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Pelo que sei, não há Cais da Beira do Lago.

Eu precisava ficcionalizar esta área para os propósitos deste


livro.
Quatorze anos antes

Minha colega de quarto no internato é uma princesa da máfia.

Embora eu não tenha descoberto isso no começo, os seis meses


que se passaram foram sem nenhum tipo de contratempo.

Quando entrei pela primeira vez em nosso quarto, reparei a sua


roupa de cama que mais parecia uma nuvem com luzes de cristal ao
seu redor, a quantidade enorme de fotografias que ela tinha colado
na parede em forma de coração e, a tela emoldurada com uma
citação em letras brilhantes dizendo, Contos de Fadas Acontecem.

E essa foi a única coisa que me fez parar, porque eu não era esse
tipo de garota.

Eu tinha sido enviada para Academia Hillcrest um pouco contra


a minha vontade, mas também nem tanto. As brigas entre meus pais
estavam piores, e embora morássemos em uma mansão e eles as
mantivessem em suas alas, eu ainda podia ouvi-las. Não era difícil,
quando eu me esgueirava para dormir no corredor ao lado do deles.
Eu era filha única e solitária. Talvez, nem todas as crianças de 12
anos tenham essa percepção, mas eu tinha.

Eu também tinha a percepção de que, enquanto amava minha


mãe, eu detestava o campo de batalha que estava em nossa casa, e
meus ombros cederam de alívio diante da calmaria na Academia
Hillcrest.
No dia em que me mudei escutei alguns gritos, alguns risos,
música tocando e uma mãe que gritara com um garotinho que corria
por baixo das minhas pernas e saía pelo corredor, mas nada disso
era realmente barulho. Isso nunca se igualaria aos gritos, as brigas,
ao som das paredes sendo atingidas e, especialmente, não à última
coisa que eu ouvira duas noites antes de vir para cá: um grito
horripilante.

Eu nem estava no corredor dos meus pais quando ouvi isso. Eu


estava em minha ala, tendo desistido de tentar estar perto deles,
mas ainda assim, dei um pulo da minha cama.

Eu relaxei depois de alguns momentos quando nenhum outro


som se seguiu, sentindo e ouvindo meu coração batendo acelerado
no meu peito. Eu não fiquei completamente chocada, quando a
secretária do meu pai me disse no dia seguinte para começar a fazer
as malas. Eu estava indo para o internato.

Meu pai foi embora no dia seguinte.

Minha mãe chorou em seu quarto o dia todo.

Foi-me dito por Claude, nosso mordomo, quando eu deveria


estar pronta para sair. E foi só quando eu estava na porta, sentindo
todos os tipos de borboletas estranhas e doentias no meu estômago,
que minha mãe veio até à entrada. Ela parecia tão frágil.

Ela sempre foi magra, mas eu teria a imagem dela naquele dia
gravada no meu cérebro para sempre.

Ela se arrastou para frente, como se caminhar fosse doloroso,


vestindo um robe transparente com uma camisola branca por baixo.
Seus pés mal poderiam ser vistos através do robe, mas quando o
fizeram, vi que ela usava seus chinelos felpudos. Eles eram os seus
favoritos. Ela os usava quando fazia as unhas, mas hoje, além deles,
ela também tinha um lenço em volta do cabelo protegendo metade
do seu rosto. A parte visível estava perfeitamente maquiada com
batom rosa brilhante sobre a boca e, a pele apresentava um aspecto
mais suave. Óculos de sol escondiam os olhos dela.

Dei um passo ao lado de Claude quando os vi. Eu não pretendia.


A visão da minha mãe usando óculos escuros não era incomum, e
não era incomum que ela os usasse dentro de casa também, mas
hoje era o dia em que eu estaria indo embora.

Eu queria ver os olhos da minha mãe antes de ir.

Ela não os tirou, mas se ajoelhou na minha frente, onde eu


estava meio escondida atrás de Claude e abriu os braços.

Corri até ela, jogando meus braços em volta do seu pescoço. Eu


não me importava com o quão magra ela estava. Enrolei minha
perna ao redor da sua cintura, e ainda ajoelhada, ela me pegou e me
segurou. Ela correu uma mão suave pelas minhas costas, inclinando-
se para beijar meu ombro.

— Eu te amo, meu pequeno raio de sol. — ela sussurrou. —


Divirta-se nessa nova escola. Faça novos amigos. — ela me apertou
com força.

Claude pigarreou, abrindo a porta atrás de nós.

Eu recuei relutantemente quando ela me soltou.

Claude já tinha colocado minhas malas no carro. Ele não ia


comigo para a nova escola. Meu passeio de carro seria designado por
Janine, à secretária que me disse que eu iria para o internato no dia
anterior. Eu não tenho dúvidas, de que ela fizera todos os
preparativos para mim.

Quando saí pela porta, olhei por cima do ombro.

Uma única lágrima correu pelo rosto da minha mãe.

Essa foi uma das últimas vezes que eu a vi.


Dias de hoje

— Morra, você voa!

Eu fixei os meus olhos com os de uma mosca negra, ou talvez


nossos olhos não estivessem fixos, mas ela estava empoleirada na
rocha ao meu lado. Ela seria abatida. Ela esteve me atormentando
pela última hora. Eu estava do lado de fora tentando limpar o
quintal, mas estava enlouquecendo com essa maldita coisa
zumbindo ao meu redor.

Ela estava zombando de mim, me provocando. Ela voava para


longe toda vez que eu tentava pegá-la. Ela era muito rápida e,
quando pousou no meu ombro, eu ataquei ao mesmo tempo em que
a porta de tela se abriu. Ouvi seu rangido do outro lado do pátio, logo
antes de uma dor entorpecente explodir no meu ombro.

— Ry... você acabou de acertar a si mesma?

Porra. Porra. Porra.

Eu gemi com meus joelhos se dobrando.

Eu tinha.

Eu balanço com a pedra em minhas mãos, e começo a sentir o


sangue escorrer pelo meu ombro e braço. Minha manga estava
rapidamente ficando vermelha.
A filha da puta estava tentando me enganar para me matar.

— Merda.

A porta se fechou e ouvi os pés de Blade descendo as escadas,


enquanto ele corria para mim. O cascalho rangia sob seu peso e
então ele deslizou atrás de mim. Suas calças rasgariam, mas
conhecendo Blade, ele não se importaria.

Ele raramente se importava com suas roupas. Nós estávamos


felizes que ele as usasse a maior parte do tempo.

— Porra. — Ele xingou baixinho, seus dedos muito bronzeados


e ligeiramente oleosos, foram gentis quando ele olhou para o meu
ferimento. Seus olhos escuros pareciam penetrar no meu ombro,
antes de se sentar em seus calcanhares passando a mão pelos seus
dreads. — O que você estava fazendo?

Eu não ia admitir que uma mosca me enganou.

Enquanto eu estava trabalhando no quintal, Blade ficou meio


esquisito. Durante todos esses anos em que viveu conosco,
contentou-se em limpar o interior. Ele fazia a maior parte da comida,
da limpeza e da louça, e não era incomum voltarmos do
supermercado e encontrá-lo com um avental de limpeza, um
espanador... e nada mais.

Então, ele vir me procurar do lado de fora, não era normal.

— O que está acontecendo? — Eu empurrei minha cabeça em


direção a casa, ouvindo a televisão estridente.

Seus olhos preocupados se ergueram para os meus e um olhar


totalmente diferente passou sobre ele.
Meu nível de alarme subiu três degraus.

Entre nós três, que morávamos nesta pequena cabana fora de


Calgary, ou Cowtown, como nós chamávamos às vezes, Blade era
aquele que não se preocupava com as coisas. Ele gostava de se
entregar a maconha, manter o cabelo em dreads apertados e se
vestir como uma criança dos anos 60. Em um colete marrom, sem
camisa e com uma bandana tingida sobre o cabelo, só que em vez de
boca de sino, ele usava jeans apertados e gastos e tênis normais. Ele
lidava com todas as nossas coisas de computador e quando nós
entramos, eu não fiquei surpresa ao descobrir que tinha colocado a
notícia que estava em seu computador, na tela principal da televisão.

Eu também não fiquei surpresa em estar assistindo a um


relatório da cidade de Nova York.

. —.. ennet, a princesa da máfia está desaparecida há quarenta


e oito horas agora.

Gelo cobria minhas entranhas.

Uma foto da minha antiga colega de quarto do internato,


Brooke Bennett, apareceu na tela, junto com números para ligar
caso ela fosse encontrada.

Encontrada…

Como assim, ela estava desaparecida?

Eu senti um soco no peito.

Brooke estava desaparecida.


Atordoada, estendi a mão para uma cadeira para me sentar.
Blade se moveu para o meu lado.

— Essa é a sua antiga colega de quarto, certo? — A cadeira


rangeu. A mão de Blade deixou meu braço e sentou ao meu lado. —
A que você teve naquela escola rica.

Eu quase bufei com as palavras dele, mas ainda estava


atordoada. Eu assenti em vez disso.

Brooke. Cara.

A notícia mostrava fotos de suas contas de mídia social, e ela


estava linda. Quatorze anos. Eu não sei porque esse número
apareceu na minha cabeça, mas parecia certo. Será que era pelo
tanto tempo que passou desde a última vez que a vi, ou pelo fato de
que se passaram quatorze anos desde que nos conhecemos? Dá no
mesmo.

— Ela sempre foi tão feminina. — eu murmurei quase para mim


mesma. Ela era tão cheia de vida.

Eu não. Eu era um zumbi traumatizado e entorpecido quando


caminhei para dentro daquele o quarto.

— Oh meu Deus! Você deve ser minha colega de quarto! — Ela se


lançou por trás de mim no momento em que entrei no quarto,
envolvendo seus braços ao meu redor. Seu rosto pressionou meu
ombro.

Janine gritou: — Oh meu...

Eu ignorei a secretária do meu pai, e só levou um segundo antes


da garota me soltar e correr para a minha frente. Suas mãos foram
para os meus braços, logo abaixo dos meus ombros e ela me olhou de
cima a baixo.

Eu fiz o mesmo: olhos ovais pretos, seus cabelos em um tom


escuro e impecável, nariz arrebitado, boca pequena, mas lábios
modelados, como aqueles no carimbo do meu último convite para
festa no Dia dos Namorados, cheios e carnudos.

Eu estava com um pouco de inveja ou tão invejosa quanto eu


poderia começar a ser, já que geralmente esse não era o meu tipo. Ela
tinha um queixo pequeno para completar seu rosto perfeito em forma
de coração, e seus olhos eram brilhantes e vivos.

Esse foi o único momento em que eu realmente fiquei com inveja


dela. Vida. Ela teve o que eu não tinha. Eu não estava com inveja de
sua aparência, embora, talvez se eu tivesse tido uma criação diferente,
eu também seria assim? De certa forma, isso era algo pelo qual eu era
grata. A vida significava mais para mim do que aparência ou ter
coisas. Significava anseio por segurança, sorrisos e, a sensação de ser
amada.

As outras garotas tinham inveja do dinheiro dela. Para uma


escola de crianças ricas, todo mundo parecia estar chateado com
quanto dinheiro eles tinham. Elas sempre queriam mais, e pareciam
saber quem tinha mais. Eu estava na extremidade inferior da
multidão rica, mas Brooke, como sussurravam na escola, estava no
topo.

Outros tipos de sussurros e olhares ocorreram, mas nós éramos


doze no nosso primeiro ano lá. Eu não entendia o que a palavra máfia
realmente significava, mas era usada frequentemente como uma
provocação em nosso segundo semestre em Hillcrest. No primeiro
semestre, não tivemos esse tipo de intimidação. Algumas garotas
gostavam de nós e outras não. Algumas saíam conosco e nosso quarto
ficou conhecido como o —cara gostoso. — Não porque nós tínhamos
caras lá. Longe disso. Eu teria morrido se um cara gostoso sequer
olhasse para mim. Não. Não. O nosso quarto tinha esse nome, por
causa de todos os cartazes e fotografias de Brooke estampadas em
todo o nosso quarto. Todos de caras lindos.

Nunca fez muito sentido que algumas de suas fotos não


parecessem profissionais, mas os pôsteres eram reais e quem não iria
babar em cima de uma foto de Aaron Jonahson, o melhor jogador de
futebol dos Estados Unidos, ou o ator do programa de televisão
favorito de todos, ou o modelo quente que antes disso tinha sido um
condenado. Brooke parecia ter todos os caras cobertos, mas algumas
fotos pareciam instantâneas. Qual era realmente a verdade?

Eu descobri nas férias: eles eram sua família.

Eles não eram celebridades — não no sentido que eu entendia


naquela época — eles eram seus irmãos, todos os quatro.

Cord era o mais velho, tinha dezoito anos.

Kai tinha quinze anos.

Tanner tinha quatorze anos.

Brooke tinha doze anos.

E Jonah era o mais novo, com nove anos.

Brooke era discreta sobre sua família, muito discreta. Mas


quando descobri que aqueles meninos eram seus irmãos e os seus
nomes, eu fiquei fascinada. Eu não podia mentir sobre isso. Eu só não
sabia por quem eu estava ficando obcecada.

Cord mantinha o cabelo curto, cortado acima de seu rosto mais


angular. Brooke me disse que ele geralmente era reservado e artístico.
Ela quase assobiou quando usou essa palavra, como se fosse uma
maldição, mas depois deixou pra lá.

— É a verdade. Ele quer ser pintor um dia.

O próximo na fila não tinha sido mencionado, Kai. Ela o pulou e


mordeu o lábio, parando antes de apontar para Tanner. Quando ela
fez, seus olhos se iluminaram e um sorriso brilhante tomou conta de
seu rosto.

— Tanner tem esse cabelo desgrenhado que ele pinta de loiro, e


às vezes, está escuro quando eu o vejo. Ele é engraçado, Ry. Ele é tão
engraçado, mas ele também tem uma atitude. Todas as garotas daqui
morreriam por ele, literalmente, apenas morreriam.

Eu ainda me lembrava de todos os e-mails que ela recebia de um


@tanneremsuamãe — quase toda a sua caixa de entrada era de e-
mails dele.

Quando ela chegou à foto de Jonah, se acalmou, mas um carinho


brilhou através de seu rosto. Ela falou quase como se ele estivesse no
quarto e as palavras pudessem quebra-lo.

— Jonah é o bebê. — ela disse gentilmente. — Ele adora Kai... —


Ela fez uma pausa e coça a testa antes de continuar. — Mas ele não se
parece com o resto de nós. — Foi tudo o que ela disse sobre ele.
Eu inspecionei a foto dela e dele juntos. Ela puxava Jonah para o
colo, os braços ao redor dele e seu rosto ainda de bebê pressionado
contra o dela enquanto ele sorria. Sua pele tinha um tom mais escuro
do que os outros, mas todos eles tinham traços faciais exuberantes.
Todos com os olhos escuros.

Cord e Kai tinham cabelos negros nas fotos. O de Tanner era mais
claro e, o de Brooke, é um adorável tom de preto acobreado. O cabelo
de Jonah combinava com o dela, com uma pontada de ondulação
também. O de Tanner era comprido, todo espetado. O de Kai era curto,
onde uma mão podia passar facilmente e cair de volta no lugar,
apenas um toque mais longo do que o cabelo de Cord.

Voltei minha atenção para a televisão agora, voltando ao


presente.

Nas fotos na tela, o cabelo de Brooke ainda era do tamanho que


eram na escola. Ela o manteve aparado logo acima da cintura e tinha
sido inflexível que ninguém iria cortá-lo. Ela sussurrou uma noite
sobre uma briga com o pai, onde ele foi atrás dela com uma tesoura.
Mas o cabelo dela ainda era longo quando ela me disse então,
qualquer que fosse a briga, ele não tinha tido sucesso. E como todas
as outras vezes que ela falou sobre sua família, ela não entrou em
detalhes. Ela sempre dizia apenas o suficiente para que eu soubesse
do que ela estava falando e então ela se fecharia. Seus ombros
estremeceriam antes que uma parede se levantasse, e naquela noite
não tinha sido diferente.

Um suspiro suave me deixou enquanto eu continuava a


observar as imagens no noticiário.
Brooke levantava o queixo orgulhosa, enquanto seu cabelo em
uma trança se curvava em volta do pescoço. Em outra, ela fazia uma
pose sensual em um biquíni. Ela poderia ter sido uma modelo,
exceto, talvez, por não ter altura, não como eu. Ela era um
centímetro mais baixa que eu na escola, embora, agora eu tivesse
disparado ainda mais para um e setenta e cinco.

Eles nos provocavam sobre sermos irmãs na escola.

Eu amava, embora nunca tenha dito uma palavra, não sabia se


Brooke gostaria disso. Ela nunca falou nada nem a favor ou contra
isso, mas agora, eu podia ver porque as pessoas pensavam dessa
maneira. Nós duas tínhamos cabelos pretos. Ok. Talvez eu não
pudesse ver o porquê agora, pois esse era o fim de nossas
semelhanças. Brooke tinha um rosto mais redondo. Eu tinha a pele
mais clara, meus olhos eram mais estreitos e meu rosto um pouco
mais fino. E eu era mais alta, sempre fui mais alta.

Brooke costumava dizer que eu poderia ser uma modelo, mas


ela estava errada. Ela seria a futura modelo. Eu via a prova agora.

Ela parece ter ficado um pouquinho mais alta também, talvez


mais um centímetro, mas só isso. Não importa. Brooke poderia ter
sido uma modelo só porque se transformara em uma celebridade, e
era por isso que a história de que ela estava desaparecida havia sido
captada por um canal de notícias da cidade de Nova York, onde eu
achava que ela não morava.

— É ela, certo? — Blade questionou novamente. Ele empurrou


a cadeira para trás enquanto eu ouvia os sons de um carro se
aproximando do lado de fora.
Vivíamos perto de Cowtown, mas nos mantivemos na floresta
por um motivo. A cabana que estávamos alugando pertencia a um
amigo, de um amigo, de um amigo de outro amigo, e provavelmente
havia outros três pares de amigos antes de chegarmos ao
proprietário. Havia uma razão para isso, assim como havia uma
razão pela qual Blade correu para o seu computador, desligando a
notícia enquanto ele trazia o feed dos sensores eletrônicos do lado
de fora.

Um segundo depois, ele relaxou e virou a tela de volta.

Tudo estava claro. Era a nossa terceira colega de quarto, Carol.


Mas eu não estava prestando atenção a ela, ou ao som que ouvi
quando a porta de tela se abriu e algo caiu com um baque no chão.
Carol amaldiçoou.

Meus olhos voltaram para a tela, colados ali, porque uma


imagem de Kai Bennett aparecia agora.

Assim como da última vez que vi minha amiga, a bile de ódio se


acumulou em minha boca. Kai olhou para a câmera, oferecendo a
quem quer que tenha tirado a foto, o mesmo olhar que ele me dera
antes de levar minha colega de quarto para longe tantos anos atrás.

Enquanto eu não conseguia me lembrar da última expressão no


rosto de Brooke, eu não conseguiria esquecer a dele jamais.

Morte.

Seus olhos estavam mortos, exatamente como naquela época.

Um arrepio subiu pela minha espinha. Eu só vi Kai Bennett em


pessoa uma vez, mas foi o suficiente.
Eu o odeio.

Treze anos atrás

— Riley, querida?

Eu gostava da Sra. Patrícia. A maioria dos nossos outros


professores eram mesquinhos, sempre gritando quando falavam
conosco. Não a Sra. Patrícia, ela era gentil. Ela falava com uma voz
suave e talvez seja por isso, que demorou alguns minutos até eu
perceber que ela estava chamando meu nome.

Nós estávamos fazendo um teste e eu estava focada, mas ia


falhar na pergunta dezesseis. Eu sabia, mas quando senti um tapinha
no ombro da aluna atrás de mim, levantei minha cabeça.

Sra. Patrícia estava em pé na porta com a diretora ao lado dela,


e ela não estava usando o mesmo sorriso da minha professora.
Espere. Sentei-me ereta no meu lugar. A diretora nunca veio atrás
de mim... e sua testa parecia enrugada, sua boca sempre de
desaprovação, agora se voltava ainda mais para baixo.

Foi quando eu notei a Sra. Patrícia, realmente a notei. Ela não


estava sorrindo para mim. Bem, ela estava, mas estava cheio de
tristeza e outra coisa.

Ela me fez um sinal.


— Você pode vir aqui, Riley?

Comecei a sentir o mesmo entorpecimento que levei quase um


ano para perder, quando me levantei da mesa.

Simpatia. Eu nomeei sua falta de emoção então. Ela estava com


pena de mim.

Minha mãe…

Senti uma bola na garganta e isso só cresceu quando eu comecei


a andar em direção a ela.

— Traga seu teste, Riley.

A diretora latiu.

— Traga tudo! Você não vai voltar.

Isso chamou a atenção de todos. Suas cabeças, até aquelas que


não estavam olhando, se levantaram como a minha.

Sra. Patrícia se afastou, seus lábios se apertaram enquanto


lançava um olhar para a diretora antes de se aproximar da minha
mesa. Ela se inclinou para pegar meus livros.

Recolhendo tudo para mim, ela assentiu.

— Eu vou segurar suas coisas para você, Riley.

Eu estava com problemas? Era minha mãe?

Eu tentei perguntar a ela com meus olhos, mas ela não estava
olhando para mim. Na verdade, enquanto eu caminhava ao lado dela
pelo corredor em direção à porta, ela engoliu em seco e desviou o
olhar. Ela agora estava ativamente evitando meu olhar.

Isso não era bom. De modo nenhum.

— Venha, Riley. — Havia aquele mesmo tom curto da diretora.


Ela sacudiu a mão, apontando para o corredor. — Você é necessária.

Eu era necessária? Ninguém precisava de mim.

Mas a diretora já estava caminhando a passos largos e, eu corri


para alcançá-la. Baixei a cabeça, embora os corredores estivessem
vazios. Era assim que eu andava em Hillcrest. Brooke era o oposto.
Ela levantava a cabeça e suas mãos estavam sempre acenando no ar.
Quando ela falava, todos ouviam, mesmo que você não quisesse.

Isso começou a irritar os nervos de algumas das garotas das


classes mais altas. Eu senti a inveja e a amargura vindo delas, mas
quando eu mencionei isso para Brooke, ela riu e disse:

— O que elas vão fazer? Me pegar?

Ela estava zombando quando acrescentou o último pedaço, mas


havia uma aspereza em seu tom.

Eu nunca trouxe isso de novo. Essa não era a Brooke normal


que eu conhecia, mas às vezes, eu ouvia aquele lado dela saindo ao
telefone, quando ela estava conversando com sua família. Sempre
com sua família.

Ela era tão secreta sobre eles.

Enquanto seguia a diretora pelo corredor, eu supus que


estaríamos indo para o escritório dela, ou até mesmo para o meu
quarto, mas quando ela desviou para a entrada da frente, diminuí a
velocidade.

Indo para a porta, ela se virou e sacudiu a mão em direção a ela,


o mesmo movimento rápido e afiado de antes.

— Sua presença é necessária lá fora. — Sua mão alisou a saia


lápis e endireitou o colarinho, antes de levantar o queixo e começar
a sair.

— Oh.

Eu olhei de volta para ela.

Uma carranca feroz nublou seu rosto e, a aversão brilhava nos


olhos dela.

— Você não deve falar uma palavra disso para ninguém. Você
entende?

Eu balancei a cabeça lentamente.

Ela fungou, girando de volta como se fosse um soldado.

— Você está dispensada de todas as aulas, até que a Srta.


Bennett não precise mais de você.

E com isso ela se afastou, seus saltos recortando um som afiado


no chão.
Dias de hoje

Kai Bennett ainda parecia o mesmo que naquele dia: olhos


negros quentes, maçãs do rosto salientes, os mesmos traços
exuberantes de todos os seus irmãos.

Eu me lembrei daquele dia e eu odiei isso, mas o mesmo arrepio


se enrolou em minha espinha e estava se contorcendo ao meu redor,
porque isso era ruim. Isso era muito ruim.

— Quem quer experimentar Chips de clara de ovo e vomitar


comigo? — Carol jogou os sacos de salgadinhos no balcão. —
Alguém? Alguém? — Sua voz caiu para imitar. — Bueller? Bueller? –
no padrão do dia de folga de Ferris Bueller². Passando pelas malas,
ela continuou: — A propósito, consegui um novo emprego, então
depois que vocês me derem uma salva de palmas, eu estava
pensando que todos nós poderíamos nos perder hoje à noite. O
trabalho paga melhor. Mais dinheiro para as contas, certo?

O farfalhar parou.

Sua voz ficou mais clara.

— Alguém? Bueller?

Silêncio.

Silêncio absoluto.
Eu tinha que desviar o olhar, mas não conseguia.

Blade tinha apertado o botão de pausa quando Carol entrou


então, eu estava olhando para aqueles olhos escuros e sentindo meu
interior murchar em uma poça.

Eu estava perdida em minhas memórias novamente. Eu voltei


para aquele dia.

Eu não estava preparada naquele dia. Eu pensei que estava


considerando o status de Kai e sua família. Mas naquele dia, tinha sido
a primeira vez que abri os olhos sobre o quão poderosa a família
Bennett era, e quando falo família Bennett, eu realmente quero dizer
A Família Bennett.

Eles eram mafiosos e implacáveis.

Brooke soube que o pai e o irmão estavam vindo visitá-la.

Tínhamos dias de visita em Hillcrest, mas Brooke ser liberada da


aula e estar esperando por eles nos degraus da frente da escola, não
era normal. Se uma família ligasse antecipando a visita eles teriam o
aluno esperando por eles, mas geralmente em seu quarto, não nos
degraus da frente. E não teriam sua colega de quarto/melhor amiga,
agindo como uma fonte de apoio.

Brooke estava pálida quando abri as portas, curvada com os


braços ao redor dos joelhos. Ela levantou a cabeça para olhar para
mim e eu vi lágrimas em seu rosto. Elas estavam frescas.

Mesmo quando me sentei ao lado dela, ela não conseguia parar


de chorar para falar. Um som gorgolejante saiu de sua garganta
quando ela tentou, então acabei dizendo a ela que tudo ficaria bem.
Eu não tinha ideia do que estaria bem, mas não sabia mais o que
dizer.

Eu a puxei em meus braços limpando o rímel borrado e as


lágrimas, e acariciei seus cabelos e costas. Ficamos sentadas por
quarenta e cinco minutos. O sinal tocou e eu fiquei tensa, sabendo que
algumas das garotas sairiam para ver o que estava acontecendo.
Algumas das salas de aula tinham janelas de frente para onde
estávamos então, eu não tinha dúvidas de que elas tinham nos visto.

Quando ninguém saiu, olhei para trás.

A diretora e três outros professores estavam lá de braços abertos,


impedindo as pessoas de virem até nós e empurrando-os até a próxima
aula, e mesmo assim, a diretora havia ficado.

Ela olhou para mim e eu vi o medo dela.

Foi breve e passou muito depressa, mas ficou no meu interior.

Pensando nisso agora, percebi que tinha sido a primeira vez que
senti medo de Kai Bennett. Houve um desconforto quando Brooke
falou sobre ele, ou porque ela não falou sobre ele. Ela falou sobre Cord,
ela estava orgulhosa dele. Ela se entusiasmou com Tanner e adorava
Jonah. Mas com Kai havia uma tensão. Ela tinha medo dele.

Antes, eu só achei que ela não queria que eu pensasse nele. Eu não
pensei, eu acho. Eu sabia que havia um ar de mistério ao seu redor, e
embora eu tenha tentado não ficar, de uma maneira inversa, eu fiquei
mais fascinada com ele.

De todos em sua família, Kai Bennett era o mais importante..

Ele era o mais bonito.


Ele tinha hipnóticos olhos escuros, mas eles eram algo a mais
nele. Mais quentes. Mais poderosos. E me deixavam mais hipnotizada.

Mais fascinantes.

Ele tinha os mesmos traços faciais que os outros, uma boca


perfeita e exuberante, como se fosse feita para beijar. E ele tinha o
corpo de um jogador profissional de futebol ou surfista. Não havia
nem um centímetro de suavidade em suas fotos, e sentia meu rosto
corar até agora, quando me lembrava de quantas vezes sua foto me
cativou. Foi o seu rosto que mais estudei que mais sonhei e que mais
fantasiei.

Mas naquele dia ele matou isto.

Quando os carros entraram no estacionamento da escola, Brooke


ficou de pé. Momentos depois, ela caiu.

Eu a peguei, um braço ao redor dela para segurá-la e ela


começou a tremer.

Ela continuou tremendo enquanto soluçava, mas olhava para


frente o tempo todo. Ela nunca se afastou. Sua mão agarrou a minha
até ficar dormente.

Um SUV preto veio até um pouco mais à frente da escola e parou.

Um segundo SUV parou bem na nossa frente.

Um terceiro SUV estacionou atrás dele.

Um quarto permaneceu na entrada do estacionamento,


bloqueando parcialmente qualquer outra pessoa que tentasse entrar.
Eu não estava preparada para o espetáculo que veio depois disso.

Todas as portas se abriram de uma só vez.

Os motoristas dos quatro carros saíram e ficaram de guarda.

Então, as portas do passageiro se abriram e mais guardas


emergiram alerta.

As duas únicas portas que permaneceram fechadas eram as duas


traseiras do SUV bem na nossa frente. O segundo SUV.

Dois guardas se aproximaram e foram para cada lado do


segundo veículo, cada um deles, como se tivessem ensaiado (e
poderiam tê-lo feito) abriram as portas.

Um homem mais velho, de terno, saiu da porta mais próxima a


nós. Ele não era alto; ele tinha estatura mediana, talvez um e setenta,
tinha a cabeça cheia de cabelos escuros grisalhos. Eu vi os mesmos
olhos e o mesmo queixo que Brooke tem o mesmo rosto que o dela e os
de seus irmãos.

Este era o pai dela.

Ela nunca falava sobre ele.

Ela nunca falava sobre sua mãe também.

Era apenas Cord, Tanner e Jonah.

Nenhum pai, nenhuma mãe e quase nenhum Kai.

Eu olhei para o outro lado do SUV e ele estava parado lá.

Eu respirei fundo.
Tudo havia parado por um segundo, era como se o mundo tivesse
parado completamente.

Eu não estava preparada para Kai Bennett.

Então novamente, como eu poderia? Isto não é normal. Ele não é


normal.

Nas fotos sua atração era excessiva, mas pessoalmente? Era


astronômico.

Ele olhou para cima e procurou primeiro sua irmã. Brooke se


aquietou como se sentisse seu olhar, então seus olhos se moveram
para mim.

Eu senti um soco no meu esterno, junto com uma explosão de


gelo.

Ele era frio, calculista e implacável. Eu senti tudo de uma vez.

O ar crepitava ao redor dele, o poder saindo dele em ondas


enquanto ele contornava o carro para ficar ao lado de seu pai.

Eu senti um puxão na minha barriga em direção ao Bennett mais


velho. Ele também era perigoso. Eu não poderia explicar como eu
sabia, mas eu senti isso. Eu poderia provar isso. O pai de Brooke não
era o mais perigoso dos dois. Kai era. Eu não conseguia tirar meus
olhos do rosto dele e ele sabia disso, e como eu também sentia isso, não
tinha ideia.

Ele sabia o efeito que tinha em mim e não era normal, mas ele
não se importava. Uma onda de constrangimento tomou conta de mim
aquecendo meu pescoço e bochechas, e foi só então que desviei meu
olhar para trazer Brooke para mais perto de mim. Eu não tinha
certeza se estava consolando ela ou a mim mesma.

— Papai — ela disse, seu corpo endurecendo em meus braços.

— Minha filha.

Minha pele se arrepiou quando ouvi sua voz.

Eu tentei checar minha reação, mas quando desviei o olhar, ele


deslizou sobre Kai e suas narinas se abriram. Ele sabia o que eu sentia
em resposta ao pai deles; Eu não consegui esconder isso. Em vez disso,
abaixei a cabeça e fiquei imóvel. Eu era uma estátua, do jeito que eu
ficava quando meu pai passeava pela casa nos momentos em que sua
raiva deixava seu quarto.

— Cara! — Uma mão acenou na frente do meu rosto.

Eu voltei para a realidade, deixando um gosto amargo na minha


boca.

Eu estava aqui na cabana, não na escola. Não naqueles degraus.


Aqui, em Cowtown. Calgary. Eu não estava mais lá, mas cara, eu me
senti presa no passado.

— Riley. — A cabeça de Carol se virou quando ela falou com


alguém. — Ela está fora, como sair fora. É estranho.

Carol recuou quando Blade se adiantou.

Eu me puxei para fora das minhas memórias e olhei para eles


em pé, juntos, enquanto eles me olhavam, seus braços cruzados
sobre seus peitos.
— Estou bem. Desculpa. — Minhas entranhas tremeram. Eu
tossi e tentei firmar minha voz. — Quero dizer. Eu só fiquei... abalada
por um momento.

Blade grunhiu.

— Eu acho que sim. — Ele voltou ao computador e desligou a


notícia um segundo depois.

Eles me encararam.

— Você conhece a família Bennett, da máfia? — Carol


perguntou, falando quase tão gentilmente quanto a Sra. Patrícia
havia tantos anos atrás.

Esse era o cerne de tudo. Mesmo todos esses anos atrás, eu


sabia quem eles eram.

Houve outra vez, uma que eu não assimilei até mais tarde,
quando ouvi meu pai falar deles e ele estava com medo. Ele estava
no telefone em seu escritório e eu estava passando pela porta. Eu o
ouvi e parei.

Eu nunca ouvi meu pai com medo e ele estava apavorado


naquele dia.

Eu pressionei meu ouvido na porta e não me movi até que ele


terminou seu telefonema. Eu não sabia quem era a máfia Bennett
naquele momento. Eu só sabia que o nome Bennett deixava meu pai
nervoso, e percebi que era bom saber disso. Uma coisa muito boa
para saber.

Talvez, eu devesse ter somado dois e dois no primeiro dia em


que conheci Brooke, mas não foi assim.
Brooke era borbulhante. Ela era uma daquelas garotas que
poderiam ter tido qualquer coisa ou alguém mesmo sendo tão nova,
e ela ainda seria legal. Essa quantidade de poder corrompia uma
pessoa, mas não ela.

Mesmo sendo extrovertida, animada, teimosa e barulhenta, ela


era calorosa e pé no chão. Ok, talvez não realista, mas ela era gentil.
Isso substitui tudo.

Ela era humilde. Ela era excessiva, mas era humilde.

Isso já tinha dito muito para mim mesmo naquela época, e


quando olhei para a tela preta onde a imagem de seu irmão estava
não muito tempo atrás, imaginei se ela permanecera fiel a si mesma
até que desaparecesse.

Senti Carol e Blade esperando que eu falasse. Abaixando minha


cabeça como fiz todos aqueles anos atrás, comecei a explicar.

— Por um ano e meio da minha vida, antes de tudo dar em


merda, Brooke era minha melhor amiga.

Eram duas e quinze da manhã e eu olhei para os meus colegas


de quarto.

Eles estavam enrolados em cobertores, dormindo na sala de


estar. Blade pegou a cadeira, suas longas pernas descansando na
mesa de café. Carol estava torcida em seu cobertor no sofá em frente
a mim, um fio de baba brilhava em seu queixo e seu cabelo caía sobre
o rosto.

Eles sentaram e me escutaram enquanto eu lhes contava tudo.


O que eu disse não era uma revelação total. Blade sabia que eu
conhecia Brooke Bennett. Eles simplesmente não sabiam o quanto
eu me importava com ela ou o quanto eu detestava seu irmão. Eu
lhes falei sobre o dia em que seu irmão e pai vieram para vê-la.

Eu disse a eles como o pai de Brooke a levou para o parque e


como ela não queria ir com ele.

Como eles conversaram.

Como Kai Bennett tinha me encarado enquanto nós dois


esperávamos, seus olhos sem vida e frios.

Eu disse a eles como eu estava com medo de me mexer, olhar


para ele ou emitir qualquer tipo de som. Eu senti a mesma fúria e
violência nele que eu tinha visto no meu pai, e isso quase me irritou.

E então eu disse a eles como eu estava lá, que ouvi Brooke


gritar.

Ela se dobrou no chão soluçando, enquanto seu pai permanecia


ao seu lado.

Ele tinha acabado de assistir, viu quando sua garotinha, sua


única garota, desmoronou na frente dele e ele não fez um movimento
para confortá-la.

Eu me mexi para tentar ir até ela, mas Kai me bloqueou.

— Ela está bem. — ele disse, como se eu estivesse tentando bater


em um mosquito.

Eu odiava tanto ele quanto o pai com a mesma paixão naquele


momento. Incapaz de conter minha raiva, eu olhei para Kai.
Ele não se importava, nem sequer piscara um olho. Ele apenas
olhou para mim, sem piscar, sem reação.

Quando seu pai voltou Kai se virou para segui-lo.

Ambos ficaram em silêncio enquanto voltavam para o carro e


quase sem pausa esperaram para entrar.

Mas houve uma pequena pausa, e essa fora a única vez que vi seu
irmão hesitar.

O guarda abriu a porta e o pai de Bennett entrou. A porta se


fechou imediatamente e o guarda voltou para o terceiro SUV. Mas Kai
ficou lá por um segundo, apenas uma fração de segundo.

Seu olhar foi para sua irmã, que ainda estava desarrumada em
uma confusão no chão.

Ela se balançou, seus soluços me quebrando. Era o som da


verdadeira agonia, como se alguém tivesse rasgado a alma de seu
coração, ele a encarou. Um piscar de olhos. Seu rosto estremeceu.
Então seu pai o chamou de dentro do carro e a emoção se foi. Tudo o
que ele sentira desapareceu. Seu rosto estava desprovido de toda
emoção quando ele entrou.

A porta se fechou.

Seu guarda retornou a seu assento neste terceiro SUV e, de uma


vez só, todos os guardas restantes voltaram para seus veículos.

Houve uma segunda pausa antes que a caravana se movesse para


frente.
Um a um, os quatro SUVs foram embora e, assim que eles se
foram, eu corri para Brooke. Meu coração estava na minha garganta
quando eu deslizei de joelhos ao lado dela e envolvi meus braços ao
seu redor.

Sua mão tinha se fechado na minha camisa enquanto ela falava.

— Ele... disse, ele disse. Kai, ele matou meu irmão.

Kai o matou.
Houve um rangido no chão, do lado de fora da minha porta e eu
olhei para cima.

Fazia dois dias, mas Blade ainda tinha preocupação em seus


olhos. Não que eu pudesse culpá-lo.

Essa não era eu. Normalmente não. Não mais.

Eu estive em estado de letargia desde que a notícia sobre


Brooke estar desaparecida vazou. Não houve novos relatórios,
apenas especulações de que tinha algo a ver com a família Bennett.
Eu sabia que a família era sempre uma grande notícia, mas eles
residiam em Vancouver, Canadá, onde estávamos. Ainda assim
quando as notícias surgiram sobre Brooke, Blade monitorou as
emissoras nos Estados Unidos, que haviam descoberto com quem
exatamente Brooke estava relacionada. Imagens de Kai Bennett,
junto com Tanner e Jonah inundaram as redes. Era a maior notícia
por lá, embora os canais locais de notícias por aqui fossem mais
moderados, eles sabiam como a família Bennett trabalhava. Se eles
dissessem algo estranho demais ou insinuassem que um dos
Bennetts tinha algo a ver com o desaparecimento de Brooke, eles
sentiriam a força total do poder dos Bennetts.

Isso aconteceu antes.

Uma repórter produziu um programa de horas inteiras sobre a


família Bennett, e ela foi demitida no dia em que foi ao ar. Não havia
nenhuma palavra sobre para onde ela havia ido. Surgiram fotos dela
mais tarde em blogs, mas todas com ela protegendo o rosto e se
escondendo da câmera.

Eu nunca ouvi um pio sobre a repórter depois disso e ela nunca


mais trabalhou como jornalista novamente, eu sabia disso, porque
uma pesquisa no Google com o nome dela não trouxe nada, nem
mesmo do canal que a demitiu.

— Você vai trabalhar amanhã? — Blade perguntou.

Merda. Eu pulei de onde eu estava sentada na minha mesa.

Ele se se encostou ao batente da porta com os braços cruzados


sobre o peito. Hoje ele usava um smoking preto, ainda sem camisa e
seus dreads estavam puxados para trás em um rabo de cavalo solto.

— Hum... — Eu gemi. Eu tive os últimos cinco dias de folga, que


para a casa de repouso seriam umas férias em família.

— Você pode querer conseguir um bronzeado de spray, porque


... você sabe. — Ele sorriu.

Porque todos pensavam que eu estive na Flórida visitando uma


avó que não existia.

Ele estava certo. Eu tinha pego um bronzeado por estar do lado


de fora fazendo o trabalho de jardinagem, entre o seu recado e meu
tempo assistindo as notícias, não poderia se dizer que era um
bronzeado da Flórida.

Suspirei.

— Eu tenho que ir agora. É a minha vez de cozinhar esta noite.


Seus olhos ficaram grandes.

— Espaguete? Por favor, espaguete?

Blade gostava do espaguete com almôndega e legumes que eu


fazia, com macarrão de abobrinha sem glúten, e eu também. Nós
trabalhamos para manter nossos corpos na melhor forma por
razões de trabalho, mas Carol não.

Carol era selvagem, aventureira e um pouco peculiar.

Ela amava porcaria e cada nova moda. Chips de ovos eram os


mais recentes, junto com um monte de novas criações que ela trouxe
para casa. Seu estômago era um bloco de cimento. Coloque qualquer
coisa e ela iria esmagá-lo e pedir por mais. Por outro lado, o
estômago de Blade se rebelava contra alimentos processados. Eu já
não me interessava; Eu simplesmente não gostava disso.

Eu só gostava de algumas coisas: pão, alguma forma de proteína


e qualquer coisa que o mundo naturalmente produzisse. Eu costumo
me abastecer de frutas ou coisas que eu cultivava no jardim. Então,
não, eu não tinha consumido a batata frita na outra noite.

— Oh, e ei... — Sua voz caiu para seu tom sério.

— Sim? — Eu me endireitei.

— Eu recebi uma ligação esta manhã. — Seus olhos perfuraram


os meus. — Você precisa tirar folga da casa de repouso neste fim de
semana. Nós temos um trabalho nos Estados Unidos.

Minha boca secou.

Eu balancei a cabeça.
— Eu concordei. Conte comigo porque eu estava de folga fim de
semana passado, mas não será um problema. Eu pego um feriado
mais pra frente.

Os feriados eram boas moeda de troca, pelo menos para mim,


para nós. Pessoas normais queriam passar seus feriados fora,
queriam passar um tempo com amigos e familiares, mas não nós.
Era o tempo imediatamente depois de um feriado, ou antes, deles,
que precisávamos de folga.

As pessoas tendiam a ter emergências naqueles99 momentos,


mas geralmente não no dia normal.

Ele balançou a cabeça quando um de seus alarmes começou a


apitar e se dirigiu para a sala para verificar.

Eu tive que parar o que estava rolando na minha cabeça e me


concentrar novamente.

Brooke Bennett não era mais minha colega de quarto e nem


minha melhor amiga. Isso acabou há treze anos. Muitas outras
porcarias tinham acontecido na minha vida mudando a direção de
tudo.

Eu não era mais a filha de Bruce Bello.

Quando minha mãe morreu, o mesmo aconteceu com a filha


dele. Minha morte foi diferente e muito mais longa.

Esta era a minha vida agora.

Eu morava fora de Calgary, e sim, eu estava me escondendo


com Blade e Carol. Nós estávamos fazendo muito mais do que
apenas nos esconder. E, considerando que eu tive que fazer coisas
para ajudar a organizar a nossa próxima viagem, ou o recado, como
Carol gostava de chamá-las, mas antes disso, eu precisava ficar
bronzeada.

Peguei minha carteira, minhas chaves e me dirigi para a porta.


Momentos depois, eu estava saindo da garagem em nosso
enferrujado caminhão Chevrolet 72.

— De volta, Raven?

Raven. Não Riley.

Eu fiz uma nota mental para lembrar Carol e Blade para usar o
meu nome falso. Todos nós escorregamos nos últimos nove meses,
começando a usar nossos nomes verdadeiros pela casa. Para eles eu
era Riley. Carol nunca aprendeu meu sobrenome, embora eu
soubesse que Blade sim, mas manter esses segredos era um ponto
estressante durante nosso treinamento.

Não pertencíamos mais ao nosso passado e os sobrenomes


eram proibidos. Nós não poderíamos usá-los, dizê-los ou até mesmo
pensá-los.

Então, para eles eu era Riley, porque foi assim que fomos
apresentados quando recebemos nossa designação, mas para todos
em Cowtown, eu era Raven.

Raven Hastings.

Junto com o meu nome falso, eu tinha toda uma personalidade


falsa para manter, e dei a Holly um sorriso deslumbrante que eu
raramente usava.
— Ei! Sim! Você me conhece.

Raven Hastings era entusiasmada. Ela estava feliz na maioria


dos dias, com uma disposição feliz e alegre. Ela gostava de citações
inspiradoras e gostava de se vestir casual no Canadá. Quando Raven
saiu com Blade, eles se complementaram. Ela era uma boêmia
chique1 e ele era um hippie feliz.

Hoje eu (ou Raven) me vesti com uma saia rosa boêmia que caia
aos meus pés, com uma camiseta branca ligeiramente transparente
atada a minha cintura. Graças a Deus era verão, porque eu tinha me
comprometido com esse visual. Agora eu era capaz de usar
sandálias com alças correndo pelas minhas pernas como sapatilhas
de balé.

Eu coloquei meu quadril para fora e apoiei minha mão na


cintura, fazendo uma pose.

— Eu tenho um encontro no próximo fim de semana e eu tenho


que ficar bem.

Holly era a principal funcionária da noite no Sun-n-Fun’s e ela


era uma eterna romântica. Esta não era a minha primeira vez aqui,
e eu notei que ela tinha uma pilha de pelo menos três novos livros
ao lado, toda vez que eu vinha para um bronzeado. Holly também
conhecia algumas das garotas da casa de repouso, outra maneira de
cimentar minha desculpa para o próximo fim de semana. Eu sabia
que um desses amigos sempre queria trocar o feriado mais próximo

1
O estilo bohemian, boêmio ou boho nasceu de uma mistura hippie chic de estampas com toque romântico, que remete à década de 70.
ou próximo grande evento, e o próximo que estava chegando era o
Stampede2.

Os olhos de Holly se iluminaram e ela me perguntou sobre o


meu encontro.

Eu fiz disto uma excursão de fim de semana.

Annie não perdeu tempo.

A notícia que dei a Holly no salão de bronzeamento na noite


anterior chegou rápido para minha colega de trabalho. Ela se sentou
na minha mesa durante minha primeira pausa na casa de repouso,
onde eu trabalhava como auxiliar de enfermagem.

— Ouvi dizer que você precisa de folga no próximo fim de


semana?

Eu sorri.

— Você quer ir ao Stampede?

Ela nem sequer piscou, apenas se inclinou para frente.

— Eu quero todo esse fim de semana de folga.

— Feito... se você pegar minha sexta-feira também.

Annie começou a se levantar, mas parou e perguntou.

— Você está falando sério?

2
O Calgary Stampede é um rodeio, conhecido como o maior do mundo, que ocorre todos os anos, de 4 a 14 de Julho na
cidade de Calgary, Alberta, Canadá.
Em algumas casas de repouso, um final de semana completo era
de sexta a domingo, mas não esse lar de idosos. Se trocássemos um
fim de semana com alguém, era apenas sábado e domingo. Então eu
tive que deixar claro que eu queria a sexta-feira também.

Mas eu conhecia a Annie. Ela adorava festejar e Stampede era


uma grande festa. Ergo minha brilhante disposição de Raven.

Eu não podia bagunçar isso. — É pegar ou largar…

Ela rosnou baixinho, mas assentiu.

— Bem. Vou preencher as folhas para a troca.

E agora eu estava livre para quem quer que estivéssemos


ajudando no próximo fim de semana.

Reforçando um sorriso brilhante, eu pulei no meu lugar.

— Ótimo! Obrigada! Eu mal posso esperar pelo meu encontro


agora. — E porque Raven adorava citações inspiradoras,
acrescentei. — Seja destemida e linda.

Os olhos de Annie subiram antes de ela se afastar da mesa.

— Sim, ok.

— Estranha. — ela sussurrou quando saiu.

Mas Raven amava tudo, até mesmo pessoas malvadas.

Com Riley, aquela garota poderia ter sido lançadas em uma


porta, mas eu era Raven hoje.

— Ei, garota Rave. Bee está tirando a roupa.


Eu verifiquei a hora. Eu tinha cinco minutos restantes.

— Ok. Eu vou subir em três.

Bee adorava estar nua, mas ela sofria de demência.

— Pelos elevadores. – ele acrescentou.

E eu estava de pé e saindo. Bee estava na cama quando saí para


descansar.
Eu liguei para Blade quando estava saindo do trabalho,
estacionei perto da porta de entrada da equipe, enquanto eu entrava
no carro ele atendeu.

— Você já saiu? — ele perguntou.

Duas respostas me vieram à mente.

A de Raven seria: Abrace seu orgasmo.

A minha: Ontem à noite. Obrigada por sua preocupação.

Mas Annie e outra garota que trabalhavam no nosso andar


estavam andando comigo e eu ainda não tinha fechado a porta do
meu carro, então fui com a resposta de Raven.

Blade bufou quando as garotas passaram pelo meu carro,


contornando o meu porta-malas e eu alcancei a minha porta.

— Vou tomar isso como uma afirmação e vou começar a fazer


os arranjos.

Fechei a porta e respondi.

— Isso aí. Eu estou indo para a academia. — Então eles não


deveriam me esperar por mais duas horas.

— Ei. Você pode pegar algo da The Chopped Leaf no caminho


de casa?

Eu ouvi Carol gritar ao fundo.


— E aqueles Pringles com sabor de chocolate.

— Ai credo. Não. — Ele imediatamente a cortou.

Eu ri no telefone.

— Verei o que posso fazer. Vejo vocês dois em casa.

Eu estava colocando meu cinto de segurança quando Blade


desligou e tudo aconteceu. Não houve aviso. Nenhum formigamento
repentino para sugerir algo errado. Eu não tinha checando meu
perímetro como normalmente faria. Eu estava distraída, falando
com Blade ao telefone e me amaldiçoei quando duas das portas do
meu carro se abriram de uma só vez: a do passageiro e a que estava
atrás.

Meu treinamento começou, como um interruptor sendo ligado.

Eu não esperei para ver quem era.

Eu estava com a porta aberta antes mesmo deles se sentarem,


mas tinha alguém do lado de fora da minha porta. Quando abri a
porta para correr, ele empurrou de volta e então ouvi uma arma
sendo engatilhada.

— Não, Riley.

Eu parei, reconhecendo aquela voz.

Ele me encontrou.

Mas não. Meu pânico numa fração de segundo explodiu para


outra coisa. Curiosidade?
O cara ao meu lado não havia falado. A voz era do cara atrás de
mim e eu ouvi aquela voz na outra extremidade de vários
telefonemas.

Eu olhei.

— Tanner?

O irmão de Brooke Bennett me encarou pelo espelho


retrovisor. Seu rosto era como uma máscara de concreto, totalmente
fechado.

— Não vamos machucar você. — disse ele. — Nós só queremos


fazer algumas perguntas.

O cara com a arma resmungou.

— Então dirija.

Um pouco do meu medo diminuiu, mas um nó firme


permaneceu preso na minha garganta, junto com o meu
treinamento, que estava me dizendo: — Corra cadela. Corra rápido.

O cara que estava do lado de fora da minha porta estava indo


para um carro estacionado na fila seguinte e essa seria a minha
única chance.

Meu cinto de segurança estava solto, pois, eu não o tinha


afivelado novamente.

Um segundo. Isso é tudo que eu tinha. Eu tinha que tomar a


decisão agora! Então eu fiz.

Eu corri.
Fui com a porta enquanto a abria e meus pés batiam com força
no chão.

Oompf.

Algo torceu, mas eu não parei.

A adrenalina correu através de mim e eu estava a três passos


de distância antes de ouvi-los me perseguindo.

Tanner gritou.

— Agarre-a. Não a machuque.

Foda-se, foda-se.

Eles já estavam me alcançando. Eu vi a sombra quando alguém


agarrou meu braço. Eu girei ao mesmo tempo em que pulei no ar.

Tanner e o outro cara estavam correndo atrás de mim.

Eu não conseguiria aguentar três caras e vendo mais colegas de


trabalho descendo as escadas, comecei a gritar. Um deles me
agarrou e me puxou de volta contra seu peito enquanto Tanner
rosnava.

— Cala a boca dela!

Uma mão cobriu minha boca. Eu mordi enquanto chutava no ar.


Um rugido veio de trás de mim quando meu pé bateu contra algo
duro. Eu joguei meu corpo para o lado e o cara me largou com o
movimento repentino.

— Mer...
Uma sombra se moveu do lado e foi rápida.

Todos pareceram fazer uma pausa e o tempo diminuiu quando


Tanner recuou um passo, então a sombra estava lá.

Um braço envolveu minha cintura e me levantou como se eu


não pesasse nada. Eu parecia magra, mas meu corpo era todo
músculo. Eu sabia o quanto eu pesava e esse feito era
impressionante.

Então parei de pensar quando outro braço envolveu meu


pescoço, aplicando pressão. Ele estava me sufocando.

Eu não pude lutar. Ele me imobilizou e depois...

Escuridão.

Eu acordei na parte de trás de um carro e imediatamente senti


meus bolsos. Eles estavam vazios. Meu telefone se foi.

Olhando em volta, esta era a parte de trás de um carro de luxo...


não, SUV.

Um guarda sentou ao meu lado e outro na minha frente. Eu


sabia o que eles eram por quão perfeitamente eles estavam
posicionados: eretos, ombro para trás, uma mão em suas coxas ao
lado de seus coldres de arma e, a outra checando seus fones de
ouvido.

O outro ocupante sentou-se na diagonal para mim, abaixado,


com os pés bem abertos e o telefone na frente dele.
Quando olhei, Tanner sorriu.

— Olá, dominadora. Vejo que você tem mais coragem do que


quando era uma pré-adolescente.

Ele parecia mais velho, mas ele ainda tinha o cabelo loiro
desgrenhado que as fotos de Brooke tinham mostrado na escola. E
esse mesmo sorriso também.

— Foda-se. — eu rosnei.

Olhando em volta, vi apenas a floresta movendo-se


rapidamente, provavelmente a mais de cem quilômetros. Havia um
SUV à nossa frente e, olhando para trás, vi outro no rastro. Merda.
Não. Havia um terceiro atrás daquele. Quatro no total.

— Tudo isso para mim? — Eu perguntei, embora enquanto


falava, soubesse a resposta.

Tanner Bennett estava neste veículo. O comboio era para ele,


não para mim.

Que horas eram e para onde estávamos indo? Eu precisava


daquelas respostas. Eu poderia formular meu plano de fuga então...
Eles me acharam!

Eu não tinha considerado isso.

Se Tanner estava aqui, isso significava que toda a família


Bennett sabia de mim. Eles. Tinham. Me. Encontrado.

Pânico puro e genuíno começou a se infiltrar.

Eles conheciam meu pai.


Ele os mandou para mim?

Ele tinha descoberto sobre mim?

Eles eram capazes de matar. Eles estavam indo me ma... eu


tinha que esperar e pensar. Manter a cabeça limpa.

Depois que o irmão mais velho morreu, foi considerado um


acidente, mas eu sabia que Brooke nunca concordou. Depois que seu
pai e Kai saíram naquele dia, ela quebrou dizendo que Cord tinha
sido assassinado. Isso foi tudo o que ela disse. Ela nunca falou sobre
como ele morreu, só que ele estava morto.

Três meses depois, nos encontramos de novo nos degraus da


frente de Hillcrest. Desta vez, Brooke não estava chorando. Ela
estava pálida e segurando a minha mão como se fosse um salva-
vidas, mas ela sabia por que eles estavam vindo novamente.

Eles estavam vindo por ela.

Seu pai, Anthony Bennett, o patriarca de sua família, havia


morrido durante o sono.

Kai Bennett, o irmão mais velho que restava, era o novo chefe
da família e queria Brooke de volta em casa.

Esse foi o último dia em que a vi, até as fotos nos noticiários
após seu recente desaparecimento.

Havia rumores na escola depois que Brooke se foi, que Kai teria
matado ambos os rivais. Brooke e eu continuamos a conversar por
telefone e e-mail por alguns meses depois que ela saiu, mas nunca
perguntei. Eu sabia que ela nunca iria me dizer de qualquer maneira,
mesmo que ela soubesse.
Medo escorreu através de mim, expandindo para os meus
dedos enquanto eu olhava ao redor do SUV novamente. Seus irmãos
estavam por trás do desaparecimento de Brooke? Ou, gelo alinhava
minhas veias. Brooke também estava morta?

— Não faça isso, Ray ray.

Eu cerrei meus dentes.

— Não use esse nome. Isso era para Brooke, não você.

Tanner riu, levantando o telefone novamente.

— Tudo que estou dizendo, é para que não deixe sua mente
vagar por todos os lugares escuros e tortuosos que você está indo.
Vamos chegar onde precisamos então, você pode abraçar todas as
acusações.

Ele continuou a rir enquanto sua atenção voltou para o que


quer que estivesse em seu telefone.

— Onde estamos indo?

Ele sorriu, mas seu olhar não deixando a tela.

— Você verá.

Eu mordi de volta um rosnado.

— Que horas são?

Eu tinha duas horas antes de Blade começar a procurar por


mim. Eles tiveram uma vantagem de duas horas. Era isso.
— Você vai ver. — ele disse novamente. Ele ainda não olhou
para mim.

A mentira caiu dos meus lábios tão facilmente.

— Sou diabética, Tanner. Preciso saber a hora e ver se preciso


checar meu nível de açúcar no sangue.

Então ele olhou para cima. O mesmo aconteceu com os guardas.

Seus olhos se estreitaram, mas ele não moveu o celular.

— Você está mentindo.

Eu revirei meus olhos.

— Certo. Quem mentiria sobre ter diabetes?

— Alguém que quer julgar a que distância está do seu


esconderijo. — Ele sorriu novamente. — E por falar nisso, por que
Calgary? Você sabe que temos negócio lá, certo? — Seus olhos
deslizaram para cima e para baixo pelo meu corpo, demorando-se
nos meus lábios. — Embora, eu tenha que dizer, a aparência natural
e lenhadora que você está adotando funciona para você. Faz-me
pensar em adotar uma aparência de lenhador também.

Eu senti um rubor subindo pelo meu pescoço.

O que era isso? Tanner estava flertando? Não, essa era apenas
sua personalidade. Brooke tinha falado sobre como ele era um
jogador, mesmo naquela época. Parecia que isso não mudara. De
certa forma, me acalmou um pouco, encontrar algo conhecido. Algo
pelo menos meio familiar.
Mas eu tinha que saber. Sentindo minha garganta raspar, eu
disse:

— Você me encontrou para ele?

Tanner baixou o telefone para o colo e sua cabeça inclinou para


o lado.

Ele não respondeu, apenas me encarou por um minuto inteiro.


Ele não ia responder, maldito seja ele.

— Meu pai. — eu esclareci.

Seus olhos se arregalaram uma fração de segundos, uma


emoção se acendeu antes que ele a escondesse. Seu telefone vibrou
e seu olhar voltou a ele.

— Não. Agora cale a boca e relaxe.

— Meu açúcar no sangue...

— Você não é diabética. Você não era quando tinha doze anos e
não tem como ter o tipo 2 desde então. Pare de insultar minha
inteligência.

Bem, então.

Eu poderia tentar a porta, pular com o carro em movimento e


atravessar a floresta, mas isso só funcionaria se eu pudesse correr
depois que aterrissasse. Nós estávamos nos movendo tão rápido
que seria inútil. Eles tinham quatro veículos aqui, porra. Quem sabe
quantos guardas estavam em cada um deles?
Eu sentei de volta. Eu esperaria para ver quem estava no final
desta viagem.

Essa era a minha única opção.


Eu dormi por um tempo, não sei por quanto tempo, mas nós
dirigimos por três horas depois que eu acordei antes de pararmos.
Eu estava contando e olhando em volta até que entramos em um
posto de gasolina. Não havia outras empresas ao redor, apenas
floresta. Eu sabia que eles tinham escolhido este lugar por esse
motivo específico.

Assim que nosso veículo parou, os dois guardas saíram e


abriram as portas.

Tanner desligou o telefone e suspirou.

— Não tente nada, Garota Perdida. — Ele gesticulou para fora.


— Você vê todos esses caras?

Eu engoli em seco.

Dez deles saíram dos carros e tomaram posições ao redor do


posto de gasolina.

— Eles vão cercar o posto para que você possa andar


livremente até lá, mas se você tentar fugir, eles foram instruídos a
atirar em você.

Meus olhos voaram de volta para os dele.

Ele parecia convencido.


— Com isso dito, divirta-se fazendo xixi. Escolha o que quiser e
coloque no balcão. Nós vamos pagar a conta.

Ele assobiou quando saiu pelo seu lado. Sua porta se fechou e o
guarda seguiu-o enquanto se dirigia ao edifício.

O guarda do meu lado ainda estava esperando. Meu estômago


se apertou, mas também saí.

Eu precisava de uma câmera, apenas uma conectada online


seria suficiente para Blade me encontrar. Já passava da hora que
meus colegas de quarto teriam percebido que algo havia acontecido
comigo. Eles provavelmente procuraram meu carro, que ainda
estaria no trabalho, e Blade teria enviado todos os alertas em plena
explosão para mim.

Nós fomos treinados para situações como esta. Eu só precisava


deixar um rastro de algum tipo. Quando atravessei o
estacionamento (vazio, exceto pelos nossos veículos), vi uma
câmera na esquina do prédio.

Graças a Deus.

Eu levantei minha cabeça para que ele pudesse conseguir uma


identificação positiva.

— Não vai funcionar. — Tanner chamou da porta. Ele acenou


para a câmera. — Elas estão desligadas. Foi por isso que nós viemos
aqui.

Mas haveria vídeos, pelo menos. Alguma prova de que eu estive


aqui. Blade iria encontrá-los, eventualmente.
Entrei e, como se ouvisse meus pensamentos, Tanner
acrescentou:

— O sistema inteiro foi desligado antes mesmo de chegarmos.


Ligamos antes.

Ele parou para olhar o porta-revistas, tirando uma em questão


que tinha o rosto de Brooke na capa.

Sua boca se apertou.

— Vá ao banheiro, Riley. Eu ainda estarei aqui quando você


terminar.

Ele pegou o telefone, então eu segui em frente. Eu me senti


como se estivesse desmoronando no banheiro.

Eles pegaram meu telefone. Eu não tinha ideia se eles pegaram


minha mochila ou a deixaram no carro. Eu ainda não sabia
realmente a que distância estava, mas eles estavam dirigindo em
estradas por uma razão.

Eles eram espertos, muito espertos.

Saí do banheiro e, embora soubesse que eles tinham guardas do


lado de fora, procurei por qualquer rota de fuga.

Não havia nenhuma. A porta que dava para a parte de trás do


posto de gasolina era na esquina da recepção e três guardas estavam
na frente dela. O funcionário era um adolescente desengonçado, de
pé ao lado do caixa. Tanner havia colocado algumas garrafas de
água, comida e algumas outras coisas no balcão, mas o garoto não
estava tocando em nada.
Um segundo depois, o sino sobre a porta tilintou e um homem
mais velho entrou. Ele acenou para Tanner e deu a volta no balcão,
depois fez o mesmo com o garoto, que pareceu aliviado quando saiu
pela porta da frente.

Eles ligaram para o dono ou para o gerente. Quem quer que ele
fosse se movia com propósito e familiaridade, quando começou a
pegar tudo.

Tanner olhou para o telefone quando começou a tocar.

— Pegue o que você quiser, Riley.

Meu pescoço estava rígido enquanto me movia em direção ao


corredor de bebidas. Eu precisava de água, comida, mas não me
mexi muito para poder escutar quando ele falasse ao telefone.

— Sim? — Uma pausa. — Nós estamos. — Outra pausa. —


Vamos fazer.

Bem, isso era informativo.

Eu balancei a cabeça e fui pegar tudo que eu precisava. Eu


peguei uma escova e pasta de dente, desodorante, junto com água e
alguns pedaços de frutas, e segui até a frente.

Tanner se afastou enquanto eu as colocava no balcão.

— Nós temos tudo isso para você onde estamos indo.

— Você não me disse isso. — Eu ainda os empurrei para frente.


Era pequeno, mas era a minha única maneira de resistir. Eu não
achava que uma escova de dente, pasta de dente e desodorante
quebrariam o banco de Bennett. Eles eram bilionários.

O proprietário/gerente não encontrou o meu olhar quando ele


pegou os meus itens e ensacou tudo.

Tanner disse alguma coisa para um dos guardas, gesticulando


para mim. O guarda assentiu e se aproximou de mim enquanto
Tanner ia ao banheiro. Percebi que os guardas estavam entrando no
banheiro pela porta dos fundos que eu havia perdido. Eles estavam
entrando e saindo em pares.

Eles haviam coordenado tudo isso para ajuda-los também.

Fui até a porta da frente para esperar. Dois caras se moveram


comigo, foi estranho como dois outros caras do lado de fora ficaram
ao lado da porta ao mesmo tempo. Eu sabia que eles estavam
falando em escutas, mas apenas mostrava o quão preparados e
profissionais eles eram. Um nível totalmente novo de desamparo
tomou conta de mim, mas uma onda de raiva veio logo em seguida.

Eu não gostei desse sentimento.

Meu pai também era poderoso e perigoso, mas ele nunca teve
uma configuração como essa. Ele não poderia ter permitido isso e
também não tinha necessidade de tanto. Eu o odiava, mas ele não
tinha os inimigos que a família Bennett tinha. Possuir seu negócio
de caminhões, não era lucrativo o suficiente para colocá-lo no nível
dos bilionários. Nem mesmo perto.

— Ok. — Tanner saiu do banheiro, afastando o telefone


enquanto caminhava na minha direção. — Estamos prontos para ir.
Eu vi um dos homens entregando um envelope para o dono
antes de pegar todos os sacos.

Eu tinha que admitir, fiquei surpresa que eles não apenas


entraram, pegaram o que queriam e partiram. O dono não teria feito
nada. Ninguém iria contra a família Bennett, mas ele parecia feliz
enquanto folheava o envelope.

— Riley.

Tanner esperou por mim do lado de fora do veículo, com um


dos guardas segurando a porta.

Eu andei no meu ritmo, então me amaldiçoei por fazer isso. Eu


podia andar a velocidade que queria andar. Havia uma leve brisa no
ar. Era meados de junho por aqui, mas eu tremi. A temperatura
baixara quando a luz do sol começou a diminuir.

MERDA!

Eu tinha esquecido de olhar a hora lá dentro.

Eu estava tão consumida pensando em rotas de fuga, depois


observando como os guardas estavam operando que eu esqueci
completamente. Mas, pensando de novo, dei um passo em direção
ao balcão e dois guardas se moveram para me interceptar.

Eles planejaram para isso.

Não teria feito diferença.

Não havia relógio no posto de gasolina, ou sei que teria notado.

Minha garganta começou a arder.


Eles realmente estavam preparados para mim.

— Quantas garotas você já sequestrou? — Eu gritei para


Tanner.

Ele olhou para mim antes de contornar a traseira do SUV. Eu


podia vê-lo através das janelas.

Eu bufei quando um guarda abriu a porta para mim.

— É uma coisa normal? Por mês? Bimestralmente? Toda


semana? A cada poucos dias?

Eu não esperava uma resposta quando entrei, mas estava


esperando que Tanner entrasse comigo. Eu ia continuar
provocando, outro pequeno ponto de resistência, a única coisa que
eu tinha para mim neste momento.

Mas ele não entrou.

Sua porta se fechou abruptamente e o mesmo aconteceu com a


minha. Minha perna mal estava dentro quando a porta fechou e
depois trancou.

Eu olhei em volta, alarmada. Eu era a única no SUV, mas eles me


trancaram.

— Ei! — Eu bati na janela. Minha voz provavelmente estava


abafada, mas eles podiam me ouvir, ou então eu assumi isso. — Ei!

Ninguém olhou.

Tanner havia desaparecido do seu lado.


Uma parede completa de guardas veio ao redor do meu SUV
bloqueando tudo, exceto o pouco que eu podia ver através das
lacunas entre seus pescoços e cabeças. Eu me movi, tentando dar
uma olhada melhor no que estava acontecendo.

Eu podia ver Tanner andando em direção a uma seção vazia do


estacionamento. Quatro guardas o seguiram, mas ficaram a uma
distância respeitável.

Algo estava chegando.

Alguém estava vindo.

E nós não tivemos que esperar muito.

Três SUVs correram pela rodovia e entraram no


estacionamento, estacionando na frente de Tanner com um
redemoinho de poeira.

Eu meio que esperava que todas as portas se abrissem e os


guardas emergissem, já que aqueles pareciam os mesmos SUVs com
os quais estávamos viajando. Mas eles não fizeram. A única porta
que se abriu foi a porta traseira do segundo SUV.

Kai Bennett tinha chegado.


Eu assobiei enquanto meu sangue ferveu e congelou de uma só
vez.

Ele só se tornou mais desde a última vez que o vi.

Mais alto. Mais bonito. Mais fascinante. Mais perigoso. Mais,


mais, mais. E eu odiei isso. Isso também se tornou mais.

Eu o odiava agora.

Não havia comparação entre Kai e Tanner. Tanner tinha sido o


mulherengo e o que flertava naquela época e, havia muitas dicas de
que ele ainda era todas essas coisas, além disso, ele era um babaca
por me sequestrar.

Mas quando olhei para os irmãos em pé ao lado um do outro, o


poder escorria de Kai Bennett. A autoridade emanava dele, mesmo
que apenas parado ali.

Cada um dos guardas ficou um centímetro mais alto.

A tensão no ar subiu um pouco e eu senti isso mesmo dentro do


veículo. Os cabelos na parte de trás do meu pescoço se levantaram e
arrepios correram pelos meus braços.

Óculos de sol bloqueavam seus olhos enquanto ele ouvia o que


Tanner estava dizendo, mas seus olhos brilharam em minha
memória, como eles pareciam mortos quando ele me disse para
deixar Brooke em paz, logo depois que o pai deles disse que Cord
estava morto.
Eu me senti mal do estômago e minha mão se moveu para lá,
como se quisesse manter o conteúdo dentro.

Ninguém mais fez minha pele se arrepiar com nojo, exceto meu
pai. Kai Bennett e Bruce Bello eram cortados do mesmo tecido.

Eu deveria ter desviado o olhar, mesmo que apenas para evitar


esvaziar meu estômago, mas não consegui.

Meu coração acelerou. Eu o sentia batendo nos meus tímpanos


e provei bile na minha boca. Mas ainda assim, não consegui desviar
o olhar. Descansando a mão na janela, cheguei ainda mais perto.

Eu precisava tentar ler seus lábios ‒ Beep.

Não. Eles não podiam.

Eu ouvi outro sinal, vindo da frente do carro.

Rastejando para frente, ouvi um terceiro bipe. Um telefone


havia sido deixado lá em cima. Havia uma divisória e uma pequena
janela separando a frente da parte de trás, mas eu podia passar pela
janela. Sentindo isto, movi um pouco.

Eles não tinham trancado, mas eu podia ver o porquê. Levou


todos os meus músculos para conseguir abrir uma polegada. Um
quarto bipe enviou meu sangue correndo pelo meu corpo. A
adrenalina e a excitação me encheram com uma necessidade quase
frenética de chegar aquele telefone.

Eu usei todo o meu corpo para abrir mais a janela.

Mais um pouco.
Porra, um quinto bipe.

O telefone estava no console, bem debaixo dos meus dedos.

Eu tentei de novo, quase me jogando para trás para abrir um


pouco mais. Eu não queria balançar o veículo, conscientiza-los do
que eu estava fazendo, mas funcionou.

Merda.

Senti o SUV tremer e parei, olhando por cima do ombro.

Os guardas estavam de costas para o SUV. Os dois Bennetts


ainda estavam conversando, sem olhar para mim. Eu estava segura,
por agora.

A janela tinha aberto mais dois centímetros, mais do que


suficiente para colocar meu braço lá dentro. Deslizando com o meu
rosto pressionado contra a janela, abaixei-me para o console.

Eu peguei o telefone, meus dedos apenas pastando. Eu segurei


e puxei meu braço para trás através da janela.

Meu pulso disparou dentro de mim.

Eu estava tremendo quase incontrolavelmente, mas quando


abri a tela, quase chorei. Nenhuma senha era necessária. Eu disquei
um número seguro para ligar.

Um segundo depois, ouvi: — 411. Qual é a sua informação?

Lágrimas molham meu rosto.

— Esta é a Seção 8, Hider 96. Minha localização é nessas


coordenadas.
Houve silêncio do outro lado. Eles estavam ouvindo.

— Eu fui sequestrada pela família Bennett.

Isso era tudo que eu precisava dizer.

Eles sabiam o que fazer, e não importava para onde eu fosse


agora, eles me encontrariam. Isso era o que nós fazíamos. Assim que
eu lhes desse meu número de Hider, Blade receberia um alerta. Ele
estaria ouvindo dentro de um segundo, e agora, eu tinha certeza que
ele me localizaria.

Um minuto depois, os pedidos deveriam ter sido despachados


para os Hiders mais próximos, e dentro de cinco minutos desses
avisos, eles estariam em um veículo em direção a mim.

Eu só tinha que esperar eles chegarem.

Eu conhecia Blade, e um telefone não seria suficiente para ele.


Ele usaria esse local para encontrar outros telefones e rastrearia
todos eles. A menos que a família Bennett tivesse anti-rastreadores
para mascarar seus sinais, dos quais eu nunca tinha ouvido falar,
Blade iria me rastrear mesmo se nós partíssemos deste local antes
dos Hiders me encontrarem.

— Quatro Hiders estão a caminho. — disse a voz do outro lado


da linha. — Encerre este número e apague seus passos.

Com prazer.

Eu apaguei o histórico do telefonema, coloquei o telefone de


volta no console exatamente como eu peguei e fui trabalhar para
fechar a janela.
Eu a fechei menos de um centímetro quando os guardas
começaram a se mover.

Eles se separaram da minha porta, e eu vi Tanner voltando para


mim de cabeça baixa e sua mandíbula cerrada.

Eu me movi para o meu lugar, sentada lá como se nunca tivesse


me movido. Minha cabeça estava abaixada quando a porta se abriu
e ele entrou. Eu funguei, enxugando as lágrimas enquanto os outros
dois guardas entravam em seus lugares.

Eu podia sentir o olhar de Tanner em mim.

Ninguém disse uma palavra e, um segundo depois, o SUV


começou a se afastar.

Nós estávamos saindo.

Olhando por cima, observei os outros três SUVs à nossa frente,


e quando voltamos para a estrada, nosso ritmo acelerou em
comparação com a velocidade que estávamos viajando antes. A
tensão que senti no exterior entrara no SUV com Tanner. Ele não
estava descansando agora nem mexendo no celular. Ele sentou-se
quase como um guarda, exceto que aqueles sujeitos pareciam ainda
mais altos, mais retos e com as cabeças para trás mais um
centímetro.

Ambos os guardas mantiveram seus dedos em seus fones de


ouvido.

Nós dirigimos por uma hora completa assim, até escurecer.

Quando diminuímos estava escuro como breu, exceto pelos


faróis.
Nós viramos em uma estrada de cascalho, a floresta ainda ao
nosso redor. Nós passamos por uma grade de metal na estrada,
depois através de um portão. Movendo-se a passo de caracol, era
como se estivéssemos esperando por algo, até que de repente,
começamos a nos mover mais rápido. Nós nos arrastamos por essa
estrada estreita de cascalho e se passaram cerca de três quilômetros
antes de desacelerarmos novamente.

Desta vez, paramos diante de outro grande portão e ele se abriu


para revelar uma casa. A palavra mansão não conseguia descrever o
lugar. Era mais de um composto. A entrada de carros circulava em
frente à casa principal, mas havia outra casa tão grande à direita e
mais prédios atrás deles.

Meu pessoal estava lá fora, mas eu não tinha ideia de como eles
chegariam a mim. Um sentimento de desesperança se filtrou até que
reprimi isso. Eu não teria isso. Eu só tenho que chegar até eles de
alguma forma.

Então as portas se abriram.

Era a hora do show.


Eu não vi onde o Mestre do Universo Bennett foi, mas Tanner
subiu as escadas cercado por guardas. Outros dois esperaram por
mim e quando comecei a andar atrás dele, mais dois se
aproximaram atrás de mim.

Eles me levaram a uma grande entrada com piso de mármore


branco. Manchas de ouro aninhavam-se dentro da rocha, que
combinavam com a fonte que estava ao lado. A parte de baixo da
fonte também cintilava ouro. Uma grande escada acarpetada de
branco circulava ao redor, curvando-se para cima e era para onde
meus guardas pareciam estar me levando.

Tanner me ignorou, desaparecendo em algum lugar mais longe


na casa.

Meus guardas e eu seguimos em frente até o quarto andar e por


um longo corredor, depois subimos mais um lance de escadas até
sentir que eu estava em outra ala. Passamos por uma passarela
envidraçada que nos levou da casa principal para o segundo prédio
e depois subimos outro lance de escadas. Eu tentei manter o
controle de onde estávamos indo, mas estava ficando mais difícil
quanto mais avançávamos.

Eles me levaram para um corredor dos fundos que contornava


a segunda casa e subia um último degrau. Uma parede de granito
estava na nossa frente e um guarda pressionou seu fone de ouvido,
dizendo.

— Aqui.
Um som de destravamento clicou e uma porta se abriu para nós.
Nós entramos e eu sabia que essa era minha prisão.

No entanto, para uma prisão, era uma boa ideia.

Era um apartamento inteiro, na verdade. Elegante e moderno,


com bancadas pretas na cozinha e uma mesa de jantar de carvalho
escuro. Os sofás da sala de estar eram de couro preto, sobre um
tapete branco, diante de uma televisão que mais parecia uma
pequena tela de cinema. O banheiro tinha uma pia oval de vidro
preto, com as mesmas notas de ouro da entrada. Um candelabro
estava pendurado acima da mesa da cozinha.

Uma porta levava a um quarto além da sala de estar e eu pude


ver o canto de uma cama ali. Uma pele de carneiro havia sido
colocada na borda, criando uma cena que poderia ter sido
fotografada para uma revista de design de interiores.

Dois dos meus guardas pararam ao lado da porta e os outros


dois se posicionaram do lado de fora.

Eu não fiz perguntas e nenhum deles disse nada.

Eu senti isso em meus ossos: eu estava esperando por Kai


Bennett.

Eu sabia que não seria capaz de encontrar uma rota de fuga do


apartamento. Mas eu ainda olhei em volta para me orientar.

Dentro do quarto havia uma cama king-size e um deck ao redor


com duas portas de vidro deslizantes. Quando eu pisei para fora,
meu coração afundou.
Não havia nada para eu subir se eu quisesse descer. A queda
poderia ter cabido em um hotel de trinta e oito andares e eu podia
ver o terreno rochoso no fundo. Era o sonho de um escalador, ou
desafio, mas não o meu.

— Vai pular?

Eu estremeci, minhas mãos apertando o corrimão quando sua


voz suave deslizou pela minha espinha. Despertou todas as minhas
terminações nervosas e cerrei os dentes, odiando como reagi a ele.
Essas foram as duas primeiras palavras que ele falou comigo em
quatorze anos, fazendo quatro no total agora.

Eu não conhecia esse cara. Por que eu reagia a ele desse jeito?

Virando-me, encontrei Kai parado na porta do quarto com a


cabeça inclinada para o lado, como se ele tivesse encontrado um
quebra-cabeça.

Eu já o tinha visto antes, mas a presença dele era como um soco


no meu esterno. Ele tinha sido devastadoramente bonito aos
dezesseis anos e ele estava ainda mais agora, e isso me dava nos
nervos.

Vestido com um terno de negócios, a camisa desabotoada e as


pontas soltas de suas calças, ele tinha os pés descalços. Parecia que
essa viagem para me ver, era a última coisa que ele tinha que fazer
antes de relaxar completamente, como se eu fosse uma reflexão
tardia.

Então ele tirou o paletó e a camisa, pegando as golas de ambos


e jogando-os na cama. Ele se virou para o armário atrás dele, que se
abriu para mostrar uma variedade de roupas masculinas.
Minha boca secou.

Este era o quarto dele.

Era isso?

Eu olhei para um segundo armário, me perguntando se eu


encontraria roupas femininas lá ou mais dele.

Ele tirou uma camiseta e puxou-a. Ela se moldou a ele,


revelando ombros largos e uma cintura magra que havia sido
trabalhada em um núcleo de músculos sólidos.

Suas mãos caíram para a fivela do cinto, eu puxei meu olhar


para longe e me virei.

Estendendo a mão para me firmar no corrimão, ouvi suas calças


caírem no chão. Meus dedos seguraram o corrimão de aço, minhas
unhas cavando nele.

— Então é você?

Eu não o ouvi se mover, mas sua voz estava mais próxima. Virei-
me novamente para encontra-lo completamente vestido, vestindo
um par de calças de moletom cinza escuro que moldava a sua
metade inferior do jeito que sua camisa fazia com a parte de cima.

Ele fez sinal para mim.

— Vamos. Estou cansado e não quero ter essa conversa


preocupado que a querida amiga da minha irmãzinha pule para a
morte. — Ele bufou para si mesmo. — Ela realmente ficaria furiosa
comigo.
Havia uma pontada na voz dele. Exaustão? Eu ouvi isso agora.
Eu o segui em um passo relutante enquanto ele foi até a parede do
quarto e apertou um botão.

Duas portas se abriram, revelando um bar inteiro embutido na


parede. Enquanto servia um copo de Bourbon, vi o inclinar em seus
ombros. Havia bolsas sob seus olhos e uma suavidade cansada nos
cantos de sua boca.

Eu realmente era uma reflexão tardia para ele. Ele estava em


outro lugar, fazendo outra coisa e o que quer que tenha sido, o
cansou.

O poder e carisma que ele exalava ainda estavam lá; estava


apenas um pouco menor. Levemente.

Ele era perigoso. Senti-me zapeado pela energia dele, e quando


me mudei para a sala principal ao seu lado esse sentimento apenas
cresceu. Ele sugava o ar de onde quer que ele estivesse, tanto que
minhas entranhas começaram a sentir a mesma exaustão.

— Você vai falar ou eu preciso testar suas cordas vocais de uma


maneira diferente? — Ele perguntou, balançando seus olhos
aquecidos na minha direção. Suas narinas se alargaram quando sua
mão apertou seu copo. — Hummm?

Faça-os subestimá-la.

Meu treinamento de Hider deu um chute e eu abaixei meu


olhar.

Eu não gostava da tempestade dentro de mim. Eu estava em


todo lugar, me sentindo enfurecida, depois aquecida, depois outras
coisas, mas voltando ao ódio. Eu precisava que ele me visse como
submissa, tímida, então, mesmo que meu pescoço apertasse tanto
que eu mal conseguia me mexer, me forcei a olhar para o chão.

O maldito chão.

Esse cara, ele não merecia que eu olhasse para baixo diante
dele.

Eu sabia que ele tinha milhares de mortos pela família Bennett.


Ele assassinou seu irmão mais velho. E Brooke nunca dissera nada,
mas não acreditei durante um milésimo de segundo, que o pai deles
tivesse morrido durante o sono. Kai também o matou.

Ele era um assassino e ele estava por trás de tantas garotas


sendo traficadas, atrás de milhões de dólares de drogas movendo-
se através de seus territórios, ele não merecia nada de mim.

Ele merecia ser morto. E se ele fosse o motivo do


desaparecimento de Brooke, eu seria a única a fazê-lo.

Eu o cortaria do pau a garganta, nessa direção também.

Ele bufou novamente, desta vez com uma pontada de genuína


diversão.

— Não se engane e não me insulte, Riley Bello. Você não tem


um osso tímido em seu corpo. Se você tivesse…

Ele avançou para mim e eu não pude evitar. Eu levantei minha


cabeça e não consegui desviar o olhar.

— Você não seria um Hider, para a Rede 411. — ele terminou


suavemente.
Meu pior pesadelo.

Ele falou, parecendo quase entediado.

— Você foi recrutada para a rede deles quando seu pai


assassinou sua mãe. Seis meses depois que eu peguei Brooke de
Hillcrest, eles disseram que sua mãe estava desaparecida, mas você
sabia. Você sabia o que tinha acontecido com ela quando foi para
casa no dia seguinte.

Eu estava congelada.

— Você foi ao seu funeral. Você se sentou ao lado de seu pai,


mas sabia o tempo todo que ele a matou, porque foi o que ele fez. Ele
a machucou. Foi por isso que você foi mandada embora, então ele
não iria te machucar também. Estou correto?

Eu me sinto doente.

— Seus agentes recrutadores se aproximaram de você quando


você estava comprando. Foi no dia seguinte que você enterrou sua
mãe em um caixão vazio. Você estava no shopping com duas de suas
amigas, ou duas garotas que seu pai considerava apropriadas para
você. Você nem as conhecia, mas elas eram filhas de seus colegas e
você não gostava delas. Estou correto?

Eu não conseguia desviar o olhar, não conseguia parar de ouvir


e não podia fazer nada enquanto ele tirava meu mundo bem na
minha frente.

Ele sabia tudo.

Como ele... Brooke. Brooke deve ter contado a ele.


Ele jogou de volta o resto de sua bebida.

— Aquele foi o dia que você decidiu sair, não porque ele matou
sua mãe e não porque você sabia que seria a próxima, mas porque
eles lhe contaram a verdade real. — Seus olhos brilharam para mim,
uma emoção sem nome ali. — Sua mãe ainda estava viva.

Eu não conseguia nem engolir.

— Como... — eu consegui dizer. — Como você sabe disso?

— Eu não terminei, garotinha. — Um brilho de crueldade


brilhou para mim de seus olhos. — Seu pai batia em sua mãe. — ele
zombou. – Ele acreditava que ele a tinha matado e ordenou que seu
corpo fosse descartado, mas foi a um agente 411 que ele mandou
fazer. Ele acredita que sua mãe foi jogada no fundo de um penhasco
e seu corpo varrido para o mar, quando em vez disso, ela estava
escondida pela Rede 411. E quando eles pediram para você se juntar
a eles naquele dia no shopping, você disse que sim tão rápido que
não parou para pensar no que aconteceria com alguém que você
deixou para trás.

Meu intestino se torceu.

Uma chama cintilou para a vida.

— Do que você está falando? — Eu exigi.

Ele bocejou, malditamente bocejou, e foi até o armário para


servir uma segunda dose de Bourbon.

Ele falou de costas para mim.

— Você não falou com seu pai recentemente, não é?


Eu estreitei meus olhos. O que ele estava falando? Blade teria...

— Seu amigo Blade nunca te contou...

Uma faca mergulhou no meu peito, ouvindo-o dizer o nome de


Blade.

Kai se virou, segurando o copo na frente dele. Ele recostou-se


contra a parede, seus olhos fixos nos meus. . —.. porque ele não
queria que você deixasse a sua localização e ele sabia que você iria.

— Do que você está falando?

— Sua mãe tinha família.

Minha tia. Meu primo. Eu também tinha um tio.

Eu balancei a cabeça.

— Mas eles...

Eles odiavam meu pai e o culparam por sua morte. Eu sabia que
eles sabiam.

— Você tinha uma prima. Você se lembra dela? Ela é da sua


idade, da idade de Brooke.

Tawnia. Eu não a conhecia muito bem. Minha mãe nos manteve


longe de sua família, mais pela segurança deles que pela nossa.

— Não. O que você está dizendo? Minha tia odiava meu pai.

— Ela odiava. Mas ela não transmitiu isso adequadamente a sua


prima.

Ela estava... não. Não.


Eu não queria pensar sobre o que Kai estaria sugerindo. Não
havia como.

— Minha tia nunca permitiria isso. — eu assobiei.

— Sua tia está morta.

Ele falou no mesmo tom que ele usou quando me disse para
deixar Brooke sozinha.

Ela está bem. Sua tia está morta. Ambas as declarações não
significavam nada para ele.

— Foda-se você.

Ele encolheu os ombros.

— Talvez mais tarde. — Ele bebeu do copo. — Eu te trouxe aqui


por dois motivos. Um acordo. Você me diz onde está minha irmã e
eu ajudo com sua prima.

Porra. Sério. Porra. Ele estava falando sério.

— O que exatamente você está dizendo sobre meu pai e minha


prima? — Eu olhei para ele com cautela.

Ele terminou sua bebida e colocou o copo ao lado dele no


balcão.

— Sua prima não acreditou que seu pai tenha assassinado a


esposa dele. Ela acredita que seu pai perdeu a esposa porque ela
fugiu dele. Ela acredita que sua filha estava tão perturbada em ser
abandonada, que você ficou bêbada e causou o acidente de carro que
supostamente queimou seu corpo ao esquecimento, menos os
poucos traços de DNA deixados para trás. Ela acredita que seu pai é
alguém digno de sentir pena e que ele é amoroso, gentil, afetuoso e
rico. Seu pai atacou sua prima e tenho certeza de que ele gosta da
grande semelhança que tem com a filha e a esposa dele.

Meu pai era um monstro, mas o homem que estava na minha


frente também. Ele era tão monstruoso quanto Bruce Bello.

— Você está doente. Você e ele, ambos.

Ele olhou para mim, sem se mover nem um centímetro. Um


sentimento desconfortável percorreu minha espinha, fazendo os
cabelos na parte de trás do meu pescoço se levantar. Eu senti como
se tivesse atraído uma cobra.

