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CADERNOS DE

HISTÓRIA

Cad. hist. Belo Horizonte v. 3 n. 4 p. 1-60 out. 1998


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Grão-Chanceler
Dom Serafim Fernandes de Araújo

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PUC Minas Poços de Caldas – Geraldo Rômulo Vilela Filho, Maria do Socorro Araújo Medeiros;
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Tiragem
1.000 exemplares

Preparada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Cadernos de História. — out. – 1997 — Belo Horizonte: PUC Minas,

v.

Anual

1. História – Periódicos. I. Pontifícia Universidade Católica


de Minas Gerais. Departamento de História.

CDU: 98 (05)
SUMÁRIO

O problema da liberdade em Graciliano Ramos – a repercussão


ética numa prática interdisciplinar das Ciências Humanas
João Pereira Pinto, Karla Ataíde Guedes e Mara Arruda de Faria Flor ................................. 5

Imagens da posteridade: mito ou ideologia na literatura política


das luzes (Notas sobre a imagem de Luís XIV em Saint-Simon,
Montesquieu e Voltaire)
Marcos Antônio Lopes ............................................................................................................ 15

A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos


de luta pela moradia
Ulysses da Cunha Baggio ....................................................................................................... 24

Trajetória do homem e do estadista Melo e Castro


Virgínia Maria Trindade Valadares ........................................................................................ 36

“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História


Gilmar Rocha .......................................................................................................................... 47

Cad. hist. Belo Horizonte v. 3 n. 4 p. 1-60 out. 1998


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O problema da liberdade em Graciliano Ramos – a repercussão ética numa ...

O PROBLEMA DA LIBERDADE
EM GRACILIANO RAMOS
A repercussão ética numa prática
interdisciplinar das Ciências Humanas*

João Pereira Pinto


Departamento de Filosofia e Teologia – PUC Minas
Karla Ataíde Guedes
Bolsista PIBIC/CNPq – 95/96
Mara Arruda de Faria Flor
Bolsista PIBIC/CNPq 95/96

RESUMO Graciliano Ramos e o problema da humanização

P
Entendendo o conceito de liber-
dade como elemento fundamental
ercorrendo a obra de Graciliano Ramos,
para a existência do sujeito ético, através do que se passa com as perso-
buscamo-lo na obra de Graciliano
Ramos, nos seus romances e me- nagens, de imediato salta aos olhos a sua
mórias. Isto porque mesmo a sua preocupação com o processo da humanização.
obra de ficção nos dá possibilidades
inúmeras de problematização das Daí a crítica, em Graciliano, à condição em que
questões filosóficas, embora aqui
pudéssemos cuidar mais do aspec-
se desenvolve concretamente a vida.
to axiológico. Falar de humanização é, segundo a Antro-
A fim de chegar ao problema da
liberdade em Graciliano Ramos, pologia, caracterizar o processo de passagem
passamos por três momentos ou ca- da natureza à cultura. E isso implica tratar o
pítulos auxiliares: o problema da
humanização, a estruturação da problema da liberdade, da consciência, do co-
concepção de mundo dos protago-
nistas das histórias de Graciliano e
nhecimento que o homem tem de si mesmo,
a crítica ao fenômeno da alienação dos outros homens e da realidade à sua volta;
que se desenrola nas estruturas so-
ciais através dos aparelhos ideoló- como também tratar de sua capacidade de in-
gicos. tervenção no mundo.
*
Este artigo é síntese de pesquisa financiada pelo FIP/PUC Minas e PIBIC/CNPq, no período de ago./95 a jul./96, de cujas bol-
sistas Karla Ataíde Guedes, do Curso de História e Mara Arruda de Faria Flor, do Curso de Letras, usamos a abordagem de
Angústia e Infância respectivamente.
Desse trabalho excluem-se as partes relativas a S. Bernardo, Vidas secas e Memórias do cárcere. O primeiro, por ter sido
analisado no livro: Diálogo entre a Filosofia e a Literatura em S. Bernardo, de Graciliano Ramos. Londrina: Editora UEL,1998.
Os outros dois, por constarem de uma comunicação feita no I Encontro de Filosofia Contemporânea da FUNREI, dia 28/08/
96, e por estar publicado nos Anais de Filosofia. São João del-Rei, n. 4, p. 285-296, jul. 1997.

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João Pereira Pinto et al.

Segundo Lévi-Strauss (1967), o transcendente. Para ele, apreen- de transcendência e de respon-


há três relações especiais que o der o processo e o modo de como sabilidade? Ou, conforme o seu
homem trava com os seus seme- se dão essas relações é permitir- ambiente, as condições de sua
lhantes e que o fazem propria- se a compreensão do nível de vida, estariam num estágio subu-
mente humano: as relações de consciência em que as pessoas mano, alienados, carentes da
parentesco, as relações de produ- estão operando. possibilidade de descobrirem
ção de bens e serviços e as rela- Na obra de Graciliano, depa- meios para a transformação do
ções de comunicação. Essas re- ra-se com personagens que vi- mundo?
lações vêm constituir três siste- vem um processo profundo de Ao encaminhar este texto, à
mas dos quais o homem não alienação, com uma certa incapa- procura do ponto de vista da éti-
mais se desvincula. As relações cidade de comunicação e relacio- ca, esclarecemos que a entende-
de parentesco constituem o sis- namento com os outros homens, mos, não como moral, enquanto
tema familiar. As relações de pro- uma certa incapacidade de inter- o conjunto de valores e normas
dução de bens e serviços formam vir e transformar a natureza à que orienta a vida de uma comu-
o sistema econômico. E tanto as sua volta, uma vez que, em ge- nidade, mas como Filosofia Mo-
relações de parentesco quanto as ral, desconhecem a si mesmos, ral, que se ocupa, conforme Ara-
relações de produção trazem, são inconscientes quanto ao que nha e Martins (1986), com a refle-
por conseqüência, a necessidade se passa na alma dos outros, co- xão sobre os fundamentos da vida
da comunicação. Daí, o sistema mo também são inconscientes moral. Isso implica definir os
lingüístico. quanto à estrutura social de que constituintes do campo ético,
Paulo Meneses (1991) traba- fazem parte, nas suas organiza- que segundo Chauí (1995) en-
lha a síntese que se dá entre os ções política e econômica. Por- contram-se na ação do sujeito éti-
textos de Lévi-Strauss, Jacques tanto, pelas personagens da obra co que vive os valores morais ou
Monod e Karl Marx, apontando de Graciliano, os três sistemas de virtudes, perseguindo meios que
nas relações acima o marco da Lévi-Strauss, assim como a cons- o levem a atingir os fins éticos.
existência do homem como um ciência do funcionamento das E, conforme Álvaro Valls (1982):
ser cultural. Aponta-as dentro de relações definidoras do nível de
um processo pelo qual esses ele- cultura do homem, em Libânio, Falar de ética, é falar do problema
mentos se dão simultânea e dia- são apontados em crise. da liberdade, (requisito funda-
mental para a existência do su-
leticamente. Quando o homem Embora a perspectiva de tra- jeito moral). Não tem sentido falar
teve condição de exercitar-se em balho, de Graciliano Ramos, seja de norma ou responsabilidade se a
um desses elementos, estava a da linguagem literária, pode gente não parte da suposição de que
o homem realmente é livre ou pode
posta a possibilidade de exerci- ser identificada através de sua es- sê-lo. (...) Também não tem sentido
tar-se nos outros. Portanto, são tética uma preocupação, sobre- falar de responsabilidade, palavra
elementos distintos entre si, mas, tudo, ética. E como diz Maria das que deriva de resposta, se o condici-
onamento ou o determinismo é tão
ao mesmo tempo, imbricados Graças de Morais Augusto: Gra- completo que a resposta aparece
um no outro. ciliano Ramos não conta histórias, como mecânica ou automática.
João Batista Libânio (1982), de mas expõe uma visão de mundo
Nesse sentido, queremos es-
outra forma e com uma outra (1981, p. 74). O romancista não
tar no encalço de Graciliano Ra-
preocupação, diz, no entanto, a estaria, ao avesso, perguntando
mos quanto à sua leitura sobre o
mesma coisa: O homem é um ser se as suas personagens teriam
homem e sobre a liberdade.
de relações consigo mesmo, com os condição de ser um sujeito éti-
outros homens, com a natureza e com co? Seriam capazes de liberdade,

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O problema da liberdade em Graciliano Ramos – a repercussão ética numa ...

Um selvagem, no meu caso, não te- combinações de xadrez na cabeça?


Crítica a uma con- ria beijado Luísa: tê-la-ia provavel- Eu, sim, estava a calhar para mari-
cepção de mundo mente jogado para cima do piano, do dela, que sou desempenado, gozo
com dentadas e coices, se ela se fi- saúde e arranho literatura. Nova e
zesse arisca. Infelizmente não sou bonita, casada com aquilo, que des-
Esta segunda parte busca a selvagem. E ali estava, mudando a graça! (1979, p. 15)
cosmovisão dos protagonistas e roupa com desânimo, civilizado,
triste, de cuecas. (1979, p. 22)
sua estruturação através das re- Quanto a Luísa, esposa de
lações que eles estabelecem con- Adrião Teixeira, objeto do dese-
Refere-se sempre aos caetés,
sigo mesmo, com a alteridade, jo de João Valério, reportamo-
quando pensa em Luísa e quan-
com o mundo e com o transcen- nos ao valor que este dedica-lhe
do vê conhecimento em outras
dente. Entendemos como Pe. antes e após a sua conquista. Nos
pessoas.
Vaz (1991) e como Libânio (1982) capítulos 6º e 9º, assim se expri-
Quanto ao juízo que faz das
que a detecção de como se dão me:
pessoas com as quais convive,
essas relações é decisiva para a
vale reportar ao capítulo 1º, pelo
compreensão do quadro cultural (...) Resignei-me a ir no domingo ao
qual apresenta as personagens casarão dos italianos. (...) Talvez
pelo qual funciona uma determi-
que farão parte de sua história. Luísa nem reparasse em mim. Exce-
nada concepção de mundo. lente coração. (1979, p. 39)
D. Engrácia é rica, madrinha
Por isso, é importante buscar- (...) Luísa era franca – movimentos
de Marta Varejão, religiosa, bea- decididos, riso claro, grandes olhos
mos as imagens que cada um dos
ta; o Neves, farmacêutico, espí- azuis que lhe deixavam ver a alma.
protagonistas atribui a si mesmo. (...) Luísa era boa, de uma bondade
rita e caluniador; o tabelião, Mi-
A maneira como convive com as que se derramava sobre todos os vi-
randa Nazaré, jogador de xadrez ventes.
outras personagens. O valor que
como Adrião, o advogado Eva- (...) Às vezes, Luísa se revoltava. E
dá ao trabalho. A presença ou a era sempre em razão de uma desgra-
risto Barroca, sério, cortez, apru-
ausência de valores transcenden- ça que não podia suprimir. (...) Fa-
mado, flautista e, que nos capí- lava do sapateiro que tem a mulher
tais que norteiem sua cosmovi-
tulos posteriores será apresenta- tísica e uma ninhada de filhos.
são.
do como politiqueiro; Pe. Ataná- (...) Compreendi a razão por que
Luísa não confessou ao marido a mi-
sio, diretor de A Semana; Isido-
nha temeridade. Uma criatura como
ro Pinheiro, jornalista, pequeno ela não agravaria nunca o sofrimen-
Caetés proprietário, coletor federal, tipo to alheio. (1979, p. 57-59)
excelente; D. Maria José, a pro-
Caetés tem como narrador prietária da pensão onde mora- Tendo conseguido de Luísa
João Valério, que procura contar vam João Valério, Isidoro Pinhei- um relacionamento amoroso, no
a história dos índios caetés e não ro, Dr. Liberato e o Pascoal. capítulo 20, põe-se a refletir so-
o consegue. Em verdade, conta Quanto ao valor que atribui a bre a conseqüência do ato dos
a sua própria história. Procura Adrião Teixeira, seu empregador, dois e tem-se dela uma nova
sempre pensar sua narrativa pa- protetor, amigo que o recebe às imagem:
ra afastar a obsessão por Luísa, quintas feiras e aos domingos, as-
mulher de seu patrão Adrião Tei- sim se manifesta João Valério: (...) Livre dos atributos que lhe em-
xeira. E ao pensar em Luísa, com- prestei, Luísa me apareceu tal qual
era, uma criatura sensível que, ten-
para a civilização à barbárie, a (...) De Adrião Teixeira, um velhote do necessidade de amar alguém, me
cultura com a natureza e tem in- calvo, amarelo, reumático, encharca- preferia ao Dr. Liberato e ao Pinhei-
do de tisanas. Outra injustiça da ro, os indivíduos moços que freqüen-
veja dos índios sobre quem pro-
sorte. Para que servia homem tão tavam a casa dela. (1979, p. 142)
cura escrever: combalido, a perna trôpega, cifras e

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João Pereira Pinto et al.

Após a brincadeira que faz Isi- teriais e de sua condição de em- Diretor do Jornal, e não como
doro Pinheiro sobre o casamen- pregado de Adrião Teixeira. Es- diretor espiritual das almas des-
to de João Valério com Marta Va- te, um sujeito marginalizado, se povo. No entanto, sua presen-
rejão, este põe-se a pensá-la, co- considerado uma pessoa sem ça se constitui sempre num pa-
mo se dá no capítulo 6º: história, cita fatos importantes da pel de moderador das ações e
História do Brasil por ter neces- impõe alguma preocupação mo-
No escritório dos Teixeira, (...) dedi-
cava-me às minhas ocupações sin- sidade de fazer parte dela. ral quanto ao que se diz das pes-
gelas – e as idéias esvoaçavam em Quanto à relação com o trans- soas.
redor da Marta Varejão. (...) Aquilo cendente, começamos por ver o Ainda quanto ao Padre, o nar-
prometia. Estava acabado, ia atirar-
me a ela, como diz o Pinheiro. E se a comportamento religioso de João rador aproveita para ironizá-lo,
D. Engrácia lhe deixasse a fortuna, Valério. E conforme sua expres- dado que na sua preocupação de
bom casamento, negócio magnífico. são: (...) Toda a minha alma estava associar a arte de Cassiano, o alei-
(...) Mas era bonita, e os bens da vi-
úva davam-lhe encantos que a prin- empregada em adorar Luísa (1979, jado, às figuras bíblicas, revela
cípio eu não tinha descoberto. Toca- p. 109). E, no capítulo 16, ao sa- uma certa ignorância da história
va piano... Falava francês... Fazia flo- ber pelo Pe. Atanásio do desejo sagrada. O Padre, sempre que
res de parafina. Compreendi que as
de Cesário em contratá-lo, o que quer dar uma mensagem impor-
flores eram na realidade os únicos
objetos úteis. O resto não valia nada. lhe facultaria distanciar-se de tante, recorre a um certo escritor
(...) Ficávamos noivos, casávamos, Luísa, assim se manifesta: francês que publicou um artigo
D. Engrácia morria. Imaginei-me numa revista.
proprietário... indo viver no Rio de Se eu fosse crente, ter-me-ia lança-
Janeiro com Marta... Eu seria um do aos pés do reverendo, abrindo as
Quanto à profissão de fé do
marido exemplar e Marta uma com- portas da minha alma. Não sou ateu narrador, ao final da história, este
panheira deliciosa, dessas fabricadas por infelicidade, e apesar de sofrer se revela também ironicamente:
por poetas solteiros. Atribuí-lhe fi- muito, não queria dar a mim mes-
lhos destinados a Luísa... Suprimi mo a ilusão de que dividia o meu
Nicolau Varejão, ser inútil. (1979, infortúnio com outra pessoa. (1979, Descrente? Engano. Não há nin-
p. 36-37) p. 127) guém mais crédulo do que eu. E esta
exaltação, quase veneração, com que
No entanto, Nicolau Varejão, ouço falar de artistas que não conhe-
E refletindo sobre o relaciona- ço, filósofos que não sei se existiram!
aqui considerado “ser inútil”, ti- mento afetivo que teve com Luí- Ateu! Não é verdade. Tenho passa-
po inferiorizado por todos e de sa, no capítulo 20 diz: do a vida a criar deuses que morrem
quem a própria filha procura se logo, ídolos que depois derrubo –
afastar, tem uma grande proxi- uma estrela no céu, algumas mulhe-
(...) E Deus liga pouca importância res na terra... (1979, p. 217)
midade com João Valério, que a bichinhos miúdos como nós: tem
não sabe a História do Brasil nem em que se ocupe e não vai bancar o
espião de maridos enganados. É im- Quanto ao ambiente de Cae-
encontra quem saiba os detalhes possível que algum Deus considere tés, apresenta-se o pequeno
de que precisa para a composi- as minhas relações com Luísa cen-
suráveis. Ninguém as conhece, só
mundo da cidade pequena do
ção dos seus caetés. Nicolau Va-
nós podemos julgá-las – e os nossos interior, com as suas intrigas, a
rejão sabe fatos importantes da
corações não nos acusam. (1979, p. pequena atividade comercial, já
História, mas sempre os narra de 143-144)
descrita na relação das persona-
maneira incoerente e fictícia. Co-
gens, no primeiro capítulo.
mo João Valério, sente a necessi- Pe. Atanásio é uma persona-
Mas, para o Mestre Antonio
dade de encontrar alguma im- gem importante na história de
Candido (1992):
portância em si mesmo. Aquele João Valério. Porém, aparece
pensou produzir o romance a muito mais como uma figura tra- (...) Mais importante do que tudo
partir de sua perda dos bens ma- dicional da cidade interiorana, (...) é a função simbólica dos caetés,

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O problema da liberdade em Graciliano Ramos – a repercussão ética numa ...

encarnando o que há de permanen- A história pode ser sintetiza- refletirão um adulto amargo,
temente selvagem em cada homem;
da da seguinte forma: Luís da Sil- rancoroso, possui grande dificul-
lembrando que, ao raspar-se a cros-
ta policiada, desponta o primitivo, va, funcionário público, apaixo- dade em relacionar-se consigo
instintivo e egoísta, bárbaro e infan- na-se por Marina. Estes mantêm mesmo e com os outros.
til. (p. 73-75) um relacionamento que chega Aliada a esses problemas, sur-
Na última página do livro, até o noivado com o endivida- ge uma sociedade injusta que
dando um balanço melancólico mento de Luís graças às tendên- acirra a competição entre os in-
na sua vida e na da cidade, João cias de um caráter fraco e mal- divíduos, fazendo com que estes
Valério sente essa presença cons- formado de Marina que gasta to- se alienem da sua condição hu-
tante. do o seu dinheiro com bobagens. mana, do seu trabalho e de seus
Esta apaixona-se por Julião Tava- semelhantes, animalizando-os;
Não ser selvagem! Que sou eu se- res, bacharel e comerciante que fazendo com que seus instintos
não um selvagem, ligeiramente po- pertence a um nível social mais mais rudes e primitivos se des-
lido, com uma tênue camada de ver-
niz por fora? Quatrocentos anos de elevado, podendo proporcionar- pertem e se desprendam através
civilização, outras raças, outros cos- lhe a realização de seus mínimos da violência que nada mais é que
tumes. E eu disse que não sabia o caprichos. a anunciação da renúncia à liber-
que se passava na alma de um caeté!
Provavelmente o que se passa na
Surge então um profundo dade.
minha, com algumas diferenças. Um ódio de Luís da Silva por Julião Graciliano Ramos se incumbe
caeté de olhos azuis, que fala Portu- Tavares, dado o sentimento de justamente de retratar toda a mi-
guês ruim, sabe escrituração mer-
que este, ao mesmo tempo, rou- séria humana, enfatizando a im-
cantil, lê jornais, ouve missas. É isto
um caeté! (1979, p. 217) ba a sua noiva e simboliza aque- portância da liberdade e a angús-
la parte da sociedade que o des- tia gerada pela tomada de cons-
preza e o marginaliza. Esse ódio ciência e posicionamento do ho-
Angústia culmina com o assassinato de mem frente à sua realidade his-
Julião Tavares e a prática de um tórica. Assim, ao longo do texto,
A história centraliza-se nas aborto por Marina, para de certa reflete sobre as relações do ho-
personagens Luís da Silva, Ma- forma estancar as raízes dani- mem com o meio ambiente em
rina e Julião Tavares compondo nhas desse relacionamento con- que vive.
assim um verdadeiro triângulo siderado sujo. Luís da Silva nasce em uma
amoroso que dá a impressão de Há nitidamente no romance fazenda que vai gradativamen-
ser o fator responsável pelo des- um confronto entre as estrutu- te afundando em dívidas. Assim
moronamento ético e moral de ras dinâmicas da personalidade: conta de sua situação:
todas as personagens que ao lon- id, ego, superego; referências
quanto à formação do caráter das Os negócios na fazenda andavam
go da narrativa mostrarão a fra- mal; (...) Eu andava no pátio, arras-
gilidade humana face aos emba- personagens, baseadas em trau- tando um chocalho, brincando de
tes que a vida lhe proporciona. mas vividos durante a infância, boi. Minha avó, Sinha Germana,
que refletirão na formação pos- passava os dias falando só, xingan-
Essa narrativa, feita na pri-
do as escravas, que não existiam.
meira pessoa, centrada no eu do terior do adulto. (1979, p. 11)
personagem Luís da Silva, é uma Dessa forma, Luís da Silva,
obra ligada aos princípios da psi- cuja infância se representa reple- Com a morte de Camilo Pe-
canálise, que tem como pano de ta de lembranças e traumas refe- reira da Silva, seu pai, as dificul-
fundo o estudo do inconsciente rentes ao abandono, a morte, a dades aumentam. Luís passa a
e do comportamento humano. solidão, a carência afetiva, que viver como um retirante dormin-

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João Pereira Pinto et al.

do muitas vezes ao relento e se igualdade entre as pessoas. As- E eu chego.


– Informe lá, seu Luís.
estabelecendo em lugares sujos, sim se exprime: comovo-me lendo
E eu informo. Como sou diferente
como declara à página 37: Tenho os sofrimentos alheios, penso nas mi- de meu avô. (p. 26)
vivido em numerosos chiqueiros. nhas misérias passadas, nas viagens
Percebe-se então que Luís, ao vi- pelas fazendas, no sono curto à beira Por esse descontentamento
ver nesse ambiente conturbado das estradas ou nos bancos dos jar- de Luís frente à posição social
e deplorável, carregará traços em dins (1979, p. 109). Preocupa-se que ocupa e pela sua consciên-
sua personalidade que refletem com aqueles outros mendigos, cia de explorado, criticam-se as
esses lugares, como diz na mes- que já foram seus companheiros imposições de uma sociedade ca-
ma página: Provavelmente esses de estrada: o que teriam em suas pitalista e excludente.
imóveis influíram no meu caráter. pequeninas almas de parafusos fa-
Passa a enxergar seus seme- zendo voltas num lugar só?. (1979,
lhantes com os olhos carregados p. 109) Infância
de amargura. Vê todos os seus Nesse sentido, há aqui, mais
convivas como criaturas fracas, uma vez, a problematização da Uma obra autobiográfica,
débeis. E Marina será o maior al- carência de liberdade e da neces- quando a infância, até mais ou
vo de suas críticas. A mocinha, no sidade da consciência de ser uma menos 12 anos, é narrada numa
lado de lá da cerca, não me dava aten- pessoa humana. Segundo Kon- mistura de memória e ficção, em
ção. Perua. Cabelos de milho, unhas der, para Marx, o homem é o pri- que o autor, sentindo-se o tem-
pintadas, beiços vermelhos e o per- meiro ser que conquistou certa liber- po todo injustiçado, ferido e
não aparecendo (1979, p. 36). Ca- dade de movimentos em face da na- oprimido, seleciona os aconteci-
racteriza Marina com feições se- tureza. Nessa história surge um mentos do seu passado pela mar-
mellhantes a uma prostituta e Luís que deseja que o homem ca de sua subjetividade já como
reafirma sua opinião.... Escolher domine a natureza de forma a adulto, embora carregue consi-
marido por dinheiro. Que miséria! atender às necessidades de todos go o “eterno menino”. Como ob-
Não há pior espécie de prostituição. os homens, mas não sem sufo- serva Wilson Martins (1979): em
(1979, p. 83) cá-los pela exploração. Ao pen- todas as suas obras podemos “ler fa-
Considera Julião Tavares, um sar a vida dessa maneira perce- tos e personagens de sua infância”.
sem-vergonha, ladrão, desones- be nitidamente o lugar que ocu- É um livro onde Graciliano
to, como cita à página 107 e diz pa na sociedade. Sente e repro- Ramos critica a autoridade sem
que seu Ramalho, pai de Mari- duz o afunilamento social que limite dos pais, o sistema trans-
na, é um moleirão, que não per- sofreu, relatando a redução de missor de ideologia da escola, a
cebe os problemas e distúrbios seu nome: falsidade no relacionamento dos
em sua casa. Na crítica que faz homens. Para o menino, a injus-
das pessoas de seu relaciona- Volto a ser criança, revejo a figura tiça e a opressão, marcas de uma
mento, transfere a elas as suas de meu avô, Trajano Pereira de Aqui-
no Cavalcanti e Silva... meu pai, re- vida sem respeito pelo outro, im-
imperfeições, medo e fraquezas. duzido a Camilo Pereira da Silva... pediu-o de conhecer-se a si mes-
Ao relacionar-se com o que o (p. 11) mo, dado que não teve liberda-
transcende, enxerga a vida ape- de para se relacionar com o mun-
nas como uma forma de explo- Relata também o que sente do.
ração da sociedade. Não tem quanto à sua atividade funcio- Como nas obras de ficção, sua
uma crença religiosa, porém cla- nal. autobiografia romanceada tam-
ma ao longo do texto por maior bém busca conhecer a essência

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O problema da liberdade em Graciliano Ramos – a repercussão ética numa ...

