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Além do Cortiço: um estudo sobre o


Naturalismo na perspectiva lukacsiana
Ednilson Esmério Toledo da Silva
Graduando em Sociologia e Política, pela Escola
de Sociologia e Política de São Paulo.

Resumo
Este trabalho objetiva analisar a obra O cortiço do autor Aluísio de Azevedo, por uma
perspectiva lukacsiana, tendo como base o estudo do conceito do Naturalismo segundo
a teoria do pensador húngaro György Lukács. Para isso, esta análise foi baseada em
dois principais ensaios: “Narrar ou Descrever?” de György Lukács e “De Cortiço a
Cortiço” de Antonio Candido, relacionando os conceitos incluídos nesses ensaios com
as referências e citações da própria obra de Aluísio de Azevedo.

Palavras -Chave
O Cortiço; Aluísio de Azevedo; Naturalismo; Realismo; György Lukács.

Alabastro: revista eletrônica dos alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, ano 2, v. 1, n. 3, 2014, p. 37-43.
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Além do Cortiço: um estudo sobre o Naturalismo na perspectiva lukacsiana
Ednilson Esmério Toledo da Silva

Se descreveres o mundo tal como é, não haverá em tuas faz uma análise esmiuçada da obra de Aluísio de
palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade. Azevedo e nos traz uma síntese da caracterização do
(Leon Tolstoi) Naturalismo:

(...) para o Naturalismo a obra era


Obra e o Naturalismo essencialmente uma transposição direta da
realidade, como se o escritor conseguisse
ficar diante dela na situação de puro
sujeito em face do objeto puro, registrando
A obra O Cortiço de Aluísio de Azevedo, (teoricamente sem interferência de outro
escrita em 1890, é uma retratação histórica do Brasil texto) as noções e impressões que iriam
no século XIX, demonstrando a realidade econômica, constituir o seu próprio texto (CANDIDO,
2011, p.7).
social e cultural da época e destacando as relações de
exploração do trabalho humano, situação característica Nesse ensaio, Antonio Candido demonstra a
do sistema capitalista que se fortalecia no Brasil influência da obra L’Assommoir escrita por Emile Zola
neste período. Na época em que a obra foi escrita, o em O Cortiço.
Naturalismo se tornava o grande expoente da escrita Aluísio de Azevedo se inspirou
europeia, encabeçado principalmente pelos escritores: evidentemente em L’Assommoir, de Emile
Flaubert e Emile Zola. O Naturalismo é uma forma Zola, para escrever O Cortiço (1890), e por
muitos aspectos seu livro é um texto segundo,
de escrita derivada do Realismo. Nos dois casos o que tomou de empréstimo não apenas a ideia
autor procura retratar de maneira objetiva a realidade, de descrever a vida do trabalhador pobre no
quadro de um cortiço, mas um bom número
sendo que, neste, a retração passa por uma análise do
de motivos e pormenores, mais ou menos
indivíduo influenciando e sendo influenciado pelo importantes (CANDIDO, 2011, p.9)
meio, enquanto que, naquele, a retratação demonstra
Antonio Candido traz alguns exemplos
uma predominância da animalidade do ser, na medida
dessa influência, não apenas na relação descrita
em que o comportamento humano é fruto do meio
da existência de um cortiço, mas, também, a
em que vive o homem.
caracterização do trabalho das lavadeiras, incluindo
Aluísio de Azevedo é descrito como um
uma briga entre duas delas (Piedade e Rita Baiana)
dos principais autores naturalistas brasileiros. Suas
e a existência de um policial morador do cortiço
obras O Cortiço e O Mulato (1881) marcaram essa
(Alexandre) que representa uma espécie de caricatura
tendência naturalista na forma de escrita brasileira
da lei e da ordem. Esses exemplos, trazidos pelo
no final século XIX. A narrativa em terceira pessoa
professor, representam essa derivação da obra de
representa a característica naturalista em que o autor
Aluísio em relação à obra de Zola. A exploração
se posiciona, em um local externo ao ambiente
do trabalho humano e a descrição das relações
em que se passa a história, como um espectador,
instintivas, que beiram a animalidade, acentuadas pela
descrevendo, detalhadamente e de forma objetiva,
zoomorfização de algumas personagens, demonstram
tudo o que ocorre. O professor Antonio Candido,
a caracterização naturalista da obra brasileira.
em seu ensaio denominado De Cortiço a Cortiço,