Mas Kai apenas acenou em direção à porta.

— Isso é o suficiente. Continuaremos nossa conversa amanhã.

Ninguém mais estava na sala. Eu não tinha notado a ausência


de guardas até agora. Mas quando ele falou, a porta se abriu e
Tanner entrou.

— Leve-a para o quarto dela. — Kai disse a ele. – E é para ela


ficar lá até eu ir ao seu encontro.

Meus lábios se separaram.

A maneira como ele disse isso, senti um raio de medo me


percorrer, mas logo depois Tanner estava ao meu lado. Ele pegou
meu braço, me levando para fora enquanto eu tropeçava nos meus
pés, sentindo-me entorpecida.

Eu não sentia essa emoção há muito tempo, não desde meu pai.
— Espere. — Eu tinha que saber. Assim que Tanner estava
prestes a me tirar do apartamento de Kai, voltei. — Como?

Como ele vai ajudar minha prima?

Um vislumbre de um sorriso me provocou.

— Eu vou mata-lo.
Eles sabiam.

Eles sabiam tudo.

Eles conheciam Blade, a Rede, meu pai e minha mãe. Eles


sabiam que ela estava viva. É claro que eu sabia que os Bennetts me
achariam, mas não pensei nisso. Eu não queria.

Tanner me puxou em um lance de escadas e tropecei de novo,


quase caindo, mas ele me segurou e me firmou.

Ele não olhava para mim, no entanto. Sua mandíbula estava


cerrada e sua mão cavou no meu braço. Deixaria uma contusão lá
depois.

— Quão mais? — Eu murmurei. Parecia que a única maneira


que eu poderia falar desde que eles me levaram. — Há quanto tempo
você sabe?

Ele não respondeu, uma veia inchando em seu pescoço.


Viramos uma esquina e havia outra porta à nossa frente. Ele bateu
nela, recuando até que ela abriu por dentro. Mais guardas saíram.
Sempre havia guardas.

Ele fez sinal para dentro.

— Se você precisar de comida ou algo assim, peça aos guardas.


Eles vão conseguir para você. Este será o seu quarto até que Kai
queira vê-la novamente.
Eu entrei, mas me virei para ele.

— Tanner, quanto tempo?

Seus olhos se levantaram e vi remorso ali.

— Desde o começo. — Seus lábios pressionados juntos. Ele


parecia ter mais a dizer, mas pensou melhor. Ele balançou a cabeça
e gritou. — Tranque-a.

A porta se fechou e um sopro de ar me atingiu no rosto. Eu mal


pisquei, tudo em mim entrando em choque.

Eles sabiam sobre a rede 411, o que não era bom. Na verdade,
era muito ruim. A Rede 411 era uma organização que escondia
pessoas que não poderiam sobreviver de outra forma, aquelas
mulheres e crianças e, às vezes, homens, que não são protegidos
pelo sistema legal, por policiais ou qualquer outra pessoa, então nós
entramos. Nós os escondemos, às vezes, fazendo parecer que eles
estão mortos.

As entregas que fazemos são para pegar pessoas que precisam


de transporte em outro lugar. Nós lidamos com qualquer pessoa que
precise entrar no Canadá, qualquer sobrevivente que precise de
ajuda. Nós não discriminamos e, na maioria das vezes, não nos
dizem seus nomes ou situações.

Recebemos coordenadas para onde ir, fotos de quem estamos


procurando e instruções sobre onde leva-las. Nós repassamos
arquivos e pacotes com seus passaportes falsos, ou ID, ou qualquer
outra coisa que eles precisem para a nossa viagem. Isso é tudo.
Nos dez anos desde que me tornei operacional, apenas uma vez
minha equipe teve que lutar contra um agressor.

Mas eu sabia que houve momentos em que isso aconteceu.

Eu era orgulhosa desta parte da minha vida, da missão na 411


e do que defendíamos, mas agora a Rede estava sendo ameaçada. A
família Bennett não podia saber sobre nós. Tenho certeza de que
foram deles que escondemos pessoas de vez em quando.

Meu coração disparou, minhas mãos estavam suadas e minha


visão ficou embaçada.

Eu estava em pânico, como antes, mas isso estava em


esteroides. Eu não conseguia respirar. A sala estava girando.

Eu estava febril. Eu estava com frio.

Eu estava caindo.

O chão correu para mim até que braços me pegaram. Eu olhei


para cima e, embora a sala ainda se oscilasse ao meu redor, vi uma
mandíbula firme e um pescoço musculoso.

Tanner voltou para mim...

Ele me levou para fora do quarto, através de um corredor e


subiu um lance de escadas.

Tanner estava me levando para o seu quarto... até que não. Nós
voltamos pelo mesmo conjunto de portas que eu tinha entrado
anteriormente. Preto e dourado giravam em torno de mim enquanto
eu tentava ver onde estávamos. Entramos em um quarto nos fundos
e ele me deitou naquele cobertor felpudo de pele de carneiro.
Reconhecendo as portas da sacada de vidro atrás dele, meus dentes
começaram a ranger.

Tanner não tinha vindo para mim. Kai tinha.

Como se ouvisse meus pensamentos, ele olhou para baixo.


Aqueles olhos escuros e quase sem alma olhavam diretamente para
os meus. Ele não piscou. Nada apareceu. Sem irritação. Sem
preocupação. Nem mesmo surpresa.

Fiquei mais quente a cada segundo e comecei a tremer.

Ele sentiu minha testa, empurrando meu cabelo para fora do


caminho. Suas sobrancelhas se uniram. Pareceu confuso por um
segundo antes de ele se virar e dizer algo para alguém atrás de nós.
Sua voz zumbiu na minha cabeça, vibrando em um barítono
profundo. Parecia que eu estava debaixo d'água e ele estava lá em
cima, conversando com alguém em um barco perto de nós. Houve
um zumbido, como um motor.

Eu me perguntei novamente o que estava acontecendo... E


então não havia nada.
Acordei em uma cama com os lençóis mais macios que já senti
e com baba. Muita baba.

Demorou um segundo para eu me recuperar, mas quando o fiz,


eu fiquei de pé com um suspiro.

Estava escuro como breu lá fora.

Portas de vidro e o mesmo quarto moderno com um


apartamento inteiro do outro lado da porta e, o brilho suave de uma
luz acesa na outra sala.

Eu estava no quarto de Kai Bennett, em sua cama.

Eu poderia fechar meus olhos, voltar a dormir e acordar em Oz?


Isso era uma opção? Eu levaria em um segundo se fosse.

O som de uma virada de página veio da sala ao lado. Então ouvi


uma cadeira recuar.

Passos suaves vieram, até ele aparecer na porta.

A luz estava acesa atrás dele, lançando-o na sombra então, eu


não pude ver nenhum detalhe, exceto sua silhueta bem aparada e
tonificada.

Por que alguém tão malvado tem que ser tão bonito?

— Por que você me pegou? — Eu mudei para uma posição


sentada, puxando os lençóis em volta de mim e observando que eu
estava em uma camisa diferente e usava cuecas boxer sobre a minha
calcinha. Ele mudou minhas roupas.

Isso estava baixo na lista de problemas, mas...

— Onde estão minhas roupas?

Ele soltou um suspiro suave e cansado.

— Você tropeçou indo para o seu quarto e bateu com a cabeça.


Meu irmão não percebeu o sangue escorrendo pelas suas costas,
mas meus guardas perceberam. Eles me alertaram. — Ele assentiu.
— Suas roupas estavam com sangue. Elas tiveram que ser mudadas.

Agora que ele mencionou isso, minha cabeça estava latejando.

Toquei a parte de trás da minha cabeça e gemi, sentindo uma


grande contusão. O fato de eu não ter percebido isso dizia muito. Eu
estava muito consumida por todo o resto.

E falando disso, minha segunda pergunta.

— O que você sabe sobre a 411?

Ele respondeu sem hesitar, cruzando os braços sobre o peito e


apoiando um ombro contra o batente da porta.

— Eu sei que eles ajudaram a esconder você e sua mãe. Eu sei


que eles são relativamente novos, mas são eficazes. Eles têm
grandes financiadores apoiando-os, e eu sei que eles expuseram um
homem por assassinato, que agora está na prisão. Eu sei que seus
patrões podem significar o bem agora, mas eles são perigosos.

Eu pisquei algumas vezes, pegando isso.


Eu estremeci por dentro quando ele os mencionou. Esse tinha
sido um agente desonesto, mas ninguém lutou para defender o cara.

Eu fiz uma careta.

— Ele tentou matar sua esposa.

— Mas ele não fez.

Eu bufei.

— Você está defendendo o monstro um pouco inocente? Você?

Observe seu tom, Riley. Você esquece com quem está falando.

Eu podia ouvir a voz da minha mãe repreendendo-me e mordi


o lábio, assim que as palavras saíram. Era tarde demais, no entanto.
Eu esperei, observando para ver se esse infame monstro assassino
viria em minha direção agora.

Ele não se moveu, apenas murmurou.

— Você não é uma lutadora boa o suficiente para falar assim


comigo.

Esse mesmo arrepio subiu pelas minhas costas. Havia um aviso


mortal lá também.

Eu engoli em cima de um pedaço.

— Eu sinto muito.

Mas eu sentia? Eu sentia mesmo?

Ele havia assassinado Cord, o pai dele. Brooke?


Eu fiz uma careta.

— Você está procurando por Brooke? Por isso você me


sequestrou?

— Entre outras razões, sim. — Ele levantou a cabeça


novamente, desencostando-se do batente da porta e dando um
passo em minha direção. Apenas um passo, o suficiente para ser
imponente, um pouco intimidante, mas ainda me dando espaço para
respirar, então eu não me assustei.

Ele era tão comedido, tão calculista.

— Minha irmã entrou em contato com você um dia antes de


ontem. Eu quero saber onde ela está.

Todo o oxigênio saiu do quarto e minha cabeça começou a girar


novamente.

— Você acha... o quê? Não.

— Sim. — Sua voz estava dura agora. Foi-se a sutileza. —


Brooke me pediu para ficar de olho em você. Ela se importa com
você. Você trabalha em uma rede especializada em ajudar pessoas a
desaparecer e eu sei que ela estava desesperada. Ela foi até você; Eu
sei muito bem disso.

Ele deu outro passo em minha direção.

Sentei-me mais ereta, rolando de joelhos e depois para os meus


calcanhares, pronta para saltar se eu precisasse.

Outro passo.
Ele se agachou ao lado da cama, então ele estava no meu nível
e agora eu podia vê-lo. Ele saiu das sombras e eu vi como seus olhos
eram ferozes. Eles ardiam de raiva e determinação.

Seus lábios perfeitos mal se moviam quando ele falou.

— Você vai me dizer onde ela está.

Eu engoli novamente. O nó na minha garganta tinha dobrado de


tamanho.

Ele não ia aceitar um não, mas eu tinha que tentar.

— Antes de ver sua irmã no noticiário, eu não tinha ouvido


muito falar dela, desde que você a afastou de Hillcrest. Juro que essa
é a verdade.

Seus olhos se estreitaram.

— Eu sei que você sabe onde ela está, mas não se preocupe. Se
você não me disser, conheço outros que vão. — Ele se levantou
abruptamente e voltou para a sala principal.

Eu saí da cama e fui atrás dele.

Eu não estava preparada para o que vi. Eu acho que qualquer


um poderia não ter estado.

Eu pensei que ele estivesse lendo um livro, talvez procurando


por arquivos para seus negócios. Eu estava dormindo em sua cama
e ele estava esperando com um copo de vinho ao lado de uma
fogueira. Algo acolhedor assim.

Eu estava tão errada.


Quando cheguei à porta, eu os vi e alguém começou a gritar.

Fui eu. Eu sabia que era eu, mas não ouvi dessa maneira. Ouvi
alguém gritar de longe, embora eu fosse a única que tinha a boca
aberta, a única que começou a vomitar ali mesmo no chão.

Eu caí, não sentindo nada, pois não suportava a cena na minha


frente.

Ele tinha quatro Hiders lá.

Eu os reconheci pelo modo como estavam vestidos: todos em


preto e todos com o mesmo alfinete que usamos para sinalizar quem
éramos. Era a única coisa que os sobreviventes eram instruídos
usar, um pinguim. Quando meus sentidos voltaram para mim, eu
soube que estes eram os quatro Hiders enviados para me resgatar.

Suas mãos estavam amarradas atrás deles e eles estavam


deitados no chão, os pés cruzados um sobre o outro, amarrados ao
redor dos tornozelos. Trapos tinham sido colocados em suas bocas
e todos estavam ensanguentados e machucados.

Aquele sentimento doentio bateu de volta no meu peito e eu me


inclinei, esvaziando o pouco que restava no meu estômago.

Eu me envolvi em um canto e ninguém fez nada.

Havia três guardas de pé atrás dos quatro Hiders. Kai ficou de


lado. Todos eles esperaram que eu terminasse. Ninguém tinha uma
expressão de desgosto ou irritação, apenas paciência, e isso fez com
que meu estômago voltasse a vomitar mais uma vez.

— Você terminou? — Kai perguntou, alguns segundos depois


da minha última rodada.
Eu não confiava no que eu diria, então não olhei para ele. Eu não
respondi.

— Riley

A mesma suavidade de antes. Maldito seja ele. Senti-o me


puxando, repreendendo-me por não prestar atenção e sentindo que
o poder que eu odiava apoderava-se de mim, olhei para ele. Eu não
pude recusar. Meu corpo reagiu sem minha permissão.

Seus olhos estavam encobertos. Ele gesticulou para meus


colegas de trabalho.

— Você sabe onde minha irmã está. Eu sei disso. Você sabe
disso. Talvez até estes quatro saibam, por isso vou te dar uma opção.
Você me diz onde ela está e eu deixarei seus amigos irem. — Sua
cabeça inclinou para o lado. — Eu vou deixá-los viver, se você me
disser agora onde ela está.

Ele estava delirando.

Ele estava Louco.

Ele era cruel.

— Eu não estou mentindo! — Eu cuspi. — Eu não sei onde ela


está!

Deixe essas pessoas viverem. Deixe-os irem. Deixe-os serem livres.

Ele olhou para mim por trinta segundos antes de concordar.

Um dos guardas avançou, agarrando a parte de trás do ombro


do homem mais próximo e o puxou para cima. O Hider começou a
chutar, tentando levantar as mãos amarradas, mas ele não podia
fazer nada. Ele se agitou como um peixe. Ele estava usando um boné,
o emblema do pinguim costurado nele, ele rolou, mas o boné
continuou.

Ele estava ligado, como se estivesse tentando me dizer alguma


coisa.

Permaneça na causa. Mantenha-se fiel. Mantenha-se forte.

Os outros Hiders começaram a rolar, uma mulher gritando em


volta do pano.

Eu não podia ‒ eu não ‒, eu gritei: — EU NÃO SEI ONDE ELA


ESTÁ!

O guarda ergueu a arma, colocando o cano contra a nuca do


sujeito, pressionando até a tampa. Ele esperou, observando Kai dar
o sinal.

— Oh meu Deus. Eu não... Eu juro que não sei onde ela está —
solucei.

Eu oscilei de novo. Minha visão estava nublando. Se eu me


movesse para ele, o guarda poderia puxar o gatilho. Se eu ficasse
parada, ele poderia puxar o gatilho.

Sua vida estava em minhas mãos e eu não tinha nada para


entregar a ele. Nada.

Ele ia morrer.
O Hider parou, chegando à mesma conclusão e seus olhos
encontraram os meus, uma contestação implacável ali. Eu senti isso
dentro de mim. Ele estava com medo, tão assustado, mas calmo.

Ele não deveria estar calmo.

Eu engoli as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

— Por favor, Kai! Por favor. Meu Deus. Por favor! Eu não sei. Eu
juro que não sei. Por favor, não o mate...

Então, duas palavras suaves.

— Você mente.

E o guarda puxou o gatilho.

Todo o tempo com a Rede eu via pessoas próximas da morte,


mas nunca tinha visto alguém morrer. Nunca.

Até agora.

O corpo do Hider se empurrou para frente. Sangue respingou


por toda parte e o guarda recuou, liberando seu corpo. Ele caiu no
chão e seus olhos estavam fechados. Ele estava tão quieto e caí de
joelhos, tentando segurar tudo, minhas lágrimas, meu vômito e
meus gritos, mas não estava funcionando. Senti meu corpo todo
estremecendo e então bati no chão com força.

Eu não tinha controle. Eu estava tendo uma convulsão. Isso


nunca aconteceu comigo e eu não pude me conter. Meus dentes
bateram um no outro e minha cabeça ia bater em uma cadeira, mas
então alguém amaldiçoou.
O chão tremeu quando passos se aproximaram de mim e
alguém me pegou.

— Tirem eles daqui! — Kai me segurou, latindo sobre meu


corpo. — Eu quero o maldito médico aqui. AGORA!

Eu me agitei ao redor. Minha mão bateu em sua cabeça. Ele


amaldiçoou novamente, mas apertou seus braços mais firmemente
em volta de mim para acalmar meus movimentos.

Isso não era o que ele deveria fazer, mas eu não podia contar a
ele meu treinamento em EMT³. Ele me levou de volta para seu
quarto e nós afundamos na cama, seu corpo inteiro em volta de mim
para me impedir de machuca-lo ou a mim mesma. Quando ele ouviu
meus dentes batendo juntos, ele pegou um travesseiro e enfiou na
minha boca, então afundou de volta e me segurou imóvel.

Eu não deveria ter me sentido segura, mas eu me senti.

Depois de um momento, pude sentir a convulsão diminuindo e


uma exaustão intensa se instalou. Eu ouvi batidas na porta, em
seguida, os passos entrando assim que adormeci. Novamente.
— Pssst, Ray ray! Pssst!

Abri um olho e vi Brooke ajoelhada ao lado da cama, os olhos


iluminados e um sorriso animado no rosto. Suas bochechas estavam
vermelhas.

Eu gemi, enterrando minha cabeça debaixo do meu travesseiro.

— Vá embora. Você está muito acordada para mim.

Ela riu, então empurrou meu ombro.

— Vamos, levante-se. Eu quero te mostrar algo.

— O quê?

Ela era tão irritante, tão desperta em um momento que eu sabia


que era ímpio e errado. Tão errado. Era irritante o quanto ela era uma
pessoa matutina. Cinco da manhã não era a hora de levantar e dançar,
mas esse era um de seus passatempos favoritos.

Graças a Deus eu barganhei duro. Eu consegui que ela fizesse sua


rotina de dança na sala comunitária, no final do corredor. Foi um bom
bônus que duas garotas que odiávamos tivessem seu quarto
diretamente embaixo e elas não tinham descoberto quem era a
dançarina. Ainda não. A hora estava chegando, no entanto. Nós
estávamos há apenas duas semanas na escola.

— Vamos. Falo sério. Eu realmente quero te mostrar uma coisa.


Ela era tão persistente.

— O que é isso? — Eu resmunguei, mas me sentei esfregando


meus olhos. Isso não estava certo. Eu olhei para ela, deixando minhas
mãos cair no meu colo. — Você não é humana.

Ela riu de novo, passando a mão atrás da cabeça.

— Vamos. Vamos. Rápido.

— Está bem, está bem. — Eu me arrastei para fora da cama e


peguei meus chinelos.

Eu estava puxando meu robe e seguindo-a para fora do quarto,


quando me ocorreu que eu não estava com frio. Eu deveria estar com
frio. Estava sempre frio no começo da manhã.

— Espere. — Parei a um metro e meio da porta. — Onde estamos


indo?

Ela colocou a cabeça ao redor e acenou para mim.

— Você vai sentir falta disso. Vamos!

Ela era muito chata para isso ser um sonho.

— Bem, bem, bem. — Eu esfreguei a mão no meu rosto. Eu só


queria voltar a dormir. — Mas para onde estamos indo?

Ela desapareceu no corredor quando eu alcancei a porta.

Então ouvi as palavras dela e uma risada estranha ecoando pelo


corredor.

— Minha execução, boba.


Meus olhos se abriram.

Eu estava acordada e não de volta a Hillcrest, não seguindo


Brooke.

Para a execução dela.

Meu coração batia no meu peito. Eu estava no quarto de Kai, na


cama dele. O medo me paralisou por um segundo, quando me
lembrei da última vez que acordei aqui, lembrei-me de tudo. Então
eu saí da cama, bati no chão e corri para a sala principal.

Eu derrapei até parar.

Eu estava sozinha. Completamente. Não havia nem mesmo


guardas lá dentro.

Eu caí em uma cadeira na mesa e desmoronei. Tanta coisa


aconteceu e minha mente estava nadando. Eu senti como se
estivesse me afogando e os agentes da Hider não fizeram isso.

Eu estava jogando na defensiva esse tempo todo, apenas


tentando recuperar o atraso. Eu tinha que parar. Eu tinha que
formular um plano.

Eles sabiam tudo. Blade. A rede. Os agentes da Hider que vieram


me ajudar, me senti enjoada de novo só de pensar neles. Se eu não
tivesse feito a ligação, esse cara ainda estaria vivo. Sua morte foi
minha culpa.

Eu tinha que fazer o certo de alguma forma.

Brooke
Ela era outra peça do quebra-cabeça.

Kai não acreditou em mim. Ele estava desesperado para


encontrá-la.

As possibilidades eram infinitas e nada disso seria descoberto


a menos que eu saísse daqui.

Eu tinha que sair de alguma forma.

Sair desta sala seria um bom começo. Depois do banho, peguei


algumas roupas e tênis no armário.

Com as mãos úmidas e um pulso que não parecia que iria


diminuir, eu fui para a porta.

Ela se abriu antes que eu pudesse chegar lá.

Eu abri minha boca, pensando que isso tinha acontecido rápido,


mas depois Tanner entrou. Mãos nos bolsos, cabeça baixa, ele
andava como se ele estivesse fora para um passeio que ele não
queria fazer.

Percebendo meus sapatos primeiro, ele fez uma pausa e


levantou a cabeça.

— Oh, ei. Você está acordada. Bom. — Ele se virou e me chamou


por cima do ombro. — Siga-me.

Eu não ia a lugar nenhum.

Bem, merda.

Eu precisava ir. Eu tinha que ver se eu poderia escapar ou


encontrar os outros Hiders.
Tanner não havia esperado por mim, mas havia dois guardas
do lado de fora da porta. Suspirando, saí, mas mantive minha cabeça
erguida. Eu tentei memorizar o caminho para onde eu estava indo,
o que era ridículo porque, eu estava apenas adivinhando onde
Tanner tinha ido. Eu devo ter desligado a maior parte do tempo, mas
depois que eu fiz uma volta pelo corredor, o guarda atrás de mim
limpou a garganta e disse.

— Do outro lado.

— Obrigada. — Eu olhei para ele e virei para o corredor


esquerdo.

Depois disso, eles tiveram que me guiar três lances de escada e


através de tantos corredores que perdi a conta. Eu senti como se
estivesse voltando para a porta principal onde eles me trouxeram,
mas eu não tinha certeza. Eu estava com dor de cabeça tentando
localizar onde estava e procurando rotas de fuga ao mesmo tempo.

Eu deveria desistir ou esperar por uma brecha.

Este era o menor número de guardas que eu tive, mas ainda


havia dois deles. Eu não tinha dúvidas de que sempre que eu
chegasse onde deveria estar, haveria mais.

Então eu contornei a última curva e vi que estava no andar


principal. Eu podia ver a porta da frente, mas Tanner gritou da outra
direção.

— Aqui!

Ele estava na cozinha, um grande salão inteiro com uma longa


mesa de jantar tomando um lado e uma cozinha aberta do outro.
Tanner estava na bancada de mármore, franzindo a testa para
um pote de café.

— Você bebe café, Ray ra... Riley?

Ele estava vestindo jeans e um moletom com o capuz puxado


sobre a cabeça. Com um grande bocejo se esticando sobre o rosto,
ele olhou para mim. — Hummm?

Eu normalmente não tomava, mas dei de ombros.

— Certo. — Talvez isso me ajudasse a ficar alerta.

Meu estômago roncou, doendo. Minha garganta também estava


dolorida.

Ele terminou de preparar o café, sorrindo enquanto apertava o


último botão.

— Aí. Pronto. — Ele deu um tapinha no topo da máquina, um


olhar de orgulho brilhando em seu rosto. — Acabei de receber esta
nova belezinha. Já era tempo de ver se o café expresso realmente me
lembra de Paris. — Ele piscou. — Eu duvido que vá.

— Tanner? — Alguém chamou atrás de mim.

Um cara estava chegando. De cabeça baixa, uma bolsa de


emergência por cima do ombro, ele franziu a testa para o telefone a
caminho da cozinha.

— Você está aí?

Ele levantou a cabeça quando estávamos a cerca de cinco


centímetros do impacto.
— Oh! — Ele derrapou até parar e seus olhos escuros se
arregalaram.

Eu deveria ter me movido. Eu o vi chegando, mas esta não era


uma situação normal. Eu estava começando a sentir que eu tinha
que fazer tudo o oposto do normal apenas para ver o que
aconteceria, se ocorresse uma abertura ou algo assim. Pelo menos
foi o que eu disse a mim mesma. A verdade pode ter sido que minhas
reações foram lentas, muito lentas e quando tentei me afastar para
o lado, meu corpo começou a tremer. Uma onda de tontura se
apoderou de mim e juro que senti meus olhos rolarem para a parte
de trás da minha cabeça.

— Uau.

Um baque soou e duas mãos agarraram meus braços,


mantendo-me de pé quando comecei a vacilar.

— Ela precisa se sentar.

Uma cadeira raspou no chão e eu sentei nela. As mãos ficaram


suaves, calmantes. Elas pareciam boas depois de todo choque. Ele se
ajoelhou na minha frente e senti sua respiração no meu rosto. Ele
levantou uma das minhas pálpebras abertas.

— Tanner, — disse ele por cima do ombro. — Eu disse a você


para dar-lhe algo para comer e beber antes de fazê-la andar pela
casa.

O cara estava bem na minha frente e chegando ainda mais


perto. Uma luz apareceu e ele começou a inspecionar meus olhos,
um após o outro.
— Uh...

Eu avistei o cotovelo de Tanner no ar. Ele estava passando a


mão pelo cabelo novamente. Seu capuz escorregou.

— Eu fiz. Eu pensei que tinha feito. O que você quer que ela
coma?

— Qualquer tipo de suco, o que você prefere? — o cara


perguntou.

Ele fez uma pausa.

Eu percebi que ele estava me perguntando.

— O quê?

— Suco. — Ele apagou a luz e começou a sentir meu pescoço. —


Qual é o seu favorito?

A geladeira se abriu.

— Temos suco de laranja, maçã, ameixa? Por que diabos nós


temos suco de ameixa? — disse Tanner. — Também temos suco de
uva.

Eles esperaram pela minha resposta.

— Oh! O suco de laranja está bom.

Os dedos do cara na minha frente agora estavam pressionando


em minha carótida para sentir o meu pulso, quando ele disse: — Dê
a ela um pedaço de torrada também, com um pouco de mel. Ela
precisa de açúcar no sangue. Você é diabética, Riley?
Ele disse meu nome como se ele me conhecesse.

Ele parecia familiar...

Sua pele era um tom ligeiramente mais escuro, mas ele tinha o
mesmo cabelo preto, olhos escuros e lábios cheios que todos os
Bennetts tinham. Seu cabelo era um pouco mais enrolado e ele
parecia mais jovem, ou talvez fosse a gentileza que eu sentia dele.
Ele tinha um rosto de bebê também, com uma suavidade em sua
pele.

— Jonah? — Eu perguntei.

Ele era o bebê.

Ele assentiu, sorrindo ligeiramente, mas com um lampejo de


tristeza nas profundezas de seus olhos.

— Oi, Riley. Sinto muito por nos encontrarmos nessas


circunstâncias. E especialmente, depois da noite passada. O choque
do que Kai fez, misturado com o quanto você estava vomitando e o
fato de você não ter comido ou bebido muito durante todo o tempo
que eles estavam dirigindo, lhe deu uma convulsão induzida pela
queda na pressão arterial e no nível de açúcar no sangue. Níveis.
Você é diabética? — Ele perguntou de novo, pegando uma pequena
máquina e levantando um dos meus dedos. Ele apertou logo abaixo
da ponta e enfiou a agulha na minha pele.

— Ei.

Ele colocou a máquina longe, deixando-a de lado.


— Sua cor está voltando, mas você está desidratada. — Quando
a máquina de café começou a zumbir, Jonah fez uma careta para
Tanner. — Isso não é para ela, é?

Tanner tinha duas canecas na frente dele.

— Uh... talvez?

Descompactando sua bolsa, ele tirou um estetoscópio.

— É melhor não ser. Ela precisa de líquidos. Suco e água são


tudo o que ela pode beber, pelo menos por um tempo. Se tudo for
induzido sem sobressalto e sem qualquer outro tipo de
medicamento, ela poderá tomar o café mais tarde.

Ele afastou minha camisa apenas um centímetro e pressionou


o estetoscópio no meu peito.

— Você é médico? — Eu perguntei, enquanto ele colocava a


outra extremidade em seus ouvidos.

Kai pediu um na última noite.

Jonah ficou parado por um segundo antes de mover o


estetoscópio para o outro lado e depois para trás de mim. Ele o
dobrou de volta e guardou em sua bolsa um momento depois.

— Não. Eu não sou.

Tanner sorriu, enquanto nos observava na cozinha.

Eu peguei os ombros rígidos de Jonah enquanto ele se movia na


minha frente novamente.

— Eu te aborreci perguntando isso?


— De modo nenhum. — Mas seu tom tinha esfriado. Ele
apontou para minha camisa. — Eu gostaria de pressionar seu
estômago. Tudo bem se eu fizer isso? — Seu olhar encontrou o meu.
— Você está grávida?

Eu empalideci.

— Não!

Merda. Eu estava? Mas não. Essa era uma pergunta ridícula.


Houve um encontro do Tinder há seis meses, mas essa foi a última
vez que eu precisei fazer isso para atender a esses tipos de
necessidades. Eu não era puritana, mas gostava de sexo em um
relacionamento. E por causa do meu trabalho, relacionamentos
significativos eram poucos e distantes entre si. Nos últimos cinco
anos, eu saí com dois caras e os dois relacionamentos terminaram
depois de oito meses.

Eu era uma boa mentirosa. Eu não me sentia orgulhosa disso,


mas com a maneira como vivia, tinha que estar em ordem para
sobreviver. Mas de alguma forma, a mentira sempre coloca uma
parede entre mim e qualquer um com quem eu possa estar
envolvida. Comecei a me sentir cada vez mais vazia quanto mais
tempo eu ficava com alguém, e isso significava, que a única outra
opção era Blade. Mas os sentimentos românticos não estavam lá
com ele.

— OK. — Jonah pressionou meu estômago. — Você sente dor


em algum desses pontos? — Ele se moveu e pressionou quatro áreas
no meu estômago. Eu balancei a cabeça todas as vezes.

Com um suspiro, ele recostou-se e pegou a máquina.


— Seus níveis estão bons. Você não é diabética, então eu
suponho que sua convulsão foi induzida pelo estresse, misturada
com o caos que seu corpo sentiu ontem. Pode acontecer. É raro,
muito raro, mas eu já ouvi falar disso antes. — Ele franziu a testa,
hesitando, mas enfiou a mão na bolsa novamente. Ele puxou alguns
papéis, deslizando-os para mim com uma caneta no topo. — Eu
gostaria de pedir seu arquivo. Você me daria permissão para fazer
isso? — Ele indicou os papéis. — Isso me protege mais, só para você
saber.

Eu entendi o que ele estava dizendo. O arquivo provavelmente


já estava com ele. Kai teria exigido, com ou sem permissão, e isso era
apenas uma maneira de cobrir as costas de Jonah, caso fosse
necessário. Com o que essa família poderia fazer, fiquei aliviada ao
ver um membro seguindo a lei.

Eu balancei a cabeça e peguei a caneta.

Sua boca pressionou em uma linha firme quando eu assinei.

— Não era para ser assim.

Ele ficou parado, olhando para Tanner. Eu não conseguia ver o


rosto dele, mas Tanner não parecia perturbado.

Ele deu de ombros e bocejou.

— Não olhe para mim, irmãozinho. Você e eu sabemos que não


tomamos as decisões.

— Sim. Bem. — Jonah se abaixou para pegar sua bolsa,


colocando a alça por cima do ombro. Ele olhou de volta para mim,
uma de suas mãos deslizando em seu bolso. — Beba o suco e coma
um pouco de torrada, Tanner vai pegar para você. Espere para
tomar o café. Você deve estar bem agora, mas está desidratada. Você
precisa ser reidratada antes de beber essas coisas.

Deu a Tanner mais um olhar demorado. Então ele voltou para a


porta e desceu o corredor, não indo para a entrada da frente,
deixando-me sozinha com Tanner. Bem, Tanner e os guardas, dois à
porta e mais que eu sabia que estavam do lado de fora.

Tanner pegou o copo de suco que ele serviu para mim e se


afastou do balcão. Ele fez uma pausa, vendo para onde eu estava
olhando.

Acenando para os guardas, ele disse.

— Ei, Marco?

Um dos guardas inclinou a cabeça.

— Pode ir. Ela não vai sair e logo Jonah estará de volta. Estamos
bem.

Os guardas não se mexeram. Ele não disse nada também.

Os olhos de Tanner subiram. Uma maldição suave escapou por


baixo de sua respiração.

— Porra, pessoal. Ela não pode escapar de mim. Vocês todos


estão em de todas as saídas e não há como ela deixar o terreno. A
garota está impotente e não vai me atacar. — Seus olhos se voltaram
para mim. — Ou eu acho que não.

A resposta dos guardas foi cruzar os braços na frente do peito


e virar os ombros para trás, elevando-se a sua altura.
Tanner rosnou.

— Kai é o chefe, mas você está esquecendo que este é o meu


lugar também. Eu posso fazer das suas vidas um inferno se eu
quiser. Vá embora. Eu estou falando sério.

Os dois agora compartilhavam um olhar e Marco cedeu.

— Nós estaremos bem do lado de fora da porta da frente.

— Sim. — Tanner acenou para as costas quando se viraram


para sair. — Você vai ficar aí. — Ele se aproximou de mim quando
eles saíram, fechando a porta atrás deles. Ele colocou o suco na
minha frente. — Beba.

Ele recuou para o balcão quando dois pedaços de torrada


apareceram.

— Kai é assustador, mas Jonah também é se suas ordens não


forem atendidas.

Peguei meu copo, tomando um gole. O suco foi refrescante e


meu estômago roncou, como se tivesse acabado de lembrar que
estava além da marca vazia.

Tanner começou a passar manteiga na torrada.

— Jonah é médico? — Eu perguntei.

— Hummm-hummm.

Como um irmão se tornou médico quando outro matava


pessoas para viver? Eu olhei para Tanner. Ele estava puxando frutas
da geladeira. O que ele fazia? Como ele se encaixava nessa família?
— Ele matou os outros na noite passada? — Eu perguntei para
ele.

Tanner fez uma pausa, endireitando-se um pouco, seus olhos


ficando mais alerta.

— Eles estão vivos.

Ele pegou o prato de torrada e a tigela de frutas que ele tinha


colocado juntos, e os trouxe até mim.

— E eles não estão aqui, se você está esperando para procurá-


los. — acrescentou. — Eles foram transferidos para uma instalação
diferente.

Minha boca salivou com o cheiro da torrada e a visão dos


morangos na minha frente agora. Eu odiava isso. Eu queria passar
por todos os níveis de resistência, até mesmo uma greve de fome se
fosse possível, mas não podia. Meu estômago roncou como um
vulcão pronto para explodir.

Tanner suavizou seu tom de voz.

— Veja. — Ele sentou na minha frente. — Nós te trouxemos


porque, você é a nossa melhor chance de encontrar a nossa irmã.
Isso é tudo. Se você nos ajudar, poderá voltar para sua vida. Será tão
fácil quanto isso.

Eu olhei.

— Você me sequestrou. Não é tão simples assim.

Ele bufou.
— Por favor. Você pode dizer ao primeiro-ministro que foi
sequestrada e nada aconteceria. Você conhece o seu trabalho e sabe
que nossa família não pode ser tocada.

Eu zombei.

Ele levantou uma sobrancelha, seu sorriso conhecedor.

— Não subestime meu irmão. Isso será um erro fatal, se você


fizer.

Eu me endireitei, segurando o copo de suco na minha frente.


Sua frieza me acalmou por algum motivo.

— Eu não sei onde Brooke está. Mas mesmo se eu soubesse, por


que eu ajudaria você a encontrá-la? Se Brooke desapareceu sozinha,
tenho certeza de que ela fez isso por um bom motivo.

Como se ela estivesse com medo de seus irmãos ou um deles?

Como se ela não quisesse ser assassinada, do jeito que seu


irmão mais velho tinha sido ou o pai deles?

— Brooke não estava no estado de espírito certo quando ela


partiu, — Tanner respondeu. — Confie em mim sobre isso. — Ele se
inclinou para frente, seus olhos perfurando os meus. — Você sabe o
quão próximo eu era dela. Eu sei que você sabe. Ela me contou o
quanto ela falou sobre mim para você, então lembra o quanto eu a
amava naquela época? É ainda mais agora.

Ele se recostou exatamente quando Jonah retornou.

— Todos nós a amamos. Muito. Estamos cuidando dela, por sua


segurança.
Jonah diminuiu a velocidade, ouvindo as últimas palavras de
seu irmão.

Tanner estava certo. Eu me lembrava do quão próximo ela era


dele e como ela adorava Jonah, que estava crescido agora.

— Você tinha dez anos quando Brooke deixou Hillcrest. — eu


disse a Jonah. — Então, você está vinte e três agora?

— Meu aniversário foi na semana passada, agora tenho vinte e


quatro. — Sua resposta foi dura e ele foi para a cozinha.

Ele era médico nessa idade? Isso não era possível.

Como se lesse meus pensamentos, Tanner sorriu.

— O pequeno Jonah é um gênio. Então, tome cuidado, Ray ray.


— Um sorriso se espalhou por seu rosto. Ele estava me provocando.
— Qualquer que seja o plano de fuga que você esteja pensando, já
foi pensado e cuidado para você. Entre Kai e Jonah, cada detalhe foi
tratado. Sua melhor aposta para sair daqui, é nos ajudando a
encontrar Brooke.

Percebi como ele parecia seguro, como Jonah se mostrava


resignado e me lembrei de como eles me capturaram, como haviam
lidado com o posto de gasolina e como tudo fora calculado e
planejado na noite anterior. Meu coração afundou.

Eles estavam certos.

Eu tinha que ajuda-los a encontrar Brooke.

Sua imagem brilhou em minha mente, suas fotos nas mídias


sociais do noticiário e eu me lembrei de segurá-la depois que Kai e
seu pai foram embora. Lembrei-me de como ela soluçara em meus
braços e endureci por dentro.

Fodam-se. Eles.
Eu tinha três maneiras de sair.

Encontrando Brooke. Escapando. Ou colocando eles em uma


situação onde precisariam me deixar ir.

Enquanto eu bebia meu suco de laranja, comia minha torrada,


tomei um segundo copo de suco e, finalmente, uma xícara de café.
Saboreava todos os gostos porque, se o pior acontecesse, uma greve
de fome seria o último recurso. Mas mesmo assim... eu corri através
dos cenários. Eles poderiam colocar um tubo de alimentação em
mim.

Eu estremeci com o pensamento.

Eu esperava que não chegasse a isso. Eu realmente não queria.


Outro ataque, talvez? Jonah disse que era raro e não achava que
sofreria de novo. Mas eu poderia fingir? Eu poderia fazer outra coisa
em que eles seriam obrigados a me levar para um hospital? Talvez.
Esse era outro último recurso, então escapar seria o primeiro.

Eu tenho que tentar. Eles continuam me dizendo que era inútil,


mas eu precisava descobrir por mim mesma.

E isso significava que eu deveria estar em minha melhor forma


então, pedi uma terceira torrada enquanto comia todas as frutas que
Tanner me dera.

Eu não estava pensando no Hider que eles mataram. Eu não


podia. Eu não conseguia nem me concentrar em Brooke. Escapar era
a prioridade para mim. Se eu pudesse sair da propriedade, eu sabia
que Blade estaria esperando por mim. Ele teria rastreado todos os
telefones para este local. Suas habilidades tecnológicas eram quase
inigualáveis. Ele era o melhor e era um ativo que a Rede 411
utilizava com frequência. Fomos colocados perto de Calgary por um
motivo. Era bem no meio da linha de divisão entre o Canadá e os
Estados Unidos.

Sentei-me na cozinha com Tanner e Jonah, que pareciam


satisfeitos em ficar em silêncio por mais uma hora antes de eu
começar a ficar cansada. Jonah notou primeiro.

— Você precisa de mais descanso para melhorar. Você deveria


dormir.

Eles chamaram os guardas, que me levaram de volta para a


outra parte do complexo. Eu pensei que eles me levariam para o meu
quarto, mesmo que eu só estivesse lá por um curto período de
tempo, mas eles não o fizeram. Eles me levaram para o apartamento
de Kai.

Eles me deixaram em paz ocupando seus lugares do lado de


fora da porta, e desta vez eu fiz uma busca mais completa do lugar.

As aberturas eram pequenas demais para passar.

A janela principal da sala de estar dava para o mesmo penhasco


que a varanda. Se eu quisesse fugir dessa sala, teria que mergulhar
para a morte. Então isso significava que eu precisava ser capaz de
me mover pela casa mais livremente. Tinha que haver outra opção
em outro lugar.
Eu estava mesmo cansada, Jonah estava certo. Eu precisava de
descanso então, me arrastei para a cama de Kai e tentei não
perceber o quanto os lençóis eram bons até que eu desmaiei.

Eu acordei com a escuridão.

As cortinas estavam puxadas para trás das portas de vidro,


assim o luar se infiltrava, mas não era muito. Então eu senti o que
deve ter me acordado. Uma figura se moveu no armário e ouvi sons
farfalhantes. Roupas. Roupas sendo removidas. Um cabide batendo
contra o outro.

Eu não disse nada e depois de um momento ele foi para a sala


principal.

A luz inundou o banheiro antes que desaparecesse e ouvi a água


sendo aberta. A luz brilhou novamente quando a porta se abriu
antes de ser desligada.

O relógio ao meu lado dizia que eram três da manhã. Eu tinha


dormido a tarde toda e, à noite, até a madrugada.

Minha bexiga estava desconfortável, isso também poderia ter


sido o que me acordou.

Eu não ouvi Kai voltar, mas o senti novamente. Ele parou no


final da cama.

— Devo acender a luz para você? Você precisa ir ao banheiro?


Eu coaxei, sentando.

— Sim. Obrigada.

Ele acendeu a luz e foi ofuscante. Fechei os olhos, mantendo a


cabeça baixa quando saí da cama e corri ao redor dele. Eu senti seu
olhar o tempo todo. O ar eletrizou quando passei por ele. Eu senti
como se respirar fosse mais fácil quanto mais eu me afastava dele, e
uma vez que eu fechei a porta, me senti melhor.

Talvez apenas a presença dele tenha me acordado?

Eu tinha certeza que ele pretendia dormir comigo. Era por isso
que eu estava no quarto dele? Ele não pressionou antes e eu não
tinha considerado isto. Tanner não fizera nenhum movimento e
Jonah também não. Os guardas eram todos respeitosos. Não houve
comentários obscenos, nenhuma sugestão de nada sexual. Mas tudo
isso foi feito depois desta noite?

Meu corpo estava calmo. Eu não estava reagindo do jeito que


deveria estar em uma situação de sequestro. Parecia que velhos
amigos me mantinham longe de casa, mas eu poderia escolher sair
se quisesse. Era assim que me parecia, mas isso não era verdade.

Eu precisava acordar para a realidade.

Havia algo no suco de mais cedo? Eu assisti enquanto Tanner


servia o primeiro copo e ele não colocou nada nele, ele se serviu de
um copo mais tarde. Ele bebeu do mesmo jarro. Eu o vi derramar o
café. Ele colocou alguma coisa na minha caneca antes de colocar o
café? Mas Jonah não queria que eu bebesse. Isso não aconteceu
porque eles me drogaram.
Eu sabia que estava desidratada da noite anterior. Eu vomitei
tudo de mim e chorei o resto.

Meu corpo realmente estava exausto do choque.

Agora eu estava na cama de Kai, dormindo, e ele se ofereceu


para acender a luz para mim? Ele estava sendo gentil, quando eu
sabia que ele era frio e implacável.

Minha cabeça começou a doer e depois de me aliviar e me lavar,


fiquei nervosa ao voltar para o quarto. Eu estava nervosa em lidar
com Kai Bennett.

Onde ele esteve hoje?

Eu sabia que a tempestade da noite anterior estava chegando


de novo. Kai estava de volta. Kai foi quem pediu minha ajuda.

O sentia do outro lado da porta. Mais uma vez não houve som
algum, eu não vi a sombra dele, mas sabia que ele estava lá antes de
falar.

— Nós vamos dormir. Isso é tudo, Riley.

Um caroço se formou na minha garganta, com ele sendo gentil


novamente. Paciente. Calmo.

Meu corpo se inclinou para ele, como se ele fosse o abrigo para
mim nesta tempestade.

Eu cerrei meus dentes.


Eu precisava lembrar que ele matou aquele homem. Eu
precisava me lembrar de Cord e do pai deles. Brooke estava com
medo dele.

Mas.

Mesmo quando tentei me fazer lembrar de todas essas coisas,


meu corpo ainda estava se voltado para a frente. Eu caí em direção
à porta, querendo abri-la e sair. Ele era sedutor sem tentar ser
sedutor.

Minha mão tremia quando abri a porta e lá estava ele. Meu


estômago vibrou com as borboletas dentro dele. Meu coração
acelerou.

Ele usava apenas calças de moletom, que estavam abaixo da


cintura. Eu não pude evitar. Eu reparei cada músculo do seu peito e
barriga. Até seus quadris eram definidos. Ele se endireitou de onde
estava encostado no batente da porta e seus olhos escureceram,
ficando completamente negros quando ele me olhou também.

Eu me tornei autoconsciente de que estava com apenas uma


camiseta e um par de cuecas boxer que eu encontrei em seu armário.
Eu troquei antes de me arrastar na cama depois do café da manhã.

Eu estava vestindo suas roupas, sem sutiã.

Seu olhar pousou nos meus seios e eu senti eles endurecerem.

— Tanner me disse que você não matou os outros. — eu soltei,


precisando pensar em outra coisa, para mudar o clima. — Isso é
verdade?

Funcionou.
Os olhos de Kai bateram nos meus e, embora ele não se
mexesse, senti-o se afastar. Uma parede deslizou entre nós.

Seu rosto endureceu.

— Sim, seus amigos estão vivos. Sua rede foi notificada sobre a
captura deles, junto com a sua.

Eles já sabiam. Eu os notifiquei, mas segurei minha língua.

Seus olhos começaram a arder e um brilho insultuoso apareceu


quando ele disse.

— Mas, novamente, você já sabia disso, já que foi você quem os


chamou.

Agora eu fiquei alerta.

Como ele sabia? Os Hiders haviam dito a ele?

Ele repreendeu baixinho.

— Você acha que um dos meus homens deixaria o telefone por


acidente?

Tudo em mim despencou no chão. Esperança. Rebelião. Força.


Elas tinham ido embora agora, e eu sabia que o que ele disse estava
correto. Tudo havia sido pensado, até a isca para eu pegar.

Foi então que percebi a verdadeira razão pela qual eles me


levaram. Tudo se encaixando no lugar.

Eu fui uma tola.

O desespero tomou conta de mim.


— Você não me pegou porque achou que Brooke tivesse me
chamado, não é? — Era a verdade. Eu senti isso agora e vi um olhar
arrogante em seu rosto. — Você me sequestrou por causa da rede
411.

Ele me sequestrou, sabendo que eu os chamaria se tivesse uma


chance. E eu fiz exatamente o que ele queria.

Seu tom era suave, mas enviou calafrios nas minhas costas.

— Seu amigo Blade não é o único especialista, que sabe ser o


melhor no que faz. Nós temos um dos nossos. — Ele se inclinou para
mim, sua respiração fez uma carícia irritante no meu rosto quando
eu fechei meus olhos. Eu não podia me afastar, mas não me
inclinaria para ele.

Ele se aproximou até que eu pude sentir o calor de seu corpo.


Ele estava a um centímetro de distância. Eu podia ouvi-lo
respirando.

— Seu amigo não sabe onde você está e sua cooperação não é
mais necessária. Sua rede está procurando por Brooke para nós,
para ter você de volta.

Sua mão tocou meu braço, me dando choques com o contato.


Seu braço se enrolou ao meu redor, me puxando contra ele.
Sensações cauterizaram minhas entranhas. Ele se inclinou, sua
respiração agora no meu pescoço.

— Com ou sem sua ajuda, recuperarei minha irmã e você será


libertada. Até então... — Ele se abaixou, me pegando em seus braços.
Eu ofeguei, meus braços agarrando seu pescoço em pânico. Mas
eu não precisei. Ele me embalou contra o peito enquanto voltava
para o seu quarto. Ele se moveu para o lado da cama em que eu
estava deitada, mais perto da varanda, e me deitou.

Ele olhou para mim antes de se afastar e eu não conseguia me


mexer.

— Eu não pretendia fazer isso, se é importante para você saber.


Você deveria ser levada e colocada em um quarto agradável e
confortável, deveria receber qualquer coisa que você quisesse,
exceto sua liberdade, e sua Rede entregaria minha irmã por sua
segurança. Eu não estava nem pensando em falar com você, exceto
para perguntar sobre Brooke, mas aqui está você.

Sua mão foi para o meu rosto, seu polegar no meu lábio inferior.
Ele o contornou e eu não pude reprimir um arrepio.

Não foi um arrepio ruim. Esse era o problema. Eu nunca


entenderia minha reação a ele.

Ele recuou, a mão caindo e o triunfo brilhou em seus olhos.

— Durma hoje à noite, Riley. Isso é tudo que eu peço de você.


— Ele se moveu para o outro lado da cama.

Eu escorreguei debaixo das cobertas e senti a cama se mover


quando ele se juntou a mim. A luz se apagou um segundo depois
disso.

— O que acontece se eu te matar enquanto você dorme? — Eu


perguntei. — Você confia em mim para dormir aqui, com você?

Ele riu baixinho.


— Não, mas por alguma razão eu não posso fazer com que os
homens te levem embora. Então, por enquanto, você fica. Se você me
matar, também morrerá.

— Você vai machucar sua irmã quando ela voltar?

Ele não riu dessa vez.

— Ela acha que eu vou, mas não. Ela correu com a suposição
errada em sua mente. Isso é tudo que posso dizer.

— Por quê?

Ele suspirou, apenas a um passo de mim. Eu pude sentir isso.

— Amanhã podemos conversar. Talvez você encontre algumas


respostas. Por agora, estou cansado, viajei durante todo o dia e tive
muitas reuniões. Quero dormir. Durma, Riley.

Mas eu não fiz, mesmo muito depois que ele dormiu.

Eu ouvi a respiração dele acalmar e eu tentei me encontrar.

Eu me forcei a lembrar aquele Hider. Lembrei-me de ver o


guarda puxando o gatilho, o jato de sangue e a maneira como o corpo
dele caiu no chão.

Ele morreu por minha causa e eu jurei que encontraria sua


família.

Tentei reunir energia e coragem para sair da cama, ir até a


cozinha e encontrar uma faca. Eu imaginei esfaquear
profundamente Kai.
Eu tinha que fazer a morte desse cara significar algo. Eu
precisava.

Essa promessa era a única maneira de acalmar isso na minha


cabeça. Porque em vez de levantar, adormeci.
Eu dormi três horas.

Eu poderia dizer que meu corpo tinha pegado no sono quando


eu acordei, porque me sentia bem. Eu me sentia sã. E eu assisti Kai
dormir pela próxima hora.

Agora que eu não estava privada de sono nem em choque,


conseguia pensar com mais clareza. Revi tudo o que aconteceu com
Kai, Tanner, Jonah, com todo mundo.

Eu estava fraca. Essa é a única explicação que eu tinha por eu


não estar correndo ou lutando agora.

Faz seis meses que não faço sexo. Havia isso também.

Eu estava atraída por Kai Bennett. Não importava quem ele era
e isso era apenas a verdade. Depois da noite passada, sentindo meu
corpo querendo ir até ele enquanto minha mente gritava para eu
ficar longe, essa era a única explicação que eu poderia justificar. Eu
era fraca e não desejava um homem desde aquele encontro do
Tinder. E mesmo o efeito daquele cara em mim, foi mínimo
comparado ao de Kai Bennett.

Não. O irmão de Brooke.

Eu tinha que recuar. Eu tinha que erguer paredes entre ele e eu,
porque eu sabia o que precisava fazer. Os primeiros nomes não
faziam parte disso. Os nomes não faziam parte disso. Ele era irmão
de Brooke. Ele era o motivo pelo qual ela correu. Ele era o assassino
de Cord e o assassino do pai deles.
Assassino. Homicida. Ele era um desses também.

O treinamento de Hider nos diz para nos despir de nossa


humanidade. Ela estaria lá nos momentos em que precisássemos,
mas para chegar ao ponto de agressão, nós teríamos que ir para o
inferno. Tínhamos que estar preparados para o que quer que esteja
do outro lado. Quando eles nos ensinaram isso, pensei em minha
mãe. Eu achava que sabia o quanto ele havia batido nela, como ele a
tinha deixado para morrer e chamado alguém para cuidar do corpo.
Aquele Hider, embora meu pai não tivesse ideia de que ele estivesse
na Rede, não sabia onde estava se metendo. Se meu pai o pegasse,
recuasse por algum motivo ou o seguisse, o Hider teria que mata-lo.
Porque se ele não fizesse, eu não tinha dúvida que Bruce Bello teria
matado o Hider e minha mãe.

Isso é o que eu precisava fazer esta manhã. Eu deitada aqui, ao


lado deste homem, comecei a despir minha humanidade.

Quando nós, os Hiders, abrimos a porta encontrando o


sobrevivente e percebendo que a cena é segura, nossa humanidade
volta para nós.

Exceto que, às vezes, isso não acontecia.

Eu odiava e ficava com vergonha por causa disso.

Era por isso que fazemos o que fazemos, mas quando abrimos
as portas, às vezes, eu não sentia nada pelo sobrevivente. Eu não
sentiria nada, até que já tivéssemos levado eles aonde precisavam
ir. Geralmente era na volta para casa que minha humanidade voltava
para mim.
O carro estaria em silêncio, eu na parte de trás, ou ao lado de
Carol ou Blade na frente, e eu iria ofegar quando ela voltasse.

Ninguém nunca olhava para mim. Ninguém perguntava. Eu não


sabia se eles sabiam ou entendiam, mas não me olhavam até o
momento em que eu derramava uma lágrima pelo que fizemos.
Ajudamos alguém e fiquei grata.

Mas também ficava agradecida porque, passei por isso e meu


time também. Blade e Carol eram como minha família agora. Eu
passei quase mais tempo com eles do que qualquer outra pessoa.
Quase.

Sentando-me, escorreguei da cama, fiquei de pé e olhei para


aquele homem dormindo.

Não estava certo, porque no momento, eu não precisava sentir


isso e era exatamente o que estava fazendo. Eu ainda sentia muita
confusão sobre como poderia desejar tanto esse assassino. Senti o
mesmo desgosto por mim mesma, que sentia todas aquelas vezes
em que precisei sentir meu coração e não sentia.

Eu geralmente empurro para baixo minhas emoções. Agora eu


não fiz.

Eu permiti que o desgosto crescesse para eu odiar. Eu me


odiava. Encheu cada centímetro do meu corpo, cada poro, cada
célula, cada fio de cabelo, até que finalmente, finalmente passou por
mim e foi para ele.

Era o meu próprio ódio, mas permiti que ele se espalhasse para
além de mim.
Eu não poderia pensar. Se eu fizesse, não funcionaria. Ao redor
da cama, fiz o que prometi fazer há dois dias atrás.

Havia um bloco de facas na cozinha e peguei um dos menores.


Eu sabia que era tão afiado quanto os outros e, eu poderia manejá-
lo com melhor precisão.

Voltei para o quarto.

O sol começara a se elevar do lado de fora.

Um pequeno lampejo de luz começava a esquentar a sala. Era


apenas o suficiente para distinguir sua forma dormindo.

Eu parei na porta, segurando a faca.

Eu sabia o que aconteceria. Se eu o matasse, ele disse que eu


também morreria. Isso significava que eu teria que fazer isso, depois
fugir.

Eu provavelmente não conseguiria, mas tinha que tentar. Eu


nunca mais teria essa chance. Eu sabia disso com certeza. Era agora
ou nunca.

Eu levantei a faca...

...e seus olhos se abriram.

Eu me lancei para a frente ao mesmo tempo em que ele se


levantou num pulo. Ele me pegou no ar. A faca voou da minha mão e
ele nos rolou, então eu estava debaixo dele. Eu tentei lutar chutando
ele, mas ele só mudou de posição para que todo o seu corpo
estivesse em cima de mim.
Eu tentei dar um soco nele; Ele agarrou meus braços e os
prendeu na cama.

Cada centímetro dele estava colado em mim.

A coisa toda aconteceu em menos de três segundos e nenhuma


palavra foi falada entre nós.

Seus olhos estavam quentes e irritados, sua mandíbula cerrada.


Uma veia ficou saltada no pescoço dele. Suas sobrancelhas se
uniram e um zumbido soou na porta.

Ele amaldiçoou em voz baixa, pulando da cama em um


movimento ágil. Ele apontou para mim quando saiu do quarto.

— Fique aí.

Um momento depois, ele abriu a porta do apartamento. Ele teve


uma breve conversa antes da porta se fechar novamente e as luzes
do apartamento se acenderam. Ele voltou para o quarto. Eu não me
mexi e ele me encarou por um segundo.

— Levante-se e vista-se. Vamos embora.

Deveria haver um nó na minha garganta. Mas não houve nada,


apenas aceitação. Meu corpo estava aquecido, minha respiração era
superficial e rápida.

Eu me sentei.

— Você vai me matar?

Ele bufou, tirando roupas de sua cômoda.


— Não me tente. — Seus olhos passaram por mim. — Sua rede
ligou. Eles encontraram Brooke.

Brooke? Não.

Não havia como eles trabalharem tão rápido, mesmo que


houvesse duas linhas. Era uma armadilha. Tinha que ser, mas eu não
disse nada. Esta poderia ser a minha abertura. Se eu não matasse
Kai, eu poderia escapar. Eu só tinha que estar pronta.

— Riley

Por que ele tinha que soar tão cansado?

— Vista-se.

Ele saiu. Ouvi a porta do apartamento abrir, fechar e travar um


momento depois.

A faca parecia zombar de mim onde estava no chão. Ignorando,


fiquei de pé e me vesti.
— Você teve problemas ontem à noite?

Tanner se aproximou de mim enquanto esperávamos nos


degraus da frente da mansão. Ele olhou para Kai e os guardas, que
estavam conversando na calçada. Era cedo, por volta das seis e meia
e uma brisa fresca girou em torno de nós, junto com um pouco de
neblina. Deu uma sensação estranha à atmosfera.

O que eu não estava sentindo porque estava chateada.

Eu estava brava por não ter feito meu trabalho, em vez de


dormir ao lado de Kai. E eu estava puta, porque quando eu fiz, eu
falhei. De alguma forma, eu estava até com raiva por ter feito o meu
trabalho. Nada me deixou feliz esta manhã.

E eu ainda estava sendo mantida cativa. Isso estragou ainda


mais as coisas.

Eu fiz uma careta para Tanner.

— Não comece.

Ele reprimiu uma risada, empurrando seu ombro com o meu


quando ouvi um gemido atrás de nós. Jonah estava do outro lado do
irmão, esfregando as mãos. Ele largou a mesma bolsa parecida com
EMT3 que ele estava ontem ao seus pés, antes de alcançar dentro de

3
Um técnico médico especialmente treinado e certificado para prestar serviços básicos de emergência (como ressuscitação
cardiopulmonar) antes e durante o transporte para um hospital
sua jaqueta para ajustar alguma coisa. Então ele colocou sua bolsa
por cima do ombro.

Tanner e eu o observamos.

Jonah olhou, levantando uma sobrancelha.

— O quê?

— Você vai com a gente? — Tanner perguntou.

Jonah encolheu os ombros, segurando um bocejo.

— Eu percebi que eu poderia pegar uma carona. Kai só queria


que eu viesse checá-la. — Ele acenou para mim. — E ela parece bem,
então eu tenho outro turno que eu quero terminar, antes do fim de
semana.

Tanner olhou para o céu antes de sorrir largamente e bater nas


costas de seu irmão.

— Jonah está em seu segundo ano de residência. Ele tem o quê?


Quantos anos faltam para você ser um verdadeiro cirurgião?

Jonah fez uma careta.

— Cinco, seu idiota. E eu sou cirurgião agora.

— Você sabe o que eu quero dizer. — Tanner riu, chamando a


atenção de alguns dos guardas e Kai, que ainda estavam
conversando na entrada da garagem.

Eu não tinha sido condenada ao ostracismo nem mandada ficar


aqui sozinha, mas deve ter parecido que eu estava sendo punida, o
que Tanner havia percebido. Provavelmente era eu, me sentia como
uma criança sendo disciplinada. Era idiota e irracional.

Mas misturado com a estranheza que eu estava sentindo sobre


a minha tentativa fracassada de matar Kai, lamentando isso e não ao
mesmo tempo, eu estava certificadamente confusa. Essa era eu.

Eu fiz uma careta porque, eu odiava me sentir assim.

Toda a minha vida, eu sabia o que queria. Eu estava


evidentemente no meu caminho.

Antes de Hillcrest, meu único objetivo era evitar meu pai e


cuidar de minha mãe. Quando fui a Hillcrest, minha missão tinha
sido aprender, divertir-me com Brooke e ficar em Hillcrest o
máximo possível (mesmo durante os feriados prolongados). Então,
depois de Hillcrest, meu objetivo era sobreviver. Era isso.

Tudo mudou quando a rede 411 se aproximou de mim.

Depois disso, meu objetivo era me tornar a melhor agente da


Hider que eu poderia ser. Isso significava terminar minha educação,
treinamento e aceitar o cargo que me designaram. Minha mãe estava
apaixonada por outro homem. Eles tiveram outro filho e um
segundo pouco depois disso, e ela estava cumprindo seu objetivo de
apenas viver. Aquele era o seu grande dedo do meio para Bruce
Bello, embora ele não soubesse.

Um dia, eu esperava compartilhar as novidades com ele, que ele


falhou em nos matar. Eu me incluí nisso porque, sabia que teria
acontecido um dia se tivesse ficado por perto. Isso era inevitável. Um
homem assim nunca mudava.
Veja? Toda a minha vida era clara e concreta até agora. Agora
minha cabeça estava toda confusa.

Apesar das minhas circunstâncias, gostava de passar tempo


com Tanner e Jonah. Ainda estava preocupada com Brooke. E fui
sequestrada. Eu odiava Kai Bennett. Ou achava que sim. Sim eu
sentia muita raiva. Eu odiava. Mas meu corpo não.

Foda-se

Eu estava uma bagunça.

— Vamos sair. — Kai se afastou quando uma caravana inteira


de SUVs entrou, parando diante de nós.

Tanner e Jonah partiram em direção a um dos intermediários.


Eu segui até Kai gritar: — Você vai comigo, fatiadora.

Eu chicoteei minha cabeça ao redor, estreitando meus olhos.

Havia um vislumbre de sorriso no rosto dele? Não. Sua


expressão era estoica, como havia sido o tempo todo em que ficamos
ali.

Tanner franziu a testa.

— Por quê? Ela pode ir conosco.

Kai não lhe deu uma olhada, só entrou em um SUV depois de


nós.

— Ela vai comigo. Ponto final.

Eu não senti falta do olhar simpático que seus irmãos me


enviaram antes de eu ir. Kai se sentou no assento mais distante do
carro, então eu não tive que dar a volta. Um guarda estava à minha
porta esperando por mim e eu entrei tentando não apreciar o calor
e o aroma de sândalo. Isso me lembrou de estar de volta em casa,
com Blade e Carol.

Kai abriu a maleta no colo e examinou alguns papéis. Ele


gesticulou para o console à nossa frente:

— Tem café ou chá se você quiser. — Ele arrastou um pedaço


de papel atrás do outro. — Não está escaldante, no caso de você ficar
tentada a jogá-lo em mim. — Ele arrastou um segundo papel atrás
da pilha.

Eu olhei para ele.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Eu não sabia o que
dizer e um som gorgolejante emergiu da minha garganta. Engoli em
seco, envergonhada.

Os guardas fecharam as portas e tudo ficou quieto. Quase


pacífico.

Eu esperava duas filas de assentos como no SUV que eu tinha


vindo para cá. Mas este tinha apenas espaço suficiente para Kai e eu.
Duas portas se abriram na frente, mas havia um separador entre nós
e os guardas. Eu não podia vê-los e nem ouvi-los, mas senti o SUV
mergulhar sob o peso deles enquanto entravam.

O que alguém diria nessa situação? Eu tentei matá-lo e falhei.


Agora ele estava me oferecendo café ou chá.

— Eu tinha que tentar. — então eu acho que é o que eu iria


dizer.
Ele parou de mover os papéis. Eu podia vê-lo olhar no meu
reflexo da janela e, com um sobressalto, seus olhos encontraram os
meus também.

Ele não mostrou nenhuma emoção, embora.

— Eu sei. — E ele voltou a ler seus documentos. — Eu também


teria tentado.

O quê? Eu olhei, mas ele estava me ignorando novamente.

Então os carros se moveram e eu tive a sensação de que seria


assim durante toda a viagem. Silêncio total e completo.
Eu estava certa.

Nós estávamos agora na quarta hora e minha bexiga estava


gritando. Eu não queria, mas eu sucumbi tanto ao chá quanto ao café.
Eu bebi o chá primeiro, porque era isso que eu teria feito em casa.
Chá e frutas: minha rotina matinal, junto com um bom treino ou ioga.
Blade às vezes se juntava a mim. Carol nunca fazia. Ela nos
observava fazer yoga e fazia piadas enquanto mastigava sua batata
da semana.

O chá não tinha me satisfeito e eu tinha ansiado pelo café.


Depois das minhas duas xícaras ontem, comecei a entender por que
todo mundo era obcecado com isso. Havia uma qualidade viciante.
Eu estava agora querendo ir ao banheiro e também querendo uma
segunda xícara de café.

Estava voltando às minhas raízes americanas, parecia, não com


a parte do banheiro, a parte do café. Minha mãe costumava amar as
coisas. Então meu pai...

Meu estômago deu um mergulho repentino.

Eu não falava sobre Bruce Bello há anos e agora, estava sentado


ao lado de alguém que o conhecia. Que conhecia a situação
totalmente.

— Como ele é agora?


Eu fiz a pergunta antes de perceber que estava fazendo. Minha
voz soava rouca, como se eu estivesse meio assustada de perguntar,
e suponho que sim. Eu estava apavorada com a resposta.

Kai se acomodou em seu assento lendo em seu computador,


mas ele olhou para cima. Eu não olhei, mas pude sentir seu olhar.
Mantive minha cabeça virada. Eu o ouvi fechar o computador.

— Seu pai é um dos seres humanos mais estúpidos que eu já


conheci.

Eu olhei para cima. Suas narinas se alargaram e seus olhos eram


ferozes. Ele cruzou as mãos sobre o computador, segurando meu
olhar.

— Eu o conheci quando eu tinha quatorze anos. Ele estava


tendo uma reunião com meu pai e era um tolo. Meu pai usou o seu.
Ele transportou nossas drogas ao lado de seus produtos e seu pai
não fazia ideia até que fosse tarde demais. Há muitos fatores sobre
os quais podemos basear a estupidez de seu pai, mas essa é a
primeira que me lembro. — Ele se afastou, virando-se para a janela.
— Não tivemos um bom encontro com ele desde então.

Esse nó na minha garganta estava de volta. Crescendo.

Eu pressionei minhas mãos, deslizando-as entre as minhas


pernas para acalmar o tremor.

— Você ainda faz negócios com ele?

— Ele é um meio para um fim. Isso é tudo. — Kai olhou para


cima, seu olhar penetrando em mim. — Você gostaria que eu
parasse de trabalhar com ele? Se eu fizer isso, ele sairá do negócio.
Ele perderá todas as suas empresas. Sua prima vai deixá-lo, se ele
não a matou até então. Ele sofrerá.

A maneira como ele disse isso, eu poderia dizer que não era
uma ideia nova para ele.

Meus lábios se separaram.

— Isso é o que você ia fazer com ele? Eu pensei que você disse
que iria matá-lo.

Ele nem sequer piscou.

— Eu poderia fazer isso facilmente. Ele ficaria bravo,


amaldiçoaria, proclamaria que não precisa de nós. Ele estaria
mentindo e logo aprenderia que precisa de nós. Ele voltaria para nós
em algum momento e imploraria. Você poderia estar lá. Você
poderia sair e atirar nele, se quisesse.

Deus.

Ele ofereceu assassinato como se estivesse me oferecendo café.

Eu balancei a cabeça, meu estômago revirando.

— Eu não anseio matá-lo.

Houve silêncio.

Um minuto inteiro.

E então ele disse.

— Você é uma mentirosa como seu pai.

— Eu não sou! — Eu assobiei. — Eu não sou nada como ele.


Ele arqueou uma sobrancelha, imperturbável.

— Você quer matar seu pai. Admita isso, pelo menos para você
mesma. Assim como você quer me matar metade do tempo.

Eu fechei meus olhos. Eu não ia morder a isca. Ele sabia que eu


estava em conflito. Ele também estava. Então, talvez por causa disso,
confessei.

— Eu sonho em me revelar para ele. Eu quero ver o olhar em


seu rosto quando ele me reconhecer, quando eu disser a ele que
minha mãe e eu estamos vivas e ele falhou.

— E então você quer atirar nele? — Eu podia ouvir seu sorriso.


— Ou usar uma faca como você tentou comigo?

Eu poderia cortar meu pai? Empurrar uma faca no fundo da sua


garganta ou em seu peito?

Eu imaginei o rasgo de sua pele, seus tendões e como eu iria


inserir essa faca em seu músculo. Como ele teria espasmo, sua boca
aberta para mim. Ele pegaria a faca, mas só seguraria. Se ele
retirasse, o sangue explodiria dele. Haveria um certo olhar em seu
rosto quando ele percebesse que iria morrer e por minhas mãos.
Sangue escorreria da ferida cobrindo as mãos, o peito e descendo
das calças até os pés.

Seria sangue quente. Eu provavelmente seria pulverizada com


isso. Um sentimento doentio se enraizou em mim e eu sabia que Kai
estava errado.

Eu balancei a cabeça novamente.


— Não, eu não quero matá-lo. Eu só quero que ele saiba que ele
falhou e nunca será capaz de nos ferir novamente.

— Você gostaria que ele fosse arruinado, então?

Os cabelos na parte de trás do meu pescoço se levantaram e eu


mudei minha cabeça para ele.

— Por que tenho a sensação de que você fará exatamente isso


se eu disser que sim agora? — Eu murmurei.

Seus olhos se estreitaram, mas as linhas ao redor de sua boca


se suavizaram.

— Talvez eu esteja procurando uma desculpa para me livrar de


Bruce Bello? Talvez ajudar a amiga da minha irmã seja bom o
suficiente.

Eu zombei, tentando não me sentir afetada por suas palavras.

— Então, quem vai transportar suas drogas para você?

— Nós não estamos mais no negócio de drogas.

Oh. Meus ombros relaxaram.

— Nós transportamos armas agora.

Oh! Meus ombros caíram.

— Mas, para responder à sua pergunta original, seu pai está


pior do que era quando você era criança. Ele é mais vaidoso. Ele é
fraco. Ele é ganancioso. Ele é mais violento. Ele mal se lembra de
mostrar empatia ou consideração, mesmo para manter as
aparências e ele precisa morrer. Seja na minha mão ou na sua, isso
está em debate. — Kai falou sucintamente, como se estivesse em
uma reunião de negócios.

Ele se virou e apertou um botão em sua porta.

— Vamos pegar o caminho C e sair no próximo posto de


gasolina. Senhorita Bello precisa usar o banheiro.

Ele soltou o botão, abrindo o laptop mais uma vez.

— Como você sabia?

Ele não me poupou um olhar.

— Você está se mexendo nos últimos trinta minutos e olhando


para o café com desejo e pesar pelos últimos dez minutos. — Ele
levantou o olhar para mim. — Você não é tão difícil de ler quanto
você esperava que fosse. É uma qualidade que você pode querer
trabalhar, se você continuar como uma agente da 411 Network
depois disso.

Bem, então.

Ele voltou a trabalhar e eu fui efetivamente dispensada. Tentei


provocar indignação, desgosto ou até mesmo raiva. Todos eles
falharam. Por alguma razão, eu estava mais intrigada do que
qualquer coisa.

Essa era outra emoção que eu nunca havia sentido antes.


O passeio depois da nossa parada foi mais confortável.

Tanner deve ter falado por mim, porque Kai me permitiu ir com
ele e Jonah quando saímos do posto de gasolina. Eles me contaram
histórias sobre Brooke, a partir de quando ela saiu de Hillcrest e
continuou antes de desaparecer. Eu sabia que eles pulavam as
partes ruins, como a morte de seu pai ou o que quer que tenha
acontecido que levou Brooke a desaparecer, mas foi legal ouvir
sobre ela.

Parecia que minha velha amiga estava de volta comigo e ela era
tão vivaz e aventureira quanto era comigo na escola. Tanner contou
a maioria das histórias, com Jonah entrando. Ele falou rapidamente,
parecendo animado por poder acrescentar algo à conversa. Mas
Tanner era claramente aquele com o relacionamento mais próximo
com ela.

Assim como nos dias de Hillcrest.

Eles eram cautelosos quando falavam sobre Kai, mas


aceleravam assim que ele não estava envolvido. Ambos sorriam e
riam.

As últimas horas fugiram assim, até que percebi que estávamos


viajando por oito horas.

— Por que vocês não voam?


Eles se aquietaram, parecendo surpresos com a minha
pergunta.

Eu olhei entre eles.

— Quero dizer, economizariam tempo. Certo?

Jonah tossiu e se virou para a janela.

O carro passou de leve a ser sufocante. Eu fiz uma careta.

Tanner respondeu, sua voz baixa:

— Cord morreu em um acidente de avião.

Foi assim que ele morreu?

Tanner franziu a testa.

— Merda. O que Brooke disse sobre como ele morreu?

Eu devo ter reagido.

Dei de ombros, de repente interessada em minhas mãos. Elas


estavam secas. Muito secas. Muito ásperas. Eu precisava de loção.

— Nada, apenas... que ele morreu.

Eu ainda estava olhando para as minhas mãos quando Tanner


bufou.

— Certo.

A conversa terminou e ficamos em silêncio por mais vinte


minutos até que Jonah disse do nada.
— Ela falava de você o tempo todo.

Um arrepio desceu pela minha espinha.

Eles estavam falando sobre ela como se ela estivesse morta, não
em outro lugar.

Eu tentei agitar esse sentimento. Estava errado. Ela estava bem.


Ela estaria bem, onde quer que ela estivesse.

— Mesmo?

— Sim. — Sua cabeça descansou contra seu apoio de cabeça e


ele engoliu antes de acrescentar: — Ela nunca cala a boca, na
verdade. Era doce, de certa forma, mas também irritante. — Ele
abriu os olhos o suficiente para olhar para mim. — Sem ofensa. Era
só que ela agia como se estivesse de volta à escola, até o ano passado.

Tanner tossiu, e se foi intencional ou não, Jonah se aquietou.

Os irmãos trocaram um olhar antes que Tanner baixasse os


olhos, depois murmurou num tom quase distraído. — Faz seis
meses. Ela mudou há seis meses.

Por quê?

O que aconteceu?

Essas perguntas queimavam na minha garganta e eu queria


saber todas as respostas. Eu queria conhecer a Brooke adulta, como
ela era antes de mudar e como ela mudara.

— Sim. — Os olhos de Jonah se fecharam novamente. — Seis


meses atrás.
Eu olhei entre os dois. O que diabos aconteceu?

Pergunte a eles!

Era como se Brooke estivesse gritando comigo. Eu imaginei a


voz dela, gritando na minha cabeça.

— O que aconteceu há seis meses atrás? Como ela mudou?

Por favor, não cale a boca agora. Por favor, não se lembre que
eu sou a inimiga e me deixe de fora.

Eu prendi a respiração, preocupada que eles fizessem


exatamente isso.

— Eu não sei. — Tanner expeliu uma súbita onda de ar. Seus


olhos estavam desanimados, sacudindo até os meus antes de
deslizar para a janela. – Ela tinha acabado de mudar. Ela parecia
feliz, borbulhante e, em seguida, nada. Algo aconteceu. O que quer
que tenha sido, foi por isso que ela se foi.

— Porque ela estava com medo de Kai.

— Pare! — Tanner disse bruscamente. Ele olhou para Jonah,


controlando sua voz. — Família primeiro, Jo.

Os olhos de Jonah se fecharam por um segundo. Ele levantou a


mão, esfregando a testa antes de deixá-la cair ao seu lado
novamente. Ele suspirou.

— Sim. Certo. Sim. Minha culpa. — Seus olhos estavam


sombrios quando ele olhou para mim. — Desculpe, Riley.

Droga.
Ele estava progredindo e depois nada. Uma porta bateu,
parando o fluxo.

O desapontamento me encheu, mas tive a sensação de que


estaria nesse carro por mais algumas horas. Outra oportunidade
pode se apresentar.
A parada foi repentina.

Estávamos zunindo e, de repente, nosso veículo desviou-se


para a esquerda, depois para a direita e paramos bruscamente. Eu
me agarrei para não cair e depois do segundo movimento, Jonah
bateu um braço sobre o meu peito, me cimentando no lugar. Os dois
guardas estavam se segurando, mas tentando cuidar de Tanner e
Jonah ao mesmo tempo.

— Que diabos foi isso? — Tanner disse assim que paramos


completamente, mas ele deveria ter prendido a respiração.

As portas se abriram. Os guardas saltaram, as armas já estavam


puxadas e ficaram em pé por um segundo. Então, eles colocaram
suas armas de volta em seus coldres e se inclinaram.

Quase falando em uníssono, eles disseram.

— Sr. Bennett, por favor, saia do veículo.

Jonah e Tanner compartilharam um olhar, ambos franzindo a


testa, mas saíram.

Eu comecei a seguir Jonah quando a porta atrás de mim se


fechou, depois trancou e o guarda de frente para mim se abaixou.
Ele assentiu atrás de mim. — Não você, minha senhora.

Senhora? Mesmo.
— Mas...

A porta atrás de mim se abriu novamente. Eu me virei para ver


Kai Bennett entrando, tomando o assento que Tanner tinha
desocupado.

Um guarda estava do lado de fora da porta, mas Kai fez sinal


para ele.

— Eu vou ficar bem. Vá na frente.

A porta se fechou.

— O que está acontecendo?

Kai não respondeu, mas ele não precisava. As portas da frente


se abriram. O veículo mergulhou quando dois homens entraram e,
um segundo depois, estávamos avançando de novo.

Eu torci para olhar para trás.

Tanner e Jonah estavam de pé ao lado da estrada. Um veículo


permaneceu com eles, junto com quatro guardas, mas o resto estava
nos seguindo.

Kai suspirou, pegando seu telefone.

— Mudança de planos. — Seus olhos escuros pousaram em


mim e tentei não sentir o peso deles. Suas sobrancelhas se
abaixaram momentaneamente antes de suavizarem e, a mesma
expressão impassível se apoderou dele.

Ele voltou sua atenção para o telefone.


— Sente-se, Riley. Não importa suas preocupações, você está
bem e vai ficar bem.

Esse cara, eu queria gritar com ele, brigar com ele. Eu queria
dizer que o que ele estava fazendo não era bom e eu tinha muito o
que me preocupar.

Mas eu não fiz.

Porque eu não era uma completa idiota.

Então, foda-se. Eu acho que sim.

— Diga isso ao Hider que você matou. — eu cuspi.

Eu olhei pela janela, mordendo minha língua. Eu já tinha


estragado tudo. Eu não deveria ter dito isso. Era como cutucar um
urso ou uma pantera. Uma pantera muito perigosa e mortal.

Ele era irmão de Brooke.

Eu tentei dizer a mim mesma, para me acalmar um pouco.

Irmão de Brooke. Ele se importava com ela, ou eu esperava que


ele se importasse. Ele a tirou da escola porque a queria com ele e
lembrei-me daquela pequena pausa antes dele entrar no SUV
quando o vi pela primeira vez. Ele estava preocupado com Brooke.

Ele era capaz dessa emoção, pelo menos.

Quem eu estava enganando?

Por que eu estava brincando comigo mesma? Essa era uma


pergunta melhor.
Sua resposta foi tranquila.

— Eu não matei seu Hider.

— O quê? — Eu senti o sangue escorrer do meu rosto.

Seus olhos ainda estavam encobertos, mas cansados. Eu vi as


bolsas embaixo deles.

— Nós montamos, prendemos uma bolsa de sangue debaixo do


chapéu dele. A arma estava vazia, mas a força do ar foi suficiente
para perfurar a bolsa. Seu homem sabia antes do tempo o que
aconteceria. Ele se fingiria de morto ou a próxima bala seria real. Ele
se fingiu de morto. Sua reação foi a melhor. — Seu lábio puxou por
apenas um segundo antes de cair de volta. — Obrigado por isso.

— O que... — Isso não fazia sentido. — Por que você faria isso?

— A partir de três horas atrás, deixamos os outros Hiders irem.


Sentimos que sua rede precisava de mais motivação. Seu homem foi
mantido isolado como você. Ele ainda está conosco, mas não tenho
dúvidas de que os outros disseram que já matamos um homem e não
teríamos problema em matá-la em seguida.

— Por que? Eles já estavam procurando por Brooke. — Eu


engoli um nó. — Eles não estavam?

— Eles nos deram um tempo e um lugar para nos


encontrarmos, mas era cedo demais. Eles encontraram minha irmã
rápido demais.

Eu balancei a cabeça.
— Por que não é verdade, é o que você quer dizer? É o que você
está dizendo.

— Deixar os outros Hiders sair não foi para a sua rede. Foi para
uma pessoa na sua rede.

Para…

Minha mente saltou à frente.

— Para Blade.

Por que…

— Meu informante me disse que ele está apaixonado por você.


Se a Brooke que eles encontraram for falsa, ele encontrará a
verdadeira. — Ele levantou o telefone. — E ele disse que sim. Ele me
enviou novas coordenadas para uma reunião.

Blade estava apaixonado por mim?

A tristeza me atingiu primeiro. Não choque.

Isso me diz tudo.

Talvez eu soubesse, em uma parte de trás da minha mente.


Talvez eu soubesse há algum tempo e tivesse empurrado de volta
para lá, então não teria que lidar com isso.

Eu desviei o olhar. Eu não consegui encarar esse homem, esse


monstro que poderia parecer um maldito anjo, mas definitivamente
era um assassino. Ele mentiu sobre matar aquele homem desta vez.
Mas houve outros. Não importa. E ele sabia sobre Blade. Ele usou
Blade. Ele usou alguém com quem eu me importava e, de acordo com
seus irmãos, era a mesma coisa que ele estava fazendo com sua irmã.
Brooke ainda se importava comigo. Tanner e Jonah disseram isso e
Kai estava me usando para encontrá-la. Contra seus desejos.

— Foda-se. — eu estraguei tudo. Eu não pude me conter.

Uma raiva cresceu em mim. Ela floresceu, enchendo meu peito.

— Foda-se. — eu disse de novo, piscando para limpar a minha


visão.

— Você não sabia sobre os sentimentos dele?

Minha garganta queimava.

Não cabia a ele me fazer encara-lo, forçar o tempo que eu teria


que para lidar com isso. Esse não era o lugar dele.

Foda-se ele.

Eu não respondi. Eu não confiava em mim mesma agora.

— Você não o ama de volta.

Mesmo essa declaração, porque era uma declaração, não uma


pergunta, me enfureceu.

Eu me virei para ele, meus olhos brilhando.

— Não é da sua conta.

Ele me estudou, não reagindo. Eu senti seu olhar sobre cada


centímetro do meu corpo, e ele quase preguiçosamente olhou para
cima para encontrar meus olhos. Sua cabeça inclinou para o lado.

— Não, não é. Mas você está esquecendo o seu lugar.


Eu me senti esbofeteada.

Ele estava certo.

Ele assassinava pessoas. Eu as salvava.

Eu quase zombei, até que ele acrescentou suavemente:

— Eu farei qualquer coisa para encontrar minha irmã e, o amor


é a melhor motivação que existe.

Eu desviei o olhar, mas condenei-o. Eu levantei meus olhos,


contra meus desejos. Como sempre, algo sobre ele me atraiu, suas
palavras me atraíram.

Nossos olhos se trancaram. Eu quase podia ouvir a cela da


prisão clicar no lugar, comigo de um lado e ele do outro. Ele
balançou a chave na minha frente rindo, e eu estava impotente para
parar de ouvi-lo, sem esperança de encontrar uma saída.

Era assim que eu me sentia, até as próximas palavras dele


passarem por mim.

— Pensei em usá-la primeiro para encontrar minha irmã, mas,


ao vê-la, sabia que nunca se voltaria contra Brooke. Por causa do
amor. Você a ama. Não sei se é como amiga, como irmã, ou porque
ela trouxe um momento de bem para a sua vida, mas por qualquer
motivo, sei que você é leal. Eu respeito isso, mas se eu não puder
usar você de um jeito, eu vou usar você de outro. Sempre há ângulos.

Ele inclinou a cabeça para a frente, seus olhos quase me


advertindo.
— Sou muito bom no meu trabalho e sempre há maneiras de
conseguir o que eu quero. Encontrar minha irmã é o que eu quero.
— Agora mesmo.

Ele não disse as palavras, mas eu as ouvi.

Não houve julgamento sobre o que ele havia dito. Ele falou
comigo como se estivesse educando um aluno, preenchendo-me e
deixando-me saber o que esperar dele.

Talvez seja o que ele esteja fazendo?

Ele me disse que eu era uma surpresa para ele na noite passada.

Talvez eu precisasse desligar as emoções e ouvi-lo como uma


Hider. Meu treinamento disse nada de emoções. Fiquei
envergonhada porque, a esse respeito, sabia que ele estava me
superando. Ele estava ganhando. Eu não sabia bem qual era a
batalha, mas sabia que estava perdendo.

— Blade lhe enviou novas coordenadas para Brooke então?

Ele amava sua irmã. Talvez eu pudesse virar a mesa? Levá-lo a


falar.

Ele sorriu para mim e eu sabia que ele estava rindo. Eu vi em


seus olhos.

— Eu tenho feito isso toda a minha vida. Você está jogando


pega-pega, mas é divertido de ver.

Ele sentou-se, virando-se e puxando o telefone para fora.

A conversa estava terminada. Ele havia me dispensado.


E maldito seja, porque agora tudo que eu queria fazer era
convencê-lo a falar.

Em vez disso, sentei-me e travei.

Quando paramos novamente, foi no estacionamento do


subterrâneo de um hotel.

Veículos nos rodeavam e fiquei chocada que Kai nos deixou


chegar tão perto dos outros. Os guardas ficaram em torno de nós.
Kai deu um passo para o lado e conversou com um deles antes que
o homem acenasse com a cabeça e nos deixasse, correndo pelo
estacionamento.

Uma porta se fechou à distância.

Nós podíamos ouvir uma conversa, uma risada, um bebê


chorando.

— Estamos em Kelowna.

Eu não sabia o que me surpreendeu mais, que estávamos em


uma pequena cidade a algumas horas de Vancouver, que Kai havia
me dito, ou que Blade nos mandara para cá.

Eu só disse: — Oh.

Kai me olhou novamente, suas sobrancelhas erguidas.


— Você não está surpresa? Você esperava isso?

Eu dei uma olhada nele.

— Eu pensei que você fosse melhor nisso do que eu poderia


ser?

Ele sorriu.

— Eu sou e você parece confusa. Eu estou me perguntando por


que.

Dei de ombros.

— Talvez eu esteja apenas surpresa que você tenha me dito


onde estamos.

Ele riu.

— Talvez eu esteja mentindo, verificando se você ficaria


surpresa com a nossa localização.

O guarda estava voltando, correndo com um funcionário do


hotel ao lado dele.

Kai olhou e os viu, mas se virou para mim. Ele abaixou a cabeça,
aproximando—se e todos os outros foram empurrados para o lado.
Era apenas nós dois.

— Eu pensei que você ficaria feliz em ser devolvida ao seu


amigo.

Eu corei, mas era um rubor de raiva. Eu estava toda aquecida.


— Eu ficaria feliz, se fosse esse o caso. Se for, você pega sua
irmã, a irmã que fugiu de você. E talvez eu não confie em você e não
acredito que você me entregará quando e se tudo der certo. — Meus
olhos se estreitaram. — Talvez eu não acredite em uma palavra que
você diga.

Ele ficou em silêncio, observando—me.

Eu tinha a sensação de que ele estava considerando minhas


palavras, analisando—as.

E então eu sabia que ele tinha feito, porque ele disse.

— Eu não acredito em você.

— Que surpresa. — Eu zombei.

Ele chegou ainda mais perto, suavizando o tom. Eu podia sentir


o calor do seu corpo.

— Você afirmou repetidas vezes que não sabia onde está minha
irmã. Isso é o que eu não acredito. Você sabe onde ela está. — Ele
recuou e, quando voltou a falar, o tom combinava com seu olhar,
ambos repentinamente frios e calculistas. — Minha irmã não está
aqui, mas vai ser divertido descobrir como seu amigo acha que ele
pode me enganar.