do ser humano. Através de suas tade que essa criança começou Esse mestiço pachola teve influên-
cia grande e benéfica na minha vida.
recordações, busca justificativas seu processo de mudança, de
Desanuviou-me, atenuou aquela pu-
para entender o Graciliano adul- crescimento, como atesta o capí- silanimidade, avizinhou-me da es-
to. São justamente os episódios da tulo “Chegada à vila”: pécie humana. (1979, p. 103)
infância que marcam fundamente a
psicologia do adulto. De repente me vi apeado, em aban- A partir do momento em que
dono completo, num mundo estra- o menino Graciliano dá conta da
Nuvens – a primeira palavra
nho....
escrita pelo autor nos remete ao (...) Longe da fazenda, considerei-me sua capacidade de enxergar o
sentimento de incertezas que o fora da realidade e só. outro, ele se sente numa relação
menino nutria em relação a si (...) O meu desejo era gritar, pedir de engajamento com esse outro.
informações. (1979, p. 46)
mesmo. Segundo a simbologia, Pois, conforme Aranha e Mar-
(...) E achei-me na rua, encolhido,
conforme Nádia Julien (1989): murcho. (1979, p. 47-48) tins:
(...) as nuvens evocam a nebulosida-
de, uma visão obscura das coisas e O menino se descobre uma As relações entre os homens não são
de contigüidade, mas de engendra-
também a melancolia e tristeza. As- pessoa, parte de uma família, de
mento, isto é, os homens não estão
sim temos um indício de que uma sociedade. Mas, vê-se sozi- simplesmente uns ao lado dos ou-
Graciliano Ramos, ao escrever nho, com medo, miúdo, insignifi- tros, mas são feitos uns para os ou-
cante (1979, p. 35). Começa a des- tros.
Infância, está em busca de si e a
princípio se deixa parecer confu- cobrir o outro. E como é o outro?
E segundo Sartre, apud Ara-
so, como qualquer ser humano Conforme o narrador: (...) pai e
nha e Martins,
que vai tentar responder às dú- mãe, entidades próximas e domina-
vidas de sua vida, já que quan- doras... (1979, p. 11); Batiam-me (...) se verdadeiramente a existência
do criança não pôde questionar. porque podiam bater-me e isto era precede a essência, o homem é res-
natural. (1979, p. 31) ponsável por aquilo que é. Assim, o
Assim, pelo cerceamento da
primeiro esforço do existencialismo
liberdade, o menino Graciliano E nessa descoberta do outro, é o de pôr todo o homem no domínio
se via cheio de dúvidas, envol- há um capítulo interessante so- do que ele é e de lhe atribuir a total
vido pela incoerência do próprio bre o Cabo José da Luz, descrito responsabilidade da sua existência.
E, quando dizemos que o homem é o
pai, quanto ao conceito de justi- assim pelo narrador: responsável por si próprio, não que-
ça, como no caso da prisão de remos dizer que o homem é respon-
Venta Romba pelo simples fato José da Luz era terrível. Metia gen- sável pela sua restrita individuali-
te na cadeia, dava surras e muxicões dade, mas que é responsável por to-
de ter assustado a sua família. nos feirantes... (1979, p. 101); (...) dos os homens. (1986, p. 330)
Quanto mais o menino tentava Deu-se então o caso extraordinário.
conhecer-se, mais se via envolto O soldado pregou os cotovelos no Insistentemente, o menino
balcão e pôs-se a conversar comigo...
em nuvens, pois sentia que não busca o saber da vida que tem
José da Luz não esperava de mim ne-
tinha liberdade para ser ele mes- nhum favor: a conversa dele era gra- pela frente; através da reflexão,
mo, para agir conforme sua von- tuita. (1979, p. 102) do outro, de si mesmo. E isso le-
tade e então poder desvendar va-o a uma maior visão de mun-
seus próprios segredos. Parece que esse episódio na do. Ao voltar-se para dentro de
Conforme Sartre, apud Mari- vida de Graciliano Ramos veio si mesmo, o menino Graciliano
lena Chauí, o que importa não é mostrar-lhe que as pessoas po- cresce e se descobre. Ao se en-
saber o que fizeram de nós e sim o dem ser diferentes de como as contrar com o que sempre fora,
que fazemos com o que fizeram co- imaginamos. Como ele mesmo ele se supera. O menino começa
nosco (p. 14). Foi contra a sua von- diz: a transcender-se, a descobrir que

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João Pereira Pinto et al.

uma força o impulsiona para a de. E é também, contraditoria- pagação de sua ideologia, a sa-
vida, para um mundo totalmen- mente, pelo trabalho que o ho- ber: a imprensa, a escola, a igreja etc.
te desconhecido. Mesmo sem ser mem se perde, animaliza-se, alie- Uma vez hegemônica, essa clas-
valorizado, como gostaria, ele se na-se, torna-se um estranho para se influirá na justiça e em todas
descobre como uma parte, ainda si mesmo. as outras instituições dessa or-
que mínima, do social. É impul- Segundo Karl Marx: dem jurídico-política.
sionado também para a busca de Enquanto os aparelhos ideo-
conhecimento. O meu desejo era (...) na produção social de sua exis- lógicos de Estado funcionam
gritar, pedir informações. (1979, p. tência, os homens estabelecem rela- perfeitamente, as diferenças de
ções determinadas, necessárias, in-
46) dependentes da sua vontade, rela- classe são obscurecidas e o pro-
ções de produção que correspondem cesso de exploração das classes
a um determinado grau de desenvol- inferiores dar-se-á com seguran-
vimento das forças produtivas ma-
Crítica às estruturas teriais. O conjunto dessas relações ça, uma vez que se encontra
de produção constitui a estrutura amortecida a consciência dos ex-
sociais, econômicas econômica da sociedade, a base con- plorados, e, dessa forma, os ex-
e políticas creta sobre a qual se eleva uma su-
plorados estarão assimilando e
perestrutura jurídica e política e à
qual correspondem formas de cons- defendendo os valores expressos
Graciliano foi um apaixonado sub- ciência social. O modo de produção pela ideologia dominante.
versivo, contra as injustiças sociais da vida material condiciona o desen-
e contra toda sorte de alienações no No entanto, quando por al-
volvimento da vida social, política e
plano político e econômico. Mas intelectual em geral. Não é a consci- gum motivo essa ordem é colo-
sempre manifestou essa sua incon- ência dos homens que determina o cada em questão, os aparelhos
formidade com o establishment do seu ser; é o seu ser social que, inver-
modo aparentemente mais fagueiro,
ideológicos deixam de funcionar,
samente, determina a sua consciên-
mais conciso, mais clássico. (Tristão cia. (apud Aranha, Martins, 1986, correndo-se o risco da desestru-
de Athayde, 1979) p. 285) turação da ordem econômica e
social estabelecida. Falhada a
Estabelecida a cosmovisão A superestrutura nas obras de ação dos aparelhos ideológicos,
dos protagonistas das histórias Graciliano Ramos para que não se desestruture a
de Graciliano, pelas relações que Considerada a superestrutu- ordem estabelecida, entram ime-
eles travam consigo mesmos, ra como a organização jurídico- diatamente em ação os aparelhos
com os outros homens, com o política, suas instituições e as ideo- de repressão.
mundo e com o transcendente, logias em jogo na comunidade Nas histórias de Graciliano,
queremos demonstrar que essa dos homens, esta se estruturará, em cada obra, vê-se a crítica que
concepção de mundo padece do conforme diz Louis Althusser, tece a esses aparelhos, como a
que Erich Fromm chama de “a em aparelhos ideológicos e apa- Imprensa, a Justiça, a Escola, a
doença do século”, a alienação. relhos de repressão. Religião e, também, de uma ma-
Para compreendê-la, percor- Como a sociedade é constituí- neira muito aguda, estabelece-se
reremos as trilhas do idealismo da de classes sociais, cada classe a crítica aos aparelhos que se en-
hegeliano e do materialismo de formulará a sua ideologia. Mas, carregam da repressão e conse-
Marx, partindo do princípio de no confronto que se estabelece qüentemente da despersonaliza-
que para falar do ser no homem entre as ideologias e, conseqüen- ção dos homens.
pode-se passar pelo seu fazer no temente, entre as classes sociais,
mundo. Pelo trabalho o homem será hegemônica aquela classe
se constrói, liberta-se, transcen- que detiver os aparelhos de pro-

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O problema da liberdade em Graciliano Ramos – a repercussão ética numa ...

(...) a vida humana, limitada por três


O problema da grandes injustiças – a morte, a opres-
grande escola, síntese das duas
anteriores, pela qual se introduz
liberdade em são e a separação dos amantes –, não
tem nenhuma finalidade lógica na- o conceito de possibilidade ob-
Graciliano Ramos tural – pois é um dos elementos do jetiva. Reconhece que nossas es-
mundo absurdo e injusto. A finali- colhas são condicionadas pelas
dade e o sentido da vida devem ser
Considerando Sócrates (470- circunstâncias naturais, psíqui-
buscados pelo próprio homem, e seus
399 a.C.) como o pai da Filosofia melhores guias são o sentimento de cas, culturais e históricas em que
Moral ou da Ética, encontramos justiça e a noção de honestidade para vivemos, mas que a liberdade é
com seus semelhantes.
como estrutura de seu pensa- um ato de decisão e escolha en-
(...) Para Camus, um dos limites do
mento o preceito délfico do “co- ser humano é o respeito que ele deve tre vários possíveis.
nhece-te a ti mesmo” e como mé- ter pelo semelhante e por si mesmo. O possível é o que vem à exis-
todo a maiêutica, tendo a ironia A alienação social é, por isso mes-
mo, um crime, assim como as solu-
tência graças ao nosso agir. A
como parte constitutiva. Por ela, ções individuais que ferem os direi- partir do que está dado, a liber-
Sócrates discute, com os atenien- tos dos outros homens e da própria dade encontra-se na disposição
ses de seu tempo, se são justas pessoa que faz uso delas – como é o
para interpretar os vetores do
caso do suicídio, a pior das evasões,
as leis de sua cidade e se são eles porque é a supressão do maior dom campo presente como possibili-
conscientes da essência das vir- humano, a consciência. Em O mito dades objetivas de novas dire-
tudes ou valores morais ou se de Sísifo, conclui que o homem só ções e novos sentidos.
é verdadeiramente livre quando
apenas vivem a vida, a partir do Dessa forma, diz a Profª Ma-
toma consciência de seus limites.
senso comum. Portanto, ser um rilena Chauí: o exercício da liber-
sujeito ético implica possuir uma Marilena Chauí (1995) apre- dade é ético, à medida que com-
consciência ética e problematizar senta três grandes concepções fi- porta três momentos:
os valores pelos quais se orienta losóficas sobre a liberdade. A pri- 1) reconhece a contradição
e conduz a sua vida. meira, atribuída a Aristóteles e a entre o ideal e a realidade;
Por caminhos diferentes dos Sartre (com algumas variantes), 2) busca a possibilidade obje-
de Sócrates, Graciliano tem o de que “a liberdade é o princí- tiva de concretizar o que se
mesmo intuito e busca realizá-lo pio para escolher entre alterna- põe como ideal;
a partir do pensamento social e tivas possíveis, realizando-se co- 3) decide agir e escolhe os
dialético que buscou a idéia de mo decisão e ato voluntário”. A meios para a ação.
uma vida social mais justa, com segunda, atribuída ao estoicis- Por essa proposta de exercício
a superação das injustiças econô- mo, a Espinosa, a Hegel e Marx da liberdade, feita pela Profª.
micas mais gritantes. (também com variantes), pela Marilena Chauí, tendo caminha-
Maria das Graças de Morais qual conservam a idéia aristoté- do à busca de “o mundo e o ho-
Augusto, em sua dissertação de lica de que liberdade é autode- mem dos livros de Graciliano,
Mestrado, na UFRJ, expõe em terminação, mas não colocam a nas relações do homem com o
seu título: O absurdo na obra de liberdade no ato de escolha rea- meio ambiente, com a alterida-
Graciliano Ramos ou de como um lizado pela vontade individual, de, o transcendente e a sua au-
marxista virou existencialista. e sim na atividade do todo do toconsciência”, quisemos ter sur-
Para Camus (1913-1960), de qual os indivíduos são parte. O preendido a discussão que a obra
cujo conceito de absurdo trata todo é a natureza, para os estói- de Graciliano pode sugerir quan-
Maria das Graças: cos e Espinosa; a cultura, para to à questão “da liberdade huma-
Hegel; e a formação histórico- na face aos determinismos da
social, para Marx. E a terceira natureza, das relações sociais,

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João Pereira Pinto et al.

das relações de poder e das rela- Construindo histórias que reve- estrutura social, econômica e po-
ções de produção”. E ouvimos lam a ideologia dominante, fez lítica, ilumina a busca de um su-
Graciliano dizer em suas Memó- pensar também a possibilidade jeito que, pelo encontro com a al-
rias do cárcere: da produção de um discurso teridade, faz-se consciente de si
contra-ideológico. Compondo mesmo.
Liberdade completa ninguém des-
fruta: começamos oprimidos pela
histórias pelas quais se deixam E para terminar, rememora-
sintaxe e acabamos às voltas com a passar o determinismo e a fatali- mos o que dele escreveu Tristão
Delegacia de Ordem Política e Soci- dade, levou-nos a pensar no que de Athayde:
al, mas, nos estreitos limites a que
está e no que não está em nosso
nos coagem a gramática e a lei, ain-
poder realizar. Graciliano Ramos ficará na história
da nos podemos mexer.
de nossas letras como a imagem do
Enfim, cada uma de suas his-
escritor em sua mais pura expres-
Pelos seus livros, ele se me- tórias leva-nos a pensar num no- são, isto é, de homem e de obra in-
xeu. Construindo histórias que vo homem, livre da miséria tan- corporados numa mensagem e num
revelam a estrutura na qual se to material quanto cultural, livre exemplo que a beleza estética da obra
e a pureza moral do homem consti-
produz a alienação, levou o seu das cadeias da alienação, livre tuem um monumento perene em
leitor a caminhos pelos quais pu- das prisões da ideologia. E, em nossa cultura de todos os tempos.
desse proceder à desalienação. cada história, problematizando a

Referências bibliográficas
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CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1995.
JULIEN, Nádia. Dicionário de símbolos. Tradução de Luís Roberto Seabra Malta. São Paulo: Rideel, 1989.
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RAMOS, Graciliano. Caetés. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 1979.
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VALLS, Álvaro. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Primeiros Passos, 177).

14 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 5-14, out. 1998


Imagens da posteridade: mito ou ideologia na literatura política das Luzes? ...

IMAGENS DA POSTERIDADE: MITO


OU IDEOLOGIA NA LITERATURA
POLÍTICA DAS LUZES
(Notas sobre a imagem de Luís XIV em
Saint-Simon, Montesquieu e Voltaire)

Marcos Antônio Lopes


Departamento de História – UFOP

J
RESUMO ean-Marie Apostolidès (1988), Peter Burke
O presente artigo discute a cons- (1993) e Nicole Ferrier-Caverivière (1981)
trução e perpetuação da imagem de
Luis XIV a partir da análise e do demonstraram as vias pelas quais se cons-
comentário de textos de Voltaire,
Saint-Simon e Montesquieu sobre truiu a imagem do “maior e mais terrível
o monarca.
príncipe do universo”.1 Nessas obras, os auto-
res discutem de que forma a criatividade dos
mais talentosos artistas dos séculos XVII e XVIII foi colocada em ação
para construir e consolidar a magnificência de um reinado e a glória
pessoal de um rei, pela celebração grandiosa de seus feitos, fossem eles
realmente grandes ou mesmo inexpressivos. Peter Burke chega ao ponto
de lançar a tese ousada de ter sido a retumbante propaganda monár-
quica de Luís XIV, que não poupou nenhuma forma de expressão artís-
tica – medalhas, gravuras, arcos de triunfo, estátuas eqüestres etc... – o
primeiro grande marketing político pragmaticamente elaborado na his-
tória do Ocidente.

1 Uma das mais celebradas legendas cunhadas em retratos militares de Luís o Grande.

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Marco Antônio Lopes

Em seu L’image de Louis XIV, exaltar a glória de um jovem XIV, não há nada surpreendente: pa-
ra um monarca tão preocupado com
N. Ferrier-Caverivière discute, príncipe – outrora aguardado
sua glória, a comparação com os ho-
tomando como base empírica por toda a França como Dieu- mens ilustres da Antigüidade se im-
um volume assustador de textos donné – que não encontrava ri- punha a todo momento. (...) Pouco
literários que cobrem o período vais em toda a história. Como importam, então, as referências uti-
lizadas; elas são somente pretextos
de 1660 a 1715, os recursos de afirmava uma dessas homena- que valem menos por elas mesmas
que Luís XIV lançou mão para gens obrigadas, Des justes préten- que para o fim a que elas servem:
fomentar a chamada “Querela tions du roi sur l’Empire, do advo- louvar Luís XIV. Não se busca se-
não acumular fórmulas que, indis-
dos Antigos e Modernos”. Tra- gado Aubery, até mesmo o gran- tintamente, e às vezes até de uma
tou-se de uma moda literária que de Carlos Magno maneira contraditória, demonstram
acabou por degenerar em confli- a esmagadora e indiscutível superio-
ridade de Luís XIV. (Ferrier-Cave-
to de essência política. Nesses (...) é um modelo bastante fraco para
rivière, 1981, p. 355)
“debates e combates” travados nosso príncipe, do qual as ações he-
róicas farão reconhecer à posterida-
na Académie Française, Luís XIV de que ele terá apagado a glória que Os historiadores mais recen-
foi sempre o centro do discurso. se deu [ao imperador], e ultrapas- tes de Luís XIV demonstraram
O Grande Rei foi comparado aos sou de muito longe em valor e em que os franceses do século XVII
sabedoria todos os reis seus prede-
príncipes da Antigüidade greco- cessores. (Ferrier-Caverivière, acreditaram verdadeiramente
romana e em meio ao incenso 1981, p. 354) em seu maior mito político. Mas
que exalava da literatura dos pa- no fim do reinado do Grande
negiristas da Académie, em mai- Entre os mitos que consolida- Príncipe, o mito também decli-
or grau daqueles escritores que ram a reputação guerreira do na. Entretanto, é preciso consi-
tomaram partido pela superiori- maior monarca da história da derar que mesmo nos anos de
dade dos Modernos, sempre Europa, conta-se a passagem de maior glória do monarca, em que
com muito mais força e prestígio Luís XIV por um pequeno braço o poder real assume a natureza
que um Augusto, que um Ale- do Reno, em época de estiagem, de espetáculo político, existiram
xandre, que um César. O Mo- que foi transformada pelos turi- outras correntes de mentalida-
narca tornou-se um fenômeno ferários numa das maiores proe- des que fizeram opções políticas
político que conseguiu conden- zas militares do reino e imortali- bem diferentes dos devaneios
sar em si mesmo os traços de zada no quadro de Le-Conte co- apologéticos em torno da reale-
uma cultura diversificada. Na mo a travessia heróica do Prínci- za solar. Fénélon, Pascal, La Bru-
construção da imagem de prín- pe que doma as águas profun- yère, por exemplo, foram auto-
cipe triunfante foram colocados das e furiosas para vencer os ini- res muito mais voltados para as-
em cena elementos da tradição migos da França. Como diz um suntos relativos à “salvação pú-
clássica, do cristianismo medieval de seus maiores admiradores, blica” da França, e se recusam a
e da cultura renascentista, fundi- Voltaire, no Le siècle de Louis integrar o coro da idolatria mo-
dos e atualizados pela idolatria XIV, “a passagem do Reno foi nárquica de seu tempo.2 Mas
monárquica do século XVII. uma mistificação, uma ‘exagéra- qual a imagem que a posterida-
A partir dos primeiros anos de tion’”. Para N. Ferrier-Caverivière, de construiu sobre Luís o Gran-
seu reinado pessoal, que teve de? De que forma se desenvol-
(...) que os temas complacentemen-
início em 1661, muitos mitos po- te tratados pelo patriotismo do sé- vem as reflexões críticas que se
líticos foram elaborados para culo XVI fossem retomados por Luís seguiram àquelas contemporâ-

2 Acerca desse aspecto, ver o capítulo “O catálogo dos valores: o século XVII e a idéia do príncipe perfeito”, de meu livro O
político na modernidade, a sair futuramente pela Editora Loyola.

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Imagens da posteridade: mito ou ideologia na literatura política das Luzes? ...

neas do próprio Rei, partidas de do Grande Rei, fruto de uma ver: “um rei absoluto, quando ele não
é um monstro, não pode desejar se-
elementos que conviveram até admiração que muitas vezes se
não a grandeza e prosperidade de seu
muito proximamente ao Sobera- aproxima de um fascínio sem re- Estado, porque ela é a sua própria,
no, como o duque de Saint-Si- servas. Mas os juízos negativis- porque todo pai de família quer o bem
mon, numa determinada fase de tas de um Fénélon ou de um Pas- de sua casa. Ele pode se enganar so-
bre a escolha dos meios, mas não está
sua vida? Entre os autores aqui cal, por exemplo, também ecoa- em sua natureza que ele queira o mal
abordados, seria possível verifi- ram pela França pré-iluminista. do seu reino”. (Bluche, 1993, p. 16)
car uma convergência de discur- Na província, Montesquieu es-
sos sobre o Patriarca de Versa- creveu uma extensa obra, aliás Contudo, a posteridade have-
lhes? Entre os escritores selecio- muito rica em imagens luiscator- ria de revelar um dos grandes
nados, que elementos aproxi- zianas (1958), revelando um es- detratores de Luís XIV, Saint-Si-
mam ou afastam suas represen- pírito crítico que tende para o mon. Duque e par de França, co-
tações do Grande Rei e por quais meio-termo, ou, se não tanto, pa- meçou a escrever suas Memóri-
vias cada um desses elementos ra uma crítica bem menos apai- as (1953) no ano de 1720, mas de
chegou a Luís XIV, elegendo-o xonada que os gritos indignados maneira bem irregular. Apenas
como tema central de vários de de Saint-Simon. em 1723, com a morte do regen-
seus textos? Em seu excelente L’Ancien te, Filipe de Orléans, seu prote-
Inegavelmente, Luís XIV foi régime: institutions et société, tor, Saint-Simon se retira da ce-
um grande rei. Contudo, sua François Bluche detecta com na política para se exilar em suas
imagem foi retrabalhada tanto qual espírito Montesquieu escre- terras de La Ferté-Vidame. De
por uma certa vertente da litera- veu sobre o regime monárquico acordo com J. M. Bizière e J. Solé,
tura do século XVIII – na qual en- de seu tempo. Nesse caso, trata- a partir de seu afastamento da vi-
contramos nomes como Saint-Si- se de considerações genéricas, da pública (1723),
mon e Montesquieu – quanto mas que sem dúvida revelam os
(...) lhe restariam trinta anos para
pela própria historiografia con- traços de sua inspiração para pensar em suas Mémoires, à reda-
temporânea, que não compreen- com Luís XIV e seu modus operan- ção das quais ele se dedica seriamen-
deram muito bem o seu caráter di. Muito interessante, aliás, é a te a partir de 1739, idéia que ele aca-
riciava há dezenove anos. (Colin,
perdulário e sua política de guer- aproximação que F. Bluche faz 1993, p. 232)
ras suicidas. Nas Lettres persa- deste autor com Voltaire:
nes, Montesquieu o reprova A rigor, as Memórias exprimem
abertamente por ser mais rico Montesquieu no L’esprit des lois sua insatisfação e seus rancores
revela sua preferência por um “go-
que o rei da Espanha, sem ter o verno moderado”, substituído pela em relação ao Rei. Criticou Luís
ouro que esse possui, simples- monarquia absoluta, sem ter a sen- XIV em quase tudo: sua pessoa,
mente porque dono de uma vai- sibilidade para ver que o regime de seu espírito, suas idiossincrasias,
Luís XV, se é “absoluto” na ordem
dade mais inesgotável que as mi- seus empreendimentos. Oficial
teórica, é perfeitamente temperado
nas do império espanhol. Entre (ou moderado) sobre o plano práti- do exército francês, não perdoa-
os grandes escritores políticos da co. O presidente de Montesquieu é, va a Luís XIV o fato de ter usado
primeira metade do século XVIII, verdadeiramente, um ideólogo. Vol- regimentos da mais prestigiosa
taire, seu contemporâneo, estava, ao
que se ocuparam de sua memó- contrário, ligado à monarquia abso- armada da Europa em constru-
ria, Voltaire talvez tenha sido o luta. O escritor, que aplaudia o des- ções, como fez em Versalhes. Pa-
seu grande cultor: dedicou a ele potismo esclarecido de Frederico II ra um nobre de sangue da estir-
na Prússia, e justificara o golpe de
um livro imenso, e o conjunto de força do chanceler Maupeau na pe de Saint-Simon, isso era deci-
sua obra está repleto de imagens França (1771), não temeu em escre- didamente um abuso. A esse res-

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Marco Antônio Lopes

peito criticou o Rei como perdu- ta anos dos eventos que narra. taire, que não escreveram pou-
lário e vaidoso, o “maníaco por Com certeza, essa distância his- co, como é notório. Sobre esse as-
construções” que “transformou tórica ampliou sua perspectiva, pecto, os comentaristas de Vol-
montanhas em vales, e ainda ao mesmo tempo que atenuou taire fazem lembrar que a desi-
achou colinas para derrubar ”, suas emoções. gualdade qualitativa de sua obra
acerca da construção de Marly. Fato curioso, os três autores se deve ao fato de esse “demô-
Como ele mesmo confessou, viveram sob o reinado do Gran- nio” ter passado a vida inteira
suas Mémoires foram redigidas de Rei e dois deles até entretive- praticamente com a pena na
como evasão de suas ambições ram relações muito próximas mão. Luís XIV foi uma espécie de
profissionais no exército, frustra- com Versalhes: excetuando Mon- obsessão para o duque de Saint-
das pelo soberano: abandonou o tesquieu, Saint-Simon viveu na Simon, que lhe concedeu amplo
serviço militar por não ter con- corte e o jovem Voltaire partici- espaço em suas Memórias, o
seguido se promover a brigadei- pou de missão diplomática na Monarca surgindo explicitamen-
ro. Como se ele mesmo, Saint-Si- Holanda em 1713, acompanhan- te no texto, e nas entrelinhas.
mon, fosse um modelo de virtu- do o embaixador de França a Voltaire, além da obra monu-
des. Ora, ele é o retrato mais aca- Haya. Montesquieu viria a Paris mental que dedicou ao Sobera-
bado do cortesão inútil, aquele algum tempo depois, cidade na no, foi extremamente fértil em
tipo parasitário que Luís XIV de- qual até chegou a residir e pela referências ao Rei – e por que não
testava tanto, justamente um rei qual nutria grande simpatia, de- dizer também reverências – que
que associava toda a sua glória a vido ao desenvolvimento de sua aparecem fulgurantes em inú-
um amor imenso pelo trabalho. república das letras. Entretanto, ex- meros textos de sua extensa obra.
A esse respeito, François Bluche cluindo parte das Memórias de De nossos três autores, Montes-
observa que Saint-Simon, suas melhores re- quieu é sem dúvida o menos
flexões sobre Luís XIV e seu rei- pródigo em projetar imagens lu-
(...) o rei detestava os cortesãos pu- nado surgiram anos mais tarde, iscatorzianas em seus textos. En-
ramente decorativos, os cortesãos
ociosos e inúteis dos quais o duque já na aurora das Luzes. Passada tretanto, dedicou ao Grande Rei
de Saint-Simon era o tipo perfeito. a euforia artística e literária que espaço considerável em vários
(Bluche, 1993, p. 51) celebrou durante quase quatro de seus trabalhos, reunidos em
décadas a grandeza e magnifi- suas Oeuvres complètes com o
O certo é, que, nas Memórias,
cência de Luís XIV, o fenômeno título de Mes pensées, sendo
Saint-Simon reflete com a amar-
da idolatria real é contemporâ- que o espectro do rei surge es-
gura de um perfeito desventu-
neo ao término do reinado de parsamente em quase toda a sua
rado:
um príncipe que não foi capaz obra.
Foi mesmo este amor pela verdade o de sustentar sua glória até seu Um problema que intriga é o
que mais prejudicou minha sorte; eu leito de morte. Mas um grande fato de, sendo Voltaire talvez o
compreendi, mas preferi a verdade a rei deixa marcas profundas no escritor político mais ácido que
tudo (...); posso dizer mais: que a
amei contra mim mesmo. tempo; ainda mais um rei que o século XVIII produziu, o críti-
não mediu esforços para imorta- co social que denunciou com in-
Apesar de suas aversões, Saint- lizar sua própria imagem. trepidez toda a dureza e os rigo-
Simon é reconhecido pela since- De fato, imagens do Rei-Sol res excessivos do absolutismo,
ridade de suas opiniões; ele tem aparecem em uma parcela mui- por que construiu uma imagem
a vantagem de estar separado to significativa dos textos de tão positiva de Luís XIV, mesmo
por aproximadamente uns trin- Saint-Simon, Montesquieu e Vol- reconhecendo os grandes e su-