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Lukács e a crítica ao Naturalismo variado desenvolvimento assumido pela vida


humana de tais personagens. Assistimos
a certos acontecimentos nos quais os
Quanto mais os escritores aderem ao personagens do romance assumem um papel
Naturalismo, tanto mais se esforçam por ativo. Tais acontecimentos são vividos por
representar apenas homens medíocres, nós.
atribuindo-lhes somente ideias, sentimentos Em Flaubert e Zola, também os personagens
e palavras da realidade cotidiana, com o que são espectadores mais ou menos interessados,
o contraste se torna cada vez mais evidente dos acontecimentos – e os acontecimentos
(LUKÁCS, 2010, p.170) se transformam, aos olhos dos leitores, em
um quadro, ou melhor, em uma série de
O pensador marxista György Lukács foi um quadros. Tais quadros são observados por nós.
dos principais críticos do Naturalismo como forma (LUKÁCS, 2010, p.154)

de expressão da realidade. Para ele, o Realismo Segundo Lukács, eis aqui a grande diferença
desempenha essa função de uma forma melhor e entre o Realismo e o Naturalismo. No Realismo, o
mais fundamental, na medida em que o Naturalismo, leitor se sente um participante do romance, na medida
por uma questão de formalismo, a fim de demonstrar em que os acontecimentos são vividos por ele. No
aspectos da realidade, que não necessariamente Naturalismo, o leitor apenas observa os quadros de
contribuem para o esclarecimento sobre a condição acontecimentos descritos pelo autor. Lukács afirma
social, não expõem nenhum tipo de crítica, se que tal diferenciação possui uma relação direta com
omitindo da contribuição para a transformação da a posição assumida pelos autores frente ao contexto
consciência do indivíduo. Sendo que, para Lukács, social em que viviam.
contribuir para a transformação da consciência do
O contraste entre participar e observar não é
indivíduo é a principal função de um escritor.
casual, já que deriva da posição de princípio
Em seu ensaio Narrar ou Descrever?, Lukács assumida pelos escritores diante da vida,
dos grandes problemas da sociedade, e não
faz a relação do Realismo e do Naturalismo com o
somente do mero emprego de um diverso
método da escrita, sendo o Realismo caracterizado método de representar o conteúdo ou parte
pela forma narrativa (Narrar) e o Naturalismo pela dele. (LUKÁCS, 2010, p.155)
forma descritiva (Descrever). Existe uma relação Essa situação de posicionamento dos
entre as ações de participar e observar por parte do escritores acontece no período posterior à derrota
leitor. Para tal comparação, Lukács utiliza exemplos dos trabalhadores nas batalhas que ocorreram em
de Balzac e Tolstoi, a fim de representar o modo junho de 1848, que atingiram grande parte da Europa
da narrativa realista e Flaubert e Zola para o modo e que são conhecidas como a Primavera dos Povos.
descritivo naturalista. Após a vitória das forças reacionárias, o capitalismo
Em Balzac e Tolstoi tomamos conhecimento toma uma forma acabada na França, o que faz com
de acontecimentos importantes em que os escritores tenham tal posicionamento perante
si mesmos, mas que são importantes
também para as relações inter-humanas o contexto.
dos personagens que os protagonizam e
Flaubert e Zola iniciaram suas atividades
importantes para a significação social do
depois da batalha de junho de 1848,