Com isso, ele se virou e começou a avançar.

Fiquei atordoada o suficiente para não me mexer e um guarda


precisou agarrar meu braço e me guiar para frente.

Eu quase tropecei nos meus pés, mas não consegui ir até lá. Eu
não conseguia pensar em Brooke, ou Blade, ou o que ia acontecer a
seguir. Se eu pensasse, eu faria algo para me matar. E eu não podia
fazer isso. Ainda não.

Eu tinha pessoas para quem viver. Eu tinha uma missão pela


qual viver.

Preste atenção! Eu ouvi Blade me repreender na minha cabeça.

Ele estava certo, ou meu treinamento estava certo.

Eu tinha que tomar nota do que estávamos fazendo, sempre. Eu


tinha que lembrar de tudo.

Nós fomos para um elevador na parte de trás, em um corredor


dos fundos. Era o elevador de carga, o que os trabalhadores usavam
para comida e lavanderia e quem sabia o que mais. Nos levou ao
último andar e a funcionária do hotel parecia nervosa. Ela largou o
cartão—chave duas vezes antes que o guarda o usasse.

As portas se abriram.

Saímos para um pequeno corredor, viramos imediatamente


para a esquerda e outra porta se abriu para nós.

Era a cobertura. Ou então eu assumi porque era grande o


suficiente para ignorar a baía atrás do hotel.

Tinha uma cozinha, uma sala de jantar, uma sala de estar e


havia três quartos ao lado da principal. Três quartos.

Eu sabia, sem olhar, sem perguntar, que Kai Bennett havia


alugado o andar inteiro. Ele não deixaria sua privacidade ou
segurança ser perturbada por ter pessoas de fora tão próximas.
A funcionária falou com ele enquanto eu caminhava até a janela,
olhando para a piscina e a água que estava além. Ela ainda estava
nervosa, mas também havia um engate em sua voz. Ela queria
impressioná-lo. Ela teria dormido com ele. Eu também ouvi isso em
sua voz. Ela estava oferecendo seu corpo e quando ele não
respondeu, mas sua postura fez, foi uma rejeição.

Por que eu me importava estava além de mim.

Isso só me fez queimar ainda mais com ódio. Eu odiava Kai


Bennett.

Ele poderia foder quem ele quisesse.

A funcionária se despediu, acrescentando que, se


precisássemos de alguma coisa, o número dela estava no cartão
dela. Ela era a gerente, percebi, mas não importava. Ela ainda queria
Kai, nem mesmo percebendo que havia uma mulher em sua
presença sendo mantida ali contra sua vontade.

Talvez isso estivesse em mim? Talvez eu devesse ter deixado


isso mais aparente, mas, ao olhar um pouco para Kai, onde ele estava
a poucos metros de distância, eu sabia que não teria importância.

O poder escorria dele. Eu poderia ter dito a ela que eu havia


sido sequestrada e ele teria apenas rido, dizendo que eu estava
fazendo uma piada, e ela teria acreditado nele. Ele poderia ter dito
que eu estava doente. Eu era bipolar. Eu estava sem os meus
remédios. Qualquer coisa e ela teria acreditado nele.

A porta se fechou atrás dela.


Kai acenou para seus guardas e todos eles se dispersaram
também.

Eu não olhei. Eu sabia que um punhado ficaria de guarda do


lado de fora da nossa porta. Todos se revezavam e o resto dormia
nos outros quartos ou relaxava.

Por toda a maldade nele, Kai tratava bem seus guardas.

Ele falou atrás de mim. Ele estava perto, mas eu não sabia o
quão perto estava. Eu não olhei para ver.

— Você pode ter o quarto à direita.

Eu poderia tê-lo atraído, dito algo sobre não confiar em mim,


não me fazer dormir com ele, mas não o fiz. Mordi minha língua e
senti-o sair do quarto. A outra porta do quarto fechou.

Eu ainda permaneci. Um minuto inteiro, talvez mais. Meus


olhos estavam cegos, com emoção ou lágrimas, eu não sabia.

Eu me senti presa.

E desamparada.

E... eu não tinha certeza do motivo exato para qualquer uma


dessas emoções, porque sob as duas havia outra, uma que eu não
queria sentir nada.

Em vez de chamá-lo, virei-me para o meu quarto.

Eu parei na entrada. Ele me deu o maior dos dois quartos.


Aquela era a suíte principal, com uma cama king size no meio da sala
e um banheiro privativo, chuveiro com paredes de vidro, banheira
com pés, duas pias.

Eu me virei e descobri que sim, havia uma sacada, mas


conforme me movi em direção a ela, meu coração afundou. Como a
da casa, era pelo menos trinta andares acima.

Não havia piscina por baixo, apenas a beira de um campo de


golfe. Dois carrinhos de golfe passavam abaixo e notei Kai sentado
em sua varanda. Ele me observava, parecendo quase curioso sobre
o que eu faria.

— Você não está preocupado que eu caia?

Ele franziu a testa, apenas ligeiramente.

— Por que você cairia, se eu vou devolvê-la ao seu amigo em


breve?

Ele me pegou nessa.

O lado da sua boca puxou para cima.

— A menos que você pense, como eu, que seu amigo está
mentindo para nós?

Eu me endireitei, minha cabeça subindo. Eu agarrei o corrimão


e minhas mãos enrolaram em volta dele, apertando o suficiente para
que meus dedos esticassem.

— Blade não mentiria.

Nem mesmo um piscar de olhos. — Eu faria, pela mulher que


amasse. Não há nada que eu não faça para recuperar minha irmã. —
Um vislumbre de um sorriso mostrou. — Então sim, seu amigo
mentiria. Por você.

Eu senti um soco nas palavras dele. Bom ou ruim, eu não sabia,


mas senti. Eu afrouxei meu aperto no corrimão.

Ele se levantou, apontando para a vista.

— Desça, se você quiser. Eu vou te encontrar de novo. —


Maldito seja ele. Ele sorriu agora. — Não há nenhum lugar onde você
possa se esconder de mim. E você sabe disso. — Ele se virou para
entrar, mas disse por cima do ombro. — Durma, Riley. Você precisa
descansar. Nós nos encontraremos com seu amigo em duas horas.

Duas horas.

Meus braços estavam tremendo de repente. Eu alisei a mão


sobre o meu estômago, tentando me acalmar, mas era inútil.

Eu tinha duas horas até o encontro?

Blade não era um mentiroso. Eu o conhecia, mas Kai estava


certo. Blade pode não mentir, mas ele iria definir uma armadilha. Ele
escolheria suas palavras cuidadosamente e eu não tinha um bom
pressentimento sobre o que iria acontecer em duas horas.

Eu simplesmente não sabia o que poderia fazer sobre isso.

Duas horas depois, não dormi.

Como eu poderia?
Algo ia acontecer e ia ser muito ruim. Eu senti isso no meu
âmago. Quando ouvi Kai abrir a porta do outro lado da suíte, sentei
na minha cama. Eu o senti vindo em minha direção, literalmente
senti-o. Não houve sons. Nenhum aviso, apenas um fio de energia
que se espalhou pelo meu corpo. Eu levantei, indo para a porta,
assim como eu sabia que ele estava do outro lado.

Prendendo a respiração, eu podia ouvir meu pulso batendo nos


meus tímpanos. Depois de um momento, ouvi a voz dele. Silencioso,
um sussurro terno.

— Riley.

Não era uma pergunta, como se ele estivesse se perguntando se


eu estava dormindo e não queria me acordar. Era uma declaração,
resignada.

Ele sabia que eu estava a poucos centímetros da porta também.

Estendendo a mão, sem dizer uma palavra, girei a maçaneta e


lá estava ele. De repente ele estava tão perto. Sua presença era
esmagadora. Senti-o deslizando para dentro de mim, assumindo o
controle e engoli em seco porque meu corpo respondeu a ele, a sua
proximidade.

Ele me segurou, quer eu quisesse ou não. Eu não podia mais


negar isso.

Mordendo meu lábio e me sentindo com a boca fodidamente


seca, perguntei:

— É hora de ir embora?
Eu já sabia que era. Passei meu olhar sobre ele, tentando limpar
a nuvem de possessão que senti por ele.

Ele estava vestido de preto, calça de moletom justa e camisa de


manga comprida. Seus cabelos escuros tinham sido penteados para
trás, e aqueles olhos... Eu puxei meus olhos para cima, longe do
modo como os lábios dele tinham achatado. Se seus olhos eram
normalmente escuros, eles estavam pretos agora e eles estavam
escurecendo a cada segundo que eu segurava seu olhar.

Uma emoção cintilou e desapareceu.

— Está na hora. — Ele estendeu uma bolsa. — Coloque essas


roupas.

Eu nem tinha notado a bolsa.

O embaraço tomou conta de mim e a vergonha.

Eu precisava me controlar.

— Ok. — Eu peguei a bolsa. Nós dois fomos cuidadosos, nossas


mãos não se tocaram quando eu a peguei.

Meu coração tentou sair do meu peito enquanto eu recuava,


fechando a porta com mais força do que eu precisava. Eu quase cedi
contra isso. Quase. Eu me segurei. Ele teria ouvido. Ele saberia o
efeito que ele causava em mim, se ele já não sabe.

Quem eu estava querendo enganar?

Ele sabia. Ele sabia muito bem que poder ele tinha.
Mordendo minha humilhação, esvaziei a bolsa na cama. Um par
de calças e uma camisa parecida com a que eu tinha caíram. Tênis
negros. Meias. Ele tinha tudo aqui, até um sutiã esportivo e roupa de
baixo.

Eu segurei a tira de renda e arqueei uma sobrancelha.

Mesmo?

Como se sentisse meus pensamentos, eu o ouvi rir do outro


lado da porta.

— Tanner pegou as roupas.

Tanner.

Idiota.

Mas eu sorri. Aquilo melhorou, foi menos embaraçoso por


algum motivo. Com um suspiro, eu mudei o que estava vestindo.
Tudo se encaixa como uma luva. A camisa e as calças eram
incrivelmente macias, mas firmes contra o meu corpo. Eu não queria
pensar quanto custaram, e as meias e tênis se encaixaram. Eu me
senti melhor com estes sapatos do que os meus que recebi de treino
normal. O sutiã também se encaixou. Assim como a calcinha.

Era estranho quão bem Tanner podia comprar.

Um laço de cabelo caiu da bolsa e eu o peguei, colocando meu


cabelo em uma trança. Eu tinha tomado banho antes de tentar
descansar e meu cabelo estava seco agora. Meus dedos fizeram um
rápido trabalho através dos fios.

Merda.
De pé atrás, eu me reconheci, mas não o fiz ao mesmo tempo.

A roupa era semelhante ao que eu teria usado em uma missão


de trabalho, mas a mulher que olhava para trás estava brilhando.
Seus olhos estavam vivos, em chamas. Sua pele estava corada. Seus
lábios se separaram, parecendo inchados.

Eu parecia uma assassina devassa.

Dupla merda.

Isto era ele. Eu sabia. Era o efeito dele em mim.

Mordendo meu lábio novamente, eu desviei o olhar, virando


minhas costas para o meu reflexo. Se eu parecia isso agora, como eu
tinha parecido antes? Uma dor cortante se dividiu no meu peito e eu
me esforcei para conseguir oxigênio por um segundo.

Então, quando pisquei, passou.

Eu não conseguia pensar nisso. Eu simplesmente não consegui.

Blade. Brooke

Esta era uma missão, assim como todos as minhas outras. Eu


não conhecia os parâmetros. Eu não sabia a hora, o lugar, o como,
mas eu participava tanto quanto Blade e Kai. Só eu tinha limitações.

A porta se abriu e Kai entrou, seus olhos me encontrando


instantaneamente.

— Pronta?

Eu cortei um aceno de cabeça.


Eu estava pronta para qualquer coisa.

Kai e eu descemos no mesmo elevador de antes, só que éramos


só nós dessa vez. Quando as portas se abriram, quatro guardas
esperavam. Dois se viraram para caminhar à nossa frente e, quando
saímos, os outros dois se alinharam atrás de nós.

Fomos a uma van branca com um adesivo da empresa de


encanamento ao lado e, quando a porta de trás se abriu, Kai pegou
meu braço. Ele subiu, puxando-me com ele onde nos ajoelhamos
atrás do motorista e do banco do passageiro. Seis guardas já
estavam alinhados nos dois lados da van, sentados no chão como se
estivessem nos preservando.

Dois dos guardas que tinham andado conosco entraram e os


outros dois fecharam as portas traseiras. Um guarda trancou a porta
por dentro e os outros dois deram a volta para entrar na frente.

A van começou a avançar e saímos do estacionamento


subterrâneo do hotel em silêncio total.

Os homens não estavam olhando para mim. Ninguém fez


contato visual.

Avaliei a distância e, depois de termos percorrido três


quarteirões, todos os guardas sacaram as armas, verificaram-nas e
as colocaram de volta nos coldres. Dois acrescentaram silenciadores
e os mantiveram no colo, apontadas para baixo.

Eu olhei para Kai, mas ele olhava para frente. Ele não parecia
tenso. Sua respiração estava quieta. Ele não estava com sono, mas
ele parecia calmo. Então, novamente, por que ele não estaria? Isso
era provavelmente algo que ele fazia uma vez por mês.

Ou mais.

Nós viajamos mais um quarteirão, depois voltamos para outra


garagem subterrânea.

Quando paramos, as portas se abriram e todos os guardas


saltaram. Eu comecei a seguir, mas Kai pegou meu braço novamente.
Ele me segurou, balançando a cabeça.

Eu fiquei. O mesmo aconteceu com os dois guardas que estavam


na frente.
As portas foram fechadas novamente e voltamos para a rua.

Entramos em outro estacionamento e saímos dessa vez.

O estacionamento inteiro estava vazio, exceto pela nossa van.


Eu pensei que os dois guardas viriam com a gente, mas só o que
estava no banco do passageiro saiu. Quando começamos a avançar,
a van se afastou, correndo para a rua e virando à esquerda, de volta
para onde acabáramos de vir.

Kai soltou meu braço e deu um passo atrás de mim.

O guarda foi para frente para apertar um botão no elevador. Já


estava lá. Entramos e o guarda apertou o botão do décimo sexto
andar. Este era outro prédio que tinha trinta andares, mas não era
um hotel. Eu poderia dizer isso. Não houve sons quando subimos e
fomos direto para o nosso andar. Quando as portas do elevador se
abriram, percebi que era um prédio de escritórios. Nós caminhamos
através de um lobby com paredes de vidro para a sala principal
maior. Janelas do chão ao teto também faziam as paredes aqui e nós
caminhamos até a extremidade norte.

O guarda pegou um par de binóculos.

Kai pegou meu braço e nos manobrou para que ele ficasse na
minha frente, de costas para onde estava seu guarda. Eu estava de
costas para os elevadores agora.

Eu olhei para ele, sentindo sua mão apertar meu braço antes de
me soltar.

— O quê?
— Eu sei que você teve treinamento para o seu trabalho. Eu sei
que você pode lutar e se controlar. — Ele se aproximou, seu olhar
penetrando no meu. Seus olhos estavam aquecidos, queimando com
promessa. — Sou melhor que você.

Eu quase ri.

— Você está falando sério? Você quer fazer todo um jogo de que
eu sou melhor que você...

Minha voz sumiu quando ele diminuiu a distância. Sua mão


segurou meu cotovelo e ele me pressionou contra ele. Ele era muito
sólido, cada centímetro dele tenso.

Ele estava falando sério, mortalmente sério.

Eu engoli em seco.

— Ok.

— Eu viajo com menos guardas do que meus irmãos porque sou


tão bom quanto meus homens, melhor do que a maioria deles. —
Sua mão apertou meu cotovelo, deslizando até a parte de trás do
meu braço. Seus dedos pressionaram. — Estou permitindo a você
deixar apenas um dos meus homens. O resto precisa estar no chão.
Meu homem está aqui por sua causa, não minha. Estou te dizendo
isso como um aviso. Não corra ou você vai se machucar. Não é
apenas um guarda que você precisa calcular para derrubar. Serei eu
também.

Ele me puxou todo o caminho contra ele. Eu podia sentir sua


respiração em mim, me aquecendo. Alguns centímetros separaram
nossos lábios.
Seus olhos se moveram para eles, demorando-se antes de olhar
de volta.

— Não seja tola e cometa um erro pensando que você pode


fugir de mim aqui. — disse ele categoricamente. — Você não pode.

Sua mão deslizou para cima, sobre meu ombro e em volta do


meu pescoço para cobrir a parte de trás da minha cabeça. Ele fechou
a distância, sua boca quase tocando a minha.

— Eu não quero te machucar. — ele sussurrou, seus lábios


roçando os meus. — Mas eu vou, se isso significar perder minha
irmã. Lembre-se disso.

Eu não conseguia respirar.

Eu não conseguia me mexer.

Eu não ousei.

Eu não sabia se eu queria, então eu continuei parada, meus


olhos segurando os dele, e quando ele não se afastou ou me beijou,
eu sabia que ele estava esperando.

Eu balancei a cabeça, meus lábios roçando contra os dele. Eu


sussurrei.

— Ok.

Foi isso.

Ele me soltou, recuando e me senti privada de... alguma coisa.


Algo se arrancou de mim quando seu corpo se afastou. Eu
queria puxar ele de volta. Eu queria senti-lo contra mim, mas cerrei
os dentes. Eu empurrei esse desejo para baixo.

Eu estava fodida, essa era a única razão pela qual eu poderia


justificar a minha atração por ele.

Meu pai era um monstro, então eu estava atraída por um


monstro.

É por isso que sentia essa luxúria.

Desgosto explodiu em mim, tanto que eu podia sentir o gosto e


me forcei a passar por ele.

— Eu não vou correr. — eu disse a ele. Então fui ver o que a


guarda dele estava vigiando.

Eu estava esperando estar no encontro com Blade.

Eu estava esperando que ele saísse de seu veículo com Brooke.


Kai me queria. Nós nos encontraríamos no meio e o que quer que
acontecesse depois disso. Se eu ficaria e lutaria por Brooke ou se ela
realmente iria com o irmão, eu não sabia. Eu não tinha pensado
completamente, principalmente porque não podia. Eu não estava no
banco do motorista, Kai estava.

Mas o que eu não esperava era não estar envolvida.

Na parede de vidro, olhei para baixo e vi dois veículos no


estacionamento. Não a van em que havíamos andado. Eles eram
SUVs. Kai me deu um par de binóculos e, enquanto os colocava sobre
os olhos, vi as portas se abrirem.
Tanner saiu. Eu também.

Não eu, obviamente, mas alguém que se parecia com minha


irmã gêmea.

Eu fiquei chocada.

Ela estava vestindo o uniforme em que eu fui levada. Seu cabelo


estava solto, jogado para o lado. Ela estava debruçada,
propositalmente escondendo o rosto e, porra, até andava como eu.
A cadela me estudou de alguma forma.

Sua/minha mão subiu e escovou um pouco do meu cabelo para


trás, como eu faço.

Como eu fiz agora, eu me parei e xinguei, apertei novamente o


binóculo.

Ela puxou a parte de baixo do seu top, assim como eu faria.

Ela parou, hesitando, e seus ombros rolaram para trás, assim


como eu faço.

Lá, do outro lado do lote, estava Blade. Ele estava muito longe
para ver que não era realmente eu enquanto ele saía do caminhão
Chevy. Fiquei impressionada que a lata velha tivesse feito todo o
caminho, e me disse que ele estava fazendo isso por conta própria.
A 411 não sabia disso. Se eles soubessem, ele estaria em um SUV.

— O que você está fazendo, Blade?

Ele fez uma pausa, segurando o braço até a testa para sombrear
seus olhos. Ele viu Tanner e ela, depois foi até a porta do passageiro.
Abrindo, uma garota saiu, uma garota... Ela parecia Brooke, mas não
podia ser. Ele não teria feito isso. Eu conhecia Blade. Não importa o
quanto ele poderia me querer de volta, ele não trocaria alguém que
estivesse se escondendo por sua vida.

Ia contra o código dele como um agente 411.

Kai se inclinou para frente. Eu podia sentir a intensidade saindo


dele.

Parecia a Brooke.

O mesmo cabelo escuro, a mesma constituição, a mesma altura


da garota que eu tinha visto nas fotos do Instagram de Brooke. Mas…
de jeito nenhum. Não poderia ser.

— Essa não é ela. — Kai rosnou. Ele colocou um rádio na boca,


apertando o botão lateral. — Abortar. Não é ela.

A mão de Tanner foi até o ouvido dele, depois disparou para a


garota ao lado dele. Ouvimos um grito no rádio antes que ambos se
virassem e corressem de volta para o veículo.

Eu corri para frente, mas não havia nada que eu pudesse fazer.

Dezesseis andares nos separaram.

Eu olhei ao redor, mas Kai já estava no meu ouvido.

— Nem pense nisso.

Ele fez um gesto e o guarda agarrou meu braço e começou a me


arrastar para longe da janela, mas não antes de eu ver todos os
guardas que tinham vindo conosco entrarem no estacionamento
abaixo.
— Pegue os dois! — Kai ordenou. — Leve—os para o armazém.

— Não! — Eu chutei, tentando me libertar.

O guarda envolveu seus braços em volta de mim. Ele me


segurou e me arrastou ao mesmo tempo.

— NÃO! — Eu me contorci. Brigando.

Eu precisava me libertar. Blade estava em apuros. Quem estava


com ele, ela também estava em apuros. Eu tinha que ajudar, apesar
do que eu disse para Kai.

Eu precisava.

Não havia outra opção.

— Já chega! Você prometeu! — Kai estava na minha cara.

Eu balancei a cabeça.

— Não, não. Não meu amigo. Você a quebrou. Você quebrou sua
palavra. Você nunca disse que levaria meu amigo. Você... — Deus. Eu
era tão idiota, mas sabia o que ia fazer.

Eu estava louca.

Quando ele se aproximou de mim, fechei os olhos, levantei


minha cabeça para trás e o encarei.

— Merda!

— Argh!

Exceto que eu acertei ar.


Abrindo meus olhos, encontrei Kai de pé ao lado, com os olhos
bem abertos e chocados.

— Jesus Cristo, controle-a!

O movimento fez com que o guarda me segurasse e eu me soltei


de suas mãos.

Eu caí, meu corpo ficando mole, mas assim que eu bati no chão,
rolei para o lado.

Isso foi tão ruim, tão ruim. Eu não conseguia me afastar assim,
então quase em um movimento, eu tentei me levantar e correr para
ele.

Exceto que Kai estava lá.

Ele passou um braço em volta da minha cintura e jogou o rádio


para o guarda. Gritando por cima da minha cabeça, ele me levantou
como se eu fosse uma criança.

— Vá à nossa frente. Traga o SUV até a porta lateral. Eu a peguei.

O guarda vacilou.

— Tem certeza?

Eu olhei para ele e olhei de novo. O guarda tinha sangue em


todo o rosto. Eu fiz isso? Mas então voltei a lutar para me libertar.

Kai me segurou no ar e envolveu um de seus braços ao redor


dos meus, prendendo-os ao meu lado e colocando o outro braço em
volta das minhas pernas. Eu só podia tentar me libertar do jeito que
eu tinha feito com o guarda, mas Kai estava pronto para isso. Ele se
preparou e, quando o guarda abriu a porta para nós, correu para ela,
carregando-me. Ele foi para o lado para que eu não fosse atingida,
mas eu ainda era uma bagunça lutando.

— Mulher. Pare.

— Nunca!

Eu não podia nem me virar e mordê-lo, embora meus níveis de


desespero estivessem se aproximando desse ponto. Eu queria
arrancar um pedaço dele, de uma maneira totalmente nova do que
eu queria dez minutos atrás.

A porta do elevador se abriu e Kai me carregou enquanto o


guarda permanecia no chão. Ele me deixou de pé, envolvendo seus
braços em volta de mim e enganchando uma perna ao redor da
minha, então eu senti como se estivesse presa entre descansar
contra ele ou cair de cara no chão.

— Faça! — ele comandou quando as portas se fecharam.

O guarda assentiu, levantando o rádio à boca.

— Seu maldito! Maldito seja você, idiota! — Eu gritei.

Ele apertou o botão e uma ladainha de maldições o deixou. Ele


se moveu antes que eu pudesse compreender e me balançou para
que minhas costas batessem na parede. Ele se aproximou, usando
seu corpo para me segurar.

Eu me senti ainda mais desamparada nessa posição.

Sua virilha estava bem ali, pressionando a minha e todo um


calor diferente se espalhou através de mim.
Eu apertei meus olhos fechados. Não. NÃO!

Eu não deixaria meu corpo ir lá.

Ele tinha Blade. Ele tinha a mulher que o ajudou.

Mas, porra, eu senti ele endurecendo contra mim, empurrando


contra mim.

— Seu idiota. — eu sussurrei, quebrada.

Ele sugou um pouco de ar, descansando a testa perto da base


do meu pescoço, sua boca demorando-se sobre a minha artéria.
Senti seus lábios ali, roçando minha pele, antes que ele falasse:

— Você e eu. — ele sussurrou. — Você e eu, Riley.

Merda. Eu não queria isso, mas a luta ainda me deixou. Eu me


tornei peso morto em seus braços.

Ele levou meu amigo, meu amigo.

Eu não podia deixar ele machucar Blade. Eu simplesmente não


consegui.

— Por favor, não machuque Blade.

Ele levantou a cabeça e seus olhos suavizaram quando ele


tomou meu rosto.

— Ele é minha família. Minha única família foi embora.

Seus olhos dispararam das minhas lágrimas, meus olhos, meus


lábios e ficaram ali.

Ele assentiu.
— Eu não vou machucá-lo.

Eu me esforcei contra ele, meus braços ainda presos.

— Você promete? Você tem que prometer.

Seus olhos saltaram para os meus e ele levantou uma


sobrancelha.

Eu amaldiçoei.

— Você nunca disse uma palavra sobre sequestrar meus


amigos. Nunca. Você acabou de dizer para não correr.

— O que você fez.

— Porque você ordenou que eles levassem meus amigos!

— Amigos? Eu pensei que era só ele com quem você se


importava.

Eu não sabia quem era a mulher. Ela não parecia com Carol. Ela
era mais alta, tinha uma estrutura óssea maior que a de Carol.

— Eu não sei quem ela é. — eu admiti. — Mas se ela ajudou


Blade, ela é alguém a quem eu devo. Então sim, amigos. Ambos.

As sobrancelhas de Kai se juntaram. Quando eu lambi meus


lábios, seus olhos se moveram para lá, suas sobrancelhas
levantadas.

Meu pescoço estava quente. O calor estava se espalhando,


subindo pelo meu rosto até que eu soubesse que minhas bochechas
estavam vermelhas.
— Eu não queria fazer isso.

Ele grunhiu novamente.

— Certo. Se você parar de lutar comigo, não vou machucar seus


amigos hoje.

— Hoje?! — Eu quase levitei todo o meu corpo para fora da


parede do elevador, minha virilha moendo sobre ele quando eu fiz
isso. Sua mão caiu para pegar debaixo de uma das minhas pernas.

Eu tinha uma mão livre e usei.

Eu o segurei e girei.

Ele se esquivou de mim, então soltou minha perna quando ele


pegou minha mão e me bateu de volta ao mesmo tempo.

Ele estava muito duro. Se nossas roupas tivessem


desaparecido, ele estaria dentro de mim, mas como não estava, ele
apenas me segurou, cara a cara, cada centímetro de nossos corpos
pressionados um contra o outro. Ele afastou as pernas,
posicionando minhas pernas mais espalhadas para que eu não
pudesse chutar.

— Pare. O. Fodido. Combate! — ele gritou na minha cara.

— Pare. De. Machucar. Meus. Amigos! — Eu cuspi de volta.

Seus olhos se arregalaram.

O desejo sexual pulsava através de nós. Era pesado no elevador


e era alarmante, perigoso, mas havia mais. Havia raiva real, porque
se eu tivesse uma escolha entre fodê-lo ou enfiar uma faca em sua
garganta, eu teria levado a faca em um piscar de olhos.

Mas eu também queria transar com ele.

Meu Deus, eu estava torcida.

Provando meu próprio desgosto mais uma vez, virei a cabeça e


fechei os olhos. Eu desejei que a luxúria animal saísse de mim, mas
não ia embora. Estava quente, pesada e pulsante e eu engoli de volta
um gemido.

Só então, o elevador parou e as portas se abriram. Eu abri meus


olhos.

De pé na entrada, com quatro guardas ao redor dele e armas


apontadas para ele, Blade olhou para nós.
— Você está transando com ele? — Blade assobiou.

Nós estávamos sentados no meio da van. Guardas nos


cercavam. A mulher estava na nossa frente, sentada com a cabeça
baixa e os ombros curvados para frente. Suas mãos estavam no colo,
como se estivessem amarradas, mas eu sabia que não estavam.
Blade também não estava. Essa era uma liberdade dada a eles.

Recusei-me a olhar para Kai, que estava sentado perto de mim,


de costas para o lado da van ao lado de seus homens. Ele quase
parecia um dos guardas, vestido da mesma forma, a mesma
expressão de pedra no rosto.

— Não. E podemos conversar mais tarde.

Blade olhou para Kai.

— Mesmo? Tem certeza disso? — Ele levantou a voz. As


palavras foram para mim. A atitude para Kai.

Eu não pude me conter. Eu olhei para cima. Kai estava


ignorando Blade, seu olhar focado apenas em mim.

Eu engoli em seco.

Isso não ia acabar bem, mas tendo dito isso, ninguém havia
morrido. Ainda.

Fiz sinal para a mulher na frente de Blade.


— Quem é ela?

Ele me lançou um olhar.

— Ninguém.

Eu fiz uma careta. Ela não era ninguém, mas ele me deu uma
segunda olhada significativa e oh agora ele queria esperar até mais
tarde para falar. Eu revirei meus olhos. Bem. Eu cresci acostumada
a andar longas horas em silêncio.

Mas desta vez nós só viajamos uma hora e meia antes que a van
estacionasse em uma estrada de cascalho, depois parou. A porta de
um grande armazém se abriu e nós dirigimos para dentro. A porta
do armazém fechou ao mesmo tempo em que a porta da van se
abriu. Três guardas estavam lá para nos cumprimentar.

Kai saiu primeiro, saindo com um de seus homens, com as


cabeças inclinadas juntas.

Os guardas saíram e, um por um, fomos expulsos depois.

Blade foi levado para um canto, com quatro homens o


protegendo.

Eles me levaram para um canto diferente, no lado


completamente oposto do armazém. Quatro guardas também
ficaram ao meu lado. A mulher foi deixada no meio do chão, com
quatro guardas tomando pontos ao redor dela em um quadrado.
Alguém puxou a van para ficar de frente para a porta,
provavelmente para uma fuga rápida, se necessário.

Então esperamos.
Minutos passando.

Meu corpo doía. A adrenalina do hotel, depois os nervos e a luta


no elevador, tudo estava me atingindo. Eu estava com sede. Meu
estômago se encolheu de fome e eu lutei para manter minha cabeça
erguida.

Um dos homens deve ter notado, porque um guarda trouxe um


cobertor e uma garrafa de água. Ele os deixou ao meu lado, junto
com um segundo cobertor dobrado para usar como travesseiro. Eu
me senti culpada porque eles não ofereciam o mesmo luxo a Blade
ou à mulher, mas foi uma batalha para evitar que minha cabeça
descansasse lá.

Os minutos continuavam passando e eu desisti da luta.

Adormeci.

— Você tem certeza?

Uma voz masculina estava perto da minha cabeça.

Uma segunda voz masculina.

— Sim. É a mesma mulher.

— Ela estava com o amigo de Riley.

Não era uma questão, uma declaração de fato. Era Kai falando e
ele parecia confuso.

Eu tentei abrir meus olhos. Eu queria perguntar de quem ele


estava falando e então...
Escuridão.

— Eu não sei de nada!

Isso era Blade.

Eu me endireitei, meu coração batendo no meu peito.

Ele estava cercado por Kai e mais guardas. Eu só tinha um


comigo agora.

Me vendo acordada, ele limpou a garganta.

— Ela está acordada.

Kai imediatamente se virou para mim, voltando. Ele caminhou


ao redor da mulher, cuja cabeça quase caiu no chão. Suas mãos
estavam atrás das costas, mas ainda não estavam amarradas. Suas
pernas estavam cruzadas na frente.

Sua posição parecia dolorosa.

Kai a ignorou. Ele se ajoelhou diante de mim, me olhando.

— Você está bem?

Meu peito se apertou. Eu era sua prisioneira. Ele não deveria


falar comigo com essa preocupação.

— Estou bem. Só cansada.

Ele estudou meu rosto antes de concordar, e então se levantou.


— Vamos. — Ele pegou meu braço, me ajudando a ficar de pé.
Ele pegou minha garrafa de água e os dois cobertores e me levou até
a van. Ele abriu a porta dos fundos.

Uma cama fora feita ali e havia outra garrafa de água e algumas
bolachas esperando.

— Você pode descansar aqui enquanto recebemos algumas


respostas.

Blade olhou para mim do outro lado da sala, mas não estava tão
quente quanto antes.

Kai esperou que eu subisse.

— Meu amigo? — Eu perguntei suavemente.

— Vai ficar bem. É a mulher que estamos interrogando. Tem


certeza de que não a conhece?

Havia algo em sua voz. Eu dei a ele um olhar mais afiado.

— O que você está dizendo?

— Seria benéfico se o seu amigo lhe dissesse como essa mulher


veio para ajudá-lo. Seria bom para ele... e você.

Uma parede recuou no lugar do rosto de Kai. Ele não estava


deixando mostrar nada, mas eu estava perto dele tempo suficiente
para saber que a parede era alguma coisa. Quando ele teve que
tomar uma decisão difícil, quando ele estava prestes a fazer algo que
ele sabia que os outros não gostariam, a parede aparecia.

Eu pressionei meus lábios e olhei de volta para Blade.


— Eu posso perguntar a ele, mas ele não vai me dizer se ele acha
que você está ouvindo.

— Eu posso trazê-lo aqui. Você pode comer um pouco.

— Não. — Eu balancei a cabeça. — Vamos sair daqui, dar um


passeio ou simplesmente andar alguns metros de distância. Eu
posso perguntar.

Kai estava de volta me estudando.

— Você realmente ajudaria?

Eu não respondi. Eu sabia que se não ajudasse algo que eu não


gostaria aconteceria. Mas eu não queria que ele soubesse disso. Dei
de ombros.

Ele inclinou a cabeça para a frente.

— Bem. — Ele sinalizou com a mão e foi falar com um guarda.


Imediatamente, os outros levaram Blade a seus pés.

— Ei! Ei! O que você está fazendo?

Ouvir o pânico na voz de Blade foi um chute no peito.

Eles não responderam. Eles só o arrastaram para a porta.

Ele se contorceu e lutou.

— Não! NÃO!

Finalmente, ele cedeu como eu fiz antes. Eles continuaram


arrastando-o até que ele viu que eu também estava vindo. Então ele
chegou bem perto finalmente. Kai permaneceu mais atrás, mas um
guarda andou ao meu lado.

Os olhos de Blade encontraram os meus. Eles estavam diluídos


com horror.

Eu engoli outro caroço, sentindo meu coração afundar.


Novamente.

— Riley, o que está acontecendo?

Eu menti.

— Eles querem falar com a mulher.

Ele calou a boca e uma transformação veio sobre ele. Ele estava
com raiva. Eu vi o vapor subindo e não fiquei surpresa quando ele
se livrou das mãos dos guardas. Eles chegaram mais perto, mas ele
encolheu o corpo.

— Eu estou indo. — ele rosnou. — Ok? Posso sair daqui


sozinho?

Com movimentos bruscos, ele começou a se mexer.

Eu não sabia por que ele estava mancando. Má circulação? Mas


Blade não era assim. Ele fazia ioga duas vezes por dia. Talvez eu
tenha dormido mais do que pensei?

De qualquer maneira, ele estava andando quase regularmente


no momento em que saímos.

Eu devo ter dormido mais do que pensei. Estava escuro lá fora.


Nós estávamos cercados por árvores e uma lua brilhante, que dava
luz suficiente para mostrar que estávamos em uma colina. Eu avistei
duas fazendas mais abaixo em um vale. A floresta parecia se
estender por quilômetros. Eles devem ter nos levado mais longe do
que eu percebi.

Pedras pequenas tinham sido assentadas em vez de pavimento


e os guardas se espalharam ao nosso redor, deixando-nos descer a
calçada.

Blade se aproximou de mim.

— O que está acontecendo?

— Você está bem?

Ele assentiu.

— Sim. Um pouco é cena.

Agora eu entendi. Faça-os subestimá-lo. Foi um bom ato, mas


um pouco bom demais.

— Blade. Estou falando sério. Você está bem?

Ele não respondeu no início, depois abaixou a cabeça.

— Eu lutei de volta antes. Eles me agrediram, apenas o


suficiente para me subjugar. Depois que parei, eles também o
fizeram. — Ele zombou do guarda mais próximo. — Eu tenho que
dizer, por trabalhar para a família Bennett, eles são
assustadoramente profissionais.

Sim. Eles eram, mas eu testemunhei como Kai cuidava de seus


homens. Ele não queria se preocupar com o volume de negócios ou
ele realmente se importava com eles. Vai saber. Ele pode ter
confiado nesses caras e não queria queimá-los.

Eu precisava parar de dar mais crédito a Kai do que ele merecia.


Essa porra de atração começou a me cegar para o que ele fazia para
ganhar a vida: ele estava na máfia. Ele era um cara mau. Ele fazia
coisas ruins.

— Sim. — eu disse fracamente, meu estômago roncando. —


Estou surpresa também. — Eu olhei para ele novamente. — Você
ficará bem?

— Eu vou ficar bem quando sairmos ou talvez conseguir


alguma comida. — Ele me deu um sorriso torto. — É bom te ver. Eu
não disse antes.

Ele estava certo. Parei e nos abraçamos.

— É bom ver você também.

Seus braços ainda ao meu redor, ele disse em meu ouvido.

— A mulher me achou. Eu não sei quem ela é.

Eu sussurrei de volta

— O que você quer dizer com ela encontrou você?

Um arrepio percorreu seu corpo. Ele enfiou a cara no meu


ombro.

— A transmissão passou pelo serviço da Rede. Eu vi que ele


soltou os outros Hiders, mas matou um. Um dia depois, ela estava
batendo na minha porta dizendo que se eu quisesse ir atrás de Kai
Bennett, ela me ajudaria.

Eu parei.

Isso não...

— Ela procurou você?

Ele assentiu.

Ela o recrutou.

— Você não a conhece?

— Não... — ele começou.

Um grito de gelar o sangue percorreu o ar.

Todo mundo lá fora correu para o armazém.

Os guardas chegaram lá à nossa frente e, quando a porta se


abriu, pude ver a mulher pegando uma das armas do guarda. Houve
mais gritos e depois um tiro.

A mulher arqueou as costas e desmoronou no chão.

Não importava o que Kai dissesse, eu sabia que não havia uma
bolsa de sangue para esta. A mulher estava morta. Sangue jorrava
da testa dela.

Eu parei no meu caminho, encarando seu corpo sem vida antes


de levantar a cabeça.

Kai permaneceu sobre ela, a arma na mão. Ele foi quem atirou
nela.
Então a porta se fechou na minha frente.

Eu não compreendi nada depois disso, não imediatamente.

Blade fez. Ele agarrou meu braço e sussurrou em meu ouvido.

— VAMOS!

Eles nos deixaram sozinhos.

Eu não conseguia pensar nisso.

Eu me mexi. Blade começou a correr e eu saí atrás dele.

Eles nos encontrariam. Kai prometeu isso. Eu não tinha dúvidas


de que ele iria, mas Blade precisava escapar. Eu não confiava em Kai
com a vida de Blade. Eu não sabia se confiava nele com a minha, mas
isso não importava agora.

Nós corremos.

Eu estava quebrando minha promessa, mas não me importei.


Kai também havia quebrado a dele.

Meu coração estava no meu peito, mas quando eu voei para trás
do meu parceiro 411, eu larguei a mulher que eu estava me
tornando perto de Kai Bennett.

Cada passo que eu dei tornou as coisas mais claras. Eu estava


voltando para a agente 411 que Kai sabia que eu era. Meus passos
ficaram mais rápidos, mais seguros, mais estáveis e a emoção foi
drenada de mim.

Fiquei mais calma quanto mais longe eu ia e então, tudo voltou


ao lugar.
Minha missão era me libertar.
Nós poderíamos ouvi-los gritando.

Nós já estávamos sobre uma cordilheira e descemos outra


pequena colina, fora da vista deles, quando eles perceberam o erro.

Mas não era cedo o suficiente.

Esse pensamento me atormentou. Não o bastante. Não para Kai.


Não pelo jeito que ele planejou tudo e calculou antes do tempo. Não
fazia sentido, mas eu continuei correndo. Eu precisava.

Blade e eu corremos pelas árvores, seus galhos batendo contra


nós. Ele tropeçou uma vez, mas rolou de volta a seus pés. Nosso
treinamento de Hider voltou para nós. Regule sua respiração. Não
sobrecarregue você mesmo. Mantenha a cabeça erguida para ver
melhor. Ombros em posição confortável. Eu bombeei meus braços
quando fiquei mais fraca. Empurre seus calcanhares. Role pelos
dedos dos pés em movimentos circulares. Visualize seus pés como
se fossem rodas. Continue.

Somente.

Se mantenha.

Indo.

Nós corremos. Começou a chuviscar, e nós corremos ainda


assim.
Nós continuamos indo para baixo. Havia duas fazendas. Nós
deveríamos estar perto agora.

Mas esse pensamento ainda me incomodava. Kai tinha falhado,


grande momento. Mas ele não cometia erros.

Se isso fosse verdade, então ele queria que corrêssemos.

Certo?

A outra opção era ficar, a menos que tivesse sido um teste. Eu


falharia se fosse isso.

Mas não. Isso era um pensamento fodido. Se você tem a chance


de liberdade, você aceita. Essa era uma regra de ouro para a
humanidade.

— Lá! — Blade gritou, apontando para frente em uma luz.

Era uma das fazendas. Seguindo em frente, paramos logo antes


de romper a linha das árvores. Um grande celeiro vermelho surgiu
à nossa frente, a tinta descascando e desaparecendo. Uma grande
cerca circulava para o gado, mas não havia animais. A cerca foi
quebrada em mais de um lugar e a grama ficou alta. Não tinha sido
cortada por um longo tempo. Havia uma pequena estrutura de
cabine atrás do celeiro, mas a porta já havia desaparecido. Um lado
da casa caíra em si mesmo. Ninguém morava aqui, não há muito
tempo.

— Pode haver abrigo.

Blade começou a avançar.

Eu peguei o braço dele.


— Não.

— Vamos. — Ele fez sinal para isso. — Eu sei que não é ideal,
mas precisamos de uma pausa da chuva. Pelo menos por um tempo.

Eu balancei a cabeça.

— Não, Blade. Não está certo. Algo não parece certo.

— Do que você está falando? — Ele passou a mão pelo rosto,


limpando um pouco da chuva. Não importava. Mais caia da árvore
acima de nós. — Eu preciso de um tempo. Cinco minutos, depois nos
afastamos novamente.

Ele começou a avançar e foi quando vi a câmera. Ela estava


posicionada no topo do celeiro, em ângulo para nós.

Bem em nós.

Ah Merda.

Um sentimento ruim afundou no meu estômago.

Eu vi a segunda câmera assim que Blade saiu da linha das


árvores.

E a primeira câmera se moveu com ele.

Eles estavam nos observando. É por isso que eles não se


preocuparam em nos perseguir.

Oh meu Deus.
Ele continuou e essa câmera continuou rastreando ele. A
segunda estava se movendo, varrendo as árvores. Estava
procurando por mim.

— Blade. — eu gritei. — Não pare. Não olhe para mim.

Seus ombros ficaram tensos, mas ele fez o que eu disse.

— Eles estão nos observando. Tem uma câmera em você.

— Vá. — ele gritou de volta.

Eu balancei a cabeça, embora ele não pudesse ver.

— Eu não posso.

— Vá, Riley! — Ele continuou andando para frente. — Vai!


Estou falando sério. Encontre Carol. Ela vai ajudar.

Mas eu não podia. Meu estômago apertou em um nó, mas eu


sabia que não o deixaria. Blade tinha uma chance melhor comigo
como cativa do que eu livre. Os Bennetts não tinham lealdade a ele.
Pelo menos Tanner e Jonah se importavam comigo. Eu tinha que
confiar nisso, confiar que Brooke amava seus irmãos por um motivo.

— Eu não posso ir.

Eu cerrei meus dentes...

— Não, Riley!

Eu dei um passo para frente.


A segunda câmera se encaixou na minha posição. Eu parei,
meus braços para cima e porque eu odiava desistir, levantei meu
dedo do meio.

As portas do celeiro se abriram, e todos os guardas do armazém


vieram correndo. Kai estava no meio, andando em um ritmo mais
calmo. Seu olhar pousou em mim. Ele usava a mesma expressão
mistificada de antes.

Dois dos guardas agarraram Blade, outros dois se dirigiram


para mim.

Eu segurei minhas mãos para frente.

— Se você me agarrar e me empurrar para o chão, eu vou matar


um de vocês.

Eles pararam. Um olhou de volta para Kai, que assentiu, ainda


andando para frente.

— Eu vou lidar com ela. — disse ele. Ele acenou para Blade. —
Pegue-o.

Eles colocaram Blade em um dos SUVs.

Kai pegou meu braço. Ele me levou para outro SUV enquanto o
outro se afastava em alta velocidade.

— Isso foi tudo uma armação?

Kai olhou para mim quando a porta se abriu. Eu cheguei à parte


de trás, não lutando, e deslizei. Ele entrou ao meu lado. A porta se
fechou e partimos. Nós só tínhamos um guarda conosco.
Kai estava se tornando cada vez mais indulgente comigo. Isso
era bom, muito bom. Eu olhei para ele.

Ele estava em seu telefone, digitando, mas disse:

— Marcus, você pode colocar o calor no máximo para a


senhorita Bello? Ela está gelada até os ossos.

Recusei-me a sentir qualquer coisa por sua consideração. Ele


era a razão pela qual eu estava correndo. Estava de noite. Estava
chovendo. Eu estava encharcada.

Ele terminou o que quer que tivesse que fazer em seu telefone,
guardou-o e depois pegou um cobertor atrás dele.

Ele colocou no meu colo.

— Fique quente com isso.

Eu olhei para ele, puxando- o para me cobrir.

Não havia raiva. Não havia quase nada em seu rosto, mas não
havia a parede que eu me acostumara a ver.

Sem olhar para mim, ele descansou a cabeça contra seu assento.

— Nós deixamos seu amigo ficar com o celular dele. Ele


colocou-o ao lado de seu equipamento. Ele não tinha ideia que
sabíamos que estava lá, mas nós sabíamos. Ele passou por uma
varredura de corpo inteiro. Nós achamos que ele usaria quando você
fugiu. — Ele parou e olhou para mim agora. Seus olhos estavam
penetrantes. — Ele usou?

Minha boca caiu.


Por isso não parecia certo. Não eram apenas as câmeras.

Maldito seja ele. Maldito seja ele!

Minhas narinas se abriram.

— Você estava observando o tempo todo?

Sem hesitação.

— Sim.

— A mulher? Isso foi um show?

Ainda sem hesitação. Ele respondeu livremente.

— Não. Ela é a advogada responsável do grupo de vítimas. Ela


está atrás de nós há anos. Seu filho morreu em um tiroteio. Ela acha
que nós deveríamos ser culpados, em primeiro lugar, pelo assassino
do filho dela ter uma arma.

— Ela estava certa? — Eu mordi.

— Talvez. — Seus olhos baixaram antes de voltarem para mim.


Ainda sem emoção. — Não havia um número de série. Nós
normalmente não transportamos essas armas, mas fizemos no
passado. Seu filho foi assassinado por seu amante. Não faço ideia se
somos culpados ou não.

Por que ele estava me dizendo isso? Isso era mais do que eu
precisava saber.

Então eu soube.
— Você colocou uma escuta em mim? Você ouviu Blade me falar
sobre ela, não é?

Seus olhos aumentaram apenas uma fração de uma polegada.

— Não. Recebemos a confirmação de que ela se aproximou do


seu amigo e não o contrário. Ele nem a conhecia, conhecia?

Dei de ombros, meu maxilar endurecendo.

— Isso importa? Ela está morta. Você a matou.

— Ela pegou uma das nossas armas...

— Besteira! Eu sei que você não comete erros. Ela foi


autorizada a pegar essa arma. — Eu não deveria estar gritando, mas
eu estava. Muito aconteceu nos últimos dias. — Você queria uma
razão para matá-la e ela lhe deu uma. Defesa pessoal. Sua única
bagunça é que eu vi.

Eu me acalmei.

Ele não respondeu.

E então...foda-se.

— Você queria que eu visse isso, não é?

Claro que ele queria. Fechei meus olhos, minha cabeça


pendendo para frente. Eu senti uma dor de cabeça chegando.

— Você queria que eu visse porque se eu não tivesse, eu diria


que foi um assassinato descarado. Blade teria dito o mesmo, mas nós
dois vimos e, se necessário, testemunharemos que foi autodefesa.
Claro.

Meu Deus, claro.

Nenhuma coisa acontecia sem o cálculo de Kai por trás disso.

Ele era frio, implacável e desumano. Ninguém com humanidade


poderia planejar tudo isso até o enésimo detalhe.

— Você tem câmeras na floresta? — Minha voz era fraca,


sombria. Isso me fez estremecer, apenas me ouvindo.

— Sim.

Honestidade. Essa era uma boa característica que ele tinha.


Talvez a única.

— Claro, seu filho da puta.

Não havia mais luta em mim. Essas palavras me deixaram em


suspiro e eu me virei para a janela. Nós estávamos nos movendo
rapidamente. As árvores passavam por nós. Aqui estava eu,
trancada neste veículo. Eu estava quente, mas momentos atrás, eu
pensei que estivesse correndo pela minha vida.

Que tola eu fui.

— Você pensou que se nos deixasse ir, Blade pediria ajuda. —


Eu já sabia que esse era o plano. Eu estava começando a entender
seus métodos. Lentamente. — Você ia rastrear a ligação e ver se eles
te levariam até Brooke. Não era?

Uma pausa.
Eu senti ele me observando, mas eu me recusei a olhar para ele.
Recusei-me a procurá-lo no reflexo da janela.

— Seu amigo disse que sabia onde Brooke estava. — disse ele.
— Ele não conseguiu trazê-la. Ele não cooperaria e responderia às
nossas perguntas. Nós tínhamos duas opções: colocá-lo em uma
situação onde ele mostraria suas cartas de bom grado ou o faria pela
força. Eu prometi não machucar seu amigo, então escolhi esse
caminho. Eu faria de novo.

Seu telefone tocou. Ele tirou do bolso e leu a tela antes de


responder e colocá-la de volta.

— E você estava errada. Enquanto você estava correndo, ele


parou e fez uma ligação. Nós temos um novo alvo.

— Quem? — Eu me virei para ele.

Ele desviou o olhar dessa vez.

— Nós vamos descobrir.


Eu tinha sido excluída.

Nós não voltamos para o hotel e eu não tinha ideia para onde
eles levaram Blade. Nós dirigimos até outra casa enorme e eles me
levaram para minha própria ala. Sim. Ala. Novamente. Não era a
mesma casa, mas quando saí para outra sacada, bem acima de outra
queda que desafiava a morte, reconheci onde estávamos: sua
propriedade em Vancouver.

Esta era a casa de Brooke, a casa que ela sempre costumava


falar. Eu sabia por essas histórias que havia uma piscina de tamanho
olímpico, uma quadra de tênis e um rio calmo onde ela ia se
bronzear com Tanner e seus amigos. Havia mais casas nesta
propriedade e um jardim que tinha seu próprio labirinto.

Brooke amava esta casa.

Ela falou sobre isso com muito carinho. Ela também havia
falado sobre o escritório de seu pai, embora, quando o fez, não
houvesse calor em sua voz. Houve medo. Ele conduzia seus negócios
naquela sala, que tinha sua própria entrada.

Suspirando, eu tive que me parar.

Eu estava pensando de novo como se isso fosse uma ocorrência


comum, como se Brooke tivesse se falado abertamente para mim
sobre essas lembranças. Ela não tinha. Esses eram pequenos trechos
que eu havia recolhido de um comentário aqui e ali espalhados por
um ano inteiro.

Ela falou sobre a quadra de tênis, sobre natação, sobre o rio. Ela
mencionou o escritório do pai. Certa vez, ela mencionou ter visto um
homem entrar pela porta lateral.

Mas eu escutei e absorvi tudo, porque esse era o tipo de garota


que eu era. Era o mesmo agora.

Era o meu terceiro dia nesta casa.

Minha ala tinha sua própria mini cozinha e uma máquina de


café também. Eu poderia pegar o telefone e pedir qualquer comida
que eu quisesse. Eu estava no colo do luxo, mas não era meu.

Esta tinha sido a vida de Brooke.

Havia uma pequena tela de cinema na sala de estar e um sofá


secional que era quase uma cama, então era um quadrado gigante.

Eu não poderia imaginar esta vida.

A minha não tinha sido assim. Houve riqueza, sim, mas tudo foi
ofuscado pelos meus pais, pelo meu pai. Eu dormi no corredor na
maioria das noites, um cobertor comigo e nada mais. Eu tinha que
voltar para o meu quarto todas as manhãs.

Eu tinha um chef que cozinhava para mim, mas normalmente


não era o que eu queria. Era o que meu pai comia e deixava para trás.
Eu nunca tive permissão para comer com ele. Minha mãe costumava
fazer as refeições em seu quarto. Se ela não o fizesse, ela ainda não
poderia comer comigo, só com ele. Então, enquanto eu também
estive crescendo numa gaiola dourada, uma linha de terror
percorreu meu passado.

Eu não me lembrava de uma época em que não estivesse com


medo de que meu pai surtasse, me achasse, mandasse me chamar.

Eu não senti isso com Kai.

Talvez eu devesse.

Eu deveria ter temido pela vida de Blade. A parte lógica do meu


cérebro me disse para pensar sobre isso, mas meus instintos me
disseram que ele estava seguro, assim como eu estava.

Eu soltei um suspiro e alcancei o controle remoto. Eu estava


mudando de canal quando ouvi uma batida suave na minha porta.

Eu olhei do sofá.

— Sim?

Eu esperava que um guarda entrasse com o jantar. Já estava na


hora e eles sempre batiam. Se eu não respondesse, eles me diriam
que minha comida estava do lado de fora da porta. É claro que eles
estavam lá quando eu abria, se eu abrisse a porta, mas eles nunca
entraram a menos que eu lhes desse permissão.

Desta vez a porta se abriu e Kai entrou.

Sentei-me em linha reta, meu coração batendo contra o meu


peito.

Já fazia três dias que fugi dele. Eu não recebi nenhuma palavra
dele desde então.
Ele parecia bem.

Eu tentei não notar, mas eu notei.

Meus olhos correram sobre ele, observando a maneira como a


camisa dele se ajustava ao seu peito, mostrando a magreza de seu
abdômen e caindo no lugar certo sobre suas calças. Ele parecia todo
negócio, o cabelo penteado para trás. Eu tive que tirar meus olhos
do resto dele.

Eu não queria ver a presunção naqueles olhos escuros ou o


sorriso que curvava sua boca.

— Onde está Blade? — Eu fiz uma careta.

Ele parou. Eu ouvi um suspiro suave antes de ele se sentar no


sofá paralelo a mim. Ele se inclinou para frente, apoiando os braços
nas pernas, as mãos juntas sobre os joelhos. Ele inclinou a cabeça
para mim, uma sombra caindo sobre metade do rosto.

— Eu trouxe um chef. Os caras disseram que você ainda não


jantou. Você jantaria comigo?

Eu fiz uma careta.

— Você não está mandando? Você está perguntando?

— Eu estou perguntando. — Ele inclinou a cabeça. — Tanner e


Jonah também virão mais tarde, se você quiser tomar um drink com
eles.

Eu o estudei, realmente o estudei.


Aquela parede estava lá, mas havia mais. Uma leveza? Mas isso
não fazia sentido, não para alguém como Kai Bennett.

Ainda assim, eu estava curiosa.

Sentei-me rigidamente e encolhi os ombros.

— Certo. Que horas?

— O jantar será em trinta minutos. Você terá tempo suficiente


para se vestir?

Eu fiz a varredura de suas roupas. Ele poderia estar na capa de


uma revista de moda.

Suspirei.

— Eu achei que você não se importasse com isso?

Um sorriso puxou o canto de sua boca.

— Para a ocasião certa, sempre. — Ele se levantou, apontando


para o armário no quarto. — Há vestidos ou você pode se vestir
como quiser. Eu sei que Tanner e Jonah virão de uma noite no clube.
A escolha é sua.

E com isso dito, ele saiu.

Eu odiava admitir isso, mas era bom vê-lo. Foi bom ver alguém,
falar com alguém. Os guardas não contavam. Embora eu tenha
pensado em tentar conversar com eles.

Ok.

Eu tentei. Eles me ignoraram.


Ouvir que Tanner e Jonah estavam vindo me deu um pontapé
de excitação também.

Eu sentia falta do Blade. Eu sentia falta da Carol.

Sentia falta da minha rotina de ir trabalhar, malhar e ser uma


agente da Hider.

Sentia falta da minha normalidade, o que não era normal, mas


era para mim.

Enquanto me vestia, sabia que precisava questionar Kai sobre


Blade. Eu queria ter certeza de que ele estava em segurança, estava
bem e, se pudesse, convencer Kai a deixá-lo ir.

Eu estava nervosa e fiquei ainda mais quando escolhi a roupa


que iria usar.

Eu não queria ir muito bonita, mas ouvi o que ele estava me


dizendo sem dizer as palavras. Tanner e Jonah estariam bem
vestidos. Tudo o que eles usavam gritava dinheiro. Então talvez
fossem eles no fundo da minha mente, talvez fosse Kai, ou talvez
fosse a esperança de que talvez eu pudesse falar com Kai para deixar
Blade ir, ou talvez houvesse uma parte de mim que não queria se
sentir como a pária. Seja qual for o motivo, escolhi um elegante
terninho preto. A sheer lace 4 sem transparência descendo até
abaixo do meu seio, mas renda pura cobria minha barriga.

Eu recuei, olhando no espelho, e novamente, eu não me


reconheci.

4
Roupa de renda: podendo ser body, blusa, top, combinação, etc.
Eu estava muito longe da agente da Hider que vestia roupa de
ginástica, roupa de passeio ou qualquer outra roupa que o meu
disfarce me dissesse para vestir.

Blade, Carol e eu jantamos uma ou duas vezes por mês, mas


nada extravagante.

Quando deixei meu pai, deixei esse mundo para trás.

Esta teria sido eu se tivesse ficado, se tivesse vivido.

E se.

Essa era uma grande palavra.

Eu estava feliz com Blade e Carol, mas estar aqui, voltando para
este mundo, um pequeno e se começou a criar raízes em mim. Não
era por causa do —e se— da Brooke ficar na escola, ou de como foi
crescer com a família Bennett. Era como se meu pai tivesse sido um
homem diferente, se minha mãe não tivesse sido abusada por ele, se
eu não tivesse tido medo de morar em minha própria casa, e se.
Como teria sido a vida se eu tivesse uma família normal?

Nem mesmo rica.

Se tivéssemos uma refeição em um restaurante? Se não


houvesse fábricas ou conglomerados de negócios, nenhuma
educação privilegiada, apenas um pai, uma mãe e uma filha? Uma
casa com três quartos em vez de três alas? Ou um banheiro em vez
de um aposento inteiro?

Como seria essa vida?


Suspirei, arrumando meu cabelo de volta em um coque alto e
até me maquiei. Todos esses pensamentos eram inúteis. Essa não
era a carta que eu recebi enquanto crescia e, no final, eu estava viva.
Eu tinha uma missão, uma missão importante para focar minha vida
e isso era bom.

Eu era boa.

Eu coloquei meus pés em um par de sandálias, mas me senti


nua saindo daquele quarto sem um suéter, tênis de corrida ou
qualquer tipo de roupa que eu pudesse precisar se tivesse que salvar
minha vida.

Não importa os pensamentos girando em minha cabeça, essa


parte de mim nunca iria embora. Mas pela primeira vez, comecei a
me perguntar se era isso que eu queria para o resto da minha vida.

Os guardas se arrastaram atrás de mim quando deixei minha


ala.

Eu não sabia ao certo para onde ia, mas andei na direção geral
da parte principal da casa. Dei a volta no corredor, chegando ao
patamar do segundo andar e fui até a escada. Eu podia ouvir os sons
de panelas na cozinha, que estava atrás das escadas. O layout era
parecido com a outra casa e entrei me sentindo um pouco mais à
vontade.

Até que eu vi Kai.

Ele ficou nas sombras da janela, com um copo de bourbon nas


mãos e seu perfil me tirou o fôlego.
O luar iluminava toda a baía e as luzes dos barcos e casas abaixo
dele deixavam um brilho suave no seu rosto. Eu vacilei no meio do
passo.

A atração explodiu dentro de mim, me aquecendo, me fazendo


doer e apertei minha boca em reação.

Eu não pedi esses sentimentos. Eles me repugnaram no normal,


mas ele esteve fora por três dias e tudo isso estava me atingindo com
força total agora.

Mas Blade. Eu não poderia esquecer Blade.

Eu não conseguia me esquecer. Minha situação.

Eu estava aqui contra a minha vontade, mas quando Kai se


virou para olhar para mim, um novo e perigoso —e se— juntou-se
aos outros.

Minha mão tremia e eu a coloquei atrás de mim, encontrando


seu olhar através da sala.

Seus olhos se aqueceram, uma suavidade brilhando ali e ele


assentiu.

— Você está linda, Riley.

Ele também.

Eu sorri e abaixei a cabeça.

— Obrigada.
Uma onda de nervosismo me atingiu de novo e tive que parar e
respirar para me acalmar. Não funcionou. Eu estava ainda mais
nervosa.

— Gostaria de uma bebida?

— Por favor. — Eu levantei minha cabeça.

Ele virou as costas para mim enquanto servia uma taça de


vinho.

Fiquei feliz pelo pequeno favor e alisei a mão pela minha frente.
Às vezes isso ajudava. Não esta noite. Comecei a pensar que nada
iria me acalmar até que Kai voltasse, com um copo cheio de vinho
tinto na mão.

Ele segurou.

— Brooke sempre gostou desse vinho. Eu pensei…

Eu balancei a cabeça.

— Obrigada. Perfeito.

— Perfeito? — Ele levantou uma sobrancelha, entregando-o.

Eu agarrei o caule do copo, evitando a mão dele e sabia que ele


percebeu isso.

Ele recuou.

— Perfeito é uma palavra grande, especialmente para alguém


que ainda está aqui contra sua vontade.
Eu parei com o movimento no meio do caminho para minha
boca.

— O quê?

Ele apontou para a mesa.

Havia uma tigela, dois pratos, três copos e dois conjuntos de


talheres para cada assento. Cada copo e prato tinha uma borda de
ouro. Era outro lembrete deste mundo que eu estava visitando, um
mundo onde eu morava, ou deveria.

Por que eu estava pensando assim?

Eu adorava ser uma agente da Hider. E isso não era este mundo.

Nunca seria.

Eu sentei e puxei minha cadeira até a mesa.

— Quando você vai me deixar ir?

Bem aí.

Eu tinha que começar, porque ficar aqui estava bagunçando


minha mente. Tudo estava confuso.

— Eu pensei que você fosse negociar com seu amigo primeiro.

Aí estava o Kai que eu conhecia. Nós estávamos de volta em


bases sólidas. Eu era o Hider 411 e ele era meu sequestrador.

Eu olhei para cima, me sentindo mais resolvida por dentro.

— E se eu negociasse com ele? O que você faria? Você realmente


nos libertaria?
Ele tomou um gole de seu copo antes de colocá-lo na mesa
enquanto se sentava à minha esquerda na cabeceira da mesa.

— Eu tenho uma proposta para você. — Ele fez menção para a


mesa e para a sala. — Essa é a razão de tudo isso.

— Uma proposta?

— Sim. — Ele assentiu com a cabeça, apertando a boca antes de


relaxar. Ele levantou o queixo. — Eu deixei seu amigo ir para casa.

— Você deixou?

Surpresa se espalhou através de mim. Minha mão apertou


minha cadeira.

— Sua rede não conseguiu encontrar Brooke. Seu amigo não


tem ideia de onde ela está. Ele estava blefando para tentar te trazer
de volta. Acompanhamos a ligação dele e a pessoa que encontramos
não tinha nada a ver com a minha irmã. Agora, estou em um lugar
onde se esgotou a maioria das minhas opções. — Seus olhos
perfuraram os meus. — Eu acredito plenamente que você sabe onde
minha irmã está, mas as formas normais que eu forçaria você a me
dizer estão... indisponíveis, então eu tenho uma proposta diferente
para você.

— Você deixou Blade ir?

Eu ainda estava presa nisso.

— Eu deixei ele ir como um gesto de boa vontade para você. Ele


não fará reclamações por ser sequestrado pela minha família, para
a lei ou para seus empregadores. No que lhes diz respeito, ele tentou
recuperá-la sozinho e não deu certo. Ele falhou. Ele está de volta em
casa e me disseram que ele foi colocado para trabalhar
imediatamente.

Oh Deus.

Eu ouvi o que ele estava dizendo.

— Você tem pessoas na rede. Eles estão te dando informações.

Faz sentido, foi assim que ele me encontrou, como ele sabia que
Blade estava agindo por conta própria.

— Sim, eu tenho.

— Foi assim que você soube sobre mim o tempo todo.

— Sim. — Ele suavizou seu tom. — Brooke me pediu para ficar


de olho em você. Ela se preocupava com você.

Isso não ajudou. Eu já sabia disso, e por isso não ajudou. Eu senti
uma picada de traição. A rede era sagrada. Ninguém deveria ser
comprado. Nós éramos todos puros. Isso é o que eu pensava. Isso é
o que eu acreditei esse tempo todo.

Nós estávamos bem.

Olhando para Kai agora, ele era ruim. Mas desde que eu fui
raptada por ele, as linhas se tornaram mais e mais borradas. E agora,
ouvindo que havia alguém na Rede trabalhando para ele, a fúria
queimava dentro de mim.

— Eu acredito que você sabe onde minha irmã está. —


continuou Kai. — Não ficarei convencido do contrário, mas você não
vai me dizer. Estou relutante em forçar o assunto. Eu tentei e não
estou disposto a recorrer as extensões que são minhas últimas
opções. Então... — Ele pegou o copo e tomou um gole saudável,
rangendo os dentes antes de colocá-lo de volta na mesa. — ...aqui
está outra proposta.

Ele fez uma pausa. Seus olhos estavam firmes nos meus.

— Eu vou te contar a verdade. De tudo isso.


Minha resposta foi rápida.

— Ok.

Levantei a cabeça, rolei meus ombros para trás e esperei. Eu


não tive que esperar muito. Kai se recostou em seu assento, pegando
seu copo.

— Brooke fugiu, mas ela não estava sozinha. Ela fugiu com seu
namorado, um membro de uma família da máfia de Milwaukee, Levi
Barnes. Ele não está na fila para assumir os negócios da família, mas
está conectado a eles. Seu pai é o mais novo dos filhos de Mildreth
Barnes. Brooke fugiu com ele porque ouviu uma reunião em que me
disseram que Levi estava informando sobre sua família ao FBI.

O gelo correu pela minha espinha. Ela não estava com medo por
sua vida. Ela estava com medo pela vida de seu namorado. Tudo faz
sentido agora.

— Brooke sabe que recentemente fui mais ambicioso em


chegar à parte do Meio-Oeste dos Estados Unidos, às famílias que
administram esses territórios. Ela assumiu que eu, ou mataria Levi
como um presente para sua família, ou eu o entregaria para eles.

Ratos eram mortos. Era o que acontecia.

Eu balancei a cabeça, engolindo levemente.

— Entendo.
— Você não entende. — Ele se inclinou para frente, movendo-
se sem emitir um som. A cadeira não rangeu. Não havia mudança
nas tábuas do assoalho. Se eu não tivesse visto, nunca o teria ouvido.
Havia uma qualidade quase fantasmagórica na maneira como ele se
movia às vezes. Silencioso. Perseguindo. Caçando.

Seus olhos ficaram ferozes agora, me prendendo.

— Se você revelar o que estou prestes a lhe dizer, eu vou matá-


la. — Ele fez uma pausa.

Ele quis dizer o que ele disse e eu forcei minha cabeça a


assentir. O arrepio envolveu todo o meu corpo, mas eu tinha que
ouvir. Era importante.

— Eu quero o meio-oeste. Esse é o meu objetivo e fiz uma


extensa pesquisa sobre todas as famílias controladoras. A família do
namorado de Brooke é fraca. Eles são o meu caminho, então minha
irmã estava errada sobre minhas intenções. Não tenho vontade de
matar o namorado dela. Eu quero usá-lo. Ele vai ser o meu caminho
para destruir sua família.

Claro.

Eu abaixei a cabeça, sussurrando:

— Você não quer mesmo encontrar sua irmã. Você quer


encontrar o namorado dela.

— Não. — Eu ouvi a cadeira dele se mover agora quando ele se


inclinou para trás novamente. — Você está errada. Quero encontrar
minha irmã porque a amo e porque quanto mais ela está lá fora...
Eu olhei para cima, sua voz me chamando e eu o vi acenar para
a janela.

—… mais insegura ela está. Ela é uma Bennett. Você acha que
eu sou o único procurando por ela? Eu tenho inimigos que
adorariam cortá-la em pedaços, enquanto ela estiver viva e gritando
meu nome e gravando tudo para o prazer doentio deles.

Ele parou, com os olhos bem fechados. Sua mandíbula se


apertou e então ele empurrou a cadeira para trás. Com o copo na
mão, despejou o resto do bourbon na garganta antes de ir até o bar.

— Eu tenho protegido minha família desde que eu era criança.


Contra o único membro da família que se transformou. — Ele
encheu o copo até a metade. Tampando a garrafa novamente, ele
permaneceu lá, de costas para mim. — Eu tenho que encontrar
minha irmã. Eu preciso da sua ajuda para fazer isso.

Ele olhou para trás, com os olhos arregalados.

— Por favor.

Um caroço se formou na minha garganta.

Deus. Eu sabia o perigo do nome Bennett, mas não conseguia


afastar a sensação de que a maior parte do perigo era da própria
família.

— Eu não posso. — eu sussurrei.

Suas narinas se alargaram.

— Mas você sabe onde ela está.


Eu não podia falar disso também. Eu abaixei minha cabeça
novamente, fechando meus olhos. De repente, eu queria que tudo
isso fosse embora.

Eu não queria estar nessas roupas que me lembraram do meu


passado. Eu não queria estar aqui nesta sala, com ele, sabendo que
ele faria qualquer coisa para encontrar sua irmã. Eu queria estar de
volta na minha casa com Blade, com Carol, com meu trabalho,
disfarçada como uma enfermeira que falava frases inspiradoras.

Eu senti falta de ser Raven, não Riley.

— Onde ela está?! — Kai rugiu, jogando o copo pela sala.

Ele quebrou o copo contra a parede, caindo no chão e eu não


recuei. Nem. Um. Pouco.

Eu balancei a cabeça.

— Eu não posso te ajudar e você sabe disso.

Ele voltou para o seu lugar e desta vez eu me recusei a olhar


para ele. A sala estava tensa, o ar espesso e opressivo e por um
momento senti como se meu pai estivesse conosco. Eu empurrei
isso. Eu não me esconderia. Eu não ficaria intimidada.

— Nosso pai matou meu irmão. — ele disse suavemente.

O quê? Eu olhei para cima.

Ele não estava olhando para mim. Seu olhar estava travado na
mesa, mas eu sabia que ele não estava vendo o que estava
fisicamente na frente dele. Seus dedos apertaram a garrafa que ele
segurava na frente dele.
— Anthony Bennett era um pai sádico. — Ele estremeceu. Sua
mão se contraiu e sua cabeça tremeu ligeiramente. — Ele era
obcecado pelo poder e Cord estava chegando à idade em que ele
deveria começar a assumir algumas das responsabilidades da
família. Nosso pai não queria que isso acontecesse. Ele sabia que
Cord era gentil, fraco aos seus olhos, mas ele via como os outros
reagiam a ele. Eles gostavam dele. Eles aprovavam ele e a verdade é
que eles queriam uma mudança do governo de nosso pai. Anthony
Bennett não aceitaria. Ele viu anos no futuro, onde Cord teria
assumido o negócio. Ele teria matado nosso pai. — Seus olhos eram
tão sombrios. — Esse é o caminho da nossa vida. Então ele se livrou
de Cord primeiro.

Ele assassinou meu irmão.

Brooke não estava falando sobre o outro irmão dela. Ela quis
dizer seu pai.

Eu nunca pensei nisso, mas... Um pai que poderia matar seu


próprio filho? Ou mãe? Um lampejo de raiva começou a me aquecer
por dentro.

Eu deveria ter considerado o pai primeiro. Eu tive experiência


em primeira mão nessa crueldade.

— Eu sinto Muito. Eu pensei...

— Eu sei o que você pensou. — disse ele, parecendo cansado.


— Muitas pessoas pensaram isso. Meu pai cometeu o erro de
esperar antes de me matar. Ele não me viu como uma ameaça
porque eu tinha apenas dezesseis anos de idade.

Eu sabia o que estava por vir.


Um nó se formou ao redor daquela bola de fúria dentro de mim.
Tudo estava se misturando.

— Eu matei meu pai e paguei um amigo da família para ser


nosso guardião. Eu paguei os tribunais. Eu paguei a todos.

Ele olhou para mim. Eu esperava que uma parede caísse no


lugar, mas isso não aconteceu. Embora ele não estivesse se
escondendo, ele também não estava mostrando nada. Ele estava
morto. Foi o que vi quando olhei nos olhos dele. Morte.

— Eu fiz isso da maneira mais humana, pelo menos, em minha


opinião. — disse ele. — Eu o sufoquei com um travesseiro uma noite
e ele simplesmente parou de respirar. Ninguém perguntou por que
não estávamos procurando vingança. Todo mundo sabia.

— Você trouxe Brooke de volta para casa depois disso.

Ele assentiu, seu olhar se afastando de mim.

Eu me senti desanimada, como se ele estivesse me segurando


contra a parede. Eu sentei em uma cadeira, mas minhas pernas
tremeram.

A sensação de queda foi forte.

— Eu trouxe. Eu não concordei em mandá-la embora. Eu queria


a minha família toda junta. Era hora de trazer algo de bom para esta
casa.

Essas palavras ressoaram.

Ele matou para trazer algo de bom para a vida de Brooke, para
toda a sua família.
Ele não era o assassino implacável que eu pensei que ele tivesse
sido. Ele se importava. Ele a amava. Ele sentia dor.

— Eu sinto Muito...

— Eu não me importo. Honestamente. — Seus ombros se


levantaram e seus olhos me encontraram novamente. — Eu quero
saber onde minha irmã está. Eu sei que ela veio até você no dia
seguinte à notícia de que ela estava desaparecida. Eu sei que você a
levou para algum lugar na manhã seguinte e retornou no mesmo dia.
Eu sei que foi no terceiro dia que você foi a um spa de bronzeamento
para esconder o fato de que você não tinha ido à Flórida para umas
férias. E no dia seguinte eu te peguei. — Ele ficou lá, com as mãos
nos bolsos e a cabeça caiu para frente, mas ele ainda me encarava.
— Eu tenho provas de tudo. Eu sei que você agiu sozinha. Eu sei que
você não contou aos seus amigos. Nós temos filmagens de segurança
ao longo do caminho. Para o resto, fomos capazes de hackear o
computador do seu amigo. A única coisa que não tenho é onde você
escondeu minha irmã.

Minhas mãos começaram a tremer.

Meu estômago revirou.

Eu senti como se fosse vomitar.

Minha visão ficou turva e manchas flutuaram ao meu redor.

Ele sabia.

Ele sabia quase tudo.

Ele sabia disso o tempo todo.


— Diga-me onde está minha irmã.

Eu não conseguia olhar para ele. Eu não podia traí-la.

Eu não conseguia.

— Riley!

Eu pulei na minha cadeira, empurrando-a de volta ao mesmo


tempo. Ela quase caiu, mas eu me agarrei a ela.

Ou talvez fosse eu quase caindo disso?

Era tudo rolando mais e mais no meu estômago. Ele estava


forçando o caminho até a minha garganta. Senti a pressão subindo e
engoli de novo.

Agente de bloqueio.

Eu ouvi a voz do meu treinador na minha cabeça e como se ele


tivesse me comandado no tempo presente, senti o protocolo
acontecendo.

Meus dedos relaxaram.

Minhas pernas pararam de tremer. Meus joelhos se acalmaram.

Minhas coxas ficaram fortes.

Minhas mãos descansaram em cima delas, planas, dedos


estendidos. Pronta.

Eu me endireitei.

Minhas costas não estavam mais contra a minha cadeira.


Meus braços pararam de tremer.

Meu estômago ficou quieto.

Minha respiração se estabilizou.

Meus ombros se contraíram.

Meu queixo se levantou.

Minha mente ficou clara.

Eu não era mais Riley Bello.

Eu era a 411 operante Raven e minha missão estava sendo


ameaçada.

— Riley?

Minha voz saiu em tom monótono enquanto eu recitava a frase


que eles queimaram em nossas memórias.

— Eu vou manter meu voto como uma agente de honra. Eu


nunca vou quebrar a promessa que um sobrevivente me confiou. Eu
nunca vou tirar a liberdade de uma pessoa, mesmo que isso
signifique desistir da minha em seu lugar. Eu sou uma agente da
Rede 411 e não vou quebrar meu silêncio.

Eu fui embora.

— Merda. — Kai murmurou.

A porta se abriu e outra voz perguntou.

— Que porra está acontecendo aqui?


Uma terceira voz.

— O que você fez com ela?

— Acho que a quebrei. — respondeu Kai.


Três semanas antes

3:00 da manhã

Meus companheiros de quarto foram para seus quartos. Eu


precisava ir também, mas não consegui. Por alguma razão, não
consegui sair da mesa da cozinha. Depois que saíram, levantei-me
para aquecer um chá descafeinado. Isso geralmente me acalmava,
mas não naquela noite. Ou aquela manhã.

TOC, Toc!

Eu levantei, instantaneamente em alerta.

O computador de Blade tinha um aviso embutido. Quando


alguém cruzasse a entrada da garagem, soava. Era forte e alto, então
teria acordado todo mundo há muito tempo atrás, mas olhando, eu
vi por que ele não tinha disparado.

Brooke Bennett me encarou de volta e ela não havia descido a


entrada da garagem. Ela veio pela floresta.

Seus olhos estavam arregalados e em pânico. Ela estremeceu,


ramos em seus cabelos e acenou com a mão freneticamente em um
círculo para mim. Estava coberta por uma camisa. Ela parecia
encharcada.

Abrindo a porta, recuei.


— Meu Deus. Brooke?

— Oi. — ela respirou, correndo para dentro. Um suéter grosso


pendia de seu corpo. Ela estava vestida com o mesmo jeans da sua
imagem no Instagram que eu vi no noticiário. Ela apertou os lábios,
linhas azuis fracas circulando—os. — Oi, colega de quarto.

Eu não pensei.

Eu agarrei-a para um abraço.

3:30am.

— Você tem certeza disso?

Ela assentiu. Ela tomou banho, trocou de roupa e ficou olhando


pela janela.

— Sim. Eu tenho que desaparecer. Não há outra maneira. Ele


vai me matar se me encontrar. — Ela engoliu em seco, olhando para
trás. — Ele não pode me encontrar.

Algo caiu no chão no corredor, no quarto de Blade ou Carol.

Brooke engasgou, girando e congelando.

Ela tinha acabado de começar a parecer normal, a cor se


movendo para suas bochechas, mas ela se esvaiu novamente,
deixando-a pálida.

Eu me aproximei dela, baixando a voz para um sussurro.


— Seria mais fácil se eles nos ajudassem.

— Não! — ela assobiou. — Quanto menos pessoas souberem,


melhor. Eu sei que estou colocando você em risco, mas é isso que
você faz. Eu sinto muito. — Sua mão encontrou a minha, ainda um
pouco fria e úmida. — Por favor, me ajude.

6:00 da Manhã

Meu celular começou a zumbir.

Brooke olhou por cima do lado do passageiro do caminhão.

— São seus companheiros de quarto?

Silenciei, movi e pressionei uma mensagem pré-programada


antes de desligá-lo.

— Sim. Eles só vão pensar que eu fui a academia. Eu tenho


algumas horas antes de dizer a eles que decidi ficar para um
mergulho ou uma hora de massagem. Vai ficar tudo bem.

— Você tem certeza? — Ela estava tão nervosa. O pânico nunca


a abandonou.

Eu balancei a cabeça.

— Tenho certeza.

Ela respirou mais tranquila e balançou a cabeça, a cabeça


inclinada.
— Bom. Graças a Deus.

Ela me disse que estava fugindo do irmão. Ela me disse que


precisávamos ir a algum lugar com uma estação de trem. Ela me
disse que nem eu sabia onde ela terminaria. Ela tinha me dito que o
detetive particular que ela contratou para me encontrar só disse a
ela sobre meu paradeiro. Ela me disse que o mesmo detetive
particular foi morto no dia anterior em um acidente de carro. Ela me
disse que o acidente de carro, que pode não ter sido um acidente,
não tinha nada a ver comigo. Ela me disse tudo isso para me
tranquilizar, que eu ainda estaria segura.

Às seis e meia da manhã, eu a ajudara a desaparecer, enquanto


mentia para mim.
Dias atuais

Mãos frescas tocaram o interior do meu pulso.

Eu abri meus olhos, levantando minha cabeça.

Jonah sentou-se ao lado da minha cama, dois dedos se


curvaram ao redor do meu pulso, enquanto ele olhava para o
relógio.

O resto da noite voltou para mim.

Kai falou a verdade. Ele tinha me quebrado. O pensamento de


entregar Brooke, dizendo-lhe o que eu sabia, era demais. Então
voltei ao meu treinamento e o que aconteceu depois me daria
pesadelos por um longo tempo.

Não foi nada físico. Foi emocional. Eu podia ver Kai, ver Tanner
e Jonah quando eles entraram na sala, mas eu estava perdida no
fundo da minha mente. Uma força diferente estava encarregada do
meu corpo e a única coisa em que eu conseguia pensar era em não
desistir da minha tarefa.

Kai parou de pressionar, mas isso não importava.

Durante uma noite inteira, sentei-me no meu quarto num


estado quase catatônico. Eu estava acordada, mas só podia repetir a
promessa que fiz quando me tornei um Hider 411.
Tanner ficou indignado.

Jonah estava preocupado, pegando meus sinais vitais e me


observando como se eu fosse sua paciente e Kai estava quieto. No
início.

Então houve gritos, brigas, e Jonah gritou para os dois saírem


do meu quarto.

— Que horas são? — Minha garganta queimava, como se eu


tivesse estado no deserto por trinta e seis horas. Eu só conseguia
coaxar, era isso.

A cabeça de Jonah levantou-se do relógio.

— Puta merda. — Ele soltou meu pulso, imediatamente


sentindo minha testa com as costas da palma da mão. — Riley? Você
voltou?

Eu balancei a cabeça e o movimento me fez querer vomitar. Isso


vinha acontecendo com uma frequência muito grande ultimamente.

— Sim. Eu. Estou de volta.

— Você nos assustou e são quase sete da manhã. Eu estou


monitorando você a noite toda.

Eu estava grata por ele não ter me interrogado naquele


momento. Ele fez uma avaliação completa, verificando a minha
respiração, pulso, pressão arterial. Ele checou meus reflexos. Ele até
beliscou minha pele para hidratação. No final, ele recuou, com o
estetoscópio no pescoço. Suas mãos encontraram seus quadris e ele
franziu a testa.
— Você está bem.

Minha cabeça parecia estar se abrindo. Eu esfreguei, fazendo


uma careta.

— Poderia me dar um analgésico para isso aqui em cima, mas


sim, estou bem de qualquer forma.

Eu não poderia dizer o mesmo do meu estado mental.

Até eu estava com medo do que tinha acontecido comigo.

Eu tinha ouvido falar sobre agentes trabalhando no campo, mas


isso nunca aconteceu comigo. E eu nem tinha certeza se era a mesma
coisa. De qualquer forma, não estava certo pra mim. Eu precisava
ser mentalmente forte o tempo todo, sem quebrar e deixar um
estranho surgir em meu lugar. Porra, estranho, era o que estava
acontecendo.

— Eu preciso ir ao banheiro.

— Claro.

Ele esperou para ter certeza de que eu estava firme em meus


pés. Eu vacilei um pouco quando me levantei, mas meu equilíbrio
voltou enquanto eu caminhava para o banheiro. Eu o ouvi recolher
sua bolsa e suprimentos, então a porta estalando suavemente atrás
dele um momento depois.

Eu caí contra a porta.

Eu tinha que ir ao banheiro, mas precisava de um momento


para me recompor.
Mas. Que. Merda.

Eu me assustei.

O que aconteceu? Isso era normal? Isso iria acontecer de novo?

Eu não queria pensar sobre isso, mas estava me pressionando.

Minhas mãos começaram a tremer novamente e eu as corri


para baixo das minhas pernas, respirando fundo e me acalmando
para aliviar o tremor. Não funcionou, mas, foda-se, eu nunca mais
queria ficar assim novamente. Nunca.

Eu estava terminando no banheiro, lavando as mãos, quando a


porta principal se abriu novamente.

Minha porta do banheiro se abriu e Kai ficou lá, me encarando.

— Você está bem?

Ele não esperou. Ele deu dois passos, suas mãos deslizaram em
meu cabelo e ele segurou minha cabeça. Ele chegou perto,
intimamente perto, seus olhos fixos em meu rosto. Procurando.
Questionando. Como se meu estado mental o tivesse traído.

— Você está bem? — Ele perguntou novamente, ainda rude,


mas, mais quieto. Seu peito subiu, sacudindo e segurou um segundo
antes de baixar.

Ele não estava com raiva de mim. Eu senti isso. Ele estava com
medo de mim.
Essa percepção abriu uma comporta em meu peito. Eu
desmoronei antes que percebesse e fechei meus olhos, lágrimas
escorrendo pelo meu rosto enquanto me inclinava em seu peito.

— Não. — Eu solucei.

Ele amaldiçoou e me levantou no ar. Ele me embalou contra o


peito, voltando para o quarto. Sentado na beira da minha cama, ele
me segurou como se eu fosse uma criança, pressionou minha cabeça
contra o peito dele e apertou seu abraço ao meu redor.

Eu tentei não desmoronar completamente. Mas não consegui.

Kai era o inimigo, ou eu achava isso. Agora eu não sabia.

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo.

Eu não sabia se deveria ter ajudado Brooke.

Eu não sabia de nada, e realmente não sabia por que só queria


me enrolar em seus braços e nunca mais sair.

— Não. — Eu me afastei.

Eu nunca poderia ir lá, fazer isso. Nunca.

Ele não respondeu, mas me deixou ir e se levantou. Sua mão


correu por seu cabelo e ele inclinou a cabeça para cima, virando-se
ligeiramente para olhar para longe de mim.

— O que aconteceu com você? — ele perguntou.

Eu respondi a ele com sinceridade.

— Eu quebrei. Você me quebrou.


Ele olhou para mim.

— Como?

Seus olhos eram afiados.

Dei de ombros, suspirando.

— Eu não sei.

Mas eu sabia. Eu senti isso girando dentro de mim e, por algum


motivo, eu me ouvi dizendo.

— Proteger quem eu escondo é uma parte de mim. Está


entranhado em mim. Eu não posso quebrar esse voto. Eu sou esse
voto. Minha mãe é uma promessa. Você entende isso?

Suas narinas se alargaram, mas essa foi sua única resposta. Sua
cabeça estava baixa.

— Eu não a escondi, mas eu a ajudei.

Ele levantou o olhar, e eu juro, ele parou de respirar. Ele ficou


tão quieto.

Eu não podia olhar para ele, não com o que estava prestes a
dizer, porque isso destruiria uma parte de mim.

— É exatamente como você disse. Meus colegas de quarto


foram dormir, mas eu não consegui dormir e Brooke me encontrou.
Ela apareceu na minha porta, encharcada. Estava chovendo naquela
noite. Dei-lhe uma carona até uma estação de trem a três horas de
distância. Eu a abracei, dei os papéis para uma nova identidade e foi
isso. Quando eu disse que não sei onde ela está, foi a pura verdade.
Ela mencionou conhecer alguém, mas eu a vi subir em um trem.

— Para onde aquele trem estava indo?

— Estava indo para Winnipeg.

— Você a levou para Edmonton?

Eu balancei a cabeça.

— Eu peguei estradas de volta. O tipo que não teria postos de


gasolina com câmeras de segurança.

— Ela não está em Edmonton. Eu tinha pessoas que verificaram


aquele lugar. Eles vasculharam em todos os lugares.

Ele começou a andar de cabeça baixa, esfregando a testa. Seus


ombros se apertaram, sua camisa se estendeu sobre eles.

— Se ela saísse do trem, teria filmagens dela em algum lugar.


— ele disse, principalmente para si mesmo.

Não teria havido. Não se ela se movesse do jeito que eu disse a


ela para se mover, de cabeça baixa, novo penteado. Novas roupas.
Um capuz ou lenço ou chapéu para cobrir o rosto o máximo possível.
Ela precisava ficar longe, se mover o mínimo possível. Usar dinheiro.
E a outra informação, o passaporte falso que eu dei a ela.