18 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 15-23, out. 1998


Imagens da posteridade: mito ou ideologia na literatura política das Luzes? ...

cessivos equívocos que ele come- lidade real com as funções admi- ca ao espírito nobiliárquico dos
teu ? A severidade de nossos dois nistrativas da monarquia. séculos XVII e XVIII, porque es-
aristocratas seria o reflexo de re- É possível que tenham perce- teve sempre viva nos sentimen-
calques contra um Rei que tripu- bido que, em seu próprio tem- tos de uma aristocracia que a tra-
diou tão ousadamente sobre os po, vivia-se sob um regime polí- dição de séculos sempre havia
grands, fenômeno até então des- tico quase puramente jurídico, colocado nos pontos mais eleva-
conhecido em um reino de tão sem mais a representação clara dos do exército e das administra-
longa história? e benfazeja da imagem do prín- ções central e provinciais. Os
Uma hipótese que também cipe, de seu império pessoal e rancores de Saint-Simon são elu-
deve ser considerada está rela- direto, de sua autoridade caris- cidativos a esse respeito:
cionada ao fenômeno que Jean- mática. Daí a presença do Gran-
Pouco a pouco, o rei obrigou toda a
Marie Apostolidès distingue co- de Rei em suas obras, mesmo gente a servir e a aumentar sua cor-
mo a passagem do rei-maquinis- que enfocado sob ângulos tão te, até mesmo aqueles de quem fazia
ta à condição de rei-máquina. díspares, e muitas vezes com ad- o menor caso. (...) Foi outra habili-
dade para arruinar os nobres, e acos-
Isto significa que os antigos la- moestações até bem severas. É
tumá-los com a igualdade, e à mis-
ços de afeto, que uniram realeza bom lembrar que as idéias expri- tura com toda gente, de modo que
sagrada e súditos durante sécu- midas por Voltaire, apesar do as pessoas nascidas para mandar nos
los, estão sendo rompidos por es- sentido geral inequivocamente outros, tiveram de permanecer no
terreno das idéias e não se acharam
sa época, fato que o mesmo au- positivo acerca do julgamento do mais dentro de nenhuma realidade.
tor denomina como “a inorgani- Soberano, encontram-se carrega-
cidade do corpo simbólico do rei- das de ambigüidades. Dessa forma, seria possível con-
no”. Com efeito, foi a partir de Apesar de Robert Muchem- cluir que nossos aristocratas fo-
Luís XV que se implantou clara- bled relativizar a veracidade his- ram mais rígidos porque refle-
mente a nova tendência já pre- tórica da máxima saint-simonia- tem, numa posteridade ainda
nunciada das redes de institui- na do “longo reinado da vil bur- muito próxima, sobre o despre-
ções administrativas, fenômeno guesia”, ao afirmar com razão zo e o rebaixamento que Luís
que não apenas despersonaliza que já em fins do século XVIII XIV impôs aos de seu rang?
o poder real, mas afasta e isola o não se pode mais definir clara- É bem possível que nossos
soberano de seus súditos. Esses mente nobreza e burguesia, que três autores tenham chegado a
autores, cada qual monarquista as elites do Antigo Regime não Luís XIV, como tema, por vias
à sua maneira, parecem dar mos- podem ser encaradas como blo- bem diferentes. Saint-Simon, cla-
tras de que Luís XIV represen- cos monolíticos, porque se en- ramente, por seus rancores de-
tou o último ponto de equilíbrio, contravam estratificadas e cruza- clarados, ainda que sua queda
ao conseguir associar a persona- das,3 creio que a máxima se apli- para o memorialismo histórico e

3 Molière viveu o período de maior glória do reinado de Luís XIV e discutiu com imenso talento a atração que um título de
nobreza exercia sobre os burgueses ricos de seu tempo. Como ele apontou, em seu risível O burgês fidalgo, seu personagem
entregaria de bom grado dois dedos de sua mão ao cepo, se disso dependesse, para se tornar nobre. São Paulo, Abril Cultu-
ral, 1981. No tempo de Voltaire, o ethos do universo aristocrático continua a exercer seu irresistível fascínio sobre os espíritos.
Revelando sua alma burguesa, conta esse autor que “Na França é marquês quem quer, e qualquer um que chegue a Paris
vindo dos confins de uma província, com muito dinheiro para gastar e um nome em ac ou ille, pode dizer: “um homem
como eu” ou “um homem de minha qualidade”, e desprezar soberanamente um negociante. Este, de tanto ouvir falar com
desprezo de sua profissão, acaba sendo bastante tolo para enrubescer-se. Contudo, não sei o que é mais útil a um Estado:
um senhor empoado que sabe a que horas o rei se levanta e se deita, com ares de grandeza, fazendo papel de escravo na an-
tecâmara de um ministro, ou um negociante que enriquece seu país, dá ordens a Surata e ao Cairo sem sair de seu gabinete,
e contribui para a felicidade do mundo”. “Cartas Inglesas”. In: Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1978. p. 16.

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Marco Antônio Lopes

político o obrigasse a cruzar fre- quieu sintetizou como ninguém e toda sorte de manifestações ar-
qüentemente com o Rei, mesmo essa perplexidade: “O reinado tísticas, os feitos e a glória do so-
muito tempo após a morte des- do falecido rei foi tão longo que, berano (Burke, 1993). Quando
te; Montesquieu, pelas preocu- em seu fim, ninguém se lembra- Voltaire afirmou que o reinado
pações naturais que um filósofo va mais de seu começo”. De fato, de Luís XIV não cessara com sua
político tem para com a nature- a duração de seu reinado é im- morte, terminando anos depois
za dos regimes políticos e as for- pressionante, sem qualquer pa- dele, reflete com propriedade o
mas pelas quais o poder está ins- ralelo em toda a história do Oci- fenômeno do cosmopolitismo da
tituído pelo mundo, o que de- dente cristão, o que, em seu pró- imagem real, a longevidade da
monstrou com brilho, apesar dos prio tempo, pareceu simbolizar memória de um Rei que em seu
equívocos de interpretação co- a intemporalidade de um reino próprio tempo “os estrangeiros
metidos, nas Lettres persanes e e de uma família eleita pelos mis- iam em tropel admirar sua corte
no L’esprit des lois; o grande térios dos céus. Como lembra [e seu] nome era conhecido em
Voltaire, por suas incursões no Voltaire, o Rei “viu renovar três todos os países do mundo”. Com
terreno da História, por força do vezes as gerações de príncipes da efeito, o fato de se falar numa Eu-
ofício de historiógrafo de Luís Europa”. Saint-Simon recorda ropa francesa no século XVIII
XV. Desse modo, por exigências que tem muito a ver com a atividade
da função, eles praticamente fo- conquistadora de Luís XIV, que,
(...) teve uma longa agonia que aca-
ram conduzidos, e de certa for- bou num domingo, 1º de setembro,
fazendo ecoar o tropel de sua ca-
ma obrigados, a se encontrar às oito horas e um quarto da manhã, valaria por tantos reinos, levou
com o Rei. Memorialista de cor- três dias antes de completar 77 anos, junto a expansão da cultura le-
no decorrer do 72º ano de seu reina-
te especialmente interessado pe- trada, os costumes refinados de
do. Sobreviveu a todos os filhos e ne-
lo submundo de Versalhes? Pen- tos, com exceção de seu sucessor, do Versalhes e o charme do idioma
sador político dedicado às teori- rei da Espanha, e dos filhos deste a praticamente todos os países da
as sobre o poder? Intelectual bri- príncipe. A Europa nunca vira tão Europa Ocidental. Como notou
longo reinado, nem a França um rei
lhante, apaixonado pela Histó- tão idoso. um prócer estrangeiro, Frederico
ria? Um pouco de tudo isso, com II da Prússia, “o francês é o passa-
certeza. Mas, parece que há algo O marketing político rendia seus porte que introduz as pessoas em
mais. frutos, várias décadas após o de- todas as casas e em todas as cida-
Como se refere Nicole Ferri- clínio do Astro do Dia, porque o des da Europa”. (Réau, 1951)
er-Caverivière, o Rei-Sol é uma Rei ainda estava demasiadamen- Não se pode perder de vista
imagem ainda muito fulgurante te vivo na memória. E não fora o fato de que, apesar de terem
na primeira metade do século exatamente essa a vontade con- sido homens nascidos no fim do
das Luzes. No pré-Iluminismo, fessada do Rei, ao ponto de en- Grand Siècle, foi exatamente esse
Luís XIV projeta uma imagem terrar efígies e medalhas? século XVII, de conquistas do
que exerce fascínio sobre o círcu- De fato, a Académie des Belles pensamento, que sedimentou o
lo dos pensadores políticos e dos Lettres foi competente em sua caminho para a explosão de cria-
homens de letras de uma poste- propaganda monárquica. Fun- tividade da Idade da Razão. O
ridade que não conseguira es- dada em 1663 por alguns desta- fato inegável é que o nome de
quecer ainda o maior mito polí- cados membros da Académie Luís XIV ecoou como o de ne-
tico da França. A própria exten- Française, alcançou com êxito nhum outro rei de França; seja
são de seu reinado foi algo que seus objetivos: transmitir à pos- para combater o mito, seja para
espantou a Europa, e Montes- teridade, inscritos em medalhas redimensioná-lo, com a devida

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Imagens da posteridade: mito ou ideologia na literatura política das Luzes? ...

distância histórica, ou mesmo décadas depois de seu advento, Grand Siècle ao Siècle des Lumiè-
para o enaltecer, o velho Rei é uma irresistível fascinação. O res, o que ele mesmo chamou de
personagem ainda muito pre- Grande Rei não surge na poste- “la mécanique de la cour”. Isso
sente na literatura do século ridade trabalhando sob o viés de porque seus textos abordam uma
XVIII, sendo retomado por inú- uma ideologia nova, cuja crítica, variedade de temas relacionados
meros escritores do pré-Iluminis- muitas vezes avassaladora sobre à sociedade de corte. Num estilo
mo. Através de uma primeira o despotismo do período prece- objetivo, sem pretensões a escre-
abordagem dos textos, é possível dente, poderia levar à inclusão ver obra filosófica ou de erudi-
pensar que, com o devido afas- da Realeza Solar em seu campo ção, Saint-Simon constitui-se
tamento, que tornou desneces- de abrangência. Luís XIV surge num memorialista de primeira li-
sárias as homenagens obrigadas, antes como mito, aliás, como o nha, que consegue unir à elegân-
tão ridicularizadas por Voltaire, maior mito político da França cia do estilo análises penetrantes,
a posteridade pôde construir re- moderna e contemporânea, até sem cair no anedotismo estéril.
tratos os mais diversos, em inter- o advento de Napoleão. De maneira imaginativa, e mui-
pretações muito mais livres do A partir de seu reinado pes- tas vezes impiedosa, Saint-Si-
Soberano: soal, sua figura esteve no centro mon desenvolve com talento de
de um conjunto complexo de grande escritor, e de psicólogo
Tudo que enxergo nesses discursos imagens e símbolos, elaborado penetrante, a arte de contar mil
é que o novo membro, tendo assegu- pelas mais diversas formas de histórias curiosas, nas quais ex-
rado que seu predecessor era um
grande homem, que o cardeal Riche- manifestações culturais e artísti- plora sem cessar incidentes mui-
lieu era um muito grande homem, cas. Para o seu tempo, ou até para tas vezes ridículos da sociedade
que o chanceler Séguier era um bas- alguns anos depois, é fato bem de corte, mas sempre revelando
tante grande homem, que Luís XIV
era ainda mais do que um muito compreensível. Mas que estra- os elementos constitutivos des-
grande homem, o diretor lhe respon- nha metamorfose fez com que o se interessante meio social. Com
de a mesma coisa, acrescentando que mito de Luís Dieudonné se man- efeito, o melhor de Saint-Simon
o novo membro poderia também ser
tivesse tão vivo na consciência está na extraordinária galeria de
uma espécie de grande homem e que
ele, diretor, não deixa de ter parte dos franceses cultos, décadas e retratos dos grandes e dos pe-
nisso. (1978, p. 44) décadas depois de sua morte? quenos homens de seu tempo, os
Por que nossos autores resgatam quais conheceu de perto e até
É possível conjeturar ainda das cinzas do passado a memó- privando, com eles, segredos e
que a morte de Luís XIV não re- ria de um Rei cuja morte fora intimidades.
presentou o fim de uma menta- comemorada por Paris e toda a Na galeria de Saint-Simon,
lidade: o Príncipe em triunfo, ce- França? Como sua imagem foi em que surgem figuras descritas
lebrado e consagrado pela litera- focalizada por esses representan- com o detalhismo de um minia-
tura até meados do século XVIII. tes da nova sociedade política turista, seu retrato mais trabalha-
Jean Meyer demonstrou que francesa do século XVIII, há mui- do foi sem dúvida o de Luís XIV,
Luís XIV já nascera como um mi- to liberta da presença opressora a quem não poupou nem quan-
to, sob o signo de uma expecta- do Rei? do advieram suas maiores des-
ção que contagiou toda a Fran- Saint-Simon se apresenta co- graças. Sua vasta obra interessa
ça. Com efeito, na Época Moder- mo um dos autores mais fecun- como fonte porque penetra nos
na, um mito político como o de dos, na revelação do ethos muito meandros da sociedade do An-
Luís XIV não perde o brilho fa- peculiar da cultura letrada fran- tigo Regime. Analista profundo
cilmente, exercendo, até várias cesa, no ponto de viragem do da psicologia humana, em espe-

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Marco Antônio Lopes

cífico da mente cortesã, Saint-Si- Luís XIV faz inúmeras apari- visão sobre a monarquia e aque-
mon reconstitui aos seus leitores ções em vários textos desse gen- le que foi sua expressão mais
os sentimentos nobiliárquicos tilhomme iluminista. Encontra- completa.4
dos séculos XVII e XVIII, numa mos o Grande Rei nas Lettres A figura de Luís XIV é uma
época em que as elites viveram persanes. Nessa obra, Montes- imagem recorrente em quase to-
seus tempos mais difíceis. Daí quieu se revela um crítico parti- dos os textos de Voltaire. De fato,
surge um Luís XIV abordado sob cularmente pouco lisonjeiro, o Rei aparece de maneira aberta
uma perspectiva que reflete, com mas muito distante da acidez de ou velada em sua obra filosófi-
certeza, todas as angústias de um um Saint-Simon ou da simpatia ca, literária e histórica. Entretan-
segmento social pouco acostu- irrestrita de um Voltaire. Dentre to, a presença do rei se faz muito
mado a ser lançado nas sombras os autores selecionados, Montes- mais constante no conjunto de
da subalternidade. quieu parece representar uma obras que seu editor e comenta-
Pensador eclético, e de fôlego espécie de meio dourado, para rista, René Pomeau, reuniu sob
enciclopédico, as preocupações retomar uma figura aristotélica, a forma dos textos históricos,
de Montesquieu se espraiaram o que permite perceber impor- daqueles livros que Voltaire es-
por diferentes áreas do conheci- tantes nuanças. Sua inclusão en- creveu no espírito de historiador.
mento. Aliás, esse é bem o senti- tre os textos selecionados objeti- Nessa coleção de textos integrais
do da filosofia no Século das Lu- va alcançar um quadro ao mes- encontram-se, juntamente com o
zes: o conhecimento da nature- mo tempo mais completo e mais Le siècle de Louis XIV, uma His-
za e da sociedade. Daí o interes- complexo da imagem real. toire de Charles XII, um Essai
se do autor pelas ciências natu- Montesquieu, em suas obras sur les moeurs et l’esprit des na-
rais, da mesma forma que Voltai- de filosofia política, e em seus en- tions, e outros trabalhos meno-
re fora cultor da física newtonia- saios de Direito e de História, de- res, nos quais sempre é possível
na. A tendência dos philosophes senvolveu análises muito pro- encontrar um Luís XIV magnifi-
no século XVIII era incluir como fundas acerca do fenômeno do cente, um Rei quase sempre em
parte integrante de seu domínio absolutismo monárquico, siste- triunfo, um Monarca exuberan-
um espectro muito amplo de te- ma político que a geração prece- te, um Soberano sem paralelo na
mas. De fato, pode-se encontrar dente, e a sua própria, vivencia- história de toda a Europa, segun-
nas obras de Montesquieu uma ram na prática. Nas Lettres per- do a perspectiva otimista em que
variedade bem grande de temá- sanes, obra que revela todo o fas- Voltaire concebeu o Grande Rei.
ticas que vão, desde teses sobre cínio que o Oriente exerce sobre Com certeza, essas imagens re-
anatomia humana e física ótica, a civilização européia na primei- correntes do Príncipe resultam
passando pela história dos cos- ra metade do século XVIII, Mon- da concepção que Voltaire fez de
tumes, até a filosofia política e do tesquieu expõe, através de seus seu reinado como um divisor de
direito. personagens, Usbek e Rica, a sua águas entre a barbárie gótica da

4 Ne crois pas que je puisse, quant à present, te parler à fond des moeurs et des coutumes européennes: je n’en ai moi-même qu’une légère
idée, et je n’ai eu à peine que le temps de m’étonner. Le roi de France est le plus puissant prince de l’Europe. Il n’a point de mines d’or com-
me le roi d’Espagne, son voisin; mais il a plus de richesses que lui, parce qu’il les tire de la vanité de ses sujets, plus inépuisable que les
mines. On lui a vu entreprendre ou soutenir de grandes guerres, n’ayant d’autres fonds que des titres d’honneur à vendre, et, par un pro-
dige de l’orgueil humain, ses troupes se trouvaient payées, ses places munies, et ses flottes équipées. D’ailleurs ce roi est un grand ma-
gicien: il exerce son empire sur l’esprit même de ses sujets; il les fait penser comme il veut. S’il n’a qu’un million d’écus dans son trésor,
et qu’il en ait besoin de deux, il n’a qu’a leur persuader qu’un écu en vaut deux, et ils le crient. S’il a une guerre difficile à soutenir, et qu’il
n’ait point d’argent, il n’a qu’à leur mettre dans la tête qu’un morceau de papier est de l’argent, et ils en sont aussitôt convaincus. Il va
même jusqu’à leur faire croire qu’il les guérit de toutes sortes de maux en les touchant; tant est grande la force et la puissance qu’il a sur
les esprits.

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Imagens da posteridade: mito ou ideologia na literatura política das Luzes? ...

Idade Média e a sociedade “civi- sua glória – como ele mesmo di- no e de um Rei que exerceram
lizada” de seu tempo. No Le siè- zia – Voltaire revela o que é a sua uma irresistível fascinação. Co-
cle de Louis XIV, amplo estudo visão da época de maior esplen- mo diz o autor, em sua Lettre à
sobre a história da França, de dor em todos os tempos da aven- Milord Harvey, “non seulement
onde surge um Luís XIV quase tura humana pela terra.5 s’est fait de grandes choses sous
sempre vitorioso sobre os inimi- Dessa concepção extrema- son règne, mais c’est lui qui les
gos, que ele soube como cultivar mente otimista do tempo de Luís fait”.
aos montes, para não obscurecer XIV resulta a imagem de um rei-

Referências bibliográficas
APOSTOLIDES, Jean-Marie. Le roi-machine: spectacle et politique du temps de Louis XIV. Paris: Editions de
Minuit, 1988.
BLUCHE, François. L’Ancien régime: instituitions et sociéte. Paris: Fallois, 1993.
BURKE, Peter. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
DICTIONNAIRE des biographies. Paris: A. Colin, 1993. p. 232.
FERRIER-CAVERIVIÈRE, Nicole. L’image de Louis XIV dans la litteráture française de 1660 à 1715. Paris: PUF,
1981.
REAU, Louis. L’Europe française au siècle des Lumières. Paris: Albin Michel, 1951.
SAINT-SIMON. Mémoires. Paris: Gallimard, 1953. p. 51.
VOLTAIRE. Cartas inglesas. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).
VOLTAIRE. Ouvres historiques. Paris: Gallimard, 1957. Le siècle de Louis XIV.
VOLTAIRE. Ouvres completes. Paris: Gallimard, 1958. Mes pensées.

5 Tous les temps ont produit des héros et des politiques (...) Mais quiconque pense, et, ce qui est encore plus rare, quiconque a du goût, ne
compte que quatre siècles dans l’histoire du monde. (...) Le quatrième est celui qu’on nomme le siècle de Louis XIV, et c’est peut-être celui
des quatre qui approche le plus de la perfection, e mais à frente: Je porte les yeux sur toutes les nations du monde, et je n’en trouve au-
cune qui ait jamais eu des jours plus brillants que la française depuis 1655 jusqu’à 1704. Je prie tous les hommes sages et désintéressés de
juger si un petit nombre d’années très malheureuses dans la guerre de la succession doivent flétrir la mémoire de Louis XIV.

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Ulysses da Cunha Baggio

A CIDADE NA MODERNIDADE
RADICALIZADA: OS MOVIMENTOS
DE LUTA PELA MORADIA*
Ulysses da Cunha Baggio
Mestre em Geografia Humana – USP

O
RESUMO presente trabalho tem como objeti-
Este trabalho se propõe a con- vo principal contribuir para a análi-
tribuir para a reflexão sobre a cida-
de e o urbano no contexto de radi- se daquilo que ainda se constitui
calização da modernidade, toman-
do-se como referência a questão da num dos maiores desafios para o Estado na
habitação popular e dos movimen-
tos de luta pela moradia. No per-
área social: o problema da moradia popular,
curso da análise nos deparamos mais especificamente da moradia subnormal,
com a temática da cidadania e da
relevância da transformação/demo- cujas formas assumidas historicamente são o
cratização da gestão da cidade, em
que a perspectiva autogestionária cortiço, a autoconstrução em loteamentos clan-
adquire centralidade nas nossas
preocupações. destinos e/ou ilegais e a favela. Estas três for-
mas urbanas revelam dois aspectos em comum
que as identificam, isto é, constituem formas de inserção ilegal na cida-
de e são precariamente dotadas de infra-estrutura, sendo que em mui-
tos casos totalmente destituídas da mesma. Na cidade de São Paulo,
por exemplo, o espaço habitacional infranormal concentra aproxima-
damente 55% da sua população total, dado que evidencia a expressiva

* Este trabalho constitui parte adaptada – com diversas atualizações/modificações – de nossa dissertação de mestrado, intitu-
lada A dinâmica das transformações socioespaciais das formas de submoradia no município de São Paulo, apresentada ao
Departamento de Geografia da USP em 1995.