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numa sociedade burguesa já cristalizada que os escritores são “filhos da época em que vivem”,
e constituída. Não mais participavam segundo Lukács.
ativamente da vida desta sociedade e nem
mesmo queriam participar. Nessa recusa Em suas opiniões subjetivas e em seus
se manifesta a tragédia de uma importante objetivos como escritores, Flaubert e Zola
geração de artistas da época de transição, não são de modo algum defensores do
já que a recusa é devida, sobretudo, a uma capitalismo. Mas são filhos da época em
atitude de oposição, isto é, exprime o ódio, que viveram e, por isso, a sua concepção
o horror e o desprezo que eles manifestam do mundo sofre constantemente a
diante do regime político e social do seu influência das ideias do tempo. Isso é válido
tempo. Os homens que aceitaram a evolução principalmente para Zola, cuja obra foi
social desta época tornaram-se estéreis decisivamente marcada pelos preconceitos
e mentirosos apologistas do capitalismo. banais da sociologia burguesa. Essa é a razão
(LUKÁCS, 2010, p.157) pela qual a vida se desenvolve nele quase
sem saltos e articulações, podendo mesmo
Então, Lukács faz a relação das formas ser considerada, da sua perspectiva, como
Naturalista e Realista com os períodos em que socialmente normal. Todos os atos dos
homens aparecem como produtos normais
os autores escrevem e o posicionamento que
do meio social. (LUKÁCS, 2010, p.160-161)
eles possuem perante o contexto. O Realismo
corresponde ao período inicial da constituição do Quando Lukács menciona a influência da
capitalismo e o Naturalismo ao período posterior, em sociologia burguesa, ele se refere ao positivismo,
que o capitalismo já se encontra na forma acabada e à sociologia criada por Comte e Durkheim, que
cristalizada. possuíam essa posição de apenas observadores das
condições e situações sociais e naturalização das
A alternativa entre participar ou observar
corresponde, assim, a duas posições contradições do sistema capitalista. O Positivismo
socialmente necessárias, assumidas pelos e o Darwinismo Social foram duas correntes
escritores em dois períodos sucessivos do que influenciaram para o caráter cientificista do
capitalismo. A alternativa entre narrar ou
descrever corresponde aos dois métodos Naturalismo. Essas correntes afirmavam que os
fundamentais de representação próprios problemas sociais derivavam da miscigenação racial e
destes dois períodos. (LUKÁCS, 2010, p.157)
da desorganização das relações sociais, mas que tais
Lukács chama a atenção para um ponto problemas iriam se extinguir com o progresso do
muito importante em relação aos autores que ele capitalismo e o branqueamento universal.
utiliza para exemplificar a forma naturalista. Ambos, Por isso, utilizando da forma descritiva
Flaubert e Zola, não são admiradores do capitalismo, de retratar a realidade, o Naturalismo acaba
pelo contrário, são opositores e tentam, através da naturalizando e atenuando os problemas e as
escrita, mostrar a situação degradante da sociedade contradições do mundo capitalista, na medida em
capitalista. Émile Zola, principalmente, tenta através que coloca o homem como simples resultado da
da descrição, mostrar a situação de aviltamento em influência do meio. O homem passa a ser apenas
que se encontrava a classe operária no norte da um figurante da história e não mais o sujeito de sua
França, mas o problema se encontra na questão de história. O homem não tem mais a opção da escolha.