— Você tem que me dizer onde você pensa que ela está.

— Isso é tudo que eu sei.

— Você está mentindo. Eu posso ver isso em seu rosto. Eu sei


como te ler agora muito bem. Por favor, Riley. Não tenho nenhum
plano aqui. Nenhum cálculo. Eu não estou manipulando, ameaçando,
nada. Eu estou perguntando como um irmão mais velho. Quanto
mais tempo ela ficar longe de mim, mais provável será que um
inimigo a encontre. Se ela estiver com Levi, eles serão encontrados.
Sua família provavelmente já sabe que ele estava repassando
evidências sobre eles. Eles estarão em plena força para encontrá-lo
também.

Houve um incômodo.

Se ela estivesse com ele e ele trabalhando com o governo... Mas


não.

Ou eles poderiam estar?

— O quê? — Ele viu. Ele sabia.

Eu balancei a cabeça.

— Nada. — Eu fiz uma careta. — Quero dizer, não pode...

— O quê?

— Só... — Eu ainda não conseguia entender. — Eu sei que você


tem homens no FBI. Você pode ver se há realmente uma
investigação ativa na família Barnes? Não apenas onde eles estão
pegando as informações que podem obter dele antes de decidir
abrir um processo contra eles?

Suas sobrancelhas se abaixaram. Ele estava imerso em


pensamentos.

— Você acha que, se houver, o governo está escondendo ele.


— O que significa que eles a estão escondendo também.

— Se eles estiverem juntos. — acrescentou.

Não, as peças estavam se encaixando.

— Por que ela iria até você para se esconder se o governo dos
EUA a estivesse escondendo também? — ele perguntou.

Isso não era bom. Não era nada bom.

— Para esconder ainda mais suas pegadas ou porque eles não


sabem que a estão escondendo.

Kai afundou na cama ao meu lado. Curvando—se, seus


cotovelos descansaram em seus joelhos e ele pegou a cabeça entre
as mãos.

— Merda. — ele respirou.

Meu coração puxou. Eu não queria, mas aconteceu.

— Chame quem você tem no FBI. — eu disse suavemente. —


Não pergunte por ela. Pergunte por ele.

Ele não se moveu no começo. O silêncio encheu o quarto por


alguns segundos e então ele se aproximou. Sua mão agarrou a minha
e apertou, só por um momento, antes que ele se levantasse.

Quando ele saiu, seus ombros pareciam ceder em decepção e


ele parecia ter envelhecido dez anos.

Ele andou pelo quarto. Eu ouvi a porta principal fechar quando


ele saiu para o corredor.
Um segundo depois, ouvi o ruído de passos sobre o tapete.

Eu não me mexi.

A porta não estava aberta antes que Kai a fechasse. Quem quer
que estivesse vindo em minha direção estivera na ala o tempo todo.
Eles ouviram tudo.

Tanner ficou na porta.

— Eu não posso acreditar que você fez isso.

Sim. Nem eu podia


Tanner e Jonah me fizeram companhia durante o dia.

Não Kai

Eles não falaram sobre ele e eu não perguntei. Nós agimos como
se fôssemos amigos fazendo uma maratona de filmes. Eles pediram
pizza, ou alguém fez isso. Apenas apareceu, carregado em bandejas
com qualquer coisa que eu quisesse beber.

Tanner tomava uma cerveja e Jonah bebia uma bebida


probiótica verde. Eu também bebi uma antes. Eu mantive meu chá
pelo resto da noite. Durante todo o dia, não importa o que fizemos,
me senti desequilibrada. Minhas mãos não estavam firmes e eu
sabia que era porque eu tinha entregado Brooke.

Eu tinha quebrado meu juramento como uma agente 411. Eu


poderia continuar trabalhando com a rede? Eles entenderiam.
Inferno, Brooke nem era uma cliente oficial, mas ela era minha
cliente. Ela tinha sido minha para ajudar e eu desisti dela. Não
importava que eu não tivesse dito a Kai onde encontrá-la. Eu o
ajudei a ficar mais perto dela.

Depois do quarto filme, Tanner pegou o controle remoto e


desligou.

— Não mais. — Deixou cair na mesa de café e sentou-se, os


braços enrolados em um travesseiro sobre o peito. Ele se enterrou
no sofá, sua bunda para mim e sua cabeça no canto.
— Estou cansado e sem mais super-heróis. — disse ele, com a
voz abafada. — Eu estou fora de super-herói.

Jonah bocejou, esticando os braços do outro lado de mim. O sofá


era ridiculamente grande, com almofadas grossas e rechonchudas,
então eu mal registrei que ele estava lá.

Jonah gemeu, levantando-se.

— Que horas são? Eu sinto que posso dormir por uma semana.

Tanner bufou, ainda naquele canto.

— Assim diz o super-herói da vida real. Desista, irmãozinho.


Você vai estar saltando das muralhas até amanhã, querendo sair e
resgatar pessoas. — Ele rolou para zombar de seu irmão. — Salvar
vidas e essa merda.

Jonah franziu a testa, outro bocejo ocioso vindo sobre seu rosto.

— Você parece chateado com isso. Por que você está chateado?
— Sua sobrancelha subiu. — Eu salvei sua bunda algumas vezes.

Ele salvou?

Eu olhei para Tanner, tentando ver qualquer cicatriz.

Tanner revirou os olhos, sentou-se e passou a mão pelo cabelo.

— Eu estou te dando trabalho porque Brooke não está aqui


para fazer isso por mim. É o que ela faz. Ela cuida de você, fica de
olho em você e te dá trabalho suficiente para que sua cabeça não
fique toda inchada por ser o santo nesta família.

Tanner parecia irritado.


Jonah grunhiu sorrindo.

— Okay, certo. Ela não me dá nada. Eu sou o irmão que ela


adora. Ela te dá trabalho para que sua cabeça não saia e flutue para
longe. — Rindo para si mesmo, ele pegou as garrafas de cerveja na
mesa de café e os pratos de papel com sobras de crostas.

Ele levou-os para a mini cozinha. Eu tinha uma pequena pia,


uma mini geladeira, um pequeno microondas e uma máquina de
café. Tudo o que eu realmente precisava era de uma chaleira para
tomar um chá, mas eu estava gostando de café desde que estava com
a família Bennett.

Enquanto Jonah colocava o lixo na lata de lixo, um travesseiro


passou pela minha cabeça e acertou-o nas costas.

Tanner rosnou.

— Pare de ser perfeito. Temos pessoal para fazer essa merda.

A boca de Jonah abriu, sua carranca se aprofundou. Ele


terminou de jogar o lixo.

— Você está bêbado, Tanner? Você pode ser um idiota às vezes,


sóbrio ou não.

Tanner riu, rolando para se esticar no sofá. Seu rosto bateu nas
almofadas mais uma vez.

— Droga, sou um idiota. E sabe de uma coisa? Eu seria mais


idiota se Kai não fosse assim, então, não importa o que ele seja.

Jonah veio para pegar mais lixo.


Eu me levantei para ajudá-lo.

— Não, não. Sente. — Ele acenou de volta para baixo. —


Chegamos aqui e fizemos uma bagunça.

— Veja! — Tanner latiu. Ele levantou a mão. — Ele está sendo


perfeito. É irritante.

— Você é irritante. — Jonah largou os pratos de papel e foi até


o irmão.

Tanner não sabia que ele estava lá até que Jonah agarrou uma
de suas pernas e puxou.

Todo o corpo de Tanner saiu do sofá. Jonah continuou puxando,


varrendo-o sobre a mesa de café. Todo o lixo foi com ele e Jonah
terminou com um puxão, de modo que Tanner partiu, quase até a
parede.

— Que porra é essa?! — Tanner estava de pé, atacando seu


irmão.

Jonah se preparou.

Tanner bateu no peito dele. Seus braços envolveram a cintura


de Jonah e, plantando seus pés, ele bateu com o corpo no chão.

Jonah se desvencilhou de debaixo dele, colocando uma perna


ao redor de Tanner e virando-o.

Tanner não deveria ser superado. Os dois lutaram até a porta


principal e, depois de um tempo, comecei a ouvir o riso deles.

— Observe! — Tanner bateu Jonah na parede.


Ambos estavam ofegantes e suados agora, seus rostos
vermelhos, mas seus sorrisos me relaxaram.

— Ah! — Jonah riu. — Saia de mim. Você ganhou.

Tanner relaxou e Jonah empurrou seus braços, chutando-o o


resto do caminho.

Tanner riu também, caindo de volta ao chão, com os braços


abertos.

— Porra. — Ele estava respirando com dificuldade. — Foi


divertido. Nós não fazíamos isso há muito tempo.

Jonah se levantou, suas costas descansando contra a porta e um


sorriso torto no rosto.

— Sim. — Ele ainda estava ofegante. — Eu malho, mas esqueci


como você é pesado.

Tanner rolou e bateu na perna dele com as costas da mão.

— Cale-se, irmãozinho, ou eu vou chutar sua bunda mais uma


vez.

— Okay, certo. — Jonah empurrou a perna de Tanner. — Você


usou todo o seu potencial naquela partida. Eu ganharia a segunda
rodada.

— Foda-se isso.

— Foda-se você.

— Foda-se você! — Tanner voltou para a posição sentado,


apontando para Jonah.
Ambos fizeram uma pausa, olhando um para o outro, depois
começaram a rir de novo.

— Estamos fodidos. — disse Jonah, balançando a cabeça.

Tanner grunhiu, caindo de volta.

— Fale por você mesmo. Eu sou um garanhão. Eu não estou


fodido. Eu faço acontecer.

Eu tossi de onde eu estava sentada no sofá, assistindo. Eu


amava isso. Eu sabia que tinha um sorriso estúpido no meu rosto.
Isso era algo com o qual eu não tinha crescido. Blade, Carol e eu não
éramos assim.

Uma vez eu pensara neles como família, mas vendo Jonah e


Tanner, não, Carol e Blade eram amigos. Colegas de trabalho. Não
família. Eu não tenho isso com eles. Se Brooke estivesse aqui, ela
estaria no meio daquilo ou rindo e gritando ao lado. Inferno, ela
poderia estar treinando Jonah.

Outra tosse rasgou meu peito, chamando a atenção dos dois.


Eles se levantaram e se aproximaram.

Eu acenei, cobrindo minha boca e me afastei deles.

— Não, não. Estou bem. — Tosse. — Mesmo. — Outra tosse. —


Terminei. — Mais duas tosses. — Agora eu estou. Mesmo.

Não. Mentira.

Eu não pude parar até que Tanner tivesse saído da sala e Jonah
pegasse sua bolsa. Ele trouxe junto com um copo de água. Tomei um
gole e isso ajudou a aliviar a tosse. Ele tirou um xarope para tosse e
deu para mim. Eu recuei contra o sofá, sentindo meu peito fraco.

— Isso é uma merda. Eu sinto Muito. — Eu acenei para onde


eles estavam. — Eu não queria interromper isso.

Jonah balançou a cabeça, puxando o estetoscópio e se


ajoelhando ao meu lado.

Eu me inclinei para frente, sabendo o que ele queria.

Ele levantou minha camisa o suficiente para colocá-la nas


minhas costas.

— Está bem. Eu acho que nós dois nos esquecemos que você
estava aqui, na verdade. Nós não lutamos assim sempre.

Uma pausa.

— Respiração profunda.

Eu respirei fundo.

— Expire. Lentamente.

Eu exalei. Lentamente.

— E outra.

Nós repetimos o processo mais três vezes antes que ele se


movesse para a minha frente, seu rosto desviando o olhar enquanto
ele ouvia.

Ele estava se afastando, com o estetoscópio pendurado no


pescoço quando a porta se abriu novamente.
Kai entrou primeiro, com Tanner atrás dele.

Senti-me aniquilada pela presença dele e sentei-me direito.

— Você está bem? — Os olhos preocupados de Kai me olharam,


demorando-se onde minha camisa foi puxada para baixo uma
polegada, antes de franzir a testa e deslizar seu olhar para seu irmão.
— Ela está bem?

— Você disse que ela estava lá fora na chuva a outra noite?

Kai assentiu, de pé contra o sofá, bem atrás de mim.

Eu tentei ignorá-lo.

Meu batimento cardíaco disparou.

Estar perto de Kai era estressante.

— Ela estava. Você acha que ela ficou doente com isso?

Jonah olhou para mim, franzindo a testa.

— Sim, talvez. Ela tem um pouco de chiado nos pulmões. Além


disso, ela está sob muito estresse.

Será?

— Pode ter desgastado o sistema imunológico dela. — Um


olhar duro entrou em seus olhos e, naquele momento, ele parecia
quase exatamente como Kai. Ele franziu o cenho para o irmão. –
Tire-a disso. Tudo o que você planejou, apenas pare. Ela precisa de
descanso e relaxamento, e estar aqui, estar perto de você não está
fazendo isso. Você está deixando ela doente. Literalmente.
— Hey... — Tanner se moveu para ficar entre os dois.

Mas Kai assentiu, afastando-se do sofá.

— Ok.

— Ok? — Tanner e Jonah falaram juntos, erguendo as


sobrancelhas.

— Você está de brincadeira? — Tanner acrescentou.

Jonah disse apenas: — Bom.

— Eu tenho que voar de qualquer maneira.

Isso chamou toda a nossa atenção.

— Por quê? — perguntou Tanner.

— Aconteceu alguma coisa? — Jonah disse.

— Você a encontrou? — Eu perguntei de onde estava.

Tanner e Jonah se voltaram para olhar para mim.

— O quê? — veio um som gargarejado de Tanner.

Jonah ficou quieto, recuando.

Kai os ignorou.

— Talvez. — ele disse para mim.

Meu coração afundou e saltou ao mesmo tempo. Talvez Jonah


estivesse certo. Talvez eu precisasse ficar longe de Kai... e então
lembrei que não era minha decisão!
Eu estava sendo mantida lá, contra os meus desejos, por causa
de alguém que eu costumava amar. E se ele a encontrasse seria por
minha causa.

E eu ainda não sabia em quem confiar: Brooke ou Kai.

De repente, senti-me a mais baixa das baixas.

— Posso ter um minuto com Riley? — Kai perguntou.

— Sim. — Jonah assentiu.

— Certo.

O último a sair foi Tanner, um tom áspero em sua voz, mas ele
seguiu Jonah. Jonah deixou a bolsa com seus equipamentos médicos
no balcão da cozinha e eu os ouvi indo para a porta.

Fechou-a em silêncio e pude sentir o vazio deixado para trás. O


ar parecia mais aberto, mas também sufocante.

Kai deu a volta para se sentar na beira do sofá, na diagonal de


onde eu estava.

Eu não olhei para ele. Eu não precisei. Eu podia sentir cada


movimento que ele fazia, cada olhar que ele me enviava, toda vez
que ele começava a dizer alguma coisa e não continuava. O que ele
fez, três vezes, enquanto eu me sentei esperando.

Eu engoli um nó.

— Você a encontrou, não é?

Eu encontrei.
— Nós o encontramos. Eu disse a eles para não se mexerem,
caso ela esteja lá. Eu preciso ser o primeiro a ser visto por ela. Ela
tem que ver que não vou fazer nada para prejudicar o namorado
dela.

Meu coração apertou.

Ele parecia tão genuíno.

— Você está mentindo pra mim? — Eu ainda não confiava em


mim mesma para olhar para ele.

— Não.

Outro aperto.

— Eu fiz isso. — Essas palavras saíram de mim. Foda-se. — Eu


a entreguei. Se você a machucar, eu juro... — Eu olhei para ele,
vacilando quando vi preocupação em seus olhos, as bolsas debaixo
deles. — Eu vou matar você. — eu terminei.

Não havia calor nas minhas palavras, apenas promessa.

Ele esperou uma batida, depois assentiu.

— Eu acredito que você vá. — Um traço de diversão


permaneceu em seu tom. — Eu te disse que te mataria se contasse a
alguém o que eu disse antes. Eu também estava falando sério.

Eu ainda olhei para ele, mas me lembrei.

Ele me mataria. Eu o mataria.

Porra, nós éramos quase perfeitos um para o outro. NÃO! Não,


não, não. Eu não pensaria assim.
Eu me forcei a desviar o olhar, sentindo que eu tinha que
quebrar uma parede para fazer isso.

— O que você vai fazer se for ela e ela estiver bem?

O que vai acontecer comigo?

Ele parecia saber o que eu estava realmente perguntando por


que ele respondeu.

— Você pode voltar para sua vida. Normalmente.

Exceto que nada seria normal agora.

— Você vai ficar bem? — ele perguntou.

Eu puxei um cobertor sobre o meu colo.

— Eu vou ficar bem. Vou dormir e melhorar. — Eu apontei para


a bolsa de Jonah. — Há um médico aqui. Isso ajuda.

— Sim.

Eu sabia, sem olhar, que ele estava esfregando a mão na boca.


Ele estava imerso em pensamentos; ele ia mudar alguma coisa, eu
estava prestes a ser colocada novamente no espremedor.

— Eu ia levar Jonah comigo. — disse ele.

— O quê?

Eu olhei para ele e fui pega. Seus olhos capturaram os meus.

— No caso de Brooke precisar de atenção médica.


— Oh. — A culpa explodiu no meu peito, me aquecendo. — Essa
é uma boa ideia, na verdade.

Ele balançou sua cabeça.

— Não. Ele pode ficar aqui. Eu vou levar outra pessoa.

Claro. Novamente. O que era um médico na cabeça de uma


família da máfia? Ele provavelmente tinha uma grande quantidade
deles para chamar, EMTs, enfermeiros, auxiliares de enfermagem
até.

E o que eu estava fazendo aqui?

Eu estava imaginando uma linda médica, tipo Grey’s Anatomy e


academicamente inteligente, maravilhosa, que poderia salvar vidas
com nada mais do que um canudo. É para quem ele ligaria para
viajar com ele.

Não. Não há ciúmes aqui.

— Só tome cuidado. — eu me ouvi dizer quando Kai se


levantou.

Ele parou surpreso, mas eu me levantei do sofá e fui para o


quarto, fechando a porta com mais força do que o necessário.
Eram três da manhã.

Eu ouvi uma batida suave na porta da minha ala, seguida por


um déjà vu ruim. Puxei um robe, fui até a porta e abri.

Kai estava do outro lado.

Sem guardas. Só ele.

A luz do corredor tinha sido reduzida a um brilho suave e ele se


recostou contra a parede, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa
enquanto esperava. Ele não se mexeu, apenas levantou os olhos
penetrantes e perguntou.

— Posso entrar?

Minha mão apertou a maçaneta.

— Eu pensei que você já tivesse saído.

— Eu saio em uma hora. — Ele acenou com a cabeça atrás de


mim, sua voz quase gentil. — Posso entrar?

—Querer— invadiu o meu ser, enchendo-me, me aquecendo.

O desejo estava presente entre nós há muito tempo, mais do


que eu acho que qualquer um de nós queria. E era tão forte neste
momento, talvez porque eu sabia que ele ia sair de novo, talvez fosse
a hora, talvez fosse porque minhas paredes estavam baixas por
qualquer motivo. Eu tentei erguê-las, mas não consegui.
Eu só queria ele. Encheu-me tão completamente que me
impediu de falar por um segundo.

— Tem certeza de que é uma boa ideia?

Aí estava. Eu disse em voz alta.

Ele soltou uma respiração irregular.

— Talvez não, mas eu gostaria de entrar de qualquer maneira.

Deus.

Uma dor latejava em mim e eu lutei contra a respiração


ofegante. Isso era ridículo, mas eu recuei e me movi para a sala de
estar.

Eu não sentei. Algo me dizia que eu deveria ficar de pé.

Ele fechou a porta com um clique suave, mas não avançou. Ele
permaneceu ao lado da porta, a cabeça baixa, as mãos nos bolsos, os
ombros curvados para frente.

— Estou prestes a entrar em um avião...

Um avião?

. —.. e quando eu pousar, vou ter que fazer coisas ruins.

O alarme que me pegou quando ele mencionou o avião mudou


para um alarme diferente, um pressentimento. Ele estava me
avisando.

— Eu imagino. Levi abriu a boca para alguém e contou que o


FBI o estava protegendo, né?
Ele não respondeu.

Meu palpite estava certo.

— E se sua irmã estiver com ele, você vai levar os dois.

Seus olhos se levantaram, segurando os meus.

Eu me senti quase descarada agora.

— E se sua irmã não estiver com ele, você ainda vai levá-lo. Só
ele. — Minha boca se abriu. Minha garganta se contraiu.

Eu estava jogando um jogo perigoso, provocando-o, mas meu


Deus, ele veio até mim. Ele me trouxe aqui. Ele me puxou para isso
primeiro.

— E você vai usá-lo para forçar sua irmã a vir até você. Certo?
— Eu não esperei por sua resposta. — Como? — Falei essa palavra
como uma exigência, andando em direção a ele. Minhas mãos se
fecharam em minhas pernas. — Como você vai deixá-la saber que
você está com ele?

Ele esperou que eu terminasse. Seus olhos estavam quentes, em


chamas. Eu ignorei. Um formigamento que se espalhou por mim,
começando na base do meu pescoço. Entrelaçou-se com o meu
perigoso vício de passar dos limites, protegendo esse limite, para
saber até onde eu poderia ir sem cair no precipício.

Kai era o precipício.

Eu só queria me libertar. Longe dele. Com ele. Em seus braços.


Eu queria tudo e meu peito ficou pesado.
Eu me aproximei, então estava a apenas um metro dele.

— Não importa. Nada disso. Você pode encontrar sua irmã.


Você pode forçá-la a voltar para casa, mas se você ameaçar o homem
que ela ama, você a terá pela metade. Você terá quebrado qualquer
vínculo infantil e puro que exista entre você e ela como irmãos. —
Eu dei um passo. — Ela nunca vai olhar para você da mesma
maneira. — Um segundo passo. Minha voz baixou, mas era
venenosa. — Mas talvez você já tenha feito isso. Talvez você já tenha
matado o que permite que uma irmãzinha adore seu irmão mais
velho? Isso é somente uma adição...

Sua mão deslizou em volta do meu pescoço, cobrindo a parte de


trás da minha cabeça e eu parei de falar.

Cada tendão em mim se esticou.

Meu pulso disparou.

Minha boca se abriu novamente.

A dor dentro de mim era angustiante.

Eu o queria.

Eu não podia negar isso. Eu parei de mentir para mim mesma,


mas eu ainda sentia total desdém pelo que ele fazia, por quem ele
tinha que ser.

Ele me puxou para ele, deslizando meu robe pelos meus


ombros, para cair no chão. Seus olhos perfuraram os meus, apenas
alguns centímetros nos separando e eu pude sentir como ele me
segurava.
Eu senti o pulso dele também. Era tão rápido quanto o meu.

— Você pode me odiar. Você pode me detestar. — Sua mão


deslizou para trás do meu pescoço e desceu agonizantemente lenta
entre meus seios e minha barriga.

Eu ofeguei e ele deslizou a mão sob meu short de pijama até que
descansou sobre o meu clitóris. Eu fui às alturas ao seu toque, minha
cabeça caindo para trás, tudo em mim começando a tremer.

Um dos seus dedos mergulhou dentro de mim.

— Mas você me quer, porra. — E com isso, um segundo dedo se


juntou ao primeiro e ele pegou meu rosto, sua boca batendo na
minha.

Não deveria ter sido assim.

Eu estava me contorcendo.

Eu não deveria sentir o fogo que ele tinha acabado de


mergulhar com gasolina dentro de mim.

Quando seus lábios tocaram os meus, as chamas aumentaram e


eu engasguei em sua boca. Sua língua deslizou para dentro. Tudo
explodiu, senti sua língua procurando pela minha enquanto seus
dedos começaram a empurrar. Eu estava me desfazendo e tudo que
eu queria era me aproximar, meus dedos afundando em seu peito e
braços, então deslizando para suas costas.

Eu subi nele e ele rosnou, agarrando minha perna e me


empurrando contra a parede.

Santo inferno.
Sua boca tomou mais, saboreava e dava ao mesmo tempo. Ele
me comandou, tomando posse de mim, mas depois ele recuou e
suavemente roçou meus lábios.

Eu gemi, seguindo-o com a minha boca.

Eu queria mais. Eu precisava de mais.

— Foda-se. — ele gemeu. Sua mão deslizou pelo meu pescoço,


empurrando meu top mais para baixo e seus dedos se moveram
sobre o meu peito, me cobrindo.

Isso estava errado.

Meu corpo não se importava.

Eu estava superaquecendo e descansei minha cabeça contra a


parede, recuando. Eu só pude respirar enquanto ele descia. Ele
beijou meu lábio inferior, sua boca saboreando meu queixo e
queimando um caminho até minha garganta, descendo entre meus
seios até que ele circulou sobre o meu mamilo. Ele me provocou,
roçando os lábios em mim, depois seguindo com uma varredura de
sua língua.

Eu peguei um punhado de seu cabelo e puxei-o para mim.

Seus olhos se arregalaram de surpresa quando ele viu a


necessidade em mim.

Levantando a cabeça, ele me deixou escorregar em seus braços


até estarmos cara a cara. Ele me observou. Eu o observei.
Segurando-me, ele meteu em mim mais e mais, seus dedos
flexionando para dentro.
Eu queria mais.

Seus olhos suavizaram e ele diminuiu a velocidade, seus lábios


beliscando os meus.

Eu engoli um gemido.

Ele beliscou novamente, seu olhar quase negro de desejo. Mas


ele se segurou, me deixando quase cega para ele.

— Você está me matando. — Eu não pude segurar isto. Mordi o


lábio, fechei os olhos e empurrei a mão dele.

Um terceiro dedo se juntou aos outros e eu me inclinei para


trás, minha garganta exposta a ele. Eu segurei sua mão para fazê-lo
se mover mais rápido, e ele riu baixinho. Ele empurrou para dentro
de mim, me esticando, enchendo-me enquanto seus lábios
encontravam meu pescoço.

Senti-me fundida a ele e queria que ele continuasse se


movimentando.

Ele se deteve um momento antes de seus dedos se contorcerem.

— Ah! — Eu suspirei. — Você só quer...? — Senti o raspar dos


dentes dele e congelei, uma bolha de ar ficou presa na minha
garganta.

Ele empurrou duro, rosnando.

— Você não sabe o que eu quero.

— Kai!
Sua palma roçou meu clitóris. Ele esfregou contra ela, seus
dedos finalmente, finalmente se movendo. Deslizando para fora,
depois empurrando.

Sua boca se moveu de volta para pegar a minha.

Eu me senti escravizada por ele.

Ele continuou empurrando, lentamente, indo mais e mais


fundo.

Um suspiro frustrado me deixou e eu bati minhas pernas ao


redor de sua cintura. Arqueei minhas costas, rangendo na mão dele.
Ele me segurou firme quando comecei a cavalgá-lo.

— Por favor. Deus!

Sua boca se fechou sobre a minha antes que ele sussurrasse: —


Nem. Mesmo. Perto.

Então ele começou a me foder, seus lábios abafando meus sons.


Eu fiquei frenética, mas ele ainda demorou, me persuadindo com
beijos, seus dedos. Sua mão beliscou meu mamilo e seus lábios
desceram até me cobrirem lá, quando ele agarrou minha cintura.
Sua mão deslizou ao redor enquanto ele pressionava sua virilha
mais perto. Ele me ancorou contra a porta e tocou meu maldito
corpo como um instrumento.

Ele dedilhava enquanto seus dedos entravam.

Ele mudava o compasso quando ele se afastava.

Ele manteve a pressão perfeita em mim e eu empurrei em seus


dedos, minha boca rasgando a dele quando um orgasmo caiu sobre
mim. Eu corri por aquela borda, mas ele não me deixou parar. Ele
começou de novo, e não demorou muito para que um grito sufocante
saísse da minha garganta quando gozei uma segunda vez.

Meu corpo ficou mole. Eu era uma poça em seus braços. Cada
osso em mim tinha derretido.

Ele me segurou enquanto eu desmoronava contra seu ombro.


Se afastando da porta, ele segurou minha bunda e a parte de trás do
meu pescoço. E me levou ao meu quarto.

Ele me deitou na cama e ficou ao lado dela, olhando para baixo.

Eu devo estar parecendo devassa. Meu top ainda estava


empurrado para o lado, meu peito exposto e minhas calças de
pijama tinham caído em meus quadris. Minha calcinha foi puxada
para o lado.

Eu não me cobri. Ele levou tudo de mim, olhando das minhas


pernas para minha boceta, para minha barriga, depois para meus
seios e lábios, antes de finalmente encontrar meus olhos, sua
mandíbula cerrada. Seus olhos estavam tempestuosos, inflamados.

Despertou uma calma em mim e deslizei sensualmente por


cima da cama. Eu o tinha cativo agora.

Ele rastreou cada movimento que eu fiz.

Meu olhar foi para suas calças, para a protuberância lá, a que eu
senti debaixo de mim, esticando.

Sentei-me, minha alça caindo do meu ombro e me movi para a


beira da cama, sentindo um novo pulsar em mim.
Ele permaneceu em silêncio, me observando, enquanto eu
agarrava sua calça jeans.

Eu o puxei para frente, minha mão descansando sobre ele. Eu


olhei para cima, encontrando seu olhar enquanto eu abria o botão,
então abaixei seu zíper. Eu avancei, encontrando seu pênis e envolvi
meus dedos ao redor dele.

Ele assobiou, suas pálpebras caindo, mas ainda me observando.

Eu o tirei e me movi para levá-lo à minha boca.

— Não. — Ele me agarrou, me segurando ainda, seu peito


subindo e descendo rapidamente.

— Eu não vim para isso. — Uma desolação brilhou em seus


olhos, antes de desaparecer. — Eu quero que você venha comigo.

Eu sentei de volta.

Ele se inclinou, deslizou um dedo pelo meu braço e puxou


minha alça até que eu estivesse coberta. Ele arrumou minhas calças
em seguida, mas primeiro ele deslizou a palma da mão pelo minha
barriga, sob a minha calcinha para trazê-la de volta no lugar. Ele
organizou tudo até que eu estivesse coberta.

Expelindo um silvo agudo, ele colocou o jeans de volta e sentou-


se ao meu lado. A lateral da perna e do braço dele roçaram os meus.

Olhando para frente, baixou sua cabeça.

— Eu vim aqui esta noite para pedir-lhe para vir comigo. Eu não
costumo voar com os entes queridos e você está incluída lá.
Eu o quê?

— Brooke ama você e sei que Tanner e Jonah gostam de você.


Não importa as circunstâncias de você vir aqui, você é considerada
uma amiga da família.

Eu o senti me observando, mas me concentrei no meu colo.

— Isso significa algo para mim. Se eu encontrar Brooke, ela não


voltará comigo em um avião. Vou mandá-la de volta. É mais
demorado, mas...

Ele não precisava dizer nada.

Eles perderam Cord em um avião. Ele não queria arriscar


Brooke.

— Entendi.

— Mas... — ele disse bruscamente, . —.. é uma viagem longa


demais para mim. Eu tenho que voar, então estou fazendo uma
exceção. Eu gostaria que você viesse comigo.

— Onde você vai?

— Nova York.

Eu fiz uma careta.

— Levi está sendo mantido em Nova York?

— Fora de Nova York, sim.

— Oh. — Minha carranca se aprofundou. Eu peguei minhas


calças, alisando as rugas que não estavam lá. Minha mente correu.
O que isso significa? Meus pensamentos rodaram.

— Eu estou doente! — Eu soltei. — Você vai ficar doente. Ele


lutou contra um sorriso.

— Eu não fico doente. Nunca.

Claro. Eu bufei.

— Você não é humano.

Ele esperou um segundo.

— Você virá?

Eu queria ir. Essa era a verdade. Mas tudo dentro de mim


argumentou.

Minha mente: inferno, não.

Meu tudo mais: foda-se, sim.

Eu ainda estava formigando de ter acabado de gozar em seus


braços um momento atrás.

Eu olhei para cima.

—E se eu quisesse ir para casa?

— Eu vou mandar Tanner te levar. — Ele não hesitou. — Você


sabe a verdade sobre a partida de Brooke. Estou confiando em você
com essa informação. Ninguém sabe.

— Nem mesmo seus irmãos?

— Ninguém. – Ninguém.
— Quais seus planos? Qual é o seu objetivo final aqui?

— Nenhum objetivo aqui. Estou sendo egoísta; Isso é tudo. —


Ele inclinou minha cabeça, levantando meu olhar para o dele. Seu
dedo acariciou meu queixo. — Eu quero que você venha comigo. Só
isso.

Oh. Bem. Quando ele colocou assim, eu sabia a minha resposta.

— Não.
Eu permaneci quieta depois de dar a Kai minha resposta.

Meu coração se encostou no meu peito, batendo forte e ele


abaixou a cabeça em um aceno abrupto.

— Bem. — Ele falou. Sua mão caiu do meu rosto. Seu calor saiu
do meu lado. Não havia peso reconfortante na cama comigo.

Eu tremi, sentindo frio no quarto e sabendo que ele estava se


afastando de mim.

— Vou dizer a Tanner e Jonah para acompanhá-la até sua casa.

Minha boca se abriu. Ele saiu do quarto com passos rápidos e


decisivos.

Ele estava realmente fazendo isso. Ele estava me dispensando,


depois do que acabamos de fazer.

O choque se alojou firmemente em minha garganta e


permaneceu lá muito tempo depois que ele saiu, muito depois que
ouvi o clique da porta se fechar e até mesmo quando uma pessoa da
equipe entrou e começou a arrumar uma mala para mim.

Eu fiquei de pé, tremendo.

— Aqueles não são meus.

— Sr. Bennett disse para arrumar essas roupas pois as suas se


foram.
Certo. Porque eles as colocaram em alguém para enganar Blade.

Tudo me atingiu com um baque.

Porra, porra. Eu tinha sido sequestrada e agora estava doendo


porque tinha que ir?

Minha cabeça começou a doer.

— Você pode ir com ele, sabe.

Tanner estava na porta, com os braços cruzados, um pé sobre o


outro.

— O quê? — Eu coaxei.

Ele sacudiu os olhos para o teto.

— Eu sei como você cheira, querida.

A parte de trás do meu pescoço aqueceu. Eu dei uma olhada


para a funcionária, mas ela não parou. Ela dobrou uma camisa que
eu usei todos os dias aqui. Ela sabia que era uma das minhas
favoritas, depois pegou outra que eu gostava.

— Isso não é da sua conta, Tanner. — Eu endureci.

— Eu sei disso. Eu simplesmente não me importo. Ouça. — Ele


agarrou as laterais do batente da porta e deixou-se cair para a frente,
com os cotovelos apontados para fora. Ele começou a empurrar para
frente e para trás, seus bíceps em movimento. — Sim, a forma como
trouxemos você aqui foi uma merda. Mas você nos conhece. Você
não teria vindo se tivéssemos pedido e você não teria ajudado a
encontrar Brooke também. Você sabe disso. Nós sabemos. Kai é
quem tem que tomar essas decisões de merda, mas não se engane,
se não fosse ele, seria eu. Tem uma família inteira cheia de tubarões
que querem entrar e pegar o que temos. Nós não vamos deixar isso
acontecer, nenhum de nós. Nós somos Bennetts. Isso significa muita
coisa, mesmo em relação a Brooke.

Ele inclinou a cabeça para frente, seus olhos conhecedores. —


E você também sabe disso. O que Kai deveria ter feito, e estou
percebendo que ele não fez, era chantagear você emocionalmente.
Ele deveria ter dito que há uma boa chance de que Brooke faça algo
estúpido quando o vir na soleira da porta. Ela vai matar alguém
porque ela não age racionalmente às vezes. Ela pula antes de olhar
para onde está indo. Kai poderia ter dito isso, mas ele não disse?
Pense por um segundo, hein?

Eu engoli em um nó duro.

— Do que você está falando? Quem seria morto?

Ele encolheu os ombros.

— Faça sua escolha. Brooke. Kai. O homem de Brooke e Brooke


então culpará a si mesma ou a Kai. — Ele empurrou o batente da
porta, virou-se e enfiou as mãos nos bolsos. — Você deveria ir, é o
que eu acho, mas o que eu sei? — Ele foi embora, assobiando assim
que chegou ao corredor.

A mulher tinha terminado. Minha bolsa estava cheia e na mão


dela. Ela esperou ao lado da cama.

Eu ia me arrepender disso. Eu sabia que iria.


— Coloque isso no veículo que Kai está partindo. Eu vou com
ele.

Ela assentiu.

— Claro. Vou notificá-lo agora, já que estão saindo da garagem.

— O quê?

Mas ela foi embora, correndo para fora.

Eu respirei um segundo, então entrei em força total. Eu não


podia viajar de pijama… ou talvez devesse? Não. Isso era ridículo.

Peguei um par de leggings pretas, um enorme capuz preto, uma


blusa preta, um par de roupas íntimas e um sutiã. Fui ao banheiro,
troquei e me lavei.

O que eu estou fazendo?

Eu coloquei um par de tênis pretos.

Eu não faço ideia.

Oh Deus.

Minha garganta se fechou. O pânico arranhou meu peito.

Agarrando um prendedor de cabelo, eu empilhei meu cabelo


em um coque bagunçado e deixei minha ala.

Demorou um segundo para descobrir o que estava errado.

Eu pisquei e isso me atingiu. Não havia guardas.

Eu estava completamente sozinha.


Merda.

Eu não tinha um telefone. Eu queria um telefone. Eu precisava


de música quando voava. Eu odiava não ter música. Ou um livro?
Talvez eu devesse ter pegado alguns da biblioteca deles, mas eu já
estava saindo e entrando na sala da frente.

Eu estava cometendo um erro?

Depois do que fizemos, meu corpo se aqueceu


instantaneamente e contive um gemido.

Isso ia acontecer de novo. Mais. Mais aconteceria.

Mas Brooke. Kai. Eu não queria que ninguém se machucasse.


Brooke me ouviria. Ela iria. Tanner estava certo sobre isso. Ela
conversaria primeiro, antes de fazer algo imprudente. Certo?

Isso tudo era um movimento calculado? Tanner supostamente


deveria entrar, fazer um discurso de culpa e me mandar correndo
atrás de Kai? Porque foda-se. Foi o que aconteceu.

Parei no primeiro degrau, a entrada me chamando. Um par de


faróis brilhou do lado de fora. Eles estavam esperando por mim.

— Ele não virá até você.

Desta vez, Jonah ficou atrás de mim, uma bebida na mão. Ele
estava vestido muito parecido comigo, em um moletom, mas com
suores no fundo.

— Você terá que ir até ele. Ele foi notificado de que você mudou
de ideia, mas a decisão tem que ser sua. Totalmente. Ele vai esperar,
mas não por muito tempo. Ele vai sem você, então decida rápido.
Caso contrário, os próximos veículos sairão em seis horas. Nós
vamos levá-la de volta para sua outra vida.

Minha outra vida.

Ele estava certo. Se eu fosse com Kai, de alguma forma, de


alguma maneira, voltaria à minha antiga vida. Mas se eu ficasse,
mesmo que voltasse para Blade e Carol, eu poderia realmente voltar
a esse mundo?

Eu quebrei meu voto.

Eu ainda estava quebrando meu voto agora, realmente indo


com a pessoa que o Hider queria longe.

Mas… meus olhos estavam colados a esses faróis.

Eu sabia minha decisão. Eu senti isso no fundo.

Eu fui para fora.

Eu nunca tinha considerado realmente não ir. Eu estava me


enganando.

A porta do SUV se abriu. Kai se arrastou para o lado e eu entrei.

O interior estava quente, um leve traço de bourbon no ar.

Sentei-me para trás, não encontrando o olhar de Kai e sequei


minhas mãos suadas nas minhas pernas.

Eu acabei de cometer um erro?

Então ele colocou um telefone na minha mão.

— Para você usar.


Eu engasguei.

Liguei a tela, vi o WiFi conectado e soube o que isso realmente


significava.

Ele acabou de me oferecer liberdade real.

Em seguida, ele colocou um par de fones de ouvido no meu colo.

Sem outra palavra, liguei-os, coloquei-os e encontrei algumas


músicas. Eu deslizei ao lado dele e não demorou muito para que eu
adormecesse.

Eu senti... Eu não queria pensar em como me sentia.

Era um jeito que eu não deveria ser. Eu sabia muito disso.


Kai viajou num jato particular. Eu não deveria ter ficado
surpresa. Privacidade e segurança eram muito importantes para
eles. Isso fazia sentido.

Nós fomos para o avião em um hangar particular e saímos.


Havia uma leve garoa no ar, um leve cheiro de esterco por baixo. Eu
tremi, abaixando a cabeça enquanto subíamos a rampa.

— Bem vinda, senhorita.

A aeromoça me deu um sorriso profissional, indicando que eu


me sentasse. Fiquei surpresa com o tamanho do avião, dez pessoas
podiam voar conosco.

Peguei um dos assentos nos fundos e, um a um, os outros


estavam cheios de seguranças de Kai. Eu me perguntei se mais
guardas viriam, voando separadamente, ou se ele tinha uma frota
inteira para nos encontrar quando aterrissássemos. Eles
mantiveram o assento na minha frente vazio.

Um palpite de quem ia se sentar lá.

Meu telefone tocou e eu abri.

Ei.

Eu: Quem é?

Blade.
Eu dei uma olhada em Kai, mas suas costas ainda estavam
viradas para mim enquanto ele falava com o piloto.

Eu: Como você conseguiu esse número?

Blade: Seu homem me enviou um texto com o número,


disse que você estaria usando. Você está com ele de verdade?

Eu: Não. Eu estou com ele por Brooke.

Blade: Ele fez uma lavagem cerebral em você.

Esperei um segundo antes de responder, meu estômago


revirando naquele momento.

Eu: Talvez. Se ele machucar Brooke, vou matá-lo.

O telefone tocou e eu respondi.

— Ei.

— Que porra você está fazendo enviando esse texto? É o celular


dele. Ele vai monitorar seus textos.

Kai se virou agora e retornou. Seus olhos me encontraram,


pegou o telefone pressionado no meu ouvido, mas ele não esboçou
reação. Eu me acomodei no assento, ficando mais confortável.

Eu baixei minha voz.

— Ele sabe.

— Ele sabe?!

— Eu disse a ele.
Blade suspirou.

— Eu não sei que jogo você está jogando com ele, ou se é isso
que você está fazendo ou não. Apenas... esteja segura, ok?

Meus nervos estavam tão tensos que eu poderia ter descontado


um centavo deles.

— Oh, eu vou. — Eu comentei quando Kai se sentou na minha


frente.

Nós desligamos e eu me ocupei escolhendo uma nova música.

— Você não disse a ele que estávamos indo para Nova York? —
Kai perguntou.

Eu parei.

— Não é da sua conta.

Kai franziu a testa, mas, como eu fiz no carro, liguei meus fones
de ouvido, prendi meu cinto de segurança e me acomodei na cadeira.

— Você sabia que eu iria falar com ele.

Kai deu de ombros.

— Que parte de estar aqui de livre e espontânea vontade quer


dizer que você não pode fazer chamadas telefônicas?

— Touché.

Ele franziu a testa e sorriu.

— Touché. — Sentando-se, ele tirou alguns papéis enquanto


nós taxiávamos para decolar.
Assim que levantamos vôo, a aeromoça começou a nos servir
bebidas e comida. Eu pedi um cobertor.

— Há um assento maior lá atrás. — Kai gesticulou atrás de nós


e, através de uma cortina de privacidade, vi que ele estava certo.

Era quase o suficiente para duas pessoas dormirem.

— Eu sei que você não dormiu na noite passada. —


acrescentou.

— E você? — Por que eu o atraí? Eu fiz uma careta. — Não


responda isso.

Ele não fez, apenas sorriu.

Eu não sabia como lidar com esse Kai. Ele estava sorrindo. Ele
era gentil. Ele estava... não sendo calculista ou implacável, ou
segurando o assento em um aperto de morte.

— Eu pensei que você não voasse. — eu disse.

— Eu não faço, se não for preciso. — Ele embaralhou seus


papéis. — E o medo não é a razão pela qual preferimos não voar. E
sim porque arriscar outro ente querido do jeito que já perdemos
um?

Seus olhos estavam firmes em mim. Ele colocou os papéis para


baixo, virando-se para mim enquanto se inclinava sobre o corredor.
Sua voz baixou.

— Faço quase tudo pela minha família e, viajar de carro por


algumas horas extras, é uma escolha fácil.
— Mas voando para Nova York...

— Um mal necessário. Eu não tenho tempo para dirigir e, como


eu disse antes, você é uma exceção. — Seus olhos se aqueceram
antes de deslizarem para a cortina traseira. — Você não quer se
deitar?

Eu estava cansada. Eu estava ligada. Eu estava tudo citado


acima. Eu estava principalmente confusa. Dei de ombros, segurando
meu celular com a música.

— Estou bem, por agora.

Ele assentiu, sentando-se de volta. Ele pegou os papéis.

— Se você mudar de ideia, eu escolhi este jato especificamente


por causa dessa área do fundo para você.

Especificamente? Espere.

— Você tem mais de um avião?!


Primeira hora, eu estava contente.

Segunda hora, eu estava inquieta.

Terceira hora, aceitei a oferta da aeromoça de uma bebida. Eu


precisava de algo para me acertar.

Quarta hora, fui dormir na parte de trás. Deixei meu telefone e


fones de ouvido no outro banco, para ouvir o zumbido de fundo dos
motores. De vez em quando, eu pegava um trecho da conversa dos
guardas. Seu murmúrio me acalmou de alguma forma, me
embalando no sono.

Quinta hora, eu acordei com um grito.

Eu me levantei, encontrando a aeromoça agachada no chão ao


meu lado. Suas mãos cobriram a cabeça e ela se enrolou quase em
uma bola. Ela levantou a cabeça e pude ver que ela estava
aterrorizada.

— O que está acontecendo?

Outro grito.

Eu corri para o lado, meu coração martelando.

A cortina havia sido fechada e eu alcancei a frente.

— Não faça isso! — Ela sussurrou, pegando minha mão. — Ele


vai nos matar.
— Kai?

— Não. O homem.

O homem?

— Você vai morrer!

Aquela voz não parecia humana. Era estridente e animalesca,


como um gato gritando.

Eu escorreguei para o chão para ver debaixo da cortina. Uma


parede de homens estava na minha frente.

O que eu faço aqui?

Medo por Kai passou por mim, mas meu treinamento também
deu certo. O que quer que estivesse acontecendo, deixar o homem
ficar no controle era a coisa errada a fazer.

Eu me movi para o lado oposto, onde a atendente estava


agachada. Ela me observou, seus braços tremendo. Lágrimas
escorriam pelo rosto dela enquanto ela balançava a cabeça para
mim.

Ela sabia que eu ia fazer alguma coisa.

Eu era idiota.

Kai tinha seguranças.

Eles tinham uma chance melhor de lidar com isso, mas onde
estava Kai? Ele já tinha sido ferido? Como isso aconteceu?
A cortina se moveu um centímetro e eu quase engasguei
quando vi um dos guardas me observando. Ele balançou a cabeça
também. Seu rosto estava mortalmente sério.

Eu falei para ele.

— O que está acontecendo?

Ele balançou a cabeça, fechando a cortina.

— ...você quer.

Esse era Kai. Um pouco do meu medo diminuiu um pouco.

— Eu quero que você morra! — Outro grito estrangulado.

Ele deve ter uma faca ou uma arma se eles não estavam
avançando sobre ele. Deus. Que arma? Estava apontada para Kai?

— Eu sei, mas há pessoas neste avião que não merecem morrer


assim.

— É aí que você está errado! VOCÊ ESTÁ ERRADO! Todos eles


merecem morrer. Eles trabalham para você. Todos eles deveriam
perecer. Está decidido. VOCÊ.

Um baque.

— DEVE.

Outro baque. Eu podia sentir seus passos no avião.

— MORRER!

Houve uma onda de pancadas, como se ele corresse para frente


ou alguém corresse para ele.
Eu olhei debaixo da cortina, meu coração na garganta e a
parede dos homens se foi.

Pulando para cima, olhei para ter certeza, e estava certo. Todos
eles avançaram sobre ele.

— Não, não. — Uma mão pegajosa agarrou meu braço. A


atendente tentou me puxar de volta. — Não vá lá fora. Por favor.

— AGH!

Eu nunca esquecerei esse som. Era como o balido de um animal


morrendo lentamente, pedindo ajuda em seus últimos momentos da
vida.

Eu não pensei.

Eu tirei minha mão da dela e corri para fora, indo para o meu
lugar e me encolhendo para me esconder. Eu poderia olhar em volta,
apenas uma olhada.

Os homens estavam em cima de um cara que eu não reconheci.


Sua pele tinha uma coloração verde, encharcada de suor e seus olhos
estavam selvagens. Um guarda segurava uma arma, por precaução,
e outros dois deram um tapinha no homem.

Kai estava em pé ao lado dele, encarando.

Eu reconheci isso nos ombros de Kai. Eu sabia o que isso


significava. Ele estava furioso. Mas ele estava se controlando.

Um dos guardas olhou para Kai. Ele deu-lhe um aceno firme


quando ambos se afastaram. Os outros que estavam prendendo o
homem também recuaram. Todos eles deram-lhe um amplo espaço
até que apenas o homem e Kai ficaram no centro do avião.

Lentamente, bem devagar, Kai se aproximou e pegou a arma de


seu guarda.

Os olhos do homem dispararam para Kai. Eles estavam quase


vibrando em sua cabeça.

Seus lábios se separaram.

— O que, o que você está fazendo?

Foi quando vi que Kai usava luvas. E ele estava vestindo uma
jaqueta, não uma que eu reconheci de antes.

O homem não tinha uma jaqueta. Ele usava apenas uma camisa.

Um sentimento doentio aumentou em mim.

Kai estava usando o casaco daquele homem.

Ele tinha luvas.

Ele estava segurando a arma daquele homem.

— Esta é a terceira vez que você tentou me matar e aos meus


homens. — Kai disse calmamente.

O quê? Calafrios subiram pela minha espinha. O cabelo na parte


de trás do meu pescoço se levantou.

— A primeira vez, você foi para a prisão. Eu deixei a polícia


cuidar de você.
A mão de Kai se encaixou naquela arma como sua própria luva,
como se ele estivesse segurando armas desde os três anos, como se
fosse uma segunda natureza para ele.

— Na segunda vez, você foi a um hospital psiquiátrico. —


continuou ele.

O cara começou a chorar, balançando a cabeça, gemendo. Ele se


agachou, cobrindo a cabeça com as mãos do jeito que a aeromoça
estivera momentos antes. Ele balançou para trás e para frente em
seus calcanhares.

— Não. Não. Por favor, não. — repetiu ele. — Não faça isso.

Kai se agachou perto dele.

— Você perdeu sua família para um negócio de drogas. Você me


culpa por essas drogas. Eu tive pena de você. Eu entendo como o luto
pode fazer você fazer coisas ruins. Eu lhe dei misericórdia pela
primeira vez e a segunda vez que minha irmã implorou em seu
favor. Ela conhecia sua esposa, disse que você era um bom homem.
Você era um zelador em um hospital onde ela ajudava. Meu irmão
lembrou de você também, disse que você era um bom trabalhador
lá. Essa foi a última vez.

Eu sentei de volta, não mais encolhida atrás do assento.

— Não, não, por favor, não. Não faça isso. Não, não, por favor,
não. — Ele falou mais rápido, as palavras se acertando até que ele
olhou para cima e me viu. Ele parou de falar.

Kai olhou.

Seus olhos escureceram.


Ele estava com raiva de mim. Eu não me importei.

Eu não conseguia desviar o olhar desse homem. Ele era magro,


o rosto magro como se não tivesse comido em dias. Ver-me mudou
alguma coisa nele. O choro parou. Ele sentou-se. Ele não se encolheu
mais.

Kai deu um passo para trás para lhe dar espaço, recuando
novamente, enquanto o homem se levantava.

O homem nunca olhou para longe de mim.

Kai pisou para me bloquear, mas o homem gritou.

— Não! Não, estou prestes a morrer. Eu quero olhar nos olhos


de uma mulher.

Um grunhido selvagem foi arrancado de Kai.

— Tire ela daqui! — Ele latiu para seus homens.

— Não! Ela é sua mulher, sim?

Não houve resposta. Dois dos guardas se aproximaram de mim,


mas eu os segurei. Balançando a cabeça, também me levantei.
Minhas pernas estavam fracas, mas eu queria ver isso. Eu não sabia
por quê. Talvez eu não quisesse ser a única encolhida lá atrás?
Talvez eu não quisesse colocar minha cabeça na areia, sabendo o
que iria acontecer, mas deixar Kai me proteger disso?

Eu saí, colocando a mão para cima enquanto outro dos guardas


tentava me bloquear.
— Não. Eu quero dar ao homem o que ele quer. Todos nós
sabemos o que vai acontecer, de qualquer maneira.

Ele não me machucaria. Ele não podia. Kai não deixaria isso
acontecer.

Algo sussurrou para mim no fundo da minha mente. Eu deveria


parar isso. Eu deveria tentar ajudá-lo. Ele estava doente, isso era
óbvio, mas eu me lembrava de acordar com seus gritos. Eu me
lembrei da comissária de bordo. Lembrei-me das outras duas vezes
que Kai havia falado.

Até mesmo Jonah, até mesmo Brooke. Eles não teriam lutado
por esse homem novamente.

Eles eram Bennetts, como Tanner disse. Isso brilhou dentro de


mim agora.

Kai era um Bennett. Kai era o líder dos Bennetts. Ele não
deixaria isso acontecer de novo e, por causa disso, eu disse:

— Deixe que ele me veja. Por favor, Kai.

O último guarda se afastou, então fiquei alguns metros atrás de


Kai. O homem se deslocou para o lado para me ver ao seu redor.

Eu era uma bola de nervos contorcidos.

Há uma sensação no ar quando você está prestes a ver alguém


morrer. Sua barriga contrai, e o que está prestes a acontecer, você
sabe que está errado. Mas pensando nisso naquele breve momento,
não consegui pensar em um momento em que a morte de alguém
parecia certa. Talvez se a vida tenha sido vivida ao máximo ou a
pessoa estivesse aleijada de dor, sem esperança... mas, nunca vi isso
acontecer.

No entanto, neste momento, eu sabia que o sentimento errado


não era sobre ele morrer. O erro era sobre como ele tinha vivido, a
dor e a raiva que devem ter estado com ele.

Eu estava adivinhando porque, enquanto olhava nos olhos


daquele homem, eu só via a morte. Se era dele, da esposa dele, do
filho dele, eu não sabia. Mas vi a escuridão e senti um vazio gelado
invadir-me. O olhar de morte desse homem era diferente do de Kai
e talvez eu pensasse nisso mais tarde.

Ele deu um último grito estrangulado, se lançando para mim e


Kai atirou nele.
Sentei na parte de trás de um SUV, um cobertor em volta de
mim e eu estava... calma.

Eu não deveria estar calma, mas eu estava.

Quando desembarcamos, as autoridades estavam a caminho.


Os homens de Kai me tiraram do avião e me colocaram no SUV
quando alguém do governo apareceu. O piloto havia chamado um
sinal de socorro. Eu ainda não tinha certeza do que aconteceu. Nós
deveríamos ter passado pela alfândega. Eu estava estressada sobre
um passaporte em um ponto no avião. Mas Kai estava tranquilo. Ele
parecia ter tudo arranjado.

Eu imaginei que eles contariam à polícia que havia sido


autodefesa. Mas Kai estava com o casaco do cara. Ele atirou nele em
lugares tão próximos que também poderia ter sido discutido como
um tiro auto infligido na cabeça. Um suicídio.

Kai falou com um detetive da polícia quando o corpo foi


retirado do avião em uma maca. Ninguém tirou fotografias ou
coletou provas forenses. Estava errado, mas era assim que os
Bennetts viviam. E em alguns casos, prosperavam. Kai estava
prosperando.

Aquele homem seria arrastado para uma pilha de papéis.


Talvez ele fosse rotulado erroneamente no necrotério. Talvez ele
fosse cremado antes do normal. Kai faria isso ir embora.
Ele acenou para o detetive, que tirou o bloco de anotações. Ele
falou em seu telefone com um rádio e passou pela maca para outro
veículo. Kai conversou com alguns outros homens, alguns que nos
encontraram na pista. Eles assentiram e apertaram as mãos e Kai se
virou na direção do SUV.

Um guarda abriu a porta. Kai entrou e, como de costume, não


demorou muito para que os guardas entrassem e nossa caravana de
três veículos partisse. Kai apenas olhou uma vez para mim antes de
se recostar em seu assento, tirando o celular. Nós não conversamos
por trinta minutos, quando nossos veículos aceleraram pela estrada.

— Você não comeu no avião. — disse ele. — Está com fome?

Meu estômago mergulhou, mas não por causa disso.

— Você o assassinou. — eu disse baixinho.

Ele colocou o telefone longe e se virou para mim.

— Se eu o deixasse viver...

— Eu sei. — Eu apenas me senti triste. — Eu ouvi. Ele não


negou.

Nenhum de nós mencionou que, de acordo com a lei da máfia, o


homem deveria ter sido morto da primeira vez. Sem exceções. Kai
deu a ele duas. Isso era mais que suficiente. Era assim que eles
pensavam nesse mundo. Meu estômago rolou. Nesse mundo. Eu
estava me tornando parte desse mundo. Kai poderia ter me
arrastado para esse mundo, mas ele me soltou e eu fiquei.

— Ei.
Eu fechei meus olhos. Eu não precisava ouvir a preocupação em
sua voz. Eu não queria ver isso nos olhos dele também. Se eu fizesse,
eu iria sucumbir. Esse era o meu padrão com Kai.

— Nós não passamos pela alfândega. — eu disse.

Eu peguei sua carranca quando olhei para cima. Mantive minha


cabeça baixa, o cobertor empacotado ao meu redor.

— Nós teríamos. — Um segundo de silêncio. Ele estava me


avaliando. — Por causa do atirador, nós pousamos em um local
diferente.

Ainda. Alfândegas. Eu nunca tinha entrado em um país onde não


tivesse que apresentar um passaporte, mesmo que fosse falso. Essa
era uma constante que lidávamos com a Rede. Nós tínhamos agentes
alfandegários do nosso lado que deixavam passar os passaportes
falsos. Eles eram simpáticos à causa. Esse não era o caso aqui.

— Você tinha um passaporte para mim?

Ele baixou a cabeça.

— Sim.

— Como quem?

— Como seu disfarce.

Eu falei sem pensar.

— A rede saberia. Eu teria sido marcada em um alerta.

O silêncio estava entre nós, tão pesado.


Meus patrões sabiam que eu estava com ele de bom grado, que
eu estava hospedada. Eu não tinha pensado sobre o que eles
poderiam estar pensando, mas agora estava tão claro que era como
se alguém tivesse agarrado minha espinha e arrancado.

Eu nunca seria uma agente 411 novamente. Eu já tinha minhas


dúvidas, mas ainda era minha escolha, minha decisão, para quando
eu tivesse tempo de processá-la. Mas isso teria tirado a situação das
minhas mãos. A Rede teria me expulsado no segundo em que o
passaporte do meu disfarce fosse usado.

Eu teria perdido tudo: Blade. Carol. Até o meu disfarce estúpido


como Raven. Minha missão na vida. Para onde isso teria ido? Onde
está indo agora? Uma voz riu de mim, zombando de mim.

Eu pisquei, empurrando o tumulto.

— Como foi que esse homem foi parar mesmo no avião?

— Há uma unidade de armazenamento em que ele se escondeu.


É acessível para nós se precisássemos entrar lá.

— Por que ele esperou tanto? Por que não imediatamente?

Kai balançou a cabeça.

— Ele estava encontrando coragem? Talvez ele tenha perdido


a consciência e voltado mais tarde? Talvez ele estivesse esperando
que todos nós estivéssemos dormindo?

Eu peguei na borda do cobertor. Minha visão começou a nadar.

— Você parece bem. — eu disse. Era uma acusação. — Você não


parece perturbado. Foi só mais uma terça-feira para você? — Uma
risada ligeiramente desequilibrada veio de mim. — Provavelmente
foi. Quero dizer, você está na máfia. Você controla metade do
Canadá. Você já se mudou para Toronto? — Eu soluço, o que se
transforma em um grunhido. — Você não pode, certo? Você não está
envolvido com drogas. Tem que haver um negócio de drogas no
Canadá. Se não é você, quem é?

Havia um olhar em seus olhos.

Eu parei porque eu sabia.

— Se você não está fazendo isso, você está permitindo que


outra pessoa faça isso.

Sua mandíbula se firmou.

— Dissecar o meu negócio não é a razão pela qual você está


aqui.

— Certo. — Eu bufei. — Estou aqui para ajudar Brooke ou para


foder com você.

Isso foi patético. Eu era patética, porque era verdade. Ele me


trouxe por essas razões e, infelizmente, eu provavelmente faria as
duas coisas. Mesmo agora.

— Foda-se, você. — eu disse a ele. – Para o inferno você.


Eu precisava ficar bêbada. Rápido.

Assim que chegamos à casa de madeira, aninhada entre um


monte de árvores e com vista para um rio, agarrei minha bolsa e
entrei no interior. A segurança já havia passado. Eles estavam
saindo quando entrei, ignorando tudo.

Eu peguei o primeiro lance de escadas e subi. Acima. Acima.


Todo o caminho até não haver mais escadas. Eu acho que estava no
terceiro andar. Eu era uma profissional em descobrir em qual
quarto Kai iria me querer. Eu segui o corredor todo o caminho até
os fundos e entrei no último quarto. Era grande, com sua própria
sala de estar e uma biblioteca no canto. Uma pessoa poderia sentar
lá e literalmente chegar ao seu próximo livro. O banheiro anexo,
compartilhado com outro quarto, tinha um chuveiro com paredes
de vidro grande o suficiente para que quatro pessoas pudessem dar
uma festa dançante. Este seria meu quarto.

Eu procurei pelo armário de bebidas. Não encontrando um, fui


para o quarto do outro lado do corredor, aquele com o qual eu
dividia um banheiro. No canto de trás, eu encontrei. Peguei uma
garrafa, não me importando com o que era. Empurrando a tampa,
inclinei minha cabeça quase ao mesmo tempo.

Eu estava enlouquecendo antes mesmo de sair do quarto e


entrar no meu.
Os homens estavam vindo para dentro. Eu podia ouvir suas
vozes abaixo. O aroma de pizza chegou até mim e isso significava
uma coisa, eu precisava de mais álcool no meu sistema.

Eu não queria sentir esse ódio por mim mesma.

Eu era fraca. Eu era uma vergonha para os ideais que eu tinha


dedicado a minha vida: ajudar os outros, salvar os outros, proteger
os outros. Eu estava com um homem que violava todos esses
princípios e eu deveria fugir. Eu poderia correr agora, mas não corri.
Eu sabia que não iria.

Eu cederia quando ele viesse para mim. Eu quase precisava.


Havia um anseio no fundo. Eu ansiava por Kai. Eu precisava da
minha primeira dose. Eu precisava senti-lo dentro de mim, me
reivindicando, me fodendo.

Eu caí no chão, ainda segurando aquela garrafa.

Uma parte da minha mente ainda estava pensando claramente,


uma pequena parte, mas estava desaparecendo rapidamente. Eu
sabia que estava tendo um colapso. Talvez fosse de tudo ou apenas
daquele homem no avião, ou do fato de que havia um homem em um
avião e todos agiram como se acontecesse todos os dias!

Eu estava perdendo isso.

Entrando no banheiro, vomitei o que eu tinha no estômago.


Talvez o café da manhã do dia anterior? Isso ainda estaria lá?

A garrafa na mão, eu lutei para ficar de pé. Bom. Quanto mais


inativa eu ficasse, melhor. Porém, eu estava mais instável porque
perdi tudo do meu estômago, não da bebida. Tirando minhas
roupas, entrei no chuveiro. Eu sabia que não podia lavar isso de
mim, mas droga, se eu não fosse tentar. Eu encontrei tudo que eu
poderia ter pedido. Xampu. Limpador facial. Até mesmo uma escova
de dentes em um pacote.

Mas eu só precisava de bebida e bebi outro gole.

Isso não ajudou.

Eu estava suja por dentro e por fora. Eu nunca me limparia, mas


tentaria. Senhor me ajude, eu estava tentando. Eu esfreguei meu
braço quando alguém entrou pela porta. Ele podia me ver através do
vidro transparente, mas eu não me importei.

Eu sabia quem era.

Eu levantei minha cabeça e endireitei meus ombros.

Ele podia ver cada centímetro do meu corpo e seus olhos


vagaram. Meus seios. Meu estômago. Minha boceta. Minhas pernas.
De volta para ficar na minha boceta. Um novo nível de auto aversão
explodiu dentro de mim, porque uma dor por ele estava se
formando. Novamente.

Eu me senti aquecida, minha respiração engatada.

Quando ele olhou para os meus seios, eles endureceram. Meus


mamilos ansiavam por serem tocados, cobrindo-os. Seus olhos
estavam pretos agora, mostrando sua luxúria. Ele separou seus
lábios antes de levantar os olhos para encontrar os meus.

Eu sofria.

E eu mordi meu lábio porque tentei não deixá-lo ver.


Mas ele fez.

Ele deu um passo à frente, tirando as roupas enquanto se


aproximava. Ele rondou. Ele me perseguiu.

Seus músculos ondulavam. Deus, esses músculos. Eu estava


tomando banho e minha boca secou com a visão. Isso dizia tudo.
Cada centímetro dele era definido, todo o caminho até seu abdômen,
ele empurrou as calças para baixo. Deixou-as cair no chão,
levantando os pés.

Ele tirou os sapatos e as meias. Eu sabia que ele tinha uma arma.
Mas eu não sabia onde estava.

Ele fez uma pausa antes de entrar no chuveiro, a cueca boxer


ainda lá, ele esperou. Ele esperou por mim.

Ele estava me dando essa decisão.

Eu parei de pensar. Saindo do chuveiro, eu andei até ele. Seus


olhos nunca deixaram os meus, eles ficaram mais famintos com cada
centímetro de espaço que desapareceu entre nós. Parei bem diante
dele.

Meu corpo estava escorregadio.

Seu peito se levantou em uma respiração lenta. Ele ainda não se


mexeu. Ele esperou.

Então eu levantei a garrafa, tomei um último gole e a entreguei.


Ele pegou, colocou atrás dele na pia. E esperou novamente.

Meu peito subiu, um pequeno movimento quando enchi meus


pulmões uma vez, depois fechei a distância.
Seu calor. Ele era poder. Eu senti isso antes, mas não assim, não
quando eu sabia que ele estaria dentro de mim. Meus seios tocaram
seu peito. Minha mão deslizou para baixo da sua cintura, seguindo
as ondulações de seus músculos até que chegou ao seu cós, aquele
último obstáculo entre nós. Meus lábios roçaram por cima do ombro
quando comecei a empurrar sua cueca boxer para baixo.

Sua boca encontrou a minha e foi isso. Ele assumiu o comando.


Exigente.

Ele me pegou, voltou para o chuveiro e minha mão o encontrou.


Meus dedos se envolveram em torno de seu pênis e o segurei,
enquanto sua língua varria minha boca.

Ele não estava dentro de mim ainda, mas eu ainda o sentia. Ele
empurrou toda a escuridão para longe. Não importava naquele
momento que ele era a razão pela qual eu estava lá em primeiro
lugar. Ele me reivindicou, e se eu fosse honesta, teria admitido que
ele me reivindicou há muito tempo.

Ele me pressionou contra a parede do chuveiro e eu passei


minhas pernas ao redor de sua cintura.

Nossas bocas se abriram uma sobre a outra e gemi, apertando


meus dedos sobre ele.

Uma onda de ar o deixou. Ele recuou apenas o suficiente para


rosnar.

— Se você não me colocar dentro de você no próximo segundo...


Eu o alinhei com a minha entrada e empurrei meus quadris
para baixo. Ele esperou, deixando a ponta afundar antes dele cair a
mão na minha cintura e empurrar o resto do caminho.

Aí.

É assim que deveríamos ser, como um.

Outro grunhido selvagem o deixou quando ele deixou cair a


boca na minha garganta. Ele fez uma pausa. Ele estava me esperando
novamente.

Comecei a mover meus quadris, balançando nele.

Sua mão deslizou de volta para o meu lado, agarrando meu


peito e cobrindo meu mamilo. Ele se inclinou, sua boca tomando um
seio enquanto ele amassava o outro. Então ele começou a empurrar.
Rápido.

Eu ofeguei, um grito saindo da minha garganta.

Não havia preliminares aqui. O tempo todo que eu estive com


ele foi nossa preliminar. Isso era o agora. Esperamos o suficiente.

Eu o montei tão duro quanto ele estava me fodendo.

Eu precisava de mais.

Coloquei minha cabeça contra a parede, minha boca


escancarada no prazer que cobria cada centímetro do meu corpo.

Ele entrou e saiu, com força e encontrei cada rolar de seus


quadris.

Porra do inferno.
Dentro. Fora.

Mais firme.

Mais profundo.

Mais rápido.

Eu passei minhas unhas por seus braços, curvando-me e


mantendo o equilíbrio.

Eu bati nele até que um gemido gutural o deixou e sua mão


agarrou minha cintura. Ele me segurou ainda, então começou a
empurrar mais forte. Eu não acho que ele poderia, mas ele fez.

Eu gritei quando passei pela borda e meu corpo se contraiu em


seus braços. Minhas costas arquearam e ficaram assim enquanto as
ondas batiam em mim. Eu me dissolvi em uma poça enquanto Kai
parou de se mover.

— O que...

Ele me levou para fora do chuveiro, ainda dentro de mim, me


levando para o meu quarto. Antes de me deitar, ele puxou para fora,
mas imediatamente subiu entre as minhas pernas mais uma vez. Eu
envolvi minha mão sobre o seu pau.

Ele ainda não tinha gozado.

Como no chuveiro, eu o alinhei e ele não esperou dessa vez. Sua


mão flexionou sobre meus quadris e ele se moveu para dentro. Ele
tomou o seu lugar e depois me fodeu. Meu corpo inteiro se moveu
com a força de seus impulsos, e antes que ele terminasse, senti outro
clímax subindo em mim. Alcançando cegamente, agarrei-me acima
de mim, segurando a cabeceira da cama. Levantando da cama, cruzei
meus tornozelos atrás de suas costas e empurrei de volta para ele.
Ele pegou minha bunda, seus dedos afundando na minha pele. Sua
boca caiu ao meu peito novamente. Ele me provou quando ele gozou,
explodindo por dentro e então eu estava me encontrando com ele.

Eu me estilhacei em seus braços mais uma vez, a quarta vez em


um período de vinte e quatro horas.

Se afastando de mim, Kai se moveu para se deitar ao meu lado.

Eu podia sentir seu ritmo cardíaco diminuindo, e eu sabia que


ele podia sentir o meu. Ele colocou um braço sobre mim, a perna
dele ainda enroscada na minha.

— Estou limpa. Estou tomando pílula. — eu disse a ele.

Ele assentiu com a cabeça, seus lábios roçando meu ombro.

— Eu sei.

— Você sabe? — Eu fiquei tensa, virando a cabeça para ele.

Seus dedos circularam meu peito.

— Jonah enviou seu arquivo para mim.

Jesus. Mesmo com sexo, ele não estragou tudo.

Eu não deveria ter ficado chocada. Eu deveria ter aprendido


agora.

Ele passou a mão pelo minha barriga, mergulhando entre as


minhas pernas e um dos seus dedos se moveu para dentro de mim.
Eu grunhi, deitando-me e espalhando minhas pernas.

Eu já tinha gozado. Eu não sabia se poderia lidar com outro, mas


ele começou a entrar e sair de mim, uma porra lenta, quase
preguiçosa. Enquanto ele continuava, comecei a me mover com ele.
Desta vez, o clímax foi uma jornada lenta, como o melhor cobertor
que eu já senti aquecendo minhas entranhas até o prazer ser
construído, construído, e eu estalei, a borda vindo até mim com uma
velocidade vertiginosa.

Eu ofeguei, suor cobrindo meu peito. Kai baixou a boca, me


provocando, arrastando entre os meus seios antes de correr de
volta, demorando-se na minha garganta e, finalmente, movendo-se
para os meus lábios. Era um beijo suave, como sobremesa depois de
uma refeição de cinco pratos.

Meu corpo inteiro estava desossado. Eu era uma poça de


contentamento. A auto aversão foi embora. Eu sabia que voltaria.
Isso era inevitável. Contanto que eu não pudesse dizer não a esse
homem, eu estaria nessa viagem de altos e prazeres emocionantes a
mínimos perigosos.

O som de alguém do lado de fora da minha porta deixou Kai


tenso ao meu lado.

Houve uma batida.

— Senhor?

Kai me deu um olhar de desculpas antes de sair da cama. Ele


pegou um cobertor do armário, colocando-o sobre mim e se inclinou
para me beijar.
— Durma, se você puder. — ele sussurrou antes de se levantar.
— Eu voltarei.

Ele passou pelo banheiro e fechou a porta atrás dele.

Um momento depois, ouvi a porta do outro lado do corredor


abrir e o som fraco de uma conversa. Eles devem ter ido para o seu
quarto.

Eu poderia ter me levantado, ido ao banheiro, tentado escutar.

Eu não fiz nada.

Adormeci, assim como ele disse.


Blade: Eu encontrei Brooke.

O texto chegou às 6:43 da manhã.

Acordei, ouvi o zumbido e peguei o telefone da mesa de


cabeceira. Demorou um segundo para que a gravidade dessas
palavras fosse absorvida. Blade não mentiria. Não dessa vez. O
momento não era certo para isso. Não. Esta era a verdade.

Eu olhei de relance, mas Kai não estava perto de mim. A porta


do banheiro estava fechada, então eu não podia ver o seu lado do
quarto. Eu decidi não pensar em onde ele poderia ter ido.

Eu me sentei e mandei uma mensagem de volta.

Eu: Onde?

Lâmina: 44, 93

Elas eram coordenadas. Eu os liguei e olhei por um momento.

Eu senti uma queimadura no meu intestino.

O trem foi para Winnipeg. Fazia sentido que ela fosse para o sul
no dia 29 e depois para 94, até Minneapolis, em Minnesota. Era uma
viagem de sete horas. Sete. Horas. O trem poderia ter sido mais
demorado de Edmonton para Winnipeg. Como ninguém considerou
isso?

Eu: Como ela foi perdida?


Blade: Ela ficou nos cantos, como você instruiu. Roupas
trocadas, andando com um homem idoso. Ela tinha um disfarce
completo.

O disfarce não veio de mim. O homem idoso também não tinha


sido, mas era perfeito. Os idosos eram ignorados tão facilmente.

Eu: Eu tenho meu passaporte de Raven. Você pode me


reservar em um voo...

Eu parei de digitar. O que eu estava fazendo? Eu não sabia onde


eu estava em Nova York. Ligar o GPS poderia me dar um Uber, mas
eu tinha que ser séria. Kai sabia sobre esses textos, talvez até já
soubesse disso, e as chances de eu me esgueirar, pegar uma carona
até o aeroporto, embarcar em um voo para Minneapolis antes de
Kai, eram quase nulas.

Eu tinha entrado no modo Hider.

Era um alívio saber que ainda tinha isso em mim. Não tinha me
deixado, como muito da minha resistência tinha.

Em vez disso, eu mandei uma mensagem:

Eu: Você pode rastrear? Casa, apartamento?

Blade: Eu fiz melhor. Ela está em um porão.

E ele me deu o endereço real. Nós só precisávamos subir e bater


na porta.

Eu: Ela está usando um telefone?


Blade: Trabalhando nisso. Se eu tiver tudo isso e ela estiver
segura quando o grande e mau irmão a encontrar, isso significa
que você volta?

Eu: Se o 411 me quiser.

Essa era a verdade. Eu queria voltar. Eu queria essa


normalidade novamente. Tudo fazia sentido como uma Hider. Eu
sabia ao certo e o errado, de cima para baixo e eu sabia de que lado
eu estava: o lado certo. Se eu ficasse...

Eu: Obrigada Blade.

Blade: Apenas esteja segura e volte para casa.

Eu não respondi, em vez disso deslizei para fora da cama e fui


me lavar e me trocar. Minhas roupas velhas voltaram para a sacola.
Eu a joguei por cima do ombro, com um tênis, um boné puxado para
baixo quando saí do quarto.

Eu não sabia o que esperar. Talvez uma pequena parte de mim


só quisesse fugir do que estava acontecendo comigo.

Eu voltei pelo corredor, me movendo rapidamente e desci as


escadas. Quando me aproximei da porta da frente, não olhei para
trás para ver quem estava na cozinha. Alguns dos guardas de Kai
provavelmente estavam acordados; isso era de se esperar.

Eu não estava esperando ver todo o grupo já na garagem,


jogando sacos nos SUVs.

Kai estava ao lado do que havíamos montado, os braços


cruzados sobre o peito enquanto ouvia um dos guardas. Eles
estavam olhando para um mapa e um telefone. Kai assentiu antes de
olhar para cima. Seus olhos me encontraram imediatamente.

Eu deveria estar acostumada a me sentir chamuscada toda vez


que aquele olhar me encontrasse. Eu não estava. A queimadura se
espalhou dentro de mim.

Ele não pareceu surpreso em me ver e eu firmei minha boca.


Ele já sabia. Eles já sabiam.

Eles estavam me esperando.

Deixei escapar um suspiro, descendo os degraus e


encontrando-o na porta do SUV.

Ele pegou a maçaneta da porta antes que eu pudesse, mas não


a abriu. Ele se moveu para ficar perto, seu calor corporal me
aquecendo.

— Você e seu amigo tiveram uma boa conversa.

Eu desviei o olhar. A maioria dos homens já estava em seus


SUVs. Apenas alguns esperavam por nós. Um veio atrás de mim da
casa. Eu só podia supor que ele havia trancado tudo.

— O que você espera? Eu escondo pessoas, não as encontro.


Não é um bom sentimento.

Ele ainda não tinha aberto a porta e olhei para cima,


encontrando seus olhos.

Havia uma infinidade de emoções lá.


Depois de um momento, ele a abriu. Eu entrei e ele fechou atrás
de mim, andando para o outro lado. Quando o guarda abriu a porta
de Kai, ele sentou ao meu lado.

Depois de termos dirigido por meia hora em silêncio, lembrei


de algo.

— E o namorado de Brooke?

Kai estava lendo em seu telefone e ele levantou a cabeça.

— Ele não é um problema.

Eu fiz uma careta.

— Kai...

— Não, ok? — Seu tom me parou. — Você me odeia. Entendi. E


eu entendo porque, mas seu corpo não. — Seus olhos se arrastaram
para baixo, aquecendo meu corpo ainda mais enquanto se levantava
e recuava. — Enquanto você permanecer na minha companhia, você
pode empurrar a indignação de lado? Eu sou um Bennett. Isso é o
que minha família faz. Você sabia disso e ficou. Lide com sua decisão.

Bem. Considere-me esbofeteada de volta.

Ele tem razão, uma voz sussurrou na minha cabeça, mas em vez
de abordar isso, eu coloquei meus fones de ouvido e aumentei
minha música.

Havia uma picada leve na minha boca, no entanto.


Aqui estava. Aqui era a hora, enquanto olhava pela minha janela
em um avião particular sobre a Virgínia Ocidental, que eu precisava
fazer algum exame de consciência. Kai estava certo com o que ele
disse antes.

Eu sabia quem ele era. Eu conhecia a família que ele liderava.


Eu sabia o que ele faria, já tinha feito e eu fiquei.

Eu sabia que eu o tinha deixado estar dentro do meu corpo.

Mas eu ainda estava confusa por dentro. Eu precisava decidir:


ficar ou ir. Ajudar Brooke ou simplesmente ir embora.

Dormir com ele novamente ou não.

Tinha que terminar.

Parecia certo obter essas coordenadas de Blade. Parecia certo


receber uma mensagem de texto sobre encontrar alguém, então tive
que ir ajudar alguém. Isso sincronizou perfeitamente dentro de
mim. Era o que eu deveria fazer.

Então eu saí para a cabine principal do avião e havia um


comboio inteiro de guardas da máfia, assim como seu líder. Ele
estava realmente dormindo pela primeira vez, a cabeça apoiada em
seu assento. E sim, senti o puxão por dentro.

Lábios carnudos. Um queixo que me derretia. Maçãs do rosto


que diziam: — Oh, olá. — E aqueles olhos que poderiam me despir
com um olhar. Eles quase conseguiam. Mas a aparência de Kai não
era o problema, apesar de ter contribuído. Era mais. Havia algo nele
que me chamava.

Eu odiava o que ele fazia. Mas eu não o odiava.


Eu o desejava. Mas eu odiava o emprego dele.

Ainda assim, minha fraqueza física ou o que quer que estivesse


acontecendo, não estava certo. Lembrando como eu me senti
quando recebi o texto de Blade, eu sabia da minha decisão. Kai não
era o problema, não realmente. Eu queria ficar com a rede. Eu queria
continuar ajudando as pessoas. Eu precisava. Já tinha sido eu quem
precisara de ajuda. Minha mãe também. Havia outros por aí como
nós.

Kai e eu tínhamos que terminar. Nada mais.

Voltei para o meu lugar perto da janela e aumentei o volume.


Qualquer coisa que me distraísse, porque eu não queria sentir a
pedra no meu estômago.
Nós pousamos em Minneapolis e fomos rapidamente
arrastados para a parte de trás de um carro neste tempo, em vez de
um SUV.

Kai e eu tínhamos dois guardas conosco, contando o motorista,


mas parecia mais íntimo, mais pitoresco.

Eu olhei para Kai, que estava olhando pela janela, e por uma
fração de segundo, eu senti como se todos nós fôssemos amigos
viajando de carro para ver outro amigo.

— Eles não deveriam ter neve aqui? — Eu perguntei.

Kai se virou para olhar para mim, as sobrancelhas franzidas.

— Você mora no Canadá.

Eu mantive meu rosto neutro.

— Eu sei.

Seus olhos se estreitaram.

— Você está fodendo com a gente.

Era verão. Claro que eu estava fodendo com eles.

Mas eu ainda escondi meu sorriso, me sentindo um pouco mais


forte.
— Posso escolher a próxima casa em que ficaremos? Quero
dizer, vocês alugam elas, certo? Você não comprou todas elas...

A expressão de Kai não vacilou.

Merda. Ele comprou.

— Mesmo? — Eu me engasguei.

Seu aceno de cabeça foi fraco.

— Exceto o hotel. E quem disse que ficaremos em algum lugar?

Isso me calou por um momento.

— Nós vamos buscar Brooke agora? Eu pensei que haveria um


plano, um horário de reunião, plantas coladas na parede. Você sabe...
— Eu acenei minhas mãos no ar. — Um quadro inteiro de
marcadores que podemos virar e começar a escrever do outro lado
quando uma nova ideia chegar até nós.

Ele sentou-se imóvel.

— É isso que você faz nas suas missões 411?

— Não. — Olha só, minha calça ficou tão interessante. Eu tirei


um pouco de poeira.

Kai deve ter tido pena de mim.

— Vamos ficar em um lugar. — ele cedeu. — Mas vamos pegar


minha irmã primeiro.

Esqueça o fiapo. Minha cabeça subiu de volta.

— Nós vamos agora?


Ele assentiu, retornando ao seu telefone.

— Hummm—hummm.

— Mas... — Minha boca estava aberta.

Eles estavam se movendo muito rápido. As coisas tinham que


ser planejadas. Eu não estava brincando agora.

— Qual é o plano? — Eu bufei. – Indo pra cima e batendo?

— Geralmente. Sim.

Mais uma vez fiquei com a boca aberta.

— Você está falando sério? Você não pode estar falando sério.
Brooke vai... — Jonah me disse para vir. Espere. Não. Tanner disse
isso. — Tanner disse que você precisava da minha ajuda ou Brooke
faria algo estúpido. Ela vai matar alguém.

Kai permaneceu focado em seu telefone, rolando para ler


alguma coisa.

— Tanner mentiu para você.

— Mas, por que ele mentiria para mim?

— Porque ele não queria tomar conta de você? — Kai suspirou,


colocando o telefone longe e descansando a cabeça contra o encosto
de cabeça. Ele me olhou, um leve traço de diversão puxando o canto
de sua boca. — Tanner mandou um amigo fazer um show na
Fortune. Ele não queria dirigir até Cowtown com você.

Eu não tinha palavras.


Não só por causa de Tanner, que era um idiota, mas por causa
de Kai, que estava sorrindo maliciosamente para mim.

Sorrindo.

Estava fazendo coisas perigosas para mim.

— Pare com isso.

E maldito seja, porque ele sabia do que eu estava falando. Seu


sorriso só se aprofundou.

— Mas Jonah disse...

— Eu não sei o que Jonah disse, mas ele queria voltar ao seu
trabalho. Ele também não queria ter que ficar e tomar conta de você.

— Ambos os seus irmãos mentiram para mim?

Ele assentiu.

— Eles mentiram, sim.

Havia um brilho naqueles olhos escuros agora. Ele não parecia


o chefe de uma família internacional da máfia. Ele parecia um cara
que Carol teria adulado se visse a foto dele em uma revista.

Eu senti uma vibração no meu peito.

Kai era jovem para o que ele tinha que lidar. Ele assumiu a
família aos dezesseis anos. E ele assassinou seu pai para fazer isso.

Limpando minha garganta, eu disse:

— Que idiotas.
— Você pode culpá-los?

Não.

— Jonah queria voltar ao seu trabalho?

— Sua residência. — Kai ficou me observando enquanto falava.

Deveria ter sido ainda mais inquietante, mas não foi. Ele estava
quente. Ele estava sendo honesto. Eu pude ver isso, e de alguma
forma, nos sentimos como amigos neste momento.

— Ele queria ser médico desde que me lembro. É difícil às


vezes, no entanto. Família vem em primeiro lugar. Um trabalho
como esse, uma família como a nossa, ele é pego no meio, muitas
vezes.

— Ele é jovem para ser um médico.

— Ele é um gênio.

Está certo. Kai também era.

Minhas palavras saíram antes que eu percebesse que ia


perguntar.

— Como você faz isso? Lidar com tudo, pensar do jeito que você
faz? Como você… eu acho que enlouqueceria só de tentar.

Ele virou a cabeça para frente e levantou um ombro.

— Eu herdei do meu pai. Eu penso do jeito que ele pensava.

Foi por isso que Kai se mudou primeiro.


— Ele me mandou para a faculdade cedo, como Jonah. Eu tinha
as pontuações para isso, mas ele achou que eu voltaria depois que
Cord faleceu. — Sua boca fechou-se. Seus olhos ficaram duros.

Ele errou.

O não dito disse muito.

Conhecendo o monstro que seu pai tinha sido, encontrei-me em


uma posição que nunca havia experimentado antes. Eu estava bem
com o que Kai tinha feito. Eu estava grata por isso.

— Ele teria matado você?

Kai não respondeu. Mas ele rolou a cabeça para olhar para mim
de novo e eu vi. Ele teria, e isso enviou uma pontada no meu coração.

Eu não sei o que ele viu nos meus olhos, mas ele estendeu a mão
em resposta. Eu esperei, suspensa, quando seu dedo inclinou minha
cabeça para ele e ele se inclinou para baixo. Eu estendi a mão.

Minha decisão desapareceu e nossos lábios se encontraram.

Suavemente. Brevemente.

Um arrepio.

Isso significava alguma coisa.

Ele recuou e as vibrações dentro de mim se multiplicaram.

Voltei para a janela. Nós não falamos o resto do passeio.


Eu toquei a mão nos meus lábios depois de um minuto, ainda
sentindo o seu lá. E aqueles tremores apenas continuaram voando
ao redor.
Eu ainda não estava ciente sobre o plano.

Eu não tinha pensado que Kai estava falando sério quando


chegamos a uma entrada de carros, mas ele fez sinal para seus
homens recuarem. Dois começaram a protestar, mas ele apenas
virou as costas, pegando minha mão. Entrelaçando nossos dedos, ele
me puxou atrás dele.

Minhas sobrancelhas levantaram. Estamos fazendo isso? No


voo, eu decidi que não ficaríamos novamente. Então nos beijamos...

Ele se inclinou, baixando a voz.

— Se alguém estiver assistindo, um casal é menos imponente.

Ah, entendi.

Nós estávamos fingindo. Eu poderia fingir.

Eu pulei direto na personagem de Raven e sorri brilhantemente


para ele.

Seus olhos se arregalaram e ele recuou um passo.

Raven não era alguém para ser dissuadida. Eu empurrei meus


dedos, coloquei minhas mãos em seu peito e pulei para cima e para
baixo.

— Você sabe o que dizem. — Outro sorriso deslumbrante.


Kai estava com medo agora. Medo real.

— Seja a inspiração para alguém todos os dias e seja a razão


pela qual a pessoa sorri.

Ele amaldiçoou em voz baixa.

— Seu disfarce?

— Pode apostar! — Eu me afastei um passo e lhe dei um sinal


de positivo. Eu apontei para a porta. — Vamos virar a cara de alguém
de cabeça para baixo.

Eu comecei quase em marcha.

Eu sabia que não parecia comigo mesmo. Com meu sorriso no


lugar, roupas diferentes do que quando Brooke me viu pela última
vez e o sol se pondo, eu estava diferente. Se Brooke estava nos
observando, eu esperava que ela não me reconhecesse. Kai, por
outro lado... esse era o problema dele para resolver. Eu sabia que
fingir ser um casal era mais para espectadores curiosos do lado de
fora, mas se Brooke realmente estivesse com medo por sua vida, ela
teria câmeras montadas e algum jeito de ser alertada.

No segundo em que chegássemos a esta entrada, ela saberia. Ou


ela deveria, se tivesse seguido minhas instruções.

