nações por herança" (SI 2:8). Encontramos Jo ã o 1:19 - 3:36. N ão devem os imaginar
a mesma promessa no Salm o 22:22-31, o que Jo ã o Batista foi preso logo depois da
salmo da cruz. tentação de Jesus. O Evangelho de M ateus
Jesus o refuta com Deuteronôm io 6:13: é organizado por tópicos, não em seqüên­
"O S e n h o r , teu Deus, temerás, a ele servi- cia cronológica. Para o estudo mais detalha­
rás". Satanás não havia dito nada sobre pres­ do da seqüência dos acontecim entos, reco­
tar culto, mas Jesus sabia que toda adora­ m endo o uso de uma boa harm onia dos
ção im plica servidão. A doração e serviço Evangelhos.
andam juntos. Em M ateus 4:16, M ateus cita Isaías (ver
Derrotado, Satanás saiu de fininho, mas Is 9:1, 2). O profeta escreveu sobre pessoas
não deixou de tentar Jesus, com o Lucas 4:13 que "andavam " na escuridão, mas no tem­
deixa claro: "Passadas que foram as tenta­ po de M ateus a situação era tão desanima-
ções de toda sorte, apartou-se dele o diabo, dora que o povo "jazia" na escuridão! Jesus
até momento oportuno". Satanás usou Pedro Cristo lhes trouxe a luz. M ontou seu "centro
para tentar Jesus a abandonar a cruz (M t de operações" em Cafarnaum, na "G aliléia
16:21-23); por meio da multidão que havia dos gentios" - outra referência ao alcance
sido alimentada, tentou Jesus a estabelecer universal do evangelho. A G aliléia possuía
seu reino da m aneira mais fácil (Jo 6:15). uma população mestiça desprezada pelos
Um a vitória não garante jamais a liberdade cidadãos "puros" da judéia.
de futuras tentações. Antes, cada experiên­ D e que m aneira Jesus trouxe essa luz
cia de vitória serve apenas para incentivar para a G aliléia? D e acordo com M ateus 4:23,
Satanás a tentar com mais afinco. e le o fez p or m eio de suas p reg açõ es,
Convém observar que o relato de Lucas ensinamentos e curas. Essa ênfase pode ser
inverte a ordem das duas úttimas tentações encontrada com freqüência no Evangelho
conform e se encontram registradas em M a­ de M ateus: ver 9:35; 11:4, 5; 12:15; 14:34­
teus. A palavra "então" em M ateus 4:5 pare­ 36; 15:30; 19:2. O evangelista deixa claro
ce indicar seqüência. Lucas apenas usa a que Jesus curou "toda sorte de doenças e
conjunção simples "e ", sem afirmar que está de enferm idades" (M t 4:23). Não havia caso
seguindo uma seqüência. A injunção de Je ­ algum difícil demais para Jesus!
sus no final da terceira tentação ("Retira-te, Em decorrência desses grandes milagres,
Satanás") com prova que M ateus segue a se­ Jesus tornou-se extremamente conhecido e
qüência histórica. Não há contradição, pois passou a ser acom panhado por uma multi-
22 MATEUS 3 - 4

indica o versículo 15. A expressão "além do homens que já haviam se encontrado com
Jordão" refere-se à Peréia, a região a leste Jesus e crido nele (Jo 1:29-42). Voltaram para
do Jordão. As notícias correram, e os que seu negócio de pesca, mas Jesus os chamou
tinham amigos ou familiares enfermos os tra­ para deixar tudo e segui-lo. Os detalhes des­
ziam para ser curados por Jesus. se chamado podem ser encontrados em
Mateus apresenta uma relação de alguns Marcos 1:16-20 e Lucas 5:1-11.
desses "casos" em Mateus 4:24. "Enfermida­ A expressão "pescadores de homens"
des e tormentos" abrangem quase todos os não era nova. Há séculos, filósofos gregos e
tipos de doenças. Sem dúvida, Jesus também romanos usavam-na para descrever o traba­
expulsou vários demônios. O termo "lunáti­ lho daqueles que procuravam ensinar e per­
cos" não se refere a pessoas com doenças suadir outros. "Pescar homens" é apenas
mentais, mas sim aos que sofriam de epilep­ uma dentre muitas imagens que retratam o
sia {ver M t 17:15). As curas foram apenas uma evangelismo na Bíblia, e não devemos nos
parte do ministério de Cristo por toda a limitar a ela. Jesus também falou do pastor à
Galiléia, pois ele também ensinou e pregou procura de ovelhas perdidas (Lc 15:1-7) e de
a Palavra. A "luz" prometida por Isaías foi a trabalhadores na época da colheita (Jo 4:34­
Luz da Palavra de Deus, bem como a Luz da 38). Uma vez que esses quatro homens tra­
vida perfeita e do ministério compassivo de balhavam com a pesca, nada mais lógico que
Cristo. A palavra "pregar", em Mateus 4:1 7 e Jesus usar essa abordagem.
23, significa "anunciar como arauto". Jesus Quatro (ou talvez até sete) dos doze dis­
proclamou com autoridade as boas-novas de cípulos de Jesus eram pescadores (ver Jo
que o reino dos céus estava próximo. 21:1-3). Por que Jesus chamou tantos pesca­
A expressão reino dos céus é encontra­ dores? Em primeiro lugar, eles eram homens
da 32 vezes no Evangelho de Mateus, en­ ativos; não costumavam passar o dia inteiro
quanto a expressão reino de Deus é usada ociosos. Quando não estavam no barco,
apenas 5 vezes (M t 6:33; 12:28; 19:24; passavam boa parte do tempo selecionan­
21:31, 43). Por uma questão de reverência do o que haviam pescado, preparando-se
ao nome santo do Senhor, os judeus não para a pescaria seguinte ou fazendo a ma­
pronunciavam o nome "Deus", substituindo- nutenção de seu equipamento. O Senhor
o por "céus". O filho pródigo confessou ha­ precisava de pessoas ativas, que não tives­
ver pecado "contra o céu", referindo-se, sem medo de trabalhar.
obviamente, a Deus. Em várias passagens em Os pecadores tinham de ser corajosos e
que Mateus usa reino dos céus, os textos pacientes. Sem dúvida, é necessário paciên­
paralelos em Marcos e Lucas usam reino cia e coragem para levar pessoas a Cristo.
de Deus. Era preciso ser habilidosos e aprender com
No Novo Testamento, a palavra reino sig­ outros os melhores lugares para encontrar
nifica "autoridade, governo", não um lugar peixes e a melhor maneira de pescá-los. A
ou território específico. A expressão "reino pesca de almas requer habilidade. Os pes­
dos céus" refere-se ao governo de Deus. Os cadores precisam trabalhar em equipe, e o
líderes judeus queriam um líder político que trabalho do Senhor também requer coope­
os livrasse de Roma, mas Jesus veio exercer ração. Acima de tudo, porém, a pescaria
soberania espiritual sobre o coração do povo. requer fé: os pescadores não conseguem ver
No entanto, como vimos anteriormente, isso os peixes, portanto não sabem ao certo o
não nega a realidade do reino vindouro. que pegarão em suas redes. A fim de ser
Jesus não apenas proclamou as boas-no­ bem-sucedida, a pesca de almas também
vas e ensinou ao povo a verdade de Deus, exige fé e vigilância.
mas também escolheu para si alguns discí­ Mateus apresentou-nos o Rei, e, no capí­
pulos que pudesse treinar para o serviço do tulo que acabamos de estudar, vimos todas
reino. Em Mateus 4:18-22, lemos sobre o as testemunhas declararem: "Este é o Filho
chamado de Pedro, André, Tiago e João, de Deus, este é o Rei!"
Neste capítulo, jesus dá três explicações
4 sobre a verdadeira justiça espiritual.

1. A NATUREZA DA JU STIÇA VERD AD EIRA


Os P rin c íp io s d o Rei: (M t 5:1-16)
A V e r d a d e ir a Ju s t iç a Com o M estre exemplar que foi, Jesus não
com eça este serm ão tão im portante com
uma crítica negativa aos escribas e fariseus.
M a t eu s 5
Antes, inicia seu discurso com uma ênfase
positiva sobre o caráter idôneo e as bênçãos
que dele decorrem para o cristão. O s fariseus
ensinavam que a justiça era algo exterior,
sermão do monte é de todas as mensa­ uma questão de obedecer a determinadas
O gens de Jesus a mais mal interpretada.
Uns dizem que é o plano de salvação de
regras e preceitos. Poderia ser medida por
orações, ofertas, jejuns etc. Jesus, nas bem-
Deus e que, se desejamos ir para o céu um aventuranças e nas descrições do indivíduo
dia, devem os obedecer a suas regras. O u ­ tem ente a Deus, apresenta um caráter cris­
tros o chamam de "tratado em prol da paz tão que flui do ser interior.
m undial" e instam as nações da Terra a acei­ Podem os imaginar com o a atenção da
tá-lo com o tal. Outros, ainda, dizem que o multidão se aguçou quando jesus proferiu
sermão do monte não se aplica aos dias de as primeiras palavras: "bem-aventurados" (em
hoje, mas que valerá para um tempo futuro, latim, beatus, de onde vem o term o bea­
talvez durante a trib u lação ou no reino titude). Essa palavra tinha significado muito
milenar. forte para os que ouviam Jesus naquele dia,
A meu ver, a chave para esse sermão é pois expressava a idéia de "alegria divina e
M ateus 5:20: "Porq ue vos digo que, se a perfeita". N ão era um termo usado para os
vossa justiça não exceder em muito a dos seres humanos, pois descrevia o tipo de ale­
escribas e fariseus, jamais entrareis no reino gria experim entado apenas por deuses ou
dos céus". O tema central desse texto é a por mortos. Essa "bem-aventu rança" suge­
verdadeira justiça. O s líderes religiosos pos­ ria satisfação e suficiência interiores que não
suíam uma justiça artificial e exterior com dependiam das circunstâncias externas para
base apenas na lei. A justiça que Jesus des­ ter alegria. É isso que o Senhor oferece aos
creve, porém, é verdadeira e essencial, co­ que confiam nele!
m eça no interior, no coração. O s fariseus As bem-aventu ranças descrevem as atitu­
preocupavam-se com os mínimos detalhes des que devem estar presentes em nossa vida
da conduta, mas deixavam de cuidar do mais hoje. Vemos aqui quatro dessas atitudes.
im portante, o caráter. A conduta é decor­ Atitude em relação a si mesmo (v. 3).
rente do caráter. Ser humilde significa ter uma opinião corre­
Quaisquer que sejam as possíveis aplica­ ta de si mesmo (Rm 12:3). N ão quer dizer
ções do sermão do monte para os proble­ ser "p obre de espírito" e fraco! A humilda­
mas mundiais ou os acontecimentos futuros, de é o oposto das atitudes atuais de auto-
sem dúvida ele se aplica de maneira bem de­ afirm ação e de exaltação. Também não é
finida a nós hoje. Jesus transmitiu essa men­ uma falsa hum ildade, com o aquela que diz:
sagem aos cristãos com o indivíduos, não ao "N ã o tenho valor algum, não sou capaz de
mundo incrédulo em geral. O s ensinamentos fazer nada", mas sim uma atitude de ho­
do sermão do monte são repetidos para a nestidade em relação a si mesmo: conhe­
Igreja de hoje nas epístolas do N ovo Tes­ cer-se, aceitar-se e tentar ser autêntico para
tamento. A princípio, Jesus proferiu essas pa­ a glória de Deus.
lavras para seus discípulos (M t 5:1), e mais Atitude em relação ao pecado (w. 4-6).
24 MATEUS 5

pecado e o rejeitamos. Vemos o pecado co­ na multidão disseram: "É impossível cultivar
mo Deus o vê e procuramos tratá-lo como um caráter como esse. Como ser justos as­
Deus o trata. Aqueles que encobrem ou sim? De onde vem essa justiça?" Para eles,
defendem o pecado estão, sem dúvida algu­ era difícil entender de que maneira esses
ma, indo pelo caminho errado. Não deve­ ensinamentos se relacionavam àquilo que
mos apenas nos entristecer com o pecado, haviam aprendido desde a infância. E quan­
mas também nos sujeitar a Deus com man­ to a Moisés e à lei?
sidão (ver Lc 18:9-14; Fp 3:1-14). Na lei de Moisés, Deus certamente reve­
Mansidão não é o mesmo que fraque­ lou seus padrões para uma vida de santidade.
za, pois tanto Moisés quanto Jesus foram Os fariseus defendiam a lei e procuravam
homens mansos (Nm 12:3; M t 11:29). O lhe obedecer. Mas Jesus afirmou que a ver­
adjetivo "manso" era usado pelos gregos dadeira justiça agradável a Deus deve exce­
para descrever um cavalo domado e se refe­ der aquela dos escribas e fariseus - e, para
re ao poder sob controle. o povo em geral, os escribas e fariseus eram
A titude em relação a Deus (vv. 7-9). as pessoas mais santas da comunidade! Se
Experimentamos a misericórdia de Deus e/es não haviam conseguido encontrar essa
quando cremos em Cristo (Ef 2:4-7), e ele justiça, que esperança haveria para o restan­
nos dá um coração puro (At 15:9) e paz in­ te do povo?
terior (Rm 5:1). Mas, depois de receber sua Jesus explica a própria atitude com res­
misericórdia, nós a compartilhamos com peito à íei descrevendo três relacionamen­
outros. Esforçamo-nos por manter o coração tos possíveis.
puro a fim de buscar a Deus. Tornamo-nos É possível procurar destruir a lei (v. 17a).
pacificadores em um mundo perturbado e Para os fariseus, era justamente isso o que
canais para a paz, a pureza e a misericórdia Jesus fazia. Em primeiro lugar, a autoridade
de Deus. de Jesus não era proveniente de nenhum
Atitude em relação ao mundo (vv. 10­ líder ou escola rabínica conhecida. Em vez
16). Não é fácil ser um cristão consagrado. de ensinar os preceitos das autoridades no
Nossa sociedade não tem amizade com assunto, como os escribas e fariseus, Jesus
Deus nem com o povo de Deus. Quer gos­ ensinava com autoridade.
temos quer não, estamos em conflito com o Jesus parecia desafiar a lei não apenas
mundo, pois somos diferentes e temos atitu­ com sua autoridade, mas também com suas
des diferentes. ações. Curava pessoas no sábado e não fazia
Ao ler as bem-aventuranças, observamos caso das tradições dos fariseus. Seus relacio­
que mostram uma perspectiva radicalmente namentos também pareciam opor-se à lei, pois
diferente daquela do mundo a nosso redor. era amigo de publicanos e de pecadores.
O mundo estimula o orgulho e não a humil­ No entanto, eram os fariseus que des­
dade. O mundo incentiva o pecado, espe­ truíam a lei! Por meio de suas tradições, pri­
cialmente se for possível escapar impunes. vavam as pessoas da Palavra de Deus, e por
O mundo está em guerra com Deus, enquan­ meio de uma vida hipócrita, desobedeciam
to Deus deseja se reconciliar com seus ini­ às leis que afirmavam proteger. Os fariseus
migos e recebê-los como filhos. Quem vive pensavam estar guardando a Palavra de
de maneira agradável a Deus deve esperar Deus, quando, na verdade, reprimiam a Pala­
perseguições. Mas é importante certificar- vra de Deus, sufocando-a com seus preceitos
se de que o sofrimento não é resultante da humanos e acabando com sua vitalidade!
própria insensatez ou desobediência. O fato de terem rejeitado Cristo quando veio
à Terra comprovou que a verdade interior
2 . O CAMINHO PARA A JUSTIÇA da lei não havia penetrado o coração des­
v e r d a d e ir a (Mt 5 :1 7 - 2 0 ) ses homens.
Depois de ouvir a descrição do tipo de ca­ Jesus deixou claro que veio para honrar
ráter que Deus abençoa, sem dúvida alguns a lei e ajudar o povo de Deus a amá-la, apren­
MATEUS 5 25

der dela e colocá-la em prática. Recusou a (H b 10:19). Derrubou o muro de separação


justiça artificial dos líderes religiosos, que não entre judeus e gentios (Ef 2:11-13). Um a vez
passava de uma farsa. Para eles, a religião que a lei foi cumprida em Jesus, não preci­
era um ritual morto, não um relacionam en­ samos mais de templos construídos por mãos
to vivo. Um a vez que era falsa, não se repro­ humanas (At 7:48ss) nem de rituais religio­
duzia em outros de maneira viva e eficaz. sos (Cl 2:10-13).
Prom ovia apenas o orgulho, não a humilda­ Com o é possível cumprir a lei? Entregan­
de; conduzia à escravidão, não à liberdade. do-nos ao Espírito Santo e deixando que
Po d em os p ro c u ra r c u m p rir a le i (v. opere em nossa vida (Rm 8:1-3). O Espírito
17b). Jesus Cristo cumpriu a lei de Deus em Santo permite que experimentemos "a justi­
todos os aspectos de sua vida. Cumpriu-a ça da lei" em nossa vida diária. Isso não sig­
em seu nascimento, pois foi "nascido sob a nifica que temos uma vida perfeita e sem
lei" (Gl 4:4). Seus pais realizaram todos os pecado, mas sim que Cristo vive em nós pelo
rituais prescritos para um menino judeu. Por poder do Espírito Santo (GI-2:20).
certo, também cumpriu a lei em sua vida, Quem lê as bem-aventuranças, vê ali re­
pois ninguém nunca foi capaz de acusá-lo tratado o caráter perfeito de Jesus Cristo.
de qualquer pecado. Jesus obedeceu a to­ Apesar de nunca ter se entristecido com seu
dos os mandamentos de Deus na lei sem, pecado, pois jamais pecou, ainda assim foi
no entanto, se sujeitar às tradições dos escri­ um "hom em de dores e que sabe o que é
bas e fariseus. O Pai expressou sua aprova­ padecer" (Is 53:3). Nunca precisou sentir
ção declarando: "Este é o meu Filho amado, fome nem sede de justiça, pois era o santo
em quem me com prazo" (M t 3:17; 17:5). Filho de Deus, mas se agradou da vontade
Jesus tam bém cum priu a lei em seus do Pai e encontrou saciedade nessa obe­
ensinamentos, e foi isso o que o levou a en­ diência (Jo 4:34). A única forma de experi­
trar em conflito com os líderes religiosos. mentar a justiça das bem-aventuranças é por
Q uando com eçou seu ministério, encontrou meio do poder de Cristo.
a Palavra viva de Deus recoberta de tradi­ Podem os p ro cu rar cu m p rir e ensinar a
ções e de interpretações humanas. Jesus le i (v. 19). Isso não significa voltar toda a
rompeu essa "casca de religiosidade" e guiou atenção para o Antigo Testamento e esque­
o povo de volta à Palavra de Deus. Em se­ cer o Novo! 2 Coríntios 3 deixa bem claro
guida, revelou-a com o nova forma de viver que nosso ministério refere-se à nova alian­
para uma gente acostumada com a "letra" ça. Existe, porém, um ministério da lei (1 Tm
da lei, não com a "essência" da vida. 1:9ss) que não é contrário à mensagem glo­
Foi, porém, em sua morte e ressurreição riosa da graça de Deus. Jesus deseja que
que Jesus cumpriu a lei de maneira espe­ cresçamos em conhecim ento acerca da jus­
cial, pois levou sobre si a maldição da lei (G l tiça de Deus, a fim de que sejamos capazes
3:13). Ele cumpriu os tipos e as cerimônias de lhe obedecer e de compartilhá-la com
do Antigo Testamento para que não fossem outros. A lei moral de Deus não mudou.
mais necessários ao povo de Deus (ver Hb Nove dos dez mandamentos são repetidos
9 - 10). Colocou de lado a antiga aliança e nas epístolas do Novo Testamento, e os cris­
firmou uma nova aliança. tãos são cham ados a obedecer a eles. (A
A fim de destruir a lei, Jesus não lutou única exceção é o m andam ento sobre o
contra ela; ele a cumpriu! Talvez possamos sábado, dado com o um sinal para Israel. Ver
esclarecer esse fato com uma ilustração. Há N e 9:14.)
duas m aneiras de destruir uma sem ente: N ão obedecem os a uma lei exterior por
esmagando-a em pedaços ou plantando-a medo. Antes, com o cristãos nos dias de hoje,
para que cum pra seu propósito e se trans­ obedecem os a uma lei interior e vivem os por
forme numa árvore. causa do amor. O Espírito Santo nos ensina
Q uando Jesus morreu, rasgou o véu do a Palavra e nos capacita a obedecer a ela.
templo e abriu o cam inho para a santidade Pecado continua sendo pecado, e Deus
26 MATEUS 5

continua a castigá-lo. Na realidade, os cris­ Isso não significa que devemos matar
tãos de hoje têm ainda mais responsabilida­ alguém de fato, uma vez que já o fizemos
de, pois temos mais conhecimento! intimamente. Por certo, os sentimentos pe­
caminosos não servem de desculpa para
3. A JUSTIÇA EM AÇÃO NA VIDA DIÁRIA ações pecaminosas. A ira pecaminosa rom­
(Mt 5:21-48) pe nossa comunhão com Deus e com os
Jesus selecionou seis leis importantes do irmãos, mas não faz com que sejamos pre­
Antigo Testamento e as interpretou para o sos como assassinos. No entanto, não fo­
povo à luz da vida nova que veio oferecer. ram poucos os que se tornaram homicidas
Fez uma alteração fundamental sem, no por não conseguir controlar seu furor.
entanto, mudar o padrão de Deus: tratou A ira deve ser encarada honestamente e
das atitudes e intenções do coração, não confessada diante de Deus como pecado.
apenas das ações aparentes. Os fariseus di­ Devemos procurar a pessoa ofendida e colo­
ziam que a justiça consistia em realizar de­ car as coisas em ordem sem demora. Quanto
terminadas ações. Jesus diz que o cerne da mais esperarmos, pior se torna a escravidão!
justiça são as atitudes do coração. Quando recusamos a reconciliação, con-
O mesmo se aplica ao pecado: os fa­ denamo-nos a uma terrível prisão. (Para mais
riseus tinham uma lista de ações exteriores conselhos a esse respeito, ver M t 18:15-20.)
consideradas pecado, mas Jesus explicou Alguém disse bem que a pessoa que se re­
que o pecado provém das atitudes do cora­ cusa a perdoar seu irmão está destruindo a
ção. A ira sem motivo é homicídio no co­ mesma ponte sobre a quai precisa andar.
ração; a lascívia é adultério no coração. A A dultério (vv. 27-30; Êx 20:14). Jesus
pessoa que afirma "viver segundo o sermão assevera a pureza da lei de Deus e, em
do monte" talvez não perceba que é mais seguida, explica que a intenção dessa lei é
difícil seguir esses preceitos do que os Dez revelar a santidade do sexo e a pecami-
Mandamentos! nosidade do coração humano. Deus criou
Hom icídio (w . 21-26; Êx 20:13). Segun­ o sexo e protege essa criação. Tem autori­
do uma estatística que li, em Chicago, uma dade para determinar como deve ser usado
em cada trinta e cinco mortes é por assassi­ e para punir os que se rebelam contra suas
nato, a maior parte delas é "crimes passio­ leis. Deus não estabeleceu regras para o sexo
nais" causados peia ira descontrolada entre porque deseja nos controlar, mas sim por­
amigos e parentes. Jesus não diz que a ira que deseja nos abençoar. Deus sempre diz
conduz ao homicídio, mas sim que a ira é "não" para poder dizer "sim".
uma forma de homicídio. A impureza sexual nasce dos desejos do
Existe uma ira santa contra o pecado coração. Mais uma vez, Jesus não está dizen­
(Ef 4:26), mas Jesus refere-se aqui a uma ira do que desejos lascivos são a mesma coisa
pecaminosa contra as pessoas. A palavra que práticas lascivas e, portanto, que a pes­
que usa em Mateus 5:22 significa "ira cul­ soa pode aproveitar e cometer adultério de
tivada, malignidade alimentada no ser in­ fato, uma vez que já o fez em pensamento.
terior". Jesus descreve uma experiência O desejo e a prática não são idênticos, mas,
pecaminosa constituída de vários estágios. em termos espirituais, são equivalentes. O
Primeiro, a manifestação de uma ira sem "olhar" que Jesus menciona não é apenas
motivo. Depois, a explosão dessa ira em casual e de relance; antes, é um olhar fixo e
palavras, que põe mais lenha na fogueira e, demorado com propósitos lascivos. É possí­
por fim, leva à condenação: "Seu tolo, seu vel um homem olhar de relance para uma
rebelde obstinado!" mulher, constatar que ela é linda, mas não
A ira pecaminosa é insensata, pois nos ter pensamentos lascivos depois disso. O
faz destruir em vez de edificar. Tira nossa li­ homem que Jesus descreve olha para a mulher
berdade e nos faz prisioneiros. Odiar alguém com o propósito de alimentar seus apetites
é cometer homicídio no coração (1 Jo 3:15). sexuais interiores, como um substituto para
MATEUS 5 27

o ato sexual em si. N ão é uma situação aci­ a sofrer a perda, em vez de causar sofrimen­
dental, mas um ato planejado. to a outros. É evidente que ele aplica esse
Com o vencer essas tentações? Pela pu­ princípio a ofensas pessoais, não em nível
rificação dos desejos do coração (o apetite coletivo ou nacional. A pessoa que busca a
conduz à ação) e pela disciplina das ações vingança causa apenas mais sofrimento a si
do corpo. Claro que Jesus não está falando mesma e ao transgressor, e o resultado é
literalmente de realizar uma cirurgia, pois isso guerra, não paz.
não resolveria o problema do coração. Em A fim de "dar a outra face", devem os
se tratando dos pecados sexuais, os olhos e perm anecer onde estamos e não fugir, uma
as mãos são geralmente os dois grandes "cul­ atitude que requer fé e amor. Também quer
pados"; portanto, são eles que devem ser dizer que nós podemos ser feridos, mas é
disciplinados. Jesus diz: "trate o pecado de melhor ser ferido por fora do que danificado
maneira imediata e decisiva! Não pense num por dentro. Significa, ainda, que devem os
tratamento gradual. A remoção deve ser ra­ procurar ajudar o pecador. Estamos vulnerá­
dical!" A cirurgia espiritual é mais importan­ veis, pois ele pode nos atacar novamente,
te do que a cirurgia física, pois os pecados mas somos vitoriosos, pois Jesus está do
do corpo podem levar ao julgamento eterno. nosso lado, ajudando-nos a construir nosso
Convém refletir sobre passagens com o Co- caráter. De acordo com os psicólogos, a vio­
lossenses 3:5 e Romanos 6:13; 12:1, 2; 13:14. lência nasce da fraqueza, não da força. O
D ivó rcio (w . 31, 32). Jesus trata do di­ homem forte é capaz de amar e de sofrer,
vó rcio mais detalhadam ente em M ateus enquanto o fraco pensa apenas em si mes­
19:1-12; falaremos mais sobre o assunto nos mo e fere os outros para se defender. De­
com entários referentes a essa passagem. pois, foge para se proteger.
Ju ra m e n to s (vv. 33-37; Lv 19:12; D t O am o r p elo s inim igos (vv. 43-48; Lv
23:23). Trata-se do pecado de usar juramen­ 19:17, 18). Em momento algum a lei ensina
tos para reforçar a veracidade de uma de­ a odiar os inimigos. Passagens com o Êxodo
claração. O s fariseus usavam vários tipos de 23:4, 5 indicam exatamente o contrário! Para
artifício para esquivar-se da verdade, e o ju­ Jesus, nossos inimigos são aqueles que nos
ramento era um deles. Evitavam usar o nome am aldiçoam , nos odeiam e nos exploram.
santo de Deus, mas empregavam aproxima­ Um a vez que o am or cristão é um ato de
ções com o a cidade de Jerusalém , céu, ter­ nossa volição, não apenas uma em oção,
ra, ou alguma parte do corpo. Deus pode ordenar que am em os nossos
Jesus ensina que nossas conversas de­ inimigos. Afinal, ele nos amou quando éra­
vem ser tão honestas e nosso caráter tão mos seus inimigos (Rm 5:10). Podem os de­
verdadeiro que não haja necessidade de monstrar esse amor abençoando os que nos
usar qualquer outro recurso para fazer as amaldiçoam, fazendo o bem a eles e orando
pessoas acreditarem em nós. As palavras por eles. Q uando oramos por nossos inimi­
dependem do caráter, e juram entos não são gos, achamos mais fácil amá-los, pois a ora­
capazes de com pensar a falta de caráter. ção remove o "veneno" de nossas atitudes.
"N o muito falar não falta transgressão, mas Jesus apresenta vários motivos para essa
o que m odera os lábios é prudente" (Pv admoestação: (1) Tal amor é sinal de matu­
10:19). Q uanto mais palavras alguém usa ridade e prova que somos filhos do Pai, e
para nos co n ven cer, mais d esco nfiad o s não apenas criancinhas. (2) É divino, pois o
devem os ficar. Pai compartilha as coisas boas com aqueles
Vingança (vv. 38-42; Lv 24:19-22). A lei que se opõem a ele. M ateus 5:45 sugere
original era justa, pois impedia que as pes­ que nosso amor cria um clima de bênçãos
soas obrigassem o transgressor a pagar um que torna mais fácil ganhar nossos inimigos
preço maior do que o merecido por sua ofen­ e transformá-los em amigos. O amor é com o
sa e também evitava a retaliação. Jesus subs- o brilho do Sol e a chuva que o Pai, em sua
28 MATE US 5

para os outros. "Que fazem vocês mais do O termo perfeito em Mateus 5:48 não
que os outros?". Essa é uma boa pergunta. significa impecavelmente perfeito, pois isso
Deus espera que vivamos neste mundo num é impossível nesta vida (apesar de ser um
nível bem mais elevado que o dos não cris­ excelente alvo para nossos esforços); antes,
tãos, que retribuem o bem com bem e o refere-se a nossa integridade e maturidade
mal com mal. Como cristãos, devemos retri­ como filhos de Deus. O Pai ama seus inimi­
buir o mal com o bem, considerando isso gos e procura transformá-los em filhos, e de­
um investimento de amor. vemos auxiliá-lo nessa tarefa!
de Deus (Ef 2:8, 9). Além disso, é tolice viver
5 em função do reconhecim ento humano, pois
a glória do homem não dura muito tempo
(1 Pe 1:24). O que importa é a glória e o
Os P rin c íp io s d o Rei: A fouvor de Deus!
Nossa natureza pecam inosa é tão sutil
V e r d a d e ir a A d o r a ç ã o
que pode corrom per até mesmo algo bom,
M a t eu s 6 com o ajudar os pobres. Se nossa m otivação
é receber o reconhecim ento humano, en­
tão, com o os fariseus, chamaremos a aten­
ção para o que estamos fazendo. Se nosso
m otivo é servir a Deus e lhe agradar em
verdadeira justiça do reino deve ser apli­ amor, realizaremos nossas contribuições sem
A cada às atividades da vida diária. Essa
é a ênfase do restante do sermão do monte.
chamar a atenção e, assim, crescerem os es­
piritualmente, Deus será glorificado e outros
Jesus associa esse princípio a nossa relação serão ajudados. M as se ofertarmos por moti­
com Deus na adoração (M t 6:1-18), com as vos errados, privamo-nos das bênçãos e das
coisas materiais (M t 6:19-34) e com as ou­ recompensas e roubamos a glória de Deus,
tras pessoas (M t 7:1-20). mesmo que dinheiro ofertado ajude uma
Jesus também adverte quanto ao perigo pessoa necessitada.
da hipocrisia (M t 6:2, 5, 16), o pecado de Isso significa que é errado ofertar aber­
usar a religião para esconder nossas trans­ tamente? Todas as ofertas devem ser anôni­
gressões. Hipócrita não é quem fica aquém mas? N ão necessariamente, pois os cristãos
de seus aítos ideais nem quem peca ocasio­ da Igreja primitiva sabiam que Barnabé ha­
nalmente, pois todos sofremos tais fracassos. via doado o valor recebido da venda de suas
Hipócrita é alguém que usa a religião delibe­ terras (At 4:34-37). Q uando os membros da
radam ente para esconder seus pecados e igreja colocavam seu dinheiro aos pés dos
prom over o benefício próprio. O term o gre­ apóstolos, não o faziam em segredo. É evi­
go traduzido por hipócrita significa original­ dente que a diferença está na m otivação
mente "um ator que usa máscaras". interior, não no m odo com o a oferta era
A justiça dos fariseus era insincera e de­ realizada. Vem os um contraste no caso de
sonesta. Praticavam sua religião visando ao Ananias e Safira (At 5:1-11), que tentaram
louvor dos homens e não à recom pensa de usar sua oferta para mostrar aos outros uma
Deus. A verdadeira justiça deve vir do inte­ espiritualidade que, na verdade, nenhum dos
rior. Cabe a cada um avaliar a sinceridade e dois possuía.
a honestidade de seu compromisso cristão.
Neste capítulo, Jesus aplica essa avaliação a 2. N o ssas o r a ç õ es (M t 6:5-15)
quatro áreas distintas da vida. Jesus apresenta quatro instruções para orien­
tar nossa oração.
1. N o s s a s c o n t r ib u iç õ e s (M t 6:1-4) D evem os o ra r em p a rtic u la r antes de
Dar esmolas aos pobres, orar e jejuar eram o ra r em p ú b lico (v. 6). N ão é errado orar
disciplinas importantes na religião dos fari­ em público na congregação (1 Tm 2:1 ss),
seus. Jesus não condenou essas práticas, mas ao agradecer o alimento (Jo 6:11) ou, ainda,
advertiu que era preciso ter uma atitude ao buscar auxílio de Deus (Jo 11:41, 42, At
interior correta ao realizá-las. O s fariseus 27:35). M as é errado orar em público se não
usavam as esmolas com o forma de obter o temos o hábito de orar em particular. Aque­
favor de Deus e a atenção dos homens - les que estão nos observando podem pensar
duas m otivações erradas. N ão há oferta, por que praticamos a oração em nossa vida par­
mais generosa que seja, capaz de comprar ticular. Assim, a oração pública que não tem
30 MATEUS 6

não passa de hipocrisia. A palavra quarto de pedir a Deus qualquer coisa que deson­
também pode ser traduzida por "câmara re o nome dele, que impeça o avanço de
particular" e se referir à despensa da casa. seu reino, ou que seja um empecilho a sua
O relato bíblico mostra Jesus (M c 1:35), vontade na Terra.
Eliseu (2 Rs 4:32ss) e Daniel (Dn 6:1 Oss) oran­ É interessante observar que todos os
do em particular. pronomes da oração estão no plural, não no
Devemos orar com sinceridade (vv. 7, singular ("Pai nosso"). Ao orar, é preciso lem­
8). O fato de repetir um pedido não o torna brar que somos parte da família de Deus,
uma "vã repetição", pois tanto Jesus quanto constituída de cristãos de todo o mundo.
Paulo repetiram suas petições (Mt 26:36-46; Não temos o direito de pedir qualquer coi­
2 Co 12:7, 8). Um pedido torna-se "vã repe­ sa que prejudique outro membro desta
tição" quando as palavras não refletem um família. Se estivermos orando segundo a von­
desejo sincero de buscar a vontade de Deus. tade de Deus, de uma forma ou de outra, a
A prática de recitar orações memorizadas resposta abençoará todo o povo de Deus.
pode se transformar em vã repetição. Os Se colocarmos os interesses de Deus em
gentios usavam orações em suas cerimônias primeiro lugar, poderemos apresentar nos­
pagãs (ver 1 Rs 18:26). sas necessidades pessoais. Deus se preocupa
Meu amigo Dr. Robert A. Cook costu­ com nossas necessidades e as conhece an­
mava dizer que: "Todos nós temos uma ora­ tes mesmo de nós as levarmos a ele (Mt 6:8).
ção rotineira à qual sempre voltamos; só Se ele já sabe, então por que orar? Porque a
quando nos livramos dela é que podemos oração é o caminho que Deus determinou
começar a orar de fato!" Vejo isso não ape­ para suprir essas necessidades (ver Tg 4:1-3).
nas em minhas orações particulares, mas A oração nos prepara para usar corretamen­
também ao realizar reuniões de oração. Para te a resposta. Quando conhecemos nossa
alguns, orar é como colocar um CD no apa­ necessidade e a expressamos a Deus, con­
relho de som e deixar tocando enquanto vão fiando que ele a proverá, faremos melhor
fazer outra coisa. Deus não responde a ora­ uso da resposta do que se Deus a impuses­
ções insinceras. se sobre nós sem que a tivéssemos pedido.
Devemos orar de acordo com a von­ E correto orar pelas necessidades diárias,
tade de Deus (w . 9-Ί3). Essa oração, mais por perdão e por orientação e proteção con­
conhecida como "Pai nosso", poderia ser tra o mal. "E não nos deixes cair em tenta­
chamada mais apropriadamente de "oração ção" não significa que Deus tenta seus filhos
dos discípulos". Jesus não deu essa oração (Tg 1:13-17). Com essas palavras, estamos
para ser memorizada e recitada determina­ pedindo a Deus para nos guiar de modo a
do número de vezes. Pelo contrário, deu essa não nos desviarmos de sua vontade nem nos
oração para evitar que usássemos de vãs envolvermos em situações de tentação (1 Jo
repetições. Jesus não disse: "orem com es­ 5:18), ou mesmo em situações em que ten­
tas palavras", mas sim: "orem desta forma", taremos a Deus, levando-o a nos resgatar
ou seja, "usem esta oração como um mode­ miraculosamente (Mt 4:5-7).
lo, não como um substituto". Devemos orar com espírito de perdão
O propósito da oração é glorificar o (vv. 14, 15). Neste "apêndice" da oração,
nome de Deus e pedir ajuda para realizar Jesus expande a última frase de Mateus 6:12:
sua vontade na Terra. Essa oração não co­ "assim como nós temos perdoado aos nos­
meça com nossos interesses pessoais, mas sos devedores", uma lição que repete a seus
sim com os interesses de Deus: o nome de discípulos posteriormente (M c 11:19-26). Je­
Deus, seu reino e sua vontade. Nas palavras sus não está ensinando que os cristãos só
de Robert Law: "A oração é um instrumento merecem o perdão de Deus se perdoarem
poderoso não para realizar a vontade do os outros, pois isso seria contrário a sua gra­
homem no céu, mas para realizar a vonta­ ça e misericórdia. No entanto, se experimen­
de de Deus na Terra". Não temos o direito tamos, verdadeiramente, o perdão de Deus,
MATEUS 6 31

teremos a disposição de perdoar aos outros (Lc 21:34) e a m anter nossas prioridades
(Ef 4:32; Cl 3:13). Jesus ilustra esse princípio espirituais em ordem. N o entanto, essa práti­
na parábola do Se rvo Incom passivo (M t ca não deve jamais se tornar uma oportuni­
18:21-35). dade para a tentação (1 C o 7:7). A privação
Vim os que a verdadeira oração é um de um benefício natural (com o o alimento e
assunto de família ("Pai nosso"). Se não há o sono) não constitui, em si mesma, um je­
entendim ento entre os membros da família, jum. É necessário que nos consagrem os a
com o podem querer ter um bom relacio­ Deus em adoração. Se não houver devoção
namento com o Pai? 1 Jo ão 4 enfatiza que sincera (ver Z c 7), não haverá qualquer be­
m ostram os nosso am or a D eus ao am ar nefício espiritual duradouro.
nossos irmãos. Q uando perdoamos uns aos Assim com o as ofertas e a oração, o ver­
outros, não estamos adquirindo o direito de dadeiro jejum deve ser feito em particular,
orar, pois o privilégio de orar faz parte da apenas entre o cristão e Deus. Aquele que
nossa filiação (Rm 8:15, 16). O perdão diz "[desfigura] o rosto" (apresenta uma expres­
respeito à com unhão: se não estou em co­ são abatida, a fim de suscitar piedade e
munhão com Deus, não posso orar efetiva­ receber elogios) contraria o propósito do je­
mente. M as minha com unhão com Deus é jum. Aqui, Jesus apresenta um princípio fun­
influenciada pela com unhão com meu ir­ damental da vida espiritual: tudo o que é
mão; conseqüentem ente, o perdão é parte verdadeiramente espiritual nunca viola aquilo
importante da oração. que Deus nos deu na natureza. Deus não
U m a vez que a oração envolve a glorifi­ destrói uma coisa boa para construir outra.
cação do nom e de Deus, apressando a vin­ Se alguém precisa parecer miserável para ser
da do reino de Deus (2 Pe 3:12), e ajuda a considerado espiritual, há algo de errado
realizar a vontade de Deus na Terra, aque­ com seu conceito de espiritualidade.
le que ora não pode ter pecado em seu É importante lembrar que a hipocrisia nos
coração. Se Deus respondesse à oração de priva da realidade na vida cristã. Colocam os
um cristão com um espírito rancoroso, es­ a reputação no lugar do caráter, as palavras
taria desonrando seu nom e. D e que ma­ vazias no lugar da oração e o dinheiro no
neira Deus usaria tal pessoa para realizar lugar da devoção sincera. Não é de se ad­
sua vo ntad e na Terra? Se atendesse aos mirar que Jesus tenha com parado os fariseus
pedidos dela, Deus estaria encorajando o a sepulturas limpas por fora, mas imundas
pecado! O mais im portante numa oração por dentro! (M t 23:27, 28).
não é sim plesm ente obter uma resposta, A hipocrisia não nos priva apenas de
mas ser o tipo de pessoa a quem Deus pode nosso caráter, mas também de nossas recom ­
confiar uma resposta. pensas espirituais. Em vez da aprovação eter­
na de Deus, recebem os o louvor superficial
3. Nosso je ju m (M t 6:16-18) dos homens. Oramos, mas não obtemos res­
O único jejum que Deus exigia do povo ju­ posta. Jejuam os, mas o ser interior não é
deu era aquele da celebração anual do Dia aperfeiçoado. A vida espiritual torna-se va­
da Expiação (Lv 23:27). O s fariseus jejuavam zia e inerte. Perdem os as bênçãos aqui e
todas as segundas e quintas-feiras (Lc 18:12) agora, bem com o as recompensas de Deus
e o faziam de modo visível para todos. Sem quando Cristo voltar.
dúvida, seu objetivo era receber o louvor O utra coisa que perdemos com a hipo­
dos homens, e, com isso, perderam as bên­ crisia é nossa influência espiritual. O s fariseus
çãos de Deus. eram uma influência negativa, corrom pen­
N ão é errado jejuar, se o fizerm os da do e destruindo tudo o que tocavam . As
form a correta e pelos motivos certos. Jesus pessoas que os admiravam e obedeciam a
jejuava (M t 4:3), e também os membros da suas palavras pensavam que estavam rece­
Igreja primitiva praticavam o jejum (At 13:2). bendo ajuda, quando na realidade estavam
32 MATEUS 6

O primeiro passo para superar a hipo­ 6:24). Podemos nos tornar prisioneiros de
crisia é ser honesto com Deus em nossa coisas materiais, mas devemos ser libertos e
vida particular. Não devemos jamais orar controlados pelo Espírito de Deus.
sem sinceridade, pois, se o fizermos, nossas Se o coração ama as coisas materiais e
orações não passarão de palavras vazias. coloca o lucro nesta Terra acima dos investi­
Nossa motivação deve ser agradar somen­ mentos no céu, o único resultado possível é
te a Deus, sem nos importar com o que os um trágico prejuízo. Os tesouros da Terra
outros dizem ou fazem. Devemos cultivar podem ser usados para Deus, mas se ajun-
nosso coração em segredo. Alguém disse tarmos riquezas para nós mesmos, perdere­
bem que: "A parte mais importante da vida mos esses bens - e, junto com eles, o nosso
cristã é aquela que somente Deus vê". coração. Em vez de enriquecimento espiri­
Quando a reputação torna-se mais impor­ tual, experimentaremos empobrecimento.
tante do que o caráter, transformamo-nos O que significa acumular tesouros no
em hipócritas. céu? Quer dizer usar tudo o que temos para
a glória de Deus, desapego às coisas mate­
4. O USO DAS RIQUEZAS MATERIAIS riais da vida. Também significa medir a vida
(M t 6:19-34) pelas verdadeiras riquezas do reino e não pe­
Estamos acostumados a dividir nossa vida las falsas riquezas deste mundo.
em "espiritual" e "material", mas Jesus não A riqueza não escraviza apenas o cora­
faz essa divisão. Em várias de suas parábo­ ção, mas também a mente (M t 6:22, 23). A
las, deixa claro que uma atitude correta em Palavra de Deus usa a imagem do olho com
relação à riqueza é a marca da verdadeira freqüência para representar as atitudes da
espiritualidade (ver Lc 12:13ss; 16:1-31). Os mente. Se os olhos estão devidam ente
fariseus eram cobiçosos (Lc 16:14) e usavam focados na luz, o corpo pode realizar seus
a religião para ganhar dinheiro. Se temos a movimentos de maneira correta. Mas a vi­
verdadeira justiça de Cristo em nossa vida, são desfocada e dupla resulta em movimen­
também teremos uma atitude correta em tos confusos. É extremamente difícil avançar
relação aos bens materiais. enquanto tentamos olhar em duas direções
Em momento algum Jesus exagera a po­ ao mesmo tempo.
breza ou critica o enriquecimento legítimo. Se nosso objetivo de vida é o enriqueci­
Deus fez todas as coisas, inclusive a comi­ mento material, experimentaremos escuri­
da, roupas e metais preciosos, e declarou dão interior. Mas se nosso alvo é servir a
que todas as coisas que fez são boas (Gn Deus e glorificá-lo, haverá luz interior. Quan­
1:31). Deus sabe que precisamos de certas do há escuridão onde deveria haver luz,
coisas para viver (Mt 6:32). De fato, é Deus estamos sendo controlados pelas trevas, pois
quem "tudo nos proporciona ricamente para as perspectivas determinam os resultados.
nosso aprazimento" (1 Tm 6:17). Não é er­ Por fim, o materialismo pode escravizar
rado possuir coisas, mas é errado permitir nossa vontade (M t 6:24). Não podemos ser­
que as coisas nos possuam. O pecado da vir a dois senhores ao mesmo tempo - ou
idolatria é tão perigoso quanto o da hipocri­ Jesus Cristo é nosso Senhor, ou o dinheiro.
sia! Encontramos várias advertências contra Trata-se de uma questão de volição. "Ora,
a cobiça ao longo Bíblia (Êx 20:1 7; Sl 119:36; os que querem ficar ricos caem em tenta­
M c 7:22; Lc 12:15ss; Ef 5:5; Cl 3:5). ção, e cilada" (1 Tm 6:9). Se Deus concede
Jesus adverte sobre o pecado de viver riquezas, e as usamos para a glória dele,
em função dos bens materiais e chama a então as riquezas são bênção. Mas se dese­
atenção para as tristes conseqüências da jamos enriquecer e vivemos de acordo com
cobiça e da idolatria. essa perspectiva, pagaremos um alto preço
Tornamo-nos escravos (vv. 19-24). O pelas riquezas que buscarmos.
materialismo escraviza o coração (Mt 6:19­ Vivemos ansiosos (vv. 25-30). A cobiça
21), a mente (M t 6:22, 23) e a volição (Mt não apenas desvaloriza nossa riqueza, como
MATEUS 6 33

também nos deprecia como pessoas! En- Perdemos nosso testemunho (w. 31-33).
chemo-nos de preocupações e somos toma­ A preocupação com as coisas materiais nos
dos de ansiedade anormal, não espiritual. faz viver como pagãos! Quando colocamos
Quem busca riquezas pensa que o dinheiro a vontade e a justiça de Deus em primeiro
resolverá todos os problemas, quando, na plano em nossa vida, ele cuida de todo o
realidade, trará ainda mais problemas! As ri­ resto. É triste quando não praticamos essa
quezas materiais criam uma sensação falsa verdade. Mas o cristão que decide viver de
e perigosa de segurança, a qual termina em acordo com Mateus 6:33 dá um testemu­
tragédia. Os pássaros e os lírios não se preo­ nho maravilhoso para o mundo!
cupam nem se inquietam e, ainda assim, Perdemos a alegria com o dia de hoje
têm uma riqueza de Deus que o ser huma­ (v. 34). A preocupação com o amanhã não
no não consegue reproduzir. A natureza ajuda nem o dia de hoje nem o dia de ama­
toda depende de Deus, e ele nunca falha. nhã. Antes nos priva de nosso vigor no dia
Só o homem mortal depende do dinheiro, e de hoje - o que significa que teremos ainda
o dinheiro sempre falha. menos energia no dia de amanhã. Alguém
Jesus afirma que a preocupação é pe­ disse que a maior parte das pessoas cruci­
cado. Podemos dar nomes mais bonitos à fica-se entre dois ladrões: os remorsos de
preocupação, chamando-a de aflição, far­ ontem e as preocupações de amanhã. É cor­
do, cruz a ser carregada, mas os resultados reto planejar e até mesmo economizar para
são os mesmos. Em vez de nos ajudar a vi­ o futuro (2 Co 12:14; 1 Tm 5:8), mas é peca­
ver mais, a ansiedade apenas encurta a vida do preocupar-se com o futuro e permitir que
(Mt 6:27). No grego, "andar ansioso" signi­ o amanhã nos prive das bênçãos de hoje.
fica "ser atraído para direções diferentes". Nesta seção, encontramos três palavras
A ansiedade causa desintegração interior. que mostram o caminho para a vitória sobre
Quando o ser humano não interfere, a natu­ a ansiedade: (1) fé (Mt 6:30) - a confiança
reza trabalha de maneira plenamente inte­ de que Deus suprirá nossas necessidades;
grada, pois toda a natureza confia em Deus. (2) o Pai (Mt 6:32) - saber que ele se preo­
O ser humano, por sua vez, tenta viver na cupa com seus filhos, e (3) primeiro (Mt 6:33)
dependência das riquezas materiais e aca­ - colocar a vontade de Deus em primeiro
ba se desintegrando. lugar em nossa vida a fim de glorificá-lo. Se
Deus alimenta os pássaros e veste os tivermos fé em nosso Pai e o colocarmos
lírios, e fará o mesmo por nós. E nossa "pe­ em primeiro plano, ele suprirá nossas ne­
quena fé" que impede Deus de trabalhar da cessidades.
forma como gostaria. Se nos sujeitarmos a Hipocrisia e ansiedade são pecados. Se
Deus e vivermos para as riquezas eternas, praticarmos a verdadeira justiça do reino,
ele revelará as grandes bênçãos que estão evitaremos esses pecados e viveremos para
reservadas para nós. a glória de Deus.
Devemos ver claram ente para ajudar os
6 outros (vv. 3-5). O objetivo de julgar-se a si
mesmo é preparar-se para servir aos outros.
A ajuda mútua para o crescimento na graça
O s P r in c íp io s d o R ei : O é uma das obrigações dos cristãos. Quando
não praticamos o julgamento próprio, pre­
V e r d a d e ir o J u l g a m e n t o judicamos a nós mesmos e aqueles a quem
M ateus 7 poderíamos ministrar. Os fariseus julgavam
e criticavam os outros para exaltar a si mes­
mos (Lc 18:9-14), mas os cristãos devem julgar
a si mesmos para ajudar a exaltar os outros.
Uma diferença e tanto!
s escribas e fariseus julgavam falsamen­ Vejamos como Jesus esclarece essa ques­
O te a si mesmos, as outras pessoas e
até mesmo a Jesus. Esse julgamento falso era
tão. Ele escolhe o olho como ilustração, pois
é uma das partes mais sensíveis do corpo
alimentado por sua falsa justiça. Isso explica humano. A cena de um homem com uma
por que Jesus conclui este sermão tão impor­ trave no olho tentando remover um cisco
tante com uma discussão sobre o ato de jul­ do olho de outro homem é, de fato, ridícula!
gar, tratando de três julgamentos diferentes. Quem não encara os próprios pecados com
honestidade e não os confessa, torna-se cego
1 . O PRÓPRIO JULGAMENTO e não pode ver claramente para ajudar seus
( M t 7:1-5) semelhantes. Os fariseus viam os pecados
O primeiro princípio do julgamento é que dos outros, mas não conseguiam enxergar
se deve começar por si mesmo. Jesus não as próprias transgressões.
proibiu de julgar os outros, pois o discerni­ Em Mateus 6:22, 23, Jesus usou o olho
mento zeloso é um elemento da vida cristã. como ilustração para nos ensinar a ter uma
O amor cristão não é cego (Fp 1:9, 10), e a perspectiva espiritual da vida. Não devemos
pessoa que acredita em tudo o que ouve e julgar as motivações dos outros. Podemos
aceita todos os que se dizem espirituais so­ examinar suas ações e atitudes, mas não
frerá grandes perdas. Porém, antes de julgar julgar suas motivações, pois somente Deus
os outros, devemos julgar a nós mesmos, conhece o coração de cada um. É possível
por vários motivos. fazer uma boa ação por motivos errados.
Seremos julgados (v. 1). O tempo do ver­ Também é possível falhar numa tarefa e ain­
bo julgar expressa julgamento definitivo. Se, da assim ter motivações sinceras. Quando
primeiro, julgarmos a nós mesmos, estare­ estivermos perante o tribunal de Cristo, ele
mos preparados para o julgamento final, examinará os segredos de nosso coração e
quando nos encontraremos com Deus. Os nos recompensará de acordo (Rm 2:16; Cl
fariseus faziam o papel de Deus ao condenar 3:22-25).
os outros, mas não levavam em considera­ A ilustração do olho ensina ainda outra
ção que, um dia, eles próprios seriam julga­ verdade: deve-se usar de grande amor e cui­
dos por Deus. dado ao procurar ajudar os outros (Ef 4:15).
Estamos sendo julgados (v. 2). A passa­ Certa vez, tive de fazer um exame oftalmo-
gem paralela em Lucas 6:37, 38 é bastante lógico e uma cirurgia para remover uma par­
útil. Devemos lembrar que não apenas sere­ tícula de metal da vista e apreciei muito o
mos julgados por Deus no final, mas tam­ cuidado dos médicos que me trataram.
bém estamos sendo julgados pelos outros Como os oftalmologistas, deveríamos minis­
no presente; e recebemos deles exatamen­ trar com amor às pessoas a quem desejamos
te aquilo que lhes damos. Somos julgados ajudar. Abordar os outros com impaciência
da forma e pela medida com que julgamos, e insensibilidade pode causar mais estrago
pois ceifamos o que semeamos. do que um grão de areia no olho.
MATEUS 7 35

Em se tratando de introspecção espiritual, vulgarizar o evangelho ministrando-o sem


há dois extremos que devem ser evitados. discernim ento. Até mesmo Jesus se recusou
O primeiro é o engano de um exame super­ a falar com Herodes (Lc 23:9), e Paulo se
ficial. As vezes, estamos tão seguros de nós recusou a argumentar com as pessoas que
mesmos que não exam inam os o coração resistiam à Palavra (At 13:44-49).
com honestidade e profundidade. "D ar uma Assim, o julgam ento não deve ser moti­
espiada" no espelho da Palavra nunca é su­ vado por um desejo de condenar os outros,
ficiente para revelar a verdadeira situação mas sim voltado à ministração das pessoas.
do coração (Tg 1:22-25). O bserve que Jesus sempre tratou as pessoas
O segundo extremo é o que cham o de de acordo com as necessidades e condições
"autópsia perpétua". Às vezes, há tanta con­ espirituais de cada um. N ão tinha um dis­
centração no auto-exame que se perde o curso padronizado que usava com todos.
equilíbrio. N ão se deve olhar apenas para si Tratou do novo nascimento com Nicodem os,
mesmo, pois vem o desânimo e a sensação mas falou da água viva com a mulher sama-
de derrota. Deve-se olhar com fé para Jesus ritana. Q uando os líderes religiosos tentaram
Cristo e receber dele o perdão e a restaura­ armar uma cilada, recusou-se a responder à
ção. Satanás é o acusador (Ap 12:10), e ele sua pergunta (M t 21:23-27). A primeira coisa
gosta quando acusam os e condenam os a que o cristão sábio faz é avaliar as condi­
nós mesmos! ções do coração da pessoa antes de com ­
D epois de fazer um julgam ento com partilhar com ela as pérolas preciosas da
honestidade diante de Deus e de remover verdade de Deus.
aquilo que nos cegava, estaremos aptos para O s recursos dados p o r D eus (w . 7-11),
ajudar os outros e para julgar suas ações cor­ Por que Jesus fala sobre a oração neste pon­
retamente. M as, se sabemos que há pecado to de sua mensagem? Estes versículos dão a
em nossa vida e tentamos ajudar os outros, falsa im pressão de ser uma interrupção.
não passamos de hipócritas. É possível usar Todos somos humanos e falíveis; todos co­
o m inistério com o artifício para encobrir m etem os erros. A penas D eus julga com
pecados! Era isso o que os fariseus estavam perfeição. Portanto, é preciso orar e buscar
fazendo, e foi por isso que Jesus os conde­ a sabedoria e orientação de Deus. "Se, po­
nou. rém, algum de vós necessita de sabedoria,
peça-a a D eus" (Tg 1:5).
2. O JU LG A M EN T O SO BRE O S O UTRO S O jovem rei Salom ão sabia que não pos­
(M t 7:6-20) suía a sabedoria necessária para julgar Israel,
O s cristãos devem exercer discernim ento, de modo que orou a Deus, e o Senhor, em
pois nem todos são ovelhas. Alguns são cães sua graça, respondeu à sua oração (1 Rs
ou porcos, outros são lobos vestidos de ove­ 3:3ss). Se queremos discernim ento espiritual,
lhas! Som os ovelhas do Senhor, mas isso não devem os sempre pedir a Deus, buscar sua
significa que devem os nos deixar ser tos- vontade e bater à porta que conduz a minis­
quiados por qualquer um! térios mais elevados. Deus supre a necessi­
Razões p elas qu ais devem os ju lg a r (v. dade de seus filhos.
6 ). Com o povo de Deus, temos o privilégio O p rin cíp io n o rtead o r (v. 12). É a famo­
de lidar com as "coisas santas" do Senhor. sa "Regra de O u ro ", uma das declarações
Ele nos confia as verdades preciosas da Pa­ bíblicas mais mal-interpretadas. N ão se trata
lavra de Deus (2 Co 4:7), e devem os cuidar de um resum o de toda a verdade cristã,
delas com todo zelo. Nenhum sacerdote de­ tam pouco do plano redentor de Deus. As­
dicado lançaria carne do altar a um cão imun­ sim com o não é possível desenvolver todo
do, e som ente um tolo daria pérolas aos o estudo da astronomia com base na can­
porcos. Apesar de ser verdade que precisa­ ção infantil "Brilha, Brilha Estrelinha", também
mos levar o evangelho "a toda criatura" (M c não podem os construir nossa teologia com
36 MATEUS 7

Essa grande verdade é um princípio que de desejos mundanos. Mas, se tomarmos o


deve governar nossas atitudes para com os caminho estreito, teremos de abrir mão de
outros. Aplica-se somente aos cristãos e deve todas essas coisas.
ser praticada em todas as áreas da vida. A Eis, portanto, o primeiro teste: nossa pro­
pessoa que pratica a regra de ouro recusa-se fissão de fé em Cristo custou alguma coisa?
a dizer ou a fazer qualquer coisa que preju­ Caso a resposta seja negativa, não foi uma
dique a si mesma ou os outros. Nosso jul­ profissão verdadeira. Muitas pessoas que
gamento em relação aos outros deve ser "crêem" em Jesus Cristo nunca deixam o
governado por esse princípio, pois, do con­ caminho largo e tudo o que ele oferece. Têm
trário, tornamo-nos orgulhosos e críticos, e uma vida cristã fácil que não exige coisa al­
nosso caráter espiritual se degenera. guma. Jesus diz que o caminho estreito é
A prática da regra de ouro libera o amor difícil. Não se pode escolher duas estradas
de Deus em nossa vida e nos capacita a aju­ e tomar dois rumos diferentes ao mesmo
dar os outros, mesmo os que querem nos tempo.
prejudicar. As duas árvores (w. 15-20). Esta ilustra­
No entanto, é importante lembrar que a ção mostra que a verdadeira fé em Cristo
prática dessa regra tem um preço. Se dese­ transforma a vida e produz frutos para a gló­
jamos o melhor de Deus para nós e para os ria de Deus. Tudo na natureza se reproduz
outros, mas os outros resistem à vontade de segundo sua espécie, e o mesmo princípio
Deus, sem dúvida sofreremos oposição. So­ também vale para o reino espiritual. O bom
mos o saí que queima a ferida aberta, e a fruto vem de uma boa árvore, enquanto o
luz que mostra a sujeira. fruto ruim vem de uma árvore ruim. A árvo­
A base para o julgamento (w . 13-20). re que produz frutos podres será cortada e
Uma vez que existem falsos profetas pelo lançada no fogo. "Assim, pois, pelos seus fru­
mundo afora, devemos ter cuidado para não tos os conhecereis" (Mt 7:20).
ser enganados. O maior perigo, porém, é Eis o segundo teste: Minha decisão por
enganar a si mesmos. Os escribas e fariseus Cristo mudou minha vida? Os falsos profetas
haviam se convencido de que eram justos e que ensinam doutrinas falsas só podem pro­
de que os outros eram pecadores. É possí­ duzir falsa justiça (ver At 20:29). Seus frutos
vel conhecer a linguagem correta, acreditar (o resultado de seu ministério) são falsos e
intelectualmente nas doutrinas, obedecer às não duram. Eles mesmos são falsos; quanto
regras e, ainda assim, não ter a salvação. Je­ mais perto chegamos, mais vemos a falsida­
sus emprega duas ilustrações para nos aju­ de de sua vida e de suas doutrinas. Exaltam
dar a julgar a nós mesmos e aos outros. a si mesmos, não a Jesus Cristo, e em vez
As duas portas e os dois caminhos (vv. de edificar as pessoas, procuram explorá-las.
13, 14). Trata-se, evidentemente, do cami­ O que acredita em falsas doutrinas ou se­
nho para o céu e do caminho para o inferno. gue um falso profeta nunca experimentará
Todos gostam da porta larga e do caminho mudança de vida. Infelizmente, alguns só
espaçoso. No entanto, a fé não pode ser percebem isso quando é tarde demais.
julgada por estatísticas, pois nem sempre a
maioria tem razão. Só porque "todos fazem" 3 . O JULGAMENTO DE DEUS SOBRE NÓS
alguma coisa, não quer dizer que estão fa­ (Mt 7 :2 1 -2 9 )
zendo o que é certo. Depois da ilustração dos dois caminhos e
Na verdade, é justamente o contrário: o das duas árvores, Jesus encerra sua mensa­
povo de Deus sempre foi um remanescen­ gem descrevendo dois construtores e duas
te, uma minoria neste mundo, e não é difícil casas. Os dois caminhos ilustram o começo
descobrir por quê: a porta que conduz à da vida de fé, e as duas árvores ilustram o
vida é estreita, e o caminho é solitário e pe­ crescimento e os resultados dessa vida de fé
noso. É possível andar no caminho espaço­ aqui e agora. As duas casas, por sua vez,
so e levar conosco "bagagens" de pecado e ilustram o fim dessa vida de fé, quando Deus
MATEUS 7 37

julgará todas as coisas. H á falsos profetas veio o julgamento (a tempestade), uma de­
junto à porta que conduz para a estrada es­ las caiu. Qual era a diferença? Por certo, não
paçosa, facilitando a entrada de todos. Mas, era a aparência exterior. A diferença estava
no final desse cam inho, há destruição. O no alicerce: o construtor bem-sucedido "ca­
teste final não é o que pensamos de nós mes­ vo u , abriu p ro fu n d a v a la " (L c 6 :4 8 ) e
mos, ou o que os outros pensam de nós, alicerçou sua casa numa fundação sólida.
mas sim: o que Deus dirá? Um a falsa profissão de fé só dura até o
Com o se preparar para esse julgam en­ julgamento. Algumas vezes, esse julgam en­
to? Fazendo a vontade de Deus. A obediên­ to manifesta-se nas provações da vida. Com o
cia a sua vontade é a prova da verdadeira fé é o caso da pessoa que recebeu a semente
em Cristo. Tal prova não consiste em pala­ da Palavra de Deus num coração sem pro­
vras, não é dizer: "Senhor, Senhor" e não fundidade (M t 13:4-9) e, quando vieram as
obedecer a suas ordens. Com o é fácil apren­ provações, falhou em seu com prom isso.
der um vocabulário religioso, até memori­ Muitos que declaram sua fé em Cristo aca­
zar versículos bíblicos e canções, e ainda bam por negá-la, quando a vida torna-se es­
assim não ob edecer à vontade de Deus. piritualmente difícil e custosa.
Quem é, verdadeiramente, nascido de novo M as o julgamento ilustrado nessa passa­
tem o Espírito de Deus habitando dentro de gem provavelmente se refere ao juízo final
si (Rm 8:9), e o Espírito permite que conhe­ de Deus. Não se deve tentar encontrar nes­
ça a vontade do Pai. O amor de Deus em sa parábola toda a doutrina ensinada nas
seu coração (Rm 5:5) motiva-o a obedecer epístolas, pois Jesus estava apenas ilustran­
a Deus e a servir aos outros. do um ponto principal: a declaração de fé
Nem palavras nem atividades religiosas será testada de uma vez por todas diante de
substituem a obediência. A pregação, a ex­ Deus. O s que creram em Cristo e provaram
pulsão de demônios e a operação de mila­ sua fé pela obediência não terão coisa algu­
gres podem ter inspiração divina, mas não ma a temer, pois sua casa está alicerçada na
garantem a salvação. É bem possível que até rocha e resistirá. M as os que dizem crer em
mesmo Judas tenha participado de algumas Cristo e não obedecem à vontade de Deus
ou talvez de todas essas atividades, mas, serão condenados.
mesmo assim, não era um cristão verdadeiro. Com o testar a profissão de fé? N ão é
Nos últimos dias, Satanás usará "prodígios pela popularidade, pois o caminho espaço­
da mentira" para enganar as pessoas (2 Ts so que conduz à destruição está cheio de
2:7-12). gente. Também há muitos que dizem: "S e ­
É preciso ouvir a Palavra de Deus e praticá- nhor, Senhor", mas isso não lhes garante a
la (ver Tg 1:22-25). Não se deve apenas ouvir salvação. Nem mesmo a participação em
(ou estudar) o que está escrito. O ouvir deve atividades religiosas numa igreja é garantia
redundar em ações. É isso o que significa de salvação. Como, então, julgar a si mes­
construir a casa na rocha. Não se deve con­ mo e a outros que professam crer em Cristo
fundir esse símbolo com a "rocha" de 1 Corín­ com o Salvador?
tios 3:9ss. Ao pregar o evangelho e ganhar Os dois cam inhos indicam que devemos
almas para Cristo, Paulo fundamentou a igre­ examinar o que a profissão custou. Foi pago
ja local de Corinto em Jesus Cristo, pois ele é algum preço ao professar a fé em Cristo? As
o único alicerce verdadeiro da igreja local. duas árvores indicam que devemos investi­
O alicerce da parábola em questão é a gar se a vida de fato mudou. Estão sendo
obediência à Palavra de Deus - obediência produzidos frutos de piedade? E as duas ca­
que com prova a fé verdadeira (Tg 2:14ss). sas lembram que a verdadeira fé em Cristo
O s dois homens da história tinham vários resistirá não apenas às tempestades da vida,
aspectos em com um . Am bos desejavam mas também ao julgamento final.
construir uma casa e ambos a fizeram de O sermão deixou o povo maravilhado,
forma a parecer bela e forte. Porém, quando pois Jesus falou com autoridade divina. O s
38 MATEUS 7

escribas e fariseus falavam "em nome das É preciso levar esse sermão a sério, pois
autoridades", citando sempre vários rabinos foi Deus quem o deu! Também é importante
e mestres da Lei. Jesus não menciona mes­ curvar-se perante o Senhor, submetendo-se
tres humanos para dar autoridade a suas pa­ a sua autoridade, pois, do contrário, haverá
lavras, pois falava como Filho de Deus. condenação.
Além da com paixão e das credencias,
7 havia um terceiro motivo para os milagres: a
preocupação de Jesus em revelar às pessoas
a verdade salvadora. O s milagres eram "ser­
O P o d er d o R ei mões práticos". Até Nicodem os ficou impres­
sionado com eles (Jo 3:1, 2). É importante
M ateus 8 - 9 observar que cinco desses milagres foram
realizados em Cafarnaum, mas ainda assim
o povo dessa cidade rejeitou Jesus (M t 11:21­
23). Até mesmo a rejeição pelo povo de
Israel cumpriu as profecias do Antigo Testa­
mento (ver Jo 12:37-41). Com o os julgam en­
omos apresentados à pessoa do Rei (M t tos contra o Egito nos dias de M oisés, os
F 1 - 4) e aos princípios do Rei (M t 5 - 7 ) , milagres do Senhor foram julgamentos con­
e agora estamos prontos para o poder do tra Israel, pois o povo teve de encarar fatos
Rei. Afinal, se um rei não tem poder para incontestáveis e de tomar decisões. O s líde­
realizar coisa alguma, de que valem suas res religiosos decidiram que Jesus trabalha­
credencias e seus princípios? Nos capítulos va para Satanás (M t 9:31-34; 12:24).
8 e 9, M ateus relata dez milagres. Exceto U m a coisa é certa: Jesus não realizou
pelos quatro últimos, não se encontram em milagres para "atrair m ultidões". Na verda­
ordem cronológica, pois M ateus segue abor­ de, procurou evitá-las. Instruiu os que eram
dagem própria para o agrupamento de men­ curados a não falar do assunto (M t 8:4, 18;
sagens ou acontecim entos. 9:30; Lc 8:56). Não desejava que as pessoas
Antes de estudar esses milagres, porém, cressem nele sim plesm ente por causa de
é bom fazer uma pausa para responder à seus feitos miraculosos (ver Jo 4:46-54), pois
pergunta axiom ática: por que Jesus reali­ a fé deve ser embasada em sua Palavra (Rm
zou milagres? Sem dúvida, desejava suprir 10:17).
as necessid ad es hum anas. D eus não se O s milagres registrados nestes capítulos
preocupa apenas com nossa alegria eter­ encontram-se reunidos em três grupos, se­
na, mas tam bém com nosso bem-estar tem ­ parados por acontecim entos relacionados ao
porário. É errado separar o m inistério à discipulado. M ateus não explica a seus lei­
alm a do m inistério ao corpo, pois é preci­ tores o que o levou a organizar o texto des­
so ministrar à pessoa com o um todo (ver sa maneira, mas isso não impede que se use
M t 4:23-25). essa estrutura. Para melhor com preensão de
Por certo, os milagres de nosso Senhor algumas das lições espirituais dessas seções,
foram credenciais adicionais para corrobo­ cada uma delas é apresentada de acordo
rar suas asserções com o o M essias de Is­ com uma ênfase específica.
rael. "Porq ue [.„] os judeus pedem sinais"
(1 C o 1:22). Apesar de os milagres, por si 1 . G r a ç a p a r a o s r e je it a d o s
mesmos, não provarem que alguém foi en­ (M t 8:1-22)
viado por Deus (até mesmo Satanás pode M uitos judeus, especialm ente os fariseus,
realizar milagres [2 Ts 2:9]), eles dão peso a consideravam os leprosos, os gentios e as
suas afirmações, especialm ente se seu cará­ mulheres párias da sociedade, e vários fari­
ter e conduta são piedosos. N o caso de Je­ seus costum avam dizer em suas orações
sus Cristo, seus milagres também cumpriram matinais: "Agradeço por ser um homem e
profecias do Antigo Testamento (ver Is 29:18, não uma mulher, um judeu e não um gen­
19; 35:4-6). M ateus 8:1 7 nos remete a Isaías tio, e um homem livre e não um escravo".
53:4, e em M ateus 11:1-5, Jesus pede a João A p u rific a çã o do lep ro so (vv. 1-4). A
Batista que volte às promessas do Antigo Bíblia caracteriza diversas aflições com o le­
Testamento (M t 10:8; Hb 2:1-4). pra. Essa infecção terrível obrigava a vítima
40 MATEUS 8 - 9

a viver separada dos outros e a gritar: "Imun­ A cura do criado do centurião (w . 5­


do! Imundo!", quando alguém se aproxima­ 13). Centurião era um oficial romano que
va, para que não fosse contaminado. O fato liderava cem soldados do exército. Todos os
de o leproso correr para Jesus e quebrar essa centuriões mencionados nos Evangelhos e
regra mostra quanto ele tinha fé que Jesus no Livro de Atos eram homens de caráter
poderia curá-lo. e de grande senso de dever. Vemos que esse
A lepra é uma ilustração do pecado (Is homem não era exceção, pois se mostrou
1:5, 6). As instruções dadas aos sacerdotes preocupado com um servo humilde.
em Levítico 13 ajudam a entender a nature­ Pela lógica, o centurião tinha motivos de
za do pecado: não é um mal superficial (Lv sobra para não procurar Jesus. Era um solda­
13:3), espalha-se (Lv 13:8), contamina e iso­ do profissional; Jesus era um homem de paz.
la (Lv 13:45, 46) e serve apenas para ser Era um gentio; Jesus era judeu. No entanto,
destruído pelo fogo (Lv 13:52, 57). era um homem de muita fé e sabia que, assim
Quando Jesus tocou o leproso, contraiu como ele, Jesus estava sujeito a uma autori­
a contaminação dele, mas também transmi­ dade. Tudo o que precisava fazer era dar
tiu sua saúde! Não foi exatamente isso o que uma ordem e a doença lhe obedeceria, assim
fez por nós na cruz, quando se fez pecado como o soldado obedece a seu superior.
por nós? (2 Co 5:21). O leproso não ques­ Apenas aqueles que se encontram sob auto­
tionou se Jesus era capaz de curá-lo, mas ridade têm o direito de exercer autoridade.
apenas perguntou se ele estava disposto a Os Evangelhos registram duas ocasiões
fazê-lo. Claro que Deus está disposto a sal­ em que Jesus maravilhou-se: aqui, diante
var! Ele é nosso "Deus, nosso Salvador, o da fé do centurião gentio, e em Marcos 6:6,
qual deseja que todos os homens sejam sal­ diante da incredulidade dos judeus. Mateus
vos" (1 Tm 2:3, 4). Deus "não [quer] que relata dois milagres "gentios": este e o da cura
nenhum pereça" (2 Pe 3:9). da menina siro-fenícia (M t 15:21-28). Em
Jesus pediu ao homem que não contasse ambos os casos, o Senhor ficou impressiona­
a ninguém, mas que procurasse os sacerdo­ do com a grande fé dos gentios. Vemos aqui
tes a fim de que o declarassem restaurado e um dos primeiros indícios de que, ao contrá­
pronto a ser reintegrado na sociedade. Essa rio dos gentios, os judeus se recusariam a
cerimônia, descrita em Levítico 14, é outra crer no Messias. Além disso, nesses dois mi­
bela representação da obra de Cristo pelos lagres o Senhor curou â distância, lembrando
pecadores. O pássaro sacrificado represen­ que, do ponto de vista espiritual, os gentios
ta a morte de Cristo, e o pássaro solto repre­ encontravam-se "separados" (Ef 2:12).
senta sua ressurreição. O pássaro colocado A cura da sogra de Pedro (vv. 14-17).
no jarro representa a encarnação, quando Quando voltaram do culto na sinagoga,
Cristo assumiu um corpo humano para que Pedro e André contaram a Jesus que a so­
pudesse morrer por nós. A aplicação do san­ gra de Pedro estava de cama com febre (M c
gue na orelha, no polegar e no dedão do pé 1:21). As mulheres não desfrutavam uma
ilustra a necessidade de uma fé pessoal em posição muito elevada na sociedade, e é de
sua morte. O óleo no sangue lembra o Espí­ se duvidar que um fariseu tivesse se interes­
rito de Deus, que vem habitar naquele que sado pelo que estava acontecendo na casa
crê no Salvador. de Pedro. Jesus, porém, a curou com ape­
O homem não obedeceu à ordem de nas um toque. Ela se levantou e serviu ao
Jesus; antes, contou a todos o que o Senhor Senhor e aos outros homens ali presentes.
havia feito! (Jesus diz para contar as boas A princípio, essa cura pareceu um "mila­
novas a todo mundo, e nos calamos!) Mar­ gre secundário", mas, na verdade, teve con­
cos 1:45 diz que, por causa do testemunho seqüências importantes, pois, logo após o
do leproso curado, Jesus não pôde entrar pôr-do-sol (quando terminou o sábado), a ci­
na cidade. No entanto, as multidões foram dade toda se reuniu à porta da casa de Pedro
até ele. para que Jesus atendesse a seus pedidos (Mc
MATEUS 8 - 9 41