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Ele é simples vítima do determinismo. ainda era semicolonial. Na França o processo


econômico já tinha posto o capitalista longe
Para Lukács, o método descritivo é inumano, do trabalhador; mas aqui eles ainda estavam
transforma o homem em natureza morta. ligados, a começar pelo regime da escravidão,
que acarretava não apenas contato, mas
Portanto, seria um erro supor que o exploração direta e predatória do trabalho
método descritivo reflete adequadamente muscular. (CANDIDO, 2011, p.11)
o capitalismo em toda a sua desumanidade.
Ao contrário! Tais escritores atenuam Em O Cortiço, Aluísio de Azevedo faz uma
involuntariamente a desumanidade do
relação de aproximação e distanciamento em relação
capitalismo. E isto porque o triste destino
que faz com que existam homens sem uma ao Naturalismo de Zola. Podemos facilmente
rica vida interior, sem uma viva humanidade identificar personagens que nos demonstram a
em contínuo desenvolvimento, é bem menos
revoltante do que o fato de que o capitalismo influência e a ruptura existente com o tal Naturalismo.
transforme dia após dia e hora após hora, em Para isso, destacaremos três personagens: o
‘cadáveres vivos’ milhares de homens vivos, trabalhador Jerônimo, o capitalista João Romão e a
dotados de infinitas possibilidades humanas.
(LUKÁCS, 2010, p.183-184) escrava Bertoleza.
Jerônimo é a personagem que mais se
enquadra no determinismo característico no
Além do Naturalismo Naturalismo. Ele é o exemplo do homem vencido pelo
meio. Português, trabalhador, homem respeitável e
Segundo a conceituação do Naturalismo sem vícios, tem a sua vida transformada no momento
como a forma descritiva que, e que, portanto, não em que se apaixona pela mulata Rita Baiana. Rita é a
consegue reproduzir a desumanidade do capitalismo, encarnação do “meio” brasileiro. A mulata envolve os
a dúvida que fica é se a obra O Cortiço, de Aluísio de homens com a sua dança, que, na concepção da obra,
Azevedo, deve ser classificada como naturalista? Para aguça a volúpia masculina. Neste sentido, Aluísio de
tentar responder a essa questão, podemos recorrer Azevedo evidencia a relação entre o homem e o meio
novamente ao ensaio De Cortiço a Cortiço, de Antonio quando narra a noite da primeira relação sexual entre
Candido. Neste ensaio, ele nos mostra que existe em Jerônimo e Rita Baiana.
O Cortiço um avanço em relação ao Naturalismo
Rita preferiu no europeu o macho de
europeu. Segundo Candido, o romance de Aluísio foi raça superior. O cavouqueiro, pelo seu
o primeiro a descrever minuciosamente o mecanismo lado cedendo às imposições mesológicas,
enfarava a esposa, sua congênere, e queria
de formação da riqueza individual. E a originalidade a mulata, porque a mulata era o prazer, era
da obra se encontra na retratação da coexistência do a volúpia, era o fruto dourado e acre destes
explorado e do explorador. sertões americanos, onde a alma de Jerônimo
aprendeu lascívias de macaco e onde seu
A originalidade do romance de Aluísio está corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.
nesta coexistência íntima entre explorado (AZEVEDO, 2011, p.279)
e o explorador, tornada logicamente
possível pela própria natureza elementar da Quando Jeronimo se rende ao encanto de Rita
acumulação num país que economicamente Baiana, ele se entrega à volúpia típica destes sertões