Kai me alcançou, colocando minha mão debaixo do braço dele


e me inclinei para ele.

— Ela vai saber que é você, se ela estiver olhando para fora. —
eu disse a ele.
— Você é bem convincente, no entanto. Eu conheço você e
estou pensando duas vezes em sua identidade. — Seu olhar me
estudou por um momento. — Você é boa no seu trabalho. Você pode
mudar seu jeito segurando sua cabeça em um ângulo ligeiramente
estranho, ou tendo seu cabelo partido no lado errado. Mas é mais
que isso, não é? Você muda algo no interior e isso emana, não é?

Eu fiquei quieta. Sim. Isso era uma coisa, mudar como você se
sente por dentro e as pessoas sentem isso. Eles sentem isso sem nem
perceberem. Eu usei esse truque para muitos disfarces, mas decidi
mantê-lo leve.

— Há, há.

— Eu não estou brincando. — Ele deu um sorriso para mim,


mas apertou seu braço e se dirigiu para a porta dos fundos.

Eu ainda estava esperando por sua diversão. Qualquer coisa.

Mas ele foi até a parte de trás e abriu a porta de tela.

Eu dei uma olhada nele.

— Sério?

Ele levantou a mão.

— Você só vai...

Ele bateu.

— ... bater?
Diversão brilhou em seus olhos quando ele deu um passo para
o lado, me puxando para que eu estivesse na frente e no centro
diante da porta.

— E se ela tiver câmeras?

Ele soltou meu braço e se encostou na parede.

— Esta é a minha irmã. — Ele poderia ter bocejado do alarme


que não estava em seu tom. — Se ela está aqui, estamos a salvo.

Como se a sugestão, ouvi de dentro.

— Já vou! Espere. — Alguém estava subindo alguns degraus.

— Kai! — Eu assobiei sob a minha respiração.

Ele fez sinal para mim.

— Você sabe o que fazer. Faça com que ela abra a porta. — Ele
balançou sua cabeça. — Isso vai ser anticlímax. Eu sinto que deveria
me desculpar com você por isso.

— Tudo isso... — fiz um sinal entre nós. — ... para a porra de


uma batida na porta?

Ele levantou uma sobrancelha quando a pessoa chegou ao


outro lado da porta.

— A parte culminante foi encontrá-la. — disse ele.

— Chegando! Aguente. Esta porta atola às vezes.

Era Brooke. Ela estava atrapalhada com a porta.

Ela começou a abri-la, mas ficou presa.


— Oops! Sinto muito. Novamente. Porcaria. Eu não tenho força.
— Um grande puxão e a porta se abriu, quase cortando-a no rosto.

Eu mantive meu rosto meio virado, meus olhos perfurando Kai.

Ele tinha estado casual, mas quanto mais perto Brooke veio
para nos enfrentar, tudo caiu do seu rosto.

Sua mandíbula se firmou e ele se endireitou de onde estava se


apoiando na parede.

Brooke abriu a porta e parou, olhando para mim.

— Uh... Onde está a comida?

Meu peito se levantou e eu girei rapidamente para olhar minha


antiga colega de quarto.

Seus olhos se abriram e sua boca caiu.

— Espere! O que? Riley?! — Ela começou a sair ao mesmo


tempo que Kai decidiu que ele teve paciência suficiente.

Ele sussurrou: — VAI!

E ele avançou a uma velocidade alarmante. Ele a agarrou pela


garganta, empurrando-a para dentro, antes que qualquer um de nós
entendesse o que estava acontecendo. Quando entrou, ele a segurou
contra a parede.

— KAI! — Ela começou a se contorcer, batendo no braço dele.

— Kai! — Eu tentei puxá-lo.


Seu braço era como concreto, mas eu podia ver que o aperto
que ele tinha em sua garganta estava rigidamente controlado. Ele
não estava machucando-a, apenas prendendo-a no lugar. Ela não
estava ofegante. Eu não acho que haveria vermelhidão quando ele a
soltasse.

Seus olhos estavam selvagens, me olhando também. Ela se


agitou e se sacudiu como um animal selvagem.

— O que você fez com ela, seu animal? VOCÊ, PEDAÇO DE


MERDA. VOCÊ. SEU ASSASSINO...

— O suficiente! — ele rugiu.

A porta da frente da casa se abriu e seus guardas começaram a


varrer a área.

Kai olhou em volta, ainda segurando-a no lugar. — Quem mais


está aqui, Brooke? Quem mais está aqui?

Ela não conseguia parar de olhar entre nós.

— Ninguém! E por que Riley está aqui? O que você fez com ela?
Você a trouxe para isso?!

Ele voltou para ela, movendo-se para invadir seu espaço.

— Não. — Suas narinas se alargaram. — Você fez. Você a trouxe


para isso no segundo em que você apareceu em sua casa e você sabe
disso. — Sua mandíbula se apertou, uma veia pulsando ao lado de
seu pescoço.

Brooke viu também e desistiu da luta. Sua cabeça recostou-se


contra a parede e suas mãos caíram para os lados.
Ela começou a chorar, em vez disso.

— O que você fez com ele? Você é a razão pela qual ele não está
respondendo minhas ligações hoje, não é? O que você fez com ele,
Kai? — Sua mão se fechou em punho. Ela levantou e apertou o braço
dele. — Por favor, Kai. Não o machuque. Eu o amo. Por favor, não o
machuque.

Eu recuei.

Os guardas estavam se movendo atrás de nós. Três trovejaram


no andar de baixo.

Seus gritos de limpo ricochetearam em torno de nós.

— Sobre o que ela está falando?

Ambos os Bennetts ouviram minha pergunta silenciosa. Ambos


pararam.

Brooke franziu a testa, seu lábio inferior parando seu tremor.


Um entendimento floresceu e seu punho caiu de seu braço
novamente.

— Oh, Kai. — Um arrependimento sussurrado. — O que você


fez?

— Tudo limpo. — um de seus guardas gritou pela última vez.

Kai deixou cair o braço da irmã e apontou para o andar de baixo.

— Para baixo. Agora.

Ela puxou o olhar de mim, encontrando o dele.


— O que você fez para nós dois?

Ela não esperava uma resposta. Uma queda derrotada em seus


ombros, ela se dirigiu para baixo.

Eu comecei a seguir.

A mão de Kai tocou meu quadril, me impedindo.

Ele inclinou a cabeça, sua voz tão suave que só eu pude ouvir.

— Por favor, não pense o pior de mim agora. — Ele acariciou


minha cintura por um momento, depois descansou a testa na minha
e expeliu uma súbita onda de ar. Seu corpo inteiro estava tenso.
Algumas delas se dissiparam.

Eu observei quando a tensão voltou e ele se afastou, com a


cabeça baixa.

— Eu não ganhei com isso. — acrescentou.

Ele desceu para lidar com a irmã e, como era meu padrão, eu o
segui.
— Empacote.

Kai apontou para o quarto assim que ele desceu.

O porão estava imundo. Não havia uma palavra melhor para


descrevê-lo. O sofá em que Brooke se sentava parecia ter leite seco
em uma das extremidades, bem acima do padrão estampado de
mostarda. O resto do quarto não era nada melhor. Garrafas de água
vazias enchiam um canto. Caixas de pizza estavam espalhadas pelo
chão. Uma televisão estava em uma mesa de cartas, um Playstation
em cima dela e controles de jogo embaixo. Um leve cheiro de mofo
persistia, misturando-se com cigarros velhos e vômitos secos.

A rede não usava lugares como este. Se o andar de cima


parecesse o mesmo, eu teria etiquetado isso como a casa de um
viciado. A Rede usava apartamentos vazios, casas que haviam sido
fechadas. Não lugares assim.

Brooke permaneceu no sofá, na extremidade que parecia bem


para se sentar. Suas mãos estavam entre as pernas e seus olhos se
estreitaram em mim novamente antes que ela franzisse o nariz.
Levantando o queixo, ela rolou os ombros para trás.

— Eu não vou.

— Você vai.

Kai foi para o quarto, pegando uma bolsa do chão e jogando-a


na cama desfeita.
— Kai, não faça isso! — Brooke estava fora do sofá.

Ele começou a vasculhar o armário, jogando roupas na cama.


Ele jogou outro punhado por cima do ombro.

— Comece a arrumar, Brooke. Estou falando sério. Você não vai


ficar aqui.

Ela pegou as roupas da cama e começou a guardá-las em uma


gaveta.

Eu assisti por um segundo. Havia algo ligeiramente cômico


sobre isso, e naquele segundo, eu sabia que Kai estava dizendo a
verdade. Esta era uma briga de irmãos. Brooke bufou, com os olhos
tensos. Ela não estava chorando, implorando. Ela não estava com
medo por sua vida. Ela estava... irritada.

Ela estava chorando antes, mas no segundo em que ele


começou a forçá-la a sair, seu peito se encheu de indignação.

— Você mentiu para mim.

Eu não queria dizer isso, os dois pararam e olharam para mim.

Eu olhei para Brooke, o vento bateu em mim.

Ela mordeu o lábio e baixou a cabeça, mas não antes de eu ver


o arrependimento.

— Você me disse que era questão vida ou morte. Você me disse


que se ele te encontrasse, ele te mataria.

Eu fiquei chocada.

Minha voz aumentou.


— Você não tem ideia do que eu passei, o que você me fez
passar! Seu namorado valeu a pena?

Ela olhou de volta. Um brilho de lágrimas repousou ali, pronto


para derramar.

— O que você sabe sobre ele?

Eu podia sentir Kai me observando, podia sentir o peso do seu


olhar.

Eu movi minha cabeça de um lado para o outro, descansando a


mão no batente da porta. Minhas pernas pareciam poder sair de
baixo de mim.

— Só que tudo isso foi para ele. Você já ficou com medo de que
seu irmão te machucasse?

— Sim! — Ela apertou uma camisa no peito. — Levi é tudo para


mim. Tudo! Ele é meu ar, minha comida, meu... meu... meu mundo!
Ele é o sol e a lua e as estrelas...

Então, onde ele está?

Se ele era o motivo de tudo isso, por que ele não estava com ela?
Por que nós fomos à Nova York?

Mas eu não fiz essas perguntas, porque minha lealdade tinha


mudado. Eu me mudei para ficar atrás de Kai.

Ele a cortou, jogando o resto das roupas na cama.

— Chega de conversa. Encha sua bolsa ou pedirei aos meus


homens para levarem você para fora, enquanto eu a arrumo. Essas
são suas escolhas. Faça isso agora. — Ele passou, parando para falar
com um guarda antes de subir as escadas.

Brooke observou-o ir e ela irrompeu em um soluço, desabando


na cama.

— Tudo está arruinado. Tudo o que eu estava tentando fazer.


Tudo se foi. — Lágrimas escorreram pelo rosto dela. — Kai te contou
alguma coisa?

Eu sentei ao lado dela, esfregando suas costas.

— Não.

Seu corpo inteiro estremeceu.

— Levi e eu nos conhecemos no México. Era uma viagem de


primavera com algumas amigas, as que Kai aprova. — Ela bufou,
passando a mão no rosto. — Inferno, eu não posso fazer dele apenas
o cara mau. Tanner e Jonah, eles também são tão ruins quanto Kai.
Mas essas meninas são filhas de nossos colegas, se você sabe o que
quero dizer. Outras famílias.

Outras princesas da máfia. Eu balancei minha cabeça.

— Entendi.

— Levi veio porque conhecia uma das garotas e nos demos


bem. Foi uma semana louca. Se você já teve um caso, pense nisso e
multiplique por dez, amor instantâneo. E eu quero dizer isso. Eu
posso sentir isso em cada centímetro do meu corpo.

Ela amarrotou a camisa em uma bola apertada enquanto falava.


— Eu sei que posso parecer frívola e vazia, uma princesa
mafiosa mimada, mas não sou. Levi viu isso. Ele viu através do que
todo mundo não se importou em olhar. Eu o amo muito, Riley. Não
sei o que farei se Kai o machucar.

— Onde ele está?

Ela se mexeu para me encarar. Seu choro parou.

— Você quer dizer que você não sabe? Eu teria pensado que Kai
diria alguma coisa. Ele sempre teve um fraco por você.

O quê? — Um fraco?

— Sim. Quando saí da escola, ele ficou de olho em você. Eu pedi


a ele no começo, mas quando você entrou no 411, eu disse a ele para
parar. Ele não fez isso. Eu menti sobre o detetive.

Eu bufei.

— Mesmo?

Mas um fraco...

— O que ele disse para você? — Ela puxou a perna para cima e
se inclinou para frente. Seus olhos determinados aumentaram.

Um guarda desceu as escadas naquele momento.

Brooke recuou, observando-o.

— O chefe disse para terminar. — Ele olhou para mim. — Ele


quer você lá em cima.

Brooke levantou os olhos.


— Sim, Sim. Estávamos indo. — Mas ela lançou-me um olhar
interrogativo enquanto eu me levantava e atravessava a sala para as
escadas.

Kai estava saindo da cozinha quando eu cheguei, seus lábios


pressionados.

Eu senti sua fúria me explodir.

— Ela disse alguma coisa para você? — ele perguntou


rispidamente.

Mesmo? Um fraco?

— Na verdade, não. Só que Levi é a galáxia para ela.

Seus lábios se afinaram, uma sombra de sorriso, mas


desapareceu imediatamente. Ele deu um passo atrás de mim, sua
mão chegando às minhas costas.

— Vamos lá.

Eu tentei olhar por cima do ombro dele, para ver o que o deixou
tão furioso, mas ele se moveu para bloquear minha visão.

— É melhor que você não veja. — Suas palavras eram suaves,


mas com autoridade.

Eu olhei para baixo e fui para fora, Kai ainda atrás de mim. Eu
comecei a ir para o carro, mas ele me pediu para ir a um dos SUVs.

Quando entrei, ele permaneceu na porta aberta.

— Você quer ir com Brooke?


Eu sempre me mantive murada, protegendo meus sentimentos.
Mas pouco a pouco, aquela parede para ele estava sendo quebrada.
Senti raiva e mágoa por Brooke pelo que ela fez, mas havia mais por
ele. Apenas mais dos outros sentimentos.

— Se você me perguntasse isso uma hora atrás, eu teria dito


sim. Mas agora, eu quero... — Eu respirei fundo, tentando ver o meu
caminho claramente. — Você.

Seus olhos escureceram. Desejo, luxúria e outra emoção


sinistra percorreram minha espinha.

— Me dê um momento. — Então ele foi embora.

Alguns minutos depois, ele deslizou de volta ao meu lado.

Os guardas levaram Brooke, passando pela nossa SUV, para


outro que estava estacionado à nossa frente. Dois guardas entraram
em ambos os lados dela, e um minuto depois, toda a nossa caravana
estava saindo.

Nós viramos o quarteirão, depois dobramos a esquina para o


próximo quarteirão, a rua atrás da casa em que Brooke estivera.

Eu senti a explosão através do assoalho do SUV. Foi tão


poderoso. Olhando ao redor, fiquei sem palavras pela terceira vez
desde que cheguei a este estado. Eu não sabia dizer nem fazer nada.

Eu só podia olhar para o fogo iluminando o céu, a fumaça preta


escura girando em torno dele.

Kai tinha explodido a casa.


Nós dirigimos para o norte, longe da cidade.

Nós mantivemos esse percurso durante cinco horas antes que


voltássemos em estradas menores e, finalmente, voltamos para uma
estrada de pedregulho. Aquele lugar era parecido com a casa de
Nova York, com a entrada de carros que voltava para uma floresta
de pinheiros por quase um quilômetro e meio. Finalmente
chegamos à cabana que ficava no alto de um penhasco com vista
para um lago. Ainda era grande para os meus padrões, mas não uma
das mansões enormes que estávamos usando. A água se estendia
pelo que parecia ser mais uma milha à nossa volta. Nós estávamos
tão longe, era um pouco assustador.

Floresta nos acomodava, com árvores que pareciam se


estender até a água. Milhas e milhas. Saindo e esticando minhas
pernas, eu absorvi tudo. Um arrepio desceu pela minha espinha. Eu
não conseguia nem ver as estradas lá fora, embora soubesse que elas
estavam lá. Nós acabamos de vir de uma.

Procurando por outra casa nas proximidades, não vi nada.

Aquele arrepio dobrou, fazendo o cabelo na parte de trás do


meu pescoço ficar de pé.

Eu passei meus braços mais firmemente em torno de mim e Kai


se aproximou. Ele não me tocou, mas ele me estudou, suas
sobrancelhas se unindo.
— Você está bem?

Brooke saiu do veículo, a bolsa perto do peito. Ela marchou por


nós, carrancuda.

— Traidora, — ela sussurrou em voz baixa.

Algo dentro de mim estalou.

— VOCÊ MENTIU PARA MIM!

Eu não tinha certeza de quem estava mais chocado com o meu


desabafo. Talvez eu.

— Você não tem ideia do que você fez, que vidas você
desenraizou, que futuros você mudou. — eu disse a ela com fúria. —
Nenhuma ideia! Sua mentira teve um efeito dominó. Trouxe seu
irmão para mim. Isso me tirou da vida que eu estava vivendo, uma
vida que eu amava. Isso me afastou dos meus colegas, do meu
trabalho, da minha missão na vida, e nem sou só eu. Hiders da minha
rede foram afetados por sua decisão. Meu colega de quarto foi
afetado. Você, você... desde que deixei meu pai, tudo fez sentido no
meu mundo. Tudo. Eu sabia ao certo e errado. Eu era boa no que
fazia. Eu amava o que fazia, e então seu irmão me trouxe para ele e
desde então, tudo foi virado de cabeça para baixo. Tudo por sua
causa. Tudo por causa da sua mentira!

Eu fui para frente, pronta para dar um tapa nela. Mas me


segurei.

Ninguém disse uma palavra. Brooke engasgou e pulou em


reflexo, mas nem ela falou.

Todos eles teriam me deixado bater nela.


Eu mesma me parei. Eu fiz. Não eles. Isso estalou em mim.

Não havia bússola moral aqui. Eles eram a máfia. Eles


trabalhavam para a máfia. Um tapa não era nada para eles, mas isso
não era verdade para mim. Não para a menininha que se encolhia
diante do pai, da adolescente que corria dele ou da adulta que o
desafiava.

Eu estava esperando, esperando apoiar os outros em busca de


pistas sobre o que fazer ou aonde ir. Blade ajudou com isso antes.
Carol também. Meu trabalho. Até as pessoas que escondemos. Mas
não era o mesmo aqui.

Eu estava sozinha.

Respirando com dificuldade, minhas costelas se sentindo


esticadas, abaixei minha mão.

Mas eu não pedi desculpas. Eu não faria. Era errado usar


violência, mas eu não estava errada em ter a emoção por trás disso.
Assim como foi errado agir com ciúmes. Era uma emoção como
todas as outras. Você não podia negar uma emoção. Se você fizesse
isso, aquela otária cavaria dentro de você e sairia se quisesse ou não.

Eu estou com ciúmes de Brooke? Eu me perguntei.

Eu estava.

Eu estava com ciúmes que ela tinha uma família que a amava.
Eu estava com ciúmes que ela tinha uma família de irmãos, porque
mesmo que Kai estivesse furioso com ela, ele a amava. O mesmo
aconteceu com Tanner e Jonah.

Minha garganta doeu.


— Palavras importam. — Minha voz era vazia, mas eu ainda
precisava dizer isso. — Ações importam. Ser imprudente com
palavras é ser egoísta e combinar isso com poder, isso é perigoso.
Seja melhor.

Eu passei por ela. Passei pelos guardas ao seu redor e passei


pela casa.

Havia uma trilha ao redor do lado, indo para a floresta.

Eu comecei a fazer isso.

— Ela...

— Deixe-a. — Kai falou para o guarda.

Eu não ouvi mais o que ele disse. Eu já havia escorregado para


as árvores.

Um galho estalou e olhei para cima.

Eu andei por uma milha até encontrar uma grande pedra.


Estava do lado da trilha, presa firmemente no chão, com vista para
uma pequena clareira nas árvores. O lago brilhava diante de mim.

Eu não me mexi quando Kai veio se sentar ao meu lado. Havia


espaço suficiente para dois de nós. Talvez um terceiro pudesse ter
subido atrás, mas, por enquanto, dois era perfeito.
— Eu nunca vou ser uma Hider novamente.

Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Eu me perguntava sobre o que foi aquilo.

— Você é um assassino. Você machuca as pessoas. Você trafica


mulheres por todo o país. — Eu fixei meu olhar nele e continuei. —
Se você não faz isso, você permite. Drogas. Armas. Há tantas coisas
horríveis que você faz.

Ele ficou quieto, me deixando falar.

— Eu detesto você. — Meu intestino rolou. — Eu detesto o que


você faz. Eu não acho que isso vá mudar.

Ele assentiu, olhando para o lago novamente.

Eu assisti seu perfil, adicionando suavemente:

— Mas eu estou começando a me odiar em vez disso.

Ele ficou tenso, seus olhos se fechando.

— Você é uma grande parte do mal da vida e eu fazia parte do


bem. Eu estava fazendo a minha parte. Foi o que eu disse a mim
mesma. Eu gostava desse sentimento. De alguma maneira, eu estava
dando um dedo médio para meu pai, porque enquanto ele estava em
Milwaukee, machucando alguém, eu estava ajudando alguém há
vinte horas dele. Isso significava algo para mim.

Meu peito doía. Eu respirei fundo.

— Então sua irmã apareceu e tudo foi destruído. Parecia que


demorava dias, semanas, o último mês, mas na realidade, demorou
apenas o momento em que ela decidiu vir me encontrar. Eu a ajudei.
Eu disse a ela como se esconder das câmeras de segurança. Eu disse
a ela para usar um disfarce, andar com outra pessoa, literalmente
ser outra pessoa. Eu não disse a ela para fingir ser uma mulher idosa,
mas ela aceitou o meu conselho. Ela evitou você por minha causa. Eu
pensei que estava fazendo a coisa certa.

Era uma emoção estranha, sentindo-me no precipício de dois


mundos. Eu estava lutando contra admitir isso, mas não consegui
mais.

— Estou voltando para o meu pai. — eu disse.

Kai se virou para olhar para mim, uma forte emoção brilhando
em seus olhos.

Eu não nomeei isso. Eu desviei o olhar. Eu não me importava.

— Ele não pode machucar minha prima. Ele não pode machucar
mais ninguém. Ele tem que pagar pelo que fez à minha mãe, o que
ele queria fazer com a minha mãe.

— Vou te ajudar...

— Não. — Eu fui firme. — Eu quero fazer isso sozinha. Eu


preciso.

Ele ficou quieto antes de concordar.

— Ok. Quando?

Estava ficando escuro agora.

— Eu vou de manhã.
Ele se virou para me encarar na pedra.

Eu olhei de volta.

Uma noite. Eu daria a ele mais uma noite.

Como se estivesse lendo minha mente, ele assentiu novamente.

— Ok.

Então, porque estava no fundo da minha mente o tempo todo,


eu perguntei.

— Por que você destruiu aquela casa?

Sua boca se apertou por um segundo.

Eu não acho que ele fosse responder, até que, em voz baixa, ele
fez.

— Você acha que sou ruim, mas não sou. Eu faço coisas ruins.
Aquelas pessoas, quem quer que estivesse lá, quem quer que
estivesse um andar acima da minha irmã, eram pessoas más. — Uma
tristeza veio a ele. Ele não se mexeu nem piscou nem mudou de tom,
mas eu vi. Eu senti. Ele olhou para o lago novamente. — Havia uma
sala nos fundos que tinha fotos de crianças em atos sexuais.

Eu empalideci. Eu não queria ouvir mais nada.

Sua mandíbula se apertou.

— Brooke estava naquela casa. Ela estava nas proximidades de


pessoas que poderiam fazer isso.

— Eles estavam lá?


— Não.

Eu tinha a sensação de que isso não importava. Eu tinha a


sensação de que ele iria encontrá-los de qualquer maneira.

E eu tive que sentar e pensar de novo.

Eu não podia bater em Brooke; Isso estava errado. Mas o que


eu sabia que ele faria? Isso era assassinato.

E eu não senti nenhum escrúpulo sobre isso, então quem era a


verdadeira hipócrita aqui?
Kai me olocou em um quarto no primeiro andar ao lado do
banheiro dele, semelhante ao último lugar em que ficamos. Brooke
estava no segundo andar. Não havia terceiro andar ou eu não tinha
dúvidas de que ela teria sido colocada lá. Como sempre, Kai tinha
guardas do lado de fora da porta, fora da casa e nos corredores. Cada
porta e grande janela tinha alguém parado lá.

Era uma sensação estranha sair para o corredor algumas horas


depois, muito depois de escurecer lá fora e passar pelos guardas,
sem que eles sequer piscassem para mim.

Eu estava livre.

Estava começando a afundar em mim. Eu sabia, mas senti que


era diferente.

— ...não entendo porque eu não estou com Riley!

Eu parei no corredor para ouvir.

A voz estridente de Brooke estava alcançando o volume


máximo acima de mim.

Um murmúrio baixo respondeu a ela.

— Eu não me importo! — Um som de bofetada. — Eu quero


falar com a minha antiga colega de quarto. Ela era minha amiga
primeiro. Onde é...
Eu dei um passo para frente e olhei para cima. O corredor que
eu estava andando do meu quarto para a cozinha estava abaixo de
onde ela estava. Uma sala de estar se abria ao meu lado, o teto alto
subia para um sótão no segundo andar, de modo que o corredor do
lado de fora do quarto parecia quase uma sacada.

— Estou aqui. — eu gritei.

— Graças a Deus. — disse ela enquanto caminhava para o


guarda-corpo. Ela começou a passar pelo guarda, franzindo o nariz
para ele. — Eu só vou descer para falar com aminha amiga. — Ela
desceu as escadas e ele a seguiu.

— Bom Deus, Eric. — Ela revirou os olhos. — Eu não vou fugir.


Eu sei que meu irmão tem homens em todos os lugares.

— Qualquer coisa que você disser, senhorita Bennett. Eu só


quero ter certeza de que você está segura.

Ela bufou, chegando ao andar de baixo e se virando para mim.

— Segura, minha bunda. — Seus olhos se prenderam aos meus.


— Sou prisioneira do meu próprio irmão, acredita nisso? Isso é
insano.

— Imagine isso. — Meu tom era irônico.

Ela riu e todo o seu rosto se iluminou.

— Posso te abraçar agora? Vamos ficar em apuros se eu fizer


isso? — Ela olhou por cima do ombro para Eric.

Ele não respondeu, apenas cruzou as mãos na frente dele.


Ela grunhiu.

— Eric, eu vi você nu.

Seu pomo de adão se levantou, fez uma pausa e engoliu em seco.

— Sim, com certeza, senhorita Bennett.

— A família de Eric é próxima da nossa. Ele cresceu conosco. —


explicou ela. — Quando você veio trabalhar para Kai? Há quanto
tempo foi isso?

Ele não encontrava seu olhar, mantendo seu foco treinado


acima de sua cabeça.

— Eu trabalho para sua família por cinco anos, senhorita


Bennett.

Ela ligou nossos cotovelos.

— Eric costumava correr nu com Tanner e eu quando éramos


pequenos. Nós amamos quando Samuel montou os regadores. Nós
passávamos por eles no nosso quintal.

Presumi que Samuel fosse outro guarda. Ou um jardineiro.

— Entendo.

Brooke me puxou para a cozinha.

— Chega de Eric. — Ela apertou meu braço. — Você ainda está


chateada comigo?

— Sim.

Ela explodiu com uma risada.


— Sim. A mesma Riley. Você não media as palavras naquela
época também.

Eu dei a ela uma olhada. Isso não era verdade. Eu mal falei
quando ela me conheceu antes. Se ela fizesse uma pergunta
direcionada, eu responderia, mas eu falava palavras minúsculas.
Percebi agora o quanto eu tinha andado na ponta dos pés em torno
de Brooke.

Eu queria um amigo. Eu queria alguém com quem conversar,


alguém para me ouvir, se importar comigo. Eu não sabia como exigir
isso, então eu me importei primeiro, eu escutei primeiro. Tudo
estava voltando para mim.

Eric estava me observando. Eu olhei para cima e ele me deu um


olhar conhecedor.

Eu desviei o olhar, limpando a garganta.

— Kai está na cozinha?

— Ele está no escritório.

— Onde é isso?

Brooke puxou meu braço novamente.

— Quem se importa? Vamos ficar bêbadas. Este lugar tem


vinho.

Entramos na cozinha e ela soltou meu braço e foi para a


despensa. Ela abriu a porta para revelar um rack de vinho completo
dentro.
— Veja? — Seu sorriso era presunçoso enquanto ela pegou
duas garrafas e dois copos de vinho. — Eric, eu suponho que você
não irá se juntar a nós?

Ele tomou posição do lado de fora da entrada que ligava a


cozinha à sala de estar e se movia para que ele pudesse olhar por
uma das janelas maiores.

Ela bufou, fechando a porta da despensa e indo para a mesa.


Abaixando—se com um som dramático, ela se recostou em seu
assento.

— Você não tem ideia de como estou exausta. Toda essa


provação foi cansativa.

Ela estava me dizendo isso?

Mas eu sentei. Eu estava entrando no meu antigo papel sem


sequer tentar. Eu apenas sorri para ela.

Ela torceu a tampa do vinho e serviu dois copos generosos.


Empurrando um em minha direção, ela pegou a dela e tomou um
gole.

— Oh, meu Deus. Isto é tão bom. Eles sempre tem as melhores
coisas aqui. — Seus olhos se estreitaram, vendo que eu não tinha
tomado o meu. — Você não bebe? Sei que roubamos vinho nos
dormitórios, mas talvez você tenha mudado. — Ela me examinou
por um momento. — Você parecia meio hippie quando vi sua casa.

— Eu não sou hippie. Essa é minha colega de quarto. — Mas ela


não estava totalmente errada.
Estar ao ar livre era meu lugar feliz. Raven tinha algumas
tendências hippies, Raven e Riley tinham algumas semelhanças.

Eu me endireitei.

Eu não queria que ela me dissesse quem eu era. Isso era para
ela aprender comigo. Não era o trabalho dela.

— Você está sendo crítica, irmã. — Kai disse, entrando na


cozinha.

Minha boca secou ao vê-lo.

Ele havia trocado de roupa, estava com uma camiseta Henley


cinza e calças pretas. Ele era devastador em um terno de negócio,
letal em roupas atléticas, mas com esta camisa, ele transparecia
poder. Puro e simples, embora não houvesse nada puro sobre o seu
poder nem simples sobre ele.

No entanto, senti uma onda de alívio, como se ele fosse um


aliado vindo em minha defesa. Como se Brooke fosse minha inimiga.

Eu olhei para o meu colo, não querendo ver o jeito que Brooke
cumprimentou seu irmão.

Eu não queria ver sua hostilidade, porque não achava que


poderia ser hostil com um irmão que me amasse tanto assim. Ou
talvez eu visse uma boa resignação em relação a ele, porque, embora
ela não concordasse com suas ações, ele havia movido o céu e a terra
para encontrá-la.

Isso significava alguma coisa.

— Eu não estou julgando. — disse ela.


Sua reação não foi assim. Eles tinham acabado de recuar como
se estivessem em casa, como se nada tivesse acontecido, como se
eles estivessem discutindo se jogariam Monopólio ou Farsas.

— Você deveria retirar o que disse, irmão. — Ela zombou dele.


— Eu estava apenas dizendo o que vi.

— Você viu errado. — Kai se sentou ao meu lado, pegando a


garrafa e derramando um pouco em um copo que ele trouxe com ele.
— Eu vi o interior da casa dela. Eu concordo com Riley. Seu quarto
era simples, direto ao ponto, uma cama, um balcão, uma mesa, um
armário. É isso aí. Nada extra. É um quarto usado para dormir. Isso
não diz hippie para mim.

Eu olhei para ele.

— Quando você viu minha casa? —Meu quarto?!

Mas Brooke não estava deixando isso passar. Ela apoiou o


cotovelo na mesa e apontou.

— OK. Um, quando você viu a casa dela? Dois, você estava no
quarto dela! Três, você está agindo como se houvesse algo errado
em ser um hippie. Eu tenho alguns amigos que são hippies. Eles são
hilários para festejar.

Kai tinha mantido uma cara de pedra antes, mas um sorriso


rachou agora. Ele ergueu o copo de vinho.

— Eu nunca fui. Eu estava apenas supondo.

— Argh! Você é um merda.

Mas ele não estava adivinhando. Eu vi em seus olhos.


Ele estava em minha casa, meu quarto, porque ele estava certo.
Eu não tinha lembranças ou fotos ou mesmo um protetor labial na
minha penteadeira. Nada, exceto meu laptop. Estava no centro da
minha mesa.

Brooke bateu a mão na mesa, inclinando-se para frente, ainda


segurando o copo de vinho.

— Você vai me dizer o que você fez com Levi? Eu sei que você o
levou. Onde ele está? Ele não está com essa caravana. — Ela acenou
com o copo ao redor da sala, indicando todos os guardas.

Eu podia ver três em pé do lado de fora da janela, mais dois


perto da floresta e outro ao lado da casa.

Kai apenas bebeu seu vinho, olhando para sua irmã.

Ela fez outro som frustrado, fingindo torcer o pescoço no ar.

— Você me deixa louca às vezes.

— Às vezes? — ele brincou.

Ela sucumbiu, seu rosto se derretendo em um sorriso.

— Sim. Irritante. Você. Você mantém as coisas longe de mim,


pensando que é do meu interesse. Mas você não pode tomar todas
as decisões por mim. Você é apenas quatro anos mais velho do que
eu, Kai.

— Quatro ou quarenta. Mesma diferença — disparou de volta.

— Você é tão idiota. — Mas ela estava sorrindo e ela não quis
dizer isso.
Ela o amava tanto quanto ele a amava.

Esse era o relacionamento deles. Volátil, mas bem


intencionado. Irritante, mas amoroso. Imprudente, mas seguro.

Ela estava segura com ele.

Uma dor queimava no fundo do meu peito.

Eu estava com ciúmes novamente.

Eu queria esse relacionamento. Vendo isso me fez perceber o


quanto eu não tinha crescido.

Blade. Carol. Eu tentei me lembrar deles, porque eles se


importavam.

Não é como se a família se importasse.

Essa voz estava certa. Isso me apunhalou, mas era verdade.

Eu não queria me sentir ingrata. Blade se importava. Eu me


importava com ele também, mas desde que fui levada pelos
Bennetts, velhas feridas estavam surgindo.

De repente, eu não queria mais aguentar. Eu não queria ouvir o


carinho que esses irmãos mantinham um pelo outro, tão profundo
que estava na fundação de todos os seus seres.

Eu empurrei para trás da mesa.

— Desculpe.

Eu deveria ter dito algo melhor, mais convincente, mas não


consegui falar. Fugi para o meu quarto, fechando a porta, deixando
a luz apagada. Eu fiquei na frente da minha janela, meus braços
cruzados firmemente quando a porta se abriu.

— Eu sinto muito…

Eu me virei porque não reconheci a voz. Não era Kai ou Brooke


que estavam lá.

Era um estranho, vestido da cabeça aos pés de preto.

Ele caminhou em minha direção, uma mão enluvada no ar.

— Seu pai se...

Não!

Um raio branco de medo me cortou e então gritei.

Melhor primeira linha de defesa. Grite. Tente derrubar o prédio


usando suas cordas vocais.

O cara amaldiçoou.

Atrás de uma máscara de esqui, só pude ver seus olhos. Ele


passou por mim e bloqueamos os olhares por uma fração de
segundo.

Ele se lançou pela janela quando passos em disparada


chegaram e minha porta se abriu. Um, dois, três guardas correram
com as armas puxadas e foram direto para a janela, a que agora tinha
um buraco aberto.

Kai apareceu, pegando meu braço, mas quando ele começou a


me puxar para perto, eu resisti.
— Você está bem? O que aconteceu? — ele perguntou, mas dois
dos guardas estavam ouvindo também.

Eu disse a eles e um deles levou um rádio à boca. Ele começou


a transmitir os detalhes.

— O que aconteceu? — Brooke perguntou da porta, a mão de


um guarda em seu ombro. Ela estava pálida, os olhos arregalados.
Ela segurou as mãos na frente do peito. — Riley, você está bem?

Eu podia sentir Kai ao meu lado, mas estava abalada. Eu não


podia mentir. Não porque havia um cara nesta casa, neste quarto, ou
até porque alguém tentou vir até mim.

Foi meu pai.

Kai gritou. — Todos. Saiam.

Um a um, fizeram o que ele ordenou e o guarda fechou a porta.


Kai indicou para eu segui-lo. Nós passamos pelo banheiro para o
quarto adjacente e ele verificou para ter certeza de que era seguro.
Ele checou a porta do pátio e o closet. A janela. Tudo para mim.

Eu passei minhas mãos pela calça jeans. Elas estavam suadas.

— Meu pai sabe.

Eu não tinha dito aos guardas essa parte. Só que um cara veio
até mim.

— Ele disse: Seu pai se... e então eu gritei. Kai, ele estava usando
lentes de contato marrons.
Ele ainda estava quieto. Isso teria enviado arrepios nas minhas
costas, mas eles já estavam lá.

— Você tem certeza?

Eu balancei a cabeça.

— Cerca de 1,80 m de altura, de constituição mediana, e notei o


anel de cor marrom na parte branca do olho. Lentes de contato
colorida. — Uma bola se alojou no fundo da minha garganta. Não
houve movimento, engolindo-a, forçando-a para longe. — Ele disse
seu pai. Meu pai sabe. E agora a pergunta de um milhão de dólares.
Como meu pai sabe sobre mim?

Kai se virou para a porta do pátio. Seus ombros estavam rígidos.

— Porque alguém me traiu. — Ele se virou, um pedido de


desculpas naqueles olhos escuros. — Eu fiz perguntas sobre o
paradeiro de seu pai quando voltamos mais cedo esta noite.

Merda.

Merda.

MERDA!

Lágrimas queimaram nos meus olhos.

Eu balancei a cabeça, enxugando-as. Eu não choraria por aquele


homem. Nunca.

Eu tinha tomado a decisão de ir atrás dele, mas isso estava


acontecendo rápido demais. Eu queria mais tempo.
— Sinto muito, Riley. — Uma promessa feroz queimava nos
olhos de Kai. — Eu encontrarei este homem. Ele não vai sair da
propriedade. Eu posso te prometer isso.

Eu balancei a cabeça.

— Como ele poderia conseguir alguém aqui? Como ele poderia


saber que aqui era onde estávamos? Eu te disse há apenas três
horas. Ninguém poderia ter… — Oh, Deus. A menos que eles já
estivessem aqui.

Fiquei surpresa, mas Kai não estava.

— É um dos seus guardas. — eu sufoquei.

— Sim. — ele assobiou.

Seus olhos escuros estavam quase pretos agora. A promessa de


morte permaneceu no ar, enchendo a sala.

— Kai... — Minha garganta se fechou, em torno dessa pedra. —


Ele sabe. Meu pai sabe que estou viva.

Isso realmente começou a afundar.

Minha visão ficou embaçada. Pontos brilhavam ao meu redor.

Senti-me tonta e Kai começou a girar em torno de mim em um


círculo e a cama com ele.

Eu ia desmaiar.

Percebi o que estava acontecendo e, então, não aconteceu.


Kai me pegou em seus braços, levou-me para a cama e ficou
comigo.

Perdi a noção do tempo após a primeira hora.


Acordei em uma cama, mas não reconheci.

— Onde estou?

Brooke se mexeu na cadeira e se inclinou para frente.

— Você está segura.

— O que você quer dizer com segura? — Uma pausa. Tudo me


inundando de volta.

— Kai disse que você quase desmaiou. Ele queria que você
dormisse o maior tempo possível. — Sua mão cobriu a minha. —
Você desmaiou antes?

— Sim. — Minha garganta parecia arranhada.

— Jonah está vindo, mas Kai falou com ele no telefone. Ele disse
que provavelmente foi o choque do seu pai saber sobre você e tudo
mais. — Ela acariciou minha mão antes de aproximar sua cadeira
mais perto. — Eu sinto muito, Riley. Eu realmente sinto. Quando eu
pensei em ir até você, eu não sabia que nada disso aconteceria, que
Kai iria trazer você para isso. Mas eu deveria saber. Eu estava sendo
egoísta e me sinto horrível. Eu não sei como fazer as pazes com você,
mas vou tentar. Eu juro. — Ela fungou. — Eu tenho sido egoísta.

Sim. Ela tem sido.


Eu desviei o olhar.

— Onde está Kai?

— Eu não sei.

Eu olhei de volta. Ela parecia solene.

— O que você quer dizer? Kai não está aqui?

Ela encolheu os ombros.

— Depois de você ter adormecido, Kai saiu, ele estava em outro


nível. Eu nunca o vi assim. Aqui entre nós, ele estava aterrorizante.
Eu pensei que ele fosse matar alguns de seus homens naquele
momento e ali.

O traidor. Meu pai.

Eu me lembrei daquela parte agora.

Kai não retornaria até que ele tivesse lidado com o traidor. Eu
tinha certeza disso. Jonah estava chegando, então todas as
perguntas que eu queria perguntar, não havia sentido.

Em vez disso, perguntei.

— Diga a verdade. Por que você fugiu?

Brooke se endireitou, as mãos caindo no colo.

Ela expeliu um gargarejo frustrado, seus olhos passando para o


teto.

— Eu não estava mentindo sobre ser vida e ou morte. Kai


descobriu algo sobre Levi e eu tenho pavor do que ele fará com a
informação. Eu amo esse cara, Riley. Ele é o único para mim e eu não
suportaria se meu irmão nos destruísse. — Ela bufou, recostando-
se em seu assento. — Quero dizer, se alguém vai estragar as coisas,
deveria ser eu. Me dê uma chance para estragar as coisas com ele eu
mesma.

Passando a mão pelo cabelo dela, ela balançou a cabeça.

— Estou uma bagunça hoje em dia. Como você está? — Ela deu
uma risada auto depreciativa, mas seus olhos se focaram em mim.
— Você parece bem, na verdade.

— Eu pensei que Kai ia ficar de olho em mim?

— Ele ficou, mas parei de pedir os relatórios. Você entrou na


rede e eu sabia que você estaria segura.

Isso foi um ano depois que ela deixou a escola.

Eu bufei.

— Obrigado pela preocupação.

Ela estremeceu.

— Eu sei, eu sei. Voltar depois que meu pai morreu, foi


diferente. Kai era ainda mais assustador. Tanner estava irritado o
tempo todo e Jonah se ausentou. Ele não saía do seu quarto alguns
dias. Nós estávamos uma bagunça. Eu estou uma bagunça agora,
mas nós éramos mais novos, piores então. Quero dizer, Kai tinha
dezesseis anos. Nossos tios continuaram tentando se tornar nossos
guardiões, mas Kai lutou contra eles. Eu nem sei como ele fez isso,
mas, finalmente, eles pararam. Isso provavelmente levou sete
meses. Sete meses de inferno, sem saber se teríamos que nos afastar
um do outro ou o que iríamos fazer. Até mesmo a lei real veio em
algumas ocasiões, serviços sociais e coisas assim. Kai comprou-os
imediatamente. É uma piada às vezes. Nossa família se safa de
assassinato.

Essa era a verdade. Literalmente.

— Sim…

Brooke continuou, até mesmo uma leve nota alegre em sua voz.

— Kai disse algo sobre seu pai. Ele sabe que você está viva?

Eu não sabia como responder ou se até queria que Brooke


soubesse.

Eu costumava confiar nessa garota. Ela me deu o que eu


precisava desesperadamente. Confiança. Segurança. Aceitação.

— Você me machucou quando mentiu para mim. — Era difícil


admitir isso.

Ela juntou as mãos no colo.

— Eu sei. — Sua voz se suavizou. Apologética. — Você está


louca por que eu envolvi você ou por que eu menti?

— Mentiu. — eu disse imediatamente. Essa era a verdade. —


Eu não me importo que você tenha me envolvido. Eu teria ajudado
você de qualquer maneira, mas você mentiu para mim. Você não
precisa mentir para mim. Se você não tivesse, eu poderia ter ajudado
você melhor. Eu teria entendido.

Ela inclinou a cabeça, questionando.


— Kai disse alguma coisa para você sobre Levi?

Parte da minha raiva desapareceu, mas não tudo. Eu estava


dividida entre tantas coisas e entre mais do que algumas pessoas.

Dei de ombros.

— Estávamos em Nova York por um dia; então nós viemos aqui.

— Nova York? — Ela endireitou-se. — Onde em Nova York?

Eu balancei a cabeça.

— Eu não sei. Nós não fomos a lugar nenhum. Nós estávamos


em uma casa e depois viemos para cá.

Mas naquela primeira noite... Kai foi para algum lugar naquela
primeira noite.

— Oh. Levi teve que sair para uma viagem. Mas pensei que ele
fosse para Boston. — Ela parecia desapontada. — Ok.

Ficamos em silêncio por um momento.

— Você vai fugir de novo? — Eu perguntei a ela.

Ela era a única a encolher os ombros agora.

— Eu não sei. Depende de Levi, de onde ele está.

— Você não pode ficar com ele?

— Eu não podia antes de vocês aparecerem, e agora Kai pegou


meu telefone. Ele me deu um computador que não tem Wi-Fi.
Quando Tanner ou Jonah ligam, o guarda me dá o telefone e fica lá.
Só tenho permissão para falar sobre isso, só isso.
Isso foi um pouco demais, mas Kai disse que queria usar Levi.
Ele era o seu caminho para a família Barnes. Eu não ia nem tentar
adivinhar o que ele estava planejando.

O desconforto desceu pelas minhas costas.

— Posso te perguntar uma coisa?

Eu assenti, surpresa.

— Certo.

— Você está dormindo com Kai?

Minha boca ficou seca. Eu olhei para ela.

— Quer dizer, você pode me dizer para me irritar. Eu violei


nossa confiança e ele é quem está cuidando de você desde a escola,
mas você está?

— Porque pergunta?

— Porque eu gosto de você. Nós éramos amigas antes.

Eu vacilei. Isso é o que ela pensava de mim? Uma semana atrás,


eu estava pronta para descer com as armas em chamas para ela. Eu
fui muito leal. Eu havia investido muito em nossa antiga amizade e
me senti mais do que um pouco idiota.

— Eu pensei que nós ainda fôssemos. — eu repliquei.

— Claro. Quer dizer, você sabe, se eu ainda tiver sua amizade.


Eu menti para você. Eu te usei. Entendi. Jonah usaria isso contra mim
por anos se eu fizesse isso com ele.
Eu sorri abertamente.

— Não Tanner?

Ela bufou.

— Foda-se, não. Tanner apenas criticaria minhas mentiras,


talvez diria que o que eu fiz foi uma merda. Eu teria que fazer mais
do que fugir para irritar Tanner.

— E Kai?

— E Kai. — Ela respirou fundo, tristeza aparecendo em seu


rosto. — Kai vai me amar, não importa o que aconteça, mas ele
nunca confiou em mim. Kai não confia em ninguém. Ele cresceu
sendo moldado da maneira que nosso pai queria que ele fosse. Cord
tinha alguma liberdade. Tanner, eu, Jonah, todos recebíamos nossos
papéis para brincar na família, mas não tinha nada a ver com o
negócio. Mas o papel de Kai era assumir. Quando Cord completou
dezoito anos, acho que meu pai percebeu que todos estavam
olhando para ele para assumir o controle. Kai tinha dezesseis anos
quando Cord morreu. Ele deveria ser preparado por mais dois anos.

Ela balançou a cabeça novamente.

— Kai nem vai me perguntar sobre Levi. Ele sabe por que eu
fugi, mas estou de volta com a família e é isso. Quando ele achar que
eu não vou correr de novo, ele deixará todas as proteções extras,
mas até lá, eu estou em uma prisão de luxo. — Ela me deu um sorriso
irônico. — Ele está enviando até mesmo Tanner para me entreter.

— Mesmo?
— Jonah está vindo também, mas mais para verificar você. Não
tenho dúvidas de que ele vai querer voltar para o hospital quando
estiver livre. Eu não vi Kai desde então. — Ela gesticulou para fora
da porta. — Eu sei que ele liga bastante. Os guardas continuam
cutucando a cabeça, perguntando por você.

Falando nisso, Eric entrou na sala, com um telefone na mão.

— Ele gostaria de falar com Riley. — disse ele.

Brooke assentiu, permanecendo sentada.

— Em particular. — acrescentou.

— Oh! — Ela levantou-se, atirando-me um rápido sorriso antes


de se virar para ele. — Se você quisesse algum tempo sozinho
comigo, você só precisava pedir. Você não tem que ser todo tímido,
inventando uma mentira para me tirar da sala.

Um leve rubor veio até suas bochechas e ele tossiu.

— Senhora...

— Senhora! Ha. — Ela deu um tapa no bíceps dele, passando


por ele. — Você me mata, Eric. Vamos. — Ela gesticulou para mim.
— Dê a ela o telefone para que eles possam fazer sexo por telefone
e talvez você e eu possamos fazer a coisa real? — Ela piscou,
alcançando atrás dela para abrir a porta e sair.

Ele ficou parado por um segundo, sem fazer contato visual.


Então, com um puxão, ele me entregou o telefone.

— Desculpe, senhora. Apenas deixe de lado quando terminar.


Eu estarei lá fora.
Ele praticamente empurrou o telefone para mim e correu para
a porta.

Levantei o telefone ao ouvido, mas assim que ele saiu pela


porta, ouvi Eric gritar: — CÓDIGO ROXO. CÓDIGO ROXO.

— O que está acontecendo? — Kai disse no meu ouvido.

— Eu acho que Brooke correu. Estou ouvindo o código roxo.

Ele começou a rir.

— Ela não vai longe. Ela odeia o ar livre, mas isso não é
importante. Como você está?

Como eu estou?

Suspirei, nem mesmo querendo me fazer essa pergunta.

— O quê?

— Hã? — Eu perguntei.

— Você suspirou. O que você estava pensando?

Eu fiz? E então eu ri.

— Nós soamos como um casal. A velha pergunta o que você está


pensando.

Eeeee. Silêncio.

As coisas ficaram estranhas.

Por que eu disse isso? Qual era o ponto?


Eu olhei para baixo e comecei a pegar meu cobertor.

— Eu sinto Muito. Eu não deveria ter dito isso.

— Por que você disse?

Ele não parecia chateado, apenas curioso.

Dei de ombros, embora ele não pudesse me ver. Pressionando


o telefone com mais força no meu ouvido, recostei-me na cama,
minha cabeça encontrando o travesseiro.

— Eu não sei, para ser honesta. Quero dizer, eu te odeio.

— Claro. — Seu tom estava seco.

— Eu tentei esfaquear você.

— Foi uma boa tentativa. –Desgosto dessa vez.

— Eu pensei que você tivesse matado aquele cara.

— Como é típico quando os relacionamentos estão começando.

Minha boca se contraiu com isso.

— Você sequestrou um monte dos meus amigos.

— Eu raptei você.

— Ai sim. Bom ponto.

— É pra isso que eu estou aqui.

Eu me acomodei na cama, o barítono quente de sua voz lavando


sobre mim.
Eu bocejei.

— Eu vi você atirar em uma mulher.

— Preliminares.

Eu ri.

— Você me seduziu para fugir de você para ver se Blade


deixaria qualquer informação escapar.

— O que eu odiei fazer, a propósito. Eu não gostei da ideia em


você estar com frio.

— Aww, obrigada por isso.

— Eu me importo. Às vezes. — Uma pausa. — Não se acostume


com isso.

Eu ri novamente.

— Você queimou uma casa porque se importava.

— Eu mais explodi do que queimei, mas sim. — Ele riu baixinho.


— E graças a Deus esses telefones são criptografados.

Minha boca se fechou. Eu tinha esquecido.

— Ah, Merda. Eu sinto Muito.

— Está tudo bem. Nós os usamos por um motivo.

Certo. Porque ele está na máfia.


Eu apertei meus olhos, esfregando minha testa e sentindo uma
pressão lá. Eu estava me divertindo, mas um lembrete sobre a nossa
verdadeira realidade e tudo voltou correndo.

Ele era máfia e não apenas uma máfia. Ele era a máfia. Outra
máfia temia-o. E ele se foi, provavelmente fazendo coisas da máfia.
Foi por isso que não perguntei onde ele estava.

— O que você vai fazer com o meu pai? — Eu perguntei. Tudo


havia mudado desde nossa conversa naquela pedra.

— Eu vou matá-lo.

A pressão moveu-se para o meu pescoço, espalhando-se pelas


minhas omoplatas.

— Por minha causa?

— Porque ele tem um homem dentro da minha equipe. Isso não


funciona para mim. — Ele rosnou. —Nunca.

— Por que você me diz essas coisas?

— Você perguntou. — disse ele. E depois de um momento


acrescentou. — Eu só compartilho o que é pertinente a você e o que
eu sinto que você vai manter em segredo. Não lhe digo os segredos
que sei violam sua bússola moral. — Ele baixou a voz. — Eu não faria
isso com você.

Mas lá estava. O problema com a gente. Eu estava de um lado,


ele do outro.

Minha garganta doeu.


— O que você vai fazer com sua irmã e seu namorado?

— O que eu te disse antes.

Ele ia usá-lo.

— Brooke também?

Ele ficou quieto por um momento.

— Eu amo minha irmã. Eu vou cuidar dela, como sempre fiz.

— E se ela quiser algo diferente? — A picada na minha garganta


se transformou em uma dor diferente, que correu todo o caminho
até os meus dedos. — E se ela quiser ser livre um dia?

— Então... — Sua voz era suave. Ele tinha que saber o que eu
estava realmente perguntando. — Eu deixaria ela ir.

Eu exalei bruscamente. Todas as moléculas do meu corpo


relaxaram, tudo ao mesmo tempo.

Eu abri meus olhos, uma lágrima deslizando pela minha


bochecha. Era uma boa lágrima.

— Ok. — eu disse asperamente.

— OK.

Eu ainda podia ouvir um alarme saindo do meu quarto.

— Brooke vai ficar bem?

— Ela vai ficar bem. Ela não é idiota. — Uma pausa. –É estúpida.

Eu ri baixinho.
— OK.

— OK. — Ele zombou de mim suavemente, mas eu podia ouvir


seu sorriso através do telefone. — Eu tenho que ir, mas volto em
breve.

Isso foi bom. Não deveria, mas foi.

Eu sorri para o telefone, deslizando de volta para a cama. Eu


tentei não dizer isso, mas quem eu estava enganando?

— Se apresse.
— ...deixe-a sozinha até que ela acorde.

— Eu sei. Só estou dizendo que devo verifica-la.

— Kai disse para deixá-la em paz!

A outra voz suspirou.

— Foi o que acabei de dizer. Vou checa-la...

— Kai disse...

— Eu não me importo com o que meu irmão disse!

A conversa estava acontecendo do lado de fora da minha porta,


e embora tenha sido uma suave calmaria no começo, agora Brooke
estava quase gritando com quem ela estava falando no corredor.

— Eric...

Eric. Ah, o segurança que ela gostava de flertar, apesar de Levi


ser o seu paraíso na terra.

— Eles são idiotas.

Olhei para a janela, não alarmada, mas consolada. Kai estava lá,
com as mãos nos bolsos. Ele estava virado, olhando para fora.
Ouvindo-os começar a brigar novamente, ele passou a mão sobre o
rosto.
— Peço desculpas por ambos. — disse ele. — Se eu pudesse
despedir Brooke, eu faria.

— Você está aqui.

Um breve aceno de cabeça.

— Eles não sabem que estou aqui, no entanto. Eles acham que
você está dormindo e eles têm instruções estritas para deixá-la em
paz até eu chegar.

— Você entrou escondido?

Era de manhã cedo, cedo o suficiente para que ainda estivesse


escuro. A leve coloração em suas bochechas indicava que ele
acabara de entrar.

— Eu entrei. Brooke chamou por Eric em seu quarto pelo


corredor por um segundo.

— Você atiraria em Eric? — Eu me empurrei para uma posição


sentada, voltando para descansar contra a cabeceira da cama.

Ele veio, mantendo a voz quieta enquanto ele estava ao meu


lado. Ele alcançou preguiçosamente a minha mão, acariciando meus
dedos.

— Eric foi propositalmente designado para Brooke. Eles


namoraram quando eram mais jovens. Se alguém vai vigiá-la, será
Eric.

Parecia certo estar aqui com Kai, ele segurando minha mão,
tendo esse momento íntimo, enquanto eles estavam lá fora.
E isso parecia errado.

Eu tossi levemente, meus dedos apertando os dele por um


segundo.

— Eles namoraram?

Ele assentiu, quase distraidamente.

— Eric é de uma antiga família. Eu devia um favor a seu tio, mais


de um, e ele ligou para ele. Eles não estão mais ativos no estilo de
vida da máfia, mas Eric queria aprender. Ele pode ser um guarda de
segurança agora, mas ele é promissor. Ele vai entrar e trazer sua
família de volta ao rebanho um dia. Ele ainda não está pronto.

Outro pensamento veio à mente. Eu senti um puxão no meu


estômago.

— E se Brooke estivesse namorando com ele de novo, isso


uniria suas famílias?

Ele estava olhando para nossas mãos unidas, mas ele olhou
para cima. O canto da boca dele puxou também.

— Não. Eu não sou assim. Brooke pode namorar quem ela


quiser, mas ela terá que tomar a decisão de trazer essa pessoa para
a família ou mantê-la fora. Não haverá meio termo.

Havia uma nota sinistra naquelas palavras.

Eu repeti, sem rodeios.

— Você está dentro ou fora.

Ele assentiu.
— Algo parecido.

Seus olhos seguraram os meus por um minuto mensurável


antes que ele soltasse minha mão e se movesse para a cama ao meu
lado. Comecei a me afastar, mas ele apertou uma mão na minha
cintura, me segurando no lugar. Não havia espaço suficiente, até que
ele levantou minha perna para colocá-la sobre ele.

— Você está se sentindo melhor? — ele perguntou.

Gah. Eu quase não o ouvi.

— Sim. — Minha voz estava rouca novamente. — Você?


Confortável aí?

A sugestão mais simples de um sorriso enfeitou seu rosto e seus


olhos começaram a rastrear meu corpo.

— Eu estou, na verdade. — Sua mão deslizou para a minha


barriga, demorando-se e começou a descer.

Meu coração acelerou. O mesmo aconteceu com o calor do meu


corpo.

Senti uma pulsação sob a palma de sua mão, onde quer que ela
se movesse.

Ele descansou logo abaixo do meu umbigo, parando na curva. O


final de sua palma pressionou acima do meu clitóris. Ele não estava
me olhando, apenas olhando para a mão.

— No telefone você estava perguntando sobre si mesma, não


Brooke.
Minha boca se encheu de água, como se eu visse uma miragem
ao longe durante uma jornada de trinta quilômetros sobre o Saara.

— Sim.

Sua mão desceu mais um centímetro. O menor indício de prazer


passou por mim — um tiro, um zumbido, um formigamento. Ele
segurou a mão contra o meu clitóris.

Não muito nos separava. Um lençol, minha calcinha e o material


mais macio que eu já usei para calças.

A conversa do lado de fora se aquietou quando tudo sobre Kai


tomou meu foco.

A maneira como seu dedo começou a esfregar minha barriga


em um círculo lento.

Como se ele empurrasse para baixo, apenas um pouquinho, eu


precisaria morder para reprimir um gemido.

Meu batimento cardíaco aumentou. Minha respiração ficou


mais profunda. E esse pulsar só aumentou. Tornara-se um anseio,
uma sede e minha boca continuava salivando.

— Se eu deixasse você ir, se você quisesse isso.

Outra polegada e eu o senti bem ali, bem no latejar.

Eu tentei não me contorcer, mas eu o queria em mim.

Eu estava quase ofegante por isso.

— Sim. — eu sussurrei, minhas pálpebras ficando pesadas. Eu


o observei, meu peito subindo e descendo cada vez mais rápido.
Ele começou a puxar o lençol para longe, mas manteve a mão
no lugar. O lençol se amontoou ao redor dele, como se fosse uma
represa.

— E você? — ele disse suavemente. — Quer ser livre?

Você está dentro ou está fora. Suas palavras brilharam na minha


cabeça novamente.

— Brooke saiu e você foi atrás dela. — eu indiquei.

Seus olhos brilharam e sua mão pressionou contra mim,


moendo meu clitóris.

— Ela saiu sem estar segura. O namorado dela é uma


complicação adicional, mas se Brooke quisesse, eu a deixaria ir,
desde que ela estivesse segura.

Lambi meus lábios, ofegando quando ele levantou a palma da


mão e começou a puxar o lençol sobre mim. Foi uma carícia, o lento
deslizar daquele lençol. A textura me provocando.

— Então você não iria deixá-la ir completamente?

— Se eu soubesse que ela estava segura, sim.

Minha boca se abriu. Aquele lençol roçou em mim, um sussurro


no ar, enviando prazer através de mim.

Minha mente parecia confusa. Sobre o que estamos falando?

— Você está se sentindo melhor?

— O quê? – O lençol terminou sua carícia e eu arqueei minhas


costas.
Sua outra mão foi para o meu estômago e ele deslizou-a até o
fundo dos meus seios. Ele alisou minhas costelas, então circulou um
dos meus seios. Aplicando a menor pressão, ele me puxou até que
eu estivesse sentada, minha testa perto da dele, meu peito
firmemente em seu aperto e seus olhos segurando os meus em
cativeiro.

Seu polegar correu pelo meu mamilo.

Eu gemi, luxúria me inundando.

Seus olhos mergulharam para a minha boca.

— Você está se sentindo melhor, certo?

— Uh—huh.

Eu estava me sentindo melhor. Muito melhor. Cada célula em


mim estava acordada e latejando de necessidade.

Eu levantei a mão, tocando seu rosto e puxando-o de volta para


olhar nos meus olhos.

— A porta?

— Está trancada. — Seus olhos escureceram, encontrando os


meus.

Isso era tudo que precisávamos.

Eu avancei e sua boca encontrou a minha.

Deus. Esse beijo.


Ele aplicou pressão, exigindo, comandando, até que ele se
afastou.

— Tem certeza de que se sente bem?

— Sim. — Eu deslizei minha mão por seu braço e enrolei nossos


dedos antes de movê-los entre nós. Eu os coloquei exatamente onde
eu queria e estendi a mão para atraí-lo de volta para mim. Minha
mão deslizou em torno de seus ombros e meus dedos afundaram
nele. — Eu quero você.

Havia tantas razões que eu não deveria, mas eu estava feita.


Neste momento, eu só queria uma coisa.

Ele.

Kai ficou comigo a maior parte do dia, mas não conversamos.

Havia um peso sinistro no ar, como se me segurar não fosse o


suficiente para ele. Ele me tomou de novo, e de novo, cada vez mais
forte, um pouco mais desesperado, mas sempre me fazendo explodir
em seus braços antes de terminar.

Quando ele veio, ele nunca desviou o olhar. Seus olhos


seguraram os meus, memorizando-me, queimando em mim. Algo
me dizia para segurar minhas palavras, sentir, estar presente, estar
aqui com ele porque algo ia acontecer. Algo ruim. Algo que o levaria
embora. Mas nada disso importava hoje. Isto era ele e eu.

O ódio e nojo, a sensação de compromisso, eu deixei tudo de


lado.
Era como se esse dia fosse especial, como se guardasse um
lugar em nossas memórias para sempre.

Por volta das seis da noite, eu afundei nele, meus seios em


exposição para ele se deleitar, e deixei minha cabeça cair para trás.
Ele empurrou para dentro de mim e, ancorando a mão no peito,
comecei a rolar para frente e para trás.

Eu montei ele.

Suas mãos agarraram minha bunda, seus dedos empurrando


em minha pele o suficiente para deixar marcas de mãos, e ele
rosnou, sentando-se debaixo de mim. Sua boca trancou em um dos
meus mamilos. Ele chupou, lambeu e provou, e eu continuei
balançando, me movendo mais e mais rápido.

Alcançando ao meu redor, ele deslizou a mão no meio das


minhas costas. Arrepios surgiram sobre a minha pele pouco antes
dele enrolar uma mecha do meu cabelo em volta do seu dedo.

— O que...

Ele puxou, segurando minha cabeça para trás.

Eu continuei me movendo sobre ele, levando-o em


profundidade, apertando em torno dele, mas eu olhei para ver o que
ele estava fazendo.

Sua mão apertou ainda mais.

— Kai! — Um gemido ofegante de mim.

Outro grunhido selvagem irrompeu dele. Eu senti todo o


caminho na minha boceta. Deixando de lado meu cabelo, suas mãos
foram para meus quadris. Ele me levantou, colocando-me de joelhos
e se moveu para trás de mim. Se encaixando entre as minhas pernas,
ele me arqueou mais para ele e empurrou por trás.

— Kai... — Outro gemido como as sensações dele se movendo


em mim cresceram, me aquecendo. Eu nunca tive tanto prazer, não
de uma só vez, não em um dia, senti como se pudesse gritar até não
ter mais voz.

Meu corpo se apertou. Eu senti o orgasmo chegando.

Ele continuou me esticando, cavando mais fundo, depois


parando, girando para dentro e finalmente eu explodi.

— AGH! — As primeiras ondas quebraram dentro de mim,


depois outra e outra rodada de ondas. Meu corpo convulsionou até
que me acomodei e percebi que ainda estava ajoelhada.

Kai tinha um braço firme em volta da minha cintura, me


segurando enquanto ele continuava a bombear dentro de mim.

Ele ainda não tinha vindo.

— Kai. — Eu peguei sua mão, levantando—a da minha cintura


e pressionando um beijo nela. Então me inclinei para frente,
dando—lhe um ângulo melhor. — Foda-me.

Ele segurou minha coxa quando ele começou a fazer o que eu


disse.

Ele me fodeu forte.


Quando ele terminou, ele ficou parado dentro de mim. Senti o
corpo dele tremendo, mas ele não saiu. Ele beijou meu ombro,
passando uma mão preguiçosa pelas minhas costas.

— Eu não posso ter o suficiente disso. — Ele disse como se


estivesse falando sozinho, um murmúrio silencioso. Mas ele me
segurou firme e deu um segundo beijo na minha testa antes de sair
e nós caímos juntos na cama.

Ele se envolveu em mim, seu corpo inteiro se esticando,


enquanto ele bocejava contra a parte de trás do meu ombro.

— Deus, Riley.

Senti a testa dele pressionar a parte de trás do meu pescoço. E


como antes, falando como se eu não devesse ouvi-lo, ele murmurou.

— Como vou deixar você ir?

Eu não respondi a ele.

Eu não pude.

Eu não me conhecia.
— Bem, olá.

Uma saudação escura alertou a todos na cozinha para a minha


presença.

Tanner estava ao lado do balcão da cozinha, com um copo na


mão. Ele sorriu e inclinou a cabeça, me dando um olhar conhecedor.

— Que coincidência. Você ficou na cama o dia todo. Kai chegou


agora, embora tenhamos visto seus guardas mais cedo. — Sua boca
se fechou em uma linha fina.

Havia um brilho feio em seus olhos, mas ele tomou um gole de


sua bebida e desviou o olhar quando Brooke veio em minha direção.

— Como você está se sentindo?

Ela estava feliz em me ver.

Tanner não estava.

Eu olhei de relance. Jonah apareceu de um corredor dos fundos,


com a sacola na mão. Ele me viu e fez sinal para eu ir até a mesa.
Quando o fiz, ele se aproximou, largou a sacola e começou a me
examinar. Uma vez que ele colocou o estetoscópio dentro da minha
camisa e se inclinou sobre mim, Kai escolheu aquele momento para
entrar.
Ele fez uma pausa, olhando para nós, até que a voz de Brooke
quebrou o silêncio.

— Kai!

Ela e Tanner voltaram para o balcão. Ela estava fazendo


bebidas para todos.

Ninguém pediu. Ela se ofereceu.

Ela pegou algo que declarou ser um —pumpkin-tini— 5 e o


trouxe, cheia de sorrisos.

— O Grande Irmão retorna. — Ela empurrou o copo na mão


dele e beijou sua bochecha. — Sentimos sua falta. — Ela deu um
tapinha na bochecha dele e voltou para suas bebidas.

Tanner pegou-o e levou-o à boca com a mesma expressão


presunçosa e zombeteira em seus olhos.

— Quando você chegou? — ele perguntou. — Eu sei que seus


guardas apareceram as dez da manhã. — Ele esperou um minuto,
seus olhos deslizando para mim e de volta. — Ou você veio muito
mais tarde?

O que Tanner disse foi desrespeitoso, um desafio. Não foi feito


de maneira provocante. Todos na sala sabiam que Tanner tinha
enviado um tiro na direção de Kai.

Dizer que eu estava ligeiramente curiosa sobre como isso iria


acabar, sim, isso era um eufemismo.

5
O Pumpkin Martini é um e há várias maneiras de fazer um. Esta é uma receita simples baseada no Martini clássico que usa vodka de
baunilha com creme e licores de abóbora.
Até mesmo Jonah parou de me avaliar.

Ele puxou o estetoscópio para fora e recuou para assistir.

Kai usava uma camisa Henley azul de Oxford, as mangas


dobradas até os cotovelos e jeans que moldavam suas poderosas
pernas. Seu cabelo estava despenteado, o conjunto todo fez minha
boca encher de água.

Tanner usava um jeans rasgado e moderno, com um suéter de


lã branca e o cabelo penteado para trás. Seus olhos estavam com
raiva, uma nota perigosa neles, mas quando ele olhou para seu
irmão, esse olhar diminuiu.

Kai não reagiu. Ele não piscou. Ele mal se mexeu, e ainda assim,
o perigo real começou a nadar ao redor dele. O ar na sala ficou tenso,
espesso e opressivo e tudo por causa de Kai. Seus olhos escuros
enegreceram, e seus lábios se estreitaram, e ele estendeu a mão para
mexer em uma de suas mangas.

Ele falou quase casualmente.

— Qual é o seu problema, irmão? — Ele não olhou para mim,


mas diretamente para Tanner. — É porque eu posso estar dormindo
com ela? Ou é o fato de você ser o segundo no comando? — Ele deu
um passo mais perto, as narinas dilatadas. O ar casual evaporou. Seu
lábio se levantou em um sorriso de escárnio.

Ele não estava para brincadeira.

— Não vamos esquecer o fato de que eu sou a pessoa que o


assassinou. — Ele fez uma pausa. — Para nós.
Jonah se afastou de mim. Eu ouvi um silencioso ‘Merda’, sob sua
respiração.

Os olhos de Brooke estavam focados no chão, as mãos


entrelaçadas na frente dela.

Ninguém disse uma palavra. Essa luta era entre Tanner e Kai.

Eu não podia falar sobre as outras coisas, mas eu podia falar


sobre mim mesma. Eu me levantei e limpei minha garganta.

Jonah franziu a testa para mim. Todos franziram a testa para


mim.

Ignorei todos e disse a Tanner.

— Se estou dormindo com seu irmão, não entendo como isso é


da sua conta.

Tanner bufou.

— Está brincando? Como não é da nossa conta? — Ele jogou a


mão na direção de Kai. — Você nunca deveria ter sido trazida, em
primeiro lugar.

— Uh, olá? — Brooke sacudiu a cabeça, piscando. — Eu a


trouxe, não Kai. — Ela estendeu a mão. — Se você vai culpar alguém
por Riley, isso deve acontecer comigo.

Tanner se virou para ela.

— Você não sabia o que estava fazendo. Kai...

— Kai... — Brooke levantou a voz, falando sobre seu irmão, —


... estava seguindo uma pista. Foi isso. Eu a trouxe para dentro. —
Ela bateu no peito. — Eu. Eu fiz isso. Não Kai, claro que ele iria atrás
dela. Ela trabalha para a rede 411. Sua missão inteira é ajudar as
pessoas a desaparecerem. Se ele aparecesse e pedisse todo
bonzinho, não teria como ela ter ajudado. — Ela bufou. — Kai não
tinha outra escolha e você sabe disso.

Tanner olhou para ela.

— Você deveria estar do meu lado.

— Não. — Ela levantou as mãos, palmas para ele. — Neste


ponto, estou do lado de Riley. Todos vocês me amam. Para ela, tenho
que fazer tudo certo. Desculpa. Não peça apoio cego, porque você
não vai conseguir isso de mim, não neste caso.

Tanner girou a cabeça, procurando por Jonah.

— Uh... — Jonah riu ao meu lado. — Não aqui, irmão. Não com
isso.

Tanner amaldiçoou.

— Vocês dois são péssimos. — Ele olhou para Kai, depois para
mim. – Vocês todos são péssimos.

Kai suspirou, seus ombros repentinamente relaxando.

— Você não está com raiva de mim por puxar Riley. Você não
está com raiva porque estou dormindo com ela. Você não está nem
bravo porque Brooke fugiu. — Ele foi até o balcão da cozinha,
largando a bebida que Brooke lhe dera e servindo—se de um copo
de bourbon. — Você está louco porque você não quer ser um
Bennett, mas você tem que ser. — Seu tom foi suave. — Nós todos
temos.
Eu segurei minha respiração enquanto olhava ao redor da sala.

Houve expressões idênticas de renúncia em todos eles. O único


que teve um lampejo de motim foi Tanner, mas depois de encarar
Kai por mais uma tempo, a chama se apagou.

Ele abaixou a cabeça, apertou a bebida e jogou de volta.

— Foda-se, isso.

Ele largou o copo no balcão, deixando-o deslizar e saltar em


direção a Brooke, que o pegou antes que pudesse se quebrar no
chão. Agarrando o rum, ele saiu do quarto.

— Fodam-se, todos. — acrescentou ele, enquanto desaparecia.

Depois de um momento, Kai se aproximou da mesa.

— Ela está bem? — ele perguntou a Jonah.

Jonah estava olhando para a direção que Tanner havia ido, mas
ele voltou sua atenção para Kai.

— Sim. Sim. — Ele piscou algumas vezes, balançando a cabeça.


— Ela parece bem, melhor do que estava em casa. Ela precisa de
muitos líquidos e descansar. — Ele apontou para onde Tanner tinha
ido. — Ele vai ser um problema? Porque, quero dizer... — Ele olhou
para Brooke. — Somos todos Bennetts. Eu também odeio isso, mas
é o que é.

Kai estava olhando para mim, seus olhos se aquecendo.

— Não. Ele vai ficar bem.

— Kai... — Jonah começou.


— Eu vou lidar com ele. Lembre—se, você e Brooke têm uma
perspectiva de vida normal. Ele nem sequer pode esperar isso.

Havia muita coisa que eu não entendia e uma parte de mim


estava morrendo de vontade de saber mais, mas outra parte estava
feliz por nada mais ter acontecido.

Kai acenou para mim.

— Apenas certifique-se de que ela está bem. — Ele saiu sem


uma palavra para mais ninguém.

Brooke esperou um momento antes de pegar dois copos e


trazê-los para nós. Ela se empoleirou na mesa, com os olhos
arregalados e ansiosos entre Jonah e eu.

— Agora é a hora errada de lhe dizer que Levi me pediu em


casamento?

Jonah pegou o estetoscópio, mas caiu na mesa. Ele beliscou a


ponte do nariz, gemendo.

— Brooke. Porra, porra.

— O quê?

Ela olhou entre nós, perguntando novamente.

— Mau momento?

Ela levantou um ombro, ainda sorrindo, e mudou de assunto.

— Então, você está fodendo meu irmão?


— Eu quero saber o que foi tudo isso? — Eu perguntei a Kai
depois em seu escritório.

Eu fiquei lá embaixo com Jonah e Brooke. Brooke continuou


inventando novas bebidas, fazendo-nos julgá-las e ele e eu
passávamos a maior parte do tempo jogando pedra/papel/tesoura
para ver quem faria a degustação.

Jonah aceitou mais porque continuava insistindo que eu


precisava de água, não de bebida, mas eu ainda participava. Eu
estava bem tontinha quando fui procurar Kai.

O escritório era banhado em um profundo aroma de pinho, que


se encaixava com as pinturas maciças de florestas e montanhas
penduradas na parede. Uma chaminé de pedra marrom subia a
parede mais distante.

Eu entrei no escritório no primeiro andar, mas olhei para cima


para ver o segundo andar. Todo o lado de trás da sala era estante de
livros do chão ao teto, um paraíso para os amantes de livros.

Kai sentou-se atrás de uma grande escrivaninha, de frente para


a chaminé, para o resto do escritório onde eu estava entrado.

Eu perguntei mais cedo quando entrei, mas eu tinha uma


pergunta diferente em mente agora.

— Você não tem uma escada que eu possa usar para balançar
de um lado desses livros para o outro, não é?

Ele parou.

— Não. Por quê?


Dei de ombros, andando em círculo para pegar tudo.

— Nenhuma razão, apenas uma fantasia de outro mundo.

Ele veio para ficar ao meu lado, mas deslizou as mãos nos
bolsos.

Eu desejei que ele se aproximasse. Eu gostaria que ele me


tocasse, mas ele não o fez, as coisas ficaram confusas por um
momento.

Ele me observou, suas sobrancelhas levantadas.

— Você está bêbada?

— Embriagada — Uma pausa. — Mais do que embriagada.

— Influência de Brooke. — Ele suspirou.

— Sim. — Eu balancei a cabeça. — Mas também a sua, a de


Jonah e até a de Tanner. E minha. Eu decidi ser o coelhinho de teste
da Brooke.

Agora ele sorria.

— Coelhinho de teste? Eu nunca ouvi essa frase.

Eu levantei um ombro.

— Eu gosto mais do que cobaia. Mas também gosto de cobaias.


Eles são engraçados quando correm e pulam. Você sabia que eles
faziam isso?

— Eu não sabia, não. — Sua boca não estava mais sorrindo, mas
seus olhos estavam.
Comecei a me sentir constrangida, mas de um jeito bom, porque
alguém de quem gostava me dava atenção e me fazia feliz.
Borboletas estavam em massa no meu estômago.

— Eu não sinto isso há séculos.

— Isso o quê? — Kai inclinou a cabeça, um sorriso aparecendo


na boca. Ele estava gostando dessa conversa.

Eu achatei minha mão sobre o meu estômago.

— Nada. — Eu sorri, olhando para baixo. Eu podia sentir meu


rosto ficando quente. — Nada.

— Você está me provocando. — Houve uma risada nessas


palavras. — Não me lembro da última vez que alguém me provocou.

Eu bati no braço dele antes de perceber. Então eu empalideci.

— Oh, oh! Oi. — Meu rosto tinha que estar beterraba vermelha
agora.

Foi quando a risada começou.

E uma vez que comecei, não consegui parar. Eu ri tanto que eu


precisei segurar o braço de Kai.

— Eu... —ha! — ...não... –heehee— ...sei o que... –bufar — ...se


passa... —soluço— ... comigo! — Eu ofeguei, sugando o ar para tentar
parar as duas coisas ao mesmo tempo. Depois que comecei a soluçar,
foi o mesmo resultado. Eu estava acabada.

Kai olhou como se minha pele estivesse verde. Batendo nas


minhas costas, ele perguntou.
— Eu deveria te assustar? Algo com manteiga de amendoim?

Isso me fez rir mais.

Eu balancei a cabeça, levantando a mão, que ele pegou na dele.

Deus. Isso me fez desmaiar e rir ao mesmo tempo.

Isso não era algo com que Kai já havia lidado antes; isso era
óbvio. Finalmente, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, eu fui
capaz de responder. E eu estava oficialmente envergonhada. Eu
nunca ri assim, nem mesmo com Blade ou Carol.

— Desculpa. Sinto muito. Estou sob controle novamente.

Eu puxei minha mão da dele e descansei em seu peito.

Isso era bom. Isso parecia certo, parada aqui, tão perto, apenas
sendo normal.

Eu engoli em seco de repente.

— Desculpa. — Eu limpei as costas da minha mão na minha


bochecha.

Ele usou os polegares para limpar o resto das minhas lágrimas.


Seu coração bateu forte sob minha mão e inclinei minha cabeça para
cima, nossas bocas tão juntas, mas tão distantes ao mesmo tempo.

Ele só precisava abaixar uma polegada, ou eu poderia ter me


inclinado e nossos lábios teriam se encontrado.

Calor correu através de mim, aumentando meu pulso.


Ele levantou a mão, tocando onde uma lágrima solitária
permanecia no canto da minha boca.

— Você está feliz esta noite.

Sim. De algumas maneiras. Inclinei minha cabeça para trás,


encontrando seu olhar.

— Foi como nos velhos tempos com Brooke. Ela está feliz.

Ele assentiu, seus olhos caindo aos meus lábios.

— E isso faz você feliz?

— Eu estava machucada por ela mentir para mim, mas sim. Sim.
— Minha garganta inchou quando me lembrei do meu tempo com
ela. — Ela me fez sentir normal quando eu convivi com ela.

Mas era mais que isso.

— Ela não olhou para mim com culpa ou medo, ou como se ela
soubesse um segredo sobre mim que eu mesma não conhecia. —
continuei. — Isso é o que todos os adultos faziam e eu não tinha
amigos. Na verdade, não. Minha mãe não queria ninguém em casa e
meu pai não me queria na casa de outras pessoas. Ele não podia
controlar o que eu diria. — Eu balancei a cabeça para mim mesma.
Um sorriso puxou meus lábios. — Brooke foi minha primeira amiga.
Ela foi a primeira a dar atenção à mim.

— E eu a levei embora.

Meus olhos se ergueram para os dele, mas eu não vi


arrependimento ou pena. Apenas compreensão. Eu senti isso dentro
de mim, no fundo do meu coração.
Eu estendi meus dedos sobre o peito dele, aproveitando a
sensação daquele baque—baque—baque. Forte e firme. Como o
próprio Kai. Garantido. Confiante. Ele sabia muito bem o que queria,
e aceitaria, ou faria, ou exigiria, não importava o que alguém
dissesse. Ele ia fazer o que tinha que ser feito e era melhor todo
mundo sair da porra do caminho.

Eu invejava isso nele.

Se eu fosse como ele... A dor me cortou.

Eu não estava mais nessa sala. Eu estava de volta lá, no dia em


que me disseram que ela tinha morrido.

Agora. Agora era a hora de contar a ele. Não havia mais


hesitação ou segunda opinião. Eu não podia duvidar de mim mesma,
porque era hora de ele pagar.

— Eu quero ajudar você a machucar meu pai. — eu disse a Kai.


Endurecendo, eu disse novamente. — Eu quero ajudar você a matar
meu pai.

Seus olhos escureceram.

— Eu vou matar seu pai sozinho.

— Você disse que me ajudaria antes.

— Isso foi antes de ele virar um dos meus guardas contra mim,
antes de enviá-lo contra você. Ele mudou as regras do jogo. Eu vou
derrubá-lo.

Ele começou a se afastar. Eu agarrei seu pulso e me aproximei


dele, trazendo nossos corpos juntos.
— Mas eu quero ajudar.

Ele me olhou por um longo tempo antes de gentilmente tirar o


pulso da minha mão. Ele segurou o lado do meu rosto em vez disso.

Ele disse não.

E saiu do escritório.
— Não? — Eu andei logo depois dele.

— Eu disse não. — ele jogou por cima do ombro, descendo por


um corredor.

— Eu quero saber o porquê.

Ele pegou um corredor dos fundos para a cozinha. Brooke e


Jonah ainda estavam lá. Eles se mudaram para a mesa, duas garrafas
de vinho e uma caixa de pizza aberta entre eles. A conversa deles
parou quando entramos.

— Você não está pronta. — disse Kai ao virar a esquina.

— O que você quer dizer com eu não estou pronta?

A boca de Brooke se abriu. Até mesmo Jonah pareceu surpreso,


embora eu não tivesse certeza do motivo de suas reações.

Kai pegou uma das garrafas de vinho, junto com os dois copos.

— Ei! — Brooke engasgou, mas ela se acalmou depois que


olhou para o rosto de Kai. — Deixa pra lá. — Ela levantou a mão. –
Prossiga.

Ele inclinou a cabeça e avançou, de volta para o corredor. Eu


segui e ele falou por cima do ombro.

— Você quer ferir seu pai, mas está tudo bem agora. Você não
está pronta para o resto.
Eu pensei que nós estivéssemos indo para o meu quarto, mas
ele virou à esquerda quando deveria ter ido direto. Para onde
estávamos indo?

Havia escadas, escadas traseiras e estávamos subindo.

— Para onde você está me levando?

Eu ouvi uma risada suave e ele levantou o vinho. — Continue


seguindo. Você vai me agradecer. — Ele olhou para trás com um
sorriso bonito.

Fofo. Eu queria bater na minha testa.

Kai não era fofo.

Ele era quente. Ele era crepitante. Ele era sedutor.

Ele não era fofo.

Mas, diabos, havia uma covinha e meus joelhos se dobraram. Eu


nunca tinha visto essa covinha antes.

Eu fiz uma careta.

— Os caras não devem ter covinhas.

Ele soltou uma risada.

— Vamos. — Ele transferiu o vinho e os copos para uma mão,


estendendo a mão e pegando minha mão com a dele.

Eu tive um momento. Um momento.

O tempo diminuiu.
Eu olhei para as nossas mãos unidas, para o sorriso dele, para
o vinho em suas mãos, para onde ele estava me levando e uma
emoção se espalhou pelo meu corpo. Isso me fez cócegas de dentro
para fora e eu tive que me conter porque era como se fôssemos
normais.

Como se tivéssemos saído para jantar e um filme e este foi o fim


do nosso encontro.

Ou inferno, talvez estivéssemos no segundo ou terceiro


encontro. Estávamos indo a algum lugar para beber vinho e uns
amassos, como casais normais.

Nós éramos um casal.

Espere. Nós éramos?

O que estava acontecendo aqui? Para onde estávamos indo? E


eu não quis dizer isso literalmente, porque eu podia ver que ele
estava me levando para um quarto na garagem. O telhado era
inclinado, com uma claraboia acima. Um grande sofá que era
realmente uma enorme cama estava embaixo, e como se todos os
filmes de romance tivessem conspirado contra mim naquele
momento, vi que tinha começado a chover.

Era oficialmente o momento mais sapeca da minha vida.

Suspiro.

Eu soltei a mão de Kai e parei na porta.

Ele se virou, indo em direção ao sofá-cama, segurando o vinho.

— O que há de errado?
Essa covinha. Ele sabia muito bem o efeito dessa coisa. Era uma
arma.

Ele sorriu.

— Não gosta de claraboia?

Eu rosnei

— Idiota.

Ele inclinou a cabeça para trás para rir.

— Vamos.

Ele colocou o vinho e os copos em um suporte ao lado do sofá,


abrindo uma gaveta para pegar um controle remoto. Ele apertou um
botão e eu assisti uma partição no telhado inclinado deslizar para
longe. Uma tela de televisão se moveu. Era grande o suficiente para
encher o teto inteiro, então, deitando—se, era como se tivéssemos
assentos na primeira fila em nosso próprio cinema.

— Aqui vamos nós. — Kai olhou para mim, ligando a tela. — O


que você costuma assistir?

— Nada de política. — Eu disse com uma cara séria.

Na verdade, era tudo o que assistíamos. Nós tivemos que, no


caso de uma nova decisão tornar o nosso trabalho mais difícil.

Kai riu e se virou para os canais de filmes.

— Aviso justo. — Ele fez uma pausa em um filme romântico. —


Eu não assisto a um filme desde... desde sempre. — Ele olhou para
mim. Não me lembro da última vez que vi um filme.
Eu bufei, balançando a cabeça.

— Escolha um de ação.

— Sim?

Outro aceno firme.

— Sim. Nenhum filme de mulherzinha para mim.

— Ok. — Ele selecionou um filme que tinha acabado de chegar


aos cinemas há dois dias. Como ele conseguiu isso aqui, eu não ia
perguntar. Eu não ficaria nem surpresa.

Eu me espalhei no sofá e me senti confortável.

Kai fechou a porta, lançando a sala em completa escuridão,


exceto pelo filme e o flash aleatório de raios acima de nós. Ele se
arrastou para o sofá comigo.

— Você quer um pouco de vinho?

Em vez de responder, eu rolei, peguei a garrafa de vinho e


recuei. Eu segurei em saudação.

— Vamos ser um pouco perigosos hoje à noite.

Outra risada suave e então ele me pegou. Ele me levantou,


recuou e me depositou em seu colo. Eu podia senti-lo endurecendo
debaixo de mim, ele me acomodou para descansar completamente
nele, minha cabeça aninhada em seu ombro.

Ele deslizou a mão pela minha frente, seus dedos roçando o


lado dos meus seios. Ele tomou o vinho de mim.
— Sem óculos?

— Nuh—uh.

Senti seu peito vibrar com uma risada antes que ele inclinasse
o vinho para tomar um gole. Ele devolveu depois que terminou, eu
agarrei-o quase desesperadamente.

Eu precisava disso. Eu precisava disso para evitar o que estava


acontecendo aqui, porque eu estava desmoronando mais rápido do
que queria reconhecer.

Eu não deveria ter ficado tão ridiculamente feliz por algo tão
cafona quanto um filme, uma sala privada longe do resto e uma
tempestade, mas eu estava. Eu senti tanto que minha garganta
estava entupida e eu bebi o vinho, tentando empurrar meus
sentimentos para fora do caminho.

— Ei. — Kai passou a mão pelas minhas costas, deslizando


deliciosamente pela frente antes de tirar a garrafa de mim. — O que
é isso?

— Nada.

Ele não perguntou de novo, mas ele não precisava. Ele estava
me observando. Ele sabia. Tomando um gole, ele se recostou, sua
mão escorrendo pelo lado do meu corpo, enviando sensações em
seu rastro.

Latejante.

Construindo.
Mas eu os ignorei. Eu me acomodei de volta em seus braços,
descansando minha cabeça contra seu ombro e tentei ignorar o jeito
que ele passava a mão pelo meu braço e como a palma dele
acariciava meu estômago, como seus dedos traçaram minha pele.