1:32-34). As bênçãos no lar devem redundar Paz na tempestade (w. 23-27). O mar
em bênçãos na comunidade. Graças à mu­ da Galiléia tem cerca de 21 quilômetros de
dança na vida de uma mulher, muitas outras comprimento por 13 de largura, e é comum
pessoas puderam experimentar milagres. tempestades violentas se formarem de repen­
M ateus vê nesse fato um cumprimento te sobre suas águas. Sem dúvida, Jesus sa­
de Isaías 53:4. É importante observar que bia que a tempestade estava a cam inho e,
Jesus cumpriu essa profecia em vida, não na por certo, poderia tê-la impedido. No entan­
cruz. Carregou sobre si os pecados e as en­ to, permitiu que a tempestade viesse, a fim
fermidades durante seu m inistério na Terra. de ensinar algumas lições a seus discípulos.
A idéia de que há "cura na expiação" e de Ao contrário do caso de Jonas, a tem­
que todo cristão tem o "direito de apropriar- pestade veio porque obedeceram ao Senhor.
se" dessa cura é resultante de uma interpre­ Jesus dorm ia, pois descansava seguro na
tação totalmente equivocada das Escrituras. vontade do Pai, e os discípulos deveriam ter
1 Pedro 2:24 aplica essa mesma verdade ao feito o mesmo. Em vez disso, porém, fica­
perdão de nossos pecados, os quais Jesus ram todos amedrontados e acusaram Jesus
levou sobre si na cruz. O pecado e a enfer­ de não se importar com elesl M ateus dese­
midade andam juntos (ver SI 103:3), pois a java que seus leitores vissem o contraste gri­
enferm idade é conseqüência do pecado de tante entre a "pequena fé" dos discípulos e
Adão e também uma ilustração do pecado. a "grande fé" do centurião gentio.
No entanto, Deus não tem obrigação algu­ Paz numa comunidade (w. 28-34). Esse
ma de curar todas as doenças. Antes, sua episódio dram ático é bastante revelador.
grande preocupação é salvar todos os peca­ M ostra o que Satanás faz com o homem
dores que o invocam. necessitado: tira dele sua sanidade e dom í­
O prim eiro interlúdio sobre o disci- nio próprio, enche-o de medo, priva-o das
pulado (vv. 18-22). Tendo em vista as gran­ alegrias de um lar e das am izades e (se pos­
des multidões que seguiam Jesus e o fato sível) condena-o ao julgam ento eterno. Tam­
de a oposição ainda não haver se iniciado, bém revela o que a sociedade faz com o
não faltavam candidatos a discípulo, ansio­ homem necessitado: reprime, isola e am ea­
sos para seguir o M estre. M uito s deles, ça o indivíduo, mas não é capaz de mudá-
porém, não desejavam pagar o preço do dis- lo. Vemos, em seguida, o que Jesus Cristo
cipulado. Essa é a primeira vez que Mateus pode fazer por um homem cuja vida - inte­
usa a designação "Filho do hom em " em seu rior e exterior - é de escravidão e de guerra.
Evangelho para se referir a Jesus. Trata-se de Tudo o que Cristo fez por esses dois ende-
um nome encontrado em Daniel 7:13 e, sem m oninhados também pode fazer por todos
dúvida alguma, de um título messiânico e os necessitados que buscam seu socorro.
um a d e claração da realeza do M essias. Cristo foi até eles, enfrentando uma tem­
M ateus 8:22 pode ser expresso da seguinte pestade para chegar até lá. Assim é a graça
forma: "Deixem que os espiritualmente mor­ de Deus! Libertou-os pelo poder de sua Pa­
tos enterrem os fisicamente mortos". Jesus lavra e restaurou sua sanidade, seu convívio
não estava pedindo ao homem que desres­ social e seu serviço. O relato em M arcos
peitasse seu pai (que ainda estava vivo), mas 5:1-21 mostra que um dos homens pediu
sim que colocasse em ordem suas priorida­ para se tornar discípulo do Senhor. Mas, em
des. É melhor pregar o evangelho e dar vida vez de atender a seu pedido, Jesus o enviou
aos mortos espirituais do que esperar pela de volta para casa para testemunhar a seu
morte do pai só para sepultá-lo. povo. O serviço cristão deve com eçar em
casa.
2. P az a o s a t r ib u l a d o s (Mt 8 : 2 3 - 9 :1 7 ) Encontramos três orações nesse episó­
Todas as pessoas envolvidas nesses três dio: (1) os demônios rogaram a Jesus que
milagres careciam de paz, e Jesus proveu os mandasse para os porcos; (2) os cidadãos
42 MATE US 8 - 9

um dos homens implorou para se tornar um Cabe aqui comentar apenas quatro imagens
de seus seguidores (ver Mc 5:18-20). Jesus de seu ministério que Jesus apresenta nes­
atendeu ao pedido dos demônios e do povo, ta mensagem. Como médico, veio para dar
mas não atendeu ao pedido do homem saúde espiritual a pecadores enfermos.
curado! Como noivo, veio para dar alegria espiri­
Podemos elaborar uma "declaração de tual. A vida cristã é uma festa, não um fune­
fé" a partir da palavra dos demônios (os de­ ral. A ilustração do pano lembra que Jesus
mônios têm fé; ver Tg 2:19). Crêem na exis­ veio oferecer plenitude espiritual, não ape­
tência de Deus e na divindade de Cristo, nas "remendar" a vida e depois deixar que
bem como na realidade do futuro julgamen­ se desintegre. A ilustração dos odres de vi­
to. Também crêem na oração e sabiam que nho mostra que Jesus trouxe abundância
Jesus tinha poder para mandá-los entrar nos espiritual. A religião judaica era como um
porcos. odre velho que se romperia, caso fosse
O fato de os demônios terem destruído cheio com o vinho novo do evangelho. Je­
dois mil porcos não é nada comparado ao sus não veio para renovar Moisés nem para
fato de que Jesus libertou dois homens das misturar a lei com a graça. Veio para dar
garras de Satanás. Todas as coisas perten­ vida nova!
cem a Deus (SI 50:10, 11), e ele pode fazer
com elas o que bem entender. Jesus dá mais 3. R e s t a u r a ç ã o pa ra o s d ev a s t a d o s
valor aos homens do que a porcos ou a ove­ (Mt 9:18-38)
lhas (Mt 12:12). Trouxe paz a esses homens Nesta seção, Mateus registra quatro milagres
e à comunidade, na qual os dois haviam envolvendo cinco pessoas.
causado problemas durante tanto tempo. Um lar devastado (vv. 1 8 1 9 , 23-26).
Paz de consciência (w . 7-8). Jesus ha­ Deve ter sido difícil para Jairo procurar Je­
via demonstrado seu poder sobre as doen­ sus, pois era um judeu devoto e chefe da
ças e as tempestades, mas o que poderia sinagoga. Mas o amor de Jairo por sua filha
fazer com respeito ao pecado? O homem à beira da morte o compeliu a buscar o so­
no leito não conseguia locomover-se sozi­ corro de Jesus, mesmo considerando a oposi­
nho, mas felizmente recebeu a ajuda de ção dos líderes religiosos a Cristo. Quando
quatro amigos com amor, fé e esperança. Jairo se encontrou com Jesus, sua filha es­
Eles o levaram a Jesus e não permitiram que tava prestes a morrer. O atraso causado pela
coisa alguma os detivesse. Não sabemos se cura da mulher deu ao "último inimigo" a
a condição física desse homem era resulta­ oportunidade de fazer seu trabalho. Os ami­
do de seus pecados, mas sabemos que Je­ gos de Jairo chegaram em seguida e avisa­
sus tratou do pecado primeiro, pois essa é ram que sua filha havia falecido.
sempre a maior necessidade. No mesmo instante, Jesus tranqüilizou
Não devemos concluir desse milagre que Jairo e o acompanhou. Na verdade, a demo­
toda doença é causada pelo pecado, nem ra deveria ter ajudado a fortalecer a fé de
que receber o perdão implica automati­ Jairo, pois ele viu o que a pequena fé da­
camente receber cura física. Conheço um quela mulher havia realizado na vida dela.
pastor que sempre diz: "Deus pode curar Devemos aprender a confiar em Cristo e em
qualquer doença exceto a última". Mais im­ suas promessas a despeito de nossos senti­
portante do que a cura física desse homem mentos, daquilo que os outros dizem e da
era a purificação de seu coração. Voltou para forma como a situação se apresenta. Jairo
casa com o corpo curado e o coração em deve ter se assustado diante da cena com a
paz com Deus. "Para os perversos, diz o meu qual se deparou ao chegar em casa. Ainda
Deus, não há paz" (Is 57:21). assim, Jesus assumiu o controle e ressusci­
Segundo interlúdio sobre o discipulado tou a menina.
(w . 9-17). Falamos sobre o chamado de Uma esperança desfeita (vv. 20-22).
Mateus no primeiro capítulo deste estudo. Marcos 5:26 diz que esta mulher havia
MATEUS a - 9 43

consultado muitos m édicos, mas nenhum Outros tocaram na orla das vestes Cristo e
deles havia conseguido ajudá-la. Podem os foram curados (M t 14:34-36).
im aginar seu desespero e seu desânim o. Quando Sir James Simpson, inventor do
Suas esperanças foram despedaçadas. Por clorofórm io, estava à beira da m orte, um
causa da hemorragia, a mulher perm anecia amigo lhe disse: "Logo estarás descansando
cerim onialm ente impura (Lv 15:25ss), o que junto ao peito do Senhor", ao que o cientista
apenas fazia aum entar sua angústia. A "orla" respondeu: "N ão sei com o vou fazer isso, mas
se refere às borlas ou franjas que os judeus creio que estou segurando a orla de sua ves­
usavam em suas vestes para lembrá-fos de te". Não é a força de nossa fé que nos salva,
que eram o povo de Deus (Nm 15:37-41; mas sim nossa fé em um Salvador forte.
D t 22:12). Corpos devastados (w . 27-34). O texto
É interessante observar que Jairo e a não diz por que esses homens eram cegos.
mulher - duas pessoas diametralmente opos­ A cegueira era um problem a sério no O rien­
tas - encontraram-se aos pés de Jesus. Jairo te naquele tempo. De acordo com os relatos
era um judeu importante, enquanto a mu­ dos Evangelhos, Jesus curou pelo menos seis
lher era uma anônim a sem prestígio nem cegos e realizou cada milagre de maneira
recursos. Ele era um líder na sinagoga, en­ diferente. Esses dois cegos reconheceram
quanto a aflição dela a impedia de adorar. que Cristo era o Filho de Davi (ver M t 1:1),
Jairo foi suplicar por sua filha, e a mulher foi persistindo em segui-lo até dentro da casa
procurar ajuda para si mesma. A m enina (sem dúvida, tinham alguém para guiá-los).
havia desfrutado boa saúde durante doze Jesus honrou sua fé. A resposta afirm ativa
anos e, então, havia morrido; a mulher ha­ dos dois ("Sim , Senhor!") foi a confissão de
via sofrido durante doze anos e, agora, es­ fé que liberou o poder para a cura e para a
tava curada. A necessidade de Jairo era de restauração de sua visão.
conhecim ento geral; a necessidade da mu­ A cegueira é uma das ilustrações usadas
lher era secreta - somente Jesus sabia. Tanto para a ignorância espiritual e a incredulidade
Jairo quanto a mulher creram em Cristo, e (Is 6:10; M t 15:14; Rm 11:25). O pecador
ele supriu suas necessidades. só pode nascer de novo depois de enxergar
Talvez Jairo tenha se ressentido com a as coisas de Deus (Jo 3:3). O cristão deve se
mulher, pois ela atrasou Jesus, impedindo-o dedicar a crescer espiritualm ente, pois de
de chegar antes de a menina morrer. M as outro modo sua visão espiritual vai se dete­
seu verdadeiro problema não era a mulher, riorar (2 Pe 1:5-9).
mas sim e/e próprio: precisava ter fé em Cris­ O último milagre dessa seção é relacio­
to. Jesus com peliu a mulher a dar seu teste­ nado a um dem ônio (M t 9:32-34). Apesar
munho (ver o relato em M arcos), tanto para de enfermidades e possessões dem oníacas
o benefício dela própria quanto de Jairo. O serem duas coisas distintas (M t 10:8), os
socorro de Deus na vida de outras pessoas dem ônios têm poder de causar aflição físi­
deve ser um estímulo para confiarmos nele ca. Nesse caso, o dem ônio privou o homem
ainda mais. N ão devem os ser tão egoístas da fala. Jesus libertou o homem, e o povo
em nossas orações a ponto de não mais es­ reconheceu que algo novo estava aconte­
perar no Senhor. Sabem os que ele nunca se cendo em Israel.
atrasa. M as os líderes religiosos recusaram-se a
A fé dessa mulher era quase supersticio­ reconhecer que Jesus era o Messias. Então,
sa, e, ainda assim, Jesus a honrou e curou. com o explicavam seus milagres? Só lhes res­
As pessoas precisam "tocar em Cristo" onde tou afirmar que Cristo operava milagres em
são capazes de alcançá-lo, mesmo que te­ nome do "m aioral dos dem ônios". Em oca­
nham de com eçar pelas franjas de suas ves­ sião posterior, os fariseus voltam a fazer essa
tes. O s fariseus alongavam as franjas das acusação, e Jesus a refuta (M t 12:22ss). Em
vestes para aparentar mais espiritualidade, sua incredulidade, os fariseus faziam exata-
44 MATEUS 8 - 9

O terceiro interlúdio sobre o discipu- participassem dos ministérios de pregação,


lado (w . 35-38). Jesus não se ateve a curar; de ensino e de curas (ver M t 10). Do mes­
também ensinou e pregou. No entanto, não mo modo, quando orarmos conforme Cristo
podia fazer todo o trabalho sozinho; preci­ nos ordenou, veremos o que ele viu, senti­
sava de outros para ajudá-io. Pediu aos dis­ remos o que sentiu e faremos o que fez.
cípulos que orassem pedindo a Deus que Deus multiplicará nossa vida ao participar­
enviasse "trabalhadores para a sua seara". mos da grande seara pronta para a ceifa
Não tardou para que os discípulos também (Jo 4:34-38).
Era preciso possuir determinadas qualifi­
8 cações para ser um apóstolo de Jesus Cris­
to. O apóstolo deveria ter visto o Cristo
ressurreto (1 C o 9:1) e ter tido com unhão
Os Em baixadores com ele (At 1:21, 22). Também deveria ter
sido escolhido pelo Senhor (Ef 4:11). O s
d o Rei
apóstolos lançaram os alicerces da Igreja (Ef
2:20) e, depois, saíram de cena. Enquanto
M ateus 10
todos os cristãos são enviados para repre­
sentar o Rei (Jo 17:18; 20:21), nenhum cris­
tão nos dias de hoje pode se considerar, de
fato, um apóstolo, pois nenhum de nós viu
obra da salvação só seria realizada por
A
o Cristo ressurreto (1 Pe 1:8).
Jesus Cristo, e ele o fez sozinho. M as o O s apóstolos receberam poderes espe­
testem unho dessa salvação só poderia ser ciais e a autoridade de Cristo para realizar
dado por seu povo, pelos que creram nele e milagres. Tais milagres faziam parte de suas
foram salvos. O Rei precisava de embaixa­ "cred enciais" (A t 2:43; 5:12; 2 Co 12:12;
dores para levar a mensagem - e contínua Hb 2:1-4). Curaram enfermos (é im portan­
precisando deles. "A quem enviarei, e quem te observar que isso incluía todo tipo de
há de ir por nós?" {Is 6:8). N ão basta orar doença), purificaram leprosos, expulsaram
por trabalhadores (M t 9:36-38). Devem os dem ônios e até mesmo ressuscitaram mor­
também nos colocar à disposição para ser­ tos. Esses quatro ministérios são paralelos
vir ao Senhor. aos m ila g re s re a liz a d o s p o r Je su s em
Antes de Jesus enviar seus embaixado­ M ateus 8 e 9. Sem dúvida alguma, os após­
res para ministrar, pregou um "serm ão de tolos representaram o Rei e ampliaram sua
ordenação" para encorajá-los e prepará-los. obra.
Neste sermão, o Rei incluiu algo a todos os A comissão dada por Cristo a esses doze
seus servos - passados, presentes e futuros. homens não é a mesma que temos hoje. Ele
Se não levarmos esse fato em consideração, os enviou apenas ao povo de Israel. O
a mensagem deste capítulo parecerá terri­ padrão histórico era levar o evangelho "pri­
velm ente confusa. meiro ao judeu", pois "a salvação vem dos
judeus" (Jo 4:22). Esses doze embaixadores
1. I n st r u ç õ es para o s a pó st o lo s d o anunciaram a vinda do reino com o Jo ão
passad o (M t 1 0 :1 - 5 ) Batista (M t 3:2) e Jesus (M t 4:17) haviam
Um "discípulo" é um aprendiz, alguém que feito. Infelizm ente, a nação rejeitou tanto
segue um mestre e aprende de sua sabe­ Cristo quanto seus embaixadores, e o reino
doria. Jesus tinha muitos discípulos; alguns lhes foi tirado (M t 21:43).
deles eram apenas "e sp e cta d o res", mas A o viajar de cidade em cidade, os após­
outros eram verdadeiram ente convertidos tolos dependiam da hospitalidade alheia.
(Jo 6:66). Dentre esses seguidores autênti­ N a q u ele tem po, era co n sid erad o extre­
cos, Jesus selecionou um grupo pequeno m am ente indelicad o uma cid ad e recusar
de doze homens que passaram a ser cha­ abrigo a um hóspede. N o entanto, os embai­
mados de "ap ó sto lo s" - do term o grego xadores deveriam ficar apenas com aqueles
apostello, que significa "ser enviado numa que se mostrassem "dignos", os que cres-
com issão". O s gregos usavam essa desig­ sem em Jesus Cristo e recebessem sua men­
nação para representantes pessoais do rei, sagem de paz e de perdão. O s apóstolos
em baixadores que atuavam com a autori­ não deviam fazer concessões. Se uma cida­
dade do rei. Q uem fazia pouco caso dos de rejeitasse suas palavras, deveriam advertir
enviados do rei corria o risco de ser julga- o povo e partir. Sacudir o pó era um ato de
46 M A T E U S 10

Não sabemos quanto tempo essa "cam­ ministério em Atos não se restringiu às "ci­
panha evangelística" durou. Jesus também dades de Israel" (M t 10:23). Ao que parece,
saiu para pregar {ver M t 11:1), e, posterior­ o período descrito nessa seção é paralelo
mente, os apóstolos voltaram e relataram ao tempo da tribulação descrito por Jesus
tudo o que havia acontecido (Lc 9:10). Mar­ em seu "sermão profético" no monte das
cos 6:7 diz que Jesus os enviou em pares, o Oliveiras (M t 24 - 25). A declaração: "Aque­
que explica o fato de seus nomes aparece­ le, porém, que perseverar até ao fim, esse
rem relacionados em pares em Mateus 10:2­ será salvo" (M t 10:22) é, sem dúvida algu­
4. De acordo com Apocalipse 21:14, os ma, parte do discurso profético de nosso Se­
nomes dos apóstolos estarão inscritos nos nhor (M t 24:13; M c 13:13). Não se refere a
alicerces das muralhas no céu. O nome de alguém se esforçando para não perder a sal­
Judas será, obviamente, substituído pelo vação, mas sim a uma pessoa passando por
nome de Matias (At 1:26). perseguições e se mantendo fiel.
Apesar de ser possível aprender princí­ Se, de fato, essas instruções aplicam-se
pios espirituais com esse parágrafo, não de­ à tribulação vindoura, não é difícil entender
vemos aplicar essas instruções a nossa vida. por que Jesus falou tanto sobre ódio e per­
A comissão que recebemos do Senhor in­ seguições. O período da tribulação será um
clui "todo o mundo" (M t 28:19, 20), não tempo de oposição. Os servos de Deus se­
apenas a nação de Israel. Pregamos o evan­ rão como ovelhas no meio dos lobos. Terão
gelho da graça de Deus (At 20:24). Nossa de ser "prudentes com o as serpentes e
mensagem é: "Cristo morreu por nossos símplices como as pombas". Essa oposição
pecados" e não: Ό reino dos céus está pró­ virá de organizações religiosas (M t 10:17),
ximo". O Rei já veio, sofreu, morreu e res­ do governo (M t 10:18) e até mesmo da fa­
suscitou dentre os mortos. Agora, oferece mília (M t 10:21).
salvação a todos os que crerem nele. Apesar de os cristãos de certas regiões
do mundo estarem passando por algumas
2. I n st r u ç õ es para o s fu tu r o s dessas provações hoje, o texto indica que a
d is c íp u l o s (Mt 10:16-23) oposição em questão será mundial. A "re­
Esta seção tem um "tom " diferente daquele ligião" sempre perseguiu os cristãos ver­
da anterior. Jesus fala de perseguição, mas dadeiros. Até o apóstolo Paulo perseguiu
não temos registro de que os doze apósto­ a Igreja antes de se converter, quando era
los tenham sido perseguidos durante essa Saulo de Tarso. A história da Igreja revela
viagem evangelística. Jesus também faz re­ que a "religião instituída", desprovida do
ferência a um ministério aos gentios (M t evangelho, tem se oposto continuamente a
10:18). O Espírito Santo ainda não havia sido homens e mulheres que ousam testemunhar
dado, mas Jesus menciona o Espírito falan­ de Cristo.
do dentro deles (M t 10:20). Mateus 10:22 Mateus 10:18 afirma que o governo tam­
parece indicar uma perseguição mundial; bém participará dessa perseguição. As Es­
nessa ocasião, porém, os apóstolos limita­ crituras proféticas ensinam que, nos últimos
ram-se a ministrar em sua própria terra. Por dias, governo e religião se unirão para con­
fim, Mateus 10:23 fala sobre a volta de Cris­ trolar o mundo. Apocalipse 13 descreve um
to, o que certamente transporta tudo o que tempo durante o período da tribulação quan­
foi citado acima para um tempo futuro. É do um governante mundial (o anticristo)
difícil não concluir que essas instruções se obrigará o mundo a adorá-lo e a prestar cul­
aplicam às testemunhas de uma época to a sua imagem. Esse líder controlará a reli­
vindoura. gião mundial, a economia e o governo e
Mas a qual época se referem? Até certo usará tudo isso para perseguir os que per­
ponto, alguns desses acontecimentos ocor­ manecerem fiéis a Cristo.
reram no Livro de Atos; no entanto, Jesus Haverá também um declínio no amor e
não voltou naquela época. Além disso, o na lealdade dentro das famílias. A falta de
M A T E U S 10 47

"afeição natural" (2 Tm 3:3) é uma das ca­ crer que o Espírito de Deus nos ajudará a
racterísticas dos últimos tempos, jesus cita lembrar daquilo que o Senhor nos ensinou
M iq u é ias 7:6 para provar esse fato {M t (Jo 14:26). Em vez de fugir e de procurar
10:21). As três instituições que Deus esta­ uma vida mais fácil, podem os "perseverar
beleceu neste mundo são o lar, o governo e até ao fim ", sabendo que Deus nos ajudará
a Igreja. Nos últimos dias, em vez de pro­ e acompanhará até o fim.
mover a verdade, essas três instituições se­
rão contrárias a ela. 3. In stru çõ es a o s d is c íp u l o s d o
Todavia, a tribulação também será um presen te (M t 10:24-42)
tempo de oportunidade. O s cristãos pode­ Apesar de as verdades contidas nesta seção
rão testemunhar a governadores e reis (M t se aplicarem aos servos de Deus em qual­
10:18). O s inimigos tentarão fazer os fiéis quer período da história bíblica, essas pa­
tropeçar, mas o Espírito de Deus os instruirá lavras parecem particularm ente relevantes
em seu testemunho. O s cristãos de hoje não para a Igreja de hoje. A ênfase é sobre a
devem usar M ateus 10:19, 20 com o descul­ injunção: "N ão tem ais!" (M t 10:26, 28, 31).
pa para não estudar a Palavra ao se prepara­ Esse medo específico ao qual Cristo se re­
rem para testem unhar, ensinar ou pregar. fere é explicado em M ateus 10:32, 33 e
Esses versículos descrevem a urgência da si­ consiste no m edo de confessar Cristo aber­
tuação e não devem servir de parâm etro tamente diante dos homens. Deus não tem
divino para o ministério nos dias de hoje. um "serviço secreto". A confissão pública
No tem po dos apóstolos, era o Espírito quem de fé em Cristo é uma evidência da verdadei­
lhes dava a mensagem, quando se encon­ ra salvação (Rm 10:9, 10). N ão precisamos
travam diante dos inimigos (A t 4:8). Esse ter medo de confessar a Jesus abertamente,
ministério extraordinário do Espírito voltará e M ateus 10 apresenta vários motivos para
a se manifestar durante a tribulação. sermos ousados em nosso testemunho.
A tribulação será um tem po de oposi­ O sofrim ento é algo esperado (vv. 24,
ção e de oportunidade, mas tam bém um 25). Jesus Cristo foi perseguido quando es­
tempo de com prom isso. O s embaixadores tava ministrando aqui na Terra, então por que
do Rei devem "perseverar até ao fim " e rea­ deveríam os esperar algo diferente? Som os
lizar seu m inistério fielm ente, mesmo que seus discípulos, e os discípulos não são maio­
lhes custe a vida. Apesar dos flagelos, da res que o Mestre. Jesus foi acusado de estar
rejeição pela família, das perseguições nas em conluio com Satanás (Belzebu: senhor
cidades e das acusações perante líderes, os do estrume, senhor da casa), e dirão a mes­
servos devem perm anecer fiéis a seu Senhor. ma coisa de seus seguidores. N o entanto,
Seu testemunho será usado por Deus para devemos considerar um privilégio sofrer p or
ganhar outras pessoas. Apocalipse 7:1-8 in­ Cristo e com ele (A t 5:41; Fp 3:10).
dica que 144 mil judeus levarão a Palavra D eus revelará todas as coisas (w . 26j,
de Deus pelo mundo afora durante a tribu- 2 7 ). O s inimigos de Cristo usam de meios
lação, e cujo testemunho redundará na sal­ ocultos e dissimulados para opor-se ao evan­
vação de grandes multidões para Cristo (Ap gelho, mas os verdadeiros cristãos são aber­
7:9ss). tos e corajosos em sua vida e testemunho.
Por certo, as palavras de M ateus 10 se­ N ão temos coisa alguma a esconder. Jesus
rão extremamente preciosas e significativas "nada disse em oculto" (Jo 18:20). Falsas tes­
para as testemunhas desse período. M esm o temunhas mentiram sobre Jesus durante seu
que a interpretação e a aplicação básicas se julgam ento, mas D eus providenciou para
refiram aos servos do futuro, ainda assim que a verdade fosse revelada. N ão precisa­
podem os aprender com essas palavras hoje. mos temer coisa alguma, pois um dia Deus
Por mais difíceis que sejam nossas circuns­ revelará todos os segredos do coração do ho­
tâncias, podem os transformar a oposição em mem (Rm 2:16) e os julgará. Nossa tarefa não
48 MATE US 10

mensagem de Deus. O julgamento dos ho­ Cristo é o Senhor", outra bem diferente é
mens no presente não nos assusta, pois vi­ render-se a ele e obedecer à sua vontade.
vemos em função do julgamento vindouro O discurso e a prática devem andar juntos.
de Deus. Jesus tem dois ministérios específicos no
Tememos somente a Deus (v. 28). O céu. Como nosso Sumo Sacerdote, ele nos
homem só pode matar o corpo, e, se o fi­ dá graça para que não pequemos. Como
zer, a alma do cristão vai para seu lar junto nosso advogado, ele nos perdoa e restaura
do Senhor. No entanto, Deus é capaz de quando pecamos (1 Jo 2:1, 2). Os méritos
destruir não apenas o corpo, mas também a de sua obra celestial intercessora não depen­
alma no inferno! Por certo, Deus jamais con­ dem de nossa fidelidade, pois ele é fiel mes­
denará um dos seus filhos (Jo 5:24; Rm 8:1). mo quando nós não somos (2 Tm 2:12, 13).
Martinho Lutero captou muito bem essa Mas os benefícios de seu ministério celestial
verdade ao escrever: são para os que são fiéis a ele. Quando Cris­
to nos confessa diante do Pai, garante-nos
Que dos bens e familiares, possamos os benefícios de sua obra sacrificial na cruz.
abdicar, Quando nos nega diante do Pai, não pode
Também desta vida que desvanece, compartilhar tais graças conosco, não por
E do corpo que os homens podem matar. omissão sua, mas por culpa nossa.
A verdade de Deus permanece, Há, no entanto, outro elemento a ser
Seu reino é eterno e sem par. considerado. Um dia, estaremos diante do
trono do julgamento, em que as recompen­
A pessoa que teme a Deus não tem mais sas serão distribuídas (2 Co 5:10; Rm 14:10).
nada a temer. O temor do Senhor anula to­ Se negarmos o Senhor aqui na Terra, perde­
dos os medos. remos essas recompensas e não teremos a
Deus cuida dos seus (vv. 29-31). Não alegria de ouvi-lo dizer: "Muito bem, servo
custava caro comprar pardais no mercado. bom e fiel". Sem dúvida, qualquer um que
Ao compararmos esses versículos com Lucas negar Jesus aqui na Terra pode ser perdoa­
12:6, vemos que os pardais eram tão bara­ do. Pedro o negou três vezes e foi perdoado
tos que, na compra de quatro, o vendedor e restaurado.
dava mais um de graça! No entanto, o Pai Não podemos escapar do conflito (vv.
sabe quando um pardal cai em terra; e e/e 34-39). Uma vez que nos identificamos com
está presente quando isso acontece! Se Deus Jesus Cristo e que o confessamos, passamos
cuida até dos pardais de forma tão maravi­ a fazer parte de uma guerra. Não fomos nós
lhosa, acaso não cuidará também de seus que começamos esse conflito; foi Deus
servos? Sem dúvida! Somos muito mais va­ quem declarou guerra contra Satanás (Gn
liosos para Deus do que muitos pardais. 3:15). Na noite em que nosso Senhor nas­
Deus se preocupa com todos os detalhes ceu, os anjos proclamaram "paz na terra"
de nossa vida, até mesmo nossos cabelos (Lc 2:14). Mas Jesus parece negar essa ver­
estão contados - não de modo geral, mas dade. "Não penseis que vim trazer paz à
individualmente! Deus vê quando um pardal terra; não vim trazer paz, mas espada" (Mt
cai no chão e sabe quando um dos cabelos 10:34). Se Israel tivesse aceitado seu Mes­
de seus filhos cai. Deus protege seus filhos sias, ele teria lhe dado a paz. Mas seu povo
até o último fio de cabelo (Lc 21:18). Saben­ o rejeitou, e o resultado foi a "espada". Em
do desse cuidado maravilhoso de Deus para vez de haver "paz na terra", há "paz no céu"
conosco, não temos motivo para temer. (Lc 19:38). Ele fez a paz por meio de seu
Cristo honra aqueles que o confessam sangue na cruz (Cl 1:20), para que os ho­
(w . 32, 33). Confessar ao Senhor não é ape­ mens pudessem ser reconciliados com Deus
nas declarar seu nome com os lábios. A ver­ e consigo mesmos.
dadeira confissão é corroborada por nosso A única forma de um cristão escapar do
modo de viver. Uma coisa é dizer: "Jesus conflito é negar a Cristo e fazer concessões
MATEUS 10 49

em seu testemunho, o que seria pecado. Podemos ser uma bênção para outros
Então, o cristão estaria em guerra com Deus (w. 4042). Nem todos rejeitarão nosso tes­
e consigo mesmo. Seremos mal interpreta­ temunho. Alguns o receberão de braços
dos e perseguidos até pelos mais próximos abertos e serão abençoados. Afinal, somos
de nós, mas, mesmo assim, não devemos embaixadores do Rei! Nosso Rei providencia­
deixar que isso afete nosso testemunho. O rá para que essas pessoas sejam recompen­
importante é sofrer por amor a Cristo e à sadas pelo que fizerem. Quando as pessoas
justiça, não por ser pessoas difíceis de con­ nos recebem, estão recebendo o Rei, pois
viver. Há uma diferença entre "o escândalo somos seus representantes. Em 2 Samuel 10
da cruz" (Gl 5:11) e cristãos escandalosos. encontramos um exemplo do que acontece
Todo cristão deve decidir de uma vez quando alguém maltrata um enviado do Rei.
por todas amar a Cristo, tomar sua cruz e No entanto, as bênçãos não são automá­
segui-lo. O amor em Mateus 10:37 é o mo­ ticas. Tudo depende da atitude do anfitrião.
tivo para a cruz em Mateus 10:38: "Tomar a Se receber o embaixador como um profeta
sua cruz" não significa usar um broche na (um porta-voz de Deus), terá uma recom­
lapela nem colocar um adesivo no carro. pensa, e se o receber somente como um
Significa confessar a Cristo e lhe obedecer a homem justo, terá outra, Mas mesmo um
despeito da vergonha e do sofrimento. Sig­ copo de água fria, oferecido com o espírito
nifica morrer para si mesmo diariamente. Se correto, é devidamente recompensado.
Cristo foi para a cruz por nossa causa, o Convém lembrar que o tema desta últi­
mínimo que podemos fazer é carregar uma ma seção é discipulado, não filiação. Tor-
cruz por ele. namo-nos filhos de Deus pela fé em Cristo,
Mateus 10:39 apresenta apenas duas e nos tornamos discípulos ao segui-lo fiel*
alternativas: salvar nossa vida ou sacrificá-la. mente e obedecer à sua vontade. A filiação
Não há meio-termo. Se protegermos nossos permanece inalterada, mas o discipulado
interesses pessoais, seremos perdedores. Se muda à medida que andamos com Cristo.
morrermos para nós mesmos e vivermos para Há grande necessidade hoje de discípulos
os interesses de Deus, seremos vencedores. fiéis, de cristãos que aprenderão de Cristo e
Uma vez que o conflito espiritual é inevitá­ que viverão para ele.
vel neste mundo, por que não morrer para Com isso, encerramos a primeira seção
nós mesmos e deixar Cristo vencer a bata­ principal de Mateus, Λ Revelação do Rei.
lha por nós e em nós? Afinal, a verdadeira Vimos sua pessoa (Mt 1 - 4), seus princí­
guerra é interior - é o conflito entre o egoís­ pios (Mt 5 - 7) e seu poder (Mt 8 -10). Como
mo e o sacrifício. a nação responderá a essa revelação?
havia vindo no espírito e poder de Elias (Lc
9 1:1 7), e até mesmo Elias teve dias de desâni­
mo! Jesus garante a João que o Filho está
cumprindo a vontade do Pai.
O s C o n flit o s do R ei Depois de responder à pergunta de João,
Jesus o elogia. João não era um "pregador
M ateu s 1 1 - 1 2 popular" que encantava as multidões, tam­
pouco era como um caniço ao vento que
muda de direção a todo instante. Antes, era
um homem de convicções e de coragem, o
maior de todos os profetas. Essa posição ele­
vada era decorrente de seu privilégio de
odas as evidências haviam sido expos­ anunciar o Messias. Seu ministério foi o pon­
T tas. João Batista apresentara o Rei à na­
ção, e Jesus havia revelado sua pessoa, seus
to culminante da Lei e dos Profetas.
Em que sentido João foi o "Elias, que
princípios e seu poder. Cabia aos líderes do estava para vir"? (M t 11:14). Ele veio no espí­
país tomar uma decisão. Em lugar de re­ rito e poder de Elias (Lc 1:17), e até mesmo
ceberem seu Rei, rebelaram-se contra ele. se vestia como Elias (2 Rs 1:7, 8; M t 3:4).
Esses dois capítulos apresentam quatro as­ Assim como Elias, João tinha uma mensa­
pectos dessa rebelião. gem de julgamento para a nação apóstata
de Israel. Seu ministério foi profetizado (Is
1 . R e b e l iã o c o n t r a seu pro feta 40:3), e ele o cumpriu. Mas, segundo a pro­
(Mt 11:1-30) fecia de Malaquias 4:5, Elias apareceria "an­
Exposição (w . 1-15). João Batista estava na tes que [viesse] o grande e terrível Dia do
prisão da fortaleza de Maquero, pois havia S e n h o r " . Esse "Dia do S e n h o r " é o período
denunciado corajosamente o casamento da tribulação que virá sobre toda a Terra (ver
adúltero de Herodes Antipas com Herodias M t 24:1 5). No entanto, o ministério de João
(Lc 3:19, 20). Seria de se esperar que os lí­ Batista não foi seguido de julgamento. Por
deres religiosos se opusessem a Herodes e quê?
procurassem libertar João, mas em vez disso, O ministério de João era preparar a
ficaram de braços cruzados. A atitude deles nação para a chegada de Jesus e apresentá-
com relação a João refletia seus sentimen­ lo para a nação (Lc 1:15-1 7; Jo 1:29-34). Se
tos contra Jesus, pois João o havia apresenta­ o povo tivesse recebido o testemunho de
do e honrado. João e aceitado o Messias, João teria cum­
Não é difícil entender como João estava prido as profecias literalmente. Em vez dis­
sofrendo na prisão. Era um homem do de­ so, tais profecias cumpriram-se num sentido
serto confinado a uma cela. Era um homem espiritual na vida daqueles que confiaram
ativo que recebera de Deus a ordem de pre­ em Cristo. Jesus deixa isso claro em Mateus
gar e fora silenciado. Havia anunciado um 17:10-13. Muitos estudiosos da Bíblia acre­
julgamento que estava demorando a chegar ditam que Malaquias 4:5 se cumprirá literal­
(M t 3:7-12). Recebia apenas relatórios par­ mente quando Elias vier como uma das "duas
ciais do ministério de Jesus e não tinha como testemunhas" registradas em Apocalipse 11.
visualizar tudo o que estava acontecendo. O povo em geral tinha João em alta con­
Em sua resposta a João, Jesus demonstra sideração (Mt 21:26), e muitos se arrepen­
cautela e ternura. Primeiro, o lembra das pro­ deram e foram batizados por ele. Mas os
fecias do Antigo Testamento sobre a obra líderes recusaram-se a reconhecê-lo, indican­
do Messias (Is 29:18, 19; 35:4-6). Os discí­ do, assim, sua incredulidade e dureza de
pulos de João já lhe haviam contado o que coração. Em vez de se tornarem como crian­
Jesus estava fazendo (Lc 7:18), mas Jesus lhes ças e se humilharem, os líderes adotaram uma
pede que "digam a João novamente". João atitude infantil e obstinada, como garotinhos
MATEUS 1 1 - 1 2 51

emburrados por não poderem fazer as coi­ profundo da entrega e da obediência. N o


sas a seu jeito. A parábola em M ateus 11:16­ primeiro caso, temos "paz com D eus" (Rm
19 mostra a condição espiritual dos líderes 5:1), no segundo, recebem os "a paz de
e também revela o coração dos incrédulos D eus" (Fp 4:6-8). Naquele tempo, a expres­
nos dias de hoje. são tomar o "jugo" significava tornar-se um
C on denação (vv. 16-24). É muito raro discípulo. Q uando nos entregamos a Cristo,
ver Jesus usar a palavra a/'! Esse termo impli­ somos conduzidos por ele. A palavra "sua­
ca julgamento, mas também inclui com pai­ ve" significa "d o tamanho certo", pois seu
xão e sofrimento. Infelizmente, o povo dessas jugo é feito sob medida para nossa vida e
cidades desprezou as oportunidades de ver nossas necessidades, e não é pesado reali­
e ouvir o Cristo de Deus e de ser salvo! As zar sua vontade (1 Jo 5:3).
cidades gentias de Tiro e Sidom bem com o "Aprendei". As duas primeiras injunções
as cidades pagãs de Sodom a e Gom orra te­ representam um momento crítico, no qual
riam se arrependido, se tivessem presencia­ nos aproximamos de Cristo e nos entrega­
do os milagres que Jesus e seus discípulos mos a ele, mas esse passo é o com eço de
realizaram. Cafarnaum teria sido "exaltada um processo. À m edida que aprendem os
aos céus" pela honra de ter o Messias mo­ mais dele, encontram os uma paz mais pro­
rando ali. M as os grandes privilégios de funda, pois confiam os nele cada vez mais.
Cafarnaum só lhe trouxeram maior respon­ A vida é simplificada e unificada em torno
sabilidade e m aior julgam ento. C inco dos da pessoa de Cristo. O convite não é ape­
dez milagres registrados em M ateus 8 a 9 nas para o povo de Israel, mas para "todos"
foram realizados em Cafarnaum. (M t 10:5, 6).
C onvite (w . 25-30). Por que os líderes
religiosos rebelaram-se contra João e contra 2. R e b e l i ã o c o n t r a s e u s p r in c íp io s
Jesus? Porque eram intelectual e espiritual­ (M t 12:1-21)
mente arrogantes e se recusaram a agir com Jesus violou as tradições do sábado delibera­
a humildade e honestidade de uma criança. damente em várias ocasiões. Havia ensina­
H á grande diferença entre as crianças mima­ do ao povo que a lei exterior, por si mesma,
das da parábola (M t 11:16-19) e os peque­ jamais poderia salvá-los ou purificá-los, pois
ninos submissos dessa palavra de louvor. O a verdadeira justiça tem de vir do coração.
Pai se revela ao Filho, e o Filho revela a si A palavra hebraica shabbath significa "re ­
mesmo e o Pai àqueles que buscam Jesus pouso ou descanso", o que explica por que
com fé. Esses versículos indicam a sobera­ M ateus apresenta os conflitos do sábado
nia do Pai e também a responsabilidade do nesse ponto. Jesus oferece descanso a to­
pecador. O convite pode ser resumido em dos os que se achegam a ele, enquanto a
três palavras. observância religiosa não proporciona des­
"V in de". O s fariseus diziam "Façam !" e canso algum.
tentavam obrigar o povo a seguir M oisés e A lei permitia saciar a fome pegando ali­
as tradições. M as a verdadeira salvação só mentos do cam po do vizinho (D t 23:24, 25),
pode ser encontrada numa Pessoa: Jesus mas fazer isso no sábado era uma transgres­
Cristo. Aceitar esse convite significa crer nele. são da lei, segundo as tradições dos escribas
É um convite aberto a todos os que estão e fariseus, pois significava realizar trabalho.
cansados e sobrecarregados, exatam ente Jesus respondeu a seus acusadores de três
com o o povo se sentia sob o jugo do legalis- formas.
mo fariseu (M t 23:4; At 15:10). A p elo u p ara um re i (w . 3, 4 ). O pão
"T om ai." Trata-se de um a experiência consagrado devia ser consum ido som ente
mais profunda. Q uando nos aproximamos pelos sacerdotes, mas Davi e seus soldados
de C risto pela fé, e/e nos dá descanso. o comeram. Por certo, o Filho de Deus ti­
Q uando colocam os seu jugo e aprendem os nha o direito de com er os cereais de seu Pai
52 MATEUS 1 1 - 1 2

foi condenado, é evidente que Jesus pode­ que, se uma pessoa poderia cuidar de seus
ria quebrar as tradições dos homens sem animais no sábado, o que nos impede de
culpa alguma (ver 1 Sm 21:1 ss). cuidar do homem, criado à imagem de
Apelou para os sacerdotes (vv. 5 6 ). Os Deus?
sacerdotes deveriam oferecer certo número Em reação a esse desacato deliberado
de sacrifícios no sábado (Nm 28:9, 10) e, de Jesus, os líderes religiosos começaram a
ainda assim, não eram dignos de condena­ tramar para matá-lo. Acusaram-no de blasfê­
ção. Na verdade, ao trabalharem no shabbath, mia, quando curou um paralítico (Mt 9:1-8),
estavam obedecendo à lei de Deus. Isso indi­ e de falta de separação dos pecadores, quan­
ca que as tradições humanas com respeito do comeu com os amigos de Mateus (Mt
ao sábado estavam erradas, pois contraria­ 9:11-13). O caso do shabbath, porém, era
vam a própria lei de Deus. muito pior, pois Jesus havia transgredido in­
Apelou para um profeta (v. 7). A cita­ tencionalmente a lei de Deus, ao trabalhar
ção é de Oséias 6:6, passagem que Jesus já no dia de sábado apanhando cereais no
havia mencionado anteriormente (Mt 9:13). campo e curando um homem.
A lei do sábado foi dada a Israel como um Jesus respondeu a esse ódio retirando-se.
sinal de seu relacionamento com Deus (Êx Não lutou abertamente com seus inimigos,
20:9-11; 31:13-1 7; Ne 9:12-15). Mas também mas cumpriu a profecia em Isaías 42:1-4.
constituía um ato de misericórdia para os Seus inimigos eram como canas quebradas
seres humanos e os animais, proporcionan­ e pavio queimado. Convém observar que
do-lhes o descanso semanal necessário. os gentios são mencionados duas vezes, e,
Devemos considerar suspeita qualquer lei com isso, Mateus dá a entender novamen­
religiosa contrária à misericórdia e ao cuida­ te que Israel rejeitaria seu Rei e que o reino
do com a natureza. Deus quer misericórdia, se estenderia aos gentios.
não sacrifícios religiosos; quer amor, não A saída de Jesus naquele momento
legalismo. Os fariseus que se esforçavam mostra, de antemão, sua atitude de "afasta­
para obedecer às leis do sábado pensavam mento" em Mateus 14 - 20. Durante esse
estar servindo a Deus. Ao acusarem Jesus e período, Jesus evitou o conflito direto com
seus discípulos, pensavam estar defenden­ seus inimigos para que pudesse permane­
do Deus, exatamente como os legalistas re­ cer dentro do "cronograma divino" e ser
ligiosos de hoje! crucificado na hora certa. Também usou esse
É importante observar que Jesus apelou tempo para ensinar seus discípulos e prepará-
para um rei, um sacerdote e um profeta, pois los para a crucificação do seu Mestre.
ele é Rei, Sacerdote e Profeta; também afir­
mou ser "maior" em três aspectos: como 3. R e b e l i ã o c o n t r a seu p o d er
sacerdote, ele é "maior do que o templo" (Mt 12:22-37)
(Mt 12:6); como profeta, ele é "maior do A acusação (w . 22-24). O homem que foi
que Jonas" (Mt 12:41); e como rei, ele é levado a Jesus estava, sem dúvida alguma,
"maior do que Salomão" (Mt 12:42). num estado lastimável; não podia enxergar,
Ao se declarar "Senhor do sábado", Jesus era incapaz de falar e estava possuído por
estava na verdade afirmando que era igual a um demônio. Os fariseus não foram capazes
Deus, pois foi Deus quem estabeleceu o de ajudá-lo, mas Jesus o libertou. Os fariseus
sábado (Gn 2:1-3). Em seguida, provou sua acusaram Jesus de operar pelo poder de
asserção curando o homem da mão resse­ Satanás, não pelo poder de Deus. Sua opi­
quida. É triste ver que os líderes religiosos nião sobre os milagres de Jesus era bastante
usaram esse homem como uma arma con­ diferente da opinião de Nicodemos (Jo 3:2).
tra Jesus. Mas o Senhor não se intimidou A resposta (vv. 25-30). Jesus mostrou
com as ameaças deles. Deixar de fazer o como a declaração deles era ilógica e impra­
bem no sábado (ou em qualquer outro dia) ticável. Que razão Satanás teria para lutar
é o mesmo que fazer o mal. Jesus argumenta contra si mesmo? Jesus afirmou que Satanás
MATEUS 1 1 - 1 2 53

tem um reino, pois é o deus desta era (M t Santo. Com o é possível Deus perdoar pa­
4:8, 9; Jo 12:31); tam bém afirm ou que lavras proferidas contra seu Filho, mas não
Satanás tem uma "casa", referindo-se, possi­ perdoar as ofensas contra o Espírito?
velm ente, ao corpo do homem que estava A o que parece, trata-se de uma situação
possuído (M t 12:43, 44). Se Satanás expul­ específica, correspondente apenas ao perío­
sa os próprios colaboradores dem oníacos, do em que Cristo m inistrou aqui na Terra.
está se opondo a si mesmo, dividindo seu Jesus não parecia diferente de qualquer ou­
reino e destruindo sua casa. tro homem judeu (Is 53:2). M aldizer Cristo
O s fariseus não perceberam que sua era uma ofensa perdoável enquanto ele es­
acusação tam bém era ilógica do próprio tava na aqui na Terra. M as quando o Espírito
ponto de vista deles. Eram exorcistas judeus de Deus veio no Pentecostes, com provan­
(ver At 19:13-16) aparentem ente bem-suce­ do que Jesus era o Cristo e estava vivo, a
didos. Com que poder e/es expulsavam de­ rejeição do testemunho do Espírito passou
mônios? Se o faziam pelo poder de Satanás, a ser terminante. Logo, a única conseqüên­
eram aliados com o diabo! É claro que ne­ cia possível era o julgamento.
nhum fariseu estava disposto a chegar a tal A o rejeitarem Jo ã o Batista, os líderes
conclusão. estavam rejeitando o Pai que o enviou. Ao
Jesus era capaz de expulsar os demônios, rejeitarem Jesus, estavam rejeitando o Filho.
pois já havia derrotado Satanás, o príncipe M as ao rejeitarem o ministério dos apósto­
dos demônios. Jesus entrou no reino de Sa­ los, estavam rejeitando o Espírito Santo - e
tanás, sobrepujou seu poder e tomou para essa era a rejeição final. O Espírito é a últi­
si os seus espólios. A vitória de Cristo deu­ ma testemunha, e tal rejeição não pode ser
se pelo Espírito de D eus ("p e lo dedo de perdoada.
D eus", Lc 11:20), não pelo poder do mal. A expressão "palavra frívola", em M ateus
Isso significa que D eus é vitorioso sobre 12:36, significa "palavra sem valor". Se Deus
Satanás e que os homens devem decidir de julgará nossas "conversas fiadas", quanto
que lado ficarão. N ão há meio-termo: ou mais, então, julgará palavras ditas delibera­
estamos com Deus ou estamos contra ele. damente? É nas palavras im pensadas que re­
A ad vertên cia (vv. 31-37). Jesus os ad­ velam os nosso verdadeiro caráter.
vertiu de que suas palavras m ostravam a É possível com eter o "pecado imperdoá­
m aldade de seu coração. O pecado contra vel" nos dias de hoje? Sim. Nos dias de hoje,
o Espírito Santo não é uma questão de pala­ esse pecado consiste na rejeição categóri­
vras, pois as palavras são apenas "frutos" de ca e definitiva de Jesus Cristo. Ele deixou
um coração pecam inoso. Se o coração está bem claro que todos os pecados podem ser
cheio de bondade, transbordará pelos lábios perdoados (M t 12:31). Adultério, assassina­
e beneficiará a outros. M as se está cheio de to, blasfêmia e outros pecados do gênero,
maldade, também transbordará pelos lábios todos podem ser perdoados. M as Deus não
e prejudicará tanto aquele que fala quanto pode perdoar aquele que rejeita seu Filho,
os que estão a seu redor. pois é o Espírito quem dá testemunho de
M as o que vem a ser essa terrível "blas­ Cristo (Jo 15:26) e quem convence o peca­
fêm ia contra o Espírito San to "? Pode ser dor perdido (Jo 16:7-11).
com etida nos dias de hoje e, em caso afir­
mativo, de que maneira? Jesus afirmou que 4. R e b e l iã o c o n t r a s u a p e s s o a
Deus perdoará o que blasfemar contra o Fi­ (M t 12:38-50)
lho, mas não contra o Espírito. Isso significa "O s judeus pedem um sinal" (1 C o 1:22).
que o Espírito Santo é mais importante do Esse pedido demonstra incredulidade: que­
que Jesus Cristo, o Filho de Deus? Claro que riam que Jesus provasse que era o Messias.
não. É com um ouvir as pessoas blasfema­ Perguntamo-nos que outras provas Jesus po­
rem do nom e de Deus e de Jesus Cristo, mas deria ter lhes dado! Se houvessem procurado
54 MATE US 1 1 - 1 2

sinceridade, teriam concluído: "Este é o Fi­ proclamou uma mensagem de graça e salva­
lho de Deus!" Mas teria sido errado Jesus ção. Quando cremos em Cristo, não apenas
lhes dar um sinal, pois estaria alimentando somos salvos do julgamento, como também
sua incredulidade e, desse modo, permitin­ recebemos vida eterna e abundante.
do que determinassem os parâmetros para Jesus também é maior do que Salomão
a fé. Qualquer milagre que Jesus operasse em sua sabedoria, riqueza e realizações. A
não seria suficiente para lhes agradar. rainha de Sabá maravilhou-se com o que
Jesus respondeu ao desafio desses líde­ viu no reino de Salomão, mas aquilo que te­
res de três maneiras. mos no reino de Deus por meio de Cristo
Fez uma recapitulação de sua história sobrepuja em muito as glórias de Salomão.
(w . 39-42). O profeta Jonas era judeu e foi Sentar-se à mesa com Cristo, ouvir suas pa­
enviado aos gentios; a rainha de Sabá era lavras e compartilhar suas bênçãos é muito
gentia e visitou Salomão, o rei de Israel (2 Cr mais gratificante do que visitar e admirar os
9:1-12). Considerando-se a amargura que reinos mais espetaculares da Terra, até mes­
havia entre judeus e gentios, essa referência mo o reino de Salomão.
aos gentios deve ter exasperado os fariseus. O objetivo principal dessa história é mos­
No entanto, não é a primeira vez neste Evan­ trar que o povo de Nínive dará testemunho
gelho que Jesus ou Mateus faz menção dos contra os líderes de Israel, pois os ninivitas
gentios. se arrependeram ao ouvir a pregação de
Jonas foi um sinal para povo de Nínive, Jonas. A rainha de Sabá também dará tes­
pois, dentro do grande peixe, passou pela temunho contra eles, pois veio de muito
"morte", sepultamento e ressurreição. O úni­ longe para ouvir a sabedoria de Salomão,
co sinal que Jesus daria à nação de Israel se­ enquanto os líderes judeus rejeitaram a sa­
ria sua morte, sepultamento e ressurreição. A bedoria de Cristo que estava vivendo entre
mensagem dos sete primeiros capítulos do eles! Quanto maior a oportunidade, maior
Livro de Atos concentra-se na ressurreição de o julgamento. E triste ver como, ao longo de
Cristo, não em sua morte na cruz. Os judeus sua história, a nação de Israel rejeitou ini­
daquele tempo acreditavam que ele tinha cialmente seus libertadores e posteriormen­
morrido, pois esse era o assunto do momen­ te os aceitou. Foi o que aconteceu com José,
to (Lc 24:18). No entanto, não acreditavam Moisés, Davi, os profetas (Mt 23:29) e com
que estava vivo (Mt 28:11-15). Em Atos 2-7, Jesus Cristo.
o Espírito Santo testemunhou profusamente Revelou seu coração (vv. 43-45). De­
à nação de Israel que Jesus estava vivo. Esse vemos associar esses versículos a Mateus
era o único sinal de que precisavam. 12:24-29. A "casa" de Satanás é o corpo do
Jesus é maior que Jonas em vários senti­ indivíduo possuído pelo demônio. A impres­
dos. Primeiro, é maior quanto a sua pessoa, são é que os demônios são irrequietos e estão
pois Jonas era apenas um homem. Também sempre à procura de um corpo para habitar
é maior em sua obediência, pois Jonas de­ (Mt 8:28-31). Quando o demônio saiu, a vida
sobedeceu a Deus e foi disciplinado. Jesus desse homem mudou para melhor, mas con­
morreu literalmente, enquanto Jonas foi "se­ tinuou vazia. Quando o demônio retornou,
pultado" figurativamente na barriga do trouxe consigo outros demônios, e a vida do
peixe. Jesus ressuscitou dentre os mortos homem terminou em tragédia.
pelo seu próprio poder. Jonas ministrou a A aplicação principal diz respeito ao
apenas uma cidade, enquanto Jesus entre­ povo de Israel, especialmente à geração do
gou sua vida pelo mundo todo. Por certo, tempo em que Jesus ministrou na Terra. A
Jesus é maior em seu amor, pois Jonas não nação havia sido expurgada do demônio da
amava o povo de Nínive; antes, desejava idolatria, o grande mal recorrente em Israel
que morressem. A mensagem de Jonas ao longo de todo o Antigo Testamento. No
salvou a cidade de Nínive do julgamento; entanto, essa reforma não foi suficiente, pois
foi um mensageiro da ira de Deus. Jesus purificou a nação, mas não a preencheu. O
MATEUS 11-12 55

povo de Israel precisava receber o Salvador capaz de compreender plenamente sua vida
e ser preenchido com vida espiritual. Em vez e seu ministério (Jo 7:1-5). Alguns de seus
disso, os judeus rejeitaram seu Messias e amigos pensavam que ele era louco (Mc
foram destruídos, 3:21), Mas Jesus não estava preocupado em
Essa passagem também tem uma aplica­ ser honrado pelos homens, Em momento al­
ção pessoal, Não basta limpar a casa; tam­ gum desrespeitou sua família humana, mas
bém devemos convidar o inquilino certo para sempre enfatizou a família de Deus,
ocupá-la, Os fariseus orgulhavam-se de sua É importante observar a maneira de Je­
"casa limpa", mas seu coração permanecia sus usar a palavra "qualquer" (Mt 12:50),
vazio! Ninguém é salvo pela religião ou por Trata-se de um paralelo com o convite mara­
reformas em sua vida, É preciso haver rege­ vilhoso em Mateus 11:28-30, em que Jesus
neração e receber Cristo no coração (ver encoraja todos a crerem nele, Se a nação
Ap 3:20), Em se tratando de Jesus Cristo, nin­ não estava disposta a recebêlo, pelo menos
guém pode ser neutro. alguns de seus indivíduos - e até mesmo
Rejeitou m hom (n 46-50), Nem alguns gentios ■poderiam crer nele. Mas o
mesmo a famlia de Jesus aqui na Terra foi que seria feito do reino prometido?
céus" é uma mistura de verdadeiro e falso,
10 de bondade e maldade, assim como repre­
sentado nessas parábolas. É uma "cristanda-
de" que se diz fiel ao Rei, mas, ao mesmo
O s S eg red o s do R ei tempo, é repleta de elementos contrários aos
princípios do Rei.
M a t e u s 13 Por que Jesus ensinou por parábolas? O
texto bíblico apresenta dois motivos: a pre­
guiça das pessoas (Mt 13:10-17) e a profe­
cia do Salmo 78:2 (Mt 13:34, 35). Jesus não
pregou em parábolas para confundir nem
para condenar as pessoas. Pelo contrário,
ste capítulo relata os acontecimentos procurou despertar seu interesse e estimular
E ocorridos num dia de crise no ministério
de Jesus Cristo. Jesus sabia que a oposição
sua curiosidade. Essas parábolas serviriam
de esclarecimento para os que cressem e
crescente dos líderes religiosos acabaria re­ estivessem buscando a verdade de coração.
sultando em sua crucificação. Era necessá­ Mas trariam escuridão para os desinteressa­
rio explicar isso aos discípulos e responder dos e impenitentes.
à pergunta lógica que certamente levan­ As sete parábolas descrevem o avanço
tariam: Ό que será feito do reino sobre o espiritual do "reino do céu" nesta era. Ne­
qual temos pregado?" A resposta encontra- las, vemos três estágios do desenvolvimen­
se nesta série de parábolas. Assim, primei­ to espiritual.
ro Jesus explica a verdade com respeito ao
reino, depois explica fatos referentes a sua 1 . O COMEÇO DO REINO
crucificação. (Mt 13:1-9,18-23)
Os discípulos ficaram confusos, pois o A parábola do semeador não começa com
Mestre lhes falou em parábolas. Jesus já ha­ "o reino dos céus é semelhante...", pois des­
via usado algumas parábolas em seus ensi­ creve como o reino começa: com a prega­
namentos, mas naquele dia ele apresentou ção da Palavra, o plantio de uma semente
uma série de sete parábolas inter-relaciona- no coração das pessoas. A expressão: "vou
das e encerrou com uma oitava ilustração. semear essa idéia" ilustra o que esta pará­
O termo parábola significa "colocar ao lado". bola quer dizer. A semente é a Palavra de
Trata-se de uma história ou comparação co­ Deus; os vários tipos de solo representam
locada lado a lado com algum outro concei­ os diferentes tipos de coração; e os resulta­
to, a fím de esclarecer uma lição. O que dos diversos refletem respostas diferentes à
vemos aqui, porém, não são parábolas co­ Palavra de Deus. Jesus explicou esta pará­
muns; Jesus as chama de "mistérios do reino bola para que não houvesse qualquer dúvi­
dos céus" (Mt 13:11). No Novo Testamen­ da quanto a seu significado.
to, um "mistério" é uma verdade espiritual Por que comparar a Palavra de Deus a
entendida apenas por meio da revelação sementes? Porque a Palavra é "viva e eficaz"
divina. É um "segredo santo" conhecido (Hb 4:12). Ao contrário das palavras dos
apenas pelos "mais íntimos", que aprendem homens, a Palavra de Deus tem vida que
do Senhor e lhe obedecem. pode ser concedida àqueles que crêem. A
Nesta série de parábolas, Jesus explica o verdade de Deus deve se arraigar no cora­
avanço do evangelho pelo mundo afora. Se ção, ser cultivada e estimulada a produzir
Israel o tivesse recebido como um Rei, as frutos. Uma realidade surpreendente é que
bênçãos teriam fluído de Jerusalém para os três quartos das sementes não produzem
confins da Terra. Mas a nação o rejeitou, e frutos. Jesus não descreveu uma era de gran­
Deus teve de colocar outro plano em ação. des colheitas, mas sim um tempo em que
Na era em que vivemos hoje, "o reino dos a Palavra seria rejeitada. O Mestre não se
M A T E U S 13 57

deixou im pressionar pelas "grandes multi­ coração humano, mas o mundo. Cristo está
dões" que o seguiam, pois sabia que a maio­ semeando cristãos verdadeiros por toda a par­
ria das pessoas não receberia a Palavra no te, a fim de que dêem frutos (Jo 12:23-26).
coração e não produziria frutos. Mas, onde quer que Cristo semeie um cris­
O fruto é a prova da verdadeira salvação tão verdadeiro, Satanás semeia um impostor.
(M t 7:16) e inclui santidade (Rm 6:22), cará­ Devem os ter cuidado com as falsifica­
ter cristão (G l 5:22, 23), prática de boas obras ções de Satanás; ele possui cristãos falsos
(Cl 1:10), testemunho cristão (Rm 1:13), dis­ (2 Co 11:26) que acreditam num evangelho
posição de com partilhar os bens (Rm 15:25­ falso (G l 1:6-9). Estimula uma falsa justificação
28) e louvor a Deus (H b 13:15). A fim de (Rm 10:1-3) e tem até mesmo uma igreja
produzir frutos, uma planta deve estar arrai­ falsa (Ap 2:9). N o final dos tempos, chegará
gada no solo e exposta à luz do Sol. ao cúmulo de produzir um falso Cristo (2 Ts
Nesta parábola, o sol representa a perse­ 2 : 1- 12 ).
guição decorrente da pregação da Palavra. Também devem os perm anecer alertas
A perseguição ajuda os cristãos a crescer, mas para que os ministros de Satanás não se
a luz do Sol faz secar a planta que não tem infiltrem e causem estragos na congregação
raízes. Isso explica por que alguns "cristãos" dos cristãos verdadeiros (2 Pe 2; 1 Jo 4:1-6).
não perseveram: sua fé é fraca, seu entendi­ Q uando o povo de Deus cochila, Satanás
mento é insuficiente e sua decisão não foi põe-se a trabalhar. Nossa tarefa não é arran­
sincera. N ão é possível "crer" e não ser sal­ car os falsos, mas sim plantar os verdadeiros
vo (Jo 2:23-25). Se não há frutos na vida, (um princípio que não se refere à disciplina
não há fé salvadora no coração. dentro da igreja local). N ão somos detetives,
O verbo ouvir (e seus correlates) é usa­ mas sim, evangelistas! Devem os nos opor a
do 19 vezes em M ateus 13. A parábola do Satanás e expor suas mentiras, mas também
sem eador é relatada nos três primeiros Evan­ devemos semear a Palavra e produzir frutos
gelhos, e em cada um a adm oestação final onde Deus nos plantou.
é diferente. É importante ouvir a Palavra de O que será feito das espigas de jo io?
Deus, pois "a fé vem pela pregação, e a pre­ Deus as ajuntará e as lançará no fogo. É inte­
gação, pela palavra de Cristo" (Rm 10:17). ressante observar que alguns desses "feixes"
Jesus disse: "Q u em tem ouvidos [para ou­ já estão sendo juntados, enquanto vários
vir], ouça" (M t 13:9), "Atentai no que ouvis" grupos religiosos se unem e se esforçam para
(M c 4:24) e "V ede, pois, com o ouvis" (Lc trabalhar em conjunto. U nidade espiritual
8:18). entre cristãos verdadeiros é uma coisa, mas
uniformidade religiosa entre os que simples­
2. O p o s iç ã o a o r e in o mente se dizem cristãos é outra bem dife­
(M t 13:24-43) rente. H oje em dia, não é fácil distinguir os
Satanás opõe-se ao reino tentando tirar a verdadeiros dos falsos, mas no fim dos tem­
Palavra do coração (M t 13:4, 19). Quando pos, os anjos os separarão.
isso falha, o inimigo tem outros meios de A parábola do grão de mostarda - cres­
atacar a obra de Deus. Essas três parábolas cimento falso (vv. 31, 32). N o O riente, a
revelam que Satanás não passa de um im ita­ semente de mostarda simboliza algo peque­
dor: planta falsos cristãos, encoraja um falso no e insignificante. Produz uma planta gran­
crescim ento e introduz falsas doutrinas. de, mas não uma "árvo re", no verdadeiro
A parábola do joio - cristãos falsos (w. sentido da palavra. Ainda assim, a planta é
24-30, 36-43). Um a vez que não consegue grande o bastante para que os pássaros pou­
desarraigar os verdadeiros cristãos, Satanás sem em seus galhos.
planta impostores no meio deles. Nesta pará­ Um a vez que Jesus não explicou essa
bola, a boa semente não representa a Palavra parábola, devemos usar as explicações que
de Deus, mas sim pessoas que se conver- o M estre deu para outras parábolas a fim de
58 M A T E U S 13

parábola do semeador representavam Sata­ falso no ministério da Palavra de Deus. Des­


nás (M t 13:19). Passagens como Daniel 4:12 de os primórdios da Igreja, os cristãos verda­
e Ezequiel 17:23 indicam que a árvore é um deiros vêm combatendo as falsas doutrinas
símbolo de poder no mundo. Esses fatos e a hipocrisia. Como é triste ver algumas igre­
sugerem que a parábola ensina um cresci­ jas e escolas, outrora fiéis à Palavra, se des­
mento anormal do reino dos céus, uma viarem da verdade! "Julgai todas as coisas,
expansão que Satanás poderá usar em seu retende o que é bom" (1 Ts 5:21).
favor. Sem dúvida, a "cristandade" tornou- O reino dos céus começa com a semea-
se uma potência mundial com uma organi­ dura da Palavra de Deus no coração dos
zação complexa e ramificada. Um grupo que homens. A maioria dessas sementes não
começou de forma humilde, hoje é uma ins­ produz frutos, mas algumas se desenvolvem
tituição de grande patrimônio e influência e frutificam. Satanás faz frente ao trabalho
política. de Deus semeando cristãos falsos, estimu­
Para alguns, esta parábola refere-se ao lando um crescimento falso e introduzindo
sucesso mundial do evangelho. Tal idéia, po­ uma falsa doutrina. Podemos ter a impres­
rém, constitui uma contradição daquilo que são de que Satanás está vencendo, mas no
Jesus ensinou na primeira parábola. Na rea­ fim dos tempos tudo será testado.
lidade, o Novo Testamento ensina que, ao
nos aproximarmos do fim dos tempos, a pro­ 3. O RESULTADO D O REINO
clamação do evangelho entrará em declínio. ( M t 13:44-50)
A parábola do fermento - doutrinas fal­ Ao final desta era, Deus terá três povos: os
sas (v. 33). A semente de mostarda ilustra a judeus (o tesouro escondido), a Igreja (a pé­
falsa expansão exterior do reino, enquanto rola) e as nações gentias salvas, que entra­
o fermento ilustra o desenvolvimento interior rão no reino dos céus (a rede).
das doutrinas falsas e da vida de hipocrisia. A parábola do tesouro escondido (v.
Ao longo de toda a Bíblia, o fermento é usa­ 44). De acordo com a interpretação mais
do para simbolizar o mal e deveria ser remo­ comum desta parábola, o pecador encontra
vido das casas de Israel durante a Páscoa a Cristo e abre mão de tudo o que possui
(Êx 12:15-19; 13:7). Não fazia parte dos sa­ para ficar com o Senhor e ser salvo. No en­
crifícios (Êx 34:25), sendo usado apenas nos tanto, essa interpretação apresenta vários
pães da Festa de Pentecostes (Lv 23:15-21), problemas. Em primeiro lugar, Jesus Cristo
que simbolizava os judeus e gentios da Igre­ não é um tesouro escondido. Antes, é pro­
ja, na qual também está presente o pecado. vavelmente a pessoa mais conhecida da his­
Jesus usou o fermento para representar tória. Em segundo lugar, o pecador não pode
a hipocrisia (Lc 12:1), os falsos ensinamentos "encontrar a Cristo", pois é cégo e obstina­
(M t 16:6-12) e a condescendência com as do (Rm 3:1 Oss). É o Salvador que encontra
coisas do mundo (M t 22:16-21). Paulo usou o pecador (Lc 19:10), e nenhum pecador
o fermento para falar da carnalidade dentro poderia comprar a salvação! É importante
da igreja (1 Co 5:6-8) e também das falsas observar que o homem da parábola não
doutrinas (Gl 5:9). O pecado é como o fer­ comprou o tesouro, mas comprou o campo
mento: cresce sem que ninguém veja, cor­ todo. "O campo é o mundo" (M t 13:38). O
rompe e então "incha" (1 Co 4:18, 19; 5:2; pecador precisa comprar o mundo inteiro
8:1). A meu ver, usar o crescimento promo­ para ganhar a Cristo? E depois disso, ele o
vido pelo fermento para representar a ex­ esconde novamente?
pansão do evangelho ao redor do mundo Mais uma vez, podemos nos valer do
vai contra o significado intrínseco desse sím­ simbolismo do Antigo Testamento para nos
bolo tão importante e também provoca uma ajudar em nossa interpretação. O tesouro é
contradição com outras parábolas. a nação de Israel (Êx 19:5; SI 135:4), que
Satanás tem trabalhado intensivamente foi posta no mundo para glorificar a Deus;
para introduzir doutrinas e um modo de vida mas falhou em sua missão e se tornou uma
M A T E U S 13 59

nação escondida, um tesouro não investido Assim, apesar da operação ardilosa de


a fim de produzir dividendos para Deus. Satanás neste m undo, Cristo continua for­
Jesus Cristo deu tudo o que possuía para m ando sua Igreja. O Salvad or abriu mão
com prar o mundo todo e salvar a nação (Jo de tudo o que possuía para adquirir sua
11:51). Na cruz, Jesus morreu pelo mundo Igreja, e nada do que Satanás tente fazer
em geral, mas também se entregou de modo poderá derrotá-lo. Apesar de haver várias
especial por Israel (Is 53:8). A nação foi igrejas locais, há apenas uma Igreja, uma
julgada e, aparentem ente, destruída, mas, pérola de grande valor. Nem todos os que
aos olhos de Deus, está "escondida" e será são m em bros de uma igreja local perten­
revelada novam ente em glória. cem ao corpo de Cristo. Som ente pelo arre­
Existe, portanto, um futuro para Israel. Em pendimento e pela fé em Cristo tornamo-nos
termos políticos, a nação renasceu em 14 de parte dessa Igreja. Por certo, todos os ver­
maio de 1948, mas ainda está longe, muito dadeiros cristãos devem identificar-se com
longe, do que deveria ser em termos espiri­ uma congregação local onde possam ado­
tuais. Deus vê Israel com o seu tesouro e, um rar e servir.
dia, irá estabelecê-la no seu reino glorioso. A p aráb o la da red e (w . 47-50). A prega­
A p aráb o la da p éro la (vv. 45, 46). Um a ção do evangelho no m undo não converte
canção evangélica bastante conhecida refor­ o m undo. Antes, é com o uma enorm e rede
ça a idéia de que essa pérola é Jesus Cristo que pega peixes de todo tipo, alguns bons
e sua salvação. N o entanto, as mesmas obje- e outros maus. A Igreja professa dos dias
ções anteriores aplicam-se a esta parábola. de hoje é constituída tanto de verdadeiros
O pecador não encontra Cristo; é o Salva­ quanto de falsos cristãos (a parábola do
dor quem o encontra. Ainda que venda tudo joio), de bons com o de maus elem entos.
o que possui, nenhum pecador é capaz de N o fim dos tempos, Deus separará os cris­
com prar sua salvação. tãos autênticos dos falsos e os bons dos maus.
A pérola representa a Igreja. A Bíblia faz Q uando Jesus Cristo voltar à Terra para lutar
uma distinção entre judeus, gentios e a Igreja na batalha do Armagedom (Ap 19:11 ss), se­
(1 Co 10:32). Hoje, a Igreja - o corpo de Cris­ parará os cristãos dos incrédulos aqui na
to - é constituída de cristãos judeus e gen­ Terra. Trata-se de pessoas vivas que não fa­
tios (Ef 2:1 Iss). Ao contrário de outras pe­ zem parte da Igreja (a essa altura dos acon­
dras preciosas, a pérola é uma unidade - tecim entos, já levadas para o céu) nem de
não pode ser lapidada com o um diamante Israel. Esses gentios serão tratados com jus­
ou uma esmeralda. M esm o estando dividi­ tiça: os salvos entrarão no reino, porém os
da aqui na Terra com o instituição, a Igreja é não salvos serão lançados na fornalha de
uma unidade (Ef 4:4-6). Assim com o a péro­ fogo. Podem os encontrar essa mesma idéia
la, a Igreja é produto de sofrimento. Cristo na parábola dos "cabritos e ovelhas" (M t
morreu pela Igreja (Ef 5:25), e foi seu sofri­ 25:31 ss).
mento na cruz que possibilitou o nascimen­ Em duas ocasiões nesta série de parábo­
to dela. las, Jesus usa a expressão "consum ação do
D a mesma form a que a pérola, a Igreja século" (M t 13:39, 49). N ão está se referindo
cresce gradualmente, à medida que o Espíri­ ao final desta "era da Igreja", pois a verdade
to convence e converte os pecadores. O pro­ acerca da Igreja só foi com partilhada com
cesso de form ação da pérola não é visível, os discípulos posteriormente (M t 16:18). A
pois ocorre dentro da concha da ostra, no "e ra " em questão é o tem po dos judeus,
fundo do mar. O crescim ento da Igreja de perto da grande tribulação descrita em M a­
Cristo no mundo também não é visível. Hoje, teus 24:1-31 e em Apocalipse 6 a 19. Deve­
a Igreja está no m eio das nações (na Bíblia, mos ter cuidado para não encontrar nessas
as águas representam as nações; Dn 7:1-3; passagens de M ateus certas verdades que
Ap 13:1; 17:15) e, um dia, será revelada em só foram dadas mais adiante, por m eio do
60 M A T E U S 13

Quando Jesus completou essa série de escriba deve ser um discípulo, e todo discí­
parábolas, perguntou a seus discípulos se pulo deve ser um escriba.
haviam entendido. Ao que eles responderam: Despenseiros que adm inistram a ver­
"sim", com toda convicção. O entendimen­ dade. Os escribas preservavam a lei, mas
to implica responsabilidade, e para ilustrar não a investiam na vida das pessoas. O te­
esse fato e lembrá-los disso, Jesus contou souro da lei havia sido encoberto pelas tra­
uma última parábola (M t 13:51, 52). dições humanas. A semente não havia sido
Escribas que descobrem a verdade. Os plantada de modo a produzir frutos; não
escribas começaram, sob a liderança de haviam sido investidos "ouro e prata espiri­
Esdras, como um grupo repleto de ideais tuais", a fim de gerarem dividendos. Como
elevados. O grande objetivo dos escribas cristãos, devemos ser conservadores, mas
era preservar a lei, estudá-la e aplicar suas não inflexíveis.
verdades à vida diária. Com o passar do O despenseiro guarda o tesouro, mas
tempo, sua causa tão nobre se degenerou também o emprega conforme a necessida­
e se transformou numa série de tarefas roti­ de. Lança mão de coisas novas e velhas.
neiras visando preservar apenas as tradições Novos princípios e insights têm como base
e interpretações humanas, acrescentando, verdades mais antigas. O novo não pode
com isso, mais fardos à vida das pessoas contradizer o velho, pois provém dele (Lv
(Lc 11:46-52). Estavam tão envolvidos com 26:10). Sem o velho, o novo é apenas uma
o passado que ignoravam o presente! Em inovação temporária, e o velho não produz
vez de compartilhar a verdade viva da Pala­ nada de bom, a menos que seja usado para
vra de Deus, promoviam doutrinas mortas novas aplicações na vida hoje. Precisamos
e tradições "fossilizadas" incapazes de aju­ de ambos.
dar o povo. Quando Jesus terminou essas parábolas,
Como cristãos, não procuramos a ver­ atravessou o mar numa tempestade e liber­
dade, pois já a temos no Filho de Deus (Jo tou os endemoninhados gadarenos, fatos
14:6) e na Palavra de Deus (Jo 17:17). So­ que se encontram registrados em Mateus
mos ensinados pelo Espírito da Verdade (Jo 8:28-34. Foi depois disso que Jesus se diri­
16:13) e que é a verdade (1 Jo 5:6). Assim, giu a Nazaré, conforme vemos no relato de
examinamos a verdade a fim de descobrir Mateus 13:53-58.
dentro dela mais outras verdades. Somos O povo de Nazaré maravilhou-se com
escribas - estudiosos - que se assentam aos duas coisas: as palavras do Senhor e suas
pés de Jesus para ouvir suas palavras. Uma obras. No entanto, os nazarenos não cre-
das alegrias da vida cristã é o privilégio de ram no Messias e, desse modo, limitaram
aprender as verdades de Deus por meio da seu ministério. O que levou essas pesspas a
Palavra de Deus. Mas não devemos nos ater duvidar dele? Talvez o fato de estarem fami­
apenas a esse aprendizado. liarizadas demais com Jesus, humanamente
Discípulos que aplicam a verdade. Uma falando, uma vez que o Senhor havia cresci­
tradução mais exata para Mateus 13:52 seria: do no meio delas. Os nazarenos conheciam
"Por isso, todo escriba que se torna discípulo Jesus apenas na carne (ver 2 Co 5:16), mas
no reino dos céus". O escriba enfatiza o não possuíam o discernimento espiritual que
aprendizado, enquanto o discípulo enfatiza Deus concede àqueles que se entregam a
a vivência. Discípulos são praticantes da Pa­ ele (M t 11:25-30). Em vez de andarem pela
lavra (Tg 1:22ss); seu aprendizado dá-se pela fé, viviam pelas aparências.
prática. Mas, se a própria família e os amigos de
É difícil levar uma vida equilibrada. Mui­ Jesus não creram nele, que esperança have­
tas vezes, enfoca-se o aprendizado à custa ria de que a nação cresse nele? Em ocasião
da vivência. Ou, talvez, as pessoas ficam tão anterior de seu ministério, Jesus havia pre­
ocupadas servindo ao Senhor que não se­ gado em Nazaré (Lc 4:16-31) e havia sido
param tempo para ouvir sua Palavra. Todo rejeitado. Nesta passagem, vemos o Senhor
1. Seus in im ig o s: c a u t e la (M t 14:1 -13)
11 A família de Herodes aparece com freqüên­
cia nos quatro Evangelhos e no Livro de Atos,
sendo fácil confundir os vários governantes.
O A fastamento do R ei Herodes, o Grande fundou a dinastia e
governou de 37 a.C. até 4 a.C. Não era ju­
M a t e u s 14 deu, mas sim, edomita, um descendente de
Esaú. "Dedicava-se a práticas pagãs e pos­
suía o caráter de um monstro" (U nger's
Bible Dictionary). Teve nove esposas (alguns
acreditam que foram dez) e não hesitou em
assassinar os próprios filhos e esposas quan­
hamei os capítulos 14 a 20 de "O do estes se colocaram em seu caminho. Foi
C afastamento do Rei". Durante o perío­
do registrado por Mateus nestes capítulos,
ele quem mandou assassinar as crianças em
Belém (Mt 2:13-18).
Jesus afastou-se das multidões com freqüên­ Herodes Antipas é o Herodes deste capí­
cia e passou mais tempo sozinho com seus tulo e filho de Herodes, o Grande. Recebeu
discípulos (ver Mt 14:13; 15:21, 29; 16:13; o título de "tetrarca", que significa "gover­
17:1-8). nante sobre uma quarta parte do reino".
Havia diversos motivos para ele se re­ Governou de 4 a.C. a 39 d.C., um governo
tirar: a hostilidade crescente de seus inimi­ marcado pelo egoísmo e a dissimulação.
gos, a necessidade de descanso físico e a Amava a vida de luxo e tinha ambições de
necessidade de preparar seus discípulos se tornar um grande governante.
para a futura morte do seu Mestre na cruz. Herodes Agripa foi o Herodes que man­
infelizmente, em várias ocasiões, os discí­ dou prender Pedro e matar Tiago (At 12).
pulos deixaram-se levar pelo entusiasmo das Era neto de Herodes, o Grande.
multidões que desejavam proclamar Jesus Herodes Agripa II foi o Herodes que jul­
seu Rei (ver Jo 6:15). gou Paulo (At 25:13ss). Era filho de Agripa I.
Contudo, não devemos imaginar que Todos os Herodes tinham sangue edo­
esses retiros, ou fases de afastamento das mita e eram descendentes de Esaú; todos
multidões, fossem períodos de inatividade. trataram os judeus com extrema hostilidade
Muitas vezes, as multidões seguiram Jesus, (Gn 25:19ss). Praticavam a religião judaica
e ele não conseguiu ficar sozinho. Apesar quando lhes era conveniente e quando con­
de sua necessidade pessoal de descanso tribuía para seus planos de obter mais po­
e de solitude, ministrava ao povo com o der e riquezas.
mais absoluto desprendimento. Em Mateus Herodes Antipas era culpado de inces­
14 a 20, podemos ver três grupos de pes­ to, pois se casou com Herodias, esposa de
soas: os inimigos de Cristo, as multidões seu meio-irmão Filipe I, divorciou-se da es­
necessitadas e os discípulos. Λ medida que posa e a mandou de volta para o pai, o rei
a história caminha para seu clímax, temos de Petra (Lv 18:16; 20:21). Herodes deu
a falsa impressão de que os inimigos saí­ ouvidos à voz da tentação e se entregou
ram vitoriosos. ao pecado.
No capítulo de encerramento, Mateus Mas Deus enviou outras vozes para
descreve a ascensão do Rei e a comissão advertir Herodes.
de seus discípulos, pela qual são enviados A voz do profeta (vv. 3-5). Com toda
a todo o mundo para compartilhar as boas- ousadia, João Batista advertiu Herodes e
novas com as multidões! pediu que se arrependesse. João sabia que
Neste capítulo, encontramos os mesmos o pecado do governante só serviria para
três grupos e a resposta de Cristo a cada corromper a terra e incentivar o pecado de
um deles. outros, e que Deus julgaria os pecadores
M A T E U S 14 63

(M l 3:5). É louvável a coragem de João ao A voz da h istória. Herodes deveria ter


expor o pecado e condená-lo. Israel era a imaginado que não perm aneceria impune.
nação da aliança de Deus, e os pecados dos D e aco rd o com os registros histó rico s,
governantes (ainda que fossem incrédulos) Herodes perdeu seu prestígio e poder. Seus
trariam sobre o povo a disciplina de Deus. exércitos foram derrotados pelos árabes, e
Em lugar de ouvir o servo de Deus e de seus pedidos (sob pressão da esposa) para
obedecer à Palavra de Deus, Herodes man­ ser coroado rei foram negados pelo impe­
dou prender João na fortaleza de M aquero, rador Caligula. H erodes foi banido para a
localizada cerca de sete quilômetros a leste G ália (França) e depois para a Espanha, onde
do mar M o rto e cerca de um quilôm etro morreu.
acim a do nível do mar, no alto de um preci­ H erodes é lem brado com o um gover­
pício acessível apenas por um lado. nante fraco, que se preocupava apenas com
Herodias, a esposa de Herodes, ofendeu- seu prazer e posição. Em vez de servir ao
se com a adm oestação de João (ver M c 6:19) povo, buscou somente os próprios interes­
e influenciou o marido. Elaborou um plano ses. Seu único "feito m em orável" foi man­
no qual sua filha adolescente faria uma dan­ dar executar o maior profeta já enviado para
ça sensual para Herodes durante sua festa proclam ar a Palavra de Deus.
de aniversário. Herodias sabia que seu mari­ Qual foi a reação de Jesus à notícia do
do sucumbiria aos encantos da m oça e lhe assassinato de João? Cautela. Retirou-se dis­
faria alguma promessa impulsiva. Também cretamente para um "lugar deserto". Vivia de
sabia que Herodes manteria sua palavra para acordo com o "cronogram a divino" (ver Jo
não m anchar a reputação diante de seus 2:4; 7:6, 30; 8:20; 12:23, 27; 13:1; 17:1) e
amigos e oficiais. O plano funcionou, e João não desejava p ro vo car d elib erad am en te
foi executado. nenhum incidente com Herodes. Um a vez
A voz da co n sciên cia (vv. 1, 2 ). Q uan­ que havia agentes de Herodes por toda parte,
do Herodes ficou sabendo dos prodígios que Jesus teve de usar de sabedoria e prudência.
Jesus estava operando, teve certeza de que Sem dúvida, Jesus entristeceu-se pro­
era João que havia ressuscitado dos mortos. fundamente quando soube da morte de João
Sua consciência o incom odava de tal modo Batista. O s líderes judeus perm itiram que
que nem sua esposa, nem seus am igos Jo ão fosse executado, pois não fizeram coi­
conseguiam consolá-lo. A voz da consciên­ sa alguma para ajudá-lo. Esses mesmos lí­
cia é poderosa e pode ser a voz de Deus deres pediriam que Jesus fosse morto! Jesus
para os que lhe derem ouvidos. não permitiria que os líderes judeus se es­
Em vez de atentar para sua consciência, quecessem do testem unho de Jo ã o (M t
H erodes resolveu matar Jesus, da mesma 21:23ss). Pelo fato de terem rejeitado o tes­
form a que havia feito com Jo ã o . Alguns tem unho de João, tam bém rejeitaram seu
fariseus (p ro vavelm en te participantes da próprio Messias e Rei.
c o n s p ira ç ã o ) a d v e rtira m Je su s de que
Herodes pretendia matá-lo (Lc 13:31, 32), 2. As m u l t i d õ e s : c o m p a ix ã o
mas Jesus não se perturbou com o aviso. (M t 14:14-21)
N o original, o term o traduzido por "raposa", Jesus e seus discípulos necessitavam enca-
em Lucas 13:32, é usado especificam ente recidam ente de descanso (M c 6:31), mas,
para a fêmea. Estaria Jesus se referindo a H e­ ainda assim, o coração do Senhor encheu-
rodias, o verdadeiro poder por trás do trono? se de com paixão pelas multidões. A palavra
A voz de Jesu s (L c 23:6-11). Q uando fi­ traduzida por "com padeceu-se" significa,
nalmente Jesus e Herodes se encontram, o literalm ente, "condoeu-se por dentro" e é
Filho de Deus perm aneceu calado! Herodes muito mais forte do que apenas solidarie­
havia silenciado a voz de Deus! "H o je, se dade. Trata-se de um termo usado seis vezes
ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso nos Evangelhos; em cinco dessas ocasiões,
64 MATEUS 14