24 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 24-35, out. 1998


A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos de luta pela moradia

dimensão e gravidade do proble- dida não tivemos a intenção de lizar níveis melhores de qualida-
ma. Temos, assim, a produção de fornecer nenhum registro deta- de de vida aos segmentos soci-
uma cidade paralela: precária, lhado de experiências particula- ais envolvidos, e que, ao mesmo
clandestina e ilegal. Compreen- res. Entretanto, consideramos tempo, sejam mais condizentes
dê-la significa desvendar os pro- fundamental o exame de duas com os pressupostos da cidada-
cessos de produção mais amplos significativas evidências empíri- nia.
do espaço urbano, apreender a cas, localizadas na periferia urba- Entre os cortiços, as favelas e
sua lógica no interior do proces- na da cidade de São Paulo, na as habitações autoconstruídas
so de acumulação capitalista, Zona Norte, no bairro do Tucu- em loteamentos clandestinos e/
suas contradições e seu caráter ruvi, mais especificamente na Vi- ou irregulares evidenciam-se al-
de exclusão e segregação socio- la Paulistana e arredores. gumas características em co-
espaciais. Ao mesmo tempo, si- Assim, através deste eixo de mum, que imprimem a estas for-
naliza para novas possibilidades análise pretendemos mostrar as mas urbanas uma identidade
de tratamento/resolução dos relações existentes entre o pro- socioespacial, ou seja, a marca da
problemas que lhes são própri- cesso de desenvolvimento eco- pobreza, da exclusão/segregação,
os, sugerindo, na dimensão de nômico do capitalismo no Brasil da clandestinidade e ilegalidade,
suas relações cotidianas, novas – precipuamente em São Paulo da violência e da subcidadania.
formas de gestão, de trabalho e – com a dinâmica da produção Em outras palavras, constituem
de organização social. Entende- das formas de submoradia, pro- a expressão mais acabada de
mos que no percurso destas prá- curando, de certo modo, pôr em uma urbanização predatória e
ticas socioespaciais talvez esteja relevo o caráter de exclusão do espoliativa na periferia do capi-
o seu maior legado, isto é, o en- modelo de acumulação vigente talismo, fruto de uma forma es-
contro com a cidadania. Em tem- no País através de sua expressão pecífica de seu desenvolvimen-
pos de radicalização da moder- socioespacial – seu testemunho to nos domínios do subdesenvol-
nidade, aceleração e difusão se- indubitável –, isto é, a reprodu- vimento. E a cidade é a instância
letiva do processo de globaliza- ção ampliada de um espaço ha- na qual se manifestam, com mai-
ção, as questões socioespaciais bitacional marcado pela precari- or contundência, as relações de
adquirem proeminência no mo- edade infra-estrutural. Nesta produção capitalistas e as contra-
vimento da realidade, sobretudo perspectiva analítica, coloca-se dições de classe que lhe são ine-
quando se constata o avanço da como questão fundamental a re- rentes, expressas nitidamente
exclusão e da pobreza, de desco- lação entre o Estado e o planeja- através dos contrastes entre a ri-
nexão forçada de territórios e mento urbano, acerca da qual queza e a pobreza. Sobretudo
sociedades de tal processo, pon- defendemos uma visão amplia- nos países subdesenvolvidos,
do em evidência a sua face per- da de Estado, que se consubstan- constata-se que, quanto mais se
versa. Nesse contexto, as condi- cia nos marcos do planejamento efetua o desenvolvimento/mo-
ções de reprodução social, prin- participativo. Acreditamos ser dernização da sociedade, mais se
cipalmente no espaço urbano, este o caminho mais profícuo e aprofundam as disparidades so-
ganham centralidade para todos democrático para a construção ciais e, portanto, espaciais, dado
aqueles que aspiram a um mun- de uma cidade de cidadãos, o que o espaço também é um re-
do com trajetórias socialmente que pressupõe a definição de flexo da sociedade. E a habitação,
mais justas e dignas. estratégias para o tratamento do enquanto necessidade funda-
Isso posto, gostaríamos de sa- problema habitacional que efe- mental à reprodução da vida so-
lientar que na análise empreen- tivamente contribua para viabi- cial, emerge neste contexto como

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 24-35, out. 1998 25


Ulysses da Cunha Baggio

um indicador do modus vivendi munitárias têm sido basicamen- mental entre o valor de troca e o
urbano, o qual é condicionado, te o único meio através do qual valor de uso da terra urbana. No
em grande medida, pelas formas é possível conseguir reverter, âmbito do espaço social, esse
como se processa o desenvolvi- ainda que parcialmente, aquelas conflito significa a transformação
mento socioeconômico numa condições do viver nos espaços progressiva do uso pelo poderio/
dada sociedade. habitacionais precários. A orga- força da troca e, dialeticamente,
Em que pese a diferenciação nização comunitária torna-se, a reação do uso contra a troca,
de acesso à habitação e aos de- dessa maneira, uma necessidade expressa, sobremaneira, pelas lu-
mais meios de consumo coletivo, na luta mais ampla pela cidada- tas sociais urbanas, efetivos mo-
em função da estratificação soci- nia, na conquista de direitos bá- vimentos de resistência ao mo-
al e, desse modo, da capacidade sicos ao desenvolvimento da vi- vimento avassalador e excluden-
desigual de se pagar por eles, a da, constituindo-se um ingredi- te do capital sobre o solo urba-
cidade se transforma no campo ente de grande relevância na vi- no. Neste sentido, “o espaço não
privilegiado das lutas sociais, da cotidiana desses segmentos é apenas produzido em função
entre as quais por moradia. Tra- sociais, onde suas demandas di- das condições de reprodução do
ta-se, portanto, das condições de versas são, muitas vezes, absor- capital mas também em função
reprodução da vida humana na vidas pelos movimentos de mo- das condições de reprodução da
cidade. Pensá-la nos tempos ho- radores, os quais se constituem vida humana”. O que vale dizer,
diernos pressupõe considera- como efetivas estruturas organi- então, que
rem-se a atuação e o papel de- zatórias da comunidade.
sempenhados pelos movimen- Na esteira dessas práxis socio- existem estratégias espaciais. Aquela
do capital que o produz (o espaço)
tos sociais, que se afirmam como espaciais urbanas os movimen- enquanto capital fixo – vinculado às
parte integrante da dinâmica da tos expressam os motivos de suas necessidades de reprodução amplia-
sociedade urbana capitalista dos lutas tanto no nível da socieda- da do capital – e aquela da sociedade
que o produz enquanto meio de con-
tempos atuais. Prescindir deles de civil como da política, canali- sumo coletivo. (Carlos, 1992, p. 84)
implica a perda dessa dimensão zando “desejos, aspirações, ne-
do cotidiano urbano e, portanto, cessidades concretas e, sobretu- Nesta leitura da cidade en-
da sua própria cultura. do, projetos políticos de seus par- quanto espaço de lutas sociais,
Desta maneira, os segmentos ticipantes” (Gohn, 1989, p. 83). interessa-nos, em específico, os
sociais, premidos pela perversa Por outro lado, eles também po- movimentos pela moradia, os
precariedade das suas condições dem ser entendidos como verda- quais, entendemos, constituem
existenciais na cidade, vêm utili- deiros indicadores vivos dos pro- expressões territoriais por exce-
zando e desenvolvendo certas blemas urbanos, aspecto que si- lência da contraditória dinâmica
estratégias de ação objetivando naliza para uma abordagem social urbana, definindo, no ní-
a conquista de padrões de vida mais abrangente da cidade e do vel do cotidiano urbano – ao lado
mais aceitáveis, mais condizen- urbano, que transcende os limi- de outras lutas da cidade –, os
tes com a dignidade humana. tes da idéia que concebe a cida- marcos de uma reação à estru-
Essas estratégias pautam-se, em de estritamente como espaço do turação do espaço pelo capital e
grande parte, pela auto-organi- capital. Essa concepção mais am- sua dinâmica inexorável.
zação comunitária, através da pliada sobre a cidade possibilita Esses movimentos nascem de
qual podem-se obter alguns pensá-la também enquanto um forma espontânea, à escala do lu-
avanços no enfrentamento com espaço-produto de lutas sociais, gar de moradia, apresentando
o Estado. Assim, tais práticas co- que revelam o conflito funda- composição heterogênea e cen-

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A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos de luta pela moradia

trados na esfera do consumo de cionalizados pelo Estado e aque- que ganha fôlego no final dessa
bens e equipamentos urbanos de les que não o são. Estes últimos, década e se estende ao longo dos
uso coletivo. Além disso, eles não principalmente, apresentam anos 80. Constituem momentos
atuam de “costas” para o Estado, uma característica transforma- importantes deste processo a
mas diante dele, a que orientam dora, colocando em questão o anistia aos presos e exilados po-
suas reivindicações e pressões próprio caráter da gestão admi- líticos; o Movimento do Custo de
políticas. (ver Ammann, 1991) nistrativa da cidade. Contudo, Vida; as greves operárias do
Nessa mesma perspectiva se consideramos que, mesmo os ABCD e da capital – onde se des-
orienta o pensamento de Lúcio movimentos institucionalizados taca o movimento grevista dos
Kowarick, quando nos diz que “é ou, ao menos, parte deles, tam- metalúrgicos de São Bernardo
nos vários níveis do poder pú- bém desempenham um papel de do Campo; a fundação do Parti-
blico que estão concentrados os relevância no processo de demo- do dos Trabalhadores; as greves
recursos, e qualquer solução da cratização da gestão urbana. de professores, motoristas de
questão metropolitana urbana Com isso, estamos chamando a ônibus e táxis, lixeiros, médicos
passa pela questão dos investi- atenção para que se evitem ge- e outras categorias; a luta por
mentos do Estado”. Avalia, con- neralizações, pois existem efeti- eleições diretas; movimento por
tudo, ser um “absurdo” que a re- vamente movimentos que ope- creches; protestos públicos de
solução dos problemas metropo- ram em regime de co-participa- moradores da periferia e de fa-
litanos se processe exclusiva- ção com o Estado, sem que haja velados, etc.
mente através das burocracias necessariamente a perda da sua Quanto aos movimentos de
estatais, sendo “absolutamente identidade e alteração de seus luta pela moradia a partir dos 70,
necessário criar novos espaços objetivos. Isto remete ao nível de podemos destacar inicialmente
de encontro entre organismos organização dos próprios movi- as Sociedades dos Amigos de
estatais e as assim chamadas mentos que, como já observa- Bairros (SABs), cuja origem está
aglutinações populares”, caben- mos, são marcados pela hetero- vinculada à Sociedade Amigos
do à sociedade efetuar um neces- geneidade. da Cidade (SAC), fundada em
sário “controle das iniciativas do Rememorando brevemente a 1934, que tinha como preocupa-
Estado”. (1985, p. 78) trajetória dos movimentos de lu- ção central orientar e fiscalizar o
Nessa mesma direção, Flores- ta pela moradia no município de crescimento, já intenso, da cida-
tan Fernandes chama-nos a aten- São Paulo, desejaríamos esclare- de de São Paulo. As SABs, em
ção para o fato de que cer que nos ocuparemos funda- específico, surgem no início dos
mentalmente do período que se anos 50 e, a partir de então, pas-
não basta transformar o Estado. É inicia a partir da década de 70, sam a polarizar as lutas de bair-
necessário transformar concomitan-
lembrando, contudo, que as lu- ros em São Paulo. Elas se multi-
temente a sociedade existente, para
impedir que uma minoria continue tas neste campo antecedem esta plicam tanto na capital quanto
a manter indefinidamente certas fase, desenvolvendo-se na estei- em municípios da grande São
posições-chave e estratégicas para o ra do próprio processo de urba- Paulo e também do interior do
exercício da monopolização do Es-
tado. (Folha de S. Paulo, 27/04/ nização da cidade. estado. As SABs tornam-se ór-
1985, in: Gohn, 1991, p. 177) A escolha desta fase se justifi- gãos reconhecidos pelas comu-
ca pelo fato de ser este o período nidades de bairros pobres, pas-
Dado que os movimentos em que se iniciam, a rigor, as lu- sando a representar seus mora-
constituem organismos hetero- tas pelo processo de redemocra- dores junto aos poderes públi-
gêneos, existem setores institu- tização no País (ainda em curso), cos, com o fito de reivindicar be-

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Ulysses da Cunha Baggio

nefícios, permutados por apoio CEBs incentivaram a luta dos tra- reivindicações a legalização da
político. Essa barganha de favo- balhadores na conquista dos favela, pressionando as agênci-
res entre as SABs e representan- seus direitos de cidadania, de- as públicas a aceitarem o pressu-
tes do poder político marcam, nunciando as injustiças sociais e posto de que o uso social define
portanto, o clientelismo e, ao a violação dos direitos humanos, a propriedade. Por sua vez, os
mesmo tempo, a cooptação das tendo desenvolvido em seu meio movimentos pela posse da terra
SABs pelo estado, fato que con- práticas de reivindicação e de em loteamentos clandestinos as-
duziu à perda da sua capacida- luta pelos mesmos, resultando piravam, como se pode perceber,
de de representar os interesses daí a proliferação de diversas ao reconhecimento do título de
verdadeiros dos moradores dos entidades e movimentos sociais propriedade dessas áreas, uma
bairros. Assim, elas caíram no que, ao longo do tempo, foram vez que tinham pago por elas. Is-
descrédito e acabaram sendo paulatinamente ganhando auto- to implica, portanto, o reconhe-
boicotadas pela população, ten- nomia. Na cidade de São Paulo, cimento de um direito do cida-
do sua legitimidade comprome- as CEBs totalizavam, em 1988, dão.
tida, uma vez que esta não pro- 1600 unidades. É importante Abordando especificamente
vém mais das bases, mas do go- destacar que, até os dias atuais, os movimentos de favelados,
verno. Esses fatos explicam o es- a sua atuação se orienta pelas constata-se que eles, ao longo do
vaziamento e a própria transfor- questões assinaladas, que são tempo, foram se expandindo e se
mação das SABs em “entidades seus objetivos principais. diversificando. Nos anos 80, tem
fundamentalmente recreativas”. Ainda na década de 70, tive- início a formação de quatro cor-
(Singer & Brant, 1980, p. 85-91) mos a emergência do movimen- rentes principais no seu interior,
No âmbito das pressões pela to dos favelados, cuja razão de quais sejam: o Movimento Uni-
redemocratização do País após ser era resistir à expulsão de suas ficado de Favelas, Cortiços e
1975, as SABs saíram do seu iso- áreas e lutar por água e luz. Con- Moradores do ProMorar, apoia-
lamento e passaram a se articu- comitantemente, desenvolve- do por um setor do Partido dos
lar entre si, assim como com ou- ram-se as lutas dos moradores de Trabalhadores e pela ala da Igre-
tras lutas urbanas, a exemplo da habitações autoconstruídas da ja vinculada à Teologia da Liber-
luta por transportes, creches e periferia, que reivindicavam, de tação; o Movimento do Conse-
apoio às greves ocorridas em um lado, dotação de infra-estru- lho Coordenador das Favelas,
1978-79 – evidenciando a cone- tura e, de outro, o direito de pos- respaldado pelo PMDB, PCB e
xão entre o movimento de bair- se da casa autoconstruída em ter- PC do B; o Movimento de Defe-
ro e o sindical. renos clandestinos e/ou irregu- sa do Favelado, o mais antigo,
Nessa sua nova fase, nos anos lares. Vale dizer que ambos os apoiado por setores da Igreja e
70, as SABs se vinculam também movimentos se transformaram pela Frente Nacional do Traba-
às novas práticas da Igreja Cató- ao longo do tempo, abandonan- lho; e o Movimento Comunitá-
lica, nas quais a atuação das CEBs do gradativamente as reivindica- rio das Favelas, “o mais frágil e
(Comunidades Eclesiais de Base) ções de caráter pontual por ques- desarticulado – apoiado pelo
– através de seus agentes pasto- tões “qualitativamente mais pro- PTB e PDS” (Ibidem).
rais (leigos e religiosos) – desem- fundas”, tais “como a posse da Trata-se, em síntese, de um
penharam um papel de relevân- terra através do direito real de período de efervescência da mo-
cia indiscutível na organização uso ou da sua compra” (Gohn, bilização popular, no qual tam-
comunitária. Durante os anos de 1989, p. 84). Os favelados, p.ex., bém se processa, como já obser-
resistência à ditadura militar, as passaram a incorporar em suas vamos, a luta dos moradores de

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A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos de luta pela moradia

casas de aluguel e/ou favelas pelo mente 70 famílias. Após essa ocu- são de linha, popularmente co-
acesso à terra, e que os veículos de pação, sucederam outras tantas, nhecida por “gambiarra”) e com
comunicação de massa e o gover- centenas, ficando muito conhe- o fornecimento de água, alimen-
no designam como “invasões”, cida a da Fazenda Itupu, perten- tos, etc. Contudo, isto não é a re-
muito embora os integrantes cente ao IAPAS, também na Zona gra geral. Casos de rejeição ocor-
desses movimentos repudiem Sul, reunindo milhares de pes- rem com relativa freqüência, a
essa denominação, consideran- soas. exemplo do que aconteceu em
do invasores os agentes do capi- Vale registrar que a região da Itaquera em 1984, onde os mo-
tal que operam no solo urbano, cidade que apresenta a maior in- radores das áreas vizinhas pro-
tais como os especuladores imo- cidência de ocupações é a Zona moveram a expulsão de 100 fa-
biliários, entre outros. Assim, Leste, que concentra boa parte mílias, que acabavam de ocupar
autodesignam-se como ocupan- das áreas vazias do município, uma gleba vazia. Por isso, os ocu-
tes. Entre essas lutas, destaca-se perfazendo 35% da sua área lí- pantes buscam arbitrar eventu-
o Movimento dos Sem-Terra, cu- quida (SEMPLA, dado de 1990). ais conflitos com os vizinhos, ta-
ja característica básica, que o dis- Esses “vazios” são os espaços al- refa que não é das mais fáceis.
tingue dos movimentos de fave- vejados pelos movimentos. Al- Um dos cuidados tomados pelos
lados da década de 70, é o fato guns bairros têm se destacado movimentos organizados de
de serem ocupações coletivas e em incidência de ocupações, ocupação de terra é, de modo ge-
previamente organizadas, que quais sejam: São Miguel Paulis- ral, a elaboração de uma carta
envolvem certo número de famí- ta, Ermelino Matarazzo, Itaim aberta que expresse os reais mo-
lias, as quais, conjuntamente, Paulista, Guaianazes e Itaquera. tivos que conduziram os seus in-
procuram uma área para insta- Com uma população de aproxi- tegrantes à invasão do terreno.
lar-se, podendo a mesma perten- madamente 3,5 milhões de pes- É uma forma encontrada por eles
cer ao Estado ou não. Anterior- soas, a região da Zona Leste é para evitar, ou amenizar, possí-
mente à ocupação propriamen- constituída basicamente de mi- veis conflitos com a população
te dita faz-se, por alguns mem- grantes e seus descendentes, re- das circunvizinhanças.
bros do grupo, a definição, no gistrando-se que a maioria dos Neste sentido, pode-se dizer
papel, da dimensão dos lotes, ocupantes de terras urbanas em que as ocupações coletivas encer-
das ruas, etc., aspecto que já não São Paulo são nordestinos, mi- ram um caráter espetacular, à
ocorre no caso da favela. Este é neiros e paranaenses, além de medida que denunciam a exis-
um fator que, sem sombra de parcelas vindas do interior do es- tência de áreas improdutivas na
dúvida, singulariza os movimen- tado. E boa parte dos integran- cidade “vazios urbanos” e, ao
tos organizados de ocupações de tes desses movimentos é consti- mesmo tempo, evidenciam essa
terra, pois a forma de ocupação tuída de favelados. luta para a sociedade, o seu con-
é delimitada com a definição de Ao que se percebe, de modo teúdo e os seus motivos.
lotes. (Rodrigues, 1988, p. 45) geral, a relação existente entre as Entre diversos casos registra-
A primeira ocupação coletiva famílias de ocupantes e os mo- dos de “invasão” de terras urba-
de terra na capital ocorreu em 24 radores das vizinhanças é de to- nas na cidade de São Paulo, des-
de agosto de 1981, no Jardim Fi- lerância, verificando-se manifes- tacamos o caso do Jardim Filhos
gueira Grande, na estrada do M’ tações de solidariedade por par- da Terra, localizado na Vila Pau-
Boi Mirim, na Zona Sul, num ter- te deles com os sem-terra, onde listana, Tucuruvi, o qual tivemos
reno de propriedade da Prefei- contribuem, por vezes, com o a oportunidade de conhecer de
tura, envolvendo aproximada- uso da energia elétrica (via exten- perto. Ele foi o resultado de uma

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invasão organizada pelo movi- aliás, era uma estratégia freqüen- dos a cada uma das reuniões rea-
mento que lhe emprestou o no- temente utilizada pelos movi- lizadas.
me, Filhos da Terra. Esse espaço mentos de invasão de terras ur- A dimensão dos lotes foi pre-
habitacional – produzido e orga- banas do município. A primeira viamente demarcada pela comis-
nizado pelos seus integrantes – providência tomada pelos inva- são de terrenos, atividade efetua-
consolidou-se através do sistema sores foi a construção do barra- da durante as noites. O terreno
de autoconstrução, sem assesso- cão comunitário, o que se expli- foi mapeado e dividido igualita-
ria técnica. ca pelo fato de as lideranças sa- riamente. É interessante registrar
O Filhos da Terra pode ser berem que, depois da construção que o coordenador dessa comis-
considerado o primeiro movi- de qualquer coisa na área, as fa- são foi um homem, de nome Se-
mento efetivamente organizado mílias só poderiam ser retiradas verino, semi-analfabeto, que pra-
de ocupação de terra da Zona mediante uma liminar de despe- ticamente só sabia fazer núme-
Norte da capital paulista. Surgiu jo (ordem judicial) e não apenas ros. Foi ele, contudo, quem pla-
como movimento em abril de por uma ação policial. nejou a organização daquele es-
1983, após processo de ocupação Na época, o movimento pos- paço. Constam do seu projeto
desencadeado por um grupo de suía uma comissão de 30 pesso- uma praça, o centro comunitário,
famílias em uma área da Prefei- as. Formaram-se grupos de tra- a sede da associação de morado-
tura – na época, gestão Mário balho, com funções específicas, res, a área residencial, calçadas,
Covas. tais como, divisão dos terrenos, etc. Entretanto, esqueceu-se de
Com o transcorrer do tempo, segurança, negociação, finanças, fazer as interligações (vielas) das
o movimento passou a contar construção, alimentação, etc. ruas principais, as quais ficaram
com 200 famílias e, em virtude Essa divisão do trabalho é um alongadas e praticamente sem
desse crescimento, a área tornou- bom indicador da organização nenhuma passagem entre elas.
se pequena para abrigar tanta interna do movimento. O lugar onde está localizado
gente. A solução foi sair à procu- Vale registrar que as famílias o Jardim Filhos da Terra consti-
ra de novos terrenos abandona- invasoras permaneceram na área tui parte integrante do conjunto
dos, de propriedade da própria por um ano e dois meses em pro- da pré-Cantareira, caracterizado
Prefeitura, que já estavam reser- cesso de sua negociação quando, pela disposição de morrotes no
vados à construção de moradias finalmente, os resultados apare- plano de sua paisagem, onde a
pelo processo de mutirão. Para- ceram, isto é, a venda dos lotes existência de solo descoberto em
lelamente, o movimento reivin- (5 x 20 m), pagos em oito parce- diversas encostas torna-as bas-
dicava a desapropriação de um las. Sua distribuição foi criterio- tante suscetíveis a processos ero-
enorme terreno de propriedade sa, uma vez que, entre as famíli- sivos, ainda mais em virtude das
da Santa Casa de Misericórdia de as cadastradas, só receberam declividades pronunciadas do
São Paulo. Após diversas nego- aquelas que apresentaram mai- terreno. Esta conformação topo-
ciações frustradas com as auto- or assiduidade e participação nas gráfica, aliada a uma forma de
ridades, o movimento decidiu, atividades realizadas durante o ocupação do espaço inadequada,
em assembléia realizada no dia período preparatório da ocupa- sem critérios técnicos, respon-
11 de fevereiro de 1984, pela in- ção. O movimento tinha contro- dem pela constituição de áreas
vasão desse terreno. Nessa oca- le sobre isso, feito através de um de risco passíveis de escorrega-
sião, o movimento totalizava um sistema de distribuição de car- mentos.
contingente de 1.027 famílias. A tões para os integrantes do mo- Quanto às casas produzidas
invasão deu-se à noite – o que, vimento, os quais eram carimba- pelo processo de autoconstru-

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A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos de luta pela moradia

ção, verifica-se que a sua quase vido o problema de acesso à ter- Dessa maneira, o Jardim Apua-
totalidade é em alvenaria, sendo ra lhes possibilita a busca de no- nã foi uma entre diversas expe-
que uma parte expressiva na for- vas soluções de produção das riências habitacionais realizadas
ma de sobrados, modelo residen- unidades habitacionais, como, p. na cidade de São Paulo, durante
cial em expansão não apenas ex., a utilização da ajuda-mútua a gestão da prefeita Luiza Erun-
nessa área, como em muitas ou- e da autogestão no processo de dina (1989-92), fundamentadas
tras da cidade, podendo-se mes- construção de moradias. Esse na experiência uruguaia.
mo falar num boom de verticali- movimento, em específico, man- A ocupação definitiva desta
zação da autoconstrução. Esse tém significativos canais de ne- área resultou de um processo de
fato é revelador do avanço da gociação com o estado. desapropriação, no primeiro se-
pobreza no espaço urbano. É a Vejamos, acerca disso, o caso mestre de 1989, como uma con-
geograficidade da exclusão so- do Jardim Apuanã, localizado quista do Movimento dos Sem-
cioespacial, na qual a periferia muito proximamente ao Jardim Terra da Zona Norte, ocorrida,
pobre se revela como obra ina- Filhos da Terra, na Vila Paulista- portanto, no início da gestão da
cabada, em constante processo na. E embora sejam espaços fron- prefeita Luiza Erundina. A desa-
de crescimento. teiriços, apresentam trajetórias propriação desta área já havia si-
Esse movimento, dada a sua distintas. do tentada, em vão, na gestão
capacidade de organização e ob- O modelo comunitário do Jar- Mário Covas.
tenção de resultados favoráveis dim Apuanã foi inspirado na ex- O projeto habitacional do
(conquista da desapropriação da periência de cooperativas habi- Apuanã contava com quatro co-
área, etc.), adquiriu expressiva tacionais do Uruguai. Acerca dis- operativas, cada uma delas com
projeção entre os demais movi- so, Nabil Bonduki assinala que quinze comissões de trabalho,
mentos de ocupação existentes entre as quais: assessoria técni-
a influência do cooperativismo uru-
na cidade, tornando-se, mesmo, guaio no surgimento de propostas ca; alvenaria; almoxarifado; com-
um referencial importante de autogestionárias na luta por mora- pras e tesouraria; cozinha; arma-
luta organizada bem-sucedida. dia foi enorme, tanto pelos excelen- ção, serralheria e concretagem;
tes resultados encontrados em ter-
Outro movimento emergen- mos de qualidade, custos e partici-
carpintaria; creche; enfermaria,
te é o de luta dos moradores de pação popular como por apontar etc. Cada cooperativa reunia 200
casas de aluguel e/ou favelas pe- uma proposta habitacional alterna- famílias, totalizando assim uma
tiva onde se buscavam novas solu-
las condições de construção, cujo comunidade de 800, ou seja,
ções. (1992, p. 35)
objetivo básico é a conquista, 3.200 pessoas aproximadamente.
junto ao poder público, de con- O responsável pela intenção de Vale registrar que o terreno foi
dições acessíveis de financia- se fazer o mesmo no Brasil foi o dividido em 400 lotes, medindo
mento da construção da moradia, engenheiro Guilherme Coelho cada um 6,5 x 12 m, que se desti-
devendo este estar compatível que, inicialmente, em 1982, levou naram à construção das moradi-
com o nível de renda dos seus as idéias básicas desse programa as, construídas na forma de so-
demandantes. Esse movimento habitacional ao movimento de brados, comportando cada um
se expressa como uma forma Vila Maria, no município de São deles duas famílias. O sistema de
mais desenvolvida de luta pela Paulo. Essas idéias difundiram- trabalho utilizado na produção
moradia, constituindo-se, mes- se depois para outros movimen- das moradias foi o mutirão-cons-
mo, num desdobramento dos tos populares, não só na capital trução, onde todas as casas foram
movimentos pelo acesso à terra como também em São Bernardo edificadas em alvenaria. O finan-
urbana. O fato de já terem resol- do Campo. ciamento deu-se de forma com-