Eu me movi, esperando que o pulsar diminuísse, mas isso não


aconteceu.

Eu estava começando a ofegar.

Maldito seja esse homem.

O filme estava ligado. Alguém estava falando. Eu não poderia


me importar menos. Eu estava tentando seguir, então me virei,
minha boca meio no pescoço dele e perguntei.

— O que você quis dizer antes sobre como Tanner não tinha
uma perspectiva de vida e os outros o fazem?

Ele endureceu embaixo de mim, parando o filme.

— Mesmo? Você quer saber agora? — A sobrancelha dele


mergulhou.

Eu estava meio enlouquecida e desesperada por sentimentos


que realmente não podia me dar ao luxo de sentir por ele, então
assenti.

— Sim.

— OK. — Ele se inclinou para trás e eu fiz o que estava lutando


contra.
Movi-me para ele, mas sentei-me, deixando algum espaço entre
nós. Eu podia senti-lo debaixo de mim e embora ele estivesse duro,
era como se ele nem soubesse.

— Há um conselho no Canadá. — disse ele.

— Um conselho? — Eu ecoei. Minha mente correu.

Deus. Estou me apaixonando por ele.

Eu não posso me apaixonar por ele.

Ele assentiu como se eu estivesse ouvindo, como se eu


entendesse totalmente cada palavra que ele dizia, como se meu
mundo não estivesse desmoronando em pedaços dentro de mim.

— Houve uma guerra da máfia anos atrás, foi tão ruim que
nossos ancestrais decidiram que nunca mais aconteceria
novamente. Muitos inocentes morreram. — Ele passou a mão pelo
meu braço, arranhando meu pulso. Ele circulou, sentindo minha
palma. — Então eles fizeram um conselho em vez disso.

— Um conselho?

Eu estava me repetindo e meu coração disparou.

— Sim. — Ele franziu a testa, estreitando os olhos. — E porque


nosso pai era um idiota e sem alma e implacável, ele se tornou o líder
do conselho.

Oh. Espere um minuto.

Eu me mexi, meus olhos voando para os dele.

— Então, isso significa…


Ele balançou a cabeça novamente, o polegar correndo pela
minha palma.

— Eu sou o líder do conselho. Foi montado não só para acabar


com a guerra, mas para ajudar a combater o governo. — Ele fez uma
pausa, sua mão apertando brevemente a minha. — Ou lutar contra
os EUA, porque eles sempre querem saber o que fazemos lá também.

Claro. Isso faz sentido.

Eu mordi meu lábio.

— E Tanner estava bravo porquê... — Eu não tinha ideia do


porque ele estava bravo.

— Porque ele é o segundo da fila. — Kai mudou de posição.


Agarrando minha cintura, ele me pegou e me puxou para sentar
mais perto dele. Apenas alguns centímetros nos separaram
novamente e eu pude sentir seu pau latejante, duro e exigente. Senti-
o se contorcer abaixo de mim e tive que reprimir um gemido porque
queria ceder. Eu queria deixá-lo afundar dentro de mim.

— Então, você... — Eu não conseguia falar. Eu nem sabia por


que estava tentando.

— Sim, eu. — Ele estava brincando. Eu ouvi em seu tom. Ele


sabia exatamente como ele estava me afetando. Suas mãos caíram
para os meus quadris, inclinando-me para ele ainda mais.

Ele se inclinou para frente, então sua boca roçou minha


garganta.

— Sim. Eu. Sou o chefe do conselho porque sou o chefe da nossa


família.
— E se você cair, então Tanner... — Eu estava aturdida. Meu
pulso trovejou no meu ouvido. Eu senti ele começar a beijar minha
garganta.

Sobre o que estamos falando?

Seus braços se apertaram em volta de mim.

— Tanner assume o controle e, se ele cair, Brooke é a próxima


da fila. Ela é uma Bennett. Um de nós tem que manter o controle
sobre o conselho. Se não o fizermos, isso não será bom. Em absoluto.

Sim. O Conselho. Claro.

Bom Deus, ele começou a beijar meu peito. Ele começou a se


mover para o sul, lambendo todo o caminho entre meus seios.

Isso nunca ia ficar velho.

Nunca.

Eu embalei a parte de trás de sua cabeça enquanto ele dava sua


atenção sobre mim e eu sabia que isso nunca iria embora. Eu queria
que ele me beijasse, me lambesse, me provasse, deslizasse dentro de
mim até que eu tivesse passado muito tempo sendo velha e prestes
a atingir meu túmulo. Mesmo assim, tive muita dificuldade em
imaginar que não desejaria a sensação dele ainda.

— Kai. — eu gemi, muito perto de dizer—lhe tudo isso.

— Mmmm? — Ele levantou a cabeça, os lábios tortuosos se


afastando da minha pele e eu olhei para ele.

O que eu ia dizer?
Precisar. Querer. Desejar. Essas eram as únicas coisas na minha
cabeça. Eu não sabia mais. Eu não conseguia pensar agora

— Nada. — eu disse asperamente. — Nada mesmo.

Ele levantou a boca e eu trouxe a minha para ele.

O filme começou a tocar novamente. A chuva continuou.

E nós dois estaríamos gemendo em breve.


Eu tive cinco dias.

Cinco dias sentindo Kai dentro de mim a noite toda. Cinco dias
em que eu acordava e chegava até ele, onde ele rolava dentro de mim
ou eu ficava em cima dele. Cinco dias em que não saímos do quarto
até o almoço. As refeições eram gastas em torno de uma mesa, rindo,
ouvindo histórias de seus irmãos. Até mesmo Tanner começou a
sorrir no meio do primeiro dia. Brooke adorava cozinhar, então
aproveitamos suas refeições gourmet, aparentemente, ela sempre
quis ser chef.

Jonah saiu primeiro, retornando a sua residência. Ele só tinha


alguns dias de folga e seu tempo tinha acabado.

Tanner foi o próximo, precisando voltar para a casa de


Vancouver para os negócios da família. Eu não perguntei o que ele
fazia por eles. Ninguém ofereceu essa informação.

Brooke, Kai e eu ficamos agora.

Sentando na cama, olhei para o relógio. Era um pouco depois


das quatro da manhã, mas eu sabia que o outro lado da cama estava
vazio sem olhar. Rolando para a borda do colchão, eu coloquei o
lençol em volta do meu corpo nu.

Kai estava na janela, um braço apoiado contra a parede ao lado


da moldura da janela. Ele usava calça de moletom, que pendia baixo
em seus quadris. A lua cheia do lado de fora ricocheteou no lago e
eu pude ver todos os músculos em suas costas sem camisa. As
sombras caíram sobre eles, graciosamente me mostrando um
caminho ao longo de sua espinha.

Eu me movi para o lado dele, o lençol arrastando atrás de mim


e ele trouxe o braço para a minha cintura, me colocando ao lado dele.

— Eu acordei você?

Eu descansei minha cabeça contra seu ombro, sentindo-me


contente e segura.

— Eu não sei o que me acordou. O que te acordou?

Ele ainda estava olhando pela janela. Sua mão apertou minha
cintura por um segundo.

— Eu não dormi.

Algo estava errado.

— O que está acontecendo?

Agora ele olhou para baixo e vi arrependimento antes de ele


mascarar.

— Eu estou indo para Milwaukee hoje.

Ainda estávamos no extremo norte de Minnesota, apenas lagos


e florestas por todo o lugar.

— Você vai dirigindo?

Ele balançou sua cabeça.


— Há um pequeno aeroporto a trinta minutos de distância.
Vamos sair de lá.

A lua lançou metade dele na sombra.

— Você e Brooke vão dirigir para o norte, de volta a Vancouver.

— O quê? Mas...

— É mais seguro assim.

Cord.

O acidente de avião.

Ele não queria nos arriscar.

Bem. Sobre esse assunto. Mas algo mais permaneceu.

— Eu lhe disse que ajudaria com meu pai. Lembra?

Ele levantou a cabeça para a janela. Sua mandíbula se apertou.

— Nós conversamos sobre isso.

— Mas...

— Você. — Ele se virou para mim. — Nós. Isso mudou tudo. —


Ele apontou para a cama.

Eu fiquei quieta. Como meu coração poderia mergulhar em um


segundo e subir no próximo?

— Ele sabe que estou viva. Eu quero vê-lo.

— Eu vou trazê-lo para você.


— Por que você está indo para Milwaukee? — Eu saí de seus
braços e o enfrentei, cruzando os braços sobre o peito. O lençol
farfalhou quando eu o ajustei.

— Isso é negócio de família.

O que significava que não era da minha conta. Mas eu sabia


melhor.

— Você vai lidar com meu pai, não é?

Ele começou a se afastar, mas eu peguei suas calças.

— Você não pode fazer isso sem mim. É meu direito.

— Eu disse que iria trazê-lo para você.

Ele não entendia. Ou talvez ele entendesse. De repente, parecia


tão importante estar lá, vê-lo, ser a única a entrar em uma sala
quando ele não estava me esperando. Eu queria fazê-lo se sentir
desequilibrado, para que ele sentisse uma pequena porção do medo
que ele me fez passar, nos fez passar.

— Por que você está fazendo isso? — Eu me engasguei.

A mão de Kai chegou ao meu braço, mas eu dei de ombros,


saindo de alcance.

Seu tom era apologético.

— Há muitos fatores no ar. Eu preciso de Brooke longe de


Milwaukee. Eu preciso de você longe de Milwaukee. Seu pai sabe de
você. Ele já tentou uma vez te pegar. Não posso correr o risco...

Eu balancei a cabeça.
— Isso é uma besteira total. Você nunca disse uma palavra, mas
eu sei que você pegou o cara, quem quer que ele tenha infiltrado em
sua organização. Você não teria voltado para mim se não tivesse. É
seguro para mim novamente. Você tem um milhão de guardas. Sua
equipe de segurança é diferente de tudo que eu já vi. Você pensa
vinte passos à frente. Não me diga que não é seguro para mim lá, que
você não pode me arriscar...

— Porque é a verdade! — Ele se aproximou do meu rosto, me


segurando. — Eu não posso arriscar você. Eu não vou. Eu tive minha
mãe tirada de mim. Meu irmão. Não vou arriscar mais ninguém e
não vou me desculpar por isso. Eu me preocupo com você. Seja
racional ou não, não vou perder você.

Isso me congelou no lugar.

Eu estava com raiva, determinada, queria lutar para ir com ele,


ter minha própria vingança, mas ouvir isso, ouvi-lo, eu pisquei de
volta as lágrimas repentinas.

Ele suavizou seu tom.

— Se há uma chance de que ele poderia chegar até você, você


sabe o que eu faria? — Ele se aproximou, suas mãos encontrando
meus braços, me virando de costas. Ele me puxou para o peito e
enfiou a minha cabeça sob o queixo. Eu senti sua voz vibrar em seu
peito. — Eu choveria no inferno sobre todo mundo ligado ao seu pai.

Um arrepio desceu pelas minhas costas.

— Eu não sou o bom rapaz aqui. Eu sou tudo que você já me


chamou. Eu sou um assassino. Eu sou um bastardo. Eu sou
implacável. Eu sou calculista. Eu vou matar todo mundo que seu pai
gosta, todo mundo que ajudou seu pai e eu vou saboreá-lo. — Ele se
afastou, inclinando minha cabeça para encontrar seu olhar.

O que vi lá dobrou meu tremor.

Morte.

Ele estava me prometendo.

— Eu não vou brincar com a vida daqueles que me importam e


você é um deles agora. — Ele recuou, suas mãos deixando-me e de
repente eu fiquei gelada até o osso.

Sua cabeça abaixou e seus olhos se encontraram com os meus.

— Você não vem comigo.

Entendi certo? Eu senti o sentimento, mas ele não disse as


palavras.

Ele não disse mais nada quando foi até o armário e vestiu uma
camisa, depois um moletom. Ele não disse uma palavra quando
terminou de se vestir e pegou o telefone ao lado da cama.

— Estou pronto. — disse ele ao telefone.

Ele fez uma pausa, olhando para mim.

Eu não sabia o que fazer. Eu não podia lutar com ele. Ele não ia
ceder sobre este assunto.

A porta se fechou atrás dele, suave, mas final.


A porta se abriu novamente dez minutos depois, mas foi Brooke
quem entrou.

Eu forcei meu aperto nos lençóis.

— Ei...

— Temos uma hora, literalmente uma hora.

— Do que você está falando?

Ela se moveu para dentro e eu pude vê-la melhor, o cabelo


preso em um rabo de cavalo baixo, vestida toda de preto, até mesmo
seus tênis. Brooke sempre cheirava a perfume, mas hoje ela não
cheirava a nada. Nem mesmo sabão.

Ela tirou a mochila e abriu o bolso da frente. Despejando


passaportes, telefones e dinheiro, ela apontou para ele.

— Kai está indo para Milwaukee e se Levi está junto ou se ele


está indo em um carro diferente, eu não me importo. Eu só sei que
meu homem está com ele, e qualquer movimento que ele faça com o
homem que eu amo, eu estarei lá.

Ela olhou para mim.

— Você pode fazer as pessoas desaparecerem. É a sua vez de


desaparecer e você vai me levar com você.

— Mas... — Eu já estava olhando através de tudo o que ela tinha


deixado na cama.

Nós tínhamos RGs diferentes. Muito dinheiro. Parei de contar


depois de ver dez rolos de centenas. Eu peguei um dos telefones.
— Descartáveis?

— Você entendeu. — Ela cruzou os braços sobre o peito,


erguendo o queixo.

Minha mente correu, mas eu queria ir.

Algo provocou dentro de mim.

Isso. Isso estava certo.

Isso era o que eu fazia.

— Seu irmão tem pessoas na rede. Nós não podemos chamá-


los.

— Já sei sobre isso. — Ela pegou o telefone e me mostrou uma


tela de mensagens de texto.

Eu reconheci um apelido que Blade usou uma vez. Só uma vez.


Tinha sido ele, Carol e eu, e nós fugimos para uma boate e não
queríamos que a Rede soubesse. Ele era um maldito gênio.

Eu me vi sorrindo.

— Estou dentro.

Ela olhou para cima e fez um movimento de oração.

— Graças a Deus. — Um grito rápido e ela estava em seu


telefone. — Ok, seu amigo está a duas milhas daqui para nos pegar.
Precisamos caminhar três quilômetros pela floresta em uma hora.

— Por que uma hora?


Eu estava fora, correndo para o armário para me trocar. Não
havia tempo para modéstia. Brooke estava prestes a me ver nua e
rasguei as roupas, jogando—as no quarto.

— Você tem uma bolsa para mim também? —perguntei.

— Claro.

— Coloque os que estão aí.

— OK.

Eu senti meu coração na garganta. O relógio tinha começado a


marcar a segunda vez que Brooke entrou no quarto. Eu estava
perdendo tempo e precisávamos de todo o tempo que pudéssemos
conseguir.

Eu coloquei uma camisa.

— Você faz exercício?

— Sim…

Eu segurei um gemido. Ela parecia hesitante.

— O que você faz para o condicionamento?

— Eu nado. Às vezes. — Ela bufou. — Quase nunca.

Porra. Se fosse só eu, correria para lá em menos de vinte


minutos, mais ou menos por causa do terreno estranho.

O que me lembrou.

— Por que uma hora, Brooke?


— Porque é todo esse tempo que temos antes do próximo turno
de guardas alternar nas câmeras de segurança.

Eu não ia perguntar.

Merda.

Eu tinha que saber.

— O que aconteceu com os outros guardas?

— Eu poderia tê-los drogado.

Eu parei por um segundo, então puxei minhas calças. Meias.


Sapatos. Eu tinha um conjunto extra de roupas na bolsa agora.

— E eu dei uma garrafa inteira de laxantes.

— O quê?! — Eu coloquei minha cabeça para fora.

Ela se encolheu, de pé com as duas bolsas por cima do ombro.


— Tenho certeza que ele terá que ir ao hospital. — Ela se iluminou.
– Mas, bônus! Isso pode nos ajudar.

Eu olhei

— Não, não vai. Protocolo será o de verificar nós duas antes de


despachar uma equipe para o hospital. Temos menos de uma hora
agora.

— Quanto tempo você acha?

Eu conduzi o caminho para o pátio dos fundos. Eu parei antes


de abrir a porta.
— Depende de quando alguém o encontrar ou ele finalmente
pedir ajuda.

— Oh. — Ela se encolheu.

— O quê?

Ela cavou dentro de sua bolsa e tirou um rádio.

— Eu percebi que poderíamos usá-lo para ouvi-los.

— Oh. Meu... — peguei seu rosto e a beijei na bochecha. — Doce


Jesus, você é brilhante.

Ela encolheu os ombros.

— Só tentei pensar no que você faria. Você me ajudou na


primeira vez, então pensei que poderíamos nos ajudar dessa vez.

Eu respirei fundo. Não achei que a porta estivesse alarmada. Eu


havia saído do outro dia e nada aconteceu. Então, novamente, Kai
estava comigo, mas agora não. Lá fora estava o nosso melhor tiro.
Nós encontramos os guardas lá dentro.

— Espere. — Brooke pegou o telefone e me mostrou um mapa.


— É aqui que devemos encontrar seu amigo.

— OK. — Eu mostrei a ela o máximo que pude. — Há uma


pequena janela do lado de fora onde eu nunca vi um guarda
andando. Teremos que ir para o norte e depois para a direita.

— Estou pronta. — Ela me deu um aceno de cabeça, deixando


escapar um suspiro. Seu lábio inferior tremeu, mas não estávamos
correndo por nossas vidas aqui. Nós não estávamos correndo pela
liberdade, não realmente. Nós estávamos correndo para seguir Kai
para Milwaukee. Havia ironia em algum lugar e eu tinha certeza de
que riria disso um dia. Apenas não agora.

Eu abri a porta e saímos.


É um sentimento pacífico.

Eu sei que isso parece ridículo, mas é.

Correndo na floresta, com apenas uma pessoa ao seu lado,


sabendo que o tempo está se esgotando, sabendo que o dia está
chegando, sabendo que você tem um objetivo: chegar onde precisa
estar antes de encontrarem você.

Isso me acalmou de uma maneira que eu não sentia há tanto


tempo.

A parte da minha alma que precisava conhecer o meu


propósito, para entender o porquê ou por que não, a parte de mim
que se erguia se eu não estivesse seguindo minha moral, essa parte
era silenciosa. Essa parte estava contente, porque era certo correr
livre. Era certo ir a Milwaukee. Era certo confrontar o homem que
foi o primeiro monstro da minha vida.

Não havia mais confusão na minha cabeça ou no coração.

Mas a respiração de Brooke já estava irregular atrás de mim.

Ela me deixara assumir a liderança e eu estava usando a


maneira antiga de encontrar nosso caminho: seguir a Estrela do
Norte. Quando nós chegamos onde eu vi pela última vez guardas de
pé, nós nos viramos para a esquerda.
Usando o mapa que Brooke havia me mostrado, eu memorizei
a miríade de estradas perto da casa. Havia um pavimento principal
que ficava ao lado do lago. Contornando ao redor, mas Blade não
estaria esperando por nós nessa estrada. Ele escolheria uma de
cascalho e não a segunda ou terceira melhor estrada de cascalho. Ele
escolheria a quarta, uma que parecia pouco mais que um caminho
comprido e ele estacionaria do outro lado de uma colina. Então ele
veria as luzes que se aproximavam de um carro, mas eles não o
veriam.

Isso era parte de ser um Hider que raramente utilizávamos,


mas tínhamos treinamento para isso.

Eu gostei dessa parte mais do que os outros na minha unidade.


Eu me adaptei o ar livre melhor do que eles, embora nem eu
soubesse por que. Isso raramente importava. Nós geralmente
dirigíamos de motel para motel. Em alguns pontos, teríamos que
conhecer alguém. Eles nos levariam através de um hotel, ou de um
restaurante, ou de uma escola nos fundos, onde entraríamos em
outro veículo. Era assim que viajaríamos quando tivéssemos a
pessoa que precisava ser salva. Correr raramente era um tiro
certeiro. Eles gostavam de nos fazer usar duas ou três rotas
diferentes, caso alguém tentasse nos rastrear.

Havia muitos viciados ricos e poderosos por aí. Eles tinham


acesso a filmagens de segurança na estrada principal, havia policiais
sujos para quase qualquer um que levasse alguns dólares extras
para dar uma espiada em seus sistemas de câmeras. O que tornou a
confiança em aliados confiáveis e ativos já certificados pela Rede tão
importantes.

Minha mente continuou a girar enquanto corríamos.


Se Brooke notificou Blade e ele já estivesse aqui, isso significava
que ela sabia sobre os planos de viagem de Kai dias atrás. Teria
levado tanto tempo para trazer Blade aqui e para ele ter uma
reportagem de capa para esconder seu paradeiro da Rede.

Eu estava apostando no fato de que ele teria um plano pronto.


Nós não tínhamos os aliados e ativos da Rede, o que significava que
teríamos que manter estradas secundárias o máximo possível, tão
fora da rede quanto pudéssemos, usando as estradas menos visíveis,
o que significava que isso nos levaria muito mais do que Kai para
chegar a Milwaukee.

Eu inclinei minha cabeça para frente. Um pé depois na frente do


outro. Continue. Isso é o que eu tinha que fazer.

— Argh! — Um galho estalou e Brooke gritou.

Eu girei, agarrando seu braço antes que ela caísse em uma


árvore.

— Oh, merda, merda de merda! Ah não. — Ela gemeu,


agarrando seu tornozelo. Acho que quebrei meu tornozelo.

Nosso tempo estava se esvaindo. Eu podia ver se encurtar


diante dos meus olhos.

Ela se ajoelhou, envolvendo as mãos em volta da perna, como


se para evitar que a dor se espalhasse. — Riley! Isso machuca muito.
— Lágrimas escorriam pelo seu rosto e ela ofegou por respirar.

Pelos meus cálculos, tínhamos um pouco mais de um


quilômetro, mais provavelmente um quilômetro e meio a chegar. Eu
olhei ao redor, mas mesmo que tivéssemos uma corda para eu
construir uma muleta, nós não conseguiríamos. Eles nos
encontrariam.

— Você pode fazer isso?

Ela olhou para cima, o rosto pálido e ficando mais branco a cada
segundo. Ela balançou a cabeça. Seus olhos estavam aturdidos, meio
em pânico.

— Acho que quebrei meu tornozelo! Sério. — Sua voz engatou


em um soluço, dor atada com uma pontada de histeria.

Tenho certeza que isso era assustador para ela. Mas os


tornozelos quebrados poderiam ser consertados. Estando na
floresta, tenho certeza de que isso não ajudava, mas aqueles guardas
não a machucariam.

Eu não queria pensar nisso. Parecia errado, mas...

— Você deveria ir. — Ela disse isso para mim.

Eu olhei para ela, demoradamente e duro. Você não deixa seu


agente para trás e Brooke se tornou isso para mim, mas eu não
chegaria a Milwaukee se ficasse. Isso era apenas a verdade.

— Vou. Esperar! Aqui. — Ela ainda estava soluçando e agora


ofegando. Ela puxou sua mochila e empurrou para mim. — Pegue.
Quero dizer. Vá, Riley. Vai. Eu sei que seu pai está lá embaixo. Era
seriamente uma merda de Kai não levá-la com ele e ele sabe disso.
Por que vale a pena, acho que meu irmão te ama. Ele pode não saber
ainda, mas ele ama e eu sei que ele se sentirá mal por não levá-la
com ele, mas ele não voltará por você. Ele simplesmente não vai.

— Como você sabia que ele estava indo para Milwaukee hoje?
Ela se acalmou, balançando para frente e para trás de sua dor
no tornozelo. Ela não respondeu. Seus lábios apertados juntos.

— Brooke. Conte-me.

Ela cerrou os olhos com força, balançando a cabeça, depois


suspirou.

— Bem. Foda-se. Eu sei por que o Eric me contou. Não diga! Kai
vai matá-lo, literalmente. Ele deixou escapar uma noite, disse que só
tinha mais três dias dessa merda. Ele odeia quando eu o provoco,
mas ele tende a escorregar porque eu o chacoalho. Ele nem sabe que
eu o ouvi. Eu só adivinhei na parte de Milwaukee porque é onde a
família de Levi está. — Ela estava ofegante agora. – Oh, Deus. Isso
dói muito. — Suor rolou pelo rosto dela. — Não que eu não te ame e
ame ter chegado a vê-la novamente, mas você pode ir? Estou prestes
a morrer se não conseguir tomar um analgésico.

Eu ainda hesitei. Parece errado deixar uma pessoa ferida para


trás. Está enraizado no fundo do seu núcleo.

— Vai! Sério! — Ela acenou para mim freneticamente antes de


segurar o tornozelo novamente. — Isso está realmente começando
a pulsar. Eu vou adiar o máximo que puder antes de pedir ajuda, mas
sério. Dê o fora daqui ou eu estou a dois segundos de ligar e não dar
a mínima se eles te pegarem. Estou com muita dor.

Eu ainda hesitei.

— Vá. — ela resmungou. — Eles mandarão Tanner me buscar


e eu tentarei convencê-lo a não me castigar, mas não posso implorar
de novo. Eu estou morrendo aqui, Ry. Apenas vá. Sério. Chute o
traseiro do meu irmão quando você o encontrar também.
Quando ela pegou o rádio, eu estava sem tempo.

Eu recuei, ainda me sentindo errada, mas sabia que precisava


ir.

Quando ela levou o rádio à boca, eu me virei. Eu estava


correndo em poucos segundos.

Eu estou indo para você, pai. Eu estou indo por você.


Eu ouvi os guardas gritando e os cachorros latindo enquanto eu
corria pela última colina. Uma minivan branca enferrujada estava
encostada na estrada com apenas dois pneus no cascalho e eu sabia
que era a minha carona.

Enquanto eu corria em direção a ela, a porta dos fundos se


abriu.

Blade me cumprimentou, um cobertor verde escuro cheio de


fitas de camuflagem jogadas sobre seus ombros. Ele acenou para
mim e assim que eu entrei, ele me deu meu próprio cobertor.

— Oi!

Carol sentava-se ao volante. Calça de moletom vermelha


escura, um moletom amarelo-banana e seu cabelo em cachos não
era nem a cereja em seu disfarce. Era o cigarro entre dois dedos dela.

Carol não fumava.

— Deixe-me adivinhar. — eu disse, tentando não sorrir. — Uma


mãe cansada de meia-idade. — É bom vê-los, os dois.

— Sim. — Ela me cegou com um sorriso para que eu pudesse


ver seus dentes amarelados e ela apontou para as bolsas sob seus
olhos. — E isso não é maquiagem. Eu fiquei acordada duas noites
inteiras para você.
— O alarme foi acionado? — Blade olhou para a floresta atrás
de nós.

Eu me mudei para o lado.

— Ela não vem. Ela torceu o tornozelo e não conseguiu passar


o resto do caminho.

— Isso é ruim. — Blade alcançou a porta fechando-a e então ele


se deitou na traseira. — Venha aqui.

Havia um conjunto de caixas e sacolas de enfeites de Natal. No


meio de tudo, havia espaço suficiente para duas pessoas se
deitarem. Eu sabia que assim que chegasse lá, ele iria levantar e
puxar o resto das coisas sobre nós. Eles fizeram a traseira parecer
quase como a minivan de um acumulador. Era perfeito.

Eu comecei a levantar.

— Dirija para o norte. Eles esperam que você vá para o sul ou


para o leste. Vá na direção oposta. Podemos chegar à interestadual
e compensar o tempo dessa maneira.

Carol me lançou um olhar no espelho.

— Pfft. Você age como se fosse meu primeiro dia no trabalho.


— Ela me acenou com o cigarro. — Abaixe-se, mulher mafiosa e
deixe-me resgatar sua amabilidade.

Eu sorri para ela. Foi bom vê-los novamente.

Blade me empurrou para baixo e um segundo depois ele puxou


as caixas em cima de nós. Uma moldura de madeira mantinha tudo
no lugar e mantinha o peso longe de nós. Nós tínhamos um pequeno
casulo aqui embaixo. Um segundo depois, Carol estava tossindo. Ela
murmurou, apenas alto o suficiente para nós ouvirmos:

— Eu seria o pior fumante de todos os tempos. — Outro


punhado de tosse. — Ok, pessoal. Está prestes a ficar frio. Eu tenho
que abrir a janela.

Um vento nos atingiu momentos depois.

Blade colocou os cobertores mais firmemente ao nosso redor.

Ele deitou ao meu lado. No passado, ele teria sugerido que


compartilhássemos um cobertor para conservar o calor. Ele não fez
essa sugestão hoje e eu sabia que Kai era o motivo.

Havia uma tristeza nos olhos de Blade, uma que eu não tinha
visto antes e era difícil de ver agora.

— Você está com raiva de mim?

Ele fechou os olhos, rolou de costas. Quando ele os abriu


novamente, ele não estava olhando para mim.

— Não.

— Você está triste, no entanto.

Blade me amava? Eu não sabia. Kai disse que sim, mas não era
o lugar certo para perguntar. A única coisa que eu podia controlar
era se ficaria com Kai no final de tudo isso. Eu deveria ter me
arrependido do que tinha feito, mas não tinha isso em mim. Não
mais. Não depois de estar com ele na última semana, acordando em
seus braços, sendo reivindicada por ele. Eu senti todas aquelas
sensações escuras e deliciosas rolando dentro de mim novamente.
Não, eu não poderia me arrepender de Kai. Pelo menos, ainda
não. Não até que ele fizesse algo tão ruim que não houvesse como
voltar atrás.

Isso estava errado? Até essa pergunta me pareceu sombria. Kai


tinha um puxão sobre mim que eu não conseguia colocar em
palavras.

— O que a rede pensa?

— Eu não sei o que...

— Vamos lá, Blade. Como se você não tivesse invadido esses e-


mails. Isso sou eu perguntando.

Ele ficou quieto por um momento.

— Eles acham que você está comprometida, mas há alguns que


querem trazer você de volta, fazer de você uma vantagem.

Eles queriam me usar, me virar contra o Kai. Enquanto eu fiquei


com Kai.

— Ele trafica mulheres, drogas e armas. Quero dizer... — Blade


se virou para mim. Suas palavras eram ferozes. — Como você pode
estar com ele, sabendo disso? Ele é contra o que nos opomos.

Eu poderia ter explicado que Kai não traficava aquilo, exceto


armas. Eu poderia ter explicado que ele não era um homem mau; ele
só fazia coisas ruins. Que ele era o líder de sua família, do conselho
e ele fazia ambos os trabalhos para manter sua família viva.
Mas eu não fiz. Minha lealdade agora estava com Kai e ele
gostaria que eu não dissesse nada. Uma dor se formou no meu peito
com essa realização.

Eu o amava. Eu me apaixonei por ele. Mesmo agora, mesmo


quando eu estava me esgueirando para segui-lo, eu voltaria para ele.

Eu não poderia explicar nada disso para Blade, um dos meus


amigos mais antigos, que tinha feito tanto por mim e estava
atualmente arriscando seu trabalho por mim. Espere. E ele?

— O que a Rede acha que você está fazendo neste fim de


semana?

Ele hesitou antes de responder, sua voz fraca e baixa.

— Eles acham que estamos em um festival em Cowtown.

Ele estava mentindo. Eu conhecia Blade. Eu sabia que ele


estava. Ele hesitou. Blade. Não. Hesitava. Eu tinha um palpite, eles já
estavam avançando para me trazer de volta. Eles queriam me jogar
contra Kai. Bem, então.

— Ele tem pessoas na rede. — Eu rolei minha cabeça para olhar


diretamente para Blade.

Não adiantava fingir. Eu não queria isso por essa amizade. Ele
e Carol eram preciosos demais em meu coração. Eu não podia ser
falsa, deixando a missão se dividir ainda mais entre nós.

— Se você vai tentar me virar contra ele, você tem que saber
disso. Ele tem pessoas lá dentro. Ele sabia coisas até mesmo que eu
não sabia.
— O que você está me dizendo, por que você está dizendo isso
para mim?

— Você sabe por quê.

Ele se encolheu antes de olhar para mim. Seus olhos estavam


assombrados.

— É a única maneira de manter meu emprego. Se ele tem


pessoas lá, elas ficam quietas. A Rede ficou furiosa por eu ter tentado
trazer você de volta sem eles.

Agora eu era a única vacilando. A mulher que o ajudou estava


morta por causa de Kai. Você deveria se acostumar com isso. Ele é a
máfia, pelo amor de Deus. Aquela voz. Eu odiava essa voz. Minha
razão, minha sanidade, mas também minha reprimenda. Essa voz
ficava quieta sempre que eu estava nos braços de Kai.

— Atenção. Estamos prestes a fazer o teste — disse Carol.

O carro diminuiu a velocidade e a janela dela baixou.

— O quê?

Eu mordi para não rir. Carol tinha estado animada, seu humor
habitual, momentos atrás. Ela reclamou da pessoa agora. Eu podia
ouvi-la dar uma tragada de sua fumaça.

— Merda. — ela resmungou. — Aqui. Segure isso.

— Senhora?

— O quê? — Ela retrucou. — É um cigarro. Jesus. Você estava


fumando um também. Eu posso sentir o cheiro em você. — Ela
vasculhou alguma coisa. — Porra. Droga. — Um baque no fundo da
van. — Aqueles pequenos filhos da puta. Eles pegaram minha
carteira. Por que diabos eles pegaram minha carteira? — ela rosnou.
— Eu vou matar meus próprios filhos. Você me ouve, espere. — Ela
engoliu em seco. Uma voz doce agora. — Quero dizer, eu não vou
realmente fazer isso, oficial. Mas, olhe... — Irritação. Impaciência. —
Eles queriam pizza na noite passada. Eu aposto que foi quando eles
pegaram, esqueceram de colocá-la de volta. Ou não... Eles queriam
ir jogar boliche hoje e no shopping! Aqueles merdinhas foram ao
shopping, quando eu lhes disse especificamente que não. Estou
alimentando ingratos. Aqueles pequenos criminosos...

— Ok, minha senhora. — Uma batida no topo do carro. — Você


está livre para ir.

— Tem certeza? Eu não estava acelerando. A tração nesses


pneus é uma droga demais para eu ir rápido. Outra coisa que preciso
consertar. Te digo...

O cara estava animado. Ele terminou de escutar ela.

— Aqui está seu cigarro. Obrigado pelo seu tempo.

Nós o ouvimos passar por nós. Carol deu uma tragada, ainda
resmungando baixinho.

Seu carro ligou e ele passou por nós.

— Vejo você mais tarde, porco.

Eu não pude segurar meu sorriso. Ela poderia ter sido uma boa
atriz.

Em outro momento, então.


— Ele tem agentes federais em sua folha de pagamento e
policiais locais. Com quem você está dormindo, Ry?

Eu gemi.

— É complicado.

Ela riu, enrolando a janela e começando a avançar novamente.

— Apenas segure um pouco. Nós temos um avião esperando


por nós. Seu namorado não é o único com algumas conexões.

— A rede? — Eu perguntei a Blade.

Ele balançou a cabeça, mostrando seu primeiro sorriso fraco.


— Um amigo de Carol.

— Porra. Eu te ouvi. O Tinder é bom para algumas coisas além


de uma conexão.

— Carol, você está namorando alguém?

Ela soltou uma risada.

— Você não é a única que tem alguém novo e excitante em sua


vida. Meu cara só tem a licença de piloto e um amigo com um avião.
Levou um pouco de coerção, mas ele disse que poderia levá-la a
Milwaukee.

— Bem. — Eu sorri para Blade. — Cacete.

— Maldição, de fato! — Carol riu novamente. — E espere. Vou


pisar fundo, se você sabe o que quero dizer.
Nós chegamos a um pequeno aeroporto. Eu não acho que era
de onde Kai havia voado, por que dirigimos por mais de uma hora,
mas era pequeno. Era isolado. E havia apenas um avião se
preparando para a partida.

Assim que estacionamos, Carol foi até um cara saindo do


hangar. Blade saiu atrás de mim, se alongando um pouco. Nós
ficamos na parte de trás até os últimos dez minutos, então nossas
pernas estavam um pouco atadas. Vasculhando uma sacola, ele tirou
alguns papéis e os entregou.

— Esses são números para pedir recursos.

— Blade...

Ele continuou, pegando um telefone, um envelope menor, outro


envelope mais gordo.

— Você não pode usar os telefones que Brooke te deu. Ele vai
descobrir quais foram tirados e ter rastreadores neles. Há dinheiro.

Eu tinha as duas mochilas da Brooke. Se houvesse um


rastreador em qualquer coisa, já teríamos guardas se aproximando
de mim. Eu estava segura, mas peguei o telefone que ele me deu.
Checando o fundo, perguntei.

— Não é um telefone da Rede?

Ele balançou sua cabeça.

— Não. Eu não queria arriscar. Como você disse, ele também


tem pessoas na Rede. — Ele fez uma pausa. — A Rede não queria
arriscar. — Ele desviou o olhar. — Você está certa. Eles convidaram
Carol e eu para buscá-la, mas querem saber quem são as pessoas
dele. Eles não vão arriscar nada. Tudo o que estou te dando está fora
do radar para que ninguém possa te encontrar. Até eu. O envelope é
lacrado e o envelope dentro desse envelope é lacrado. Ninguém viu,
exceto o fabricante.

E o fabricante não dava à mínima. Eles estavam apenas fazendo


um trabalho. Eu estava segura.

— Onde ele vai me levar?

— Não a Milwaukee. Você voará para South Riddance. É um


pequeno aeroporto depois de Milwaukee. Você terá que dirigir de
volta, mas um carro alugado deve ser fácil para você.

Era um bom plano. Se estivessem olhando, talvez não olhassem


para voos que não fossem para Milwaukee. Seria um descuido da
parte deles.

— OK.

Ele olhou para Carol, que ainda estava conversando com seu
amigo piloto, antes de pegar outra caixa menor.

— Coloque isso na sua bolsa. Você sabe para o que serve.

Minha boca secou. Era uma caixa de armas.

Eu duvidava que houvesse uma permissão para isso, mas eu


coloquei em um dos sacos de qualquer maneira.

— Ele poderia perder sua licença.

Blade olhou para o amigo de Carol.

— Não seja pega.


Eu ergui minhas malas nas minhas costas. Cobertores Roupas.
Eu sabia o que havia nas mochilas: dinheiro, cartões de crédito,
telefones para usar, identificação falsa. Eu tinha tudo que precisava
para começar uma nova vida. Era um pouco exagerado, tudo isso
para entrar em Milwaukee longe das vistas de Kai, mas como eu
conhecia Kai, precisaria. Ele colocaria seus recursos procurando por
mim sem parar. Eu teria que fazer todo o caminho debaixo da terra.

Carol e seu amigo caminharam em nossa direção.

Eu perguntei em voz baixa:

— Temos certeza de que esse cara é confiável? Ele não está na


folha de pagamento de ninguém?

Blade olhou para mim pelo canto do olho.

— Você quer dizer na folha de pagamento de Bennett?

Eu não respondi por que não foi isso que eu quis dizer. Eu olhei
para Blade e suas sobrancelhas subiram.

— Carol jura que o conheceu por acaso, no Tinder. Eles se


relacionaram por seis meses.

Mas ele poderia ser uma conexão. Ele poderia estar


trabalhando para a rede. E talvez eu estivesse ficando paranoica?
Andando muito tempo por aí com Kai? Ele estava me fazendo ver
movimentos em um jogo que não estava sendo jogado. Talvez.

Blade chegou à mesma conclusão.

— Deixe-o assim que você pousar.


— Esse já era meu plano.

O cara acenou para mim quando ele se aproximou e apertou


minha mão.

— Você está pronta para este voo?

Carol me abraçou. Ela abraçou o cara. Ele subiu no avião e ela


voltou para a minivan, deixando apenas Blade e eu.

Ele me deu um sorriso, triste.

— Nós veremos de novo?

Havia palavras a dizer, sentimentos para expressar e lágrimas


que eu tentava não derramar. Tudo o que fiz foi concordar e
prometer.

— Eu vou te ver de novo.

Quando entrei e vi Blade ir até onde Carol estava esperando,


senti a mesma coisa que tinha visto em seu rosto.

Tristeza.

Tudo estava prestes a mudar. Eu senti isso vindo como uma


desgraça iminente. O piloto gritou para eu me abaixar e, momentos
depois, estávamos descendo a pista de pouso.
Eu estava sendo burra.

Isso me atingiu quando voamos sobre Milwaukee. Eu estava


sendo tão além de burra. Sim, Kai dissera que eu não poderia ir com
ele para ver meu pai. Mas eu não era uma cativa e eu saí de lá como
se fosse. Tanto Brooke quanto eu tivemos que fazer assim. Eu
continuava a me esconder, usando esse amigo de Carol para me
levar o resto do caminho. Desaparecer era uma habilidade que eu
tinha, mas não era uma que eu precisasse neste caso.

Talvez?

Eu não sabia.

Deus. Por que isso era tão difícil?

— Você está pronta para pousar? — o piloto gritou comigo pelo


sistema.

— Sim! — Eu gritei de volta. Eu estava com frio, tinha que fazer


xixi e estava pronta para tentar consertar meu mundo novamente.

Assim que pousamos, peguei minhas malas e acenei para ele.

— Eu preciso ir ao banheiro.

Ele apontou para onde ir e, como eu realmente não sabia se ele


era apenas amigo de Carol, desapareci de novo. Eu tinha que fazer
xixi, mas precisava de todas as vantagens que conseguisse.
Contornando o banheiro, eu peguei um conjunto de chaves do carro
penduradas no corredor. Eu saí para o estacionamento e dei a volta,
apertando o botão de desbloqueio. Da segunda à última fila, deslizei
ao volante de um Taurus e segui para a cidade.

O GPS foi instalado em um dos telefones pré-pagos e eu


procurei uma loja de carros. Não aquela com o melhor site, mas um
que não tinha um site, que tinha opiniões ruins do Yelp de clientes
locais. Eu estacionei e usei o banheiro deles.

Nós tínhamos pousado durante o horário comercial, embora


estivesse ficando tarde.

Depois que fiz xixi, procurei uma funcionária, porque


geralmente havia uma. Quando ela se aproximou, ela era mais velha,
cabelos grisalhos, maquiagem feita. Eu não sabia dizer o cargo exato
dela, mas isso não importava. Eu podia ver nos olhos dela que ela
morava por perto.

— Eu preciso de um carro. — eu disse a ela. — Meu namorado


está na máfia e eu estou fugindo dele. — Mentira branca. — Eu
preciso de qualquer coisa que você possa me dar. Eu tenho dinheiro
para algo barato e desespero suficiente para deixar você saber que
eu roubei o carro que eu dirigi aqui.

Ela hesitou, examinando-me de cima a baixo.

Eu usava a mesma roupa preta de quando saí de casa. Eu tinha


certeza que cheirava mal. Meu cabelo foi puxado para baixo em um
rabo de cavalo.

Ela passou a mão pelo rosto.


— Ele bateu em você?

Eu não queria mentir mais do que o necessário, então escolhi


minhas palavras com cuidado.

— Eu só tenho que ir tão longe quanto posso dele.

— Você roubou esse dinheiro dele também?

Meus olhos se levantaram.

— Não. O dinheiro é limpo. Um amigo me deu isso.

Ela ainda hesitou.

— Eu não quero ficar em apuros.

— Olha, o carro não será reportado por um tempo. Talvez até


alguns dias. — Eu olhei para as câmeras. — Limpe a filmagem,
depois chame um carro aleatório. Você tem carros estacionados
aqui o tempo todo. Eu sei como são as lojas de automóveis. Ninguém
vai olhar duas vezes. Você pode dizer que sua filmagem é cancelada
a cada poucos dias, de qualquer maneira.

Ela queria ajudar. Eu podia ver, mas uma garota aparecendo


com dinheiro, um carro roubado e uma história sobre um namorado
ligado a máfia significava problemas.

Um rouco Por favor finalmente a fez ceder.

Ela soltou um suspiro, assentindo.

— Deixe suas chaves no chão e me dê um segundo. — Ela


desapareceu atrás do balcão, voltando alguns minutos depois. Ela
deslizou um envelope para mim. Eu podia ver que havia chaves
dentro.

— Isso é para o caminhão Chevy nos fundos. Deixe o que puder


de dinheiro. Eu tenho uma amiga que foi espancada pelo namorado,
então eu entendo.

— Obrigada.

Cavei em uma das malas, peguei algumas notas de cem dólares


e estendi-as para ela. Guardei o envelope no bolso, eu fiz o que ela
disse. Larguei as chaves do Taurus no chão e saí. A loja estava vazia,
quando cheguei ao único caminhão Chevy no fundo, eu sabia que ela
estava apagando a filmagem de segurança ou chamando a polícia.

De qualquer forma, eu empurrei o pedal, mas enquanto eu saía


da cidade em direção à interestadual, eu tinha que admitir que não
tinha certeza de quem eu estava me escondendo neste momento.

Kai?

Meu pai?

A rede?

Ou talvez eu mesma.
Eu não tinha um plano completo.

No primeiro dia que cheguei a Milwaukee, me estabeleci em um


B&B6, um em que eu tinha a minha própria saída e entrada, antes de
ir à uma biblioteca e forjar um novo cartão do local. Nome falso,
endereço falso, tudo falso, mas funcionou. Eu peguei o cartão. Isso
me deu acesso à internet da biblioteca e, a partir daí, procurei por
meu pai.

Eu não ia procurar por Kai. Eu me preocuparia se fizesse, então,


ele me encontraria em vez disso. Meu pai era a próxima coisa. Eu
estava incomunicável com todos os outros, pelo menos até eu saber
o que faria aqui.

O primeiro artigo que apareceu era um evento que meu pai iria
participar em dois dias.

O segundo era o meu obituário.

Esposa e filha de magnata local, ambas mortas. Autoridades


estão investigando.

Jesus. Eu me senti socada.

Ao clicar, li a história do meu acidente de carro e como o


acidente de carro de minha mãe seis meses antes parecia suspeito.

6 B&B HOTELS: tem como conceito a estrutura “econochic”, que foca em oferecer modernidade e serviços efetivos
O filho da puta havia sido investigado. Bom. Eu senti alguma
satisfação. Ele merecia. Ele merecia isso e muito mais.

Houve um pequeno artigo do meu funeral. Esses eram todos os


artigos que eu nunca consegui procurar e Blade nunca se ofereceu
para conseguir para mim. Mas eu vi a foto do meu pai sofrendo. Ele
tinha uma mão no rosto, a cabeça inclinada como se estivesse
chorando e uma mulher que eu não reconheci tentando consolá-lo.

Ele estava fingindo.

Meu pai nunca chorou. Nunca. Eu me perguntei uma vez se ele


ainda tinha dutos lacrimais.

Eu saí da página, clicando em outros artigos.

Havia mais do que eu esperava. Ele também tinha cobertura


nacional; e sua conexão com a máfia foi mencionada em ambas as
histórias. Sem dúvida, era a razão para os artigos, em primeiro lugar.

Minha garganta ficou mais grossa, só de pensar nele, sobre a


razão desses artigos em primeiro lugar.

Minha mãe.

Ainda doía. Eu pensei que tivesse superado, que tudo tivesse


sido trancado no lugar certo e eu era essa profissional, sem emoção.
Mas esse não era o caso. Tudo voltou para mim com força.

Eu geralmente sentia o ódio. Isso nunca esteve longe quando


pensava em meu pai, mas hoje, olhando para seu rosto, seu nome e
lembrando-me daquela época, senti principalmente dor.
Quando saí e voltei para o B&B, eu tinha um plano formulado e
peguei o telefone no meu quarto. Eu disquei o número na casa em
que ficamos mais recentemente, já que eu não tinha nenhum outro
número na mão.

— Olá? — Tanner respondeu.

— Você tem meu número? — Eu não me apresentei. Ele saberia.


Eu não esperei por uma resposta. — Eu vou desligar.

Não houve hesitação.

— OK. O tornozelo de Brooke está bem, a propósito.

Fiz uma pausa e coloquei o telefone de volta na base.

Eu não sabia quanto tempo levaria, mas observei o relógio e


comecei a contar.

Demorou vinte e três minutos.

TOC, Toc!

— Me deixa entrar. Agora.

Deixei escapar um suspiro, levantei e abri a porta. Eu recuei,


vendo os traços apertados de Kai olhando para mim.

Eu apertei minhas mãos.

— A porta não estava trancada.

Ele se moveu para dentro e fechou com um chute.

Eu esperava que ele viesse até mim, para me alcançar, me tocar.


Ele não fez nada. Ele permaneceu perto da porta.
— Tem que ser do seu jeito. — ele rosnou. — Tudo tem que ser
do seu jeito.

Seus olhos estavam duros, sua boca pressionada em uma linha


reta.

Ele. Estava. Chateado.

— Há Quanto tempo você está aqui? — ele perguntou.

Oh, garoto.

Seus olhos estavam fixos em mim, imóveis.

Engoli.

— Um dia.

Ele balançou sua cabeça.

— Um dia. Você esteve aqui um dia inteiro?

Bem, estava mais perto de um dia e meio com a viagem incluída,


mas não achei que ele se importasse com isso.

—Como você chegou aqui?

Eu dei a ele uma olhada.

— Você está de brincadeira?

— Não, eu não estou! Eu não estou brincando. Como você


chegou aqui?
— Meu trabalho é ajudar as pessoas a desaparecerem. Isso é o
que eu faço, o que eu sou boa. Você faz merda de máfia. É nisso que
você é bom.

— Eu sou bom em manter minha família segura. É nisso que eu


sou bom.

— Qual é. Quer dizer, você realmente achou que eu não


chegaria aqui? Você realmente pensou que eu iria deixar você
confrontar meu pai sem mim? Ele é meu pai. Meu.

— E ele merece morrer.

Ele estava rosnando, quase gritando, mas ele esfregou a mão no


queixo. Ele estava tentando se acalmar. Ele olhou para baixo.

— Você voou, não voou?

Ah, merda.

— Sim.

— Droga, Riley! — De volta aos gritos.

Eu tive que dar um passo atrás.

Ele não estava se movendo, mas isso não importava. O ar se


contorceu ao redor dele, suas palavras como socos. Tudo estava
tenso e cheio de fúria.

Sombras fortes caíram sobre seu rosto, deixando as maçãs do


rosto proeminentes e inflexíveis.

— Por que você está bravo? — Eu perguntei.


— Estou bravo porque me importo com você. — Sua mão foi
para o cabelo dele, correndo rapidamente através dele. — Talvez
seja irracional, mas meus entes queridos não voam. É minha regra.
É a única coisa que eu mantive quando assumi a posição de meu pai.
Tudo o mais eu desisti. Tudo. Pessoas com quem eu me importo,
amigos, namoradas. Escola. Uma vida normal. Tudo se foi no
segundo em que assumi a posição de chefe de conselho. Isso importa
e é uma pequena maneira de me assegurar que os membros da
minha família estão vivos. Você tem uma chance de viver se seu
carro for adulterado. Não há chance com um avião, uma vez que está
no ar. Nenhuma chance.

Ele se importava comigo.

Seus entes queridos.

E suas namoradas.

Era mesquinho de minha parte, mas... namoradas? Mais de


uma?

Suas mãos foram para os quadris, claramente frustradas.


Dobrado, quebrado, mas ainda aqui. Ainda em pé. Ainda no quarto
comigo.

— Brooke acha que nossa mãe morreu de uma doença. Não foi
assim. — Seus olhos agora cansados subiram para os meus. Dor
chamejou lá. — Nosso pai a matou e ele não agiu sozinho. Eu nunca
contei a ninguém da família isso.

— Como ela morreu?


— Com o amante dela. — Suas narinas se alargaram. — Com o
pai de Cord.

Oh... OH! Minha boca se abriu.

Kai sentou-se na beira da minha cama, descansando os


cotovelos nos joelhos. Ele olhou para o chão.

— Foi-me dito por uma fonte que a família de seu amante


matou os dois. Eles são membros do conselho também. E nunca
consegui provar, mas meu pai ajudou. Eu sei que ele fez.

— Ninguém sabe? — Eu sentei ao lado dele, querendo tocá-lo,


confortá-lo.

Ele me deu uma olhada.

— Não sobre Cord, mas vamos lá. Jonah não se parece conosco.
É óbvio que ela era uma trapaceira. E quem poderia culpá-la? O
marido dela era um monstro.

Eu estremeci, ouvindo meus próprios pensamentos, palavras


que eu havia falado antes também.

Ele ficou de pé, andando pela sala.

— Porra. Eu nem sei porque estou te dizendo isso. — Ele parou


de repente e me lançou um olhar aquecido, cheio de raiva e ódio e
preocupação.

A preocupação chegou a mim, me derretendo. Seu tom, nem


tanto.
— Eu não me importo onde você decide ir. Eu sinceramente não
ligo, contanto que você esteja segura. Você não é uma cativa, mesmo
que tenha escapado como uma. Se você e Brooke exigissem vir a
Milwaukee, o que você acha que eu teria feito?

— Tirado nossos telefones e nos mantido trancadas em uma


mansão de madeira?

Sua boca se fechou com um estalo.

— Sim. Você tem razão, mas você não é Brooke. Você não tem
um namorado que poderia foder tudo para essa família como ela
tem. Você tem uma cabeça lógica em seus ombros. Brooke seria
espancada pelos adolescentes no shopping se ela não tivesse
guardas. Isso realmente aconteceu. Ela não tem habilidades para a
vida. Você viu em que casa nós a encontramos.

Sim. A casa que ele explodiu.

Ele se importava. Ele amava.

Ele estava com raiva de mim sobre voar. Ele estava me


contando sobre sua mãe. Ele conectou os fatos, de alguma forma.
Uma maneira de me perder com a outra pessoa que ele perdeu. Eu
agi com cautela, mas eu tinha um pressentimento.

Ele precisava conversar, mesmo que fosse por esse tempo.

— Você disse que sua mãe morreu com seu amante, mas como
exatamente ela morreu?

Ele fechou os olhos, a cabeça caindo para trás. Ele soltou uma
merda suave.
Eu esperei. O instinto me disse para esperar, para ficar quieta,
para deixá-lo preencher o espaço.

— Eles fizeram parecer um assalto. Um ato de crime aleatório,


mas não foi. Ela foi esfaqueada três vezes, uma vez na garganta e a
faca se alojou na lateral do crânio.

Foda-se.

Ele não se moveu, seus olhos fixos em um ponto na parede. Sem


movimento. Sem ver.

— O cara sangrou. Eles cortaram uma artéria para torná-la


lenta e dolorosa. Suas carteiras tinham sumido. Foi assim que eles
classificaram como um assalto errado, mas foi uma execução. A
única maneira melhor de fazer isso era uma bala na testa, tê-los de
joelhos, mas eles não seguiram esse caminho. Eu não sei por quê.
Ninguém foi enganado, exceto, talvez, meus irmãos.

Eu coçava para me aproximar dele, tocar seu braço, seu lado.

— Como seus irmãos acham que ela morreu?

O sorriso que ele me deu era feio. Minha alma se encolheu.

— Câncer de início súbito.

Eu quase engasguei.

— Você está falando sério?

— Meu pai marcou uma consulta médica, sem minha mãe. O


médico mostrou-lhe um arquivo, contou a todos sobre o diagnóstico
e foi levada para o hospital. Ela estava supostamente morta dias
depois. — Ele balançou sua cabeça. — Ela esteve no necrotério o
tempo todo, o corpo dela no gelo até o funeral.

Minha cabeça nadou. Por ele. Por sua mãe. Por Brooke e o resto.

— Eu estou...

Ele se virou para olhar para mim.

— Não tenha pena de mim. Não ouse fazer isso. — Seus olhos
queimavam com ódio, mas não era para mim. Eu sabia. Ainda
parecia outro soco, quase tão ruim quanto ver os artigos do meu pai
mais cedo.

— É assim que morremos na minha família. — ele fervia. —


Violentamente. Asperamente. A morte de Cord foi feita para parecer
um acidente de avião. Eu fiz o meu pai parecer que foi causas
naturais. Minha mãe foi um assalto. O final é o mesmo. Nós
morremos. Você quer estar aqui? Você quer fazer parte disso? Você
quer ser trancada como eu sou? Porque o final é o mesmo. Não
importa o que. Hoje. Amanhã. Dez anos a partir de agora. Vinte, se
tiver sorte. O final é o mesmo. Alguém decidirá que te quer morta e
vai acontecer. Nesta vida, desejamos causas naturais. Eu adoraria
morrer em meu sono, ou mesmo de um acidente, desde que seja um
verdadeiro acidente. Não quero morrer por causa dos cálculos de
outra pessoa, mas acho difícil conseguir essa sorte.

Eu estreitei meus olhos para ele. Pela primeira vez, eu não


estava me encolhendo, recuando, retribuindo a simpatia.

Levantei-me devagar e tranquei o queixo no lugar.


— Com quem você acha que está falando? — Ele realmente não
se lembrava? — Meu pai costumava bater na minha mãe
semanalmente, às vezes, diariamente. Fui mandada para Hillcrest
porque ela temia que ele também me pegasse. Ele a queria morta.
Lembra? Ele teria me matado. Você disse isso antes, ele
provavelmente fará o mesmo com minha prima um dia. Eu nasci na
escuridão tanto quanto você. Talvez a sua seja mais sombria, eu não
sei, mas não é como se eu alguma vez decidisse ser normal. Eu não
gostei da vida leve. Eu ajudei outros a desaparecerem também. O
que você acha que vemos quando os encontramos? Essas pessoas
são as mais fracas. Eles estão lutando por suas vidas. E nós estamos
muito atrasados. Já te falei sobre esses tempos?

Minha voz soou sem graça, ecoando dentro de mim.

Eu continuei, no entanto. Ele tinha que ouvir isso.

— Meninas que se afastaram de seus cafetões, que pediram


ajuda. Nós chegamos a muitas delas tarde demais. Nós encontramos
seus corpos. Ou nós aparecemos em um hotel vazio e ficamos
sabendo que uma semana depois o corpo delas foi identificado no
necrotério. Garotas traficadas também. Não são apenas idiotas ricos
dos quais salvamos as pessoas. São todas as esferas da vida. As
meninas que saíram de casa tentando fugir de um pai ou mãe
abusivos são atraídas pela promessa de dinheiro fácil e se viciam em
drogas. Prostituição. São essas também. — Eu andei em direção a
ele, minha voz suave como seda. — Essas garotas que você fecha os
olhos, que são traficadas em seu território, em seu país. Essas
garotas.

Ele me observou vir em sua direção, seu olhar correspondendo


ao meu tom. Como uma cobra amorosa esperando para atacar.
— O que você gostaria que eu fizesse nessas situações? — ele
perguntou.

— Por elas. —Fácil. — Faça isso parar.

— Bem desse jeito? — Ele me deu uma risada oca. — Você não
sabe de nada, menina?

Oh, esse filho da puta.

— Eu sei que a razão pela qual você reagiu tão violentamente


àquelas pessoas com quem Brooke estava hospedada foi porque
você reconheceu os sinais. — Este foi o ás na manga.

Eu estava quase de igual para igual com ele.

— Eu sei que ela estava sendo preparada e ela nem sabia disso.
Ela estava vivendo nessa sujeira. Teria sido em uma noite entediada
onde ela subisse e tomasse um drinque com eles. Uma bebida. Uma
droga. Uma segunda noite de drogas. Mais e mais até que ela
esquecesse por que ela estava com eles em primeiro lugar, até que
ela estivesse desesperada e teria feito qualquer coisa. Ou ela teria
começado enquanto ela estivesse chapada, fora o suficiente onde
eles poderiam usar uma câmera nela. Certo?

Eu estendi a mão, meu coração pulando por todo o lugar, mas


meu braço firme.

Eu não deveria, mas toquei seu peito.

Seu coração estava acelerado como o meu, instável e errático.


Fora de controle.
Lambi meus lábios e olhei para seu peito enquanto subia e
descia sob a palma da minha mão.

— Você disse que ninguém estava na casa, mas isso não era
verdade, era? — Eu não esperei pela resposta. Eu não precisei dessa
vez. — Você matou aquelas pessoas e você queimou a casa para
destruir a evidência. — Meus olhos se levantaram para ele agora. —
Não foi?

Ele olhou diretamente para mim, deslizando pelas minhas


paredes, minhas barreiras, para me ver nua e despida para ele. Mas
eu o vi, tanto quanto ele me viu.

Lentamente, ele estendeu a mão até que estivesse enrolada em


volta do meu pescoço.

Ele me puxou para perto, esmagando minha mão entre nós e


quando ele se inclinou para os meus lábios, ele disse, tão
suavemente:

— Você está certa, ok? E eu faria de novo.

Então sua boca se fundiu com a minha.


Sem palavras. Nenhuma mesmo.

Agora mesmo.

Precisar. Querer. Reivindicar.

Meu.

Nossas bocas lutaram, nós dois tentando dominar o outro. Eu


estava quase explodindo de necessidade.

Eu precisava senti-lo.

Eu precisava tocá-lo.

Eu precisava reivindicá-lo.

Eu não me importava onde estávamos. Nós poderíamos estar


no meio da rua, mas eu precisava do seu toque em mim, seu corpo
em mim, seu tudo em mim.

Eu precisava dele. Meus sentimentos eram quentes. Eles eram


exigentes. Eles eram sujos e complicados. Eles eram tudo na parte
cinzenta da vida.

Quando nos empurramos um contra o outro, nossas bocas


reclamando, ele arrancou minha camisa. Minhas calças. Eu arrastei
minhas unhas sobre as roupas dele, tentando arrancá-las.
— Foda-se. — ele respirou, sua mão deslizando entre os nossos
corpos, empurrando dentro da minha calcinha e, finalmente, em
mim.

Eu parei, ofegando por ar quando o senti dentro de mim. Eu


estava sedenta por esse toque desde que ele saiu. O tempo fora, o
dia, tinha sido muito longo, e tudo estava enlameado ao meu redor.

Quando ele estava em mim, o mundo se endireitava. Eu não


estava mais confusa.

Era ele. Era eu. Era o que quer que fosse isso entre nós, e
quando um segundo dedo se juntou ao primeiro, eu arqueei para
trás do prazer que pulsava através de mim.

Ele moveu seus dedos, me dominando, e sua boca se arrastou


sobre minha garganta exposta, meu peito, meu seio, depois para o
outro. Ele chupou, provou, lambeu, acariciou.

Deus. Eu amava esse homem.

Eu o odiava, mas eu o amava e, apertando a mão atrás de sua


cabeça, sabia que minha necessidade por ele não seria saciada
apenas uma vez. Seria uma e outra vez até que eu não pudesse
andar, até que eu não conseguisse rastejar, até que eu não pudesse
sequer pensar em me mover novamente.

Esse tempo poderia nunca chegar.

Eu sabia, quando sua boca mudou para o meu outro seio e seus
dedos bombearam para dentro de mim, que eu estava acabada.

Eu rosnei, pegando suas calças. Eu peguei seu pau e envolvi


minha mão em torno dele.
Se ele me possuísse, eu também o possuiria. Teria que ser igual
para os dois, ou eu queimaria tudo ao nosso redor.

Eu enrolei minhas pernas ao redor de sua cintura e ele teve um


momento para puxar seus dedos para fora. Ele me pegou debaixo da
minha bunda e eu me abaixei sobre ele, embainhando-o dentro de
mim.

Ele segurou-me, nossos olhos se encontrando e nós


engasgamos com a sensação. Eu comecei a subir e descer.

A surpresa foi embora. Seus olhos ficaram negros e suas mãos


se apertaram. Ele me bateu na parede, prendendo minhas mãos
acima da minha cabeça. Sua boca foi para a minha garganta,
começando a me chupar, fazendo-me sentir coisas que eu não sabia
que uma pessoa poderia sentir.

Eu gemi, minhas pernas apertando ao redor de sua cintura.

Ele moveu minhas mãos juntas, prendendo—as com uma das


suas e sua mão livre foi para o meu clitóris. Ele esfregou e brincou
quando assumiu o controle, quando ele empurrou dentro e fora de
mim, batendo, empurrando quase violentamente.

Eu só poderia assoviar —Simmm— através dos meus dentes.


Eu estava cega de desejo e bêbada de prazer.

Algo caiu no chão.

Ele continuou empurrando em mim, mais e mais profundo.

Ele estava me fazendo dele, mas quando eu não fui?


Verdadeiramente? Então sua boca encontrou meu peito novamente,
e eu fui embora, perdida na escuridão do nosso sexo.
Ele empurrou para dentro, para fora, até que eu me senti
gozando. Uma explosão aconteceu dentro de mim, eu gritei,
ofegando enquanto me rasgava, deixando-me tremendo em seus
braços. Assim que terminei, ele me levou para a cama. Então ele
puxou para fora, me pôs de joelhos e ficou atrás de mim.

Ele segurou meu ombro e se moldou sobre mim.

Seu pênis encontrou a minha entrada e quando seus dentes


morderam minha pele, ele empurrou de volta.

Não, eu estava errada. Isto. Isto era ele me reivindicando.

Uma mão segurava meu peito, a outra segurava minha cintura


e quando me virei para ele, sua boca encontrou a minha e ele me
fodeu até gozar também.

Era duro, mas éramos nós. Ele abriu um canal dentro de mim
onde coisas obscuras aconteceram, um lugar que a maioria das
pessoas não queria reconhecer. Não Kai. Eu não. Ele tinha
encontrado em mim, me fez olhar para ele e então ele me levou até
lá e era a minha casa.

Eu não deveria ter desejado isso. Eu não deveria tê-lo desejado,


mas não podia mais negar que eu era dele.

Tudo estava levando a esse ponto, a época em que eu o


procuraria, quando eu o seguiria, quando o faria vir me buscar. Nós
estávamos lá agora e eu não sabia até esse momento.

Eu sabia que tudo iria mudar quando aquele avião saísse para
me trazer aqui. Agora eu sabia o quão completa seria essa mudança.
Eu rolei de costas e ele caiu ao meu lado, ambos ofegando,
suando, formigando, e então sua mão encontrou a minha e ele
apertou. Ele se curvou para mim, sua perna se movendo sobre mim,
me segurando no lugar e pressionou um beijo suave no meu ombro.

— Não saia de novo. — ele murmurou.

Eu apertei de volta; Essa era toda a energia que eu pude reunir.

— Nunca.

E lá, nós dois dormimos, meu mundo mudou completamente.

Eu só não sabia se seria para melhor.


Eu acordei e rolei. Ainda estava escuro lá fora.

Kai estava sentado na beirada da cama, de costas para mim, os


cotovelos apoiados nos joelhos. Sentei-me, deslizando para enrolar
minhas pernas em torno do seus quadris. Ele ficou tenso a princípio,
depois relaxou enquanto eu descansava minha bochecha em suas
costas, sentindo seu cheiro.

Ele pegou uma das minhas mãos, puxando-a para o peito.

— Você se arrepende de algo? — Ele perguntou, suas costas


retumbando com a pergunta.

Eu segurei ainda um momento. Ele estava pedindo muito.

— Não. — Eu relaxei. Eu apertei a mão dele. — Não há nada


para se arrepender.

Ele levantou nossas mãos, pressionando um beijo nelas.

— Bom.

Em vez de se virar para mim, ele se estendeu para trás e me


arrastou para seu colo. Eu levantei meus braços, descansando-os em
seus ombros. Sorri para ele, relaxando para olhar seu rosto inteiro.

Seu cabelo estava despenteado. Eu podia ver linhas suaves de


cansaço ao redor de sua boca, mas seus olhos estavam alertas.
Acordado. Ele estendeu a mão, seus dedos deslizando para segurar
a parte de trás da minha cabeça.

Ele me puxou para perto, minha testa tocando a dele.

— Você está aqui agora.

— Eu estou aqui agora.

— Eu tenho coisas para fazer aqui.

— Eu sei. — Minha mão se contraiu. Ele sentiu isso, erguendo


as sobrancelhas.

— Você vai ficar bem com isso?

— Eu vim para ver meu pai. — Mas havia mais. Eu também


procuraria por ele. Eu só não sabia até chegar aqui.

Ele assentiu, seus dedos traçando meus ombros.

— Eu quero remover seu pai da empresa dele. — Ele fez uma


pausa, observando-me atentamente. — E eu quero que você o
substitua.

Eu me inclinei mais para trás para realmente enxergá-lo.

Havia uma proteção, uma expressão resignada atrás dos olhos,


como se ele estivesse me avisando, mas também esperando por...
alguma coisa. Eu não sabia o quê.

— OK? — Eu perguntei.

— Você está disposta a fazer isso? Eu posso ter alguém para


substituí-lo, se você quiser. Se você estiver disposta a me ajudar.
Eu sorri abertamente.

— Estamos de volta à proposta original, então?

Seu sorriso era triste, mas sinistro ao mesmo tempo.

— Você veio aqui por sua própria vontade. Eu não vou mandar
você embora. Eu só farei você fazer algo se for para sua segurança.
É isso aí. Eu prometo. — Ele me olhou. — Eu não prometo muitas
vezes.

Minha boca ficou subitamente ressecada.

— OK. Quero dizer... — Eu lambi meus lábios. — Sim. Eu farei o


que puder.

— Eu preciso remover seu pai da Companhia Bello e vou


colocá-la em seu lugar. Se você vai ficar, cabe a você. Pode ser real
ou pode ser uma fachada. Eu posso ter Tanner assumindo para agir
como seu porta-voz. Tudo depende de você.

Por que ele estava me dizendo isso?

O que mais iria acontecer?

Mas eu assenti.

— Eu vou fazer isso.

E assim que eu disse essas palavras, as borboletas estavam de


volta e, dessa vez, elas tinham asas de aço. Isso significava muitas
coisas: eu me revelaria viva para o público. Eu teria que enfrentar
meu pai. Tinha sido um pesadelo pela metade da minha vida, um
sonho cheio de vingança, um objetivo e agora, eu engoli em seco,
uma realidade. Um tornado inteiro cresceu dentro de mim.

— E a minha prima? — Eu perguntei.

Kai balançou a cabeça, fechando os olhos e me puxando contra


ele. Eu olhei em seus olhos, aparentemente mais perto dele do que
eu já estive antes. Ele não estava se fechando agora. Ele parecia estar
procurando conforto em mim, no meu abraço.

Um pouco do tornado diminuiu.

Ele se moveu para beijar meu pescoço e expirou,

— Ela não será um problema.

Eu inclinei para trás, um dedo sob seu queixo quando levantei


o rosto.

— Por que não?

Um arrepio percorreu seu peito. Ele segurou minha mão e


segurou-a entre meus seios, seu polegar se esgueirando para roçar
um deles.

— Porque ela não é um fator. Ela não é filha dele. Ela não está
relacionada a ele de sangue em tudo. Ela é sua amante. É isso aí.

— Não namorada?

— Amante é mais apropriada. Confie em mim. — Seu olhar


endureceu. — Ela não importa para ele, não depois que ele vir você
de novo.

— Ela é a única que pode reivindicar sua posição?


— Só se eles fossem casados. Eles não são. Eu chequei.

— Eu pensei que eles estivessem noivos.

— Um noivado não derruba uma filha. E quando você for


apresentada a ele, ele vai te defender. Eu prometo.

Os arrepios escuros que eu comecei a igualar com Kai desceu


pela minha espinha novamente. Ele estava planejando algo, mas
desta vez eu não estava de fora. Desta vez, eu sabia que precisava
confiar nele.

— OK.

— OK? — Seu sorriso apareceu, se tornando contagioso.

Essas malditas covinhas também.

Eu ri, balançando a cabeça.

— Você parece um garotinho que pegou seu doce favorito.

Seus olhos escureceram.

— Porque eu peguei.

Ele endureceu embaixo de mim e se inclinou para frente, seus


olhos segurando os meus até que eu senti seus lábios na minha
garganta. Eles agora estavam comandando e o pulsar dentro de mim
explodiu em um incêndio completo.

Minha respiração acelerou, junto com o meu pulso e inclinei


minha cabeça para trás quando sua boca começou a explorar.
Descendo. Descendo. Aninhando-se entre os meus seios, em
seguida, varrendo para tomar um mamilo em sua boca. Sua língua
envolveu-me, beijando-me, saboreando.

Um suspiro de corpo inteiro me deixou, e lentamente, polegada


por polegada, ele me abaixou para deitar em suas pernas. Minha
cabeça parou apenas sobre os joelhos dele. Eu estava estendida para
o banquete dele, e quando ele soltou um dos seios, ele se moveu para
o outro. Ele se sentiu à vontade, fazendo todo o meu corpo apertar e
tremer, só para ele fazer tudo de novo.

Ele se moveu mais para baixo.

Mais.

Todo o caminho até que eu senti seus lábios no meu clitóris.

Ele estava quase ao meio e sua língua empurrou para dentro.

Eu ofeguei, sensações passando por mim, colocando tudo no


limite.

Ele beijou e chupou, empurrando sua língua, em seguida,


lambendo, enquanto seus dedos esfregavam sobre mim. Não
demorou muito para que eu estivesse ofegante, o ar ficou preso na
minha garganta e explodi por ele.

Alguns momentos depois, eu ainda o queria, mas isso tinha se


misturado com um contentamento lânguido. Cada osso do meu
corpo se derreteu quando ele nos reajustou, me colocando de costas
e se movendo entre as minhas pernas. Ele se arrastou para cima,
segurando-se acima de mim, seus músculos balançaram com força e
então ele empurrou para dentro. Ele me observou o tempo todo.

Sombrio. Delicioso. Desejando.


Tudo isso se misturou quando ele se moveu para dentro de
mim. Isso foi diferente de antes. Este era um encontro das almas. Ele
estava me puxando mais para o seu mundo.

Um tremor veio dentro de mim, como uma cobra, e uma vez que
percorreu todo o caminho até o topo da minha cabeça, eu explodi
mais uma vez.

Ele estava bem atrás de mim, caindo sobre mim, seu corpo
vibrando e tremendo com sua libertação.

Deitei ao lado dele enquanto seu batimento cardíaco


desacelerou para coincidir com o meu.

Ele correu a mão para minha cintura quando saiu de mim. Eu


não conseguia formar um pensamento ou mesmo uma palavra. Nós
começamos a adormecer quando havia um arrastar de pés do lado
de fora da minha porta.

— Estou dizendo, esta é a minha casa. Meu negócio — uma voz


aguda protestou. — Você me deixa entrar aí. Eu preciso verificar
meu cliente. É meu direito!

Uma voz masculina baixa falou com ela.

— Eu não vou repetir o que disse! Eu não vou sair.

Outro arrastar de pés e uma leve e relutante batida na porta.

Kai ficou tenso por um segundo, antes de se levantar.

— Espere.
Ele pulou da cama, movendo-se com facilidade e rapidez.
Lançando-me um olhar de desculpas, ele se vestiu e foi até a porta.

Ele a abriu e me sentei na cama, puxando o lençol para me


cobrir.

Seus guardas estavam lá. E eu pude dar uma olhada no dono do


B&B.

— Senhor.

Eu quase bufei. Essa palavra vinda de Kai era nova. Ele disse
mais alguma coisa, fechando a porta para que eu não pudesse ouvir
o resto.

— Eu quero ver por mim mesmo. — disse o proprietário depois


de um momento.

Engolindo minha diversão, saí da cama. Era hora de ir de


qualquer maneira. Nós ficamos neste casulo pelo tempo que
pudemos. Sua presença apenas trouxe o inevitável. Eu me apressei
para me vestir e me lavar, pegando o pouco que eu tinha tirado das
minhas malas e colocando de volta. Olhei ao redor da sala, ainda
ouvindo o dono discutindo com Kai.

Eu peguei o que ele deixou para trás, mas não foi muito.

Fui até a porta.

— Asseguro-te, eu... — Kai parou quando abri.

O guarda se afastou.
Kai pegou minhas malas e acenou para trás de mim. Aquele
guarda deslizou para dentro, e eu sabia que ele estava limpando a
sala, certificando-se de que nada fosse deixado para trás.

— Sr. Gambles. — Eu tinha um sorriso largo no rosto e estendi


a mão. — Obrigada por me deixar ficar. — Eu balancei a cabeça em
direção a Kai. — Mas você pode ver que provavelmente é hora de ir.

Ele olhou para a multidão de homens em seu corredor.

— Você está com problemas? Por que todos esses homens


estranhos estão aqui?

— Está tudo bem. Eu prometo. Eu paguei pela noite, sim?

— Você fez. — Seu tom ainda era desconfiado. — Eu não


hesitarei em chamar a polícia, sabe. — Ele olhou fixamente para Kai.

— Não! Não. — Eu peguei a mão de Kai. – Está tudo bem.


Obrigada.

Kai olhou para ele, parecendo um pouco confuso.

Eu o puxei para trás quando comecei a descer o corredor, os


guardas entrando em ação. Eles lideraram o caminho, dois caindo
atrás de nós e fiquei ainda mais mortificada quando vi alguns dos
outros clientes em pé na sala de estar, suas bocas escancaradas para
o show inteiro. Três SUVs estavam estacionados no meio-fio,
esperando por nós quando saímos de casa. Quando nos
aproximamos, a porta se abriu na parte de trás.

Eu entrei primeiro, a mão de Kai nas minhas costas para me


guiar.
Esperamos pelo último dos guardas. Um minuto depois, ele saiu
e entrou no banco da frente do nosso SUV. Ele se virou, segurando o
que eu tinha esquecido completamente.

Minha caixa de armas.

Meu estômago afundou.


— Você ia atirar em seu pai? — Kai finalmente perguntou. Ele
ficou em silêncio durante o passeio de carro.

Nós estávamos na casa número treze milhões, mas não era


realmente uma casa. Era mais um armazém em algum lugar fora de
Milwaukee, com os andares superiores transformados em espaço
vital. Esse era o nosso domínio. Todos os guardas estavam abaixo de
nós e ao nosso redor.

Eu ignorei Kai, despejando minhas malas em um sofá e vagando


ao redor. Havia um sótão acima, mas o andar principal era grande.
Em uma extremidade, fiquei surpresa ao ver uma porta de correr
com um deck anexo. Ela dava para o lago, nós estávamos bem ao
norte da cidade.

Estávamos quase em nosso próprio mundo. Novamente.

— Riley! — Kai saiu de trás de mim, batendo alguma coisa na


mesa.

Eu pulei, olhando para trás.

Seu pescoço estava tenso, todo músculo rígido. Sua mandíbula


se apertou.

Eu cedi, vagando de volta.

— Sim.
— Explique.

Eu passei minhas mãos pelo meu cabelo, então me abracei.

— Blade me ofereceu a arma e eu peguei. Eu não tinha certeza


do que queria fazer quando visse meu pai, mas a peguei para matá-
lo. — Eu fiz uma careta. — Por que você está bravo com isso? Você
ofereceu a mesma coisa, para eu matar meu pai.

Ele não respondeu, apenas olhou para mim enquanto respirava


pelas narinas.

— Eu preciso de uma porra de bebida.

Eu o segui até a área da cozinha.

— Você está me confundindo pra porra.

Ele me ignorou, abrindo um armário, fechando-o com força. Ele


mudou para o próximo e repetiu os mesmos movimentos viciosos.

— O que há de errado com você...

— Você! — Ele se virou para mim, seu rosto torcido. — Você.


Você é o que está errado.

Eu recuei um passo, me dando um tapa nas costas.

— O quê? Mas...

Ele pegou um copo e jogou contra a parede. Ele se despedaçou,


caindo no chão.

Minha boca caiu.

— O que há de errado com você?


— Você...

— Sim. — eu o interrompi desta vez, indo em frente. — Você já


disse isso. Eu. Estou errada. Mas não sou eu. É você. Isso é o que você
disse desde o começo. Você me queria contra o meu pai. Você se
ofereceu para trazê-lo para mim para ser morto. Então você disse
que iria matá-lo mesmo assim. Agora você quer me usar contra ele
e o quê? — Eu joguei meus braços bem abertos. — Por que você está
chocado que eu trouxe uma arma para realmente fazer isso?!

— Porque é você! — ele gritou. — É você. — Ele abaixou a voz,


a mão passando pelo cabelo. Quando ele olhou para mim, seus olhos
estavam arrasados, assombrados.

Ele fez uma pausa e, quando falou de novo, foi quase um


sussurro.

— Por que... porque eu disse... me preocupo com você. Eu mais


do que me importo e não sei o que diabos fazer sobre isso.

Essas palavras quase me empurraram na minha bunda.

— O quê?

Ele se virou, com as mãos no cabelo novamente, a camisa


esticada sobre as costas.

— Sim! Tudo o que você está dizendo faz sentido. Matar é algo
que eu não penso mais. Eu queria ter feito. Eu desejo... — Ele rosnou.
— Eu gostaria de dar a mínima para quem eu mato. É ele ou nós. É
assim que...

— Ele? — Eu disse fracamente.


— O quê?

— Você disse ele ou nós.

Ele franziu a testa.

— Nós ou eles. Somos nós ou eles. É assim que eu cresci. É assim


que nós somos Bennetts.

— Não. — Eu balancei a cabeça. — Você disse ele ou nós. Quem


é ele?

Mas eu sabia. Minha barriga estava se contorcendo.

Eu gentilmente fiz a minha pergunta.

— Quem é ele, Kai?

Ele não conseguia desviar o olhar. Ele se encolheu. Ele tentou


se afastar, mas eu corri e peguei ele. Eu toquei o lado do rosto dele,
segurando-o no lugar.

— Quem, Kai? — Ele tinha que dizer isso. — Quem? Diga o


nome dele.

Ele saiu do meu alcance, indo embora.

— Kai!

— O quê? — Ele jogou as mãos para cima, parando. Mas ele não
se virou.

— Volte aqui.

Ele não fez isso. Ele não respondeu também.


— Kai.

Ele deu outro passo. Aqui estávamos nós de novo. Eu estava


perseguindo ele. Eu estava seguindo ele.

— Kai. — Suspirei. — Olhe para mim.

— Por quê?

Ele fez, no entanto. Ele olhou, com pura derrota em seu rosto.
Cada centímetro dele parecia ter passado pelo espremedor, como se
um caminhão tivesse batido nele.

— Por quê? — ele disse novamente. — Isso não é uma maldita


terapia. Você sabe quem eu quis dizer. Você sabe quem foi o monstro
que me criou. Você me chamou de monstro antes. Bem, aprendi a
ser alguém de alguém.

Seus olhos se estreitaram, uma faísca perigosa neles. Ele


avançou para mim, devagar.

— Um monstro criou você também, mas você não se


transformou em um. Estou prestes a fazer isso por ele — cuspiu ele.
— Estou levando você ao meu mundo, pouco a pouco. E você está
vindo.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Você deveria lutar comigo sobre isso. Você não deveria vir,
mas você está. Um toque e você se molda a mim e uma parte de mim
ama. Eu prospero nisso, mas uma parte de mim odeia isso. Uma
parte de mim está enojada quando eu te toco.

Eu vacilei. Ele ficou enojado quando me tocou?


— Eu sou tudo que é ruim neste mundo. Você é tudo que é bom
e eu estou transformando você em mim. — Ele engasgou. — Eu me
odeio quando olho para você. Você reflete tudo de errado em mim,
toda vez que eu estou dentro de você.

Suas palavras eram como chicotes, cortando em mim, mas


havia bondade também. Fechei meus olhos, forçando-me a respirar
pelo nariz, me forçando a me concentrar no bem. Havia bem.

Tinha que haver.

Encontre. Agarre-se a ele.

Mantenha.

Talvez ele estivesse me fazendo mal, mas eu estava fazendo


bem a ele.

Havia essa luta, essa dança entre nós. Bem contra o mal, mas eu
não era perfeita e Kai não era malvado. Ele apenas fazia coisas más.
Ele era o bom que tinha sido torcido em algo mais escuro.

Eu não sabia o que dizer a nada disso, então fui com o que eu
sabia ser verdade.

— Eu também me importo com você.

— Não, Riley.

Eu balancei a cabeça.

— Eu me preocupo com você e sei que estou mudando, mas não


posso parar porque me preocupo com você. — Ele me intoxicou. —
Eu me importo mais com você, o suficiente para ver isso.
E aqui estava outra verdade. Se eu saísse dele agora, ficaria
despedaçada.

Eu me virei para o copo quebrado em pedaços. Isso seria eu se


partisse, se ele partisse e estava rapidamente se tornando muito
pronunciado para eu não reconhecer isso.

— Você disse que não posso fugir de novo. Você também não
pode.

Ele esfregou a mão no lado do rosto.

— Do que você está falando?

— Eu não posso sair. Você também não pode.

— Riley...

— Diz! — Eu fui até ele. — Diz. Agora.

— O que você está fazendo? — Ele balançou a cabeça, as mãos


nos quadris, ele me viu se aproximar. Suas narinas se alargaram. —
O que você está jogando?

— Você acha que isso é uma via de mão única? Você faz
exigências e eu tenho que seguir? Acho que não. — Eu parei fora de
alcance, me forçando a me segurar firme. — Diga de volta.

Ele continuou a me observar, algo faiscando vivo naqueles


olhos escuros dele.

— Diga.

— Dizer o quê?
— Que você não vai sair! — Eu gritei. — Que você não vai recuar
e correr quando algo der errado, porque algo sempre dá errado...

— Não, merda! — Ele rosnou. — Eu estou na porra da máfia.


Tudo dá errado conosco e somos nós que fazemos isso. Nós fazemos
isso. Eu faço isso. Eu dou ordens para matar. E às vezes eu quero ser
quem puxa o gatilho.

— Você está sendo um idiota.

— Eu sou um idiota.

Eu o olhei cara a cara, de igual para igual.

— Diga-me algo que eu não sei.

Ele estendeu a mão, enrolando-a em volta do meu pescoço e me


puxou para perto. Subi na ponta dos pés, meus lábios contra os dele,
mas não estávamos nos beijando. Nós dois estávamos respirando
com dificuldade.

Eu não conseguia olhá-lo nos olhos, não desta vez.

— Me diga algo novo. Eu sei quem você é e sei o que você está
fazendo agora. — Eu estendi a mão e agarrei a camisa dele. Eu o
puxei contra mim. — Você não pode me assustar, então pare de me
insultar tentando. Novamente. Você não quer que eu atire no meu
pai, tudo bem. Eu não vou, mas não vamos fingir que é essa birra de
temperamento. — Eu o empurrei de volta, fazendo-o soltar-me. —
Você está se apaixonando por mim e está mijando nas calças porque,
pela primeira vez em sua vida, você não se sente no controle.

Ele olhou para mim, longo e duro, e como eu poderia ter


previsto, ele se virou e saiu.
A porta se fechou atrás dele, me fazendo pular.

Bem.

Eu comecei a me virar, mas não havia nenhum lugar para onde


eu pudesse ir. Em vez disso, peguei um copo e o joguei contra a
parede.

Foda-se ele!

Mas quando se quebrou e caiu ao lado do outro, não fez me


sentir melhor. Eu tive uma compulsão repentina de colar os dois
copos juntos.
Kai não voltou desde ontem, mas exatamente oito horas depois,
Brooke chegou. Não precisava ser um gênio para descobrir que ele
chamou um substituto. Jonah também veio. Ele me deu uma
avaliação rápida e declarou que seria a última. Eu estava saudável
novamente.

Brooke e eu passamos a primeira hora nos aproximando. Ela


me contou como ligara para os guardas da floresta e eles a
encontraram e a levaram para ser verificada por um médico local.
Brooke disse que o médico era lindo além das palavras. Embora
fosse apenas um tornozelo torcido, ainda era doloroso e valeu à
pena. Suas palavras. Não minha.

Depois disso, ela disse que eles a interrogaram sobre o meu


paradeiro por alguns minutos e foi isso.

Ela balançou a cabeça.

— Eu juro, eles quebraram limites de velocidade me levando


até você. O que aconteceu?

Havia um gosto amargo na minha boca, mas eu apenas encolhi


os ombros.

— Eu prefiro ficar bêbada do que falar sobre isso.

E ela não empurrou. Jonah também não.


Quando abrimos a primeira garrafa de vinho, Brooke disse que
Tanner havia sido enviado para o norte novamente. Quando
terminamos a segunda garrafa, ela continuou dizendo que, já que
estava aqui, queria dar uma olhada pelas propriedades de Kai. Ela
estava convencida de que ele ainda tinha Levi em algum lugar e
estava decidida e determinada a salvar o amor de sua vida.

Eu fiz uma careta.

— Não querendo supor nada, mas você estava muito graciosa


com Eric e um certo médico.

— Médico? — Ela olhou para Jonah, que estava trabalhando em


seu computador ao nosso lado.

Ele não olhou para ela.

— Ela está falando sobre o Sr. Lindo Doutor Local que você
estava falando mais cedo.

— Oh! — Ela riu, batendo a mão na mesa. — Isso é engraçado.


Não, não. Levi é o amor da minha vida. Eu estou apenas flertando.
Isso é tudo. — Ela olhou por cima do ombro, mas não havia guardas
no nosso andar.

Eu não tinha dúvidas de que eles estavam do lado de fora da


porta.

— Eu gosto de flertar com Eric. Ele estraga tudo se eu


realmente o pressionar. Como você acha que eu recebo metade das
informações?

Jonah suspirou, fechando o computador. Ele empurrou os


óculos no nariz.
— Brooke gosta de agir como se estivesse sendo refém de nosso
irmão, mas não é esse o caso. Nós somos Bennetts. Há uma
responsabilidade que vem com o sobrenome da nossa família.
Todos nós odiamos isso, mas se tivermos que nos esforçar e
suportar isso, nós o faremos. O flerte constante de Brooke é ela se
rebelando contra essas responsabilidades.

Brooke olhou para o copo de vinho.

— Eu sei. — Eu balancei a cabeça. — Kai me contou sobre o


conselho.

Ambos os olhos se arregalaram.