Jesus "compadeceu-se" quando viu a cinco pães e dois peixes) e do pouco di­
necessidade das multidões (Mt 9:36). Eram nheiro que tinham em mãos. Quando con­
como ovelhas tosquiadas sem qualquer cui­ sideraram a hora (já estava escurecendo) e
dado: estavam exaustas, feridas e andando o lugar (desolado), chegaram à conclusão
sem rumo. Em duas ocasiões, o Senhor com­ de que não poderiam fazer coisa alguma
padeceu-se ao ver multidões famintas (Mt para resolver o problema. Seu conselho para
14:14; 15:32). Os dois homens cegos (Mt o Senhor: "Mande todos embora".
20:34) e o leproso (Mc 1:41) também des­ Nada diferente da atitude de muitos do
pertaram a compaixão de Jesus; ele também povo de Deus hoje. Por algum motivo, para
se apiedou do sofrimento da viúva em Naim esses, nunca é a hora nem o lugar apropria­
(Lc 7:13). do para Deus agir. Jesus ficou observando
Jesus empregou esse termo em três de enquanto seus discípulos, frustrados, ten­
suas parábolas. O rei teve compaixão de seu tavam resolver o problema, mas "ele bem
servo falido e perdoou suas dívidas, portan­ sabia o que estava para fazer" (Jo 6:6). De­
to, devemos perdoar uns aos outros (Mt sejava que aprendessem uma lição de fé e
18:21-35). O samaritano teve compaixão do de entrega. Com base nesse milagre, é pos­
judeu à beira da estrada e cuidou dele com sível definir alguns princípios para solucio­
amor (Lc 10:25-37). O pai teve compaixão nar problemas.
do filho desobediente e correu para saudá- Começar com o que temos. André en­
lo quando voltou (Lc 15:20). Uma vez que controu um rapaz disposto a dividir seu lan­
nosso Pai celeste tem tamanha compaixão che e o levou até Jesus. Deus parte de onde
para conosco, acaso não devemos também estamos e usa o que temos no momento.
nos compadecer dos outros? Entregar tudo o que temos ao Senhor.
A provisão de alimentos para as cinco Jesus pegou o lanche, o abençoou e repar­
mil pessoas encontra-se registrada nos qua­ tiu. O milagre da multiplicação deu-se em
tro Evangelhos (Mt 14:13-21; Mc 6:35-44; suas mãos! "Se Deus está presente, o pou­
Lc 9:12-17; Jo 6:4-13) e foi, sem dúvida al­ co transforma-se em muito." Jesus partiu o
guma, um feito miraculoso. Os que ensinam pão e deu os pedaços para os discípulos,
que Jesus apenas incentivou o povo a comer que, por sua vez, alimentaram a multidão.
e a compartilhar os alimentos que haviam Obedecer às ordens de Jesus. Os discí­
escondido desconsideram a declaração pulos pediram que a multidão se assentasse,
inequívoca da Palavra de Deus. João 6:14 conforme Jesus havia ordenado. Em seguida,
afirma, categoricamente, que esse acon­ pegaram os pedaços de pão, distribuíram ao
tecimento foi um "sinal" ou "milagre". Que povo e descobriram que havia o suficiente
motivo a multidão teria para desejar pro­ para todos. Como servos de Cristo, somos
clamar Jesus seu Rei se ele apenas tivesse "distribuidores", não "produtores". Se lhe en­
usado de algum artifício para levá-los a com­ tregarmos o que temos, ele abençoará e nos
partilhar os alimentos que alguns estavam dará de volta, a fim de usarmos para ajudar
escondendo? (Jo 6:14, 15). Provavelmente a outros.
nenhum! Conservar os resultados. Depois de o
Não é preciso muita imaginação para povo ter comido e se fartado, ainda havia
visualizar a situação embaraçosa dos discí­ doze cestos cheios de pedaços de pão e
pulos. Diante deles, uma multidão de mais peixe. Os restos foram recolhidos, e nada
de cinco mil pessoas famintas sem coisa al­ foi desperdiçado (M c 6:43; Jo 6:12). Fico
guma para comer! Por certo, os discípulos imaginando os pedaços de pão que o rapaz
sabiam que Jesus era poderoso o suficiente levou para casa consigo e o espanto da mãe
para suprir as necessidades de todos, mas, quando o garoto lhe contou a história!
ainda assim, não buscaram sua ajuda. Em O apóstolo João registra o sermão sobre
vez disso, fizeram um levantamento da o "pão da vida" que Jesus pregou no dia
comida disponível (um jovem havia trazido seguinte na sinagoga em Cafarnaum (Jo
M A T E U S 14 65

6:22ss). O povo estava disposto a receber o estava prestes a vir, por que os mandou de­
pão físico, mas não queria saber do Pão vivo liberadamente para o meio dela? Porque os
- o Filho de Deus que veio dos céus. O mi­ discípulos estariam mais seguros no meio
lagre da multiplicação dos pães foi, na ver­ da tempestade e dentro da vontade de Deus
dade, um sermão prático. Jesus é o pão da do que em terra com as multidões e fora
vida, e somente ele pode saciar a fome espi­ da vontade divina. Não devemos jamais jul­
ritual do coração humano. Infelizmente, po­ gar nossa segurança apenas com base nas
rém, desde aquele tempo até os dias de hoje, circunstâncias.
o ser humano continua desperdiçando seu A o ler a Bíblia, descobrimos que há dois
tempo e dinheiro "naquilo que não é pão" tipos de tempestades: as que vêm para a
(Is 55:1-7). correção, quando Deus nos disciplina, e as
Jesus ainda se com padece das multidões que vêm para o aperfeiçoam ento, quando
famintas e continua a dizer a sua Igreja: "dai- Deus nos ajuda a crescer. Jonas enfrentou
lhes de com er". Com o é fácil mandar as uma tempestade porque havia desobedeci­
pessoas necessitadas em bora. Inventamos do a Deus e, portanto, deveria ser corrigido.
desculpas e alegamos falta de recursos. Je­ O s discípulos enfrentaram uma tempestade
sus pede para dar a ele tudo o que temos e porque haviam obedecido a Cristo e pre­
deixá-lo usar com o lhe aprouver. O mundo cisavam ser aperfeiçoados. Jesus os havia
fam into alimenta-se de substitutos vazios, testado numa tem pestade anteriorm ente,
enquanto o privamos do verdadeiro Pão da quando estava no barco com eles (M t 8:23­
vida. Q uando entregamos a Cristo tudo o 27). M as agora ele os testou perm anecendo
que temos, nunca saímos perdendo. Sem ­ fora do barco.
pre acabamos recebendo mais bênçãos do Muitos cristãos têm a idéia equivocada
que tínhamos antes. de que, ao obedecer à vontade de Deus, só
navegarão por águas tranqüilas. Jesus prome­
3. O s d is c íp u l o s : c u id a d o s e teu: "N o mundo tereis aflições" (Jo 16:33).
preo cu paçõ es (M t 14:22-36) Q uando nos encontramos numa tempesta­
João explica a pressa de Jesus em despedir de por causa de nossa obediência ao Se­
a multidão e em mandar seus discípulos de nhor, devemos lembrar que ele nos trouxe
volta para o barco: a multidão desejava co­ até aqui e cuidará de nós.
roar Jesus com o seu Rei (Jo 6:14, 15). O Se­ *E le está orando p o r n ó s ." Essa cena
nhor sabia que os motivos deles não eram retrata, de maneira muito vivida, a Igreja e o
espirituais e que essas intenções não esta­ Senhor nos dias de hoje. O povo de Deus
vam de acordo com a vontade de Deus. Se está no mar, em meio a uma tempestade, e
os discípulos não houvessem partido, certa­ Jesus Cristo está no céu e "intercede por
mente teriam apoiado os planos da multi­ nós" (Rm 8:34). O M estre estava vendo os
dão, pois ainda não entendiam plenamente discípulos e sabia da situação deles (M c 6:48),
os planos de Cristo. D e tempos em tempos, assim com o nos vê hoje e sabe de nossas
discutiam sobre "quem era o maior dentre necessidades. Ele sente o fardo que carrega­
eles" e certam ente teriam aprovado uma mos e sabe pelo que estamos passando (H b
revolta popular. 4:14-16). Jesus orou por seus discípulos para
A experiência dos discípulos na tempes­ que sua fé não falhasse.
tade pode ser um estímulo para nós quan­ Se soubéssemos que Jesus está na sala
do atravessarmos as tempestades da vida. ao lado orando por nós, certam ente senti­
M esm o em meio às tributações, podemos ríamos mais coragem para enfrentar a tem­
contar com várias certezas. pestade e fazer a vontade dele. Ele não está
*Ele nos trouxe a q u i." A tempestade veio na sala ao lado, mas está no céu interceden­
porque estavam dentro da vontade de Deus do por nós, vendo todas as nossas necessi­
e não (como Jonas) fora da vontade dele. Uma dades, ciente de todos os nossos medos e
vez que Jesus sabia que uma tem pestade no controle da situação.
66 M A TEU S 14

"F/e virá até nós." Muitas vezes, temos corajosa de fé, pois ele ousou ser diferente.
a impressão de que Jesus nos abandonou Qualquer um é capaz de ficar sentado num
justamente no momento mais difícil de nos­ barco e observar, mas é preciso uma pes­
sa vida. Em vários salmos, encontramos Davi soa de fé para sair do barco e andar sobre
queixando-se de que Deus parece distante as águas.
e indiferente. Ainda assim, o salmista sabia Pedro afundou porque sua fé vacilou; ele
que, a seu tempo, Deus o resgataria. Até tirou os olhos do Senhor e olhou para as
mesmo o grande apóstolo Paulo viu-se numa circunstâncias a seu redor. "Por que du-
situação tão difícil que "foi acima das nos­ vidaste?" (Mt 14:31), perguntou-lhe Jesus.
sas forças, a ponto de desesperarmos até da Nesse caso, o termo duvidar tem o sentido
própria vida" (2 Co 1:8). de "mostrar-se incerto ao ter de escolher
Jesus sempre vem a nosso encontro du­ entre dois caminhos". Pedro começou com
rante as tempestades da vida. "Quando pas- fé, mas terminou afundando, pois viu dois
sares pelas águas, eu serei contigo" (Is 43:2). caminhos em vez de um.
Talvez não chegue no momento que dese­ Devemos dar crédito a Pedro por perce­
jamos, pois sabe qual é o momento que mais ber que estava afundando e pedir socorro
precisamos dele. O Mestre esperou até o ao Senhor. Clamou quando estava "come­
barco estar o mais distante possível da terra, çando a afundar", não quando já estava se
até não haver mais nenhuma esperança do afogando. É possível que Pedro tenha se re­
ponto de vista humano. A fim de testar a fé cordado desse incidente quando escreveu
dos discípulos, teve de remover qualquer re­ em sua primeira epístola: "Porque os olhos
curso humano que os fizesse sentir seguros. do Senhor repousam sobre os justos, e os
Por que Jesus andou sobre as águas? Para seus ouvidos estão abertos às suas súplicas"
mostrar a seus discípulos que a coisa que (1 Pe 3:12).
mais temiam (o mar) era apenas um cami­ Foi uma experiência difícil para Pedro,
nho para que se aproximasse deles. Com fre­ mas o ajudou a conhecer melhor a si mes­
qüência, tememos as experiências difíceis mo e ao Senhor. As tempestades da vida não
da vida (como uma cirurgia ou a perda de são fáceis, mas são necessárias. Elas nos
alguém querido), mas acabamos descobrin­ ensinam a confiar somente em Jesus Cristo
do que elas servem para nos aproximar de e a obedecer à sua Palavra, quaisquer que
Jesus Cristo. sejam as circunstâncias. Alguém disse bem:
Por que os discípulos não reconheceram "Fé não é crer apesar das evidências, mas
Jesus? Porque não estavam procurando por sim obedecer apesar das conseqüências".
ele. Se estivessem esperando com fé, teriam ME!e nos ajudará até o fim ." Se Jesus
reconhecido seu Mestre de imediato. Em vez diz "Vem", essa palavra cumprirá o propósi­
disso, concluíram que era um fantasma. O to segundo o qual foi proferida. Uma vez
medo e a fé não podem conviver no mes­ que ele é o "autor e consumador da nossa
mo coração, pois o medo sempre nos impe­ fé" (Hb 12:2), completará toda obra que
de de ver a presença de Deus. começar em nós. Podemos falhar ao longo
*Ele nos ajudará a crescer." Esse era o do caminho, mas, no final, Deus será bem-
propósito da tempestade: ajudar os discípu­ sucedido. Jesus e Pedro andaram sobre as
los a crescer em sua fé. Um dia, Jesus teria águas juntos e entraram no barco.
de deixá-los, e eles enfrentariam muitas tem­ A experiência de Pedro foi uma bênção
pestades em seus ministérios. Tinham de não apenas para ele próprio, mas também
aprender a confiar no Senhor, mesmo que para os demais discípulos. Ao verem o po­
não estivesse presente e que parecesse não der de Jesus Cristo dominando e acalman­
se importar. do a tempestade, não lhes restou outra coi­
Devemos agora voltar nossa atenção para sa a fazer senão se prostrar diante dele e
Pedro. Antes de criticá-lo por afundar, deve­ adorá-lo. Depois que Jesus acalmou a primei­
mos lhe dar crédito por sua demonstração ra tempestade (Mt 8:23-27), os discípulos
MATEUS 14 67

disseram: "Quem é este que até os ventos e usa uma palavra grega que significa "a ordem
o mar lhe obedecem?" Mas aqui seu teste­ de um rei", Pedro sabia que Jesus Cristo era
munho foi: "Verdadeiramente és Filho de Rei sobre toda a natureza, inclusive do ven­
Deus!” to e das águas, A palavra de Jesus é lei, e os
Os discípulos haviam ajudado a alimen­ elementos devem obedecer.
tar cinco mil pessoas, Mais tarde, Deus per­ O barco chegou a Genesaré, perto de
mitiu que enfrentassem uma tempestade. Cafarnaum e Betsaida, e ali Jesus curou mui­
No Livro de Atos, logo depois que os dis­ tas pessoas. Será que as pessoas sabiam que
cípulos ganharam cinco mil pessoas para havia enfrentado uma tempestade para che­
Cristo (At 4:4), teve início a tempestade da gar até elas e suprir suas necessidades? Será
perseguiça’o, Por certo, Pedro e os discípu­ que nós nos lembramos de que Jesus enfren­
los lembraram-se da experiência que tive­ tou uma tempestade de juízo para salvar
ram com o Senhor e encontraram coragem nossa alma (SI 42:7) e para que jamais pre­
para prosseguir. cisássemos enfrentar o juízo de Deus? De­
Esse milagre engrandece a realeza de Je­ vemos imitar os discípulos, prostrando-nos
sus Cristo, De fato, quando Mateus relata o aos pés de Jesus e reconhecendo que ele é
pedido de Pedro, 'manda-me ir ter contigo", o Rei dos reis e Senhor dos senhores!
que (de acordo com os rabinos) Moisés ha­
12 via dado aos anciãos, e estes transmitiram à
nação. Por fim, a lei oral foi escrita e se for­
mou a Mishná, que, infelizmente, se tornou
As P reo c u pa ç õ es mais importante e peremptória do que a lei
de Moisés.
d o R ei
A resposta de Jesus a essa acusação co­
meça com outra acusação (Mt 15:3). Eram
M a t e u s 15
e/es que estavam quebrando a Lei de Deus
ao praticar suas tradições! Jesus prossegue
com uma ilustração (Mt 15:4-6), a prática
do "Corbã" (ver M c 7:11), palavra hebraica
omo no capítulo anterior, vemos Jesus que significa "um presente". Se um judeu
C em conflito com seus inimigos (Mt 15:1­
11), ensinando seus discípulos (Mt 15:12-20)
queria fugir de alguma responsabilidade fi­
nanceira, declarava que seus bens eram
e ministrando às multidões necessitadas (Mt "Corbã - um presente para Deus". Com isso,
15:21-31). Esse é o padrão durante o perío­ se livrava de outras obrigações como, por
do em que se mantinha afastado. exemplo, cuidar dos pais idosos. Mas ao usar
As grandes preocupações de Cristo são desse artifício, a pessoa perdia o poder da
a verdade e o amor. Ensinava a verdade aos Palavra de Deus em sua vida, desse modo
líderes judeus, revelando a hipocrisia deles, prejudicando seu caráter e perdendo as bên­
e mostrava às multidões gentias o amor su­ çãos de Deus.
prindo suas necessidades. O estudo dessas Jesus conclui sua resposta com uma apli­
duas preocupações permitirá entender a cação (Mt 15:7-11), citando Isaías 29:13, e
mensagem deste capítulo. deixando bem claro que a obediência às
tradições levava as pessoas a desobedecer
1. V e r d a d e : ele r e je it o u a s t r a d iç õ e s à Palavra de Deus, provando dessa forma
ju d a ic a s (M t 1 5 :1 - 2 0 ) que a tradição era falsa. Êxodo 20:12 ensi­
Este acontecimento dramático envolveu três na que é necessário "honrar" pai e mãe. Mas
pedidos e três respostas. a regra do "Corbã" fazia a pessoa desonrar
O s escribas e fariseus (vv. 1-11), O fato seus pais e, ao mesmo tempo, desobede­
de escribas e fariseus se unirem neste ata­ cer a Deus.
que e virem de Jerusalém para falar com Je­ A tradição é exterior, enquanto a verda­
sus mostra a seriedade do propósito deles. É de de Deus é interior, do coração. Há quem
provável que essa comissão representasse os obedeça às tradições para obter status e a
líderes do Sinédrio em Jerusalém. aprovação dos homens (Gl 1:14), mas nós
As acusações sobre "lavar as mãos" não obedecemos à Palavra para agradar a Deus.
tinham qualquer relação com a higiene. Re­ Tradições referem-se a rituais, enquanto a
feriam-se às lavagens cerimoniais praticadas verdade de Deus refere-se à realidade. Tra­
pelos judeus mais ortodoxos (ver M c 7:1-4). dições colocam nos lábios palavras vazias,
Como se não bastasse Jesus e seus discípu­ enquanto a verdade penetra o coração e
los se misturarem aos rejeitados, nem sequer transforma a vida. Na verdade, a tradição priva
procuravam purificar-se! É evidente que, ao as pessoas do poder da Palavra de Deus.
fazer essa acusação, obrigavam Jesus a tra­ Infelizmente, há muitas "tradições evan­
tar dos fundamentos da fé religiosa. Se Jesus gélicas" nas igrejas de hoje, ensinamentos
rejeitasse as tradições sagradas do povo, se­ humanos considerados tão investidos de
ria passive! de julgamento! autoridade quanto a Palavra de Deus - ain­
Qual era a origem dessas tradições? Fo­ da que constituam contradições da Palavra.
ram transmitidas pelos mestres de gerações Ao obedecer a essas tradições, os cristãos
passadas. A princípio, constituíam a "lei oral" privam-se do poder da Palavra de Deus.
M A T E U S 15 69

Deus quer que lhe entreguemos nosso a pessoa. Claro que as ações também estão
coração, não apenas louvores da boca para incluídas nas palavras, pois, com freqüência,
fora. É de coração que devemos crer (Rm 10:9, os gestos falam mais alto do que as palavras.
10), am ar (M t 22:37), cantar (Cl 3:16), obede­ O Sen h o r teve de rep etir essa lição
cer (Rm 6:1 7; Ef 6:6) e ofertar (2 Co 9:7). Não sobre alimentos para Pedro alguns anos de­
é de admirar que Davi orou: "C ria em mim, ó pois, pouco antes de chamá-lo para pregar
Deus, um coração puro" (SI 51:10). aos gentios (A t 10). Paulo trata dessa ques­
Num a declaração ousada, Jesus ensinou tão em 1 Tim óteo 4:3-6 e em Rom anos 14
às multidões que o pecado provém do cora­ e 15.
ção, não da alim entação. O que corrom pe
é aquilo que sai da boca, não o que entra. 2 . C o m p a ix ã o : E l e s u p r iu as
O s discípulos (vv. 12-14). O s discípulos N E C E S SID A D ES D O S G E N T IO S
estavam pasmos com aquilo que Jesus esta­ (M t 15:21-39)
va ensinando acerca dos alimentos. Afinal, Jesus não apenas ensinou que toda com ida
também haviam recebido a educação tradi­ era pura, mas praticou esse ensinamento ao
cional para ser judeus zelosos (ver o teste­ visitar regiões gentias. Deixou Israel e se re­
munho de Pedro em At 10:14) e sabiam a tirou novamente, dessa vez para a região de
diferença entre alimentos "lim pos" e "im un­ Tiro e Sidom. Para os judeus, os gentios eram
dos" (Lv 11). considerados tão "im undos" que, por vezes,
Além disso, estavam apreensivos, porque eram cham ados de "cães". M esm o consi­
esse ensinamento havia ofendido os fariseus derando que seu m inistério aqui na Terra
e, por certo, criaria uma série de problemas. tenha se concentrado no povo de Israel (M t
M as Jesus não estava preocupado com os 10:5, 6), não causa espanto ver Jesus minis­
fariseus. Nem eles nem seus ensinamentos trando aos gentios (M t 12:17-21).
haviam sido plantados por Deus e, portanto, A endemoninhada (vv. 21-28). Jesus ten­
não durariam. Embora ainda existam grupos tava perm anecer escondido (M c 7:24), mas,
isolados que buscam manter as tradições, em de algum modo, essa mulher cananéia des­
sua m aior parte o farisaísmo desapareceu. cobriu onde ele estava e foi pedir sua ajuda.
Porém, o espírito do farisaísmo (tradições, Devem os lembrar que a forma de Jesus tratar
legalismo, hipocrisia, aparências) continua pre­ essa mulher não tinha por objetivo destruir
sente e constitui aquilo que Jesus chamou sua fé, mas sim a fortalecer. Suas respostas
de "fermento dos fariseus" (M t 16:6). mostraram que ela crescia na fé e não esta­
Jesus também afirmou que os fariseus va disposta a deixar Jesus partir sem uma
estavam cegos e só eram capazes de con­ definição. Samuel Rutherford expressou esse
duzir seus seguidores para o barranco. Em princípio perfeitamente: "C ab e à fé extrair e
M ateus 23:16, ele os cham a de "guias ce­ se apropriar da bondade presente até mes­
gos" - uma descrição bastante vivida. Por mo nos golpes mais duros de Deus".
que ter medo de plantas sem raízes que es­ Ao abordar Jesus com o "Filho de Davi",
tão m orrendo ou de guias cegos que não essa mulher agia segundo os costumes ju­
vêem para onde estão indo? daicos, o que não poderia fazer, uma vez
Pedro (vv. 15-20). Pedro não se deu por que era gentia. Sem dúvida, o uso dessa
satisfeito enquanto Jesus não lhe explicou designação revelou sua fé em Jesus com o o
novam ente, com toda a paciência, a lição Messias de Deus, pois esse era um dos títu­
que havia ensinado acerca dos alimentos. los do Messias (M t 22:42). Assim, Jesus per­
Para nós, o sentido parece óbvio, mas para maneceu calado. Claro que ele conhecia o
um judeu ortodoxo era uma novidade extra­ coração dela, até mesmo o silêncio foi um
ordinária. Tudo o que entra pela boca passa incentivo para que ela prosseguisse.
pelo estômago e é expelido. A com ida nunca Im pacientes com sua persistência em
toca o coração. M as o que sai da boca co- segui-los e gritar, os discípulos disseram :
70 M ATEUS 1 5

se com isso estavam dizendo: "atenda ao os rabinos judeus não davam atenção às
seu pedido e depois a despeça" ou simples­ mulheres. Ao que parece, até os discípulos
mente "livre-se dela". Em todo o caso, não estavam contra eia, e mesmo as palavras de
estavam demonstrando compaixão pela Cristo dão uma impressão desfavorável. To­
mulher nem por sua filha endemoninhada. dos esses obstáculos serviram apenas para
A resposta de Jesus em Mateus 15:24 indi­ levá-la a persistir.
ca que, provavelmente, eles queriam que Os enfermos e aleijados (vv. 29-31). Je­
Jesus atendesse ao pedido da mulher. sus deixou Tiro e Sidom e se dirigiu à região
Não podemos deixar de admirar a per­ de Decápolis - dez cidades predominan­
sistência e paciência dessa mulher gentia. temente gentias que constituíam uma confe­
"Senhor, socorre-me!", foi sua próxima sú­ deração com autorização dos romanos para
plica, e dessa vez, evitou usar qualquer títu­ cunhar suas próprias moedas, presidir os
lo messiânico. Ela se aproximou como uma próprios tribunais e até mesmo comandar o
pecadora necessitando de ajuda e não ofe­ próprio exército.
receu nenhum argumento. Em sua resposta, Jesus curou um homem surdo e mudo
Jesus não a trata com desprezo, como seria (M c 7:31-37). Desobedecendo ao que Je­
o costume dos fariseus ao chamarem os sus lhe havia ordenado, o homem e seus
gentios de "cães"; antes, o termo que usa amigos relataram a todos o que Jesus havia
no original se refere a um "cachorrinho de feito. Ao que parece, a notícia espalhou-se
estimação", não aos vira-latas que corriam e uma grande multidão se reuniu - inclusive
pelas ruas e reviravam o lixo. Os "filhos" são, aleijados, cegos e coxos. Jesus curou a to­
evidentemente, o povo de Israel. dos e os gentios "glorificavam ao Deus de
Jesus não estava fazendo um jogo nem Israel" (Mt 15:31).
tentando dificultar a situação da mulher. Es­ É impressionante ver o contraste entre
tava extraindo dela uma resposta de fé cada os gentios e os líderes judeus que conhe­
vez maior. Mais que depressa, ela se apro­ ciam as Escrituras do Antigo Testamento. Os
priou da ilustração dele sobre o pão das gentios glorificaram ao Deus de Israel, mas
crianças - exatamente como Jesus queria que os líderes judeus disseram que Jesus estava
ela fizesse. Podemos parafrasear a resposta operando em conjunto com Satanás (Mt
dela da seguinte maneira: "É verdade que 12:22-24). Os milagres de Jesus não levaram
os gentios não se assentam à mesa como as cidades de Israel ao arrependimento (Mt
filhos nem comem o pão. Mas até mesmo 11:20ss), mas os gentios creram nele. Os
os cachorrinhos de estimação sob a mesa milagres de Jesus deveriam ter convencido
conseguem comer algumas migalhas!" Que os judeus de que ele era o Messias (Is 29:18,
testemunho extraordinário de fé! 19; 35:4-6; Mt 11:1-6). Ele se admirou com
Jesus reconheceu essa fé e, no mesmo a fé do soldado gentio e da mulher cananéia,
instante, curou a filha da mulher. É interes­ e também se espantou com a incredulidade
sante observar que as duas pessoas de mais do seu próprio povo (Mc 6:6).
fé que aparecem no Evangelho de Mateus Fome (vv. 32-39). Alguns críticos acusam
eram gentias: essa cananéia e o centurião os escritores do Evangelho de falsificar
romano (Mt 8:5-13). Nos dois casos, Jesus deliberadamente os registros de modo a
curou â distância. Em termos espirituais, os provar que Jesus realizou mais milagres.
gentios estavam "distantes"; isso mudou no Afirmam que o relato da alimentação das
Calvário, quando Jesus Cristo morreu tanto quatro mil pessoas é apenas uma adapta­
pelos judeus quanto pelos gentios e possibi­ ção do milagre anterior, quando Jesus ali­
litou a reconciliação (Ef 2:11ss). mentou cinco mil pessoas. No entanto, uma
A fé dessa mulher era grande, pois per­ investigação cuidadosa dos registros mostra
sistiu quando tudo parecia estar contra ela. que tal acusação é falsa e que os críticos
Sua etnicidade era desfavorável, pois era estão errados. O quadro abaixo mostra as
gentia, e até seu sexo era desfavorável, pois diferenças entre os dois acontecimentos:
M A T E U S 15 71

Alim entação dos Alim entação dos A palavra traduzida por "c e sto s" em
cinco m il quatro mil M ateus 15:37 refere-se a cestos grandes,
Principalmente judeus Principalmente gentios com o aquele usado para descer Paulo pela
Galiléia, perto de Decápolis muralha de Dam asco (A t 9:25). A palavra
Betsaida "cesto", em M ateus 14:20, representa o ces­
5 pães e 2 peixes 7 pães e alguns peixes to com um , de tam anho pequeno, que as
12 cestos de restos 7 cestos de restos pessoas usavam para transportar com ida ou
A multidão passou A multidão passou três outras coisas menores. O uso de duas pala­
um dia com Jesus dias com Jesus vras diferentes no original também com pro­
Primavera (relva) Verão va que se tratam de dois milagres distintos.
Tentaram adamá-Ιο Não houve qualquer A o contrário do que fez em Cafarnaum,
Rei reação popular depois de alimentar os cinco mil judeus, Je ­
sus não pregou um sermão sobre o "pão da
Depois de passar três dias com o Mestre, os vid a " para essa m ultidão (Jo 6:22ss). O s
quatro mil ouvintes já haviam esgotado o gentios não conheciam o maná do Antigo
suprimento de com ida que tinham trazido Testamento, e a idéia de "p ão da vid a" lhes
de casa. A com paixão de nosso Senhor não seria estranha. Jesus sempre adequou seus
lhe perm itiria mandar toda essa gente em­ sermões às necessidades e conhecim entos
bora com fome, pois poderiam desfalecer das pessoas a quem estava ministrando.
pelo caminho. O primeiro motivo para esse A n tes de en ce rra r nosso estu d o de
milagre foi simplesmente o suprimento da M ateus 15, convém rever algumas de suas
necessidade humana. O povo já havia visto lições espirituais.
outros milagres de Jesus e glorificado a Deus, (1) O s inimigos da verdade normalmen­
de modo que esse milagre não tinha com o te são pessoas religiosas vivendo de acordo
propósito servir de base para um sermão ou com as tradições humanas. Com freqüên­
corroborar o ministério de Cristo. cia, Satanás usa a "religião" a fim de cegar a
N o entanto, tinha um propósito especial mente dos pecadores para as verdades sim­
para seus discípulos. É impressionante ver que ples da Palavra de Deus.
eles já haviam esquecido o milagre anterior (2) Devem os tomar cuidado com qual­
da alimentação dos cinco mil (ler com aten­ quer sistema religioso que apresente justifi­
ção M t 16:6-12). O s doze estavam perplexos cativas para o pecado e que desobedeça à
quando, na verdade, deveriam estar dizen­ Palavra de Deus.
do, "Jesus é capaz de multiplicar pães e pei­ (3) Devem os, também, ter cuidado com
xes, então não precisamos nos preocupar!" a adoração proveniente apenas dos lábios,
É possível que tivessem pensado que Jesus não do coração.
não realizaria esse tipo de milagre em territó­ (4) Se nos concentrarm os no ser interior,
rio gentio. O u, quem sabe, imaginaram que o homem exterior se transformará naquilo
o fato de a m ultidão anterior ter tentado que D eus deseja. A verdadeira santidade
proclamá-lo Rei talvez tivesse levado Jesus a provém do interior.
pensar duas vezes antes de repetir o milagre. (5) É difícil nos libertarmos das tradições.
Com o na alimentação dos cinco mil, esse H á algo em nós que nos prende ao passado
milagre também ocorreu nas mãos do Senhor. e que resiste a mudanças. Até mesmo Pedro
O s pães se multiplicaram, enquanto Jesus os teve de aprender a mesma lição duas vezes.
repartia e entregava aos discípulos. Todos (6) Não devem os limitar Cristo a qual­
comeram e se fartaram. Mais uma vez, Jesus quer povo ou nação. O evangelho foi pro­
ordenou que os restos fossem recolhidos para clam ado prim eiram ente aos judeu s (Rm
que nada fosse desperdiçado. A capacidade 1:16), mas hoje é para todos os homens e
de realizar milagres não dá autoridade para todas as nações. "Todo aquele que invocar
Milagres apenas servem de confirmação
13 onde há fé, mas não onde há incredulidade
deliberada.
Por que Jesus falou sobre o tempo? Para
A S u r pr esa do R ei revelar a seus inimigos a desonestidade e a
cegueira obstinada deles. Eram capazes de
M ateu s 16 examinar as evidências na criação de Deus
e de tirar conclusões válidas, mas recusavam
as evidências que Jesus havia lhes apre­
sentado. O s seus inimigos não queriam
acreditar e, assim, não poderiam acreditar
(Jo 12:37ss). O que faltava aos fariseus e
s acontecim entos registrados em saduceus não eram provas, mas sim hones­
O Mateus 16 constituem um ponto críti­
co no ministério de Jesus. Ele menciona a
tidade e humildade.
A exigência de um sinal revelou a triste
Igreja pela primeira vez (M t 16:18) e fala condição de seus corações: eram maus e
abertam ente de sua morte na cruz (M t adúlteros. Jesus não os acusa de adultério
16:21). Começa a preparar seus discípulos físico, mas de adultério espiritual (Is 57; Tg
para sua prisão, crucificação e ressurreição. 4:4). Estavam adorando o falso deus que eles
Porém, como veremos, os discípulos demo­ próprios haviam criado, e isso era adultério
ram a aprender as lições. espiritual. Se estivessem adorando o Deus
A fé é o tema em comum em todos os verdadeiro, teriam reconhecido seu Filho
acontecimentos deste capítulo. Neles, vemos quando ele veio.
quatro níveis diferentes de fé e como eles Jesus havia mencionado o sinal de Jonas
se relacionam com Cristo. anteriormente (ver M t 12:38-45). Era um si­
nal de morte, sepultamento e ressurreição.
1 . N e n h u m a fé - C r i s t o é p o s to â A crucificação, sepultamento e ressurreição
p r o v a (M t 1 6 :1 - 4 ) de Cristo foram, de fato, um sinal para Is­
O desejo de calar Jesus havia levado dois rael de que ele era o Messias. Foi sobre
partidos religiosos opostos a se unir num esse sinal que Pedro pregou em Pentecos-
esforço conjunto. Esperavam por Jesus quan­ tes (At 2:22ss).
do voltou para a Galiléia. Os fariseus eram, De acordo com Mateus 16:4, o Senhor
evidentemente, os tradicionalistas de seu partiu pela terceira vez da Galiléia. Já havia
tempo; os saduceus, por sua vez, eram bas­ deixado essa região para evitar Herodes (Mt
tante liberais (ver At 23:6-10). O que esses 14:13) e os fariseus (M t 15:21). Sua partida
os dois grupos de líderes queriam de Jesus? foi, sem dúvida alguma, um ato de julgamen­
"Mostre-nos um sinal do céu e então acredi­ to contra os incrédulos.
taremos que você é o Cristo."
A palavra traduzida por sinal significa 2 . U m a fé p eq u e n a - C r i s t o é m a l
muito mais do que um simples milagre ou c o m p r e e n d id o ( M t 1 6 :5 - 1 2 )
dem onstração de poder. Significa "um Os discípulos tinham com eles apenas um
prodígio por meio da qual alguém pode pão (M c 8:14). O texto não diz o que foi
reconhecer uma pessoa ou confirmar sua feito dos vários cestos de sobras da alimen­
identidade". tação dos quatro mil ocorrida pouco antes
Era a quarta vez que os líderes religiosos dessa ocasião. É possível que os discípulos
pediam um sinal (M t 12:38ss; Jo 2:12; 6:30), tenham distribuído o que sobrara do mila­
e ainda repetiriam seu pedido (Lc 11:14ss). gre. Jesus usa esse acontecimento um tanto
Mas milagres não convencem as pessoas do embaraçoso para ensinar uma lição espiri­
pecado nem criam um desejo de salvação tual im portante: cuidado com os falsos
(Lc 16:27-31; Jo 12:10, 11; At 14:8-20). ensinamentos de fariseus e saduceus.
M A T E U S 16 73

O s discípulos não entenderam e pen­ 3. U m a fé s a lv a d o r a - C r is t o


saram que Jesus estava falando literalmente o u v e a c o n f is s ã o do s d is c íp u l o s

sobre o fermento do pão. Não foram pou­ (M t 16:13-20)


cas as vezes, ao longo do ministério de Jesus, Jesus levou seus discípulos para território
que as pessoas interpretaram equivoca- gentio, na região de Cesaréia de Filipe. Es­
dam ente suas palavras, entendendo-as de tavam na região norte da Palestina, a cerca
form a literal e não espiritual. N icodem os de 190 quilôm etros de Jerusalém . Era uma
pensou que Jesus estava falando sobre um região sob forte influência de várias reli­
nascim ento físico (Jo 3:4), e a mulher sa- giões: havia sido o centro do culto a Baal;
maritana pensou que estava se referindo à possuía templos do deus grego Pan; e H ero­
água do poço (Jo 4:11). A m ultidão na si­ des, o Grande, havia construído ali um tem­
nagoga achou que Jesus estava falando de plo em homenagem a César Augusto. É em
com er carne e beber sangue de verdade m eio a essas superstições pagãs que Pedro
(Jo 6:52ss), quando, na realidade, o M estre confessa que Jesus é o Filho de Deus. É
descrevia um a ex p eriên cia espiritual (Jo bem possível que estivessem nas cercanias
6:63). do templo de César, quando Jesus fez uma
Conform e observamos em nosso estudo declaração surpreendente: ainda não era
de M ateus 13, o fermento era um símbolo tem po de estabelecer seu reino, mas esta­
do mal para os judeus. Tanto fariseus quanto va prestes a instituir sua Igreja.
saduceus haviam contaminado as convicções Q ualquer outra pessoa que perguntas­
religiosas de Israel com falsas doutrinas. O s se: "Q u em os homens pensam que eu sou?"
fariseus eram legalistas que ensinavam que seria considerada louca ou arrogante. N o
som ente a obediência à lei e às tradições caso de Jesus, porém, é fundamental para
poderia agradar a Deus e estabelecer seu a salvação confessar o que crem os a res­
reino em Israel. O s saduceus eram liberais peito dele (Rm 10:9, 10; 1 Jo 2:18-23; 4:1­
em seu modo de pensar e negavam que o 3). Sua pessoa e sua obra andam juntas e
reino sequer seria estabelecido na Terra. nunca devem ser separadas. É espantoso
Negavam até a verdade da ressurreição e a ver quanto o povo estava confuso sobre
existência dos anjos. Jesus (Jo 10:19-21). Talvez, com o Herodes,
O que levou os discípulos a lem brar os judeus pensassem que Jesus era João,
que não tinham pão quando Jesus falou que havia ressuscitado dos mortos.
do ferm ento? É possível que estivessem pla­ Havia sido profetizado que Elias volta­
nejando com prar algum pão no outro lado ria (M l 4:5), e alguns pensaram que tal pro­
do mar, e pensaram que Jesus estava ad­ fecia foi cum prida em Cristo. N o entanto,
vertindo para que não com prassem pão Jesus não ministrou com o Elias; antes, foi
im puro, do tipo que os judeus não pode­ João Batista quem veio "n o espírito e po­
riam com er. Se tivessem se recordado da der de Elias" (Lc 1:13-17). Jerem ias foi o
m aneira com o Jesus havia m ultiplicado os profeta chorão, cujo coração terno quebran-
pães em duas ocasiões, certam ente não tou-se diante da corrupção de seu povo.
teriam se preocupado. A "p equena fé " os Sem dúvida, podem os observar essa mes­
im pediu de entender essa lição e de de­ ma atitude em Jesus, o Hom em de dores.
pender do poder de Jesus para suprir suas Um a coisa é certa: não é possível posi­
necessidades. cionar-se em relação a Jesus Cristo fazendo
Em mais de uma ocasião, Jesus chamou uma pesquisa de opinião pública (apesar
seus discípulos de "hom ens de pequena fé" de alguns usarem esse m étodo para obter
(M t 6:30; 8:26; 14:31). Por certo, ter uma "conhecim ento espiritual"!). A coisa mais
"p equena fé" é melhor do que não ter fé importante não é o que os outros dizem, mas
alguma. Antes de receber seu diplom a de sim o que eu digo segundo aquilo que creio.
"grande fé", os discípulos ainda precisavam As decisões da multidão (certas ou erradas)
74 M A T E U S 16

Pedro respondeu corretamente: "Tu és Examinemos mais detalhadamente a pa­


o Cristo [o Messias], o Filho do Deus vivo". lavra grega que o Espírito Santo inspirou
Essa confissão foi a resposta de Pedro à re­ Mateus a usar. "Tu és Pedro [petros - uma
velação que havia recebido de Deus Pai, uma pedra], e sobre esta pedra [petra - uma gran­
experiência que o próprio Jesus explica em de rocha] edificarei a minha igreja". Jesus
Mateus 11:25-27. Pedro não buscou ativa­ havia dado a Simão o nome de Pedro (Jo
mente essa revelação; antes, ela lhe foi con­ 1:42), que significa "pedra". O termo ara-
cedida pela graça. Deus havia escondido maico é Cefas, que também significa "pe­
essas coisas dos fariseus e saduceus orgu­ dra". Todos os que crêem em Jesus Cristo e
lhosos, mas as revelou a seus "pequeninos", que o confessam como Filho de Deus e Sal­
seus humildes discípulos. vador são "pedras que vivem" (1 Pe 2:5).
Devemos observar que essa não foi a Jesus Cristo é a pedra fundamental so­
primeira confissão de fé. Natanael havia bre a qual a Igreja é edificada, conforme de­
confessado que Cristo era o Filho de Deus clararam os profetas do Antigo Testamento
(Jo 1:49), e os discípulos também haviam (SI 118:22; Is 28:16), o próprio Jesus (M t
declarado que ele era o Filho de Deus de­ 21:42), Pedro e os outros apóstolos (At 4:1 Ο­
pois que acalmou a tempestade (M t 14:33). Ι 2). Paulo também afirma que a fundação
Pedro havia feito uma confissão de fé, da Igreja é Jesus Cristo (1 Co 3:11). Essa fun­
quando as multidões deixaram Jesus de­ dação foi assentada pelos apóstolos e pro­
pois do sermão sobre o "pão da vida" (Jo fetas ao pregarem o evangelho de Cristo aos
6:68, 69). Quando André apresentou seu perdidos (1 Co 2:1, 2; 3:11; Ef 2:20).
irmão Simão a Jesus, ele o fez com base na Em outras palavras, ao examinar as evi­
convicção de que Jesus era o Messias (Jo dências, vê-se que, segundo todos os ensina­
1:41). mentos das Escrituras, a Igreja, o templo de
Em que sentido, então, essa confissão foi Deus (Ef 2:19-22), é edificada sobre Jesus
diferente das anteriores? Em primeiro lugar, Cristo, não sobre Pedro. Como Deus pode­
Jesus pediu explicitamente essa confissão. ria edificar sua Igreja sobre um homem falí­
Não foi uma reação emocional de pessoas vel como Pedro? Posteriormente, o mesmo
que testemunharam algum milagre, mas uma Pedro que confessou a Cristo também se
afirmação refletida e sincera de um homem tornou um adversário e permitiu que pensa­
instruído por Deus. mentos de Satanás entrassem em sua men­
Em segundo lugar, Jesus aceitou essa con­ te (M t 16:22ss). "Mas isso foi antes de Pedro
fissão e a usou para apresentar uma nova ter recebido o Espírito", diriam alguns. Con­
verdade. O Senhor deve ter se alegrado sideremos, então, as doutrinas errôneas de
imensamente ao ouvir as palavras de Pedro. Pedro registradas no capítulo 2 da Epístola
Sabia que Pedro poderia, a partir de então, aos Gálatas, que o apóstolo Paulo teve de
ser conduzido a uma verdade e a um ser­ corrigir. O episódio relatado em Gálatas
viço mais profundo. O ministério todo de ocorreu depois que Pedro recebeu o Espírito.
Jesus a seus discípulos havia preparado o A igreja. É a primeira ocorrência dessa
caminho para essa experiência. Convém palavra tão importante no Novo Testamen­
estudar essas palavras e conceitos extraordi­ to. Trata-se do termo grego ekklesia, que dá
nários separadamente. origem a nossa palavra "eclesiástico", ou
A rocha. Para esses judeus imbuídos das seja, tudo aquilo que se refere à Igreja. O
Escrituras do Antigo Testamento, não foi di­ significado literal é "uma assembléia con­
fícil reconhecer a rocha como um símbolo vocada". A palavra é usada mais de cem
de Deus. "Eis a Rocha! Suas obras são per­ vezes no Novo Testamento e, em pelo me­
feitas" (Dt 32:4). "O S e n h o r é a minha ro­ nos noventa dessas ocasiões, diz respeito à
cha, a minha cidadela" (S I 18:2). "Pois quem igreja (congregação) local. No entanto, esse
é Deus, senão o S e n h o r ? E quem é rochedo, primeiro uso de ekklesia indica que Jesus
senão o nosso Deus?" (S I 18:31). tinha em mente a Igreja como um todo. Não
M A T E U S 16 75

estava construindo apenas uma assembléia Tomando Lucas 16:19-31 com o base, há
local, mas uma Igreja universal com posta de quem acredite que todos os m ortos iam
todos aqueles que confessam a mesma fé para o Hades antes da morte e ressurreição
declarada por Pedro. de Cristo: os cristãos para a parte correspon­
A palavra ekklesia não era nova para os dente ao paraíso, e os incrédulos para a parte
discípulos. Costumava ser usada para a as­ correspondente ao castigo. Sabem os, com
sem bléia popular de cidadãos gregos que certeza, que, ao morrer, os cristãos de hoje
ajudava a governar uma determ inada cida­ vão imediatamente para a presença de Cris­
de ou distrito (At 19:32, 39, 41). Além disso, to (2 C o 5:6-8; Fp 1:23).
a tradução grega do Antigo Testamento (a Na Bíblia, as "portas" representam auto­
Septuaginta) usa ekklesia para descrever a ridade e poder. Em Israel, a porta da cidade
congregação de Israel, quando o povo se correspondia à prefeitura do mundo ociden­
reunia para suas atividades religiosas (D t tal. Era junto à porta que se realizavam os
31:30; Jz 20:2). Todavia, isso não significa negócios im portantes (D t 16:18; 17:8; Rt
que a congregação de Israel no Antigo Testa­ 4:11). Assim, "as portas do [H ades]" simbo­
m ento era uma "igreja" no mesmo sentido lizam o poder organizado da m orte e de
que as igrejas do N ovo Testamento. Antes, Satanás. Por meio de sua morte e ressurrei­
Jesus estava apresentando aos seus discípu­ ção, Cristo conquistaria a morte, e esta não
los algo inteiramente novo. mais poderia aprisionar seu povo. Cristo der­
Jesus usa a designação "m inha igreja" rubaria as portas e libertaria os cativos! Sem
em contraste com essas outras assembléias. dúvida, tal declaração pode ser verificada
Trata-se de algo inédito e diferente, pois em em 1 Coríntios 15:50ss; Hebreus 2:14, 15 e
sua Igreja, Jesus Cristo reuniria os cristãos em outras passagens.
judeus e gentios e formaria um novo tem­ A s chaves do reino. A chave é um em­
plo, um novo corpo (Ef 2:11 - 3:12). Em sua blema de autoridade (Is 22:1 5, 22; Lc 11:52).
Igreja, as distinções naturais não seriam im­ "O reino dos céus" não é o céu, pois ne­
portantes (G l 3:28). Jesus Cristo seria o cons­ nhum homem na Terra carrega as chaves do
trutor dessa Igreja e seu Cabeça (Ef 1:22; Cl céu! (As piadas sobre "São Pedro à porta do
1:18). céu" são decorrentes da interpretação equi­
Cada cristão dessa Igreja é uma "pedra vocada dessa passagem e são antibíblicas e
que vive " (1 Pe 2:5). O s cristãos se reuni­ de mau gosto.) As chaves são usadas para
riam em congregações para adorar e servir abrir portas, e Pedro teve o privilégio de abrir
a Cristo, mas também fariam parte de uma "a porta da fé " para os judeus em Pente-
Igreja universal, um tem plo edificado con­ costes (At 2) e, posteriormente, para os sa-
tinuam ente por Cristo. O povo de Deus maritanos (At 8:14ss) e os gentios (At 10).
possui uma unidade (Ef 4:1-6) que deve ser M as os outros apóstolos também com parti­
revelada ao m undo m ediante o am or e a lhavam dessa autoridade (M t 18:18). Paulo
harmonia (Jo 17:20-26). teve o privilégio de abrir "a porta da fé" para
As portas do inferno. Um a tradução me­ os gentios de fora da Palestina (At 14:27).
lhor para essa expressão seria "portas do Em nenhum lugar dessa passagem, nem
Hades". O inferno é o destino final das pes­ no restante do N ovo Testam ento, o texto
soas não salvas depois do julgamento diante bíblico afirma que Pedro ou seus sucesso­
do grande trono branco (Ap 20:11-15). Hades res possuíam qualquer posição especial ou
é simplesmente "o reino dos mortos". Abriga privilégio na Igreja. Pedro afirma claram en­
os espíritos dos mortos não salvos até o dia te em suas duas epístolas que não passa­
da ressurreição (Ap 20:13, em que o "além " va de um apóstolo (1 Pe 1:1), um presbítero
deve ser entendido com o o "H ad es"). De (1 Pe 5:1) e um servo de Jesus Cristo (2 Pe
acordo com Jesus, o Hades encontra-se num 1 : 1 ).
plano inferior (M t 11:23) e é uma prisão para Ligar e desligar. Trata-se de uma expres­
a qual só ele tem as chaves (Ap 1:18). são bastante conhecida para os judeus, pois
76 M A T E U S 16

seus rabinos falavam com freqüência de O erro de Pedro foi pensar como ho­
"ligar e desligar", ou seja, de proibir e permi­ mem, pois a maioria dos seres humanos
tir. A afirmação de Jesus em Mateus 16:19 deseja escapar do sofrimento e da morte.
refere-se a Pedro, mas sua declaração pos­ Não teve os pensamentos de Deus quanto
terior em Mateus 18:18 inclui todos os após­ ao que estava para acontecer. E onde en­
tolos. Como representantes do Senhor, os contramos o que Deus pensa? Na Palavra
apóstolos iriam exercer autoridade de acor­ de Deus. Pedro teve fé suficiente para con­
do com sua Palavra. fessar que Jesus é o Filho de Deus, mas não
Os verbos gregos em Mateus 16:19 são para crer que era certo Jesus sofrer e mor­
extremamente importantes. Jesus não disse rer. É evidente que Satanás concordava com
que Deus obedeceria a tudo o que fizes­ as palavras de Pedro, pois havia usado a
sem na Terra, mas sim que deveriam fazer mesma abordagem para tentar Jesus no de­
na Terra tudo o que Deus já havia determi­ serto (Mt 4:8-10).
nado. A Igreja não impõe a vontade dos ho­ Hoje, a cruz simboliza o amor e o sa­
mens no céu, ela obedece à vontade de crifício. Mas, naquele tempo, era uma das
Deus na Terra. formas mais horríveis de castigo. Não era
Os apóstolos só deveriam falar dessas educado falar sobre a crucificação nos cír­
verdades sobre Jesus ser o Filho de Deus culos sociais romanos mais refinados. Na ver­
com as outras pessoas depois da ressurrei­ dade, nenhum cidadão romano poderia ser
ção e ascensão de Cristo. Então, o "sinal de crucificado, pois essa morte terrível era re­
Jonas" seria concluído, o Espírito seria en­ servada para os inimigos de Roma. Jesus ain­
viado, e a mensagem seria proclamada. A da não havia dito especificamente que seria
nação em geral, e por certo seus líderes reli­ crucificado (faz essa declaração em M t
giosos em especial, não estavam preparados 20:17-19), mas as palavras a seguir enfati­
para essa mensagem. Ao ler o sermão de zavam a cruz.
Pedro em Pentecostes, é possível vê-lo pro­ Jesus apresenta aos seus discípulos duas
clamar Jesus como o Cristo (At 2). formas de encarar a vida:

4. U m a fé p r e s t a t iv a - C r is t o e seu s
s e g u id o r e s (M t 1 6 :2 1 - 2 8 ) Negar-se a si mesmo Viver para si mesmo
Depois de declarar sua identidade, Jesus Tomar a sua cruz Ignorar a cruz
declara suas obras, pois as duas coisas de­ Seguir a Cristo Seguir o mundo
vem andar juntas. Ele iria para Jerusalém, Perder a vida Salvar a vida por
sofreria, morreria e seria ressuscitado den­ por ele si mesmo
tre os mortos. Essa é a primeira afirmação Abandonar o mundo Ganhar o mundo
explícita que faz de sua morte, apesar de Manter sua alma Perder sua alma
tê-la mencionado anteriormente (Mt 12:39, Participar das Perder as recompensas
40; 16:4; Jo 2:19; 3:14; 6:51). "E isto ele recompensas e glória e glória
expunha claramente" (M c 8:32),
A resposta de Pedro a essa asserção cho­ Negar-se a si mesmo não significa negar
cante sem dúvida representa os sentimen­ coisas materiais, mas sim se entregar intei­
tos de todo o grupo: "Tem compaixão de ramente a Cristo e compartilhar de sua hu­
ti, Senhor; isso de modo algum te aconte­ m ilhação e morte. Paulo descreve esse
cerá". Nesse momento, Jesus se volta para processo em Romanos 12:1, 2, em Filipenses
Pedro e exclama: "Arreda, Satanás! Tu és 3:7-10 e em Gálatas 2:20. Tomar a cruz não
para mim pedra de tropeço". Pedro, a "pe­ significa carregar fardos ou ter problemas
dra" que havia acabado de ser abençoada (certa vez, uma senhora me disse que sua
(M t 16:18), transforma-se em Pedro, a cruz era a asma!). Tomar a cruz significa iden­
"pedra de tropeço" que não era uma bên­ tificar-se com Cristo em sua rejeição, vergo­
ção para Jesus! nha, sofrimento e morte.
M A T E U S 16 77

Porém, o sofrimento sempre conduz à gló­ (M t 16:28). Essa declaração se cumpriria em


ria. E por isso que Jesus encerra esse sermão uma semana no monte da Transfiguração,
curto com uma referência a seu reino glorioso conforme descrito no capítulo seguinte.
lagarta constrói um casulo e depois sai de
14 dentro dele na forma de uma borboleta, deu­
se um processo de metamorfose. A glória
de nosso Senhor não refletiu algo exterior,
A G l ó r ia d o R ei mas sim, irradiou algo interior. Houve uma
mudança exterior que veio de dentro de Je­
M ateu s 1 7 sus e fez com que sua glória essencial res­
plandecesse (Hb 1:3).
Por certo, esse acontecimento serviria
para fortalecer a fé dos discípulos, especial­
mente de Pedro, o qual havia confessado
pouco tempo antes que Jesus era o Filho de
ste capítulo começa com uma cena glo­ Deus. Sua confissão de fé não teria sido tão
E riosa no alto de um monte e termina com
Pedro pegando um peixe para pagar seus
significativa se ele a tivesse feito depois da
transfiguração. Pedro creu, confessou sua fé
impostos. Que contraste! No entanto, Jesus e recebeu confirmação (ver Jo 11:40; Hb
Cristo, o Rei, é o tema do capítulo todo. Os 11 :6 ).
três acontecimentos deste capítulo ofere­ Muitos anos depois, João relembrou este
cem três imagens do Rei. acontecimento quando o Espírito o inspirou
a escrever: "E o Verbo se fez carne e habi­
1. O R ei e m s u a g l ó r ia tou entre nós, cheio de graça e de verdade,
(Mt 17:1-13) e vimos a sua glória, gfória como do unigê-
De acordo com Mateus e Marcos, a transfi­ nito do Pai" (Jo 1:14). Em seu Evangelho, João
guração aconteceu "seis dias depois", en­ enfatiza a divindade de Cristo e a glória de
quanto Lucas diz "cerca de oito dias depois" sua pessoa (Jo 2:11; 7:39; 11:4; 12:23; 13:31,
(Lc 9:28). Não há contradição, uma vez que 32; 20:31).
o relato de Lucas é o equivalente judeu a Quando veio à Terra, Jesus Cristo dei­
"cerca de uma semana depois". Durante essa xou de lado sua glória (Jo 17:5). Por causa
semana, os discípulos devem ter discutido o de sua obra consumada na cruz, recebeu
significado das declarações de Jesus sobre de volta sua glória, que hoje compartilha
sua morte e ressurreição. Por certo, também conosco (Jo 17:22, 24). No entanto, não pre­
estavam se perguntando o que aconteceria cisamos esperar pelo céu para participar
com as profecias do Antigo Testamento a dessa "glória da transfiguração". Quando nos
respeito do reino. Se Jesus pretendia cons­ entregamos a Deus, ele "transfigura" nossa
truir uma Igreja, o que aconteceria com o mente (Rm 12:1, 2). Ao nos sujeitarmos ao
reino prometido? Espírito de Deus, ele nos transforma (trans­
O texto não diz o nome do lugar em figura) "de glória em glória" (2 Co 3:18). Ao
que esse milagre ocorreu, mas é provável examinarmos a Palavra de Deus, vemos o Fi­
que tenha sido no monte Hermom, perto lho de Deus e somos transfigurados pelo
de Cesaréia de Filipe. Espírito de Deus na glória de Deus.
A transfiguração revelou quatro aspec­ A glória de seu reino. No encerramento
tos da glória de Jesus Cristo o Rei. de seu sermão sobre tomar a cruz, Jesus pro­
A g lória de sua Pessoa. Tanto quanto meteu que alguns de seus discípulos veriam
sabemos pelos relatos bíblicos, essa foi a "o Filho do Homem no seu reino" (M t 16:28).
única vez que Jesus revelou sua glória de tal Selecionou Pedro, Tiago e João para testemu­
forma durante seu ministério aqui na Terra. nhar esse acontecimento. Esses três amigos
A palavra traduzida por transfiguração dá e sócios (Lc 5:10) haviam acom panhado
origem a nosso termo "metamorfose", que Jesus à casa de Jairo (Lc 8:51) e, posterior­
significa uma mudança exterior provinda de mente, estariam com ele no jardim do Getsê-
uma transformação interior. Quando uma mani, antes da crucificação (ver M t 26:37).
M A T E U S 17 79

G . Cam pbell Morgan cham a a atenção Seu sofrimento e morte não seriam um aci­
para o fato de que, nessas três ocasiões, o dente, mas uma conquista. Pedro usa a pala­
assunto principal foi a m orte. Jesus estava vra partida ao descrever sua morte iminente
ensinando a estes três homens que ele é vi­ (2 Pe 1:15). Para o cristão, a morte não é
torioso sobre a morte (ressuscitou a filha de uma estrada de mão única para o esqueci­
Jairo) e se entregou à morte (no jardim). A mento. Antes, é uma partida, um êxodo, a
transfiguração ensinou que ele foi glorifica- libertação da escravidão desta vida para a
do na morte. gloriosa liberdade da vida no céu.
A presença de M oisés e de Elias foi sig­ Pelo fato de Cristo ter morrido e pago o
nificativa, pois M oisés representava a Lei e preço, pudemos ser redimidos: com prados
Elias os Profetas. Toda a Lei e os Profetas e libertados. O s dois discípulos de Emaús
apontam para Cristo e se cumprem em Cris­ esperavam que Jesus libertasse a nação da
to (Lc 24:27; Hb 1:1). Nenhum a palavra do escravidão rom ana (Lc 24:21). Jesus não
Antigo Testam ento deixará de ser cum pri­ morreu para oferecer liberdade política, mas
da. O reino prom etido será estabelecido (Lc sim para conced er liberdade espiritual: fo­
1:32, 33, 68-77). Assim com o esses três dis­ mos libertos do sistema do mundo (G l 1:4),
cípulos viram Jesus glorificado na Terra, tam­ de uma vida fútil e sem propósito (1 Pe 1:18)
bém o povo de Deus o veria em seu reino e da iniqüidade (Tt 2:14). Nossa redenção
glorioso na Terra (Ap 19:11 - 20:6). em Cristo é decisiva e definitiva.
Pedro aprendeu essa lição e nunca mais A g ló ria de sua subm issão. Pedro não
a esqueceu. "N ós mesmos fomos testemu­ conseguia entender por que o Filho de Deus
nhas oculares da sua majestade [...] Temos, se sujeitaria a homens perversos e sofreria
assim, tanto mais confirm ada a palavra pro­ voluntariamente. Deus usou a transfiguração
fética" (ver 2 Pe 1:12ss). A experiência de para ensinar a Pedro que Jesus é glorificado
Pedro no monte apenas fortaleceu sua fé quando negamos a nós mesmos, tomamos
nas profecias do Antigo Testamento. O mais nossa cruz e o seguimos. A filosofia do mun­
im portante não é testemunhar grandes fei­ do é: "salve sua vida!", mas a filosofia cristã
tos e prodígios, mas ouvir a Palavra de Deus. é: "entregue sua vida a D eus!" Ao se colo­
"Este é o meu Filho amado, em quem me car diante deles em glória, Jesus provou aos
com prazo; a ele ouvi" (M t 17:5). três discípulos que a entrega sempre con­
Todos os que são nascidos de novo per­ duz à glória. Prim eiro o sofrimento, depois
tencem ao reino de Deus (Jo 3:3-5). Trata-se a glória; primeiro a cruz, depois a coroa.
de um reino espiritual, separado das coisas Cada um dos três discípulos viveria essa
materiais deste mundo (Rm 14:1 7). M as um importante verdade. Tiago seria o primeiro
dia, quando Jesus voltar, haverá um reino dos discípulos a m orrer (At 12:1, 2). João
glorioso por mil anos (Ap 20:1-7), com Jesus seria o último, mas enfrentaria perseguições
Cristo governando com o Rei. O s que cre- intensas na ilha de Patmos (A p 1:9). Pedro
rem nele reinarão com ele na Terra (Ap 5:10). passaria por muitas aflições e, no final, daria
A g ló ria de sua cruz. O s discípulos preci­ sua vida por Cristo (Jo 21:15-19; 2 Pe 1:12).
savam aprender que o sofrimento e a glória Pedro opôs-se à cruz quando Jesus men­
andam juntos. Pedro não queria que Jesus cionou sua m orte pela prim eira vez (M t
fosse a Jerusalém para morrer, de modo que 16:22ss). N o jardim, usou sua espada para
Jesus teve de ensinar-lhe que, sem seu sofri­ defender o M estre (Jo 18:10). Até mesmo
mento e morte, não haveria glória. Sem dú­ no monte da transfiguração, Pedro tentou
vida, Pedro aprendeu a lição, pois em sua dizer a Jesus o que fazer, pois queria cons­
primeira epístola enfatiza repetidam ente o truir ali três tendas, uma para Jesus, outra
sofrimento e a glória (1 Pe 1:6-8,11; 4:12 - para M oisés e outra para Elias, para que
5:11). todos permanecessem ali e desfrutassem a
M oisés e Elias conversaram com Jesus glória! M as o Pai interrompeu a Pedro e deu
80 M A T E U S 17

permite que seu Filho amado seja colocado no chão com freqüência, espumando e ran­
no mesmo nível que Moisés e Elias. "A nin­ gendo os dentes, depois ficando com o cor­
guém [...] senão Jesus", esse é o padrão de po todo rígido. Lucas diz que o menino era
Deus (Mt 17:8). filho único e que gritava ao entrar em con­
Enquanto descia o monte com seus três vulsões. Apesar de alguns desses sintomas
discípulos, Jesus advertiu-os a não revelar poderem ter causas naturais, o menino esta­
o que haviam visto, nem mesmo aos ou­ va à mercê de um demônio. Uma vez que
tros discípulos. Mas os três homens ainda os discípulos não conseguiram fazer coisa
estavam perplexos. Haviam aprendido que alguma, não é de se admirar que o pai te­
Elias viria primeiro em preparação para a nha se ajoelhado aos pés de Jesus.
fundação do reino. A presença de Elias no A primeira reação de Jesus foi uma triste­
monte seria o cumprimento dessa profecia? za profunda. Ao olhar para seus discípulos
(M l 4:5, 6). envergonhados, para os escribas argumen­
Jesus responde a essa pergunta de duas tando e para o pai necessitado e seu filho, o
maneiras. Sim, Elias viria conforme profeti­ Mestre gemeu em seu íntimo e disse: "Até
zado em Malaquias 4:5, 6, mas, em termos quando estarei convosco e vos sofrerei?" (Lc
espirituais, Elias já havia vindo na pessoa de 9:41). A incredulidade e a perversidade es­
João Batista (ver M t 11:10-15; Lc 1:17). A piritual deles era um peso para Jesus. Fico
nação permitiu que João fosse executado e imaginando como Jesus se sente ao olhar
pediria que Jesus fosse morto. Apesar de para os cristãos fracos de hoje...
tudo o que os líderes perversos fariam, Deus Jesus libertou o menino e ordenou que
realizaria seu plano. o demônio nunca mais retornasse àquele
Quando se dará a vinda de Elias para corpo (M c 9:25). O demônio tentou ainda
restaurar todas as coisas? Alguns acreditam uma "última cartada" (como disse Spurgeon)
que Elias virá como uma das "duas testemu­ para que a multidão pensasse que o menino
nhas", cujo ministério é descrito em Apo­ estava morto (M c 9:26). Mas Jesus levantou
calipse 11. Outros acreditam que a profecia o menino e o entregou a seu pai, enquanto
foi cumprida no ministério de João Batista a multidão, maravilhada, dava glórias a Deus
e, dessa forma, Elias não virá outra vez. (Lc 9:43).
Os nove discípulos deveriam ter sido
2. O R ei e s e u p o d e r (Mt 17:14-21) capazes de expulsar o demônio. Jesus lhes
Passamos da montanha da glória para o vale dera poder e autoridade (M t 10:1, 8), mas,
da necessidade. A aparição repentina de de alguma forma, haviam perdido esse po­
Jesus e de seus três discípulos surpreendeu der! Quando perguntaram a Jesus qual ha­
a multidão (M c 9:15). Um pai havia levado via sido a causa dessa derrota vergonhosa,
o filho endemoninhado aos nove discípulos, ele respondeu: falta de fé (M t 17:20), falta
implorando que o curassem, mas eles não de oração (M c 9:29) e falta de disciplina (Mt
puderam. Os escribas viram o que aconte­ 17:21, apesar de esse versículo não ser en­
ceu e estavam usando o insucesso dos dis­ contrado em vários manuscritos).
cípulos para discutir com eles. Enquanto os Talvez os nove discípulos estivessem com
escribas faziam acusações e os discípulos ciúme por não terem sido chamados para
se defendiam, o demônio estava quase ma­ subir ao monte com Jesus. É possível que,
tando o menino indefeso. durante a ausência de Jesus, tenham se aco­
Quando comparamos os relatos dos modado e deixado de orar, enfraquecendo,
Evangelhos dessa cena dramática, descobri­ desse modo, sua fé, ficando despreparados
mos que esse filho único estava de fato em para a crise que surgiu. Como Sansão, saí­
grande perigo. De acordo com Mateus, o ram para a batalha sem perceber que não
menino enfermo era epilético e suicida, ati­ tinham forças (Jz 16:20). Seu exempio mos­
rando-se repetidamente no fogo ou na água. tra como precisamos estar sempre espiri­
Marcos o descreve como um mudo, que caía tualmente saudáveis.
M ATEUS 17 81

A expresse "fé com o um grão de mos­ Pedro não era capaz de controlar o peixe
tarda" sugere não apenas o tam anho (Deus nem de encontrar o dinheiro. Jesus Cristo
honrará até mesmo uma pequena fé), mas exerceu domínio não apenas sobre peixes,
também vida e crescim ento. Ter fé com o uma mas também sobre os animais terrestres (M t
semente de mostarda é ter uma fé viva ali­ 21:1-7) e sobre os pássaros (M t 26:34, 74,
mentada para crescer. A fé deve ser cultiva­ 75). Jesus Cristo recuperou com sua obediên­
da a fim de que cresça e realize feitos ainda cia aquilo que Adão perdeu por causa de
mais poderosos para Deus (1 Ts 3:10; 2 Ts sua desobediência (H b 2:6).
1:3). Se os nove tivessem se mantido firmes O s cristãos de hoje não possuem domí­
na oração, na disciplina pessoal e na medi­ nio total sobre a natureza, mas, um dia, reina­
tação na Palavra, teriam sido capazes de remos com Cristo e dominaremos com ele.
expulsar o dem ônio e de salvar o menino. Enquanto isso, Deus cuida de seus filhos e
Toda essa cena ilustra o que Jesus fará providencia para que a natureza trabalhe em
quando deixar a glória do céu e vier para a favor dos que confiam e obedecem .
Terra. Derrotará Satanás e o manterá cativo É o único milagre que Jesus realizou
por mil anos (Ap 20:1-6). para suprir as próprias necessidades. Sata­
nás havia tentado Cristo a usar seus pode­
3. O Rei e m s u a h u m il d a d e res divinos para si mesmo (M t 4:3, 4), mas
(M t 17:22-27) Jesus havia recusado. Nesse caso, porém,
Pela segunda vez, Jesus fala de sua morte e não usou seus poderes só em benefício pró­
ressurreição. O s discípulos estavam profun­ prio, pois havia outras pessoas envolvidas
dam ente angustiados e com medo de lhe no milagre. Jesus explica que o milagre foi
pedir mais detalhes sobre o assunto. Q uan­ realizado "Para que não os escandalizem os".
do Jesus voltou à vida no terceiro dia, os Não queria que as pessoas se ofendessem
discípulos não acreditaram nos relatos da vendo um judeu deixar de contribuir para o
ressurreição, pois se esqueceram das pro­ ministério no templo. É verdade que Jesus
messas de seu M estre (M c 16:14). M as os não hesitou em quebrar as tradições huma­
inimigos de Jesus se lembraram daquilo que nas dos fariseus, mas teve o cuidado de obe­
ele havia dito (Jo 2:19) e agiram de acordo decer à lei de Deus.
(M t 27:62-66). Com o cristãos, não devem os usar nossa
Q u e paradoxo: um Rei tão pobre que liberdade em Cristo para fazer mai a outros
não tinha duas dracmas para pagar o impos­ nem para destruí-los. Teoricam ente, Jesus
to anual do tem plo! Convém observar as não precisava pagar o im posto, mas, por
características singulares desse milagre. motivos práticos, pagou assim mesmo. Tam­
É registrado apenas por Mateus. O ex- bém incluiu o imposto de Pedro para que o
coletor de im postos, M ateus, escreveu o testemunho deles não fosse prejudicado.
Evangelho do Rei, e esse milagre confirma a É o único milagre envolvendo dinhei­
realeza de nosso Senhor. O s reis humanos ro. Um a vez que M ateus havia sido coletor
não cobram tributos de seus filhos. Jesus afir­ de impostos, não é de surpreender que te­
mou estar livre do imposto, pois era o Filho nha dem onstrado interesse particular por
do Rei, o Filho de Deus. Com o Filho de Deus, esse milagre. O imposto em questão havia
era pobre dem ais para pagar até mesmo sido instituído no tem po de M o isés (Êx
duas dracmas, e seus discípulos também não 30:11ss). O dinheiro da primeira coleta foi
tinham recursos. Assim, Jesus exercitou sua usado para fazer as bases de prata onde
soberania sobre a natureza para suprir essa eram encaixadas as colunas do tabernáculo
necessidade. (Êx 38:25-27). Posteriormente, o imposto arre­
Deus deu a Adão e Eva domínio sobre a cadado passou a ser usado para a m anu­
natureza, inclusive sobre os peixes do mar tenção do tabernáculo e do tem plo. Esse
(G n 1:26; St 8:6-8). O homem perdeu esse dinheiro deveria ajudar os judeus a lembram
82 M A T E U S 17

egípcia. Os cristãos foram remidos pelo san­ Jesus conhecia as necessidades de Pedro
gue precioso de Cristo (1 Pe 1:18, 19). e supriu todas elas. Ao entrar em casa, Pedro
É o único m ilagre em que Jesus usou estava certo de que seu problema seria re­
apenas um peixe. Jesus havia multiplicado solvido, mas antes que pudesse dizer a seu
os peixes para Pedro (Lc 5:1-11) e voltaria a Mestre o que fazer, Jesus o instruiu como
fazê-lo em ocasião posterior (Jo 2 Ί : 1ss). proceder! Deus, o Pai, havia interrompido
Nesse caso, porém, usou apenas um peixe. Pedro no monte (M t 17:5), e aqui Deus, o
A complexidade desse milagre é impres­ Filho, interrompeu-o em casa. Se deixarmos
sionante. Primeiro, alguém teve de perder jesus nos instruir, ele suprirá nossas necessi­
uma moeda na água. Depois, o peixe teve dades para sua glória.
de pegar aquela moeda e de retê-la em sua É o único m ilagre cujo resultado não
boca. Na seqüência, mesmo levando uma se encontra registrado. Seria de se esperar
moeda na boca, esse mesmo peixe teve de que o texto continuasse o relato, dizendo
morder o anzol que Pedro jogou na água e algo como: "E Pedro foi ao mar, jogou o
teve de ser fisgado. A complexidade dessa anzol e fisgou o peixe; depois abriu a boca
série de acontecimentos não permite que do peixe e encontrou lá uma moeda, a qual
sejam atribuídos ao acaso. usou para pagar o imposto dele e de Je­
É um dentre vários m ilagres realizados sus...". No entanto, Mateus 17:28 não exis­
em favor de Pedro. Não sabemos como os te. Como sabemos, então, que o milagre
outros discípulos pagaram o imposto. Esse realmente aconteceu? Porque Jesus afirmou
foi um dos vários milagres que Jesus reali­ que aconteceria! "Nem uma só palavra falhou
zou por Pedro. O Senhor curou a sogra do de todas as suas boas promessas" (1 Rs
apóstolo (M c 1:29-34), ajudou-o em sua 8:56).
pescaria (Lc 5:1-11), permitiu que andasse A fé de Pedro nessa situação é louvável.
sobre as águas (M t 14:22-33), curou a ore­ Quem vivia à beira-mar estava acostumado
lha de Malco (M t 26:47-56; Lc 22:50, 51) e a vê-lo com uma rede nas mãos, não com
livrou Pedro da prisão (At 12:1ss). Não é de um anzol. Mas Pedro creu na Palavra de
se admirar que Pedro tenha escrito: "Lan­ Deus, e Deus honrou sua fé. Se confiarmos
çando sobre ele as vossas ansiedades, por­ no Rei, ele suprirá nossas necessidades ao
que ele tem cuidado de vós" (1 Pe 5:7). obedecermos à sua Palavra.
com o Senhor e até mesmo recebera o di­
15 nheiro para pagar seus impostos por meio
de um milagre.
O fato de Jesus haver compartilhado com
A R epreen sã o do R ei seus discípulos acerca de seu futuro sofri­
mento e morte não causara o devido im­
M a t eu s 18 p acto sobre a vid a deles. C o n tin u avam
pensando apenas em si mesmos e nos car­
gos que ocupariam no reino. Estavam tão
absortos com essa questão que chegaram a
discutir entre si! (Lc 29:46).
O egoísm o e a desunião do povo de
or que alguns filhos de Deus têm tan­
P
Deus são um escândalo para a fé cristã. A
ta dificuldade em se entender? Li um causa principal desses problemas é o orgu­
poem a que expressa perfeitam ente esse lho: alguém se julgar mais importante do que
problema: realmente é. Foi o orgulho que conduziu o
homem ao pecado logo no princípio (G n
Viver no céu, com os santos que amamos, 3:5). Q uando cristãos vivem para si mesmos
Certamente será uma glória. e não para os outros, é inevitável que haja
Viver na Terra, com os santos que conhe­ conflitos e divisões (Fp 2:1 ss).
cemos, O exem plo de hum ildade (w . 2-6, 10­
Isso é outra história! 14). O s discípulos aguardaram com ansie­
dade que Jesus dissesse quem era o maior
Diante de tanta divisão e dissensão entre entre eles. M as Jesus ignorou-os com pleta­
cristãos professos hoje, precisamos encare- m ente e cham ou uma criança para perto
cidam ente daquilo que M ateus 18 tem a nos deles. Essa criança era o exemplo da verda­
ensinar. Jesus repreendeu seus discípulos por deira grandeza.
seu orgulho e desejo de grandeza aqui na Hum ildade sincera envolve conhecer a
Terra e lhes falou de três elementos essen­ si mesmo, aceitar a si mesmo e ser autên­
ciais para a harmonia e unidade entre o povo tico, dando o m elhor de si mesmo para a
de Deus. glória de Deus. Significa evitar dois extre­
mos: pensar menos de si mesmo (com o fez
1. H u m il d a d e (M t 18:1-14) M oisés quando Deus o chamou, Êx 3:11 ss)
Alguém definiu humildade muito apropria­ ou pensar mais de si mesmo (Rm 12:3). A
damente com o "a graça que, quando você pessoa verdadeiram ente humilde não nega
sabe que a possui, acabou de perdê-la!". os dons que Deus lhe deu, mas os emprega
Também afirmou corretamente: "A verdadei­ para a glória do Senhor.
ra humildade não é pensar em si mesmo de Q uan do não é m im ada, uma criança
modo depreciativo; antes, é simplesmente possui as características que constituem a
nem pensar em si mesmo". verdadeira hum ildade: confiança (M t 18:6),
A n e cessid a d e de h u m ild a d e (v. 1). dependência, desejo de fazer os outros fe­
"Q uem é, porventura, o maior no reino dos lizes, ausência de arrogância e de desejos
céus?" - trata-se de um assunto que sempre egoístas de ser maior do que os outros. Por
voltava à baila nas conversas entre os discí­ natureza, todos somos rebeldes e querem os
pulos, sendo m encionado várias vezes ao ser celebridades em vez de servos. As li­
longo dos Evangelhos. É bem provável que ções da hum ildade requerem um longo
os últimos acontecim entos tenham agrava­ aprendizado.
do esse problema, especialm ente com refe­ O s discípulos desejavam saber quem
rência a Pedro. Afinal, ele andara sobre as era o m aior no reino, mas Jesus advertiu-os
84 M A T E U S 18

entrar no reinol Teriam, antes, de se conver­ deve ser removida de minha vida, pois do
ter - mudar sua forma de pensar - ou nem contrário farei outros tropeçarem. Jesus ha­
chegariam às portas do céu. via proferido palavras semelhantes no Ser­
Tudo indica que, nestes versículos, Jesus mão do Monte (M t 5:29, 30). Paulo usa o
está combinando dois conceitos: uma crian­ olho, a mão e o pé para ilustrar a dependên­
ça humana como um exemplo de humildade cia mútua dos membros do corpo do Cristo
e um filho de Deus, qualquer que seja a sua (1 Co 12:14-1 7).
idade. Como cristãos, devemos não apenas A humildade começa com a introspec-
aceitar os pequeninos por causa de Jesus, ção e continua com a abnegação. Jesus não
mas também receber todos os filhos de Deus está sugerindo que mutilemos nosso corpo,
e procurar lhes ministrar (Rm 14:1ss). Levar pois ferir o corpo físico não muda a condi­
uma criança a pecar ou desviá-la do cami­ ção espiritual de nosso coração. Antes, está
nho é algo muito sério. E igualmente sério nos instruindo a fazer uma "cirurgia espiri­
fazer com que outro cristão tropece por cau­ tual", removendo tudo o que seja um tro­
sa de nosso mau testemunho (Rm 14:13ss; peço para nós e para os outros. A pessoa
1 Co 8:9ss). A pessoa verdadeiramente hu­ humilde vive primeiramente para Jesus e de­
milde pensa sempre nos outros, e nunca em pois para os outros, colocando-se sempre
si mesma. em último lugar. Fica contente em ser capaz
Jesus explica que podemos ter quatro de abdicar de coisas boas para fazer o ou­
atitudes diferentes em relação às crianças e, tro feliz. Talvez o melhor comentário sobre
conseqüentemente, em relação à verdadei­ isso se encontre em Filipenses 2:1-18.
ra humildade. Podemos nos esforçar para nos
tornarmos como crianças (M t 18:3, 4) em 2 . H o n e s t i d a d e (M t 1 8 :1 5 - 2 0 )
humildade, como para o Senhor. Podemos Nem sempre praticamos a humildade. Há
apenas recebê-las (M t 18:5), porque Jesus consciência de que, deliberada ou incons­
nos ordenou que assim fizéssemos. Se não cientemente, ofendemos e prejudicamos os
tivermos cuidado, também podemos fazer outros. Até mesmo a Lei do Antigo Testamen­
com que tropecem (M t 18:6) e, por fim, po­ to reconhece os "pecados por ignorância"
demos acabar desprezando-as (Mt 18:10). (Nm 15:22), e Davi orou para ser liberto das
É perigoso desprezar as crianças, pois "faltas ocultas" (SI 19:12), ou seja, das "faltas
Deus as tem em alta consideração. Quando que estão ocultas até dos próprios olhos".
nos tornamos como crianças (ou seja, cris­ O que devemos fazer quando outro cristão
tãos verdadeiros), recebemos a Cristo (Mt peca contra nós ou nos faz tropeçar? Jesus
18:5). O Pai cuida delas e os anjos zelam dá várias instruções.
por elas (M t 18:10). Assim como o bom pas­ M anter a questão no âm bito particular.
tor, Deus busca os perdidos e os salva, e Devemos abordar a pessoa que pecou e
não devemos impedi-los. Um pastor que vai conversar com ela a sós. E possível que essa
atrás de uma ovelha adulta se preocupará pessoa nem tenha consciência daquilo que
ainda mais com um carneirinho! fez. Ou, ainda que tenha agido delibera­
Nestes dias de negligência e de abuso damente, nossa atitude de submissão e de
de crianças, devemos levar a sério essa ad­ amor pode ajudá-la a se arrepender e a pe­
vertência de Jesus. É melhor afogar-se no mar dir perdão. Acima de tudo, devemos pro­
com uma pedra amarrada ao pescoço do curar a pessoa com o objetivo de ganhar
que abusar de uma criança e encarar o juízo nosso irmão, não de ganhar uma discussão.
de Deus (M t 18:6). Não é difícil ganhar uma discussão e perder
O custo da hum ildade (w . 7-9). A pes­ um irmão.
soa verdadeiramente humilde ajuda a edificar Ao procurar restaurar um irmão ou irmã,
os outros, não a derrubá-los. É uma pedra é necessário ter um espírito manso e gentil
de apoio, não uma pedra de tropeço. Sendo (Gl 6:1). Não se deve condenar quem nos
assim, qualquer coisa que me faz tropeçar ofendeu nem fazer fofocas a seu respeito,
M A T E U S 18 85