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Ulysses da Cunha Baggio

patível com a renda de cada fa- construção e organizarem o mu- organização social no interior da co-
munidade que, em última instância,
mília. A distribuição das casas tirão com os futuros moradores.
será responsável pelo desenvolvi-
processou-se mediante sorteio. É interessante observar que a mento do programa e sua adminis-
O projeto foi financiado pelo comunidade podia contratar a tração. (Kaupatez, 1987)
Programa FUNAPS Comunitário mão-de-obra especializada utili-
– implantado pela Superinten- zando-se, para tanto, de até 10% Trata-se, sem dúvida, de uma
dência de Habitação Popular da do total do valor do financia- experiência inovadora e mais de-
Secretaria de Habitação e Desen- mento. A rigor, tal projeto envol- mocrática no trato da questão da
volvimento Urbano (HABI/SE- ve na sua implementação uma moradia popular, que vem ga-
HAB), a partir de 1989. forma de realização do trabalho nhando repercussão em diversos
Entre os integrantes dessa co- pela qual ele se define mais por lugares do País, sobretudo em ci-
munidade existiam pessoas com ser uma prática de co-gestão do dades que implantaram formas
larga experiência na construção que propriamente de autoges- de gestão mais democráticas e
civil, a exemplo de mestres-de- tão. A autogestão, mais especifi- descentralizadas.
obras, pedreiros, carpinteiros, camente, restringe-se ao proces- No que tange à luta dos mo-
eletricistas, etc. Um deles esteve so produtivo, não se estenden- radores de aluguel em casas co-
inclusive no Uruguai, por oca- do, portanto, à totalidade do letivas, isto é, os cortiços, verifi-
sião de um simpósio sobre a ex- projeto. Cabe dizer ainda que a ca-se que, embora os seus mora-
periência uruguaia de coopera- comunidade, como se pode per- dores constituam o segmento so-
tivas habitacionais, realizado em ceber, administra também os re- cial que concentra o maior nú-
1990. Ele fez parte de uma cara- cursos financeiros proporciona- mero de espoliados no espaço
vana organizada pela União dos dos pelo Estado, o que não sig- urbano, também são, provavel-
Movimentos de Moradia de São nifica dizer que não haja nenhu- mente, os mais desorganizados.
Paulo. Este fato, portanto, pode ma forma de controle sobre esse De um lado, apresentam uma
ser interpretado como uma efe- tipo de operação; ela efetiva- parcela diminuta que opera jun-
tiva atividade de aprendizado mente existe. to aos movimentos de morado-
acerca deste modelo habitacional Observe-se, então, como de res de favela, no Movimento
cooperativista. O projeto comu- fato esta experiência reproduziu Unificado. De outro, grupos
nitário foi concebido através de os fundamentos do sistema uru- maiores que estão articulados
trabalho conjunto envolvendo guaio. Nas palavras de Kaupa- com os movimentos de ocupa-
profissionais (arquitetos e enge- tez, quem bem estudou o assun- ção de terra, fato que contribui
nheiros) contratados e pagos pe- to, para ampliar os contingentes de
lo próprio movimento através de “invasores”. As organizações au-
recursos financeiros proporcio- A característica principal desta ex- tônomas no movimento de mo-
periência é a circunscrição do papel
nados pela Prefeitura. do Estado no fornecimento, única e
radores de cortiço praticamente
No projeto comunitário do exclusivamente, do aporte de recur- inexistem, excetuando-se alguns
Apuanã, implementou-se a auto- sos financeiros necessários (totais ou casos na área central da cidade,
parciais) à intervenção, encarregan-
gestão nos processos de trabalho, os quais são assistidos pela Igre-
do-se a comunidade de sua adminis-
onde as associações contratavam tração e aplicação segundo suas pri- ja, mais propriamente “por pa-
assessoria técnica, montavam o oridades específicas. Neste caso, não róquias religiosas, um tanto
canteiro de obras e adquiriam os existem planos preestabelecidos, de quanto tradicionais em sua prá-
parte do aparelho de Estado, para
equipamentos de trabalho, além aplicação dos recursos, o que impli- tica”. (Gohn, 1989, p. 84)
de comprarem os materiais de ca, forçosamente, a evolução de uma Finalmente, é preciso esclare-

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A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos de luta pela moradia

cer que, apesar de estes consti- fundamental na busca de solu- ponto e em quais circunstâncias
tuírem os principais movimentos ções para os problemas comuns ela poderia assim se manifestar,
no campo da submoradia na ci- da comunidade. o fato é que Kropotkin conse-
dade de São Paulo, outras lutas A reflexão realizada acerca da guiu demonstrar, com admirável
também se processam no âmbi- questão da solidariedade e da erudição e inteligência, a univer-
to mais amplo da questão da mo- ajuda-mútua, suscitada pela pes- salidade das instituições de aju-
radia popular no município, en- quisa do caso do Jardim Apua- da-mútua, as quais se manifes-
tre as quais as lutas dos morado- nã, remeteu nosso pensamento tam, guardadas as devidas pro-
res de aluguel de casas unifami- a quem, a nosso ver, melhor con- porções, até os dias de hoje, nos
liares – pelo cumprimento da le- tribuiu ao estudo das formas de mais variados lugares e situações
gislação do inquilinato e, até comportamento solidário, o geó- socioeconômicas. Entre estes,
mesmo, pela sua alteração em grafo anarquista russo Piotr Kro- podemos destacar os ambientes
certas situações –, dos morado- potkin (1842-1921). Suas idéias onde predominam as condições
res dos conjuntos habitacionais foram apresentadas num con- da pobreza, nos quais se inclu-
populares e, ainda, dos morado- gresso de naturalistas realizado em, obviamente, os espaços de
res invasores de imóveis abando- em São Petersburgo, onde sus- moradia popular e, em especial,
nados ou inacabados. tentou que, ao lado da lei da luta aqueles onde prevalecem as for-
Não sendo nosso propósito pela sobrevivência entre as espé- mas de submoradia.
nesta pesquisa fazer análises teó- cies (aspecto fundamental do Nesta perspectiva, podemos
ricas sobre os movimentos soci- darwinismo) processava-se tam- enunciar que suas idéias reve-
ais urbanos e, muito menos, ca- bém na natureza a lei da ajuda- lam-se profícuas e atuais, consti-
racterizá-los exaustivamente, ca- mútua que, segundo seu ponto tuindo-se em referenciais impor-
so a caso, procuramos evidenci- de vista, era tão ou mais impor- tantes para possíveis estudos so-
ar, através deste breve levanta- tante que aquela. Kropotkin for- bre as conformações que a aju-
mento, um dos aspectos funda- mulou as linhas mestras desta da-mútua pode assumir no âm-
mentais que, no nosso entender, teoria, atribuindo-lhe um caráter bito das relações socioespaciais
imprime uma especificidade so- de lei geral, pela qual via na aju- contemporâneas.
ciopolítica no cotidiano de repro- da-mútua um fator da evolução, Com o intuito de evidenciar
dução de parcelas expressivas donde se pode destacar a da pró- o sentido de sua concepção, con-
desses segmentos populares de pria sociedade. Assim, o geógra- sideramos pertinente a reprodu-
baixa renda, isto é, os laços de so- fo moscovita contrapunha-se às ção da seguinte passagem extraí-
lidariedade que se desenvolvem imposições do individualismo na da do seu trabalho Ajuda-mútua
no interior das comunidades. As vida social e, mais do que isso, na sociedade moderna:
ações coletivas e seu acentuado apregoava que o bem comum
caráter político-espacial fazem entre os homens resultaria de as- Sob o sistema moderno de vida soci-
dessas pessoas sujeitos históricos sociações espontâneas para a al, todos os laços de união entre os
habitantes de uma mesma rua ou
que, nas tensões do seu mundo ajuda-mútua, em detrimento do “vizinhança” desapareceram. Nos
vivido, constroem gradativa- Estado, pelo qual nutria um sen- bairros ricos das grandes cidades, os
mente novas percepções da so- timento de abominação. homens vivem juntos sem saber
quem é seu vizinho. Mas nas ruas e
ciedade e do espaço habitado. Não entrando no mérito da becos densamente povoados dessas
Nesta perspectiva, o desenvolvi- questão se a ajuda-mútua cons- mesmas cidades todos se conhecem
mento da solidariedade e da aju- titui-se ou não num fator da evo- bem e se encontram em contato con-
tínuo. Naturalmente, nos becos, co-
da-mútua adquirem importância lução social, ou ainda até que
mo em todas as partes, as pequenas

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 24-35, out. 1998 33


Ulysses da Cunha Baggio

rixas são inevitáveis, mas também mais desenvolvidos, mais inten- submoradia e suas implicações
se desenvolvem relações segundo as
sos, quando comparado à auto- no espaço urbano, buscou sobre-
inclinações pessoais e dentro destas
relações se pratica a ajuda-mútua em construção, muito embora tam- tudo contribuir para este deba-
tais proporções que as classes mais bém contenha traços desta, so- te, estimulando-o, principal-
ricas não têm idéia. (Kropotkin, bretudo no que tange ao muti- mente no que tange ao papel de-
1987, p. 162-163)
rão para a construção. Neste sen- sempenhado pelos movimentos
Estas considerações induzem, tido, admite-se então que a au- de luta pela moradia e as novas
de certo modo, a uma analogia toconstrução pode estar contida configurações que parte deles
com a situação das nossas cida- no mutirão, o qual se caracteriza tem assumido. Neste sentido, as
des (sobretudo São Paulo, Rio de por apresentar uma forma de questões da autogestão/co-ges-
Janeiro, Belo Horizonte, Recife, trabalho genuinamente coletiva. tão e da descentralização adqui-
etc.) e, de forma mais particula- Esta forma, como pudemos ob- riram, para nós, grande relevân-
rizada, com os seus espaços de servar, é a que foi implementa- cia na pesquisa, uma vez que elas
submoradia. As relações sociais da no Jardim Apuanã, onde to- permitem vislumbrar novos ca-
existentes nesses espaços têm o dos os membros da comunida- minhos para o problema habita-
seu fundamento, em grande de trabalharam na construção cional e, ao mesmo tempo, uma
medida, na ajuda-mútua. Esta, das casas, sem saber qual delas nova relação da sociedade civil
vale dizer, avulta sobremaneira seria a sua. Assim, a sinergia exis- organizada com o Estado, pela
nas relações sociais de trabalho, tente no mutirão implica na par- qual se pretende alcançar um ní-
principalmente em duas das ticipação dos indivíduos em di- vel de participação social/comu-
suas modalidades: a autocons- versos trabalhos de interesse co- nitária mais efetiva na formula-
trução e, em maior grau, o muti- mum ou geral. ção e no gerenciamento da coisa
Para finalizar, desejaríamos pública. Trata-se, em síntese, do
rão.
chamar a atenção para algumas desencadeamento de um proces-
Assim entendemos, uma vez
questões que consideramos de so de organização social ainda
que na autoconstrução não há, ne-
importância central na análise bastante parcial, mas profícuo,
cessariamente, cooperação de to-
sobre as modalidades de submo- que não só possibilita vislumbrar
dos em tudo. De modo geral, ca-
radia. caminhos alternativos para o se-
da família se responsabiliza pela
O problema habitacional e, tor, como também encerra no seu
construção de sua própria casa,
mais especificamente, a questão próprio movimento a construção
o que não impede que haja al-
da submoradia no Brasil e na ci- e o exercício da cidadania.
gum tipo de auxílio por parte das
dade de São Paulo constituem Embora se reconheça o gran-
outras. A isto denomina-se auto-
preocupações pessoais que nos de desafio que a implementação
construção unifamiliar, processo
acompanham desde os anos de de projetos autogestionários e
de trabalho desenvolvido, p. ex.,
graduação no Departamento de descentralizados representam, a
no Jardim Filhos da Terra.
Geografia da Universidade de semente já está lançada, e só no
O mutirão, por sua vez, pres-
São Paulo. Durante todo este transcurso da história é que po-
supõe a colaboração de todos na-
tempo temos procurado apro- deremos aquilatar melhor as
quilo que se está fazendo, seja na
fundar nossos estudos sobre a suas potencialidades no interior
agricultura ou na construção de
habitação na sua relação com a das práxis socioespaciais. De
algum tipo de edificação: igreja,
cidade e o urbano. qualquer forma, a perspectiva
escola, barracão comunitário,
Este trabalho, longe de pre- autogestionária se coloca como
casa, etc. Portanto, o mutirão ex-
tender esgotar o assunto sobre a um entre outros caminhos, mas
pressa níveis de sociabilidade

34 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 24-35, out. 1998


A cidade na modernidade radicalizada: os movimentos de luta pela moradia

que merece, por tudo que foi di- modernização tecnológica, com- para a produção de um novo ho-
to, maior atenção e estudo. prometendo as condições de re- mem e de um espaço que lhe seja
Nos tempos hodiernos, o de- produção social, desenvolve-se mais digno, colocando-se como
sejo pela autonomia vem se fir- célere e desgraçadamente um fundamental a efetiva transfor-
mando gradativamente em todo processo de alienação do cotidi- mação/democratização da gestão
o mundo, permeando e nortean- ano, que envolve a própria alie- da cidade.
do diversas práticas urbanas. nação do sujeito em relação ao As profícuas palavras do filó-
Não haveria, nestas experiênci- espaço habitado e vivido. Nos li- sofo francês Henri Lefèbvre ad-
as de caráter autogestionário, mites de sua lógica hegemônica, quirem centralidade nesta refle-
elementos fundantes de uma que tem no mercado, e não no xão, quando nos diz que “o es-
nova relação sociedade/espaço? homem, o seu centro, tal proces- paço só será aceitável quando for
Embora não tenhamos ainda so encerra no seu movimento produzido pelos próprios inte-
uma resposta clara da questão, implicações nefastas ao homem ressados”. Em tempos de recru-
acreditamos contudo que ela e ao humano, traduzindo-se nu- descimento da razão instrumen-
mereça ser melhor discutida, ma verdadeira “máquina de alie- tal da modernidade e da centra-
exatamente numa época em que nação”. Esperamos que estas pa- lidade da moeda e do mercado
o processo civilizatório capitalis- lavras possam, de alguma ma- no processo civilizatório, talvez
ta atravessa grandes mudanças neira, contribuir para uma refle- fosse fértil meditarmos sobre tais
no cenário econômico, político, xão dos tempos atuais e da im- palavras, e lembrar que a histó-
cultural e espacial. Entre outros portância de levarmos a cabo ria e o pensamento não são uma
fatores, além do desemprego que práticas capazes de contribuir via de mão única.
avança na esteira do processo de

Referências bibliográficas
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Cortez, 1991. 171p.
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GOHN, M. da G. Movimentos sociais e luta pela moradia. São Paulo: Edições Loyola, 1991. 190 p.
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Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 24-35, out. 1998 35


Virgínia Maria Trindade Valadares

TRAJETÓRIA DO HOMEM E DO
ESTADISTA MELO E CASTRO*

Virgínia Maria Trindade Valadares


Departamento de História – PUC Minas

M
RESUMO artinho de Melo e Castro nasceu
Este trabalho pretende demons- em Lisboa, na freguesia de Nossa
trar a trajetória política do homem
e do estadista Martinho de Melo e Senhora das Mercês, em 11 de no-
Castro, traçando o perfil de sua
personalidade e atuação política. vembro de 1716. Sua trajetória política como
Evidencia o seu caráter autoritário
e conservador em relação às idéias
estadista iniciou-se ainda na época pombali-
de seu tempo, assim como em rela- na, sem, contudo, determiná-la nem com ela
ção à capitania mineira, principal-
mente no que diz respeito ao declí- confundir-se; mas foi parte integrante dessa
nio da mineração.
época, ora compactuando com ela, ora mos-
trando-se neutro diante dela, ora com ela confrontando-se.
Era filho de Francisco de Melo e Castro e de Maria Joaquina Xavier
Magdalena da Silva e neto de André de Melo e Castro, 4° Conde de
Galveias.1 Seu pai, filho natural de um celibatário, recebera do seu ge-
nitor todos os bens patrimoniais, exceto o título, por impedimento ré-

*
Este trabalho é parte do capítulo 1 (Martinho de Meio e Castro: o estadista português e o contexto de seu tempo), item 3, de
minha dissertação de mestrado, intitulada A sombra do poder – Martinho de Melo e Castro e a administração da capitania
de Minas Gerais: (1700-1795). Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Portugal. 1997.
1
André de Melo e Castro doutorou-se na Universidade de Coimbra. Começou sua vida profissional como eclesiástico, sendo
nomeado deão da capela ducal de Vila Viçosa; abandonou, em 1711, a carreira eclesiástica, exercendo, no reinado de D. João
V, a diplomacia junto à Santa Sé; em 1718, tornou-se embaixador extraordinário em Roma, com o Papa Clemente XI; no Bra-
sil, foi o segundo governador de Minas Gerais e 5º Vice-Rei do Brasil.

36 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998


Trajetória do homem e do estadista Melo e Castro

gio. Nascera em Estremoz e, com aristotelismo. A seguir, cursou, Em 1751, com 35 anos, iniciou
brilhante carreira militar, serviu em Coimbra, Direito Canônico, ele a sua missão diplomática, re-
na Índia, foi comissário da cava- tornando-se bacharel em 1744. presentando Portugal junto aos
laria no Alentejo e governador Portanto, a educação que rece- Estados Gerais das Províncias
em Mazagão e Moçambique. beu foi conduzida pelos jesuítas Unidas. Para ocupar esse cargo,
Pela linhagem materna, era e foi por eles influenciada tanto contou com a aquiescência de
neto de Manuel da Silva Pereira, em Évora como em Coimbra.2 Carvalho e Melo,3 com quem,
cavaleiro professo da Ordem de Melo e Castro aderiu à escolásti- inicialmente, manteve relações
Cristo, familiar do Santo Ofício ca e ao aristotelismo, revelando- amistosas.
e Guarda-mor do Consulado de se opositor dos novos ensina- Em Haia, já em 1752, perce-
Lisboa. Era, também, descenden- mentos dos oratorianos e das ci- be-se, pela correspondência
te da família dos Castro de Mel- ências modernas. Era considera- mantida entre Melo e Castro e o
gaço, tronco da casa dos Condes do verdadeiro Conde de Oeiras, uma inexperi-
de Rezende e das Galveias. ência diplomática do embaixa-
Membro integrante de uma fa- (...) menino-isac dos Padres da Com- dor, por um lado, e, por outro, a
panhia, que o cumulavam de honra-
mília numerosa de sete filhos, rias e distinções, chegando a ser es- sua necessidade de permanência
dentre os quais sobressaíram o colhido várias vezes para as dispu- na diplomacia, dependendo, pa-
primogênito, Manuel Bernardo tas que, por então, Jesuítas e Padres ra tanto, do apoio do Conde.
do Oratório mantinham. (Amado,
de Melo e Castro, Visconde de 1985, p. 141) Nesse sentido, a tônica das suas
Lourinhã, e sua irmã, D. Violan- cartas é a gratidão pelos favores
te Joaquina, que herdou o título Em meados de 1739, com ape- recebidos e a preocupação com
do irmão, Manuel Bernardo, e se nas 23 anos, foi nomeado por D. a saúde de Carvalho e Melo.
casou com D. Antonio de Almei- João V Cônego da Sé Patriarcal. Assim, em 11 de janeiro des-
da Beja e Noronha (Zuquete, Apesar de esse posto ser presti- se ano, escreveu a primeira de
1989). Sua origem social fê-lo, gioso e rendoso, sua inteligência uma série de cartas, cuja essên-
portanto, integrante da aristocra- e sua vocação levaram-no à car- cia era a preocupação com a saú-
cia portuguesa setecentista, em- reira política. Ainda por influên- de do Conde de Oeiras. Diz, en-
bora não possuísse título de no- cia familiar, foi admitido na Cor- tão, Martinho de Melo e Castro:
breza. te, onde ganhou estima e confi-
Estudou em Évora, no Colé- Ainda fico com cuid° ma mulestia
ança do príncipe real D. José,
(sic) de V.Exª porq. não sei se o reme-
gio da Purificação, da Compa- sendo ambos praticamente da dio das sangrias aq. V. Exª foi obri-
nhia de Jesus. Ainda em Évora, mesma idade. Ao subir ao trono, gado sugeitar-se faria aqelle effeito
ingressou na Universidade, on- já com a maturidade dos seus 36 q. todos deves dezejar, e q. eu parti-
cularmte estimarei. (Ferrão, 1926,
de fez o curso de Latinidade, Fi- anos, D. José I, mantendo a ami- p. 336)
losofia e Teologia, transforman- zade a Melo e Castro, favoreceu-
do-se em grande apologista do o com a carreira diplomática. Analisando uma carta de 24

2
A formação cultural de Melo e Castro, de natureza tradicional, levou-o a manter-se no conservadorismo característico do
período joanino. Assim, apesar de viver no século da ilustração, fazia parte do grupo de intelectuais tradicionais. É com essa
marca que acompanhou e viveu todas as mudanças e reformas do Estado português.
3
No regime absolutista, o chefe de Estado, ou soberano, e o governo formavam um todo unificado e indivisível. Entretanto,
na prática, nem sempre a teoria funciona, como não funcionou em Portugal, durante o período pombalino. Apesar de D.
José I ser juridicamente o chefe de Estado, a sua presença era, às vezes, praticamente ofuscada pela pessoa e pela ação de
seu secretário Carvalho e Melo, “autêntico primeiro-ministro, vontade onipresente, verdadeiro governo”, segundo afirma-
ção baseada em Falcon (1982, p. 381).

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998 37


Virgínia Maria Trindade Valadares

de agosto do mesmo ano, nota- são dadas por peçoas (sic) q. sabem tornou-se o instrutor de Melo e
tanto de mim, q. pa me mostrarem
se o que podia parecer astúcia e Castro, como revela em carta de
no Mundo vão buscar meu pai à
uma certa bajulação de Melo e África. (Ferão, 1926, p. 318) 30 de agosto de 1753:
Castro ao Conde de Oeiras, ao
reconhecer, inclusive, os seus Como representante portu- (...) para dizer a V. Sª com a liberda-
bons préstimos a Portugal. Si- de de velho, e com a sinceridade de
guês junto aos Estados das Pro-
amigo constante, 1ª que V.Sª appre-
multaneamente, Martinho de víncias Unidas, Melo e Castro sente logo a sua credencial aos Es-
Melo e Castro demonstrava sua não alcançou projeção no cená- tados Gerais, enrevendo-me em offí-
necessidade de crescer politica- rio internacional, vivendo, inclu- cio que no seu nome beije a Real Mão
de sua Magestade com o profundo
mente, o talento, a manha e a sive, pacatamente e com tempo reconhecimento, que deve à conside-
falsa modéstia, acompanhados livre para dedicar-se à filosofia ração da honra que lhe fez de empre-
de um jogo político que seria aristotélica, como demonstra em ga-lo no seu Real serviço. 2ª que V.
Sª faça exorcismos contra a tenta-
concretizado sete anos depois. carta de 14 de dezembro de 1752: ção de querer convencer à força de
Ficava, também, claro, nas entre- discursos as pessoas que tiveram
Eu continuo (...) a passar o tempo, maiores experiências. 3ª que V. Sª te-
linhas, que não desejava perma- pª o q. deixão bastante livre as noi- nha por certo que na vida em que se
necer na Holanda, sendo a em- tes de Inverno, e com o estudo q. fas- acha não lhe ha de servir o amor à
baixada apenas um trampolim so de mais devertido q. as Filosofias sua opinião e a inflexibilidade n’ella,
de Aristóteles, e textos de Dirº Ci- se não de se precipitar com os que
para galgar posição de maior
vil, e Canônico; não me paressem tão lhe forem superiores, e de se fazer
mando político. Assim, escreve compridas como ellas são, e como os odioso com os que lhe forem iguaes.
Melo e Castro: outros as encaressem. (Ferrão, 4ª e finalmente que na vida civil e
1926, p. 339) política sem docilidade e paciência
Recebi hua carta de V. Exª com dat- se não fará nem negocio nem pro-
Em 1754, após dois anos de gresso: para domar quanto lhe fôr
ta de 1º de julho, em resposta de sin-
co q. tive a honra de lhe escrever, e permanência na Holanda, Mar- possível n’estes primeiros annos de
sobre todo o favor q. V.Exª me tem tinho de Melo e Castro alcançou ministério o seu fertil engenho, até
feitto, e espero q. m fassa, nenhu hé faça habito de ceder sem violência do
seu objetivo: foi transferido para seu proprio parecer, quando for ne-
mais estimável q. o de nottas suas;
creya V.EXª q. pa hu auzente da sua a Corte de Londres, onde ocu- cessário como quasi sempre o hé,
Pátria, lhe hé tão necessario este so- pou, ainda que sem grande ex- quando se trata do pessoal interes-
corro, como hé pa vida a mesma res- se, a do amor próprio, que nos cos-
periência, a representação diplo-
pira (...) Tudo agradeço a V. Exª tuma enganar sem nos perceber-
como instrum.o da m.a Pátria, sem mática portuguesa mais impor- mos.4
me lembrar de mais utilidade, do tante e de maior responsabilida-
amor, e zello com q. todos devemos de. No novo posto, evidenciou Nessa missiva, Carvalho e
(sic) trabalhar, pella sua conserva-
ção e aumo. Os papeis publicos já
personalidade obstinada, espíri- Melo informa a Martinho de Me-
supõem em mim o q. sertamte não to orgulhoso e elevado grau de lo e Castro que o seu cargo exi-
tenho, que hé capassidade de instruc- auto-estima. Carvalho e Melo, gia atributos, como gratidão e
ção pa ser Ministro; hum q. aqui sa-
por sua correspondência, de- humildade, para aceitar a opi-
bio Holandez diz no Cap. de P[ortu-
g]al Que Joaquim Jozé vay pa Lx., q. monstrou conhecer a personali- nião dos mais experientes, flexi-
D. José de Sa vay pa Inglaterra, e q. dade de Melo e Castro, dando- bilidade no seu posicionamento
Marto de Melo, filho do Governador lhe as primeiras orientações e li- pessoal e paciência para domar
de Mazagão, fica em Holanda, po-
rem eu como sei q. V. EXª só me ções políticas. O então Conde de o próprio voluntarismo.
mandou pa aqui, pa me aplicar, zom- Oeiras, com sua experiência na Em 1° de novembro de 1755,
bo de todas estas not.as, e creyo q. área da política e da diplomacia, um ano após ter assumido a em-