— Ele contou? — Brooke perguntou.

Jonah franziu a testa.

— Por que ele lhe diria isso?

Dei de ombros.

— Eu não sei, mas ele fez. Isso é ruim?

Eles compartilharam um olhar.

Brooke levantou um ombro.

— Eu acho, quero dizer, espero que não. Tenho certeza que está
bem.

Mas ela parecia estar tranquilizando seu irmão mais do que eu.
Seus olhos escuros fixos em mim, quase acusando.
— Você não está apenas dormindo com Kai? Quero dizer... —
Ela se inclinou para frente, empurrando o vinho para o lado e
colocando os cotovelos sobre a mesa. — Kai não fala sobre qualquer
coisa quando se trata de nossa família. Nada. Até para nós. Nós só
sabemos metade da merda porque somos Bennetts. Nós temos que
saber. Você sabe?

Eu balancei a cabeça.

— Mmm—hummm. — Um sorriso fechado. — Estamos


apenas... nos divertindo juntos.

Jonah bufou, soando como sua irmã pela primeira vez na vida.

Como se lesse minha mente, Brooke lançou—lhe um sorriso.

— Ha! O que é que foi isso?!

Jonah ficou vermelho antes de pegar o computador e inventar


alguma desculpa para ir embora. Depois de compartilhar outra
garrafa de vinho, Brooke pegou a cama e eu peguei o sofá. Jonah foi
para outro lugar. Eu não sabia onde.

De manhã eu acordei para ver Kai franzindo a testa sobre mim.

— Por que você está no sofá?

Eu bocejei e apontei.

— Porque a nossa irmãzinha está na cama.


Eu terminei meu bocejo, lembrei de por que isso era um
problema e olhei para ele.

— Por que você se importa? Você sumiu.

E eu poderia estar com um pouco de ressaca. Houve uma batida


definitiva logo atrás da minha testa.

Ele cerrou os dentes, olhando para a cama enquanto ele me


respondia.

— Eu tinha trabalho a fazer. Não tome isso pro lado pessoal.

Eu rolei para os meus pés, então silvei. Minha cabeça girou.


Sentei-me e esperei que passasse.

— Você partiu em um momento oportuno, você sabe.

Ele estava indo para a cozinha, mas me lançou um olhar irritado


por cima do ombro.

— Se eu tivesse ficado, nós teríamos ficado na cama o dia todo


e a noite. Você sabe. Eu não podia arriscar isso.

Talvez. Mas as palavras que eu disse a ele ainda estavam


penduradas lá, desconfortavelmente.

Brooke se sentou na cama.

— Ei, irmão mais velho. — Ela sorriu largamente, coçando a


cabeça, bagunçando ainda mais o cabelo. — Cara, o sono do vinho é
o melhor sono. Eu só preciso de algumas horas, mas essas horas são
eficientes, sabe? É como... — Ela estalou os dedos. — ...Ir dormir.
Dormir. Dormir. E bam, acordar... E aqui estamos. — Ela estendeu os
braços para Kai, de costas para ela. — O grande e malvado irmão
está aqui para nos comandar um pouco mais.

Ela olhou ao redor, franzindo a testa.

— Onde está Jonah?

Kai respondeu, ainda de costas para ela.

— Ele está em um hotel.

— Um hotel?! Posso ir lá também?

— Não. — Ele terminou de preparar o café e apertou o botão,


antes de enviar a sua irmã o mesmo olhar irritado. — Eu queria te
dar uma chance de salvar o amor da sua vida. Ele está em
Milwaukee, você sabe.

Ela ofegou, ajoelhando-se sobre os cobertores.

— Mesmo? Você vai me deixar vê-lo?

— Eu disse, salva-lo, não vê-lo. — Ele levantou uma


sobrancelha, zombando dela. — Essa não é sua missão na vida?
Salvar o traidor para nossas duas famílias?

Sua cabeça se moveu para trás e sua boca se fechou.

— Por que você está sendo mal?

— Sendo mal? — Seus olhos ficaram gelados. — Como estou


sendo mal? Talvez eu esteja irritado por você continuar professando
seu amor por um cara que estava juntando evidências contra sua
família.
Suas bochechas ficaram vermelhas.

— Eles são quase ilegais. — ela murmurou.

— Não importa. — ele respondeu. — Isso torna tudo pior. Você


já se perguntou por que ele estava fazendo isso? Ele não está na
linha de qualquer poder na família Barnes. Ele não é afetado por
nada que eles façam. Ele está longe e ainda assim ele conseguiu
entrar apenas para sujá-los. Por que você não se faz essa pergunta:
por que ele faria isso?

— Pare com isso, Kai. — Ela pegou sua camisa.

— Brooke. — ele disse com firmeza.

E como se sentisse o mesmo sinal que eu fiz quando ele falou,


ela levantou os olhos. Eles estavam cheios de dor agora.

— Eu só consigo pensar em duas razões pelas quais ele faria o


que ele fez. Ou ele está esperando para abrir algumas posições onde
ele pode entrar e assumir ou ele está sendo chantageado. Qual você
acha que é a resposta real?

Ela olhou para baixo. Seu lábio inferior tremeu.

— Você está sendo mal.

— Bem, eu também estou chateado que você convenceu Riley


que ela precisava fugir de mim para vir até aqui. — Sua mandíbula
se apertou novamente. — Você sabe que não é a verdade.

Ela olhou para ele, os olhos brilhando.


— Não é tão simples e você sabe disso. Você não está me
deixando ver Levi...

— Porque ele está juntando evidências contra sua família e eu


não quero que você seja atraída para isso! O que você acha que eles
fariam? É muito fácil para o seu negócio ir apenas da sua família para
a nossa também. Mudar a princesa da máfia, ou melhor ainda, sujá-
la para que possa nos chantagear. Você estava fazendo algo estúpido
e sabe disso.

— Eu nunca faria isso. Você tem que saber disso.

Ele zombou.

— E nunca pensei que você também fosse desafiar sua família


por um rato. Como você pode não olhar para ele e ver o que ele está
fazendo com sua família?

Era como se o mau humor de ontem tivesse se espalhado para


que ele pudesse atormentar sua irmã, mas eu tinha que admitir que
ele estava fazendo boas perguntas. Perguntas difíceis, mas que
precisavam ser respondidas. Eu também comecei a perceber por
que ele estava pressionando Brooke.

Porque ela não queria enfrentá-lo.

Ela tinha a lã sobre os olhos7, ela mesma colocou lá e ela estava


bem com isso.

Até eu sabia o quanto isso era perigoso.

— Porque ela está apaixonada por ele. — eu ofereci.

7
Quer dizer que ela está se enganando.
— Riley, não... — Ele baixou a voz, no entanto.

— O amor é cego. É um clichê por um motivo. Ela não quer ver


o que ele está fazendo. — Eu me virei para a cama. — Mas Brooke,
você tem que responder a ele. Você tem que ouvir o que ele está
dizendo.

Seus olhos foram para os meus, feridos.

— Não se alie a ele.

Eu me levantei do sofá.

— Mas se estas coisas são verdadeiras, você não quer saber por
quem você está apaixonada? Se ele está assim agora, o que ele
poderia fazer com você? — Eu encontrei o olhar de Kai por um
momento. — Você o ama. E depois? Você se casa? Você o traz para a
família? Você corre o risco dele se virar contra você também?

Eu odiava o que eu estava dizendo. Estava machucando Brooke,


mas isso não era sobre o próprio Levi. Ela tinha que ver isso. Era a
traição dele. Uma vez trapaceiro, sempre trapaceiro. Poderia
facilmente ser uma vez um traidor, sempre um traidor.

— Kai está tentando protegê-la de si mesma, só para você


saber. Você deveria apreciar ter isso em um irmão. — Eu me virei e
tranquei os olhos com ele. — Eu gostaria.

Uma emoção cintilou em suas profundezas antes dele


pressionar os lábios.

Brooke fez um som gorgolejante.


— Deus, Riley. Você está dormindo com ele; isso não significa
que você deva ficar do lado dele. Eu sou sua amiga.

Uma amiga que mentiu para mim, mas, por outro lado, Kai
queria matar meu pai. E eu também.

— Eu estou do seu lado. Kai também está. Mas você está certa.
— Voltei a olhar para ela. — Talvez eu vá sair com Jonah hoje.

Eu fui para o banheiro quando Kai me chamou.

— Se você sair, deixe os guardas irem com você.

Eu parei, virando—me para andar de costas.

Era um sentimento diferente, essa liberdade com uma coleira,


mas eu entendia. Eu estava apenas defendendo uma forma disso
para Brooke, então assenti. Kai e eu precisávamos conversar, mas
agora eu estava com vontade de sair.

Com uma comitiva.

Então foi assim que Jonah e eu nos sentamos na traseira de um


SUV, indo em direção ao Cais da Lakeshore.

— Onde vamos? — ele perguntou.

— Ao cais. Faz tanto tempo desde que eu estive lá. Eu quero ver
como está tudo ao redor.

Ele puxou o colarinho da camisa, observando o fluxo enquanto


descíamos as ruas de trás.

— Nós realmente não fazemos coisas turísticas. Isso é estranho.


— Vamos. — Eu dei um tapinha na perna dele, olhando pela
minha janela. Esta foi minha casa um dia. Foi bom vê-la novamente.
Eu senti falta disso. — Pense nisso assim, Kai estava falando com
Brooke sobre por que ela ama Levi. Estou tirando você de um drama
familiar desconfortável.

— Bem... — Ele se sentou de volta. — Quando você coloca dessa


maneira, você está perdendo completamente seu tempo.

— O que você quer dizer?

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Brooke e Kai não falam nada mesmo. Kai mal fala com
ninguém. Se ele faz, é apenas para latir ordens. E percebemos que
ele é o chefe da nossa família. Há um respeito compartilhado que
todos sentimos por ele e o que ele fez por nós, mas você precisa
entender, não há confronto com Kai. Ele diz como é e você pode
aceitar ou não.

— E se você não fizer?

— Então ele vai trazer isso mais tarde. — Ele rolou a cabeça de
um lado para outro, voltando para olhar pela janela. —
Principalmente até provar que ele está certo.

Bem, havia aquilo.

Depois de mais algumas voltas, chegamos à frente do cais.

Jonah fez um som. Tudo estava cheio de atividade.

— Eu não consigo nem lembrar de uma vez que fizemos algo


tão normal assim.
— Normal como ser turista? — Eu não pude segurar meu
sorriso.

Esqueça Kai por agora. Esqueça Brooke. Esqueça tudo. Uma


parte de mim queria que tivesse sido um irmão diferente ao meu
lado, mas eu ainda estava feliz por experimentar um pequeno
pedaço da minha antiga casa novamente.

Os olhos de Jonah ficaram nublados.

— Você sabe que não vamos nos misturar.

Eu levantei um ombro, batendo na porta e o guarda abriu de


fora. Quando aprendi a fazer isso, estava além de mim. Mas parecia
natural.

Saí e comecei a notar que todos nos notavam, e essa parte não
parecia tão natural, mas andar no mesmo passo que dois guardas
que partiram à nossa frente era uma segunda natureza agora.

Eles tentaram se misturar com a multidão, mas foi um ajuste


estranho. Se alguém atravessasse o círculo ao redor de nós, um deles
se adiantava e afastava a pessoa, ou uma criança, uma vez.

Ainda assim, eu não deixaria isso nos impedir, ou me impedir.

Nós pegamos o café da manhã primeiro, mas nós não sentamos.


Comer. Pegar. Ir. Vamos continuar andando. Os guardas também
pegaram um pouco de comida. Eles tentaram se esgueirar, mas
quando alguém me viu olhando para ele apenas sorriu e terminou
seu sanduíche de café da manhã. Esses caras se moviam quase como
se fosse um deles. Eles tinham seus hábitos, e uma hora depois,
depois de entrar em algumas lojas e na roda gigante, vi mais guardas
chegando e saindo. Então era assim que eles faziam.

Um passeio na roda gigante não foi suficiente, não para mim.


Para Jonah, sim. Mas ele estava tentando ser um companheiro
educado depois que eu o peguei tremendo na fila ao guiá-lo em
direção ao Wave swinger, um carrossel com cadeiras suspensas. Eu
ouvi um murmurinho Oh, Deus, mas ele subiu ao meu lado e andava
como um soldado.

Eu tive pena dele depois disso.

Nós fomos o carrossel em seguida, mas eu selecionei um dos


bancos no meio.

— Graças a Deus. — Ele suspirou.

Eu ri, inclinando a cabeça para trás.

Ele sorriu.

— Desculpa. Isso não é o que fazemos.

— Foi o que você disse. — Eu me mexi levemente para encará-


lo. — Não é o que eu faço também, para dizer a verdade.

— Sim. Eu posso ver isso. — Ele me olhou. — É estranho para


você? Ir de uma vida onde você era uma Hider para isso? — Ele
acenou para os guardas ao nosso redor, um deles estava andando
em um tigre rosa.

Eu segurei uma risada.

— Sim. Mas agora estou apenas focada no próximo passo.


Ele assentiu, não perguntando o que era e fiquei grata porque
não queria mentir para ele.

— Posso te fazer uma pergunta?

Suas sobrancelhas se levantaram.

— Certo.

— Você tem namorada?

Suas sobrancelhas ficaram mais altas.

— Eu não estou perguntando por mim. — Meu sorriso foi fácil.


— Eu só estou querendo saber como essa parte da sua vida se
encaixa com todo o resto.

— Oh. — Ele se recostou contra o nosso banco, refletindo sobre


isso. — Não encaixa. Quer dizer, há perguntas, mas aprendemos a
mentir. Todo Bennett nasce um mentiroso incrível. Nós tivemos que
nos tornar isso apenas para funcionar às vezes. Quanto a uma
namorada... — Ele fez uma pausa, suas bochechas ficando rosa.

Eu me sentei. Eu pensei que estava pescando em um barril


vazio aqui.

— Há uma menina.

— Uma menina?

— Ela é outra residente.

— Residente?
— Ah. — Ele riu brevemente. — Uma médica. Ela está no meu
ano. Nós trabalhamos no mesmo hospital.

— Como você faz isso, a propósito? Com você constantemente


saindo para as coisas da família.

Ele esfregou a sobrancelha.

— Para ser honesto, Kai raramente me chama. Essa coisa toda


com Brooke deu uma volta em todos nós. Estávamos nos mexendo.
Então ele trouxe você e eu soube que o que Brooke tinha feito não
era a tirada normal que ela às vezes faz. Era mais sério.

— Você não respondeu a primeira pergunta, no entanto.

— Oh. Sim. Estou em apuros, para ser sincero. — Ele balançou


a cabeça para a frente em um movimento suave e fácil. — Mas ter
meu sobrenome como Bennett ajuda. Kai apenas entrará, engraxará
algumas rodas e eu ficarei bem.

Por que eu não fiquei surpresa?

— É assim que se faz? Ele suborna o seu caminho na escola de


medicina?

Ele franziu a testa.

— Sim. Faz parte do nosso mundo. Se eu quiser ter alguma


aparência de uma vida normal, tenho que aceitar isso. — Sua
carranca se aprofundou. — Sou muito grato por ter esse tempo para
me tornar um médico. Isso nunca teria acontecido se meu pai ainda
estivesse vivo.

— O que você quer dizer?


— Ele mandou Brooke embora. Ele matou Cord. Ele teria
matado Kai também. Quem sabe o que ele teria deixado Tanner e eu
fazermos? Ele nem me deixou morar com a família.

— O quê? — Meu coração se torceu.

— Fui enviado para morar com uma tia. Ele não me queria ao
lado deles. Cheguei a vê-los nos feriados ou se Cord ou Kai
insistissem em me visitar.

A dor no meu peito dobrou.

Ele deu de ombros e engoliu com força.

— É o que é. Eu pareço diferente. Ele me tratou de maneira


diferente.

— Eu sinto Muito.

Ele tossiu, mudando de posição.

— Kai mudou tudo. Ele trouxe Brooke e eu de volta... mas sim,


para responder sua pergunta inicial, nós nos comprometemos. —
Ele tossiu novamente, piscando rapidamente. Ele sacudiu a mão
para o canto do olho. — Brooke se apaixona a cada dois meses.
Tanner não. Eu não sei o que ele faz. Ele raramente fala sobre
mulheres. E eu... — Ele se acalmou, piscando para mim um sorriso
desconfortável.

Eu sorri de volta.

— Você tem uma namorada.


— Que eu minto todos os dias. — Sua risada foi desigual,
forçada. — Mas é assim que é. Perdemos nosso equilíbrio com o
conselho e todos seremos eliminados.

— O quê?!

— Você não sabia? Eu pensei que Kai tinha explicado... — Ele


parou novamente, franzindo a testa. — Desculpa. Pensei que você
soubesse.

— Não. — eu ofeguei. — O que você quer dizer com você vai ser
eliminado?

— Um... — Ele hesitou.

— Diga-me, Jonah.

— Estamos no topo porque eles nos temem. Eles temem Kai. Se


alguém se mover contra nós, eles terão que nos matar. Todos nós. É
literalmente todos por um, um por todos conosco.

Minha cabeça nadou. Eu não fazia ideia.

Não é de admirar que Kai estivesse tão preocupado por quem


Brooke se apaixonava.

— Obrigada por me dizer. Eu não sabia.

— Sobre isso... — Ele mordeu o lábio inferior. — Você pode não


dizer a Kai que você descobriu de mim?

Eu soltei uma risada, um pouco mais alta do que eu queria.

— Sim. Claro. Sim.


E então, porque não chegamos ao ponto, perguntei.

— E quanto a Kai e sua vida amorosa?

O passeio estava chegando ao fim. Jonah alcançou o banco à


nossa frente.

— Kai tem mulheres em todas as cidades para suas


necessidades. — Então ele se levantou e olhou para mim. — Quero
dizer, isso foi antes de você. Eu acho? — Seu sorriso ficou torto e ele
saiu do lugar como se sua vida dependesse disso.

Eu sentei enraizada a esse banco.

Kai tinha uma mulher em todas as cidades? Mas é claro. Eu me


amaldiçoei. Quão idiota eu era? Pensar que eu era especial? Eu fui
trazida por causa das ações de sua irmã, não dele.

Não foi escolha dele. Embora talvez isso não importasse.

Eu levantei do cavalo de madeira e segui para onde Jonah


estava esperando por mim. Os guardas se aproximaram e fomos
turistas pelo resto do dia. Mas meu espírito não estava mais nisso. O
pensamento das outras mulheres de Kai me atormentava, sentando
pesado em meus ombros. Eu só fiz uma cara boba na cabine de fotos.

Eu realmente me joguei no filme quando fomos ao cinema. E me


jogando, quero dizer, sentei na escuridão e fingi que estava ali.
Silenciosamente. Desalmada. Imaginando todas aquelas mulheres a
disposição de Kai.

Claro que ele as tinha.

Ele era poderoso e lindo.


Eu era tola por não ter pensado nisso antes.

Estava escuro quando saímos e se alguém me perguntasse qual


filme nós vimos, eu não teria ideia. Um cara estava nele. É tudo de
que me lembrei.

— Para onde agora? — Jonah perguntou.

Nós trocamos de lugar em algum momento depois do carrossel.


Jonah começou a se divertir e eu não era a única aqui. Eu podia ouvir
sua relutância em ir para casa. Inferno, eu não queria ir para lá
também.

Eu me movi atrás dele.

— Eu acho que há uma cervejaria aqui.

Ele se iluminou.

— Essa é uma ótima ideia. Deveríamos chamar Brooke e Kai.


Brooke entrou em cena como um potro de quatro anos fazendo
sua primeira corrida pelo campo. Ela entrou, ignorando os guardas
na frente dela, seus braços balançando e suas tranças voando. Quase
em sincronia. Nos avistando nos fundos, ela parou e deu um pulo
antes de girar e pousar no assento em frente a mim.

— Oi pessoal. — disse ela com pressa, sorrindo de orelha a


orelha.

Vestida com calças de couro, uma blusa de seda apertada e


brilhante e um colete de pele falsa, ela tinha se vestido para a noite.
Com seus brincos de argola balançando com suas tranças, ela estava
abraçando sua liberdade.

— Finalmente, finalmente, algumas bebidas e meninos. — Ela


bateu palmas para si mesma, fazendo um pequeno barulho no
assento. — Eu estou livre!

Jonah e eu havíamos escolhido a mesa dos fundos por um


motivo. Isso proporcionava um mínimo de privacidade e havia uma
passarela abaixo de nós, então, se tivéssemos que fazer uma fuga de
emergência, poderíamos sair dessa maneira. Além disso, assim
como imaginamos, os guardas já estavam se espalhando para nos
cercar nas duas frentes.

O lugar estava cheio e todos os olhos estavam voltados para


nós.
Eles estavam nos observando desde que entramos. Dois dos
guardas tomaram posição no bar. Um deles estava tentando se
apoiar em um poste, fingindo estar em seu telefone o tempo todo,
mas as pessoas notaram. Outro guarda reivindicou uma mesa
inteira atrás de nós. Quando a equipe tentou preenchê-la, ele saiu
com eles e vi a gerente saindo segundos depois.

Aquela mesa permaneceu vazia a noite inteira. Eu só podia


imaginar que eles pagaram bem por isso.

A atenção dos outros clientes seguiu Brooke, porque quem agia


assim? Aparentemente Brooke e lembrei de uma vez que fomos a
um shopping e ela decidiu começar a dançar na praça de
alimentação. Eu tinha esquecido que ela tinha esse lado. Ela não se
importava com quem estava por perto. Se ela sentia algo, ela fazia.
Esta noite, ela queria entrar balançando, literalmente.

Enquanto ela pegava um cardápio, eu sabia quem mais estava


vindo.

Eu o senti. Um pequeno formigamento na parte de trás do meu


pescoço.

Ele andou em um ritmo mais calmo, sem movimentos de dança,


mas não importava quão lento ou rápido ele viesse. Poder e
autoridade rolavam dele em ondas. Sua aura preencheu toda a
cervejaria, e até a equipe fez uma pausa para vê-lo passar.

Eu ouvi alguém sussurrar para o amigo.

— Ele é famoso?

— Sssshhhh. — foi a resposta.


Quanto mais perto ele ficava, mais evidente se tornava que os
guardas o seguiam. Mais sussurros começaram. Alguém pegou um
telefone, mas o guarda mais próximo se moveu para bloquear. Ele
disse alguma coisa e o telefone desapareceu. Eu não tinha ideia de
como ele conseguiu isso, mas eu tentei me fixar nisso, focar naquela
mulher cujos olhos de repente estavam muito maiores do que há
alguns segundos atrás, porque enquanto eu estava olhando para ela,
eu não estava olhando para ele.

Mais próximo. Mais próximo.

Os arrepios cada vez mais fortes, me abalando. Mas eu estava


calma.

Quando olhei para cima, ele estava olhando diretamente para


mim, um brilho zombador em seus olhos. Ele alisou a mão na frente
de sua camisa, como se estivesse acariciando uma gravata que não
estava lá, antes de se dobrar na cadeira ao meu lado. Ele moveu a
cadeira enquanto se sentava, sua coxa pressionando contra a minha
por um momento antes de se acomodar em seu assento.

— O quê? — Eu perguntei.

Ele não respondeu, sacudindo a cabeça antes de se virar para


encarar a gerente enquanto ela se aproximava.

— Sr. Bennett. — Ela cruzou as mãos em frente do corpo, a


cabeça mergulhando como se fosse se curvar, mas decidiu no último
segundo apenas abaixar a cabeça em um breve aceno de cabeça. Ela
limpou a garganta, o pescoço ficando vermelho. — É um prazer tê-
lo aqui esta noite.

Aí sim. Aquele guarda a tinha realmente assustado.


Ela estendeu a mão, colocando uma mecha de cabelo atrás da
orelha.

Ela era uma mulher de aparência simples e usava o mesmo


uniforme que sua equipe: uma camisa branca de botão sobre calças
pretas. A única coisa que a separava era a etiqueta do gerente em
sua blusa e o fato de que ela foi a única a nos cumprimentar.

Kai falou com ela enquanto Brooke se inclinava sobre a mesa,


conversando sobre eles.

— Tudo o que tenho a dizer é que há uma chance de


conseguirmos esse... — Ela apontou para Kai. — Para uma boate, eu
morrerei e irei para o céu.

Kai lançou-lhe um olhar, mas continuou falando com a gerente.


Ela se aproximou, inclinando a cabeça e, oh, que coincidência, os três
primeiros botões de sua blusa estavam abertos. Eu tinha certeza de
que apenas um estava aberto quando o primeiro guarda comprou a
mesa atrás de nós.

Mudando de posição, Kai se aproximou para tocar minha


cintura, mas continuou como se não estivesse ciente do toque. Ele
sabia. Seus dedos pressionaram no meu lado antes de chegar ao
topo da minha perna. Ele sabia disso. Eu peguei o sorriso fraco
provocando sua boca. Ele estava gostando disso também.

Ele deve ter me visto de olho na gerente como um falcão


faminto vendo um falcão rival no próximo poleiro. E por que eu
estava usando metáforas de animais estava além de mim. Eu
precisava sair. Bem, eu precisava sair mais do que nunca.

Talvez uma visita à boate não fosse tão ruim...


Mas não. Eu tinha planos.

Havia uma razão pela qual eu pedi para vir aqui, tinha pedido
para ficar aqui. Eu simplesmente não tinha descoberto totalmente o
meu plano. Mas olhando para um relógio próximo, vi que ainda tinha
tempo.

— Obrigada, — a gerente terminou, acenando antes de sair.

Kai recostou-se, colocando um braço nas costas da minha


cadeira.

Eu endureci.

Brooke e Jonah notaram o movimento, mas Brooke não parou


de falar.

Eu tentei entrar em sintonia. Ela estava pedindo a


recomendação de Jonah na primeira bebida da noite quando Kai
tocou meu ombro, me puxando de volta para o lado dele. Ele moveu
a cabeça como se estivesse olhando além de mim, seus lábios bem
ao lado do meu ouvido.

— Você me abandonou mais cedo. — disse ele, sua respiração


fazendo cócegas em mim. — Eu poderia ter usado a sua substituta.

Eu virei a cabeça apenas um pouco para que nossos olhos


pudessem se encontrar.

— Você estava lidando bem com isso. Além disso, você me


deixou na mão mais cedo do que isso.

— Eu tinha trabalho a fazer.


Ele me olhou, desafiando-me a trazer minhas palavras de
despedida do nosso argumento.

Um rubor subiu pelas minhas costas, meu pescoço e ele sentiu,


sua mão se movendo para a parte de trás do meu pescoço. Seu
polegar começou a esfregar em círculos, o que causou outra
sensação de cócegas para vibrar sobre a minha pele.

— O seu trabalho está terminado?

Agora ele sorria.

— Me diz você. — Ele olhou significativamente por cima do


ombro.

Eu segui seu olhar e engoli em seco.

Ele viu o relógio também.

Ele sabia. Claro que ele sabia.

Seu polegar continuou esfregando. A gerente retornou com três


garçons a reboque. Cada um deles segurava uma bandeja no alto. A
gerente colocou uma longa mesa ao lado. Ela espalhou um pano por
cima e, um a um, os garçons colocaram a comida e as bebidas na
mesa. Eles estavam preparando um buffet completo com um
barman que se mudara para um bar portátil no canto do nosso
espaço.

Brooke gritou, indo para o bar imediatamente.


— Shot, por favor! Me dê um sex on the beach8. — O garçom
pegou uma garrafa já aberta e um guarda se aproximou. Ele apenas
olhou para o barman antes que a gerente fosse falar com seu
empregado. Em poucos instantes, todas as garrafas já abertas foram
puxadas e garrafas seladas tomaram seus lugares.

Como isso estava acontecendo, um guarda veio e provou alguns


de todos os alimentos no buffet.

Ele estava testando e percebi o que estava acontecendo. Eles


estavam se certificando de que nada havia sido adulterado.

Eu tinha me apaixonado por um chefe da máfia.

Eu tinha me esquecido por um momento.

Uma onda de dúvida me atingiu, mas com a mesma rapidez


desapareceu. Eu tinha seguido esse caminho. Eu havia me torturado
sobre o que estava fazendo. Eu decidi.

Eu escolhi Kai.

Jonah disse antes que todos eles estavam juntos, um por todos.
Sentada aqui, vendo como as pessoas ao nosso redor pareciam
hipnotizadas por Kai, comecei a pensar em mudanças de poder.
Tudo era equilibrado. O que aconteceria se Kai forçasse uma das
transações ilegais a parar em seu país? O que a substituiria? Eu não
era ingênua o suficiente para pensar que algo não aconteceria, ou
alguém não faria. Todos queriam ganhar um dólar e pessoas ruins
poderiam ser engenhosas.

8Sex on the Beach é uma bebida alcoólica geralmente feita com vodka, schnapps de pêssego, suco de laranja, e suco de oxicoco,
apesar de haver variações, como a versão sem álcool nomeada Virgins on the Beach. É um coquetel oficial da International Bartenders
Association, servido em copo alto
É por isso que Kai manteve Jonah por perto.

Jonah era bom. Jonah era um gênio, mas Kai também. A


inteligência deve ter sido passada através de sua mãe? Não, Kai
tinha dito que ele pensava da maneira que seu pai pensava. Ambos
os pais devem ter sido muito inteligentes.

— O que há de errado?

Kai me puxou dos meus pensamentos, inclinando-se para


frente em sua cadeira.

Jonah se juntou a Brooke no bar. Ele balançou a cabeça


enquanto ela empurrava uma bebida para ele. Os guardas haviam
recuado. Os garçons foram embora, a gerente também. Na nossa
pequena bolha, tivemos um pouco de privacidade.

— Eu sei que você não tem uma mão no negócio de drogas, mas
se você pressionasse para erradicá-lo, o que aconteceria?

Ele não piscou nem fez uma pausa. Ele nem sequer perguntou
por que eu estava perguntando.

— Um novo medicamento iria surgir. Há sempre algo novo


vindo pelo encanamento. Novas armas. Novas drogas. Nova forma
de escravos sexuais. Essa é apenas a dica. Há jogo. Mercado negro
para órgãos, para corpos, para qualquer coisa que você quiser.
Cartões de crédito. Roubo de identidade.

— Você controla tudo isso?

Uma batida. Duas. Então, eu soube o suficiente sobre isso.

Eu dei-lhe um sorriso triste.


— Isso é tudo o que você vai me dizer?

— Porque pergunta?

Eu pressionei a mão no meu peito, como se para evitar que


explodisse.

— Eu pensei que poderia ajudar a fazer alguma coisa. Qualquer


coisa. Mas aprendendo sobre tudo isso, fico com essa sensação
indefesa de como algo pode ser melhor quando o mal está sempre
lá?

Ele segurou meu olhar. A maneira como ele fez uma pausa foi
significativa antes de se esticar para segurar o lado do meu rosto.
Seu polegar percorreu meus lábios, seus olhos correndo para eles
antes de subir para olhar com ternura em meus olhos, tirando meu
fôlego.

— No mundo em que vivo, é difícil ser bom. Mas eu vou tentar.


Por você. — Ele inclinou a cabeça para baixo, sua testa descansando
na minha. — Eu farei o que puder. Eu prometo.

Fechei meus olhos, suas palavras me enchendo por dentro.

Ele enxugou uma lágrima na minha bochecha.

Isso significava mais do que eu poderia colocar em palavras.

Isso significava o mundo para mim.

Isso significava que eu poderia ficar.


Brooke estava bêbada dançando sozinha ao lado da mesa.

Jonah também estava bêbado. Ele continuou rindo,


descansando a cabeça no braço apoiado na mesa, seus ombros
tremendo. Ele parava, olhava e repetia.

Já passava da meia noite agora. A cervejaria havia fechado. Eu


tinha certeza que Kai comprou o resto. A maior parte do pessoal
tinha ido embora agora, mas a gerente permaneceu. Ela se
aproximou para nos informar que tinha mantido um cozinheiro
solitário, para o caso de desejarmos alguma coisa na cozinha.

A mão de Brooke disparou.

— Ooh! Quesadillas! Por favor.

As pessoas ainda caminhavam ao longo do cais, mas quase tudo


fechava à meia-noite. Olhei para luzes brilhantes que se moviam no
final do píer, algum tipo de evento. Nós tínhamos visto casais
passarem por nós em vestidos formais e smokings. Vestidos
brilhantes. Rosa. Seda preta. Lantejoulas. O rico e poderoso. Alguns
olhavam em nossa direção com expressões estranhas, mas nenhum
veio investigar. Cabeças inclinadas juntas. Mãos subiram para cobrir
suas bocas fofoqueiras.

Talvez estivessem imaginando, enquanto participavam de seu


evento extravagante, sobre quem estivera na cervejaria. Haveria
rumores de que era alguém famoso, uma celebridade ou talvez até
um funcionário do governo, porque era isso que eles faziam.
Lembrei-me disso do meu tempo com a minha família.

Houve sussurros e rumores sobre minha mãe também.

As duas garotas aprovadas para ir às compras comigo no


shopping provaram isso. Elas perguntaram se era verdade que meu
pai a pegou tendo um caso de amor tórrido e ela realmente morreu
tentando fugir com seu amante.

Isso me torceu, lembrando, e não ajudou que eu pudesse jurar


que uma daquelas garotas tinha passado por nós vinte minutos
atrás. A mão dela estava enfiada no braço de um homem de meia—
idade. Delgado. Lindo. E olhos famintos, porque ela era uma das
pessoas que nos observou um pouco.

— Você o viu? — Kai perguntou.

Eu virei, vagando mais até a beira da cervejaria. Eu nem tinha


certeza se ainda estava dentro de suas fronteiras. Eu peguei algumas
escadas até uma calçada. Eu ainda podia ouvir o riso de Brooke no
fundo, misturado com a música e misturando-se com a batida
proveniente do evento.

Suspirei.

— Há quanto tempo você sabe?

— Que seu pai deveria estar participando daquele evento ou


que essa é a verdadeira razão pela qual você pediu a Jonah que se
passasse por turista durante o dia?

— Ambos?
Ele se moveu para o meu lado, mas não me tocou.

Por alguma razão, apreciei isso. Ele me deixou ficar sozinha,


não me dominando.

— No segundo em que os guardas me disseram onde você ia. —


Ele enfiou a mão no bolso, inclinando a cabeça para trás, ainda me
encarando. — É de conhecimento público que ele deveria estar
presente hoje à noite. — Kai sorriu. — Se ele não aparecesse, as
pessoas notariam.

As pessoas notariam de qualquer forma, percebi o que ele


estava dizendo. Eu fiquei de boca aberta para ele.

— Você vai levá-lo hoje à noite?

Mas é claro. Era por isso que ele veio aqui. Não para passar
tempo com a gente, seu irmão, sua irmã, mas por causa do meu pai,
porque já estava nos planos.

Doeu.

Eu desviei o olhar.

— Jonah e Brooke me disseram o quanto você geralmente não


está por perto. Esta noite significava o mundo para eles.

— Ei. — Ele segurou a parte de trás da minha cabeça e me virou


em direção a ele. — Olhe para mim.

Eu me virei, mas fechei meus olhos. Eu não queria que ele visse
como doía.
Este era o mesmo Kai. Uma agenda. Três, quatro, cinco passos
à frente e eu pensei... Não importava. Eu fui idiota.

— Ei. — Um pedido mais insistente dele. — Olhe para mim.

Bem. Eu olhei.

E meu peito ficou suspenso.

Seus olhos quase ardiam, uma expressão feroz neles que eu não
conseguia identificar.

— Você trazer minha família aqui, eu vir e passar um tempo


com eles, com você, significou o mundo para mim. — Ele me puxou
para ele e, porra, eu fui. Eu não pude resistir. Ele baixou o tom, seus
olhos mergulhando na minha boca. — Isso não é algo que teria
acontecido antes de você. Duvido que seja algo que aconteça depois,
depois que sairmos daqui novamente. Mas nunca, nunca pense que
minha família não é a primeira opção. Eles são a razão de eu ser
quem eu sou.

— Onde você estaria se não estivéssemos aqui esta noite?

— Em um hotel. Fodendo você.

Eu tossi.

— Ah.

Parte da queimadura diminuiu. Ou, bem, foi lavado por uma


panela de fogo escaldante. Um tipo diferente de queimadura tomou
o seu lugar.
Ele descansou a testa na minha, sua mão saindo do meu
pescoço para traçar meu lábio inferior.

— Vou mandar meus irmãos de volta com alguns homens.


Fique comigo. Me acompanhe.

Ele estava me convidando para a escuridão com ele, mas eu já


estava lá. Neste caso, eu cheguei primeiro.

Eu balancei a cabeça e ele recuou. Ele foi falar com um de seus


homens, e depois de um momento, com um breve aceno de cabeça,
o guarda foi fazer o que ele queria. Kai voltou-se para mim. Ele não
parou. Ele passou por mim, agarrando minha mão. Ele me puxou
com ele, seus dedos entrelaçando os meus e nós saímos.

Seus homens estavam à frente, alguns no lado oposto do cais, e


mais se arrastavam atrás de nós, mas pela primeira vez, eles se
misturaram completamente.

Uma emoção passou por mim.

Kai me levou para frente, mas ainda permaneceu nas sombras.


Nós não estávamos vestidos para o evento, embora isso não
parecesse importar. Assim que chegamos à entrada principal do
evento, um rugido atravessou a multidão e quase ao mesmo tempo,
todos se viraram para olhar de onde veio.

Kai me puxou de volta, continuando a manobrar através da


multidão. Eu percebi que ele estava fazendo isso de propósito. Sua
cabeça estava baixa, os ombros curvados para a frente. Ele estava
com a expressão serena, então ninguém prestou atenção. Isso me
surpreendeu, dado quem ele era, mas estava funcionando. Por
agora.
Quando chegamos a um lugar melhor, quase na beira do cais e
atrás de uma pequena cabine que estava fechada, Kai me deixou
olhar para trás.

Eu olhei e o mundo parou.

O tempo parou. Tudo em mim parou porque andando no meio


do píer, como se fosse o rei da porra do universo, estava meu pai. No
braço dele, minha prima. Era muito estranho vê-la. Uma presunção
em seus lábios, seus olhos brilhando e gananciosos enquanto
passeava ao lado dele. Ela usava um vestido de lantejoulas dourado,
sem alças e seus seios estavam quase saindo.

Isso deveria ter me deixado mal, vendo-os juntos. Ela era


sobrinha da minha mãe. Não havia relação de sangue entre os dois,
mas ele era meu pai e ela era minha sósia. Exceto que ela era
diferente. Havia algo nela que não se parecia nada comigo.

E eles pareciam pertencer um ao outro.

Ela era ruim, tanto quanto ele. Eu não sabia por que, o que ela
tinha feito, mas eu poderia dizer que ela pertencia àquele lugar. Seu
braço parecia o lugar perfeito para ela.

Eu devo ter feito um som porque um casal na nossa frente se


virou e Kai me puxou mais para trás.

— Você pode lidar com isso?

Eu sussurrei com os dentes cerrados.

— Eu quero matar os dois.


Uma risada baixa foi minha recompensa. Ele alisou uma mão
pelas minhas costas, descansando sobre a minha bunda antes de se
mover para a frente e se encostar no meu quadril. Ele pôs minhas
costas em seu peito e eu pude sentir seus lábios rocando na minha
garganta. Ele empurrou minha camisa para o lado, mordiscando
meu ombro enquanto sua mão começou a explorar. Ele correu para
o minha barriga, seus dedos escorregando dentro da minha calça e
eu quase caí para trás, inclinando quase todo o meu peso sobre ele.
Minha cabeça descansou contra a dele quando ele me beijava.

Ele nos moveu mais e mais para trás até que ninguém pudesse
nos ver. Nós nos separamos da multidão e, com alguns movimentos,
ele desamarrou a abertura da barraca.

Ele me puxou, amarrando uma corda no lugar, e então ele


estava em mim.

— O que estamos fazendo? — Eu perguntei entre beijos.

— Maldição, eu não sei. — Sua mão se moveu dentro da minha


calça e eu soube que seu dedo ia entrar em mim.

Isso era insano.

Meu pai estava do lado de fora conversando. Ele parecia estar


prestes a dar um show para esta multidão, e nós estávamos aqui. Kai
beijou minha garganta, sua outra mão segurando minha bunda
enquanto ele bombeava sua mão dentro e fora de mim.

Meus joelhos se dobraram.

Ele saiu de mim, mas só para me virar. Movendo a perna entre


as minhas, ele me segurou no lugar. Seus dedos voltaram para mim,
mas mais gentilmente desta vez, sensual. Ele empurrou dentro, tão
longe e sua boca começou a saborear minha garganta. Ele me beijou
e acariciou enquanto movia os dedos de volta para fora, indo
deliciosamente devagar.

Eu ofeguei, minha necessidade de montá-lo. Toda a porra do


meu corpo queimava agora. Minha cabeça caiu de volta ao seu
ombro e eu gemi.

— Sssshhhh. — Ele virou a cabeça, sua boca pegando a minha.

— Tem alguém aí?

Eu quase gemi de novo. Porra. Nós seríamos pegos.

Mas então.

— Não, senhora. Por favor, siga em frente. — Um guarda estava


do lado de fora. Claro.

— Mas...

— Siga em frente, minha senhora. Por favor.

A mão de Kai varreu debaixo da minha camisa, movendo meu


sutiã para o lado e envolvendo meu peito. Seu polegar esfregou
sobre ele.

— Estamos protegidos. — ele respirou. Sua mão deslizou para


o outro peito, me cobrindo, me queimando. — Você me faz perder o
controle. Meu Deus. Eu não posso, eu deveria estar lá fora,
observando seu pai e, em vez disso, um toque seu e eu não posso, eu
tenho que ter você. — Seus dedos pegaram o ritmo. Dentro. Fora.
Dentro. Fora. Eu o senti indo em direção ao meu ventre, e eu o
montei, movendo meus quadris sobre sua mão.

Eu agarrei seu braço, segurando-o ainda, e me movi mais


rápido. Mais firme.

Até que tudo explodiu em mim.

Eu gozei em silêncio, mas isso me deixou sem ossos e eu não


conseguia me mexer. Meu corpo inteiro se contraiu após os efeitos.
Eu mal conseguia levantar a cabeça.

Um gemido baixo escapou e os braços de Kai se apertaram ao


meu redor. Ele pressionou um beijo na minha boca, então meu
queixo, meu rosto, meu pescoço antes dele me segurar.

Eu podia sentir seu pau debaixo das minhas coxas.

Eu estendi a mão para ele, mas ele ficou tenso.

— Não. — Mas ele parecia relutante. Ele me afastou


lentamente. Suas mãos demoraram, correndo pelos meus braços, e
quando eu pude ficar de pé, ele entrou atrás para me abraçar. Seus
lábios encontraram a curva entre o meu pescoço e ombro e ele
passou os braços em volta de mim.

Eu sabia que nenhum de nós queria voltar lá.

Eu queria ficar nessa tenda. Era bom estar aqui. Eu queria esse
Kai comigo o tempo todo, amoroso, carinhoso, terno. O homem que
poderia me fazer perder o rumo e me dar tanto prazer que eu quase
vi a porra das estrelas, mas lá fora havia um Kai diferente. Ele teria
que ser frio, desapegado, implacável.
Um arrepio desceu pela minha espinha.

Esse era o meu Kai também, mas ele me assustava.

Ele suspirou, acariciando minha bochecha antes de levantar a


cabeça.

— Temos de ir. Eu tenho que ir. Nós temos algum tempo. Você
pode ficar aqui, se quiser. Por mais alguns minutos.

— Quando você vai levá-lo?

— Em breve.

Eu não sabia como iria acontecer e enquanto Kai saía depois de


apertar minha mão, tudo em mim ansiava por puxá-lo de volta.

Eu ansiava por mantê-lo comigo neste momento, porque


quando eu saísse, não havia como voltar atrás.

Eu vim com a intenção de machucar meu pai. Eu já tinha


tomado a decisão mais cedo. Eu iria mantê-la, mas muita coisa
poderia me colocar em dúvida sobre decidir isso e fazê-lo agora. Eu
estava no limite. E se eu falhasse, Kai estaria lá. Merda. Kai faria o
que tivesse que ser feito de qualquer forma. Ele estava fazendo isso
por mim; Eu sabia disso. E eu realmente não teria que participar,
mas eu estava lá para isso.

Na minha antiga vida, você tinha uma decisão moral em


momentos como este.

Se você vê o que vai acontecer e não faz nada, você é tão culpado
quanto. Para ser inocente, você deve intervir, você deve tentar
ajudar a pará-lo. Eu não ia fazer isso dessa vez. Então eu fazia parte
disso tudo.

Eu era culpada. Não importava se eu puxasse o gatilho ou não.


Seu sangue estaria em mim. Mas havia mais coisas acontecendo.
Aqui estava eu com Kai. Se eu continuasse com isso, eu escolheria o
lado dele.

Mas essa decisão já havia sido tomada também.

Não é?

Nós ainda não terminamos nossa discussão. Eu disse aquelas


palavras para ele, dizendo que ele me amava e não sabia como lidar
com isso. Sua resposta foi sair.

Ele se foi. Depois eu saí. Então ele me fez gozar forte para cacete
que eu não consegui ficar em pé depois. Então eu ainda tinha
algumas coisas para pensar e resolver.

Agarrando uma cadeira, afundei-me nela.

Foi quando eu o ouvi. A voz do meu pai do lado de fora.

Ele estava rindo, se gabando. Era engraçado como nada havia


mudado, desde que eu tinha doze anos. Aquele som ainda fazia os
cabelos na parte de trás do meu pescoço se arrepiar. Ele fazia meu
estômago revirar de nojo, como sempre.

Quando o ouvia berrar ordens em casa. Quando algo o deixava


furioso durante uma refeição, se não havia sal suficiente ou ele de
repente decidiu que precisávamos de ketchup, mesmo que ele
tivesse proibido, dizendo que era abaixo de seu paladar. O jeito que
ele soava quando os colegas estavam com ele, como ele falava com a
minha mãe de uma forma que a forçava a ser legal, ser educada e
não dizer uma maldita palavra. Que seria melhor ela sorrir ou ela
não seria capaz de andar no dia seguinte.

Da surra que ele lhe daria.

Sua risada passou sobre mim e senti náuseas subindo pela


minha garganta. Era a mesma risada que ele usou quando eu o ouvi
trazer uma mulher para a casa. Ele a levou para o porão e eu sabia
que havia outras. Minha mãe também sabia.

Eu tinha nove anos, mas sabia o que ele estava fazendo com ela.

Minha mãe.

Eu não a via há tanto tempo. Foi há três anos quando a vi no Dia


de Ação de Graças dos Estados Unidos. Era um feriado que nós duas
gostávamos, e esse dia foi especial para mim. Ela conheceu alguém
um ano depois de deixar meu pai. Pareceu-me rápido, porque foi
quando eu parti também, mas não tinha lugar para emoções além da
felicidade de que ambas estivéssemos vivas. Seguras.

Ela tinha alguém que a amava, protegia-a e, embora ele não


soubesse do seu passado, eu também sabia o que mais ela estava
tentando me dizer.

Ela ia começar de novo. Eu nunca contei a ninguém, mas é por


isso que me tornei uma Hider.

Eu concordei com a separação dela porque eu queria que ela


começasse de novo. Eu não queria que meu rosto fosse um lembrete
de seu passado, da tortura que ele a fizera passar e encontrei um
novo propósito na vida.
Eu estava melhor. Eu estava viva. Ela estava viva.

Ela teve mais dois filhos, um menino e uma menina. Eu tinha


visto as fotos deles. Blade os manteve sob observação por mim.
Ambos praticavam esporte, obtendo as melhores pontuações para
sua idade. Eu estava feliz por eles.

Eu estava orgulhosa.

Eles estavam perto da idade que eu tinha quando fui a Hillcrest.


De alguma forma, sabendo que eu estava prestes a enfrentar meu
pai, isso me atingiu com força. Ele sentou comigo, me dando uma
sensação de brevidade da vida.

Eu tinha treze anos quando pensei que minha mãe tinha


morrido, quatorze quando descobri que ela estava viva e ainda
quatorze quando a perdi de novo. Tudo por causa dele.

E de repente, aqui estava eu agora, queimando com aversão


renovada.
Saí da tenda e um guarda acenou para que eu me movesse
alguns passos atrás de um pódio.

— Você está bem? — Kai estava ao meu lado em um piscar de


olhos, sua mão encontrando meu cotovelo.

Eu olhei para o rosto dele. Ele estava cansado. Ele estava tenso,
mas estava alerta. Eu reconheci o outro olhar em seus olhos. Ele
estava caçando. Ele era o predador do meu pai, e eu juro, uma parte
do meu coração inchou, embora não devesse.

Eu balancei a cabeça, sentindo tudo do meu peito para baixo


ficar entorpecido. Eu não queria mais sentir.

— Eu estou bem. — Eu balancei a cabeça novamente, firmando


meus ombros, levantando meu queixo. — Estou pronta.

Ele olhou para mim, cinco batidas antes de sua mão cair na
minha.

— Bom.

Ele se moveu para ficar ao meu lado, de frente para onde meu
pai estava. Ele estava conversando com outro casal, um homem e
uma mulher mais velhos. Minha prima estava ao lado dele, o braço
em volta da cintura dele e a mão dele estendida nas costas dela. Ele
deslizou para baixo, a colocando em sua bunda e permaneceu lá. Ela
chegou mais perto do seu corpo, tocando seu peito e inclinando a
cabeça para trás para rir.
Este era outro mundo.

E teria sido o meu, se ele me deixasse viver.

Eu teria sido uma daquelas garotas em um vestido de


lantejoulas, uma companhia troféu para outro homem. Talvez nem
sempre tenha sido esse o caso, mas meu pai teria desejado. Ele
queria que eu estivesse com alguém que pudesse lhe trazer mais
poder, mais dinheiro, só mais, mais, mais. E se eu não fizesse, ele
teria se livrado de mim.

Eu lutei contra um tremor no corpo. Kai sentiu isso. Ele olhou


para mim. Eu o ignorei, levantando minha cabeça novamente.

Ele deixou passar. Kai estava ganhando tempo. Ele caçaria sua
primeira presa e depois miraria em sua segunda, eu. Mas isso seria
depois. Quando ele se virou para meu pai, meus pensamentos
vagaram novamente.

Eu procurei por uma boa memória do meu pai, mas não tive
nenhuma.

Isso dizia alguma coisa, não era?

A maioria dos pais, mesmo que sejam idiotas, ainda deixam


alguma lembrança para uma criança. Mas eu não tinha nenhuma. Eu
só lembrava quando ele machucava minha mãe, quando ele gritava
com ela ou comigo no jantar.

Eu me lembrei dos efeitos dele. Lembrei-me de como ela


tremeria na mesa de jantar, como ela derramaria sopa da colher se
fizesse algo que ele não gostasse. Lembrei-me de como todos
ficavam tensos quando ele estava no quarto, na casa. Lembrei-me da
empregada chorando, correndo do quarto. Lembrei-me de como ele
gritou com o nosso mordomo. Eu me lembro como o chef cozinhara
seis pratos uma noite, caso ele odiasse um deles, o que ele fez. Eu me
lembrei de tudo de ruim.

Eu tentei. Eu realmente fiz, mas não conseguia me lembrar de


nada bom.

Não havia amor em mim por meu pai e, por causa disso, sofri.
Deveria ter uma coisa que eu amava nele. Não havia nada.

Eu estava gelada enquanto estava no braço de Kai, observando


o homem que ajudou a me trazer a este mundo.

Não senti calor por ele. Nem mesmo um lampejo.

Esperamos por duas horas.

Quase todo mundo estava bêbado, se divertindo, rindo,


tropeçando em seus vestidos. Os homens tentaram manter seus
encontros, mas estavam igualmente bêbados. Eles tombavam para
frente, agarrando-se um ao outro e rindo. Havia muita risada.

Eu não senti vontade de rir.

Eu não senti nada.

Eu me movi com Kai e permaneci em silêncio, ganhando tempo.


— Eu achei que você tivesse dito em breve.

O braço de Kai apertou minha cintura. Ele virou a cabeça, sua


boca se aninhando logo abaixo da minha orelha.

— Eu disse. Me falaram que ele iria embora depois de seu


discurso.

O seu discurso.

Eu suprimi um estremecimento. Eu estava na cabine,


lembrando da minha mãe quando ele estava falando, e fiquei feliz.
Eu não achei que seria capaz de assimilar as duas coisas, não ao
mesmo tempo.

— Isso foi há duas horas.

— Eu sei. — Sua mão encontrou a minha e ele apertou. —


Paciência. Isso é tudo o que posso dizer.

Durante a primeira hora, meu pai se moveu pela multidão,


conversando, rindo com as pessoas. Eu me preocupava que ele nos
encontrasse, mas Kai estava sempre nos tirando de sua linha de
visão. Ele não nos viu. Nossos guardas despertaram algum interesse,
mas não muito e eu fiquei surpresa com isso.

Um deles estava na pista de dança agora. Outros dois estavam


rindo alto, encorajando os clientes a beber no bar. Alguns estavam
descansando nas mesas, conversando com as pessoas como se
fossem amigos há muito perdidos. E ainda havia mais. Dois estavam
atrás de nós, parados perto da água, como se quisessem pescar. Os
mais próximos estavam mais atentos, mantendo um olho atento ao
chefe. Ou o líder deles.
Kai era mais o líder deles do que o chefe deles.

Eu percebi isso também, observando eles e ele pelas últimas


duas horas. Ele era um líder desde o começo. Ele entrava na briga.
Ele não se afastava, deixando que eles o guardassem. Ele estava
alinhado com eles, na linha de frente do que estava acontecendo.

Lembrei-me de como ele foi o único a atirar no homem no avião.


Como ele foi o único a atirar na mulher no armazém. Ele. Não seus
homens. A seu modo, ele os protegia tanto quanto o protegiam.

Essa era outra razão pela qual qualquer um que fosse contra ele
perderia.

Ele não comandava a lealdade de seus homens. Ele ganhou isso.


Eu vi em Eric. Ele não era um guarda. Ele era mais. Ele era de outra
família no conselho e tinha sido com Kai que ele queria aprender. Eu
sabia que ele usaria a aliança de Eric algum dia. Kai não faz nada sem
razão, sem um pensamento cuidadosamente analisado.

Kai passou a mão pelo meu lado, seu dedo roçando meu seio.
Ele sorriu.

— Você está bem?

Eu estava? Pensei em meu pai, porque estávamos lá e nas


lembranças que surgiram sobre minha mãe.

Eu movi minha cabeça para cima e para baixo.

— Mais do que bem.

Os olhos de Kai se arregalaram e ele segurou o polegar ao lado


da minha boca. Ele pressionou lá, sentindo meus lábios, seu polegar
passando por eles por um momento, apenas um instante antes de
sorrir.

— Bom. Porque é hora do show.

Eu gostaria de dizer que o plano foi elaborado ao estilo Ocean's


Eleven9, mas não foi. Foi muito simples.

O evento finalmente chegou ao ponto em que apenas algumas


pessoas permaneceram. Meu pai era um deles. Minha prima estava
bêbada ou esgotada e ela tropeçava ao lado do meu pai enquanto Kai
me arrastava pelo cais até a beirada. Nós os seguimos, mas nenhum
deles pareceu notar, e pela primeira vez, não vi nenhum de nossos
guardas por perto. Embora isso não significasse que eles não
estivessem lá.

Quando chegamos ao fim do cais, meu pai parou, minha prima


ao lado dele. Ele estava focado em seu telefone e olhando para a rua.

Ele estava esperando por um carro.

Kai nos puxou para trás, a dez metros de distância, e ele


observou.

Um SUV virou, parando na frente deles. Meu pai e minha prima


entraram.

9
Onze Homens e um Segredo
O SUV saiu e outro SUV o substituiu, mas desta vez, Kai e eu
estávamos correndo. Eu estava atrás. Kai ficou na frente.

— Vá quando estiver pronto. — disse ele em seu telefone.

Mais dois SUVs passaram rapidamente por nós, movendo-se


para interceptar o SUV do meu pai até que ele se desviou e o
motorista pisou no freio. Quando parou, os guardas correram dos
outros SUVs, cercando o que meu pai e minha prima estavam.
Abriram as portas, apontaram armas em seus rostos. Minha prima
foi jogada na calçada. O homem no banco do passageiro do SUV do
meu pai levantou uma arma e acertou o motorista na cabeça. A
buzina soou até que seu corpo foi puxado para o lado e isso era tudo
o que eles queriam.

Eles forçaram meu pai a entrar em um de nossos SUVs, os


guardas bateram as portas e foram embora.

Tudo em trinta segundos. Os homens de Kai trabalhavam como


uma máquina bem lubrificada. Meu pai não teve nenhuma chance.

Eu me virei quando nós avançamos e tivemos um vislumbre da


minha prima, seus olhos arregalados em choque.

Ela estava pálida, a boca aberta antes de chorar.

Mas esses olhos. Eu nunca mais os veria.

Eu reconheci o olhar. Era o mesmo que eu fiquei quando soube


que minha mãe estava morta. A minha prima Tawnia ficou
traumatizada. Neste momento, está memória seria marcada para
sempre em sua consciência. Ela nunca mais seria a mesma.
Eu não queria pensar ou sentir, mas quando voltei para o carro
e olhei para frente, eu sabia que era verdade. E eu fiz parte disso. Se
foi para o bem ou para o mal, apenas aconteceu.
Há esse pressentimento no ar quando algo importante está
prestes a acontecer.

É um sentimento ao seu redor, mas dentro de você também.


Como se algo não fizesse sentido, como se algo estivesse errado,
uma desgraça iminente é um trem de carga invisível e você não pode
sair do caminho. Você está nos trilhos. Você pode ouvi-lo. Você pode
senti-lo. Você pode até sentir o cheiro, mas você não pode vê-lo.

Você apenas sabe que está vindo para você.

Andando naquele SUV, correndo pelas ruas de Milwaukee em


uma caravana de dois outros SUVs, senti aquela sensação.

Eu olhei para longe da janela e observei Kai no banco do


passageiro da frente. Sua mandíbula era forte, seus ombros
relaxados. Ele não parecia rígido, nem tenso, nem nada além de
calmo.

Sereno.

Essa era a palavra que eu procurava, mas essa maneira de


descrever o que estava prestes a acontecer também parecia errada.
Eu não sabia o que Kai havia planejado, mas sabia que ele tinha um
plano. Ele sempre tinha e eu sabia que o resultado final seria a morte
do meu pai. De alguma forma.

Meu estômago deveria ter se apertado com isso.


Eu deveria ter me sentido pronta para ter um colapso nervoso.
Mas eu não senti. Eu só tive uma sensação de algo morto no ar e quão
fodidamente útil era isso?

Nós dirigimos para o norte para o mesmo armazém que eu


tinha dormido mais cedo.

Todos os três SUVs entraram no estacionamento, entraram no


depósito e pisaram nos freios. Os guardas emergiram todos ao
mesmo tempo.

Houve muitos gritos.

Uma van parou atrás de nós, depois uma segunda van.

Guardas dispersos, quatro indo para cada van. Eles abriram as


portas dos fundos. Mais gritos. Comandos no ar.

Eles trouxeram um homem com as mãos amarradas atrás das


costas e um saco sobre a cabeça. Ele usava roupas pretas, iguais às
dos guardas, um terno preto, mas tênis de corrida. Sua roupa estava
enrugada e rasgada e ele cheirava como se não tivesse mudado de
roupa ou tomado banho em dias.

Do segundo furgão veio um sujeito vestindo jeans sujos e


rasgados e uma camiseta cujas extremidades estavam presas
debaixo de um moletom rasgado. Duas metades da manga pendiam
de um braço, o que era uma confusão de hematomas e vermelhidão.
Sangue seco. Uma erupção cutânea. Outras cicatrizes

Quando os guardas passaram correndo por mim, vi que as


cicatrizes eram queimaduras de corda.
Seus braços estavam amarrados na frente dele e ele também
tinha um saco na cabeça.

Minha sensação de morte só se intensificou.

O prisioneiro um foi levado para um escritório à nossa direita.


O segundo foi levado para um escritório lateral.

Então eles puxaram meu pai para fora, suas mãos amarradas
com corda e um saco sobre sua cabeça também. Um guarda trocou a
corda em torno de seus pulsos por braçadeiras antes de segurá-lo
pelo braço e conduzi-lo ao escritório à direita.

Kai ficou do lado de fora da minha porta, esperando por mim.


Me assistindo.

— Onde estão Brooke e Jonah? — Eu perguntei.

— No caminho de volta para Vancouver.

Eu tive um pensamento fugaz de que talvez fosse o melhor.


Ambos estavam bêbados. Eles poderiam dormir a maior parte do
caminho. Então esse pensamento saiu e o vazio retornou.

Por fim, perguntei.

— Por que estou aqui?

Kai não precisava de mim para isso. Talvez pelo meu pai,
porque eu pedi, mas não pelos outros dois. E quem eram os outros
dois? Há quanto tempo ele planejava isso? Quanto tempo ele os
tinha?

Ele franziu a testa antes de se aproximar.


— Você não quer estar aqui?

Eu queria?

Ele esperou.

Eu olhei para baixo. Eu disse a ele que sim. Fui longe demais
para fazer essa afirmação, na verdade. Eu disse a ele que queria fazer
parte disso por causa do meu pai, que queria destruí-lo, mas vacilei
agora.

Kai se aproximou, sua mão deslizando ao redor do meu pescoço


e seus dedos enfiando no meu cabelo. Ele baixou a testa para a
minha.

— Você não precisa estar aqui. Você realmente não precisa.

Ele segurou o lado do meu rosto e eu me inclinei, saboreando


seu toque e fechando os olhos por um momento.

Quando os abri novamente, ele estava me observando. Como


sempre.

Esperando. Como sempre.

Estava lá. Como sempre.

Eu estava tão danificada por dentro.

— Estou com medo de ver o que você vai fazer. — eu sussurrei.

Essa era a verdade, da maneira mais real que eu poderia dizer.

— Por quê? — Ele inclinou a cabeça para o lado.


Minha mão descansou sobre a dele. Por quê? Eu me fiz essa
pergunta, repetidamente.

A verdade. Fique com a verdade.

Minha mão tremia sobre a dele.

— Porque eu tenho medo do que isso vai fazer comigo.

Eu agarrei sua mão, pressionando-a contra o meu peito.

— Eu não sou um idiota. Sei que é mais do que provável que


você mate todos os três homens e, embora tenha escolhido ficar ao
seu lado, e permanecer ao seu lado, estou confusa sobre a coisa certa
a fazer. — Eu respirei fundo. As palavras vieram mais rápido do que
eu poderia processá-las agora. — A Hider em mim deveria tentar te
impedir. Mas como filha de um desses homens, quero ficar para ver
a vingança se desenrolar. A mulher em mim está com medo. Estou
apenas com medo.

Kai envolveu seus braços em volta de mim e, assim, senti


certeza e força girando dentro de mim. Mas não era minha. Era dele.
Ele estava dando para mim ou eu estava absorvendo isso dele. De
qualquer forma, eu sabia que era um dos integrantes da equipe de
Kai agora, assim como ele disse.

Eu era um dos integrantes de Kai, sua refém, sua amante, sua


amiga, sua confidente, sua inimiga.

Eu era dele, mas ele também era meu.

Ele era? Poderia Kai pertencer a alguém?


Tão rápido quanto essa necessidade possessiva surgiu em mim,
desapareceu.

— O que você precisa de mim? — ele perguntou.

Sua honestidade foi brutal. E me derretendo.

— Eu preciso saber o que sou para você. Estou mudando a


estrutura de quem eu sou por sua causa, por isso preciso saber se
vale a pena. — Eu parei uma batida. — Eu te amo, mesmo que não
devesse. Eu amo.

Seus olhos escureceram. Seus lábios se separaram. E ele estava


me beijando.

Era uma reivindicação possessiva. Quente. Comandando. Sua


língua varreu para atender a minha, e eu gemi em sua boca,
empurrando os dedos dos pés e envolvendo meus braços em volta
do seu pescoço.

Eu não sei quando eu me apaixonei por ele, mas aconteceu e eu


não poderia mudar isso.

Eu nunca poderia voltar para a vida que levava antes, para


qualquer uma das duas vidas que eu levara antes.

Ele recuou, seus lábios repousando sobre os meus.

— Espere por mim. Eu direi o que você precisa ouvir, mas não
agora. Aqui não. Espere. Você pode fazer isso?

— Eu não tenho muita escolha. — Meu sorriso foi triste.


O canto da boca dele puxou para cima e ele me beijou
novamente, em seguida, deu um beijo na minha testa. Ele parou lá
por um momento.

— Apenas espere. Por favor.

Apenas espere.

Essas eram minhas instruções.

Ele me deu um terceiro beijo, depois me levou ao primeiro


escritório. Uma vez lá dentro, ele me colocou em um canto escuro,
encostada na parede. Um homem estava sentado em uma cadeira
solitária no meio da sala, com uma única luz apontada para ele. O
resto do quarto estava escuro.

Eu sabia que não era a única em pé nas sombras.

Kai andou para frente. Ele não fez nenhum som. Ele era como
um fantasma novamente.

Ele suspirou. O som era tão alto naquela sala, e era a deixa de
todos.

Nós estávamos prestes a começar.

Ele virou-se para uma parede e falou.

— Traga-os para cima.

Demorou um segundo, mas uma imagem de videoconferência


surgiu e encheu a parede inteira. Nela havia uma mesa, em uma sala
semelhante à nossa, e ao redor da mesa havia oito pessoas, três
mulheres e cinco homens, todos de meia-idade ou mais.
Uma mulher sentou-se no final, com os cabelos grisalhos presos
em um coque no alto da cabeça. Ela usava um suéter preto de gola
alta, óculos de armação preta e maquiagem mínima. Ela era a
imagem da elegância, elegante e rica.

Ela estava encarregada do encontro.

Ela cruzou as mãos sobre a mesa e se inclinou para um


microfone na frente dela.

— Ok, Kai. Estamos todos reunidos. O que você quer que nós
saibamos?

Kai olhou uma vez em minha direção antes de andar para frente
e cruzar as mãos na frente dele. As próximas duas palavras me
fizeram engolir porque não era o que eu esperava; eles não eram
quem eu estava esperando.

— Bem-vindo, Conselho. — disse ele.


A mulher elegante se inclinou para frente, cruzou as mãos uma
sobre a outra e nos olhou.

— Você mandou uma mensagem dois dias atrás para montar.


Estamos aqui nesta hora ímpia e, quando terminarmos, ainda terei
que viajar para casa. Eu sentirei falta da festa de aniversário da
minha neta, então vamos apressar isso. Quem você tem atrás de
você?

Kai tirou a sacola do cara.

Seu rosto estava muito machucado e inchado em um lado


inteiro. Seu lábio fora estourado e o sangue seco ainda endurecido
por cima. Um olho mal abria.

Eu mudei mais para trás contra a parede, porque reconheci


esse olho.

— Este é o guarda de segurança que se aproximou de um


convidado meu em nome de Bruce Bello.

Os olhos de Kai se estreitaram enquanto ele esperava por sua


reação. Alguns dos membros do conselho se juntaram, começando a
conversar.

— OK. OK! — A mulher bateu a mão na mesa, lançando um


olhar para os membros. — Estamos aqui para ouvir a família
Bennett. Parem de falar. — Ela olhou para Kai novamente. —
Estamos todos conscientes de Bruce Bello e que você tem sua filha
sob seus cuidados. Ela é a convidada que esse homem se aproximou?

— Sim. — Kai se virou para o homem. — Você foi meu guarda


por quatro anos. Você sempre trabalhou para o Bruce Bello?

O homem tossiu, empurrando para frente. Nós esperamos até


que ele estivesse pronto. Ele levantou a mão para limpar a boca.
Havia sangue nele. Ele levou um segundo para se recompor.

— Não. Fui fiel e fiel até receber um e-mail codificado da Bello


há apenas algumas semanas.

— E este e-mail dizia?

Deus. Kai estava sem emoção. Seu comportamento dizia que


toda e qualquer pergunta que ele fizesse seria respondida. Este
homem foi torturado em submissão.

— Ele tinha uma foto da minha filha nos braços de um homem.


Ele estava segurando uma faca em sua garganta. O e-mail dizia que
eu deveria fazer o que ele queria ou ele mataria minha filhinha.

— E quais foram as instruções dele?

— Eu deveria matar a filha dele para salvar a minha.

Kai levantou os olhos para mim naquele exato momento.


Nenhuma reação. Sem choque. Nenhum remorso. Sem simpatia. Ele
já sabia disso tudo.

Ele sabia, e ele não tinha me dito, mas, novamente, por que eu
estava surpresa? Isso era algo que meu pai faria.
— Alguma outra instrução? — Ainda tão frio, Kai se virou.

— Sim. — O lado da boca dele ainda podia usar a ponta para


cima em um sorriso feio. — Eu deveria matar você ou o máximo de
sua família possível. Bello disse que me pagaria bem se eu fizesse.

Kai dobrou a cabeça para baixo.

— Obrigado.

A porta-voz limpou a garganta, chamando a atenção de todos.

— E a filha dele, Kai? Eu suponho que você ajudou a resolver


isso.

— Eu estou com ela. Ela está segura. — Ele se virou para o ex-
guarda, pretenso assassino de meu pai. — Sua esposa e filha serão
cuidadas. Eu te dou minha palavra.

Demorou um segundo.

Por que ele falaria dessa maneira? Por que ele não apenas diria
que eles estavam seguros e sendo cuidados, não que eles seriam
cuidados? Por que a cabeça do homem empurrou para trás, seus
olhos brilhando de lágrimas enquanto ele assentia.

— Obrigado. — disse ele com voz rouca.

Kai se voltou para o conselho.

— Senhor?

Dois homens entraram em nosso quarto. Kai recebera um sinal


sem que ninguém soubesse, mas não foram eles que falaram. Foi o
ex-guarda. Ele viu os homens chegando e se inclinou para frente.
— Senhor, eu posso dizer alguma coisa?

Kai vacilou. Eu segurei minha respiração.

Eu esperava que Kai o escutasse sem emoção, sendo seu eu


implacável e impiedoso. Ele era o chefe da máfia Bennett e ninguém
mais naquele momento, mas não se voltou imediatamente para o
empregado anterior.

Ele olhou para mim primeiro e a dor brilhou em seus olhos.


Estava lá e depois se foi.

Ele se recompôs novamente, seu rosto se contraindo. Só então


ele olhou para o homem.

Uma lágrima escorregou pelo rosto do homem.

— Eu sei o que vai acontecer comigo. Eu te traí e há um código.


Eu quebrei isso. Por isso, peço desculpas. Eu realmente sinto muito
não ter vindo até você quando recebi esse e-mail. Eu apenas... — Ele
desviou o olhar. — Eu queria que você soubesse disso e sei que você
se importaria com a minha família. Obrigado.

Morte.

Essa era a penalidade.

Eu recuei contra a parede. Kai ia mandar executá-lo porque


tentou me matar.

Como se sentisse o meu tumulto, Kai me olhou de novo. Seus


olhos estavam penetrantes, brilhando com uma mensagem sem
nome e eu ofeguei em silêncio. Ele ergueu a mão para os homens e
depois a abaixou.
Os dois homens pegaram cada um em um braço e eles saíram
com o guarda em desgraça. Kai me observou enquanto eu o
observava. Não havia mais luta no homem. Ele foi de bom grado. Ele
já estava morto e sabia disso.

Kai queria que eu visse tudo isso. Havia mais dois por vir. Por
que ele quer que eu veja isso? Para me assustar? Para me avisar?
Para me preparar

Bang!

Eu pulei, apertando a mão sobre a boca no tiro.

Kai se aproximou e segurou a parte de trás da minha cabeça. Eu


teria batido na parede, mas ele amorteceu minha idiotice. Meus
olhos estavam arregalados, encarando os dele e eu não pude me
conter. Uma lágrima escorregou pela minha bochecha.

Ele se inclinou para frente.

— Sssshhhh. Eles não podem ver você. Eu não quero que eles
saibam que você está aqui. — Seus olhos se fecharam. Sua testa
descansou contra a minha bochecha e seu polegar esfregou o lado
do meu queixo. — Confie em mim. Por favor. — Ele levantou a
cabeça novamente. — Há um ponto para tudo isso. Eu prometo.

Meu coração batia forte, mas eu estendi a mão e agarrei a parte


de trás de sua cabeça, pressionando sua boca na minha em um beijo
duro.

— Vá. Faça o que você precisa.

Sua mão deslizou pelo meu braço e ele pressionou um beijo


mais suave na minha boca antes de se afastar.
Ele voltou para a frente da sala, no centro do palco para o
conselho, antes de voltar para a porta.

Ele abriu e eles arrastaram meu pai. Minhas costelas estavam


começando a doer, mas Kai disse para confiar nele. Eu faria isso,
embora fosse preciso toda a minha força para permanecer naquela
sala.

Kai tirou a sacola da cabeça do meu pai. Ele estava lutando,


tentando correr e grunhindo ao redor da fita adesiva sobre sua boca.
Os guardas forçaram-no a sentar-se na cadeira. Ele continuou
recuando, a cadeira raspando no chão e Kai esperou. O conselho
assistiu.

Ninguém falou uma palavra.

Kai esperou que seu prisioneiro fosse subjugado. O conselho


estava apenas aguardando o próximo ponto da agenda. Essa era a
reunião de negócios deles. O que apresentações PowerPoint eram
para os outros, interrogar, torturar, executar um prisioneiro era
para eles. Apenas um tinha protestado o tempo desta reunião. Havia
olhares de resignação sobre os outros, como se uma reunião de fim
de noite, madrugada fosse comum para eles.

Isso estava tão longe do que eu fui uma vez, mas levantei minha
cabeça para Kai e sabia que não ia a lugar nenhum.

Esperamos mais cinco minutos enquanto meu pai lutava.


Finalmente, mais dois guardas entraram e trouxeram tiras de couro
para envolvê-lo, para que ele não pudesse se mover uma polegada
naquela cadeira. Eles até mesmo seguraram sua cabeça. Ele só
conseguia mover os pés e tudo o que ele fez foi soltar seus sapatos o
suficiente para chutá-los.

Finalmente, depois de mais dez minutos, ele parou. Um suspiro


profundo repentino o deixou e se ele pudesse ter baixado a cabeça
em derrota, eu não tinha nenhuma dúvida que ele teria.

Os quatro guardas recuaram e Kai avançou.

— Este é Bruce Bello.

A porta-voz disse.

— Sim. Nós sabemos. Por que estamos sendo submetidos a


isso? Você é a cabeça deste conselho. Você não precisa da nossa
aprovação para nada disso. Apenas execute os homens como achar
melhor. É o aniversário da minha neta, Kai. Um aniversário. Ela
queria que eu tomasse chá com ela e seus pôneis. Como avó, só vou
conseguir alguns desses anos antes que ela cresça e substitua seu
amor por mim com seu telefone. Chegue ao ponto!

Kai não se incomodou.

— Há um ponto e eu vou chegar a ele quando chegar a ele. —


Ele apontou para o meu pai. — Como todos sabem, este é Bruce
Bello. Ele está dirigindo uma linha de distribuição para uma de
nossas famílias.

— Sim. Sua.

— Eu cortei os laços com ele. Ele continuou trabalhando com


outro de nossos membros.

Agora houve mais de uma reação.


Os olhos da porta-voz ficaram afiados e ela se inclinou para
frente. Suas mãos se achataram na mesa. Em volta da mesa, mais
membros do conselho começaram a conversar um com o outro. Suas
vozes não eram mais apenas murmúrios.

Ela baixou a cabeça, os olhos fixos em Kai.

— O que exatamente você está dizendo aqui? Pare de enrolar.


Acabe logo com isso se você for acusar um de nossos membros de
alguma coisa.

Mais uma vez, Kai não se abalou.

Ele se virou para meu pai.

—Nós não tivemos tempo para questionar você ou para


garantir sua cooperação, então vou lhe dizer isso agora.

Os olhos do meu pai estavam examinando a sala


freneticamente, mas ele parou e olhou para Kai. Parte da selvageria
diminuiu. Kai se aproximou.

— É de seu interesse estar pronto.

Ele se inclinou, colocando uma mão em cada lado das costas da


cadeira para que ele tivesse meu pai preso. Ele falou baixinho para
que eu pudesse ouvir, mas não achei que o conselho atrás dele
pudesse ouvir alguma coisa.

— Você vai morrer no final disso, mas como é com você. Pode
ser rápido e indolor ou pode ser lento. Eu posso fazer a sua morte
demorar semanas, se eu quiser. É a sua escolha.
Meu pai começou a verificar a sala de novo, depois fechou os
olhos. Ele moveu a cabeça para cima e para baixo, o mínimo de um
movimento por causa de suas correias. Era o suficiente.

Kai tirou a fita da boca, tudo de uma vez.

— Argh! — Meu pai cuspiu sangue. — Maldito inferno, Bennett.

— Você vai cooperar?

Meu pai olhou para ele, ainda cuspindo pedaços de fita e


sangue.

— Sim. Eu vou cooperar, mas só se você me disser onde minha


filha está.

Kai ficou quieto. Seus olhos se estreitaram em fendas.

— Por quê? Para você poder machucá-la ainda mais?

— Então você pode terminar este trabalho para mim.

Eu endureci. Kai ficou tenso.

— Aquela cadela da minha esposa dormiu com meu sócio, mas


eu nunca pude provar isso. Ela era inútil, odiosa. Ela foi um
desperdício dos meus anos. Aquela garota também. Ambas estão
fodendo a minha vida.

Ele ainda estava falando, mas eu me fechei. Eu sabia, mas ouvir,


ouvir que ele não tinha respeito por nós, isso não era novidade. Eu
sempre soube.

— ...E ela era uma pirralha mimada. Nós a mandamos embora,


por isso eu nunca abri a cabeça dela no chão. Não poderia ter essa
mancha no meu azulejo, você sabe. Essa coisa era fodidamente cara.
Resistente. Eu trepei com minha empregada lá algumas vezes, então
eu sabia que poderia limpar, mas amaldiçoado se eu quisesse
sangue lá. Cadela do caralho. Ela e sua mãe. Eu queria que ambas
fossem embora. Não suportava nenhuma delas.

Ele ainda estava falando, veneno se derramando de seus lábios


e ele nem percebeu que Kai não estava mais prestando atenção. Ele
estava me observando.

Um olhar de pena penetrou em seus olhos e eu mostrei meus


dentes.

— Não faça isso! — Eu falei. Ele não queria minha pena


também.

Uma expressão endurecida se firmou no rosto de Kai e ele se


endireitou.

— Isso é o suficiente, Bello.

— Eu sei que você a pegou. Se ela não está nesta sala, ela está
por perto. Ela tem que estar. Eu sei que ela é sua nova porra de
estimação. Eu recebi fotos. Você acha que é o único com espiões?
Bem, eu também tenho o meu. Eu tenho imagens de você transando
com tanta força que eu as aproveitei. Tawnia teve dificuldade
naquela noite, mas ela adorou. Ela rebolava. A cadela estava
gemendo, chorando em cima de mim, mas amaldiçoada se ela não
gozasse. Ela veio com força. Gritando o tempo todo também.

— Cale-o, Kai. — O nariz da porta-voz se levantou em desgosto.


— Com quem ele tem trabalhado desde que você cortou relações
com sua empresa?
Kai não se virou para ela, apenas levantou uma sobrancelha.

— Bruce?

Meu pai calou a boca antes que os olhos dele baixassem.

— Eu não tenho trabalhado com ninguém. Eu estou fazendo


meu próprio negócio.

— Eu te disse. Duro e longo, ou rápido e indolor. Sua escolha.

O ódio irradiava do rosto do meu pai quando ele rosnou de


volta para Kai.

— Eu vou te dizer. Eu vou te contar tudo, mas você tem que me


prometer alguma coisa. Você mata minha garota. Termine o
trabalho. Eu não quero que ela tenha nada meu. A cadela não merece
isso. — Ele tentou cuspir pelo canto da boca, mas ele não conseguia
mexer a cabeça o suficiente. O cuspe pousou em seu braço, quase
acertando o rosto de Kai.

Percebendo isso, seus olhos se arregalaram.

— Ah Merda. Eu sinto Muito. Eu não quis dizer... — Ele parou


de novo, olhando mais uma vez. — Não, foda-se você. Foda-se,
Bennett! Eu sei que você não vai fazer nada. Você não vai prometer
nada. Eu não estou dizendo uma...

A mão de Kai se moveu em um piscar de olhos para o lado do


meu pai e um gargarejo saiu da garganta do meu pai.

Mais sangue saiu de sua boca e ele ficou espasmódico. A mão de


Kai se moveu para trás, uma faca nela. A ponta estava coberta de
sangue escuro.
Ele pressionou a ponta na perna do meu pai para limpá-la.

— Agora, eu posso começar sua morte lenta se é isso que você


realmente quer. Ou você pode responder a porra das perguntas. A
escolha é sua.

Meu pai gorgolejou de novo.

— Foda-se você.

— Você quer que eu corte sua garganta aqui e agora? — Kai


bateu com as mãos nos ombros do meu pai e um grito rouco saiu do
meu pai antes que ele começasse a soluçar.

Eu estremeci. Esses soluços vieram de dentro dele.

— Foda-se você. Porra, — meu pai sufocou. Lágrimas escorriam


pelo seu rosto.

Kai deu um passo para trás, virando-se para mim brevemente


antes de voltar para o conselho.

— Você pediu a morte de sua esposa? — ele perguntou


categoricamente.

Meu pai franziu a testa.

— Sim.

— Você chantageou um dos meus seguranças para matar sua


filha enquanto ela estava sob meus cuidados?

— Sim.

Kai fez uma pausa. Então.


— Você está no negócio com a família Guaranno?

— O quê?!

— Ei...

— O que está acontecendo?

Todos esses protestos eram do conselho. Dois dos membros


empurraram as cadeiras para trás, ficando com o rosto vermelho
para a porta-voz. Não Kai. A porta-voz. Uma das outras mulheres
falou claramente:

— Qual é o significado disso? Jillian?

A porta-voz empalideceu, a boca aberta.

— Sentados. Todos. Sentem-se. — Ela bateu na mesa


novamente com a base da palma da mão. — Eu disse sentem-se!

Ela queimou Kai, meio rosnando.

— É melhor você chegar ao seu maldito ponto ou eu vou.

Kai falou sobre ela, calmamente.

— Bruce Bello, você ainda está no negócio com Jillian


Guaranno?

Ele esperou.

— Sim.

Ele se aproximou da tela. Sua pergunta foi dirigida ao meu pai,


mas ele não estava de frente para ele.
— Você tem trabalhado com a família Guaranno nos últimos
cinco anos?

— O quê?

— Jill!

— Isso não pode...

Mas a porta-voz ficou em silêncio, um resignado tremor passou


por ela. Sua cabeça se inclinou.

— Jillian! — A mesma mulher do conselho bateu na mesa com


os nós dos dedos. — O que está acontecendo aqui?

Mas o resto do conselho ficou em silêncio. Eles estavam


ouvindo o resto.

— Qual era o seu negócio com a família Guaranno?

Meu pai hesitou, seu lado ainda estava sangrando.

— Distribuição de armas.

Nenhuma reação da porta-voz, mas os outros pareciam


respirar coletivamente. A outra mulher murmurou quando se
sentou.

— Oh, Jill.

— Quais foram as suas instruções? — Kai perguntou.

— Para subestimar seu produto. Eu ofereceria o seu primeiro a


um preço mais alto, mais alto do que você queria que eles fossem
vendidos, e, se eles vendessem, eu ficaria com o dinheiro extra. Se
não conseguisse a venda, eu ofereceria a mesma arma a um preço
mais barato. Aquelas sempre vendiam.

— O que mais? — Kai rangeu, olhando para a porta-voz.

Quando ele olhou, uma porta no fundo da sala da tela se abriu e


eu reconheci alguns dos homens entrando. Um se aproximou da
mesa, movendo-se silenciosamente. Apenas os membros voltados
para a direção deles os viram e nenhum os entregou. Eles olharam
para ele, depois desviaram o olhar.

Era Tanner quem veio para ficar diretamente atrás da porta-


voz. Ele não disse nem fez nada. Ele estava esperando, como todos
nós estávamos.

A voz tensa do meu pai encheu as duas salas.

— Ela também me enviou produtos do mercado negro.

— O quê? — Isso veio do homem idoso do conselho. Mas ao


contrário dos outros, ele não fez perguntas. — Sua puta safada! —
Ele empurrou a cadeira para trás, sua voz subindo. — Nada disso foi
aprovado. Nós somos um conselho. Você tem que aprovar essa
merda. Desvalorizando a distribuição de armas dos Bennetts, e
depois? Também desvalorizar o meu negócio? Você vai morrer hoje
à noite, Guaranno. Você vai morrer uma morte horrível e lenta!

— Sr. Bello. — Kai chamou a atenção novamente. Ainda. Assim.


Fodida. Calma. — Você tem mais alguma coisa para compartilhar?

— Não.

Mas isso era o suficiente.


Essas eram questões que impactavam diretamente o conselho
e, embora eu não as conhecesse, sabia o que Kai havia exposto era
muito. Uma família tinha ido contra duas outras. Todos sabiam o que
aconteceria a seguir.

Kai fez um sinal para os guardas em nosso escritório e eles


desamarraram meu pai. Eles meio que o arrastaram, meio o levaram
porta afora e eu quase fui com eles. Esse era o fim? O grande final do
caralho?

Não podia ser, mas a porta se fechou antes que eu pudesse ir


com eles e senti a mão de Kai no meu pulso. Ele me puxou de volta.
Ele deu um tapinha reconfortante no meu braço e me deixou de
volta no meu lugar.

Eu esperei pelo tiro. Metade querendo, meio sabendo que eu


odiaria isso.

Mas não veio.


— Jillian. — Kai estava falando com o conselho novamente.

Ela ergueu os olhos assombrados e feridos para ele.

— Você tem algo a dizer?

— Não mate meus filhos. Meus netos. Por favor.

Kai perguntou aos outros.

— Alguma objeção à execução da família Guaranno?

— O quê? Não! — Ela estava levantando, a mão no ar. — Eu


disse não! Não. Não faça isso. Eles são inocentes. Eles não fazem
parte deste mundo. Minha neta...

Enquanto ela falava, um por um os membros do conselho


levantaram as mãos certas. Assim que o último foi feito, Kai acenou
para Tanner.

Tirando uma arma, ele pressionou o cano na parte de trás de


sua cabeça e me virei.

Bang!

Jillian parou de protestar e ouvi um baque.

Eu segurei firme, meus olhos bem fechados quando ouvi uma


suave fungada. Eu não sabia se era nesse quarto, se era eu, ou se era
alguém do outro lado. A cadeira raspou contra o chão e ouvi outro
baque duro seguido pelos sons de um corpo sendo arrastado pelo
chão.

Uma porta se abrindo.

Uma porta se fechando.

E silêncio.

Outra fungada.

Um homem tossiu.

Um segundo limpou a garganta.

Kai ainda esperava.

Eu não consegui olhar. Talvez eu devesse ter olhado, mas por


quê? Por que ver o que eu sabia que tinha acontecido?

A porta se abriu e fechou novamente. Eu não ouvi passos, mas


ouvi a cadeira se mexendo de novo, o som de algo limpando a mesa
e o chão. Isso continuou por um minuto antes de a porta se abrir e
fechar mais uma vez.

— Nenhuma das crianças Guaranno será prejudicada. — disse


Kai. — Os netos também. Apenas Jillian, seus dois irmãos e os dois
filhos mais velhos terão luz verde. Eles são os envolvidos nos
negócios de sua família. Estou dentro dos meus direitos como líder
do conselho para dar esta ordem, mas existem objeções?

Uma batida.

Mais um.
Ninguém se opôs.

Finalmente, o homem mais velho disse.

— Você faz o que precisa. Vamos seguir a família Bennett.

— A partir deste momento, a família Guaranno não é mais


membro do conselho, mas precisamos de uma nona pessoa para
votar no próximo assunto para que possa haver uma maioria. Eu
gostaria de pedir ao meu irmão Tanner que vote em seu lugar.

— Nós temos um assunto pessoal? — a terceira mulher falou,


aquela que permanecera quieta durante tudo isso.

Seu rosto veio para a luz. Ela estava em seus quarenta e poucos
anos, com cabelos escuros que caíam até os ombros e brincos de
pérola. Ela usava um suéter leve por cima de um top cintilante e seu
rosto tinha o menor rubor, combinando com seus lábios rosados e
suaves.

Ela não parecia zangada ou chocada, apenas preocupada.

— Eu pensei que fosse o suficiente para o dia.

— Mais um, Rose.

Ela assentiu, recostando-se em seu assento.

— Muito bem. — Ela olhou para um dos outros homens, um


com a cabeça cheia de cabelos negros e um brilho áspero nos olhos.
— Richard, você está bem com isso?

— Sim. Sim. — Ele assentiu. — Siga em frente.


Kai se virou para um dos guardas do nosso quarto e abriu a
porta.

O terceiro prisioneiro foi arrastado para dentro e colocado na


cadeira, mas ele não estava amarrado como meu pai. Havia pouca
ou nenhuma luta deixada nele.

O saco foi removida e, ao contrário dos outros prisioneiros, este


parecia satisfeito em simplesmente ficar sentado ali. Não havia
hematomas no rosto. Nenhum lábio ensanguentado ou
características inchadas. Ele nem parecia cansado. O que eu tinha
confundido sem briga foi apenas uma aceitação. Era como se ele
tivesse sido convidado para uma entrevista que não queria dar.

Ele era jovem, talvez vinte e quatro anos? Ele tinha cabelos
castanhos claros que pareciam ter acabado de passar a mão por ele,
olhos castanhos mel, uma boca inclinada que fazia parecer que ele
estava permanentemente divertido, e sobrancelhas escuras que de
alguma forma lhe davam um rosto mais redondo com bochechas
rechonchudas do que ele realmente tinha.