mas sim tentar ajudá-lo com todo amor, da de Deus precisam de disciplina na igreja. Se
mesma forma com o gostaríamos que alguém a ofensa chegar ao conhecim ento de toda a
nos ajudasse se tivéssemos errado. A pala­ igreja e, mesmo assim, o ofensor não mu­
vra corrigir, usada em Gálatas 6:1, é um ter­ dar de idéia nem se arrepender, deverá ser
mo m édico grego que significa "reparar um disciplinado. Não pode ser tratado com o um
osso fraturado", procedim ento que exige irmão espiritual, pois ele abriu mão dessa
paciência e grande cuidado. posição. Só pode ser tratado com o alguém
P e d ir ajuda a outros. Se o ofensor re­ de fora, sem ser odiado, mas também sem
cusar-se a proceder corretamente, estamos com unhão com os outros.
liberados para com partilhar o fardo com um M a n te r o c a rá te r e s p iritu a I da ig reja
ou dois irmãos. Devem os com partilhar os lo c a l (w . 18-20). Antes de disciplinar um
fatos de acordo com nosso ponto de vista e membro, a congregação local deve estar na
pedir o conselho desses irmãos tementes a melhor condição espiritual possível. Q uan­
Deus. Afinal, tam bém é possível que nós do uma igreja disciplina um membro, está,
estejamos errados. Se os irmãos verificarem na verdade, examinando e disciplinando a
que estamos corretos, então, juntos, pode­ si mesma. Por isso Jesus acrescenta estas
mos procurar o ofensor e tentar mais uma palavras sobre autoridade, oração e com u­
vez ganhá-lo com o irmão. Esses irmãos não nhão. Ninguém pode disciplinar os outros
apenas podem nos ajudar com orações e se não se disciplinar a si mesmo. Tudo o que
persuasão com o também podem servir de ligamos (permitimos) na congregação deve,
testemunhas para a igreja acerca da veraci­ antes, ser perm itido por Deus (ver os co­
dade dessa conversa (D t 19:15; 2 Co 13:1). mentários em M t 16:19).
O pecado que não é tratado com ho­ A igreja deve estar sob a autoridade da
nestidade sempre se espalha. Aquilo que era Palavra de Deus. O s cristãos não devem dis­
uma questão entre duas pessoas passará a ciplinar os irmãos com a atitude de policiais
envolver quatro ou cinco. N ão é de se ad­ intimidando criminosos. Pelo contrário: pela
mirar que Jesus e Paulo tenham com parado disciplina, vemos Deus exercer sua autorida­
0 pecado ao fermento, pois cresce rapida­ de dentro da igreja local e, por m eio desta,
mente. restaurar um de seus filhos em pecado.
P e d ir a ajuda da igreja. Devem os nos Com a autoridade da Palavra, também
lembrar de que o objetivo não é ganhar a deve haver oração (M t 18:19). A palavra
discussão, mas sim ganhar um irmão. A pa­ concordar, no grego, corresponde ao ter­
lavra ganhar, em Mateus 18:15, é usada em mo "sinfonia". A igreja deve concordar em
1 Coríntios 9:19-22 com referência a ganhar oração ao buscar disciplinar um m em bro
os pecadores, mas tam bém é im portante ofensor. É através da oração e da Palavra
ganhar os salvos. É a segunda vez que Jesus que descobrim os a vontade do Pai sobre a
m enciona a igreja (ver M t 16:18), e, nesse questão.
caso, a designação refere-se à congregação Po r fim , d eve h aver co m u n h ão (M t
local de cristãos. Um a vez que os discípulos 18:20). A igreja local deve ser uma com u­
de nosso Senhor foram criados na sinagoga nidade de adoração que reconhece a pre­
judaica, estavam familiarizados com a disci­ sença do Senhor em seu meio. O Espírito
plina congregacional. Santo de Deus pode convencer do pecado
O que com eçou com o um problem a tanto o ofensor quanto a igreja, e pode até
particular entre duas pessoas é, agora, aber­ mesmo julgar o pecado no m eio da congre­
to para a igreja toda. A disciplina na igreja é gação (At 5).
um m inistério negligenciado nos dias de H á uma necessidade prem ente de ho­
hoje. N o entanto, é ensinado aqui e nas nestidade na Igreja de hoje. "Falar a verda­
epístolas (ver 1 Co 5; 2 Ts 3:6-16; 2 Tm 2:23­ de em am or" (Ef 4:1 5) é o padrão de Deus.
26; Tt 3:10). Assim com o as crianças preci­ O amor sem verdade é hipocrisia, enquanto
sam de disciplina em casa, também os filhos a verdade sem am or é brutalidade. Jesus
86 M ATEUS 18

sempre ensinou a verdade em amor. Se a perdoar pelo menos sete vezes. Afinal, os
verdade dói, é porque: "Leais são as feridas rabinos ensinavam que era suficiente per­
feitas pelo que ama" (Pv 27:6). doar apenas três vezes.
No entanto, não devemos nos esquecer A resposta de Jesus: "até setenta vezes
de que a humildade deve vir antes da ho­ sete" (490 vezes) deve ter espantado Pedro.
nestidade. Um cristão orgulhoso não será Quem poderia manter um registro de tantas
capaz de falar a verdade em amor, pois usará ofensas? Mas era justamente isso o que Je­
o erro de um irmão como arma de comba­ sus desejava lhe mostrar: o amor "não se
te, não como instrumento de edificação. O ressente do mal" (1 Co 13:5). Quando tiver­
resultado será apenas desarmonia e discór­ mos perdoado um irmão tantas vezes, tere­
dia ainda maiores. mos formado o hábito de perdoar.
O primeiro problema interno a surgir na Porém, Jesus não estava aconselhando
Igreja do Novo Testamento foi a desones­ um perdão indiferente ou superficial. O amor
tidade (At 5). Ananias e Safira tentaram fa­ cristão não é cego (Fp 1:9, 10), e o perdão
zer os membros da igreja acreditarem que que Cristo requer faz parte do fundamento
eles eram mais espirituais do que de fato das instruções que o Mestre ensinou em
eram. Mentiram a si mesmos ao pensar que Mateus 18:15-20. Se um irmão é culpado
poderiam ficar impunes depois de sua farsa; de um pecado repetidas vezes, sem dúvida
mentiram aos irmãos em Cristo e aos líderes encontrará a força e o poder de que precisa
da igreja; e tentaram mentir para o Espírito para vencer esse pecado se receber estímu­
Santo. O resultado foi julgamento e morte. lo de irmãos amorosos e clementes. Ao con­
Deus pode não dar cabo de todos os hipócri­ denar um irmão, só o incentivamos a mostrar
tas da Igreja hoje, mas, sem dúvida alguma, o que tem de pior. Mas, ao criar um ambiente
a hipocrisia contribui para a desintegração de amor e de perdão, podemos ajudar Deus
da Igreja. a revelar o que há de melhor nesse irmão.
O segundo problema interno (At 6) dizia A parábola ilustra o poder do perdão. É
respeito à negligência. Os membros e líde­ importante observar que essa parábola não
res enfrentaram esse problema com sinceri­ é sobre a salvação, pois a saívação é total­
dade e amor, e o resultado foi uma bênção. mente incondicional e gratuita. Transformar
O amor e a verdade são essenciais, mas o perdão de Deus em algo temporário é vio­
ambos devem ser usados com humildade. lar a própria verdade das Escrituras (Rm 5:8;
Ef 2:8, 9; Tt 3:3-7). A parábola trata do per­
3 . P e r d ã o (M t 1 8 :2 1 - 3 5 ) dão entre irmãos, não entre os pecadores e
Quando começamos a viver num ambiente Deus. A ênfase deste capítulo é sobre irmãos
de humildade e de honestidade, devemos perdoando irmãos (Mt 18:15, 21).
esperar alguns riscos e perigos. Se a humil­ Era um devedor (vv. 23-27). O homem
dade e a honestidade não resultarem em da parábola estava roubando do rei e, de­
perdão, os relacionamentos não podem ser pois de uma auditoria contábil, seu crime
reparados e fortalecidos. Pedro reconheceu foi descoberto. A arrecadação total dos im­
os riscos envolvidos e perguntou a Jesus postos na Palestina daquele tempo era de
como poderia lidar com eles no futuro. oitocentos talentos anuais, de modo que
Sua pergunta, porém, revelou alguns podemos ter uma idéia da desonestidade
erros graves. Para começar, faltou-lhe humil­ desse homem. Se atualizado, esse valor pro­
dade. Estava certo de que seu irmão pecaria vavelmente eqüivaleria a mais de dez milhões
contra ele novamente, mas achou que ele de dólares.
não ofenderia seu irmão! O segundo erro Porém, o homem pensou ser possível li­
de Pedro foi pedir limites e medidas. Onde vrar-se dessa dívida e disse ao rei que seria
há amor, não há limites nem dimensões (Ef capaz de saldá-la, caso tivesse mais tempo.
3:17-19). Pedro pensou estar demonstran­ Vemos aqui dois pecados: orgulho e falta
do grande fé e amor ao se oferecer para de arrependimento sincero. O homem não
M A T E U S 18 87

estava com vergonha por ter roubado o di­ condenada. Afinal, foi o pai quem abusou
nheiro, mas sim por ter sido descoberto. do outro servo e ignorou a bondade do rei.)
Além disso, se considerava poderoso o su­ A pior prisão do mundo é a prisão de
ficiente para ganhar o dinheiro que havia um coração rancoroso. Se nos recusarmos
roubado. C onvém lem brar que, naquele a perdoar os outros, tornamo-nos nossos
tempo, um homem do povo precisava tra­ próprios carcereiros e a causa dos tormen­
balhar vinte anos para receber um talento. tos que sofremos. Algumas das pessoas mais
Seu caso não tinha solução, exceto por infelizes com as quais me deparo no minis­
um detalhe: o rei era um homem compassi­ tério são indivíduos incapazes de perdoar
vo. Aceitou o prejuízo e perdoou o servo. os outros. Vivem para imaginar formas de
Assim, o homem ficou livre, e ele e sua famí­ castigar os que os feriram. Na verdade, po­
lia não seriam jogados na prisão. O servo rém, estão apenas prejudicando a si mesmos.
não m erecia ser perdoado; o perdão foi um Q ual era o problema desse homem? O
ato do mais puro amor e misericórdia por mesmo de muitos cristãos professos: pessoas
parte de seu senhor. desse tipo receberam o perdão, mas não
Era um cred o r (vv. 28-30). O servo dei­ experim entaram esse perdão no mais pro­
xou a presença do rei e, posteriorm ente, fundo do coração. Assim, são incapazes de
encontrou outro servo que lhe devia cem compartilhar o perdão com aqueles que os
denários. Um trabalhador comum ganhava ofendem. Q uando vivem os apenas de acor­
cerca de cinco centavos por dia, de modo do com a justiça, sempre buscando o que
que essa quantia era insignificante, se com ­ nos é de direito, condenam o-nos a viver
parada à que o primeiro servo havia rouba­ numa prisão. M as se viverm os de acordo
do de seu senhor. Em vez de compartilhar com o perdão, com partilhando com os ou­
com esse amigo a alegria do perdão que tros aquilo que Deus nos concedeu, des­
havia recebido, o servo perdoado maltratou- frutaremos de alegria e de liberdade. Pedro
o e exigiu que pagasse a dívida. O segundo pediu uma medida justa, e Jesus lhe disse
servo usou o mesmo argumento que o pri­ para praticar o perdão e esquecer a medida.
meiro havia usado com o rei: "Tenha paciên­ A adm oestação de Jesus é extremamen­
cia comigo, e eu lhe pagarei o que devo!" te séria. Ele não disse que Deus salva apenas
M as o servo injusto não estava disposto a os que perdoam os outros. O tema desta
conceder a outros aquilo que desejava que parábola não é a salvação dos pecadores,
lhe concedessem . mas sim o perdão entre irmãos. Jesus adver­
Talvez tivesse o direito legal de jogar esse te que Deus não pode nos perdoar se não
homem na prisão, mas não tinha o direito tiverm os um coração hum iide e contrito. É
m oral. Um a vez que havia sido perdoado, pela forma de tratar os outros que revela­
não deveria também perdoar seu próximo? mos a verdadeira condição de nosso cora­
Sua família e ele haviam sido poupados da ção. Q uando nosso coração é hum ilde e
vergonha e do sofrimento da prisão. Acaso contrito, perdoam os nossos irm ãos com
não deveria também poupar o outro servo prazer. M as onde há orgulho e desejo de
e sua família? vingança não pode haver verdadeiro arre­
Tornou-se um p risio n eiro (w . 31-34). O pendimento, o que significa, também, que
rei o havia livrado da prisão, mas o servo Deus não pode nos perdoar.
condenou a si mesmo, exercendo justiça e Em outras palavras, não basta receber o
jogando o amigo na prisão. "V o cê deseja perdão de Deus ou mesmo o perdão dos
viver segundo a justiça?", perguntou o rei. outros. Devem os experim entar esse perdão
"En tão vam os fazer justiça! Joguem este no coração, de modo a nos tornarmos humil­
homem perverso na prisão e torturem-no! des, mansos e clementes para com os outros.
Farei com ele o mesmo que ele fez com os O servo desta parábola não experimentou
outros!" (O texto não dá qualquer indica­ o perdão e a hum ildade de m aneira mais
ção de que a fam ília tam bém tenha sido profunda; sim plesm ente ficou feliz por ter
88 M A T E U S 18

escapado de uma grande enrascada. Nunca perdoou" (Ef 4:32). "Suportai-vos uns aos ou­
chegou a se arrepender de fato. tros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém
"Antes, sede uns para com os outros be­ tenha motivo de queixa contra outrem. As­
nignos, compassivos, perdoando-vos uns aos sim como o Senhor vos perdoou, assim tam­
outros, como também Deus, em Cristo, vos bém perdoai vós" (Cl 3:13).
com panheira que fosse sua igual e com a
16 qual pudesse experimentar a plenitude.
O casamento permite a perpetuação da
raça humana. "Sed e fecundos, multiplicai-
A s In stru ç õ es do R ei vos" (G n 1:28) foi o mandamento de Deus
ao primeiro casal. Desde o com eço, Deus
M a t eu s 19:1-15 ordenou que o sexo fosse praticado dentro
da relação com prom etida do casam ento.
Fora do casam ento, o sexo torna-se uma
força destrutiva, mas dentro do compromis­
so amoroso do matrimônio, pode ser criati­
vo e construtivo.
período de "afastam ento" do Rei es­ O casamento é uma das formas de evi­
O tava prestes a terminar. O s ataques de
seus inimigos se tornariam mais intenso, cul­
tar pecados sexuais (1 Co 7:1-6). É evidente
que um homem não deve se casar apenas
minando com sua prisão e crucificação. O s para legalizar sua concupiscência! Aquele
líderes religiosos já haviam tentado, sem su­ que se entrega aos desejos lascivos antes
cesso, pegá-lo em suas armadilhas, usando do casamento, certamente, continuará a fa­
perguntas sobre o sábado e sobre sinais. Ten­ zer o mesmo depois. Esse tipo de pessoa
taram novam ente, dessa vez com o tema não deve ter a ilusão de que o casamento
extremamente polêm ico do divórcio. resolverá todos os seus problemas pessoais
Trata-se de uma questão igualm ente com a lascívia. No entanto, o casamento é
importante e controversa nos dias de hoje. a forma que Deus criou para o homem e a
O número de divórcios continua a crescer mulher desfrutarem, em conjunto, os praze-
(quando da publicação desta obra, a estatís­ res físicos do sexo.
tica nos Estados Unidos era de 1 divórcio Paulo usa o casam ento com o ilustração
para cada 1,8), e o divórcio infiltrou-se até da relação íntima entre Cristo e a Igreja (Ef
nos lares de líderes cristãos. Alguém com en­ 5:22, 23). Assim com o Eva saiu da costela
tou que os casais "se casam para o que der de Adão (G n 2:21), também a Igreja nasceu
e vier, mas nunca para sem pre". Devem os do sofrimento e m orte de Cristo na cruz.
exam inar novam ente o que Jesus ensina Cristo ama sua Igreja; ele a purifica, cuida
sobre esse assunto. O M estre explica qua­ dela e a nutre com sua Palavra. A relação de
tro leis com respeito ao casam ento e ao Cristo com sua Igreja é o exemplo a ser se­
divórcio. guido por todos os maridos.
A s c a ra c te rístic a s do casam ento. A o
1. A LEI O R IG IN A L D A C R IA Ç Ã O retornar à lei original do Éden, Jesus lembra
(M t 19:3-6) seus ouvintes das verdadeiras características
Em vez de voltar a Deuteronôm io, Jesus vol­ do casam ento. Se m antiverm os vivas na
tou a Gênesis. Aquilo que Deus fez quando m em ória essas características, saberem os
instituiu o primeiro casam ento ensina, por com o construir um casamento mais feliz e
afirm ação, o que ele imaginava para um ho­ duradouro.
mem e uma mulher. Ao construir um casa­ É uma união instituída por Deus. Deus
mento segundo o padrão ideal de Deus, não instituiu o casam ento, assim som ente ele
é preciso preocupar-se com o divórcio. pode controlar seu caráter e suas leis. Não
O s m otivos p ara o casam ento. A única há legislação ou tribunal capaz de anular
coisa que não foi considerada "b o a" na cria­ aquilo que Deus instituiu.
ção foi o fato de o homem estar sozinho É uma união física. O homem e a mulher
(G n 2:18). A mulher foi criada para suprir tornam-se "um a só carne". Apesar de ser im­
essa necessidade. Adão não poderia ter co­ portante que o marido e a esposa tenham uma
munhão com os animais. Precisava de uma só mente e coração, a união fundamental
90 M A T E U S 19:1 -Ί 5

do casamento é física. Se um homem e uma ao povo de Israel e não se aplica à Igreja de


mulher se tornassem "um só espírito" no hoje). Não se deve imaginar que, por viver­
casamento, a morte não poderia dissolver o mos "sob a graça", poderemos fazer pouco
casamento, pois o espírito nunca morre. da lei de Deus e escapar impunes. "Deus
Mesmo se um homem e uma mulher discor­ julgará os impuros e adúlteros" (Hb 13:4).
dam, são "incompatíveis" e não conseguem No entanto, em sua discussão sobre o
entender-se, continuam sendo casados, pois adultério, Jesus tocou um nível muito mais
a união é física. profundo. Mostrou que pode ser um peca­
Ê uma união permanente. A intenção ori­ do tanto do coração quanto do corpo. Não
ginal de Deus era que um homem e uma basta simplesmente controlar o corpo; de­
mulher passassem a vida juntos. A idéia de vemos também controlar os pensamentos e
"morar juntos para ver se dá certo" não faz desejos interiores. Olhar para uma mulher
parte da lei original de Deus, pois ele exige com desejos lascivos é cometer adultério no
que o marido e a esposa comprometam-se coração. Isso não significa que não pode­
irrestritamente com a união do casamento. mos admirar a beleza de uma pessoa ou de
É uma união entre um homem e uma uma fotografia, pois é possível fazer isso sem
mulher. Deus não criou dois homens e duas pecar. É quando olhamos com a intenção
mulheres, ou duas mulheres e um homem, de satisfazer desejos lascivos que comete­
somente dois homens ou somente duas mos adultério no coração.
mulheres. Não importa o que psicólogos e Uma vida sexual santificada começa com
juristas digam, a poligamia, a união entre gays os desejos mais íntimos. Jesus escolhe como
e outras variações são contrárias à vontade exemplos o olho e a mão, pois ver e sentir
de Deus. são geralmente os primeiros passos em dire­
ção ao pecado sexual. É evidente que não
2 .0 SÉTIMO M ANDAM ENTO (Mt 5í27-30) ordenou que fizéssemos uma cirurgia física,
Apesar de Jesus não se referir ao sétimo pois estava tratando claramente dos dese­
mandamento nessa discussão, ele é citado jos interiores. Antes, ordenou que tomemos
no Sermão do Monte (M t 5:27-32). Vamos medidas drásticas para tratar do pecado, a
examinar o que disse. fim de remover de nossa vida qualquer coi­
Tanto Jesus quanto os autores do Novo sa que alimente nossos desejos impuros.
Testamento asseveram a autoridade da Devemos "ter fome e sede de retidão".
injunção: "Não adulterarás" (Êx 20:14). O ter­ Jesus não alterou a lei do Éden com re­
mo impureza e seus correlates referem-se a lação ao casamento nem anulou o sétimo
vários tipos de atividades sexuais (ver M c mandamento. O que ensinou encontrava-se
7:21; Rm 1:29; 1 Co 6:13), mas o adultério solidamente fundamentado na criação de
diz respeito somente a indivíduos casados. Deus e na lei moral divina.
Quando uma pessoa casada tem relações
sexuais com outra pessoa que não seja seu 3. A LEI M O SAICA ACERCA D O D IV Ó R C IO
cônjuge, isso é adultério, e Deus declarou (M t 19:7, 8)
que é errado e pecaminoso. O Novo Testa­ Como tantas pessoas que gostam de "dis­
mento traz inúmeras advertências sobre os cutir religião", os fariseus não estavam in­
pecados sexuais, inclusive o adultério (At teressados em descobrir a verdade, mas
15:20; 1 Co 6:15-18; Gl 5:19ss; Ef 4:1 7ss; apenas em defender a si mesmos e suas con­
5:3-12; Cl 3:5; 1 Ts 4:3-7; Hb 13:4). vicções. Foi esse desejo que os levou a
Esse mandamento assevera a santida­ perguntar sobre a lei judaica do divórcio
de do sexo. Deus criou o casamento, o pro­ registrada em Deuteronômio 24:1-4.
tege e castiga quando sua lei é violada. Nove Algumas versões da Bíblia deixam claro
dos dez mandamentos são repetidos no An­ que Moisés deu apenas um mandamento: a
tigo Testamento, e devemos atentar para eles esposa divorciada não poderia voltar para o
(o mandamento do sábado foi dado somente primeiro marido, caso fosse rejeitada pelo
M A T E U S 19:1-15 91

segundo marido. M oisés não ordenou o di­ descritos em Números 5:1 Iss. Não se pode
vórcio; apenas o permitiu. Ordenou que o mais seguir esses procedimentos (que, sem
marido desse à ex-esposa uma carta de di­ dúvida, incluíam elementos de julgam ento
vórcio; mas, caso a esposa se casasse e se divino), pois não há mais sacerdócio nem
divorciasse novamente, não poderia voltar tabernáculo.
ao primeiro marido. É importante lembrar que a lei de Moisés
Trata-se de uma lei extremamente sábia, determinava a pena de m orte para os que
pois, para começar, o marido pensaria duas cometessem adultério (Lv 20:10; Dt 22:22).
vezes antes de se livrar apressadamente de O s inimigos de Jesus lançaram mão dessa
sua esposa, uma vez que não poderia tê-la lei quando tentaram armar uma cilada para
de volta. Além disso, levaria tempo para achar ele (Jo 8:1). Em bora não haja registro no
um escriba (nem todos podiam redigir do­ Antigo Testamento de que alguém tenha sido
cumentos legais) e, durante esse período, o apedrejado por com eter adultério, essa era
casal separado poderia se reconciliar. O s a lei divina. A experiência de José (M t 1:18­
fariseus estavam in terp retan d o a lei de 25) indica que, ao tratarem de esposas adúl­
Moisés com o se fosse um mandamento. Je ­ teras, os judeus usavam o divórcio em vez
sus deixa claro que M oisés estava apenas do apedrejamento.
dando perm issão para o divórcio. Por que Deus ordenou que a pessoa
M as a que M oisés se referia com as pa­ adúltera fosse morta por apedrejamento? Por
lavras "ter ele achado coisa indecente nela"? certo, para servir de exemplo e para advertir
N o hebraico, isso quer dizer "alguma ques­ as pessoas, pois o adultério corrom pe a es­
tão de nudez", mas não se refere a pecado trutura da sociedade e da família. A fim de
sexual. Trata-se de um equivalente a "algo haver estabilidade na sociedade e na igreja,
vergonhoso" (ver Gn 2:25; 3:7, 10). A inter­ é preciso haver compromisso no casamen­
pretação dessa frase foi a causa da divisão to e fidelidade do marido para com a espo­
que deu origem às escolas do rabino Hillel sa bem com o do casal para com o Senhor.
e do rabino Sham m ai, estudiosos judeus Era necessário que Deus preservasse Israel,
conceituados do primeiro século. Hillel se­ pois o Salvador prometido descenderia dessa
guiu uma linha bastante liberal e afirmou que nação. Deus opôs-se ao divórcio em Israel,
o marido poderia divorciar-se da esposa por pois enfraquecia a nação e representava uma
quase qualquer razão, enquanto Shammai am eaça para o nascimento do Messias (ver
seguiu uma linha mais rigorosa, afirmando M l 2:10-16).
que Moisés estava falando somente de pe­ N o entanto, havia outro motivo para a
cado sexual. Q ualquer lado que Jesus esco­ pena capital: deixava o cônjuge fiel livre para
lhesse tomar partido seria motivo de ofensa se casar novamente. A morte rompe os la­
para alguém. ços do casamento, pois o casamento é uma
O s judeus possuíam várias leis referen­ união física (Rm 7:1-3). Era importante que
tes ao casamento e devemos examiná-las, a as famílias tivessem continuidade em Israel,
fim de ter uma melhor perspectiva. Se, por a fim de que pudessem proteger sua heran­
exemplo, um homem se casasse e desco­ ça (Nm 36).
brisse que sua esposa não era virgem, podia Antes de passar para a seção seguinte,
tornar público o pecado da mulher e pro­ convém observar um fato im portante: o
vid en ciar para que fosse apedrejada (D t divórcio que Moisés autoriza em Deutero-
22:13-21). É evidente que deveria ter pro­ nômio 24, na verdade, representa um rom pi­
vas disso, pois, do contrário, teria de pagar m ento da relação m atrim onial original. Deus
uma multa e não poderia jamais se divorciar permitia que a mulher se casasse novamente,
da esposa. Essa lei protegia tanto o homem e esse segundo casamento não era conside­
quanto a mulher. rado uma forma de adultério. Seu segundo
Se um homem suspeitasse de infidelidade companheiro era cham ado de "m arido", não
da esposa, deveria seguir os procedimentos de adúltero. Isso explica com o foi possível a
92 M A T E U S 1 9:1-1 5

mulher samaritana ter tido cinco maridos e, O casamento é uma união física perma­
ainda assim, estar vivendo com um homem nente que só pode ser rompida por uma
que não era seu marido (Jo 4:16-18). Ao que causa física: morte ou pecado sexual (a meu
parece, os cinco casamentos anteriores ha­ ver, o homossexualismo e a bestialidade tam­
viam sido legais e de acordo com as Escrituras. bém se aplicam). Os seres humanos não
Isso significa que o divórcio legal rompe podem romper a união, mas Deus pode. Sob
o relacionamento matrimonial. O homem a lei do Antigo Testamento, o pecador era
não pode romper esse relacionamento com apedrejado até a morte. Mas a igreja de hoje
suas próprias leis, mas Deus pode. O mes­ não empunha a espada (Rm 13:1-4). Acaso
mo Deus que dá as leis para unir as pessoas o adultério e a impureza sexual eram mais
também pode dar leis para separá-las. Trata- sérios sob a lei do que o são hoje? Claro que
se de algo que só pode ser feito por Deus, não! Hoje, tais pecados são ainda piores,
nunca pelos homens. quando consideramos a revelação comple­
Por fim, Jesus deixa claro que a lei ta da graça e santidade de Deus que temos
mosaica do divórcio era uma concessão da agora em Jesus Cristo.
parte de Deus. A lei original de Deus quan­ Ao que parece, podemos concluir que
to ao casamento não deixava espaço para o o divórcio no Novo Testamento é o equiva­
divórcio, mas essa lei começou a vigorar lente à morte no Antigo Testamento: libera
antes de o homem pecar. Em lugar de ter o cônjuge inocente para se casar novamente.
duas pessoas vivendo juntas em conflito É importante observar que a nova lei de
constante, com um dos cônjuges ou ambos casamento e divórcio instituída pelo Senhor
procurando satisfação fora do casamento, tem como fundamento três leis anteriores.
Deus preferiu permitir o divórcio. Esse divór­ Da lei do Éden, Jesus pegou o princípio de
cio incluía o direito de se casar novamente. que o casamento é uma união física que
Os fariseus não perguntaram sobre a possi­ somente pode ser rompida por uma causa
bilidade de casar novamente, pois esse não física e que apenas Deus tem poder de per­
era o problema. Aceitavam o fato de que as mitir o rompimento da união. Do sétimo
duas partes divorciadas procurariam outros mandamento, pegou o princípio de que o
cônjuges e de que isso era permitido por pecado sexual rompe, de fato, a união do
Moisés. casamento. E da lei mosaica do divórcio,
pegou o princípio de que Deus pode orde­
4 . A le i d o S e n h o r a c e r c a d o nar o divórcio e romper a união, e a parte
c a s a m e n to (M t 1 9 :9 - 1 2 ; 5 :3 1 , 3 2 ) livre pode casar-se novamente sem ser cul­
Com as palavras: "Eu, porém, vos digo", Je­ pada de adultério.
sus está afirmando ser Deus, pois somente Assim, Jesus ensina que há somente
Deus pode instituir ou alterar as leis do ca­ uma base legal para o divórcio: as relações
samento. Declara que o casamento é uma sexuais ilícitas. Se duas pessoas se divor­
união permanente que só pode ser rompi­ ciarem sob qualquer outro pretexto e se
da por causa de pecado sexual. A palavra casarem com outra pessoa, estarão come­
impureza, no Novo Testamento, abrange tendo adultério.
vários tipos de pecados sexuais, e sua defi­ Jesus não ensinou que o cônjuge ofendi­
nição como fornicação ou "pecado sexual do deve se divorciar. Sem dúvida, há espaço
entre duas pessoas não casadas" não se para o perdão, para a cura e para a restaura­
aplica a esse caso, pois Jesus está se refe­ ção do relacionamento rompido. Essa deve
rindo a pessoas casadas. Devemos imagi­ ser a abordagem cristã da questão. Infe­
nar que os 23 mil homens que se entrega­ lizmente, porém, por causa da dureza do
ram à lascívia em Baal-Peor (Nm 25) eram coração humano, há ocasiões em que se
todos solteiros? E a admoestação de Atos torna impossível curar as feridas e salvar o
15:20, 29 refere-se apenas aos membros casamento. O divórcio é o último recurso,
solteiros da igreja? não a primeira opção.
M A T E U S 19:1-15 93

Casam entos felizes não são acidentes, de seus pais idosos pode ser um exemplo
mas sim resultado de compromisso, amor, dessa categoria. Outros, com o o apóstolo
com preensão mútua, sacrifício e trabalho Paulo, perm anecem solteiros para m elhor
duro. Se um m arido e uma esposa estão servir ao Senhor (1 Co 7:7).
cum prindo os votos de seu casamento, des­ É bastante apropriado que os ensina­
frutarão de um relacionam ento cada vez mentos de Jesus acerca do casam ento se­
mais profundo que os satisfará e os manterá jam seguidos da bênção às crianças, pois as
fiéis um ao outro. Exceto pela possibilidade crianças são a herança maravilhosa dos que
de uma tentação repentina, nenhum marido se casam. Jesus não considerou as crianças
ou esposa cogitaria ter um relacionam ento uma m aldição ou um fardo. "D e modo que
extraconjugal, visto que seu relacionam en­ já não são mais dois, porém uma só carne"
to em casa é cada vez melhor e satisfatório. - esse conceito se cum pre na geração de
E o am or puro do marido e da esposa é uma filhos, e o am or dos pais aprofunda-se e ama­
excelente proteção até mesmo contra ten­ durece ao ser com partilhado com os outros
tações repentinas. membros da família.
A reação dos discípulos aos ensinamen­ O s pais levaram as crianças a Jesus para
tos de Cristo mostrou que não concordavam que fossem abençoadas. Essa passagem não
com ele. "S e não há nenhum jeito de pular se refere, de maneira alguma, ao batismo
fora de um casamento horrível, então é me­ nem mesmo à salvação, pois as crianças que
lhor perm anecer solteiro!", argumentaram. ainda não são capazes de prestar contas de
Jesus não queria que eles considerassem o seus atos (Is 7:16) sem dúvida alguma são
divórcio uma "solução", pois, se o fizessem, salvas pela morte de Cristo (Rm 5:1 7-21). As
não tratariam o casam ento com a devida crianças nascem pecadoras (SI 51:5), mas
seriedade. se morrem antes de poder prestar contas de
Em M ateus 19:12, Jesus deixa claro que seus atos, são regeneradas e levadas para o
cada homem (e mulher) deve considerar a céu (2 Sm 12:23; SI 23:6).
vontade de Deus com respeito ao casamen­ Essas crianças que Jesus pegou no colo
to. Algumas pessoas não devem se casar por e pelas quais orou certam ente foram privi­
causa de problemas físicos ou em ocionais legiadas. O costum e atual de consagrar nos­
congênitos. Outros não devem se casar por sos filhos ao Senhor procura seguir esse
causa de suas responsabilidades para com exemplo. Com o são felizes as crianças cujos
a so cied ad e - aqueles que foram feitos pais estão casados na vontade de Deus, pro­
"eunucos pelos hom ens" (M t 19:12). Um a curam obedecer ao Senhor e as levam até
filha ou filho único que deve tomar conta Jesus para serem abençoadas.
líderes religiosos na história, então suas pa­
17 lavras não têm mais peso do que qualquer
outro líder religioso. Mas se Jesus é bom,
então ele é Deus, e devemos atentar para o
As Ex ig ên c ia s do R ei que ele diz.
Por que Jesus trouxe à baila a questão
M ateus 1 9 :1 6 - 2 0 :3 4 dos mandamentos? Acaso ensinou que as
pessoas recebem a vida eterna ao obede­
cer à lei de Deus? Se alguém fosse capaz de
guardar os mandamentos, certamente rece­
beria a vida eterna. Acontece, porém, que
ninguém consegue guardar a lei de Deus
ão podemos seguir o Rei sem pagar perfeitamente, "visto que ninguém será
N um preço. Afinal, ele morreu na cruz
por nós! Temos, por acaso, o direito de es­
justificado diante dele por obras da lei, em
razão de que pela lei vem o pleno conhe­
capar do sacrifício e do sofrimento? Nesta cimento do pecado" {Rm 3:20). Jesus não
seção, Jesus explica aquilo que exige introduziu o assunto da lei para mostrar ao
justificadamente dos que desejam crer nele jovem como ser salvo, mas para mostrar-lhe
e ser seus discípulos. que precisava ser salvo. A lei é um espelho
que revela quem somos (Tg 1:22ss).
1. D evem o s a m a r a C r is t o a c im a de *Quais [m andam entos]?" (vv. 18, 19).
t o d a s a s c o is a s ( M t 1 9 :1 6 - 2 6 ) Será que o jovem estava sendo evasivo?
Este acontecimento é relatado nos três pri­ Creio que não, mas estava cometendo um
meiros Evangelhos. Quando combinamos os erro, pois uma parte da lei de Deus não pode
fatos, vemos que o homem era rico, jovem ser separada da outra. Classificar a lei de
e ocupava uma posição de liderança - pro­ Deus em "menor" ou "maior" é interpretar
vavelmente era o chefe da sinagoga. Pode­ incorretamente todo o propósito da lei. "Pois
mos, sem dúvida alguma, elogiá-lo por ter qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça
procurado Cristo publicamente para pergun­ em um só ponto, se torna culpado de to­
tar sobre questões exteriores. Ao que pare­ dos" (Tg 2:10). A lei representa a autoridade
ce, não tinha segundas intenções e estava de Deus, e desobedecer ao que pensamos
disposto a ouvir e a aprender. Infelizmente, ser uma lei menor é, ainda assim, rebelar-se
porém, tomou a decisão errada. contra a autoridade do Senhor.
"M estre, que farei eu de bom, para al­ Por certo, o jovem estava pensando so­
cançar a vida eternat" (w . 16, 17). Apesar mente na obediência exterior, pois se esque­
de sua abordagem à salvação ter por base ceu das atitudes do coração. Jesus havia
as obras, não a fé, fica claro que o jovem ensinado no Sermão do Monte que odiar
estava sendo sincero. Sua maneira de enca­ era o equivalente moral de cometer assassi­
rar a salvação não era diferente daquela de nato, e que a lascívia correspondia moral­
outros judeus de seu tempo. No entanto, mente ao adultério. Era muito bom o jovem
apesar de sua posição na sociedade, sua ter bons costumes e uma moral elevada, mas,
moralidade e sua religião, ele sentia clara infelizmente, não percebeu seu pecado nem
necessidade de algo mais. se arrependeu e creu em Cristo.
A resposta de Jesus, porém, não se con­ Jesus não citou o mandamento que se
centrou na salvação, mas levou o jovem a aplicava especificamente ao jovem: "Não
pensar seriamente sobre o significado da pa­ cobiçarás" (Êx 20:17). O rapaz deveria ter
lavra "bom" que havia usado ao se dirigir a refletido a respeito de todos os mandamen­
Jesus. "Bom só existe um", disse Jesus. "Você tos e não apenas daqueles que Jesus citou.
crê que eu sou bom e, portanto, que sou Será que estava procurando um discipulado
Deus?" Se Jesus é apenas mais um dos muitos fácil? Ou talvez sendo desonesto consigo
M A T E U S 19:16 - 2 0 :3 4 95

mesmo? Acredito que, a seu próprio ver, seu pensa nem no m edo do castigo; antes, é
testemunho foi sincero. N o entanto, ele não m otivado pelo amor. Em sua vida e seus
permitiu que a luz da Palavra penetrasse mais ensinam entos, Jesus procurou mostrar às
a fundo. Jesus sentiu um amor repentino pelo pessoas que as bênçãos espirituais interio­
jovem (M c 10:21), de modo que continuou res são muito mais importantes do que o
tentando ajudá-lo. lucro material. Deus vê o coração e quer
"Que me falta aindai" (w . 20-22). Em construir o caráter. A salvação é uma dádiva
parte alguma da Bíblia somos ensinados que de Deus em resposta à fé do ser humano.
um pecador é salvo ao vender seus bens e As riquezas materiais não são garantia de
doá-los aos pobres. Jesus nunca disse a que Deus se agrada de alguém.
Nicodem os para fazer isso, nem a qualquer Um a vez que eram judeus zelosos, os
outro pecador cuja história se encontre re­ discípulos ficaram espantados com as decla­
gistrada nos Evangelhos. Jesus sabia que o rações de Jesus quanto às riquezas. A per­
rapaz era cobiçoso e amava as riquezas. Ao gunta que fazem reflete sua teologia: "Se
lhe pedir que desse tudo aos pobres, Jesus um homem rico não pode ser salvo, então
o obrigou a examinar seu coração e estabe­ que esperança há para nós?" É evidente que
lecer suas prioridades. M esm o com todas Jesus não disse que possuir bens materiais
as suas qualidades tão louváveis, o jovem constitui um im pedim ento para entrar no
continuava não amando a Deus de todo o reino. Alguns manuscritos de M arcos 10:24
coração. O s bens eram seu deus, e foi inca­ dizem "quão difícil é para os que confiam
paz de obedecer à ordem : "vai, vende ... nas riquezas entrar no reino de D eus!" Esse
vem e segue-me". é, sem dúvida, o sentido dos ensinamentos
O jovem saiu muito angustiado, mas po­ de Jesus. Abraão era um homem extrema­
deria ter saído alegre e em paz. É impossível mente rico e, ainda assim, foi um homem
amar e servir a dois mestres ao mesmo tem­ de grande fé. É bom possuir coisas mate­
po (M t 6:24ss). Podemos estar certos de que, riais, desde que as riquezas não exerçam
longe de Cristo, até as possessões materiais domínio sobre nós.
da vida não proporcionam alegria e prazer Não podemos seguir o Rei e viver para
permanentes. É bom ter coisas que o dinhei­ as riquezas do mundo. N ão podemos servir
ro pode comprar, desde que não percamos a Deus e ao dinheiro. O amor ao dinheiro é
de vista aquilo que não pode ser comprado. a raiz de todos os males (1 Tm 6:6-10). Jesus
A menos que aquele líder abastado tenha, Cristo requer de todos os que desejam se­
posteriormente, se voltado para Cristo, mor­ gui-lo um am or supremo.
reu sem salvação e passou a ser um dos
homens mais "ricos" do cemitério. 2 . D e v e m o s o b e d e c e r a ele sem
*Quem pode ser salvo?" (w . 23-26). O r e s e r v a s ( M t 19:27 - 20:16)
povo judeu daqueles dias acreditava que a Pedro não tardou em perceber o contraste
riqueza era uma evidência das bênçãos de entre o jovem rico e os discípulos pobres:
Deus. Para isso, tomavam por base as pro­ "Eis que nós tudo deixamos e te seguimos;
messas dadas por Deus à nação judaica no que será, pois, de nós?" (M t 19:27). Jesus
com eço de sua história. Por certo, Deus pro­ lhes dá uma promessa maravilhosa de recom­
meteu bênçãos m ateriais, caso seu povo pensas tanto nesta vida quanto na próxima.
fosse obediente, e também perda material, O s discípulos teriam até mesmo tronos no
caso desobedecesse (ver Dt 26 - 28). No estabelecim ento do reino de Cristo. Seriam
com eço da existência de seu povo, a única recompensados cem vezes mais com tudo
forma eficaz de fazê-los obedecer era atra­ de bom que tivessem renunciado por amor
vés de recompensas e castigos. É assim que a ele. Em outras palavras, não estavam fazen­
ensinamos as crianças pequenas. do um sacrifício, mas sim um investimento.
N o entanto, o grau mais elevado de obe­ Entretanto, nem todos os dividendos seriam
diência não se baseia no desejo de recom­ recebidos nesta vida.
96 M A T EU S 19:1 6 - 20:34

Jesus, porém, sentiu que havia na per­ seu salário: quatro denários pelo dia de tra­
gunta de Pedro a possibilidade de uma balho. Quando os homens contratados ao
motivação errada para servir. Por isso, acres­ meio-dia também receberam um denário,
centou a advertência de que alguém que se isso cortou o salário deles pela metade, ape­
considerasse o primeiro a seus próprios oihos nas dois denários.
seria o último no juízo final, enquanto os Mas, então, o dono da vinha pagou ape­
últimos seriam os primeiros. Essa verdade é nas um denário a cada um. E evidente que
exemplificada na parábola dos trabalhado­ reclamaram! Mas não tinham como argu­
res na vinha. mentar, pois haviam concordado em tra­
Essa parábola não tem relação alguma balhar por um denário e receberam o que
com a salvação. O denário (um dia de tra­ pediram. Se tivessem confiado na bondade
balho naquele tempo) não representa a sal­ do proprietário, poderiam ter recebido um
vação, pois ninguém é capaz de trabalhar salário muito maior, mas insistiram num
para merecer sua salvação. Também não contrato.
trata de recompensas, pois não vamos re­ A lição para os discípulos de Cristo fica
ceber todos a mesma recompensa. "Cada clara. Não devemos servi-lo por esperar
um receberá o seu galardão, segundo o seu recompensas nem insistir em saber o que
próprio trabalho" (1 Co 3:8). receberemos. Deus é infinitamente genero­
Antes, a parábola enfatiza a atitude cor­ so e bondoso e sempre nos dará mais do
reta no serviço. É importante observar que que merecemos.
dois tipos diferentes de trabalhadores foram Agora podemos entender os perigos
chamados a trabalhar naquele dia: aqueles ocultos na pergunta de Pedro em Mateus
que fizeram um contrato com o emprega­ 19:27. Em primeiro lugar, não devemos "su­
dor e concordaram em trabalhar por um por" (Mt 20:10) que receberemos mais quan­
denário ao dia e os que não fizeram contra­ do, na verdade, não merecemos. É possível
to algum e concordaram em receber o que fazer o trabalho do Pai e, ainda assim, não
o proprietário achasse justo pagar. Os pri­ fazer a vontade dele de coração (Ef 6:6).
meiros trabalhadores insistiram em fazer um Servi-lo apenas em função de benefícios
contrato. (temporais e eternos) é perder as melhores
Isso se explica porque o dono da casa bênçãos que ele tem para nós. Devemos
pagou os trabalhadores dos últimos para os confiar no Senhor sem reservas e crer que
primeiros: desejava que os chamados primei­ sempre nos dará o melhor.
ro (que insistiram em ser contratados) vis­ Há, ainda, o perigo do orgulho, "Q ue
sem quanto havia pago aos trabalhadores será, pois, de nós?", perguntou Pedro. Essa
chamados por último. Foi uma forma de parábola serviu para adverti-lo com a per­
mostrar aos primeiros quão generoso ele era. gunta: "Com o você sabe que receberá
Podemos nos colocar no lugar dos tra­ alguma coisa?" Em se tratando das recom­
balhadores chamados primeiro que só foram pensas de Deus, é melhor não ser excessi­
pagos por último. Todos esperavam receber vamente confiantes, pois aqueles que, a seus
um denário, pois era o que haviam concor­ olhos (e aos olhos dos outros), estão em pri­
dado em aceitar. Imaginemos, então, a sur­ meiro lugar podem terminar em último!
presa deles quando viram os trabalhadores Semelhantemente, não devemos desanimar,
que foram chamados por último receber tam­ pois os que se consideram "servos inúteis"
bém um denário cada! Isso significava que podem terminar em primeiro lugar.
o salário dos primeiros deveria ser de pelos Devemos ter cuidado ao observar outros
menos doze denários cada! trabalhadores e comparar resultados. "Nada
Mas os trabalhadores das três da tarde julgueis antes do tempo"; essa é a advertên­
também receberam um denário - por apenas cia de Paulo em 1 Coríntios 4:5. Vemos ape­
três horas de trabalho. O homem que esta­ nas o trabalho e o trabalhador, mas Deus vê
va por último na fila recalculou rapidamente o coração.
M A T E U S 1 9:1 6 - 20:34 97

Por fim, deve-se ter o cuidado de não sabeis o que pedis", respondeu Jesus. Salomé
criticar a Deus nem de sentir-se prejudica­ não sabia que o cam inho até o trono era
do. Se os prim eiros trabalhadores da ma­ difícil. Tiago foi o primeiro dos discípulos a
drugada tivessem confiado no proprietário ser martirizado, e João teve de suportar um
e não tivessem exigido um contrato, o dono exílio penoso na ilha de Patmos. Esses três
lhes teria dado muito mais. Era generoso, cristãos desejavam que se fizesse a vontade
mas não confiaram nele. N ão se alegraram deles, não a de Deus, e que tudo ocorresse
com os outros que receberam mais; pelo á maneira deles.
contrário, ficaram com inveja e reclamaram. Outro elemento que podemos observar
A bondade do dono não os levou ao arre­ é a falta de visão celestial, pois estavam pen­
pendim ento (Rm 2:4), mas revelou o verda­ sando em termos mundanos: Tiago e João
deiro caráter do coração deles: egoísmo! desejavam "reinar" sobre os outros discípulos
Sem pre que encontram os um servo quei­ da mesma forma que os gentios não salvos
xoso, significa que não está inteiram ente reinavam sobre seus subalternos. Seu pedi­
sujeito à vontade do mestre. do foi carnal e egoísta, pois estavam pedindo
glória para si mesmos, não para o Senhor.
3. D e v e m o s g l o r i f i c á - l o Sem dúvida, ficaram contentes por terem
c o m p le t a m e n t e ( M t 20:17-34) conseguido apresentar seu pedido a Jesus
Pela terceira vez, Jesus anuncia sua prisão, antes que Pedro tivesse a oportunidade de
crucificação e ressurreição (ver M t 16:21; fazê-lo!
1 7:22). Na declaração anterior, não havia Por fim, o pedido não foi apenas mun­
especificado com o morreria. Mas, agora, fala dano e carnal, mas também diabólico, pois
explicitamente da cruz. Também deixa cla­ foi motivado pelo orgulho. Satanás almejou
ro que ressuscitaria, mas essa mensagem não um trono (Is 14:12-15) e foi expulso, e ofe­
penetra o coração dos discípulos. receu a Jesus um trono que foi recusado (M t
Em contraste a esse anúncio de sofrimen­ 4:8-11). Satanás destaca o fim (um trono),
to e de morte, vemos o pedido de Tiago e mas não os m eios para alcançá-lo. Jesus ad­
de João e da mãe deles, Salomé. Jesus falou vertiu Salom é e seus filhos de que os tronos
sobre uma cruz, mas eles estavam mais inte­ especiais seriam concedidos somente aos
ressados numa coroa. Desejavam reservar que fossem dignos deles. Não há atalhos no
para si tronos especiais! Temos a impressão reino de Deus.
de que era Salom é quem estava interessada O resultado desse pedido foi a "indigna­
em promover os filhos. ção" da parte dos outros dez discípulos -
Antes de criticar essa atitude, convém provavelmente porque não haviam pensado
observarm os alguns elem entos louváveis nisso antes! A sabedoria celestial sempre
que surgem nesse episódio. Dentre outras conduz à paz, e a sabedoria deste mundo
coisas, vem os que os discípulos acredita­ conduz à guerra (Tg 3:13 - 4:3). O egoísmo
vam na oração e tiveram coragem de crer promove a dissensão e a divisão.
na promessa que Jesus havia dado sobre Esse desacordo deu a Jesus a oportu­
assentarem-se no trono (M t 19:28). A pala­ nidade de ensinar uma lição prática de li­
vra "regeneração", nesse versículo, signifi­ derança. Em seu reino, não se deve seguir
ca "novo nascim ento" e se refere ao novo os exemplos do mundo. Nosso exemplo é
mundo sobre o qual Jesus e seus seguido­ Jesus, não algum diretor de empresa ou ce­
res reinarão quando ele voltar à Terra. Foi lebridade. Jesus veio com o servo, e assim
preciso fé para crer que Jesus estabeleceria devemos servir uns aos outros. Veio para dar
esses tronos, pois seu M estre havia acaba­ sua vida, e devemos dedicar a nossa para
do de dizer que morreria. servir ao Senhor e aos outros.
No entanto, o pedido também se mos­ A palavra servo em Mateus 20:27 signifi­
tra equivocado em vários aspectos. Em pri­ ca "um escravo" e dá origem a nosso termo
m eiro lugar, nasceu da ignorância. "N ã o diácono. Nem todo servo é escravo, mas
98 M A T EU S 1 9:1 6 - 20:34

todo escravo é servo. É triste ver na igreja 19:25: "E junto à cruz estavam a mãe de
hoje muitas celebridades, mas poucos servos. Jesus, e a irmã dela"), participando da dor e
Há muitos querendo "exercer autoridade" (Mt sofrimentos dele. Ela não viu Jesus ladeado
20:25), mas poucos dispostos a pegar a ba­ de tronos, mas sim de dois ladrões em suas
cia e a toalha para lavar os pés dos outros. cruzes. Ouviu Jesus dar João, o filho dela, a
A chave para a grandeza não está na Maria, a mãe dele. O egoísmo de Salomé
posição ou no poder, mas no caráter. Não foi censurado, e ela aceitou humildemente
recebemos um trono apenas orando com a correção.
os lábios, mas sim pagando com a vida. De­ O acontecimento final de Mateus 20 é
vemos nos identificar com Jesus Cristo em a cura de Bartimeu e de seu amigo, ambos
seu serviço e sofrimento, pois nem mesmo cegos (ver M c 10:46-52). Aqui, Jesus coloca
ele pôde alcançar o trono sem antes passar em prática aquilo que havia acabado de
pela cruz. O melhor comentário sobre isso ensinar a seus discípulos e se torna um ser­
pode ser encontrado em Filipenses 2:1-18. vo desses dois mendigos cegos. A multidão
A fim de aprimorar a oração, é preciso ao redor de Jesus tentou fazer os dois ho­
aperfeiçoar o serviço. Ao servir a Jesus e aos mens se calarem. Afinal, que direito tinham
outros, nossas orações não são egoístas. de se dirigir ao grande Mestre? Mas Jesus
Quem diz com sinceridade: "Fala, Senhor, teve compaixão deles e os curou. Serviu até
porque teu servo ouve", então ele diz: "Fala, mesmo os mendigos.
servo, pois teu Senhor te escuta". Se nossas Este capítulo apresenta preceitos difíceis
orações não nos aperfeiçoam no serviço ao de entender e de colocar em prática. Quem
Senhor, então há algo de errado com elas. ama as coisas do mundo não pode amar a
Nossas orações nos tornam mais tratá- Deus completamente. Quem não se sujei­
veis? Os dois discípulos oraram com egoís­ tar a sua vontade não é capaz de obedecer
mo e criaram um grande alvoroço! Nossas a ele sem reservas. Quem busca glória pa­
orações nos tornam mais semelhantes a Je­ ra si ou se comparar com outros não pode
sus Cristo? Elas nos custam algo? Orar segun­ glorificá-lo.
do a vontade de Deus não significa fuga, E impossível reconhecer Jesus como Rei
mas envolvimento. Se nossas orações não se não o amarmos acima de tudo, se não
nos aproximam da cruz, estão fora da von­ obedecermos a ele sem reservas e se não o
tade de Deus. glorificarmos completamente. Se fizermos
Salomé aprendeu a lição. Quando Jesus tudo isso, compartilharemos de sua vida e
foi crucificado, estava perto da cruz (Jo alegria e, um dia, reinaremos com ele!
Mateus também omite "justo e salvador".
18 A visita de Jesus a Jerusalém foi um ato de
m isericórdia e de graça, não de justiça e
juízo. Ele ofereceu a salvação, mas o povo
O s Ju íz o s do R ei se recusou a aceitá-la (Jo 1:11). Da próxima
vez que Jerusalém vir o Rei, ele chegará
M a t eu s 21:1 — 2 2 :1 4 cavalgando com grande poder e glória (Ap
19:11 ss)!
Esse jumentinho nunca havia sido mon­
tado (M c 11:2), mesmo assim aceitou hu­
mildemente carregar seu fardo. Sem dúvida,
a presença da mãe ajudou, mas não pode­
ntramos agora na quarta seção principal mos esquecer que Jesus é o Rei que tem
E do Evangelho de M ateus, "A Rejeição
do Rei." Nesta seção (M t 21:1 - 22:14), o
"dom ínio sobre [...] ovelhas e bois, todos, e
também os animais do cam po" (SI 8:6, 7).
Senhor Jesus revela os pecados de Israel e O fato de Jesus ter montando nesse animal
explica por que os líderes religiosos o rejei­ e de tê-lo mantido sob controle é outra evi­
taram e a sua mensagem. dência de sua realeza.
Essa apresentação pública cumpriu ou­
1 . C e g u e i r a e s p ir it u a l ( M t 2 1 : 1 - 1 1 ) tro propósito: forçou os líderes judeus a agir.
Um a vez que era a Páscoa dos judeus, ha­ Q uando viram a manifestação espontânea
via provavelmente cerca de dois milhões de do povo, concluíram que Jesus deveria ser
pessoas dentro de Jerusalém e nas cerca­ destruído (ver Jo 12:19). A fim de que as pro­
nias da cidade. Essa foi a única ocasião em fecias das Escrituras se cumprissem, o Cor­
seu ministério que Jesus planejou e promo­ deiro de Deus deveria ser crucificado na
veu uma manifestação pública. Até então, Páscoa. Essa dem onstração da popularida­
advertia as pessoas a não dizer quem ele de de Cristo incitou os governantes a tomar
era e deliberadamente evitava situações do uma providência.
tipo que vemos nesta passagem. O povo aclamou Jesus seu Rei tanto em
Por que Jesus planejou essa manifesta­ palavras com o em atos. Gritaram Hosana,
ção? Em primeiro lugar, estava obedecendo que significa "salve agora!", e citaram Salmos
à Palavra e cumprindo a profecia registrada 118:25, 26, um salmo inequivocam ente de
em Zacarias 9:9. Essa profecia só poderia se caráter messiânico. M ais tarde naquela se­
aplicar a Jesus Cristo, pois ele é o Ú nico que mana, Jesus faria referência a esse salmo e
tem credenciais com provando sua identi­ o aplicaria a si mesmo (SI 118:22, 23; M t
dade com o Rei de Israel. Não costumamos 21:42).
associar o jumento à realeza, mas era o ani­ É importante lembrar que essa multidão
mal usado pelos m onarcas judeus (1 Rs da Páscoa era constituída de pelo menos
2:32ss). Na verdade, havia dois animais, a três grupos: os judeus que viviam em Jeru­
mãe e o filhote. Jesus montou no filhote, e a salém, as multidões que vinham da Galiléia
mãe acompanhou ao lado. e o povo que viu Jesus ressuscitar Lázaro (Jo
A o compararmos a citação de Mateus 12:17, 18). As notícias desse milagre, sem
com a profecia original em Zacarias, desco­ dúvida, ajudaram a atrair uma multidão tão
brimos alguns fatos interessantes. A profe­ grande. O povo desejava ver com os pró­
cia de Z acarias co m eça com : "Alegra-te prios olhos o homem que fazia milagres.
m uito", mas M ateus omite essa expressão. M as os judeus não reconheceram Jesus
Q uando Jesus se aproximou da cidade, ele com o Rei. O que causou a cegueira espi­
chorou! Com o poderia ele (ou o povo) ale­ ritual de Israel? Dentre outras coisas, seus
grar-se, uma vez que o julgamento estava a líderes religiosos haviam privado o povo da
cam inho? verdade de sua Palavra, colocando em seu
100 M A TEU S 21:1 - 22:1 4

lugar as tradições humanas (Lc 11:52). Os de "minha Casa de Oração", estava citando
líderes não estavam interessados na verdade, Isaías 56:7. O capítulo 56 de Isaías é uma
mas apenas em proteger os próprios inte­ denúncia contra os líderes infiéis de Israel.
resses (Jo 11:47-53). "Não temos rei, senão A frase "covil de ladrões" vem de Jeremias
César!", era a confissão que faziam cega­ 7:11 e é parte de um longo sermão que
mente. Nem mesmo os milagres de Jesus os Jeremias pregou junto aos portões do tem­
convenceram, e, quanto mais resistiam à ver­ plo, repreendendo o povo pelos mesmos
dade, mais cegos se tornavam (Jo 12:35ss). pecados que Jesus viu e julgou em seus dias.
Por que Jesus chamou o templo de "co­
2. H ip o c r i s i a (M t 21:12-22) vil de salteadores"? Porque o covil é o lugar
Jesus realizou dois atos de julgamento: puri­ onde os salteadores se escondem. Os líderes
ficou o templo e amaldiçoou uma figueira. religiosos e alguns do povo estavam usando
Ambos foram contrários a sua forma habi­ o templo e a religião judaica para encobrir
tual de ministério, pois ele não veio à Terra seus pecados.
para julgar, mas para salvar (Jo 3:1 7). Ambos O que Deus quer em sua casa? Quer
revelaram a hipocrisia de Israel: o templo era oração no meio do povo (1 Tm 2:1 ss), pois
um covil de salteadores, e a nação (simboli­ a verdadeira oração é evidência de nossa
zada pela figueira) não produzia frutos. A dependência de Deus e de nossa fé em sua
corrupção interior e a ausência de frutos ex­ Palavra. Também deseja que as pessoas se­
teriores eram evidências da hipocrisia do jam ajudadas (Mt 21:14). Os necessitados
povo. deveriam sentir-se acolhidos e encontrar a
A purificação do templo (vv. 12-16). ajuda de que precisavam. Deveria haver
Jesus havia começado seu ministério com poder na casa de Deus, o poder de Deus
um ato semelhante (Jo 2:13-25). Agora, três trabalhando para transformar as pessoas.
anos depois, o templo estava sendo profa­ Outro elemento que deve estar presente na
nado novamente pelos "negócios religiosos" casa de Deus é o louvor (Mt 21:15,16). Aqui,
dos líderes. Haviam transformado o pátio dos Jesus cita o Salmo 8:2.
gentios num lugar onde judeus vindos de A m aldição da árvore (vv. 17-22). Pode
outros lugares poderiam trocar dinheiro e nos causar certa surpresa ver Jesus amaldi­
comprar sacrifícios. O que começou como çoando uma árvore. O mesmo poder que
um serviço de conveniência para os visitan­ matou a árvore também poderia ter lhe dado
tes de outras regiões logo se transformou nova vida e frutos. Por certo, Jesus não res­
num negócio lucrativo. Os negociantes co­ ponsabilizaria uma árvore moralmente pela
bravam valores exorbitantes, e ninguém ausência de frutos.
podia competir com eles nem se opor a eles. É possível entender melhor esse aconte­
De acordo com os historiadores, esses ne­ cimento quando levamos em consideração
gócios eram administrados por Anás, o anti­ o tempo e o local em que ocorreu. Jesus
go sumo sacerdote, e seus filhos. estava próximo de Jerusalém na última se­
O pátio dos gentios no templo tinha co­ mana de seu ministério público ao povo. A
mo propósito oferecer aos "rejeitados" uma figueira simbolizava a nação de Israel (Jr 8:13;
oportunidade de entrar no templo e de Os 9:10, 16; Lc 13:6-9). Assim como a árvo­
aprender sobre o verdadeiro Deus de Israel. re que possuía folhas mas não frutos, tam­
Mas a presença desse "mercado religioso" bém Israel tinha vida religiosa mas não pos­
levou muitos gentios mais escrupulosos a suía experiência prática de fé que resultasse
rejeitar o testemunho de Israel. Em vez de num viver piedoso. Jesus não se irou com a
ser usado para trabalhos missionários, o pá­ árvore. Antes a usou para ensinar várias li­
tio dos gentios estava sendo empregado para ções a seus discípulos.
negócios mercenários. Deus deseja produzir frutos na vida de seu
Ao chamar o templo de "minha casa", Je­ povo. O fruto é o produto da vida. A presen­
sus estava declarando ser Deus. Ao chamá-lo ça de folhas geralmente indica a presença
M A T E U S 21:1 - 2 2:1 4 101

de frutos, mas esse não era o caso nessa coisas novas se desobedecerm os àquilo que
árvore. N a parábola da figueira (Lc 13:6-9), Deus já nos ensinou. "Se alguém quiser fa­
foi concedido ao jardineiro mais tempo para zer a vontade dele, conhecerá a respeito da
cuidar da árvore; mas agora, o tempo havia se doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por
esgotado, e a árvore estava apenas ocupan­ mim mesmo" (Jo 7:1 7). O s líderes religiosos
do espaço. haviam rejeitado a verdade pregada por João
Embora possamos fazer uma aplicação e, portanto, Jesus não poderia lhes ensinar
pessoal desse acontecim ento, a interpreta­ novas verdades. João e Jesus estavam sob a
ção principal diz respeito a Israel. O tempo mesma autoridade.
do juízo havia chegado. A sentença foi pro­ Rejeitaram Deus, o P a i (21:23-32). A vi­
nunciada pelo juiz, mas só seria executada nha, obviamente, refere-se ao povo de Israel
mais de quarenta anos depois. Então, Roma (SI 80:8-16; Is 5). O s dois filhos representam
viria e destruiria a cidade e o templo, espa­ as duas classes de pessoas em Israel: os reli­
lhando o povo. giosos hipócritas e os publicanos e peca­
Jesus usou esse aco ntecim ento para dores. Q uando João ministrou, as multidões
ensinar a seus discípulos uma lição prática religiosas mostraram grande interesse em seu
sobre fé e oração. O templo deveria ser uma trabalho, mas se recusaram a arrepender-se,
"casa de oração", e a nação deveria depo­ humilhar-se e ser batizados (M t 3:7-12; Jo
sitar sua fé no Senhor. M as esses dois in­ 1:19-28). O s que não eram religiosos, no en­
gredientes essenciais estavam faltando. Nós tanto, confessaram seus pecados, obedece­
também devemos estar alertas para os peri­ ram às palavras de João e foram batizados.
gos da ausência de frutos. O s líderes cometeram dois pecados: não
creram na mensagem de João e não se arre­
3 . D e s o b e d iê n c ia à P a l a v r a penderam de seus pecados. É evidente que
(M t 2 1 :2 3 - 2 2 :1 4 ) os líderes não julgavam necessário se arre­
Esta série de três parábolas decorre da exi­ pender (Lc 18:9-14). M as quando viram o
gência dos p rin cip ais sacerdo tes e dos efeito do arrependim ento na vida dos pe­
anciãos para que Jesus explicasse com que cadores e publicanos, deveriam ter se con­
autoridade havia purificado o templo. Um a vencido de que a mensagem de Jo ão era
vez que eram encarregados de zelar pela verdadeira e a salvação era real. Repeti­
vida espiritual de Israel, tinham o direito de damente, os líderes religiosos rejeitaram as
fazer essa pergunta. No entanto, a ignorân­ provas inequívocas que Deus lhes deu.
cia desses líderes é espantosa, pois Jesus A rejeição a João foi, na verdade, uma
havia ministrado durante três anos, e eles rejeição ao Pai que o havia enviado. Em sua
continuavam se recusando a encarar os fa­ bondade, porém, em vez de enviar julgamen­
tos. Depois de tudo o que Jesus havia feito, to, Deus mandou seu Filho, o que nos leva
ainda queriam mais provas. à próxima parábola.
Ao levá-los de volta para o ministério de R ejeitaram D eus, o F ilh o (21:33-46).
João, Jesus não está sendo evasivo. João ha­ Sem sair do cenário da vinha, essa parábola
via preparado o caminho para Jesus. Se os toma por base Isaías 5:1-7. Nela, Jesus lem­
líderes tivessem aceito o ministério de João, bra os judeus da bondade de Deus para com
também teriam aceito o ministério de Jesus. Israel como nação. Deus tirou seu povo do
Em vez disso, porém, os líderes permitiram Egito e o conduziu a uma terra rica, abun­
que Herodes prendesse João e depois o exe­ dante em leite e mel. Concedeu a seu povo
cutasse. Um a vez que não haviam aceito a bênçãos materiais e espirituais e pediu ape­
autoridade de João, também não estavam nas que dessem frutos para a glória do Se­
dispostos a aceitar a autoridade de Jesus, nhor. De tempos em tempos, Deus enviou
pois ambos haviam sido enviados por Deus. seus servos (profetas) ao povo para colher
Há um princípio fundamental da vida cris­ os frutos. M as o povo maltratou os servos, e
tã segundo o qual não podemos aprender até matou alguns deles.
102 M A T EU S 2 1 :1 - 22:14

O que restava ao proprietário fazer? Po­ e o Filho; apesar do que os lavradores ha­
deria ter enviado seus exércitos para des­ viam feito, o Filho está vivo e tem uma espo­
truí-los, mas, em vez disso, enviou seu filho. sa. Ao que parece, trata-se de um retrato de
Trata-se, evidentemente, de uma referência Jesus e sua Igreja (Ef 5:22, 23). O período
a Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele é o "her­ descrito nesta parábola deve ser aquele
deiro" (Hb 1:2). Em vez de recebê-lo e honrá- posterior à ressurreição e ascensão de Cris­
lo, os homens o colocaram para fora da vinha to e à vinda do Espírito Santo.
e o mataram. Jesus foi crucificado "fora da Mesmo depois do que fizeram com seu
porta" (Hb 13:12, 13), rejeitado por sua pró­ Filho, o Pai continua a convidar o povo de
pria nação. Israel. Ao estudar os primeiros sete capítu­
As pessoas que estavam ouvindo essa los de Atos, vemos que a mensagem está
parábola envolveram-se de tal modo com a sendo proclamada apenas aos judeus (At 2:5,
situação dramática que não perceberam que 10, 14, 22, 36; 3:25; 6:7). "Primeiro ao ju­
elas mesmas estavam sendo julgadas. Jesus deu" - esse era o plano de Deus (At 3:26;
citou Salmos 118:22, 23 para explicar que Rm 1:16). Qual foi a reação dos líderes de
ele era o Filho e os líderes religiosos eram Israel ao ministério do Espírito Santo por
os lavradores (Mt 21:45). As multidões ha­ meio dos apóstolos? Rejeitaram a Palavra e
viam usado Salmos 118:26, quando rece­ perseguiram a Igreja. Os mesmos gover­
beram Jesus na cidade, de modo que essa nantes que permitiram a execução de João
passagem ainda devia estar na mente dos e que pediram a crucificação de Jesus ma­
líderes. taram Estêvão com as próprias mãos! Poste­
No Antigo Testamento, Deus é chama­ riormente, Herodes mandou matar Tiago (At
do com freqüência de rocha ou de pedra 12:1 ss).
(Dt 32:4, 18, 30, 31; SI 18:2, 31, 46). A De que maneira o rei da parábola rea­
pedra também é um título messiânico. Para giu à forma como o povo tratou seu servo?
Israel, Jesus foi uma pedra de tropeço (Is Ficou furioso e enviou seu exército para
8:14, 15; Rm 9:32, 33; 1 Co 1:23). Israel re­ matar todos e destruir suas cidades. Depois,
jeitou o Messias, mas, com sua morte e res­ mandou convidar outras pessoas para a fes­
surreição, Jesus criou a Igreja. Para a Igreja, ta. Trata-se de uma representação da manei­
Jesus é a pedra fundamental, a pedra angu­ ra de Deus tratar com Israel. Rejeitaram o
lar (Ef 2:20-22; 1 Pe 2:4, 5). No fim dos tem­ Pai quando se recusaram a obedecer à pre­
pos, Jesus virá como uma pedra de aflição gação de João Batista. Rejeitaram o Filho
(Dn 2:34), destruirá os reinos gentios e esta­ quando o prenderam e crucificaram. Em sua
belecerá seu reino glorioso. graça e paciência, Deus enviou outras teste­
Por certo, os líderes judeus conheciam munhas. O Espírito Santo veio aos primeiros
esse significado messiânico das Escrituras cristãos, que testemunharam com grande
citadas por Jesus. Eram os construtores que poder que Jesus estava vivo e que a nação
haviam rejeitado a pedra (At 4:11). Quais poderia ser salva (At 2:32-36; 3:19-26). Os
seriam as conseqüências? Dentre outras milagres que fizeram eram prova de que
coisas, o reino seria tirado de Israel e entre­ Deus trabalhava neles e por meio deles.
gue a outra nação, a Igreja (1 Pe 2:9, ver Mas Israel também rejeitou o Espírito
também o contexto, 1 Pe 2:6-10). Os que Santo! Essa foi a acusação de Estêvão con­
atacassem essa pedra seriam "pulveriza­ tra a nação: "Vós sempre resistis ao Espírito
dos"; aqueles a quem Cristo julgar serão Santo" (At 7:51). Com o apedrejamento de
esmigalhados. Estêvão, a paciência de Deus com Israel co­
Rejeitaram o Espírito Santo (22:1-14). meçou a se esgotar, apesar de ter adiado o
Esta parábola não deve ser confundida com julgamento por quase quarenta anos. Em
a parábola do banquete (Lc 14:16-24), ape­ Atos 8,vemos que a mensagem foi levada
sar de ambas apresentarem vários elemen­ aos samaritanos, e em Atos 10, verificamos
tos em comum. Mais uma vez, vemos o Pai que foi pregada até mesmo aos gentios.
M A T E U S 21:1 - 22:1 4 103

A meu ver, essa rejeição final é a terrí­ mundo do pecado (Jo 16:7-11). O Espírito
vel "b lasfêm ia contra o Espírito Santo" à pode encontrar resistência nos incrédulos
qual Jesus se refere em M ateus 12:22-32. (A t 7:51), mas ninguém sabe exatam ente
Foi um pecado nacional com etido por Is­ qual é o momento crítico (se é que ele exis­
rael. Q u an d o rejeitaram Jo ão , rejeitaram te) em que o Espírito pára de falar a um pe­
o Pai que o havia enviado, mas havia ain­ cador perdido.
da o m inistério do Filho. Q uan do rejeita­ Mateus 22:11-14 dá a impressão de ser
ram o Filho, foram perdoados por causa apenas um apêndice dessa parábola, mas
de sua ig n o rân cia (Lc 22:34; A t 3:17). sua importância é vital. A roupa de casamen­
Nenhum pecador h o je pode ser perdoa­ to foi providenciada pelo anfitrião para que
do por rejeitar a Cristo, pois é essa rejei­ todos estivessem vestidos adequadamente,
ção que condena a alm a (Jo 3:16-22). e para que os pobres não se sentissem des­
N o entanto, ainda restava o ministério locados. A salvação é pessoal e individual.
do Espírito Santo. O Espírito veio sobre a Devem os aceitar o que Deus nos dá - a
Igreja em Pentecostes, e os apóstolos reali­ justificação de Cristo - e não tentar confec­
zaram grandes sinais e prodígios (At 2:43; cionar uma roupa para nós mesmos. Um a
Hb 2:1-4). O s governantes rejeitaram o tes­ vez que essas parábolas possuem, sem dú­
temunho do Espírito e, com isso, fizeram so­ vida alguma, ênfase nacional, a ênfase pes­
brevir o julgam ento final. Haviam rejeitado o soal no final é extremamente importante.
Pai, o Filho e o Espírito, e não restavam mais O s líderes do país eram culpados de ce­
oportunidades. gueira espiritual, hipocrisia e desobediên­
Esse "pecado contra o Espírito" não pode cia deliberada à Palavra. Em lugar de aceitar
ser com etido hoje da mesma forma que foi a acusação de Jesus e se arrepender, deci­
por Israel, pois a situação é diferente. O diram atacá-lo e discutir com ele. Essa de­
Espírito de D eus está dando testem unho cisão resultou em julgam ento. Devem os ter
da pessoa e obra de Jesus Cristo por meio o cuidado de não seguir seu exem plo de
da Palavra. Ê o Espírito quem convence o desobediência.
em comum. Os fariseus tinham vários moti­
19 vos para se opor aos impostos cobrados por
Roma: (1) não desejavam sujeitar-se a um
poder gentio; (2) César era reverenciado
A D efesa do R ei como deus; e (3) tinham melhor uso para o
dinheiro do que dá-lo a Roma. Uma vez que
M a te u s 2 2 :1 5 - 4 6 os herodianos constituíam o partido que
apoiava Herodes, eram favoráveis à cobran­
ça de impostos. Afinal, Herodes recebeu sua
autoridade de César, e teria sido extrema­
mente difícil permanecer no poder sem o
apoio de Roma.
a quinta-feira da semana de Páscoa, os A Palestina era uma nação ocupada, e
N inimigos de Jesus tentaram armar uma
cilada usando uma série de perguntas cap-
os judeus não morriam de amores por seus
conquistadores. Todo imposto que o povo
ciosas. Ainda estavam ressentidos com a oprimido era obrigado a pagar servia para
forma de Jesus tê-los tratado em sua série lembrar que não eram livres. Os zelotes, uma
de parábolas. O Mestre havia exposto suas organização "secreta" de judeus fanáticos,
intenções perversas e os advertira de que costumavam organizar protestos contra
estavam apenas atraindo julgamento sobre Roma e se opunham a qualquer imposto
si. Os líderes religiosos ofenderam-se por ter romano.
sido humilhados diante da multidão. Assu­ É fácil entender por que os fariseus e os
miram o firme propósito de destruir Jesus, herodianos escolheram a questão dos im­
procurando, para isso, levá-lo a dizer algo postos como chamariz para a armadilha. A
que servisse como desculpa para prendê-lo. seu ver, qualquer resposta que Jesus desse
Mas havia outro motivo para as pergun­ criaria problemas para ele e para seu minis­
tas, que seus inimigos ignoravam. Jesus es­ tério. Caso se opusesse ao imposto, criaria
tava para morrer como Cordeiro de Deus, e um conflito com Roma. Se o aprovasse, te­
era preciso que o cordeiro fosse examinado ria problemas com os judeus.
antes da Páscoa (Êx 12:3-6). Se algum defeito Jesus percebeu imediatamente o ardil
fosse encontrado, ele não poderia ser sacri­ do inimigo. Sabia que o verdadeiro objetivo
ficado. Jesus foi examinado publicamente não era obter uma resposta, mas sim colo­
por seus inimigos, e eles não conseguiram cá-lo em dificuldades. Na verdade, aqueles
encontrar defeito algum. homens tão zelosos estavam apenas fazen­
Por certo, esse diálogo pessoal entre Je­ do uma encenação, portanto não passavam
sus e os líderes religiosos também serviu de hipócritas. Esse fato, por si só, teria sido
como uma oportunidade para que cressem motivo suficiente para jesus se recusar a res­
e fossem salvos. De fato, um dos fariseus ponder à questão, mas o Mestre sabia que
chegou muito perto do reino (Mc 12:32-34). as pessoas a seu redor não entenderiam.
Até mesmo no último minuto, há esperança Tinha diante de si uma oportunidade de ca­
para o pecador perdido, caso aceite a ver­ lar os inimigos e, ao mesmo tempo, de ensi­
dade, se arrependa e creia. nar ao povo uma verdade espiritual muito
Essa discussão pública envolve quatro importante.
verdades, três delas provenientes dos inimi­ Cada governante cunhava as próprias
gos e uma de Jesus. moedas e nelas colocava sua imagem. O
denário trazia a imagem de César, portanto,
1 . U m a p e rg u n ta p o lít ic a so bre pertencia a César. "Dai, pois, a César o que é
im p o sto s (M t 2 2 :1 5 - 2 2 ) de César", respondeu Jesus, "e a Deus o que
Fariseus e herodianos eram inimigos, mas nes­ é de Deus." Nessa resposta simples, porém
sa ocasião se uniram contra um adversário profunda, Jesus ensinou várias verdades.
M A T E U S 22:1 5-46 105