4
A.N.T.T. Arquivo Particular da Casa das Galveias, Maço 2. De Sebastião de Carvalho e Melo a Martinho de Melo e Castro.

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Trajetória do homem e do estadista Melo e Castro

baixada portuguesa em Londres, instruções do Conde de Oeiras, Conde de Oeiras, que alegou a
Lisboa é quase destruída por um a serem seguidas nas negocia- necessidade da permanência de-
grande terremoto. O abalo sísmi- ções: le em Londres. Em vista disso,
co, avaliado por alguns como reassumiu seu cargo na Inglater-
castigo dos céus, provocou, no (...) as Instruções que daqui se po- ra, onde permaneceu até 1770,
exterior, grande repercussão. O dião mandar a V. Exa para a referida quando retornou a Portugal co-
negociação (...) prevenirei a V. Exa as
rei inglês, Jorge II, despendeu mo Ministro Ultramarino.
duas couzas seguintes: A primeira
vultosa quantia com o pretexto hé que o Nosso Direito ao Território No período de 17646 a 1770,
de ajudar Portugal a sanear as anexa à collonia do Sacramento não Melo e Castro mediou conflitos
suas finanças, seriamente com- necessita de sehirembuscar as eru- nas relações entre Portugal e In-
dições antigas (...) assignado em
prometidas pelo lamentável aci- Madrid a 15 de janeiro de 1750: (...) glaterra, em função da política
dente. Melo e Castro aceitou o a segunda couza que previno a V.Exa nacionalista de Pombal. O mais
donativo, mas com ele comprou hé, que de nenhua sorte deve excitar importante deles é o conhecido
a maior observância do Artigo XVIII
um parque de artilharia, que en- do Tratado de Utrech respectivo ao estrondo de Londres,7 que levou
viou a D. José I. Com essa atitu- commercio....5 negociantes ingleses e portugue-
de, Martinho de Melo e Castro ses a atritarem-se na defesa do
tornou evidente o interesse po- Na conferência de Paris, Melo comércio do vinho do Porto e de
lítico-econômico embutido na e Castro obteve grande êxito, tal- seu consumo na Inglaterra.
complacência dos ingleses. vez como conseqüência da sua O diplomata, diante do im-
Um ano depois do tremor de habilidade em negociar com as passe nas relações comerciais en-
terra em Lisboa, eclodiu no âm- nações envolvidas, de acordo tre as duas nações amigas, con-
bito internacional a Guerra dos com as instruções delineadas ferenciou com o Lord Halifax, ex-
Sete Anos (1756 a 1763). Essa pelos Secretários de Estado, D. pondo-lhe o estado a que os co-
guerra provocou um revés na Luiz da Cunha, e, sobretudo, missários ingleses residentes no
política econômica e colonial Carvalho e Melo. O certo é que, Porto tinham reduzido o comér-
portuguesa, assim como “fez au- em 1763, o Tratado estava assi- cio do vinho. Ambos, então, to-
mentar a necessidade de circuns- nado, a guerra marítimo-coloni- maram providências, por meio
pecção nas relações com a Grã- al chegava ao fim, e o represen- de leis e tratados econômicos,
Bretanha, cujo auxílio militar era tante português participava da para regulamentar o comércio e
essencial” (Maxwell, Silva, 1986, alta roda da política internacio- tentar, na medida do possível,
p. 340). Em razão do envolvi- nal. evitar as fraudes, a clandestini-
mento de Portugal nesse confli- Após a assinatura do Tratado dade, os contrabandos e os do-
to, em 1762, Melo e Castro repre- de Paris, Melo e Castro recebeu, los, que significavam a ruína não
sentou o seu país nas negocia- como presente de D. José I, au- apenas do comércio mas do pró-
ções de paz entre Portugal, Fran- torização para visitar a família prio Estado. Ademais, Melo e
ça, Inglaterra e Espanha, em Pa- em Lisboa. Nesse momento, o rei Castro alertou-o para o fato de
ris. pretendia premiar o seu diplo- que era do interesse do seu país
Em setembro desse ano, como mata com o ingresso no gover- manter e estreitar, cada vez mais,
representante português, recebe no, no que não teve o apoio do a aliança e união entre as duas

5
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Legação de Portugal em Londres. Do Conde de Oeiras a Melo e Castro, 19 de
julho de 1752 a 28 de julho de 1767.
6
Em 1764, Melo e Castro retornou a Londres, mantendo o cargo de embaixador português na Inglaterra.
7
“Estrondo de Londres”é a designação dada ao dissídio criado entre os negociantes londrinos e portugueses, em virtude da
tentativa dos ingleses residentes no Porto de controlar a nova Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998 39


Virgínia Maria Trindade Valadares

cortes. tugal, seu principal aliado, e de les seijão para a sua própria preser-
vação. E só quando a Grande Breta-
Em carta de 7 de fevereiro de quanto tal medida agradaria aos
nha vir a Coroa Portuguesa podero-
1764, Melo e Castro relatou ao inimigos dessa aliança (Espanha za e rezoluta, então hé que a há de
Conde de Oeiras todo o desen- e França). tratar como alliada e não como De-
rolar das negociações em Lon- Ainda em Londres, Melo e pendente.11
dres. Novamente, recebeu ins- Castro reafirmava ser um equí-
A presença espanhola no sul
truções do “Primeiro Ministro” voco a obsessão lusa a respeito
do Brasil fazia com que, cada vez
de D. José I, nos seguintes ter- da Inglaterra. Sugeria que seus
mais, Portugal, considerando a
mos: compatriotas se preocupassem
tibieza de suas forças militares,
com a possibilidade de uma in-
(...) porque pelo Tratado de vinte e dependesse da amizade inglesa.
sette de Dezembro de mil settecen-
vasão real do Brasil, como de-
No entanto, a política econô-
tos e três, somente se admitio a in- monstravam os planos espa-
trodução neste Reino dos Panos, e mica de Pombal indispunha os
nhóis e franceses de anexação da
mais Lanifícios da Inglaterra. (...) ingleses a se envolverem em
América portuguesa, em desobe-
De sorte que o mesmo Direito, que questões com a Espanha, para fa-
os vassallos da Inglaterra tem para diência ao Tratado de Paris. Para
zerem prevalecer os acordos fei-
serem eles os que tragão a Portugal ele,
os seus lanifícios, como estão fazen- tos pela paz, em Paris, com a par-
do, tem os vassallos de Portugal para (...) a maior felicidade porém, hé que ticipação do próprio Melo e
levarem os seus vinhos a Inglater- havemos ter todo o tempo que nos Castro. A Grã-Bretanha ironica-
ra, quando bem lhes parecer (...)8 for necessário para nos prevenir con- mente responde:
tra semelhantes projetos, e que as
Ocorria, ainda, que os comis- duas potencias (...) se achão hoje re-
ducidas a mais triste e precaria si- A corte de Portugal não quer tropas
sários ingleses compravam vi- inglesas defendendo as minas e co-
tuação.10
nho de boa qualidade e mistura- mandando os portos da costa do Bra-
vam com vinho baixo, venden- sil (...); a deplorável situação do Bra-
No entanto, as notícias do sil não pode deixar de estimular seus
do-o a alto preço e deteriorando Brasil, que chegavam a Lisboa, inimigos a conquistá-lo.12
o bom nome do produto portu- deixavam claras a pressão e a
guês. Por isso, Oeiras orienta, presença espanhola no sul da Em 1766, Carvalho e Melo,
ainda, Melo e Castro a agir com Colônia. Em carta a Carvalho e cheio de esperança, diz ao em-
prudência, “sem com tudo se Melo, em 7 de abril de 1766, Melo baixador inglês:
mostrar ainda neste último caso e Castro recomendava que se ad- A Inglaterra e Portugal são como
a acrimónia Escolástica das Au- mitisse que Portugal não tinha marido e mulher, que têm suas dis-
las, mas conservando se sempre cussões domésticas, mas que se uni-
a mansidão e sezudesa q. são rão para se defenderem contra qual-
(...) nem mais pronto, nem mais so-
quer um que venha perturbar a paz
próprias de hum Ministro de lido recurso, que o das suas própri-
familiar. (Maxwell, Silva, 1986)
Estado”.9 Alertava-o, contudo, as forças; empregando nellas todos os
meyos e faculdades; e fazendo con-
acerca dos prejuízos que a Ingla- tribuir todos os seus vassallos, de Parece que o “Primeiro Ministro”
terra teria se rompesse com Por- qualquer estado e condição, que el- estava enganado no seu raciocí-

8
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Legação de Portugal. Do Conde de Oeiras a Melo e Castro, 07 de fevereiro de
1764.
9
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Legação de Portugal em Londres. Do Conde de Oeiras a Melo e Castro, 7 de
fevereiro de 1764.
10
B.N.L. Coleção Pombalina. Cod. 611, f.262-6. De Martinho Melo e Castro a Carvalho e Melo, 26 de setembro de 1764.
11
B.N.L. Coleção Pombalina. Cod. 611, f. 383. De Melo e Castro a Carvalho e Melo, 7 de abril de 1766.
12
B.N.L. Coleção Pombalina. Cod. 612. F. 62-4. De Melo e Castro a Carvalho e Melo, 20 de março de 1765.

40 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998


Trajetória do homem e do estadista Melo e Castro

nio, pois, à Inglaterra, o que im- em que permaneceu até sua França. Clermont, no entanto,
portava eram as vantagens no morte, em 1795, o que se carac- informou ao seu governo que o
comércio com o Brasil. terizou como um dos casos de novo Ministro era de tendência
Temeroso de um novo ataque maior permanência no governo anglófila e, por isso, provavel-
espanhol e francês a Portugal e português do século XVIII. mente resistiria a manter laços
ao Brasil, o Conde de Oeiras, ain- Segundo Walpole, diplomata mais estreitos com a França, por
da em 1766, encarregou Marti- inglês, D. José nem sequer con- entender que essa ligação signi-
nho de Melo e Castro de conse- sultou o Conde de Oeiras para a ficaria o fim dos domínios ultra-
guir apoio e reforços da Grã-Bre- nomeação de Melo e Castro. Tal marinos portugueses e a sujeição
tanha para auxiliar o Estado por- assertiva é, porém, duvidosa, vis- à casa de Bourbon. Ademais, no
tuguês. O embaixador portu- to que foi o próprio Conde quem, dizer do embaixador francês,
guês em Londres assegurou que, por meio de carta, o convocou a Melo e Castro era inclinado ao
por interesse da própria Inglater- retirar-se de Londres e a ocupar extremismo e capaz de dar con-
ra, esta se armaria em defesa do o novo cargo em Portugal: tinuidade ao arbítrio político do
Reino e de sua Colônia na Amé- Marquês de Pombal. O certo é
rica, caso o Tratado de Paris fos- Sua mage tem nomeado a V. Exª para que a aliança com a França não
Secretário de Estado da Marinha, e
se desrespeitado.13 Lord Halifax, Domínios Ultramarinos (...). E que- se concretizou, o pacto entre Por-
entretanto, após receber declara- rendo o mesmo Senhor, que V. Exª tugal e Inglaterra foi ainda mais
ções dos embaixadores da Fran- principie a exercitar o dito impor- consolidado e Martinho de Melo
tante Emprego com toda a mayor
ça e da Espanha, concluiu que a e Castro atentou para o fato de
brevidade, que couber no possível.
guerra era uma ilusão e que am- Ordena, que V. Exª logo que receber que a Europa estava dividida em
bos os países desejavam a manu- este Avizo, parta para Palmouth e alianças, tais como a da França
tenção da paz, mesmo porque, que se embarque no primeiro Paquet com a Espanha e a da Alemanha
bot, que sahyr daquelle Porto para
no dizer do duque de Praslin, passar a esta corte.15 com a Rússia.
“inquietando Portugal teria logo No que diz respeito ao rela-
a Grande Bretanha sobre os bra- O Marquês de Clermont, em- cionamento entre Pombal e Melo
ços”.14 baixador francês em Portugal, e Castro, há controvérsias.
Em 1770, vagou o cargo de escreveu, no dia 2 de janeiro de Segundo Esteves Pereira (1909,
Secretário de Estado dos Negó- 1770, ao Duque de Choiseul,16 p. 998-999), o Ministro era tido
cios da Marinha e Domínios Ul- Ministro das Relações Exteriores em alto conceito no paço e indi-
tramarinos, em virtude da mor- da França, confirmando a nome- cado, pela opinião pública, como
te de Francisco Xavier Furtado de ação de Melo e Castro para a Se- sucessor do Marquês de Pombal,
Mendonça, irmão do Marquês cretaria de Estado dos Negócios caso o rei D. José I morresse, ou
de Pombal. Martinho de Melo e da Marinha e Domínios Ultra- se, por qualquer motivo, o “Pri-
Castro foi, então, chamado a re- marinos. Choiseul acreditava meiro Ministro” se demitisse. En-
gressar ao Reino, sendo nomea- numa mudança da política exter- tretanto, José Vicente Serrão
do, pelo Decreto de 4 de janeiro na portuguesa e até numa pos- (apud Pereira, 1985, p. 458-459)
de 1770, para titular desse órgão, sível aliança comercial com a questiona se o cargo foi ocupa-

13
A diplomacia de Melo e Castro levou os ingleses a mudarem de idéia no que dizia respeito à desobediência espanhola ao
Tratado de Paris.
14
B.N.L. Coleção Pombalina. cod. 612, f. 41. De Melo e Castro ao Conde de Oeiras, 23 de janeiro de 1765.
15
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lº. 121. Do Conde de Oeiras a Melo e Castro, 20 de novembro de 1769.
16
O Duque de Choiseul participou, junto com Melo e Castro, da elaboração do Tratado de Paris, em 1763.

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998 41


Virgínia Maria Trindade Valadares

do por Melo e Castro, pelos seus to político de Pombal, não signi- Carvalho e Melo, em que denun-
méritos ou pela proteção que ficou posição antagônica, mas ciava o jesuíta José de Seixas:
gozava do monarca. E não con- apenas um descomprometimen-
sidera que, nesse cargo, ele tenha to com a figura chave do gover- (...) esta gente, ainda na baxa fortu-
realizado obra notável nem, tam- no anterior. na em q. se acha não perde occazião
de se querer introduzir, e com tal au-
pouco, que os seus escritos, es- Com base na correspondên- dacia, que até me sugere o sido meu
cassos e quase todos administra- cia mantida entre Pombal e Mar- condescipulo em Évora, e meu con-
tivos, tenham demonstrado uma tinho de Melo e Castro, enquan- temporaneo em Coimbra.18
compreensão clara das mudan- to embaixador na Inglaterra, in-
ças no plano das relações colo- fere-se que este sabia das atitu- Entretanto, já no governo de
niais, marcadas pelo início da des repressivas daquele e, às ve- D. Maria I, defendeu o restabe-
crise do Antigo Regime. zes, com elas concordava, até, lecimento da ordem religiosa e a
Uma segunda discordância talvez, como forma de agradar o sua reintegração na sociedade
entre esses dois autores diz res- Ministro. Em carta de 11 de fe- portuguesa. (Amado, 1985, p.
peito ao abalo das relações entre vereiro de 1769, Carvalho e Melo 146)
Melo e Castro e Pombal. Na ver- comunica a Melo e Castro a exis- O ministério da Rainha Devo-
são de Esteves Pereira, assim que tência da seita da Jacobea, lide- ta decidiu abolir, na colônia bra-
assumiu a direção da Secretaria rada pelo Bispo de Coimbra, e as sileira, a Companhia de Comér-
de Estado dos Negócios da Ma- providências tomadas por seu cio do Grão Pará e Maranhão, co-
rinha e Domínios Ultramarinos, ministério: mo forma de extinguir o mono-
o Ministro não poupou censuras pólio e beneficiar a categoria de
e críticas à política pombalina em Todos os chefes da dita seita e scis- comerciantes livres. Melo e Cas-
Portugal e começou a disputar a ma se acham prezos sem escapar tro, apesar de ser favorável a esse
mais, que hum, que logo no princí- novo grupo de comerciantes, vo-
primazia no poder e a minar a pio das diligências fugiu para fora
influência do Marquês. Este, po- do Reyno.17 tou pela prorrogação dos privi-
rém, fê-lo moderar-se, recolher- légios. Como foi voto vencido, a
se ao silêncio, e só não o encami- Todavia, como Ministro da Companhia foi extinta.
nhou para o desterro graças à rainha D. Maria I, na chamada Tal atitude não significava que
habilidade pessoal de Melo e época da Viradeira, Melo e Cas- o Ministro não tivesse discordân-
Castro e à amizade que o rei D. tro não apenas condenou a ati- cia com a política pombalina. Em
José I lhe devotava. No entanto, tude de Pombal, como auxiliou alguns aspectos, a oposição era
Serrão declara como incerta e no resgate moral do Bispo de nítida, especialmente no que diz
improvada a hostilidade do Mi- Coimbra. respeito ao setor militar e ao cen-
nistro contra Pombal. Argumen- No que diz respeito ao cho- tralismo político. Deparou-se-
ta que Martinho de Melo e Cas- que do Marquês de Pombal com lhe, a propósito, um quadro ne-
tro foi poupado pelo Marquês, os jesuítas, apesar de manter-se gativo em matéria de adminis-
nas críticas que fez aos seus su- neutro, Martinho de Melo e Cas- tração, como demonstrou José
cessores, e que o fato de ele ha- tro também não queria relacio- Carlos Amado:
ver permanecido na esfera de namento com a ordem, como
(...) era o Exército, de novo desorga-
governo, após o desaparecimen- demonstrou em carta dirigida a nizado, sem promoções, sem paga-

17
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lº. 121. Do Conde de Oeiras a Melo e Castro, 11 de fevereiro de 1769.
18
B.N.L. Coleção Pombalina, cód. 612, f. 32-33. De Melo e Castro a Conde de Oeiras, 6 de março de 1764.

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Trajetória do homem e do estadista Melo e Castro

mentos de soldos, sem disciplina: era Real Prezença relativas aos Empre- sistema pombalino e implantar
a marinha em situação difícil, com gos, e Logares, q. seu Augusto Pay,
um mercantilismo mais rígido e
meia dúzia de barcos a desfazerem- e Snr. lhe confiou; nem do precizo e
se sem quadros eficientes e prestigi- individual Estado em q. todas, e cada efetivo, atendendo e protegen-
ados; eram as dividas do Estado, hua das Repartiçones, de q. V.Exª do, no Reino, os interesses dos
cada vez maiores e sem mostras de teve administraçã em consequencia comerciantes não privilegiados
correcção; (...) as secretarias de Es- dos ditos lugares, e Empregos. Es-
tado com grande parte do despacho tando a mesma Snrª que, ainda nes- pelas benesses do sistema pom-
em atraso, porque Pombal tudo que- ta inserteza era da sua Innacta, e balino, o clero, os não compro-
ria chamar a si. (Amado, 1985, p. Real Benignidade Honrar a V. Ex.ª metidos com o regime anterior e
146) na forma em q. prezente o honra:
Que S. Mag.de mandará ver, e exa- os ingleses.
minar com a mais escrupuloza cir- O Ministro manteve sua po-
O certo é que, após a morte
cunspecção todos, e cada hum dos lítica econômica com base no
de D. José I, em 1777, Martinho objectos deq. tratão, e que endição as
Memorias de V. EXª. A vista das de-
pacto colonial, sem se dar conta
de Melo e Castro foi quem se en-
monstrações, e evidentes, que rezul- da crise do sistema colonial,21
carregou de anunciar ao Mar-
tarem do refferido exame: decorrente do desenvolvimento
quês de Pombal que este estava Pode V. Exª estar serto q. com a mes-
do capitalismo, do esgotamento
demitido do alto cargo que exer- ma Constante e Perpetua vontade
com que S. Mag.de quer q. se admi- do Antigo Regime e da introdu-
cia, 19 por intermédio da carta
nistre justiça aos seos vassalos, se- ção de uma nova divisão inter-
transcrita a seguir: gundo o Merecimento de cada hum nacional do trabalho, já em fins
se fará a V. Exª o q. lhe for devida.
pa ler e entregar ao limº e Exmº Mar- Paço em 4 de Março de 1777.20 do século XVIII.22
quês d’Pombal. A Raynha Nossa Assim, para cumprir tal polí-
Snrª foi servida ordenarme q. entre- Com essa missiva, concreti- tica, Melo e Castro cometeu o en-
quando (sic ) a V. EXª o Real decre- zou-se o fim de uma suposta gano de não admitir o declínio
to da sua Demissão, lhe deixasse por
escritoda mª Propria Letra e Assig- amizade entre Melo e Castro e da mineração, entendendo que
nado por mim o seq.te. Que no ditto Carvalho e Melo. Fechou-se a a causa da queda da produção
decreto não atendeu Sua Mag.de a época do poder pombalino e aurífera eram os extravios e des-
outra alguma couza, q. não fosse a
veneração e resp.º q. conserva e con- Martinho de Melo e Castro assu- caminhos do ouro pelos minei-
servara sempre à saudavel Memo- miu não o seu cargo, mas a in- ros.23
ria de seu Agusto (sic) Pay, e Senhor; fluência governativa junto à no- A fim de minimizar o prejuí-
E à clemencia, e Benignidade, q. se-
va soberana. zo metropolitano, ele tentou re-
rão inseparáveis (sic) das Relaçones
de seu Gabinette, em tudo aquilo que A partir de 1777, o objetivo de duzir o custo da máquina admi-
for compatível com a retidão, e a Melo e Castro em relação à Co- nistrativa, enfatizando, porém, a
justiça. Que S. Mag.de não se achan- lônia brasileira e, principalmen- sua função coletora e fiscalizado-
do, nem podendo ainda ser exacta-
mente informada, do que constam as te, à Capitania de Minas Gerais, ra, com o arrocho dos impostos
Memorias, q. V. EXª levou a sua era abandonar a flexibilidade do e o controle do comércio inter-

19
Falcon (op. cit. p. 302) observa que Carvalho e Melo pediu demissão do seu cargo, recolhendo-se à sua propriedade em
Pombal. Não é essa, porém, a opinião de Antonio Ferrão (op. cit. p. 341), que afirma ter sido o Marquês demitido pela rainha
D. Maria I. Concordo com o parecer deste autor, pois tal fato pode ser comprovado pela carta de demissão enviada por
Melo e Castro a Pombal.
20
A carta de demissão do Marquês de Pombal, aqui transcrita na integra, foi obtida em Ferrão, op. cit. p. 341.
21
Para Valentim Alexandre (op. cit. p.81) não houve crise do sistema colonial no final do século XVIII, mas apenas quebra da
produção aurífera em Minas Gerais.
22
Essa argumentação baseou-se em Maxwell, op. cit. p. 108 et. seq.
23
Jácome Ratton considerava Melo e Castro um “administrador honesto, porém lento no desempenho das suas funções e
extremamente obstinado nas suas opiniões a propósito das quais não admitia discussão” (Ratton, 1992, p. 72). Alexandre
(1992, p. 81) concorda em que Melo e Castro cometeu esse “pouco crível mas real erro” na avaliação da situação econômica
de Minas Gerais.

