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d o s s i ê i p h a n 7 Cachoeira de Iauaretê }
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dossiê iphan 7 { Cachoeira de Iauaretê }
Lugar sagrado dos povos indígenas dos Rios Uaupés e Papuri (AM)
dossiê iphan 7 { Cachoeira de Iauaretê }
Lugar sagrado dos povos indígenas dos Rios Uaupés e Papuri (AM)
No início, quando não
existia nada, só existia um
ser [masa bahutígi, pessoa
que não aparece],
o Trovão, Ennu
[Hipéweri Hekoapi].

Em seu corpo ele tinha


vários enfeites (...)

também levava seu cigarro


encaixado na forquilha,
sua cuia de epadu e
sua cuia de bebidas doces.

Ele vivia só em sua casa,


no alto, e começou a pensar
sobre a possibilidade de
criar novas pessoas (...)

Trecho da narrativa dos Tariano


PRES I DENT E DA REP ÚBLI C A
Departamento de Patrimônio Imaterial Elaboração do Dossiê
Luiz Inácio Lula da Silva
p esquisa e Textos
M I N I S T RO DA C UL T URA G erente de Identificação Ana Gita de Oliveira (Iphan)
Juca Ferreira Ana Gita de Oliveira Geraldo Andrello (ISA)
PRES I DENT E DO I P HAN
G erente de Registr o Instituições p ar ceir a s
Luiz Fernando de Almeida Ana Cláudia Lima e Alves Instituto Socioambiental (ISA)
ch ef e d e g a b i n e t e Federação das Organizações Indígenas do Rio
G erente de Ap oio e Fomento
Fernanda Pereira Negro (FOIRN)
Teresa Maria Cotrim de Paiva Chaves
Vídeo nas Aldeias
PROC URADORA - C HE FE FEDERAL
Lúcia Sampaio Alho Or ganiz ações Indígena s l o c a i s :
Coordenação das Organizações Indígenas do
D I RE T ORA D e PA T R I MÔNI O I MAT ER I AL
Distrito de Iauaretê (COIDI)
Marcia Sant’Anna Associação de Língua e Cultura Tariana do
D I RE T OR DE PAT RI M ÔN IO M A TERI AL E Distrito de Iauaretê (ALCTDI)
FI S C ALI ZAÇÃO Centro de Estudos e Revitalização das Culturas
Dalmo Vieira Filho Indígenas de Iauaretê (CERCII)

D I RE T OR DE MUSEUS E C EN T ROS Col ab or ador es:


C UL T URA I S Marcelo Brito (DPI/Iphan), Luis Filipe
José do Nascimento Junior Ferreira Anastácio (DPI/ Iphan), Ionara
D I RE T ORA DE PLANEJ A MEN TO E
Madalena Silva Ulmi (bolsista UNESCO/DPI),
ADMI N I S T RAÇÃO Antonio Carlos Ferreira da Conceição e Sheila
Maria Emília Nascimento Santos Aparecida Santos Lemos (COPEDOC/ Iphan),
Maria de Fátima Duarte Tavares (DPI/ Iphan),
C OORDENADORA - G ERAL DE PESQU I SA , Patrícia Maria Costa Alves (Superintendência
DOC U MENT AÇÃO E REFER ÊNC I A
Regional do Iphan em Manaus), Heloisa
Lia Motta Helena Martins Araújo (Superintendência
C OORDENADOR - GERAL DE PRO MOÇÃO DO Regional do Iphan em Manaus).
PA TR I MÔN I O C UL T URAL
Luiz Philippe Peres Torelly

S u p e ri nt e n d e n te subs titut o da
r e gi on a l d o i p h a n em ma n a us
André Bazzanella

I ns tit u t o d o p a t rimôn io his tóric o


e ar t í stic o n a cion a l
SBN Quadra 2 Edifício Central Brasília
Cep: 70040-904 Brasília-DF
Telefone: (61) 3414.6176 Fax: (61) 3414.6198
www.iphan.gov.br faleconosco@iphan.gov.br
Mapas:
Edição do Dossiê Ficha Técnica Cachoeira de Iauaretê
Renata Alves (ISA)
Mapeamento, formação de banco de dados G er ente de editor ação do Ip han Registr o da cachoe i ra d e i a u a re tê
georeferenciado e elaboração de mapas finais. Inara Vieira Processo no. 01450010743/2005-75

Fot og r a fi a s: Revisão de texto Pr op onentes:


Ana Gita de Oliveira (Iphan) Sônia Florêncio Associações Indígenas de Iauaretê,
Beto Ricardo (ISA) Geraldo Andrello Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro - FOIRN
Geraldo Andrello (ISA) Dermeval Aires Jr.
Pedro Martinelli Dados do p r ocesso:
Vincent Carelli (Vídeo nas Aldeias) PROJETO GRÁFICO Pedido de Registro aprovado na 49ª reunião do Conselho
Victor Burton Consultivo do Patrimônio Cultural, em 03/08/2006
D oc u m e n t a ç ã o Áudiovis ua l: Inscrição no Livro dos Lugares em 10/08/2006.
Vincent Carelli dia gr amação
Altair Amado da Paixão Gerência de Editoração do Iphan:
Vídeo nas Aldeias Inara Vieira
Duda Miranda
Na r r a d o r e s i n d í g enas: Daniel Galvão (estagiário)
Pedro de Jesus (Tariana), Adriano de Jesus João Gabriel Rocha Câmara (estagiário)
(Tariana), Luis Aguiar (Tariana), Laureano
Maia (Tukano), Guilherme Maia (Tukano), s eleção de imagens
Arlindo Maia (Tukano). Geraldo Andrello
Inara Vieira
Na r r a d o r e s d o M it o Tar i ano
K oiv a th e :
Luis Aguiar, Pedro de Jesus, Adriano de Jesus.

capa P Á GINA 4
cachoeira de iauaretê, 2008. deus trovão (desenho
foto: vinc ent c a rel l i . sobre foto de Roberta
Dabdab. Guilherme tenório
PÁGI NA 2 Tuyuca com paramentação
cachoeira de iauaretê, 2008. cerimonial, publicada
Foto : vinc e nt c a r e l li. como capa de AEITU
(Assoc. Escola Indígena
Utapinopona Tuyuka), 2005.
Wiseri Makane Niromakane.
São Gabriel da Cachoeira:
AEITU, FOIRN).
arte: joão gabriel câmara.
sumário
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 9

10 Apresentação 52 O Processo de Registro da 94 Iniciativas de Salvaguarda


Cachoeira de Iauaretê
12 Preâmbulo 53 Proposta Inicial 106 Números de Iauaretê
68 Os Tariano no Uaupés
20 Introdução 71 A Viagem da Cobra-Canoa: 122 Transformações no
Narrativa Tukano Padrão de Uso do Solo
30 História de Iauaretê 78 Debates Locais e
Encaminhamentos 135 Notas

137 Fontes Bibliográficas


dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 10

apresentação
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 11

p ági n a 8
Dança tar i ano na
i n aug uração da m alo ca,
2 0 05.
F o to : Vincet ca rell i.

p ági n a a o lado
i n terna to d ividi do por
e tn ia s em I a u a retê . rio
u aupés. São gabr i el da
c ach oe i ra ( Am).
F ot o: Arqu ivo da
Diocese de São g abr iel
da cach oeira.

A região conhecida como


Alto Rio Negro (AM)
abriga, hoje, uma população
capacidade desses povos indígenas
criarem e recriarem suas tradições
na perspectiva de um projeto
cultural inscrito no Livro de
Registro dos Lugares.
Este trabalho, resultado de uma
de aproximadamente 40.000 histórico de resistência cultural. parceria entre o Iphan, o Instituto
pessoas, distribuídas em Nos lugares sagrados como as Socioambiental – ISA, a Federa-
comunidades e sítios localizados pedras, lajes e igarapés situados ção das Organizações Indígenas do
ao longo do Rio Negro e de seus na Cachoeira de Iauaretê e seu Rio Negro – FOIRN e associações
afluentes, tais como os Rios entorno, estão escritas as histórias indígenas de Iauaretê, teve por
Uaupés, Içana e Xié; e nos dois de criação da humanidade e de base o movimento de revitalização
centros urbanos regionais, São ocupação do território em que eles cultural posto em andamento pelas
Gabriel da Cachoeira e Santa vivem desde tempos imemoriais. lideranças indígenas Tariano e
Isabel do Rio Negro. Ao longo Esses lugares indicam, igualmente, Tukano de Iauaretê.
de 10,6 milhões de hectares de os códigos de manejo social Ao publicar os resultados dessa
terras indígenas demarcadas, organizadores da vida, tais como ação, o Iphan contribui para o
convivem representantes de duas as formas de convivência e os reconhecimento e a visibilidade das
grandes famílias lingüísticas: os mecanismos de transmissão dos questões que envolvem a salvaguarda
Arwak e os Tukano Orientais. Há, saberes, identificadores das várias do patrimônio cultural desses povos
ainda, os Maku, para os quais não etnias que compartilham territórios indígenas pela sociedade brasileira.
foram encontradas as respectivas e padrões culturais.
afiliações lingüísticas. Dessa forma, por possuir esses
O reconhecimento dos lugares importantes lugares sagrados, Luiz Fernando de Almeida
sagrados dos povos que vivem na a Cachoeira de Iauaretê foi Presidente do Iphan
confluência dos Rios Uaupés e proclamada “Patrimônio Cultural
Papurí, na localidade conhecida do Brasil” pelo Iphan em agosto
como Iauaretê, destaca a inesgotável de 2006, sendo o primeiro bem
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 12

Preâmbulo
preâmbulo
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 13

p ági n a a o lado
tra v ess ia de alunos no
r i o u a u p és, 20 0 2.

Povos Indígenas:
F o to : Pedro marti ne l l i.

Patrimônio
Cultural,
Propriedade
Intelectual

Compartilhar ou monopolizar? A primeira e mais importante é apenas registrar essas categorias


Propriedade intelectual, delas é que o registro situa o debate culturais, mas também apoiar as
patrimônio imaterial e os povos sobre propriedades intelectuais condições materiais que propiciam
indígenas do Rio Uaupés dentro do marco do “pluralismo sua existência e proteger os direitos
jurídico”, reconhecido pela relacionados ao seu uso. O Estado
Ao assumir a responsabilidade Constituição de 1988 e assim se dispõe a enxergar de uma nova
por uma Política Nacional de entendido como a sobreposição perspectiva o conceito de cultura,
Patrimônio Imaterial, o Iphan de diferentes ordens jurídicas de modo que não os objetos físicos,
passou a centrar esforços na missão concorrentes e co-existentes com o mas as relações que os permitem
de dar visibilidade a manifestações chamado Direito positivo formal. existir, sejam alvo de atenção e
culturais que não necessariamente Celebrações, saberes e expressões proteção jurídica.
se plasmam em um suporte culturais se manifestam por meio Sob esse novo olhar, o registro
material físico como antigas igrejas, de relações sociais que envolvem e o plano de salvaguarda da
museus ou prédios históricos. As sujeitos individuais e/ou coletivos e Cachoeira de Iauaretê abrem
implicações dessa nova missão do que permitem a atualização daquele caminho para dar visibilidade
Iphan, estabelecida pelo Decreto determinado saber, expressão a outras relações jurídicas que
3.551/00, ainda estão por ser cultural ou celebração ao longo do emanam da organização social dos
totalmente compreendidas à medida tempo. Esse contexto de relações povos indígenas do Rio Uaupés. E
que novos registros e experiências subjacentes a uma referência na qualidade de fontes próprias de
surgem. A experiência do registro cultural aponta para distintas Direito, legítimas e reconhecidas
da Cachoeira de Iauaretê, no Rio ordens de regras, prerrogativas e constitucionalmente, essas
Uaupés (AM), certamente suscita direitos não-escritos, “invisíveis” ao relações nem sempre se coadunam
implicações de diferentes ordens, ordenamento jurídico positivo. com os princípios e valores
no campo jurídico, que merecem A meta da política de estabelecidos pelo sistema formal
ser destacadas. patrimônio imaterial do Iphan não de propriedade intelectual.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 14

ao fundo, pedras que


representam os diroá, 2008.
Foto: Vincent Carelli.

Prerrogativas intelectuais sobre


o mito de origem dos povos
indígenas do Rio Uaupés

A Cachoeira de Iauaretê faz


parte do cenário descrito nos
mitos de origem de vários povos
indígenas que vivem no Rio Uaupés
atualmente (Tukano, Tariano,
Desana e Piratapuia, entre outros).
Esses mitos tematizam o processo
de transformações que resulta no
aparecimento dos primeiros humanos
e suas diferentes versões se constroem sobre a forma como ela é “contada”. amazônico em geral.
sobre um fundo compartilhado por Isso deflagrou um processo de Na história dos Diroá contada
todos esses grupos. negociação que culminou na decisão pelos Tariano e na história da
Ainda em 2004, nas de registrá-la em nome de todos cobra-canoa contada pelos Tukano,
etapas iniciais do processo de os povos indígenas do Rio Uaupés. animais, fenômenos naturais e
documentação que levou ao Assim, embora o mito de referência artefatos são imbuídos de potências
registro, lideranças Tukano que orienta o registro da Cachoeira capazes de deflagrar processos de
demonstraram certo estranhamento de Iauaretê pertença ao clã Koivathe transformação. Assim, o bastão
ao perceber que o Iphan vinha do povo Tariano, ele se articula às de quartzo pode criar um rio ou
mantendo diálogo apenas com os versões narradas pelos Tukano e igarapé, ou um ser humano pode
Tariano, e reivindicou também outros povos que habitam a bacia do surgir a partir do sopro da fumaça
prerrogativas sobre a Cachoeira e Rio Uaupés e a região do noroeste de um cigarro de tabaco. Nesses,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 15

como em tantos outros casos, o rememorando ritualmente sua Mitos e histórias são, assim, a
bastão e o cigarro são os meios pelos história e atribuindo nomes a seus base sobre a qual relações políticas
quais a humanidade tem origem. membros atuais. entre povos aparentados são
Essa potência advém daquele Ao contar sua história, estabelecidas ao longo do tempo.
fundo compartilhado por todos os portanto, os Tariano Koivathe estão Essas relações envolvem disputas em
grupos do Uaupés, mencionado endereçando aos demais grupos torno de posições hierárquicas e
acima, e que diz respeito às sua própria visão acerca tanto da recursos simbólicos e materiais, de
condições iniciais de existência do origem do universo quanto de si forma que sua atualização constante
universo, um tempo em que os mesmos. E a esse relato se articulam enseja uma espécie de diplomacia
seres primordiais guardavam uma outros tantos que se constituem narrativa, cujas convenções
“força de vida” em si mesmos. A como respostas ao primeiro. específicas permitem resolver
condição humana surgirá somente Dessa maneira, há um caráter de questões políticas. Nesse processo,
mais tarde, após inúmeros episódios interdependência entre as diferentes há conhecimentos necessariamente
que, paulatinamente, vão dando versões dos mitos dos povos do compartilhados e outros restritos a
forma ao mundo de hoje e de Uaupés, em que contar uma versão especialistas e grupos específicos.
seus habitantes. É, portanto, um enseja uma resposta ritualizada por Se há um fundo comum
resultado instável de um processo outro grupo. Se antes isso era feito de onde emanam princípios
constante de transformações. Essas por meio das disputas verbais e gerais e compartilhados, há, por
transformações do tempo mítico são diálogos cerimoniais que cadenciam outro lado, diferentes formas
manejadas no presente pelas falas os dabucuris – rituais de trocas de de tematizá-los por meio dos
do kumu, seja “benzendo” alimentos alimentos e outros bens entre grupos relatos acerca da origem do
ou curando enfermidades. É esse –, o processo de debates em torno universo e da humanidade. A
especialista que cuida de atualizar do registro da Cachoeira de Iauaretê essas se articulam várias outras
a força de vida que originou forneceu uma nova ocasião na qual histórias particularizadas, nas
cada um dos grupos do Uaupés, essa mesma relação se fez mostrar. quais se buscam afirmar posições
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 16

rio uaupés, margem


colombiana ao fundo com
prédio da Aduana, 2001.
Foto: bet o ric a rdo.

e prerrogativas virtuais. Assim, do Direito positivo. a apresentação de narrativas


para que se torne eficaz, o A propriedade intelectual individuais seja feita por sujeitos
conhecimento precisa ser em – assentada sobre acordos com autoridade para tanto, não
parte compartilhado; para que, internacionais que impõem faria sentido alguém reivindicar
daí, cada parte e cada coletivo sobre países desiguais legislações para si a propriedade de um
possa se constituir como tal cada vez mais totalitárias – parte mito, no sentido de manter posse
e participar da extensa rede do dogma de que é necessário exclusiva de um bem. Do que foi
de trocas que caracteriza o garantir exclusividade individual dito acima, é forçoso admitir que
sistema social do Uaupés. Ou sobre obras intelectuais para que a exclusividade como recompensa
seja, o compartilhamento e haja incentivo à criação humana. para a criatividade não faz sentido
o reconhecimento mútuo de O direito autoral, modalidade- no contexto indígena. Nesse
histórias paralelas são duas faces da espelho de propriedade intelectual, ambiente, é preciso, também,
mesma moeda. muitas vezes sugerido aos registros que a circulação e a troca de
orais como os aqui apresentados, conhecimentos sejam garantidas,
A perspectiva indígena diante do foi concebido a partir da crença de pois reconhecimento e prestígio
sistema de propriedade intelectual: que uma obra é sempre resultado dependem disso.
compartilhar ou monopolizar? da criatividade exclusiva de um “Exercer propriedade” sobre
indivíduo e que, portanto, seria um mito ou uma história parece
Se o sistema indígena de direitos justo premiar o esforço individual, significar, na perspectiva indígena,
e prerrogativas brevemente entrevisto garantindo-lhe o direito de exercer a prerrogativa de contá-los
nesta experiência do registro da impedir que outros usem sua obra de forma apropriada. Em outro
Cachoeira de Iauaretê tem no sem seu consentimento. contexto social bem diferente,
compartilhamento um atributo Essas premissas são colocadas princípios de compartilhamento
essencial, o mesmo não se pode dizer em xeque quando a perspectiva também prosperam como
do sistema de propriedade intelectual indígena é analisada. Ainda que modalidade de resistência à
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 17

doutrina exclusivista da propriedade abertas do Creative Commons, que no contexto das atividades de
intelectual: o campo das novas permite ao autor da obra licenciá-la salvaguarda sinalizaram, ao Iphan,
tecnologias de informação. O abertamente em ambiente digital, a necessidade de um tratamento
advento da Internet e de tecnologias impondo as restrições que julgar adequado para questões relativas à
de geração e circulação de adequadas, ou simplesmente lançá- propriedade intelectual, quando
informação tornou a comunicação las ao domínio público. aplicadas às comunidades indígenas.
um fluxo contínuo e imediato Embora constituindo realidades Entretanto, não há, ainda, um
de dados digitais, no formato de muito distantes, a perspectiva ponto de vista institucional
uma rede aberta incompatível indígena e a perspectiva que firmado de modo que tanto as
com a restrição que pretende a vem sendo construída pelos questões específicas apresentadas
propriedade intelectual. Subjacentes movimentos do software livre e pelos povos indígenas do Alto Rio
ao ambiente digital, forjam-se do acesso aberto se tocam, em Negro quanto, de resto, as outras
regras e princípios de resistência alguma medida, precisamente no experiências que se desenvolvem
à tendência restritiva dessa forma quesito do compartilhamento. no campo do patrimônio cultual
da propriedade. Tais princípios Nesses contextos, mais do que o imaterial encontrem respaldo
passam hoje a ganhar visibilidade e valor estritamente econômico do legal ou político adequado.
existência jurídica, como a licença conhecimento, vale, ainda que a Este é, certamente, um tema
GNU/Linux, que permite o uso partir de critérios e finalidades a ser enfrentado no contexto
irrestrito de programas, incluindo diferentes, compartilhar para das políticas de preservação do
melhorias e adaptações, proibindo continuar fazendo parte do jogo, patrimônio cultural.
sua privatização ou encerramento. parte da comunidade, seja ela
No campo do direito autoral, indígena ou digital.
surgem também iniciativas de A experiência de documentação Ana Gita de Oliveira (Iphan)
acesso aberto (open access), como voltada ao registro da Cachoeira de Fernando Mathias Baptista (ISA)
o cardápio de licenças autorais Iauaretê e as discussões ensejadas Geraldo Andrello (ISA)
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 18

a ba i xo à es qu erda
l oc a li z a ç ã o da r egiã o
do a l t o ri o neg ro.

página a o o l a do
m a p a 1 - t e r r a s in d í ge n a s
d o A l to e M é d io Rio
Ne gr o e l o c a liz a ç ã o d o
pov oa do de Ia u a retê .

l eg enda m a pa 1
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 19
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 20

introdução
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 21

c ach oe i ra de i auare tê ,
2 0 0 8.
F o to : Vincen t care l l i.

A ba ix o
r e u n iã o em ma loca, 1995.
f ot o: ana laura
j u n qu eir a.

E m maio de 2004, a Federação


das Organizações Indígenas
do Rio Negro (FOIRN), em
constituindo um sistema oficial de
inventário e registro formal das
“referências culturais” dos inúmeros
atendimento a uma solicitação do segmentos da população nacional1.
Instituto do Patrimônio Histórico Assim, o novo instrumento
e Artístico Nacional (Iphan), legal e a criação do Departamento
abriu as portas da grande maloca de Patrimônio Imaterial no
existente em sua sede na cidade de âmbito do Iphan, em 2004,
São Gabriel da Cachoeira (AM) abriram a possibilidade de
para a realização de uma reunião realização de projetos junto aos
destinada a iniciar a discussão povos indígenas, incluindo-os no
sobre patrimônio cultural com os contexto institucional das ações de
grupos indígenas do Rio Negro. preservação. Nesse sentido, dois
Patrocinada pelo Departamento certos “bens culturais” que, por suas projetos pilotos foram iniciados:
de Patrimônio Imaterial e pela características não monumentais um sobre as referências culturais
Superintendência Regional do ou excepcionais, escapavam das dos Guarani de São Miguel das
Iphan no Amazonas/Roraima, ações de preservação preconizadas Missões (RS), desenvolvido pela
a reunião teve como pano de pelo Decreto 25/1937, a “lei do Superintendência Regional do
fundo a nova política de registro tombamento”, que, já em 1937, deu Iphan no Rio Grande do Sul;
dos chamados “bens culturais de origem ao Serviço do Patrimônio e outro, precisamente, sobre as
caráter imaterial”, instaurada pelo Histórico e Artístico Nacional, o referências culturais indígenas
Instituto após a promulgação do antigo SPHAN. O novo decreto, no Alto Rio Negro (AM). Em
Decreto 3551/2000. Por esse em suma, criou uma política de ambos os casos, a expectativa é a
decreto, ficou estabelecido um novo reconhecimento pelo Estado da de que as experiências acumuladas
domínio patrimonial referente a diversidade cultural brasileira, resultem em propostas de políticas
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 22

A u la da p r é-esco la , 2002.
F o t o : p edro marti n ell i.

patrimoniais voltadas aos povos


indígenas. O Alto Rio Negro foi
escolhido por vários motivos. Entre
eles, estão a própria existência
da FOIRN, talvez a organização
indígena de maior destaque
na Amazônia, e sua parceria
consolidada há mais de dez anos
com o Instituto Socioambiental
(ISA). Além disso, é uma região
essencialmente indígena, com uma
população de mais de 30.000
pessoas subdividida em mais
de vinte grupos. Trata-se, com genericamente definidas como antropólogos, do ISA e do Iphan,
efeito, de um extenso complexo “projetos de revitalização cultural”. participaram da reunião os Tukano
cultural que ultrapassa as fronteiras Assim, foram convidados, da Escola Yupuri (Médio Rio
nacionais2. Por tudo isso, a região especialmente, aqueles grupos Tiquié), os Tuyuka da Escola
pareceu atrativa ao Iphan. envolvidos em processos de Utapinoponã (Alto Rio Tiquié) e os
Por se tratar de uma implantação de escolas indígenas Baniwa da Escola Pamáli (Alto Rio
reunião sobre “cultura”, foram diferenciadas, nas quais o Içana). A reunião contou, ainda,
convocadas as lideranças de calendário, os materiais, e, de com os Tariano de Iauaretê, que,
alguns grupos indígenas que, no um modo mais amplo, o projeto embora não participassem naquela
vasto rol dos projetos atualmente político-pedagógico são adaptados à época de um projeto formal de
gerenciados pela FOIRN, realidade cultural das comunidades educação indígena, manifestavam
vinham desenvolvendo atividades indígenas. Além de técnicos e vivo interesse em registrar suas
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 23

histórias de origem e retomar um instrumento de conhecimento buscou-se sugerir exemplos locais,


antigas práticas rituais. Desde o ano e aproximação do objeto de com evocações aos dabucuris
anterior, os Tariano se dedicavam trabalho do Iphan”, tendo como (rituais de troca como celebrações),
a levantar uma maloca em Iauaretê, seu principal objetivo “identificar aos benzimentos (encantações
principal centro missionário do e documentar bens culturais” xamânicas como formas de
Rio Uaupés, onde atualmente (Corsino, 2000). Esses bens, para expressão), aos cacuris (armadilhas
residem cerca de três mil pessoas fins de inventário, são classificados de pesca como saberes) e à
pertencentes a várias etnias de acordo com as categorias importância das cachoeiras como
indígenas. Embora não se tratasse já estabelecidas pelo próprio locais de emergência mítica dos
de uma escola, essa maloca vinha decreto. São elas: a) celebrações grupos (lugares). Assim, embora
sendo apoiada pelo mesmo projeto (“rituais e festas que marcam a o assunto apresentasse alguns
por meio do qual as novas escolas vivência coletiva do trabalho, da aspectos jurídicos que não eram
estavam sendo criadas. religiosidade, do entretenimento prontamente acessíveis à platéia,
No primeiro dia, houve uma e de outras práticas da vida além de uma linguagem baseada
apresentação geral a respeito da social”); b) formas de expressão em noções institucionalmente
política de registro dos chamados (“manifestações literárias, musicais, muito marcadas – tais como
“bens culturais de caráter imaterial” plásticas, cênicas e lúdicas”); c) patrimônio, tombamento, registro,
e de seu instrumento técnico saberes (“conhecimentos e modos salvaguarda, bens móveis e imóveis,
correspondente, o Inventário de fazer enraizados no cotidiano monumentos, pedra e cal, e,
Nacional de Referências Culturais das comunidades”); e d) lugares principalmente, referência cultural
(INRC). Explicou-se que este (“mercados, feiras, santuários, – os presentes demonstraram
inventário é o modo pelo qual praças e demais espaços onde se grande interesse pelo tema, o que
se procede a um mapeamento concentram e reproduzem práticas pôde também ser confirmado
das referências culturais de uma culturais coletivas”). nas reuniões em grupos do dia
determinada região: “o INRC é Para todas as quatro categorias, seguinte. Nessas reuniões menores,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 24

l ivr os de au tores
i nd í gen a s.

atualmente ela passa a ser vista


como fator de fortalecimento
cultural. Isso se dá na medida
em que, na construção de novos
currículos escolares, os grupos
envolvidos buscam conciliar
a incorporação de novos
conhecimentos a conteúdos
culturais próprios. De modo
importante, esses processos vêm
ensejando o registro de vários
tipos de conhecimento indígena
através de produção literária e de
os grupos presentes puderam nas primeiras décadas do século materiais didáticos, sejam aqueles
manifestar um notável interesse XX, sempre se pautou no sentido relacionados às suas tecnologias
pelo assunto. de promover a “civilização” dos e formas de manejo de recursos
Com efeito, as novas escolas, índios. De modo concreto, esse naturais, sejam as histórias
que vêm sendo implantadas pelo projeto está proporcionando uma contadas pelos mais velhos, os
projeto de educação, priorizam inversão radical do papel que, mitos e os rituais.
a valorização das línguas e historicamente, a educação escolar De modo geral, a adesão
conhecimentos indígenas, desempenhou no Rio Negro. Se crescente ao projeto de educação
constituindo uma reação ao sistema no passado a escola serviu como reflete um amplo interesse por
escolar vigente na região, que, instrumento por excelência da parte dos grupos indígenas dos
tendo se originado a partir da campanha missionária contra as Rios Uaupés e Içana em registrar
chegada dos missionários salesianos culturas e as línguas indígenas, a “cultura dos antigos” para as
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 25

E ns a i o t u k a no pa ra
in a ugu r a ç ã o da m a l oc a
T a ri a no, 2 005 .
Fot o: g era l do a ndrel lo .