Os cristãos devem honrar os governan­ preservar o nome de um homem que mor­


tes e lhes obedecer. Trata-se de uma verda­ resse sem deixar herdeiro. Num a nação
de ensinada em outras passagens do Novo com o Israel, em que a questão da herança
Testam ento (Rm 13; 1 Pe 2:13-17; 1 Tm familiar era crítica, cada família deveria ter
2:1 ss). O s cristãos têm uma cidadania du­ um herdeiro. Era considerado uma desgraça
pla, no céu (Fp 3:20) e na Terra. Devemos um homem recusar constituir família para o
respeitar nossos governantes (ou líderes elei­ irmão morto.
tos) aqui na Terra, obedecer à lei, pagar nos­ O s saduceus baseavam sua descrença
sos impostos e orar por todas as autoridades. na ressurreição no fato de que nenhum a
Os cristãos devem honrar a Deus e lhe mulher poderia ter sete maridos na vida fu­
obedecer. César não era Deus. O s gover­ tura. Com o muita gente hoje, concebiam a
nantes não podem impor a religião (A t 5:29) vida futura com o uma extensão do presen­
e também não devem restringir a liberdade te, porém numa versão melhorada.
de culto. O s melhores cidadãos honram seu M as Jesus lhes disse que eram ignoran­
país porque adoram a Deus. tes. Não conheciam as Escrituras tam pouco
O homem foi criado à imagem de Deus o poder de Deus, portanto, na verdade, não
e deve tudo a seu Criador. A m oeda trazia conheciam a Deus. Na próxima vida, não
a imagem de César, enquanto o ser huma­ haverá morte, portanto não haverá necessi­
no traz a imagem de Deus (G n 1:26, 27). O dade de casamento nem de gerar novos se­
pecado desfigurou essa imagem, mas, por res humanos para substituir os que morrem.
meio de Jesus Cristo, ela pode ser restaura­ Jesus não disse que seriamos anjos quan­
da (Ef 4:24; Cl 3:10). do fôssemos glorificados no céu. Disse que
A relação entre religião e governo é seriamos "com o os anjos", ou seja, assexua­
pessoal e individual. É correto o povo de dos, sem nos casarmos nem nos darmos em
Deus servir no governo (ver os exemplos casamento. As histórias tolas que ouvimos e
de Daniel e José), mas é errado o governo sobre as quais lemos nas tirinhas de jornais
controlar a Igreja, ou mesmo a Igreja con­ falando de pessoas que morrem e que se
trolar o governo. tornam anjos não são bíblicas.
Jesus não se contentou em refutar ape­
2. U m a p e r g u n t a d o u t r in á r ia s o b r e a nas os conceitos absurdos dos saduceus
r e s s u r r e iç ã o (M t 22:23-33) acerca da vid a futura, mas tam bém res­
Apesar de fariseus e herodianos terem sido pondeu à questão da ressurreição e, para
derrotados, os saduceus entraram no cam­ isso, recorreu a M oisés! Sabia que M oisés
po de batalha para tentar seu ataque. É im­ era a única autoridade que aceitariam e cha­
portante lembrar que esse grupo aceitava mou a atenção deles para Êxodo 3:6, em
apenas a autoridade dos cinco livros de que Deus disse a Moisés: "Eu sou o Deus
Moisés (o Pentateuco) e não acreditava num de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de
mundo espiritual nem na doutrina da res­ Isaque e o Deus de Ja có ". N ão disse, "Eu
surreição (At 23:8). Em várias ocasiões, de­ era o Deus de Abraão", pois significaria que
safiaram os fariseus a provar a doutrina da Abraão não existia mais. Ao dizer: "Eu sou",
ressurreição por meio de Moisés, mas os fari­ o Senhor deixou claro que esses três ho­
seus não conseguiram apresentar argumen­ mens de fé estavam vivos naquele m om ento.
tos convincentes. A o repetir "o Deus de", o Senhor mostrou
A ilustração hipotética que os saduceus que os conhecia e que os amava pessoal
apresentaram foi baseada na lei judaica do individualm ente.
"casam ento de levirato" descrita em Deu- É perigoso especular com relação à vida
teronôm io 25:5-10 (a palavra levirato vem futura. Devem os tomar por base a autori­
do latim levir, que significa "o irmão do ma­ dade da Palavra de Deus, pois somente ne­
rido", e não tem relação alguma com a tribo la encontram os a verdade sobre o futuro.
de Levi). Esse costum e tinha por objetivo A Bíblia não revela tudo sobre a vida futura,
106 M ATEU S 22:1 5-46

mas nos encoraja e nos esclarece. Jesus res­ no mesmo nível do Shema. Toda a Lei e os
pondeu aos saduceus insensatos de manei­ Profetas baseiam-se nesses dois mandamen­
ra tão detalhada que os fez calar (Mt 22:34). tos. Podemos dizer, ainda, que os ensina­
Até mesmo as multidões se maravilharam mentos das epístolas no Novo Testamento
com a resposta. concordam com essa afirmação. Se um ho­
mem ama a Deus de fato, também deve amar
3 . U m a p e r g u n t a é t íc a s o b r e a Lei a seu irmão e a seu próximo (1 Jo 3:10-18;
(M t 2 2 :3 4 - 4 0 ) 4:7-21).
É provável que os fariseus tenham gostado Se cultivarmos um relacionamento cor­
de ver seus inimigos, os saduceus, naquela reto com Deus, não teremos problemas com
situação embaraçosa. Um deles mostrou seus mandamentos. O amor é a base para a
respeito para com Jesus e a resposta que obediência. Na verdade, a Lei como um todo
ele havia dado (Mc 12:28) e fez sua própria se resume no amor (Rm 13:8-10). Se amar­
pergunta: "Mestre, qual é o grande manda­ mos a Deus, amaremos nosso próximo; e
mento na Lei?" (Mt 22:36). Tudo indica que se amarmos nosso próximo, não faremos
ele fez essa pergunta com uma atitude sin­ nada para prejudicá-lo.
cera e humilde. Mas Jesus tem um significado mais pro­
Não se tratava de alguma novidade, pois fundo a transmitir com essa resposta extra­
os escribas vinham debatendo essa questão ordinária. Os judeus temiam a idolatria e,
havia séculos. Registraram 613 mandamen­ quando Jesus afirmou ser Deus, opuseram-
tos da Lei, 248 positivos e 365 negativos. Nin­ se a ele, pois não conseguiam acreditar que
guém jamais seria capaz de conhecer e de era correto adorar uma criatura. Jesus rece­
obedecer a todos eles. Assim, para facilitar, beu adoração e não reprovou os que o re­
os mestres dividiram os mandamentos em verenciaram. Acaso foi idolatria? Não, pois
"pesados" (importantes) e "leves" (não impor­ ele é Deus! Se a Lei ordena amar a Deus e
tantes), permitindo, então, que as pessoas se ao próximo, então não era errado os judeus
concentrassem nos mandamentos mais "pe­ amarem Jesus. Em vez disso, porém, estavam
sados" sem se preocupar com os triviais. planejando matá-lo. Jesus já lhes havia dito:
A falácia por trás dessa abordagem é "Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamen­
evidente: só é preciso quebrar um man­ te, me havíeis de amar" (Jo 8:42). Aceitaram
damento, pesado ou leve, para se tornar cul­ a autoridade da Lei, mas se recusaram a obe­
pado diante de Deus. "Pois qualquer que decer a ela em sua vida.
guarda toda a lei, mas tropeça em um só O escriba que havia feito a pergunta a
ponto, se torna culpado de todos" (Tg 2:10). Jesus parecia ser um homem sincero e
Jesus cita o Shema" (Dt 6:4), uma con­ honesto. Nem todos os fariseus eram hipó­
fissão de fé recitada diariamente por todo critas, e ele concordou publicamente com
judeu ortodoxo (a palavra Shema vem do Jesus (Mc 12:32, 33). Sua reação deve ter
termo hebraico que significa "ouvir", pois a assustado seus colegas fariseus. Jesus dis­
confissão de fé começa com "Ouve, Israel"). cerniu que o coração daquele homem era
O maior mandamento é amar a Deus com sincero e o elogiou por sua inteligência e
todo nosso ser e com tudo o que possuí­ honestidade. Será que esse homem conse­
mos - coração, alma, espírito, força, bens, guiu entrar no reino, uma vez que chegou
serviço. Amar a Deus não é "ter bons pen­ tão perto? Esperamos que sim.
samentos sobre ele", pois o verdadeiro amor Jesus havia acabado de responder a três
envolve não apenas o coração, mas também perguntas extremamente difíceis. Havia fa­
a volição. Onde há amor, haverá serviço e lado da relação entre religião e governo,
obediência. entre esta vida e a próxima e entre Deus e o
Mas o amor a Deus não pode ser desas- próximo. Trata-se de uma série de relacio­
sociado do amor ao próximo, de modo que namentos fundamentais, e não podemos
Jesus também cita Levítico 19:18 e o coloca ignorar os ensinamentos de nosso Senhor a
M A T E U S 22:1 5-46 107

esse respeito. M as a pergunta que Jesus faz 20:30, 31; 21:9, 15). O s líderes ouviram as
a seus inimigos é ainda mais fundamental. multidões o proclam arem com o "Filho de
Davi" quando entrou em Jerusalém. O fato
4. U m a perg u n ta pesso a l so bre o de ter aceito esse título é evidência de que
M e s s ia s ( M t 2 2 :4 1 - 4 6 ) Jesus sabia que era o próprio Messias, o Fi­
Jesus não formulou essa pergunta da mes­ lho de Deus. Com o Deus, era Senhor de
ma forma com o havia feito a seus discípu­ Davi, mas com o homem, era Filho de Davi,
los: "E quem dizeis vós que eu sou?" (M t pois nasceu na família de Davi (M t 1:1, 20).
16:15). O s homens que estavam discutindo O s estudiosos daquele tem po mostra­
com Jesus não entendiam sua causa nem vam-se confusos com relação ao Messias.
estavam dispostos a avaliar com honesti­ Viam duas representações do M essias no
dade as credenciais que ele lhes oferecia. Antigo Testamento e não conseguiam con­
Cristo teve de usar uma abordagem indireta ciliá-las. Um a mostrava um Servo Sofredor,
com seus inimigos. Apesar de parecer uma a outra um Rei Conquistador. Haveria dois
questão teológica, na realidade tratava-se da Messias? Com o seria possível ao servo de
questão pessoal mais crítica de todas. Deus sofrer e morrer? (ver 1 Pe 1:10-12).
"D e quem o Messias é Filho?", pergun­ Se tivessem prestado atenção nas pala­
tou. Com o mestres instruídos na Lei, sabiam vras de Jesus, teriam aprendido que havia
a resposta: "É filho de Davi". Se necessário, apenas um Messias, mas que este seria tanto
poderiam ter feito referência a várias passa­ humano quanto divino. Sofreria e morreria
gens do Antigo Testamento, inclusive 2 Sa­ com o sacrifício pelos pecados. Em seguida,
muel 7:12, 13, Salmos 78:68-72 e Miquéias ressuscitaria dos mortos triunfante e, um dia,
5:2. Depois dessa resposta, Jesus propõe voltaria para derrotar seus inimigos. N o en­
outra questão, dessa vez citando Salm os tanto, esses líderes religiosos tinham suas
110:1 - "D isse o Senhor [Jeová] ao meu próprias idéias e não estavam dispostos a
Senhor [do hebraico 'Adonai']: 'Assenta-te à mudá-las. Se houvessem aceitado esse ensi­
minha direita, até que eu ponha os teus ini­ namento, também seriam obrigados a aceitar
migos debaixo dos teus pés.'" Jesus com o o Messias, algo que não deseja­
Todo estudioso judeu ortodoxo interpre­ vam fazer.
tava essa passagem com o uma referência O resultado desse dia de conversações
ao Messias. Som ente o Messias poderia as­ foi o silêncio por parte dos inimigos. N ão se
sentar-se à direita do Deus Jeová. Jesus acre­ atreveram a perguntar mais nada a Jesus, não
ditava na inspiração e exatidão das Escritu­ porque creram na verdade, mas porque ti­
ras do Antigo Testamento, pois afirmou que veram medo de encará-la. "D ali por diante,
Davi havia proferido tais palavras "pelo Espí­ não ousaram mais interrogá-lo" (Lc 20:40).
rito" (M t 22:43). Ninguém se atreveu a ques­ Também não tiveram coragem de encarar a
tionar a exatidão ou a autoridade do texto. verdade e de agir em função dela.
"Se o Messias é Filho de D avi", pergun­ Tomar uma decisão sobre Jesus Cristo é
tou Jesus, "então com o o Messias também uma questão de vida ou morte. As evidências
pode ser cham ado de Senhor de D avi?" Há estão à disposição para serem examinadas
apenas uma resposta para esta questão. por todos. Podemos sondá-las defensivamen­
Com o Deus, o Messias é o Senhor de Davi; te e deixar escapar a verdade, ou podemos
mas com o homem, ele é o Filho de Davi. Ele analisá-las com honestidade e humildade e
é a "Raiz e a G eração de D avi" (Ap 22:16). descobrir a verdade, crer e receber a salva­
Salmos 110:1 mostra a divindade e a huma­ ção. O s líderes religiosos estavam tão cegos
nidade do Messias. Ele é Senhor de Davi e pela tradição, posição social, orgulho e egoís­
também Filho de Davi. mo que não conseguiam - e não queriam -
Enquanto ministrava aqui na Terra, Jesus ver a verdade e aceitá-la.
aceitou, com freqüência, o título messiânico N ão devemos, de maneira alguma, co­
"Filho de D avi" (ver M t 9:27; 12:23; 15:22; meter o mesmo erro hoje.
Tinham um falso conceito de justiça (w.
20 2, 3). Em primeiro lugar, haviam tomado so­
bre si uma autoridade que não lhes era devi­
da, como fica evidente na declaração: "N a
A A cusa çã o do R ei cadeira de Moisés, se assentaram os escribas
e fariseus". Não há registro nas Escrituras de
M ateus 2 3 que Deus tenha dado qualquer autoridade
a esse grupo. Sendo assim, o povo deveria
obedecer ao que os fariseus ensinavam pela
Palavra, mas não cabia ao povo obedecer
às tradições e regras criadas pelos fariseus.
Para os fariseus, a justiça significava a
rata-se da última mensagem pública de conformidade exterior com a Lei de Deus,
T Jesus - uma acusação severa sobre a falsa
religião ostentada como verdade. Por certo,
ignorando a condição interior do coração.
A religião consistia em obedecer a inúme­
alguns do povo se espantaram com essas ras regras que regiam todos os aspectos da
palavras, pois consideravam os fariseus exem­ vida, inclusive o que faziam com os tem­
plos de retidão. peros (M t 23:23, 24). Os fariseus eram
Convém lembrar que nem todos os extremamente zelosos em dizer as palavras
fariseus eram hipócritas. Havia cerca de seis certas e em seguir os rituais corretos, mas
mil fariseus naquele tempo, sendo que mui­ não obedeciam à lei interiormente. Deus de­
tos eram apenas "seguidores", não membros sejava a verdade no coração (SI 51:6). Pre­
ativos do grupo. A maioria dos fariseus era gar uma coisa e praticar outra não passa de
constituída de negociantes de classe média, hipocrisia.
sem dúvida pessoas sinceras em busca da Tinham um falso conceito de ministé­
verdade e da santidade. O nome "fariseu" rio (v. 4). Para eles, o ministério significava
vem de um termo que significa "separar". dar leis ao povo e acrescentar ainda mais
Os fariseus eram separados dos gentios, dos peso a seus fardos. Em outras palavras, os fa­
judeus "impuros" que não praticavam a Lei riseus eram mais severos com os outros do
("publicanos e pecadores", Lc 15:1, 2) e de que com eles mesmos. Jesus veio para aliviar
qualquer um que se opusesse às tradições o fardo (M t 11:28-30), mas uma religião
que regiam sua vida. legalista procura sempre tornar o fardo ain­
Dentre os fariseus, havia um pequeno da mais pesado. Jesus nunca pediu para fa­
grupo que buscava a verdadeira religião es­ zermos algo que ele próprio já não tenha
piritual. Eram indivíduos como Nicodemos feito. Os fariseus ordenavam, mas não parti­
(Jo 3; 7:50-53), José de Arimatéia (Jo 19:38ss) cipavam. Eram ditadores religiosos hipócri­
e o outro homem anônimo mencionado em tas, não líderes espirituais.
Marcos 12:32-34. Até mesmo Gamaliel de­ Tinham um falso conceito de grandeza
monstrou certa tolerância com relação à igre­ (w. 5-12). Para eles, sucesso significava re­
ja recém-formada (At 5:34ss). Em sua maior conhecimento e louvores dos homens. Não
parte, porém, os fariseus usavam a religião estavam preocupados com a aprovação de
para se promover e obter benefícios mate­ Deus. Usavam a religião para atrair a aten­
riais. Não é de se admirar que Jesus tenha ção para si mesmos, não para glorificar a
condenado suas práticas. Sua mensagem Deus (M t 5:16). Assim, lançavam mão até
pode ser dividida em três partes. de ornamentos religiosos para demonstrar
piedade. Os "filactérios" eram pequenas
1. A EXPLICAÇÃO PARA A M U LTIDÃO caixas de couro em que os fariseus guarda­
(M t 2 3 :1 - 1 2 ) vam as Escrituras. Usavam essas caixinhas
Nesta seção, Jesus explica as falhas básicas amarradas na testa e no braço, em obediên­
da religião farisaica. cia literal a Deuteronômio 6:8 e 11:8. Além
M A T E U S 23 109

disso, aumentavam o tamanho das "franjas" mas se nos humilharmos, no tem po certo,
das orlas de suas vestes (Nm 15:38; ver M t Deus nos exaltará (1 Pe 5:6).
9:20).
O s fariseus tam bém pensavam que o 2. A C O N D E N A Ç Ã O A O S FARISEU S
status social era sinal de grandeza, de modo (M t 23:13-36)
que buscavam os melhores lugares na sina­ N ão devem os ler esta série de acusações
goga e nos jantares públicos. O lugar onde com a idéia de que Jesus perdeu a calma e
um homem se assenta não mostra, verda­ se enfureceu. Sem dúvida, estava irado com
deiramente, quem ele é. Albert Einstein es­ os pecados dos fariseus e com o efeito des­
creveu: "Procure não se tornar um homem ses pecados sobre o povo. N o entanto, sua
de sucesso, mas sim um homem de valor". atitude é de profunda tristeza ao perceber
Acreditavam , ainda, que os títulos de que os fariseus não enxergavam a verdade
honra eram sinais de grandeza. O título "ra­ de Deus nem os próprios pecados.
bino" significa "m eu m agnífico" e era cobi­ Talvez a melhor forma de tratar esses oito
çado pelos líderes religiosos (hoje em dia, "ais" seja contrastá-los com as oito bem-
os líderes religiosos cobiçam títulos de dou­ aventuranças encontradas em M ateus 5:1­
tor honorífico). Jesus proibiu seus discípulos 12. No Serm ão do M onte, Jesus descreveu
de usar o título rabino, pois todos eram ir­ a verdadeira retidão, enquanto aqui descre­
mãos, som ente Jesus era seu M estre (M t ve a falsa retidão.
23:8). O s filhos de Deus encontram-se numa Aqueles que entram no reino - aqueles
situação de eqüidade sob a liderança de Je­ que fecham as portas do reino (v. 13; 5:3).
sus Cristo. O pobre de espírito entra no reino, mas o
Jesus também os proibiu de usar o título orgulhoso de espírito fica do lado de fora e
de pai com referência às coisas espirituais. ainda impede outros de entrarem. O verbo
Certam ente, não é errado usar essa desig­ grego indica pessoas que tentam entrar, mas
nação para o genitor biológico, mas não não conseguem. Com o se não bastasse fi­
convém empregá-la a um líder espiritual. car de fora do reino, essas pessoas ainda
Paulo referia-se a si mesmo com o "pai espi­ ficam no caminho dos que desejam entrar.
ritual", pois havia "gerado" cristãos por meio A o ensinar tradições humanas em lugar da
do evangelho (1 Co 4:15). No entanto, não verdade divina, tiram do povo a chave do co­
pediu que esses cristãos o chamassem por nhecimento ("tomastes a chave da ciência",
esse nome. Lc 11:52) e fecham a porta da salvação.
Um terceiro título proibido é guia (M t Os que choram são consolados - os que
23:10), que significa "instrutor, líder". Não destroem são condenados (v. 14; 5:4). Ape­
se trata do mesmo termo traduzido por mes­ sar de esse versículo não aparecer em alguns
tre em M ateus 23:8. Talvez um equivalente manuscritos de Mateus, pode ser encontra­
m oderno mais apropriado seja "autoridade". do em M arcos 12:40 e Lucas 20:47. Em vez
Deus coloca líderes espirituais na igreja, mas de chorar por seus pecados e de lamentar
estes não devem tomar o lugar do Senhor pelas necessidades das viúvas, os fariseus se
em nossa vida. Um verdadeiro líder espiri­ aproveitavam das pessoas e as roubavam.
tual conduz as pessoas à liberdade e a um Usavam a religião com "intuitos ganancio­
relacionam ento mais próximo com Cristo, sos" (1 Ts 2:5).
não à escravidão de suas próprias idéias e O humilde herda a terra - o orgulho­
crenças. so, o inferno (v. 15; 5:5). Um prosélito é
A verdadeira grandeza encontra-se em alguém que se converte a uma causa. O s
servir aos outros, não em forçar os outros a fariseus saíam em busca de novos membros
nos servir (Jo 3:30; 13:12-17). A verdadeira para seu sistema legalista, mas não conse­
grandeza não pode ser criada; antes, pro­ guiam apresentar essas pessoas ao Deus
vém de Deus, à medida que lhe obedece­ vivo. Em vez de salvar as almas, os fariseus
mos. Se nos exaltarmos, Deus nos humilhará, as condenavam !
110 M A T E U S 23

Um "filho do inferno" é o equivalente a Não há dúvida de que a Lei do Antigo


"um filho do demônio", e era essa a desig­ Testamento exigia o pagamento do dízimo
nação que Jesus usava para os fariseus (Mt (Lv 27:30; Dt 14:22ss). Abraão havia pra­
12:34; 23:33; Jo 8:44). Um "filho do demô­ ticado o dízimo muito antes de a Lei ser da­
nio" é uma pessoa que rejeitou a salvação da (Gn 14:20), e Jacó seguiu o exemplo do
de Deus (a justificação por meio da fé em avô (Gn 28:20-22). Os princípios da oferta
Cristo). Essa pessoa alardeia a própria reti­ cristã no contexto da graça são apresenta­
dão por meio do sistema religioso do qual dos em 2 Coríntios 8 e 9. Não nos con­
participa, seja ele qual for. O convertido tentamos em dar apenas o dízimo (10%),
geralmente mostra mais zelo do que o líder, mas também desejamos trazer ofertas ao
e essa "dupla devoção" produz apenas du­ Senhor com nosso coração cheio de amor.
pla condenação. Como é triste as pessoas Justiça, misericórdia e fidelidade são qua­
pensarem que estão indo para o céu quan­ lidades importantes que Deus procura e que
do, na verdade, estão indo para o inferno! não podem ser substituídas pela obediência
Fome de justiça - ganância de bens (vv. a regras. Apesar de ser importante prestar
16-22; 5:6). "Guias cegos" é uma descrição atenção aos detalhes, nunca devemos per­
perfeita e que deve ter feito os ouvintes sor­ der nosso senso de prioridade quanto às
rirem. Jesus já havia usado essa expressão questões espirituais. Jesus não condenou
anteriormente (M t 15:14). Os fariseus esta­ a prática do dízimo, mas sim aqueles que
vam cegos para os verdadeiros valores da deixaram que seus escrúpulos legalistas os
vida. Suas prioridades não estavam em or­ impedissem de desenvolver o verdadeiro
dem: juravam em nome de algum objeto caráter cristão.
sagrado, como o ouro do templo, por exem­ Coração puro - coração corrupto (vv.
plo, ou a oferta do altar. Mas não juravam 25-28; 5:8). Jesus usa duas ilustrações: o
pelo templo ou pelo altar em si, uma vez copo e o prato e o sepulcro. Ambas mostram
que era o templo que santificava o ouro, e o a mesma verdade: é possível estar limpo
altar que santificava a oferta. Estavam dei­ por fora e, ao mesmo tempo, contaminado
xando Deus de fora de suas prioridades. por dentro. Imagine usar pratos e copos su­
Jesus sabia que os fariseus desejavam jos! Tudo o que for colocado no prato ou
tanto o ouro quanto a oferta do altar. Por no copo também ficará sujo. Os fariseus
isso, praticavam o "Corbã", pois qualquer tomavam o cuidado de se manter limpos
coisa consagrada a Deus não poderia ser exteriormente, pois era sua parte visível aos
usada para outros (M t 15:1-9; M c 7:10-13). homens. No entanto, Deus vê o coração
Não buscavam a justiça de Deus; só deseja­ (1 Sm 16:7); e, quando olhou para dentro
vam conquistar benefícios para si mesmos. deles, viu apenas "rapina e intemperança"
Criaram um "sistema religioso" que lhes per­ (M t 23:25).
mitia roubar a Deus e aos outros e, ainda O povo judeu cuidava para não tocar
assim, manter uma boa reputação. cadáveres ou qualquer coisa relacionada
Obter a misericórdia - rejeitar a mise­ com a morte, pois isso os tornava cerimo-
ricórdia (w. 23, 24; 5:7). A especialidade nialm ente impuros (Nm 19:11ss). Espe­
dos fariseus era se preocupar com coisas cialmente na época da Páscoa, passavam
secundárias. Ao mesmo tempo que tinham cal na parte de fora dos túmulos para que
regras para todos os aspectos da vida, dei­ ninguém se contaminasse acidentalmente.
xavam passar as coisas mais importantes. Os Trata-se de uma representação vivida dos hi­
legalistas costumam ser assim: atentos para pócritas: brancos por fora, mas cheios de
os detalhes, mas cegos para os grandes corrupção e de morte por dentro!
princípios. Não se incomodaram de conde­ "Bem -aventurados os limpos de co ­
nar um homem inocente, mas se recusaram ração", é a promessa de Jesus. "Sobre tudo
a entrar no palácio de Pilatos, a fim de não o que se deve guardar, guarda o coração,
se contaminar (Jo 18:28). porque dele procedem as fontes da vida"
M A T E U S 23 m

(Pv 4:23). D. L. M oody costumava dizer: "Se leis exteriores. Jesus ensinava a humildade e
eu cuidar de meu caráter, minha reputação o serviço sacrifical, mas os fariseus eram or­
cuidará de si mesma". O s fariseus viviam em gulhosos e usavam o povo para cumprir seus
função da reputação, não do caráter. propósitos. A vida santa de Jesus expôs a
Pacificadores e perseguidos são filhos piedade artificial e a religião superficial de­
de Deus - perseguidores são filhos do dia­ les. Em vez de saírem das trevas, os fariseus
bo (w. 29-33; 5:9-12). Ao cham ar os fariseus tentaram destruir a luz e fracassaram.
de "Serpentes, raça de víboras", Jesus os
identifica com Satanás, a serpente (G n 3:1 ss). 3. L a m e n t a ç ã o s o b r e Je r u s a lé m
Em sua parábola do joio, deixa claro que ( M t 23:37-39)
Satanás tem uma fam ília (M t 13:38). Satanás Jesus proferiu essas palavras de lam entação
é hom icida e mentiroso (Jo 8:44), e seus fi­ com o uma expressão sincera de seu amor
lhos seguem seu exemplo. O s fariseus eram por Jerusalém e de sua tristeza diante de
m entirosos (M t 23:30) e hom icidas (M t tantas oportunidades de salvação que o povo
23:34). havia desperdiçado. "Jerusalém " refere-se a
Fazia parte da tradição farisaica construir, toda a nação de Israel. O s líderes do país
fazer melhorias e acrescentar adornos aos eram culpados de uma série de crimes con­
túmulos dos mártires. M as foram os "pais tra os mensageiros de Deus e até mesmo
deles" quem mataram os mártires! Não seus da morte de alguns deles. Mas, em sua gra­
pais biológicos, é claro, mas seus "pais espi­ ça, Jesus veio para reunir o povo e salvá-los.
rituais" - os hipócritas de outrora. A declaração: "Q u is eu [...] e vós não o
Sem pre existiram servos falsos de Deus quisestes" resume a tragédia da rejeição final
no mundo, com eçando com Caim (G n 4:1­ à verdade. N ão se trata de uma discussão
15; 1 Jo 3:10-15). O s fariseus e outros de sobre a soberania divina e a responsabilida­
seu tipo são culpados de todo o sangue jus­ de hum ana, pois ambas estão presentes.
to derram ado em nom e da "relig ião ". O Deus não poderia impor a salvação a seu
primeiro mártir registrado no Antigo Testa­ povo, tam pouco m udar as conseqüências
mento foi Abel (G n 4), e o último, o profeta de sua rejeição obstinada. "C ontudo, não
Zacarias (2 Cr 24:20-22 - a Bíblia hebraica quereis vir a mim para terdes vid a" (Jo 5:40).
termina com 2 Crônicas, não com Malaquias). A imagem da mãe pássaro ajuntando os
Q ual será o resultado dessa longa his­ pintinhos sob suas asas é bastante familiar.
tória de assassinatos? Julgam ento terrível! M oisés usou-a em seu sermão de despedi­
"Esta g eração " (a "ra ç a de víb o ra s", M t da (D t 32:11). E uma imagem de amor, de
23:33) provaria o gosto da ira de Deus quan­ cuidado terno e de disposição de m orrer
do o cálice da iniqüidade estivesse cheio (Gn para proteger a outros. Jesus morreu pelos
15:16; M t 23:32). Alguns destes julgam en­ pecados do mundo, inclusive os de Israel,
tos vieram quando Jerusalém foi destruída, "M as os seus não o receberam " (Jo 1:11).
e o restante do cálice será distribuído na "V o ssa casa" provavelm ente significa
eternidade. tanto o templo quanto a cidade, e ambos
A o recapitular esses ais trágicos proferi­ seriam destruídos em 70 d.C. na invasão do
dos por Jesu s, entendem o s por que os exército rom ano. O tem plo, cham ado de
fariseus eram seus inimigos. Jesus enfatizava "m inha casa" em M ateus 21:13, havia sido
o ser interior, enquanto eles se preocupa­ abandonado e deixado vazio. Jesus deixou
vam apenas com o exterior. O Senhor ensina­ o templo e a cidade e foi para o monte das
va o desenvolvim ento de uma vida espiritual Oliveiras (M t 24:1-3).
com base em princípios, enquanto eles se No entanto, Jesus deixou sua nação com
concentravam em regras e normas. Jesus uma promessa: um dia voltaria, Israel o ve­
media a espiritualidade em termos de caráter, ria e diria: "Bendito o que vem em nome do
enquanto os fariseus a mediam em termos Senhor!" Trata-se de uma citação do Salmo
de atividades religiosas e de obediência a 118:26, o grande salmo m essiânico citado
112 M A T EU S 23

tantas vezes em sua última semana de mi­ Não podemos ler essa acusação tão se­
nistério. As multidões haviam usado essas vera sem nos admirar com a paciência e a
mesmas palavras no Domingo de Ramos (Mt bondade do Senhor. Nenhuma nação foi tão
21:9). abençoada quanto Israel, no entanto, nenhu­
Quando essa profecia se cumprirá? No ma nação pecou contra a bondade de Deus
fim dos tempos, quando Jesus Cristo voltar à tanto quanto os israelitas. Foram o canal das
Terra para livrar Israel e derrotar seus inimi­ bênçãos de Deus para o mundo, "porque a
gos (Zc 12; Rm 11:25-27). O fato de Israel ter salvação vem dos judeus" (Jo 4:22). Mesmo
rejeitado o Rei não seria um empecilho para assim, ao longo dos séculos, o povo de Is­
os grandes planos da redenção divina. Em rael tem passado por grandes tribulações.
lugar de estabelecer seu glorioso reino na Jesus nasceu judeu e amou sua nação.
Terra, Jesus constituiria sua Igreja (Mt 16:18; Nós, gentios, devemos agradecer a Deus
Ef 2:11-22). Quando esse trabalho estiver ter­ pelos judeus, pois eles nos deram testemu­
minado, ele voltará e levará a Igreja para o nho do Deus verdadeiro; também deles pro­
céu (1 Ts 4:13-18). Em seguida, haverá um vém a Bíblia e Jesus Cristo, o Salvador. Como
período de julgamento na Terra ("o Dia do Jesus, devemos amar os judeus, procurar
Senhor", "tempo de angústia para Jacó"), ao ganhá-los, orar pela paz de Jerusalém e
final do qual Jesus voltará para livrar Israel. encorajá-los de todas as formas possíveis.
1. O T r ib u l a ç ã o
21 c o m eço
(M t 24:4-14)
da

O s acontecim entos descritos nesta seção


são "o princípio das dores" (M t 24:8). A ima­
A V o lt a d o R ei - gem da mulher em dores de parto é uma
representação do período de Tribulação (Is
P arte 1 13:6-11; 1 Ts 5:5). Vejamos alguns dos acon­
tecimentos mais importantes que ocorrerão
M a te u s 2 4 : 1 - 4 4
no início desse tempo.
Ilusão religiosa (w. 4, 5). Em várias oca­
siões, os judeus já foram desviados do cami­
nho da verdade por falsos profetas e falsos
sermão no monte das Oliveiras nas­ cristos. O cavaleiro no cavalo branco em
O ceu de perguntas dos discípulos, quan­
do Jesus lhes disse que, um dia, o tempio
Apocalipse 6:1, 2 é o anticristo, o último di­
tador mundial que conduzirá as nações à
seria destruído. Prim eiro, quiseram saber perdição. Com eçará sua carreira com o um
quando. A resposta a essa pergunta não se pacificador, assinando uma aliança com Is­
encontra registrada em M ateus, mas em rael para protegê-lo de seus inimigos (D n
Lucas 21:20-24. Segundo, perguntaram so­ 9:27). Israel o aceitará com o seu grande
bre os sinais da volta de Cristo. Essa respos­ benfeitor (Jo 5:43).
ta encontra-se em M ateus 24:29-44. Sua úl­ Guerras (v. 6). Convém observar que as
tima pergunta foi sobre os sinais do fim dos guerras não são um sinal do fim. Sem pre
tempos. A resposta de Cristo está em M ateus houve guerras no mundo, e continuará ha­
24:4-8. vendo até o final. As guerras, por si mes­
Devem os ter em mente que esse discur­ mas, não anunciam o fim dos tempos nem
so foi feito num contexto judaico. Jesus fa­ a vinda do Senhor.
lou sobre a Judéia (M t 24:16), o sábado (M t Fome (v. 7a). G uerra e fom e geralmente
24:20) e as profecias de Daniel quanto ao andam juntas. Apocalipse 6:6 dá a entender
povo judeu (M t 24:1 5). A verdade com pleta que os preços dos alimentos básicos serão
sobre o arrebatamento da Igreja (1 Co 15:51 ss; absurdamente altos, pois um denário era o
1 Ts 4:13-18) ainda não havia sido revelada, pagamento de um dia de trabalho.
pois era um mistério (Ef 3:1-12). Morte (w. 7by 8). Terremotos também
M ateus 24:1-44 dá a entender que Jesus contribuem para a escassez de alimentos, e
está discutindo acontecim entos que ocor­ ambos servem para espalhar epidemias que
rerão na Terra durante o tempo da tribula­ causam inúmeras mortes.
ção (ver M t 24:8, em que o "princípio das Mártires (v. 9). O s cristãos sempre fo­
dores [de parto]" simboliza a Tribulação; ver ram odiados pelo mundo, mas aqui vemos
também M t 24:21, 29). Depois que a Igre­ a intensificação de perseguições e de exe­
ja for arrebatada do mundo, haverá um pe­ cuções envolvendo nações de todo o mun­
ríodo de "p az e segurança" (1 Ts 5:1-4), do. Com certeza, não foi o que aconteceu
seguido de um período de sofrimento terrí­ na história da Igreja primitiva.
vel que, de acordo com vários estudiosos Caos mundial (vv. 10-13). O s que antes
da Bíblia, durará sete anos (Dn 9:24-27). É eram fiéis uns aos outros agora se trairão. Su­
esse período de "Tribulação" que Jesus des­ gere-se, com isso, que casamentos, famílias
creve no Serm ão do M onte das Oliveiras. e nações serão destruídos pela deslealdade.
A o final desse tempo, Cristo voltará à Terra, Não haverá mais leis (M t 24:12), pois nem
derrotará seus inimigos e estabelecerá o rei­ mesmo as autoridades encarregadas de fa­
no prometido. zer cumprir as leis conseguirão manter a paz.
N a seção a seguir, Jesus explica três M ateus 24:13 não tem relação alguma
momentos diferentes da Tribulação. com a salvação pessoal nesta era da graça
114 M ATEUS 24:1-44

em que vivemos. "Até o fim" não significa passaram exatamente 482 anos proféticos
até o fim da vida, mas sim até o fim dos tem­ (de 360 dias cada) entre a publicação do
pos (Mt 24:14). Os que crerem durante esse decreto e o dia em que Jesus entrou em Je­
período terrível e que perseverarem em sua rusalém como Rei.
fé serão salvos, quando o Senhor vier no Mas devemos justificar a "semana" de
fim dos tempos e livrá-los. sete anos que sobrou. Onde se encaixa? É
Pregação m undial (v. 14). De acordo importante observar que a mesma cidade
com Apocalipse 7:1-8, Deus separará e colo­ que foi reconstruída será destruída pelo
cará seu selo sobre 144 mil judeus evange­ "povo de um príncipe que há de vir" (Dn
listas, os quais levarão a mensagem do reino 9:26), ou seja, os romanos ("príncipe que
a todos os cantos da Terra. Esse versículo há de vir" é um nome para o anticristo). Esse
não ensina que Jesus só voltará para buscar acontecimento deu-se em 70 d.C, mas a
sua Igreja depois que o evangelho da graça nação de Israel seria poupada e a cidade
de Deus tiver sido levado a todas as nações. restaurada. Numa data futura, o príncipe que
Trata-se de uma declaração com respeito à há de vir (anticristo) fará uma aliança com
volta de Cristo no fim dos tempos. os judeus por sete anos. É nesse ponto que
se encaixa a semana que sobrou. Ele con­
2. O m e io d a T r ib u l a ç ã o cordará em proteger Israel de seus inimigos
(Mt 24:15-22) e permitirá que reconstruam seu templo (Dn
O ponto central do período de tribulação é 9:27 fala sobre a restauração dos sacrifícios,
o mais importante, pois nessa ocasião se uma prática que requer a existência do
dará o acontecimento profetizado séculos templo).
atrás por Daniel (Dn 9:24-27). É importante O lugar mais lógico para esse período
observar que essa profecia refere-se somen­ de sete anos é depois do arrebatamento da
te aos judeus e à cidade de Jerusalém ("teu Igreja. "O tempo de angústia de Jacó", o
povo e [...] a tua santa cidade", Dn 9:24). período da Tribulação, será de sete anos.
Aplicá-la à Igreja ou a qualquer outra pes­ 2 Ts 2:1-12 indica que o anticristo não po­
soa é interpretar indevidamente a Palavra de derá ser revelado até que se remova "aque­
Deus. le que agora o detém", ou seja, o Espírito
A profecia fala de setenta semanas, e a Santo na Igreja. Uma vez que a Igreja for
palavra hebraica para "semana" significa retirada do mundo, então Satanás poderá
"uma semana de anos", ou seja, sete anos. produzir sua obra-prima, o anticristo.
Setenta semanas, portanto, eqüivalem a qua­ Ele fará um acordo por sete anos, mas,
trocentos e noventa anos, e esse período é depois de três anos e meio ("na metade da
dividido em três partes: semana"), romperá o acordo, se mudará para
(1) Durante 7 semanas (49 anos), a ci­ o templo dos judeus e se proclamará Deus
dade de Jerusalém seria reconstruída e a (2 Ts 2:3, 4; Ap 13).
adoração reinstituída. O anticristo colocará no templo uma
(2) Depois de 63 semanas (434 anos), o estátua de si mesmo e de seu colaborador
Messias viria a Jerusalém e morreria pelos (o falso profeta, Ap 20:10) e fará a Terra toda
pecados do mundo. o adorar. Satanás sempre quis a adoração
(3) O príncipe fará um acordo com os do mundo, e no meio da Tribulação come­
judeus por uma semana (7 anos), compro­ çará a recebê-la (Mt 4:8-11). Jesus chama
metendo-se a protegê-los de seus inimigos. essa estátua de "abominável da desolação"
A reconstrução de Jerusalém foi decre­ (Dn 9:27; Mt 24:15).
tada em 445 a.C. por Ciro (2 Cr 36:22, 23; Encontramos um parêntese interessante
Ed 1). A cidade foi reconstruída em tempos no final de Mateus 24:15 - "quem lê enten­
conturbados. Em sua obra clássica The da". Trata-se de uma expressão indicando
Coming Prince [O Príncipe Vindouro] (Kregel, que os ensinamentos de Jesus serão extre­
1975), Sir Robert Anderson mostrou que se mamente importantes para aqueles que
M A T E U S 24:1-44 115

lerem o Evangelho de Mateus em tempos vin­ Durante esse período, Deus cuidará de
douros. Ao ler os escritos do profeta Daniel seus "escolhidos" (M t 24:22), uma referên­
e as palavras de Jesus, esses crentes enten­ cia aos judeus e gentios que creram e se
derão os acontecim entos descritos e sabe­ converteram . Esses escolhidos não são os
rão o que fazer. Essa é outra evidência de membros da Igreja, uma vez que esta terá
que as palavras do monte das Oliveiras apli­ sido arrebatada pelo m enos três anos e
cam-se às pessoas do período da Tribulação. meio antes.
Estudiosos das profecias especulam so­
bre o que levará o anticristo a romper sua 3 . O f im d a T r i b u l a ç ã o
aliança com os judeus depois de três anos e (M t 2 4 :2 3 - 4 4 )
meio. Alguém sugeriu que, nessa ocasião, A situação mundial será tão terrível que as
Israel será invadida pela Rússia, conforme a pessoas se perguntarão se haverá alívio, uma
profecia em Ezequiel 38 e 39. Sem dúvida, dúvida que dará aos falsos cristos a opor­
Israel se verá numa situação confortável e tunidade de enganar a muitos. Satanás é ca­
se sentirá seguro, contando com a proteção paz de realizar "prodígios da mentira" (2 Ts
do anticristo (Ez 38:11). Nesse tempo, ele 2:9-12; Ap 13:13, 14). O fato de os líderes
será o líder de uma coligação de dez paí­ religiosos realizarem milagres não é garan­
ses: "O s Estados Unidos da Europa" (Ap tia de que tenham sido enviados por Deus.
1 7:12, 13). A União Soviética será totalmen­ Muitos judeus serão iludidos, pois "os judeus
te derrotada, não por Israel, mas pelo Deus pedem sinais" (1 Co 1:22). Jesus realizou
Todo-Poderoso. Q uando o anticristo perce­ sinais verdadeiros em nome do Pai, e a na­
ber a derrota da União Soviética, sua grande ção o rejeitou (Jo 12:37ss). N o entanto, o
inimiga, vai se aproveitar dessa oportunida­ povo aceitará os milagres de Satanás.
de e se mudar para Israel, rompendo a alian­ M ateus 24:27 mostra que a volta de Cris­
ça e invadindo o templo. to será repentina, com o um relâmpago. O
O s leitores dessa profecia, nos últimos acontecim ento que precede seu retorno é
dias, saberão o que fazer: fugir da judéia! o ajuntamento das nações gentias no Arma-
Encontram os aqui instruções sem elhantes gedom (Ap 16:13-16; 19:11ss). As águias
àquelas dadas em Lucas 21:20ss, mas que voando sobre os cadáveres representam
se referem a um período diferente. As ins­ uma terrível carnificina, resultante de uma
truções de Lucas aplicam-se ao cerco de grande batalha (Ap 19:1 7-19). As mudanças
Jerusalém em 70 d.C., e o "sinal" é o ajunta­ cósm icas m encionadas em M ateus 24:29
mento dos exércitos ao redor da cidade. As precedem a volta de Cristo à Terra.
instruções de M ateus aplicam-se aos cren­ N ão sabemos qual será "o sinal do Filho
tes judeus em meio à Tribulação, e o "sinal" do Hom em [no céu]", mas o povo da Terra,
é a profanação do templo pela estátua do nesse tempo, o reconhecerá. Q uando Jesus
anticristo. Aqueles que confundiram esses buscar a Igreja, virá nos ares, onde seu povo
dois "sin ais" concluíram que Jesus Cristo se encontrará com ele (1 Ts 4:17). M as a
voltou em 70 d.C! segunda vinda de nosso Senhor no final da
O parágrafo inteiro diz respeito apenas tribulação será um grande acontecim ento
aos judeus, pois nenhum cristão se preo­ público, e todos o verão (Ap 1:7).
cuparia com a lei do sábado. Esse aconte­ Esse acontecim ento terá um significado
cim ento conduz à "grande tribulação", a especial para Israel. Jesus voltará no momen­
última metade da sétima semana de Daniel, to em que Israel estiver sendo derrotado
quando Deus lançará seu julgamento sobre pelos exércitos gentios (Z c 12). Resgatará
a Terra. Durante a primeira metade (três anos seu povo, e eles o verão e o reconhecerão
e m eio) da Tribulação, os julgamentos serão com o seu M essias (Z c 12:9-14). A nação
naturais: guerras, fome, terremotos etc. Na experim entará o arrependim ento, a purifi­
última metade, porém, serão sobrenaturais cação e a restauração sob a liderança bon­
e devastadores. dosa do Messias.
116 M A T EU S 24:1-44

Não devemos confundir a trombeta de três admoestações práticas, usando três ilus­
Mateus 24:31 com a "trombeta de Deus" trações: a figueira, Noé e o ladrão que vem
mencionada em 1 Tessalonicenses 4:16. no meio da noite. Mateus 24:36 deixa claro
"Seus escolhidos" em Mateus 24:31 são as que ninguém sabe o dia nem a hora da vin­
pessoas na Terra, judeus e gentios, que da do Senhor. No entanto, podemos estar
creram em Cristo e foram salvas. No Antigo atentos para seus movimentos, a fim de não
Testamento, a movimentação de Israel era sermos pegos de surpresa.
anunciada por um sinal de trombeta (Nm A figueira (w . 32-35). Lucas 21:29 diz:
10; Jl 2:1 ss). Há séculos, Israel encontra-se "Vede a figueira e todas as árvores". Na Bí­
disperso. Os anjos ajuntarão o povo de Is­ blia, a figueira costuma ser uma represen­
rael com trombetas, como faziam os sacer­ tação de Israel (Os 9:10; Lc 13:6-10), e as
dotes no Antigo Testamento (Lv 23:23-25). outras árvores, nesse caso, representam as
Os estudiosos das profecias não apresen­ nações do mundo. É possível que Jesus esti­
tam um consenso quanto a todos os detalhes vesse sugerindo que o nacionalismo crescen­
dos acontecimentos futuros. Mas o resumo te fosse um dos sinais do fim dos tempos.
a seguir representa adequadamente a se­ Sem dúvida, os acontecimentos futuros lan­
qüência de acontecimentos visualizada por çam sombras diante de si. A oração: "Ora,
muitos desses estudiosos: ao começarem estas coisas a suceder" (Lc
21:28, grifo nosso) sugere que um sinal não
1. O arrebatamento da Igreja (1 Co precisa completar-se, a fim de ser relevante
15:51-58; 1Ts 4:13-18). Pode ocorrer para o povo de Deus.
a qualquer momento. Os brotos que surgem nas árvores indi­
2. O líder das dez nações européias faz cam que o verão está próximo. O começo
um acordo de sete anos com Israel desses sinais indica que a vinda do Senhor
(Dn 9:26, 27). está próxima. A geração que estiver presen­
3. Depois de três anos e meio, rompe te nesse período verá esses acontecimentos
o acordo (Dn 9:27). se desenrolando. Nossa geração testemunha
4. Muda-se para Jerusalém e coloca o prenúncio de tais eventos. Não procura­
sua imagem no templo (2 Ts 2:3, 4; mos sinais, mas sim o Salvador (Fp 3:20).
Ap 13). Jesus pode vir buscar sua Igreja a qualquer
5. O anticristo começa a controlar o momento.
mundo e exige a adoração e obediên­ Os dias de Noé (vv. 36-42). Aqui a ênfa­
cia de todos. Nesse período, Deus se é sobre o fato de que o povo não sabia o
envia uma grande tribulação sobre dia em que viria o julgamento. Noé e sua
a Terra (Mt 24:21). família na arca ilustram o milagre de Deus
6. As nações ajuntam-se no Armage- em preservar Israel durante esse tempo
dom para lutar contra o anticristo e terrível de tribulação (Enoque representa o
Israel, mas vêem o sinal da vinda arrebatamento antes da tribulação - Gn 5:21­
de Cristo e se unem para lutar con­ 24; Hb 11:5; 1 Ts 1:10; 5:1-10).
tra ele (Zc 12; Ap 13:13, 14; O que impediu as pessoas de ouvir a
19:11 ss). mensagem de Noé e obedecer? Os interes­
7. Jesus volta à Terra, derrota seus ini­ ses comuns da vida: comer, beber, casar e
migos, é recebido pelos judeus e dar-se em casamento. Ao viver em função
estabelece seu reino na Terra (Ap das coisas boas da vida, perderam o melhor.
19:11ss;Zc 12:7- 13:1). Reina sobre É perigoso tornar-se tão absortos com as
a Terra por mil anos (Ap 20:1-5). coisas da vida a ponto de esquecer que Je­
sus está voltando.
As profecias não têm por objetivo entreter O verbo "tomado", em Mateus 24:39-41,
os curiosos, mas encorajar os consagrados. significa "levado a julgamento". Não devemos
Jesus encerra esta seção de seu discurso com aplicar esses versículos ao arrebatamento da
M A T E U S 2 4:4 5 - 2 5:4 6 119

(M t 13:52). Em sua busca por novidades e com o noiva prematuramente, pois a maior
idéias interessantes, alguns mestres da Bíblia parte desse conceito só foi revelada duran­
esquecem os nutrientes de verdades antigas te o ministério de Paulo (Ef 5:22ss).
da Palavra. O utros ministros, por sua vez, A Igreja sabe, há dois mil anos, que Je ­
estão tão presos a coisas antigas que não sus voltará, mesmo assim, muitos cristãos
conseguem enxergar novos insights e novas continuam letárgicos e sonolentos. N ão es­
aplicações para as verdades mais antigas. tão mais em polgados com a vinda iminen­
O velho dá origem ao novo, e o novo torna o te do Senhor. Com o resultado, dão pouco
velho mais significativo. testem unho eficaz de que o Senhor está
Se o líder espiritual estiver trabalhando voltando.
em obediência quando o Senhor voltar, será O óleo usado para combustível lembra
recom pensado. M as, se não estiver fazen­ o óleo especial usado nos cultos do taber­
do seu trabalho quando o Senhor voltar, será náculo (Êx 27:20, 21). O óleo costuma sim­
tratado com severidade (M t 24:51), com o bolizar o Espírito de Deus, mas, a meu ver,
indica a imagem da dor e da perda. Isso não esse óleo em particular também parece sim­
significa que serão distribuídos castigos di­ bolizar a Palavra de Deus. A Igreja deveria
ante do trono de Cristo, pois terem os um estar "preservando a Palavra da vida" neste
corpo glorificado. No entanto, sugere a per­ mundo cruel e tenebroso (Fp 2:12-16). Cabe
da de recompensas e de oportunidades. a nós manter a palavra da perseverança (Ap
Jesus não explica tal verdade nesta pas­ 3:10) e continuar testem unhando sobre a
sagem, mas, a partir de outros trechos das volta de Jesus Cristo.
Escrituras, vem os que uma das recom pen­ Q uando o noivo e a noiva apareceram,
sas por um serviço obediente será ministrar metade das damas de honra não pôde acen­
no reino estabelecido na Terra (Lc 19:11ss). der suas lâmpadas, porque não tinha óleo.
A recom pensa de um serviço obediente é a "Nossas lâmpadas estão se apagando!" dis­
capacidade de servir ainda mais. Para mim, seram. M as as damas de honra que tinham
não ter um lugar para ministrar no reino de óleo conseguiram acender suas lâmpadas e
Deus seria uma perda tremenda. mantê-las resplandecentes. Foram elas que
O que causou a queda desse servo? entraram na festa de casamento, não as in­
H avia algo de errado em seu coração: ele sensatas que ficaram sem óleo. Essa imagem
parou de esperar a vinda do Senhor (M t parece indicar que nem todos os cristãos
24:48). V iveu com o se fosse alguém do professos entrarão no céu, pois alguns não
mundo e maltratou seus colegas de serviço. creram de todo coração no Senhor Jesus
Q uando os servos de Deus não conseguem Cristo. Sem o Espírito de Deus e sem a Pala­
trabalhar juntos, geralm ente é porque al­ vra de Deus, não há salvação verdadeira.
guém está esquecendo que o Senhor vol­ Jesus term ina essa parábola com uma
tará. Esperar e amar a volta de Cristo deve advertência que havia dado anteriormente:
servir de m otivação para que perm aneça­ "V ig iai" (M t 24:42; 25:13). Isso não signifi­
mos fiéis e para que sejamos amorosos (1 Ts ca ficar em pé no alto de uma montanha
2:19, 20; 1 Jo 2:28). olhando para o céu (At 1:9-11), mas sim estar
Testemunhas sábias e testemunhas insen­ desperto e atento (M t 26:38-41).
satas (w. 1-13). Naquele tempo, o casamen­ Servos úteis e servos inúteis (vv. 14-30).
to era realizado em duas etapas. Primeiro, o Esta parábola não deve ser confundida com
noivo e seus amigos iriam até à casa da noiva a parábola das dez minas (Lc 19:11-27), ape­
buscá-la. Em seguida, noiva e noivo volta­ sar de as duas apresentarem semelhanças. É
vam para a casa do noivo onde era realizada importante observar que cada servo dessa
a festa de casamento. O texto aqui sugere parábola recebeu certa quantia em dinheiro
que o noivo já havia buscado sua esposa e (um talento correspondia a cerca de vinte
estava voltando para sua casa. N o entanto, anos de salário) de acordo com sua capaci-
120 M A T E U S 24:45 - 25:46

cinco talentos; ao com capacidade razoável ao qual já havia confiado a quantia mais ele­
foram dados dois talentos e ao com menos vada de talentos.
capacidade, apenas um. Alguns acreditam que esse servo inútil
Os talentos representam oportunidades não era, de fato, temente a Deus. Ao que
de usar suas capacidades. Se cinco talentos parece, porém, era servo sincero, mesmo
fossem dados a uma pessoa com pouca tendo se mostrado inútil. "As trevas", em
competência, esse indivíduo seria destruído Mateus 25:30, não se referem necessaria­
pelo peso da responsabilidade. Porém, se mente ao inferno, mesmo quando consi­
apenas um talento fosse dado ao mais com­ deramos que esse costuma ser o caso nos
petente, ele seria rebaixado e desonrado. Evangelhos (M t 8:12; 22:13). É arriscado de­
Deus nos dá tarefas e oportunidades de acor­ senvolver uma teologia com base em pa­
do com nossas capacidades. Vivemos numa rábolas, pois o propósito delas é ilustrar
era entre Mateus 25:18 e 19. Recebemos verdades com mais clareza. O servo foi
nossas incumbências ministeriais de acordo tratado com severidade por seu senhor,
com as capacidades e dons que Deus nos perdeu a oportunidade de servir e não rece­
deu. É nosso privilégio servir ao Senhor e beu recompensa alguma. Para mim, é isso o
multiplicar os talentos. que as trevas exteriores representam.
Os três servos são divididos em duas É possível que o homem que recebeu
categorias: os fiéis e os infiéis. Os servos fiéis menos achasse que esse único talento não
colocaram os talentos a serviço de seu se­ era muito importante. Não tinha cinco ta­
nhor. O servo infiel escondeu seu talento lentos, nem mesmo dois, então por que se
na terra. Em vez de usar a oportunidade, ele preocupar com um? Porque foi designado
a enterrou! Não fez o mal propositadamen­ pelo Senhor para ser mordomo desse talen­
te, mas ao deixar de investir seu talento, to. Se não fosse pelas pessoas de um só ta­
pecou e privou seu senhor dos serviços e lento em nosso mundo, muito pouco teria
rendimentos que lhe eram devidos. sido realizado. Seu único talento poderia
O s dois homens que investiram o di­ ter sido dobrado e, com isso, teria trazido
nheiro receberam o mesmo elogio (M t glória para seu senhor.
25:21, 23). O que fez a diferença não foi a Essas três parábolas incentivam a amar a
porção, mas sim a proporção. Começaram volta de Jesus, a esperar por ela com ansie­
como servos, mas o senhor promoveu-os a dade e, enquanto isso, a trabalhar fielmen­
governantes. Foram fiéis no pouco, por isso te. Devemos vigiar, testemunhar e trabalhar.
o senhor lhes confiou muito mais. Haviam Talvez não tenhamos sucesso aos olhos dos
trabalhado arduamente e puderam desfru­ homens, nem sejamos populares, mas quem
tar os resultados. Sua fidelidade deu-lhes uma for fiel e útil receberá a recompensa.
capacidade ainda maior de servir e de rece­
ber responsabilidades. 2. A v i n d a d e C r i s t o e a s n a ç õ e s
O terceiro servo foi infiel e, portanto, g e n t i a s (M t 25:31-46)
não foi recompensado. Seu medo de falhar Esta seção explica como Jesus Cristo julgará
impediu-o de tentar acertar. Teve medo da as nações gentias. A palavra nações, em
vida e das responsabilidades. Com isso, fi­ Mateus 25:32, significa "gentios" e, no gre­
cou paralisado de ansiedade e enterrou o go, é um substantivo neutro, ou seja, nem
talento para protegê-lo. Poderia, no míni­ masculino nem feminino. A palavra outros,
mo, ter colocado o dinheiro no banco e no mesmo versículo, se encontra no gênero
recebido alguns juros sem correr qualquer masculino. Isso significa que as nações se­
risco real. rão reunidas diante de Jesus Cristo, mas ele
Corremos sempre o risco de perder aqui­ as julgará individualmente. Não será um jul­
lo que não usamos para o Senhor. O senhor gamento de grupos étnicos (Alemanha, Itá­
repreendeu o servo mau e infiel e lhe tirou lia, Japão etc.), mas de indivíduos dentro
o talento que havia dado, dando ao homem dessas nações.
M A T E U S 2 4:4 5 - 25:46 121

Não se deve confundir esse julgamento O mais interessante sobre esse julgamen­
com o julgamento do grande trono branco to é que os indivíduos chamados de ovelhas
descrito em A pocalipse 20:11-15. Alguns surpreendem-se com o que ouvem. N ão se
estudiosos juntam as duas passagens e cha­ lem brarão de terem visto o Senhor Jesus
mam isso de "julgamento geral". A Bíblia não Cristo nem de tê-lo ajudado em suas neces­
diz coisa alguma sobre um julgamento ge­ sidades. M as ao ministrar aos crentes judeus,
rai. O julgamento descrito nessa passagem também ministrarão a Cristo. N ão o farão
ocorrerá na Terra logo depois da batalha do visando qualquer recompensa, mas sim por
Armagedom. O julgamento do trono bran­ amor sacrificial. Ao receber os judeus neces­
co ocorrerá em algum outro lugar do espa­ sitados e cuidar deles, esses gentios estarão
ço ("fugiram a terra e o céu", Ap 20:11). O colocando em risco a própria vida. "Q uem
julgamento em Mateus 25 ocorre antes do vos recebe a mim me recebe" (M t 10:40),
estabelecim ento do reino na Terra, pois aos disse Jesus a seus discípulos, e isso certa­
salvos é dito: "Entrai na posse do reino" (M t mente se aplicará também a seus irmãos.
25:34). O julgamento do trono branco ocor­ O s indivíduos chamados de cabritos se­
rerá depois dos mil anos do reinado de Cris­ rão julgados por não crer em Jesus Cristo
to (Ap 20:7ss). nem dar qualquer mostra de fé cuidando de
H á outro erro a evitar. Não se deve for­ seus irmãos. A o que parece, receberão a
çar essa passagem de modo a encontrar a marca da besta e cuidarão de si mesmos a
idéia de salvação por boas obras. Um a leitu­ seu modo, mas não terão tem po de ministrar
ra superficial pode dar a impressão de que ao remanescente judeu que estiver sofren­
ajudar ao próximo é suficiente para mere­ do aqui na Terra (Ap 12:17). Há pecados de
cer a salvação e ir para o céu. No entanto, omissão e pecados de comissão (Tg 4:1 7).
não é essa a mensagem do texto. Ninguém, Em termos morais, deixar de fazer o bem é
em momento algum da história, foi salvo por o mesmo que fazer o mal.
realizar boas obras. Q uando comparamos as duas sentenças
O s santos do Antigo Testamento foram judiciais (M t 25:34, 41), descobrimos algu­
salvos pela fé (H b 11), e os santos do Novo mas verdades interessantes. Em primeiro lu­
Testamento foram salvos pela fé em Jesus gar, as ovelhas serão abençoadas pelo Pai.
Cristo (Ef 2:8-10). Hoje, as pessoas também N o entanto, o texto não diz que os cabritos
são salvas pela fé em Cristo. O evangelho serão "am aldiçoados pelo Pai". As ovelhas
das "boas obras" não é uma mensagem bí­ herdarão o reino, e sua herança terá por base
blica. É correto os cristãos realizarem boas seu nascimento. Herdarão o reino, pois te­
obras (G l 6:10; Hb 13:16), mas não é esse o rão nascido de novo pela fé.
modo pelo qual os não cristãos podem ser O reino será preparado para esses indiví­
salvos. duos salvos, mas M ateus 25:41 não afirma
Se nos lembrarmos dos três grupos rela­ que fogo eterno será preparado para os ca­
tados, poderemos solucionar com mais fa­ britos. Antes, será preparado para o diabo e
cilidade o problema: havia ovelhas, cabras e seus anjos (Ap 20:10). Deus jamais prepa­
irmãos. Q uem são essas pessoas que o Rei rou o inferno para as pessoas. Não há evi­
ousa chamar de "m eus irm ãos"? É provável dência alguma nas Escrituras de que Deus
que sejam os judeus do período da tribula­ tenha predestinado pessoas para o inferno.
ção, as pessoas que ouviram a mensagem Se os pecadores ouvem Satanás e seguem
dos 144 mil e creram em Jesus Cristo. Um a seus caminhos, terminam no mesmo lugar
vez que esses crentes judeus não recebe­ que ele: no tormento do inferno. H á somente
rão a "m arca da besta" (Ap 13:16, 17), não dois destinos eternos: castigo eterno para os
poderão com prar nem vender. Então, como que rejeitarem a Cristo e vida eterna para
conseguirão sobreviver? Por meio da ajuda os que crerem nele.
dos gentios que creram em Cristo e que cui- As ovelhas entrarão no reino e compar-
122 M A TEU S 24:45 - 25:46

com Cristo, e Israel se regozijará com o quietos, pois o pecado do homem já foi jul­
cumprimento das promessas feitas pelos gado na cruz. Deus falou de uma vez por
profetas. Toda a criação compartilhará da todas por meio de seu Filho e só voltará a
gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm falar quando enviar o julgamento durante
8:19-21). Jesus Cristo governará do trono a tribulação.
de Davi em Jerusalém (Lc 1:30-33), e a paz Em quarto lugar, como cristãos e mem­
reinará por mil anos (Is 11). bros da Igreja de Cristo, não estamos pro­
Ao refletir sobre as palavras proferidas curando sinais. O s judeus pedem sinais"
no monte das Oliveiras, convém recapitular (1 Co 1:22). Não haverá sinais antes da vol­
alguns fatos. Em primeiro lugar, Deus ainda ta repentina de Cristo nos ares para buscar
não terminou sua obra com o povo de Is­ sua Igreja. No entanto, quando virmos o
rael. Jesus deixa claro em seu sermão que início de alguns dos sinais da tribulação
Israel será purificado e conduzido à fé no ("ao começarem estas coisas a suceder", Lc
Messias. Deus não lançou seu povo fora (Rm 21:28), saberemos que o fim não está muito
11:1 ss). distante. Nossa impressão é que as tensões
Em segundo lugar, as promessas do reino internacionais e os problemas mundiais es­
apresentadas no Antigo Testamento se cum­ tão aumentando e chegarão a um ponto em
prirão. O período da tribulação será extre­ que o mundo pedirá um ditador. Nessa oca­
mamente difícil para as pessoas na Terra, mas sião, Satanás terá pronto seu candidato.
será um "trabalho de parto" em preparação Por fim, não importa qual venha a ser
para o nascimento do reino. O sofrimento nossa opinião acerca das profecias, sabemos
conduzirá à glória. que Jesus está voltando. Como cristãos, de­
Em terceiro lugar, Deus julgará este mun­ vemos estar alertas e preparados. Não deve­
do. Não envia julgamentos cósmicos hoje, mos desperdiçar oportunidades. Talvez não
porque ainda estamos vivendo no tempo da tenhamos muitas capacidades ou dons, mas
graça, e a mensagem é: "Vos reconcilieis podemos continuar sendo fiéis ao chama­
com Deus" (2 Co 5:14ss). Os céus estão do que recebemos do Senhor.
Jesus. Assentou-se a seus pés e ouviu a Pa­
23 lavra (Lc 10:38-42), atirou-se a seus pés
entristecida com a morte de Lázaro (Jo 11:28­
32) e adorou a seus pés quando ungiu o
A P repara çã o do R ei Senhor com bálsamo (Jo 12:1ss). M aria era
uma mulher profundam ente espiritual. En­
M ateus 2 6:1-56 controu sua bênção aos pés de Jesus, colo­
cou aos pés dele seus fardos e também foi a
seus pés que ofereceu o que tinha de mais
precioso.
Q u a n d o com binam os os relatos dos
Evangelhos, vemos que M aria ungiu os pés
s acontecim entos aproximam-se de e a cabeça do Senhor com perfume e enxu­
O seu ponto culminante. O Rei estava se
preparando para sofrer e morrer. Essa pre­
gou os pés dele com seus cabelos. O s cabe­
los de uma m ulher são sua glória (1 C o
paração ocorre em três estágios e lugares 11:15). M aria entregou sua glória ao Senhor
diferentes. A o exam inar esses estágios, é e o adorou com a dádiva preciosa que lhe
possível observar o conflito crescente entre ofereceu. Foi um ato de amor e de devo­
Cristo e seu inimigo. ção, que espalhou sua fragrância por toda
a casa.
1. Em B e t â n ia : o c o n t r a s t e e n t r e Um a vez que havia prestado atenção às
ad o ração e d e s p e r d íc io (M t 26:1-16) palavras de Jesus, M aria sabia que em breve
M ateus não oferece um relato cronológico ele seria morto e sepultado. Também sabia
dos acontecim entos da última semana. Nes­ que seu corpo não precisaria do tradicional
se ponto, insere um flashback para descre­ cuidado dispensado aos mortos, pois não
ver um banquete em Betân ia e o gesto veria corrupção (SI 16:10; At 2:22-28). Em
belíssimo de M aria. Enquanto os líderes reli­ vez de ungir o corpo de seu Senhor depois
giosos se reuniam para tramar contra Jesus, de sua morte, ela o fez antes. Foi um ato de
os amigos de Cristo reuniam-se para mostrar fé e amor.
seu amor e devoção a ele. Ao juntar esses Judas (w. 9, 9). O s discípulos não co­
dois relatos, M ateus também mostra a rela­ nheciam o verdadeiro caráter de Judas. A
ção entre a adoração de M aria e a traição crítica que fez à atitude de M aria pareceu
de Judas. Depois do banquete em Betânia, tão "espiritual" que os outros discípulos se
Judas procurou os sacerdotes e se ofereceu juntaram a ele no ataque. Sabem os a ver­
para ajudá-los (M c 14:10, 11), possivelmen­ dadeira razão de Judas querer vender o bál­
te numa reação à repreensão de Jesus. samo: o dinheiro seria colocado no caixa, e
O banquete em Betânia ocorreu "seis ele poderia usá-lo para seus próprios inte­
dias antes da Páscoa" (Jo 12:1), na casa de resses (Jo 12:6).
Simão, o leproso, que aparentem ente fora Judas é uma figura trágica. Foi cham ado
curado pelo Senhor Jesus. Havia pelo menos para ser um dos discípulos de Cristo e es­
dezessete pessoas no jantar: Simão, Maria, colhido com o apóstolo com os outros (M c
M arta, Lázaro, Jesus e os doze apóstolos. 3:13-19). Recebeu poder para curar (M t 10:1­
Fiel a sua personalidade ativa e ocupada, 4) e, provavelm ente, usou esse poder. A
M arta cuidou de servir a todos (Lc 10:38­ salvação não é com provada pelo poder de
42). As três pessoas-chave desse aconteci­ realizar milagres (M t 7:21-29), mas sim pela
mento são M aria, Judas e Jesus. obediência à Palavra de Deus.
Maria (v. 7). Somente João identifica essa Apesar de ser um dos discípulos e de
mulher com o M aria, irmã de M arta e Lázaro. estar tão próximo de Cristo, Judas não era
Ela é citada somente três vezes no evange- um cristão verdadeiro. Q uando Jesus lavou
124 M ATEUS 26:1-56

deles (Judas) não fora purificado (Jo 13:10, Judas quando viu o bálsamo caríssimo sen­
11). Como muitos cristãos professos de hoje, do derramado sobre os pés de Jesus. No
Judas freqüentava o grupo de cristãos, mas entanto, foi Judas quem desperdiçou suas
não era um deles. oportunidades, sua vida e sua afma! Jesus o
É interessante observar que, toda vez chamou de filho da perdição (Jo 17:12), lite­
que Maria procurou fazer algo para Jesus, ralmente, "filho do desperdício".
foi mal compreendida. Sua irmã, Marta, não Jesus (w . 10-16). Defendeu Maria ime­
entendeu a atitude de Maria, quando ela se diatamente, pois sempre protege os seus.
assentou aos pés de Jesus para ouvi-lo. Judas Repreendeu Judas e os outros discípulos e
e os outros discípulos não entenderam quan­ elogiou Maria por seu gesto amoroso de
do ela ungiu Jesus, e seus amigos e vizinhos devoção. Nada do que é dado a Jesus com
não entenderam quando ela saiu da casa amor é desperdiçado. Esse ato de adoração
para se encontrar com Jesus depois do sepul­ não apenas trouxe alegria ao coração de
tamento de Lázaro (Jo 11:28-31). Quando Jesus e perfumou a casa como também
damos a Jesus Cristo o primeiro lugar em abençoou o mundo inteiro. A devoção de
nossa vida, podemos esperar ser mal com­ Maria estimula-nos a amar e a servir a Cristo
preendidos e criticados por aqueles que com o que temos de melhor. Tal serviço traz
dizem segui-lo. aos outros bênçãos das quais talvez só te­
Por que Judas seguiu Jesus por três anos, nhamos notícia quando encontrarmos Jesus
ouviu suas palavras, participou de seu mi­ no céu.
nistério e depois se tornou um traidor? Uma Jesus não criticou os discípulos porque
coisa é certa: Judas não foi vítima das cir­ se importaram com os pobres. Preocupa­
cunstâncias, tampouco um instrumento pas­ va-se com os pobres também, e devemos
sivo da providência divina. De acordo com fazer o mesmo. Antes os advertiu a que não
as profecias, um dos membros do círculo desperdiçassem a oportunidade de adorá-
íntimo de Jesus o trairia (Sl 41:9; 55:12-14), lo. Teriam inúmeras oportunidades de aju­
mas esse fato não redime Judas da respon­ dar os pobres, mas nem sempre de adorar
sabilidade pelo que fez. Não devem os aos pés de Jesus e de prepará-lo para seu
transformá-lo num mártir só porque cumpriu sepultamento.
a profecia.
Jamais conseguiremos compreender de 2. No c e n á c u l o : o c o n t r a s t e en tre
todo a mente e o coração de Judas, mas FIDELIDADE E TRAIÇÃO (Mt 26:17-30)
sabemos que ele teve inúmeras oportuni­ Os preparativos para a Páscoa (vv. 17-19).
dades de ser salvo. Foi advertido com fre­ Era necessário comprar e preparar os ele­
qüência por Jesus e, no cenáculo, o Mestre mentos do jantar de Páscoa. Também era
chegou a lavar seus pés. Éprovável que Judas preciso encontrar um lugar na cidade abar­
tenha visto em Jesus a esperança da liberda­ rotada de Jerusalém em que pudessem rea­
de política de Israel. Se Jesus estabelecesse lizar a comemoração. Jesus enviou Pedro
o reino, Judas, como tesoureiro, teria uma e João para cuidar dos preparativos (Lc
posição importante. Quando Jesus recusou 22:8). Deveriam seguir um homem que
tornar-se um Messias político, Judas voltou- estivesse carregando um cântaro de água
se contra ele. Satanás encontrou uma oportu­ e que lhes mostraria um cenáculo espaço­
nidade em Judas e colocou em sua cabeça so. Não era comum um homem carregar
idéias (Jo 13:2), que o levaram a entregar água, pois essa tarefa normalmente cabia
Jesus aos inimigos (Jo 13:27). às mulheres.
A vida de Judas é um aviso aos que fin­ Pedro e João tiveram de providenciar
gem servir a Cristo, mas cujo coração está pães, ervas amargas e vinho para a festa.
distante de Deus. Também é um aviso aos Também tiveram de encontrar um cordeiro
que desperdiçam oportunidades na vida. perfeito e de sacrificá-lo no pátio do templo,
"Para que este desperdício?", perguntou colocando o sangue no altar. O cordeiro
M A T E U S 26:1-56 125

deveria ser assado inteiro, e então a festa I os outros discípulos perceberam o que Judas
estaria pronta. estava fazendo. "Saiu logo. E era noite" (Jo
O anú ncio da traição (w . 20-25). Até o 13:30). Para Judas, ainda é noite.
final, os discípulos não perceberam que A in stitu ição da C eia do Senh o r (vv. 26­
Judas, um dentre eles, era o traidor. N ão 30). Depois que Judas deixou o salão, Jesus
notaram qualquer diferença de atitude na instituiu algo novo, a Ceia do Senhor (1 Co
form a de Jesus tratar Judas, o que mostra 11:23-34). Tomou dois elementos do jantar
claramente a paciência e o amor de nosso de Páscoa, o pão asmo e o cálice com vinho,
Senhor. Foi durante o jantar de Páscoa, quan­ e os usou para representar sua morte. O pão
do já estavam com endo, que Jesus anunciou repartido representa seu corpo, entregue pe­
a presença do traidor. O s discípulos entreo- los pecados do mundo. O "fruto da vid e"
lharam-se, tentando imaginar quem seria o (M t 26:29) representa seu sangue, derrama­
traidor. Em seguida, perguntaram a Jesus: do para a remissão dos pecados. O texto
"Será que sou eu, Senhor?" A construção não indica que algo especial ou misterioso
da frase indica que esperavam uma respos­ ocorreu com esses dois elementos. Conti­
ta negativa. nuaram sendo pão e "fruto da vide", transmi­
Judas estava reclinado à esquerda de Je­ tindo, porém, um significado mais profundo:
sus, ocupando o lugar de honra do banque­ o corpo e o sangue de Jesus Cristo.
te. (Pode ser que isso explique por que os A Ceia do Senhor lembra que devemos
discípulos voltaram a discutir sobre quem era esperar a volta de Cristo. Realizaremos essa
o maior. Ver Lc 22:24-30.) João estava recli­ ceia até que ele volte (1 Co 11:26). A Pás­
nado à direita do Senhor e, portanto, podia coa apontava para o Cordeiro de Deus, que
descansar a cabeça no peito de Cristo (Jo tiraria o pecado do mundo (Jo 1:29). A Ceia
Ί 3:23). O ato de com er pão juntos, especial­ do Senhor anuncia que essa obra momen-
mente o pão que havia sido mergulhado no tosa foi realizada.
prato de ervas amargas, era um gesto de Em M ateus 26:29, Jesus acrescenta um
amizade. Também era uma honra receber com entário quanto à glória do reino vin­
um pedaço de pão das mãos do anfitrião. douro. Jesus com eu pão, peixe e mel de­
Jesus deu o pão a judas (SI 41:9), e Judas o pois de sua ressurreição (Lc 24:41-43; Jo
aceitou, sabendo que trairia o Senhor. Para 21:9-15). M as não há registro de que tenha
Jesus, dar o pão foi um ato gentil de hospita­ bebido do fruto da vide. M esm o enquanto
lidade; para Judas, aceitar o pão foi um ato enfrentava a rejeição de sua nação e o so­
vil de traição. frimento da cruz, Jesus continuou olhando
M ateus 26:24 apresenta tanto o aspec­ para o reino vindouro que seria estabeleci­
to divino quanto o humano desse aconte­ do por causa de seu sacrifício. D e acordo
cimento. Do ponto de vista divino, a traição com a tradição, no banquete de Páscoa,
de Judas foi prenunciada nas Escrituras e fa­ deveriam ser servidos quatro cálices de vi­
zia parte do plano de Deus. Do ponto de nho, cada um deles relacionado a uma das
vista humano, porém, Judas foi culpado de quatro promessas em Êxodo 6:6, 7. Jesus
um crime e absolutamente responsável pelo instituiu a Ceia do Senhor entre o terceiro
que fez. Não há conflito entre a soberania e o quarto cálice.
divina e a responsabilidade humana, mes­ O hino que Jesus e seus discípulos can­
mo que não possamos com preender com o taram antes de deixar o salão era parte do
trabalham juntas para cumprir a vontade de H allel tradicional encontrado nos Salmos 116
Deus. a 118. A o ler esses salmos à luz da morte e
Depois que Judas tomou o pedaço de ressurreição de Cristo, podemos ver com o
pão, Satanás entrou nele (Jo 13:27). Em se­ adquirem um novo significado. Q u e extraor­
guida, o traidor saiu para cumprir a promes­ dinário ver Jesus cantando louvores a Deus
sa que havia feito aos líderes religiosos de quando estava prestes a enfrentar a rejeição,
126 M A T E U S 26:1-56

3.G e t s ê m a n i: o c o n t r a s t e entre Não devemos imaginar que foi o medo


A s u b m i s s ã o e a r e s is t ê n c i a da morte que fez nosso Senhor agonizar no
(Mt 26:31-56) jardim. Não temeu a morte, antes a enfren­
O monte das Oliveiras era um jardim parti­ tou com coragem e paz. Estava para beber
cular para o qual Jesus se retirava com o "cálice" que o Pai havia preparado, e isso
freqüência (Jo 18:2), Getsêmani significa significava tomar sobre si os pecados do
"prensa de azeite", um nome significativo, mundo inteiro (Jo 18:11; 1 Pe 2:24). Muitas
tendo em vista a agonia de nosso Senhor pessoas piedosas têm sido presas, espanca­
naquele jardim. das e assassinadas por causa da fé, mas so­
Jesus anuncia o fracasso dos discípulos mente Jesus foi feito pecado e maldição por
(vv. 31-35). É provável que essa declaração amor à humanidade (2 Co 5:21; Gl 3:13). O
tenha sido feita enquanto se encaminhavam Pai jamais deixou seus filhos, no entanto,
para o jardim. Costumamos apontar para abandonou seu Filho (Mt 27:46). Foi esse o
Pedro com o aquele que falhou com o Se­ cálice do qual Jesus bebeu voluntariamente
nhor, mas todos os discípulos estavam en­ por nós.
volvidos. Ao advertir os discípulos, Jesus faz Jesus não estava resistindo nem lutando
referência a Zacarias 13:7, mas também acres­ contra a vontade de Deus. Sujeitou-se a ela.
centa uma palavra de promessa: ressuscitaria Como homem perfeito, sentiu o terrível pe­
e se dirigiria para a Galiléia, a fim de se en­ so do pecado e experimentou em sua alma
contrar com eles. Infelizmente, os discípulos santa verdadeira repulsa por esse pecado.
não deram atenção à promessa da ressurrei­ Mesmo assim, com o Filho de Deus, sabia
ção. No dia da ressurreição, os anjos os lem­ que essa era sua missão no mundo. O mis­
braram do encontro na Galiléia (Mt 28:7,10). tério de sua humanidade e divindade é re­
Quando Pedro discordou do Senhor, deu presentado nitidamente nessa cena.
0 primeiro passo em seu pecado de negar a Pedro e seus companheiros prometeram
Cristo. Pedro não estava disposto a aplicar a ser fiéis até a morte e, no entanto> caíram no
palavra "todos" a si mesmo. Em lugar de tran­ sono! Precisavam orar por eles mesmos, pois
qüilizar Pedro, o Senhor lhe deu uma adver­ o perigo estava próximo. Quão importante
tência pessoal: negaria Cristo três vezes! teria sido para o Mestre vê-los vigiando e
Pedro pensava que era melhor do que os orando com ele! Os discípulos falharam, mas
outros, e Jesus lhe disse que seria mais co­ o Senhor foi bem-sucedido.
varde do que todos. Jesus é preso (vv. 47-56). Sabendo que
A reação de Pedro foi negar as palavras Judas e os soldados se aproximavam, Jesus
de Cristo ainda mais fervorosamente, e os acordou os discípulos e os preparou para o
outros discípulos juntaram-se a ele nesse pro­ que estava prestes a acontecer. O fato de os
testo. Se Pedro tivesse ouvido a palavra e soldados e os guardas do templo carrega­
obedecido, não teria negado seu Senhor três rem armas e lanternas mostra que Judas não
vezes. havia entendido Jesus. Pensou que teriam
Jesus entrega-se à vontade do Pai (w . 36­ de vasculhar o jardim para encontrá-lo e de­
46). Jesus deixou oito de seus discípulos na pois lutar contra os discípulos para pren­
entrada do jardim e chamou Pedro, Tiago e dê-lo. Mas Jesus foi até eles e se rendeu
João para acompanhá-lo até um lugar mais tranqüilamente. Na verdade, Judas não pre­
adiante. Essa é terceira vez que o Mestre leva cisaria ter traído Jesus com um beijo, pois
esses três homens consigo. Eles o acompa­ Cristo disse aos soldados quem ele era.
nharam no m onte da transfiguração (Mt É triste ver com o Judas degradava tudo
1 7:1 ss) e na casa de Jairo, onde ressuscitou a o que tocava. Seu nome significa louvor (Gn
filha dele (Lc 8:49ss). Jesus desejava que oras­ 29:35), mas quem pensaria em dar a seu
sem e vigiassem com ele, pois estava entran­ filho o nome de Judas hoje em dia? Usou o
do num período difícil, e a presença de seus beijo com o arma, não com o sinal de afeição.
discípulos lhe serviria de encorajamento. Naquele tempo, era costume os discípulos
M ATEUS 2 6 :1 -5 6 127

beijarem seu mestre. Nesse caso, porém, não vivendo de acordo com um cronograma di­
foi um gesto de submissão nem de respeito. vino e que esses acontecimentos não foram
Os verbos em grego indicam que Judas o acidentes, mas sim compromissos agenda­
beijou repetidamente. dos. Tudo fazia parte do plano de Deus, mas,
A essa altura, alguns dos outros discí­ mesmo assim, cada indivíduo é responsável
pulos perguntaram: "Devemos usar nossas pela própria perversidade. "Sendo este entre­
espadas?". Quando estava com eles no gue pelo determinado desígnio e presciên-
cenáculo, Jesus explicou sobre as espadas cia de Deus, vós o matastes, crucificando-o
(Lc 22:31-38), preparando-os para uma vida por mãos de iníquos" (At 2:23).
diferente. Teriam de usar os meios que Je­ É evidente que não tinham o direito de
sus provesse para cuidar do sustento e da prender Jesus, pois ele não havia transgredi­
segurança deles. Estariam num mundo hos­ do lei alguma nem cometido crime algum.
til, e Jesus nem sempre realizaria milagres Estavam tratando o Mestre como um ladrão
para ajudá-los. qualquer, quando, na verdade, Judas era o
Infelizmente, os discípulos não entende­ criminoso! Os discípulos, que prometeram
ram o que ele estava ensinando. Como sem­ com tanta valentia permanecer a seu lado,
pre, compreenderam as palavras de modo o desertaram no momento crítico. "Eis que
literal. "Senhor, eis aqui duas espadas!", e vem a hora e já é chegada, em que sereis
Jesus lhes disse: "Basta!" (Lc 22:38). Pedro dispersos, cada um para sua casa, e me dei-
havia discutido com a Palavra, negado a Pa­ xareis só; contudo, não estou só, porque o
lavra e desobedecido à Palavra (ao dormir Pai está comigo" (Jo 16:32). Mais tarde, até
no jardim). Aqui, o vemos correndo para de­ mesmo o Pai o deixaria!
fender a Palavra. Em seu zelo de ajudar Je­ Cada um de nós deve decidir: toma­
sus, Pedro usou sua espada para cortar a remos a espada ou beberemos do cálice?
orelha de Malco. Não esperou Jesus lhe di­ Resistiremos à vontade de Deus ou nos su­
zer o que fazer; em vez disso (como Moisés jeitaremos a ela? O cálice geralmente en­
no Egito, Êx 2:11-15), Pedro precipitou-se e volve sofrimento, mas é esse sofrimento que
confiou no poder da carne. Se Jesus não nos conduz à glória. Não precisamos te­
tivesse curado a orelha ferida, provavelmen­ mer o cálice, pois foi preparado pelo Pai
te haveria quatro cruzes no Calvário! especialmente para nós. Ele sabe quanto
O fato de os guardas não terem prendi­ podemos suportar, e o prepara com sabe­
do Jesus no templo mostra que ele estava doria e amor.
ocasiões durante seu ministério. É evidente
24 que esses líderes ficaram felizes de poder
pôr as mãos em seu inimigo. Caifás já havia
deixado bem claro que pretendia sacrificar
O J u lg a m en t o do R ei Jesus a fim de salvar a nação (Jo 11:47-54).
O sumo sacerdote organizou, às pres­
M a t e u s 2 6 : 5 7 - 2 7 :2 6 sas, uma assembléia no sinédrio, um conse­
lho formado pelos principais sacerdotes,
pelos anciãos e pelos escribas (Mc 14:53).
Enquanto os homens se reuniam, Caifás e
seus assistentes saíram à procura de teste­
munhas que depusessem contra o prisionei­

D
epois de sua prisão, Jesus foi levado ro. Já haviam determinado que Jesus era
para a casa de Anãs, antigo sumo sa­ culpado, mas queriam que tudo tivesse a
cerdote, sogro de Caifás, sumo sacerdote aparência de um julgamento legal.
oficial na época (Jo 18:13ss). Político astuto, Uma vez que foi impossível encontrar
Anãs também era uma espécie de "padri­ uma testemunha honesta (fato que, por si
nho" do templo. Em seguida, Jesus foi leva­ mesmo, prova a inocência de Jesus), os líde­
do a Caifás e, pela manhã, à reunião do res arranjaram algumas falsas testemunhas.
sinédrio. Os líderes judeus o entregaram a A lei de Moisés advertia contra o uso de
Pilatos que, por sua vez, tentou colocá-lo sob falsas testemunhas (Dt 19:15-21), mas eles
a jurisdição de H erodes (Lc 23:6-12). distorceram a Palavra de Deus para realizar
Herodes, porém, o mandou de volta para seus propósitos egoístas. Cumpriram a letra
Pilatos. da lei ao apresentar duas testemunhas, mas
Mateus concentra a atenção em quatro transgrediram tanto a letra quanto o espírito
pessoas envolvidas no julgamento e sofri­ da lei quando ambas deram depoimentos
mento do Senhor. falsos. Essas testemunhas citaram uma de­
claração que Jesus havia feito em seu minis­
1. C a if á s (Mt 26:57-68) tério: "Destruí este santuário, e em três dias
De acordo com a lei do Antigo Testamento, o reconstruirei" (Jo 2:19). Era algo muito sé­
o sumo sacerdote deveria servir nessa fun­ rio falar contra o tempfo, e posteriormente
ção até a morte. No entanto, quando os foi essa mesma acusação que levou à morte
romanos assumiram o controle de Israel, de Estêvão (At 6:12-14; 7:45-50).
transformaram o sumo sacerdócio num car­ Ao ser confrontado com tal acusação,
go para o qual poderiam nomear pessoas e, Jesus permaneceu calado, cumprindo assim
desse modo, estar certos de que sempre te­ a profecia de Isaías 53:7. Jesus não poderia
riam um líder religioso cooperativo com a negar que havia proferido aquelas palavras
política romana. Anás serviu como sumo e, no entanto, também não poderia explicar
sacerdote de 6 a 15 d.C., e cinco de seus seu significado espiritual para aquele grupo
filhos, bem como Caifás, seu genro, foram de homens mundanos. A atitude de Jesus
seus sucessores. Caifás foi sumo sacerdote com seus inimigos é um exemplo a ser se­
entre 18 e 36 d.C., mas Anás continuou exer­ guido (1 Pe 2:18-23).
cendo grande influência (Lc 3:2). Quando Caifás viu que as acusações fal­
Tanto Anás quanto Caifás eram saduceus, sas não estavam incriminando Jesus, resolveu
o que significa que não acreditavam na res­ mudar de rumo: colocou Jesus sob juramen­
surreição, no mundo espiritual nem em qual­ to. Em tempos de perjúrio e de negligência
quer autoridade do Antigo Testamento além com a verdade como os dias de hoje, não
dos cinco livros de Moisés. Era a família do somos capazes de entender inteiramente a
sumo sacerdote que gerenciava os "negó­ importância solene que os judeus atribuíam
cios do templo" fechados por Jesus em duas ao juramento segundo sua lei (Êx 20:7; Lv
M A T E U S 2 6 :5 7 - 2 7 :2 6 129