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998 43


Virgínia Maria Trindade Valadares

no e externo, chegando, até mes- do-tenente, capitão-de-fragata e trangeiros e da Guerra, em fun-


mo, a proibir as manufaturas, vice-almirante; aumentou o sol- ção da morte de Aires de Sá e
pelo Alvará de 5 de janeiro de do dos seus oficiais, equiparan- Melo. Nesse cargo, em que per-
1785. Tal proibição objetivava do-os aos do Exército; criou a maneceu até 1790, firmou o Tra-
manter a economia colonial com- Real Academia dos Guardas-Ma- tado de Amizade, Navegação e
plementar à metropolitana, por rinhas e, como seu complemen- Comércio com Catarina II, da
temer-se a concorrência dos pro- to, a Real Companhia de Guar- Rússia. Esse tratado foi funda-
dutos coloniais com os produtos das-Marinhas; e, finalmente, mental para a economia lusa,
lusitanos e a eventual indepen- mandou fabricar dezoito novos pois os produtos do Báltico cus-
dência politico-econômica do vasos de guerra e reparar qua- tavam a Portugal cerca de um mi-
Brasil. tro naus de linha, no dique cons- lhão de cruzados por ano, já que
Fernando Novais considerou truído no Arsenal (Ferraz apud eram obtidos por intermédio de
o Alvará de 1785 como resultan- Amado, 1985, p. 145). Com essas holandeses, ingleses, suecos e di-
te da percepção metropolitana medidas, o Ministro deu a Por- namarqueses.
do desenvolvimento da manufa- tugal grande poder marítimo, Em carta a Francisco de Hor-
tura na Colônia, que provocou, fundamental no cenário interna- ta Machado, embaixador de Por-
por conseguinte, a diminuição cional do século XVIII. tugal na Rússia, o Ministro afir-
das exportações de tecidos por- Martinho de Melo e Castro mou que só se conseguiria elimi-
tugueses para o Brasil, além de ainda reorganizou a fábrica de nar a concorrência internacional
um forte contrabando. Daí, a pólvora, que passou a dar lucros com um comércio intenso e di-
proibição das manufaturas no consideráveis ao Real Erário, reto, que permitisse carregações
Brasil visava a posto que Portugal, de importa- de ida e volta, visto que, sem re-
dor, se transformou em exporta- torno, não poderia haver nave-
preservar o mercado colonial para as dor do produto. Com os lucros gação mercantil, o que compro-
manufaturas da mãe-pátria (...). Por advindos dessa fábrica, o Minis- vava sua veia mercantilista.
onde se vê a conexão entre contra-
bando, manufaturas coloniais, e o tro Melo e Castro ainda exercia o
esforço de desenvolvimento manu- Ministério dos Negócios Estran-
fatureiro da metrópole (...). Afinal, representou à Rainha que seria mui- geiros, quando foi rompido o
os mercados coloniais eram exata- to útil ao Estado fundar uma fábri-
mente aqueles onde, por definição, Tratado de 1703, pelo Parlamen-
ca de cordaria, com toda variedade
as normas do mercantilismo se po- de cordas, incluindo a das grandes to britânico. Em carta enviada a
diam exercitar. (Novais, 1989) naus, evitando-se assim a horroro- Luiz Pinto de Souza, em 3 de
sa despesa que se fazia no estrangei- março de 1787, ele sugere:
Com relação a Portugal,24 a ro e dando trabalho aos portugue-
ses. Aprovou D. Maria a idéia e a Havendo por extincto e rompido as-
política de Melo e Castro preten- cordoaria foi feita. (Amado, 1985, sim da parte de Portugal, como da
dia transformar, novamente, o p. 149) G. B. o tratado de 1703, logo que os
seu país numa grande potência Direitos sobre os vinhos de Portu-
naval. Além do cargo de Ministro gal se igualarem effectivamente aos
Para tanto, reorganizou o Ultramarino, a partir de 1786, de França nas Alfandegas Britani-
cas, e não lhes deduzindo a terceira
quadro dos oficiais da Marinha, Melo e Castro ocupou interina- parte estipulada no dito tratado e de-
criando novos postos de segun- mente a pasta dos Negócios Es- baixo deste indefectível Preliminar,

24
O governo mariano em Portugal ficou conhecido como a época “da Viradeira”. Na sua essência, entretanto, não houve vi-
radeira, “afora as vinditas pessoais, afora um passageiro recrudescimento de religiosidade mais ou menos beata em certos
círculos cortesãos, onde está o desfazer [...] da governação pombalina”. (Falcon, 1982, p. 225)

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Trajetória do homem e do estadista Melo e Castro

não se deve V. Sª negar a ouvir os Nessa identificação, embu- to maiores são as apostas e os
Ministros da G. B. no que lhe qui-
tem-se duas falácias. Num pri- choques, maiores são os interes-
zerem dizer, ou propor unicamente
ao fim de dar parte à sua Corte ...25 meiro momento, estabelece-se ses privados em ação e mais la-
uma contradição na considera- tente é a paixão pelo poder. Essa
Noutra carta, ele informa ao ção de Melo e Castro como “des- paixão pode gratificar necessida-
mesmo embaixador português pido de ambição”, já que o Mi- des e aliviar angústias; mas é im-
em Londres: nistro de D. Maria I chegou a possível amar-se a tudo e a to-
exercer, acumulando-as, três pas- dos com o mesmo fervor (Weber,
Este phenomeno, que se não encon- tas fundamentais do Estado por- 1968, p. 17-52). Tomando como
trará semelhante na História das tuguês, com muito centralismo base essa concepção weberiana,
Nações, e todas, e quaisquer conse-
quências dele, nem alterão, nem al- e autoridade. Essa acumulação pode-se concluir que a assertiva
terarão em couza alguma o constan- de cargos denota a formação de de Amado é contraditória, justa-
te sistema de Sua Magestade...26 uma consciência falsa que, por ve- mente porque a vocação política
zes, se confundia com a real. O não é condizente com a “fuga de
Havia, na correspondência homem é um animal desejante, honrarias”. Ao contrário, só tem
mantida entre Martinho de Melo mas também é egoísta. De acor- vocação para a política quem de-
e Castro e Luiz Pinto de Souza, do com Peter Gay, esses dois seja o poder e gosta das honra-
um tom de grande nacionalismo componentes rias.
econômico, próprio, aliás, da Com relação à produção inte-
doutrina mercantilista e da prá- não são idênticos: o primeiro luta lectual, os escritos de Melo e Cas-
tica econômica do Ministro. para reduzir as suas tensões sob a
tro, escassos, foram predominan-
pressão contínua do seu inconscien-
Em 1788, com a morte do temente administrativos: Memó-
te; o segundo vive sob o controle do
Marquês de Angeja, Melo e Cas- egotismo consciente.27 ria sobre o Projecto da Companhia
tro assumiu o seu cargo de Pre- da Índia; Memória sobre o comércio
sidente do Real Erário, acumu- Nessa perspectiva, o Ministro da Ásia; Plano d’uma companhia
lando-o com o da Marinha e Ul- demonstrava ter muito mais um para o negócio de Cabo Verde; Ins-
tramar e com o dos Negócios Es- caráter marcado pelo egocentris- truções: a Luiz de Vasconcellos e
trangeiros. mo consciente do que um gênio Souza (Vice-Rei no Brasil) em 27 de
José Carlos Amado descreve desprovido de ambição. janeiro de 1779, a D. António de No-
o Ministro como quase um totem Num segundo momento, no- ronha (Governador de Minas) em 24
da nação portuguesa, ao afirmar va contradição delineia-se na ca- de janeiro de 1775; ao Visconde de
que ele era: racterização do Ministro como Barbacena (Governador de Minas
um “homem que serve uma vo- Gerais) em janeiro de 1788.28
(...) despido de ambição, totalmente
consagrado ao serviço do País (...). cação política”. Max Weber, ao A partir de 1788, já se obser-
Fugindo a honrarias e aos prazeres analisar a política como vocação, vavam sinais de debilidade na
do Mundo, ele pode bem ser apon- identifica-a com interesse e sta- saúde de Martinho de Melo e
tado como o modelo do homem que
serve uma vocação política. (Ama- tus e com o conseqüente choque Castro, como ele próprio expõe
do, 1985, p. 149) entre esses dois objetivos. Quan- em carta a Luiz Pinto de Souza,

25
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lº. 125. De Melo e Castro a Luiz Pinto de Souza, 3 de março de 1787.
26
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lº. 125. De Melo e Castro a Luiz Pinto de Souza, 13 de março de 1787.
27
A afirmativa refere-se à luta do inconsciente com o consciente, componentes básicos da psique humana. (Gay, 1989, p. 91)
28
As instruções de Melo e Castro aos governadores de Minas Gerais foram devidamente analisadas nos capítulos III e IV da
dissertação citada no pé de página nº 1, deste trabalho.

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Virgínia Maria Trindade Valadares

ao se queixar de dores provoca- mentos para sahir e me demorar fora de 24 de março de 1795. A Gaze-
da cama senão por muito pouco tem-
das pela artrite gotosa,29 ta de Lisboa, no dia 28 seguinte,
po (...)30
assim noticiava:
Como o ataque de Gota, que já me Já em idade avançada, com o
embaraçava no dia trinta e hum do Martinho de Melo e Castro, minis-
poder desgastado pelo aconteci-
mez passado, como disse a V.Sª, se tro e secretário d’Estado dos Negó-
foi aumentando de forte que me obri- mento da Inconfidência nas Mi-
cios da Marinha, e Domínios Ultra-
gou a ficar oito dias de cama com nas Gerais e sem muita força fí- marinos, Inspector Geral da Mari-
dores insuportáveis nos joelhos, que sica para manter o mesmo rigor nha, Grão Cruz, Alferes da Ordem
ainda que principiaram a moderar- de Sant-Iago, faleceo na noite de 24
se quarta feira passada, não só me do Ministério Ultramarino, Melo
do corrente em idade de 83 annos.
não ficaram ainda livres os movi- e Castro veio a falecer na noite

Fontes
A.N.T.T. – Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
B.N.L. – Biblioteca Nacional de Lisboa.
Boletim da Segunda Classe – Actas e Pareceres, Estudos, Documentos e
Notícias. Lisboa. Academia das Ciências de Lisboa, 1926. v. 20.

Referências bibliográficas
ALEXANDRE, Valentim. Os sentidos do império: questão nacional e questão colonial na crise do antigo sistema
colonial. Porto: Afrontamento, 1992.
AMADO, José Carlos. Martinho de Melo e Castro. Lisboa: Academia de Geografia de Lisboa, 1985. p.141-150.
(Comemorações do bicentenário da Companhia de Guarda Marinhas pela Academia Marinha).
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ZUQUETE, Afonso Eduardo Martins (Dir.). Nobreza de Portugal e Brasil. Lisboa: Zairol, 1989.

29
Doença resultante do depósito de ácido único nas pequenas articulações. Apesar de não ser fatal, provoca debilitação
orgânica, com manifestações extremamente dolorosas.
30
A.N.T.T. Ministério dos Negócios Estrangeiros. Lº. 125. De Melo e Castro a Luiz Pinto de Souza, 11 de novembro de 1788.

46 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 36-46, out. 1998


“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História

“O MITO É BOM PARA PENSAR”:


DIÁLOGOS ENTRE ANTROPOLOGIA
E HISTÓRIA
Gilmar Rocha
Departamento de Sociologia – PUC Minas

Pretendemos mostrar não como os homens pensam


dentro dos mitos, mas como os mitos se pensam
dentro dos homens, e sem eles o saberem.
(Lévi-Strauss)

P
RESUMO aul Ricoeur subordina o mito ao pen-
A distinção entre estrutura e samento simbólico, isto porque “o sím-
acontecimento, presente nas ciên-
cias sociais e humanas, contribuiu bolo dá que pensar, faz apelo a uma in-
para que se estabelecesse uma certa
distância entre a Antropologia e a terpretação, precisamente porque ele diz mais
História. A partir da perspectiva da
Antropologia estrutural de Lévi-
do que não diz e porque nunca acabou de dar
Strauss, intensificam-se os debates a dizer” (1988, p. 29). Nessa perspectiva, tam-
com a História. Metodologicamen-
te, o mito ocupa um lugar privile- bém o pensamento estruturalista de Lévi-
giado para se pensar o conflito pa-
radigmático entre estrutura e acon- Strauss se faz “simbólico” quando se refere ao
tecimento e sua relativização atra-
vés de um diálogo mais estreito totemismo, pois adverte-nos o antropólogo: “as
entre a Antropologia e a História.
espécies naturais não são escolhidas por serem
‘boas para comer’ mas por serem ‘boas para pensar’” (1980, p. 165-
166). Daí a inspiração para se pensar o mito, pois também o “mito é bom
para pensar” porque, tal como o símbolo, nos impõe uma interpreta-
ção, ainda que parcial, “precisamente porque ela diz mais do que não
diz e porque nunca acabou de dar a dizer ” sobre as relações entre es-

* Agradeço à Profa. Silvana Seabra Oliveira a leitura crítica do texto e, sobretudo, pelas constantes demonstrações de carinho
e motivação intelectual através de nossos diálogos acadêmicos. A ela dedico este texto como sinal de respeito e admiração
intelectual. Escusado dizer que a responsabilidade pelas idéias expostas no texto são, exclusivamente, do autor.

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 47-59, out. 1998 47


Gilmar Rocha

trutura, mito e acontecimento, e, ciências sociais e humanas com- fica nos anos 80, tornando pos-
ao mesmo tempo, sobre a Antro- portam uma distinção crucial sível um diálogo mais intenso e
pologia e a História. que pode ser identificada através profundo entre ambas. O per-
O objetivo é, em um primei- da oposição paradigmática entre curso desse encontro que ainda
ro momento, desenvolver uma estrutura e história, isto é, entre hoje não terminou de acontecer
análise entre a Antropologia e a permanência e mudança, repre- comunica, sobretudo, um confli-
História a partir das oposições sentação e ação. Ao lado das mu- to paradigmático no interior das
paradigmáticas entre estrutura e danças, dos desequilíbrios, dos ciências sociais e humanas mas
acontecimento. Nesse sentido, o acontecimentos, estariam os so- que se abre à possibilidade de
texto analisa parte da trajetória ciólogos, historiadores e cientis- uma dupla interpretação, simul-
dessas duas disciplinas e suas tas políticos, ao passo que, o lado taneamente: uma leitura sincrô-
aproximações em épocas recen- conservador das estruturas, das nica inspirada no estruturalismo
tes, bem como privilegia a análi- permanências, encontram-se os e, uma outra, diacrônica, através
se do mito na perspectiva da An- antropólogos, quando muito, os do diálogo hermenêutico, entre
tropologia estrutural de Lévi- filósofos. Antropologia e História.2
Strauss e algumas tentativas de O pensamento filosófico oci-
superação do conflito entre es- dental, ao distinguir estrutura e
trutura e acontecimento. Anteci- história, relegou o mito a um se- Estrutura e História
padamente, podemos dizer que, gundo plano.1 Grosso modo, o
mais do que apresentar uma vi- mito pertence ao domínio das A formação do “paradigma
são totalmente integrada e per- estruturas, da permanência, e a estrutural” em antropologia
feita da relação estrutura, mito e história à esfera das mudanças. constitui uma reação importan-
acontecimento, o que se oferece Essa distinção parece particular- te ao “paradigma evolucionista”
é uma reflexão em torno de al- mente visível no pensamento predominante na antropologia e
gumas questões ainda hoje caras antropológico e, por extensão, na “história positivista” do sécu-
à Antropologia e à História. no pensamento histórico. Na lo XIX. Ainda que guardando
verdade, estrutura e história fun- certa familiaridade com esses pa-
cionam como pólos epistemoló- radigmas, a sociologia de Dur-
Para se pensar o mito gicos a partir dos quais se desen- kheim pode ser vista como o
volvem boa parte da compreen- ponto inicial de constituição do
No pensamento científico oci- são e representação da realida- “paradigma estrutural”. Os estu-
dental, o mito situa-se na encru- de em ciências sociais e huma- dos sobre a natureza dos fatos
zilhada de um conflito maior en- nas. sociais (“coisas”), a tipologia clas-
tre estrutura e acontecimento Mais recente, contudo, é o en- sificatória das solidariedades
que tem dominado as ciências contro entre Antropologia e His- mecânica e orgânica, bem como
sociais e humanas. De acordo tória. Começa nos anos 60, au- a análise das representações co-
com Roberto DaMatta (1988), as menta nos anos 70, e se intensi- letivas, orientariam muitos dos

1 A esse respeito ver Gusdorf (1979).


2 Em particular, os estudos de Paul Ricoeur (op. cit.), e os de Roberto Cardoso de Oliveira (1988), têm nos servido aqui de fon-
te inicial de reflexão sobre a relação Antropologia e História. Um procedimento semelhante ao realizado por Cardoso de
Oliveira poderia ser tentado no campo da história, promovendo um diálogo mais profundo com a análise antropológica de
Hayden White (1992). Penso em uma “Meta-etnografia da História” capaz de estabelecer um diálogo sobre o pensamento e
a escrita da história e da antropologia a exemplo do que nos sugere a “etnografia do saber” proposta por Clifford Geertz
(1983; 1997).

48 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 47-59, out. 1998


“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História

estudos futuros sobre a estrutu- histórica apóia-se em registros mitantemente, à história ociden-
ra social em Sociologia e Antro- escritos, o que limita seu empre- tal. Aparentemente, essas críticas
pologia. Paralelamente, a socio- go na prática da pesquisa antro- serviram para aumentar a dis-
logia durkheimiana passava a pológica. A compreensão do fun- tância entre a História e a Antro-
dividir com a “Antropologia fun- cionamento de um sistema soci- pologia. Mas, o mais interessan-
cionalista” desenvolvida por Ma- al qualquer independe da com- te é que justamente a Antropo-
linowski, no início do século, um preensão de sua evolução histó- logia, de inspiração estruturalis-
lugar de destaque nos estudos rica. Por exemplo, diz Radcliffe- ta, serviu, ao menos parcialmen-
sobre a estrutura social das so- Brown: te, à aproximação com a Histó-
ciedades primitivas. Segundo ria a partir dos anos 50.
DaMatta, a “revolução” promo- (...) se os senhores perguntarem, não Lévi-Strauss, quando privile-
como o sistema de parentesco inglês
vida pelo funcionalismo consis- gia o estudo sincrônico sobre o
ou sistema político veio a existir, po-
tiu na “possibilidade de se estu- rém como ele atua presentemente, a diacrônico, não nega o valor da
dar uma sociedade como um sis- questão pode ser respondida pela História, mas reclama uma pers-
tema coerentemente integrado pesquisa do mesmo tipo que o traba- pectiva estrutural da Antropolo-
lho de campo antropológico, e as con-
de relações sociais” (1987, p. 102). siderações históricas serão relativas, gia para as sociedades de “tem-
Significa isso que o estudo de to- senão absolutamente, secundárias. po frio”, capaz de relativizar a vi-
do e qualquer sistema social (1973, p. 110) são etnocêntrica do tempo his-
pressupõe uma integração na tórico (“evolutivo”) como única
qual se deve necessariamente re- Ao assumir a Antropologia Soci- forma possível de fornecer um
conhecer que: al como próxima às ciências na- entendimento correto das socie-
turais, também a História, para dades humanas. Por diversas ve-
(a) não tem restos, pois ali tudo de- Radcliffe-Brown, só é verdadei-
sempenha um papel; (b) onde tudo zes, ele chama a atenção para a
ra se apoiada em documentos fi- complementaridade entre An-
tem um sentido, ainda que esse sen-
tido não seja facilmente localizável; dedignos. Assim, para fugir a tropologia e História:
e, (c) que o sentido de um costume, uma História conjectural ou hi-
hábito social ou instituição tem que potética, a Antropologia, en- O etnólogo respeita a história mas
ser compreendido nos termos do sis- não lhe atribui um valor privilegia-
tema do qual provém, é algo positi- quanto Sociologia em busca das do. Ele a concebe como uma pesqui-
vo e até mesmo revolucionário, rela- leis, deveria concretizar-se pelo sa complementar à sua: uma abre o
tivamente à posição anterior do evo- método comparativo, pois “sem leque das sociedades humanas no
lucionismo, a ver tudo em termos de tempo, a outra, no espaço. E a dife-
sobrevivências históricas. (DaMat- estudos comparativos sistemáti- rença é ainda menor do que parece,
ta, 1987, p. 103-104) cos, a Antropologia tornar-se-á pois o historiador se esforça para
mera historiografia e etnogra- constituir a imagem das sociedades
tais como nos momentos que para
Daí, na perspectiva de Radcli- fia”.3 Em suma, Radcliffe-Brown
elas correspondiam ao presente, ao
ffe-Brown, o “estrutural-funcio- não nega a História, mas impõe passo que o etnólogo faz o melhor
nalismo” configurar-se, até cer- limites à sua utilização na Antro- possível para reconstituir as etapas
to ponto, em um aguerrido opo- pologia Social. históricas que precederam no tempo
as formas atuais. (Lévi-Strauss,
sitor da História, denunciando Por sua vez, são bem conhe- 1967, p. 284)
seu caráter conjectural e especu- cidas as críticas de Lévi-Strauss
lativo. Para ele, a investigação à concepção do tempo e, conco- De fato, Lévi-Strauss reconhe-

3 Sobre as relações entre história e antropologia no pensamento de Radcliffe-Brown ver seus estudos sobre o método compa-
rativo na coletânea organizada por Alba Zaluar (1980).

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 47-59, out. 1998 49


Gilmar Rocha

ce a complementaridade da His- mem, nem ao objeto, em geral, o volvida por Braudel vai encon-
tória e da Antropologia. Contu- estudo da vida social, nem ao trar, inicialmente, na Geografia o
do, critica o tempo da História método, variando somente a do- terreno fértil da longa duração e
como encadeamento significati- sagem dos procedimentos de seu modelo exemplar, nem por
vo de fatos, enquanto única ma- pesquisa quanto à abordagem isso é menor a influência e/ou
neira legítima de se pensar a das sociedades no tempo e no presença da Antropologia estru-
temporalidade. A História con- espaço, mas, sobretudo, no que tural de Lévi-Strauss nesse pro-
cebida como tempo linear e pro- diz respeito à perspectiva adota- cesso. A Antropologia estrutural
gressivo, portanto como uma su- da. Na perspectiva de Lévi- levistraussiana, nas palavras do
cessão lógica de causas e efeitos, Strauss, a Antropologia se distin- próprio Braudel, representaria a
representa somente a maneira gue da História por buscar apre- melhor tentativa de formulação
como as sociedades ocidentais ender as “condições inconscien- de um modelo, no campo de es-
vêem a História, o mesmo não tes da vida social”, ao passo que tudo das matemáticas sociais, pa-
ocorrendo com outras culturas a História procura organizar seus ra se atingir a longa duração; diz
em outros lugares. Levando aos dados em relação às expressões ele:
extremos sua crítica à História, conscientes da vida em socieda-
Lévi-Strauss reconhece na histo- de.4 Torno a referir-me, uma vez mais, a
riografia moderna uma proximi- Por outro lado, a busca das Claude Lévi-Strauss, porque sua
tentativa, neste campo, parece-me
dade, senão um substituto mo- condições inconscientes da vida ser a mais inteligente, a mais clara e
derno das mitologias primitivas. social seria incorporada à pers- também a melhor enraizada na ex-
A História é sempre “história-pa- pectiva da História. Uma Histó- periência social, da qual tudo deve
partir e a que tudo deve voltar. Em
ra”, ou seja, construção historio- ria que fosse mais explicativa e cada um dos casos, assinalemo-lo,
gráfica orientada por um código menos descritiva deveria sair da determina um fenômeno de extrema
cronológico (“datas”) que trans- História, da perspectiva das ex- lentidão, como se fosse intemporal.
Todos os sistemas de parentesco que
forma o tempo diacrônico em pressões conscientes para as con- perpetuam, porque se impõe que um
um mito. Ou melhor, o historia- dições inconscientes da vida so- pequeno grupo de homens para vi-
dor utiliza-se de um código cro- cial. Com Braudel a História ver se abra ao mundo exterior: a
proibição do incesto é uma realida-
nológico para descrever as expe- aprofunda suas relações com as
de de longa duração. Os mitos, de
riências humanas no tempo, po- ciências sociais – incluindo-se aí lento desenvolvimento, também cor-
rém, na medida em que ele co- as matemáticas sociais (qualita- respondem a estruturas de uma ex-
difica o tempo – seleciona, des- tivas), cujos modelos de análise trema longevidade. (...) Mas supo-
nhamos que o nosso colega se inte-
taca, recorta seu objeto de estu- são fornecidos pelas disciplinas ressa não por mito, mas pelas ima-
do –, a narrativa histórica apro- da Lingüística, da Comunicação gens, pelas interpretações sucessivas
xima-se do mito. Com isso, a di- e da Cibernética de Von New- do “maquiavelismo” (...) Aparecem
continuamente, neste caso, rupturas
ferença entre Antropologia e mann – e, em particular, com a e inversões até na própria estrutura
História não se deve aos objeti- Antropologia, a Sociologia e a do maquiavelismo, já que este siste-
vos, já que ambas buscam uma Geografia. De fato, se a História ma não tem a solidez teatral e quase
eterna do mito; é sensível às inci-
melhor compreensão do ho- de inspiração estrutural desen-

4 Apreender a “estrutura inconsciente da vida social” constitui-se no objetivo maior da antropologia levistraussiana. A pró-
pria noção de estrutura indica um sentido histórico ao se ultrapassar a concepção utilizada por Radcliffe-Brown. Para Lévi-
Strauss, a estrutura é um modelo através do qual o antropólogo apreende um sistema de relações (de parentesco, de ali-
mentação, de simbolismo mitíco ou totêmico etc.) que não se confunde com a realidade, mas é capaz de explicá-la; ver: Lévi-
Strauss (1967).

50 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 47-59, out. 1998


“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História

dências e às contrariedades, às múl- brepondo-se ao acontecimental, que vinha se escrevendo até


tiplas intempéries da história. Des-
o historiador almeja atingir o “in- aquele momento. A história das
te modo, o procedimento recomen-
dado por Lévi-Strauss na investiga- consciente estrutural” da histó- mentalidades colocava ao lado
ção das estruturas matemáticas não ria, pois: do tempo longo, das estruturas
se situa apenas ao nível micro-soci- inconscientes, o tempo breve, o
ológico, mas também no encontro do Admitamos, além disso, à falta de
infinitamente pequeno e da muito melhor, que este inconsciente seja
ato consciente, isto porque, como
longa duração. (Braudel, 1986, p. considerado como mais rico cienti- salienta Le Goff (1988), as men-
32) ficamente que a superfície relampe- talidades estão a meio caminho
jante a que estão acostumados os
A “história inconsciente” de entre os domínios do tempo lon-
nossos olhos; mais rico cientifica-
Braudel reivindica o modelo es- mente, isto é, mais simples, mais fá- go e do cotidiano, das expressões
trutural da Antropologia levis- cil de explorar, se não de descobrir individuais e coletivas, das re-
traussiana, após constatar que os (...) Acrescentemos ainda que a his- presentações intencionais e in-
tória inconsciente – domínio par-
modelos de explicação histórica cial do tempo conjuntural e, por ex- conscientes, enfim, das estrutu-
até então raramente alcançam celência, do tempo estrutural – é ras e dos acontecimentos. O ní-
maior rigor científico. “Uma no- muitas vezes mais nitidamente per- vel da história das mentalidades
cebida que aquilo que se quer admi-
va espécie de narração”, de tem- tir. Todos nós temos a sensação, para é aquele que escapa às represen-
po de longa duração, capaz de além da nossa própria vida, de uma tações dos sujeitos particulares
obter uma verdadeira explicação história de massa, cujo poder e cujo porque revelador do conteúdo
impulso são, na verdade, mais fáceis
científica, era enunciada por impessoal do pensamento de
de perceber que as suas leis ou a sua
Braudel. Trata-se de uma narra- duração. E esta consciência não data uma época, mas capaz de rein-
tiva que não fosse aquela acos- unicamente de ontem (assim, por tegrá-las como singularidade
exemplo, no que concerne à história histórica e, por isso mesmo, re-
tumada à descrição de aconteci-
econômica), ainda que seja hoje cada
mentos encadeados no tempo e vez mais viva. A revolução – porque velador daquilo que é comum
conscientemente percebidos pe- se trata, na verdade, de uma revolu- aos homens, entre César e o últi-
los homens, mas que cumprisse ção no espírito – constitui-se em mo soldado de suas legiões, Cris-
abordar, de frente, esta semi-obscu-
a lição estrutural de não pensar ridade, em dar-lhe um lugar cada tovão Colombo e o último mari-
apenas no tempo da breve du- vez mais amplo ao lado – para não nheiro de suas caravelas.
ração, não acreditar que somen- dizer à custa – dos acontecimentos. Em verdade, o conflito para-
(Braudel, 1986, p. 24)
te aqueles setores que fazem ruí- digmático entre estrutura e his-
do são, nesse caso, os mais au- Na esteira da história de lon- tória aproxima muito mais do
tênticos; também há os silencio- ga duração surge a “história das que, efetivamente, separa, a his-
sos. Nessa perspectiva, o acon- mentalidades”;5 no entanto, se- tória da antropologia. Nos anos
tecimento não passa de um ca- ria somente a partir dos anos 60 70, o estruturalismo antropoló-
pricho da história, pois “faz tan- que os historiadores passariam a gico beneficia-se desse conflito à
to fumo que enche a consciência reconhecê-la efetivamente como sua expansão, na medida em que
dos contemporâneos; mas dura um novo terreno da História. A as sociedades modernas experi-
um momento apenas, apenas se aproximação com a Antropolo- mentam a crise da ideologia
vê a sua chama” (p. 10), dirá gia seria mais evidente ainda, so- “prometéica” do progresso. Pa-
Braudel. Através do tempo de bretudo, ao introduzir algumas rafraseando Philippe Ariès, o his-
longa duração, o estrutural so- novidades em relação à História toriador vê, nesse contexto, um

5 Os trabalhos de Lucien Febvre e Marc Bloch, pioneiros da “Escola dos Annales”, podem ser vistos como precursores da
história das mentalidades.

Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 47-59, out. 1998 51


Gilmar Rocha

sinal encorajador: “o fim do pro- história da morte, da infância, da nesse momento a História Soci-
gressismo”. Daí, o discurso an- alimentação, do clima, dos sen- al, isto é, uma História que bus-
tropológico sobre as invariantes timentos etc. Será como busca ca através dos estudos de movi-
estruturais, reveladas no estudo desse tempo reencontrado que mentos operários, de família, das
das sociedades primitivas, sedu- os historiadores passam a man- relações de poder sobre o indi-
zir a antropólogos e historiado- ter um diálogo mais profundo víduo, sobre a mulher e a crian-
res ocidentais, na medida em que com os antropólogos, tomando- ça etc.; compreender os elemen-
tal discurso parece não ter mais lhes emprestados os instrumen- tos sociais ou culturais, portanto
o dever de localizar-se unica- tos de análise que orientam seu estruturais, que determinam a
mente nas latitudes tropicais. A campo de saber. Nesse sentido, ação inconsciente dos homens
descolonização do terceiro mun- o olhar, a curiosidade do histori- do mundo cotidiano. Nesse sen-
do permitiu, então, aos antropó- ador dirige-se para o que é estru- tido, a historiografia moderna
logos voltarem os olhos para as tural, reprimido, marginal e, até parece refletir o próprio movi-
ilhas de resistência cultural (“es- certo ponto, natural, na medida mento histórico de sua produ-
trutural”) localizadas em seu em que representa o avesso dos ção. A História faz justiça ao que
próprio mundo desenvolvido. A valores estabelecidos pela socie- dela se disse à época: “a história
orientação das pesquisas sobre as dade. O fim do “progressismo” é filha do seu tempo”. A Histó-
estruturas, os bloqueios nas so- relativiza o tempo histórico a fa- ria descobre, nesse momento,
ciedades de clima temperado, vor da sincronia; o tempo imó- sua vocação estrutural.
seria reforçada pela crise mun- vel das estruturas se fecha sobre
dial dos anos 70, mergulhando o presente da história. Também
as sociedades industrializadas os historiadores serão chamados Estrutura e mito
num quadro de profunda reces- não mais a olhar para as mudan-
são econômica com aumento no ças, mas para as estruturas reve- Objeto privilegiado na Antro-
número dos desempregos e da ladas pela crise da sociedade mo- pologia estrutural, o mito, se-
inflação, dissensões políticas e derna. Não há mais futuro, dirá gundo Lévi-Strauss é uma nar-
manifestações contraculturais. O o historiador. (Ver François Dos- rativa e como tal conta uma his-
ocidente busca reencontrar seu se, 1992) tória. Como linguagem, o mito
tempo perdido, sua época de ou- Através da Antropologia, o es- “tem um lugar em um nível mui-
ro. Acostumadas a ver no tempo truturalismo contribuiu para o to elevado, e onde o sentido che-
um sinal de evolução e progres- desenvolvimento de uma pers- ga, se lícito dizer, a decolar do fun-
so, as ciências sociais em geral e, pectiva histórica que tem por damento lingüístico sobre o qual
a História, em particular, reorien- fundamento interrogar-se sobre começou rolando” (1967, p. 242).
tam o olhar para os significados o tempo, sobre o inconsciente O mito constitui-se numa lingua-
das experiências humanas na- estrutural das práticas sociais. A gem de segundo grau.6 Sua re-
quilo que revelam de mais natu- História, seja nas vertentes fran- lação com a realidade etnográfi-
ral. Daí, poder se pensar em uma cesa, inglesa ou alemã, descobre ca, apesar de essencial para sua

6 Observação semelhante à de Lévi-Strauss, encontramo-na em Barthes, para quem o mito consiste num sistema semiológico
de segundo grau e que se constrói a partir de um sistema lingüístico anterior. Aí tudo se passa como se o mito se deslocasse
do nível da linguagem para constituir-se numa metalinguagem. E mais, em relação à história diz Barthes: “a função do mito
é transformar uma intenção histórica em natureza, uma contingência em eternidade” [pois] “o mito é constituído pela eli-
minação da qualidade histórica das coisas: nele, as coisas perdem a lembrança de sua produção” (1978, p. 162-163). As aná-
lises de Lévi-Strauss levam-no a aproximar o pensamento mítico do pensamento científico e identificar aí certas categorias
universais que regem o funcionamento do espírito humano. A esse respeito ver, particularmente, Lévi-Strauss (1989) e
Yvan Simonis (1979).

52 Cad. hist., Belo Horizonte, v. 3, n. 4, p. 47-59, out. 1998


“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História

interpretação, não é de represen- num outro registro) que aquilo que de E. Leach aponta para o artifi-
vive tão completa e internamente é
tação direta, uma vez que o mito cialismo da distinção entre mito
um mito, que aparecerá como tal aos
pode contradizer os dados ime- homens de um século próximo, que oral e mito escrito. O mito oral
diatos da realidade, pois através assim lhe parecerá a si próprio, tal- não é mais verdadeiro do que o
dele o espírito humano fala de si vez, daí a alguns anos, e que aos ho- mito escrito, até porque “a signi-
mens de um próximo milênio não
mesmo. No estruturalismo, o sig- aparecerá absolutamente. (Lévi- ficação da história está no que se
nificado de um mito inscreve-se Strauss, 1989, p. 283) acredita ter acontecido, e não no
a partir das unidades constituti- que realmente aconteceu” (p. 114).
vas que o formam, isto é, “mite- Nesse sentido, a História é um Para este, Lévi-Strauss usa uma
mas” que combinadas num fei- código e, como tal, a nos contar definição estreita de mito quan-
xe de relações adquirem uma um mito. A questão levantada do parece supor que os mitos dos
função significante e estabele- pelo próprio Lévi-Strauss é, “on- ameríndios contemporâneos são
cem a estrutura do mito. de termina a mitologia e onde produtos culturais de um tipo
Para Lévi-Strauss, a História começa a história?”, e vice-ver- inteiramente diferente das histó-
é “história-para”, isto é, o que tor- sa. O problema começa e termi- rias míticas do povo judeu, por
na a história algo possível é que, na com a escrita, pois, salientam exemplo. Na verdade, para Lea-
num determinado período, um Leach (1983) e Pitt-Rivers (1979), ch, a análise estrutural dos mi-
conjunto de fatos alcança de for- para Lévi-Strauss o mito que já tos deve ser aplicável tanto no
ma aproximada a mesma signi- passou por um processo de re- que diz respeito propriamente à
ficação para um contingente re- dação literária, tornando-se um análise do tempo dos mitos
lativo de indivíduos que neces- documento de outra classe, reve- quanto ao tempo dos homens.
sariamente não viveram esses la um processo de deformação Mas o próprio Lévi-Strauss,
fatos, mas que podem, mesmo a provocado pela sua reinterpre- em uma das conferências que
vários séculos de distância, con- tação transformando-se, portan- compõem Mito y significado, le-
siderá-los significativos. Daí, to, em um produto adulterado vanta o problema de “quando o
para ele, a história nunca ser a da estrutura do pensamento. mito se converte em história”. As
História, mas “história-para”. Em Lévi-Strauss parece, então, fi- histórias recolhidas dos povos
outras palavras, a História existe xar um limite possível entre o sem escrita, primeiro, pelos an-
enquanto historiografia, traba- mito e a história através da es- tropólogos, e depois, pelos pró-
lho de escrita da história, o que crita, isto é, o mito puro propria- prios nativos, colocam um duplo
torna a História-ciência um có- mente dito seria encontrado nas problema para os mitólogos. O
digo e a consciência da história sociedades simples de cultura primeiro, é que ao lado de tan-
um mito, pois: oral e não corrompido pelos pro- tas histórias coerentes recolhidas
cessos de redação; o contrário pelos antropólogos há um outro
Então, basta que a história se dis-
aplica-se aos mitos escritos, rein- tanto de histórias desconexas. A
tancie de nós na duração ou que dela
nos distanciemos pelo pensamento, terpretados historicamente. O exemplo do que ocorre com a Bí-
para que ela deixe de ser interiori- mito histórico, por exemplo, o li- blia, nas sociedades primitivas
zável e perca sua inteligibilidade, muitas dessas histórias são reu-
vro da Bíblia, é dessa natureza,
ilusão ligada a uma interioridade
provisória. Mas que não nos façam pois representa um trabalho in- nidas e ordenadas coerentemen-
dizer que o homem pode ou deve li- telectual diferente com fins dife- te por algum nativo sábio. Nes-
vrar-se dessa interioridade. Não está rentes em uma determinada si- se caso, é de fundamental impor-
em seu poder o fato de fazê-lo, e a
sabedoria consiste, para ele, em tuação histórica diferente. De tância demonstrar se a situação
olhar-se vivendo-a, sabendo (porém acordo com Pitt-Rivers, a crítica entre os povos sem escrita, estu-

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dados pelos antropólogos, é a (...) as partes históricas do Velho Tes- do mito na prática da história.
tamento constituem uma unidade
mesma da Bíblia ou se esta se Para citar somente dois, Paul
histórica-mítica que serviu de justi-
mostra completamente diferen- ficação para o estado da sociedade ju- Veyne (1987) e Jean-Pierre Ver-
te. O segundo, é que mesmo as daica na época em que esta parte do nant (1992) destacam a relação
histórias recolhidas e reunidas texto bíblico alcançou uma aproxi- entre mito e história no pensa-
mada estabilidade canônica. (Leach,
em livro pelos antropólogos, em 1983, p. 114) mento grego. Também medieva-
muitos casos, contam com a co- listas apontam para a possibili-
laboração dos nativos, portanto, Através dos mitos os homens dade de formação de “mitos his-
é preciso verificar se existem di- contam uma estória de si mes- tóricos”, como supomos ser o ca-
ferenças de objetivos entre essas mos na história. Em contraparti- so do Rei Arthur e a Távola Re-
e as que, posteriormente, foram da, para Lévi-Strauss, é a histó- donda, o Nascimento do Purga-
recolhidas e reunidas em livro ria o lado moderno da mitologia, tório, o Ano Mil e outros. Numa
pelos próprios nativos. Na ver- isto é: análise que envolve História e
dade, diz Lévi-Strauss, as histó- Antropologia, Wachtel (1996)
rias coletadas nesses livros, seja Não estou muito longe de pensar que analisa o imaginário dos vampi-
em nossas sociedades a história subs-
pelos antropólogos seja pelos titui a mitologia e desempenha a ros em uma aldeia boliviana do
próprios nativos, não apresen- mesma função, já que para as socie- século XVI, quando da presença
tam as tradições de diversas fa- dades sem escrita, e que portanto ca- dos “gringos” espanhóis no pro-
recem de arquivos, a mitologia tem
mílias, clãs ou linhagens, de mo- por finalidade assegurar, com um cesso de colonização e, agora, o
do reunido e/ou justaposto, mas alto grau de certeza – uma certeza retorno do vampiro no século
o que realmente eles relatam são, completa é obviamente impossível – XX, porém não mais referindo-
que o futuro permanecerá fiel ao pre-
na maioria das vezes, a história se aos “gringos”, mas aos própri-
sente e ao passado. (Lévi-Strauss,
de uma família ou de um clã, re- 1987, p. 65) os nativos que se aliaram às coi-
velada por um de seus descen- sas do mundo moderno capita-
dentes. Deduz-se daí que muitas E, conclui Lévi-Strauss, as re- lista. Ressalta-se daí o modo co-
dessas histórias são, elas mes- lações entre mito e história, cu- mo os mitos podem ser reatuali-
mas, significativas para a histó- jas representações são do passa- zados historicamente.7
ria de um determinado grupo, do, talvez se façam mais estrei- Paralelamente, os estudos an-
família ou clã, por representarem tas no futuro. Uma história não tropológicos de Leach sobre o
um esforço no sentido de justifi- separada da mitologia, mas co- Gênesis, de Pitt-Rivers sobre a
car direitos presentes ou reivin- mo sua continuação. Honra, e de Marshall Sahlins so-
dicar privilégios passados, e ex- bre a Colonização Havaiana, to-
plicar seu próprio destino. dos procuram relativizar a anti-
Como nas histórias míticas da Mito e história nomia estrutura e acontecimen-
Bíblia, o mito reinterpretado his- to através das relações entre mito
toricamente fornece um sentido Originalmente, mito e histó- e história. Pitt-Rivers, valendo-
de continuidade histórica na for- ria guardam uma estreita rela- se do conceito de “história-mito”,
mação de uma identidade social ção. Nessa perspectiva, alguns de Leach, lembra que:
de um grupo determinado. As- historiadores e filósofos da reli-
sim é que gião têm acentuado a presença As regras morais da sociedade são

7 Do ponto de vista antropológico, vale ressaltar a análise de Cunha (1987), de como o mito se converte em história; e a análise
de Pandolfo & Mello (1983), exemplo de como a história se converte em mito; e a análise de Overing (1995), em que o mito
se confunde com a própria história.

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“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História

necessárias não só para explicar o tida nos estudos sobre o contato mítica”, Sahlins entende que a
mito como totalidade, senão também
dos primeiros colonizadores nas relação entre estrutura e história
para interpretar os elementos que o
compõem. O significado de cada ele- ilhas havaianas retoma as rela- é mais complexa e, na verdade,
mento é dado por sua posição em re- ções entre estrutura e história, a mais estreita do que se pensa.
lação com as premissas morais do partir do ponto em que foram Afinal, o que faz do encontro en-
povo, enquanto para Lévi-Strauss,
o significado é dado por sua posição abandonadas por Braudel e Lé- tre ingleses e havaianos “uma
em relação com os demais elemen- vi-Strauss.10 Estabelece uma dia- metáfora histórica da realidade
tos do mito. (Pitt-Rivers, 1979, p. lética entre estrutura e História, mítica” não é somente o fato de
206)
isto é, como a História transfor- haver uma série de coincidênci-
ma a estrutura e como a estrutu- as rituais, que vão desde a che-
A noção de “história-mito”, ra é reproduzida historicamen- gada, em 1778, do Capitão Cook,
segundo Pitt-Rivers, consiste te. A questão não é somente a bordo do Resolution, confundi-
num esforço de Leach para reu- quanto à existência da estrutura da com o retorno anual do Deus
nir nos estudos míticos o motivo “na” História, mas também “en- Lono, até o seu assassinato um
da história, principalmente nas quanto” História. ano depois. Sobretudo, o fato de
sociedades cuja tradição será in- Ilhas de história, em certo que
terpretada e fixada através dos sentido, pode ser lido como um
mitos escritos, o que inclui os mi- estudo dialético de “história-mi- (...) incorporando eventos contin-
tos recolhidos e analisados pelo gentes em estruturas recebidas, per-
to” ou “mito-história”. Sahlins cebendo relações míticas em ações
antropólogo. Vale dizer, o signi- sintetiza o encontro dos primei- históricas, o sistema parece estar se
ficado do mito é atribuído histo- ros colonizadores ingleses com reproduzindo de maneira flexível.
ricamente.8 os nativos havaianos:
Mas aí, para tomar de empréstimo o
Marshall Sahlins, em Ilhas de bon mot de Pouillon, “quanto mais
é a mesma coisa, mais ela muda”.
história,9 revela na relação estru- Tudo acontecia como se centenas de (p. 50)
tura-história uma possibilidade anos de sacrifícios tivessem sido fi-
nalmente recompensados. Não so-
de relativização cultural. Sem Pode-se dizer ainda que, quanto
mente isso, mas como se o aconteci-
dúvida, Sahlins realiza um dos mento histórico fosse a metáfora da mais ela muda, mais permanece
experimentos mais bem-sucedi- realidade mítica. Quando os ingle- a mesma. De fato, os desdobra-
dos da antropologia histórica, ao ses aportaram no ano seguinte em
mentos simbólicos provocados
Kealakekua, os sacerdotes havaianos
relativizar a antinomia estrutu- puderam objetivar a sua interpreta- na ordem cultural havaiana, des-
ra e o acontecimento a favor de ção a respeito da figura de Cook, de de a chegada dos ingleses, indi-
uma teoria da História (“Histó- ser ele o Deus do Ano Lono chegan- cam claramente um processo de
do em seu retorno anual para ferti-
ria Antropológica”) capaz de reu- lizar a Terra (p. 25). reelaboração histórico-cultural
nir novamente na Antropologia da estrutura social, pois
tais antinomias estruturais e seus Ao descobrir no encontro en-
(...) todo uso efetivo das idéias cul-
termos correlatos, sobretudo, tre ingleses e havaianos uma turais é em parte reprodução das
mito e História. O ponto de par- “metáfora histórica da realidade mesmas, mas qualquer uma dessas

8 Pode-se pensar na “história-mito” como estando a meio caminho entre o estruturalismo e a hermenêutica. Para Paul Ri-
coeur, o significado do mito nem sempre permanece o mesmo, pois “toda tradição vive graças à interpretação; é por este
preço que ela dura, isto é, permanece viva” (op. cit., p. 28). Contudo, para Lucien Sebag (s/d), mesmo havendo interpreta-
ção, independente das substituições lexicais, a mensagem do mito permanece. A nosso ver, a análise desenvolvida por Vi-
veiros de Castro & Araújo (1977) pode ser lida como uma “história-mito”.
9 Daqui para frente todas as citações de Sahlins referem-se a essa obra.
10 É o que nos sugere Hunt (1992).

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referências também é, em parte, uma ção ao modelo das “estruturas Tomarei esse incidente como um pa-
diferença. (...) As coisas devem pre- radigma concentrado da história ha-
prescritivas” de Radcliffe-Brown
servar alguma identidade através vaiana: das relações mutantes entre
das mudanças ou o mundo seria um e Lévi-Strauss, de ordem “perfor- os chefes e população, marcadas por
hospício. (p. 190) mativa”. Nessas, os indivíduos formas de opressão sem precedentes,
agem sobre os arranjos estrutu- desenvolvidas a partir das respecti-
vas relações com os aventureiros eu-
Ilustrativa, nesse caso, é a acolhi- rais na medida em que os acon- ropeus, especialmente com o crescen-
da sexual manifestada pelas tecimentos históricos exigem um te número de comerciantes. Essa co-
mulheres havaianas aos mari- certo reordenamento do sistema lisão de havaianos não é somente um
nheiros ingleses, de um lado, ge- paradigma, mas também resume
simbólico, isto é, da cultura. Essa uma possível teoria da história, da
rando a possibilidade de um reconstrução das condições so- relação entre estrutura e evento, que
maior intercâmbio comercial ciais implica o reconhecimento se inicia com a proposição de que a
com o povo e ameaçando o po- transformação de uma cultura tam-
de que a ação dos indivíduos põe bém é um modo de sua reprodução.
der da aristocracia havaiana; do em risco os significados culturais. Cada qual à sua maneira, chefes e
outro lado, não ignorando a efi- Nesse sentido, o encontro dos in- povo reagiam ao estrangeiro de acor-
cácia simbólica do amor na estru- do com suas autoconcepções e seus
gleses com os havaianos é pen-
habituais interesses. As formas cul-
turação do sistema cultural ha- sado a partir da formulação do turais tradicionais abarcavam o
vaiano, tal acolhida representa- conceito de “estrutura da con- evento extraordinário, e, assim, re-
va prestígio e poder – status con- juntura” histórica. Performatica- criavam as distinções dadas de sta-
tus, com o efeito de reproduzir a cul-
cedido somente aos chefes e sa- mente, trata-se de um conjunto tura da forma que estava constituí-
cerdotes – na medida em que daí situacional de “realização práti- da. Porém, como ja frisamos, o mun-
resultasse o nascimento de um ca das categorias culturais em do não é obrigado a obedecer à lógi-
filho, fruto de uma relação com ca pela qual é concebido. As condi-
um contexto histórico específico, ções específicas do contato europeu
o “Deus-estrangeiro”. Daí, Sah- assim como se expressa nas ações deram origem a formas de oposição
lins dizer que “a intenção dos ha- motivadas dos agentes históri- entre chefia e pessoas comuns que
vaianos, ao correrem para os na- não estavam previstas nas relações
cos...” (p. 15). Nesse sentido é
tradicionais entre elas. Temos aqui,
vios europeus que viam como que o encontro dos ingleses com então, a segunda proposição de nos-
sinais dos deuses, era de ‘faça os havaianos e, em particular, sa possível teoria da história: no
amor, não faça história’ – e pas toda a ritualização e mitificação mundo ou na ação – tecnicamente,
em atos de referência – categorias
d’histoires” (p. 50). Assim, a colo- que ronda o Capitão Cook, na culturais adquirem novos valores
nização havaiana ilustra de mo- intepretação de Sahlins, revela- funcionais. Os significados cultu-
do significativo a verdade, tam- se um evento paradigmático. O rais, sobrecarregados pelo mundo,
bém partilhada por alguns his- são assim alterados. Segue-se então
episódio no qual o sagrado che- que, se as relações entre as categori-
toriadores, de que culturas dife- fe Kaneoneo no comando de as mudam, a estrutura é transfor-
rentes apresentam historicida- uma grande canoa dupla, em di- mada. (p. 174)
des diferentes. Parafraseando reção aos navios ingleses, sai
Vernant, diz Sahlins: atropelando todas as pequenas Portanto, antes de ser uma
embarcações dos nativos que se distinção absoluta, estrutura e
(...) as diferentes ordens culturais
têm seus modelos próprios de ação, colocam à sua frente, sintetiza o história são complementares.
consciência e determinação históri- significado da “estrutura da con- Sahlins chama a atenção ainda
ca – suas próprias práticas históri- juntura” histórica da colonização para o seguinte: “o que os antro-
cas. (p. 62)
havaiana e o sentido da antro- pólogos chamam estrutura – as
A cultura havaiana enquanto pologia histórica de Sahlins: relações simbólicas de ordem
estrutura e história é, em oposi- cultural – é um objeto histórico”

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“O mito é bom para pensar ”: diálogos entre Antropologia e História

(p. 7). E, no meio, encontramos unilaterais; certamente uma experi- objetos, pois, segundo Augé, am-
ência histórica fará explodir o con-
o mito. O mito é tanto estrutura bas as disciplinas estão “numa re-
ceito antropológico de cultura – in-
quanto história. Estabelece-se cluindo a estrutura. (p. 19) lação de proximidade que reme-
uma correspondência do mito te à natureza de seu objeto: o es-
com a estrutura e, ao mesmo paço, enquanto matéria da An-
tempo, enquanto narrativa, com Conclusão tropologia, é um espaço históri-
a história. Nestes termos, numa co; o tempo como matéria-prima
relação dialética, estrutura e his- A História e a Antropologia, da História é um tempo localiza-
tória podem ser mediadas pela aparentemente, se deixam con- do e, nesse sentido, antropológi-
noção de “história-mito”. fundir pela natureza de seus ob- co” (p. 14). De fato, Antropolo-
De resto, o encontro entre in- jetos ou, ao menos, pela idéia gia e História, antes de, natural-
gleses e havaianos revela-nos que se tem deles. Marc Augé per- mente, se oporem, estabelecem
mais do que um processo de co- gunta “se é a especificidade da cada vez mais relações de “reci-
lonização e expansão imperialis- área que faz a das disciplinas ou procidade”.11 Um sistema de tro-
ta do capitalismo burguês. Tra- se não são, ao contrário, os pas- cas, “dádivas”, se erige entre am-
ta-se de um encontro cultural sos disiciplinares que constroem bas, o que não pressupõe neces-
que extrapola o contexto históri- as áreas às quais se aplicam” sariamente igualdade de trocas,
co para atingir a própria estru- (1997, p. 12). Em outras palavras, mas “sistemas em trocas” em
tura do pensamento científico a questão levantada por Augé que, no caso, estruturas, mitos e
ocidental, tão acostumado a es- diz respeito à especificidade dos acontecimentos são “bens simbó-
tabelecer “cartesianamente” con- modos de apreensão da Antro- licos” de grande valor nesse in-
trastes binários. Nesse sentido, a pologia e da História, isto é, os tercâmbio (inter)disciplinar.
grande lição que podemos extra- pólos estrutura e acontecimento De resto, pensar o mito é pen-
ir da antropologia histórica de correspondem ou não a certos ti- sar sobre as relações entre estru-
Sahlins é a lição que ele extrai do pos de sociedades. Tendo em vis- tura e acontecimento, Antropo-
encontro entre ingleses e havai- ta que a distinção das disciplinas logia e História. Não pensar so-
anos quanto à própria relação parece abranger a distinção dos bre essas relações é, em certo sen-
entre a antropologia e a história; objetos, o espaço e o tempo, Au- tido, correr o risco de mitificar es-
diz ele: gé se pergunta: até que ponto a truturas e acontecimentos, His-
consciência histórica se realiza tória e Antropologia. Portanto,
A antropologia tem algo a contribuir nas “sociedades sem história” fazendo eco às palavras de aber-
para a disciplina histórica. E o in-
tradicionalmente estudadas pela tura deste texto, é pôr à prova a
verso é igualmente válido. Mesmo
assim não estou apenas formulando Antropologia e, o contrário, até epígrafe de Lévi-Strauss, “mos-
um pedido por maior colaboração que ponto a consciência antro- trar não como os homens pen-
entre as disciplinas. Mas como já sam dentro dos mitos, mas como
disse em certo momento, “o proble-
pológica não invade as socieda-
ma agora é de fazer explodir o con- des históricas? Em verdade, não os mitos se pensam dentro dos
ceito de história pela experiência se pode confundir Antropologia homens, e sem eles o saberem”.
antropológica da cultura”. As con- (1991, p. 21)
e História pela natureza de seus
sequências, mais uma vez, não são

11 A propósito, a noção de reciprocidade tem servido mesmo para se estabelecer um fecundo diálogo entre antropologia e
história, conforme se pode observar através das pesquisas realizadas por alguns historiadores a partir da obra de Karl
Polanyi; ver: Valensi (1978).

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Gilmar Rocha

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