novas gerações, que lhes parecem audiência indígena então reunida retomar antigos rituais. De uso
cada vez mais voltadas para as na maloca da FOIRN. Como corrente na região do Rio Negro, o
coisas da cidade e dos brancos. resumiram os Tariano, “agora o termo maloca refere-se às grandes
Assim, além da implantação governo também está querendo moradias coletivas do passado, que
das escolas indígenas, a FOIRN apoiar o trabalho que já estamos abrigavam todas as famílias de uma
vem paralelamente apoiando fazendo”. A avaliação, portanto, é comunidade. Espaços, ao mesmo
a publicação de livros de que algumas das ações que a FOIRN tempo, de habitação e de uso
autores indígenas pela Coleção vem estimulando nas comunidades cerimonial, foram paulatinamente
“Narradores Indígenas do Rio já vêm dando passos significativos abandonadas e derrubadas por
Negro” (já com oito volumes na direção de um “inventário” imposição missionária. As últimas
publicados de mitologia – Desana, cultural. A proposta do Iphan malocas persistiram somente até
Tariano, Baniwa e Tukano). Esses foi, dessa maneira, muito bem o início dos anos 60. Por esse
materiais se somam a inúmeras acolhida e interpretada como uma motivo, a interlocução prosseguiu
cartilhas e livros didáticos, e a iniciativa oficial que vem respaldar nos meses seguintes especialmente
uma série de CDs elaborados e fortalecer todas essas iniciativas. com os Tariano, que, enquanto
pelos Tuyuka com seus cantos A reunião teve também cuidaram da construção, não
cerimoniais. Já representam um pelo menos um efeito prático deixaram de refletir sobre o que
volume significativo de registros imediato, pois, de saída, os ouviram naquela primeira reunião
“culturais”, todos eles assessorados Tariano reivindicaram apoio para a respeito de patrimônio cultural.
por antropólogos com experiência a finalização da grande maloca que Assim, enquanto os Tuyuka
de pesquisa na região. estavam levantando em Iauaretê, cogitaram dar continuidade ao
Pode-se dizer que essas argumentando ser um espaço de registro de suas cerimônias e cantos
experiências forneceram uma chave fundamental importância para (como celebrações ou formas de
de leitura à exposição apresentada levar adiante seus intentos de expressão), e enquanto os Baniwa
por funcionários do Iphan à registrar suas histórias, cantos e cogitaram registrar a marca “Arte
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 26

Baniwa” – pela qual esse grupo vem Cachoeira de Iauaretê, uma grande trecho do Rio Uaupés, cujo
comercializando grande quantidade corredeira localizada na confluência movimento é ainda mais acentuado
de cestaria com grandes empresas, dos Rios Uaupés e seu afluente com as águas lançadas bem ali pelo
como Tok & Stok e Pão de Açúcar Papuri, que marcam as fronteiras Rio Papurí, e que impressiona pela
(ISA & OIBI, 2001) – como um entre Brasil e Colômbia, na região beleza e magnitude.
“saber”, os Tariano passaram noroeste da Amazônia. Como Este dossiê traz um relato
a conjeturar a possibilidade de se referiu o etnólogo alemão T. completo do trabalho de
registrar seus “lugares sagrados”. Koch-Grunberg em sua passagem documentação realizado no
Do ponto de vista deles, isso pela região no ano de 1903, “a local desde o final de 2004 e
implicava diretamente em um Cachoeira de Iauaretê é um mar de transcorrido ao longo de 2005. Foi
registro, sobretudo, visual, isto é, rochas, e com várias quedas”. Trata- um processo que envolveu várias
fotográfico, de várias das pedras da se de um extenso e acidentado pessoas de Iauaretê em discussões
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 27

fi lma ge m da narrativa
da hi stór i a tu kano na
p edra cain p a a ( la je do
p er iqu it o ) , 20 0 5 .
F o to : geraldo a n dre l l o.

a ba ix o
e s tudantes indí g enas
n a sede da paróqu ia de
i a uaretê , 20 0 2.
F o to : p edro marti ne l l i.

sobre a origem e os significados


de suas pedras, e, assim, sobre
os feitos e a identidade dos seres
míticos que lhes deram forma.
Dessas conversas, participaram,
principalmente, homens tariano e
tukano, que, junto a várias outras
etnias, convivem hoje no povoado
de Iauaretê. A conformação
urbana atual dessa localidade,
com cerca de 3000 moradores,
deve-se a dois fatores básicos. Em
primeiro lugar, trata-se de um
ponto de convergência de duas Iauaretê foi escolhida como lugar abandonar rituais.
sub-regiões densamente povoadas, para implantação do maior centro A Cachoeira de Iauaretê foi
o Rio Papuri e o Alto Rio Uaupés, missionário salesiano no Rio registrada como patrimônio
onde os Tariano, grupo oriundo Uaupés, que, ao longo de cinco imaterial no Livro dos Lugares, em
da bacia do Rio Içana, ao norte, décadas, abrigou alunos indígenas agosto de 2006, pelo Instituto do
e originalmente falante de uma de todo o Distrito em seus Patrimônio Histórico e Artístico
língua aruak, articulam-se aos internatos. Consistiu, portanto, Nacional (Iphan). Esse ato
povos falantes das línguas tukano: em um centro de “catequese oficial evoca toda essa história de
Tukano próprio, Desana, Pira- e civilização de índios”, onde relacionamentos: dos índios entre
Tapuia, Wanano e outros. Em várias gerações indígenas foram si, e desses com os brancos.
segundo lugar, desde o final da persuadidas a derrubar malocas,
década de 20, a Cachoeira de entregar adornos cerimoniais e
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 28

Cachoeira de Iauaretê é Instituto de Patrimônio Histórico e aquele momento marca uma nova
oficialmente reconhecida como Artístico Nacional (Iphan), ligado história para os povos indígenas
Patrimônio Imaterial do Brasil ao Ministério da Cultura, e celebra do Alto Rio Negro. “Depois de
N o t í cia Socio amb ien tal , publ ic ada no sí tio
o reconhecimento da Cachoeira de 78 anos, nós povos indígenas de
d o I SA em 23/ 1 0 / 20 0 6 [ 1 7: 20]
( http :/ / www .so cio ambie ntal .org/nsa/
Iauaretê - conhecida como Yaiwa Iauaretê, estamos revitalizando a
d e t a lhe?id=234 4 ) poea (em Tukano), Yawipani (em nossa cultura e lutando para que
Tariano), Yauaretê (em Nheengatu), permaneça viva”, afirmou Luiz
e Cachoeira das Onças (em Aguiar, liderança tariano.
Em São Gabriel da Cachoeira (AM), ao Português) - como lugar sagrado
som das flautas indígenas, os Tariano e Tukano dos povos indígenas da região. Aguiar relembrou ainda
comemoraram a entrega do certificado de registro que todos os povos de Iauaretê
da Cachoeira de Iauaretê, no Alto Rio Negro, O evento contou com a presença precisam continuar reivindicando
como Patrimônio Imaterial do Brasil. O registro de Marcia Sant’Anna e Ana Gita de os diversos bens culturais que
inaugura o Livro de Lugares, do Instituto de Oliveira representando o Iphan, ainda se encontram fora das suas
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). e representantes da Federação das comunidades, a exemplo das
Organizações Indígenas do Rio peças e enfeites sagrados levados
Negro (FOIRN), do Instituto por missionários salesianos no
Agora é oficial: a Cachoeira de Socioambiental (ISA) e das início do século passado - e que
Iauaretê, localizada no Rio Uaupés, principais lideranças indígenas do hoje estão no Museu do Índio em
é Patrimônio Imaterial do Brasil. A distrito de Iauaretê. Manaus. “Precisamos repatriar as
cerimônia de entrega do certificado nossas peças e levá-las para a nossa
aconteceu na última quarta- Durante a cerimônia, as maloca, para que os nossos jovens
feira, dia 18, em São Gabriel lideranças indígenas relembraram vejam como os nossos antepassados
da Cachoeira (AM). O registro toda a trajetória de luta até o viviam”. A maloca tariano foi
inaugura o Livro de Lugares, do reconhecimento e disseram que inaugurada no final do ano passado
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 29

em Iauaretê e hoje é símbolo de os Projetos Políticos Pedagógicos presentes na cerimônia se refere


revitalização da cultura indígena das escolas indígenas da região, às providências jurídicas que o
local. Com a repatriação das peças produzir material áudio-visual, órgão vem implementando para
e enfeites, a maloca também se entre outras. “O momento agora iniciar o processo de repatriação
tornará um “museu vivo”, que é de elencar, junto às lideranças dos enfeites sagrados que estão
contribuirá para ações educativas indígenas, quais são as prioridades no Museu do Índio em Manaus.
de expressão cultural dos povos para dar início ao plano de “E esta é apenas uma das muitas
indígenas daquela região. salvaguarda”, diz Andrello. ações que o instituto irá trazer,
com o apoio das parcerias com a
De acordo com Geraldo Marcia Sant’Anna, do Iphan, FOIRN, ISA e associações locais
Andrello, antropólogo do ISA que iniciou sua fala dizendo que é uma de Iauaretê, para a salvaguarda
acompanhou o processo de registro, das prioridades do órgão federal do patrimônio hoje registrado”,
o momento representa o início de dar visibilidade para regiões mais afirmou Marcia Sant’Anna.
um extenso plano de salvaguarda distantes dos grandes centros, e que Todas as instituições e associações
que será desenvolvido também a região norte já vem se destacando indígenas envolvidas receberam o
no âmbito da escola tariano e das em diversas ações em curso. O certificado. Muito emocionados,
demais escolas indígenas localizadas trabalho com povos indígenas vem os indígenas comemoraram a
nas imediações da Cachoeira da se estendendo desde o Amapá com entrega do documento com cantos
Onça. Este plano consiste em o registro do grafismo e pintura e danças tradicionais.
realizar uma série de ações que corporal Waiãpi, até o Alto Rio
irá promover a conservação e a Negro, com o registro da Cachoeira Lucia Alberta e Andreza Andrade
divulgação desse bem cultural. As das Onças. (ISA).
ações se concentrarão em mapear
outros lugares sagrados, publicar A boa notícia dada pela
livros nas línguas indígenas, apoiar diretora do Iphan às lideranças
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 30

história de iauaretê
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 31

I a uaretê . São g abr iel da


c ach oe i ra ( Am).
F ot o: Arqu ivo da
Diocese de São g abr iel
da cach oeira.

P or ocasião da visita de Curt


Nimuendaju ao Uaupés em
1927, Iauaretê constituía o centro
Iauaretê situa-se entre as maiores,
com 51 pessoas. Em território
colombiano, a muito pouca
do Alto Rio Negro. O autor
recomendava, então, a implantação
de um estabelecimento do SPI
da principal área de ocupação dos distância, havia um posto aduaneiro em Iauaretê que “lhes tomasse a
Tariano nesse rio. De acordo com colombiano, na confluência dos dianteira” e fizesse cessar os abusos
o etnólogo, que então realizava uma Rios Papuri e Uaupés, motivo dos colombianos.
viagem de reconhecimento pelo pelo qual Nimuendaju lamentava Nos anos seguintes, o SPI e a
Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a ausência absoluta de uma Missão Salesiana do Rio Negro
autoridade brasileira. Segundo iniciaram paralelamente suas
“Na volta grande que o Rio ele, essa situação facilitava os atividades no lugar. Para o ano de
Uaupés descreve abaixo de Umari- abusos então praticados por 1932, há uma relação nominal de
Cachoeira começa o território da balateiros colombianos contra a índios morando em torno do posto
etnia Tariana, a zona mais populosa população indígena. Além disso, do SPI que totaliza 163 pessoas,
de todo o Uaupés. Quatorze os missionários salesianos, que sendo 142 Tariano, 15 Pira-
estabelecimentos dessa etnia em 1920 haviam implantado tapuia, 4 Tukano e 2 Kubeo. Essa
(inclusive um no baixo Papuri) com uma missão no Baixo Uaupés, já população habitava duas grandes
479 habitantes estão num trecho haviam, àquela altura, percebido a malocas e outras 24 casas menores
do rio que em linha reta não tem importância do lugar e planejavam localizadas a seu redor (SPI - Posto
mais que 2 km. Somente um sítio, a instalação de uma nova missão Indígena do Uaupés, 1932; SPI –
Anayá-rúa, com 12 pessoas, está de Iauaretê. A intolerância dos Relatório da Primeira Inspetoria,
situado em território colombiano” missionários com a cultura 1930-31). O Posto Indígena e a
(NIMUENDAJU, [1927] 1982). tradicional dos índios era anotada Missão foram implantados nas
por Nimuendaju como um dos margens direita e esquerda do
Na relação das quatorze aldeias vários males que pesavam sobre o Uaupés, respectivamente, logo
fornecida por Nimuendaju, bem-estar das populações indígenas abaixo da grande curva do rio
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 32

gr u p o d e a l u n o s d ia n te
d o m a rc o d e fr o nte ir a
c om a c o lômbia , rio
u a u pés , i a u a retê (a m ).
F oto : a r q uivo da
dio c e s e d e s ã o ga b rie l
da c a ch oei ra .

mencionada por Nimuendaju, onde e o padre. Celebramos no dia O Padre João Marchesi, autor
este recebe as águas do Rio Papuri. 29, festa de S. Miguel na casa de do relato anterior, viria a ser
É ali que se encontra a Cachoeira da Leopoldino, na qual reuniu toda o primeiro diretor da missão,
Onça, Yaiwa-poewa em tukano, na a sua gente que, pela primeira vez, mantendo visitas regulares a
língua geral, Iauaretê. A propósito assistiu a Santa Missa com grande Iauaretê nesses dois anos após
da primeira iniciativa salesiana no respeito e silêncio. Depois da missa a escolha do local. O primeiro
sentido de implantar uma nova lhe transmiti em língua tucana o internato começou a funcionar
missão em Iauaretê, contamos com a escopo de nossa visita: escolher o em maio de 1930, abrigando os
seguinte informação: lugar da futura missão, a fim de primeiros quinze alunos indígenas,
realizar entre os Tariano o que assistidos por três missionários
“Em setembro de 1927, S. estávamos fazendo entre os Tucanos que passaram a ali residir
Excia. Mons. Pedro Massa, de Taracuá. O Leopoldino ficou permanentemente. A partir daí,
Prefeito Apostólico da Missão contentíssimo e comunicou aos seus teve início a construção de aterros e
quis visitar Iauaretê na fronteira tudo o que eu havia dito. Só não prédios – a casa dos salesianos com
com a Colômbia. Fomos de gostou do lugar escolhido porque internato para meninos, a casa das
canoa a remo: quatro dias de luta, era na outra margem do rio; não irmãs com internato para meninas,
especialmente no último dia por podíamos fazer diversamente, pois a a futura igreja, o hospital e diversos
causa das cachoeiras e correntezas. margem direita já era ocupada pelo barracões para hospedagem,
Chegamos a Iauaretê no dia 28 de SPI e também porque a margem serraria e olaria – cujo andamento
setembro; encostamos no porto do esquerda era mais em vista (sic) dependeria largamente da mão-de-
Leopoldino, que nos recebeu com e ponto estratégico na fronteira. obra indígena.
grande alegria. Mandou logo aos (...) Por força maior tivemos que A missão de Taracuá, no Baixo
da família que levassem suas redes esperar mais dois anos para começar Uaupés, representou uma base
na cozinha para deixar a casa toda a derrubada no lugar da futura estratégica nesses primeiros anos
livre para o Prefeito Apostólico missão”3 (Pe. J. Marchesi, n.d.). do empreendimento salesiano em
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 33

mapa 5a
c olé gi o dos m en inos
mod ificado pela
ter cei ra v ez, iauare tê
( a m) .
F ot o: arqu ivo da
d i o cese de são gabr iel
da cach oeira.

Iauaretê, de onde viriam vários contava com 40 empregados, barreadas e alinhadas em torno de
Tukano para trabalhar e ensinar sendo a maior parte deles ex- uma capela. Ainda que os índios da
os Tariano na preparação de alunos dos internatos, e Iauaretê região tenham efetivamente trocado
materiais de construção. Até o já se consolidava como a maior as malocas pelas comunidades –
final da década de 30, houve um casa missionária que os salesianos a última caiu em 1961 entre os
aumento significativo no quadro de mantinham em toda a região do Rio Tuyuka do Alto Rio Papuri –, já
missionários atuando em Iauaretê; a Negro (Missão de Iauaretê, n.d.a.). naqueles anos os missionários
missão já possuía uma infra-estrutura Referências a ex-alunos dos lamentavam uma certa inconstância
suficiente para abrigar anualmente, internatos de Iauaretê começam de seus ex-alunos quanto à adesão
e de maneira regular, cerca de 250 a surgir nos documentos da à moralidade e a novos hábitos
alunos indígenas em seus internatos missão já ao final da década de cristãos. Mas não duvidavam de sua
para meninos e meninas. 30, quando as primeiras turmas conversão, dada a avidez que em
Pelas estatísticas disponíveis de alunos indígenas já haviam muitas comunidades constatavam
nos relatórios anuais da missão, terminado o ciclo de estudos na por sacramentos, capelas e imagens
nota-se um aumento progressivo de missão, com duração regular de de santos. E assim, imputavam
plantações e campo de criação de cinco anos. A principal expectativa a comerciantes e balateiros
animais, mas há também indicações dos missionários era a de que, colombianos certos estragos à sua
de que o sustento dos internatos ao retornar a suas comunidades obra catequética. Com efeito, nos
dependia em grande medida das de origem, servissem como relatos das viagens de itinerância
contribuições em farinha que os disseminadores de seu programa, realizadas pelos missionários
pais dos alunos internos eram atuando como catequistas e de Iauaretê pelo Papuri e Alto
persuadidos a entregar aos padres intermediários no processo de Uaupés entre as décadas de 40 e
– um paneiro, cerca de 25 quilos, abandono das moradias coletivas 60, constam inúmeros registros
por aluno interno por ocasião da em favor da constituição de de comunidades esvaziadas ou
matrícula anual. Em 1950, a missão comunidades compostas por casas desertas, casos em que todos ou boa
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 34

a n d or do c oração de
j e s u s. S ão gabr i el da
c a cheo i ra, i auare tê
(A M ) .
F o to: arqu ivo da
d i o c ese de são gabr i el
da c ach o eira.

parte dos moradores haviam sido senhor não pode tratar essa gente
“enganchados”4 por colombianos dessa maneira, eles viviam próximos
(Missão de Iauaretê, n.d.b.). dos padres salesianos de Pari-
Trabalhando nos seringais daquele Cachoeira, já são civilizados!”.
país, muito do que se aprendera na É unanimidade entre os que
missão era esquecido, em troca, na recordam dessa época que o
visão dos salesianos, da aquisição trabalho na Colômbia foi uma
dos piores vícios. alternativa para a obtenção de
Alguns dos moradores mais mercadorias. Todos eles afirmam
antigos de Iauaretê afirmam que as mercadorias que os padres
até hoje haver comunidades trocavam por seus produtos,
na Colômbia formadas por especialmente a farinha, necessária
descendentes de brasileiros, cujos em grandes quantidades para a
pais se fixaram nos seringais desse e autoridades colombianas do que manutenção dos internatos, não
país no passado. Apontam também aquele reservado, por exemplo, eram suficientes para satisfazer
que alguns deles chegaram a aos índios do Rio Pira-Paraná, as necessidades de todas as
obter postos de seringa em Mitú e a região mais isolada do Uaupés comunidades do Alto Uaupés
Miraflores, onde viriam a empregar colombiano, de onde vários grupos e Papuri. Além de roupas,
outros índios. Não há informações eram igualmente aliciados. Um redes, anzóis, sabão e fósforos,
detalhadas a esse respeito, mas senhor de Iauaretê recorda-se mercadorias que podiam ser obtidas
a partir de alguns depoimentos de uma inflamada discussão que em quantidades módicas na cantina
fica claro que os ex-alunos dos chegou a ter com um patrão que da Missão, no comércio das cidades
salesianos de Iauaretê e de outras vinha infligindo sistematicamente colombianas era ainda possível,
missões logravam obter melhores maus tratos a índios trazidos do mediante grande investimento de
tratamentos por parte de patrões Rio Tiquié. Dizia ele ao patrão: “O tempo de trabalho na seringa, a
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 35

trabal hos; cos tura,


tec elag e m, fi ação
( D . Leopold i na à
d i re ita). são g abr i el da
c ach oe i ra, i auare tê
( A M) .
F ot o: arqu ivo da
d i o cese de são gabr iel
da cach oeira.

compra de itens muito mais caros, mostravam”, recordam-se alguns


como espingardas e os primeiros senhores de Iauaretê. São homens
motores de popa que apareceram que hoje possuem entre 60 e 70
na região. Pelos depoimentos de anos, muitos deles passaram vários
alguns, fica claro, aliás, que o anos nos seringais colombianos
domínio do português e outros naquele período. “Naquela época,
conhecimentos adquiridos nos todos nós viramos seringueiros”,
anos de internato era o que afirmam. Desse modo, apesar de
encorajava um ex-aluno a deixar muitos esforços, era impossível aos
os afazeres na comunidade para salesianos controlar o movimento
arriscar uma estadia no seringal, de saída de gente para a Colômbia.
contrariando as recomendações Não obstante, para o ano de
dos próprios missionários. Nem 1951, os salesianos registraram
tudo se esquecia, portanto, como um “amarrado” de laminados de com destaque a existência de
imaginaram os missionários. Os seringa com cerca de 50 quilos com 350 ex-alunos nas comunidades
números que aprendiam com os valor fixo, entregues ao patrão, e localizadas no raio de influência da
padres puderam ser usados por calcular a amortização da dívida e missão, ressalvando que “o único
muitos de seus ex-alunos para os saldos eventuais em dinheiro. grande problema de conservar
o cálculo de dívidas e de saldos. Quem estivesse com a família, podia bons estes ex-alunos é o problema
Assim, muitos deles podiam saber paralelamente abrir um roçado no do trabalho”. Se permanecessem
quando era a hora de voltar para seringal, e, assim, produzir farinha na missão como carpinteiros,
casa, e argumentar com seus patrões para consumir e vender. “Foi na alfaiates, pedreiros, tudo ia bem,
em bases matemáticas. Colômbia que começamos a ver mas partindo para a Colômbia
Era possível, por exemplo, dinheiro. Sabíamos que os padres “em pouco tempo se perdem”.
contabilizar a produção de bultos, já tinham, mas eles não davam nem Ainda que buscassem pelos meios
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 36

disponíveis mantê-los em sua asiáticas deixou de ser exportada, no ano de 1949 faz referência à
órbita, os salesianos já percebiam companhias norte–americanas, retirada de borracha e farinha do
que “não se poderá continuar como a Rubber Development Company Médio Uaupés por hidroaviões
sempre assim”. A persistência da e a Chicle Development Company, americanos, muito provavelmente
procura de mão-de-obra indígena instalaram-se em pequenas cidades a serviço de uma das companhias
na região do Alto Uaupés, mesmo existentes no noroeste amazônico, mencionadas anteriormente.
após o fim do ciclo da borracha, como Miraflores no Uaupés Havia no local, um pouco abaixo
devia-se à demanda pelo produto colombiano e San Fernando de Iauaretê, uma bóia instalada
que ressurgiu na Amazônia durante de Atababo na Venezuela. Uma para atracação desses aparelhos.
a Segunda Guerra Mundial. passagem do relato da viagem Tal informação é confirmada por
Naqueles anos, quando a borracha do zoólogo José C. M. Carvalho muitos dos moradores mais antigos
proveniente das plantações (1952) pelo Alto Rio Negro de Iauaretê.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 37

( 1 ) Do m josé domitrovitz ,
( 2 ) Pe. jo sé ma rch esi ,
( 3 ) Pe. ezequ iel lo pe s,
( 4 ) im . lu i s p i la to,
( 5 ) g ui lherm e ádam er,
( 6 ) pe. teodoro, - são
g abr i el da ca choe ira,
i a uaretê ( AM) .
F ot o: arqu ivo da
d i o cese de são gabr iel
da cach oeira.

Quanto ao Posto do SPI, há 1930-31). Os missionários, por irmãos aborígines, que aí vivem
indicações de que deixara de sua vez, comentavam em muitos de a mercê da ganância e exploração
funcionar em 1932, tendo sido seus relatórios os “comportamentos de comerciantes colombianos
reaberto em 1943 com a instalação imorais” de alguns dos servidores e debaixo do tacão onipotente
de uma estação telegráfica. Não do órgão indigenista. A imoralidade dos padres, não só das Missões
tardou, porém, a ser novamente observada pelos salesianos Salesianas, em terras brasileiras,
fechado, o que ocorreu em 1952 dizia respeito à participação de como das Missões Colombianas,
em meio a uma discussão quanto funcionários do SPI nas festas e onde os padres, senhores absolutos
à destinação de verbas federais aos caxiris indígenas, que na sua visão da lei e do cutelo, casam e descasam
índios do Uaupés e à criação de consistiam em intoleráveis orgias ao seu bel prazer” (SPI – Athayde
uma outra unidade administrativa a serem abolidas o mais rápido Cardoso, Chefe da Ajudância de
do SPI na cidade de São Gabriel possível. Em 1959, o Chefe da Uaupés, 1959).
da Cachoeira (ver Oliveira, 1981). Ajudância do SPI em São Gabriel
Atritos entre funcionários do SPI e da Cachoeira avaliou a situação do Como os grupos indígenas da
missionários parecem ter ocorrido Uaupés da seguinte maneira: região lidavam com essa situação
em muitas ocasiões. Do lado do não faz parte desse relato. Seja
SPI, alguns dos funcionários que “Desde a extinção dos Postos de como for, a Missão Salesiana
passaram pelo posto de Iauaretê Fronteira Tiquié, no Rio Tiquié, parecia se incumbir do papel de
registraram queixas quanto às Mello Franco, no Rio Papuri, autoridade da fronteira, o que
precárias condições de trabalho e Iauaretê e Querari no Rio Uaupés, fica atestado pela extensa troca de
falta de verbas que enfrentavam, todos situados nas nossas fronteiras ofícios entre o Padre-Diretor de
enquanto assistiam o crescimento com a Colômbia, únicas sentinelas Iauaretê e diversas autoridades
progressivo da infra-estrutura que eram da Pátria e do SPI nesse colombianas nas décadas de 40 e
salesiana do outro lado do rio (SPI recanto esquecido do Brasil, cessou 50. O principal assunto tratado
– Relatório da Primeira Inspetoria, por completo a assistência de nossos nesses documentos dizia respeito ao
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 38

procis s ã o e m I a u a r etê,
São gabri el da
c ach o e i r a .
Foto: A r q uivo da
Di oces e d e S ã o ga b rie l
da cach oei ra .

agenciamento do trabalho indígena passou a lhe prestar. Ao longo no dia 21 de setembro de 1958,
nos seringais, uma questão em que de nove anos antes dessa data, os trazendo figuras eminentes da
os salesianos buscavam intervir salesianos de Iauaretê mobilizaram aeronáutica, como o “Marechal do
por meio de gestões junto a juízes, uma enorme quantidade de índios Ar” Eduardo Gomes e o Tenente
corregedores de indígenas e outras para a construção de uma pista de Coronel Protásio de Oliveira, que
autoridades da Comissária de Mitú, pouso em um terreno adjacente à mais tarde, através do Correio
capital do Uaupés colombiano. missão. A evolução desse enorme Aéreo Nacional, seria o idealizador
Há também várias indicações de trabalho é pontuada nos relatórios do assim chamado “Binômio
negócios fechados entre a Missão anuais, envolvendo os alunos FAB/Missões”, precursor da
e comerciantes colombianos dos internatos e os moradores ideologia de integração nacional
ligados às companhias americanas permanentes de Iauaretê no na Amazônia. A partir de então,
mencionadas, e também com a desmatamento e no aterro do local salesianos e oficiais da FAB
Caja de Credito Agrícola, banco que da pista. A decisão de construir passaram, em diversas ocasiões e
financiava o negócio do caucho um campo de pouso para aviões se escritos, a tecer elogios recíprocos.
na Colômbia. A construção de devia ao fato de que as corredeiras Em pequena publicação da década
um novo prédio para a Aduana do Uaupés à altura de Iauaretê não de 60, é o próprio Tenente-
Colombiana de Iauaretê também permitiam o pouso do hidroavião Coronel Protásio de Oliveira
foi negociada pela Comissária de Catalina, que começou a atender as (1963) que qualifica Iauaretê como
Mitú com a Missão Salesiana em missões ao final dos anos 40. Não “um dos tesouros da Amazônia”
1946 (Missão de Iauaretê, n.d.c). havia tratores e, assim, de acordo cuja existência não seria possível
A partir de 1958, a autoridade com um relato salesiano, tudo sem o trabalho dos missionários.
que a Missão vinha exercendo foi executado com “machados, O problema do aliciamento
na fronteira viria ainda a ser enxadões, picaretas, padiolas e pás” da mão-de-obra indígena pelos
legitimada pelo apoio permanente (Missão de Iauaretê, n.d.a.). O colombianos viria a diminuir
que a Força Aérea Brasileira primeiro avião pousou nessa pista progressivamente até o final da
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 39

década de 60. Em questão de de voltar a suas casas mesmo que uma nova fase de crescimento
mais alguns anos, os seringais tenha ficado algum resto de dívida. de Iauaretê. Com efeito, não foi
do Uaupés colombiano seriam O produto é pago no valor de três apenas nos quesitos abastecimento e
finalmente fechados. Foi também pesos por quilo ao produtor. Com transporte que a FAB, por meio de
ao final dessa década que o governo isso vai melhorar a situação de nosso sua Primeira Zona Aérea de Belém,
colombiano tomou algumas indígena na Colômbia. Encontrei viria a respaldar o projeto salesiano
resoluções a respeito do assunto, mais regularidade no serviço no Uaupés. Nos anos 60, o sistema
que, na avaliação dos salesianos, religioso dos povoados e mais escolar implantado começou
viriam a melhorar a situação nas moderação em geral nos caxiris” a passar por transformações,
comunidades que visitavam em suas (Missão de Iauaretê, n.d.b.). com a abertura das primeiras
itinerâncias. Em um dos relatos do escolinhas nas comunidades da
padre Marchesi, datado de 1969, E no ano seguinte: área de influência da missão, a
lê-se o seguinte: partir de 1965, e com a criação
“Nos povoados chegou muita de um Grupo Escolar misto em
“Os povoados do alto se estão gente da Colômbia, alguns com Iauaretê, em 1968. Iniciava-se
reanimando, voltaram vários em mulher arranjada por lá – é uma re-organização na estrutura
todos os povoados. Os povoados necessário visitar amiúde esta região educacional dos internatos, que
abandonados como Tainá e Tiririca para arrumar esta gente. Estão envolvia o aparecimento dos
se estão refazendo. A autoridade todos cansados da Colômbia e bem primeiros professores indígenas.
Colombiana tomou a respeito dos poucos irão em seguida” (Missão de Ao final da década, em 1969, havia
indígenas resoluções muito boas Iauaretê, n.d.b.). nas escolinhas das comunidades
– pois não podem os brancos fiar e no Grupo Escolar da Missão 23
antes do fabrico mais de 300 peças O apoio da FAB e o fim da professores em Iauaretê, sendo
e durante o fabrico mais de outros saída de gente para a Colômbia cinco missionários e 18 indígenas
tantos. Depois do fabrico todos têm são elementos que parecem abrir (Prelazia do Rio Negro, 1969).
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 40

a lu n as in tern a s em
i a u are tê, são gabr iel da
c a cho eira, ( AM) .
F o to: arqu ivo da
d i o c ese de são gabr i el
da c ach o eira.