19:12; Nm 30:2). Caifás sabia que Jesus afir­ O fato de Pedro aproximar-se da foguei­
mava ser o Filho de Deus (Jo 10:30-33), de ra do inimigo para se aquecer indica quão
modo que o colocou sob juramento para fa­ derrotado estava. A negação foi ainda mais
zer tal declaração. O sacerdote astuto sabia humilhante porque as duas perguntas foram
que Jesus não poderia negar-se a responder. feitas por mulheres. A terceira veio de um
Jesus afirm ou que era o Filho de Deus homem que estava por perto, mas Pedro fa­
e aplicou a si mesmo Salm os 110:1 e Da­ lhou novamente. O homem era um parente
niel 7:13 - duas passagens m essiânicas. de M alco, o homem a quem Pedro havia
Em ambas as citações, Jesus prenunciou sua ferido (Jo 18:26). M esm o depois de Jesus
ressurreição, ascensão e sua volta em gló­ ter reparado o dano, Pedro teve de lidar com
ria. Isso representaria salvação para os que as conseqüências de seu ato impulsivo.
confiam nele, mas para Caifás, significaria D e acordo com o relato de M arcos, o
co nd enação . galo deveria cantar duas vezes (M c 14:30).
M esm o sem considerar as evidências, Q u an d o Pedro negou Jesus pela terceira
Caifás deu a sentença. A forma de Jesus ser vez, o galo cantou pela segunda vez (M c
tratado depois de anunciado o veredicto foi, 14:72). Isso significa que o prim eiro canto
sem dúvida alguma, ilegal e desumana. Cla­ do galo foi um aviso a Pedro, diante do qual
ro que tudo isso serviu apenas para revelar ele deveria ter deixado aquele local imedia­
a m aldade do coração do sacerdote e, ao tam ente. A terceira negação e o segundo
mesmo tempo, cumprir as profecias messiâ­ canto do galo foram o ápice do teste, e Pe­
nicas (Is 50:6). dro falhou.
O canto do galo trouxe à m em ória as
2. P edro (M t 26:69-75) palavras de Jesus. Se tivesse se lem brado
H á quem critique Pedro por ter seguido "de antes e obedecido, jamais teria negado ao
longe" (M t 26:58), mas esse não foi o proble­ Senhor. Foi nesse momento que Jesus se vi­
ma. Seu erro foi ter seguido Jesus quando, rou e olhou para Pedro (Lc 22:61), e o olhar
na verdade, deveria ter fugido! Jesus havia de amor do M estre quebrantou o coração
advertido que Pedro o negaria e tam bém do apóstolo. Pedro foi em bora e chorou
citara Zacarias 13:7: "as ovelhas ficarão dis­ am argam ente.
persas". Por fim, Jesus ordenara expressa­ Depois de sua ressurreição, Jesus encon­
mente aos discípulos que não o seguissem: trou-se em particular com Pedro e o restau­
"deixai ir estes" (Jo 18:8, 9). Se Pedro tivesse rou ao discipulado (M c 16:7; 1 C o 15:5).
ouvido a palavra e obedecido, não teria fal­ Também o restaurou publicam ente (Jo 21:15­
tado com o Senhor de forma tão humilhante. 19). Pedro aprendeu algum as liçõ es im ­
O ap ó sto lo Jo ã o tam bém particip o u portantes durante essa difícil experiência.
desse fiasco, pois acom panhou Pedro até a Aprendeu a prestar atenção à Palavra, vigiar,
entrada da casa do sum o sacerd o te (Jo orar e não confiar em suas próprias forças.
18:15, 16). Jesus os advertira a vigiar e orar
(M t 26:41), mas eles dormiram, entraram em 3. Judas (M t 27:1-10)
tentação, e Pedro caiu. O conselho dos líderes judeus reuniu-se pela
A negação de Pedro a Cristo é o ponto manhã e deu o veredicto oficial contra Jesus.
culm inante de uma série de fracassos. Q uan­ Desse modo, evitaram que o povo dissesse,
do Jesus advertiu Pedro de que seria testado posteriormente, que a reunião realizada às
por Satanás, Pedro reafirmou sua fé e sua pressas na noite anterior havia sido ilegal.
capacidade de perm anecer fiel ao Senhor. Nem todos estavam presentes na reunião
Orgulhoso, o apóstoío discutiu com a Pala­ da manhã. E provável que Nicodem os e José
vra de Deus! Teve a ousadia de comparar-se de Arim atéia não tivessem com parecido ou
com os outros discípulos e de afirmar que, tivessem se abstido de votar (Jo 19:38-42).
mesmo que eles faltassem com seu Senhor, Porém, uma vez que os judeus não tinham
130 M A T EU S 26:57 - 27:26

18:31), o prisioneiro foi levado até Pilatos, o Mas então por que Mateus relaciona
procurador romano. Somente ele poderia esse acontecim ento a uma profecia de
condenar um prisioneiro à morte, Jeremias, quando, na verdade, diz respeito
É nesse ponto que Judas volta à cena, a uma profecia encontrada em Zacarias
presenciando como testemunha ocular o 11:12, 13? Uma possibilidade é que a profe­
julgamento e a sentença oficial de Jesus e cia de Jeremias tenha sido proferida por ele
vendo que Cristo havia sido condenado à (ver Mt 27:9) e se tornado parte da tradição
morte. A reação de Judas foi de remorso e oral judaica, sendo registrada por escrito
desgosto. A palavra grega traduzida por "to­ posteriormente pelo profeta Zacarias. O pro­
cado de remorso", em Mateus 27:3, não feta Jeremias teve parte na compra de um
indica arrependimento pelo pecado que leva campo (Jr 32:6ss), esteve na casa de um olei­
à mudança de atitude, mas sim desgosto por ro (Jr 18:1ss) e também num cemitério (Jr
ter sido pego em flagrante - o tipo de re­ 19:1-12). É possível que Mateus tenha se
morso que causa desespero. Pedro arrepen­ referido a esses fatos em geral como con­
deu-se sinceramente e Jesus o restaurou. texto para a profecia específica escrita por
Judas não se arrependeu e, por isso, come­ Zacarias.
teu suicídio.
Judas havia vendido Jesus pelo preço de 4. P il a t o s (Mt 27:11-26)
um escravo (Êx 21:32). Em desespero, jogou Pôncio Pilatos foi o sexto governador ro­
as moedas no chão do templo e saiu. De mano a servir na Judéia. Não era estimado
acordo com a lei, esse dinheiro sujo não po­ pelos judeus, porque, em várias ocasiões,
deria ser usado no templo (Dt 23:18). Os transgrediu deliberadamente a lei judaica e
líderes atentavam para a lei até mesmo quan­ provocou o povo. Também se mostrou dis­
do eram culpados de transgredi-la. Usaram posto a matar, caso isso se fizesse necessá­
o dinheiro para comprar um lugar chamado rio para alcançar seus objetivos (Lc 13:1).
de "campo do oleiro" e para designá-lo lo­ Tendo em vista o péssimo relacionamento
cal de sepultamento para forasteiros. do governador com Israel e também as mu­
Atos 1:18,19 ajuda a esclarecer esses danças na política de Roma com respeito
acontecimentos. Judas afastou-se sozinho, aos judeus, a posição de Pilatos era um tan­
lamentando profundamente seu crime e, por to precária.
fim, enforcou-se. Ao que parece, o corpo só Os líderes judeus acusaram Jesus de três
foi descoberto alguns dias depois, pois foi crimes. Afirmaram que era culpado de en­
encontrado inchado e com as entranhas ex­ ganar a nação, de proibir o pagamento dos
postas, possivelmente porque o galho da impostos e de se dizer rei (Lc 23:2). Eram,
árvore onde o suicida havia se amarrado ti­ sem dúvida, acusações políticas, do tipo que
nha quebrado, e a queda tinha ocasionado um governador romano poderia resolver.
a ruptura do cadáver. Pilatos concentrou-se na terceira acusação
Atos 1:18 não diz que Judas cometeu - de que Jesus afirmava ser um rei pois se
suicídio no mesmo campo que os sacerdo­ tratava de uma ameaça a Roma. Se con­
tes compraram com o dinheiro, pois isso teria seguisse tratar desse "revolucionário" da
tornado o campo cerimonialmente impuro, maneira correta, Pilatos poderia agradar os
e os sacerdotes não o teriam adquirido. Ma­ judeus e, ao mesmo tempo, impressionar o
teus 27:7 afirma que os sacerdotes compra­ Imperador.
ram um campo, e Atos 1:18 afirma que o "És tu o rei dos judeus?", perguntou Pi­
dinheiro de Judas foi usado para isso. Era latos. Jesus lhe respondeu claramente: "Tu
impossível que Judas tivesse comprado o o dizes". No entanto, logo em seguida, Je­
campo, pois devolveu o dinheiro aos sacer­ sus interrogou Pilatos sobre sua pergunta (Jo
dotes. Os sacerdotes chamaram o cemité­ 18:34-37). O governador tinha em mente a
rio de "Campo de Sangue", pois havia sido "realeza" no sentido romano? Nesse caso,
comprado com "dinheiro pago por sangue". Jesus não se considerava rei. Explicou ao
M A T E U S 2 6 :5 7 - 2 7:2 6 131

governador que seu reino não era deste M as Pilatos enganou-se, pois apesar de
m undo, que não possuía exércitos e que Jesus ter curado os enfermos e ressuscitado
seus seguidores não lutavam. Antes, era o os mortos, o povo o rejeitou e pediu a liber­
reino da verdade. tação do assassino. Pilatos percebeu que es­
Esse diálogo convenceu Pilatos de que tava se formando uma revolta, algo que não
Jesus não era um revolucionário perigoso. poderia permitir que acontecesse. A fim de
"N ã o vejo neste homem crime algum." Po­ forçar Pilatos a tomar uma atitude, os líde­
rém, os líderes judeus insistiram que Pilatos res começaram a instigar justamente aquilo
o condenasse. Repetiram as acusações e, que todas as autoridades mais desejavam
ao exagerá-las, mencionaram que Jesus era evitar: uma revolta na época de Páscoa (M t
da Galiléia. Q uando Pilatos ouviu isso, en­ 26:5). Assim, o governador resolveu o dile­
controu uma saída para o dilem a, pois a ma, não por uma questão de integridade,
Galiléia estava sob a jurisdição de Herodes. mas sim de conveniência. Libertou um cri­
É possível que Herodes estivesse desconten­ minoso e condenou um inocente, e o ino­
te por Pilatos ter assassinado alguns de seu cente era o Filho de Deus.
povo (Lc 13:1), e essa poderia ser uma Na tentativa de se exonerar, Pilatos to­
excelente oportunidade de Pilatos reconci­ mou três providências. Em prim eiro lugar,
liar-se com Herodes. lavou as mãos e declarou que era inocente
M ateus não registra o julgamento reali­ de qualquer culpa. Em segundo lugar, decla­
zado perante Herodes Antipas (Lc 23:6-12). rou categoricam ente que Jesus era uma pes­
Herodes foi o governante que mandou exe­ soa justa, ou seja, que não merecia morrer.
cutar João Batista e que ameaçou matar Jesus Em terceiro lugar, ofereceu castigar Jesus e
(Lc 13:31, 32). Jesus perm aneceu calado, depois libertá-lo, mas os líderes judeus não
pois Herodes havia silenciado a voz de Deus. aceitaram essa oferta diplomática. Por fim,
Só restou ao rei e sca rn e cer de Jesus e as autoridades religiosas usaram uma arma
mandá-lo de volta para Pilatos. Se o gover­ da qual Pilatos não poderia se defender: "Se
nador romano esperava livrar-se do proble­ soltas a este, não és amigo de César! Todo
ma, ficou decepcionado. No entanto, essa aquele que se faz rei é contra César!" (Jo
manobra acabou promovendo a conciliação 19:12). Diante disso, Pilatos desistiu, man­
entre os dois governantes. dou açoitar a Jesus e o entregou para ser
Pilatos desejava resolver o problem a crucificado.
sem tomar qualquer decisão com respeito Um a vez que os judeus não poderiam
a Jesus. Com o governador romano, havia executar criminosos, era necessário que fos­
jurado cum prir a lei, mas com o político, sem assistidos por oficiais romanos, e Pilatos
sabia que deveria agradar o povo. Cada deu sua permissão. É evidente que todas
decisão que tom ava abria para ele um novo essas coisas cumpriram as profecias. O s ju­
leque de escolhas, até que se viu prisionei­ deus não executavam seus criminosos por
ro de suas próprias medidas evasivas. Con­ crucificação, mas sim por apedrejamento. O
tinuou a interrogar Jesus, mas este não lhe Salmo 22, escrito por um judeu, apresenta
respondeu. uma descrição vivida de uma crucificação.
Ainda restava a Pilatos um último subter­ "Traspassaram-me as m ãos e os pés" (SI
fúgio: seguir a tradição de libertar um prisio­ 22:16). Jesus se fez maldição por nós, pois
neiro. Em vez de escolher um prisioneiro "o que for pendurado no madeiro é maldi­
qualquer, Pilatos chamou Barrabás, o mais to" (D t 21:23; G l 3:13). Deus, porém, ainda
conhecido de todos e um ladrão (Jo 18:40) estava operando para cumprir seus propósi­
e assassino (M c 15:7). Pilatos imaginou que tos divinos.
a multidão rejeitaria Barrabás e pediria que Pilatos sabia o que era correto, mas se
libertassem Jesus, pois, afinal, quem gosta­ recusou a agir de acordo. Seu desejo era
ria de ter um ladrão e assassino condenado "contentar a m ultidão" (M c 15:15). Judas
132 M A T EU S 26:57 - 27:26

pecado (Jo 13:2, 27); Pedro cedeu à carne Pilatos procurou o caminho fácil, não o ca­
quando negou ao Senhor; Pilatos, por sua minho correto. Assim, entrou para a história
vez, cedeu ao mundo e ouviu a multidão. como o homem que condenou Jesus.
dos judeus!", sem perceber que estavam, de
25 fato, zom bando do Rei dos reis e Senhor
dos senhores.
Depois, fizeram algo que súdito algum
O S o f r im e n t o ε M orte jamais faria a seu rei: cuspiram nele e o es­
pancaram com o caniço. Enquanto alguns
d o R ei
soldados se curvavam perante ele, outros o
acertavam na cabeça ou cuspiam nele (Is
M ateus 2 7 :2 7 - 6 6
50:6). Jesus recebeu toda essa hum ilhação
e dor sem falar nem lutar (1 Pe 2:18ss). Sua
submissão não foi um sinal de fraqueza, mas
sim de força.
ateus e os outros autores dos Evange­
M lhos registraram os fatos históricos re­
ferentes ao sofrimento e à morte de nosso
2. A c r u c if ic a ç ã o (M t 27:31-38)
A crucificação era a forma mais vergonhosa
Senhor. Coube aos escritores das epístolas e dolorosa de executar um criminoso. Jesus
do N ovo Testamento o trabalho de explicar não apenas morreu, mas teve uma "m orte
o significado teológico desse acontecim en­ de cruz" (Fp 2:8). N ão se costumava crucifi­
to. A história afirma que "Cristo morreu", mas car cidadãos romanos. Aliás, a crucificação
a teologia explica que "Cristo morreu pelos era uma pena tão degradante que sequer era
nossos pecados" (1 Co 15:3). Vejam os os m encionada nas altas rodas da sociedade.
vários tipos de sofrimento que Jesus supor­ Jesus foi conduzido para fora da cidade
tou ao longo daquele dia. até o local da execução (H b 13:12, 13). Exi­
gia-se que o prisioneiro carregasse a própria
1. O E S C Á R N IO D O S S O L D A D O S cruz (ou pelo menos a trave principal), e que
(M t 27:27-30) levasse pendurada ao pescoço uma placa
A acusação formal contra Jesus era a de que declarando seu crime. Essa placa era, então,
ele afirmava ser Rei dos judeus (M t 27:37). afixada sobre sua cabeça na cruz, para que
O s soldados aproveitaram-se disso e mostra­ todos pudessem ver o que dizia.
ram sua "reverência" pelo rei. Foi uma forma Apesar de o registro bíblico não dizer
cruel de tratar um inocente que já havia sido isso expressam ente, ao que parece, Jesus
açoitado, mas Pilatos não fez coisa alguma não conseguiu carregar a cruz e, com isso,
para impedi-los. Estava aliviado por se livrar estava atrasando o grupo. Q uando nos lem­
do prisioneiro. bramos de que ele havia passado a noite
Primeiro, os soldados o despiram e colo­ toda acordado e de que havia sido açoitado
caram sobre ele o manto de um soldado. e torturado pelos soldados, podem os con­
Vestiram o Príncipe da Paz (Is 9:6) com um cluir que estava exausto. Jesus com eçou car­
uniform e militar velho! M ateus descreve o regando sua cruz (Jo 19:17). M arcos 15:22
m anto co m o sendo escarlate, enqu anto diz: "E levaram Jesus para o G ólgota" (tradu­
M arcos usa a palavra púrpura. N ão há con­ ção literal). Isso sugere que os soldados tive­
tradição, pois "púrpura-avermelhado" descre­ ram de ajudar Jesus durante a procissão, pois
ve bem a cor de um manto usado e desbo­ a palavra "levaram " tem o sentido de "carre­
tado. Só podem os imaginar com o Jesus se gar, sustentar".
sentiu quando esse manto foi jogado sobre N ão poderia haver atrasos nessa exe­
suas costas feridas. cução. A Páscoa estava para ser celebrada,
Um rei precisa de uma coroa, de modo e os líderes judeus não queriam que seu dia
que confeccionaram uma coroa de espinhos santo fosse profanado por cadáveres de cri­
e a colocaram na cabeça dele. Em seguida, minosos (Jo 19:31). A fim de apressar a procis­
lhe deram um caniço com o cetro, e fizeram são, os soldados recrutaram Simão, o cireneu,
134 M A T E U S 2 7:27-66

celebrar a Páscoa. De repente, o visitante 3. O E SCÁ R N IO D O S JU DEUS


viu-se humilhado, obrigado a carregar a cruz (M t 27:39-44)
de um criminoso desconhecido! Convém Jesus não foi executado num lugar tranqüi­
lembrar que os soldados romanos tinham lo, longe do barulho da cidade. Antes, sua
autoridade para recrutar cidadãos (Mt 5:41) execução foi realizada numa via pública,
a realizar diversas tarefas. num dia em que provavelmente havia milha­
A maneira de Marcos referir-se a Simão res de pessoas passando por ali. O fato de
dá a entender que os leitores deste Evange­ sua acusação ter sido escrita em três línguas
lho sabiam quem ele era: "pai de Alexandre - grego, hebraico e latim - indica que uma
e de Rufo" (Mc 15:21). Ao que parece, esses multidão cosm opolita passava diante do
dois filhos eram membros bem conhecidos Gólgota, "o lugar da caveira". Esse fato, por
da igreja. É possível que essa experiência si m esm o, era extremamente humilhante,
humilhante tenha resultado na conversão pois os transeuntes podiam gritar impropé­
de Simão, bem com o de sua família. Simão rios às vítimas. A zombaria da multidão tam­
foi a Jerusalém para sacrificar seu cordeiro bém cumpriu palavras proféticas (SI 22:6-8).
pascal e acabou se encontrando com o Cor­ Não foi só o povo que zombou, mas tam­
deiro de Deus, sacrificado por ele. bém os líderes judeus, lembrando Jesus de
Era costume dar alguma bebida narcóti­ suas promessas de reconstruir o templo em
ca para os que estavam prestes a serem cruci­ três dias (Mt 26:61; Jo 2:19). "Se você pode
ficados, pois ajudava a amortecer os sentidos m esm o fazer isso, então desça da cruz e
e a amenizar a dor. Jesus recusou-se a bebê- prove para nós que é m esm o o Filho de
la, pois desejava fazer a vontade de Deus Deus!" Na realidade, ao perm anecer na cruz,
em pleno controle de suas faculdades. Tam­ Jesus provou sua filiação divina.
bém esse ato cumpriu Salmos 69:21. Os líderes judeus zombaram dele por
Os soldados também repartiam os bens afirmar ser o Salvador. "Salvou os outros, a
pessoais da pessoa executada, e, no caso si mesmo não pode salvar-se" (Mt 27:42).
de Jesus, cumpriram as palavras de Salmos Havia salvado a outros, mas se salvasse a si
22:18. Depois de lançar sortes sobre as rou­ mesmo, ninguém mais seria salvo! Jesus não
pas de Jesus (Jo 19:23-25), assentaram-se por veio para salvar sua vida, mas sim para
perto e "o guardavam" (Mt 27:36). Afinal, entregá-la com o resgate pelos pecadores.
se dizia que Jesus era capaz de realizar mi­
lagres. Ninguém sabia quantos seguidores 4. A REJEIÇÃO PELO P A I
possuía, e talvez estivessem se preparando ( M t 27:45-56)
para resgatá-lo. Um de seus discípulos era Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã e
um zelote (Mt 10:4 - "Simão o Zelote"), ficou pendurado na cruz das 9 ao meio-dia,
membro de um movimento de fanáticos que quando trevas sobrenaturais cobriram toda
fariam qualquer coisa para se opor às auto­ a Terra. Não foi uma tempestade de areia
ridades romanas. nem um eclipse, com o sugerem alguns es­
Ao combinar os relatos dos Evangelhos, tudiosos liberais. Antes, foi uma escuridão
temos a acusação total escrita na placa so­ vinda do céu que durou três horas, com o se
bre sua cabeça: "Este é Jesus de Nazaré, o toda a criação se condoesse com o Criador.
Rei dos Judeus". Os governantes judeus não Antes da primeira Páscoa no Egito, houve
aprovaram a inscrição de Pilatos, mas, des­ três dias de trevas (Êx 10:21-23), e antes de
sa vez, o governador não cedeu (Jo 19:21, o Cordeiro de Deus morrer pelos pecados
22). Em certo sentido, esse título foi o pri­ do mundo, houve três horas de escuridão.
meiro "folheto evangelístico" escrito, anun­ Jesus falou pelo menos três vezes antes
ciando a um dos ladrões crucificados que de sobrevirem as trevas. Enquanto o esta­
Jesus era Salvador e Rei. O ladrão ousou vam crucificando, orou repetidamente: "Pai,
crer nessa mensagem e pediu a Jesus que perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"
o salvasse! (Lc 23:34). Falou ao ladrão arrependido e
M A T E U S 2 7:27-66 135

lhe garantiu um lugar no paraíso (Lc 23:39­ O terremoto nos traz à memória o que
43). Também entregou sua m ãe aos cui­ aconteceu no monte Sinai, quando Deus
dados de Jo ão , seu discípulo am ado (Jo deu a Lei a Moisés (Êx 19:16ss). O terremo­
19:18-27). Mas, quando veio a escuridão, to no Calvário significa que os preceitos da
Jesus calou-se por três horas. Lei foram cumpridos, e a m aldição da Lei foi
Passadas essas horas, as trevas se dissi­ abolida para sempre (H b 12:18-24). O véu
param e Jesus clam ou: "D eus meu, Deus rasgado indica que Jesus conquistou o peca­
meu, por que me desamparaste?", uma cita­ do; o terremoto sugere que ele conquistou
ção direta de Salm os 22:1. Foi durante a a Lei e a cumpriu, enquanto a ressurreição
escuridão que Jesus se tornou pecado por prova que ele derrotou a morte.
nós (2 C o 5:21). H avia sido abandonado O texto não diz o número de santos que
pelo Pai! As trevas simbolizaram o julgamen­ ressuscitaram. Eram sim plesm ente crentes
to pelo qual Jesus teve de passar ao ser "fei­ que haviam morrido. Algumas versões da
to m aldição" por nós (G l 3:13). Salmos 22:2 Bíblia dão a entender que saíram dos túmulos
sugere um período de luz e outro de escuri­ somente depois da ressurreição de Jesus. É
dão, e Salmos 22:3 enfatiza a santidade de difícil crer que tenham sido restaurados à
Deus. Com o poderia um Deus santo olhar vida na sexta-feira à tarde e perm anecido
com favor para seu Filho, o qual havia se nos túmulos até domingo. Outras versões
tornado pecado? sugerem que esses santos ressuscitaram e
jesus proferiu essas palavras em hebraico, saíram imediatamente dos túmulos, mas que
e os presentes não o entenderam. Pensaram só entraram em Jerusalém depois que Jesus
que estivesse chamando Elias para ajudá-lo. ressuscitou. É pouco provável que houvesse
Se houvessem lhe dado atenção e consulta­ um grande número de judeus no cem itério
do o Salm o 22 em sua totalidade, teriam durante a Páscoa, pois era um local onde
com preendido a verdade. corriam o risco de se contam inar cerimo-
Em seguida, o Senhor falou três vezes, nialmente por causa dos mortos. Essas res­
numa rápida sucessão de frase. Disse: "Te­ surreições podem ter o co rrid o sem que
nho sede" (Jo 19:28), cumprindo, assim, Sal­ ninguém as percebesse de imediato.
mos 69:21. Alguém teve piedade dele e O resultado de tudo isso foi o testemu­
um edeceu seus lábios com vinagre. O s nho do centurião e daqueles que observa­
outros ficaram esperando para ver se Elias vam . "Verdadeiram ente este era Filho de
viria salvá-lo. Deus." Será que a declaração indica uma fé
Então, Jesus clamou: "Está consumado. salvadora? N ão necessariamente, mas, sem
Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". dúvida, mostra que havia corações abertos
O fato de ter clam ado em alta voz indica para a verdade.
que estava no com pleto controle de suas Dos discípulos, somente João estava pre­
faculdades. Depois, entregou voluntariamen­ sente quando Jesus morreu (Jo 19:35), mas
te seu espírito e morreu. muitas mulheres observaram à distância; sem
A p esar de ter sido "c ru c ific a d o em dúvida, eram as seguidoras de Cristo que o
fraqueza" (2 Co 13:4), exerceu poder ex­ auxiliaram em seu ministério (Lc 8:2). Mateus
traordinário quando morreu. Três milagres cita o nome de três delas: M aria M adalena,
ocorreram simultaneamente: o véu do tem­ que havia sido liberta da possessão de sete
plo se rasgou de alto a baixo, um terremoto demônios (Lc 8:2); M aria, mãe de Tiago e
abriu vários túm ulos e alguns santos res­ de José, a qual tam bém estava junto ao
suscitaram. O véu rasgado simboliza uma túmulo na manhã da ressurreição (M t 28:1;
verdade maravilhosa: o cam inho para Deus M c 16:1); e Salomé, mãe de Tiago e de João.
estava aberto (H b 10:14-26). Não haveria Salom é havia pedido a Jesus tronos espe­
mais necessidade de templos, sacerdotes, ciais para seus filhos. Ficamos imaginando
altares nem sacrifícios. Jesus havia consuma- com o deve ter se sentido ao vê-lo pendura-
136 M A T E U S 2 7:27-66

5. O TÚM ULO SOB VIG ILÂ N C IA Nicodemos estivessem no jardim esperan­


<Μτ 27:57-66) do pela morte de Jesus. Quando o tiraram
Se não fosse pela intervenção de José de da cruz, contaminaram-se e não puderem
Arimatéia e de Nicodemos (Jo 19:38), o participar da Páscoa, um detalhe irrelevante,
corpo de Jesus talvez não tivesse recebi­ uma vez que haviam encontrado o Cordei­
do um sepultamento apropriado. Mesmo ro de Deus!
não testemunhando abertamente da sua fé, Em contraste com o cuidado dos ami­
José e Nicodemos creram em Jesus. Uma gos de Jesus, podemos observar as intri­
vez que José era um homem rico e tinha gas e maquinações dos líderes judeus. Os
preparado um túmulo novo, contribuiu para discípulos esqueceram que Jesus havia pro­
cumprir a profecia de Isaías 53:9: "Desig­ metido ressuscitar no terceiro dia, mas seus
naram-lhe a sepultura com os perversos, inimigos lembraram-se da promessa. Pilatos
mas com o rico esteve na sua morte". permitiu que os líderes colocassem guar­
É pouco provável que José tenha pre­ das para vigiar o sepulcro e um selo oficial
parado o túmulo para si mesmo. Era um romano na pedra para garantir que o túmu­
homem rico e certamente não pretendia lo não seria violado. Em tudo isso, vemos
ser sepultado tão próximo a um local de Deus operando, tornando impossível a
execuções. Preparou o túmulo para Jesus, qualquer um - amigo ou inimigo - roubar
escolhendo um lugar perto do Gólgota o corpo. Sem perceber, os líderes judeus
para que ele e Nicodemos sepultassem o e o governo romano aliaram-se para pro­
corpo de Jesus rapidamente. Talvez José e var a ressurreição de Jesus Cristo.
Confirma nossa ressurreição futura.
26 Pelo fato de Jesus haver morrido e ressusci­
tado, um dia também seremos ressuscitados
para ser com o ele (1 Ts 4:13-18). Toda a es­
A V it ó r ia d o R ei trutura da fé cristã baseia-se no alicerce da
ressurreição. Se desconsiderarmos sua res­
M a teus 28 surreição, não teremos esperança.
É prova do juízo vindouro. "Porquanto
estabeleceu um dia em que há de julgar o
mundo com justiça, por m eio de um varão
que destinou e acreditou diante de todos,
ressuscitando-o dentre os mortos" (At 17:31).
e existe algo que com prova a realeza de É a base do sacerdócio celestial de
S Jesus Cristo é sua ressurreição dentre os
mortos. O capítulo final do Evangelho de
Cristo. Porque ele vive pelo poder da vida
eterna, é capaz de nos "salvar totalm ente"
M ateus é um relato de vitória, e é maravi­ (H b 7:23-28). Ele vive para interceder por
lhoso saber que os cristãos de hoje partici­ nós.
pam dessa vitória. Dá poder à vida cristã. N ão podem os
Vejam os os estágios da experiência dos viver para Deus por nossas próprias forças.
cristãos com respeito à ressurreição de jesus. É somente pelo poder da ressurreição dele
trabalhando em e por meio de nós que so­
1 . P e n s a r a m q u e ele esta va m o r t o mos capacitados a realizar sua vontade e a
(M t 28:1) glorificar seu nome (Rm 6:4).
As mulheres que haviam estado na crucifi­ Confirma nossa herança futura. Por ter
cação foram logo cedo ao túmulo, levando uma esperança viva, somos capazes de tam­
consigo especiarias para ungir o corpo. Pen­ bém experimentar uma vida de esperança.
saram que seu M estre estava morto e fica­ A esperança morta enfraquece e desapare­
ram im aginando com o poderiam mover a ce, mas porque Jesus Cristo está vivo, temos
pedra enorm e da entrada do sepulcro (M c um futuro glorioso (ver 1 Pe 1:3-5).
16:3). É espantoso que, apesar de tudo o O nde quer que o povo de Deus se reú-
que Jesus havia ensinado tantas vezes so­ na no domingo, testemunha que Jesus está
bre sua ressurreição, não acreditavam que vivo, e que a igreja está recebendo bênçãos
ela ocorreria (M t 16:21; 17:23; 20:19; 26:32). espirituais. Q uando os seguidores do Senhor
N ão devem os jamais subestimar a impor­ reuniram-se naquele primeiro domingo, sen­
tância da ressurreição de Jesus Cristo. O tiam-se desencorajados e derrotados.
mundo acredita que Jesus morreu, mas não
crê que ele tenha ressuscitado dos mortos. 2. D e s c o b r i r a m q u e ele esta v a v iv o

A mensagem de Pedro em Pentecostes en­ (M t 28:2-8)


fatizou a ressurreição, ênfase presente ao "E eis que houve um grande terrem oto" (M t
iongo de todo o Livro de Atos. Qual é o sig­ 28:2). Dois anjos haviam aparecido (Lc 24:4),
nificado da ressurreição? e um deles havia movido a pedra, abrindo o
Prova que Jesus é o Filho de Deus. Je­ sepulcro. É evidente que os soldados que
sus afirmou ter autoridade para sacrificar sua vigiavam ficaram apavorados por essa de­
vida e tomá-la de volta (Jo 10:17, 18). monstração súbita de força. A pedra não foi
Comprova a verdade das Escrituras. movida para permitir que Jesus saísse, pois
Tanto no A ntigo Testam ento quanto nos ele já havia deixado o túmulo. Foi movida
ensinamentos de Jesus, sua ressurreição é para que as pessoas pudessem ver por si
ensinada claram ente (ver SI 16:10; 110:1). mesmas que o sepulcro estava vazio.
Se Jesus não tivesse saído do túmulo, as Es- Um dos anjos falou às mulheres e as tran-
138 M A T E U S 28

onde ele jazia." É importante lembrar que, Jesus está morto, o Novo Testamento é uma
assim com o os discípulos, essas mulheres mentira, pois tudo o que contém aponta
não esperavam encontrar Jesus vivo. para o Cristo ressurreto.
O que viram no sepulcro? A mortalha É evidente que os cristãos experimen­
que estava sobre a plataforma de pedra, tam o poder da ressurreição de Cristo em
ainda enrolada no formato de um corpo sua própria vida. Apesar de se tratar de uma
(Jo 20:5-7). Jesus saiu da mortalha e a dei­ experiência subjetiva e interior que não pode
xou intacta com o evidência de que estava provar isoladamente a ressurreição histórica
vivo. Ninguém havia mexido nos lençóis e de nosso Senhor, quando combinada com
não havia qualquer sinal de luta. Até mes­ outras evidências, dá grande peso à argu­
mo o lenço que cobria a cabeça de Jesus mentação. Mesmo assim, ainda é possível
estava dobrado cuidadosamente num lugar às pessoas se enganarem. "Crentes" de
à parte. qualquer tipo de seita podem alegar que
Não podemos examinar essas provas da possuem a verdade, usando para isso suas
mesma forma que os cristãos fizeram naque­ experiências pessoais. No entanto, os cris­
le primeiro domingo de Páscoa, mas temos tãos têm o peso da história da Igreja, das
com o evidência a Palavra de Deus. Jesus não Escrituras e de testemunhos confiáveis para
ficou preso aos grilhões da morte (At 2:24). apoiar suas experiências de fé.
Prometeu ressuscitar dos mortos e cumpriu A injunção: "venham ver" foi seguida de
sua Palavra. "vão e digam". Não devemos guardar a no­
A mudança extraordinária que ocorreu tícia da ressurreição para nós mesmos. Os
nos primeiros cristãos é outra prova de sua anjos enviaram as mulheres (justamente
ressurreição. Num dia estavam desanimados, elas!) para contar as boas novas aos dis­
escondendo-se com o derrotados. No dia cípulos de Cristo. Deveria ser uma notícia
seguinte, proclamavam a ressurreição de esperada, mas, em vez disso, questionaram
Jesus e andavam alegremente pela cidade, o que ouviram.
dispostos até a morrer pela verdade da
ressurreição. Uma história inventada jamais 3 . E n c o n t r a r a m - se pesso alm en te c o m
teria transformado a vida deles nem os ca­ o C r is t o v i v o (Mt 28:9-15)
pacitado a se sacrificar com o mártires. Quando obedecem os à Palavra de Deus, ele
Mais de quinhentas pessoas viram Cris­ vem até nós. Jesus já havia aparecido a Maria
to vivo de uma só vez (1 Co 1 5:3-8). A na­ Madalena no jardim (Jo 20:11 -18; Mc 16:9).
tureza dessas aparições do Cristo ressurreto É importante observar que as duas primei­
não permite que sejam explicadas com o alu­ ras aparições do Cristo ressurreto aconte­
cinações ou auto-sugestão. As pessoas que ceram a mulheres cristãs. Essas mulheres
o viram ficaram espantadas. Seria impossí­ fiéis não foram apenas as últimas a deixar o
vel mais de quinhentas pessoas sofrerem Calvário, mas também as primeiras a se di­
uma alucinação coletiva. Até m esm o o rigir ao sepulcro. Sua devoção a Jesus foi
apóstolo Paulo, que em outros tempos ha­ recompensada.
via sido inimigo da Igreja, viu o Cristo res­ A expressão "Salve" pode ser traduzida
surreto, e essa experiência transformou sua por graça. Que saudação maravilhosa para
vida (At 9). o dia da ressurreição! As mulheres prostra-
A existência da Igreja, o Novo Testamen­ ram-se aos pés do Senhor e o adoraram. É
to e o dia do Senhor também comprovam possível que estivessem apreensivas, pois,
que Jesus está vivo. Israel havia sido o povo mais que depressa, ele as tranqüilizou com
de Deus durante séculos e guardara o sétimo suas palavras tão típicas: "Não temais!"
dia, o shabbath. Então, algo mudou: judeus Foram instruídas não apenas pelo anjo,
e gentios uniram-se na Igreja, tornaram-se o mas também pelo próprio Senhor a espalhar
povo de Deus e passaram a se reunir no as boas novas. A expressão "meus irmãos"
primeiro dia da semana, o dia do Senhor. Se revela o relacionamento íntimo de Cristo com
M A T E U S 28 139

seus seguidores. Jesus havia falado palavras grande soma em dinheiro, pois era sua vida
sem elhantes a M aria M ad alen a anterior­ que estava em jogo. Caso seus superiores
mente naquela manhã (Jo 20:17), reforçando soubessem que haviam falhado, poderiam
as instruções do anjo para que os discípulos ser executados. M esm o que essa história
se encontrassem com o Mestre na Galiléia chegasse aos ouvidos de Pilatos, dificilmen­
(ver M t 28:7). N o jardim, Jesus havia dito a te o governador tomaria alguma providên­
seus discípulos que ressuscitaria dentre os cia, pois estava certo de que Jesus havia
mortos e se encontraria com eles na Galiléia, morrido (M c 15:43-45) e, para ele, era só o
mas eles se esqueceram (M t 26:31, 32). que importava. O desaparecimento do cor­
Enquanto os crentes estavam adorando po de Jesus não criou problema algum para
o Cristo vivo , os incrédulos planejavam Pilatos.
destruir as testemunhas da ressurreição de M ark Twain escreveu certa vez que uma
Jesus Cristo. A essa altura, alguns dos solda­ mentira pode dar a volta ao mundo enquanto
dos haviam percebido que se encontravam a verdade ainda está calçando os sapatos.
numa situação bastante complicada. O selo Há algo na natureza humana que predispõe
romano havia sido quebrado, a pedra que as pessoas a acreditar em mentiras. Foi ape­
fechava o sepulcro havia sido movida e o nas com a vinda do Espírito em Pentecostes,
corpo não estava mais lá. Falhar no cumpri­ com o testemunho poderoso dos apóstolos,
mento do dever era uma transgressão passí­ que os judeus em Jerusalém descobriram a
vel de morte para um soldado romano (At verdade: Jesus Cristo está vivo! Q ualquer
12:19; 16:27, 28). M as os soldados foram pessoa sincera que estudar as evidências
astutos: não se reportaram a Pilatos nem a com o coração aberto concluirá que a res­
seus oficiais superiores, mas aos líderes reli­ surreição de Jesus Cristo é um fato histórico
giosos judeus. Sabiam que, tanto quanto irrefutável.
eles, os judeus estavam ansiosos por enco­ Naquele mesmo dia, Jesus apareceu aos
brir esse milagre! Juntos, os principais sacer­ dois discípulos de Emaús (Lc 24:13-32) e tam­
dotes, os anciãos e os soldados elaboraram bém aos dez discípulos no cenáculo em
uma história que explicaria o sepulcro va­ Jerusalém (Jo 20:19-25). Um a sem ana de­
zio: o corpo havia sido roubado. pois, apareceu aos onze discípulos e tratou
A o examinar essa história, observamos da incredulidade de Tomé (Jo 20:19-25). Na­
que, na verdade, ela prova a ressurreição de quele primeiro domingo de Páscoa, Jesus
Jesus Cristo. Se o corpo de Jesus foi rouba­ também teve um encontro particular com
do, ou foi levado por seus amigos ou por Pedro (Lc 24:33-35; 1 Co 15:5).
seus inimigos. Seus amigos não poderiam O dia com eçou com os discípulos e as
ter feito isso, pois não tinham dúvidas de mulheres pensando que Jesus estava morto.
que Jesus estava morto. Seus inimigos não Em seguida, receberam a notícia de que ele
roubariam o corpo, porque estavam justa­ estava vivo e, depois disso, se encontraram
mente tentando evitar a crença na ressurrei­ pessoalm ente com ele. Restava ainda um
ção. Remover o corpo seria contrário a seus estágio em sua experiência.
interesses. Caso o tivessem levado, por que
não o mostraram aos cristãos da Igreja pri­ 4 . C o m p a r t il h a r a m a s b o a s -n o v a s
mitiva, calando o testemunho deles? com os outros (M t 28:16-20)
Q ualquer um que tivesse roubado o cor­ Alguns estudiosos bíblicos acreditam que
po o teria levado com a m ortalha, porém esse "encontro no m onte" na Galiléia foi a
esta foi deixada intacta no sepulcro, algo ocasião em que Jesus apareceu a "mais de
impossível no caso de um roubo. quinhentos irmãos de uma só vez" (1 Co
O s líderes religiosos haviam pago Judas 15:6). O fato de alguns dos seguidores de
para trair Jesus e pagaram os soldados para Cristo duvidarem de sua ressurreição suge­
dizer que o corpo havia sido roubado. O s re que havia mais pessoas presentes além
140 M A TEU S 28

agora cristãos confirmados. A ascensão de "fazei discípulos" ("de todas as nações").


Jesus ocorreu somente mais tarde, depois Jesus disse: "Enquanto estiverem indo, façam
que havia ministrado a seus discípulos em discípulos em todas as nações". Não impor­
Jerusalém (Lc 24:44-53). ta onde estamos, devemos testemunhar
O texto de Mateus 28:18-20 costuma ser sobre Jesus Cristo e procurar ganhar outros
chamado de "Grande Comissão", apesar de para ele (At 11:19-21).
essa injunção do Senhor não ser mais im­ O termo "discípulos" era o nome mais
portante do que qualquer outra presente nos comum para os cristãos primitivos. Ser um
Evangelhos e também de não ser a última discípulo significa mais do que ser um con­
declaração feita por Jesus antes de voltar ao vertido ou um membro da igreja. Aprendiz
céu. No entanto, é uma declaração que se talvez seja um bom termo equivalente. Um
aplica a nós, cristãos, de modo que deve­ discípulo apega-se a seu mestre, identifica-
mos entender os elementos envolvidos. se com ele, aprende e vive com ele. Aprende
Autoridade (v. 18). Neste versículo, a não apenas ouvindo, mas também pratican­
palavra "autoridade" significa "direito de usar do. Jesus chamou doze discípulos e os en­
o poder". O Evangelho de Mateus, em sua sinou de modo que fossem capazes de
totalidade, enfatiza a autoridade de Jesus ensinar a outros (Mc 3:13ss).
Cristo. Havia autoridade em seus ensina­ Assim, um discípulo é alguém que crê
mentos (Mt 7:29), exerceu autoridade para em Jesus Cristo, expressa essa fé ao ser bati­
curar (Mt 8:1-13) e até mesmo para perdoar zado e permanece em comunhão com os
pecados (Mt 9:6). Tinha autoridade sobre irmãos a fim de aprender as verdades da fé
Satanás e delegou autoridade a seus após­ (At 2:41-47) e então ser capaz de ir e ensi­
tolos (Mt 10:1). Ao final de seu Evangelho, nar a outros. Esse era o padrão da Igreja do
Mateus deixa claro que Jesus tem TODA a Novo Testamento (2 Tm 2:1, 2).
autoridade. Em vários aspectos, desviamo-nos desse
Uma vez que Jesus Cristo tem toda a padrão. Na maioria das igrejas, a congre­
autoridade, podemos obedecer a ele sem gação paga o pastor para pregar, ganhar o
medo. Não importa por onde ele nos con­ perdido e ajudar o salvo, enquanto os mem­
duz nem as circunstâncias que enfrentamos, bros da igreja atuam apenas como torcedo­
Jesus está no controle. Por sua morte e res­ res (se estiverem animados), ou então, como
surreição, Jesus derrotou todos os inimigos meros espectadores. Os "convertidos" são
e conquistou para si toda a autoridade. ganhos, batizados e aceitos como membros,
O cristianismo é uma fé missionária. A para depois se juntarem aos espectadores.
própria natureza de Deus exige isso, pois Nossas igrejas cresceriam muito mais rapi­
Deus é amor e Deus não quer que ninguém damente, e os cristãos seriam muito mais
pereça (2 Pe 3:9). Jesus morreu na cruz pe­ fortes e felizes, se discipulassem uns aos
lo mundo todo. Quem é filho de Deus e outros. A única forma de uma igreja local
compartilha de sua natureza levará as boas- "crescer e se multiplicar" (em vez de cres­
novas ao mundo todo. cer por "acréscimo") é por meio de um pro­
Quando lemos o Livro de Atos, vemos grama sistemático de discipulado. Trata-se de
que a Igreja primitiva operava com base na uma responsabilidade de todo cristão, não
autoridade soberana do Senhor, ministran­ apenas de um pequeno grupo "chamado
do em seu nome, dependendo de seu poder para ir".
e orientação. Não enfrentaram o mundo per­ Jesus abriu a mente de seus discípulos
dido firmando-se em sua autoridade, mas sim para que entendessem as Escrituras (Lc
na autoridade de Jesus Cristo. 24:44, 45). Descobriram o que Jesus deseja­
Atividade (w . 19, 20a). O verbo grego va que ensinassem aos convertidos. Não
traduzido por ide na verdade não é uma basta ganhar pessoas para o Senhor. Tam­
ordem, mas sim um gerúndio (indo). O único bém é preciso ensinar a Palavra de Deus a
mandamento de toda a grande comissão é elas, pois isso faz parte da grande comissão.
MATEUS 28 141

Capacidade (k 20b), Jesus não está pre­ Não há requisitos a preencher para en­
sente apenas quando seu povo se reúne (Mt contrar as pessoas ou para haver conversões,
18:20), mas também quando seus seguido­ pois Jesus Cristo está conosco. Paulo desco­
res estão espalhados pelo mundo dando seu briu essa verdade quando tentava fundar
testemunho. Se houvesse permanecido aqui uma igreja na difícil cidade de Corinto. Obe­
na Terra, Jesus não poderia ter cumprido essa decendo a essa comissão, Paulo foi até a
promessa. Com a vinda do Espírito, Jesus cidade (At 18:1), ganhou pessoas para Cris­
pode estar com seu povo em qualquer lugar. to e as batizou (At 18:8), ensinando-lhes a
G. Campbell Morgan contou, certa vez, Palavra (At 18:11). Quando a situação com­
uma experiência envolvendo essa declara­ plicou-se, Paulo recebeu um visita especial
ção. Quando era recém-convertido, Morgan do Senhor: "Não temas [...] porquanto eu
costumava visitar várias senhoras de idade, estou contigo" (At 18:9,10).
uma vez por semana, a fim de ler a Bíblia A frase "até a consumação do século"
para elas. Ao chegar no final do Evangelho indica que nosso Senhor tem um plano, pois
de Mateus, Morgan leu: "E eis que estou ele é Senhor da história. Ao seguir e obe­
convosco todos os dias até a consumação decer a direção de seu Cabeça, a Igreja cum­
do século", e depois perguntou: "Não é uma pre o propósito de Deus no mundo. Um dia,
promessa maravilhosa?" Uma das senhoras chegaremos ao ponto culminante desse
respondeu sem hesitar: "Meu jovem, isso plano. Enquanto esse dia não vem, devemos
não é uma promessa, é um fato!" . permanecer fiéis.
M arcos

ESBOÇO CONTEÚDO
Tema-chave: Jesus Cristo o servo 1. O Servo de Deus está aqui!
Versículo-chave: Marcos 10:45 (Mc 1)............................................. 143
2. O que o Servo nos oferece
I. A APRESENTAÇÃO DO SERVO - (Mc 2:1 -3:12)................................ 149
1:1-13 3. O Servo, as multidões e o reino
(Mc 3:13-4:34).............................. 155
I!. O MINISTÉRIO DO SERVO NA 4. As conquistas do Servo
GALILÉIA - 1:14 -9:50 (M c 4:35 - 5:43)...............................161
A. Período de popularidade - 1:14 - 6:29 5. A fé no Servo
B. Período de afastamento - 6:30 - 9:32 (M c 6:1-56)..................................... 167
C. Período de conclusão - 9:33-50 6. O Servo e Mestre
(M c 7:1 - 8:26)................................ 173
III. A JORNADA DO SERVO A 7. Os segredos do Servo
JERUSALÉM - CAPÍTULO 10 (Mc 8:27-9:50)............................. 179
8. Os paradoxos do Servo
IV. O MINISTÉRIO DO SERVO EM (Mc 10)........................................... 186
JERUSALÉM - CAPÍTULOS 11-16 9. O Servo em Jerusalém
A. Ensino em público e controvérsias - (Mc 11:1 - 12:44)............................ 192
11:1 - 12:44 10. O Servo revela o futuro
B. Ensino em particular e ministério - (Mc 13)........................................... 199
13:1 - 14:31 1 1 . 0 sofrimento do Servo
C. Prisão, julgamento e crucificação - (Mc 14:1 - 15:20)............................205
14:32 - 15:47 12. O Servo consuma sua obra
D. Ressurreição e ascensão - 16 (Mc 15:21 -16:20)..........................212
lugar para outro e suprindo necessidades
1 físicas e espirituais de gente de todo tipo.
Um a das expressões prediletas de M arcos é
im ediatam ente. No original, ele a emprega
O S er v o d e D eus mais de quarenta vezes. M arcos não regis­
tra vários sermões de Jesus, pois sua ênfase
E st á A q u i !
é sobre o que Jesus fez, não sobre o que
disse. O evangelista revela Jesus com o o
M arcos 1
Servo de Deus, enviado para ministrar a um
povo sofrido e para m orrer pelos pecados
do mundo. M arcos não relata coisa alguma
a respeito do nascimento de Cristo nem apre­
// evangelho não é uma argumenta­ senta sua genealogia, pois, em se tratando
va,/ ção nem um debate", disse Paul S. de um servo, isso era desnecessário.
Rees. "É uma proclam ação!" Neste capítulo de abertura, M arcos fala
Sem rodeios, M arcos põe-se a proclamar de três fatos importantes sobre o Servo de
a mensagem nas primeiras palavras de seu Deus.
livro. Mateus, que escreveu principalm ente
a judeus, com eça seu Evangelho com uma 1. A ID E N T ID A D E D O SERVO
genealogia. Afinal, precisava provar a seus (Mc 1:1-11)
leitores que Jesus Cristo é, de fato, o herdei­ D e que maneira M arcos identifica o Servo?
ro legítimo do trono de Davi. Um a vez que O evangelista registra o testemunho de vá­
Lucas concentra-se principalm ente no minis­ rias fontes fidedignas para garantir que Jesus
tério do Filho do homem, dedica os primeiros é tudo o que dizia ser.
capítulos de seu livro ao relato do nascimen­ A p rim eira testem unha do liv ro é seu
to do Salvador. Lucas enfatiza a humanida­ autor, Jo ã o M arcos (v. 1). Com toda ousa­
de de Cristo por saber que os leitores gregos dia, declara que Jesus Cristo é o Filho de
se identificariam com um Bebê perfeito nas­ Deus. É provável que M arcos tenha sido uma
cido para se tornar um Hom em perfeito. testemunha ocular de alguns dos aconteci­
O Evangelho de Jo ão com eça com uma mentos sobre os quais escreve. Vivia em Je ­
declaração sobre a eternidade! Isso porque rusalém com a mãe, M aria, e sua casa era
Jo ão escreveu com o intento de provar ao um ponto de encontro para os cristãos da
mundo inteiro que Jesus Cristo de Nazaré é cidade (At 12:1-19). M uitos estudiosos acre­
o Filho de Deus (Jo 20:31). O tema do Evan­ ditam que M arcos seja o jovem descrito em
gelho de João é a divindade de Cristo, mas M arcos 14:51, 52. Um a vez que Pedro cha­
o objetivo do seu Evangelho é encorajar seus ma M arcos de "m eu filho" (1 Pe 5:13), pode
leitores a crer no Salvador e a receber a dá­ ser que tenha levado M arcos a crer em Je ­
diva da vida eterna. sus Cristo. D e acordo com as tradições da
E o Evangelho de M arcos? M arcos es­ Igreja, M arcos era o "intérprete de Pedro",
creveu para os romanos, e seu tem a é Jesus de m odo que o Evangelho de M arcos refle­
Cristo, o Servo, Se tivéssem os de escolher te as experiências pessoais e o testemunho
um "versículo-chave" para este Evangelho, de Sim ão Pedro.
seria M arcos 10:45: "Po is o próprio Filho A palavra evangelho significa, simples­
do H om em não veio para ser servido, mas mente, "boas novas". Para os romanos, o pú-
para servir e dar a sua vida em resgate por blico-alvo de M arcos, evangelho significava
m uitos." "n o tícia s alegres sobre o im p erad o r". O
O fato de M arcos ter escrito pensando "Evangelho de Jesus Cristo" é a boa nova de
nos romanos ajuda a entender seu estilo e que o Filho de Deus veio ao mundo para
abordagem. A ênfase de seu Evangelho é na morrer por nossos pecados. É a boa nova de
144 MARCOS 1

de que podemos pertencer à família de Messias, Jesus Cristo, e crer nele. Os apósto­
Deus e, um dia, viver no céu com Deus. É a los de Jesus foram, sem dúvida alguma, bati­
proclamação da vitória sobre o pecado, a zados por João (ver Jo 4:1, 2 e At 1:21-26).
morte e o inferno (1 Co Ί5:1-8, 51, 52; Gl O Pai e o Espírito Santo são as últimas
1:1-9). testemunhas a identificar o Servo de Deus
O segundo testemunho vem dos pro­ (vv. 9-11). Quando Jesus foi batizado, o Es­
fetas (vv. 2, 3). Marcos cita dois profetas do pírito veio sobre ele em forma de pomba, e
Antigo Testamento: Malaquias 3:1 e Isaías o Pai falou dos céus e identificou seu Filho
40:3 (ver também Êx 23:20). As palavras amado. Com exceção de Jesus e de João,
mensageiro e voz referem-se a João Batista, os que estavam presentes não ouviram a voz
o profeta de Deus enviado a fim de prepa­ nem viram a pomba (ver Jo 1:29-34). A pala­
rar o caminho para o Filho de Deus (Mt 3; vra amado não apenas declara afeição, mas
Lc 3:1-18; Jo 1:19-34). Na Antiguidade, an­ também significa "o único". A declaração
tes de um rei ir visitar alguma parte de seu do Pai vinda dos céus nos traz à memória o
reino, era costume enviar adiante dele um Salmo 2:7 e Isaías 42:1.
mensageiro para preparar o caminho. O tra­ Pode ser interessante tomar nota das
balho do mensageiro era providenciar para seguintes referências no Evangelho de Mar­
que as estradas fossem reparadas e também cos que mostram Jesus Cristo como o Filho
preparar as pessoas. Ao chamar a nação ao de Deus: Marcos 1:1,11; 3:11; 5:7; 9:7; 12:1­
arrependimento, João Batista preparou o 11; 13:32; 14:61, 62 e 15:39. Marcos não
caminho para o Senhor Jesus Cristo. Isaías e escreveu apenas sobre um servo judeu, mas
Malaquias declaram, a uma só voz, que Je­ sobre o Filho de Deus que veio dos céus
sus Cristo é o Senhor, Deus Jeová. para morrer pelos pecados do mundo.
A terceira testemunha é João Batista (vv. Por certo, Jesus é Servo, porém um Ser­
4-8). Jesus chamou João Batista de o maior vo diferente. Afinal, normalmente é o servo
dos profetas (Mt 11:1-15). Em seu modo de quem prepara o caminho para os outros e
vestir e de viver e em sua mensagem de arre­ anuncia a chegada deles. No entanto, outros
pendimento, João identificou-se com Elias prepararam o caminho para Jesus e anun­
(2 Rs 1:8; Ml 4:5; Mt 1 7:10-13; e observe Lc ciaram sua vinda. Até mesmo os céus regis­
1:13-17). O "deserto" onde João ministrou traram! Esse Servo é o Filho de Deus.
é a região erma ao longo da costa oeste do
mar Morto. De maneira simbólica, João di­ 2. A AUTORIDADE D O SERVO
zia às pessoas que a vida delas era como (Mc 1:12-28)
um "deserto espiritual", muito pior do que o Esperamos que um servo esteja sujeito a algu­
deserto físico no qual seus ancestrais vaga­ ma autoridade e receba ordens, mas o Servo
ram durante quarenta anos. João conclamou de Deus exerce autoridade e dá ordens -
o povo a deixar o deserto espiritual, a crer até mesmo aos demônios -, e suas ordens
em seu "Josué" (Jesus) e a tomar posse de são obedecidas. Nesta seção, Marcos des­
sua herança. creve três cenas que revelam a autoridade
Fez questão de engrandecer a Cristo, de nosso Senhor como Servo de Deus.
não a si mesmo (ver Jo 3:25-30). Batizou com Prim eira cena - sua tentação (vv. 12,
água, mas avisou que "aquele que viria após 13). Marcos não apresenta um relato tão ex­
ele" batizaria com o Espírito (At 1:4, 5). Isso tenso quanto o de Mateus (4:1-11) e o de
não significa que o batismo de João não era Lucas (4:1-13), mas acrescenta alguns deta­
autorizado (ver Mt 21:23-27), ou que, um lhes que os outros dois evangelistas deixam
dia, o batismo com água seria substituído de fora. O Espírito o "impeliu" para o deser­
pelo batismo do Espírito (ver Mt 28:19, 20). to. Trata-se de uma palavra forte, que Mar­
Antes, a mensagem e o batismo de João fo­ cos usa onze vezes em seu texto original
ram uma preparação, a fim de que o povo para descrever a expulsão de demônios. O
estivesse pronto para se encontrar com o termo não sugere que Jesus estava relutante
MARCOS 1 145

ou temeroso de enfrentar Satanás. Pelo con­ com o vem os em alguns textos. Por certo, a
trário, é a forma que M arcos emprega para maioria dos judeus percebia um tom de "re­
expressar a intensidade da experiência. Não volu ção p o lítica" na expressão "rein o de
gasta tem po falando da glória celeste da voz Deus", mas não era isso o que Jesus tinha
ou da presença da pomba. O Servo tem uma em m ente. Seu reino dizia respeito a sua
tarefa a cumprir e se põe imediatamente a soberania na vida das pessoas; era um reino
realizar seu trabalho. espiritual, não uma organização política. A
D e form a concisa, M arco s apresenta única forma de entrar no reino de Deus é
duas imagens simbólicas. O s quarenta dias crer nas Boas Novas e nascer de novo (Jo
de nosso Senhor no deserto lem bram os 3:1-7).
quarenta anos de Israel no deserto. Israel fra­ O evangelho é cham ado de "o evange­
cassou ao ser testado, mas Cristo foi vitorio­ lho de Deus", porque vem de Deus e nos
so. Tendo triunfado sobre o inimigo, Jesus conduz a ele. É "o evangelho do reino", pois
pôde prosseguir e cham ar um novo povo a fé no Salvador nos leva a seu reino; é tam­
para entrar na herança espiritual. N ão é difí­ bém o "evangelho de Jesus Cristo", porque
cil ver o paralelo, pois o nome jesus é a for­ ele está no centro; sem sua vida, morte e
ma grega do nome "Josué". ressurreição, não haveria boas novas. Paulo
A segunda imagem é a do "últim o A dão" o chama de "evangelho da graça de D eus"
(1 C o 15:45). O primeiro Adão foi testado (At 20:24), pois não é possível haver salva­
num jardim maravilhoso e falhou, enquanto ção sem a graça (Ef 2:8, 9). H á apenas um
Jesus foi tentado num deserto perigoso e evangelho (G l 1:1-9), e seu cerne é a obra
conquistou a vitória. Por causa de seu peca­ que Jesus Cristo consumou por nós na cruz
do, Adão perdeu o "dom ínio" sobre a Cria­ (1 Co 15:1-11).
ção (G n 1:28; SI 8), mas em Cristo, esse Jesus pregou que as pessoas deveriam
dom ínio foi restaurado para todo o que crê arrepender-se (mudar de idéia) e crer (ver At
no Senhor (H b 2:6-8). Jesus estava junto de 20:21). Sozinho, o arrependim ento não é
animais selvagens, mas não lhe fizeram mal. suficiente para nos salvar, apesar de Deus
Com isso, o Senhor demonstrou o dia vin­ esperar que os cristãos deixem seus peca­
douro de paz e de retidão, em que voltará e dos para trás. Também é preciso crer em
estabelecerá seu reino (Is 11:9; 35:9). Sem Jesus Cristo e em sua promessa de salvação.
dúvida, ele é um Servo com autoridade! Arrependim ento sem fé pode transformar-
Segunda cena - sua pregação (w. 14­ se em remorso, e o remorso destrói os que
22). Se há alguém que falou a verdade de carregam um fardo de culpa (ver M t 27:3-5;
Deus com autoridade, esse alguém foi Jesus 2 C o 7:8-10).
Cristo (ver M t 7:28, 29). Costuma-se dizer Um a vez que Jesus pregava com autori­
que os escribas falavam segundo as autorida­ dade, pôde cham ar homens para deixar suas
des, enquanto Jesus falava com autoridade. ocupações diárias e se tornar seus discípu­
M arcos não registra aqui o início do minis­ los. Q uem mais interromperia quatro pesca­
tério de Cristo, pois o Senhor já havia mi­ dores em seu trabalho a fim de os desafiar a
nistrado em outros lugares (Jo 1:35 - 4:4). abandonar suas redes e segui-lo? Vários
Antes, nessa passagem, o evangelista mos­ m eses antes, Jesus já se encontrara com
tra o que levou Jesus a deixar a Judéia e a se Pedro, André, Tiago e Jo ão , e, nessa oca­
dirigir para a G aliléia: Herodes prendeu João sião, os quatro homens creram no Salvador
Batista, e, por uma questão de prudência, (ver Jo 1:35-49). Nessa passagem, não ve­
convinha que Jesus saísse daquela região. A mos o primeiro cham ado à fé e à salvação,
propósito, foi durante essa viagem que Je ­ mas sim o cham ado ao discipulado. O fato
sus conversou com a mulher samaritana (Jo de Zebedeu ter empregados contratados in­
4:1-45). dica que seu negócio de pesca estava indo
A mensagem de Jesus era o evangelho bem e que era um homem de posses. Tam-
146 MARCOS 1

seu pai desamparado quando obedeceram e quando ensinou a Palavra, o povo ficou
ao chamado de Cristo. Zebedeu poderia maravilhado com sua autoridade.
continuar tocando seus negócios com a aju­ Ao ler o Evangelho de Marcos, vê-se
da dos empregados. como o evangelista gosta de relatar as rea­
Jesus não inventou o termo "pescado­ ções emocionais do povo. A congregação
res de homens". Naquele tempo, essa era da sinagoga ficou "admirada" com os ensi­
uma expressão comum, que descrevia filó­ namentos do Mestre e com seu poder de
sofos e outros mestres que "cativavam a cura (Mc 1:27; ver também 2:12; 5:20, 42;
mente dos homens" pelo ensino e pela per­ 6:2, 51; 7:37; 10:26; 11:18). Marcos registra
suasão. Jogavam as "iscas" com seus ensina­ até a admiração de Jesus com a incredulida­
mentos e "fisgavam" discípulos. Ê provável de do povo de Nazaré (Mc 6:6), e, por cer­
que até sete dos discípulos do Senhor fos­ to, sua narrativa nunca se torna monótona.
sem pescadores (Jo 21:1-3). Sem dúvida, as Terceira cena - suas ordens (w . 23-28).
qualidades dos pescadores bem-sucedidos Imagino de quantos cultos esse homem par­
também contribuiriam para o sucesso no ticipou na sinagoga sem revelar que estava
difícil ministério de resgatar almas perdidas: endemoninhado. Foi necessária a presença
coragem, capacidade de trabalhar em equi­ do Filho de Deus para que se manifestasse
pe, paciência, energia, resistência, fé e tenaci­ a presença do demônio, e Jesus não apenas
dade. Pescadores profissionais não podiam o expôs, mas também ordenou que perma­
se dar ao luxo de desistir e de murmurar! necesse calado quanto à identidade de Cris­
Jesus ministrou não apenas ao ar livre, to e que saísse do homem. O Salvador não
mas também nas sinagogas. As sinagogas queria, nem precisava, da ajuda de Satanás
judaicas surgiram durante o exílio do reino e seu exército para dizer às pessoas quem
de Judá, quando o povo se encontrava na ele era (ver At 16:16-24).
Babilônia depois da destruição do templo. O demônio sabia exatamente quem Je­
Onde quer que houvesse judeus acima dos sus era (ver At 19:13-17) e que não tinha
12 anos de idade, era possível organizar uma coisa alguma em comum com ele. O uso
sinagoga. Ao contrário do templo, a sinago­ que o demônio faz de pronomes no plural
ga não era um lugar de sacrifício, mas sim indica quanto ele havia se identificado com
de leitura das Escrituras, oração e adoração o homem por meio do qual falava. O demô­
a Deus. Os cultos não eram realizados por nio deixa clara a humanidade de Cristo ("Je­
sacerdotes, e sim por leigos; e o ministério sus Nazareno"), bem como sua divindade
era supervisionado por um conselho de ("o Santo de Deus"). Também confessa pro­
anciãos presidido por um "chefe" (Mc 5:22). fundo temor de ser julgado e lançado fora
Era costume pedir a rabinos visitantes que por Jesus. Hoje, há muita gente parecida com
lessem as Escrituras e ensinassem, o que esse endemoninhado: freqüentam a igreja,
explica por que Jesus teve tanta liberdade são capazes de dizer quem é Jesus e até
de ministrar nas sinagogas. O apóstolo Pau­ mesmo tremem de medo do julgamento,
lo também fez uso desse privilégio (At 13:14­ mas ainda assim continuam perdidos (verTg
16; 14:1; 17:1-4). 2:19)!
Jesus montou seu "centro de operações" A ordem de Jesus ao demônio foi "Cala-
em Cafarnaum, possivelmente na casa de te" - uma injunção que voltaria a usar ("emu­
Pedro e de André ou nas imediações (Mc dece") contra a tempestade (Mc 4:39). O
1:29). Ao visitar a Terra Santa hoje, ainda demônio tentou reagir com um último ata­
podemos ver ruínas de uma sinagoga em que de convulsão, mas teve de se sujeitar à
Cafarnaum, mas não se trata do mesmo locai autoridade do Servo de Deus e sair do ho­
em que Jesus congregou. O povo se reunia mem. O povo da sinagoga ficou admirado e
para os cultos aos sábados e também às se­ temeroso. Perceberam que algo novo esta­
gundas e quintas. Uma vez que era um judeu va acontecendo - viram uma nova doutrina
fiel, Jesus honrou o sábado ao ir à sinagoga, e um novo poder. As palavras e ações de
MARCOS 1 147

Jesus devem sempre andar juntas (Jo 3:2). Pela fé, os hom ens falaram a Jesus da
O episódio na sinagoga transformou-se no mulher doente, esperando, sem dúvida al­
assunto do dia, e a fama de Jesus com eçou guma, que ele a curasse. Foi exatamente isso
a espalhar-se. Jesus não incentivou esse tipo o que ele fez! A febre a deixou im ediata­
de entusiasm o público a fim de não criar mente, e ela pôde se levantar e ajudar a pre­
problem as nem com judeus nem com ro­ parar a refeição do sábado. Q uem já teve
manos. O s judeus iriam querer segui-lo ape­ febre alta alguma vez sabe com o é doloro­
nas por causa de seu poder de curar, e os so e desco nfo rtável. Tam bém sabe que,
romanos pensariam que Jesus era um revo­ quando a febre passa, o corpo leva algum
lucionário judeu tentando depor o governo. tempo para se recuperar. M as não foi o que
Isso explica por que Jesus ordenava, com aconteceu aqui! A sogra de Pedro sentiu-se
tanta freqüência, que as pessoas não divul­ disposta de imediato. Q u e maneira melhor
gassem o que ele havia feito (M c 1:44; 3:12; existe de agradecer ao Senhor por tudo o
5:43; 7:36, 37; 8:26, 30; 9:9). M as muitos que ele fez por nós do que nos colocando a
não obedeceram e colocaram Jesus em si­ seu serviço?
tuações difíceis. Em decorrência desse milagre, quando
o sábado terminou ao pôr-do-sol, a cidade
3. A c o m p a i x ã o d o S e rv o toda apareceu à porta da casa de Pedro!
(Mc 1:29-45) Trouxeram seus doentes e aflitos, e o Senhor
Esta seção descreve dois milagres de cura, (que, por certo, estava cansado) curou a to­
e am bos revelam a com paixão do Salvador dos. O verbo grego indica que "continua­
pelos necessitados. Seu am or era tão gran­ ram levando" as pessoas até ele, de modo
de que o Salvador ministrava às multidões que Jesus deve ter ido dormir muito tarde.
mesmo depois que o sábado já havia ter­ Convém observar, em M arcos 1:32, a distin­
m inado, horário em que, de acordo com a ção clara entre enfermos e endem oninhados.
lei, não se podia mais buscar sua ajuda. É verdade que Satanás pode provocar afli­
Vem os o Servo de Deus à disposição de pes­ ções físicas, mas nem todas as doenças são
soas de todo tipo, inclusive endemoninha- causadas por poderes dem oníacos.
dos e leprosos, m inistrando a todos com O fato de ir dorm ir tarde não impediu
amor. Jesus de manter seu com prom isso com o
Jesus e os quatro discípulos saíram da Pai bem cedo na manhã seguinte. Em Isaías
sinagoga e foram para a casa de Pedro e 50:4, existe uma descrição profética do Ser­
André para o jantar de sábado. Talvez Pedro vo justo de Deus encontrando-se com o Pai
tenha explicado que a esposa estava cuidan­ a cada manhã. Q u e exemplo para nós! Q uan­
do da mãe doente e não poderia recebê-los do consideram os que Jesus cultivava uma
com toda hospitalidade costum eira. N ão vida de oração tão disciplinada, não é de
sabemos se outros discípulos além de Pedro admirar que tivesse tam anha autoridade e
eram casados (M c 1:30). poder (ver M c 9:28, 29; 6:46; 14:32-38).
Além de convidar os amigos Tiago e João N o entanto, as multidões desejavam ver
para sua casa, Pedro e André também con­ Jesus novamente não para ouvir suas pala­
vidaram Jesus. Trata-se de um ótimo exem­ vras, mas para experim entar curas e vê-lo
plo para nós: não devem os deixar Jesus na realizar milagres. Pedro ficou surpreso de
igreja, mas sim levá-lo para casa e permitir Jesus não se apressar a ir encontrar a multi­
que ele participe de nossas bênçãos e difi­ dão e que, em vez disso, tenha partido para
culdades. Q u e privilégio para Pedro e sua outras cidades onde pudesse pregar o evan­
família ter o Filho de Deus com o convidado gelho. Pedro não percebeu a sup erficia­
em sua casa hum ilde. Logo o C onvidado lidade das m ultidões, sua incredulidade e
tornou-se o Anfitrião, da mesma forma que, falta de interesse pela Palavra de Deus. Jesus
um dia, o Passageiro do barco de Pedro se afirm ou que era mais im portante levar o
148 MARCOS 1

e curar os enfermos. Não permitiu que a acla­ comunidade. Mas o homem não obedeceu
mação popular alterasse suas prioridades. à ordem de Jesus e contou para todo mun­
Não é difícil entender a preocupação de do que havia sido curado. Nós, por outro
Jesus em curar uma mulher com febre, mas lado, permanecemos calados quando Jesus
se encontrar com um leproso e tocá-lo é algo ordenou que contemos a todos o que ele
que vai além de nossa com preensão. Os fez! As multidões que foram buscar a ajuda
leprosos mantinham-se afastados e avisavam de Jesus criaram um problema sério para ele
a todos que estavam chegando, a fim de e, provavelmente, o impediram de ensinar a
evitar que outros se contam inassem (Lv Palavra da forma com o desejava (Mc 1:38).
13:45, 46). O homem sabia que Jesus era A cerimônia descrita em Levítico 14 é
capaz de curá-lo, mas não tinha certeza de uma imagem belíssima da obra da reden­
que o Mestre estivesse disposto a fazê-lo. ção. Os dois pássaros representam dois as­
Hoje, muitos pecadores perdidos também pectos diferentes do ministério de nosso
sofrem com essa mesma preocupação des­ Senhor: sua encarnação e morte (o pássaro
necessária, pois Deus já deixou bem claro colocado no vaso de barro e depois sacri­
que não deseja que nenhum pecador pere­ ficado) e sua ressurreição e ascensão (o pás­
ça (2 Pe 3:9) e que seu grande anseio é que saro manchado com o sangue e depois sol­
todos sejam salvos (1 Tm 2:4). to). O sangue era colocado na orelha direita
Quando lemos a respeito dos "testes" da pessoa (a Palavra de Deus), no polegar
para detectar a lepra, em Levítico 13, vemos direito (a obra de Deus) e no artelho direito
com o essa doença ilustra bem o pecado. (a jornada com Deus). Então, se colocava
Como o pecado, a lepra não se atém à su­ óleo sobre o sangue, simbolizando o Espíri­
perfície (Lv 1 3:3); efa espalha-se (Lv 1 3:5-8), to Santo de Deus. O Espírito Santo só pode
contamina e isola (Lv 13:44-46), tornando habitar no ser humano depois que o sangue
as coisas a seu redor inúteis, próprias apenas de Cristo tiver realizado sua obra.
para ser queimadas (Lv 13:47-59). Os que Este capítulo ensina algumas lições espi­
ainda não creram no Salvador estão espiri­ rituais importantes. Em primeiro lugar, se o
tualmente em estado mais lastimável do que Filho de Deus veio com o Servo, servir é uma
a condição física desse homem. vocação suprema. Quando servimos os ou­
Jesus teve compaixão do homem (ob­ tros, tornamo-nos mais semelhantes a Cris­
serve Mc 6:34; 8:2; 9:22) e o curou com to. Em segundo lugar, Deus compartilha sua
seu toque e sua palavra. Sem dúvida, foi o autoridade com seus servos. Somente os que
primeiro toque de carinho que o leproso estão sob alguma autoridade têm o direito
sentiu em muito tempo. Como a febre da de exercer autoridade. Por fim, se desejar­
sogra de Pedro, a lepra também desapare­ mos ser servos, precisaremos, sem dúvida
ceu imediatamente! alguma, ter grande com paixão, pois as
Pelos motivos que explicamos anterior­ pessoas virão até nós em busca de ajuda, e
mente, Jesus ordenou ao homem que não raramente perguntarão se o m om ento é
contasse a ninguém o que havia aconteci­ conveniente!
do. Deveria procurar o sacerdote e seguir No entanto, é um privilégio enorme se­
as instruções de Levítico 14, para que guir os passos de Jesus Cristo e se tornar um
pudesse ser declarado puro e ser recebido servo compassivo de Deus, suprindo as ne­
de volta no convívio social e religioso da cessidades dos outros.
povo de Cafarnaum não esperou por um
2 convite; simplesmente foi chegando em gru­
pos. Isso significa que alguns dos mais ne­
cessitados não conseguiram aproximar-se o
O Q ue ο S ervo nos suficiente de Jesus para receber ajuda. No
entanto, quatro am igos de um paralítico
O ferec e
decidiram abaixar seu amigo por um bura­
co no telhado, crendo que Jesus o curaria; e
M arcos 2:1 - 3 :1 2
foi exatamente o que aconteceu. Esse mila­
gre deu ao M estre a oportunidade de ensi­
nar uma lição importante sobre o perdão.
Considerem os esta cena do ponto de
notícia de que um M estre que operava
A
vista de Jesus. Q uando olhou para o alto,
milagres estava em Cafarnaum espa­ viu quatro homens com o amigo paralítico.
lhou-se com rapidez assustadora, e aonde As casas daquela região tinham telhado pla­
quer que Jesus fosse, as multidões se jun­ no, ao qual normalmente se podia ter aces­
tavam. Desejavam vê-lo curar enferm os e so por fora mediante uma escada. N ão seria
expulsar demônios. Se tivessem se mostra­ difícil remover as telhas e ripas, a fim de abrir
do interessadas na mensagem do evangelho, uma passagem grande o suficiente para bai­
essas multidões teriam sido um estímulo para xar a m aca com o amigo paralítico.
Jesus; porém, ele sabia que a maioria só tinha Encontram os nesses amigos uma série
idéias superficiais e se encontrava cega para de características adm iráveis, qualidades
as próprias necessidades. Em várias ocasiões, que devem nos marcar com o "pescadores
Jesus sentiu-se com pelido a deixar uma ci­ de homens". Em prim eiro Eugar, estavam pro­
dade e ir para o deserto orar (Lc 5:15, 16). fundam ente preocupados com o am igo e
Todo servo de Deus deveria seguir seu exem­ desejavam vê-lo curado. Criam que Jesus ti­
plo e separar um tempo longe das pessoas nha poder e estava disposto a suprir a ne­
para se encontrar com o Pai e se fortalecer cessidade deles. N ão se ativeram a "orar
e revigorar em oração. sobre o assunto", mas também agiram, sem
Era chegada a hora de Jesus mostrar às desanimar com as circunstâncias. Trabalha­
multidões o verdadeiro caráter de seu minis­ ram juntos, ousaram fazer algo diferente, e
tério. Afinal, viera à Terra para fazer muito Jesus recom pensou seus esforços. Teria sido
mais do que simplesmente aliviar as aflições muito fácil se dissessem: "É impossível che­
dos enfermos e endem oninhados. Sem dú­ gar perto de Cristo hoje... Q uem sabe pode­
vida, esses milagres eram maravilhosos, mas mos voltar am anhã!"
havia algo muito maior a experimentar: as Q uando Jesus olhou para baixo, viu o
pessoas poderiam entrar no reino de Deus! homem paralítico em seu leito e tratou do
Precisavam entender as lições espirituais por cerne do problem a: o pecado. Nem toda
trás dos milagres que Jesus realizava. doença é causada pelo pecado (ver Jo 9:1­
Nesta seção, Jesus deixa claro que veio 3), mas fica claro que a enferm idade desse
oferecer a todos que crêem nele três dádivas homem foi resultado de sua desobediência
maravilhosas: perdão (M c 2:1-12), satisfação a Deus. Antes de curar o corpo, Jesus trou­
(M c 2:13-22) e liberdade (M c 2:23 - 3:12). xe paz ao coração do homem e anunciou
que os pecados dele estavam perdoados! O
1. P erdão (M c 2:1-12) perdão é o m aior dos milagres realizados
N ão sabemos ao certo se esse acontecim en­ por Jesus. Supre a maior das necessidades,
to ocorreu na própria casa de Jesus ("e le custa o mais alto preço e traz a maior das
estava em casa") ou na casa de Pedro. Um a bênçãos e os resultados mais duradouros.
vez que a hospitalidade é uma das regras Em seguida, Jesus olhou ao redor e viu os
150 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

o que ele fazia (ver Lc 5:1 7). Tendo em vista o título de "Filho do Homem". Trata-se de
que a vida religiosa de Israel estava sob seus uma designação usada catorze vezes em
cuidados, esses líderes tinham todo o direito Marcos, sendo que doze dessas referências
de investigar o ministério desse novo Mestre são encontradas depois de Marcos 8:29,
(Dt 13). No entanto, deveriam ter vindo com quando Pedro confessa que Jesus é o Cristo
a mente e o coração abertos, buscando a de Deus (Mc 2:10, 28; 8:31, 38; 9:9, 12, 31;
verdade, em vez de chegar com críticas, à 10:33, 45; 13:26, 34; 14:21, 41, 62). É, sem
procura de heresias. Algumas das atitudes dúvida, um título messiânico (Dn 7:13, 14),
negativas presentes na Judéia (Jo 4:1-4) che­ e os judeus devem tê-lo interpretado como
garam, assim, à Galiléia, dando início à opo­ tal. Jesus usou esse título cerca de oitenta
sição oficial que culminou com a prisão e vezes nos Evangelhos.
morte de Jesus. A essa altura, a popularida­ O que os líderes religiosos teriam apren­
de de Jesus era tanta que os líderes judeus dido se houvessem aberto o coração para a
não ousavam ignorá-lo. Aliás, é possível que verdade naquele dia? Em primeiro lugar, te­
tenham chegado mais cedo do que os ou­ riam aprendido que o pecado é com o uma
tros, pois estavam num lugar privilegiado! doença e que o perdão é com o ter a saúde
Ou, quem sabe, num gesto de bondade, restaurada. Não se tratava de uma verdade
Jesus deixou que se assentassem na primei­ nova, pois o Antigo Testamento já dizia isso
ra fila. (SI 103:3; Is 1:5, 6, 16-20). A diferença era
Quando Jesus olhou para o interior de­ que essa verdade havia sido demonstrada
les, viu o espírito crítico em seu coração e diante dos olhos deles. Também, poderiam
soube que o estavam acusando de blasfêmia. ter aprendido que Jesus Cristo de Nazaré é,
Afinal, somente Deus é capaz de perdoar de fato, o Salvador com autoridade para per­
pecados, e Jesus havia acabado de dizer que doar pecados - e os pecados dos líderes
os pecados do paralítico estavam perdoados. teriam sido perdoados também! Que opor­
Ou seja, Jesus estava dizendo que era Deus! tunidade perderam quando foram até aque­
Logo em seguida, porém, Jesus provou la reunião com um espírito crítico, não com
que era Deus ao ver o que havia no cora­ um coração arrependido!
ção desses homens e lhes dizer o que esta­
vam pensando (ver Jó 2:25; Hb 3:13). Uma 2. S a t is f a ç ã o ( M c 2:13-22)
vez que desejavam "arrazoar", Jesus lhes Não tardou a ficar claro que Jesus se rela­
propôs uma perguntar sobre a qual pode­ cionava deliberadamente com os párias da
riam refletir: o que é mais fácil fazer, curar sociedade judaica. Chegou até a chamar um
um homem ou dizer que seus pecados es­ coletor de impostos para ser um de seus dis­
tão perdoados? Obviamente, é mais fácil cípulos! Não sabemos se Levi era um ho­
dizer: "os teus pecados estão perdoados", mem desonesto, apesar de a maioria dos
pois ninguém pode provar que o perdão de coletores de impostos ser corrupta, mas o
fato ocorreu. Então, para corroborar suas pa­ simples fato de trabalhar para Herodes An­
lavras, Jesus curou o homem naquele mes­ tipas e para os romanos já era suficiente para
mo instante e o mandou para casa. A cura acabar com a reputação dele entre os ju­
do corpo do homem foi uma ilustração e deus mais zelosos. No entanto, quando Jesus
demonstração da cura de sua alma (SI 103:3). o chamou, Levi não argumentou nem se
É evidente que os escribas e fariseus não demorou. Levantou e seguiu a Jesus, mesmo
tinham poder para curar aquele homem nem sabendo que Roma nunca mais lhe daria seu
para perdoar seus pecados, de modo que emprego de volta. Queimou suas pontes
foram pegos na própria armadilha e conde­ ("Ele se levantou e, deixando tudo, o seguiu";
nados pelos próprios pensamentos. Lc 5:28), recebeu um novo nome ("Mateus,
Jesus afirmou sua divindade não apenas o presente de Deus") e, com todo entusias­
ao perdoar os pecados do homem e curar mo, convidou alguns de seus amigos "peca­
seu corpo, mas também ao aplicar a si mesmo dores" a se encontrar com o Senhor Jesus.
M A R C O S 2:1 - 3:12 151