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americanos, ao meio brasileiro; sendo comparado a do comportamento humano, que supera o meio. E,
um animal, comportando-se como um macaco. no caso de João Romão, além de superar o meio, ele
A personagem João Romão, por conseguinte, também o modifica, alterando, assim, a influência que
é a oposição ao determinismo característico do o meio exerce sobre os moradores do cortiço.
Naturalismo. Ele é o exemplo do homem que vence Contudo, a personagem Bertoleza é a maior
o meio. Português ambicioso, aproveita todas as representação de como a obra vai além da forma
oportunidades que lhe apresentam para conseguir naturalista. Se Lukács afirma que o Naturalismo
aumentar a sua renda. Na primeira oportunidade, restringe-se a descrever a realidade, a história da
engana a escrava Bertoleza a fim de ficar com o escrava Bertoleza é muito mais que uma simples
dinheiro de sua alforria. No episódio do incêndio descrição da exploração do trabalho humano.
que destrói o cortiço, por exemplo, aproveita a Bertoleza é a representação do posicionamento do
oportunidade para reformar e aumentar o local, autor perante o contexto. Através da cena do suicídio
reajustando o aluguel dos inquilinos. Ao final, ele da escrava, no momento em que o seu explorador
é a personagem que alcança suas metas, através recebia em casa uma comissão de abolicionistas que
da exploração do trabalho humano. E ainda muda vinha trazer-lhe o diploma de sócio benemérito,
seu modo de vestir, comer e agir, incorporando a Aluísio de Azevedo demonstra claramente seu
ideologia burguesa. engajamento, sua crítica ao processo desumano de
exploração do trabalho. Processo este caraterístico e
A perspectiva naturalista ajuda a
compreender o mecanismo d’O cortiço, acobertado pelo mundo capitalista.
porque o mecanismo do cortiço nele descrito
é regido por um determinismo estrito, que
mostra a natureza (meio) condicionando o Considerações Finais
grupo (raça) e ambos definindo as relações
humanas na habitação coletiva. Mas esta
força determinante de fora para dentro A partir da análise feita através da
é contrabalançada e compensada por
conceituação, segundo Lukács, da forma descritiva
uma força que atua de dento para fora: o
mecanismo de exploração do português, caraterística do Naturalismo europeu, pode-se
que rompe as contingências e, a partir do afirmar que O cortiço é uma obra que possui muitas
cortiço, domina a raça e supera o meio. O
projeto do ganhador de dinheiro aproveita influências desse Naturalismo descritivo, mas que
as circunstâncias, transformando-as em se aproxima mais do Realismo narrativo, na medida
vantagens, e esta tensão ambígua pode talvez em que: se o meio determina o homem, o homem
ser considerada um dos núcleos germinais da
narrativa. (CANDIDO, 2011, p.24) consegue também superar o meio, demonstrando
que existe, nessa obra, uma relação dialética entre o
Essas duas personagens apresentam a homem e o meio.
relação dialética que encontramos na obra. Relação
Além disso, o autor não faz uma simples
essa entre o indivíduo e o meio. Na medida em
descrição do cortiço e de suas relações visíveis.
que existe uma força do meio, que influência no
Ele narra a história da acumulação primitiva de
comportamento humano, existe, também, uma força

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capital do português, utilizando-se de elementos SCHWARZ, Roberto. Adequação nacional e


alegóricos e manifestações simbólicas, que podem originalidade crítica. In: Sequencias brasileiras. São
ser tomadas como descaracterizações do formalismo Paulo: Companhia das Letras, 1999.
naturalista, na medida em que se distanciam da
visão cientificista do mundo. Aluísio de Azevedo
não se restringe a descrever a realidade de forma a
naturalizar as contradições do mundo capitalista.
A relação íntima, com um final trágico entre o
capitalista João Romão e a escrava Bertoleza, relação
íntima entre explorador e explorado, é um exemplo
da desnaturalização da relação de exploração do
trabalho humano característico do mundo capitalista.
Ao dar à personagem Bertoleza o final épico do
suicídio, o autor traz ao primeiro nível da narrativa,
descortinando, aos olhos do leitor, sua crítica em
relação à desumana exploração advinda do sistema
capitalista. Assim, é possível concluir que classificar
O Cortiço de Aluísio de Azevedo como uma obra
simplesmente naturalista, se torna um reducionismo
literário.

Referências Bibliográficas:

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Expressão


Popular, 2011.

CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. 8ª Edição.


São Paulo: Publifolha, Coleção Grandes nomes
do pensamento brasileiro, 2000.

______. De cortiço a cortiço. In: AZEVEDO, Aluísio.


O cortiço. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

LUKÁCS, György, Narrar ou descrever?. In:


Marxismo e teoria da literatura. 2ª Edição, São Paulo:
Expressão Popular, 2010.

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