No ano seguinte, o número de transferida. É nessa nova instituição da região amazônica. Ainda que
professores passou para 27, sendo escolar, Colégio São Miguel para o Alto Rio Negro não se
quatro missionários e 23 indígenas. Arcanjo, que, em 1975, iniciou-se tenha, em função do isolamento
Na Missão e nas escolinhas, o a implantação gradativa da grade e dos solos pobres, recomendado
número de alunos alcançava a curricular de quinta a oitava série. qualquer plano de colonização,
marca dos 460 (Prelazia do Rio Isto é, a oferta de educação escolar o traçado planejado da rodovia
Negro, 1970a). Nos anos 70, seguia aumentando. Uma primeira Perimetral Norte chegava até lá.
um novo colégio com estruturas turma de professores indígenas, Nesse contexto, um diagnóstico
metálicas e alvenaria começou a ser depois de já ter concluído os sócio-econômico específico foi
construído, envolvendo mais uma estudos médios em São Gabriel realizado em Iauaretê no âmbito
vez o trabalho de muitos alunos da Cachoeira, seguiria nos anos dos estudos desenvolvidos pelo
internos, cujo pagamento era feito seguintes para Belém, onde, em RADAMBRASIL na região.
em materiais escolares – de acordo cursos de férias, viriam a obter uma Segundo esse diagnóstico, no
com moradores de Iauaretê que licenciatura universitária. O apoio início dos anos 70 Iauaretê já
participaram desse trabalho, um para transporte e hospedagem em era um Distrito Administrativo
sistema de premiação estimulava Belém viria igualmente da FAB. do município de São Gabriel da
os garotos a carregar a maior A década de 70 assistiu, Cachoeira, em cuja jurisdição
quantidade possível de terra para o com efeito, a um conjunto de encontrava-se um grande número
aterro do colégio. Para a montagem transformações na região do Alto de comunidades indígenas; no
das estruturas, a Primeira Zona Rio Negro como um todo. Foi povoado, eram cerca de 500
Aérea da FAB forneceria uma o tempo do Plano de Integração moradores permanentes. A Missão
turma de operários da Comara Nacional (PIN), extenso programa Salesiana foi qualificada como a
(Comissão de Aeroportos da de obras anunciado pelo Governo “orientadora local”, com posição de
Amazônia), a cujos cuidados a pista Federal no início da década visando “liderança” no campo educacional
de pouso de Iauaretê era também ao desenvolvimento e à integração e econômico. Havia uma serraria,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 41

uma olaria, uma marcenaria e uma Posto Indígena de Iauaretê viria a à formação de uma cooperativa
fábrica de vassouras. Além disso, ser reaberto em 1975, de acordo indígena em Iauaretê, na segunda
toda a atividade comercial local era com recomendações formuladas metade da década de 70, é um
controlada pela Missão. Menciona- no Plano Alto Rio Negro, então exemplo dessa nova orientação
se ainda neste diagnóstico que, proposto pelo antropólogo Peter missionária. Destinada à troca
no ano de 1975, o Distrito teria Silverwood-Cope (1975) à FUNAI. de artesanato indígena por
produzido um volume de 13 Este plano recomendava ações mercadorias, com filiais no Papuri
toneladas de cipó titica e uma principalmente nos campos da e no Alto Uaupés, a implantação
pequena quantidade de sorva e saúde e agricultura, assinalando de uma cooperativa era coerente
breu; a Missão responsabilizava- a absoluta falta de alternativas com outras palavras de ordem que
se por sua comercialização nas comunidades quanto à aparecem nos textos salesianos
diretamente com compradores comercialização de produtos desse período, como “promoção
de Manaus. Embora decadente, o e a extrema dependência em humana e social” e “comunidades
controle da atividade extrativista relação à Missão para a obtenção de base”, entre as quais novos
seguia, assim, sendo monopolizado de mercadorias a essa altura cargos – catequistas, professores,
pela Igreja. Em termos de infra- indispensáveis. Ainda que esse animadores – eram instituídos
estrutura, Iauaretê já contava plano não tenha saído efetivamente e novas práticas econômicas,
com energia elétrica fornecida do papel, seu conceito de estimuladas – roças comunitárias
por um gerador da Celetramazon desenvolvimento comunitário, e plantio de pastos para criação
(Companhia Energética do Estado baseado na diversificação agrícola de gado (Prelazia do Rio Negro,
do Amazonas) e era abastecida por e formação de cooperativas 1970). Ao final da década de 70, a
um búfalo da FAB a cada 15 dias indígenas, viria a ser incorporado atividade comercial e a circulação
(RADAMBRASIL, Vol. 11, 1976). pelo discurso missionário, de dinheiro em Iauaretê parecem
Com recursos oriundos do resultando em algumas ações mais intensas, com o engajamento
Plano de Integração Nacional, o práticas. O estímulo que deram de alguns índios na atividade
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 42

a l u nos ch eg a ndo pa ra a s
a u l a s , 2 002 .
Fot o: pedro m a rtinel l i .

comercial autônoma e a abertura de 30 escolinhas nas comunidades. “Será conveniente que se vá


um posto do Funrural, que iniciou Havia mais de 40 professores aumentando progressivamente a
o pagamento de aposentadorias indígenas em todo o Distrito, e o população da Villa, procurando
rurais a índios com mais de 65 anos número de alunos atingia a casa trazer para este lado os habitantes
(Oliveira 1981). dos 1.200, sendo pouco mais de indígenas da outra banda do
A essa altura, o fechamento dos 400 na missão e o restante nas rio, e que as casas da Villa sejam
internatos já passava a ser cogitado. comunidades (Oliveira, 1981). Esse possivelmente altas, barreadas e
Se, no início da década, a Missão era o quadro do final dos anos 70, de tabatinga, avarandadas, mesmo
Salesiana do Rio Negro contava no qual a população indígena local que isto custe algum dinheiro à
com o apoio de várias instituições assistiu ao início do processo de Missão. É evidente a obrigação e
federais para a manutenção de fechamento dos internatos. A partir mesmo a conveniência que a Missão
seus internatos – Legião Brasileira de então, os salesianos diminuíram tem de mostrar o adiantamento e
de Assistência, Fundação do Bem progressivamente o número o progresso de nossos índios, que
Estar do Menor, Ministério da de alunos internos, abolindo vierem ao seu lado e dentro de
Educação, Secretaria Estadual de finalmente o sistema em 1988. Era seu próprio terreno” (Missão de
Educação e SUDAM –, alguns anos o fim do sistema dos internatos Iauaretê – Livro de Tombo, aberto
depois, o Bispo de São Gabriel, em Iauaretê, depois de cerca de 50 em 1930).
D. Miguel Alagna, declarava ter anos de vigência.
que, em breve, iniciar o processo A consolidação do grande centro A respeito dos sucessos ali
de fechamento dos internatos em missionário de Iauaretê havia sido obtidos, assim se expressa um
função de uma progressiva redução realmente motivo de orgulho para os cronista da missão:
dessas verbas (Silverwood-Cope, salesianos ao final da década de 50.
1975:41). Além do Colégio São Aquilo que havia recomendado o “Dois anos depois de ter sido
Miguel, que já oferecia ensino até Bispo Prelado no início da empreita aberta a missão de Iauaretê, as cinco
a oitava série, havia então mais de parecia ter se concretizado: malocas dos Tariano tinham sido
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 43

r u a p rincip a l d e
i a u a retê , 2 002 .
Fot o: pedro m a rtinel l i .

derrubadas, surgindo em lugar delas “Enquanto o padre Miguelito


uma 60 casas, bem feitas e que fazem se dedicou à itinerância, muita
boa coroa aos grandiosos edifícios gente se juntou aqui em Iauareté
da Missão, e causa maravilha e não houve ninguém que se
aos colombianos que chegam a dedicou a eles. Fechou o internato.
essa fronteira. O comissário – São 850 alunos que estudam no
governador desse território, ao Colégio. Uma nova situação se
contemplar o conjunto da missão criou que nosso povo nunca tinha
e das habitações dos nossos índios, experimentado. A presença da
exclamava: Que vergonha para nós, Comara e da televisão apresentam
só temos duas casinhas e o Brasil um outro modelo de vida e a
apresenta uma cidade em formação, juventude ficou completamente
que vergonha para nós” (Missão de desorientada” (Missão de Iauaretê -
Iauaretê, n.d.b.). Livro de Crônica Paroquial, 1990). 400 pessoas) e que, em relação de
contigüidade umas às outras, são
Mas, em 1990, após as Iauaretê é hoje quase uma consideradas bairros ou vilas, isto
transformações dos anos 70 e 80, cidade, com colégios, hospital, é, partes de um conjunto maior
o discurso missionário parecia energia elétrica, correios, televisão, que já apresenta feições urbanas. A
desnorteado. Aquela cidade em pista de pouso, pelotão do exército população total, contabilizada em
formação, que substituíra as cinco e um ativo comércio indígena. Até censo realizado em 2002, era de
malocas dos Tariano, fugia-lhes do meados dos anos 80, eram quatro cerca de 2700 pessoas (ver capítulo
controle. A civilização que julgavam comunidades tariano em torno da Números de Iauaretê, página 106).
ter mostrado aos índios apresentava missão. Hoje são dez comunidades
alguns aspectos que pareciam com uma média demográfica
igualmente lhes escapar: muito acima da usual (~ 250 a
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 44

a b a i xo à esq u erda mapa 2 página a o l a do l eg enda m a pa 3 .


im a gem ikon os, 20 0 2. mapa 3 - V ia s e b a ir r o s
do pov oa do de i a u a retê ,
2004.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 45
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 46

S r . Ad ria n o d e j e s u s ,
t a ri a no, m os t ra ndo
fo to d o s a n tigo s
t u xá u a s d e ia u a r etê,
2 005 .
Fot o: V i nc ent c a rel l i .

Em geral, considera-se que origem encontram-se, via de regra, legítimos” de Iauaretê. O debate
o fim do internato mantido ali dispersas em diferentes bairros, o refere-se diretamente à situação
pelos salesianos por décadas foi que reflete a circunstância específica de urbanização e à convivência
a principal causa dessa explosão da chegada de cada uma delas ao incontornável que a nova situação
demográfica. Sem os meios povoado. As crianças e os jovens impôs a esses grupos. Esses fatos,
usuais para manter as crianças passam grande parte do tempo que fazem parte da história recente
freqüentando os bancos escolares, no colégio e desfrutam de uma de contato dos índios do Uaupés
muitas famílias passaram a fixar convivência bem menos intensa com a sociedade nacional, acionam
residência permanente em com pais e avós. Boa parte do dia e opõem com freqüência cada vez
Iauaretê. Inicialmente, cresceram é gasta em frente à TV. E assim, maior – particularmente quando se
as antigas comunidades dos o comentário mais freqüente em trata de apaziguar atritos entre co-
Tariano que se viram obrigados torno das dificuldades enfrentadas residentes pertencentes às distintas
a ceder espaço de moradia, como em Iauaretê diz respeito a um certo etnias – diferentes interpretações
também para abertura de roçados, “descontrole da juventude”, que se sobre quem, afinal, chegou primeiro
a seus cunhados Tukano, Pira- traduz concretamente em muitos a Iauaretê. O fato é que, para além
Tapuia, Wanano e assim por casos de briga por ocasiões de festas de algumas contradições, todos
diante. Em seguida, os padres e de gravidez precoce. parecem concordar que Iauaretê
passaram a ceder as áreas por eles Mas uma outra linha de tensão é uma localidade do Rio Uaupés,
ocupadas com pastos e roças no que se pode perceber no cotidiano de onde as trajetórias de dois dos
passado para a formação das novas Iauaretê relaciona-se, precisamente, principais grupos indígenas da região
comunidades. Nesse contexto, a a um debate nem sempre explícito se cruzam. Além de sua posição
gestão dos assuntos comunitários referente às prerrogativas estratégica, trata-se de um lugar cujas
é crescentemente envolta em reivindicadas pelos Tariano e pelos prerrogativas para o estabelecimento
novas dificuldades. As famílias demais grupos de língua Tukano de novas comunidades são
de uma mesma comunidade de quanto a quem são os “moradores partilhadas pelos Tukano, pelos
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 47

hoje se concentram em Iauaretê.


Ao mesmo tempo em que a
idéia mobilizou notavelmente os
Tariano, veio também a acionar
um debate com as demais etnias
em torno da identidade dos seres
míticos que deram origem às
rochas que formam a cachoeira, da
ocupação histórica do Rio Uaupés
e das trajetórias respectivas dos
Tariano – que migraram desde o
Rio Içana, ao norte – e dos povos
tukano – que adentraram o Rio
Tariano e demais etnias. Por isso, pesca. Esse é o caso, por exemplo, Uaupés na cobra-canoa de seus
Iauaretê é uma localidade única no de alguns homens do clã Koivathe, ancestrais desde a foz do Amazonas,
contexto regional. residentes nas comunidades de a leste. O debate remonta a um
Alguns moradores das antigas Santa Maria e São Pedro, que, passado longínquo, pré-humano,
comunidades tariano costumam como foi dito na Introdução, anterior mesmo à existência dos
reivindicar maior respeito às suas foram os que vieram a propor ao Tariano e Tukano como grupos
prerrogativas por parte daqueles Iphan o registro da Cachoeira sociais distintos. Seu foco, assim,
que vieram se estabelecendo no de Iauaretê como patrimônio é o modo específico como cada
povoado nas últimas décadas, em imaterial. Como será apresentado qual elabora sua conexão com
particular quanto a seus direitos mais adiante, tal proposta inseria- o passado ancestral, algo que
sobre as terras circunvizinhas ao se no contexto político específico marca diretamente suas relações
povoado e aos melhores locais de das relações entre os grupos que contemporâneas.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 48

Mas a proposta de dizem seus descendentes, morreu, da comunidade. Conjeturavam


documentação e registro da no entanto, de tristeza. “Despojado ainda reaver os adornos há
Cachoeira de Iauaretê insere-se de suas riquezas” e já doente, décadas entregues aos padres,
ainda no contexto da intensificação derrubou sua maloca e foi viver no e que, segundo informações
das relações com os brancos dos Baixo Rio Negro, onde morreu que já circulam em Iauaretê,
últimos anos e, conseqüentemente, anos mais tarde. As riquezas a que encontravam-se depositados em
no acelerado processo de mudanças se referem os Tariano de hoje um museu mantido por freiras
que vem ocorrendo no modo dizem respeito especialmente a seus salesianas em Manaus.
de vida em Iauaretê. Como já adornos cerimoniais. Esses objetos, Em certa medida, esses planos
foi visto, contando com alguns considerados sagrados, eram são possíveis, hoje em dia, também
recursos disponibilizados por ritualmente utilizados, ocasiões nas em função de uma mudança
um projeto de educação, os quais os cantos e danças distintivos importante na postura dos próprios
Tariano do clã Koivathe vinham de cada clã eram igualmente missionários a partir do final
tratando de levantar uma maloca exibidos. Ou seja, os adornos e os dos anos 70 quanto às expressões
na comunidade de Santa Maria, rituais do velho tuxáua, assim como culturais indígenas. Sua adoção
com a mesma aparência e no a destruição de sua maloca, foram de uma pastoral indigenista mais
mesmo local onde viveu um de seus reclamados pelos missionários em progressista, bem como a influência
antepassados de grande prestígio, troca da civilização: das mercadorias dos padres Javerianos da Colômbia
o antigo tuxáua Leopoldino, que ao ensino da escrita e dos números, que assumiram as missões do Papuri
em 1927 recepcionou os salesianos passando pela obtenção dos nos anos 50, mais propensos à
em Iauaretê. Celebrado na crônica sacramentos cristãos. Com a nova Teologia da Libertação, faria a
missionária como um dos mais maloca de Iauaretê, os Tariano do partir de meados da década de
importantes chefes indígenas do clã Koivathe planejavam retomar 80 com que eles iniciassem uma
Uaupés e grande colaborador da essas práticas antigas, como, aliás, já mudança paulatina na prática
obra missionária, Leopoldino, estavam experimentando nas festas missionária. Foi a partir daqueles
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 49

abaixo
m alo c a tu k a n o e m
cons t ru ç ã o, 2 005 .
Foto: Gera l do A ndrel l o.

abaixo ` di reita
mal oc a t a ri a no, 2 008.
Foto: vinc ent c a rel l i .

anos que, como se recordam várias


pessoas de Iauaretê, começaram
a aparecer novos salesianos que,
além de falar em promoção
humana e projetos econômicos,
passariam a recomendar aos índios
que valorizassem sua própria
cultura. A mudança de postura
dos religiosos foi motivo de
perplexidade para os índios, pois
quem poderia esperar que tudo
aquilo que fora condenado como
‘coisas do diabo’ – o xamanismo, a
iniciação, os adornos sagrados, as especialmente os Tukano do clã realizando atividades culturais,
malocas – pudesse então passar a ser Oyé, originário do Rio Papuri, como encontros para contar as
enfaticamente recomendado? mobilizavam-se na construção histórias dos antigos, palestras para
Deve-se mencionar que a de uma segunda maloca em um os jovens do colégio e elaboração
reconstrução de malocas não é dos novos bairros do povoado – a de uma publicação com excertos
atividade exclusiva dos Tariano Vila Aparecida. Os Oyé à frente das histórias das várias etnias.
Koivathe em Iauaretê. Ao mesmo dessa outra iniciativa já contavam Planejavam ainda uma grande
tempo em que estes passavam com um projeto aprovado pelo festa para a inauguração futura
a adotar a nova linguagem do PDPI (Projetos Demonstrativos de sua maloca. Ao contrário dos
patrimônio imaterial para dos Povos Indígenas, Ministério Koivathe, os homens Oyé, à frente
expressar suas demandas, outros do Meio Ambiente) através da dessa iniciativa, não planejaram
grupos presentes em Iauaretê, FOIRN, graças ao qual vinham reconstruir a maloca de um
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 50

c a choe i ra de iauare tê,


m a r gem b rasileira, 2005.
F o t o : an a git a .

antepassado de um clã ou etnia da “cultura” de suas respectivas ou Tukano – são motivadas pela
específicos – mesmo porque, em etnias. Nesse sentido, o novo necessidade, afirmada em muitas
Iauaretê, isso só seria possível espaço proporcionado pela nova das falas de seus protagonistas,
para um conjunto limitado de clãs maloca seria também utilizado para de estimular os jovens à aquisição
tariano. Tratava-se, de fato, de uma atividades escolares, que contariam do conhecimento legado por seus
maloca evocativa, por assim dizer: como dia letivo do calendário do avós. Sem isso, afirmam alguns,
prestar-se-ia, sobretudo, para Colégio. Esse arranjo mostrava- eles não poderão “ser alguém”
que as centenas de estudantes do se viável porque a direção do futuramente. Esta afirmação tem
Colégio São Miguel, oriundos das Colégio estava, finalmente, para muitas implicações, pois, além
comunidades de todo o Distrito, ser transferida das freiras para os de expressar uma preocupação
adquirissem um conhecimento professores indígenas. em garantir aos mais novos uma
básico a respeito das histórias e Todas essas iniciativas – Tariano referência identitária diante do
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 51

c ach o e i r a d e ia u a r etê,
m a rg em c ol om bi a na ,
2 005 .
Fot o: a na gita .

mundo dos brancos – “se entram passa a acarretar problemas sérios


em uma universidade, as pessoas no que diz respeito à observação
vão lhes perguntar quem são” –, das uniões conjugais apropriadas
quer persuadi-los a adotar certos e à intensidade da vida sexual dos
comportamentos tradicionalmente jovens. Mencionam também o
valorizados. Aludindo à regra da fato de que hoje há muitos alunos
exogamia lingüística – o casamento no Colégio que não sabem dizer a
sempre com uma mulher de etnia qual clã específico pertencem, pois
diferente da própria – uma dessas já não receberam tal informação
falas reflete sobre a situação atual dos próprios pais. Cumpre, pois,
de Iauaretê: “com tanta gente garantir que certas coordenadas
amontoada aqui em Iauaretê, já não sociais de relacionamento entre
se pode esperar que os nossos filhos os grupos sejam devidamente
respeitem as moças como se fazia transmitidas aos jovens que já optaram por um registro no livro
antes”. Tal afirmação diz respeito, nasceram e cresceram em Iauaretê. dos lugares. Pois, como tentaram
explicitamente, ao crescimento É preciso, portanto, “organizar nos demonstrar meses depois:
demográfico do povoado, Iauaretê” – é o que dizem, por “nossa história está escrita nas pedras
atualmente muito debatido pelas exemplo, os Tariano Koivathe, da Cachoeira de Iauaretê”.
pessoas. O diagnóstico corrente valorizando a “cultura dos antigos”,
é o de que essa concentração de que era a própria “civilização” que os
gente sem precedentes já não índios já possuíam antes da chegada
permite que a juventude adquira dos padres. Ao que parece, é por
um conhecimento apropriado isso que os Tariano, ao tomarem
sobre o mapa das relações sociais conhecimento da nova política de
no qual sua família se insere. E isso patrimônio imaterial do governo,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 52

O Processo de Registro da
Cachoeira de Iauaretê
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 53

I DEN TIFICAÇÃO DOS


LUG ARES SAG RADOS , 2008.
f ot o: vincen t carell i .

a BAI XO
PETRO G LI F O, 20 0 8.

PROPOSTA
f o to : vi ncen t care l l i.

INICIAL

A proposta de registro dos


“lugares sagrados tariano” foi
informada ao Iphan em setembro de
se com eles um conjunto de mais
de vinte pontos, que deveriam ser
visitados em fevereiro ou março
2004, quatro meses após a primeira do ano seguinte, pois no mês de
reunião promovida pela instituição novembro muitas das rochas que
na região do Alto Rio Negro. Nessa marcam e dão nomes a esses pontos
ocasião, aproveitando a visita de encontram-se, seja nas margens
um representante do Instituto ou em “ilhas” no centro do rio,
Socioambiental (ISA), os mesmos submersas sob as águas do Uaupés.
homens do clã Koivathe que haviam Era imprescindível, também,
participado da reunião ocorrida na providenciar instrumentos que
sede da FOIRN em maio enviaram permitissem um registro daquilo
o recado de que, após refletirem que seria visto: paralelamente à
sobre as possibilidades abertas das pedras da Cachoeira de Iauaretê. narrativa sobre a origem mítica
pela nova política de patrimônio O recado dos Tariano das rochas que se faria in loco, era
imaterial, haviam optado por suscitou uma rápida visita de dois preciso fotografá-las, e, se possível,
registrar os lugares sagrados de sua antropólogos – Geraldo Andrello e filmá-las. Pois se tratava de um
etnia no Livro dos Lugares que fora Ana Gita de Oliveira, do ISA e do testemunho visível, como que prova
mencionado na reunião. Apontavam Iphan, respectivamente – à Iauaretê material, dos conhecimentos que
que a importância de tais lugares em novembro de 2004, quando, os Tariano queriam registrar com o
dizia respeito à antiga história de seu de posse de um mapa desse trecho apoio do Iphan.
ancestral mítico, que, na tentativa do Rio Uaupés, buscou-se elencar Não se dava conta naquele
de se livrar da devoração por uma e plotar aquilo que os Tariano momento de uma questão que
“gente-onça”, dera origem, em mencionavam como seus “lugares surgiria ao longo do processo:
sucessivas transformações, a algumas sagrados”. Nessa ocasião, assinalou- tratava-se de um lugar a ser
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 54

aluno ta ria n o da
ofici na de v í deo, 2 008.
Foto: V i nc ent c a rel l i .

registrado ou eram vários pontos Infelizmente, mesmo antes de e brancos). Tratava-se da história
que formavam um território? estar concluída, uma tempestade dos Diroá, seres míticos associados
A questão, evidentemente, não havia danificado parte considerável ao sangue do Trovão, o Avô do
perturbava os Tariano, cujo de sua estrutura – uma grande Mundo, que, de maneiras variadas,
interesse se concentrava em mostrar construção retangular de cerca de aparece na mitologia de todos
como os primórdios de sua história quinze por trinta metros. O Iphan os grupos da região. A narrativa
seriam identificados através de um comprometeu-se, então, a buscar dizia respeito, assim, ao tempo
passeio por pedras, lajes, fendas, recursos para garantir a reforma primordial da pré-humanidade,
paranás e ilhas que, num extenso e finalização da maloca durante o um mundo povoado por divindades
trecho do Rio Uaupés, fazem processo de documentação. criadoras que buscavam fazer surgir
parte da cachoeira da onça. Além Em fevereiro de 2005, a mesma rios, animais, plantas e verdadeiros
disso, sua demanda surpreendeu equipe estava de volta à Iauaretê, seres humanos. A respeito desse
positivamente as pessoas e agora acompanhada por Vincent tipo de relato, algumas pessoas
instituições envolvidas no processo, Carelli, vídeo-documentarista de Iauaretê costumam fazer uma
pois através do manejo dos termos da Associação Vídeo nas Aldeias. analogia esclarecedora, apontando
da política do Iphan – lugares como Durante dez dias, os Tariano tratar-se do “antigo testamento
patrimônio imaterial – propunham Koivathe colocaram-se inteiramente dos índios”. Trata-se daquilo que
uma documentação audiovisual que à disposição para realizar o trabalho. Christine Hugh-Jones (1979)
pudesse explicitar os significados No período, realizaram um qualificou em seu estudo sobre
embutidos em certas formações esforço notável, debatendo entre os Barasana como “era pré-
rochosas de sua área tradicional si e recitando de maneira formal e descendência”, um longo período
de ocupação. A visita à Iauaretê solene, uma história que se passou de gestação da atual humanidade,
serviu também para verificar os em Iauaretê muito tempo antes do anterior à sua organização social em
progressos que os Tariano haviam surgimento da atual humanidade grupos exogâmicos compostos por
feito na construção de sua maloca. (Tariano, Tukano, demais grupos clãs hierarquizados.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 55

ima gem d e o hkômi e m um


pet rog l if o, 2 005 .
f ot o: a na gita .