Esses amigos eram judeus que, com o ele, O noivo (w . 18-20). A primeira pergun­
não observavam a Lei nem tinham grande ta referia-se às com panhias com as quais
interesse em coisas religiosas - exatamente Jesus andava, enquanto a segunda pergun­
o tipo de pessoa que Jesus desejava alcançar. ta dizia respeito ao motivo de Jesus alegrar-
É evidente que os críticos tinham de es­ se com essas pessoas em seus banquetes.
tar presentes, mas Jesus usou seus questiona­ Aos olhos dos judeus mais piedosos, a con­
mentos para ensinar os convidados sobre si duta de Jesus era inapropriada. Jo ão Batista
mesmo e sobre a obra espiritual que tinha era um homem austero e um tanto recluso;
vindo realizar. Explicou sua missão usando Jesus, porém, aceitava convites para banque­
três com parações interessantes. tes, brincava com as crianças e gostava de
O m édico (vv. 16, 17). Apesar de terem reuniões sociais (M t 11:16-19). Sem dúvida,
sido descartadas pelos líderes religiosos, Je ­ os discípulos de Jo ão devem ter ficado um
sus não considerou essas pessoas "rejeita­ pouco escandalizados ao ver Jesus em fes­
das". O s amigos de M ateus eram pacientes tas, e os discípulos zelosos dos fariseus (ver
que precisavam de médico, e Jesus era esse M t 23:15) não tardaram a expressar a mes­
M édico. Vim os anteriormente que o peca­ ma perplexidade.
do pode ser com parado a uma doença, e Jesus já havia deixado claro que tinha
que o perdão é a restauração à saúde. Ve­ vindo ao mundo para converter os pecado­
mos agora que nosso Salvador pode ser com ­ res, não para elogiar os que se consideravam
parado a um m édico: vem até nós em nossa justos. Agora lhes dizia que viera para trazer
necessidade, faz um diagnóstico perfeito, dá alegria, não tristeza. G raças ao legalism o
a cura verdadeira e definitiva e paga a con­ imposto pelos escribas e fariseus, a religião
tai Um m édico e tanto! judaica havia se tornado um fardo pesado
Porém, há três tipos de "pacientes" que demais. O povo estava sobrecarregado com
Jesus não pode curar da doença do peca­ tantas regras e normas impossíveis de obe­
do: (1) aqueles que não o conhecem ; (2) decer (M t 23:4). "A vida não deve ser um
aqueles que o conhecem , mas se recusam funeral!", disse Jesus. "D eus quer que a vida
a crer nele; e (3) aqueles que não admitem seja uma festa de casamento! Eu sou o noi­
que precisam dele. O s escribas e fariseus se vo, e essas pessoas são meus convidados.
encaixavam nessa últim a categoria, com o A caso os convidados do casam ento não
tam bém todos os pecadores hoje que se devem se alegrar e se divertir?"
consideram melhores do que as demais pes­ O s judeus sabiam que o casam ento era
soas. A menos que reconheçam os ser peca­ uma das imagens do Antigo Testamento que
dores, não poderem os ser salvos, pois Jesus ajudava a retratar o relacionam ento de Is­
salva somente os pecadores (Lc 19:10). rael com o Senhor. Haviam se "casado com
N o tempo de Jesus, com o nos dias dos Jeo vá" e pertenciam somente a ele (Is 54:5;
profetas, havia os que afirmavam ser capa­ Jr 31:32). Q uando a nação voltou-se para
zes de oferecer cura espiritual, mas seu tra­ deuses estrangeiros, com o fez em tantas
tam ento era ineficaz. Jerem ias repreendeu ocasiões, com eteu "ad u ltério esp iritual".
os sacerdotes e falsos profetas de seus dias, Israel foi infiel a seu marido e teve de sofrer
pois eram médicos inúteis que ofereciam ape­ disciplina. O tema principal de O séias é o
nas falsas esperanças para a nação. "Curam am or de D eus por sua esposa adúltera e
superficialm ente a ferida do meu povo, di­ o desejo do Senhor de restaurar a nação.
zendo: Paz, paz; quando não há paz" (Jr João Batista já havia anunciado que Je­
6:14; 8:11). Aplicavam seus remédios fracos sus era o noivo (Jo 3:29), e Jesus realizou
somente a sintomas superficiais, sem nunca seu primeiro milagre numa festa de casam en­
tratar mais profundamente o problem a fun­ to (Jo 2:1-11). Aqui, convida as pessoas para
damental: o coração pecador (Jr 17:9). De­ virem ao casamento! Afinal, ser cristão não
vem os ter cuidado com m édicos desse tipo, é diferente de entrar num relacionam ento
152 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

outro"). Duas pessoas não se casam simples­ tecido novo para depois costurá-lo num pano
mente porque se conhecem ou porque têm velho. O tecido ficaria inaproveitável depois
sentimentos profundos uma pela outra. A de cortado, e quando o tecido velho fosse
fim de se casar, devem assumir publicamen­ lavado, os remendos novos encolheriam e
te um compromisso mútuo. Na maioria das estragariam a vestimenta (observe Lc 5:36­
sociedades, o homem e a mulher afirmam 39). Ou seria com o colocar vinho novo, não
esse com promisso publicamente quando fermentado, em odres velhos. Assim que o
dizem "Sim" na cerimônia de casamento. vinho com eçasse a fermentar e os gases se
A salvação dos pecados envolve mui­ expandissem, os odres velhos não suporta­
to mais do que conhecer a Cristo ou mes­ riam a pressão e se romperiam, perdendo-
mo "gostar" dele. O pecador é salvo quando se, assim, tanto o vinho quanto os odres.
assume um compromisso com Jesus Cristo Jesus veio para trazer algo novo, não
e diz "Sim". Assim, o cristão passa a experi­ para remendar algo velho. A Lei mosaica
mentar imediatamente as alegrias de seu encontrava-se em decadência, estava se
casamento espiritual: leva o nome de Cris­ deteriorando e prestes a desaparecer (Hb
to; compartilha de suas riquezas e poder; 8:13). Jesus estabeleceria uma nova aliança
alegra-se com seu amor e proteção e, um com seu sangue (Lc 22:19, 20). A partir de
dia, vai morar em seu lar glorioso no céu. então, a Lei não seria mais escrita em pe­
Q uando estam os "casados com Cristo", dras, mas sim no coração das pessoas (2 Co
m esm o com todas as suas tribulações e 3:1-3; Hb 10:15-18), e o Espírito Santo capa­
dificuldades, a vida se torna uma festa de citaria o povo de Deus a satisfazer a justiça
casamento. da Lei (Rm 8:1-4).
Marcos 2:20 faz alusão à morte, ressur­ Ao usar essa ilustração, Jesus refutou, de
reição e ascensão de Jesus ao céu. É pouco uma vez por todas, a idéia popular de uma
provável que, a essa altura de seu aprendi­ "religião mundial" conciliatória. Líderes bem-
zado com Cristo, os discípulos tenham com­ intencionados, porém espiritualmente cegos,
preendido o que ele queria dizer. Contudo, costumam sugerir que devem os pegar "o
Jesus não estava sugerindo que sua ausên­ que há de melhor" em cada religião, mistu­
cia da Terra significaria que seus seguidores rar com o "melhor" do cristianismo e, desse
teriam de substituir a festa por um funeral! modo, criar uma fé sintética que seja aceita
Apenas indicava que, num tempo futuro, um por todos. Mas a fé cristã possui caráter
jejum ocasional seria apropriado, mas que a exclusivista, pois não aceita nenhuma outra
alegria da celebração deveria continuar sen­ fé com o sendo igual ou superior. "Porque
do a experiência normal dos cristãos. abaixo do céu não existe nenhum outro
A vestimenta e os odres (vv. 21, 22). Je­ nome, dado entre os homens, pelo qual im­
sus havia acabado de ensinar duas lições porta que sejamos salvos" (At 4:12).
importantes sobre seu ministério: (1) veio pa­ A salvação não é um remendo parcial
ra salvar os pecadores, não para chamar os na vida de alguém, mas uma nova vestimenta
religiosos; e (2) veio para trazer alegria, não com pleta de justificação (Is 61:10; 2 Co
tristeza. A terceira lição é esta: veio para in­ 5:21). A vida cristã não é uma mistura de
troduzir algo novo, não remendar algo velho. velho e de novo; pelo contrário, é o cumpri­
Os líderes religiosos ficaram impressiona­ mento do velho no novo. Há duas maneiras
dos com o ensinamento de Jesus, e possivel­ de dar cabo de alguma coisa: pode-se fazê-
mente teriam, de bom grado, incorporado la em pedaços ou deixar que siga seu curso
algumas dessas idéias a suas tradições religio­ natural e cumpra seu propósito. É possível
sas. Esperavam encontrar um "meio-termo", esmagar uma semente com um martelo ou
agregando o melhor do judaísmo farisaico plantá-la de modo a cumprir seu propósito,
e o melhor do que Cristo tinha a oferecer. que é dar origem a uma árvore. Nos dois
Mas Jesus mostrou que se tratava de uma casos, a semente deixou de existir; mas no
idéia absurda, pois seria com o cortar um segundo, a semente cumpriu seu propósito.
M A R C O S 2:1 - 3:12 153

Jesus cumpriu as profecias, os tipos e os à lei do sábado foi andar pelo cam po e per­
preceitos da Lei de Moisés. A Lei terminou mitir que seus discípulos colhessem espigas
no Calvário, quando um sacrifício perfeito para comer. A Lei permitia que uma pessoa
foi oferecido pelos pecados do mundo de com fom e apanhasse um pouco de cereal
uma vez por todas (H b 8 - 10). Q uando ou de frutas de seu vizinho, desde que não
crem os em Jesus Cristo, tornamo-nos parte enchesse um recipiente nem usasse qualquer
de uma nova criação (2 Co 5:17) e expe­ implemento agrícola (D t 23:24, 25). M as não
rim entam os sem pre de m aneira nova sua foi isso o que exasperou os fariseus, mas sim,
graça e glória. Com o é triste quando as pes­ o fato de os discípulos estarem trabalhando
soas se agarram a tradições religiosas mortas, no dia de sábado!
quando poderiam ab raçar uma verdade Q uando lemos o relato de M ateus des­
espiritual viva. Por que se apegar a sombras se acontecim ento, notamos que Jesus apre­
q u an do a realid ad e está presente? (H b sentou três argumentos para defender seus
10:1ss). Em Jesus Cristo, há o cumprimento discípulos: o que Davi fez (M t 12:3, 4), o que
de todas as promessas de Deus (2 C o 1:20). os sacerdotes faziam (M t 12:5, 6) e o que o
profeta Oséias disse (M t 12:7, 8). O s leitores
3. L ib e r d a d e (M c 2:23 - 3:12) romanos de M arcos não se interessariam por
O s judeus consideravam o sábado uma ins­ profetas nem por sacerdotes de Israel, de
tituição sagrada. Deus deu esse dia ao povo m odo que se concentrou em Davi, que os
de Israel depois que saíram do Egito (Êx 20:8­ romanos consideravam um grande herói e
11; N e 9:14), e ele era um sinal especial entre rei. O argumento é lógico: se um rei famin­
Israel e Jeová (Êx 31:13-1 7). N ão há registro to e seus homens receberam permissão de
nas Escrituras de que Deus tenha dado o comer do pão sagrado do tabernáculo (1 Sm
sábado a qualquer outra nação. Assim, quan­ 21:1-6), então também era correto o Senhor
do Jesus com eçou a quebrar abertam ente do sábado permitir que seus homens comes­
as tradições do sábado, foi com o declarar sem grãos de seu campo. Davi transgrediu
guerra contra a religião dos judeus. Jesus uma lei de Moisés, pois o pão da proposi­
com eçou sua cam panha curando um ho­ ção só poderia ser consum ido pelos sacer­
mem que esteve doente por 38 anos (Jo 5) dotes (Lv 24:5-9). O s discípulos, no entanto,
e prosseguiu com os acontecim entos regis­ haviam quebrado apenas uma tradição hu­
trados nesta seção. mana. Por certo, Deus está mais preocupa­
D e acordo com a tradição judaica, havia do em suprir as necessidades das pessoas
39 atividades que não podiam ser realiza­ do que em proteger tradições religiosas. As
das no sábado. M oisés proibira o trabalho prioridades dos fariseus não estavam em
no sábado, mas não havia dado mais deta­ ordem.
lhes específicos (Êx 20:10). Não era permiti­ Jesus enganou-se quando m encionou
do acender uma fogueira para cozinhar (Êx Abiatar com o sumo sacerdote? D e acordo
35:3), apanhar lenha (Nm 15:32ss), carregar com o relato de 1 Samuel 21, Abim eleque,
fardos (Jr 17:21 ss) nem realizar negócios (N e o pai de Abiatar (1 Sm 22:20) era o sumo
10:31; 13:15, 19). Porém, a tradição judaica sacerdote. As palavras de Jesus parecem ser
desenvolveu os detalhes acerca da Lei, che­ contraditórias ao Antigo Testam ento, mas
gando até a informar as distâncias exatas que não são. É possível que tanto o pai quanto o
poderiam ser percorridas no sábado (2 mil filho fossem cham ados por esses dois no­
côvados, conform e Js 3:4, ou seja, cerca de mes (1 Cr 18:16 e 24:6; 1 Sm 22:20 e 2 Sm
1.320 metros). Em resumo, o sábado havia 8:17). Também é provável que Jesus tenha
se transform ado num fardo im possível de usado a designação "Abiatar" para referir-se
carregar, símbolo da escravidão religiosa que à passagem Antigo Testamento sobre Abiatar,
prendia a nação. não ao hom em especificam ente. Para os
Depois de curar o homem junto ao tan- judeus, essa era uma forma de identificar as
154 M A R C O S 2:1 - 3:1 2

tinham capítulos nem versículos como temos com o rei Herodes e apoiava o governo. A
hoje em nossa Bíblia (ver Mc 12:26). maioria dos judeus desprezava Herodes e
Naquele mesmo sábado, Jesus foi à si­ obedecia a ele com relutância, o que torna
nagoga para adorar e, enquanto estava lá, ainda mais surpreendente o fato de fariseus,
curou um homem. Por certo, poderia ter judeus sempre muito zelosos, unirem forças
esperado mais um dia; porém, quis desafiar com tais políticos desleais. Essa aliança, po­
novamente a tradição legalista farisaica. rém, só foi possível por causa de um inimi­
Dessa vez, os fariseus esperavam que reali­ go em comum: Jesus.
zasse uma cura (Lc 6:7), de modo que fica­ Em resposta à oposição unida, Jesus
ram observando. Os inimigos de Jesus não simplesmente se retirou, mas não conseguiu
responderam à sua pergunta em Marcos 3:4. evitar que as multidões o seguissem. Essas
Uma vez que o mal atua no mundo todos multidões representavam um risco para sua
os dias, inclusive aos sábados, então por que causa, pois não possuíam motivação espiri­
não se pode fazer também o bem nesse dia? tual, e as autoridades poderiam acusá-lo de
A morte está sempre trabalhando, mas isso organizar uma insurreição popular contra os
não deve nos impedir de procurar salvar romanos. Ainda assim, Jesus recebeu o povo,
vidas. curou os enfermos e libertou os endemoni-
Jesus poderia ver "o endurecimento do nhados. Mais uma vez, advertiu os demônios
coração" (tradução literal) desses líderes, e a não revelar quem ele era (Mc 1:23~26).
seus pecados acenderam a ira do Senhor. Aqui, Jesus chega a um ponto crítico
Jesus nunca se aborreceu com publicanos e de seu ministério. Multidões enormes o se­
pecadores, mas expressou sua ira contra os guiam, mas não estavam interessadas nas
fariseus moralistas (Mt 23). Preferiam pro­ coisas espirituais. Os líderes religiosos de­
teger suas tradições a ver um homem ser sejavam destruí-lo, e até mesmo alguns dos
curado! É evidente que o homem não fazia amigos de Herodes começaram a envolver-
idéia desse conflito espiritual. Apenas obe­ se. Os próximos passos de Jesus seriam pas­
deceu à ordem do Senhor, estendeu a mão sar a noite em oração (Lc 6:12), chamar
e foi curado. doze homens para auxiliá-lo como apósto­
Os fariseus enfureceram-se de tal modo los e pregar um sermão - o Sermão do
com o que Jesus havia feito que se uniram Monte -, explicando a base espiritual de
aos herodianos e começaram a tramar para seu reino.
prendê-lo e dar cabo de sua vida. Os hero­ Jesus ofereceu-lhes perdão, satisfação e
dianos não eram um partido religioso, mas liberdade, mas os judeus recusaram a oferta.
sim um grupo de judeus que simpatizava Vbcê já aceitou essa oferta?
de seu exemplo pessoal e de seus ensina­
3 mentos; (2) enviá-los para pregar o evange­
lho; e (3) dar-lhes autoridade para curar e
expulsar dem ônios (ver M c 1:14, 15, 38,
O S e r v o , a s M u l t id õ e s 39; 6:7-13). Assim, quando Jesus voltasse
para junto do Pai, esses doze homens esta-
e o R e in o
riam preparados para prosseguir seu traba­
lho, além de ser capazes de treinar outros
M a r c o s 3 :1 3 - 4 :3 4
a dar co ntinu id ad e ao m inistério depois
deles (2 Tm 2:2).
Encontram os no N ovo Testamento três
listas com os nom es dos doze apóstolos:
onde quer que fosse, o Servo de Deus
A
M ateus 10:2-4, Lucas 6:14-16 e Atos 1:13.
era apertado por multidões entusias­ Lucas diz que Jesus lhes deu o nom e espe­
madas (M c 3:7-9, 20, 32; 4:1). Se Jesus não cial de "apóstolos". "D iscípulo" é alguém que
fosse Servo, mas sim uma "celebridade", te­ aprende fazendo. Nosso equivalente moder­
ria atendido aos apelos do povo e tentado no seria o aprendiz. "A póstolo", porém, é
agradar a todos (ver M t 11:7-15). Em vez alguém com issionado a realizar uma tarefa
disso, o M estre retirou-se e com eçou a mi­ oficial. Jesus teve muitos discípulos, porém
nistrar especificam ente aos discípulos. Jesus apenas doze apóstolos, seus "em baixadores"
sabia que a maioria das pessoas que o abor­ especiais.
davam eram superficiais e insinceras, mas Q uando com param os as três listas, te­
seus discípulos não tinham consciência dis­ mos a impressão de que os nomes encon­
so. A fim de evitar que levassem esse "su­ tram-se dispostos de dois em dois: Pedro e
cesso" a sério, Jesus teve de ensinar aos doze André - Tiago e João - Felipe e Bartolom eu
homens a verdade sobre as multidões e o (Natanael [Jo 1:45]) - Tomé e M ateus (Levi)
reino. Nesta seção, vem os três reações de - Tiago (filho de Alfeu) e Tadeu (Judas, filho
Jesus às pressões do povo. de Tiago, não o Iscariotes [Jo 14:22]) - Si­
mão o zelote e Judas Iscariotes. Um a vez
1 . Fu n d o u um a nova n a çã o que Jesus enviou seus apóstolos em pares,
(Mc 3:13-19) essa parece ser a forma lógica de relacioná-
O núm ero de discípulos é significativo, pois los (M c 6:7)
havia doze tribos em Israel. Em G ênesis, O nom e de Sim ão foi m udado para
Deus com eçou com os doze filhos de Jacó Pedro, "a rocha" (Jo 1:40-42), e o de Levi
e, em Êxodo, transformou-os num a pode­ para Mateus, "o presente de Deus". Tiago e
rosa nação. Israel foi escolhida para trazer João receberam o apelido de "Boanerges",
o M essias ao mundo, a fim de que, por m eio que quer dizer: "filhos do trovão". Costum a­
dele, todas as nações da Terra fossem aben­ mos nos lembrar de Jo ão com o o apóstolo
çoadas (G n 12:1-3). N o entanto, a nação do amor, mas, sem dúvida, não com eçou
de Israel estava espiritualm ente decrép ita com essa reputação, tam pouco Tiago, seu
e prestes a rejeitar o próprio M essias. Deus irmão (M c 9:38-41; 10:35-39; Lc 9:54, 55). É
teve de e sta b e le ce r um a "n a ç ã o santa, anim ador ver o que Jesus pôde fazer com
povo [com prado] de propriedade exclusi­ um grupo tão diversificado de candidatos
va " (1 Pe 2:9), e os doze apóstolos eram o nada promissores para o serviço cristão. Ain­
núcleo dessa nova nação "esp iritual" (M t da há esperança para nós!
21:43). M arcos define o termo hebraico Boaner­
Jesus passou a noite toda em oração ges, pois escrevia a leitores romanos. Em seu
antes de selecionar esses doze hom ens (Lc Evangelho, encontram os várias dessas "o b ­
6:12); quando os escolheu, tinha em men- servações para os gentios" (M c 5:41; 7:11,
156 M A R C O S 3:1 3 - 4:34

refere-se a Simão, o zelote. Os zelotes eram Discorda e dirão que és perigoso,


um grupo de judeus extremistas organiza­ E acabarás acorrentado.
dos com o objetivo de derrubar o governo (Tradução livre)
romano. Usavam qualquer meio disponível
para promover sua causa. O historiador Ao permanecer dentro da casa e não se
Josefo chama-os de "homens da adaga". Se­ esforçar para ver seus familiares, Jesus não
ria interessante saber como Simão, o zelote, estava sendo indelicado com eles. Sabia que
reagiu ao ver Mateus, um ex-funcionário de a motivação deles era correta, mas seus pro­
Roma. pósitos eram, sem dúvida alguma, equivo­
Se observarmos com atenção a harmonia cados. Se Jesus tivesse se sujeitado a sua
dos Evangelhos, veremos que, entre Marcos família, teria feito exatamente o que seus
3:19 e 20, Jesus pregou o Sermão do Monte inimigos queriam, pois os líderes religiosos
(Mt 5 - 7) e participou dos acontecimentos diriam: "Estão vendo? Ele mesmo concordou
descritos em Lucas 7:1 - 8:3. O Evangelho com a família: precisa de ajuda! Não levem
de Marcos não inclui esse sermão tão co­ Jesus de Nazaré tão a sério". Em vez de ce­
nhecido, pois sua ênfase é sobre o que Je­ der, Jesus usou essa crise para ensinar uma
sus fez, não sobre o que disse. lição espiritual: sua "família" é constituída
de todos os que fazem a vontade de Deus.
2 . I n s t i t u i u u m a n o v a f a m ília Jesus sentia-se mais próximo de publicanos
(Mc 3:20, 21, 31-35) e de pecadores que creram nele do que de
Os amigos de Jesus não tinham dúvidas de Tiago, José, Judas e Simão, seus meios-irmãos
que ele estava confuso, possivelmente lou­ ainda não convertidos (Jo 7:1-5).
co! Quando viram as multidões que o se­ Jesus não estava dizendo que os cristãos
guiam e ouviram as notícias extraordinárias devem ignorar ou abandonar a família a fim
a respeito dele, tiveram certeza de que Je­ de servir a Deus, mas apenas que devem
sus precisava urgentemente de ajuda, pois colocar a vontade de Deus acima de tudo.
não levava uma vida normal. Assim, foram a Nosso amor por Deus deveria ser tão gran­
Cafarnaum para "tomar conta dele". Em se­ de que, em comparação, o amor por nossas
guida, sua mãe e seus "irmãos" (M c 6:3) famílias pareceria ódio (Lc 14:26). Por cer­
saíram de Nazaré e viajaram quase 50 qui­ to, Deus deseja que cuidemos de nossa fa­
lômetros para implorar que Jesus voltasse mília suprindo suas necessidades (1 Tm 5:8),
com eles e descansasse, mas nem sequer mas não devemos permitir que qualquer um,
conseguiram chegar perto dele. Essa é a nem mesmo nossos entes mais queridos, nos
única ocasião em que Maria aparece no afaste da vontade de Deus. Ao considerar a
Evangelho de Marcos, e nesse episódio não importância da família na sociedade judai­
é bem-sucedida. ca, imaginamos como as palavras de Cristo
A história mostra que, muitas vezes, os devem ter parecido radicais para os que as
servos de Deus não são compreendidos por ouviram.
seus contemporâneos e familiares. D. L. Como é possível fazer parte da família
Moody era conhecido em Chicago como de Deus? Por meio de um novo nascimen­
"M oody Maluco", e até mesmo o grande to, um nascimento espiritual do alto (Jo 3:1­
apóstolo Paulo foi chamado de louco (At 7; 1 Pe 1:22-25). Quando um pecador crê
26:24, 25). Emily Dickinson escreveu: em Jesus Cristo como Salvador, experimen­
ta esse novo nascimento e passa a fazer parte
Muita loucura é siso divino da família de Deus. Compartilha da natureza
Para o observador astucioso; divina de Deus (2 Pe 1:3, 4) e pode chamar
Muito siso é loucura plena. Deus de "Pai" (Rm 8:15, 16). Esse nascimen­
Como em tantos outros casos, to espiritual não se alcança por conta pró­
A maioria prevalece. pria nem é algo que outros possam fazer
Concorda e serás tido por sensato; por nós (Jo 1:11-13). Antes, é obra da graça
M A R C O S 3:1 3 - 4:3 4 157

de Deus, e tudo o que precisamos fazer é vida. As parábolas são tão penetrantes e
crer e aceitar (Ef 2:8, 9). pessoais que, depois de ouvir várias delas,
os líderes religiosos quiseram matar Jesus
3. A n u n c i o u u m n o v o r e in o (ver M t 21:45, 46)!
(Mc 3:22-30; 4:1-34) U m a parábola co m eça de form a ino­
As multidões esperavam que Jesus libertas­ cente, com o um retrato que cham a nossa
se a nação e derrotasse Roma. Em vez dis­ atenção e suscita nosso interesse. M as, ao
so, o M estre cham ou doze homens comuns estudar esse retrato, ele se transforma em
e fundou uma "nova nação", uma nação es­ um espelho. Se continuam os olhando pela
piritual cujos cidadãos têm os nomes escritos fé, o espelho transforma-se em uma janela
no céu (Lc 10:20; Fp 3:20). O povo deseja­ por meio da qual vem os Deus e sua verda­
va que Jesus se com portasse com o judeu de. A form a de responder a essa verdade
devoto e que honrasse sua família, mas Je ­ determinará que outras verdades Deus nos
sus instituiu uma "nova fam ília", formada por ensinará.
todos os que crêem nele e fazem a vontade Por que Jesus ensinou por parábolas?
de Deus. Também esperavam que restauras­ Seus discípulos lhe fizeram a mesma pergun­
se o reino e trouxesse de volta a glória de ta (M c 4:10-12; e ver 13:10-17). A o estudar
Israel, mas sua resposta foi anunciar um novo sua resposta com cuidado, vem os que Jesus
reino, um reino espiritual. usou as parábolas tanto para esconder quan­
"R e in o " é a palavra-chave desta seção to para revelar a verdade. A m ultidão não
(M c 3:24; 4:11, 26, 30). João Batista havia julgava as parábolas; eram as parábolas que
anunciado que o Rei chegaria em breve, julgavam a m ultidão. O o uvinte desinte­
advertindo os judeus para que se preparas­ ressado, certo de que sabia de tudo, ouviria
sem a fim de encontrá-lo (M c 1:1-8). Jesus apenas uma história que não seria capaz de
expandiu a mensagem de João e pregou as entender, e o resultado em sua vida seria o
boas novas do reino, assim com o a neces­ juízo (ver M t 11:25-30). M as o ouvinte sin­
sidade de que os pecadores se arrepen­ cero, com desejo de conhecer a verdade
dessem e cressem (M c 1:14, 15). M as com o de Deus, refletiria sobre a história, confessa­
é esse reino? Se não planejava restaurar o ria sua ignorância, se sujeitaria ao Senhor e,
reino político de Israel, que tipo de reino pre­ em seguida, com eçaria a entender as lições
tendia estabelecer? espirituais que Jesus desejava ensinar.
Aqui, M arcos insere no texto uma pala­ Jesus atribui grande im portância a ouvir
vra nova: parábolas (ver M c 3:23; 4:2, 10, da Palavra de Deus. O verbo ouvir e seus
11, 13, 33, 34). Jesus não explicou o reino correlates são usados pelo menos treze ve­
utilizando uma preleção teológica, mas sim zes em M arcos 4:1-34. É evidente que Jesus
ilustrando situações que cativavam a aten­ não estava se referindo ao ato físico de ou­
ção das pessoas e que as levavam a pensar vir, mas sim a ouvir com discernim ento espi­
e a usar a imaginação. A palavra "parábola" ritual. "O u v ir" a Palavra de Deus significa
vem do grego parabállo, que significa "lan­ entendê-la e obedecer ao que diz (ver Tg
çar lado a lado" (para = lado a lado; bállo = 1:22-25).
lançar). U m a parábola é uma história ou Jesus apresentou várias parábolas para
ilustração colocada lado a lado com um en­ ajudar as pessoas (inclusive seus discípulos)
sinamento para ajudar a entender seu signi­ a entender a natureza de seu reino.
ficado. É muito mais do que uma "história A parábola sobre o valente (3:22-30).
terrena com significado celeste" e, por cer­ Jesus curou um endem oninhado cego e
to, não é uma "ilustração" do tipo que um mudo (M t 12:22-24), e os escribas e fariseus
pastor usaria num sermão. A verdadeira pa­ usaram esse milagre com o uma oportunida­
rábola envolve o ouvinte em um nível mais de para atacá-lo. A m ultidão dizia: "Talvez
profundo e o com pele a tomar uma decisão esse homem seja o Filho de Davi, o Mes-
158 M A R C O S 3:1 3 - 4:34

ele está de conluio com Belzebu! Faz todas de Deus é menos importante do que o Es­
essas coisas pelo poder de Satanás, não pelo pírito Santo? Por que o pecado contra o
poder de Deus". Filho de Deus é perdoável e, ao mesmo
"Belzebu" é o nome do demônio e sig­ tempo, o pecado contra o Espírito Santo é
nifica "senhor da casa". Jesus pegou esse imperdoável?
significado e contou uma parábola sobre um A resposta encontra-se na natureza de
homem valente guardando sua casa. Para Deus e em sua forma paciente de lidar com
roubar a casa, o ladrão deveria, antes, der­ a nação de Israel. Deus o Pai enviou João
rotar o dono da casa. Batista a fim de preparar a nação para a vin­
Jesus expôs tanto a teologia incorreta da do Messias. Muitos do povo em geral
quanto a falta de lógica desses líderes reli­ responderam ao chamado de João e se
giosos. Se era pelo poder de Satanás que arrependeram (Mt 21:32), mas os líderes re­
expulsava os demônios, então, na verdade, ligiosos permitiram que João fosse preso e
Satanás lutava contra si mesmo! Isso signifi­ morto. Deus, o Filho, veio conforme prome­
ca que a casa e o reino de Satanás estavam tido e chamou a nação para crer nele, mas
divididos e, sendo assim, à beira de um co­ os mesmos líderes religiosos pediram que
lapso. Satanás guardava aquele homem com Jesus fosse morto. Quando estava na cruz,
todo cuidado, pois não queria perder terri­ Jesus orou: "Pai, perdoa-lhes, porque não
tório. O fato de Jesus ter libertado o homem sabem o que fazem" (Lc 23:34).
provava que era mais forte do que Satanás e O Espírito Santo veio em Pentecostes e
que o inimigo não poderia detê-lo. demonstrou o poder de Deus de várias ma­
Jesus não apenas respondeu às falsas neiras convincentes. Qual foi a reação des­
acusações contra ele, mas também explicou ses mesmos líderes religiosos? Prenderam os
a seriedade do que haviam proposto. Afinal, apóstolos, ordenaram que se calassem e
nossas palavras revelam o que se encontra depois mataram Estêvão com as próprias
oculto em nosso coração (M t 12:35), e o mãos! Estêvão disse-lhes qual era o pecado
que está em nosso coração determina nos­ deles: "vós sempre resistis ao Espírito San­
so caráter, conduta e destino. Por vezes, di­ to" (At 7:51). Os líderes pecaram contra o
zemos: "É fácil falar!", mas, na realidade, o Pai e o Filho, mas, pela graça de Deus, fo­
que falamos tem muito valor. Jesus advertiu ram perdoados. Quando, porém, pecaram
os líderes religiosos judeus que eles corriam contra o Espírito Santo, chegaram ao "fim
o grande risco de cometer um pecado eter­ da linha", onde não haveria mais perdão.
no e imperdoável (Mt 12:32). Nos dias de hoje, não é possível cometer
Quando perguntamos às pessoas: "O o "pecado imperdoável" da mesma forma
que é um pecado imperdoável?", sua res­ que os líderes religiosos judeus o fizeram
posta geralmente é: "A blasfêmia contra o quando Jesus estava ministrando na Terra,
Espírito Santo" ou "O pecado de atribuir ao O único pecado que Deus não pode per­
demônio a obra do Espírito Santo". Em ter­ doar em nosso tempo é a rejeição de seu
mos históricos, tais afirmações são verdadei­ Filho (Jo 3:16-21, 31). Quando o Espírito de
ras, mas não respondem, de fato, à questão. Deus convence o pecador e revela o Salva­
De que maneira blasfemamos hoje contra o dor, o pecador pode resistir ao Espírito e
Espírito de Deus? Que milagres o Espírito rejeitar o testemunho da Palavra de Deus,
Santo reaíiza hoje que poderiam, por negli­ mas isso não significa que tenha perdido
gência ou por deliberação, ser atribuídos a todas as oportunidades de ser salvo. Caso
Satanás? Será que só diante de um milagre se arrependa e creia, Deus ainda pode
é possível cometer esse pecado hediondo? perdoá-lo. Mesmo que o pecador endureça
Jesus deixou claro que Deus perdoaria o coração a ponto de se tornar aparente­
todos os pecados e toda blasfêmia, inclusive mente insensível aos apelos de Deus, en­
a blasfêmia contra o próprio Filho de Deus! quanto houver vida, ainda há esperança.
(Mt 12:32). Será que isso significa que o Filho Somente Deus sabe quando e se a pessoa
M A R C O S 3:1 3 - 4:3 4 159

chegou ao "fim da linha". Portanto, não de­ mas quando as perseguições e situações
vem os jam ais perder as esperanças sobre difíceis chegam, o entusiasmo esfria e a ale­
qualquer pecador (1 Tm 2:4; 2 Pe 3:9). gria desaparece. É muito fácil para a nature­
A p aráb o la do sem eador (4:1-20). Esta za hum ana decaída sim ular "sentim entos
parábola ajudou os discípulos a entender religiosos" e encher alguém que se diz cris­
por que Jesus não estava impressionado com tão de falsa confiança.
a grande multidão que o seguia: sabia que a O coração abarrotado (w . 7, 18, 19) re­
maior parte dessas pessoas jamais produzi­ presenta a pessoa que recebe a Palavra, mas
ria os frutos de uma vida transformada, uma não se arrepende verdadeiram ente nem re­
vez que a Palavra que estava pregando era move os "espinhos" do coração. Esse ouvin­
com o uma semente caindo em solo infértil. te tem vários tipos diferentes de "sem entes"
A semente representa a Palavra de Deus com p etind o por seu co ração - as preo­
(Lc 8:11), e o sem eador é o servo de Deus cupações do mundo, o desejo de riqueza e
que com partilha a Palavra com outros (ver as am bições -, e a boa semente da Palavra
1 C o 3:5-9). O co ração hum ano é com o não encontra espaço para crescer. Usando
o solo: deve ser preparado para receber a outra ilustração, essa pessoa quer andar pelo
semente de modo que esta crie raízes e pro­ "cam inho largo" e pelo "cam inho estreito"
duza frutos. Assim com o a semente, a Palavra ao mesmo tem po (M t 7:13, 14), algo que
é viva e capaz de produzir fruto espiritual, não pode ser feito.
mas a semente deve ser plantada e cultiva­ O coração frutífero (vv. 8, 20) é a repre­
da antes da vinda da colheita. sentação do cristão verdadeiro, pois o fruto
Com o naqueles dias, hoje também exis­ - uma vida transformada - é evidência da
tem quatro tipos de coração que reagem de verdadeira salvação (2 C o 5:1 7; G i 5:19-23).
quatro m aneiras diferentes à m ensagem Um a vez que os outros três tipos de cora­
de Deus. ção não produziram frutos, concluím os que
O coração endurecido (M c 4:4, 15) re­ pertenciam a pessoas que nunca nasceram
siste à Palavra de Deus e permite que Sata­ de novo. Nem todos os que crêem ver­
nás (os pássaros) leve a sem ente embora. dadeiram ente produzem frutos na mesma
Da mesma form a com o a terra à beira da quantidade, mas em todo cristão legítim o
estrada é co m pactada pela passagem de haverá evidências de fruto espiritual.
muitos transeuntes, tam bém os que agem Cada um dos três tipos de coração infru­
de m odo descuidado e "abrem o coração" tífero é influenciado por um inim igo dife­
a todo tipo de pessoa e influências correm rente: no co ração endurecido, o próprio
o risco de se tornar endurecidos (ver Pv Satanás rouba a semente; no coração super­
4:23). Corações endurecidos devem ser "ara­ ficial, a carne simula sentimentos religiosos;
dos" antes de receber a semente, experiên­ e no coração abarrotado, as coisas do mun­
cia que pode ser extrem am ente dolorosa do sufocam o crescim ento e im pedem a
(Jr 4:3; O s 10:12). produção. Eis os três grandes inimigos do cris­
O coração superficial (w . 5, 6, 16, 17) é tão: o mundo, a carne e o diabo (Ef 2:1-3).
com o um solo rochoso com uma cam ada A p aráb o la da cand eia (w . 21-25). Nes­
fina de terra sobre as rochas, típico da Pales­ ta parábola, Jesus usa um objeto com um
tina. Um a vez que esse solo não tem pro­ (uma candeia) num lugar familiar (o lar). A
fundidade, qualquer coisa plantada nele não candeia era um vaso de barro cheio de óleo
dura muito tempo, pois não consegue criar com um pavio. A fim de iluminar, a lamparina
raízes. Trata-se de um a representação do tinha de se "consum ir" e, portanto, deveria
"ouvinte em ocional", que aceita com toda ser reabastecida de tempos em tempos. Se
alegria a Palavra de Deus, mas não com pre­ a lamparina não fosse acesa, ou se fosse co­
ende o preço que deve ser pago para se berta, não serviria para coisa alguma.
tornar um cristão genuíno. Pode haver gran- O s apóstolos eram com o a lam parina:
160 M A R C O S 3:1 3 - 4:34

Deus e revelar sua verdade, mas não pode­ tradicional das coisas minúsculas. Jesus co­
riam dar luz sem ser abastecidos, daí, a ad- meçou com doze apóstolos, e logo já havia
moestação em Marcos 4:24, 25. Quanto mais de quinhentos cristãos (1 Co 15:6).
mais ouvimos a Palavra de Deus, mais capa­ Pedro ganhou três mil pessoas em Pentecos-
zes seremos de compartilhá-la com outros. tes, e ao longo do Livro de Atos vemos esse
No momento em que pensarmos que sa­ número crescer o tempo todo (At 4:4; 5:14;
bemos tudo, perderemos tudo. É preciso 6:1, 7). Apesar dos pecados e fraquezas da
cuidado com o que se ouve (M c 4:24) e Igreja, a mensagem tem sido levada às ou­
também com a forma como se ouve (Lc tras nações, e, um dia, santos de todas as
8:18). O ouvir espiritual determina quanto nações adorarão diante do trono do Senhor
temos para dar aos outros. Não há sentido (Ap 5:9).
em "acobertar" coisas, pois um dia Deus as Mas o crescimento da semente é ape­
revelará. nas parte da história, pois devemos também
A parábola da semente (vv. 23-34). A atentar para os pássaros nos ramos. Na pa­
primeira parábola lembra que não é possí­ rábola do semeador, os pássaros represen­
vel fazer a semente crescer. Não dá sequer tam Satanás, que rouba as sementes (M c
para explicar como cresce. O crescimento 4:15). A fim de fazer uma interpretação
da semente e o desenvolvimento do fruto coerente, devemos levar esse fato em consi­
são verdadeiros mistérios. Ser agricultor deração, pois ambas as parábolas foram en­
requer grande dose de fé, também uma sinadas no mesmo dia. O crescimento do
grande dose de paciência. Na parábola do reino não resultará na conversão do mun­
semeador, Jesus indicou que muitas das do. Na verdade, parte desse crescimento
sementes espalhadas cairiam em solo im­ dará oportunidade para Satanás entrar e co­
produtivo. Esse fato desencorajaria os traba­ meçar a operar! Foi o caso de Judas no meio
lhadores, de modo que nesta parábola ele dos discípulos e de Ananias e Safira na co­
lhes dá o estímulo necessário, "porque a munhão da igreja em Jerusalém (At 5:1-11).
seu tempo ceifaremos, se não desfalecer­ Simão, o mago, fazia parte da igreja em
mos" (Gl 6:9). Samaria (At 8:1-24), e os ministros de Sata­
A segunda parábola serviu tanto de avi­ nás invadiram com ousadia a igreja de Co-
so quanto de encorajamento para os dis­ rinto (2 Co 11:13-1 5). Quanto maior a rede,
cípulos. O encorajamento foi que, a partir maior a possibilidade de pegar tanto peixes
de um pequeno começo, no devido tempo bons quanto ruins (M t 13:47-50).
o reino cresceria em tamanho e em in­ Pela fé em Jesus Cristo, tornamo-nos ci­
fluência. Apesar de a semente de mostarda dadãos de um país celestial, filhos na família
não ser a menor semente do mundo, era de Deus e súditos do Rei dos reis e Senhor
provavelmente a menor semente que os dos senhores. Que privilégio conhecer o
judeus plantavam nos jardins, um símbolo Senhor Jesus Cristo!
A lo ca liz a çã o g eo g ráfica do m ar da
4 Galiléia é propícia ao aparecimento de tem­
pestades repentinas e violentas. Enquanto
cruzava esse mar numa tarde de verão, per­
As C o n q u is ta s guntei a um guia turístico israelita se ele já
havia enfrentado algum a tem pestade na
d o S e rvo
região.
- Com certeza! - respondeu ele balan­
M a r c o s 4 :3 5 - 5 :4 3
çando a cabeça. - E não quero passar por
isso de novo!
A tempestade descrita aqui deve ter sido
particularm ente violenta, uma vez que foi
esus Cristo, o Servo de Deus, é Senhor capaz de deixar até pescadores experientes

J sobre qualquer situação e Conquistador


de qualquer inimigo. Se cremos nele e se­
com o os discípulos em pânico. Havia pelo
menos três bons motivos para que nenhum
guim os suas ordens, não precisam os ter deles se sentisse perturbado, apesar de a si­
medo. A vitória é o tema principal desta lon­ tuação parecer tão ameaçadora.
ga seção. M arcos registra quatro milagres Em primeiro lugar, tinham a promessa de
realizados por Jesus, e cada um deles anun­ Jesus de que chegariam ao outro lado (M c
cia, até mesmo para nós hoje, a derrota do 4:35). Sempre que o Senhor ordena que se
inimigo. faça algo, também capacita a obedecer, e
nada impede que cumpra seus planos. Não
1 . V i t ó r i a s o b r e o p e r ig o prom eteu uma viagem fácil, mas sim que
(Mc 4:35-41) chegariam à outra margem.
A expressão "N aquele dia" refere-se ao dia Em segundo lugar, Jesus estava com eles
em que Jesus proferiu as "parábolas do rei­ em pessoa, então por que ter medo? Já ha­
no". Havia ensinado a Palavra a seus discí­ viam visto seu poder demonstrado em vários
pulos, e agora lhes dá uma prova prática para milagres, de m odo que deveriam confiar ple­
ver quanto aprenderam. Afinal, ouvir a Pala­ namente que Jesus seria capaz de lidar com
vra de Deus deve produzir fé (Rm 10:17), e aquela situação. Por algum motivo, os discí­
a fé sem pre deve ser testada. N ão basta pulos ainda não haviam entendido que Jesus
aprender uma lição ou ser capaz de repetir era, de fato, o Senhor de todas as situações.
um ensinamento. Devem os também ser ca­ Por fim, podiam ver que, mesmo em
pazes de praticar essa lição pela fé, e esse é meio à tormenta, Jesus estava absolutamen­
um dos motivos pelos quais Deus permite te tranqüilo. Esse fato, por si mesmo, deve­
situações difíceis em nossa vida. ria tê-los encorajado. Jesus fazia a vontade
Jesus sabia que uma tempestade se apro­ do Pai e sabia que Deus estava cuidando
xim ava? Com certeza, pois fazia parte da dele, então aproveitou para dormir. Jonas
program ação de "aulas" daquele dia. Essa dormiu durante a tempestade por causa de
experiência ajudaria os discípulos a enten­ uma falsa sensação de segurança, apesar de
der uma lição que nem sabiam que precisa­ estar fugindo de Deus. Jesus dormiu na tem­
vam aprender: é possível confiar em Jesus pestade porque sentia-se, verdadeiramente,
durante as tempestades da vida. M uita gen­ seguro na vontade de Deus. "Em paz me
te acredita que as tempestades só aparecem deito e logo pego no sono, porque, S e n h o r ,
quando desobedecem os a Deus, mas nem só tu me fazes repousar seguro" ( S I 4:8).
sempre é o caso. Jonas viu-se em m eio a Q uantas vezes, durante as tribulações
uma tempestade por causa de sua desobe­ da vida, não nos vemos imitando os discí­
diência, mas os discípulos passaram pela pulos incrédulos e gritando: "Senhor, não te
tem pestade por causa de sua obediência importas que pereçam os?" Claro que ele se
162 M A R C O S 4:35 - 5:43

tempestade e, imediatamente, houve gran­ ver Ap 9:11). O texto não diz quantos de­
de calmaria. Mas o Senhor não se ateve a mônios controlavam esses dois homens, mas
acalmar os elementos naturais, pois o maior é possível que a possessão resultasse de te­
perigo não era o vento nem as ondas, mas rem se entregado ao pecado. Os demônios
sim a incredulidade do coração dos discí­ são "espíritos imundos" que se apoderarm
pulos. Os maiores problemas humanos facilmente da vida de quem cultiva práticas
encontram-se dentro de cada um, não nas pecaminosas.
circunstâncias ao redor. Isso explica por que Uma vez que se entregaram a Satanás,
Jesus os repreendeu ternamente e os cha­ o ladrão, esses homens perderam tudo: o
mou de "homens de pequena fé". Haviam lar e a comunhão com amigos e familiares;
visto Jesus ensinar a Palavra e até mesmo a decência, pois andavam nus pelo cemité­
realizar milagres, ainda assim, não tinham rio; o domínio próprio, pois viviam como
fé. Esse medo decorrente da incredulidade animais selvagens, gritando, autoflagelando-
levou-os a questionar se Jesus, de fato, se se e ameaçando as pessoas; a paz de espírito
importava. Devemos ter cuidado com o "per­ e o propósito de viver. Se Jesus não tivesse
verso coração de incredulidade" (Hb 3:12). atravessado uma tempestade para resgatá-
Essa foi apenas uma das muitas lições los, teriam permanecido nessa situação
que Jesus ainda ensinaria a seus discípulos terrível.
nos arredores do mar da Galiléia, e cada li­ Não devemos jamais subestimar o po­
ção revelaria uma verdade nova e maravi­ der destrutivo de Satanás, pois ele é nosso
lhosa sobre o Senhor Jesus. Os discípulos já inimigo e, se pudesse, devastaria todos nós.
sabiam que ele tinha autoridade para per­ Como um leão que ruge, procura nos devo­
doar pecados, expulsar demônios e realizar rar (1 Pe 5:8, 9). É Satanás quem trabalha na
curas. Com essa experiência, descobriram vida dos incrédulos, tornando-os "filhos da
que possuía autoridade até mesmo sobre o desobediência" (Ef 2:1-3). Os dois homens
vento e o mar. Assim, não tinham motivos no cemitério gadareno são, sem dúvida al­
para temer, pois o Senhor estava sempre no guma, exemplos extremos do que Satanás
controle de toda situação. pode fazer às pessoas, mas o que revelam é
suficiente para nos estimular a resistir a Sa­
2. V i t ó r i a s o b r e d e m ô n io s tanás e evitar absolutamente qualquer en­
(Mc 5:1-20) volvimento com ele.
Quando Jesus e os discípulos chegaram ao A segunda força operando nesses dois
outro lado, encontraram dois endemo- homens era a sociedade, mas esta não conse­
ninhados, sendo que um deles era bastante guiu muita coisa. Ao se ver diante de pessoas
articulado (ver M t 8:28). Essa cena toda problemáticas, a sociedade não é capaz de
parece extremamente estranha para nós, fazer nada além de isolá-las, colocá-las sob
que vivemos na chamada "civilização moder­ vigilância e, se necessário, prendê-las (Lc
na", mas não é tão extraordinária em vários 8:29). Esses homens foram presos em várias
campos missionários. Na verdade, alguns ocasiões, mas os demônios lhes davam for­
professores da Bíblia acreditam que a pos­ ças para romper as cadeias. Até mesmo as
sessão demoníaca esteja se tornando cada tentativas de amansá-los haviam fracassado.
vez mais comum na "sociedade moderna". Com todas as suas realizações científicas
Vemos nessa cena três forças diferentes tão impressionantes, a sociedade continua
em ação: Satanás, a sociedade e o Salvador. não sendo capaz de lidar com os proble­
Essas mesmas forças continuam operando mas causados por Satanás e pelo pecado.
em nosso mundo, tentando controlar a vida Mesmo sendo gratos a Deus pela proteção
das pessoas. e coibição limitadas que a sociedade ofere­
Primeiro, vemos o que Satanás pode fa­ ce, devemos reconhecer que não tem solu­
zer às pessoas, pois ele é como um ladrão, ção permanente nem é capaz de libertar as
cujo maior propósito é destruir (Jo 10:10; e vítimas de Satanás.
M A R C O S 4:35 - 5:43 163

Chegamos, assim, à terceira força: o Sal­ na oração, pois imploraram a Jesus para que
vador. O que Jesus Cristo fez por aqueles não os mandasse para o abismo, o lugar de
homens? Em primeiro lugar, foi até eles com tormento (M c 5:7; Lc 8:31). É anim ador no­
sua graça e amor, enfrentando até uma tem­ tar que os demônios não sabiam o que Jesus
pestade. H á quem creia que os demônios planejava fazer, pois sugere que Satanás só
causaram a tem pestade, uma vez que, ao conhece os planos de Deus se o próprio
acalm ar as águas, Jesus usou as mesmas pa­ Deus lhe revelar. Na verdade, não há qual­
lavras que havia empregado anteriormente quer evidência nas Escrituras de que Sata­
para repreender dem ônios (com parar M c nás seja capaz de ler a mente dos cristãos,
1:25 com 4:39). É possível que Satanás esti­ muito menos a mente de Deus.
vesse tentando destruir Jesus, ou pelo me­ M arco s 5 apresenta três pedidos: os
nos querendo impedir que se aproximasse demônios pediram que Jesus os mandasse
daqueles necessitados. M as nada impediria entrar nos porcos (M c 5:12); os cidadãos
o Senhor de ir àquele cem itério e libertar os pediram que Jesus fosse embora (M c 5:17);
dois homens. e um dos homens recém-libertos pediu que
Jesus não apenas se aproxim ou deles Jesus o deixasse segui-lo (M c 5:18). Jesus
com o também lhes falou e permitiu que fa­ atendeu os dois primeiros pedidos, mas não
lassem com ele. O s moradores da região evi­ o último.
tavam todo e qualquer contato com os dois Jesus teria o direito de destruir dois mil
endem oninhados, mas Jesus tratou-os com porcos, possivelmente levando os donos de­
amor e respeito. Ele veio buscar e salvar os les à falência? Se os donos dos porcos eram
que estavam perdidos (Lc 19:10). judeus, não deveriam estar criando e ven­
É interessante observar que, ao falar por dendo porcos imundos. N o entanto, uma
meio desse homem, os demônios confessa­ vez que se encontravam em território gen­
ram em que criam de fato. O s demônios têm tio, o mais provável é que os criadores de
fé e até tremem por causa daquilo em que porcos não fossem judeus.
acreditam (Tg 2:19), mas nem mesmo essa Por certo, Jesus poderia mandar os de­
fé ou esse temor pode salvá-los. O s dem ô­ mônios para onde bem desejasse - para o
nios crêem que Jesus é o Filho de Deus e abismo, para os porcos ou para qualquer
que tem autoridade sobre eles; crêem na outro lugar que escolhesse. Então, por que
realidade do julgam ento e sabem que um perm itiu que fossem para a m anada de
dia serão lançados no inferno (ver M t 8:29). porcos? Em primeiro lugar, com isso Jesus pro­
Têm mais convicções do que muitos religio­ vou aos espectadores que o milagre da liber­
sos de hoje! tação havia realmente ocorrido. A destruição
A Bíblia não explica, em momento algum, dos porcos também garantiu aos dois homens
a psicologia e a fisioiogia da possessão de­ que os espíritos imundos os haviam deixado.
m oníaca. O hom em que falou com Jesus M ais importante do que isso, porém, o afo-
estava sob o controle de uma legião de de­ gamento de dois mil porcos foi uma lição
mônios, e uma legião de soldados romanos prática muito vivida para essa multidão que
consistia de aproximadamente seis mil ho­ rejeitava a Cristo, mostrando que, para Sata­
mens! É assustador pensar nos horrores que nás, um porco tem o mesmo valor que um
aquele homem experim entava dia e noite, hom em ! N a verdade, Satanás transform a
enquanto milhares de espíritos imundos o um homem num porco! Jesus estava adver­
atormentavam. Por certo, o outro endem o­ tindo os cidadãos contra o poder do pecado
ninhado tam bém se encontrava extrem a­ e de Satanás. Foi um sermão dramático e ex­
mente agoniado. plícito: "O salário do pecado é a m orte!"
Satanás tentou destruir esses homens, O s porqueiros não queriam ser respon­
mas Jesus foi libertá-los. Pelo poder de sua sabilizados pela perda dos porcos, de modo
Palavra, expulsou os dem ônios e livrou os que correram im ediatam ente para contar
164 M A R C O S 4:35 - 5:43

Quando os proprietários chegaram, assusta­ extensão do amor e misericórdia de Cristo.


ram-se com a mudança que havia ocorrido Jairo era um líder importante da sinagoga,
nos dois homens. Em vez de correr nus, en­ enquanto a mulher era uma anônima, uma
contravam-se vestidos, sentados e calmos. pessoa qualquer, mesmo assim Jesus rece­
Eram novas criaturas (2 Co 5:17)! beu e ajudou ambos. Jairo estava para per­
Por que os proprietários pediram que der uma filha que lhe dera doze anos de
Jesus partisse? Por que não pediram que fi­ alegrias (M c 5:42), e a mulher estava para
casse e realizasse curas semelhantes para se ver livre de uma aflição que a acometia
outros que também precisavam? O maior havia doze anos. Uma vez que ocupava um
interesse deles era outro - os negócios - e cargo importante na sinagoga, sem dúvida
temiam que, se Jesus ficasse, causaria ainda Jairo era um homem de posses, mas essa
mais "prejuízo" à economia local! Uma vez riqueza não pôde salvar a vida de sua filha.
que Jesus só fica onde é desejado, atendeu A mulher estava falida, pois havia gasto to­
o pedido e partiu. Q ue oportunidade essas dos os seus bens, e, ainda assim, ninguém
pessoas perderam! achara uma cura para seu problema. Tanto
Por que Jesus não permitiu que o ho­ Jairo quanto a mulher encontraram as res­
mem o seguisse? Sem dúvida, seu pedido postas que buscavam aos pés de Jesus (M c
foi motivado pelo amor que sentia pelo Se­ 5:22 e 33).
nhor Jesus, e seu testemunho seria capaz A mulher sofria de uma hemorragia apa­
de causar grande impacto. Mas Jesus sabia rentemente incurável e que a destruía lenta­
que o lugar daquele homem era em sua casa, mente. Podemos imaginar a dor e a pressão
com seus entes queridos, onde testemunha­ em ocional que consumia suas forças dia
ria do Salvador. Afinal, a vida cristã deve após dia. Quando consideramos suas mui­
começar em casa, onde as pessoas nos co­ tas decepções com os médicos e a pobreza
nhecem melhor. Se honrarmos a Deus em que lhe sobreveio, perguntamo-nos como
nosso lar, poderemos pensar em nos ofe­ pôde suportar tanto tempo. Havia, porém,
recer para servir em outros lugares. Esse ainda outro fardo sobre suas costas: de acor­
homem tornou-se um dos primeiros missio­ do com a Lei, ela se encontrava cerimonial-
nários aos gentios. Jesus teve de se retirar, mente impura, o que limitava grandemente
mas aquele homem perm aneceu em sua sua vida religiosa e social (Lv 15:19ss). Que
terra e deu testemunho fiel da graça e do peso enorme essa mulher carregava!
poder de Jesus Cristo. Podemos estar certos No entanto, não deixou que coisa algu­
de que muitos daqueles gentios creram no ma a impedisse de aproximar-se de Jesus.
Salvador por meio desse testemunho. Poderia ter usado várias desculpas para se
convencer de que era mais fácil ficar longe
3. V i t ó r i a s o b r e a e n f e r m id a d e dele. Poderia ter pensado: "não sou impor­
(Mc 5:21-34) tante o suficiente para pedir ajuda a Jesus!",
Enquanto a multidão suspirava de alívio ao ou "ele está acompanhando Jairo, não vou
ver Jesus partir, outra multidão o esperava importuná-lo agora". Poderia ter argumenta­
de braços abertos em sua volta a Cafarnaum. do: "ninguém foi capaz de me ajudar, então
Nesse segundo grupo, havia duas pessoas por que continuar tentando?" O u poderia
especialmente desejosas de ver o Mestre: ter concluído que não era correto procurar
Jairo, um homem cuja filha estava à beira da Jesus como último recurso, depois de ter
morte, e uma mulher anônima que sofria de consultado tantos médicos. Porém, deixou
uma doença incurável. Jairo aproximou-se de lado todos os argumentos e desculpas e,
de Jesus primeiro, mas a mulher foi curada pela fé, se aproximou de Jesus.
primeiro, de modo que parece apropriado Como era essa fé? Fraca, tímida, talvez
começarmos por ela. até um tanto supersticiosa. Imaginava que
O contraste entre essas duas pessoas precisava tocar nas vestes de Jesus para po­
necessitadas é impressionante e revefa a der ser curada (ver M c 3:10; 6:56). Tinha
M A R C O S 4:35 - 5:43 165

ouvido falar de outras pessoas que haviam Por fim, Jesus tornou pública a cura des­
sido curadas por Jesus (M c 5:27), de modo sa mulher para que ela tivesse a oportunida­
que resolveu tentar chegar até o Salvador. de de dar seu testemunho e de glorificar ao
Dessa vez, não ficou decepcionada: Jesus Senhor. "Digam-no os remidos do S e n h o r ,
honrou sua fé, fraca com o era, e curou seu os que ele resgatou da mão do inimigo [...]
corpo. Enviou-lhes a sua palavra, e os sarou [...] Ren­
Vem os aqui uma lição im portante. Nem dam graças ao S e n h o r por sua bondade e
todos têm o mesmo nível de fé, mas Jesus por suas maravilhas para com os filhos dos
respond e à fé, por mais fraca que seja. hom ens!" ( S I 107:2, 20, 21). Por certo, al­
Q uan do crem os, ele com partilha seu po­ guns da m ultidão ouviram as palavras da
der co n o sco , e algo aco n tece em nossa mulher e creram no Salvador; quando ela
vida. H avia muitos outros naquela m ultidão chegou em casa, já sabia o que significava
que estavam perto de Jesus e que o com pri­ testemunhar de Cristo.
miam, mas que não experimentaram mila­
gre algum, pois não tinham fé. Um a coisa 4. V i t ó r i a s o b r e a m o rte
é esbarrar em Jesus, outra bem diferente é (Mc 5:35-43)
crer nele. N ão foi fácil para Jairo pedir publicam ente
A mulher planejava desaparecer no meio que Jesus o ajudasse. O s líderes religiosos
da multidão, mas Jesus virou-se e a deteve. que se opunham a Cristo certam ente não
Com todo carinho, extraiu dela um testemu­ aprovariam essa atitude, nem mesmo os lí­
nho maravilhoso do que o Senhor havia fei­ deres da sinagoga. Aquilo que Jesus havia
to. Por que Jesus tornou pública essa cura? feito e ensinado na sinagoga havia provoca­
Por que simplesmente não permitiu que a do a ira dos escribas e fariseus, alguns dos
mulher perm anecesse incógnita? quais provavelmente eram amigos de Jairo.
Em primeiro lugar, ele o fez para o bem Porém, com o tantas outras pessoas que se
dela, pois desejava ser para ela algo mais do aproximam de Jesus, Jairo estava desespera­
que um "curandeiro": desejava ser também do. Preferia perder os amigos a perder sua
seu Salvad o r e am igo. Q u e ria que co n ­ filha.
templasse seu rosto, sentisse seu carinho e É interessante ver co m o Jesus tratou
ouvisse suas palavras de incentivo. Q uando com Jairo e o conduziu a uma grande vitó­
Jesus terminou de falar, a mulher experimen­ ria. Ao longo desse episódio, observam os
tou algo maior do que a cura física. O Se­ que foram as palavras do Senhor que fize­
nhor a cham ou de "filha" e a enviou para ram a diferença. Considerem os, portanto, as
casa com uma bênção de paz (M c 5:34). A três declarações que Jesus fez.
injunção: "Fica livre do teu m al" vai muito A palavra de fé (v. 36). Nesse ponto, Jairo
além da restauração do corpo. Jesus tam­ teve de escolher entre acreditar em seu ami­
bém lhe deu cura espiritual! go ou em Jesus. Por certo, todo seu ser en­
Tratou dessa mulher em público não ape­ cheu-se de profunda tristeza quando ficou
nas para o bem dela, mas também pensan­ sabendo que a filha havia morrido. M as Je ­
do em Jairo. A filha dele estava à beira da sus o tranqüilizou dizendo: "N ã o temas, crê
morte, e ele precisava de todo encorajam en­ som ente". Em outras palavras: "V o cê possuía
to possível. Com o se não bastasse a multidão alguma fé quando me procurou, e essa fé
im pedindo sua passagem, ainda haviam sido foi estimulada quando viu o que fiz por aque­
detidos por aquela mulher! Q uando um dos la mulher. N ão desista! Continue crendo!"
amigos de Jairo chegou com a notícia de N ão foi tão difícil para Jairo crer no Se­
que a m enina havia m orrido, sem dúvida nhor enquanto sua filha ainda estava viva
Jairo sentiu que tudo estava perdido. As e enquanto Jesus o acom panhava até sua
palavras de Jesus à mulher sobre fé e paz casa. M as quando Jesus se deteve para curar
devem ter servido de estímulo não só para a mulher e seus amigos chegaram com as
166 M A R C O S 4:35 - 5:43

devemos, porém, julgá-lo com severidade, eu), pois foi por sua autoridade que o espí­
pois é provável que também tenhamos dú­ rito da menina voltou ao corpo (Lc 8:55).
vidas quando nos sentimos sobrepujados Essas palavras não são uma fórmula mágica
pelas circunstâncias e pelos sentimentos. para ressuscitar mortos.
Por vezes, Deus demora a intervir, e nos per­ A menina não apenas voltou a viver, mas
guntamos o que o está detendo. É nesse também foi curada de sua doença, pois con­
momento que precisamos de uma "palavra seguiu sair da cama e andar. Como Médico
especial de fé" do Senhor, e recebemos essa amoroso, Jesus instruiu os pais a alimentar a
certeza quando dedicamos tempo à Palavra menina, a fim de fortalecê-la. Milagres divi­
de Deus. nos não são substitutos para o bom senso,
A palavra de esperança (v. 39). Quando pois quando ignoramos os cuidados huma­
chegaram à casa de Jairo, viram e ouviram nos, tentamos a Deus.
os pranteadores profissionais que sempre Como nos milagres anteriores, Jesus pe­
apareciam quando alguém morria. De acor­ diu às testemunhas que não falassem sobre
do com a tradição judaica, deveriam clamar o assunto (M c 1:44; 3:12). É possível que os
em alta voz, chorar e se lamentar com a famí­ pranteadores tenham espalhado a notícia de
lia e os amigos. A presença dos pranteadores que a menina havia estado em "coma", não
na casa era prova de que a menina estava morta, portanto, que não havia ocorrido
morta, pois a família não os teria chamado, milagre algum! No entanto, o milagre foi
caso ainda houvesse qualquer esperança. operado na presença de algumas testemu­
"A criança não está morta, mas dorme", nhas. Segundo a Lei, eram necessárias ape­
foram as palavras de esperança do Senhor a nas duas ou três pessoas para corroborar um
Jairo e sua esposa. Para o cristão, a morte é fato (Dt 17:6; 19:15), mas, nesse caso, hou­
apenas um sono, pois o corpo descansa até ve cinco testemunhas! Temos motivos para
o momento da ressurreição (1 Ts 4:13-18). concluir que Jairo e sua esposa creram em
O espírito não dorme, pois quando o cris­ Jesus Cristo, apesar de não voltarem a ser
tão morre, seu espírito deixa o corpo (Tg mencionados nos relatos dos Evangelhos. Ao
2:26) e vai para junto de Cristo (Fp 1:20-23). longo de toda a sua vida, essa menina foi
É o corpo que dorme, aguardando a volta uma testemunha do poder de Jesus Cristo.
do Senhor e a ressurreição (1 Co 15:51-58). Por certo, o Servo de Deus conquistou
Essa verdade é um grande encorajamento o perigo, os demônios, as enfermidades e a
para todos os que perdem amigos e entes morte. Essa série de milagres mostra como
queridos cristãos. É a palavra de esperança Jesus foi ao encontro de pessoas de todo
de Jesus para nós. tipo e as socorreu, desde seus próprios dis­
A palavra de am or e poder (v. 41). A cípulos até dois homens endemoninhados,
incredulidade zomba da Palavra de Deus, e garante que o Senhor também é capaz de
mas a fé apega-se a ela e experimenta o nos ajudar hoje.
poder de Deus. Jesus não realizou esse mi­ Isso não significa que Deus sempre so­
lagre de maneira espalhafatosa, pois se sen­ corre as pessoas em perigo (ver At 12) ou
sibilizou com a dor dos pais e se entristeceu que cura todas as aflições (ver 2 Co 12:1­
com a atitude desdenhosa dos pranteadores. 10), mas sim que tem a autoridade suprema
"Talitá cumi!" é a expressão aramaica para e que não precisamos temer. Em tudo so­
"Menina, levanta-te!", ao que Jesus acrescen­ mos "mais que vencedores, por meio daque­
tou: "eu te mando" (com ênfase no pronome le que nos amou" (Rm 8:37).
Novamente, a reputação de Jesus o ha­
5 via precedido, e lhe foi permitido falar na
sinagoga. Não devem os esquecer que ele
ministrava a pessoas que o conheciam bem,
A Fé no S ervo pois havia crescido em Nazaré. Porém, era
gente sem qualquer percepção espiritual.
M a r c o s 6 :1 - 5 6 Jesus os lembrou do que havia dito em sua
primeira visita: que um profeta não tem hon­
ra em sua própria terra e entre seu próprio
povo (M c 6:4; Lc 4:24; Jo 4:44).
Duas coisas causaram espanto a essas
pessoas: as palavras poderosas e a sabedo­
e acordo com Charles Darwin, a fé é ria maravilhosa do M estre. Jesus não ope­
D "a distinção mais com pleta entre o
homem e os animais inferiores". Caso essa
rou milagre algum enquanto estava lá, de
modo que o povo devia estar se referindo a
observação seja verdadeira, sugere que a relatos que havia ouvido acerca dos gran­
falta de fé por parte do homem coloca-o no des feitos e prodígios do Senhor (ver M c
mesmo nível dos animais! O orador agnós­ 1:28, 45; 3:7, 8; 5:20, 21). N a verdade, foi a
tico Coronel Robert Ingersoll sugeriu outro incredulidade deles que impediu Jesus de
ponto de vista, pois descreveu o cristão realizar um grande ministério em seu meio.
com o "um pássaro mudo dentro de uma O que havia de errado com eles? Por
gaiola". Provavelm ente, é mais fácil con­ que não conseguiram crer no Senhor e ex­
cordar que as palavras dele descrevem, na perim entar seu poder e sua graça, com o
verdade, um incrédulo! outro experim entaram ? Porque pensavam
Um dos temas centrais desta seção do que o conheciam . Afinal, Jesus havia sido vi­
Evangelho de M arcos é a incredulidade das zinho deles por cerca de trinta anos, e to­
pessoas que se aproximaram do Servo de dos o viram trabalhando com o carpinteiro,
Deus. Tinham motivos de sobra para acredi­ de modo que, para eles, Jesus parecia ser
tar em Jesus Cristo, mas, ainda assim, todas apenas mais um nazareno. Era um "cidadão
essas pessoas, inclusive os próprios discípu­ com um ", e o povo não viu motivo para se
los, mostraram-se incrédulas! Ao estudar este sujeitar a ele!
capítulo, devemos ter sempre em mente a "A familiaridade nutre o desprezo", como
adm oestação solene de Hebreus 3:12: "Ten­ disse Públio o Sírio, que viveu em 2 a.C.
de cuidado, irmãos, jamais aconteça haver Esopo escreveu uma fábula para ilustrar essa
em qualquer de vós perverso coração de verdade, falando de uma raposa que nunca
incredulidade que vos afaste do Deus vivo". havia visto um leão. Q uando se encontrou
Deus leva a incredulidade a sério, de modo com o rei dos animais pela primeira vez, a
que devemos fazer o mesmo. raposa quase morreu de medo. Num segun­
do encontro, não estava mais tão assustada;
1. A IN C RED U LID AD E DE SEUS na terceira vez já estava conversando com o
c o n h e c id o s (Mc 6:1-6) leão. "É assim que acontece", concluiu Esopo,
Jesus retornou a Nazaré onde, um ano an­ "a familiaridade faz com que até as coisas
tes, havia sido rejeitado pelo povo e expul­ mais assustadoras pareçam inofensivas".
so da sinagoga (Lc 4:16-30). Sem dúvida, foi Convém , no entanto, considerar essa
uma dem onstração de graça da parte do idéia com cautela. Podemos, por acaso, ima­
Senhor dar às pessoas uma nova oportuni­ ginar marido e esposa desprezando-se só
dade de ouvir suas Palavras, crer e receber porque são íntim os? O u dois amigos que
a salvação. N o entanto, o coração do povo com ecem a se tratar com desdém só por­
continuava endurecido. Dessa vez, não ex- que sua amizade cresceu ao longo dos anos?
168 M A R C O S 6:1-56

dizer: "A familiaridade nutre o desprezo so­ 2. A INCREDULIDADE DE SEUS IN IM IGOS


mente quando se tratam de coisas ou pes­ (Mc 6:7-29)
soas desprezíveis". O desdém demonstrado Quando jesus chamou os doze apóstolos,
pelos nazarenos não refletia coisa alguma seu propósito era ensiná-los e treiná-los para
do caráter de Jesus; antes, revelou muita que pudessem auxiliá-lo e, no tempo certo,
coisa sobre a natureza do próprio povo! tomar seu lugar quando voltasse para o Pai
Um turista, ansioso para ver tudo o que (M c 3:13-15). Antes de enviá-los, reafirmou
há numa galeria de arte, passa rapidamen­ a autoridade que havia lhes concedido para
te de um quadro a outro, mal notando o curar e expulsar demônios (M c 6:7) e lhes
que há dentro das molduras. "Não vi nada deu algumas instruções (ver M c 10 para um
de especial", diz a um dos guardas ao sair. relato mais detalhado deste sermão).
"Senhor", responde o guarda, "não são as Ordenou que levassem aquilo que já
pinturas que estão sendo avaliadas aqui, mas possuíam e que não comprassem qualquer
sim os visitantes". equipamento especial para a viagem. Não
Naquele tempo, o carpinteiro era um deveriam carregar qualquer bagagem des­
artesão respeitado, mas ninguém esperava necessária (a urgência dessa "comissão" é
que um carpinteiro fizesse milagres ou inequívoca). Jesus desejava que estivessem
ensinasse verdades espirituais na sinagoga. adequadamente supridos, mas não a ponto
De onde tirava todo aquele poder e sabe­ de deixar de viver pela fé. A palavra "alforje"
doria? De Deus ou de Satanás? (ver M c 3:22). refere-se à "sacola de um mendigo". De
Por que seus irmãos não tinham o mesmo maneira alguma, porém, deveriam mendigar
poder e sabedoria? E mais, por que nem mes­ por alimento ou dinheiro.
mo eles acreditavam em Jesus? As pessoas Em seu ministério itinerante, encontra­
que chamavam Jesus de "filho de M aria" riam hospitalidade e hostilidade, amigos e
estavam, na verdade, tentando ofendê-lo, inimigos. Jesus advertiu-os a ficar apenas
pois, naquela época, um homem era identi­ numa casa em cada comunidade e a não
ficado de acordo com o pai, não com a mãe. ser "enjoados" quanto à comida e às aco­
O povo de Nazaré se "escandalizava modações que lhes oferecessem. Afinal, es­
com ele". Literalmente, haviam "tropeçado tavam lá para ser servos úteis, não hóspedes
nele". O termo grego para "pedra de trope­ mimados. Se uma casa ou vila não os rece­
ço" dá origem à nossa palavra escândalo. besse, tinham permissão de declarar julga­
Em sua obra W uest's Word Studies [Estudos mento divino sobre aquelas pessoas. Era
da Palavra de Wuest] (Eerdmans), Kenneth costume dos judeus sacudir as sandálias
Wuest diz: "Um a vez que não conseguiram quando deixavam um território gentio, mas
explicá-lo, optaram por rejeitá-lo". Sem dúvi­ um judeu fazer isso em sua própria terra seria
da, Jesus foi "uma pedra de tropeço" para algo novo (Lc 10:10, 11; At 13:51).
essa gente por causa da incredulidade deles O termo grego traduzido por enviar, em
(Is 8:14; Rm 9:32, 33; 1 Pe 2:8). Marcos 6:7, é apostello, de onde vem a pa­
Em duas ocasiões, nos relatos dos Evan­ lavra "apóstolo". Significa "enviar alguém
gelhos, se diz que Jesus admirou-se. Como com uma comissão especial a fim de repre­
essa passagem mostra, ele se espantou com sentar alguém e de realizar seu trabalho".
a incredulidade dos judeus e também com a Jesus concedeu a esses doze homens tanto
fé do centurião romano e gentio (Lc 7:9). autoridade apostólica quanto capacitação
Em vez de permanecer em Nazaré, Jesus divina para realizar o trabalho para o qual
partiu e percorreu, mais uma vez, diversas ele os havia comissionado. Não estariam
cidades e vilas na Galiléia. Seu coração se trabalhando "por conta própria", mas sim re­
entristeceu profundamente ao ver a situa­ presentando Jesus em tudo o que fizessem
ção precária do povo (M t 9:35-38), de modo e dissessem.
que decidiu enviar seus discípulos para mi­ Conforme observamos anteriormente
nistrar com sua autoridade e poder. (M c 3:16-19), ao comparar as listas de nomes
M A R C O S 6:1-56 169

dos apóstolos, vemos que foram apresenta­ havia sido cruelmente preso e assassinado.
dos de dois em dois: Pedro e André, Tiago e M esm o nessa breve narrativa, podem os
João, Filipe e Bartolomeu etc. Jesus enviou- perceber a tensão no palácio, pois Herodes
os em pares, pois é sempre mais fácil e mais temia João; ouviu suas pregações em parti­
seguro os servos do Senhor viajarem e tra­ cular e se viu tomado de perplexidade quan­
balharem juntos. "M elhor é serem dois do to ao que deveria fazer. A "rainha" Herodias,
que um " (Ec 4:9). Com o também já obser­ no entanto, odiava João e, querendo matá-lo,
vamos, a Lei exigia que houvesse pelo menos esperou pacientem ente por um a oportu­
duas testemunhas para corroborar qualquer nidade. O caráter malicioso e os atos iníquos
questão (D t 17:6; 19:15; 2 Co 13:1). Não desses dois nos trazem à memória Acabe e
apenas ajudariam um ao outro, mas também Jezabel (1 Rs 18 - 21).
aprenderiam um com o outro. Herodias finalmente encontrou um "m o­
O s homens partiram e fizeram com o Je­ mento estratégico" (M c 6:21) para colocar
sus havia dito. É im pressionante que um seus planos em ação: a com em oração de
grupo de homens comuns fosse capaz de aniversário de Herodes. As festas reais eram
representar o Deus Todo-Poderoso e de de­ sempre extravagantes, tanto em sua osten­
monstrar sua autoridade realizando milagres. ta çã o q u an to nos en treten im en to s. O s
Sem pre que Deus ordena que se faça algu­ judeus não permitiam que uma mulher dan­
ma coisa, também dá capacidade para cum­ çasse diante de um grupo de homens, e a
prir suas ordens (2 Co 3:5, 6). O s apóstolos maioria das mães gentias teria proibido uma
proclamaram as boas novas do reino, chama­ filha de fazer o que a filha de Herodias fez
ram pecadores ao arrependimento e curaram (de acordo com os relatos históricos, seu
muitos enfermos (M c 6:12, 13; Lc 9:6). nome era Salomé). M as a menina fazia par­
As notícias do ministério de Cristo e tam­ te dos planos da mãe para se livrar de João
bém de seus discípulos (Lc 9:7) chegaram Batista, e Salom é cumpriu seu papel com
até ao palácio de Herodes Antipas. M arcos grande com petência.
usa a designação "rei", que era com o H e­ Q uando Herodes ouviu o pedido terrí­
rodes desejava ser chamado, mas na reali­ vel da menina, "Entristeceu-se profundamen­
dade o perverso rei Herodes era apenas um te" (ver M c 14:34, em que o mesmo verbo
tetrarca, governador de uma quarta parte de é usado para Jesus), mas teve de cum prir
sua nação. Q u an d o H erodes, o G rande, sua promessa, pois, do contrário, sofreria um
morreu, os romanos dividiram seu território vexame na frente de um grupo de pessoas
entre seus três filhos, e Antipas foi nomeado influentes. N a verdade, o termo "juram en­
tetrarca da Peréia e Galiléia. to", em M arcos 6:26, encontra-se no plural
Herodes Antipas casou-se com a filha do - "por causa dos seus juram entos" -, pois
rei Aretas iv, depois se divorciou para poder Herodes havia declarado repetidamente seu
se casar com Herodias, a esposa de seu desejo de recom pensar a menina por sua
meio-irmão, Herodes Filipe. Foi uma aliança apresentação. Suas promessas eram um sub­
abjeta, contrária à Lei de Moisés (Lv 18:16; terfúgio para impressionar seus convidados,
20:21) e alvo da condenação do corajoso mas acabou sendo vítima do próprio plano.
profeta João Batista. Q uando Herodes ou­ Herodes não foi corajoso o suficiente para
viu sobre os grandes feitos de Jesus, teve obedecer à palavra de João, mas precisou
certeza de que era João Batista que havia obedecer à sua própria palavra! O resultado
voltado dos mortos para assombrá-lo e con­ foi a morte de um homem inocente.
dená-lo! Apesar de sua consciência incomo­ É impressionante com o não há evidên­
dá-lo, Herodes não se mostrou disposto a cias de que os líderes judeus tenham toma­
encarar seus pecados com honestidade nem do alguma atitude para salvar João Batista
de se arrepender. depois de sua prisão. O povo em geral con­
A essa altura do relato, M arcos usa um siderava João um profeta enviado por Deus,
170 M A R C O S 6:1-56

sua mensagem (M c 11:27-33). A morte de Herodes foi evidência suficiente de que o


João foi a primeira de três mortes importan­ "clim a" estava mudando e de que Jesus e
tes na história de Israel. As outras duas foram seus discípulos deveriam usar de cautela. No
a crucificação de Cristo e o apedrejamento capítulo seguinte, veremos a hostilidade dos
de Estêvão (At 7). Estudamos o significado líderes religiosos e, também, o entusiasmo
desses acontecimentos nos comentários político das multidões, sempre um proble­
sobre Marcos 3:22-30. Herodes temia que ma sério (Jo 6:15ss). A melhor coisa a fazer
a mensagem de João começasse uma revol­ era retirar-se.
ta popular, algo que o rei desejava evitar. No entanto, as multidões não deixaram
Além disso, queria agradar à esposa, mesmo Jesus em paz. Elas o seguiram até perto de
que, para isso, tivesse de matar um homem Betsaida na esperança de vê-lo realizar curas
piedoso. milagrosas (Lc 9:10, 11; Jo 6:1 ss). Apesar
Os discípulos de João tiveram permissão dessa interrupção em seus planos, Jesus re­
de levar o corpo de seu mestre e sepultá-lo. cebeu o povo, ensinou a Palavra e curou os
Em seguida, relatam a Jesus o que havia ocor­ aflitos. Uma vez que também já experimen­
rido (M t 14:12). Sem dúvida, a notícia da tei muitas interrupções em minha vida e
morte de João entristeceu Jesus profunda­ ministério, sempre me admiro da paciência
mente, pois sabia que, um dia, ele próprio e graça de Jesus. Que exemplo para nós!
também teria de entregar sua vida. Marcos registra dois milagres realizados
Vemos Herodes Antipas em mais uma pelo Servo de Deus.
ocasião nos Evangelhos, quando provocou Jesus alim enta os cinco m il (vv. 33-44).
Jesus pedindo que realizasse um milagre (Lc Jesus enviou doze apóstolos para ministrar
23:6-12). Jesus não aceitou sequer falar com porque tinha compaixão dos necessitados
esse adúltero e assassino, quanto mais reali­ (M t 9:36-38). Dessa vez, porém, os necessi­
zar um milagre para entretê-lo! Chamou-o tados foram até eles, e os discípulos quise­
de "raposa" (Lc 13:31-35), uma descrição ram mandá-los embora! Ainda não haviam
bastante apropriada do rei astucioso. Em 39 aprendido a olhar a vida com os olhos de
d.C., Herodes Agripa (At 12:1), sobrinho de seu Mestre. Para eles, as multidões eram um
Herodes Antipas, entregou seu tio ao im­ problema, talvez até mesmo uma inconve­
perador romano, e Antipas foi deposto e niência, mas para Jesus, eram como ovelhas
exilado. "Q ue aproveita ao homem ganhar sem pastor.
o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mc Quando D. L. Moody estava formando
8:36). sua grande Escola Bíblica Dominical em
Chicago, recebia crianças de vários lugares.
3. A INCREDULIDADE DE SEUS DISCÍPULOS Com freqüência, os pequeninos deixavam
(Mc 6:30-56) de ir a outras igrejas ou Escolas Bíblicas Do­
Jesus foi com seus discípulos a um lugar iso­ minicais mais próximas de sua casa apenas
lado, a fim de que pudessem descansar um para ir estudar a Palavra com o sr. Moody.
pouco de todos os seus trabalhos. Queria Quando alguém perguntou a um menino
conversar sobre o ministério deles e prepa­ por que caminhava tamanha distância para
rá-los para a próxima missão. Como disse comparecer àquela Escola Bíblica Domini­
Vance Havner: "Se não nos retirarmos para cal, ele respondeu: "Porque lá eles amam as
descansar, acabaremos por nos desintegrar". pessoas!" As crianças sentiam a diferença.
Até mesmo o Servo de Deus precisou de Os discípulos ofereceram duas sugestões
um tempo para repousar, desfrutar da co­ para resolver o problema: mandar as pes­
munhão com os amigos e ter suas forças soas procurarem a própria comida ou juntar
renovadas pelo Pai. dinheiro suficiente para comprar um peda­
Outro fator que o levou a retirar-se foi a ço pequeno de pão para cada um. Para os
oposição crescente dos líderes políticos e discípulos, eles estavam no lugar errado, na
religiosos. O assassinato de João Batista por hora errada, e nada havia que pudessem
M A R C O S 6:1-56 171

fazer! Com essa atitude, poderiam muito /esus acalma a tempestade (vv. 45-56).
bem ter form ado uma com issão! Alguém Esse episódio envolveu vários m ilagres:
definiu uma comissão com o um grupo de Jesus andou sobre as águas, Pedro andou
pessoas que, individualmente, não é capaz sobre as águas (M arcos não registra esse
de fazer coisa alguma e, coletivamente, de­ fato; ver M t 14:28-32), Jesus acalm ou a tem­
cide que não há nada a fazer. pestade e, por fim, chegaram à outra mar­
Jesus não considerou aquela situação um gem im ediatam ente depois de Jesus ter
problema, mas sim uma oportunidade de entrado no barco (Jo 6:21). Sem dúvida, foi
crer no Pai e de glorificar seu nome. Um uma noite repleta de m aravilhas para os
líder eficiente é alguém que vê potencial nos doze apóstolos!
problemas e que está disposto a tomar uma Por que Jesus ordenou que seus discí­
atitude pela fé. Agindo com base na sabedo­ pulos partissem? Porque a multidão estava
ria humana, os discípulos viram o problema, ficando agitada, e havia o perigo de com e­
mas não o potencial. É tão comum ouvir o çarem uma revolta popular para colocar
povo de Deus queixar-se: "Se tivéssemos um Jesus com o rei (Jo 6:14, 15). O s doze após­
pouco mais de dinheiro, poderíamos fazer tolos não estavam preparados para esse tipo
alguma coisa!" Duzentos denários corres­ de teste, pois seu conceito do reino ainda
pondiam ao salário anual de um trabalha­ era excessivamente nacional e político.
dor comum! O primeiro passo é não medir Além disso, Jesus desejava lhes ensinar
nossos recursos, mas determ inar a vonta­ uma lição de fé a fim de prepará-los para o
de de Deus e crer que ele suprirá nossas trabalho que teriam diante deles depois que
necessidades. ele partisse. O s discípulos tinham acabado
Foi André quem encontrou o rapaz com de com pletar uma missão extrem am ente
a com ida (Jo 6:8, 9). O Senhor orientou o bem-sucedida, curando doentes e pregan­
povo a assentar-se em grupos sobre a gra­ do o evangelho. Haviam participado do mi­
ma (ver SI 23:2; 78:19) - um contraste e lagre da alimentação dos cinco mil. Estavam
tanto com a festa pom posa e sensual de vivendo no "ápice espiritual", e esse fato,
Herodes. Então, Jesus pegou o lanche, aben­ por si só, era perigoso. É bom estar no alto
çoou, partiu e deu a seus discípulos para da montanha, desde que não nos descui­
que distribuíssem aos famintos. O milagre demos e acabemos caindo num precipício.
realizou-se nas mãos do M estre, não dos As bênçãos espirituais devem ser con­
discípulos, pois Jesus pode ab enço ar e trabalançadas com fardos e batalhas, do
m ultiplicar tudo o que colocam os em suas contrário, correm os o risco de nos tornar
mãos. Não somos produtores, mas apenas crianças mimadas, em vez de filhos e filhas
distribuidores. maduros. Numa ocasião anterior, Jesus havia
Jo ão diz que Jesus usou esse milagre conduzido seus discípulos a uma tempesta­
com o ponto de partida para o sermão so­ de no final de um dia repleto de ensinamen­
bre o "pão da vida" (Jo 6:22ss). Afinal, ape­ tos (M c 4:35-41). Agora, depois de realizar
sar de ser importante suprir as necessidades vários milagres, volta a conduzi-los a uma
humanas, esse não foi o único motivo pelo tempestade. É interessante observar que, no
qual Jesus realizou milagres. Seu desejo era Livro de Atos, a "tem pestade" da perse­
que cada milagre revelasse algo sobre o Fi­ guição oficial com eçou depois que os dis­
lho de Deus e fosse um "sermão prático". A cípulos haviam ganho cinco mil pessoas para
maioria das pessoas maravilhou-se com os Cristo (At 4:1-4). É possível que, enquanto
milagres, sentiu-se grata pela ajuda que rece­ estavam presos, os apóstolos tenham se
beu do Senhor, mas não foi capaz de enten­ lembrado da tempestade que se seguiu à
der a mensagem espiritual (Jo 12:37). Essas alim entação dos cinco mil e que tenham
pessoas queriam as dádivas, mas não o Doa­ se encorajado mutuamente com a certeza
dor, a alegria das bênçãos físicas, mas não de que Jesus os socorreria e acompanharia
172 M A R C O S 6:1-56

Cada nova experiência de prova requer hesitado em incluir essa experiência, a fim
mais fé e coragem. Na primeira tempestade, de não dar às pessoas uma impressão erra­
Jesus estava no barco junto com os discípu­ da. É fácil criticar Pedro por afundar, mas
los. Dessa vez, porém, permanecera no será que teríamos chegado a sair do barco?
monte orando por eles. O Mestre os ensi­ Os discípulos foram reprovados nesse
nava a viver pela fé. (Cabe lembrar que, teste, pois lhes faltou discernimento espiri­
mesmo quando Jesus estava no barco, os tual e um coração receptivo. O milagre dos
discípulos tiveram medo!) Essa cena ilustra pães e peixes não havia causado impacto
a situação do povo de Deus hoje: estamos duradouro na vida deles. Afinal, se Jesus
no meio deste mundo tempestuoso, bata­ era capaz de multiplicar a comida e de ali­
lhando e, ao que tudo indica, prontos para mentar milhares de pessoas, por certo tam­
afundar, mas Jesus está na glória, interceden­ bém podia protegê-los da tempestade.
do por nós. Quando o momento for mais Mesmo um discípulo de Jesus Cristo é capaz
sombrio, virá até nós - e chegaremos à praia! de desenvolver um coração endurecido, se
As ondas que atemorizaram os discípulos não responder às lições espirituais que pre­
(inclusive os pescadores do grupo) serviram cisam ser aprendidas ao longo da vida e
de degraus para conduzir o Senhor Jesus até do ministério.
eles. Esperou até a situação tornar-se de- Ao recapitular esses dois milagres, é
sesperadora a ponto de não poderem fazer possível ver que Jesus oferece provisão e
mais coisa alguma para se salvar. Mas por proteção. "O S e n h o r é o meu pastor; nada
que pareceu que Jesus pretendia passar di­ me faltará. [...] não temerei mal nenhum" (SI
reto por eles? Porque quis que o reconhe­ 23:1, 4). Quem nele confia sempre terá
cessem, cressem nele e o convidassem a provisão e segurança, qualquer que seja a
entrar no barco. Em vez disso, os discípulos situação. O importante é confiar em Jesus.
gritaram de pavor, pois pensaram que fosse Marcos encerra esta seção em tom posi­
um fantasma! tivo ao descrever o povo que trouxe enfer­
Jesus tranqüilizou-os, dizendo: "Tende mos para Jesus curar: pessoas que creram e
bom ânimo! Sou eu. Não temais!" (M c 6:50). cuja fé foi recompensada. Trata-se de um
Foi então que Pedro pediu a Jesus para se contraste nítido com Nazaré, onde poucos
encontrar com ele sobre as águas, porém foram curados, pois o povo não tinha fé.
Marcos omite esse detalhe. Diz a tradição "E esta é a vitória que vence o mundo: a
que Marcos escreveu como porta-voz de nossa fé" (1 Jo 5:4). Confie no Servo! Ele
Pedro, de modo que, talvez, Pedro tenha nunca falha.
autoridade! O s judeus chamavam a tradição
de "a cerca da Lei". Não era a Lei que pro­
tegia a tradição, mas sim a tradição que
protegia a Lei!
O S ervo ε M estre Porém, havia algo ainda mais importante
em jogo. Sempre que os judeus praticavam
M arcos 7:1 - 8 :2 6 essas purificações declaravam que eram "es­
peciais" e que as outras pessoas eram "im un­
das"! Se um judeu fosse ao mercado comprar
comida, poderia ser "contam inado" por um
gentio ou (Deus me livre!) por um samari-
tano. Essa tradição havia com eçado séculos
o longo de seu Evangelho, a ênfase de antes para lembrar os judeus, o povo escolhi­
A M arcos é, principalmente, sobre o que
jesus fez. No entanto, nesta seção de nosso
do de Deus, que deveriam manter-se separa­
dos. Porém, uma forma saudável de lembrar
estudo, há alguns relatos de ensinamentos havia gradualmente degenerado e se trans­
im portantes do Senhor. M arcos tam bém form ado num ritual vazio, resultando em
descreve o ministério entre os gentios, as­ orgulho e isolamento religioso.
sunto que certamente seria do interesse de Essas purificações não apenas indicavam
seus leitores romanos. Vem os nesta seção uma atitude equivocada com respeito às
três ministérios de Jesus, o Servo e Mestre. pessoas, mas também transmitiam uma idéia
errada da natureza do pecado e da santida­
1 .0 e n s in o a o s ju d e u s (Mc 7:1-23) de pessoal. N o Serm ão do M onte, Jesus
Este episódio pode ser divido em quatro es­ deixou claro que a verdadeira santidade é
tágios. O primeiro é a acusação (M c 7:1-5). uma questão de sentimentos e de atitudes
O s líderes religiosos haviam assumido uma interiores, não apenas ações e associações
postura explicitamente hostil quanto a Jesus exteriores. O s fariseus julgavam-se santos
e seu ministério. Seguiam-no de um lugar porque obedeciam à Lei e evitavam a con­
para outro com o propósito de procurar algo taminação exterior. Jesus ensinou que uma
para criticar. Nesse caso, acusaram os discí­ pessoa que obedece à Lei exteriorm ente
pulos de não realizar as cerimônias judaicas pode, ainda assim, transgredi-la em seu co­
de purificação com água. Essa purificação ração, e essa "contam inação" exterior não
não tinha relação alguma com a higiene pes­ tem praticamente qualquer relação com a
soal nem era exigida pela Lei. Antes, fazia condição do ser interior.
parte da tradição que os escribas e fariseus Assim, o conflito não era apenas entre a
haviam dado ao povo, tornando seu fardo verdade de Deus e a tradição humana, mas
ainda mais pesado (M t 23:4). também entre dois pontos de vista diver­
Jesus já havia transgredido as tradições gentes sobre o pecado e a santidade. Esse
do shabbath (M c 2:23 - 3:5), de modo que confronto não foi uma discussão trivial, pois
os judeus estavam ansiosos por acusá-lo, tocou o cerne da fé religiosa. Cada nova
quando viram os discípulos com er "com as geração deve envolver-se num conflito se­
mãos impuras". Por que um assunto tão tri­ melhante, pois a natureza humana tende a
vial exasperou de tal maneira esses líderes apegar-se a velhas tradições criadas por ho­
religiosos? Por que se sentiram obrigados a mens e a ignorar a Palavra viva de Deus ou
defender suas cerim ônias de purificação lhe desobedecer. Por certo, algumas tradi­
com água? Em primeiro lugar, os líderes se ções ajudam a lembrar nossa rica herança e
ressentiram quando Jesus desafiou aberta­ servem de "cim ento" para unir as gerações,
mente sua autoridade. Afinal, essas práticas mas devemos estar sempre alertas para que
lhes haviam sido transmitidas por seus ante- a tradição não tome o lugar da verdade. É
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de nossa igreja à luz da Palavra de Deus e sobre as igrejas cristãs. Talvez também seja­
ter coragem suficiente para mudá-las. (Con­ mos culpados de colocar tradições humanas
vém observar que a palavra tradições, em no lugar da verdade de Deus.
2 Ts 2:15, se refere ao conjunto de verdades Depois de expor a hipocrisia dos fariseus,
doutrinárias transmitido pelos apóstolos aos Jesus voltou-se para a Lei de Moisés e acusou
líderes da Igreja, Ver também 2 Tm 2:2.) os líderes de quebrar o quinto mandamen­
O próximo estágio pode ser chamado to. Tinham extraordinária habilidade de trans­
de condenação (M c 7:6-13), uma vez que gredir a Lei sem sentir culpa. Em vez de usar
Jesus defendeu seus discípulos e expôs a o dinheiro para ajudar os pais, os fariseus
hipocrisia de seus acusadores. Primeiro, ci­ dedicavam seus bens a Deus ("C orbã" =
tou o profeta Isaías (Is 29:13) e, em seguida, "uma oferta, um presente"; ver Nm 30) e
falou da Lei de Moisés (Êx 20:12; 21:17; Lv afirmavam que seus bens só poderiam ser
20:9). Como poderiam os fariseus argumen­ usados para "fins espirituais". No entanto,
tar contra a Lei e os Profetas? continuavam beneficiando-se dessa riqueza,
Ao defender suas tradições, os fariseus apesar de, tecnicamente, ela pertencer a
desgastavam tanto seu caráter quanto o da Deus. Diziam que amavam a Deus, mas não
Palavra de Deus. Eram hipócritas, "atores" tinham amor algum pelos pais!
cuja adoração religiosa era praticada em vão. O terceiro estágio é a declaração (M c
A verdadeira adoração deve nascer do cora­ 7:14-16). Jesus anunciou à multidão que a
ção e ser dirigida pela verdade de Deus, não vida de santidade vem do interior, não do
pelos conceitos pessoais de cada um. Como exterior. Na verdade, com isso declarava que
é triste quando os religiosos praticam rituais todo o sistema mosaico de alimentos "lim­
na ignorância e apenas deterioram o pró­ pos e imundos" era nulo e vazio; nesse mo­
prio caráter ao fazê-lo! mento, porém, não explicou essa verdade
No caso dos fariseus, porém, não esta­ radical à multidão. Mais tarde, esclareceu
vam apenas destruindo o próprio caráter, mas isso aos discípulos.
também a influência e autoridade da Palavra Não há dúvida de que os inimigos en­
de Deus que afirmavam defender. É interes­ tenderam essa declaração. Sabiam que Jesus
sante observar a seqüência trágica: ensina­ derrubara um dos "muros" que separavam
vam suas doutrinas como se fossem a Palavra os judeus dos gentios. Claro que a Lei pro­
de Deus (M c 7:7); deixavam de lado a Pala­ priamente dita só foi colocada de lado de­
vra de Deus (M c 7:8); rejeitavam a Palavra de pois que Jesus morreu na cruz (Ef 2:14, 15;
Deus (M c 7:9); e finalmente, retiravam o Cl 2:14), mas o princípio que Jesus anun­
poder da Palavra de Deus (M c 7:13). Quem ciou sempre havia sido válido. Em todos os
reverencia tradições humanas acima da Pala­ períodos da história, a verdadeira santidade
vra de Deus acaba perdendo o poder dessa sempre foi uma questão do coração, de um
Palavra em sua vida. Por mais devoto que relacionamento correto com Deus pela fé.
pareça ser, seu coração está longe de Deus. A cerimônia de purificação era uma ques­
A história mostra que os líderes religio­ tão de obediência exterior à Lei, que de­
sos honravam suas tradições muito acima monstrava essa fé (SI 51:6, 10, 16, 17).
da Palavra de Deus. Nas palavras do rabino Moisés deixou claro em Deuteronômio que
Eleazar: "Aquele que interpreta as Escrituras Deus desejava que o amor e a obediência
em oposição à tradição não tem parte no viessem do coração, não que fossem ape­
mundo vindouro". A Mishna, uma coleção nas uma obediência exterior a regras (ver
de tradições judaicas no Talmude, diz: "É Dt 6:4, 5; 10:12; 30:6, 20).
uma ofensa muito maior ensinar algo con­ A explicação de Jesus (M c 7:17-23) foi
trário à voz dos rabinos do que contradizer dada em particular aos discípulos, quando
as Escrituras em si". Porém, antes de criticar o "interrogaram acerca da parábola". Para
nossos amigos judeus, talvez devêssemos nós, seu esclarecimento é um tanto óbvio,
examinar a influência dos "pais da Igreja" mas devemos lembrar que os apóstolos
M A R C O S 7:1 - 8:26 175

haviam sido educados de acordo com re­ 2. A A JU D A AOS GEN TIO S


gras alimentares extremamente rígidas, que (Mc 7:24 - 8:9)
categorizavam todo alimento com o "lim po" M arcos relata três milagres que Jesus rea­
ou "im undo" (Lv 11). Atos 10:14 dá a enten­ lizou quando ministrou aos gentios da re­
der que Pedro manteve a dieta kosher por gião de Tiro e Sidom. Essa é a única ocasião
vários anos, mesmo depois de ter ouvido registrada em que Jesus deixa a Palestina,
essa verdade. N ão é fácil mudar as tradições colocando em prática o que havia acabado
religiosas. de ensinar aos discípulos: não há distinção
O coração humano é pecaminoso e dá entre judeus e gentios, pois todos são peca­
origem a desejos, pensamentos e atos per­ dores e precisam do Salvador.
versos de toda espécie, desde o assassinato A expulsão de um demônio (w. 24-30).
até a cobiça ("um olhar m aldoso"). Ao con­ Dos trinta e cinco milagres registrados nos
trário de alguns teólogos liberais e de pro­ Evangelhos, quatro envolvem a participação
fessores humanistas de hoje, Jesus não tinha direta de mulheres: a cura da sogra de Pedro
ilusões sobre a natureza humana. Sabia que (M c 1:30, 31); a ressurreição do filho da viú­
o homem é pecador, incapaz de controlar va (Lc 7:11-17); a ressurreição de Lázaro (Jo
ou de mudar a própria natureza. Foi por isso 11); e a expulsão de um dem ônio relatada
que veio ao m undo: para m orrer pelos peca­ nesta passagem.
dores perdidos. Jesus dirigiu-se a essa região (cerca de
As leis alimentares judaicas foram dadas 64 quilômetros de Cafarnaum) para ter um
por Deus para ensinar o povo eleito a distin­ pouco de privacidade, mas uma mulher afli­
guir entre o que era limpo e o que era imun­ ta descobriu onde ele estava e buscou sua
do (sem dúvida, havia algumas im plicações ajuda. Havia muitos obstáculos em seu ca­
práticas envolvidas, com o higiene e saúde). minho, mas ela venceu-os pela fé e recebeu
A desobediência a essas leis causava impu­ o que necessitava.
reza cerimonial, ou seja, exterior. A com ida Em prim eiro lugar, sua nacionalidade
term ina no estômago, mas o pecado com eça estava contra ela, pois era gentia, ao passo
no coração. Aquilo que ingerimos é digerido, que Jesus era judeu. Em segundo lugar, era
e os resíduos não aproveitados são elimina­ uma mulher numa sociedade dom inada por
dos, mas o pecado perm anece e produz homens. Em terceiro lugar, Satanás estava
corrupção e morte. contra ela, pois um de seus demônios havia
Essa lição contrastando a verdade com assumido o controle da vida da filha dela.
a tradição causou ainda mais irritação nos Em quarto lugar, os discípulos estavam con­
líderes religiosos e aumentou seu desejo de tra ela, pois queriam que Jesus a mandasse
calar Jesus. A oposição crescente dos líde­ embora, a fim de que lhes desse sossego.
res foi um dos motivos que levou Jesus a Até mesmo Jesus parecia estar contra ela!
afastar-se das multidões e a levar seus discí­ N ão era uma situação fácil, mas, mesmo
pulos para território gentio. assim, a mulher triunfou por causa de sua
Antes de passar para a lição seguinte, grande fé.
pode ser proveitoso fazer um contraste entre Samuel Rutherford, pastor escocês que
as tradições humanas e as verdades divinas. suportou muitos sofrimentos por Cristo, cer­
ta vez escreveu a um amigo: "C abe à fé ex­
Tradições humanas Verdades divinas trair a terna bondade de todos os golpes mais
Obediência exterior - Fé interior - liberdade duros de Deus". Foi exatamente isso o que
escravidão a mulher gentia fez, e hoje temos muito a
Regras superficiais Princípios fundamentais aprender com ela sobre a fé.
Piedade exterior Verdadeira santidade D a prim eira vez que a m ulher pediu
interior ajuda, Jesus nem sequer lhe respondeu! In­
Negligência: a Palavra A Palavra de Deus é centivados pelo silêncio do Mestre, os discí-
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Quando Jesus falou, não foi à mulher, mas estímulo e de transformá-lo numa promessa
aos discípulos, e suas palavras pareciam cumprida. "Senhor, aumenta a nossa fé."
excluí-la completamente: "Não fui enviado A cura de um homem surdo (vv. 31-37).
senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" A região de Decápolis ("dez cidades") tam­
(M t 15:24). No entanto, nenhum desses bém era território gentio, mas quando Jesus
obstáculos impediu que ela insistisse em sua partiu dessa região, seu povo estava glorifi-
súplica. cando o Deus de Israel (Mt 15:30, 31). O
A mulher dirigiu-se a Jesus, inicialmente, homem levado até Jesus sofria de uma de­
como "Filho de Davi", um título judeu; da ficiência na audição e também na fala, e
segunda vez, porém, disse apenas: "Senhor, Jesus o curou. Esse milagre é registrado so­
socorre-me!" (Mt 15:25). Só então Jesus fa­ mente em Marcos e deve ter sido apreciado
lou sobre alimentar em primeiro lugar os fi­ de maneira especial por seus leitores roma­
lhos (Israel) e não jogar a comida deles para nos, pois a região das "dez cidades" tinha a
os "cachorrinhos". Jesus não estava chaman­ mesma cultura e os mesmos costumes de
do os gentios de "cães", como faziam muitos Roma.
judeus orgulhosos. Antes, dava esperança a Jesus levou o homem para longe da
ela, e a suplicante gentia apegou-se a essas multidão para curá-lo em particular e para
palavras. que ele não se transformasse numa atração
A resposta da mulher revelou que a fé para o povo. Uma vez que era surdo, o ho­
havia triunfado. Não negou o lugar espe­ mem não ouviu as palavras de Jesus, mas
cial dos "filhos" (judeus) no plano de Deus sentiu os dedos dele em seus ouvidos e o
nem mostrou qualquer pretensão de usur­ toque em sua língua, estimulando, assim, a
pá-lo. Queria apenas algumas migalhas das sua fé. O "suspiro" foi um gemido interior,
bênçãos da mesa, pois, afinal, "a salvação a compaixão de Jesus diante da dor e so­
vem dos judeus" (Jo 4:22). O coração de frimento que o pecado havia trazido ao mun­
Jesus deve ter se enchido de alegria ao ouvi- do. Também foi uma oração ao Pai pelo
la usar palavras que ele havia proferido homem deficiente (a mesma palavra é usa­
como base para seu pedido! Ela aceitara da com respeito à oração em Rm 8:23, e o
seu lugar, crera na Palavra e persistira em substantivo em Rm 8:26).
sua súplica. Jesus não apenas supriu as ne­ Efatá é uma palavra aramaica que signifi­
cessidades dela, como também a elogiou ca "abre-te, liberta-te". O homem não ouviu
por sua fé. Jesus falar, mas a criação ouviu a ordem do
É bastante significativo que, nas duas Criador, e o homem foi curado. Tanto a lín­
ocasiões nos registro dos Evangelhos que gua quanto os ouvidos voltaram a funcionar
Jesus elogiou uma "grande fé", ele o fez em normalmente. A maioria das pessoas a quem
resposta à fé de gentios, não de judeus: no Jesus ministrava não obedecia à sua instru­
caso dessa mulher siro-fenícia e no do ção clara para que se mantivesse calada
centurião romano (Mt 8:5-13). Também con­ quanto ao milagre (ver Mc 1:34, 44; 3:12;
vém observar que, em ambas as situações, 5:43). Em decorrência disso, logo se juntava
Jesus curou à distância, sugerindo a distân­ mais uma grande multidão com inúmeros
cia espiritual entre judeus e gentios naquele enfermos e deficientes. Apesar de estar
tempo (Ef 2:11, 12). Por fim, o povo de Tiro tentando descansar um pouco, Jesus curou
e de Sidom não era conhecido por sua fé todos, e, como resultado, os gentios "glorifi-
(Mt 11:21, 22), mas, mesmo assim, essa mu­ cavam ao Deus de Israel" (Mt 15:31).
lher teve a coragem de crer que Jesus pode­ A alimentação dos quatro m il (vv. 1-9).
ria libertar sua filha. Os críticos que procuram contradições na
Uma grande fé é aquela que crê na Pala­ Bíblia geralmente confundem este milagre
vra de Deus e que não o deixa ir até que com aquele da alimentação dos cinco mil, re­
supra a necessidade. Uma grande fé é ca­ gistrado nos quatro Evangelhos. Somente Ma­
paz de se apegar até mesmo ao mais ínfimo teus e Marcos relatam esse acontecimento,
M A R C O S 7:1 - 8:26 177

e não é difícil distingui-lo do outro milagre. religiosos do povo escolhido de Deus tão
A primeira multiplicação ocorreu na Galiléia, endurecidos de coração e espiritualmente
perto de Betsaida, e envolveu principalmen­ cegos! O desejo de receber um sinal do
te os judeus. Este milagre ocorreu perto de céu não era apenas mais uma evidência da
Decãpolis e envolveu principalmente os gen­ incredulidade deles, pois a fé não pede si­
tios. No prim eiro milagre, Jesus com eçou nais. A verdadeira fé crê na Palavra de Deus
com cinco pães e dois peixes; aqui, temos e se contenta com o testem unho interior
sete pães e "alguns peixinhos". O s cinco mil do Espírito.
haviam passado um dia com o Mestre; aqui, Um a vez que M arcos escrevia principal­
os quatro mil passaram três dias com ele. mente a leitores gentios, não incluiu as pala­
Na alimentação dos cinco mil, foram reco­ vras de Jesus sobre o sinal do profeta Jonas
lhidos doze cestos de sobras; aqui, foram (M t 16:4; e ver M t 12:38-41). O que é "o
recolhidos apenas sete cestos depois que sinal de Jonas"? Morte, sepultamento e res­
quatro mil pessoas foram alimentadas. Até surreição. A prova de que Jesus é, verdadei­
mesmo os cestos foram diferentes em cada ramente, quem diz ser é a realidade de sua
ocasião: para os cinco mil, foram usados ces­ morte, sepultamento e ressurreição (At 2:22­
tos pequenos (kophinos); para os quatro mil, 36; 3:12-26).
foram usados cestos grandes, de tamanho Jesus deixou-os e passou para o lado les­
suficiente para colocar uma pessoa dentro te do mar da Galiléia. Durante a travessia,
{spuris, veja At 9:25). ensinou aos discípulos uma lição espiritual
Mais uma vez, somos encorajados pela importante. Pareciam tão cegos quanto os
compaixão de Jesus e por seu controle ab­ fariseus! Discutiam sobre quanta com ida ti­
soluto sobre a situação. No entanto, somos nham com eles, pois alguém havia esqueci­
desencorajados pela cegueira e incredulida­ do de comprar pão. Quem era o culpado?
de dos discípulos. Acaso haviam se esqueci­ Jesus deve ter se entristecido muito dian­
do do milagre anterior? Porém, não se deve te da falta de discernim ento espiritual de
julgá-los com severidade, pois quantas ve­ seus colaboradores. O fato de haver multi­
zes nós mesmos esquecemos as misericór­ plicado pães em duas ocasiões e de ter
dias de Deus? É preciso lembrar que Jesus alimentado quase dez mil pessoas não havia
Cristo ainda é o mesmo e que tem a solu­ causado qualquer impacto sobre eles! Por que
ção para todos os problemas. Tudo o que se preocupar com pão quando Jesus estava
precisamos fazer é confiar nele, colocar a no barco com eles? A mente dos discípulos
vida em suas mãos e obedecer. estava entorpecida, e seu coração, endureci­
do (ver M c 6:52); seus olhos estavam cegos,
3. A ADVERTÊNCIA AOS D ISC ÍPU LO S e seus ouvidos, surdos (ver M c 4:11, 12).
(Mc 8:10-26) O povo de Deus costuma ter a tendên­
Jesus e os discípulos foram para o lado oes­ cia de esquecer as bênçãos que recebe (SI
te do mar da Galiléia, onde se encontraram 103:1, 2). Jesus supre as necessidades, mas
com os fariseus que continuavam irados com quando surge um novo problema, com eçam
Jesus por tê-los acusado de hipocrisia (M c as queixas e a preocupação. Enquanto esti­
7:1-23). Desta vez, desafiaram Cristo a pro­ vermos com Cristo, podemos ter certeza de
var sua autoridade divina dando-lhes um sinal que sempre cuidará de nós. Seria bom pa­
do çéu. N ão queriam um milagre terreno, rar de vez em quando para nos lembrarmos
com o curar uma pessoa doente. Queriam da bondade e fidelidade do Senhor.
que Jesus fizesse algo espetacular, com o A lição principal, porém, diz respeito ao
fazer descer fogo ou pão dos céus (Jo 6:30, fermento, não ao pão. Na Bíblia, o fermento
31). Isso provaria que havia, de fato, sido costum a ser usado para simbolizar o mal.
enviado por Deus. Todo ano, na época da Páscoa, os judeus
Jesus sentiu grande pesar e decepção deviam remover o fermento de suas casas
178 M A R C O S 7:1 - 8:26

também não era permitido como parte das Um aspecto singular desses dois milagres
ofertas (Êx 23:18; 34:25; Lv 2:11; 6:17). de cura é que ambos ocorreram gradual­
Como o fermento, o mal é pequeno e invi­ mente, não de imediato. Os evangelhos re­
sível, mas logo se espalha e contamina tudo gistram a cura de pelo menos sete homens
a seu redor (Gl 5:9). cegos e mostram que Jesus usou várias abor­
A Bíblia usa o fermento como ilustração dagens. Talvez pelo ambiente de increduli­
das falsas doutrinas (Gl 5:1-9), do pecado dade de Betsaida (ver M c 6:5, 6), talvez pela
que não é condenado dentro da igreja (1 Co própria condição espiritual do ser humano
5) e da hipocrisia (Lc 12:1). Nesse contexto, ou por alguma outra razão desconhecida, o
Jesus adverte seus discípulos sobre os en­ homem não estava pronto a enxergar instan­
sinamentos (falsas doutrinas) dos fariseus e taneamente, de modo que Jesus o restau­
dos seguidores de Herodes. Os fariseus "di­ rou gradualmente. O fato de o homem ser
ziam mas não faziam", ou, em outras pala­ capaz de reconhecer homens e árvores su­
vras, praticavam e encorajavam a hipocrisia gere que ele não era cego de nascença, mas
(note M c 7:6). O s herodianos eram um que sua cegueira havia sido decorrente de
grupo não religioso que apoiava Herodes, um acidente ou enfermidade.
aceitava o estilo de vida romano e via em O homem não era de Betsaida, pois Jesus
Herodes e em seu governo o reino prome­ mandou-o para casa e o advertiu a não entrar
tido para a nação judaica. Se esses falsos na cidade. Uma vez que havia sido curado,
ensinamentos penetrassem o coração e a por que teria de voltar para a cidade incrédu­
mente dos discípulos, contaminariam a ver­ la que havia rejeitado o Salvador? Cabia ao
dade que Jesus proclamava a respeito de si homem curado voltar à própria casa e espa­
mesmo e de seu reino. lhar as boas novas do reino, dando testemu­
Em se tratando de detectar e de evitar nho do poder de Deus ao mostrar aos outros
falsas doutrinas, todo cuidado é pouco. Bas­ aquilo que Jesus havia feito por ele (ver M c
ta um pequeno desvio da Palavra na vida de 2:11; 5:34; 10:52). Será que Jesus deveria ter
um indivíduo ou de uma congregação, e dado outra oportunidade ao povo de Betsai-
logo tudo é contaminado. Jesus não usava a da? Será que, se tivessem ouvido que havia
injunção "Cuidado!" com freqüência, mas restaurado a visão do cego, teriam crido? Não,
quando o fazia, referia-se a algo extremamen­ Betsaida já havia recebido provas suficientes,
te importante! mas ainda assim se recusara a crer. É perigo­
Nesta seção, Marcos relata dois milagres so rejeitar a mensagem de Deus e endurecer
não encontrados nos outros Evangelhos: a o coração com a incredulidade.
cura de um homem surdo e gago (M c 7:31­ Nessa viagem, os discípulos aprenderam
37) e a cura de um homem cego fora de algumas lições valiosas das quais precisariam
Betsaida (M c 8:22-26). Podemos ver na cura se lembrar nos anos vindouros de ministé­
desses dois homens uma ilustração da con­ rio. São lições que também precisam os
dição espiritual dos discípulos conforme aprender: (1) não se deve procurar sinais,
descrita em Marcos 8:18! Os leitores judeus mas sim viver pela fé na Palavra de Deus; (2)
relacionariam esses dois milagres à promes­ deve-se confiar que Jesus suprirá nossas
sa messiânica de Isaías 35. necessidades; (3) deve-se evitar o fermento
Nas duas situações, os amigos levaram das falsas doutrinas; (4) deve-se deixar Jesus
um homem até Jesus; nas duas situações, trabalhar como quiser e esperar que opere
Jesus afastou o homem das multidões. Na de maneiras diferentes.
verdade, no último caso, Jesus levou o ho­ Marcos registra acontecimentos de dias
mem para fora da cidade. Por quê? Prova­ atarefados no ministério do Servo de Deus!
velmente porque a cidade de Betsaida já A seguir, o evangelista nos leva para "os bas­
havia sido julgada por sua incredulidade (M t tidores", onde veremos o Servo instruindo
11:21-24) e não receberia mais outra de­ os discípulos e preparando-os para a morte
monstração do poder de Deus. de seu Mestre na cruz.
24; 1 Jo 2:22-27; 4:1-3). O s cidadãos de
7 Cesaréia de Filipe diriam: "César é o senhor!"
Um a confissão com o essa poderia identificá-
los com o leais cidadãos romanos, mas ja­
Os S e g re d o s d o S e r v o mais os salvaria do pecado e da perdição
eterna. A única confissão que salva é "Jesus
M arcos 8 :2 7 - 9 :5 0 é o Senhor!" (1 Co 12:1-3), quando essas
palavras vêm de um coração que crê verda­
deiramente em Cristo (Rm 10:9, 10).
As pessoas daquela época apresentavam
um número espantoso de opiniões diferen­
tes sobre Jesus, e é possível que a situação
lguém definiu um segredo com o "algo
A
não seja muito diferente hoje. É especialm en­
que contam os a uma pessoa de cada te absurdo que houvesse quem pensasse
vez". Vemos, aqui, três exemplos de "segre­ que ele era João Batista, pois João e Jesus
dos" especiais que jesus compartilhava com haviam sido vistos juntos em público. Além
os discípulos de tempos em tempos. O s cris­ disso, eram muito diferentes em personali­
tãos de hoje precisam entender e aplicar dade e ministério (M t 11:16-19), de modo
esses segredos espirituais, a fim de se torna­ que tal confusão parece estranha.
rem as pessoas que Deus quer que sejam. João Batista veio "no espírito e poder de
Elias" (Lc 1:17), num ministério de julgamen­
1. O SO FRIM EN TO C O N D U Z À G LÓ RIA to, enquanto jesus veio em espírito de hu­
(Mc 8 :2 7 -9 :1 3 ) mildade e serviço. João não realizou sinais
Jesus havia preparado os discípulos para esta e prodígios (Jo 10:41), mas Jesus operou di­
reunião em particular, na qual pretendia re­ versos milagres. Até na forma de se vestir,
velar o que aconteceria com ele em Jeru­ João assemelhava-se ao profeta Elias (2 Rs
salém. Já dera algumas pistas ao longo do 1:8; M c 1:6). Com o era possível fazer tama­
caminho, mas em breve explicaria tudo com nha confusão?
mais clareza. Com o local, escolheu Cesaréia Alguns diziam que Jesus era um dos pro­
de Filipe, uma cidade cerca de 40 quilôme­ fetas, talvez Jerem ias (M t 16:14). Jerem ias
tros ao norte de Betsaida, construída aos pés era "o profeta chorão", e Jesus era um ho­
do monte Hermom. O nome da cidade vem mem de sofrimento, de modo que havia um
de César Augusto e de Herodes Filipe, e nela paralelo. Com o Jesus, Jerem ias cham ou o
havia um templo de mármore consagrado a povo ao arrependim ento sincero. Am bos
Augusto. Era um lugar dedicado à glória de foram incom preendidos e rejeitados por seu
Roma, glória essa que não existe mais; mas próprio povo, ambos condenaram os falsos
a glória de Jesus Cristo perm anece e se es­ líderes religiosos e a adoração hipócrita no
tenderá por toda eternidade. templo, e ambos foram perseguidos pelas
C o n fissão (vv. 27-30). Se perguntás­ autoridades.
semos a nossos amigos: "Q uem as pessoas Em suas palavras e ações, Jesus ofere­
pensam que eu sou?", certam ente danamos ceu a seu povo inúmeras evidências de que
a impressão de que somos orgulhosos. Q ue era o Filho de Deus, o Messias, e ainda as­
diferença faz, de fato, o que as pessoas pen­ sim sua mensagem não foi entendida. Em
sam ou dizem a nosso respeito? Não somos vez de buscar a verdade com toda diligên­
importantes! M as o que as pessoas pensam cia, as pessoas ouviam e seguiam as opiniões
e dizem sobre Jesus Cristo é importante, pois populares, com o acontece em muitos casos
ele é o Filho de Deus e o único Salvador em nossos dias. Tinham opiniões em vez de
dos pecadores. convicções, por isso se desviavam . Elbert
Aquilo que professamos sobre Jesus Cris- Hubbard definiu a opinião pública com o "o
180 M A R C O S 8:27 - 9:50

ao julgamento da minoria discernente". Gra­ com a Palavra de Deus, abrimos as portas


ças ao Senhor por essa minoria que faz para mentiras de Satanás. Pedro repreendeu
grande diferença! o Mestre, e Marcos usou a mesma palavra
A confissão de Pedro foi ousada e inflexí­ que Jesus empregava para repreender de­
vel, como deve ser também nossa profissão mônios (M c 1:25; 3:12).
de fé: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!" O protesto de Pedro nasceu de sua ig­
(M t 16:16). A designação Cristo significa norância quanto à vontade de Deus e de
"o Ungido de Deus, o Messias prometido". seu profundo amor pelo Senhor. Num mi­
Profetas, sacerdotes e reis eram ungidos ao nuto, Pedro mostrou-se uma "rocha, logo em
serem escolhidos para os cargos, e Jesus seguida, uma pedra de tropeço! Nas pala­
exerceu esses três ofícios. vras de G. Campbell Morgan: "O homem
Por que Jesus pediu que guardassem se­ que ama Jesus, mas se afasta dos métodos
gredo a seu respeito? Em primeiro lugar, os de Deus, é uma pedra de tropeço para o
próprios discípulos ainda tinham muito o que Senhor". Pedro ainda não havia entendido
aprender sobre ele e sobre o que significa a relação entre sofrimento e glória. No devi­
seguir ao Senhor. Os líderes religiosos de do tempo, aprenderia essa lição e lhe daria
Israel já haviam formado seus conceitos so­ grande ênfase em sua primeira epístola (ob­
bre Jesus, e declará-lo publicamente como serve 1 Pe 1:6-8; 4:13 - 5:10).
Messias nesse momento não fazia parte do Convém observar, porém, que, ao repre­
plano de Deus. O povo em geral queria ver ender Pedro, Jesus também "fitou" seus dis­
Jesus realizar milagres, mas não se mostrava cípulos, pois concordavam com as palavras
tão interessado em suas mensagens. Anunciá- de Pedro! Imbuídos da tradição judaica de
fo como Messias poderia muito bem resul­ interpretação, foram incapazes de entender
tar numa revolta política prejudicial a todos. como seu Messias iria sofrer e morrer. Por
Confusão (w . 31-38). Uma vez que ha­ certo, alguns dos profetas escreveram sobre
viam confessado sua fé em Cristo (ver, o sofrimento do Messias, mas as Escrituras
porém, Jo 6:66-71), os discípulos encontra­ ressaltavam muito mais a glória do Messias.
vam-se preparados para o "segredo" que Alguns dos rabinos chegavam a ensinar que
Jesus desejava lhes revelar: estavam a cami­ haveria dois Messias: um que sofreria e ou­
nho de Jerusalém, onde morreria numa cruz. tro que reinaria (ver 1 Pe 1:10-12). Não é
Desse ponto em diante, Marcos concentra- de se admirar que os discípulos estivessem
se na jornada para Jerusalém e enfatiza a confusos.
iminência da morte e ressurreição de Jesus No entanto, o problema ia além do as­
(Mc 9:30-32; 10:32-34). pecto teológico: tratava-se de questões prá­
Essa declaração assustou os discípulos. ticas. Jesus chamara aqueles homens para
Se, de fato, ele era o Cristo de Deus, como segui-lo, e sabiam que tudo o que aconte­
haviam confessado, então por que seria re­ cesse ao Mestre também aconteceria ao
jeitado pelos líderes religiosos? As Escrituras grupo. Se havia uma cruz no futuro de Je­
do Antigo Testamento não haviam prome­ sus, também haveria sofrimento para eles, e
tido que derrotaria todos os inimigos e esta­ só isso já era motivo suficiente para discor­
beleceria um reino glorioso para Israel? Havia dar do Mestre! Apesar de sua devoção a
algo errado nisso, e os discípulos ficaram Jesus, os discípulos continuavam ignorando
confusos. a verdadeira relação entre a cruz e a coroa.
Como sempre, Pedro expressou a preo­ Seguiam a filosofia de Satanás (glória sem
cupação de todos. Num instante, Pedro fora sofrimento) em vez da filosofia de Deus (so­
guiado por Deus a confessar sua fé em Jesus frimento transformado em glória). A filosofia
Cristo (Mt 16:17), e, logo em seguida, já pen­ que se escolhe determina a forma de viver e
sava como um incrédulo, expressando os de servir.
pensamentos de Satanás! Trata-se de um avi­ Marcos 8:34 indica que, apesar de Je­
so importante para nós: quando discutimos sus ter se encontrado com os discípulos em
M A R C O S 8:2 7 - 9:50 181

particular, as multidões não estavam muito usar bem a vida e aproveitar ao máximo as
longe. Jesus cham ou o povo e lhes falou oportunidades aqui na Terra. "Perder a sua
sobre o que havia ensinado aos discípulos: alm a" é o equivalente a desperdiçar a vida,
o verdadeiro discipulado exige um preço. deixando passar as grandes oportunidades
Jesus sabia que as multidões o seguiam ape­ que Deus nos dá para fazer a vida valer a
nas por causa dos milagres e que a maioria pena. Podem os "ganhar o mundo inteiro"
não estava disposta a pagar o preço do ver­ e ser um grande sucesso aos olhos dos ho­
dadeiro discipulado. mens e, ainda assim, não ter coisa alguma
Jesus impôs três condições para o verda­ para mostrar quando estivermos diante de
deiro discipulado: (1) entregar-se inteiramen­ Deus. Se isso acontecer, mesmo tendo con­
te a ele; (2) identificar-se com seu sofrimento quistado o mundo inteiro, não terem os o
e morte; e (3) segui-lo em total obediência, suficiente para pagar a Deus por uma nova
para onde quer que conduza. Q uem vive chance!
para si, perde-se; mas quem se entrega por O verdadeiro discípulo recebe alguma
amor a Cristo e ao evangelho, é salvo. recom pensa? Sim. Torna-se cada vez mais
Negar-se a si mesmo não é o mesmo semelhante a Jesus Cristo e, um dia, com ­
que abnegação, que é a prática de, por um partilhará de sua glória. Satanás promete gló­
bom motivo, abrir mão de coisas e de ativi­ ria, mas no final o que se recebe é apenas
dades. Negar-se a si mesmo é render-se a sofrimento. Deus promete sofrimento, mas
Cristo e tomar o firme propósito de obede­ por fim esse sofrimento será transformado
cer à sua vontade. Essa consagração defini­ em glória. Quem reconhece a Cristo e vive
tiva é seguida de um "negar-se a si mesmo" para ele, um dia será por ele reconhecido e
diário ao tomarmos nossa cruz e segui-lo. compartilhará sua glória.
Do ponto de vista humano, nos perdemos, Confirmação (w. 1-8). É preciso ter fé,
mas do ponto de vista divino, nos encontra­ aceitar e praticar essa lição de discipulado.
mos. Q uem vive para Cristo torna-se cada Seis dias depois disso, Jesus apresentou
vez mais semelhante a ele e, com isso, en­ uma prova maravilhosa de que Deus, de fato,
contra singular individualidade. transforma o sofrimento em glória (em seus
É im portante observar, porém, a moti­ "oito dias", Lucas inclui o dia da lição e tam­
vação para o verdadeiro discipulado: "por bém o dia da glória - Lc 9:28). Jesus levou
causa de mim e do evangelho" (M c 8:35). Pedro, Tiago e João para o alto de um mon­
Negar-se a si mesmo não é um ato de de­ te (possivelmente, o monte Herm om ) e lá
sespero, mas sim de devoção. N o entanto, revelou sua glória. Esse acontecim ento foi
é preciso ir ainda mais longe: a devoção uma confirm ação vivida de suas palavras
pessoal deve conduzir a responsabilidades registradas em M arcos 8:38 e também uma
práticas, a compartilhar o evangelho com o dem onstração da glória do reino vindouro
mundo perdido. A declaração: "por causa (M c 9:1; Jo 1:14; 2 Pe 1:12-21). A mensa­
de m im " poderia levar a um isolamento reli­ gem é clara: prim eiro o sofrimento, depois
gioso egoísta, de modo que é contrabalan­ a glória.
çada com : "e do evangelho". Por viver para Moisés representava a Lei, Elias os Pro­
Cristo, vive-se para os outros. fetas, e ambos se cumpriram em Jesus Cris­
O discipulado é uma questão de ganhos to (Lc 24:25-27; Hb 1:1, 2). Moisés morrera,
e de perdas, de desperdiçar ou de investir a e seu corpo fora sepultado, mas Elias havia
vida. Deve-se atentar para a advertência de sido arrebatado (2 Rs 2:11). Q uando Jesus
Jesus aqui: ao gastar a vida, não há com o voltar, ressuscitará o corpo dos santos que
comprá-la de volta! Não é possível esque­ morreram e arrebatará os santos que estão
cer que ele estava instruindo seus discípu­ vivos (1 Ts 4:13-18). Um dia, estabelecerá
los, homens que já o haviam confessado seu reino glorioso e cumprirá as inúmeras
com o Fi Ih o de Deus. N ão lhes ensinava promessas feitas por meio dos profetas. O so-
182 M A R C O S 8:27 - 9:50

o estabelecimento do reino; pelo contrário, Jesus não permitiu que os três discípu­
ao resolver o problema do pecado no mun­ los contassem aos outros nove o que havia
do, a cruz tornou possível a concretização se passado no monte. Sem dúvida, a ex­
do reino. plicação desse acontecimento depois da
O termo transfigurado descreve uma ressurreição de Jesus serviu de grande enco­
mudança exterior originária do interior. É o rajamento para os cristãos que sofreriam e
oposto de "máscara" - uma mudança exte­ que entregariam a vida por amor a Cristo.
rior sem qualquer origem interior, jesus per­ Correção (vv, 11-13). Os discípulos ad­
mitiu que sua glória irradiasse por meio de quiriram uma compreensão bem mais pro­
todo o seu ser, e o topo da montanha trans­ funda do plano de Deus, mas ainda estavam
formou-se no Santo dos santos! Ao meditar confusos sobre a vinda de Elias, a fim de
sobre esse acontecimento, devemos lembrar preparar o caminho para o Messias. Sabiam
que Jesus compartilhou essa glória conosco, das profecias em Malaquias 3:1 e 4:5, 6 e,
prometendo uma gloriosa morada eterna (Jo também, que os mestres esperavam que
17:22-24). De acordo com Romanos 12:1, essas profecias se cumprissem antes da che­
2 e 1 Coríntios 3:18, os cristãos de hoje po­ gada do Messias (Jo 1:21). Será que Elias já
dem experimentar essa mesma glória da havia vindo e eles não haviam percebido ou
transfiguração. será que ainda estava por vir? Talvez a apari­
Enquanto Jesus orava, os três discípulos ção de Elias no monte tivesse sido o cumpri­
caíram no sono (Lc 9:29, 32), falha que re­ mento da profecia.
petiriam no jardim do Getsêmani (Mc Jesus deixou claros dois fatos. Em primei­
14:32-42). Por pouco não perderam a opor­ ro lugar, para os que creram nele, esse "Elias"
tunidade de ver Moisés e Elias com Jesus era João Batista, pois João havia, de fato,
em sua glória! A sugestão de Pedro reflete, preparado o caminho adiante do Senhor.
mais uma vez, o pensamento humano, não João havia negado ser o Elias ressurreto dos
a sabedoria divina. Como seria maravilho­ mortos (Jo 1:21, 25), mas ministrara "no
so permanecer no alto do monte e desfru­ espírito e poder de Elias" (Lc 1:16, 17). Em
tar sua glória! Mas o discipulado significa segundo lugar, Elias voltaria no futuro, con­
negar-se a si mesmo, pegar a cruz e seguir forme Malaquias havia predito (Mt 17:11),
ao Senhor. É impossível fazer isso e, ao antes do tempo da grande tribulação. Alguns
mesmo tempo, desejar egoisticamente per­ estudiosos relacionam isso com Apocalipse
manecer no monte da glória, pois há ne­ 11:2-12. A nação não aceitou o ministério
cessidades a serem supridas no vale logo de João, mas, caso o tivessem recebido, João
abaixo. Quem deseja compartilhar da gló­ teria servido como o "Elias" enviado por
ria de Cristo no monte, deve estar disposto Deus e, assim, os judeus também teriam
a segui-lo no sofrimento do vale. recebido Jesus. Em vez disso, porém, rejei­
O Pai interrompeu o discurso de Pedro taram tanto um quanto o outro e permiti­
e concentrou sua atenção não na visão, mas ram que ambos fossem mortos.
na Palavra de Deus: "a ele ouvi". A memória
da visão se dissiparia, porém o caráter imu­ 2. O p o d e r v e m d a fé (Mc 9:14-29)
tável da Palavra permaneceria para sempre. A vida cristã é uma "terra de montes e de
A visão gloriosa não era um fim em si, mas vales" (Dt 11:11). Num único dia, um discí­
a forma de Deus confirmar sua Palavra (ver pulo pode ir da glória do céu aos ataques
2 Pe 1:12-21). O discipulado não é cons­ do inferno. Quando Jesus e os três discípu­
truído sobre visões espetaculares, mas so­ los voltaram para junto dos outros nove
bre a Palavra inspirada e imutável de Deus. apóstolos, encontraram-nos envolvidos com
Também não devemos colocar Moisés, Elias dois problemas: foram incapazes de libertar
e Jesus no mesmo nível, como Pedro fez. É um garoto possesso e se viram discutindo
"somente Jesus": sua Palavra, sua vontade, com os escribas, que provavelmente zom­
seu reino e sua glória. bavam deles por causa desse insucesso.
M A R C O S 8:27 - 9:50 183

C om o sempre, Jesus entrou em cena para d e entender o que d isse e, por isso: "se
solucionar o problema. entristeceram grandemente" (Mt 17:23).
O m enino era surdo e mudo (Mc 9:1 7, N o entanto, não se entristeceram o sufi­
25), e o d em ôn io estava fazen d o todo o ciente para colocar de lado a com petição
possível para destruí-lo. Só p od em os ima­ sobre qual deles era o maior! Depois de ouvir
ginar com o era difícil para o pai cuidar do o que Jesus havia dito sobre seu sofrimento
filho e protegê-lo! Jesus havia dado autorida­ e morte, seria de esperar que os discípulos
de aos discípulos para expulsar dem ônios abandonassem os próprios planos egoístas
(Mc 6:7, 13), e, m esm o assim, as tentativas e se concentrassem em Jesus. Talvez o fato
de libertar o m enino haviam sido em vão. de Pedro, Tiago e João terem ido ao m onte
N ão é de se admirar que Jesus estivesse com Jesus tenha co lo ca d o mais lenha na
entristecido com eles! Quantas v ezes não fogueira da com petição.
se entristece co n o sco também ao ver que Com o intuito de ensinar aos discípulos
não usamos os recursos espirituais que, em (e a nós) uma lição sobre a honra, Jesus cha­
sua graça, con ced e a seu povo! mou uma criança para junto deles e expli­
Uma vez que os discípulos haviam fra­ cou que, a fim de ser o primeiro, é preciso
cassado, o pai, desesperado, sequer estava se tornar o último, e a fim de ser o último, é
certo d e que Jesus poderia ser bem -suce­ preciso tornar-se servo de todos. A criança
dido; daí suas palavras: "mas, se tu podes é um exem plo de submissão e de humildade.
alguma coisa" (Mc 9:22). N o entanto, o pai Uma criança sabe que é criança e age com o
foi honesto o suficiente para admitir sua pró­ tal, com isso, atrai amor e atenção. A crian­
pria falta de fé e pedir ao Senhor que aju­ ça que tenta nos impressionar ao agir com o
dasse a ele e a seu filho. Jesus expulsou o um adulto não recebe a m esm a atenção.
dem ônio e restaurou o menino a seu pai. Ser verdadeiram ente humilde significa
A lição principal desse milagre é o po­ conhecer a si m esmo, aceitar-se, ser autên­
der da fé para vencer o inimigo (Mc 9:19, tico - da m elhor maneira possível - e se
23, 24; ver Mt 17:20). Por que os nove discí­ dedicar aos outros. A filosofia do m undo diz
pulos falharam? Porque negligenciaram sua que som os os "maiores" quando tem os ou­
vida espiritual e a prática da oração e do tros nos servindo, mas a m ensagem d e Cris­
jejum (Mc 9:29). A autoridade que Jesus to diz que a grandeza decorre do serviço
havia lhes dado era eficaz som ente quando aos outros. Uma vez que, no aramaico, existe
exercida pela fé, mas a fé deve ser cultivada um só termo para "criança" e "servo", é fá­
por m eio de devoção e da disciplina espiri­ cil entender com o Jesus relacionou essas
tual. É possível que a ausência do Senhor, duas idéias. Para quem tem o coração de
ou o fato de ter levado os três discípulos e uma criança, não é difícil tornar-se servo; e
deixado os nove para trás, tenha diminuído quem tem atitude de servo recebe as crian­
seu fervor espiritual e sua fé. Esse insucesso ças com o representantes de Jesus Cristo e
não apenas os envergonhou, com o também do Pai.
tirou a glória do Senhor e deu ao inimigo Neste ponto de seu relato, João julgou
uma oportunidade de criticar. É a nossa fé necessário defender os discípulos (Mc 9:38­
em Cristo que glorifica o Senhor (Rm 4:20). 41) ao apontar para seu zelo. Q u e incoe­
rência dizer a um hom em para deixar de
3. O S E R V IÇ O C O N D U Z À HONRA expulsar dem ônios, quando os nove discí­
(Mc 9:30-50) pulos não haviam c o n seg u id o libertar o
Jesus ainda estava levando seus discípulos m enino surdo e m udo das m ãos de Sata­
para Jerusalém e, ao longo do caminho, lem­ nás! Usar o nom e de Jesus é o m esm o que
brou-os do que aconteceria com ele quando operar sob sua autoridade, de m odo que não
chegassem lá. É importante observar que tam­ tinham direito algum de deter aquele ho­
bém os lembrou de sua ressurreição (ver Mt mem. "Para o seu próprio senhor está em
184 M A R C O S 8:27 - 9:50

Convém comparar Marcos 9:40 com inferno, houve quem sugerisse que seus
Mateus 12:30: "Quem não é por mim é con­ serviços não eram necessários. Afinal, se não
tra mim". As duas declarações afirmam a há inferno, por que se preocupar com a
impossibilidade de permanecer neutro em morte? Mas, se existe um inferno, o capelão
relação a Jesus Cristo. Uma vez que não é os conduzia pelo caminho errado! Qualquer
possível ser neutro, quem não está com ele que fosse o caso, estariam melhor sem os
está contra ele; e quem não está contra, está serviços dele!
a favor. O exorcista anônimo glorificava o A palavra traduzida por "inferno" é
nome de Jesus, de modo que deveria estar gehenna e vem da expressão hebraica "o vale
a favor do Salvador, não contra ele. [ge] de Hinom", numa referência ao vale ao
No entanto, não é preciso realizar gran­ redor de Jerusalém onde o perverso rei Acaz
des milagres para demonstrar amor por Cris­ adorava Moloque, deus do fogo, e sacrifica­
to. Ao receber uma criança com amor ou va crianças a ele (2 Cr 28:1-3; Jr 7:31; 32:35).
oferecer um copo de água a alguém, damos Alguns manuscritos não trazem a passa­
prova de que temos o coração humilde de gem de Isaías 66:24 registrada em Marcos
servo. Afinal, servimos a Cristo, e esse é o 9:44 e 46, mas a declaração é citada no
maior serviço de todos (Mt 25:31-46). versículo 48, e esse versículo basta. O infer­
Jesus não tratou a afirmação de João com no não é temporário, é eterno (ver Ap 20:10).
leviandade. Antes, explicou os perigos de É absolutamente essencial que os pecado­
fazer com que outros tropecem e deixem res creiam em Jesus Cristo e sejam livrados
de servir ao Senhor (Mc 9:42-50). "Um des­ da perdição eterna. Também é importante
tes pequeninos" refere-se a todos os filhos que os cristãos levem essa mensagem ao
de Deus que seguem a Cristo e procuram mundo perdido!
servi-lo. A forma de os cristãos tratarem ou­ "Mas não é um sacrifício absurdo?", al­
tros membros da família de Deus é algo sé­ guém poderia perguntar. "Tratar do peca­
rio, e Deus deseja que tenhamos "paz uns do de modo tão radical pode nos custar caro
com os outros" (Mc 9:50). Os discípulos não demais!" Em Marcos 9:49, 50, Jesus usa o
estavam se dando bem uns com os outros, conceito de "sacrifício vivo" para ilustrar essa
nem com os outros seguidores de Cristo! questão (ver Rm 12:1, 2). O sacrifício é colo­
Essa mensagem solene sobre o inferno cado sobre o altar e é consumido pelo fogo.
traz uma advertência a todos nós, afirman­ Devemos escolher entre suportar o fogo do
do que devemos tratar o pecado de manei­ inferno como pecadores perdidos ou o fogo
ra radical. Tudo o que nos faz tropeçar ou purificador de Deus como sacrifícios para a
que serve de tropeço para outros deve ser glória. Não esqueçamos que Satanás prome­
removido. Mãos, pés e olhos são considera­ te glória no presente, mas o futuro só reserva
dos partes valiosas de nosso corpo, mas se dor. Jesus nos chama para sofrer agora, mas
nos fazem pecar, devem ser removidos. É no futuro desfrutaremos sua glória.
evidente que Jesus não está ordenando uma O povo de Israel não poderia acrescen­
cirurgia física literal, pois já deixou claro que tar fermento nem mel a seus sacrifícios e
o pecado vem do coração (Mc 7:20-23). Está ofertas, mas deveria usar sal (Lv 2:11, 13). O
ensinando que o pecado encontra-se arrai­ sal simboliza a pureza e a preservação e era
gado com o um tumor maligno no corpo e usado no tempo do Antigo Testamento para
deve ser removido de maneira radical. firmar alianças. Os discípulos eram o sal de
Algumas pessoas espantam-se de ouvir Deus (Mt 5:13), mas estavam correndo o ris­
Jesus dizer palavras tão ameaçadoras sobre co de perder seu sabor e de se tornarem
o inferno (ver Is 66:24). Jesus acreditava num imprestáveis. Hoje em dia, o sal é refinado e
lugar chamado inferno, um lugar de tormen­ não perde o sabor, mas naquele tempo, o
to e castigo eternos (ver Lc 16:l9ss). Depois sal continha impurezas e poderia tornar-se
que um capelão do exército disse aos ho­ insípido. Uma vez que se perde o precioso
mens de sua divisão que não acreditava no caráter cristão, com o restaurá-lo?
MARCOS 8:27 ■ 9:50 185

Em lugar de reprovar os outros, os discí- loje, Sujeitando-se a ele, o sofrimento con­


linar duzirá à glória, a fé produzirá poder, e o
ir serviço sacrificial conduzirá à honra, Ape­
para Deus, Os cristãos passam pelo fogo sar de sua impetuosidade e de suas falhas
das acusações e perseguições (1 Pe 1:6,7; , itendeu a mensagem e
4:12) e precisam resistirjuntos sem se preo­ esaeveu: Ora, o Deus de toda a graça, que
cupar em saber quem é o maior! O com­ em Cristo vos chamou à sua eterna glória,
promisso e o caráter são essenciais para que terdes sofrido Dor um douco, ele
se possa glorificar a Deus e ter paz ir, nrmar,
car e fundamentar, a eie seja o ,
pelos séculos dos séculos, Amém!" (1 Pe
* *

seçao sao a 5:10,11),


Naquele tempo, havia dois pontos de
8 vista conflitantes sobre o divórcio que de­
pendiam da forma com o se interpretava a
expressão coisa indecente em Deuteronô-
O s P aradoxos mio 24:1-4. Os seguidores do rabino Hillel
eram bastante tolerantes em suas interpreta­
d o S er v o
ções e permitiam que um homem se divor­
M arcos Ί0 ciasse de sua mulher por qualquer motivo,
até mesmo se ela queimasse a comida. A
escola do rabino Shammai, por outro lado,
era bem mais rígida e ensinava que as pala­
vras coisa indecente referiam-se somente a
om o ex celen te M estre, Jesus usou pecados anteriores ao casamento. Se um
C várias abordagens ao compartilhar a
Palavra de Deus: símbolos, milagres, tipos,
recém-casado descobrisse que a esposa não
era virgem, teria, então, permissão para se
parábolas, provérbios e paradoxos. Paradoxo divorciar.
é uma afirmação que dá a impressão de se Como era seu costume, Jesus ignorou
contradizer, no entanto expressa uma verda­ as discussões em andamento e voltou a aten­
de ou princípio válido. "Porque, quando sou ção para a Palavra de Deus, nesse caso, para
fraco, então, é que sou forte" (2 Co 12:10; a Lei de Moisés em Deuteronômio 24:1-4.
ver também 2 Co 6:8-10) é um paradoxo. Há Ao estudar esta passagem, é importante ob­
ocasiões em que a melhor forma de declarar servar dois fatos. Em primeiro lugar, foi o
uma verdade é por meio de um paradoxo, e homem quem se divorciou da esposa, não
este capítulo mostra Jesus fazendo exatamen­ o contrário, pois a mulher não tinha esse
te isso. Poderia ter pregado um longo sermão, direito em Israel (as mulheres romanas, po­
mas, em vez disso, ensinou cinco lições im­ rém, podiam pedir o divórcio). Em segundo
portantes que podem ser expressas por meio lugar, a "carta de divórcio" oficial era dada
de cinco afirmações paradoxais sucintas. à mulher para declarar sua condição e ga­
rantir a qualquer outro homem interessado
1. Dois s e t o r n a r ã o um que ela estava livre para se casar novamen­
(Mc 10:1-12) te. Além da entrega desse documento, o
Jesus completou seu ministério na Galiléia, único requisito era que a mulher divorciada
deixou Cafarnaum e passou para a região não voltasse para o primeiro marido. Entre
da Transjordânia, ainda a caminho da cida­ os judeus, a questão não era: "Uma mulher
de de Jerusalém (Mc 10:32). Esse distrito era divorciada pode se casar novamente?", pois
governado por Herodes Antipas, o que pode o segundo casamento era permitido e até
explicar por que os fariseus tentaram armar m esm o esperado. A grande questão era:
uma cilada usando a questão do divórcio. "Quais são as bases legais para um homem
Afinal, João Batista havia sido executado jus­ se divorciar de sua esposa?".
tamente por pregar contra o casamento adúl­ A Lei de Moisés não considerava o adul­
tero de Herodes (Mc 6:14-29). tério motivo para divórcio, pois em Israel o
No entanto, essa pergunta ia além da cônjuge adúltero era apedrejado até a mor­
política, pois o divórcio era um assunto ex­ te (Dt 22:22; Lv 20:10; ver também Jo 8:1­
tremamente controverso entre os rabinos. 11). Qualquer que fosse o significado pre­
Qualquer que fosse a resposta que Jesus tendido por Moisés com as palavras "coisa
desse, com certeza desagradaria alguém e, indecente", em Deuteronômio 24:1, não se
possivelmente, daria motivos para ser preso. tratava de uma referência ao adultério.
Os verbos indicam que os fariseus "continua­ jesus explicou que Moisés deu a lei do
vam perguntando", com o se esperassem divórcio por causa do caráter pecaminoso
provocá-lo a dizer algo incriminador. do coração humano. A lei protegia a esposa
M A R C O S 10 187

ao refrear o impulso do marido de se divor­ extremamente sério. Convém observar que


ciar e de abusar dela com o objeto indese- Jesus incluiu as mulheres em sua advertên­
jado, em vez de tratá-la com o ser humano. cia, o que certamente elevou sua posição
Sem uma carta de divórcio, a mulher pode­ na sociedade, dando-lhes as mesmas respon­
ria facilmente ser excluída socialm ente e ser sabilidades. O s rabinos não teriam ido tão
tratada co m o prostituta. Nenhum hom em longe.
desejaria casar-se com ela, que ficaria inde­ Marcos 10:9 adverte que o hom em não
fesa e desamparada. pode separar os que foram unidos em casa­
Ao dar esse mandamento a Israel, Deus mento, mas Deus pode. Uma vez que foi
não estava concordando com o divórcio ele quem instituiu o casamento, também tem
nem m esm o o incentivando. Pelo contrário, o direito de ditar as regras. Um divórcio pode
procurava limitá-lo e tornar mais difícil ao ser legal de acordo com nossas leis e, ainda
marido repudiar a esposa. Deus instituiu uma assim, não ser legítimo diante de Deus. Ele
série de regras quanto ao divórcio para que espera que as pessoas casadas tenham um
a esposa não se tornasse vítima dos capri­ compromisso mútuo (Mc 10:7) e que sejam
chos do marido. fiéis a seu cônjuge. Muitas pessoas vêem o
Jesus retrocedeu para o que havia sido divórcio com o "uma saída fácil" e não le­
determinado antes de M oisés, falando do vam a sério os votos de com promisso um
relato da criação (Gn 1:27; 2:21-25). Afinal, para com o outro e para com o Senhor.
no princípio de tudo, foi Deus quem insti­
tuiu o casam ento e, portanto, é ele quem 2 . A d u lt o s s e rã o c o m o c r ia n ç a s
p ode estabelecer as regras. De acordo com (Mc 10:13-16)
as Escrituras, o casam ento se dá entre ho­ Primeiro o casam ento, depois as crianças:
mem e mulher - e não entre dois hom ens uma seqüência lógica. Ao contrário de mui­
ou duas mulheres - e é um relacionamento tas pessoas "modernas" de hoje, os judeus
sagrado e perpétuo. É a forma de união mais daquele tem po consideravam as crianças
íntima da raça humana, pois duas pessoas bênçãos e não um fardo; eram um tesouro
tornam-se uma só carne. Não se pode dizer precioso de Deus, não um peso (SI 127 -
o m esm o da relação entre pai e filho, ou 128). A falta de filhos era motivo de tristeza
entre mãe e filha, mas vale para o marido e e de desgraça para um casal.
a esposa. Era costum e os pais levarem os filhos para
Apesar de o aspecto espiritual ser vital serem abençoados pelos rabinos, de m odo
para o casamento, a ênfase dessa discussão que não causa surpresa terem levado os
é sobre o casamento com o uma união físi­ pequeninos até Jesus. Algumas dessas crian­
ca: os dois se tornam uma só carne, não um ças ainda eram de colo (Lc 18:15), outras já
espírito. Uma vez que a união é física, só sabiam andar; Jesus recebeu todas de bra­
pode ser rompida por uma causa física: a ços abertos.
morte (Rm 7:1-3), ou por relações sexuais Por que os discípulos repreenderam es­
ilícitas (Mt 5:32; 19:9). Marcos não inclui a sas pessoas e tentaram impedir que as crian­
"cláusula d e e x c e ç ã o " en c o n tra d a em ças fossem até o Mestre? (Ver Mt 15:23 e
Mateus, mas, até aí, também não diz que a Mc 6:36 para mais exem plos da aparente
união matrimonial é rompida pela morte. dureza do coração dos discípulos.) Prova­
Posteriormente, Jesus explicou esse as­ velm ente, pensaram estar lhe fazendo um
sunto em particular e mais detalhadamente favor, ajudando-o a não desperdiçar seu tem­
para os discípulos, que a essa altura esta­ po e a guardar suas energias. Em outras pa­
vam convencidos de que era arriscado se lavras, não deram im portância às crianças! A
casar. Um segundo casamento depois de um atitude deles foi estranha, pois Jesus já os
divórcio, exceto quando esse havia sido con­ havia ensinado a receber as crianças em seu
cedido por causa de relações sexuais ilícitas, nom e e a ter cuidado de não fazê-las trope-
188 M A R C O S 10

esqueceram o que seu Mestre havia lhes saiu pior do que havia chegado, mesmo ten­
ensinado. do tanta coisa a seu favor! Era um jovem
Algumas versões mostram que Jesus se (Mt 19:22) com grande potencial, respeita­
desagradou, mas essa expressão é branda do pelos outros por ocupar um cargo im­
demais. Jesus ficou indignado e repreendeu portante, talvez no tribunal da cidade (Lc
os discípulos publicamente por impedirem 18:18). Sem dúvida, era bem educado e ín­
o acesso a ele. Em seguida, anunciou que tegro e tinha em seu coração tal anseio pe­
as crianças eram melhores exemplos do rei­ las coisas espirituais que procurou Jesus e
no do que os adultos. As vezes, dizemos a se curvou aos pés do Mestre. Em todos os
nossos filhos pequenos para se comporta­ sentidos, era um rapaz ideal, e, quando Je­
rem como adultos, mas Jesus disse aos adul­ sus o fitou, o amou.
tos para se espelharem no comportamento Mesmo com todas essas qualidades ex­
das crianças! celentes, o jovem mostrou-se superficial
De que forma uma criança serve de quanto às coisas espirituais. Por certo lhe
exemplo? Pela maneira humilde de depen­ faltava profundidade em seu conceito de
der dos outros, por sua receptividade, pela salvação, pois pensou que poderia fazer
aceitação de si mesma e de sua situação na alguma coisa para merecer a vida eterna.
vida. É evidente que Jesus falava de uma Tratava-se de uma crença corrente entre os
criança pura, não de uma criança que esti­ judeus daquela época (Jo 6:28) e que conti­
vesse tentando agir como adulto. A criança nua bastante comum hoje. A maioria dos
desfruta de muitas coisas, mas só é capaz não salvos acredita que um dia Deus levará
de explicar poucas. Vive pela fé e, pela fé, em conta as boas obras e as más ações que
aceita sua situação, confiando que os ou­ praticaram, e se as coisas boas excederem
tros cuidarão dela. as más, entrarão no céu.
Entramos no reino de Deus pela fé, como Por trás dessa abordagem da salvação
criancinhas: desamparados, incapazes de com base nas boas obras, encontra-se uma
nos salvar, totalmente dependentes da mi­ visão superficial do pecado. O pecado é
sericórdia e da graça de Deus. Desfrutamos rebelião contra o Deus santo, não apenas
do reino de Deus pela fé, crendo que o Pai uma ação; é uma atitude interior que exalta
nos ama e que cuidará de nossas necessida­ o ser humano e desafia Deus. Será que aque­
des diárias. O que uma criança faz quando le jovem pensava mesmo que podia fazer
se machuca ou tem um problema? Corre coisas boas e religiosas para acertar as con­
para os braços do pai ou da mãe! Que exem­ tas com o Deus santo?
plo perfeito a seguir em nosso relaciona­ O jovem também tinha uma visão super­
mento com o Pai celeste! Deus quer que ficial de Jesus Cristo. Chamou-o de "Bom
sejamos como crianças, mas não que seja­ Mestre", mas temos a impressão de que
mos infantis! estava tentando lisonjeá-lo, pois os rabinos
O texto não dá qualquer indicação de não permitiam que se aplicasse a eles o ad­
que Jesus tenha batizado essas crianças, pois jetivo bom. Somente Deus era bom, e esse
nem sequer batizou os adultos (Jo 4:1, 2). adjetivo deveria ser reservado exclusivamen­
Se os discípulos estivessem acostumados a te a ele. Jesus não negava que era Deus;
batizá-las, certamente não as teriam manda­ pelo contrário, afirmava sua divindade.
do embora. Jesus tomou esses pequeninos Queria apenas ter certeza de que o jovem
em seus braços amorosos e os abençoou - sabia o que estava dizendo e de que estava
e que bênção deve ter sido! disposto a aceitar as responsabilidades
envolvidas.
3. O PRIMEIRO SERÁ O ÚLTIMO Isso explica por que Jesus chamou a aten­
(Mc 10:17-31) ção do rapaz para a Lei de Moisés: desejava
De todas as pessoas que se colocaram aos que se visse como um pecador prostrado
pés de Jesus, este homem foi o único que diante do Deus santo. Não podemos ser
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salvos do pecado guardando a Lei (Gl 2:16­ O s discípulos ficaram estarrecidos com
21; Ef 2:8-10). A Lei é um espelho que nos a declaração de Jesus sobre a riqueza, pois
mostra com o estam os sujos, mas o espelho a maioria dos judeus acreditava que possuir
não pode nos lavar. Um dos propósitos da muitos bens era evidência das bênçãos es­
Lei é conduzir o pecador a Cristo (Gl 3:24), peciais de Deus. Apesar da m ensagem de
e foi o que aconteceu no caso desse rapaz. Jó, do exem plo de Cristo e dos apóstolos e
A Lei p od e levar o pecador a Cristo, mas dos ensinamentos claros do Novo Testamen­
não é capaz de torná-lo semelhante a Cris­ to, muita gente ainda tem essa mesma idéia
to. Somente a graça faz isso. hoje. No caso do jovem, a riqueza que pos­
O jovem não se considerava um peca­ suía privou-o da maior de todas as bênçãos
dor condenado diante do Deus santo. Seu de Deus: a vida eterna. Hoje, a riqueza con­
conceito da Lei de Deus era superficial, pois tinua a empobrecer os ricos e a fazer os pri­
media sua obediência apenas em termos de meiros serem os últimos (ver 1 Co 1:26-31).
ações exteriores, não de atitudes interiores. O dinheiro é um servo maravilhoso, mas
N o que se referiam a suas ações, era irrepre­ é um senhor terrível. O s que têm dinheiro
ensível (ver Fp 3:6), mas não se podia dizer devem ser gratos e usá-lo para a glória de
o m esm o de suas atitudes interiores, pois Deus; mas se o dinheiro for senhor da vida
havia cobiça em seu coração. É possível que deles, devem ter cuidado! É bom ter coisas
observasse alguns mandamentos, mas esque­ que o dinheiro pode comprar, d esde que
ceu o último: "Não cobiçarás". A cobiça é não se percam as coisas que ele não pode
um pecado terrível; é sutil e difícil de detec­ comprar. As ilusões da riqueza haviam sufo­
tar, mas, ainda assim, faz as pessoas trans­ cado de tal m odo o coração d esse rapaz
gredirem todos os dem ais m andam entos. que já não podia mais receber a sem ente
"Porque o amor ao dinheiro é a raiz de to­ da Palavra e ser salvo (Mt 13:22). Q ue co ­
dos os males" (1 Tm 6:10). lheita amarga ceifaria!
Q uem olhasse para esse rapaz poderia No entanto, a reação de Pedro mostra
concluir que tinha tudo, mas Jesus afirmou que tam bém havia alguns problemas em
que ainda lhe faltava uma coisa: uma fé viva seu coração. "Que será, pois, de nós?" (Mt
em Deus. Seu deus era o dinheiro: confiava 19:27). Essa pergunta revela uma visão um
nele, o adorava e se realizava com ele. Sua tanto interesseira da vida cristã: "abrimos
moralidade e boas maneiras apenas escon­ mão de tudo pelo Senhor; o que vamos re­
diam um coração cobiçoso. ceber em troca?" É interessante contrastar
As instruções de Jesus em Marcos 10:21 as palavras de Pedro com as palavras dos
não devem ser aplicadas a todos os que três hebreus em Daniel 3:16-18 e, em segui­
desejam tornar-se discípulos, pois Jesus tra­ da, com o testemunho posterior de Pedro
tava das necessidades específicas daquele em Atos 3:6. Sem dúvida, Pedro progrediu
jovem rico. Uma vez que o rapaz possuía muito da pergunta: "o que receberei?", para
muitos bens, Jesus lhe disse para vender tudo a declaração: "o que tenho, isto te dou".
e dar o dinheiro aos pobres. C om o o rapaz Jesus garantiu a seus discípulos que qual­
tinha status, Jesus lhe disse para pegar a cruz quer pessoa que o seguir jamais perderá o
e segui-lo, algo que exigiria humildade. Jesus que é verdadeiram ente importante, quer
ofereceu ao jovem a dádiva da vida eterna, nesta vida, quer na vida por vir. Deus recom­
mas ele recusou. É difícil receber um pre­ pensará cada um. D evem os, porém, estar
sente quando as m ãos estão fechadas, se­ certos de que nossa motivação é correta:
gurando dinheiro e tudo o que ele pode "Por causa de mim e do evangelho" (ver Mc
comprar. A palavra grega traduzida por "tris­ 8:35). O conh ecido industrial cristão R. J.
te" descreve uma tempestade se formando. LeTorneau costum ava dizer: "Se v o cê dá
Esse hom em saiu do sol para entrar numa visando o lucro, terá prejuízo!" Se nos sacri­
tempestade! Desejava receber a salvação em ficarmos apenas para receber uma recom-
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Éimportante observar que Jesus também Quando consideramos a declaração de


promete "perseguições", já havia explicado Jesus sobre sua morte, ficamos envergonha­
a seus discípulos o que judeus e gentios dos ao ver Tiago, João e a mãe deles (Mt
fariam com ele em Jerusalém, e agora os in­ 20:20, 21) pedindo tronos. Como puderam
forma de que também serão perseguidos. ser tão insensíveis e egoístas? Pedro havia
Deus contrabalança bênçãos com batalhas, reagido à primeira declaração discutindo
a fim de desenvolver filhos e filhas maduros. com Jesus; depois da segunda declaração,
Aos olhos das pessoas em geral, o jovem a reação dos discípulos foi discutir entre si
rico ocupava o primeiro lugar, enquanto os quem era o maior (Mc 9:30-34). Pareciam
discípulos pobres estavam nos últimos luga­ não perceber o significado da cruz.
res. Porém, Deus vê todas as coisas do pon­ Na verdade, Salomé e seus dois filhos
to de vista da eternidade - e os primeiros apropriaram-se da promessa que Jesus ha­
tornam-se os últimos, enquanto os últimos via feito de que, no reino futuro, os discípu­
se tornam os primeiros! Os que são primeiros los se assentariam em doze tronos com o
a seus próprios olhos serão os últimos aos Senhor Jesus. (Ver Mt 19:28. Uma vez que
olhos de Deus, mas os que se consideram os Marcos escrevia especialmente a gentios,
últimos a seus próprios olhos serão recompen­ não incluiu essa promessa.) Foi um grande
sados como sendo os primeiros! Que gran­ passo de fé da parte deles reivindicar a pro­
de estímulo para os verdadeiros discípulos! messa, especialmente quando Jesus havia
acabado de lembrar a todos que estava pres­
4. Os SERVOS SERÃO GOVERNANTES tes a morrer. Os três estavam de acordo (Mt
(Mc 10:32-45) 18:19) e tinham a Palavra de Jesus para en­
Jesus continua conduzindo os discípulos a corajá-los, de modo que não havia motivo
Jerusalém. Ao descrever a jornada do Salva­ para Jesus negar o pedido.
dor até o Calvário, é possível que Marcos Exceto por uma coisa: pediram com egoís­
tenha meditado na "canção do Servo" em mo, e Deus não responde a orações egoístas
Isaías 42 a 53. "Porque o S e n h o r Deus me (Tg 4:2, 3). Se o faz, é apenas para nos dis­
ajudou, pelo que não me senti envergonha­ ciplinar e nos ensinar a orar de acordo com
do; por isso, fiz o meu rosto como um seixo sua vontade (SI 106:15; 1 Jo 5:14,15). Tiago,
e sei que não serei envergonhado" (Is 50:7). João e Salomé não perceberam que as res­
Não podemos deixar de admirar a coragem postas de oração têm um preço. A fim de
do Servo de Deus ao seguir para o Calvário, atender a esse pedido, Jesus teria de sofrer
e devemos adorá-lo ainda mais por fazer isso e morrer. Por que deveria pagar tamanho
por nós. preço apenas para que pudessem desfru­
E necessário tentar entender a confusão tar de seus tronos? É assim que se glorifica
e o medo dos seguidores de Cristo, pois foi a Deus?
uma experiência difícil para eles, que de Jesus comparou seu sofrimento e morte
maneira alguma correspondeu a seus pla­ iminentes a beber de um cálice (Mc 14:32­
nos e expectativas. Cada vez que Jesus anun­ 36) e a ser batizado (Lc 12:50; ver também
ciava sua morte, deixa os discípulos mais Sl 41:7; 69:2, 15). Seria uma experiência de
perplexos. Nas duas primeiras declarações grande agonia - e, no entanto, Tiago e João
(Mc 8:3 7; 9:31), Jesus lhes disse o que acon­ afirmaram estar preparados! Mal sabiam o
teceria; agora lhes diz onde isso ocorreria - que diziam, pois, nos anos que se seguiram,
na cidade santa de Jerusalém! Essa terceira ambos participariam, de fato, do batismo e
declaração inclui o papel dos gentios em do cálice de Cristo. Tiago se tornaria o primei­
seu julgamento e morte, e, pela quarta vez, ro dos discípulos a ser martirizado (At 12:1,
Jesus promete que r