Além de Ennu, o Trovão, o mito o betâpa’ [enfeite de cotovelo feito de pêlo


fala de outras figuras, como o casal de macaco], o yaigi [bastão de comando],
de irmãos Kui e Nanaio, Ohkômi e os o escudo, o kitió [chocalho de tornozelo];
irmãos Diroá, que, segundo eles, também levava seu cigarro encaixado na
seriam os responsáveis, mais tarde, forquilha, sua cuia de epadu e sua cuia de
pelo aparecimento dos ancestrais bebidas doces. Ele vivia só em sua casa, no
Tariano. A história se passa em um alto, e começou a pensar sobre a possibilidade
mundo em formação. A passagem de criar novas pessoas. Mas inicialmente
por diferentes lugares muitos apenas pensou neles. E pensou em um homem
distantes aos homens de hoje, bem e em uma mulher, Kui e Nanaio. Mas ele
como por distintos domínios do não sabia ainda como faria. Pensou então
cosmos, são operações instantâneas em preparar os meios [bahuresehe, coisas de
na narrativa. Nesse tempo, Iauaretê propiciar surgimento] para conseguir isto. Ele
já foi o cenário onde os Diroá se Iauaretê, pois, entre os grupos do pegou um cigarro, e pensou num par de pari
rivalizaram com uma “gente-onça”, Uaupés, seriam eles os descendentes [esteira de talas] de quartzo transparente,
yaí-masa, um grupo canibal que ali diretos dos Diroá. num par de bancos de quartzo transparente,
vivia e representava um empecilho A narrativa dos Tariano iniciou- em duas cuias de quartzo transparente com
para o povoamento do Rio Uaupés. se da seguinte maneira: seus dois suportes, em um par de Yaigi de
A palavra Iauaretê, “cachoeira da quartzo, em dois cigarros encaixados em suas
onça”, é um topônimo que faz No início, quando não existia nada, só forquilhas e em duas cuias de epadu. Pensou
alusão a esses primeiros moradores existia um ser [masa bahutígi, pessoa que também em um par de escudos e também em
do lugar. É a partir da narrativa não aparece], o Trovão, Ennu [Hipéweri um par de maha poari [acângataras de penas
desse mito que os Tariano Hekoapi]. Em seu corpo ele tinha vários de arara] e em dois pares de brincos de ouro.
fundamentam suas reivindicações enfeites, a acângatara, o itaboho [cilindro Pensou ainda em um par de itaboho e em dois
como “moradores verdadeiros” de de quartzo usado como pingente de colar], pares de kitió. Também pelo seu pensamento,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 56

à d i reit a
o hkômi , 20 0 8.
f o t o : vi ncen t ca rell i.

a b a i xo
c a s a da s on ças, 20 0 8.
f o t o : vi ncen t ca rell i.

cachoeiras e nas serras, que, na


verdade, são suas casas. Os Tariano
apresentam uma lista extensa deles,
alguns associados a animais como
a onça, a anta, o tatu o macaco
zogue-zogue, a borboleta, outros
possuindo apenas nomes sem
tradução e com atributos muito
distintos, como um ser chamado
Ohkômi. Os î’ta-masa mencionados
no mito moram nas imediações de
Iauaretê, em pedras, paranás e ilhas
que existem na acidentada região
enchia as cuias com bebidas doces: suco de “gente pedra”, [em tariano, hipada-nauiki] do povoado – com corredeiras,
buiuiu, suco de abiu, suco de wéry, caldo de não porque fossem feitos de pedra, mas porque pedrais e a encachoeirada foz do
cana, suco de ingá, mel de abelhas e suco de a duração de sua vida é indeterminada. Rio Papuri. Ohkômi morava em
cucura. Eram várias espécies dessas frutas. uma parte elevada do povoado,
Depois disso, ele fumou seu cigarro e soprou a Conta-se que vários outros conhecida hoje como o Morro do
fumaça no chão e todas as coisas que haviam î’ta-masa surgiram no começo do Cruzeiro – onde, aliás, localiza-se
em seu pensamento apareceram ali. Kui e mundo, incluindo vários tipos de o bairro do Cruzeiro.
Nanaio apareceram também, e sentaram-se gente (masa). Eles se distribuíram ao Em uma das partes da cachoeira
nos bancos de quartzo, que estavam sobre longo dos rios e formaram muitos de Iauaretê, vivia a gente-
os paris. Eles não eram pessoas como nós, dos acidentes geográficos, sendo onça, Yaí-masa, referida, mais
pois seu corpo não era ainda como o nosso. uns de boa índole, outros não. especificamente, como Yaípiri-
Chamamo-os de î’ta-masa, literalmente Eles vivem até hoje nas pedras das pakâna-masa, “gente onça de dente
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 57

à e squ erda
pont a de ohkômi , 2 005 .
foto: g era l do a ndrel l o.

à direita
pe d ra A ba c a t e, 2 005 .
foto: a na gita .

aBAI XO a o c ent ro
pe d ra de c u i u - c u iú , 2 005 .
foto: g era l do a ndrel l o.

aBAI XO à di reita
pe d ra g a viã o, 2 008.
foto: vinc et c a rel l i .

grande”. Umas das filhas da gente


onça veio a se casar com Yetoi,
o “caba grande”, que vivia na
foz do Papuri. Por serem xamãs
poderosos, os Yaí-masa sabiam
que Ohkômi iria ser o chefe de um
grande e muito poderoso grupo.
Por isso, eles o torturaram até a
morte. Muitas das características
visíveis das pedras da Cachoeira de
Iauaretê tiveram origem a partir
das torturas que a gente-onça lhe
perpetrou. Ele foi arrastado por
vários lugares e se transformou em upî-miroró [cigarro-arma], tirando-o de cuiu-cuiú e se formou um pequeno igarapé
diferentes animais e plantas até ser sua casa tal como um gavião agarra sua presa. que também leva esse nome. Mais acima,
finalmente morto. Esse trecho do Arrastaram-no até a beira do rio, planejando ele se transformou em abacate [u´uyão], no
mito dá origem a uma boa parte da torturá-lo até a morte. Ele foi amarrado e porto da missão, onde também há uma pedra
extensa toponímia que se verifica jogado várias vezes até cair no rio. Esse lugar com esse nome. Voltando à sua aparência,
para as imediações de Iauaretê. ficou conhecido como ponta de Ohkômi foi arrastado até o lugar onde hoje é o porto
Eram esses lugares que os Tariano [Ohkômi yoã]. Ele continuou sendo arrastado do bairro São Miguel. Ali se transformou em
desejavam registrar. rio acima pela beira. Tentando escapar das gavião [péeri, em tariano, a’a., em tukano]
O trecho do mito que dá origem onças, ele se transformou em peixe cuiu-cuiú e, por isso, há ali uma pedra com esse nome.
a essas pedras é o seguinte: [waî seni], mas as onças o pegaram. Nesse Em seguida, as onças tentaram acabar de vez
lugar, o porto principal de Iauaretê, em com ele, arrastando-o por entre duas pedras
Para capturar Ohkômi, eles usaram seu frente ao velho hospital, surgiu a pedra de a fim de lhe arrancar a cabeça. Mas ao fazê-
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 58

à e squ erda
cave rn a , 2 005 .
foto: g era l do a ndrel l o.

abaixo à es qu erda
pe dra da a nt a , 2 005 .
foto: vinc ent c a rel l i .

aBAIXO a o c ent ro
pássar o a r a ç a ri, 2 0 0 8
foto: vinc ent c a rel l i .

aBAIXO à di reita
arara, 2 008.
foto: vinc ent c a rel l i .

lo, abriu-se ali um espaço entre as pedras, tukano]. A pedra tem esse nome porque ali ele maha, em tukano], aranha caranguejeira [eni,
formando uma caverna [susulí yu´ti]. se transformou em anta. Dali foi jogado para em tariano, bipî, em tukano], asa de arara
Então o arrastaram até o porto do bairro uma ilha no meio do rio, onde se transformou [adaro inapema, em tariano], coro-coró
D. Bosco, onde Ohkômi transformou-se em pássaro araçari [maaruri, em tariano, [curi, em tariano, kotó, em tukano], jacaré
em bodó [ya´ka, em tukano]. Mais acima, aninó, em tukano]. Nessa ilha, formou-se o [kásiri, em tariano] e caranguejo [kuheni].
transformou-se em raízes [diicida, em pequeno paraná de araçari. Em todos esse lugares apareceram pedras que
tariano, yienó, em tukano]. Continuou sendo Dessa ilha ele foi jogado para a outra lembram a forma desses animais. Desde que o
arrastado, até que um pouco mais acima se margem do Uaupés, onde hoje é a Colômbia. capturaram em sua casa, as onças o levaram
transformou em fruta abiú [hemalida, em Desse ponto, ele passou a ser arrastado para primeiramente rio acima, atravessando em
tariano, ka’reá, em tukano]. Desse ponto, baixo, também pela beira do Rio Uaupés, seguida o Uaupés, para em seguida descer
ele foi jogado no Rio Uaupés, onde existe a até a foz do Papuri, tendo se transformado pela outra margem até o Papuri. Nesse
pedra da anta [hemá, em tariano, we’kí, em sucessivamente em arara [adaro, em tariano, percurso, circundaram toda a cachoeira de
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 59

à direita
M artin- pes c a dor, 2 008
foto: vinc ent c a rel l i .

abaixo à es qu erda
aranh a c a r a ngu e je ir a ,
2008.
foto : vinc e nt c a r e l li.

aBAI XO a o c ent ro
coro- c oró, 2 008.
foto : vinc e nt c a r e l li.

aBAI XO à di reita
cabeç a de ohkômi , 2 008.
foto: vinc ent c a rel l i .

Iauaretê, em cujo centro se encontra a casa caso contrário os filhos dos pescadores podem sendo arrastado até ehu dukali uairó [cacuri
das onças. Todas as pedras que apareceram nascer com deficiências. de pedaço de timbó]. Nesse lugar havia duas
são lugares apropriados para a montagem das Depois disso, ele foi jogado no meio pedras com um pequeno espaço entre elas, pelo
armadilhas de pesca dos Tariano, os caiás, do rio, no lugar onde o Papuri deságua qual o corpo de Ohkômi foi arrastado. Sua
cacuris e matapis. Na verdade, Ohkômi no Uaupés. Nesse lugar formou-se a laje cabeça ficou presa ali, tendo sido arrancada
ia se transformando já pensando nos seus do Martim-pescador [ialeru], porque ali do corpo. Ainda hoje, a cabeça está ali, na
netos. As formas, orifícios e marcas dessas Ohkômi ainda se transformou nessa ave. forma de uma pedra.
pedras são orientações para a colocação das Desse lugar, Ohkômi, já quase morto, foi As onças, finalmente levaram o corpo de
armadilhas, mas é preciso montá-las de arrastado até upí-umu, um tipo de cacete de Ohkômi até uma pedra localizada um pouco
maneira precisa para poder pegar os peixes. Os madeira muito dura. Esse lugar ficou com esse mais acima no Rio Papuri. Nessa pedra há
peixes capturados nessa armadilhas devem ser nome porque ali Ohkômi soltou sua arma, um buraco onde seu corpo foi socado com
devidamente benzidos [basesehe, em tukano], que vinha carregando até então. Ele seguiu paus de madeiras muito pesadas. O sangue
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 60

à es qu erda
pont a de ra i z es , 2 008.
Fot o: vinc ent c a rel l i .

a ba i xo à es qu erda
c ac u ri ( a rma dil h a d e
pes c a ), 2 008.
Fot o: V i nc ent c a rel l i .

a ba i xo à D IREIT A
pa ra ná do s a ng u e, 2 008.
Fot o: V i nc ent c a rel l i .

que escorreu formou um paraná na própria de seu corpo, de modo que os que ali estavam chegaram até Bi’pô wi’í, a casa de Trovão. E
rocha, que ficou conhecido como paraná deveriam comer absolutamente tudo, sem ao chegar lá, ouviu-se um grande estrondo.
do sangue [dîma, em tukano, iritapuré, em deixar restos. Yetoi, como os outros, disse que Os que lá embaixo participavam da refeição
tariano]. A onças convidaram todos os demais estava comendo tudo, sem deixar nada de assustaram-se e começaram a se perguntar
gente-pedra para comer Ohkômi. Juntamente lado, mas, na verdade, sua intenção era de quem haveria deixado escapar algum pedaço.
com as onças, Iawie-Inipé, Tátali, Kapatho, salvar nem que fosse um pequeno pedaço do Mas todos diziam que não haviam deixado
Dûme, Iñe, Nhamu, Dápa, Musinó, Waakí, corpo de Ohkômi. escapar nada. Para disfarçar, Yetoi começou a
Ye, Hema começaram a comer. Dois deles Foi então que ele conseguiu encontrar os lamber o sangue, querendo demonstrar que ele
não quiseram vir, Ya’ kôro, Watoporó, ao três ossos do dedo mínimo de sua mão direita. havia comido tudo.
passo que Yetoi, embora estando presente ao Fingindo estar espantando uma mosca em
banquete, não chegou a comer Ohkômi. As suas costas, aproveitou para jogar esses ossos Esses eram, por fim, os lugares
onças haviam dito que nada poderia restar para cima. E assim, os ossos de Ohkômi sagrados à que se referiam os
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 61

à e squ erda
abiu , 2 005 .
Foto: a na gita .

à direita
cara ng u ej o, 2 008.
foto: vinc ent c a rel l i .

abaixo
Ma ta pi ( a rm a dil ha d e
pe sc a ), 2 008.
Foto: V i nc ent c a rel l i .

O cunhado Yetoi foi também


convidado, e foi o responsável por
impedir a devoração absoluta de
Ohkômi, tendo, disfarçadamente,
atirado para o alto os três pequenos
ossos de seu dedo mínimo. Mais
tarde, com o estrondo de um
trovão esses ossos caíram no Uaupés
na forma de uma gota de sangue
e se transformaram em peixes.
Foram recolhidos por Yetoi e sua
esposa e levados para casa. Foram
postos em um matapi (trançado
Tariano não apenas por serem “nosso avô”. Durante a filmagem em forma tubular para captura
preparados por Ohkômi para que a pelas pedras, um deles chegou a de peixes) de defumar pimenta,
futura humanidade pudesse obter o dizer o seguinte: “para mim, nosso onde se transformaram em grilos e
principal item de sua alimentação avô já ressuscitou”. De Ohkômi começaram a crescer. Mais tarde,
– o pescado –, mas também, e aos Tariano de hoje, o processo, ela os colocou dentro de um pilão
principalmente, porque entre resumidamente, se deu da maneira usado para socar ipadu, e, vedando
aquela gente-pedra que existiu relatada a seguir. com breu, o atirou ao rio. O pilão
no começo dos tempos, Ohkômi é Os Yaí-masa convidaram todos os boiou Uaupés abaixo, encostando-
aquele cujo princípio vital viria outros î’ta-masa para um banquete se à outra margem. Foi então que
a tornar possível a existência dos em que Ohkômi, já morto, seria os irmãos Diroá apareceram pela
Tariano. Todo tempo eles se devorado, sendo que nenhuma primeira vez com a aparência
referiam a essa personagem como parte de seu corpo deveria restar. humana, e já se chamando Kuenaka,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 62

à e squ erda
foci nh o de j a c a ré, 2 008.
Foto: vinc ent c a rel l i .

À DIREI T A
anus d e j a c a ré, 2 008.
Foto: vinc ent c a rel l i .

abaixo
l age do t rov ã o, 2 008.
foto: vinc ent c a rel l i .

Kali, e Kui, os principais nomes da subida dos Diroá à casa do


cerimoniais até hoje usados pelos Trovão, onde sua vida irá passar
Tariano Koivathe. a um cigarro cuja fumaça, ao ser
O aparecimento dos Diroá soprada no lago do Trovão, vai dar
resulta, portanto, de um longo origem aos Tariano. Desse lago,
processo transformativo, em que, eles passam à Uapui-Cachoeira, no
inicialmente, pequenos ossos de Rio Aiari, um importante afluente
um demiurgo devorado convertem- do Rio Içana, através de uma
se, através de uma trovoada, em zarabatana de quartzo, e iniciam
sangue. O sangue transforma-se sua jornada em direção ao Rio
em peixes e grilos sucessivamente, Uaupés, ao sul. Nanayo, a primeira
até alcançar a forma humana. O mulher criada pelo Trovão no
processo não é ainda a origem dos começo dos tempos, é quem efetua
humanos, mas de sua forma, que roçados ou participar de dabucuris, a operação de transportar a vida
vem marcada com os nomes então os rituais de troca de alimentos dos Diroá, ao colocar seu próprio
adquiridos pelos Diroá. Os nomes, entre afins. A gente onça já os odeia leite no cigarro. O leite da primeira
assim, prefiguram a humanidade. e tenta devorá-los sem sucesso. mulher, uma vez associado ao
O mito segue narrando os feitos Ao final, ao roubarem o raio da tabaco, é o que propicia que a
dos Diroá para obter poderes mão direita do Trovão (um osso), essência vital dos Diroá dê origem
xamânicos e os vários estratagemas os Diroá terminam por aniquilar a aos Tariano. É essa substância
que planejam para matar os filhos gente onça com uma trovoada, em imaterial que, dizem os Tariano,
da gente onça. Vários episódios uma ocasião em que faziam festa em continua a ser transmitida através
se sucedem, nos quais os Diroá sua maloca. das gerações junto com os nomes
são chamados a colaborar com A versão que nos foi fornecida Kuenaka, Kali e Kui.
os cunhados na abertura de seus fala, após o fim da gente onça,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 63

di roá , 2 008.
f ot o: vinc ent c a rel l i .
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 64

a b a i xo à esq u erda e Ko ivath e . in dica um a l eg enda m a pa 5


m a p a 4 - mapea m en to quan tida d e m a io r d e
d o s lu g ares m íticos da lu gare s , b e m c om o
c a choe i ra de Iauare tê, seus no m e s n a l í n gu a
2 0 0 4. tarian a . E s s a t oponí mi a
di z res p e ito a um
pági n a a o lado c onjun to m ai s e x t e n s o
m a p a 5 - se gundo de nar r ativa s mí tica s ,
m a p ea mento dos lu gares várias d e l a s a in da a
m í ticos da c ach oe ira re gi stra r.
d e I au a retê , o ficin a de
c a r tog rafi a de 2007.
e x e r cício r ea liza do com
a p r oxim adam en te vin te
p e s s oas, per tenc en tes
a o clãs tari ano Ka m ewa

l eg enda m a pa 4
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 65
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 66

à esqu e r da
ofici na de c a rt og ra fi a ,
2005.
Foto: a na gita .

à d ire it a
c ac uri ( a rm a di lh a d e
pe sca), 2 008.
Foto: V i nc ent c a rel l i .

À medida que a história contada gente-pedra. Foi então ficando praças, feiras ou mercados –
pelos Tariano foi sendo registrada claro que o número de lugares “espaços aglutinadores de práticas
naqueles dias de filmagem, os cerca a serem documentados poderia culturais tradicionais” – como
de vinte lugares a documentar subir a muito mais que vinte e a lidar com uma cachoeira em cujas
foram se multiplicando, pois a toponímia da cachoeira mostrava-se rochas os índios, ao mesmo tempo,
história descrevia outros tantos muito mais extensa do que parecera montavam armadilhas de pesca e
feitos dos Diroá – tais como: a à primeira vista. Como se pode rememoravam o passado mítico? Na
origem de certas espécies de ver nos Mapas 4 e 5 (páginas 64 e verdade, o que saltava aos olhos era
peixe, o uso pela primeira vez 65), aos 20 lugares mencionados que, desde o levantamento inicial
do enteógeno paricá, o banho no trecho da narrativa, vieram das pedras originadas pelo sacrifício
que antecede o primeiro ritual mais tarde a ser acrescentados de Ohkômi, os assim considerados
de troca, a origem da cestaria, o muitos outros – mapa elaborado “lugares sagrados tariano”
caráter que assumem as relações de em oficina de cartografia realizada constituíam o suporte material
parentesco, e assim por diante –, em abril/2007, como parte das de um enredo mítico integrado,
cada qual dando origem a nomes iniciativas de salvaguarda. pelo qual a presente ordem das
e qualidades de vários outros Assim, a questão que se colocava coisas – das relações sociais aos
lugares. A própria performance era a seguinte: como proceder ao recursos naturais – se engendrou.
narrativa frente à câmera parecia registro formal de tantos lugares? Ou seja, se havia um lugar em
induzir os narradores a nos levar É importante lembrar que, na questão, esse lugar era a Cachoeira
a outros pontos das imediações ocasião, o Livro dos Lugares não de Iauaretê como um todo. E de
da Cachoeira de Iauaretê, como a estava sequer aberto, isto é, não fato, as rochas que se originaram
casa do avô Caba, onde cresceram havia qualquer caso de registro a partir das transformações de
os Diroá, a casa dos cunhados- de um lugar como patrimônio Ohkômi circundam, por assim
jaguar, exatamente no centro da imaterial. E se o Decreto 3.551, ao dizer, praticamente toda a extensão
cachoeira, e as casas das demais abranger tal categoria, menciona da cachoeira. A partir da casa de
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 67

tipos de Ca iá (ar madil ha


d e p esca ) , 20 0 8.
F o to : Vincen t care l l i.

Ohkômi, localizada em certo ponto e dos Diroá, e, assim, a história da do Uaupés por outros grupos, um
da margem direita do Uaupés, as origem do povo Tariano. dado que, ao longo do processo
pedras estão distribuídas ao longo Narrativas como essa não são de documentação da Cachoeira,
dessa margem no sentido montante, exclusividade dos Tariano, pois os Tukano fizeram questão de
até que, a certa altura, aparecem o surgimento e crescimento dos ressaltar. Ou seja, se o lugar a
em ilhas rochosas no centro do demais grupos do Uaupés são ser registrado era a Cachoeira
rio, como que atravessando à outra igualmente tematizados na forma de Iauaretê como um todo, seria
margem. Dali, ainda seguindo pela de sucessivos deslocamentos espaço- preciso repensar a titularidade
margem direita, elas se distribuem temporais, através dos quais a desse registro, isto é, já que
em sentido jusante até a foz do memória social articula os eventos se tratava de um ato oficial de
Rio Papuri. Dentro desse rio, há da época da transformação mítica patrimonialização, a quem esse
outras pedras importantes, como a àqueles que já fazem parte de direito deveria ser reconhecido? Se
própria cabeça de Ohkômi e o Paraná trajetórias históricas particulares. a história até então contada dizia
no Sangue, onde ele foi finalmente Fontes de fórmulas xamânicas e de respeito à trajetória de um grupo
despedaçado e devorado. As casas performances rituais, as narrativas que veio do norte para povoar a
das gentes-pedra que participaram mito-históricas do Uaupés região, passava a ser necessário
do banquete macabro encontram- definem ainda territórios, que, considerar a história daqueles que
se, em sua maioria, bem próximas sem apresentar fronteiras precisas, vieram do leste. De fato, o que se
a esse paraná, todas elas igualmente estendem-se partir de certos pontos fazia necessário era considerar as
marcadas por rochas específicas. culminantes, por assim dizer, da duas histórias conjuntamente.
Em suma, o conhecimento saga de cada um dos grupos. Ainda
detalhado da toponímia da que Iauaretê seja reconhecidamente
Cachoeira de Iauaretê fornece um uma área de ocupação tariano,
recurso mnemônico privilegiado trata-se de um lugar que faz parte
para se narrar a história de Ohkômi também da rota de povoamento
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 68

os tariano
no uaupés

Como já foi descrito, Iauaretê é em um passado distante, a origem quilômetros distantes do leito do
hoje uma localidade onde convive subseqüente dos Tariano vai Uaupés. Esses foram, também,
boa parte das etnias do Rio Uaupés ocorrer no Rio Aiari, ao norte, os locais das primeiras malocas
(além dos Tariano e Tukano, mais precisamente na Cachoeira tariano em Iauaretê.
os grupos majoritários, há os de Uapui, de onde emergem Dessa maneira, ainda que hoje
Desana, Pira-Tapuia, Arapasso, seus ancestrais ao lado dos de participem do sistema de exogamia
Wanano, Tuyuka, Hupda e outros outros grupos de língua arwak, lingüística que liga os diferentes
grupos representados apenas por como os Baniwa. A partir daí grupos do Rio Uaupés entre si – i.e.
alguns indivíduos). À exceção dos rumaram em direção sul, por uma lá não se casa dentro do próprio
Tariano, que se auto-designam curta via terrestre que permite grupo –, os Tariano ocupam nesse
“filhos do sangue do Trovão”, passar com facilidade do Içana sistema uma posição peculiar. Ao
todos os demais, além de seus ao Alto Uaupés. Ao longo desse contrário dos demais grupos, eles
nomes específicos, lançam mão deslocamento em direção ao são originários da bacia do Rio
em geral da expressão “gente de Uaupés, bem como vivendo em Içana, ao norte, tendo se fixado no
transformação” como uma auto- certas localidades antes de atingir Uaupés ainda em período pré-
designação de conjunto. Tais Iauaretê, os Tariano tornar-se- colonial5 (Neves, 1998 e 2001).
expressões referem-se à forma iam, definitivamente, humanos. Vieram então a ocupar uma extensa
específica pela qual esses grupos Segundo contam, tal processo se área no território dos grupos da
se originaram, tal como ficou conclui com seu estabelecimento família lingüística tukano, dos quais
patente na história relatada acerca em Iauaretê, onde seus ancestrais passaram não apenas a obter esposas
do surgimento dos Diroá e dos míticos fixaram moradia. Conta- em troca de irmãs, mas, também,
Tariano. Essa história ensina se que eles não morreram, mas progressivamente, a adotar a língua
também que, apesar das intrigas que, com suas armas, sentaram-se – sua língua original, como dito,
entre os Diroá e a gente-onça para sempre em suas casas, que se pertence à família arwak. O centro
haverem se passado em Iauaretê materializam em três serras alguns da área dos Tariano no Uaupés
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 69

c asa da on ça. 20 0 8.
F o to : Vincen t care l l i.

é Iauaretê-Cachoeira, termo da
língua geral traduzido por Dzaui-pani
na antiga língua tariano, ou Yaí-
poewa na língua tukano: em todos os
casos, “cachoeira da onça”. E ainda
hoje o principal contingente dessa
etnia encontra-se em Iauaretê, onde
soma cerca de 850 pessoas.
A presença histórica dos Tariano
em Iauaretê é bem documentada.
Vários relatos de viagem pelo Rio
Uaupés dão conta, desde meados
do século XIX, da localização de
suas malocas num extenso trecho Iauaretê no contexto das relações salesianos no início do século
do rio acima e abaixo da Cachoeira com os brancos, sejam eles patrões XX. Há claros indícios nas fontes,
de Iauaretê. Desde a viagem do e comerciantes de produtos confirmados pelas narrativas orais,
naturalista Alfred Wallace em extrativistas ou missionários (ver de que haveriam desempenhado
1848, passando pelas de Richard Andrello, 2006, Capítulo 5). Os um papel de liderança no Rio
Spruce, Henri Coudreau, Ermano relatos orais tariano informam Uaupés, formando um bloco
Stradelli, Brandão de Amorim, igualmente sobre o papel de estável e numeroso, muitas vezes
até aquelas do início do século XX, destaque dos Tariano de Iauaretê intermediando relações com os
de Koch-Grunberg, McGovern, junto ao Serviço de Proteção brancos que subiam esse rio a fim
Lopes de Souza e Nimuendaju, aos Índios (SPI), instituição de aliciar trabalhadores indígenas
há unanimidade em apontar a indigenista da Primeira República, para os seringais do Baixo Rio
importância dos chefes tariano de e na recepção dos missionários Negro. O nome do Rio Uaupés,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 70

informa, por exemplo, Stradelli, belicosas com certos grupos, a embora sem demonstrar um
tem origem a partir do apelido do aliança estabelecida com os Tukano conhecimento tão minucioso
chefe tariano Koivathe: Boupé, ou consistiu um fator importante para da toponímia da Cachoeira de
Boapé. Na verdade, informam ainda o estabelecimento dos clãs e malocas Iauaretê, não deixam hoje de
hoje os tariano do clã Koivathe, tariano na região de Iauaretê. Já nos apontar um sinal específico por
seu ancestral era considerado o primeiros tempos da colonização, entre a pedras que fundamente
“chefe dos Boupés”, o chefe dos os Tukano refluem em direção às de maneira explícita, e material,
índios. Foi assim que o antigo cabeceiras do Rio Papuri – contam sua antiga ligação com o lugar. Se
nome do rio passou de Caiary – de que os militares portugueses os Tariano cuidaram de apontar
acordo com a toponímia do século chegariam com grandes quantidades aquelas pedras cujas formas derivam
XVIII – para Uaupés, o rio dos de soldados para recrutar os das transformações de seu ancestral
índios. A designação “Uaupés” ou índios para uma guerra contra os mítico, os Tukano apontaram,
“Boupés” era, com efeito, ao longo espanhóis. A Cachoeira de Iauaretê ao longo do processo e das várias
do século XIX, estendida a todos os é assim deixada sob a guarda dos conversas ocorridas, que a forma
moradores desse rio. cunhados Tariano, cuja história de pelo menos uma das pedras da
Muitas narrativas identificam subseqüente vai se desenrolar cachoeira resultava da passagem por
guerras passadas, ocorridas entre conforme já apresentado. Portanto, ali da cobra-canoa dos ancestrais
os Tariano e os Wanano e Arara. ao chegar à Iauaretê, os Tariano da gente de transformação, a pamîri-
Mas quanto às relações estabelecidas não encontraram exatamente yukese, a cobra de transformação.
com os Tukano, não há menções uma terra vazia. E se ali foram
a guerras. Costuma-se comentar capazes de identificar as formações
que os Tariano e os Tukano jamais rochosas apropriadas às suas
entraram em conflitos abertos. armadilhas de pesca, resultantes
Pode-se deduzir, portanto, que, das transformações e da devoração
ao lado de possíveis relações de Ohkômi pelas onças, os Tukano,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 71

a o lado até h oje g u a r da d o s . o b je to s , b e m c om o


vista da cachoeira de E les c o nt a m q u e e s s e s t om a r em p r e s t a d o um
iauaretê, 2005. ador n o s fo r am t r a zi d o s c o nj u nto d e c o l a r e s d e
F ot o: Ana git a. por s e u s a nc e s t r ais n a c onch a s e de c ri s t a l de
viag em da co b r a - c a n o a . q u a rtz o p a r a u s o p o r
a ba ix o Não fo r am l e va d o s u m O y é P orã qu e i ri a s e
A dornos dos pr i ncipai s pelo s mi s s i o ná rio s p o r fo rm a r n o c o l é gio d e
c lãs tu kano. Em 2001, hav e r e m p e r m a n ecid o Ia u a retê .
a l guns h omens do c lã sob a gu a r da d o Fot o: B et o Rica rdo.
O yé P orã res i den tes c lã W is e mi - K u is e r e ,
e m Iauare tê vis it aram res id e n t e n o l a d o
a co mun i dade de c olo m bi a n o da
Pi ra cuara, s it uada na fron tei r a . O o b j etivo
mar g em c olo m b iana do da vi a g em f oi o de
r i o P apuri , onde es tes e fe t u a r um r e gist r o
o b j etos encon tra m -se fotográfico d o s

A viagem da
cobra-canoa:
Narrativa
Tukano

Ao relato fornecido pelos os Rios Amazonas, Negro e Uaupés, objeto de extensas narrativas,
Tariano a respeito de sua origem, trazendo em seu ventre os ancestrais cujos detalhes são impossíveis de
articula-se o dos Tukano e o dos da gente de transformação até a relato. Cabe notar, entretanto, que
demais grupos considerados gente Cachoeira de Ipanoré, localizada muitos dos motivos da narrativa
de transformação. Na visão deles, o no médio curso do Uaupés. Foi tariano estão presentes nos relatos
povoamento do Rio Uaupés se deu aí que seus ancestrais haveriam dos grupos de língua tukano,
com a viagem da cobra-canoa dos saído à terra através de um buraco em particular todo o conjunto
ancestrais, que, partindo do Lago existente em uma de suas lajes. A de objetos que lá aparecem
de Leite – identificado atualmente partir de então, separaram-se e como propriedade exclusiva de
pelos índios como a Baía da foram, cada um, buscar seu próprio Trovão. Tratam-se de adornos
Guanabara no Rio de Janeiro –, lugar à montante. A longa jornada e instrumentos imprescindíveis
percorreu a costa brasileira e subiu desde o Lago de Leite é igualmente para dar curso às transformações
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 72

c ai n p a a ( l age d o
peri qu ito), 2 008.
Fot o: vinc ent c a rel l i .

a um parto (C. Hugh-Jones,


1979; S. Hugh-Jones, 1979; G.
Reichel-Dolmatoff, 1971). É por
isso também que os instrumentos
que permitem a emergência e o
crescimento da chamada gente
de transformação são concebidos
como marié katisehe wa´î o´ari, “nossos
ossos de peixe de vida”, ou mais
corriqueiramente, “instrumentos
de vida e transformação”.
Mas aqui interessa, sobretudo,
ressaltar o aspecto, por assim dizer,
que levam ao aparecimento da processo, os grupos tukano obtêm geográfico dessa saga. Nos relatos
humanidade e seu crescimento, e seus nomes, que correspondem às míticos fornecidos pelos Tukano,
que, no caso dos grupos tukano, almas principais das pessoas, e que Desana, Pira-Tapuia e outros, as
são diretamente entregues pelas vêm sendo transmitidos desde então casas de transformação por onde
divindades a demiurgos ancestrais. às gerações atuais. Esse é o motivo passou a cobra-canoa totalizam
Ao longo do trajeto percorrido pelo qual a etnografia da região é mais de uma centena. E é somente
pela cobra-canoa, os ancestrais unânime em associar essa viagem da acima da Cachoeira de Ipanoré que
dos grupos tukano fazem inúmeras proto-humanidade a uma gestação, os diferentes grupos conduzidos
paradas nas casas subaquáticas da o que leva a um paralelo entre encontrariam seus respectivos
gente-peixe, locais onde, ao obter sua separação definitiva da gente- territórios. Ainda que nenhum
novos instrumentos, fazem crescer peixe através da passagem pelo deles tenha, então, se fixado em
seus respectivos grupos. Nesse buraco da Cachoeira de Ipanoré Iauaretê, o lugar corresponde,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 73

mapa 6
m ovimen to s ta ria no
( a marelo ) e tu kan o
( a zul) e m d ireção
à i auare tê , desde
U apui -Ca ch oe ira e
I p anoré-Ca ch oe i ra
r e sp ectivamen te.

também, a uma parada da cobra-


canoa: a pedra onde a canoa
encostou é conhecida pelo nome
de cain-paa, laje do periquito.
Nessa pedra, pode-se observar uma
enorme reentrância produzida pela
grande canoa que ali encostou –
pois, como se diz em geral, nesse
tempo as pedras eram moles.
Conta-se que a cobra-canoa seguiu
pelo Rio Uaupés após conseguir
abrir um canal de passagem através
da Cachoeira de Iauaretê, e que só
afundou, definitivamente, em um estabeleceram-se no igarapé Turi, onde se tornaram definitivamente
ponto situado mais à montante. afluente no Baixo Rio Papuri (cuja humanos. Ali viveram por muito
O fato de ter percorrido toda foz localiza-se no Uaupés à altura tempo e cresceram casando-se com
a extensão do Uaupés e, assim, de Iauaretê). Foi ali que Doétihiro, mulheres de outros grupos. Eles
permitido que os vários grupos que seu líder e ancestral, fixou moradia são capazes de listar um extenso
formavam a gente de transformação para sempre na serra da Garça, conjunto de nomes de lugares
encontrassem seus lugares, atesta na verdade uma casa invisível aos nas cabeceiras desse igarapé,
que esse é o verdadeiro “rio de humanos de hoje – “está lá até onde seus vários clãs viveram no
leite”, apropriado para a fixação e hoje sentado em sua casa”, tal passado. O igarapé Turi é, assim,
crescimento dos grupos conduzidos como ocorre com os ancestrais descrito como ponto de partida
no bojo da cobra-canoa. tariano. Ali, como dizem, é a de um processo de dispersão de
Os Tukano propriamente dito “verdadeira terra dos Tukano”, longo alcance, pois dali os Tukano
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 74

ocuparam várias localidades nos ali, e sob sua guarda haveriam serra do Jurupari, distante alguns
Rios Papuri, Tiquié e Uaupés. Mas deixado, antes de readentrar o quilômetros da margem direita do
um detalhe importante que fazem Papuri, a Cachoeira de Iauaretê. Uaupés –, haveriam recebido a filha
questão de frisar é que, ao sair do Os Tariano e Tukano tornaram- recém-iniciada do chefe Tukano –
Turi, viveram por muito tempo se cunhados precisamente em cuja maloca situava-se à montante,
em Iauaretê, de onde se retiraram Iauaretê, a partir de um primeiro onde hoje é território colombiano,
somente quando os brancos casamento entre dois jovens filhos ou seja, encontrava-se separada
começaram a chegar para “pedir dos chefes de cada um dos grupos. da maloca tariano pelas águas do
gente”, como já foi apontado. Eram Quanto a isso, parece haver um Rio Papuri. Tratava-se de uma
militares, que vinham do Rio Negro amplo consenso. Já a respeito proposta de aliança a ser selada com
arregimentando trabalhadores de quem ofereceu a mulher para o casamento dessa moça com o filho
para a construção do forte de essa união, há diferentes versões. de Koivathe, chefe de vários clãs
São Gabriel da Cachoeira. Aqui Os Tukano alegam que foram Tariano que os haveria conduzido
é possível sugerir uma datação, negociar a esposa junto aos Tariano do Içana ao Uaupés.
pois a construção desse forte pelos quando estes ainda viviam no Rio Ao longo do processo de
portugueses se deu na segunda Içana, e que só mais tarde, uma documentação da Cachoeira de
metade do século XVIII. É o que vez estabelecida a aliança entre Iauaretê, estas questões foram
relatam os Tukano, que, bem mais os grupos, o chefe dos Tariano suscitadas em diferentes contextos
recentemente, em busca de escola, haveria liderado vários grupos em e discussões. Além dos Tariano do
saúde, mercadorias e dinheiro, seu deslocamento ao Uaupés a fim clã Koivathe, autores da proposta
voltaram a se fixar em Iauaretê, de passar a viver junto aos novos dirigida ao Iphan e protagonistas
onde sua população atual soma mais cunhados. Já os Tariano alegam na geração do material audiovisual
de 600 pessoas. Contam ainda os o contrário, afirmando que, uma correspondente, uma outra
Tukano que, ao deixarem Iauaretê, vez já bem estabelecidos em sua organização local que se envolveu
os Tariano já se encontravam por primeira maloca de Iauaretê – na diretamente no assunto foi a
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 75

m a l oca da c e rcii
(c ent ro de es t u dos
e revit a l i z a ç ã o da
c u lt u r a in d í g e n a d e
ia u a r etê) c o m pint u r a s
d e s e r e s c ria d o r e s d o
t em p o p r im o r d ia l n o s
es t ei os , 2 008.
Fot o: vinc ent c a rel l i .
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 76

m a l oc a da c ercii, 2 008.
Fot o: vinc ent c a rel l i .

iniciou uma série de encontros


reunindo especialistas em histórias
e encantações, especialmente
aqueles homens reputados kumu,
“pajés”. Porém, a dificuldade em
convencer os “pajés verdadeiros”
a participar de encontros públicos
e falar sobre seus conhecimentos,
acabou transformando os dois ou
três encontros realizados ao longo
da primeira fase de existência
da organização numa espécie de
apresentação geral das narrativas de
CERCII (Centro de Estudos e dedicando a elaborar um volume origem das etnias do Uaupés, bem
Revitalização da Cultura Indígena de histórias tariano para a Coleção como de explanações a respeito dos
de Iauaretê). Essa organização foi Narradores Indígenas do Rio antigos ornamentos e instrumentos
criada em 1999 por iniciativa da Negro com seu pai (ver Barbosa & sagrados e encantações, em sua
própria FOIRN, cujo presidente Garcia, 2000, elaborado com o maior parte, fornecidas pelos
à época, um tariano de Iauaretê, apoio da antropóloga Dominique próprios membros da diretoria
avaliava que o contexto dali Buchillet). A tarefa de criar essa da CERCII. Parte dos relatos
colocava a necessidade de se criar nova organização ficou a cargo de apresentados nos encontros
uma associação específica que se um grupo de homens Tukano, organizados pela CERCII
incumbisse da revitalização cultural Arapasso e Desana, todos eles foi reunida em uma pequena
entre os grupos que convivem no com mais de sessenta anos. A publicação, editada pela Associação
povoado – ele próprio vinha se partir de 1999, essa organização Saúde Sem Limites e coordenada
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 77

a v ó do u nivers o ( y e’ pa
m a s ó) pi nt a da no es t ei o
da m a l oc a da ce rcii,
2 008.
Fot o: vinc ent c a rel l i .

pelo antropólogo Renato Athias malocas, portanto, ressurgiram a exibição recíproca de cantos e
(ver Carvalho et al, 2004). em Iauaretê entre o final de 2005 danças, mas agora também tentar
Os dois principais animadores e o início de 2006: a dos Tariano fazer despertar o interesse da
da CERCII são dois irmãos Koivathe foi inaugurada em 15 juventude pelos conhecimentos dos
pertencentes ao importante clã de novembro de 2005 e a da antigos, são os principais objetivos
tukano Oyé-porã, originário CERCII, tendo à frente os dois dessas malocas. A CERCII, como
do Rio Papuri, mas cuja grande tukano Oyé-Porã, no dia 19 de uma organização mais formalizada
maioria dos integrantes reside hoje abril de 2006, dia do índio. Ao e com a ambição de envolver todas
em Iauaretê, tendo os homens contrário da primeira, localizada as etnias de Iauaretê, planejou
mais velhos desse clã já criado no mesmo lugar da antiga maloca desenvolver atividades em estreita
seus filhos nessa localidade. do tuxáua Leopoldino, essa segunda conexão com o Colégio São Miguel,
Sob sua responsabilidade, a constitui uma referência geral para a grande escola estadual que atende
CERCII conseguiu o apoio do os grupos indígenas de Iauaretê, a mais de mil alunos em Iauaretê.
PDPI (Projetos Demonstrativos não pertencendo a uma etnia ou clã Na festa de inauguração, a maloca
Indígenas, programa do Ministério específicos. Da festa de inauguração estava repleta de estudantes, que
do Meio Ambiente), graças ao qual, de cada uma delas, os dois grupos formavam a audiência principal
entre 2005 e 2006, paralelamente participaram intercambiando das palestras proferidas pelos
à mobilização dos Tariano Koivathe posições. Isto é, se ao inaugurar sua mais velhos. Esse tipo de atividade
para reerguer sua maloca do maloca os Tariano receberam os passava a contar como dia letivo
bairro de Santa Maria, planejou e Tukano para mostrar seus próprios a ser computado no calendário
executou o projeto de construção cantos e danças, o mesmo se passou escolar do Colégio São Miguel.
de uma segunda maloca em Iauaretê na inauguração da maloca da
(cf. Primeira seção, pg. 27). Esta CERCII, quando lá chegaram os
maloca foi erguida em um terreno Tariano para se apresentar.
do bairro da Aparecida. Duas Retomar antigas práticas, como
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 78

c ach o e ir a d e ia u a r etê,
2 005 .
Fot o: A na gita .

fases históricas mais recentes, mas uma zarabatana de quartzo. Isto é,


também com relação ao passado se a viagem realizada pelos ancestrais
longínquo tal qual elaborado dos grupos tukano se deu por uma
nas narrativas míticas. De modo via subaquática, os Tariano apontam
importante, os Tariano afirmam que seus ancestrais acompanharam o
Debates Locais e que, só após a aniquilação da mesmo percurso por uma via aérea,
Encaminhamentos gente-onça pelos Diroá, foi possível através da zarabatana de quartzo de
a viagem da cobra-canoa que Trovão – o mesmo objeto que antes
conduziu a gente de transformação permitiu a condução do princípio
desde o Lago de Leite ao Rio vital dos Diroá. Puderam, assim,
Uaupés. Em uma das versões dessa adentrar todas as casas da gente-
história, conta-se que, depois de peixe, adquirindo igualmente seus
matar as onças, os Diroá desceram instrumentos, antes de emergir à
Do que foi visto até aqui, pode- até o Lago de Leite para avisar terra na Cachoeira de Uapui, no Rio
se dizer que a peculiaridade da àquela gente que o caminho estava Aiari. Na seqüência desse extenso
Cachoeira de Iauaretê talvez seja a limpo. Ou seja, a viagem poderia itinerário, passam finalmente a
de ser uma localidade onde a relação ser iniciada, pois os tripulantes Iauaretê para ocupar vários sítios, e
entre grupos tukano e arwak que, da cobra-canoa já não correriam encontrar com os Tukano.
de maneira mais geral, marca toda o risco de serem devorados, tal Os Tukano, por sua vez,
a região do noroeste amazônico, como antes se passou com Ohkômi. não deixam de fornecer versões
pode ser observada e apreendida Os Tariano afirmam ainda que, específicas a respeito da própria
através das interpretações mútuas embora não tenham embarcado história dos Diroá e da aniquilação
que cada grupo oferece quanto às com a gente de transformação, seus da gente-onça. Além das versões
suas respectivas trajetórias. E isso ancestrais acompanharam todo o arwak já publicadas (Cornélio et
não se dá apenas com relação a percurso da cobra-canoa através de al, 1999; Tariano, 2002, baniwa
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 79

e tariano respectivamente), essa êxito no intento de exterminar seus – são aniquilados, aqueles cujos
história também faz parte de inimigos/afins, e, assim, criar as corpos serão o principal alimento
coletâneas de mitos desana e condições necessárias no mundo dos humanos – os peixes – ficam
tukano (Pãrõkumu & Kehíri,~ 1995; de então para que uma futura desde então marcados como presa
Fernandes & Fernandes, 1996; humanidade possa vir a surgir, potencial (Arhem, 1996). Não
Nahuri & Kumarõ, 2003; Galvão fixar-se e crescer no Rio Uaupés6. obstante, é no domínio dos peixes,
& Galvão, 2004). Tal como no caso Ao mesmo tempo em que a trama em suas casas subaquáticas, que a
arwak, nas versões tukano o tema do mito culmina na aniquilação humanidade vai adquirir os meios
central se refere ao potencial de das onças, em sua abertura o necessários para emergir e crescer
hostilidade embutido nas relações herói, a partir de transformações na forma de grupos diferenciados,
de afinidade, que, no mito, é o corporais (o Akomi tariano) tal como mostram narrativas míticas
que liga a personagem principal à ou de um laborioso percurso e históricas subseqüentes.
gente-onça e a praticamente todos de implantação de armadilhas Os Diroá, e tudo a que vieram
os demais seres daquele tempo invisíveis nas cachoeiras dos Rios a dar existência – em particular,
primordial qualificados, tanto Uaupés e Papuri (o Deyubari várias espécies de peixes pequenos
pelos Tariano como pelos Tukano, desana), deixa inscrito na ordem e perigosos, com os quais vão fazer
como gente-pedra (na língua das coisas qual será o alimento dabucuri para a gente-onça – e
tariano, hipada-nauiki, na língua principal da futura humanidade: fazer desaparecer – a própria gente-
tukano, i’tá-masa). A principal peixes, que serão capturados na onça – aparecem, assim, em relatos
característica dessa personagem é Cachoeira de Iauaretê e em locais que podem ser coletados entre
a juventude, o que lhe atribui um próprios, nas pedras que desde vários grupos, todas eles tendo
caráter inconseqüente e vingativo, então se conformaram de maneira como epicentro a Cachoeira de
como também certo descontrole a permitir a construção das Iauaretê, onde invariavelmente é
sobre seus poderes xamânicos. É, armadilhas. Se aqueles para quem situada a casa das onças. O que, de
porém, tal caráter que lhe garante os humanos são comida – as onças fato, varia é o nome da personagem
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 80

e sua trajetória anterior, isto é, posteriormente a assumir, podendo a variar de acordo com a posição
o encaixe, por assim dizer, do ser expandido ou comprimido social e à experiência pessoal do
enredo da aniquilação da gente- no pensamento dos seres de narrador. Trata-se, porém, de uma
onça no contexto geral do mundo então. Essa imprecisão do mundo história da qual nenhum grupo
primordial da gente-pedra, em primordial reflete-se na natureza parece abrir mão.
alguns casos também chamada de seus habitantes, os quais, ainda Assim, os Diroá aparecem,
de gente do aparecimento (ver que descritos muitas vezes através em diferentes versões, como
Cabalzar, 2005:72). Mas, ao de características corporais, transformações daqueles seres
contrário dos acontecimentos que demonstram, por outras, uma incumbidos pelo Avô do Mundo
fazem parte do ciclo posterior existência puramente espiritual. (Trovão, Sol) de propiciar o
– a viagem/gestação da gente de Suas ações e pensamentos – que surgimento das atuais etnias
transformação na cobra-canoa ou correspondem às sentenças formais da região, bem como de certas
o trânsito pelo mesmo percurso que entremeiam os mitos de origem condições para sua existência
dos filhos do sangue do Trovão – são as encantações xamânicas de futura. Por vezes, eles são versões
(Tariano) através da zarabatana hoje, que se prestam à atribuição mais jovens, ou aspectos, de
de quartzo –, no qual por fim dos nomes, à alocação de proteções seres criadores, como no caso de
surgiram os grupos diferenciados invisíveis sobre as pessoas, à cura Butuiari-O’akihi, a versão jovem de
(Tukano, Tariano, Desana, de doenças e à despotencialização Ye´pâ-O’akihi, o demiurgo Tukano.
Pira-Tapuia etc.) –, nesse tempo do caráter maléfico e agressivo de Essa classe de seres é, com efeito,
primordial não há seqüência certos alimentos. É por tudo isso qualificada, na língua tukano,
fixa entre os acontecimentos, que a forma de narrar essa história como O’akihi, e nas línguas arwak,
o tempo não responde a uma pode variar significativamente: o como o tariano, como iaperikunai.
lógica linear e o espaço ainda antes e o depois, as personagens A tradução para os dois termos
não apresenta as qualidades com seus nomes e atributos e suas é a mesma: “do osso” – Iaperikuli
físicas de contigüidade que veio trajetórias, tudo isso está sujeito é, inclusive, o nome de um dos
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 81

h om ens t a ri a no
t oc a n d o a f l a uta
c a ris s u e m s u a m a l oca ,
2 008.
Fot o: V i nc ent c a rel l i .

irmãos em uma versão baniwa


(ver Cornélio et al 1999). Tal
qualificação é equivalente ao termo
Diroá, palavra da língua tukano
cuja tradução literal é “coágulo de
sangue”, ou “sangue materializado”.
Ou seja, como se vê, o termo Diroá
não se refere propriamente a um
nome – lembrando que os nomes
dos irmãos na versão tariano eram
Kuenaka, Kali e Kui. O termo refere-
se de fato à substância que preenche
a cavidade óssea, o tutano, que
possui exatamente o aspecto de nomes mencionados. dizer, portanto, que a Cachoeira
sangue materializado e atesta que, Essa discussão poderia ser de Iauaretê e alguns outros lugares
dentre a gente pedra do mundo aprofundada a partir do exame em suas imediações parecem
primordial, os assim chamados Diroá de outros mitos, que tematizam corresponder a um marco espacial
pertencem a uma classe particular a origem das flautas sagradas, que evoca as relações entre
de seres, justamente aqueles dos adornos cerimoniais e de cunhados, tal como foram vividas
envolvidos na emergência da futura como esses objetos se relacionam pelos Diroá e a gente-onça, e
humanidade. No caso tariano a uma teoria da concepção e à cujos atributos moldam em parte
especificamente, essa substância é menstruação. Mas tais detalhes as relações presentes entre os
a expressão material do princípio levariam ao afastamento demasiado diferentes grupos exogâmicos do
vital que os Diroá legam aos homens do foco deste trabalho. Uaupés. O lugar diria respeito,
através da transmissão dos três Voltando ao ponto, pode-se portanto, não apenas aos Tariano,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 82

mas também a todos os seus mais direta entre os Diroá e também contavam essa história,
cunhados atuais. O foco tariano os Desana, um dos grupos de mas de um modo diferente...”. É
na história dos Diroá levava pessoas língua tukano que supostamente comum, portanto, que as pessoas
pertencentes a outros grupos a guardaria tal conhecimento em tenham informações, por vezes
ponderar a respeito da identidade maior profundidade e que, até bastante detalhadas, das histórias
desses seres, de seus nomes e de hoje, seria o guardião dos cantos específicas de cada um dos grupos,
outros tantos episódios míticos que entoados pelos Diroá por ocasião e, ainda que certas versões ou
tratam de suas façanhas. O fato do dabucuri que ofereceram à ênfases entrem em contradição,
dessa história se passar no tempo gente-onça. Infelizmente, um a legitimidade de cada uma delas
da gente-pedra levava também a kumu desana de grande reputação não costuma ser explicitamente
interrogações quanto à sua relação em Iauaretê, participante contestada. Não obstante, a
com a definição dos territórios da articulação da CERCII, CERCII surgiu, nas palavras
dos diferentes grupos que viriam encontrava-se em sua comunidade de um de seus idealizadores,
a formar a futura humanidade. de origem no Rio Papuri por acalentando uma unificação dos
E um dado que reforçava a ocasião dessas discussões7. conhecimentos indígenas. Mas os
importância generalizada da Em geral, a existência de limites dessa empreita são colocados
história dos Diroá é que com eles várias versões ou de diferentes imediatamente: tal coisa, se
haveriam se originado os cantos interpretações de uma mesma realmente possível, seria concebível
do dabucuri, o ritual de troca história é um fato corriqueiro no somente para os acontecimentos
de dádivas entre grupos aliados, Uaupés, e de amplo conhecimento anteriores à passagem da
ligados por afinidade, e que se de todas as pessoas. Ao se tomar humanidade pelo buraco de
verifica entre todos os grupos conhecimento de uma versão transformação existente na
indígenas do Alto Rio Negro. não pertencente a seu grupo, Cachoeira de Ipanoré. Se até então
Isso levava alguns a conjeturar a as pessoas costumam fazer o todos eram o mesmo, gente-pedra
respeito de uma possível associação seguinte comentário: “Meus avós ou gente-peixe, a partir daí cada
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 83

grupo irá diferenciar-se, através evitar possíveis mal-entendidos. idealizadas para promover a
de uma língua e de outros itens Pois a CERCII consiste em uma reflexão coletiva sobre o tema. A
particulares, como diferentes tipos iniciativa proposta pela FOIRN coordenação da CERCII não cansa
de caapi (o enteógeno banisteriopis a um grupo de senhores de de insistir que as atividades da
caapi, usado pelos xamãs para ver Iauaretê reputados conhecedores organização referem-se aos aspectos
o mundo invisível aos homens da tradição, com a incumbência gerais da história de povoamento
comuns) e o estabelecimento de despertar o interesse por esse do Uaupés por todos os grupos que
de relações de afinidade e conhecimento nos estudantes hoje residem nesse rio. O que há
consangüinidade específicas (pois do grande colégio existente na de comum é, de fato, passível de
ali já estará definido quais grupos localidade. As atividades planejadas circular em um domínio público; já
serão futuramente cunhados ou possuem um caráter público e o conhecimento a respeito do que é
irmãos). Este episódio estabelece, mesmo aquelas com a participação particular se restringe às unidades e
portanto, as bases da futura exclusiva de alunos e professores sub-unidades desse extenso sistema
conformação do sistema social do são de amplo conhecimento social, isto é, aos grupos exogâmicos
Uaupés. O intento da CERCII, das famílias desses estudantes, e seus clãs componentes específicos.
no entanto, não é simples, pois, pertencentes a todas as etnias do Lidar com as particularidades
ainda que enfatizando o processo Distrito de Iauaretê. Ou seja, a não é realmente um assunto fácil,
de diferenciação que ocorre em ênfase naquilo que há de comum e uma associação voltada para a
Ipanoré, a multiplicidade dos entre as diversas formas de narrar o “revitalização da cultura indígena”,
modos de narrar as transformações percurso da cobra-canoa, com seus expressão que faz parte de seu
anteriores leva a questionar a inúmeros pontos de paradas e casas nome, deve cuidar de definir com
viabilidade desse plano. de transformação, corresponde, precisão seu âmbito de atuação8.
Aparentemente, a formulação no contexto de Iauaretê, à E o fato que se constatou
do papel da organização nesses formulação de um discurso público durante o processo de
termos evidencia um esforço para sobre a “cultura” e sobre as ações documentação para o registro
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 84

da bu c u ri NO BA IRRO
A pa reci da , 2 002 .
Fot o: pedro m a rtinel l i .

da Cachoeira de Iauaretê é que, cada grupo fez sua própria história, que terminaram por levar a uma
embora a iniciativa houvesse concentrando-se, aumentando ampliação da titularidade do
partido de um clã tariano ou se dispersando por várias possível registro da Cachoeira de
específico, a questão rapidamente localidades. A Cachoeira de Iauaretê. Lugar compartilhado
foi alçada a essa esfera de debates Iauaretê está a boa distância a no tempo humano, essa cachoeira
públicos, que vem se constituindo montante de Ipanoré, local de foi também o lugar em que, no
em Iauaretê. Ou seja, a questão onde partem as distintas trajetórias, tempo da gente-pedra, as relações
inevitavelmente politizou-se, de maneira que vários grupos de base que vieram a conformar o
envolvendo vários grupos locais e as por ali passaram em busca de extenso sistema social do noroeste
instituições externas encarregadas seus respectivos lugares. Mas é amazônico se revestiram de uma
de manter o processo em curso. A também um lugar onde, no tempo qualidade específica. Uma reunião
lição que a experiência da CERCII da gente-pedra, determinados entre alguns homens envolvidos no
estava a fornecer era a de que a acontecimentos marcaram a futura processo sacramentou essa decisão
patrimonialização de uma cachoeira ordem social do Uaupés – as e dirigiu uma nova solicitação
como bem cultural intangível relações entre os grupos de hoje ao Iphan. Agora, o pedido de
era assunto a ser tratado nessa promoveriam uma atualização da Registro deveria ser extensivo aos
igualmente nascente esfera pública, tensão que envolveu as relações de povos indígenas do Rio Uaupés,
na qual falar de cultura envolve afinidade entre os Diroá e a gente- conforme se pode constatar no
negociação política. onça. E os cuidados que devem documento de 22 de abril de
Há um acordo tácito que ser observados para lidar com essa 2005, enviado ao Iphan e em
funciona como relação política tensão no presente seriam, ainda seguida transcrito:
de base no Uaupés, e que se que em negativo, reafirmados
refere a um jogo entre unidade através do relato das hostilidades e
e diversidade, pois, apesar de da aniquilação da gente-onça.
compartilhar um mesmo mundo, São, portanto, dois os motivos
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 85

Iauaretê, 22 de abril de 2005 que são relevantes para os grupos em um prazo maior, tentar elaborar
pertencentes às famílias lingüísticas uma documentação mais completa
Dra. Ana Gita de Oliveira. Tukano e Maku. Portanto, visando ao registro da cachoeira de
DPI – Iphan seria importante acrescentar às Iauaretê no Livro dos Lugares como
Brasília, DF informações já prestadas pelos patrimônio cultural de todos os
Tariano, as histórias contadas pelos povos indígenas que ali residem.
Prezada Dra. Ana Gita, Tukano, Desana, Pira-Tapuia e Sendo o que havia para
outros referentes a Iauaretê. Assim informar, ficamos no aguardo de sua
Vimos por este retomar o diálogo como no caso dos Tariano, vários manifestação,
com o Iphan referente ao projeto episódios da história desses outros Atenciosamente,
“Lugares Sagrados Tariano”, iniciado grupos está igualmente inscrita nas
em novembro de 2004 através da pedras dessa cachoeira. Adriano de Jesus
parceria Iphan/ISA/FOIRN e que, até Dessa maneira, solicitamos Tariano Koivathe,
o presente momento, contou com a ao Iphan apoio para dar comunidade de Santa Maria
participação exclusiva dos Tariano do prosseguimento ao trabalho já
clã Koivathe, das comunidades de Sta. iniciado, procedendo ao registro Guilherme Maia
Maria e São Pedro, Distrito de Iauaretê. de outras narrativas que dão conta Tukano, Presidente da CERCII
Em reuniões e conversas recentes da história dos outros grupos e
sobre o projeto envolvendo pessoas complementam o trabalho realizado Laureano Maia
pertencentes às demais etnias de pelos Tariano. Tukano, Vice-presidente da
Iauaretê, chegamos à conclusão de Concretamente, isso significa CERCII
que o projeto deve ser reenfocado, dar continuidade ao registro dos
no sentido de considerar não apenas nomes e das histórias relacionadas Arlindo Maia
os lugares de importância cultural às várias pedras e lajes da cachoeira Tukano
dos Tariano, mas também aqueles de Iauaretê, com a perspectiva de,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 86

Os motivos comuns que quer dizer que cada parte envolvida lançando mão do relato que versa
apresentam as narrativas tariano e não defenda interesses próprios, sobre a viagem da cobra-canoa dos
tukano e o fato de se constituírem como bem o demonstra o debate ancestrais, intentaram mostrar
como comentários recíprocos suscitado com a possibilidade de que a Cachoeira de Iauaretê é uma
entre si demonstram claramente registro da Cachoeira de Iauaretê, localidade que se situa no extenso
que o mundo concebido por inicialmente pleiteado pelos percurso marcado por inúmeras
elas é o mesmo. Ou seja, se as Tariano e, em seguida, também casas de transformação, e que,
trocas matrimoniais entre os dois reivindicado pelos demais grupos. passando pelo centro desse mundo,
grupos formaram a base para uma O debate girou em torno da liga o Lago de Leite às cabeceiras
aliança política duradoura, suas questão referente à ocupação do Uaupés. Seja no ventre da
condições de possibilidade são ancestral da Cachoeira de Iauaretê. cobra-canoa ou no interior de uma
criadas não apenas pela circulação Os Tariano buscaram mostrar zarabatana de quartzo, tratou-se de
de mulheres, mas talvez, e, sua ligação, por meio dos Diroá, um percurso realizado por todos os
sobretudo, pela circulação de idéias a Ohkômi, aquele ser do tempo grupos de língua tukano ou arwak.
e conhecimentos. A política aqui primordial que deu origem às suas O debate sobre qual dos grupos
não se baseia, portanto, apenas pedras. Já os Tukano ponderaram indígenas primeiro habitou a
em circunstâncias conjunturais, essa afirmação, alegando que os região do Alto Rio Negro como
ou no cálculo das vantagens acontecimentos que ali se passaram, um todo mobiliza também muitos
e desvantagens, mas em um bem como suas conseqüências, pesquisadores que vêm trabalhando
minucioso trabalho simbólico, a vieram a influenciar decisivamente nessa região. Apesar da inclinação
partir do qual o sentido das relações a vida de todas as futuras gerações, de alguns em favor dos grupos de
é dado por meio dos esquemas pois os feitos daquela gente do língua tukano (Goldman, 1979;
conceituais pré-existentes, e, começo deram forma e qualidade Jackson, 1983), e de outros em
principalmente, através de suas a um mundo comum a todos os favor dos grupos de língua arwak
interpretações mútuas. O que não povos do Uaupés. Além disso, (Wright, 1992; Hill, 1996), os
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 87

termos locais desse debate, tal qual como patrimônio imaterial dos O parecer do antropólogo segue
emergiu nas conversas referentes povos do Alto Rio Negro. O transcrito abaixo. No capítulo
à Cachoeira de Iauaretê, parece interesse principal desse caso foi o seguinte, serão apresentadas as
indicar que essa questão pode de demonstrar que, nessa região, ações de salvaguarda que vêm sendo
ser insolúvel. Levando-se em não será possível eleger tal ou qual desenvolvidas desde o registro da
consideração critérios como grupo como titular primário desse Cachoeira de Iauaretê, ocorrido
a atribuição de significados patrimônio. Talvez mais do que no mês de agosto de 2006. Como
religiosos ao ambiente, a inscrição em outros lugares da região, essa se verá, um dos pontos principais
da história na paisagem através característica esteja representada em é a elaboração de uma cartografia
de mitos de origem, de sagas de Iauaretê, onde, como ocorreu no participativa referente a vários
deuses criadores ou as extensas passado longínquo entre os Diroá e outros lugares de importância
viagens e deslocamentos realizados a gente-onça, relações de aliança e mítica do Rio Uaupés. Trata-se de
por ancestrais – todos fatores afinidade unem dois dos principais uma atividade que, de fato, poderia
recentemente atribuídos aos povos grupos do Uaupés, os Tariano e ser estendida a toda extensão de
arwak (Hill & Santos-Granero, os Tukano. Por esse motivo, no todos os rios onde se localizam as
2002) –, não haverá como se parecer elaborado pelo antropólogo Terras Indígenas do Rio Negro.
decidir em favor de uns ou de Roque Laraia e dirigido ao
outros. Pois não é que tais fatores Conselho Deliberativo que decidiu
sejam apenas compartilhados pelo registro da Cachoeira de
pelos arwak e tukano: eles formam Iauaretê, a história contada pelos
a própria base sobre a qual suas Tariano aparece como o “mito
relações são entretecidas. de referência”, indicando que ela
A Cachoeira de Iauaretê é, assim, consiste em uma transformação de
apenas um entre vários outros histórias também narradas pelos
lugares que poderiam ser declarados demais grupos.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 88

PARECER ao longo do Rio Negro e de seus o apoio do Reitor da Universidade


afluentes. A área de atuação da Federal do Amazonas, professor
PROCESSO FOIRN compreende 11.000.000 Hidembergue Ordozgoith Frota;
01450.010743/2005-75 de hectares de terras demarcadas pela da professora Marilene Corrêa da
União, que têm a sua posse, e com o Silva Freitas, Secretária de Estado
A solicitação do registro da usufruto exclusivo de uma população de Ciência e Tecnologia; do Sr.
CACHOEIRA DE IAUARETÊ indígena de cerca de 30.000 pessoas. Robério dos Santos Pereira Braga,
como bem cultural imaterial no A população indígena do Alto Rio Secretário de Estado de Cultura;
Livro dos Lugares foi encaminhada Negro está dividida em três grande do Sr. Bonifácio José, Presidente
à Presidência do Iphan, através grupos lingüísticos: Tukano Orientais da Fundação Estadual de Política
da 1ª Superintendência Regional, (Tukano, Dessana, Piratapuia, Indigenista; bem como o Instituto
pela Federação das Organizações Tuyuka, Barasana, Kubeo, Uanano, Sócio Ambiental, que foi parceiro do
Indígenas do Rio Negro – FOIRN, Arapaço); Aruak (Baniwa, Tariano, Iphan na realização do Inventário.
em sete de fevereiro de 2005. Alegam Kuripako, Baré, Miriti-Tapuya, Em 30 de agosto de 2005, o
os requerentes que a Cachoeira é Warekena); além dos Maku, grupo Presidente do Iphan, Dr. Antônio
considerada sagrada por diversas lingüisticamente isolado. Augusto Arantes, encaminhou a
etnias indígenas que habitam os vales O mais importante centro urbano solicitação à Dra. Marcia Santana,
dos Rios Uaupés e Papuri, no Estado da região é São Gabriel da Cachoeira Diretora do Departamento de
da Amazonas, na região fronteiriça que abriga além da própria FOIRN, Patrimônio Imaterial que, por sua
com a Colômbia. o projeto SIVAM e uma força do vez, encaminhou o mesma à Gerência
A FOIRN é uma associação Exército, que se distribui pelo de Registro, em 31 de agosto de 2005.
indígena que congrega 60 associações território em Pelotões de Fronteira. Essa Gerência incorporou ao processo
locais, organizadas em 5 coordenações A solicitação da FOIRN está toda a documentação previamente
regionais, representando cerca de 750 referendada por representantes de 23 existente, que inclui os relatórios
comunidades indígenas distribuídas associações locais (fls.40) e conta com das viagens efetuadas em 2004 por
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 89

técnicos dos Iphan e do ISA, além permitiram identificar, esclarecer e conhecer historicamente pouco atendidas pela ação institucional,
do Roteiro Fotográfico dos Lugares vários elementos culturais, ambientais e políticos além de reconhecer e valorizar bens culturais
Sagrados Tariano. que organizam a construção daquela paisagem representativos de contextos culturais indígenas;
Em 13 de outubro de 2005, o cultural, bem como os processos históricos de
Departamento de Patrimônio Imaterial contato com a sociedade nacional responsáveis Por estarem esses povos empenhados na
comunicou às partes interessadas a pelas transformações nas relações sociais e culturais retomada e na revitalização das tradições e dos
abertura efetiva do processo de registro dos povos indígenas da região do Rio Uaupés. Os mecanismos que viabilizam sua transmissão aos
da Cachoeira de Iauaretê. resultados deste trabalho constam da instrução mais jovens;
Finalmente, em 5 de maio de 2005, do presente processo e permitem subsidiar e
Claudia Marina Vazques, da Gerência fundamentar a decisão quanto à pertinência do Por fim, pelo exposto e por tudo o mais que
de Registros, emitiu o seu parecer Registro deste bem cultural, atestando aspectos está demonstrado neste processo, somos de parecer
conclusivo, do qual tomamos a liberdade relevantes de sua ocorrência. favorável à inscrição da CACHOEIRA DE
de transcrever os últimos parágrafos: IAUARETÊ COMO LUGAR SAGRADO DOS
Assim: POVOS INDÍGENAS DOS RIOS UAUPÉS E
“As pesquisas realizadas para identificar e PAPURI no Livro de Registro dos Lugares”.
documentar a Cachoeira de Iauaretê como Lugar Por ser emblemático da mito-história de
Sagrado dos Povos Indígenas do Rio Uaupés origem e fixação das etnias que coabitam na região Em 12 de maio de 2006, o Sr.
foram conduzidas por antropólogos especializados do Iauaretê; Presidente do Iphan encaminhou
na região e por lideranças indígenas locais, o o processo a Dra. Teresa Beatriz de
que permitiu produzir, reunir e sistematizar um Por ser este Lugar Sagrado um dos elementos Rosa Miguel, Procuradora Jurídica.
conjunto de conhecimentos sobre este bem cultural. referenciais na construção da identidade cultural Em 9 de junho, foi publicado
Estudos históricos, arqueológicos, etnográficos desses povos; no Diário Oficial da União o Aviso
e cartográficos descritos em vasta bibliografia, referente ao registro do bem cultural,
documentação fotográfica e videográfica, além Por atender às diretrizes da Política Nacional de na forma e para os fins dispostos no
do trabalho de campo, foram referenciados e Patrimônio Cultural Imaterial, priorizando regiões parágrafo 5º do art. 3º do Decreto nº
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 90

3551, de 4 de agosto de 2002. da confluência dos Rios Uaupés abrangendo criações sucessivas
Em 3 de julho de 2006, a Sra. e Papiri têm sido, há séculos, realizadas por Ennu, o Trovão, “o
Procuradora Jurídica do Iphan objeto de admiração por parte dos único ser que existia quando tudo era
encaminhou ao Sr. Presidente habitantes da região. A Cachoeira nada”. Devido a esta complexidade
do Órgão que considera estar foi assim incorporada como um nos limitaremos a realizar uma síntese
o processo em condições de ser espaço importante, sagrado, em seus do mito, resumindo-o apenas ao
submetido ao Conselho Consultivo universos mitológicos. episódio de Ohkômi, ita-masa (gente de
do Patrimônio Cultural, na forma Não é um caso único, pois é pedra) criado por Ennu para viver
do disposto no parágrafo 4º do comum que acidentes naturais na região da cachoeira e ali tornar
artigo 3º do Decreto 3551/00. ocupem um importante espaço no possível a criação da humanidade.
Em 21 de julho de 2006, o Sr. campo mitológico. As cachoeiras Ohkômi encontrou a oposição de
Presidente do Iphan encaminhou o surgem como um ponto referencial outros ita-masa, que os Tariano
processo a este Conselheiro. Assim em outros mitos indígenas brasileiros. chamam de gente-onça e foi por eles
sendo, passo a seguir ao meu Parecer: Por exemplo, a cachoeira de Morená torturado até a morte.
Um lugar somente pode ser é considerada sagrada pelos índios O seu sacrifício e a resistência que
considerado como passível de do Alto Xingu, que acreditam que ofereceu aos ataques foi responsável
registro como Patrimônio Cultural ali foi o local que Mawatnin criou o pelo aparecimento de diferentes
Imaterial quando uma população povo xinguano. Por isto, ela é hoje elementos naturais que compõem a
lhe atribui importantes significados um local sagrado destinado ao retiro paisagem local.
culturais vinculados à sua história, espiritual dos que pretendem se “Ele foi amarrado e jogado várias
à sua mitologia e a sua própria tornarem xamãs. vezes na beira do rio, e, assim, foi
identidade cultural. Este é o caso da O mito Tariano, que o dossiê transformado no peixe kupeice [wai
Cachoeira de Iauaretê. elegeu como mito de referência para seni]. Existe uma pedra na frente
O deslumbrante e ruidoso os povos do Alto Rio Negro, trata-se do hospital de Yauaretê, que surgiu
confronto entre as pedras e águas de uma narrativa muito complexa, quando fizeram isto com ele; no lugar
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 91

em que caiu, apareceu um pequeno nada poderia restar de seu corpo. Considerando a imensa
igarapé, que até hoje leva o nome “Yetoi, como os outros, disse que estava variedade de mitos relacionados
desse peixe. Quando retomou a sua comendo tudo, mas na verdade a à Cachoeira; considerando –
aparência, foi arrastado um pouco sua intenção era de salvar nem que como foi sugerido pela Gerência
mais para cima, onde hoje existe a fosse um pequeno pedaço do corpo de Registros – a importância de
pedra do abacate, no porto da missão. de Ohkômi. Foi então que conseguiu priorizar as regiões historicamente
Essa pedra tem esse nome porque encontrar os três ossos de seu dedo pouco atendidas pela ação
ali, sendo novamente jogado, Ohkômi mínimo. Fingindo estar espantando institucional; considerando a
transformou-se em abacate. Voltando uma mosca em suas costas, aproveitou importância simbólica de abrir o
a sua aparência, foi arrastado até o para jogar os ossos para cima. E assim, Livro dos Lugares com um espaço
lugar onde hoje é o porto da vila de o osso de Ohkômi chegou até a casa geográfico que recebeu atribuições
São Miguel. Ali foi transformado em de Ennu...”. culturais bem antes da formação do
um gavião...”. Resumindo, dos ossos do dedo nosso país; a nossa recomendação
E assim, por diante, Ohkômi foi mínimo de Ohkômi, Ennu fez todos a esse Egrégio Conselho é pelo
vitima de inúmeras transformações os povos do Alto Rio Negro. A registro da Cachoeira de Iauaretê
(anta, araçari, arara, aranha, kotó, cachoeira é sagrada porque ali Ohkômi como Patrimônio Cultural
jacaré), restando sempre uma pedra se sacrificou para que fosse possível Imaterial Brasileiro.
como uma testemunha muda de seu existir os homens.
sofrimento. “Depois foi levado pelo Não é possível no limite deste Brasília, 2 de agosto de 2006.
Rio Papuri até o paraná de sangue, Parecer expressar toda a riqueza
logo na entrada do rio, onde foi morto mitológica que envolve o sítio em Roque de Barros Laraia
e socado em um buraco de pedra.” referência. Para os indígenas do Alto CONSELHEIRO
Então as demais gentes de pedra Rio Negro, em cada uma daquelas
foram convidadas a vir para comer o pedras está escrito uma parte da
Ohkômi, com a recomendação de que história de suas origens.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 92
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 93

a o lado
c e r tifica do de registro
da ca choe i ra de
i a uaretê .

p an ôra mica daca ch oe ira


d e iau a retê , 20 0 8.
F o to :vincen t ca rell i.

a ba ix o
c ach oe i ra de i auare tê ,
2 0 0 8.
F o to :vincen t ca rell i.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 94

iniciativas de salvaguarda
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 95

p ági n a a o lado
g rupo tar i ano
q ue p articip ou
d os trabal hos de
d ocuen taçã o , 20 0 5
F ot o: Ana git a.

a ba ix o
b ote sen do a rrastado na
c ach oeira, 20 0 8.
F o to : vi ncen t care l l i.

O reconhecimento da Cachoeira
de Iauaretê como patrimônio
cultural brasileiro introduziu
– ALCTDI. O trabalho contou
também com o apoio da Prefeitura
de São Gabriel da Cachoeira,
os povos indígenas de Iauaretê por intermédio da Secretaria de
no contexto das políticas de Turismo, Cultura e Esporte, e da
preservação do patrimônio cultural. Administração Regional da FUNAI,
Como tema focal nas histórias de em São Gabriel da Cachoeira e
origem e de ocupação da região, os em Iauaretê. Da mesma forma,
lugares míticos vêm ultrapassando o instituições estaduais e federais
contexto local, expandindo-se pela como a Fundação Estadual de
região do Rio Negro. Outras etnias, Política Indígena – FEPI, a
habitantes de outros afluentes do Universidade Federal do Amazonas
Rio Negro, começam também a – UFAM, a Universidade Estadual
pensar em desenvolver registros de do Amazonas – UEA e as Secretarias do Rio Negro – FOIRN. Estas
suas respectivas trajetórias, tal como Estaduais de Cultura e Meio instâncias de representação,
o que foi realizado em Iauaretê. Ambiente apoiaram o registro da localizadas ao longo do Rio Negro
A instrução técnica do processo Cachoeira de Iauaretê. e de seus afluentes, constituem
de registro da Cachoeira de Iauaretê É importante mencionar que também redes importantes de
como lugar referencial dos povos há, na região, uma configuração de comunicação, por intermédio
indígenas de Iauaretê foi realizada representação política fortemente das quais a promoção e a difusão
em parceria com a FOIRN, com estruturada, expressa nas inúmeras das ações de salvaguarda poderão
o ISA e com associações indígenas associações locais que se organizam ser estimuladas. Contudo, há o
locais, tais como o CERCII e a em Coordenações Regionais, problema das grandes distâncias
Associação de Língua e Cultura todas vinculadas à Federação entre as comunidades, e entre estas
Tariano do Distrito de Iauaretê das Organizações Indígenas e São Gabriel da Cachoeira, centro
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 96

vis ita a o mu s e u d o í n d io
de m a na u s , 2 005 .
Fot o: vinc ent c a rel l i .

o investimento da administração
pública voltado à preservação de
bens culturais, articulando outras
políticas existentes no âmbito do
setor cultural.

***

Em se tratando de salvaguarda,
há que se mencionar inicialmente
que uma demanda apresentada
ao Iphan, desde o início do
processo, foi a solicitação de
urbano mais próximo, onde está bens registrados como patrimônio apoio à reconstrução da maloca
a sede da FOIRN. Assim, todos cultural brasileiro. Nesse sentido, Tariano-Koivathe, no mesmo
os deslocamentos são fluviais e e em razão da organização político- local onde setenta anos antes, por
realizados em barcos, tornando-se institucional indígena existente ação dos missionários salesianos,
necessário o apoio em combustível. na região do Alto Rio Negro, será havia sido derrubada a histórica
Mais recentemente, um acordo criado na FOIRN um pontão de maloca do tuxáua Leopoldino,
estabelecido entre a Secretaria cultura que permitirá estruturar de quem descende parte dos
de Programas e Projetos/MinC e várias ações de fomento, fazendo atuais moradores do bairro de
o Departamento do Patrimônio também convergir várias atividades Santa Maria, em Iauaretê. Em
Imaterial/Iphan possibilitou a previstas no plano de salvaguarda novembro de 2005, a nova maloca
criação de “pontos” e “pontões” da Cachoeira de Iauaretê. O foi inaugurada com grande festa,
de cultura pelo Iphan para os estabelecimento desse acordo amplia conforme documentação em vídeo
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 97

s eu pedro de j es u s
a n ot a n d o a nt e s d e
c ont a r, 2 005 .
Fot o: g era l do a ndrel lo .

sobre a Cachoeira de Iauaretê, que estavam presentes na primeira


produzida pela Associação Vídeo visita apontaram 108 peças que
nas Aldeias. deverão ser repatriadas. Todas
No mesmo período, dois tariano elas foram fichadas, fotografadas e
e um tukano realizaram uma visita embaladas em caixas separadas. No
ao Museu do Índio de Manaus, momento, o Iphan está negociando
mantido pelo Patronato Santa com a direção do Museu o termo
Teresinha, onde se acha depositada de entrega das peças. Há um
uma parte dos adornos cerimoniais acordo entre os Tariano e os
levados por missionários salesianos Tukano de que esses adornos
ao longo de décadas. A primeira deverão ser conservados na maloca
visita realizou-se em novembro da CERCII, de acordo com os
de 2005, quando se constatou métodos tradicionais. A CERCII
a existência de inúmeras peças será a guardiã desses ornamentos, regional sobre este caso específico.
guardadas na reserva técnica do cuja origem exata é hoje impossível As demais ações de salvaguarda
Museu. Seguiu-se uma série de precisar. Eles deverão ser promovidas pelo Iphan estão
entendimentos entre o Iphan e restaurados e disponibilizados aos sendo realizadas em parceria com
o Patronato Santa Terezinha, grupos do Rio Uaupés interessados o Instituto Socioambiental – ISA
culminando em uma carta de sua em conhecê-los, mas sua guarda e a Federação das Organizações
diretora, que, após consulta à sua permanente e conservação será Indígenas do Rio Negro –
central em Roma, aceitava devolver uma responsabilidade daquela FOIRN. Tais ações articulam-se
uma parte desses adornos aos índios organização. As fichas, as fotos e aos processos de revitalização
de Iauaretê. Uma nova visita ao a documentação em vídeo desse cultural em curso, bem como
Museu foi realizada em setembro de processo em curso serão objeto de às ocorrências de intervenções
2007, quando as mesmas pessoas uma futura publicação de circulação nas condições de preservação e
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 98

t a r i ano re cebendo os
a d o rnos cer im on i ais
t u y u ca para fes ta de
i na ugu r açã o de su a
m a l o ca , 20 0 5.
F o t o : geraldo a n dre l l o.

de transmissão dos valores que


dão significado à geografia das
Terras Indígenas da região, em
parte identificados no processo
de pesquisa para instrução do
processo de Registro (ver o caso
da Serra-Bem-Te-Vi, páginas
100 a 103).
Assim, as chamadas atividades
de revitalização cultural planejadas
pelas lideranças indígenas de
Iauaretê foram o fio condutor das
ações de apoio e fomento. Nesse
sentido, deu-se continuidade ao ser incorporadas no âmbito das futuramente, a experiência
processo de transcrição e tradução atividades previstas pelo Pontão de de documentação realizada na
da mitologia tariano, e iniciou- Cultura da FOIRN. Cachoeira de Iauaretê possa ser
se uma discussão com lideranças O trabalho de documentação replicada em outras localidades.
tukano de Iauaretê e a diretoria dos lugares míticos foi apontado De maneira complementar, deu-se
da FOIRN, visando à realização por vários grupos como uma continuidade à identificação dos
de um inventário arqueológico atividade que deveria ser expandida. lugares míticos dos Rio Uaupés
participativo no Igarapé Turi, Nessa linha, alguns jovens de e Papuri em bases cartográficas.
afluente do Rio Papuri e ponto Iauaretê estão sendo capacitados A construção dessa cartografia
de dispersão de todos os clãs por meio da parceria com a vem mobilizando os Tukano e
pertencentes a essas etnias. Essas Associação Vídeo nas Aldeias Tariano em Iauaretê, e tem sido
duas últimas atividades deverão em técnicas de vídeo, para que, especialmente importante entre
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 99

dança tar i ano


n a cer imô n i a de
i n au gu r açã o de su a
m a loca , 20 0 5.
F o to : geraldo a n dre l l o

p ági n a s 1 0 4 e 1 0 5
mapa 7 - iden tificação
p relimi nar ao lon go
d o al to r io uaupés e
r i o papur i , real i zada e m
o ficin a s de ca rto grafia
( 2 007) en v ol vendo
t aria n o e tuka n o.

os professores das escolas locais, trabalhos foram Kumada (Ilha de dados contendo as informações
já que há grande demanda por São João), Koiwate (Santa Maria), compiladas pelos grupos de
material didático apropriado para Pukurana (Itaiaçu), Wamiãlikuni~ trabalho. Foi elaborado um
o desenvolvimento do tema entre (Santa Rosa e Periquito) e pequeno Sistema de Informação
alunos do ensino fundamental. Iawialipe-Bayawali (Aracapá). Geográfica (SIG) que permitiu
Foram realizadas duas oficinas Participaram também clãs tukano elaborar novos mapas para revisão,
de cartografia em Iauaretê no ano e wanano. Nas oficinas, os com todas as informações sobre
de 2007, envolvendo uma ecóloga participantes plotaram sobre a base esse processo de reconhecimento
especialista em geoprocessamento cartográfica disponível mais de 230 dos lugares. Os mapas e o banco
(Renata A. Alves), duas pedagogas lugares, todos eles mencionados de dados associados permitirão
(Lucia Alberta Andrade e em diversas narrativas míticas, em breve a elaboração de materiais
Maíra Landulpho Alves Lopes), sejam aqueles ligados aos feitos didáticos para uso em todas as
professores indígenas das escolas dos ancestrais dos diversos grupos, escolas do Distrito de Iauaretê.
diferenciadas, anciãos e alunos. ou que se referem a cuidados O Mapa 7 (páginas 104 e 105)
Foram aproximadamente 100 relacionados ao manejo de recursos representa a fase atual de um
participantes, divididos em seis naturais e à saúde das pessoas. Os processo no qual os Tariano e os
grupos de trabalho, usando base trechos das narrativas que tratam Tukano estão relembrando seus
cartográfica de rios e comunidades, de cada um desses lugares foram lugares e histórias, e consolidando-
na escala 1:250 mil, e, no caso da registrados por escrito pelos grupos os cartograficamente.
Cachoeira de Iauaretê, uma base do de trabalho.
povoado na escala 1:3 mil. Foram produzidos oito mapas,
A formação desses grupos que posteriormente foram
considerou o local de origem scaneados, georeferenciados e
e os clãs dos participantes. Os finalmente plotados com os lugares,
clãs Tariano que apresentaram todos associados a um banco de
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 100

índios reivindicam e explosão de Estado brasileiro. Ao mesmo tempo Em visita a Iauaretê, em setembro
pedras sagradas é cancelada em que receberam do Instituto do passado, para informar a população
Notícia Socioambiental, publicada no sítio do ISA em
11/10/2006 [12:50].
Patrimônio Histórico e Artístico local sobre a aprovação do
(http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=2345)) Nacional (Iphan), ligado ao registro e discutir as ações a serem
Ministério da Cultura, o anúncio do empreendidas a partir de 2007 na
registro da “Cachoeira de Iauaretê” área, os técnicos do Iphan e do ISA
A Aeronáutica planejava implodir uma como patrimônio cultural imaterial souberam da preocupação corrente
formação rochosa considerada sagrada pelos povos brasileiro, tiveram a confirmação entre os moradores do povoado sobre
indígenas de Iauaretê, distrito de São Gabriel da de que a Aeronáutica, por meio o andamento das obras da Comara.
Cachoeira (AM), para executar a ampliação da da Comissão de Aeroportos da Planejava-se a implosão por dinamites
pista de pouso na localidade. Após mobilização de Amazônia (Comara), planejava da Serra do Bem-Te-Vi, um grande
lideranças indígenas, contudo, os planos militares dinamitar uma afloração rochosa de afloramento rochoso situado fora da
foram revistos e a obra deve ser feita sem ameaçar importância cultural equivalente. área delimitada para a Aeronáutica,
o patrimônio cultural indígena da região. e que seria transformado em pedra
Aprovado no começo de agosto pelo britada para o aumento planejado da
Iphan, o registro da Cachoeira de pista de pouso. O problema é que essa
Os índios que vivem em Iauaretê, Iauaretê marca um importante avanço serra é, do ponto de vista indígena,
uma quase-cidade formada por no processo de revitalização cultural a morada espiritual do ancestral
dez comunidades indígenas às promovido por lideranças indígenas dos principais clãs tariano, Kamewa
margens do alto Uaupés, na linha da região, que inclui também a Perisi, e boa parte da população
da fronteira Brasil-Colômbia, reconstrução de malocas, a retomada de Iauaretê estava apreensiva, pois
no Alto Rio Negro (AM), foram de práticas rituais nas comunidades e entendia que a implosão desse lugar
surpreendidos em setembro passado a implementação de escolas indígenas, traria ao povoado uma série de
por duas ações contraditórias do entre outras iniciativas. doenças, como febres e diarréias.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 101

Mediações de Iauaretê (Coidi), endereçaram de material de construção, de acordo


ao presidente do Iphan, Luís com vários moradores de Iauaretê,
Nessa mesma ocasião, o Iphan foi Fernando de Almeida, um ofício não chegou a ser suficientemente
informado por um oficial local da solicitando intervenção junto aos discutida com todos os grupos que
Comara de que qualquer alteração órgãos militares. A carta apontava se sentem diretamente afetados por
nos planos passaria agora por uma que a preservação da serra, o registro sua destruição. Apesar de seu súbito
decisão superior, envolvendo o das histórias a ela relacionadas e sua envolvimento na questão, o Iphan
comando da Aeronáutica e até o inclusão em um mapa mais amplo tratou de levar o caso ao Ministro da
Ministério da Defesa. Isso porque dos lugares de referência cultural dos Defesa, Waldir Pires que, por sua vez,
uma estrada de cerca de dois Tariano é, agora, parte das ações de notificou o comando da Aeronáutica
quilômetros até a serra já havia sido salvaguarda vinculadas ao registro da e a presidência da Comara a respeito
aberta. Acompanhados de alguns Cachoeira de Iauaretê. destes fatos.
professores tariano, os técnicos do
Iphan e do ISA percorreram a estrada O problema é que o registro da A reivindicação indígena surtiu efeito.
até a serra, tomando suas coordenadas Cachoeira de Iauaretê não possui No começo de outubro, a Comara
geográficas e constatando que o lugar um status legal equivalente ao de um anunciou o cancelamento imediato
ultrapassa em cerca de um quilômetro tombamento, e não abarca todos os das obras na Serra do Bem-Te-Vi.
a área negociada em 2004 entre a lugares sagrados tariano. A defesa de Afirmou também que avaliaria outras
Comara e os índios de Iauaretê. sua integridade passaria, assim, pelo opções para finalizar a obra e que
Com essas informações, alguns fato de que se trata de um lugar de ações alternativas passariam a ser
professores tariano, apoiados relevância cultural situado no interior negociadas com as comunidades de
pelos técnicos do ISA e do Iphan e de uma área indígena homologada Iauaretê e com o acompanhamento
respaldados pela Coordenação das por decreto presidencial. Além do do Iphan e da Coidi. É muito
Organizações Indígenas do Distrito mais, sua utilização para a produção provável que a produção de material
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 102

de construção da pista venha a afetar Essa argumentação merece O povo e as origens de Iauaretê
algumas comunidades, para as quais um comentário final: sendo o
deverão ser oferecidas compensações valor total da obra de quase R$ O povoado de Iauaretê está
ou benfeitorias. 30 milhões, quanto custaria situado no município de São
implantar um sistema básico Gabriel da Cachoeira (AM), fica
de saneamento para os cerca de dentro da Terra Indígena Alto Rio
E o saneamento básico? 3.000 moradores de Iauaretê? Negro, no extremo da Amazônia
Talvez investir nesse serviço básico brasileira. A localidade é o ponto
É importante lembrar que quando a fosse uma medida justa, já que onde o rio Uaupés adentra o
Aeronáutica chegou a Iauaretê, em nessa pequena cidade que está a território brasileiro, após percorrer
setembro de 2004, para negociar se formar na fronteira do Brasil uma extensa zona desde suas
espaço para a ampliação da pista e com a Colômbia seus moradores nascentes na Colômbia e delimitar
implantação de um radar do Sistema indígenas concordaram em por largo trecho a fronteira entre
de Vigilância da Amazônia (SIVAM) ceder uma enorme área existente os dois países. Seu nome, como
no local, informou aos índios bem ao lado de suas casas em o de várias outras partes dessa
que “uma cidade com capacidade prol da “segurança nacional”. região de fronteira, é definido
de receber aeronaves de médio A implantação do sistema de nas inúmeras narrativas míticas
e grande porte tem muito mais saneamento seria, afinal, o até hoje guardadas pela memória
chances de se desenvolver”. Com o desenvolvimento chegando social dos povos indígenas da área.
aumento da pista, diziam ainda os de fato, junto com as grandes Iauaretê é a cachoeira das onças,
oficiais presentes, “Iauaretê poderá aeronaves e radares. local onde em um passado remoto
participar muito mais ativamente do viveu uma gente-onça, propensa
desenvolvimento da Amazônia”. ISA, Geraldo Andrello. à guerra e ao canibalismo, e cujo
extermínio coube aos irmãos
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 103

Diroá, personagens-deuses dos seus internatos receberam centenas Atendendo à solicitação dessas
mitos indígenas, que legariam aos de alunos indígenas. No final dos lideranças, o Iphan desenvolveu
homens de hoje vários rituais e anos 1980, foram construídos em entre 2004 e 2005 extenso
conhecimentos xamânicos. Iauaretê um pelotão do Exército e trabalho de documentação da
Iauaretê foi também uma uma pista de pouso, no âmbito de cachoeira, produzindo um dossiê
povoação de grande importância um programa de defesa e colonização sobre os significados culturais do
durante a história mais recente da fronteira norte-amazônica, o lugar e de seus diversos acidentes
de colonização da região. Situada chamado Projeto Calha Norte. A geográficos – rochas, pedrais,
no ponto de confluência dos rios população local hoje é de cerca de canais e ilhas que cristalizam
Uaupés e Papuri, sub-regiões 3000 pessoas e o aspecto do lugar é o os feitos dos seres criadores do
densamente povoadas pelos índios de uma pequena cidade, com energia começo dos tempos. Em agosto de
Tariano, Tukano, Pira-Tapuia, elétrica, telefonia, televisão, colégios 2006, o Conselho Consultivo do
Wanano, Arapasso, Tuyuka e e comércio. órgão federal aprovou o pedido
outros, serviu como ponto de Essas mudanças no cenário e o de registro, baseando-se na
referência para inúmeros viajantes novo estilo de vida que os índios documentação técnica produzida
que percorreram a área desde passaram a adotar é o motivo por técnicos do órgão e do ISA.
o final do século XVIII, para pelo qual, em 2004, algumas das A Cachoeira de Iauaretê é, agora,
seringueiros e comerciantes que lideranças locais solicitaram ao o primeiro bem cultural que
exploravam a mão-de-obra indígena Iphan o registro da Cachoeira de figura do recém-aberto Livro dos
e, finalmente, como base para os Iauaretê como patrimônio imaterial Lugares, ato de reconhecimento
missionários salesianos que em 1930 no Livro de Lugares, no contexto pelo Estado que implica no
implantaram ali uma grande missão do Decreto 3551/2000 (que dispõe desenvolvimento de outras ações de
dedicada à catequese dos índios. Em sobre o registro e cria o Programa salvaguarda visando à conservação
cinco décadas de funcionamento, Nacional de Patrimônio Imaterial). desse patrimônio cultural.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 104
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 105

ve r mapa 5
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 106

números de iauaretê
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 107

p ági n a a o lado
m a loca Ta ria n o, 2005.
f o to : Vincen t CARELLI.

A partir da Tabela 1 (página


111), constata-se que até o
final da década de 70, o povoado
1988. Essa é a única comunidade
atual de Iauaretê que mantém
um perfil étnico tradicional,
moradores dessas comunidades
foram estimulados pelos padres a
se aproximar ainda mais do novo
de Iauaretê era composto pelas composta quase exclusivamente por núcleo missionário, a abandonar
comunidades de Santa Maria, famílias Tariano. As outras três suas malocas e a construir pequenas
São Miguel, Dom Bosco e São comunidades vieram a ser formar casas familiares enfileiradas. Essas
Domingos Sávio. Elas derivam em áreas adjacentes à Missão. A cinco primeiras comunidades
das cinco malocas Tariano que os comunidade de São Miguel foi formam os bairros considerados
salesianos encontraram em Iauaretê a primeira que apareceu, já em “tradicionais” de Iauaretê.
por ocasião da fundação da Missão. 1930, com famílias de um único De acordo com a tabela, no
Santa Maria, a maior delas, grupo local Tariano. Dom Bosco ano de 1982 surge uma nova
localiza-se na margem oposta à e Domingos Sávio formaram-se comunidade em Iauareté, Fátima.
Missão, constituindo o núcleo em seguida, a primeira resultando Essa comunidade, até hoje a
Tariano original de Iauaretê. Sua da agregação de grupos locais que menor do povoado, é formada
instituição resultou da agregação se localizavam antes em território exclusivamente por grupos Maku-
em uma mesma comunidade colombiano a outros que já Hupda, que, há cerca de 25 anos,
dos antigos moradores de duas estavam no local. A comunidade começaram a se fixar em uma área
malocas ali já estabelecidas antes de Domingos Sávio sempre foi cedida pela comunidade de Santa
da chegada dos padres. Com a a menor entre as comunidades Maria. A fixação desses Hupda,
chegada de novos moradores nos mais antigas de Iauaretê, tendo se caçadores-coletores semi-móveis,
anos 80, os membros de um desses originado com o deslocamento deu-se por intermédio do Posto da
grupos decidiram re-introduzir de uma família pertencente a um FUNAI e de uma freira salesiana
a divisão original. Daí surgiu a grupo local Tariano do Baixo por vota de 1975. São originários
comunidade de São Pedro, que Rio Papuri para Iauaretê há da região do igarapé Abacate,
já consta como tal nos dados de cerca de 60 anos. Os primeiros a cerca de cinco quilômetros
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 108

em direção sudeste de Iauaretê. quais prestam serviço em troca coleta de certos frutos da floresta,
Apontam que seu interesse em de roupas e ferramentas usadas. costumam passar muitas semanas
obter uma área de moradia O aspecto de sua comunidade se na mata.
permanente no povoado se devia ao diferencia radicalmente do padrão Ao mesmo tempo em que os
interesse em matricular as crianças observados em todas as outras, Hupda fixavam uma comunidade
na escola e obter maior assistência pois ela não conta com um salão em Iauaretê, outras famílias
do Posto Indígena de Iauaretê. comunitário ou capela, tampouco indígenas dos Rios Uaupés e Papuri
Esses Hupda mantêm certa realiza festas constantes de caxiri. faziam o mesmo. Se tomarmos
distância das outras comunidades Por informações de professores da os dados disponíveis para 1975 e
de Iauaretê, relacionando-se escola de Santa Maria, a freqüência 1988 compilados pela (ou para
mais diretamente com algumas de suas crianças à escola é bastante a) FUNAI (Levantamentos 1975,
famílias de Santa Maria, para as variável, pois, nas épocas de 1988b e 1988c), verificamos que
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 109

p ági n a a o lado
f la u ta s carissu, 2008.
F o to : Vincen t care l l i.

a ba ix o
ARTESÃ I NDÍG ENA TECENDO
C OM F I BRA DE TUCUM, 2001.
F o to : BETO RI CARDO.

as comunidades tradicionais de famílias de um grupo local Tariano


Iauaretê cresceram nesse período antes estabelecido em Seringa-
a uma proporção média de cerca Ponta, localidade do Rio Uaupés
de 60%. De acordo com Ana Gita um pouco acima de Iauaretê. Nesse
de Oliveira, por ocasião de seu mesmo terreno viria a se estabelecer
trabalho de campo na comunidade um grupo Pira-tapuia, oriundo da
de Santa Maria no ano de 1979, comunidade de São Paulo, no Baixo
este crescimento populacional das Rio Papuri. Este foi o embrião do
comunidades de Iauaretê se dava atual bairro de Aparecida, o maior
pela aceitação de novos moradores de Iauaretê. As famílias que foram
pertencentes a outras etnias que se estabelecendo ali, oriundas
mantinham relações de afinidade principalmente de comunidades
com os Tariano ali residentes do Uaupés localizadas acima de
(Emperaire, 1999). Iauaretê, vieram negociando espaço
Mas, paralelamente ao para moradia permanente com
crescimento das comunidades esses primeiros moradores, que
tradicionais, outras famílias em fins da década de 70 consistiam
começaram a se estabelecer em em quatro grupos domésticos,
áreas próximas à Missão que, até um Pira-tapuia e três Tariano.
então, não estavam sendo ocupadas Ao mesmo tempo, em um espaço
pelas comunidades tradicionais. lateral à Missão, orientado à jusante
Um extenso terreno localizado do Rio Uaupés, grupos Tariano do
atrás das construções da Missão e baixo Papuri e do Uaupés abaixo
orientado para o montante do Rio de Iauaretê começaram a se fixar,
Uaupés começou a ser ocupado por obtendo para isso autorização
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 110

A d o rnos dos pr i ncipai s


c lã s tuka n o, 20 0 1 .
F O TO : BE TO RICARDO ,

Assim, em dois dos as agências do Correio, CEAM


levantamentos de 1988 (1988b (gerador de energia), Infraero (que
e 1988c), o povoado de Iauaretê veio recentemente substituir uma
é o composto por oito bairros: firma contratada pela Comara),
além das cinco comunidades Hospital, casa da Prefeitura e
tradicionais, aparece a comunidade casa das Organizações Indígenas.
Hupda de Fátima e as duas novas Os bairros mais afastados, ou
comunidades de Aparecida localizados na margem oposta
e Cruzeiro, nas quais, a essa do Uaupés, possuem aspecto
altura, além dos Tariano e Pira- semelhante ao das comunidades
tapuia, já havia grupos Tukano, ribeirinhas do Uaupés e Papuri,
Arapaso, Wanana e outros. Nos com um conjunto original de casas
levantamentos de 1992 e 1997, enfileiradas ao lado da capela. Mas
dos próprios missionários. Ali já aparece a comunidade de D. o crescimento acelerado das últimas
se formou o bairro do Cruzeiro, Pedro Massa, e, nos levantamentos duas décadas está lhes alterando
composto principalmente por realizados a partir do ano de profundamente a feição, com
grupos oriundos de comunidades 2002, também a de São José. Os muitas outras casas surgindo nas
localizadas no Uaupés abaixo de bairros localizados mais próximos periferias e constituindo vários
Iauaretê. Em 1986, esse bairro às instalações centrais da missão outros centros, ou sub-centros.
viria a se subdividir em dois, dando – São Miguel, Cruzeiro e D.
origem ao bairro de D. Pedro Pedro Massa – apresentam um
Massa. Mais tarde, em 1998, este aspecto urbano mais marcado,
último assistiria a uma nova divisão, pois ali as residências estão muito
dando origem ao bairro de São próximas umas às outras e é onde
José, o mais novo do povoado. se concentra o comércio local e
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 111

t ab ela 1
MORADORES E G RUPOS
DOMÉS TI COS DE I AUARETÊ
POR COMUNI DADES
i n G. A ndrello, op. cit.
p g. 1 52

GRUPOS
BAIRRO P E SSO A S DO MÉ STICO S
O U CA SA

SANT A M ARIA 28 0 40

SÃO PEDRO 10 7 16

sÃO M IGUEL 34 5 55

d oM BOSCO 317 44

DOM INgOS SÁVIO 24 7 39

APARECIDA 482 74

CRUZE IRO 37 7 60

DOM PEDRO M ASSA 24 1 36

SÃO JOSÉ 16 8 32

FÁT IM A 95 15

T OT AIS 2.6 5 9 4 11
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 112

t a b ela 2
po pula çã o p or etn ia
i n G . Andrello, op. cit.
pg . 1 53

etnias homen s mu lh eres tota l

T ariano 480 4 20 900


T ukano 334 30 5 6 39
Piratapuia 18 9 18 7 37 6
De sana 10 9 83 19 2
Wanano 78 62 14 0
Arapaso 65 46 111
H upda 47 44 91
Baré 12 19 31
T uyuka 6 13 19
Cube o 3 12 15
M irititapuia 6 6 12
Baniwa - 4 4
Carapanã 5 3 8
Barasana 1 2 3
Bará - 2 2
não índ io* 8 4 12
n ão d e cl arada 39 65 10 4
total 1.38 2 1.27 7 2.6 5 9
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 113

t ab ela 3
c res cimento
p opula cional do
p o vo ado de ia u a retê por
“ b a ir ro s” [ 1 97 7 -20 0 0]

bairros 1975 1977 a 1977 b 1979 1982 1988a 1988b 1988c 1992 1994 1997 2000a 2000b 2002

145 209 196 195 188 ? 251 227 255 280


Sta. Maria 160 241 112 210

0 71 68 68 80 ? ? 102 98 107
S.Pedro 0 0 0 0

117 131 188 188 146 ? 235 330 243 345


São Miguel 83 87 47 124

108 145 181 181 155 ? 280 320 265 317


D.Bosco 128 105 57 132

0 85 73 73 59 ? 174 190 223 247


Domingos Sávio 37 44 17 51

0 0 129 123 120 ? 355 371 435 482


Aparecida 0 0 0 0

0 0 135 97 174 ? 280 323 308 377


Cruzeiro 0 0 0 0

0 0 0 0 168 ? 300 193 207 241


D.Pedro Massa 0 0 0 0

0 0 0 0 0 ? 0 170 190 168


São José 0 0 0 0

0 41 41 47 57 ? ? 98 50 95
Fátima 0 0 0 25

370 682 1011 972 1147 1810 1875 2324 2274 2659
Total 408 477 233 542

Fontes: 1982 Levto Missão Salesiana 1997 Levto demarcação ISA/FOIRN


1975 Plano Alto Rio Negro/Funai 1988a Levto Missão Salesiana 2000a Saúde Sem Limites
(Silverwood-Cope, 1975) 1988b GTI/Funai (identificação) 2000b Lideranças dos bairros de Iauaretê
1977a Funai/PI Iauaretê 1988c Funai/PI Iauaretê 2002 Levto Sócio-econômico e
1977b Funai - ADR São Gabriel 1992 Censo/FOIRN Demográfico de Iauaretê - ISA
1979 Levto Missão Salesiana 1994 Levto Missão Salesiana
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 114
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 115

L egen da map a 8 pági na a o l a do


m apa 8 - c o mp o s iç ã o
é tnica da s c om u nida d e s
d o d i s t rito de i a u a retê .

O Mapa 2 (página 44) cobre toda qual se definem essas regiões é o os contingentes desses dois grupos
a área de influência do povoado de próprio povoado de Iauaretê, ponto (1539 pessoas) respondiam por
Iauaretê, conhecida na região como de convergência entre elas. A Tabela cerca de 60% da população total
Distrito de Iauaretê. Atualmente, 5 (página 117) mostra a origem de Iauaretê no ano de 2002.
encontram-se residindo no povoado geográfica e a etnia de cada um dos Além dos Tariano e Tukano, os
famílias procedentes de quase todas 411 grupos domésticos de Iauaretê. Pira-tapuia (376 pessoas), Desana
as comunidades assinaladas no Na Tabela 3 (página 113) aparecem (192), Wanano (140), Arapaso
mapa, somando um total de 2.659 três etnias que não estão na Tabela 5 (111) e Hupda (91) apresentam
pessoas, em 411 grupos domésticos. (Baniwa, Bará e Barasana). Ocorre também contingentes significativos.
Essa população é dividida de que não existem grupos domésticos Conjuntamente, a população desses
maneira não uniforme entre os dez em Iauaretê passíveis de classificação grupos menores atinge a marca
bairros, conforme mostra a Tabela como pertencentes a essas etnias. À de 910 pessoas, um montante
1 (página 111). A Tabela 2 (página exceção de um homem Barasana, equivalente ao total da população
112) apresenta o número total de as outras sete pessoas dessas etnias Tariano (~34% do total). São
pessoas pertencentes a cada uma das são mulheres casadas pertencentes a grupos que possuem conjuntos
etnias presentes no povoado. Na grupos domésticos classificados de bem delimitados de comunidades
Tabela 4 (página 116), esses números acordo com a etnia de seus cônjuges. no Distrito de Iauaretê, no Uaupés
encontram-se distribuídos por Os números apresentados nas acima e abaixo de Iauaretê ou no
bairros. A procedência geográfica Tabelas 3, 4 e 5 mostram que Papuri, conforme se pode verificar
desses grupos domésticos é referida os Tariano continuam sendo o no Mapa 8 (página 114).
com as expressões, “Uaupés abaixo”, grupo étnico mais numeroso de
“Uaupés acima”, “Papuri” ou Iauaretê, com 900 pessoas (~34%
“Iauaretê centro”, que designam do total do povoado). Os Tukano
localmente sua sub-região de ficam em segundo lugar, com 639
origem. A referência a partir da pessoas (~24% do total). Juntos,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 116

t a b ela 4
p o p ulação de IauareT ê
d e a cordo c om e tni a e
d i s t r ib u içã o de b a ir ros.

bairros TA TK PT DE WA AR HP BA TY CB MT BW CA BR BB CAB ?

Sta. Maria 134 47 38 14 11 15 - 3 13 2 - - - - - - 3

S.Pedro 73 3 11 1 2 2 1 2 - 1 6 - - - - - 7

São Miguel 109 102 52 38 5 15 - 2 1 1 - 1 - - - 3 16

D.Bosco 104 55 44 10 47 19 1 15 2 2 5 - - - - - 13

Domingos Sávio 63 86 41 21 2 20 - - - - - 1 1 1 5

Aparecida 188 137 49 25 42 3 - 5 - 10 - - 1 1 1 3 21

Cruzeiro 131 91 53 23 7 34 - 5 1 - - - 7 1 5 19

D.Pedro Massa 86 68 35 22 12 3 1 - - - 1 2 - - - - 11

São José 12 44 53 38 10 - - - 2 - - - - - - - 9

Fátima - 4 - - - - 88 - - - - - - - - - 3

Total 900 639 376 192 140 111 91 31 19 15 12 4 8 3 2 12 104

Legenda: MT = Miriti-tapuia TK = Tukano


AR = Arapaso BR = Barasana CB = Kubeo
DE = Desana PT = Pira-tapuia TY = Tuyuka
BA = Baré BW = Baniwa CAB = Caboclo
HP = Hupda TA = Tariano
BB = Bará CA = Karapanã
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 117

t ab ela 5
ORIG EM G EO G R ÁFICA
E ETN I AS DOS G RUPOS
DOMÉS TI COS DE iAUARE TÊ.

U aupés U aupés Iauaretê S/ inf. OU


etnias P apuri total
abai x o Acima cen tro O UTRO S
Ta rian o 27 32 20 67 5 1 51

Tukan o 20 17 58 5 9 109

Pi ra- ta p uia 27 3 26 4 2 72

Des a n a 2 1 14 1 5 23

Wan a n o - 21 1 - - 22

Ar a p as o 15 - - 1 2 18

Hup da - - 2 - 12 14

Bar é - - 1 1 1 3

Miriti - tap u ia - - - 1 2 3

Kubeu - 1 - 1 - 2

C aboclo - - 1 1 - 2

Tuyuka - - 1 - - 1

Ka rap a n ã - - 1 - - 1

Total 91 75 125 82 38 41 1
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 118

ban ho d e r io n o fim d e
tarde , 2 001.
foto: bet o ric a rdo.

Os outros grupos presentes em freqüência em Iauaretê a partir agrícola no entorno do povoado,


Iauaretê são os Baré (31 pessoas), da implantação de um pelotão do bem como os principais locais de
Tuyuka (19), Kubeo (15), Miriti- Exército no povoado ao final dos pesca. Um ponto relevante que
tapuia (12), Karapanã (8), Baniwa anos 80. Como no Uaupés uma ficou claro por essa pesquisa diz
(4), Barasana (3) e Bará (2). São criança pertence à etnia de seu pai, respeito ao padrão de fixação dos
grupos cujo território tradicional os filhos de soldados vindos de fora novos grupos Tariano que vieram
de ocupação encontra-se fora não são imediatamente designados para Iauaretê nas últimas décadas,
dos limites do Distrito, sendo com a etnia da mãe. Nos casos o qual se distingue nitidamente
sua presença em Iauaretê pouco em que o são, isso depende do do dos novos moradores Tukano,
significativa do ponto de vista reconhecimento por parte do avô Pira-tapuia, Desana, Wanano
demográfico (um total de 94 materno, que atribui um nome de e Arapaso. Enquanto que
pessoas, ou aproximadamente 3,5% sua etnia ao neto. estes últimos se distribuem em
da população geral do povoado). A A partir da Tabela 5, proporções equivalentes entre
Tabela 4 aponta ainda a existência verificamos que há 151 grupos os bairros tradicionais e novos,
de 12 pessoas consideradas domésticos Tariano em nove os novos moradores Tariano de
“caboclos”, e outras 104 cuja bairros de Iauaretê. Desses, Iauaretê vieram a se estabelecer
etnia não foi declarada durante apenas 67 são originários de quase que exclusivamente nos
a pesquisa. A maioria desses Iauaretê, tendo o restante se bairros novos. Ou seja, ao
caboclos e ‘sem etnia’ são muito estabelecido no povoado a partir que parece, o crescimento do
provavelmente crianças nascidas de de meados da década de 70. Os povoado teria inicialmente se
relacionamentos entre mulheres grupos originários de Iauaretê são dado através da aceitação de novos
indígenas e homens não indígenas, os moradores mais antigos dos moradores não-Tariano pelas
brancos ou já considerados chamados bairros tradicionais, antigas comunidades Tariano de
caboclos. Esses relacionamentos que controlam a maior parte Iauaretê. Seriam, precisamente, os
passaram a ocorrer com muita das terras disponíveis à atividade grupos com os quais os Tariano já
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 119

mantinham relações de afinidade, Tariano do alto Uaupés e Papuri, povoado desde os anos 70, a
uma tendência já apontada por entre os quais viriam a surgir seus quantidade de dinheiro que elas
Ana Gita de Oliveira para o ano primeiros capitães. fazem chegar ali chegar e como
de 1979 (Oliveira, 1981). A estes, As tabelas a seguir apresentam esses recursos se distribuem entre
a obtenção de espaço para moradia informações relativas à entrada de os bairros. São 377 pessoas que
e roçados seria facilitada por dinheiro no povoado de Iauaretê, recebem regularmente salário,
relações pré-existentes de aliança bem como sobre sua distribuição o que corresponde a 14,18% da
com os Tariano das comunidades entre os bairros. Ainda que o população local. A relação entre
de Santa Maria, D. Bosco e São processo de concentração da assalariados e grupos domésticos
Miguel. Já os Tariano de outras população indígena do Alto e não é, no entanto, de um para
partes do Distrito vieram a formar Médio Uaupés e Papuri em Iauaretê um, isto é, embora haja 377
a base das novas comunidades tenha sido motivada pelo fim assalariados, isso não quer dizer
de Iauaretê, figurando entre os dos internatos, os dados dessas que haja o mesmo número de
primeiros moradores dos bairros tabelas mostram que o surgimento grupos domésticos com renda.
de Aparecida e Cruzeiro, que progressivo de novas oportunidades De acordo com a Tabela 5, são
parecem ter se formado somente para obtenção de renda viriam 246 famílias que possuem renda
a partir dos primeiros anos da também a desempenhar papel regular, ou 60%. Isso quer dizer
década de 80. A origem desses significativo, pois esses novos postos que há em torno de 131 grupos
bairros mais novos se deu, assim, de trabalho não ficaram restritos domésticos que possuem dois
através da aglomeração crescente apenas aos moradores mais antigos membros assalariados, o que nos
de casas nos espaços disponíveis do povoado. leva a deduzir que a renda média
em volta da missão pelo começo As Tabelas 6 e 7 (páginas 120 e dos grupos domésticos é bastante
dos anos 80, com sua instituição 121 respectivamente) apresentam variada. E, além disso, há 164
inicial como comunidades sendo números referentes às instituições grupos domésticos, 40%, que não
viabilizada pela chegada de grupos que vieram se implantando no possuem renda regular. Ainda
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 120

t a b ela 6
I NG RESSO M ONE TÁRI O EM
I AUARE TÊ POR I NS TITU IÇÃO
(2 0 0 2) .

INSTITUIÇÃO N O P E SSO A S RE N DA

Ben e fíci os ( Apose ntado r i a s) 17 5 R $ 31.7 5 1,0 0


Pe l otão d o Exé rcit o 44 R $ 30 .0 7 4 ,0 0
Col é gi o São M ig u e l 45 R $ 16 .5 5 4 ,4 3
Hospit al São M ig ue l 31 R $ 10 .4 31,19
Infrae ro 3 R $ 3.0 5 7 ,0 0
Funai 3 R $ 3.0 4 0 ,4 5
FOIRN 5 R $ 2.6 20 ,0 0
Saúd e Se m Limites 9 R $ 2.211,0 0
Escol a Enêmine 7 R $ 2.15 8 ,6 1
Secre taria d e Ed uca çã o 10 R $ 2.113,0 0
CEA M 5 R $ 1.9 7 8 ,37
Col é gi o d e Santa M a r i a 9 R $ 1.7 5 3,0 0
M e te re ol ogi a 2 R $ 1.7 0 0 ,0 0
Missão Sal e siana ( pad r e s) 6 R $ 1.5 8 0 , 0 0
SEM SA 2 R $ 1.20 0 ,0 0
Missão Sal e siana ( irm ã s) 7 R $ 1.115 , 0 0
Corre io 2 R $ 8 8 0 ,0 0
Pre fe it ura 2 R $ 4 30 ,0 0
n ão re spond e u ou d e sco nh e cida 2 R $ 37 0 ,0 0
Particul ar 4 R $ 230 ,0 0
EM BRAT EL 1 R $ 220 ,0 0
Comé rci o Local 1 R $ 18 0 ,0 0
total 37 5 R $ 115 .6 4 7 ,0 5
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 121

t ab ela 7
D I STRI BUI ÇÃO
DA RENDA LO CAL.

FAMÍLIAS FAMÍLIAS
COM
bairros CASAS PESSOAS COM SEM RENDA
SALÁRIO
RENDA RENDA

St a . M aria 47 38 14 11 15 -

S. Ped ro 3 11 1 2 2 1

Sã o Migue l 102 52 38 5 15 -

D. Bosco 55 44 10 47 19 1

Domi n gos Sávio 86 41 21 2 20 -

Ap ar eci da 137 49 25 42 3 -

C ruzeiro 91 53 23 7 34 -

D. Pedr o M assa 68 35 22 12 3 1

Sã o J osé 44 53 38 10 - -

Fátima 4 - - - - 88

Total 639 37 6 19 2 14 0 111 91


dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 122

de acordo com as tabelas 6 e 7, seus 95 moradores, há apenas dois alfabetizados e escolarizados, essas
percebemos que apesar do grande membros que contam com renda instituições sequer teriam chegado a
número de aposentadorias (há 175 regular, sendo os dois aposentados. se estabelecer no Uaupés.
pessoas que recebem esse benefício Assim, à exceção dessa exclusão A esse propósito, alguns
no povoado, um montante que dos Maku do mundo do trabalho moradores mais antigos de
coloca os aposentados no topo remunerado, não verificamos Iauaretê recordam-se de que,
da lista dos “assalariados”), havia qualquer tipo de monopólio desde a chegada dos missionários,
em 2002 duzentos outros postos das oportunidades de renda em começou a se propagar a idéia de
de trabalho remunerados. Esse Iauaretê, seja por parte de seus que todos eram iguais, irmãos,
número, hoje, deve ter subido moradores mais antigos, seja por todos filhos de Deus. Dão a
para cerca de 250, em função da parte de qualquer grupo étnico entender que tais idéias foram
inauguração recente de um novo em particular. Com efeito, a mais bem recebidas por certos
hospital mantido pelo Governo do escolarização por décadas oferecida grupos do que por outros. Entre
Estado do Amazonas. aos índios do Distrito de Iauaretê os Tariano de Santa Maria e
A partir da Tabela 8 (página foi, via o sistema do internato, D. Bosco, por exemplo, que
123), verificamos um notável oferecida a todos os grupos sem ocupam as posições superiores
equilíbrio quanto à distribuição exceção, abrindo virtualmente a na hierarquia tradicional, as
de renda entre os bairros novos e todos a possibilidade de acesso orientações missionárias não
antigos, que se expressa no número aos empregos que vieram a surgir condiziam com sua auto-imagem
de aposentados, assalariados e no em escolas, hospital, correios, de chefes dos Tariano do Uaupés e
montante de renda acumulada. meteorologia, e facilitando, Papuri. Porém a estes últimos, tais
O único desequilíbrio nesse inclusive, a incorporação de rapazes ensinamentos abririam novas vias
aspecto diz respeito à renda que como soldados no Pelotão do para disputar um prestígio que os
entra na comunidade Maku- Exército. Aliás, sem a existência seus irmãos maiores sempre haviam
Hupda de Fátima, onde, entre desse grande contingente de índios reservado a si próprios. Professor,
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 123

t ab ela 8
POPULAÇÃO AG REGADA DOS
BAI RROS T RAD ICIONAI S E
NOV OS DE A CORDO C OM A
D I STRI Bu I ÇÃO DE RENDA.

% DE
TO TA L
CO M A P O SE N - P ES S O A S
bairros PE SSOAS DE %
SA L Á RIO TA DO S C OM
RE N DA
R EN D A

BAI RROS 1363 94 94 5 9 .4 7 6 ,6 7 5 1,4 1 3 ,6 5


NO VOS

BAI RROS
T RADI C I ONAIS 1296 10 6 85 5 6 .17 0 ,38 4 8 ,6 1 4,74

funcionário público e soldado situem-se em posições inferiores. local os vem fazendo prosperar,
em Iauaretê são posições que Vias paralelas de obtenção de e, em 2002, contavam com uma
em nada parecem ficar a dever a prestígio vieram, assim, a surgir associação que geria um fundo
outras categorias mais tradicionais, no Uaupés, manifestando-se rotativo autônomo, base financeira
por assim dizer, como “irmão principalmente nos postos de utilizada para a obtenção de um
maior” ou “chefe”. Mesmo os trabalho que surgiram no povoado financiamento a juros baixos
que são assim considerados de Iauaretê nas últimas décadas. para a compra de um barco com
reconhecem que os que ocupam Hoje há também um grupo de capacidade para trinta toneladas.
aquelas posições fazem jus a certas cerca de trinta comerciantes
considerações de respeito, ainda indígenas ali, os quais começaram
que, em termos da hierarquia a aparecer há uns vinte anos. O
interna aos grupos do Uaupés, aumento progressivo da renda
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 124

transformações no padrão de uso do solo


dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 125

p ági n a a o lado
TU I U K A ABR I NDO C A IXA ,
2005
F ot o: VI NCENT C ARELL I.

A s condições de vida das famílias


residentes em Iauaretê são
muito diferentes daquelas que
as estratégias de diversificação
no manejo de recursos naturais
e a exploração de distintas faixas
em uma média de 1,9 roçados
por grupo doméstico. Porém,
devemos levar em consideração
conheciam nas comunidades ecológicas por grupos ribeirinhos que, dos 411 grupos domésticos
de origem, e novos problemas e interfluviais, ver Morán, 1991). residentes em Iauaretê, 88 não
passam a ser enfrentados. Duas Tal como vem ocorrendo a mais possuem roças nessa área peri-
preocupações correntes no povoado tempo na cidade de São Gabriel urbana. Temos então que os 777
referem-se à crescente escassez de da Cachoeira, verifica-se, também roçados contabilizados em Iauaretê
peixe e de espaço para abertura de em Iauaretê, a formação de uma pertencem a um total de 323 grupos
novos roçados. Este segundo ponto agricultura de tipo peri-urbano, o domésticos. Nesse caso, nossa
é ainda agravado pela exigüidade que traz conseqüências para todo média aumenta para 2,4 roçados
de solos apropriados à agricultura, o sistema produtivo (cf. relatório por grupo doméstico. Ainda assim,
já que, em uma grande parte das etnobiológico de Laure Emperaire esta média é inferior à situação
áreas adjacentes ao povoado, há referente à pesquisa realizada em tradicional das comunidades do
predomínio das formações de Iauaretê em 1999). A partir da Uaupés, entre as quais a média
catinga sobre as áreas de florestas carta-imagem da área de Iauaretê, seria de três a quatro roças por
de terra firme. Temos, assim, uma pode-se observar claramente a família (cf.Emperaire, 1999). As
situação nitidamente marcada pela existência de uma grande extensão famílias de Iauaretê, no entanto,
alteração profunda dos padrões de capoeiras e roças no entorno não dependem exclusivamente
tradicionais de territorialidade e do povoado. Essa extensão foi das roças aí localizadas, pois
de aproveitamento dos recursos calculada em 5.091,83 hectares. há 150 grupos domésticos que
naturais, tal como apontados na De acordo com levantamento afirmaram ainda possuir roças em
literatura etnográfica referente ao realizado em 2001 (ISA), havia suas comunidades de origem -
noroeste amazônico (com o alto no entorno do povoado um total isso talvez explique porque há 88
grau de dispersão dos grupos locais, de 777 roçados, o que resultaria famílias sem roças em Iauaretê.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 126

página a o l a do
gr u p o t a ri a n o
pa ra m ent a do c om os
e nf eite s c e rimo ni ais
em p r e s t a d o s
p e l o s t u y uca p a r a
i na u g u ra ç a o de s u a
m a l oc a , 2 005 .
Fot o: vinc ent c a rel l i .

A ba i xo
w a i s eni m a a , 2 005 .
FO T O : GERALDO ANDRELLO .

Além disso, entre essas 88, há 50 por novos arranjos relacionados à o restante já vem produzindo entre
famílias que possuem pelo menos dinâmica da atividade agrícola. três e seis anos. Mais da metade
um de seus membros recebendo Apesar dessas estratégias, a dos chefes de família de Iauaretê
salário de alguma das instituições pressão sobre as terras no entorno avalia que suas roças produzem bem
que operam em Iauaretê. De modo do povoado é extremamente alta. menos que no passado. Como já
geral, esses números demonstram Cerca de 70% das roças existentes advertiu Emperaire (op. cit.), essa
que as atividades de subsistência hoje nessa área foram abertas em passagem à agricultura de tipo peri-
na área de influência do povoado capoeiras, e apenas 25% em áreas urbano implica, necessariamente,
vêm se transformando, não apenas de florestas de terra firme que ainda em uma utilização de solos cada
pelo aparecimento de trabalhos não haviam sido utilizadas. Cerca vez menos férteis, em períodos
remunerados e pelo incremento da de 65% delas estão produzindo de re-utilização mais curtos e o
atividade comercial, mas também mandioca há menos de dois anos, e uso de espécies de mandioca mais
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 127

g rupo tar i ano


p aramen ta do co m os
e n f eit es c erim on iai s
e mpres tados
p elos tuyu c a para
i n au gu r aça o de su a
malo c a, no v em bro de
2 0 0 5.
F o to : vi ncen t care l l i.

apropriadas a essas condições de de manivas manejadas pelas sua resistência e aptidão para solos
menor fertilidade. Nesse último agricultoras indígenas da região mais desprovidos de nutrientes:
aspecto, as condições em que a (Emperaire, 1999). “são as que agüentam mais tempo
atividade agrícola se desenvolve Vários depoimentos de pessoas sem apodrecer”, dizem. Essas duas
hoje em Iauaretê não favorecem de Iauaretê indicam a importância variedades seriam as mais apropriadas
a conservação da altíssima atualmente atribuída a duas para roças abertas continuamente em
diversidade de espécies de mandioca variedades específicas: maniva de áreas de capoeiras.
tradicionalmente cultivadas pelos paca e maniva de tucunaré, duas Além dessas variedades locais
índios do Uaupés, diversidade que é variedades brancas. Segundo “preferidas”, pode-se observar
descrita por diversos autores. Laure apontaram algumas pessoas, essas também um grande interesse
Emperaire, por exemplo, aponta variedades não podem atualmente em variedades trazidas de fora e
mais de uma centena de variedades faltar em uma roça, tendo em vista reputadas de alta produtividade.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 128

Soubemos de duas variedades um comentário freqüente na não dispõe de qualquer fonte


atualmente em uso na região região. Pode-se, assim, aventar de renda busca o comércio local
que foram trazidas de Manaus e que tais variedades – as locais freqüentemente, com quantidades
Barcelos. Segundo um funcionário mais resistentes e as de fora mais variáveis de farinha, propondo
local da Comara, ele mesmo produtivas – tenderiam a colonizar vendas ou trocas aos comerciantes
trouxe a de Manaus de avião. De os roçados do entorno de Iauaretê. indígenas locais.
acordo com algumas mulheres, a Apesar de todos os fatores que Nos levantamentos realizados
maniva de Barcelos produz raízes incidem sobre a produtividade em Iauaretê durante os trabalhos
surpreendentes, muito mais das roças em Iauaretê, a farinha do macro-zoneamento das
grossas e com um comprimento de mandioca é o produto agrícola Terras Indígenas (FOIRN & ISA,
que pode atingir até 1,5 metros: mais vendido e trocado no vilarejo. 2003), a área de uso agrícola do
“basta um pé para encher o aturá!”, Mais da metade das famílias que povoado foi plotada e subdividida
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 129

p ági n a a o lado
g rupo tu kano que
p ar ticipou da fes ta de
i n aug uração da m alo ca
t aria n o, 20 0 5.
f o to : geraldo a n dre l l o.

a ba ix o
PETRO G LI F O, 20 0 8.
f o to : vi ncen t care l l i.

em transparências sobre as indicados na carta-imagem (com


cartas-imagens. Esse trabalho numeração correspondente na
foi realizado com a ajuda de coluna da esquerda), acompanhada
vários informantes e resultou em pelas dimensões em hectares das
um conjunto de polígonos que porções efetivamente usadas para
circunscrevem o espaço agrícola a atividade agrícola e daquelas
utilizado pelos diferentes bairros que ainda possuem sua cobertura
do povoado. Mencionamos acima a vegetal original (floresta de terra
existência de uma área de cerca de firme, caatinga, chavascais e igapós
5.100 hectares em volta de Iauaretê – Mapa 10, página 131). A tabela
atualmente ocupada por roças ou inclui parcelas que pertencem a
capoeiras. Esse é o espaço em que comunidades vizinhas de Iauaretê,
hoje se pratica a agricultura de cujas áreas de roças e capoeiras
tipo peri-urbano acima discutida. se conectam às áreas de uso dos
A carta imagem abaixo mostra bairros do povoado. São os casos de
os contornos desse espaço e sua Aduana (posto oficial colombiano
relação espacial com a “mancha na ponta entre o Papuri e o
urbana” do povoado. Uaupés), Campo Alto (Uaupés
A área de uso agrícola abaixo), Ilha de São João (Uaupés
identificada no Mapa 9 (página abaixo), Itaiaçu (Uaupés acima),
130) inclui não apenas os espaços Japurá (Papuri) e Sto. Antonio
utilizados pelas famílias dos bairros (Uaupés acima).
de Iauaretê e comunidades vizinhas.
Na Tabela 9 (páginas 132-135),
há uma lista de todos os polígonos
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 130

m a pa 9
á r e a s d e u s o a gr íco l a
d o s b a ir r o s d e ia u a r etê e
c om u nida d e s vizi nh a s . Os
pol í g onos a s s i na l a dos e
nu m era dos nes t a c a rt a -
im a gem c o r r e s p o n d e m
à s á rea s de u s o de
dife r e n t e s b a ir r o s e
c om u nida d e s , d e a c o r d o
c om a s t a b e l a s 9 ( p ágin a s
13 2 a 13 5 ).
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 131

mapa 10
u n i dades de pa i sag ens
n o en torn o de ia u are tê ,
r eal i zação: i sa e foirn,
2 0 0 1 / 20 0 2.

legen da map a 1 0
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 132

t a b e la 9
d i s t ri bu i ção da á rea de uso a grí c ola e
u n i dades de pa i sag em en tre os ba irros de
I a u a retê e co mun idade s viz inhas.

no comunidade u n idades de paisagem ha tota l / com .

R o ça s e Ca p o e i r a s 25 1,34
Caa ti ng a c o m Ca r a na z a l 4 ,30
01 Adua na ( no Papuri) 2 6 0 ,40
Te r r a fir m e – Ca a ti ng a 1,0 5
Co m u ni da de s 3,7 0

R o ça s e Ca p o e i r a s 5 9 8 ,27
T e r r a Fi r m e 28 ,9 8
02 Apare ci da Ca a ti ng a A l t a e S e c a 16 ,7 8 6 6 9 ,0 9
Ca a ti ng a Ú mi da 18 ,5 7
Ca a ti ng a 6 ,4 9

Terra Firme Alta com Chavascal 30,09


Campo A lto,
Roças e Capoeiras 135,35
03 Cruze iro e 1 77,2 6
Caatinga com Palmeira 11,81
São M ig ue l
(tipo babaçu)

R o ça s e Ca p o e i r a s 19 0 ,0 6
04 cruz e iro Caa ti ng a c o m Ca r a na z a l 12,6 1 2 2 3 ,46
Te r r a fir m e – Ca a ti ng a 20 ,7 9
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 133

no comunidade u n idades de paisagem ha tota l / com .

Caatinga 13,4 7
Cruz e iro,
Roças e Capoeiras 322,39
05 Domi ngos Sávio e 40 7,57
Terra Firme Alta com Chavascal 7 1,6 4
D. Pe d ro M assa
Caatinga com Caranazal 0 ,0 7

Roças e Capoeiras 563,97


Caatinga com Caranazal 34,60
06 D. Bosco 6 0 1 ,9 8
Terra Firme 3,41
(semelhante a capoeira)

D . Bos co e Roças e Capoeiras 92,57


07 9 4,8 5
Apare ci da Caatinga 2,28

D . Bos co e Caatinga 0,09


08 0 ,3 4
São M ig ue l Comunidades 0,26

Roças e Capoeiras 41,61


09 D. Pe d ro M assa 43 ,58
Caatinga com Caranazal 1,98

R o ça s e Ca p o e i r a s 314 ,4 5
10 fátima T e r r a Fi r m e c o m Ca a ti ng a 15 7 ,0 7 479 ,0 0
Ca a ti ng a A l t a e S e c a 7 ,4 9

R o ça s e Ca p o e i r a s 214 , 9 4
11 I lha d e São João C a a ti ng a c o m Ca r a na z a l 2,0 4 2 1 7,0 5
T e r r a Fi r m e c o m Ca a ti ng a 0 ,0 8
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 134

no comunidade u n idades de paisagem ha tota l / com .

Caa ti ng a c o m Ca r a na z a l 0 ,0 8
T e r r a Fi r m e 3,8 5
R o ça s e Ca p o e i r a s 1,27
T e r r a Fi r me A l ta c om 319 ,6 5
12 Itaiaçu 3 3 6 ,72
Ch a v a sc a l 1,8 6
Co m u ni da de s 0 ,5 0
Ca a ti ng a 7 ,0 2
T e r r a fir m e – Ca a ti ng a 2,5 7

Roças e Capoeiras 350,04


Terra Firme 15,52
13 Japurá 43 6 ,1 1
Terra Firme com Caatinga 3,86
Caatinga Alta e Seca 66,69

Igapó Alto 0,15


Terra Firme 10,32
(semelhante a capoeira)
14 M iriti 9 4,8 5
Caatinga com Caranazal 10,32
Roças e Capoeiras 254,23
Igapó Baixo 17,08
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 135

no comunidade u n idades de paisagem ha tota l / com .

R o ça s e Ca p o e i r a s 4 5 1,29
Ca a ti ng a 16 9 , 8 6
Co m u ni da de s 25 ,5 1
T e r r a Fi r me 10 3,39
( se m e l h a nt e a c a p o e i r a )
T e r r a fir m e – Ca a ti ng a 6 ,9 2
15 São M ig ue l 1 .0 70 ,8 4
C a a ti ng a c o m T e r r a Fi r m e 16 0 ,25
T e r r a Fi r me A l ta 15 3,4 9
c o m Ch a v a sc a l
C a ating a c o m P a l m ei r a 0 ,0 5
( ti p o b a b a çu )
Ca a ti ng a c o m Ca r a na z a l 0 ,0 8

R o ça s e Ca p o e i r a s 4 6 2,12
Co m u ni da de s 2,0 8
16 São pe d ro C a ating a Ú mi da 4 6 ,6 0 53 8 ,8 6
c o m ch a v a sc a l
T e r r a Fi r m e 28 ,0 6

R o ça s e Ca p o e i r a s 5 15 ,0 7
Co m u ni da de s 7 ,8 0
17 Santa M aria Ca a ti ng a Ú mi da 5 4 ,0 4 58 5,0 1
C a ating a Ú mi da 8 ,10
c o m b o l a s de t e r r a fir m e

18 s anto Antô nio R o ça s e Ca p o e i r a s 5 7 ,18 57,1 8

total 6 .4 3 4 ,2 1
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 136

Uma avaliação das informações solos são propícios ao uso agrícola A situação verificada quanto
da Tabela 9 aponta para uma - ainda disponíveis nos polígonos ao uso do solo no entorno do
diferença nada desprezível quanto exclusivamente controlados por povoado de Iauaretê levanta algumas
à quantidade de terra controlada bairros novos e tradicionais, questões a serem consideradas,
respectivamente pelos bairros notaremos que os novos controlam principalmente no que concerne
tradicionais e novos. Tomando os apenas 206,83 hectares de áreas em termos da sustentabilidade do
polígonos exclusivamente ocupados aptas à abertura de novos roçados, ao atual padrão de uso, bem como
pelos bairros tradicionais (6, 8, 15, passo que os tradicionais dispõem de da apropriação dos recursos
16 e 17), bem como distribuindo 463,22 hectares. econômicos pelos grupos
proporcionalmente entre eles Não se dispõe no momento de domésticos ali estabelecidos. Em
parcelas dos polígonos divididos com um mapa ou estimativa das terras primeiro lugar, verificamos que
bairros novos (3, 5, 7), chegamos no entorno do povoado de Iauaretê a concentração de famílias do
a um total de 2.932,71 hectares de que eram até muito pouco tempo distrito nesse povoado é viabilizada
área a eles disponível. Aplicando o atrás consideradas propriedades por uma peculiar combinação de
mesmo procedimento aos bairros da missão (deixaram de ser após estratégias. As oportunidades de
novos (polígonos exclusivos: 2, 4, 9, a demarcação da Terra Indígena obtenção de trabalho remunerado
10; polígonos compartilhados: 3, 5, Alto Rio Negro em 1998). Tal por pessoas que chegam de
7), chegamos ao total bem inferior informação nos permitiria avaliar outras partes da região são as
de 1.959,13 hectares. Temos, em que medida as áreas dos novos mesmas que se apresentam aos
portanto, que as terras controladas bairros foram obtidas junto moradores mais antigos. Ao
pelos bairros tradicionais são aos missionários. Nos bairros mesmo tempo, as relações de
50% maiores do que as terras tradicionais, as famílias que são de parentesco com os Tariano dos
disponíveis aos novos bairros. Além fora obtêm, em geral, espaço para bairros tradicionais ou a negociação
disso, considerando as porções os seus roçados negociando com os com os missionários permitem o
de florestas de terra firme – cujos moradores Tariano mais antigos. acesso a espaços necessários para
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 137

fl aut a s c a ri s s u , 2 008.
Foto: V i nc ent c a rel l i .

a colocação de roças. O número Uaupés (Santa Maria e São Pedro) dos produtos derivados da
de famílias sem roças em Iauaretê começam a idealizar a melhoria mandioca (farinha, beiju) que o
é significativamente menor e o alargamento de varadouros acompanham. E isso se faz pela
do que aquele de famílias que que dão acesso a terras férteis opção do consumo de alimentos
ainda mantêm roçados em suas localizadas em direção sudoeste industrializados, como arroz,
comunidades, de maneira que deve de Iauaretê. A idéia é que, no feijão, frangos congelados e carne
haver famílias com roças tanto em futuro, o deslocamento a parcelas em conserva. Pelas dificuldades
Iauaretê como em suas comunidades mais distantes de terras possa ser de transporte, os preços desses
de origem. Esse deve ser o caso de feito por um veículo (trator ou produtos no comércio local são
famílias oriundas das comunidades caminhão), e que haja uma sub- extremamente altos (R$ 5,00/kg
mais próximas ao povoado. divisão da área em lotes para repasse para o frango, R$ 2,50/kg para o
O aproveitamento das capoeiras a moradores interessados em arroz e R$ 3,00/kg para o feijão,
no entorno do povoado ainda não incrementar a produção agrícola. ano de 2002)9, e absolutamente
parece ter atingido um limite de A escassez de peixe em Iauaretê, incompatíveis com o nível de renda
exaustão, pois atualmente temos que se agrava progressivamente e da população.
mais de 180 roçados em produção começa a ser enfrentada por meio A situação descrita acima sugere
no entorno do povoado que foram de um projeto de piscicultura com que a atividade agrícola atravessa
abertos em áreas de mata virgem. espécies nativas em desenvolvimento um processo de transformação
No entanto, a distância cada vez pelo ISA em parceria com as aparentemente irreversível. É
maior dessas terras está levando ao organizações indígenas locais, vem urgente que se passe a discutir e
surgimento de planos que poderão acarretando mudanças sensíveis planejar os possíveis caminhos
futuramente alterar decisivamente nos hábitos alimentares. Pudemos que essa transformação poderá
a prática agrícola indígena local. notar que a falta do pescado vir a trilhar. A produção local de
Algumas pessoas dos bairros acarreta, correlativamente, em itens hoje importados é desejável
situados na margem direita do uma diminuição no consumo para baixar preços e aumentar
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 138

A um e nto da igr eja


pa roqu i a l , i a u a retê (a m ).
F oto : a r q uivo da
dio c e s e d e s ã o ga b rie l
da c a ch oei ra .

eventualmente as oportunidades
de renda de famílias que não
contam com empregos. Nesse
sentido, a atividade agrícola poderia
equacionar simultaneamente o
problema do abastecimento e da
re-distribuição de renda local.
Mas quais seriam os impactos
ecológicos e sociais envolvidos?
O encaminhamento dessa
alternativa exigiria inicialmente um
zoneamento agroecológico, não
apenas no entorno do povoado de
Iauaretê, mas em toda sua área de
influência. Os mapas e as cartas-
imagens geradas no processo de
execução do projeto de macro-
zoneamento das Terras Indígenas
do Alto e Médio Rio Negro podem
ser um instrumento de grande
valor para iniciar esse processo de
discussão junto às organizações e
lideranças indígenas locais.
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 139

única casa coletiva ocupada por um grupo dos Diroá: kariboki, “moleque”,
local de parentes, rituais complexos de “bagunceiro”, “aquele que incomoda”.
iniciação masculina, organização social
baseada em clãs patrilineares exogâmicos, 7. Os Desana são um grupo que
entre outros (ver também Galvão, 1979). aparece em distintas posições no conjunto
Etnólogos que visitaram a região antes da dos relatos sobre a origem dos povos
NOTAS formulação da teoria das áreas culturais,
como Koch-Grunberg em 1903-4 e
que hoje residem no Uaupés. Para os
Tukano, eles são cunhados, cujo ancestral
Nimuendaju em 1927, também a tratam protagonizou, ao lado do próprio
como uma unidade. Nimuendaju é quem ancestral tukano, a saga da gente de
primeiro formula uma hipótese sobre o transformação. Já para os Tariano, eles
povoamento Maku, Arawak e Tukano - são como irmãos, isto é, com eles não
exatamente nesta seqüência - da região em se trocam esposas, e sua origem teria
tempos pré-coloniais (ver Nimuendaju ocorrido junto com a própria origem dos
[1927]1982 e para uma problematização Tariano e Baniwa em Uapuí.
1. Sobre a noção de referência cultural da hipótese, Wright 1992).
que orienta a nova política, ver Londres, 8. Para uma análise aprofundada
2000; sobre as diretrizes adotadas para 3. A respeito do chefe Leopoldino, sobre o uso reflexivo da noção de cultura
o inventário dos bens culturais, assim o padre Marchesi continua em seu relato: – a “cultura”, entre aspas – ver Carneiro
como para uma definição metodológica “Ele era deveras o chefe mais influente da Cunha (2006). A autora aponta para
da própria noção de “bem cultural”, ver dos Tariano, não só de Iauaretê, como a informação meta-semântica contida
Arantes, 2000. também de outras localidades como no uso auto-reflexivo da cultura, a
Aracapá, Cigarro, Ipanuré etc.”. “cultura”, e que diz respeito aos contextos
2. De acordo com o Handbook of interétnicos nos quais emerge e circula.
South American Indians (Goldman, 1948) 4. Termo corrente no Uaupés nesse Ou seja, tal informação possui caráter
essa área faz parte de uma região período. O enganche de índios na região político e em muitos casos refere-se a
maior denominada Uaupés-Caquetá, foi prática corrente por várias décadas e situações de interlocução entre grupos
considerada uma “província cultural” que consistia em adiantar uma quantidade de indígenas e aliados ou instituições
alcança os seguintes limites: ao norte, mercadorias a uma comunidade, cujos governamentais do mundo dos brancos
limita-se pelo Rio Guaviare; a leste pelos membros eram então obrigados a seguir voltados para a questão atual da proteção
Rio Negro e Guainia; ao sul, pelo Rio com o comerciante para saldar suas dívidas do chamado conhecimento tradicional.
Caquetá-Japura; e a oeste pelos Andes. trabalhando na extração de caucho ou No Uaupés, a auto-reflexão sobre a
Na parte brasileira, residem 21 grupos de balata na Colômbia. É sinônimo, cultura se dá também no próprio contexto
étnicos diferentes, representantes das portanto, de “aviamento”. das relações entre os diferentes grupos
famílias lingüísticas Tukano Oriental indígenas, e, como se vê, é igualmente
(Cubeo, Desana, Tukano, Miriti-Tapuia, 5. Os Rio Uaupés e Içana são os dois sensível do ponto de vista político.
Arapaso, Tuyuka, Makuna, Bará, Siriano, principais afluentes do Rio Negro em seu
Karapanã, Wanano e Pira-tapuia), alto curso. Com seus sub-afluentes e com 9. Até 2007 o valor desses produtos
Arawak (Tariano, Baniwa, Kuripako, os rios Xié e Curiciriari compõem a bacia básicos subiu muito. Para se ter uma
Warekena e Baré) e Maku (Hupda, Yuhup, dos formadores do Rio Negro. noção da variação de preços em Iauaretê,
Nadeb e Dow). Essa área cultural foi o quilograma do frango, por exemplo,
caracterizada pelos seguintes “traços”: 6. Cabalzar, 2005, aponta um saltou para R$ 7,00 em média. (N.do E.).
ênfase no cultivo da mandioca amarga termo da língua tukano correntemente
e na pesca, aldeias compostas por uma para descrever esse caráter específico
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 140
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 141

c ach oe i ra de i auare tê ,
2 0 0 8.
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dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 146
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 147

Este livro foi produzido


na primavera de 2008 para o
Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional
dossiê iphan 7 {Cachoeira de Iauaretê } 148

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA


BIBLIOTECA ALOÍSIO MAGALHÃES

O32 Cachoeira de Iauaretê. _


Brasília, DF : Iphan, 2007.
148 p. : il. color. ; 25 cm. + CD ROM. – (Dossiê
Iphan ; 7)

ISBN : 978-85-7334-085-3

1. Patrimônio Imaterial. 2. Iauaretê. 3. Patrimônio


Cultural. I. Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional. II. Série.

Iphan/Brasília-DF CDD – 394.1


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