Ele teria sido um garoto de aparência fofinha em outra vida.

— Diga seu nome. — disse Kai.

O cara sorriu para ele, aquele lábio superior se curvando em um


sorriso torto.

— Levi Barnes.

— Por que eu te trouxe para este interrogatório hoje?

Levi deu de ombros, descansando em sua cadeira.


— Provavelmente tem a ver com o fato de você não me querer
com sua irmã, mas mais provavelmente tem a ver com o fato de que
eu estava juntando evidências contra minha família.

Um silêncio caiu sobre o conselho. Eles começaram a conversar


entre si, mas todos se animaram naquele último instante.

— Por que você estava coletando evidências contra sua família?

— É da família Barnes em Milwaukee? — um dos membros do


conselho perguntou.

Apenas Levi pareceu se ofender com essa afirmação. Seu


sorriso sumiu e suas sobrancelhas se aproximaram.

Kai assentiu.

— Eu não sou isso. — protestou Levi. — Eu sou uma pessoa boa


para caralho.

Kai o ignorou, dirigindo-se aos outros.

— Eu gostaria que a sala para os membros do conselho fosse


trancada.

— O quê? — Um dos homens falou.

Rose avançou novamente.

— Qual é o significado disto?

— Tranque a porta, Tanner.

Tanner já estava se movendo. Duas portas se abriram e mais


guardas entraram. Só os guardas de Kai, de mais ninguém. Eu
reconheci muitos deles. Eles se alinharam no interior da sala antes
que as portas fossem fechadas novamente e trancadas.

Todas as pessoas naquela sala eram agora prisioneiras. Kai


assumiu o controle total.

Eu tentei não reagir a isso, mas não pude ignorar o


formigamento que correu pela minha espinha, a forma que ele se
enrolou na minha barriga e começou a me aquecer.

Kai olhou para mim uma vez antes de se virar para Levi. Kai
ficou ao lado dele, falando com ele.

— Você tem um segredo sobre a minha família, não tem?

— O que está acontecendo aqui, Kai? — Rose exigiu. — Eu não


gosto de ser uma cativa para seus homens. Nós todos temos homens.
Todos nós temos famílias e não estou dizendo isso da maneira como
Jillian tinha. Minha família caçará a sua se você não conseguir...

— Estou chegando ao ponto maldito! — Kai gritou, seu exterior


calmo escorregando. — Sente sua bunda aí. AGORA!

Ela se acalmou, sua boca se fechou e, um segundo depois,


sentou-se. Eu observei como ela engoliu, sua mandíbula tremendo
antes de levantar o queixo.

— Kai Bennett, você não pode falar com outro...

— Eu posso e eu vou, e você pode querer ficar quieta para que


você possa entender onde diabos eu vou chegar!

— Kai... — outro membro começou.


— Cale-se! — Ele os queimou com um olhar. — Todos vocês. —
Sem esperar, ele se virou para Levi. — Diga a eles o que sua família
foi contratada para fazer. Agora!

Mas ele não fez. Levi se segurou, seus olhos contornando a sala,
passando por mim sem um segundo olhar e se demorando na porta
antes de encarar Kai novamente.

— Merda. — Ele passou as mãos pelos cabelos. — Isso é o que


está coisa toda era, não era? Não sobre eu virar minha família ou ter
uma aventura com sua irmã. Era sobre o outro assunto. Olha
homem... — Ele começou a se levantar.

Um guarda empurrou-o de volta para baixo, com força. Levi mal


notou. Ele levantou a mão, implorando a Kai.

— Eu não tive nada a ver com isso. Esses eram meus tios e, para
ser sincero, são todos bastardos. Somos basicamente inexistentes
no mercado em Milwaukee. Outra família nos expulsou. Nós só
temos algumas empresas, alguns circuitos de apostas. Isso é tudo.

Kai esperou que ele parasse de tagarelar e, assim que terminou,


repetiu.

— Diga a eles o que sua família foi contratada para fazer contra
a minha.

Levi amaldiçoou. Ele começou a balançar a cabeça, gemendo


como se estivesse com dor.

— Eu não posso fazer isso. Quero dizer... merda. Eu não posso.


Eu não posso. As coisas que eu estava ligando a minha família eram
mesquinhas. Nada grande. Nada disso. Eu não posso, não. Não me
faça Por favor. Eu amo sua irmã...

— Você não ama minha irmã. Você acabou de chamá-la de


aventura.

— Eu sei. Eu sei, mas há sentimentos lá. Certo? Cara, eu tinha


planos. Eu ia... — Ele procurou palavras.

Ele estava parado.

— Eu ia pedir para ela se casar comigo. Eu ia, sim. Sim! Eu tinha


tudo planejado também, até que você me pegou. Eu estava indo para
Minnesota para pegá-la. Nós íamos voltar para o México, casar lá. Eu
nem estava juntando evidências, na verdade não. Foi uma
configuração dos policiais locais. Eles armaram pra mim com
pornografia infantil.

Oh Deus.

Meus olhos se abriram novamente. Eu estava começando a ver


os pontos.

Oh, meu Deus.

— Eles confiscaram meu computador, colocaram essa porcaria


lá, ameaçaram me levar se eu não lhes desse algo ou alguém. — Levi
choramingou. — Então tanto faz. O que eu disse foi pequeno, tão
pequeno. Apenas um tapa no pulso.

Kai estava deixando ele se enforcar. Quanto mais Levi dizia,


pior era para ele.
Eu ajudei Brooke a chegar a Minnesota, mas ela encontrou um
lugar para se esconder sozinha. Essas pessoas tinham sido as
conexões dele. Isso significava…

Uma corda se apertou dentro de mim, torcendo todos os meus


órgãos ao redor um do outro, tudo em uma boa e apertada gravata
borboleta.

— Diga a eles. Agora.

Tão quieto, mas tão letal.

Eu vi Rose fechar os olhos em sinal de rendição. Ela sabia o que


estava por vir, o que quer que fosse.

— Porra! — Levi gritou antes de cair em sua cadeira. — Porra!


Porra! Porra! — Sua mão passou por seu cabelo mais uma vez antes
de ele se lançar para frente em seu assento, sentado na borda, seus
pés saltando para cima e para baixo. — Bem. Você quer saber o que
eles fizeram? Nós matamos sua mãe.

Eu esvaziei. E olhei para Tanner na outra sala.

Ele estava sem expressão até agora. Agora seus olhos estavam
arregalados, as sobrancelhas altas e a boca aberta. Ele estendeu a
mão, agarrando as costas de uma cadeira na frente dele.

Alguns dos membros do conselho lançaram-lhe olhares


simpáticos, mas não Rose. Não Richard, e não o homem idoso. Eu
não sabia quais famílias eles representavam, seus sobrenomes, mas
eu não achava que importava. De alguma forma, de alguma forma,
eles estavam envolvidos, porque todos os três estavam de olho nos
guardas ao redor deles.
Eu suspeitava que havia uma política que os membros do
conselho não pudessem sentar à mesa com armas. Então eles
estavam sentados como patos para o que quer que estivesse vindo
pelo caminho deles, estabelecido por Kai.

— Explique.

Levi olhou Kai, sacudindo a cabeça. Ele apenas continuou


tremendo, e sua perna começou a pular para cima e para baixo.

— Você é um idiota, você sabe disso?

Kai não o estava observando, mas seus olhos mortos


deslizaram em sua direção agora. Ele se aproximou.

— Comece a falar ou vou começar a torturar. Alegremente.

Levi parou por mais um momento antes de ceder.

— Bem. — Ele olhou para cima, já vacilando sobre o que estava


prestes a dizer. — Cerca de vinte anos atrás, minha família foi paga
para fazer um assassinato parecer um assalto. Meus dois tios
fizeram isso. Era para ser apenas a mulher, mas depois um segundo
pedido veio para o cara também.

— E essa mulher era?

— Já disse. — falou Levi. — Sua mãe.

— E o homem?

Ele ficou quieto por um momento.

— Amante dela. Randall Ritzo.


Os olhos de Tanner se voltaram para o homem idoso e, em um
segundo, ele tirou a arma. Dois passos e ele trouxe a ponta da arma
na parte de trás da cabeça do homem.

Ninguém disse uma palavra. Ninguém.

O homem idoso caiu para frente, a cabeça batendo forte na


mesa, mas ele levou a mão à nuca.

— O que o... — Ele puxou a mão tremendo de volta, sangue em


seus dedos. — Por que diabos você fez isso? Randall era meu filho!

Tanner rosnou, pegando a cabeça do homem e moendo-a na


mesa novamente.

— Minha mãe, seu velho fodido! Você os matou, não é? — Ele


franziu o cenho para Kai. — Você sabia disso? O TEMPO INTEIRO?!

Kai não respondeu, apenas se virou para Levi.

— Termine. Diga-lhes o resto.

Levi soltou um longo suspiro de sofrimento.

— Você vai me matar depois disso, não vai? Não importa se


Brooke me ama ou não.

Em resposta, Kai puxou sua arma. Ele apontou para ele.

— Diga a eles. — Ele engatilhou a arma. — Agora.

— Sim. — Ele levantou a voz. — Sim, a ordem veio da família


Ritzo. Era o filho dele. Nós não tivemos o propósito de matar seu
próprio filho, mas tanto faz. Famílias fizeram pior, especialmente
em nosso mundo. Então sim. Meus tios os mataram. Ambos. — Ele
franziu o cenho de volta para Kai. — Essa ordem veio do seu pai
também. Suas duas fodidas famílias estavam por trás disso.

— E um já foi punido.

Kai não tirou a arma. Em vez disso, ele se aproximou ainda


mais, colocando o cano contra a testa de Levi.

— Termine. De uma vez por todas.

Os olhos de Levi se fecharam e se abriram novamente. Ele


parecia cansado, magro.

Ele olhou além de Kai, além da arma.

— Um acordo foi fechado depois. Seu pai, Ritzo e todo o resto


da família se juntaram em um negócio paralelo. Quando você matou
o Senhor Bennett, a parte dele foi tomada por Dick Delaney.

A cara de Richard zombou, mas ele puxou sua camisa.

— Você está mentindo agora, Barnes.

— Você é um rato. — Rose se irritou, mas também estava muito


nervosa, mudando de posição, ainda de olho nos guardas mais
próximos a ela.

O único que não se manifestava era o homem idoso, que Tanner


deixou levantar a cabeça. O sangue escorria pela testa dele. Ele
tentou limpá-la, mas deixou uma mancha em todo o seu rosto.

— Qual foi o comércio? — Kai estreitou os olhos. — Estou


cansado de te pedir essa merda. Você quer viver, você conta tudo.
Não vou perguntar de novo.
Os olhos de Levi saltaram para os dele.

— Você vai me deixar viver? Depois de tudo isso?

— Eu me preocupo com a minha irmã.

Uma esperança renovada iluminou o olhar de Levi e ele se


endireitou na cadeira.

— Sim. Uh. Para todos aqueles que não sabem o que era nosso
negócio, era... — Ele mastigou o interior de sua bochecha. —
Comércio de sexo. Pornografia ilegal. Toda essa merda. Eu era o
homem de frente aqui. Minha família não queria lidar com isso,
então sim, eu criei aberturas na família. Todos do conselho também
sabiam disso. Eles estavam me ajudando a juntar evidências contra
minha família para que eu pudesse entrar no papel de liderança e
trazer o comércio sexual para cá. Eu também tinha que analisar a
concorrência. Há um grande grupo rival em Ohio, mas tínhamos
planos para eliminá-los. Só não cheguei a essa parte ainda, se é que
vocês me entendem.

Ele olhou para Kai por um segundo antes de continuar.

— Esses três nunca iriam incluir o resto de vocês no comércio.


Muito dinheiro e muita confusão porque nenhum deles estava
autorizado a fazer tráfico sexual. Apenas um deles tinha autorização
para fazer isso, era a família Guaranno, que... — Ele olhou, então
franziu a testa. — Eu não vejo ninguém de qualquer maneira.

Kai empurrou a arma contra ele novamente, apenas uma ligeira


pressão antes de recuar.

— Isso é tudo?
— Sim. — Ele olhou para Kai com cautela. — Isso é tudo. Exceto
que minha família não sabia o que eu estava fazendo. Apenas eu.
Minha família foi entregue a eles em outra briga contra uma família
rival, então depois que eles fizeram o serviço, eles foram pagos, e
isso foi tudo. Eu fui o único que conseguiu sair, disse que poderia
ajudar a trazer tudo para Milwaukee. Eu escolhi sua irmã como alvo,
disse àquele grupo que eu tinha poder sobre sua família. Eu deveria
ter conseguido algum podre sobre ela, então chantageá-la para
chegar até você. Eles queriam te derrubar. Esses três filhos da puta
ambiciosos, se você me perguntar. — Levi acenou para eles. — A
única razão pela qual eles me deixaram participar foi para te pegar,
porque eu já tinha começado a comer sua irmã.

— Certo. — Kai cortou, voltando-se para o conselho.

Dois guardas estavam agora atrás daqueles três membros do


conselho. Rose. Richard. Ritzo. Tanner havia recuado, os olhos
fechados. Ele estava contando para si mesmo, seu peito arfando.

— Você já ouviu o suficiente. — disse Kai. — Eu proponho


executar Rose Montieth, Joseph Ritzo e Richard Delaney
imediatamente. Cora, você começa.

A última mulher levantou a mão direita. O homem ao lado dela


também. E de novo. E outra vez.

Tanner foi o último, mas em sua mão direita estava uma arma
e antes que Kai pudesse dizer uma palavra, ele a pressionou na parte
de trás da cabeça do velho e puxou o gatilho.

Eu assisti dessa vez. Eu não consegui desviar o olhar. De um


jeito doentio, isso era fascinante.
Depois de todo esse trabalho, todo esse planejamento,
reunindo todos, esperando todos esses anos e fazendo tudo
acontecer agora, Kai nunca poderia deixar essa vida. Isto era quem
ele era, como pensava, como vivia, como respirava. Ou era? Puxando
meu olhar para longe, senti ele me observando e eu estremeci com
a dor em seus olhos.

Talvez…

Comecei a me afastar da parede.

Talvez não fosse assim que ele queria estar, mas ouvi a voz de
Jonah na minha cabeça novamente. Se ele caísse, todos caíam. Então
eu pensei sobre o que essas pessoas queriam fazer, o que eles
queriam que Levi fizesse para chegar em Kai. Eu não sabia o que
pensar, como determinar o que Kai poderia achar.

Sem uma palavra, Kai levantou a arma para Levi, seus olhos
segurando os meus.

Ele puxou o gatilho.


Depois que as execuções foram concluídas e ambos os quartos
foram limpos, Kai enfrentou o conselho.

— Haverá uma vaga na empresa de Bruce Bello. Eu gostaria de


inserir sua filha como CEO. Ela pode ser somente fachada ou o
realmente assumir a empresa. Usaremos os caminhões da Bello e
sua linha de distribuição para o resto de nossos negócios e
poderemos nos expandir mais para o sul posteriormente.

Quatro membros foram embora daquele conselho. Tanner não


se sentou. Ele permaneceu nas costas, mas seus olhos estavam em
chamas.

— E se ele tiver um substituto? — Cora perguntou. — Se por


algum motivo houver alguém para atrapalhar?

— Então nós pressionamos. — Kai examinou o resto dos


membros. — Todos a favor?

Um homem riu.

— Como se nós fossemos recusar qualquer coisa agora, Kai.

Kai não sorriu de volta.

— Todos a favor?

Quatro mãos direitas levantadas.


— Eu tenho outra proposta e é uma que vocês não vão gostar.
— Ele olhou em minha direção, embora seus olhos não
encontrassem os meus. — Há uma legislação mais rígida contra o
tráfico sexual. Eu gostaria que o conselho se retirasse
completamente desse comércio.

A testa de Cora se apertou.

— É um bom dinheiro, Kai. Estamos no negócio pra ganhar


dinheiro.

— É dinheiro estúpido. Não valerá o risco no futuro.

— Mas... — Ela começou a discutir novamente.

— Vamos abrir mais cassinos. Nós teremos mais receita vindo


da linha Bello e essa empresa nos dará um ponto de apoio em
Milwaukee. Podemos usar isso, espalhar-nos, ganhar mais força. O
círculo em Ohio é muito forte. Eu o investiguei. Eu não quero ir
contra eles, não de imediato.

— Kai...

— Nós vamos perder, — ele falou com outro membro que


protestava. — Nós perdemos quatro membros hoje à noite. São
quatro famílias que saíram e perderam o -negócio. Vamos cobrir a
base de Bello e ir para os Estados Unidos, mas cada um de vocês
pode pegar a receita deixada para trás por essas famílias.

— Exceto a família Guaranno. Além do negócio de armas, seu


comércio aprovado era o tráfico sexual. Quem vai perder esse
dinheiro?
— Quem quer que seja, pode ser trazido como um novo
parceiro no meu próximo empreendimento. Será no futuro, mas
acho que será competitivo. Só posso estender essa oferta como uma
maneira de compensar essa outra família.

Eles pareciam ponderar e depois se prepararam para votar.


Desta vez, para me livrar da função, eu pedi ajuda a Kai para fazer as
mudanças que ele havia proposto.

A votação iria passar. Eu parei de ouvir e só pude olhar para ele.


Ele fez isso por mim. Não houve nova legislação. O tráfico sexual era
um dos crimes mais fáceis de cometer com muito dinheiro
envolvido e ele sabia disso. Ele mentiu descaradamente. Por mim.

Não demorou muito para que os membros do conselho saíssem,


parecendo aliviados por poder fazer isso, mas a reunião não
terminou. Tanner permaneceu na sala e Kai também. Ele sentou-se
à cabeceira da mesa, olhando para o irmão.

— Quanto tempo você sabia?

Kai não perdeu tempo.

— Depois que matei nosso pai. Ele tinha notas criptografadas


que eu decifrei. Eu descobri então.

— Você é um merda.

Kai não respondeu. Tanner esfregou a ponte do nariz.

— Randall Cordell Ritzo. Esse é o nome completo dele. Cord.


Ela... Cord era... — Ele exalou bruscamente. — Você sabe o que eu
estou perguntando.
— Sim, ele era o pai de Cord. Mamãe tinha um diário. Ela falou
sobre seus assuntos lá.

— Jesus Cristo. — Ele empurrou de volta em sua cadeira, seus


braços dobrados sobre o peito. — Como você conseguiu isso?

— Essa é uma história para outro dia, mas Tanner... — A voz de


Kai caiu, quase reconfortante. — Ela estava infeliz com o nosso pai.

— Mas seu primeiro filho? Estou surpreso que ele não a tenha
matado imediatamente. — Seu tom ficou rouco. — Você é filho dele?
Eu? Brooke? — Uma risada amarga. — Nós sabemos que Jonah não
é, mas quantos outros?

Kai não respondeu.

— Kai. — Curto e duro.

— Brooke e eu parecemos com ele, mas você tem um rosto mais


redondo, então eu não sei. Isso é algo com o que você se importa?

Tanner levantou lentamente.

— Se você me deixar no escuro novamente e eu vou te matar.


Eu não dou a mínima para o que isso significa para o resto de nós.
Você entendeu? Não me deixe no escuro. Nunca.

Kai inclinou a cabeça. Seus olhos foram em minha direção.

— Se você quiser entrar você tem que merecer. — Ele olhou de


volta para Tanner, o calor se formando em seus olhos. Finalmente.
Depois de tudo isso, ele deixou o Kai real brilhar. — Se você não quer
ser tratado com cuidados e mimos, você comece a agir como um
fodido adulto. Você quer entrar? Você assume a Companhia Bello
para Riley.

Tanner procurou por mim e Kai também. Eu dei um passo à


frente, atravessando a sala até que pude ser vista na tela. As narinas
de Tanner se alargaram.

— Está tudo bem com você?

— Sim. — eu suspirei. Eu não queria estar envolvida, ou o mais


minimamente envolvida possível. — Eu anunciarei que estou viva e,
o que quer que aconteça, assumirei, então você poderá intervir.
Você pode fazer o que quiser com a empresa.

Eu não queria nada do meu pai.

— OK. — Ele rolou os ombros para trás. — Então eu vou fazer


isso.

— Bom. — Kai tocou a parte de trás do meu cotovelo


levemente. — Eu vou te ver quando você chegar aqui.

Ele olhou para o lado da sala e, de repente, a imagem


desapareceu. A ligação foi encerrada e, em poucos segundos, os
guardas restantes saíram da sala. Sobrou só Kai e eu.

— Você tem certeza de que o sinal não pode ser hackeado ou


visto pelo governo?

— Sim. — Ele se aproximou cautelosamente. — Estamos


seguros. Eu Me certifiquei disso.
Ele estava se certificando de que eu estava bem com o seu toque
também. Eu agarrei suas mãos e fui até ele. Meus braços deslizaram
ao seu redor, descansando minha cabeça em seu peito.

Ele cumpriu sua promessa. Em uma tarde ele fez mais do que
eu jamais poderia fazer em toda a vida como uma Hider.

Ele ajudou. Mesmo que ele estivesse na máfia, ele ainda se saiu
bem hoje.

— Obrigada, — eu murmurei, sentindo suas mãos varrerem


meu cabelo.

Seus braços se apertaram em volta de mim e senti seus lábios


no meu ombro. Uma respiração profunda e estremecida o deixou.

— Você não me odeia?

Eu me afastei para vê-lo.

— Foi por isso que você me trouxe aqui? Para te odiar?

— Não. — Ele se abaixou, acariciando—me. — Para dizer a


verdade, não sei por que te trouxe aqui. Eu queria você aqui. Eu
queria que você entendesse melhor este mundo. Queria que você
visse que não precisa se arrepender de odiar seu pai, caso tenha
feito isso.

Eu senti sua tensão e estendi a mão, minha mão embalando a


parte de trás de sua cabeça. Meus dedos começaram a correr em
pequenos círculos, consolando-o.

— É isso o que você faz? Lamenta odiar seu pai?


Seu corpo se apertou, depois relaxou.

— Não, mas você é melhor que eu. Eu posso ver você sentindo
isso. Eu queria organizar tudo para você e deixar você lidar com seu
pai, mas eu não posso deixar você ir ou traze-lo aqui.

Eu ri baixinho.

— Então não vamos. Vamos lidar com ele outra hora. — Eu


inclinei minha cabeça para trás para sorrir.

Ele levantou a cabeça, seus olhos escurecendo, mergulhando


em meus lábios.

— Isso é perfeito.

Eu emoldurei seu rosto com as minhas mãos e balancei a


cabeça, sentindo seus braços apertarem em volta de mim, sabendo
que ele não me deixaria cair. Seu corpo estava cheio de tensão e nós.
O que ele tinha feito agora, arrancando essas informações, eu só
podia imaginar quanta energia ele havia gasto.

— Vamos lá para cima.

Seus lábios estavam nos meus antes de eu terminar de falar e


ele me arrebatou em seu calor, os formigamentos já se espalhando
através de mim, seus braços me segurando rapidamente. Ele me
levou para fora da sala, para um elevador e nós fomos até o próximo
andar.
Kai estava sem camisa na janela, olhando para o lago quando
acordei. Ele estava com uma xícara de café em uma mão e a outra
descansava na parede.

Foda-se. Uma capa de revista bem ali.

Eu empurrei as cobertas, peguei um roupão e caminhei até ele.

Ele sorriu, trazendo o braço ao meu redor enquanto eu me


encaixava ao lado dele.

Eu deslizei meus braços em torno dele.

— Você dormiu?

Um meio riso, meio bufo veio dele.

Nós não tínhamos dormido quase nada.

Havia uma necessidade frenética em Kai, um desespero para


liberar qualquer demônio que houvesse nele durante a longa noite
anterior. A primeira vez foi difícil. A segunda lenta e amorosa. A
terceira estava no chuveiro. Na quarta, ele me pegou por trás. E
ainda, algumas horas depois, ele me alcançou novamente,
empurrando para dentro e me observando o tempo todo.

Eu estava dolorida quando me inclinei contra ele.

Ele alisou a mão pelas minhas costas, descansando no meu


quadril.
— Eu lhe disse para confiar em mim na noite passada. — Ele
recuou, sua mão encontrando a minha. Ele colocou o café na
mesinha de cabeceira e me puxou para o armário, onde me entregou
um moletom enorme. Eu vesti, junto com um par de calças. Ele
puxou um moletom Henley sobre sua cabeça e me levou para o
elevador.

Seus guardas estavam esperando por ele e eles ficaram ao


nosso redor.

Todos nós caminhamos para fora, depois para a beira do lago.


Havia um pequeno cais com um barco amarrado a ele e duas pessoas
esperando por ele.

Quando entramos no cais, um deles se levantou.

Seu capuz foi puxado sobre a cabeça, mas depois de um


momento eu o reconheci e vacilei. Era o primeiro prisioneiro de
ontem, o guarda que foi chantageado pelo meu pai.

Ele estendeu a mão, lágrimas brilhando em seus olhos.

— Obrigado, senhor Bennett. Obrigado. — Sua voz falhou. —


Isso significa muito. Você não tem ideia.

Kai balançou a cabeça antes de recuar para ficar ao meu lado.


Ele acenou para o outro homem.

— Você deu a ele toda a papelada?

O homem assentiu.

— Sim senhor. Ele está pronto para ir. Nova identificação para
ele e sua família. Eu vou levá-lo, farei isso agora para que ele possa
se reunir com sua família e continuar com a minha expedição de
pesca normal. Eu cuidarei bem dele.

Foi então que notei o pinguim, pequeno, mas preso dentro do


colarinho do casaco. Ele estava me observando, esperando e eu me
aproximei do lado de Kai.

Kai estava usando um agente da Hider para esse homem.

Um olhar passou entre o Hider e eu, uma compreensão


compartilhada. Ele sabia quem eu era também.

Eu não tinha palavras.

O fato de Kai ter feito isso, usado meus antigos empregadores


para a missão que eu considerava tão querida em meu coração, isso
significava mais do que eu poderia ter imaginado.

Kai apertou a mão do motorista do barco, do ex-guarda


novamente e eles se prepararam para ir. Seu braço desceu ao redor
dos meus ombros e me puxou para perto, inclinando a cabeça para
descansar contra a minha.

Nós os assistimos se afastar, depois seguir para o norte no lago.


Quando eles desapareceram, os guardas voltaram para nos dar
privacidade até que só Kai e eu estávamos no cais.

Eu inclinei a cabeça para trás para vê-lo.

— Você o manteve vivo?

Ele assentiu.
— Ele era um dos meus. Ele deveria ter vindo até mim
imediatamente, mas ele era um dos meus. O conselho acha que ele
está morto e isso é tudo que é necessário. Se eu não o tivesse
matado, eles o teriam rastreado e feito eles mesmos. Sabendo disso,
ele ficará escondido e quieto pelo resto de sua vida. Se ele aparecer
de novo, ele sabe o que vai acontecer. Mas ele foi um dos meus
primeiros. Eu cuido do que é meu.

Kai tinha um olhar estranho no rosto, os olhos distantes, uma


leve carranca. Então, balançando a cabeça, ele limpou o olhar e
colocou o braço sobre meus ombros. Nós caminhamos juntos de
volta para dentro.

Pela primeira vez, as coisas pareciam certas. As coisas pareciam


que ficariam bem. Finalmente.

Tanto parecia ter acontecido logo após a reunião do conselho.


Kai contou a Brooke sobre Levi, a verdade do que ele estava
planejando e fazendo e a verdade sobre como ele havia encontrado
o seu fim. Ela quebrou.

Kai pediu a Eric para estar aqui quando nós contássemos para
ela e ele estava ao seu lado. Eu olhei ao redor enquanto ela chorava,
meu coração destruído por sua dor. Eu não tinha certeza de quem
iria falar com ela. Então, quando Eric e Jonah hesitaram, eu comecei.

Então Kai surpreendeu a todos. Ele a pegou primeiro,


embalando-a como se ela fosse uma criança. Ele descansou a testa
na dela, sussurrando uma e outra vez.

Jonah e Eric pareciam tão surpresos quanto eu.


Mas Kai sabia o que Brooke precisava. Ele a segurou por uma
boa hora, levando-a para o sofá e segurando-a quase em seu colo.
Jonah estava sentado do outro lado dela, com a mão no braço dela.
Ambos os irmãos tentaram estar lá para ela.

Eu me sentei no chão, ao alcance de todos, se Brooke precisasse


de mim. Eric fez o mesmo.

Eu podia ouvir Kai sussurrando para ela.

— Estamos aqui para você. Estou aqui por você. Eu sinto muito,
Brooke. Eu sinto muito. — Ele estava quase balançando-a para
frente e para trás. — Nós te amamos. Tanner ama você. Jonah te
ama. Eu te amo. Estamos aqui por você. Nós vamos segurar você. Eu
sinto muito.

A mão de Jonah apertou a manga da camisa.

— Nós amamos você, Brooke. — ele resmungou. — Estamos


fodidos como Bennetts. Você é uma maldita Bennett.

Ela desmaiou depois de mais uma hora de choro e naquela


noite, Kai foi quem a carregou até o veículo. Jonah andou atrás,
segurando as malas e Eric foi com eles. Kai colocou Brooke dentro
do SUV, colocou um cobertor sobre ela e beijou sua testa.

Ela parecia despedaçada. Pálida. Seu rosto estava encharcado


de lágrimas, mas quando Kai recuou, ela estendeu a mão para mim.

— Riley

Fui até ela, abraçando-a e beijei sua testa também.

— Eu sinto muito, Brooke.


Ela assentiu, fungando. Mais lágrimas deslizaram por suas
bochechas.

— Eu o amava. Eu amava, mas ele me traiu. — Sua voz quebrou


e um olhar duro brilhou em seus olhos. — Ele teve que morrer.

Eu não tinha certeza do que dizer sobre isso, então balancei a


cabeça antes de abraçá-la mais uma vez e me afastei. Ela pegou
minha mão, apertando-a.

— Cuide do meu irmão.

Eu balancei a cabeça novamente.

— Eu vou.

Seus olhos se agarraram aos meus, ferozes, ainda delineados na


umidade.

— Eu sou uma Bennett. Em primeiro lugar. Se você machucar


meu irmão, eu vou atrás de você.

Minha boca quase caiu aberta, mas Kai pegou minha mão e me
puxou de volta. Jonah e Eric entraram do outro lado. Eric acenou
para nós através da janela. Eu vi Jonah levantar a mão antes do
veículo se afastar.

Eu não sabia como processar o que Brooke disse, então apenas


aceitei. A lealdade familiar era forte.

O braço de Kai se aproximou do meu ombro.

— O que ela disse para você?


Repeti, esperando uma risada, uma declaração descartando
Brooke.

Eu não tive nenhuma. Ele só olhava para eles, um olhar sombrio


em seus olhos. Nós assistimos como a caravana de SUVs
desaparecia. Kai se moveu na minha frente, curvando-se e me pegou.
Eu olhei para ele, minhas pernas de cada lado da cintura dele. Eu
coloquei meus braços sobre seus ombros, minhas mãos penduradas
atrás dele. Seus olhos encontraram os meus e eu descansei minha
testa na dele. Fechei os olhos, apreciando o jeito que ele me levou de
volta para o armazém e ele me deitou na cama.
Eu estava pressionada contra a parede do chuveiro, meus seios
contra o vidro molhado e minhas mãos presas acima da minha
cabeça enquanto Kai empurrava em mim por trás. Cada centímetro
dele estava moldado contra mim, seus dentes beliscando, beijando
a parte de trás do meu pescoço e ombro enquanto ele se movia
profundamente dentro de mim.

— Kai. — eu gemi, ofegando quando a água deslizou em minha


boca.

Ele gemeu em resposta, sua mão se movendo do meu quadril


para cima na frente do meu corpo. Ele pegou um dos meus seios,
moldando-o, esfregando o polegar no meu mamilo. Ele continuou
empurrando em mim, movendo-se devagar, tão devagar.

Eu estava queimando. A água não fez nada para me acalmar.

Ele me puxou de volta contra ele, suas mãos deslizando em


cima de mim, me torturando. Ele circulou meus seios, acariciando-
os, em seguida, arrastou as mãos para baixo até que descansaram
entre as minhas pernas. Ele esfregou meu clitóris. Ele já tinha me
dado um orgasmo antes de começar a se mover dentro de mim.
Agora seu pau me esticava, enchendo-me completamente e ele girou
seus quadris, me colocando no ponto certo.

Eu ofeguei, arqueando minhas costas contra ele, sua mão


subindo para a minha garganta. Seu polegar se esticou para
pressionar contra a minha boca e ele virou minha cabeça para a dele,
sua boca na minha.

— Oh Deus. — Eu choraminguei. — Kai

Ele rosnou, mordendo meu lábio inferior. Seus quadris batiam


contra os meus, empurrando uma última vez e levantando todo o
meu corpo com sua força. Ele me pegou de novo, segurando-me no
lugar, seus dedos apertando o meu quadril antes que ele soltasse
meus pulsos. Agarrando minha cintura, ele se inclinou sobre mim,
chupando a parte de trás do meu ombro e começou a se mover com
mais força.

Eu o alcancei, agarrando seu pescoço. Minhas costas arquearam


e meus seios roçaram a parede de vidro.

Eu estava construindo, construindo. Chegando. Mais próximo.


Além.

— Goze. — Seu comando era selvagem e meu corpo respondeu.

Com uma velocidade vertiginosa, ele me empurrou ao clímax e


eu desabei em seus braços. Ele esperou enquanto meu corpo tremia
e então ele me virou. Seu pênis ainda estava duro. Ele não terminou.

Às vezes ele me deitava na cama. Às vezes ele me dobrava sobre


a cama. Às vezes ele me colocava no balcão do banheiro, entrava e
terminava. Eu nunca soube com certeza onde ele me levaria.

Desta vez ele simplesmente me levantou com os braços sob a


minha bunda. Minhas pernas enrolaram em sua cintura e ele se
moveu para dentro de mim.
Estendendo a mão, agarrei o chuveirinho e arqueei minhas
costas novamente. Ele pegou meu peito em sua boca e então ele
empurrou profundamente, mais profundo, mais para dentro de
mim. Eram esses momentos, depois que eu gozava pela segunda vez
e logo antes dele gozar, quando ele fazia uma pausa e eu o sentia
tanto dentro de mim que éramos uma só pessoa.

Eu respirei de novo, uma mão deixando o chuveirinho e


descendo pelas costas. Meus quadris se moveram com os dele até
que ele rugiu, gozando, atirando dentro de mim.

Nós estivemos assim nos últimos quatro dias.

Havia uma necessidade insaciável dentro de Kai. Ele nunca


falou sobre isso, mas estava lá. Nós não saímos do armazém, nem
uma vez.

Ele me levou para fora do chuveiro, me colocando no balcão e


se afastando. Silencioso. Esse era o padrão.

Agora ele se secaria, se moveria. Ele me secaria, me traria


roupas. Às vezes ele me ajudava a colocá-las, como se eu fosse
preciosa e delicada. Às vezes ele ficava para trás e observava, uma
escuridão rodopiando em suas profundezas, seus olhos ficando cada
vez mais quentes. Quando eu estava vestida, ele pegava minha mão
e me levava de volta para a sala principal. Nós queríamos comer, nos
aconchegar no sofá, assistir a um filme, passar o tempo em nossos
computadores, ou relaxar na cama. Algumas horas depois, ele me
alcançava novamente e começávamos a rotina toda.

Ele mal disse uma palavra.

Eu mal fiz uma pergunta.


Já estávamos chegando ao quinto dia agora. Eram quatro da
manhã e soltei um suspiro. Eu precisaria pressionar a questão.

— Kai.

Ele fez uma pausa, puxando uma camisa sobre a cabeça. Ele
olhou para mim, mas não disse nada.

— O que há de errado?

Ele balançou a cabeça, seus olhos se fechando, me afastando do


que estava acontecendo dentro dele. Ele vestiu uma calça e se
aproximou de mim. Ele segurou a parte de trás da minha cabeça e
inclinou-se para um beijo suave. Era muito doce. Tentador. Fui com
ele quando ele começou a se afastar, incapaz de impedir que um
gemido escapasse.

Deus. Ele era tão bom.

Sua testa descansou contra a minha.

— Não podemos sair até que você tenha visto seu pai. — Então
ele se afastou, deixando-me no banheiro. Pela primeira vez nos
últimos dias, saí sozinha, com uma toalha enrolada em volta do
corpo, pingando água no chão. Algumas gotas em mim começaram a
secar, mas meu cabelo estava encharcado. Kai estava no armário.

Fui até a penteadeira onde minhas roupas estavam e terminei


de secar meu cabelo. Vesti leggings pretas e uma túnica enorme de
decote em V que cobria minhas coxas. Quando terminei, Kai se
moveu para a cozinha, então fui atrás dele. Eu assisti ele ligar a
máquina de café, ainda acariciando meu cabelo seco e me sentei em
uma das cadeiras da cozinha.
— Você está esperando por mim? É isso que você está dizendo?
— Havia mais do que isso. Tinha que haver. Agora eu o observava
tirar uma panela, um pedaço de pão, enquanto a máquina de café era
preparada.

Eu esperei que ele respondesse a minha pergunta. Quando ele


não fez, eu disse.

— Kai.

Ele suspirou, parando para olhar para mim.

— Não. Estou esperando por mim mesmo.

— Por você mesmo? O que você quer dizer?

Era isso. Eu senti isso então. Este era o dia em que


enfrentaríamos o que aconteceria no futuro. Um medo me picou, me
fazendo pensar se ele tinha planos para mim que eu não conhecia.
Minha boca secou.

— Você não... você não vai me deixar?

Seus olhos se arregalaram. Ele estava fora da cozinha num


piscar de olhos.

Eu esperava que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa, para


aliviar minha súbita paranoia. Ele não disse nada, mas ele me pegou
tão fácil e rapidamente. Eu sabia que ele era forte. Eu já havia
sentido tantas vezes, mas ainda me maravilhava.

Ele me abraçou, alisando a mão no meu cabelo e nas costas.


— Eu não acho que vou ser capaz de deixar você ir, para ser
honesto.

Ele pressionou um beijo na minha testa e ouvi suas palavras


como um sussurro levado em uma brisa repentina. Eu me perguntei
se ele realmente disse isso.

Mas então eu ouvi.

— Não totalmente.

Eu alisei minhas mãos pela sua frente e tentei sorrir.

— Tem certeza? Porque você acabou de me assustar um pouco.

— Hmmm. — Ele me abraçou mais apertado antes de me


depositar no balcão ao lado de onde ele estava fazendo o pão.
Beijando-me brevemente, ele recuou, mas manteve a mão na minha
perna, puxando mais fatias de pão para fora, em seguida, pegou uma
tigela do armário atrás de mim.

— O que você está fazendo?

— Torrada francesa. — Ele pegou ovos, leite, baunilha, açúcar


e canela da geladeira e armários. Ele começou a mexer a massa,
voltando para ficar entre as minhas pernas e estendendo a mão para
ligar o fogão.

— Você vai cozinhar?

Ele nunca havia cozinhado. Isso era completamente novo.

Ele sorriu para mim, colocando óleo na panela.

— Brooke não é a única que tem algumas tendências culinárias.


Eu gostei desse olhar que ele me deu. Eu gostei muito disso.

Eu permaneci lá, contente, nunca se movendo mais do que um


ou dois passos longe de mim. Ele começou a empilhar a torrada
francesa que fez em um prato grande. Ele estava fazendo mais do
que suficiente, mas depois percebi que ele não estava cozinhando só
para nós. Ele estava cozinhando para os guardas e com um olhar
perdido e distraído em seus olhos.

Ele estava cozinhando para se distrair.

Deslizei meus dedos pelos cabelos dele, apreciando como ele


fechou os olhos e moveu a cabeça como um gato, saboreando a
carícia.

— Você mencionou meu pai antes.

Ele fez uma careta, enrijecendo.

— Podemos não falar sobre ele?

Nós não tínhamos conversado sobre ele por quatro dias. Eu fiz
uma careta.

— Eu acho que devemos.

Ele estava tão tenso agora.

— Kai. — eu disse gentilmente.

Eu toquei seu lado pouco antes de ele se afastar de mim.


Caminhando até o fogão, ele pegou o prato de torrada e levou-o até
a porta. Abriu-a e ofereceu a torrada francesa aos dois guardas do
lado de fora.
— Aqui. Leve estes para a sala de descanso.

Eu não ouvi qual foi a resposta, mas Kai pegou uma garrafa de
xarope de bordo e passou para eles. Ele fechou a porta novamente e
se virou para me olhar. Sua expressão torturada estava de volta,
batendo em mim e me amedrontando.

Eu odiava o que quer que o estivesse incomodando.

Ele passou uma mão cansada pelos cabelos, virou para trancar
a porta. Ele se moveu para a sala de estar.

Eu o segui, sentando em uma extremidade do sofá e puxando


um dos cobertores dobrados para o meu colo.

Eu esperei. Isso é tudo que eu pude fazer.

Ele começou relutantemente.

— Sim, estou esperando que você lide com seu pai. Sim, é a
última coisa que quero fazer aqui, mas precisamos. Eu apenas não
fui capaz de forçar a acontecer.

Um caroço estava no fundo da minha garganta.

— Você disse que queria me substituir na companhia do meu


pai. Você precisa dele vivo para fazer isso?

Ele olhou para mim por um longo minuto, seu olhar torturado
nunca vacilando.

— Eu já comecei esse processo.

Ele não respondeu a minha pergunta.


— Você precisa dele vivo para fazer isso?

Ele desviou o olhar, sentando na cadeira ao meu lado, mas


inclinando o corpo para longe. Enquanto descansava os braços nas
pernas, as costas e os ombros ficaram rígidos.

— Não. Seu pai pode morrer a hora que você quiser.

Eu não esperava isso.

— Ei. — Eu me sentei mais para frente. – O que está


acontecendo aqui? Do que você está com medo?

Ele encostou a cabeça na minha, seu olhar me queimando.

— De você me odiar mais uma maldita vez.

— O quê? — Eu não poderia ouvi-lo corretamente. Eu pisquei,


confusa. — Do que você está falando?

— Seu pai tem que morrer. — Ele estava frio agora. — Seu
corpo será encontrado. Ele será declarado morto. Sua empresa fará
uma reunião do conselho de emergência. Nesse ínterim, você será
declarada viva. Nessa reunião do conselho, você compartilhará com
eles a notícia da sua ressurreição. — Seu tom era mordaz. — Depois
disso, vamos declarar uma aquisição hostil da empresa de seu pai.

— Kai.

Ele continuou.

— Haverá resistência de quatro membros no conselho. Os


outros três já foram comprados. Eles vão fingir surpresa, mas a
alegria de sua aparição e um deles trará uma moção para nomeá-la
no lugar do seu pai.

Ele desviou o olhar, a cabeça baixa, os olhos fechados.

— Eu tenho tudo no seu devido lugar, pronto para me mover,


mas depois disso, depois do que você terá que fazer, não há como
voltar atrás. — Suas palavras eram suaves, me causando dor. —
Você não pode voltar para sombras depois disso.

Oh.

Compreensão brilhou.

— E você está preocupado comigo?

— Estou preocupado que você odeie isso. Eu estou preocupado


que você se ressinta porque eu fodi tudo e te tirei de onde você era
feliz, e eu não vou permitir que você volte para lá. — Ele levantou —
Eu. Estou destruindo o mundo seguro que você construiu e você está
me deixando fazer isso. — Ele parou, respirando com dificuldade. —
Estou com medo de que você me odeie no final de tudo isso.

Eu me movi rapidinho e fui até ele.

Ele se encolheu, afastando-se.

— Kai. — Dor me destruiu. Eu o alcancei novamente.

— Não! — Ele se afastou mais, olhando para mim. — Pare com


isso. Pare de agir como se estivesse bem com tudo isso. Eu estou te
puxando para esta prisão em que vivo. Você está me deixando fazer
isso! Pare de aceitar tudo o que estou fazendo com você.
Ele fez uma pausa, soltou uma maldição e em um segundo
estava na minha frente. Suas mãos seguraram minha cabeça, seus
dedos deslizaram pelo meu cabelo e se inclinou para me olhar
enquanto olhava para baixo. Ele fechou os olhos por um momento,
parecendo reunir força e então começou a falar.

— Assim que Brooke foi até você, comecei a planejar. Eu sabia


que mataria seu pai. Eu sabia que iria substituí-lo por você. Eu sabia
que iria acabar com metade do conselho. Eu sabia que mataria
Barnes. Eu mudei sua família. Esta manhã, o FBI vai prender metade
de sua família. Meus homens vão matar a outra metade. No caos e
na súbita ausência da família Barnes, meus homens vão morar e se
apossar de seus bens. Há outra família da máfia em Milwaukee e eles
receberão um suborno da família Bennett. Tanner está aqui
liderando tudo. Tanner informará a essa outra família que nos
mudamos, que temos participações na Companhia Bello, uma
empresa que eles queriam pressionar nos últimos trinta anos. Eles
também receberão uma posição de convidado na próxima reunião
do conselho. Você sabe o que isso significa?

Suas narinas se incendiaram na última pergunta.

Eu mal conseguia processar tudo o que ele estava me dizendo.

Eu balancei a cabeça.

— Não.

— Isso significa que eles terão a chance de triplicar seus ativos


financeiros. Estou criando um controle total sobre o Canadá e mais
da metade do Meio-Oeste nos Estados Unidos e continuarei
expandindo, porque é assim que minha mente funciona. Em sete
anos, vou eliminar três desses membros do conselho e substituí-los
por meus irmãos, o que nos dá quase todo o monopólio do conselho.
Eu conheço meus inimigos. Conheço meus obstáculos e já estou
fazendo movimentos para assumir ou me mudar com as famílias em
Chicago, depois Pittsburgh, Boston e Nova York. Assim que eu tiver
um firme controle sobre a costa leste, vou começar a olhar para a
costa oeste. Você está entendendo o que estou dizendo?

— Sim. — eu gritei, sentindo uma quantidade excessiva de


pressão na minha cabeça e no meu peito. Meu batimento cardíaco
estava acelerado. — Você é um bastardo calculista. Isso não é
novidade para mim.

— Meu plano sempre foi seduzir você.

Eu o quê?

Ele disse aquelas palavras tão suavemente e de repente. Então


ele esperou, recuando, observando minha reação.

EU…

Um segundo.

Outro.

Mais cinco.

— O quê? — Eu me engasguei. Ele não poderia ter dito aquelas


palavras.

Mas ele repetiu e repetiu com uma parede no rosto.


— Meu plano era te seduzir. Fazer você se apaixonar por mim.
Te usar para inserir a minha posição na companhia do seu pai. E
funcionou perfeitamente.

— O quê?!

Eu não conseguia processar isso. Ele estava dizendo...

— Isso foi tudo mentira?

Mas não. Não poderia ter sido.

Isso era?

Não, não, não. O pânico cresceu em mim.

Como ele tinha sido gentil comigo. Como ele me segurou. Como
ele me tocou.

Como ele me seduziu.

Mas…

Eu não conseguia respirar.

Meu peito se contraiu dentro de mim.

Meu coração apertou. Eu estava tendo um ataque cardíaco.

Eu desmoronei, me inclinei e pressionei minha testa contra


meus joelhos. Respire. Expire. Eu continuei tentando repetir para
mim mesma, mas não estava funcionando. Tudo rodou em uma
confusão na minha cabeça. Dor passou por mim, até as pontas dos
meus dedos dos pés.

— Você não pode fazer isso. Era tudo mentira?!


Foda-se. Eu me levantei, avançando sobre ele.

Ele me viu chegar, sem se mexer, sem dizer uma palavra.

— Conte-me!

Sua mandíbula se apertou.

— Você deveria me odiar.

— Isso sou eu quem decido. E de qualquer maneira, posso


mudar de ideia. Eu posso voltar. Eu posso me esconder, seu idiota!

— Você não pode, na verdade.

— O quê?

— Eu já enviei a papelada e prova de vida aos tribunais. Em


duas horas, você será declarada viva. Se você sair e tentar se
esconder novamente, eu declaro uma caçada internacional por você.
Eu vou te encontrar, não importa aonde você vá.

Ele iria. Ele poderia. Ele era o único.

Um novo sentimento de derrota e impotência me invadiu,


fazendo o quarto girar em torno de mim.

— Eu tenho que estar lá. Eu tenho que ir ao tribunal para isso...


— Certo?

— Você não precisa. Sua sósia vai para o tribunal em seu lugar,
a que usamos quando Blade tentou te levar de volta. Ela vai ter uma
cópia de suas impressões em seus dedos e eu já fiz exames de
sangue. — Uma pequena hesitação. — Eu sinto por isso. Se quiser,
posso fazê-la participar da reunião do conselho de emergência da
Bello, se decidir me enfrentar sobre isso.

— Por quê? — Eu balancei a cabeça. — Por que você está


fazendo isso? Dizendo isso? Sendo assim?

Ele estava tão fodidamente frio. Um estranho. Ele era o mesmo


Kai de quando eu o conheci.

Ele não respondeu. Eu vi um brilho nos olhos dele, mas


desapareceu. Ele endureceu novamente.

— Porque é hora desta charada acabar.

Deus.

— Eu não quero mais você. — acrescentou ele, terminando


comigo.

Eu não conseguia respirar.

Deslizando para o chão, eu ofeguei por ar. Meus pulmões se


fecharam, como todo o meu mundo.

— Você é livre para sair daqui, mas você não pode deixar
Milwaukee. — disse Kai, sua voz vindo de mais longe. — Um carro
estará lá embaixo para você. Vai te levar para a propriedade do seu
pai. Há pessoas lá esperando por você, um Claude, se não me falha a
memória.

A porta se abriu.

— Se você tentar me desafiar e desaparecer ou voltar para a


rede 411, matarei seus dois colegas de quarto. Se você deseja falar
com seu pai antes que ele morra, você tem a próxima hora para fazer
isso. Os guardas lhe mostrarão o caminho.

E com isso, a porta se fechou e fiquei sozinha. Destruída.


Eu não sei como cheguei aqui.

Pensando bem, não sei como fiz muitas coisas depois do que Kai
me disse. Mas de alguma forma, eu me encontrei em um quarto. Meu
pai estava amarrado a uma cadeira, esperando que eu fosse até ele.
Ele tinha uma bandagem enrolada na cintura, fita adesiva sobre a
boca. Se sua bunda coçasse, ele não poderia ter feito nada a respeito.

Cinco dias atrás, talvez eu tivesse medo dele. Eu podia sentir o


ódio saindo dele em ondas. Se ele pudesse me matar, ele teria feito.
Eu sabia disso sem dúvida nenhuma. Azar o dele, porque ele não
podia me tocar, me assustar ou me machucar agora. Kai tinha feito
tudo isso por ele.

Eu tive um breve pensamento de me virar e sair. Ele morreria,


mesmo. Kai tinha levado tudo do meu interior, arrancando tudo de
mim até que eu estivesse vazia. A experiência me deixou sem nada
para dizer ao meu pai, que era meu pai biológico, apesar do que ele
disse.

Talvez tenha sido isso. Talvez seja por isso que me impulsionei
pela sala para tirar a fita dele. Eu agarrei o final e o tirei. Quanto mais
rápido melhor. Eu queria acabar com isso, então eu poderia sair.

— AHHHH! — Ele gritou quando eu puxei para longe, sua boca


e a pele ao redor se avermelhando. Ele cuspiu em mim. — Sua puta
do caralho.
Eu agi sem pensar. Eu envolvi minha mão em volta do seu
pescoço e apertei.

Ele começou a fazer sons de gargarejo, raspando, ofegando.

Eu continuei apertando, um aperto de ferro.

Ele começou a se debater, o máximo que pôde, saltando a


cadeira.

Quando ele começou a tremer como se estivesse tendo uma


convulsão, eu soltei.

Ele ofegou por respirar, tossindo freneticamente. Ele não


conseguia parar de tossir e, o tempo todo, fiquei imóvel. Eu apenas
observei a impressão que deixei em seu pescoço, o jeito que a cor
parecia levar uma eternidade para voltar ao normal. Quando a
brancura sumiu, voltei a olhar para ele.

Finalmente.

Uma pequena satisfação floresceu no meu peito. O primeiro


lampejo da vida pós-devastação de Kai.

Meu pai parecia cauteloso agora, me observando


cautelosamente.

Eu sorri.

— Entendi. Eu entendo porque você ama ser cruel e um


monstro. — Eu me afastei de seus olhos. — Eu vejo porque você
queria me matar.

O poder. Estava escuro e viciante.


Então meu estômago se revirou, ameaçando vomitar. Eu me
senti doente. Essa parte de mim era dele. Eu tinha a escuridão dele
em mim, e enquanto eu estava lá, eu senti isso se agrupando,
movendo dentro de mim, crescendo.

Meu pai. Minha mãe. Kai. Ter um lugar na primeira fila para este
mundo. Provavelmente até começou quando eu estava olhando
através da lente de um agente da Hider. Eu fui mudada. Não, não era
isso. Eu estava quebrada. Havia uma parte de mim que não tinha
mais conserto agora. Eu nunca poderia ter uma vida normal
novamente. Kai havia cimentado o que estava acontecendo comigo
desde que Brooke me encontrou.

Essa escuridão não ia a lugar nenhum. Ela entrou em mim,


como uma cobra e eu soube então que nunca seria capaz de tirar isso
de mim. Estava lá por causa do meu pai, Kai trouxe a chama para a
vida, e então explodiu em uma fogueira com sua traição.

E agora aqui estava eu, parada na frente do homem que


costumava fantasiar em ferir e tudo se encaixou.

Este foi o momento que tudo estava acontecendo, neste


momento em que decidi meu destino. Porque eu era a única que
podia, ninguém mais. Eu. Minha decisão.

Ele estava espumando de novo, querendo me assustar.

Suspirei.

— Você não pode me intimidar. Você deveria desistir. Está na


hora, você não acha?
Seus olhos se arregalaram. Surpresa flutuou lá antes de se
estabelecer em resignação relutante.

— Você pensou que minha mãe te traiu, porque foi o que você
fez com ela. É como você entende o mundo. Você trapaceia e acha
que todo mundo trapaceia. É assim que você pensa, mas você está
errado. Ela nunca trapaceou. Não estava nela. Nem uma vez.

Ele zombou em descrença.

— Ela estava muito quebrada por você para tentar.

Não era como a mãe de Kai. Eu estremeci com o pensamento


dela. Mãe de Brooke. Ela traiu o pai deles. Ela deve ter feito isso para
se rebelar. Ela teve que fazer. Por que a esposa de um assassino
trairia aquele homem? Não poderia ter sido um erro descuidado,
uma decisão tomada por paixão. Não se tivesse produzido dois
filhos, ou três com Tanner. Talvez ela tenha se apaixonado no fim
das contas, mas no começo? Talvez fosse solidão? Miséria?

Ela não podia fisicamente deixá-lo, então ela fez a única coisa
que podia. Ela sexualmente escapou dele, emocionalmente se
entregou aos outros.

— Apenas me mate. É por isso que você está aqui, não é? — Um


brilho duro voltou ao olhar do meu pai. Uma pequena faísca de
impaciência. — Eu sei que sou um homem morto. Então apenas faça.
Por que você está atrasando isso?

Meu telefone tocou no meu bolso. Olhei, mas não reconheci o


número, mas sabia que era Kai. Se não ele diretamente, a seu pedido.

Remetente: Toque no projetor atrás dele.


Projetor?

Eu olhei e lá estava, em cima de uma mesa. Eu me movi ao redor


do meu pai e fiz como Kai instruiu, sem saber se eu queria ver o que
ele tinha planejado.

Assim que a tela se iluminou, lágrimas silenciosas começaram


a rolar pelas minhas bochechas.

Era minha mãe. Ela estava em uma praia e, enquanto o vídeo


continuava rolando, um cachorro entrou em foco. Minha mãe se
aproximou e apertou as mãos do homem que agora era seu marido,
que se juntou a ela na tela. Eles estavam conversando, rindo,
sorrindo. Então, meu peito ficou suspenso enquanto meus dois
meios-irmãos corriam ao redor deles. Eles estavam levantando
areia em seus trajes de banho.

Eles pareciam ter nove e dez no vídeo, então isso tinha alguns
anos de idade.

Ainda. Meu coração doeu. Isso não era em tempo real ou


recente, mas não importava.

Eu sabia o que Kai estava tentando me dizer, embora se ele


tivesse terminado comigo, como ele disse que estava, eu não sabia
por que ele se incomodava. Mesmo que ele fosse um idiota, ele
estava me dando a chance de dizer a única coisa que eu sempre quis
dizer a esse homem. Eu teria esquecido, do contrário, e mais tarde
eu teria desejado ter feito isso.

Eu me virei para o meu pai.

— Você estragou tudo. Você sabia disso?


Ele jurou, sua voz embargada.

— Por que você está me torturando? Apenas puxe o gatilho,


porra. Tem uma arma aqui, não tem? Cadê? — Ele tentou olhar,
fazendo a cadeira pular. Sua voz se elevou. — Tem certeza de que
seu homem não está te alimentando com uma pilha de besteiras?
Você é patética. Você é fraca. Você é suave. Você não é minha filha.
Você não é...

Eu agarrei o lado de sua cadeira e me movi, puxando-a comigo


para que ele fosse girado ao redor. Eu parei e seus olhos estavam
colados na tela na parede.

Sangue foi drenado de seu rosto.

Sua boca se abriu.

Ele ficou sem fala. De uma vez.

Seus olhos quase saltaram das órbitas.

Eu esperei, esperando por maldições ou por ele dizer que era


mentira, mas ele não fez.

Durante um minuto inteiro, observei-o enquanto ele a olhava e


uma lágrima se formou no canto do olho. Ele engoliu em seco, seu
pomo de adão subindo e descendo.

— Droga. — ele respirou.

Eu não queria ouvir o que ele tinha a dizer, então eu disse a


minha parte.
— Você falhou. Em toda a sua vida miserável, você falhou com
a melhor coisa que aconteceu com você. Ela. Eu. Você não matou
nenhuma de nós e, além disso, ela lhe deu o dedo do meio, ela está
feliz. Essas crianças são mais velhas agora, treze e quatorze. Esse
homem é tudo que você nunca foi. Ele é gentil, amoroso, solidário e
você pode olhar para ele como fraco, mas ele é três vezes o homem
que você poderia ter sido.

Eu me inclinei e sussurrei uma última vez em seu ouvido:

— Ela superou você. Ela ganhou.

Eu estava feita. Eu terminei com tudo isso. Não havia mais nada
a dizer. Eu me virei e vi uma arma na mesa, ao lado do projetor.

Outro presente de Kai, eu não tive dúvidas.

Eu engasguei, sabendo que ele tinha deixado, caso eu quisesse


realizar a ação, mas eu não consegui. Ironicamente, eu acho que
teria conseguido se Kai não tivesse pegado tudo em mim que
funcionava e deixado em pedaços. Eu poderia até ter gostado de
puxar o gatilho, então me sentiria mal com isso.

Eu olhei para o meu pai. Ele ainda estava congelado. Nenhum


som o deixou enquanto continuava a observar minha mãe com sua
nova família. Eu tive um pensamento... Eu não deveria, mas... O que
eu tenho a perder?

Eu cortei uma fenda na corda pela mão dele. Era pequena, mas
o suficiente para lhe dar folga, onde ele poderia libertá-la, se
quisesse. Então, movi a arma para perto dele na mesa e saí.

— O que...
Eu parei, minhas costas ficando tensas antes de empurrar a
porta novamente. Guardas esperaram por mim do outro lado. Eles
começaram a entrar, mas eu os parei.

— Não. Esperem.

— Por quê?

— Por... — eu não sabia. Eu não tinha certeza até: BANG!

— Por isso.
Um mês depois

Eu voltei para a minha casa de infância.

Claude estava lá, me recebendo em casa com lágrimas nos


olhos. Ele me abraçou por cinco minutos inteiros. Algumas das
empregadas ainda estavam lá e estavam todas felizes em me ver,
mas eu estava diferente. Eles viram isso. Eles tinham expressado
bons desejos para mim, então mentiram quando expressaram suas
condolências depois que o corpo do meu pai foi encontrado.

Tudo aconteceu como Kai disse que aconteceria. Cada. Mínima.


Coisa.

Eu fui declarada viva e bem recebida de volta na alta sociedade


de Milwaukee. Eles me deram uma festa. Todo o tempo eu estava no
piloto automático. Eu mal me lembrei do que aconteceu dia a dia.

Eu sabia que a antiga equipe administrativa do meu pai tinha


sido demitida. Não por mim. Kai provavelmente mandou fazer, um
novo contador, um novo gerente de negócios. Toda pessoa que eu
precisaria para me ajudar a administrar o império do meu pai tinha
sido substituído. Era um regime totalmente novo.

Em casa, mantive Claude e a equipe que gostava e me lembrava.

Na terceira semana, Claude chegou ao escritório que eu havia


montado.
— Um Sr. Bennett está aqui para ver você, senhorita.

Senhorita. Eu levantei meus olhos, tentando ignorar o buraco


no meu estômago.

— Meu nome é Riley, Claude. Riley.

— Devo levá-lo ao primeiro salão?

O primeiro salão? Eu não tinha certeza de onde era isso, mas eu


assenti.

— Sim, obrigada.

— Como você desejar, senhorita.

— Claude! — Eu gritei atrás dele, mas se eu pudesse ter sorrido,


teria. Eu não sorria desde que Kai me quebrou.

Eu não sabia se poderia passar por essa reunião ou por que Kai
estava aqui, mas me forcei a ir. Assim que cheguei ao corredor, parei.
Eu não podia. Meus pés se recusaram a se mover. Ele viria ao meu
encontro se eu recusasse esta reunião? Eu poderia fazer isso? Eu
poderia vê-lo depois do que nós compartilhamos?

Eu teria que sair.

Ele procuraria por mim em casa, então isso significava que eu


teria que me remover fisicamente. Mas eu não seria capaz de me
esconder. Essas eram as estipulações. Kai me possuía de todas as
maneiras, exceto sexualmente agora, e eu não podia sair. Ele mataria
Blade e Carol. Ele era o monstro que eu sempre soube que ele era;
Eu acabei de me acostumar com o disfarce dele.
Eu estava me virando, pronta para pedir a Claude para trazer
um carro, quando a porta se abriu atrás de mim.

— Riley

Eu suguei minha respiração, alívio me inundando. Não era Kai.

Virando, eu vi Tanner na porta.

Kai havia enviado Tanner para ajudar a administrar a empresa,


mas depois de apenas alguns dias no escritório, deixei que ele
assumisse.

Por que eu pensei que era Kai aqui hoje à noite?

Meu estômago caiu, porque eu queria que ele viesse. Eu queria


que ele tentasse por mim.

Eu era tão idiota.

— Sim. — Minha voz tremeu. — Olá, Tanner. Olá.

Ele me deu um olhar conhecedor.

— Ele não virá a menos que seja absolutamente necessário.

Eu dobrei minha cabeça.

— Claro.

Ele ainda estava em mim. Eu senti ele. Eu o odiava agora, no


entanto. O ódio que eu nutria há muito tempo por meu pai tinha um
novo alvo.
Empurrando tudo isso para o lado, limpei minha garganta,
minha cabeça subindo. Passei por Tanner, estendendo a mão para
um dos sofás.

— Você gostaria de algo para beber?

Seu olhar me seguiu por toda parte. Ele balançou sua cabeça.

— Seu mordomo já ofereceu. Eu não estou aqui por uma ligação


social.

Claro. Eles conseguiram o que queriam de mim. Agora eu era


dispensável.

Eu soltei um suspiro de dor e perguntei, quase nem percebendo


até que as palavras saíram.

— Depois que eu assinar os papéis da empresa, você vai me


matar?

Eu não estava olhando para Tanner, mas ouvi seu leve suspiro.

— Não. Porque você pensaria isso?

Eu olhei, sentindo o robô que havia habitado o meu corpo


assumir.

— Porque você não vai mais precisar de mim, é claro.

Ele franziu a testa, estreitando os olhos.

— É porque você e Kai terminaram?

Quebrou. Eu quase ri disso.


— Nós não terminamos. Kai não viu mais utilidade para mim
ou desejo. Ele terminou.

— O quê? Ele fez isso?

Eu acenei minha mão no ar. Senti um buraco se abrindo dentro


de mim e, se possível, pude sentir meu interior apodrecendo
começando a se espalhar. Eu não queria isso, pelo meu próprio
orgulho. Me envergonhando, deixando seu irmão ver minha
fraqueza, eu não podia fazer isso.

Eu tinha que ter algo que ele não pudesse tirar de mim. Um
pouco de orgulho, pelo menos.

— Riley, isso não faz sentido. — Tanner avançou, sacudindo a


cabeça.

— Não importa. — Levantei minha voz, estremecendo com a


nota estridente no final. — Você disse que isso não era uma visita
social. Por que você veio?

— Eu... — Ele me olhou confuso. Então ele piscou e


desapareceu. Suas mãos foram para os bolsos. — Eu queria dizer
que Brooke pediu para ficar com você.

— O quê?

— Você gostaria que ela viesse?

Eu queria ver Brooke? Ela havia sido demolida pelo irmão


também. Poderíamos sofrer juntas, mas ela era irmã de Kai. Ela era
uma parte dele. Ela até parecia com ele. Ter Tanner aqui, mesmo
sabendo que ele estava na mesma cidade que eu era doloroso o
suficiente. Sentir a presença de Kai pairando sobre tudo na minha
vida, literalmente tudo, estava começando a se desgastar. Então eu
queria outro apêndice dele dentro da minha casa? Ou mais pessoas
para se reportar à ele, além de alguém da equipe, porque eu sabia
que alguém estava lhe fornecendo informações.

— Eu prefiro que Blade e Carol venham, para ser honesta.

Suas sobrancelhas se ergueram.

— Mesmo?

Eu balancei a cabeça.

— Ou se eu pudesse visitá-los?

— Kai não quer que você saia, você sabe disso.

Claro.

— Estou ficando doente do seu irmão segurar a minha vida. —


O ressentimento estava me enchendo e jejuando.

— Eu sei. — ele admitiu, se afastando. Agarrando a parte de trás


do pescoço dele, ele soltou um suspiro. — Você perdeu peso.

— Estive doente.

— Você quer que Jonah venha?

Eu zombei, sacudindo a cabeça.

— Sua família é inacreditável.

Eu queria acordar desse pesadelo. Eu queria estar livre do


aperto de Kai sobre mim. Eu queria viver minha vida em liberdade,
verdadeira liberdade. Eu queria decidir para onde ir, como ir, com
quem ir. Mas eu sabia que minha prisão estava aqui. Eu estava para
ser usada, afinal. Eu literalmente entrei no lugar do meu pai, exceto
que não foi a ganância que me colocou lá. Foi amor.

— Eu sei e sinto muito. O que quer que tenha acontecido entre


você e Kai, sei que ele está sofrendo também. Se isso ajuda de
alguma forma...

— Não. — eu bati.

Como ele ousa? Como se atreve, Tanner? Kai não tinha o direito
de me machucar. Ele me seduziu. Ele fez o que pretendia fazer, então
me jogou como um pedaço de lixo.

— O que podemos fazer, Riley? Como posso ajudá-la? — Ele fez


sinal para mim. — É óbvio que você está sofrendo também.

Eu bufei.

— Como você pode me ajudar? Você pode me libertar desta


prisão dourada que seu irmão me colocou. Você pode me comprar.
Pegue a empresa inteira. Eu não me importo. Eu quero sair! Eu não
quero nada com este lugar. Eu quero ver meus amigos. Eu quero
minha antiga vida de volta.

Eu queria me esconder.

Eu queria cuidar de minhas feridas sozinha, fora de seus olhos


espiando.

Eu queria sobreviver a ele. Isso é o que eu queria.

A boca de Tanner virou para baixo.


— Você quer sair? Sério?

— Sim!

Ele fez uma pausa, estudando-me, então ele assentiu.

— OK. Já faz um mês, mas os outros membros do conselho não


estão resistindo a mim falando por você. Eu vou falar com o Kai.
Vamos comprar a sua parte, dar-lhe um bom preço por tudo.

Fiquei chocada.

Minha boca diminuiu.

— Você está falando sério? Eu não posso, não posso ser


enganada novamente, Tanner. Não brinque comigo, não sobre isso.

— Você realmente quer sair?

— Sim. Por favor.

— Então nós vamos comprar a sua parte.

— Tudo? — Meu pai tinha outros negócios em que ele havia


investido. Eu não quero estar ligada a nada que ele tinha.

— Tudo. Nós vamos cuidar disso. Eu vou me certificar. Vou


pedir a Eduardo para fazer uma lista de todas as propriedades do
seu pai. Existe... há mais alguma coisa que você gostaria de mim?

— Eu já te disse.

— Eu posso ajudar com os negócios e investimentos, mas não


acho que Kai permitirá que seus antigos colegas venham. Nós
teríamos que nos empenhar para eles pedirem uma transferência.
Eles não virão por conta própria. Eles não podem, mas até mesmo
se eles fizerem ou nós fizermos… — Ele hesitou e eu soube por que.

Isso me daria uma força maior no meu antigo eu. Eu estaria


recebendo apoio de alguém que não estava na folha de pagamento
de Kai.

Meu coração partiu ao meio, tendo este pequeno fio de


esperança tirado de mim novamente. Eu me virei, não querendo que
Tanner visse minhas lágrimas. De costas para ele, cruzei os braços
sobre o peito. Meus olhos se fecharam, embora eu pudesse sentir as
lágrimas escorrendo. Eu fiz um movimento para limpá-los. Eu me
certifiquei que minha voz estivesse livre de emoção.

— Bem. Isso é bom.

— Riley? — Eu o ouvi se mexer por mim.

— As empresas, então. — Minha voz se levantou, afiada. Eu não


queria que ele me visse machucada. — As empresas estarão bem,
então. Eu vou fazer isso.

— OK. — O chão rangeu sob seu peso. Quando ele falou


novamente, sua voz um pouco mais longe. — E as casas que seu pai
possui? Há uma boa lista delas.

Deus.

As casas também. Eu queria dar-lhe tudo?

Eu poderia lidar com as casas. Eu poderia falar com um corretor


de imóveis, vender tudo, a menos que houvesse uma que eu quisesse
manter.
— Não. Eu cuidarei das casas.

— OK. — Eu ainda ouvi sua hesitação, mas então ouvi seus


passos no chão, no corredor. Eu podia ouvir um leve murmúrio à
distância enquanto Claude o encontrava na porta e, um momento
depois, Claude estava falando atrás de mim.

— Existe alguma coisa que você deseja de mim, Senhorita? Uma


bebida, talvez?

Meu estômago roncou com a simples menção, e eu pressionei.

— Não, obrigada, Claude.

— Como quiser.

Ele estava saindo quando eu adicionei.

— Claude?

Ele fez uma pausa, e para seu crédito, ele não vacilou quando
viu as lágrimas no meu rosto.

— Sim?

— Você pode colocar uma lista de funcionários da casa?

— Claro, senhorita. — Ele começou a sair.

— E listar seus dependentes da família?

— Senhorita? — Suas sobrancelhas se comprimiram.

Eu quase sorri. Quase. Eu nunca tinha visto Claude confuso. E


para o inferno com isso. Eu falei claramente.
— Eu preciso saber quantas famílias dependem do dinheiro do
meu pai para sobreviver. Eu gostaria de saber, se você pode
adicionar isso à lista, mesmo que seja uma invasão de privacidade,
o quanto todos precisam?

— Senhorita?

Ele ainda não entendia.

— Apenas faça a lista, Claude. Por favor.

— Como você desejar, senhorita.

Desta vez, não o corrigi. Não importaria logo de qualquer


maneira.
Dois meses depois

Tudo estava quase pronto.

Tanner estava de volta para concluir nossos negócios e ele


estava certo. Kai me pagou um preço decente por tudo. Fiquei
chocada com o número quando o vi.

— Eu lhe disse que ele lhe pagaria um bom preço.

— Sim. — eu disse fracamente.

Ele poderia ter me enganado. Ele sabia disso. Eu não teria


permissão para vender para ninguém além dele, mas esse número
era pelo menos o dobro do que eu poderia ter conseguido de outra
pessoa.

— Apenas assine aqui. — Tanner me mostrou todos os lugares.

Havia muito papel, muitas participações diferentes que Kai


estava assumindo. Eu comecei a assinar.

— Tem certeza de que não quer que um advogado examine


tudo? — ele perguntou.

Eu parei, lançando-lhe um olhar.

— Certo. — Ele riu. — Deixa comigo. — Ele assentiu, recuando.


— Afaste-se. Você quer café? Eu vou pegar uma xícara enquanto
você está fazendo isso.
Eu balancei a cabeça.

— Não, obrigada. — Eu não tinha tomado café por três meses,


pelo menos.

— Eu voltarei.

Eu estava quase terminando de assinar quando uma batida


suave soou na porta. Minha corretora de imóveis entrou, me dando
um sorriso.

— Oi! Liguei para o seu mordomo e ele disse que você estaria
aqui o dia todo. Espero que esteja tudo bem que eu tenha vindo? Eu
queria te dizer pessoalmente.

— Sim. Claro. — Eu me arrumei na cadeira para olha-la,


surpresa. — O que você está fazendo aqui?

Shannon Caldriss, de trinta e poucos anos. Ela era alguém em


quem Claude disse que confiava, então eu estou trabalhando com ela
nos últimos dois meses para avaliar e vender metodicamente todas
as casas que meu pai possuía. Eu queria que todas elas fossem
embora rapidamente, e para seu crédito, a maioria delas foi.
Restavam três apenas: a casa principal, uma cabana que meu pai
possuía no Colorado e uma cabana no lago ao norte de Duluth. Eu
não tinha viajado para nenhum dos dois últimos, principalmente por
causa da cláusula de não-deixar-Milwaukee de Kai, mas ela tinha. Ela
me atualizou através do telefone, então me senti familiarizada o
suficiente para saber que não queria ficar com nenhum dos dois
lugares. Houve conversas que talvez eu ficaria com uma para mim.
Mas eu estava pensando em vender todos os três, no entanto.
Ela fechou a porta e sentou-se em uma das cadeiras, os olhos
iluminados.

— Então. — Um largo sorriso brilhante. — Tenho boas notícias.


Não. — Ela estendeu as mãos, sacudindo-as de excitação. — Eu
tenho ótimas notícias, na verdade! Notícias fenomenais. Um
comprador se aproximou de nós e fez oferta para ambas as casas.

— Ambas?

— O Colorado e o Minnesota.

— O que isso significa?

— Eu falei sobre isso com outros corretores de imóveis e todos


nós achamos que é um bom negócio. Eles querem oferecer dez
milhões, então basicamente, cinco para cada casa. Podem haver
algumas idas e vindas com as agências, porque a equipe do Colorado
já está competindo, dizendo que é cinquenta e cinquenta, o que
significa mais uma comissão para eles do que normalmente seria,
mas isso é entre nós. Nós vamos resolver isso. Não é algo para você
se preocupar.

Seus olhos correram para onde eu estava sentada na cadeira


antes de olhar de volta. Ela cruzou as mãos, apoiou os cotovelos na
mesa e quase dançou em seu assento.

— Esse é um ótimo preço, especialmente para os dois. O


Colorado tinha um preço de 3,8 e o North Shore estava a 6,4. Isto é
apenas sob a nossa oferta, o que não acontece o tempo todo. Todos
nós recomendamos que você aceite-a.

— Quais são as estipulações? Quão rápido para fechar?


— Ai sim! Eu esqueci disso. Trinta dias, oferta em dinheiro e
você deixa todos os móveis para trás. É isso aí. Esta é uma oferta de
sonho. Sonho, Riley.

Eu estava em transe.

Eu concordei e Shannon saiu, prometendo enviar a papelada.


Isso me deixou mais uma casa para vender, a mais difícil, porque
quando a casa fosse vendida, todos os empregados estariam sem
emprego. Inicialmente, eu tinha na papelada que o novo comprador
precisava assumir a equipe, mas depois que a primeira casa foi
comprada e a equipe foi demitida cerca de uma semana após o
fechamento, eu sabia que era tolice manter isso. Eu nunca conheci o
pessoal das outras casas, mas na casa principal, eu cresci com
algumas dessas pessoas.

Eles me alimentaram, criaram, cuidaram de mim quando minha


mãe não pôde.

Eles eram familiares para mim, de certa maneira.

— Você terminou? — Tanner voltou, café na mão. Ele pegou a


cadeira de Shannon. Colocando o café na mesa, ele bocejou,
espreguiçando-se. — Cara, estou cansado. Tenho viajado muito nos
últimos meses.

Eu olhei para ele, voltando para a minha assinatura.

— Mesmo?

Eu não queria ouvir.

Eu não queria ouvir como Kai o mandava para todos os lugares.


Eu não queria ouvir nada sobre o Kai.

A queimadura foi menor do que há dois meses, principalmente


porque eu estava distraída, mas estava lá. Eu tentei não pensar
sobre ele, sobre qualquer coisa realmente, mas eu sabia que todas
aquelas emoções ainda estavam trancadas dentro de mim. Elas
ainda estavam se afastando, apenas esperando por mim para
levantar as comportas e deixá-las se espalhar.

Eu estava determinada a não fazer isso. Eu não acho que eu


poderia lidar com isso se ele começasse. Eu tinha outras coisas
acontecendo, outras pessoas que dependiam de mim.

Tanner assentiu, terminando o bocejo e apertando o punho


fechado contra a boca.

— Eu tenho que ir para Vancouver depois disso. Eu


provavelmente vou dormir o caminho todo.

Um hummm despretensioso saiu de mim.

Eu tinha mais cinco folhas para terminar.

— Então.

Eu fiquei tensa, sentindo ele se concentrar em mim. Ele tinha se


distraído antes, mas eu ouvi no jeito que ele falou aquela palavra que
ele estava com seu foco todo em mim. Percebi então, sentindo um
calafrio nas minhas costas, que ele era igual ao seu irmão. Eu podia
sentir suas mudanças em uma única palavra.

Eu odiava saber disso.

Eu não deveria saber disso. Eu não queria saber disso.


— Como você está, Riley? — Suavemente formulado. Quase
como se ele se importasse.

Eu sabia muito bem.

— Estou bem. — Senti-me toda tensa, apenas querendo que


isso fosse verdade.

Quatro folhas.

Ele levantou a caneca. Eu o ouvi tomar um gole, colocando de


volta na mesa.

— Você parece... que perdeu mais peso.

Eu ouvi sua desaprovação.

Foda-se sua desaprovação.

— Estou bem.

— Besteira.

Eu olhei para cima, sabendo que meus olhos estavam


aquecidos.

— Eu disse que estou bem. — Eu cerrei meus dentes.

Ele mordeu o interior de sua bochecha.

— Ele ainda se preocupa com você, você sabe...

— Pare!

Eu já ouvi o bastante.
Uma tempestade estava se mexendo em mim e lancei em
Tanner um olhar.

— O que você acha que estou fazendo aqui, Tanner? Hã? — Fiz
um gesto para a pilha de papéis. — Estou tentando recuperar minha
vida. Eu estou tentando sair do domínio do seu irmão. Eu estou
tentando ser eu mesma, apenas eu mesma. Não Riley Bello. Não uma
agente 411. Não a amante de Kai Bennett. E definitivamente não
quero ser um bem dos Bennett, porque é o que eu sou para sua
família agora. Um recurso. Uma coisa, lugar ou pessoa de valor que
você pode usar. Eu quero me afastar. Então pare de tentar me dizer
que ele se importa, porque ele não se importa. Eu posso ter sido
estúpida o suficiente para cair no truque dele, mas não sou mais. Ele
não dá a mínima para mim, então nos faça um favor e cale a boca
enquanto eu estou terminando aqui.

Eu rabisquei meu nome com um floreio extra na terceira folha.

Mais dois para terminar.

Tanner ficou quieto. Por um segundo.

— Eu entendo que você quer sair. Mas ele se importa.

Mais um.

Eu o ignorei. Eu ignorei a vontade de vomitar. Novamente.

— Eu sei que ele não quer que eu te diga isso, mas eu não me
importo. Ele te ama.

Eu terminei o último assim que ele disse isso e eu bloqueei


minhas emoções.
Empurrando para trás minha cadeira, meus braços tremiam
com a minha necessidade de sair daqui.

Eu estava abrindo a porta quando ele me parou.

— Você pode vender todas as suas casas. Você pode vender


todas as propriedades de seu pai, mas nunca ficará livre dele.

Eu parei, meu coração enchendo minha garganta.

Eu ouvi Tanner se levantar, a cadeira se movendo.

— Ele ama você, Riley. Isso significa que ele sempre vai saber
onde você está, e ele sempre vai se certificar de que você está segura.
É o que ele faz pelo resto de nós.

Minha mão se fechou em um punho, pressionando meu


estômago.

Fiquei tentada a dizer que ele estava errado, que Kai não me
amava, que Kai não amava ninguém. Ele só amava o poder. Mas
então todo o planejamento que fiz nos últimos meses seria em vão.
Porque não importa o que aconteça, Tanner ainda era escravizado
pelo nome de sua família e por Kai.

Então, sem responder, saí. Um capítulo da minha vida foi


oficialmente fechado.

Duas semanas depois, eu estava ao telefone com Blade.

— Você está pronto? — Eu perguntei.


— Sim. Estamos prontos para ir. Você está?

Eu olhei para tudo diante de mim.

Eu vendi a casa principal há dois dias. Os papéis foram


assinados. Os novos donos estavam animados. Todos os membros
da equipe da casa de meu pai estavam desempregados, mas em
alguns dias eles receberiam uma surpresa pelo correio. O carro
estava lotado. Cada item que eu queria levar comigo estava lá, o que
não era muito. Eu deveria ter chorado. Eu deveria ter mais do que
isso para recordar por uma vida inteira de memórias, mas eu não
tinha. Eu olhei para as coisas como se finalmente tivesse a
oportunidade que deveria ter tido quando eu tinha quinze anos.

Eu estava pronta. Eu estava além de pronta.

Minha mão caiu no meu estômago e, pegando minha última


bolsa, disse ao telefone.

— Estou pronta. Eu te vejo lá.

— Considere feito. Encerramento oficial com início: agora.

Ele desligou. O tom de discagem tocou e deixei o telefone para


trás. Não importava. Eu tinha sacos de telefones descartáveis
prontos para usar, em trinta e duas horas, eu me encontraria com
Blade e Carol. Era uma decisão que todos nós tomamos. Eu tive que
confiar que eles estavam realmente bem fazendo tudo isso. Se não,
seria tudo em vão.

Eu fui ao escritório do meu advogado. Eu tinha outro assunto


para terminar. Um último recado antes de desaparecer para sempre.
— Você tem certeza de que quer fazer isso? — Meu advogado
colocou a mão sobre a última folha para eu assinar.

Eu estava tendo um déjà vu, mas não da minha decisão, da


papelada. Eu tive que assinar um papel para cada pessoa que meu
pai tinha empregado em suas casas. Eu não estava muito
preocupada com a empresa. Esses funcionários ainda teriam
empregos. Eu sabia que Kai precisava da linha de caminhões para
continuar o transporte. Esse era o ponto principal e as outras
propriedades eram investimentos. Eles permaneceriam ativos.

Eu balancei a cabeça.

— Tenho certeza.

— Isso é muito dinheiro que você está dando.

Não importava. Não para mim. Das propriedades e casas de


meu pai, eu havia arrecadado duzentos e setenta e três milhões de
dólares. Eu estava dando tudo, exceto cinco milhões. Cinco eram
para mim, apenas por precaução.

Cada um desses funcionários da casa receberia cinco milhões.


E eu dividi o resto. Todos os abrigos contra abusos domésticos no
Canadá e nos Estados Unidos receberiam cem mil. Depois disso, o
que sobrou, cinco por cento iria para abrigos de sem—tetos. Outros
cinco por cento iriam para qualquer luta contra tráfico sexual sem
fins lucrativos. E deixei uma porcentagem para lobistas que lutam
contra o tráfico sexual no nível legislativo. Havia outras estipulações
e um bom fundo para meus advogados tirarem as próprias contas,
mas eu queria fazer o bem.

Esta era a minha maneira de fazer algo de bom.


E assinando minha última papelada, eu estava oficialmente
pronta.

Eu não tinha nada pendente, não mais. Todos os negócios e


investimentos foram embora. Todas as casas do meu pai foram
vendidas. Eu cuidei de seus empregados. Blade e Carol estavam a
salvo. O último passo era eu desaparecer.

Já era tempo.

Eu apertei a mão do meu advogado e saí. Eu pedira para manter


essa última reunião discreta, embora ele quisesse que toda a sua
firma de advocacia viesse se despedir. Eu não permitiria isso.

Quando saí do escritório, não era ninguém importante. Eu era


apenas um cliente saindo, com um carro cheio de memórias e um
tanque cheio de gasolina, pronta para uma viagem pelo país.

As garotas da recepção despediram-se habitualmente e eu


abaixei a cabeça enquanto acenava. Empurrando a porta de vidro,
eu pisei na rua e estava livre. Eu senti isso em cada passo que dava
e eu a abracei. Eu amei. Eu vivi isso. Isso iria me manter viva pela
próxima década.

E então eu ouvi.

— Riley.
Não, não, não.

Comecei a sacudir a cabeça antes mesmo de me virar para


olhar. Então eu tive que rir. Ele mandou Jonah. Não era Tanner.
Sério.

— Você está brincando comigo? — Eu joguei a mão em sua


direção. — Ele envia você agora? Tanner não é suficiente para mim?
Ou o quê? Eu preciso de um gênio para lidar comigo? É por isso que
você está aqui? Como está a namorada, Jonah? Kai não sabe sobre
ela ainda? Hã? Ou… — Eu estava arriscando. — Sobre o amante gay
de Tanner?

Sim. Eu percebi o choque no rosto de Jonah.

— Kai sabe disso? A família sabe? — Fiz sinal de aspas com os


dedos e deixei meus braços se abrirem. Porque eu estou de saco
cheio. Cansada. Esgotada! Jonah aparecer justo hoje, neste
momento, foi a cereja do bolo. A porra da cereja do bolo.

Eu estava tão perto da liberdade.

Jonah endireitou-se do lado do prédio onde ele estava inclinado


enquanto esperava por mim. Ele limpou a garganta, olhando para
cima e para baixo da rua e se aproximando.

— Kai sabe sobre a preferência sexual de Tanner. Eu também.


— Ele olhou para mim. Duro. Não do jeito que ele fazia antes. Ele se
parecia com Kai agora, pelo menos naquele momento. — Nós não
damos à mínima.

Minha alma estava desmoronando.

Ele não entendia.

Liberdade. Eu estava tão perto e deixando escapar um som de


asfixia, comecei a andar em torno dele.

Ele se moveu rápido, agarrando meu braço.

— Kai quer falar com você.

Três meses.

Ele estava com três meses de atraso.

Eu tentei manter minha razão enquanto olhava de volta para


Jonah.

Eu não me importei se ele era um futuro médico. Eu não me


importei com quantas vezes ele me examinou, se certificando de que
eu estava bem. Eu não pensei em Tanner ou em como eu estava
assustada com o que o resto do conselho poderia achar a respeito
de quem ele amava. Eu não pensei em Brooke, como ela estava tão
despedaçada quanto eu e como comecei a sentir falta dela e como eu
sentia falta, NÃO!

Eu não seguiria esse caminho.

Ele não merecia isso.

Eu engoli em seco.
— Não. — Deus. Eu abaixei minha cabeça em angústia. — Deixe-
me ir, Jonah. — Caindo para frente, minha testa encontrou seu
ombro e eu fiquei lá.

Tudo.

Foi tudo por nada.

Ele me achou. Era Jonah, pelo amor de Deus.

Eu quis que eles fossem minha família em algum momento.

— Por favor. — Eu sussurrei isso repetidas vezes e ele pareceu


surpreso no começo, endurecendo.

Então ele relaxou e apenas me segurou. Ele alisou a mão no meu


cabelo e costas, me confortando.

— Por favor, deixe-me ir. Você não entende.

— Shhh. — Ele abaixou a cabeça, sua bochecha descansando na


minha testa. Ele me segurou mais perto. — Shhh. Tudo bem, Riley.
Vai ficar tudo bem.

Mas não ia. E ele não viu. Ele não sabia. Nada ficaria bem.

Ele vivia no mundo da máfia. Eu estava tentando me libertar.


Ele estava sufocando minha última tentativa, na verdade e
finalmente de ser livre. Ele não tinha ideia do que estava fazendo.
Engolindo minhas próprias lágrimas, eu recuei, balançando a
cabeça.
— Você não sabe. — Eu pressionei meu punho na minha boca,
só consegui sentir a dor. Era demais, inundando cada centímetro de
mim.

Eu não conseguia lidar com isso.

Eu não podia suportar.

— Não, Jonah. Você não poderia saber.

Os sons da rua começaram a se confundir.

A calçada começou a girar ao meu redor.

Desolação. Destruição. Dizimação. A mesma palavra. O mesmo


efeito, mas eu precisava de todos eles para descrever como eu
estava me sentindo, porque tudo foi em vão. Tudo acabou.

Estava começando a aparecer. Eles saberiam. Kai saberia e não


haveria como voltar depois.

Atordoada. Confusa. Eu me afastei de Jonah. Eu não sabia para


onde ir, mas tinha que fugir. Eu precisava. Uma última tentativa,
mesmo que fosse patética.

Eu comecei a subir a calçada, e alguém me empurrou no ombro.

— Ei! — veio a voz de Jonah.

O cara amaldiçoou ao meu lado.

— Cuidado!

Um segundo empurrão.

Eu gritei.
Eu perdi o meu equilíbrio. O mundo estava de cabeça para
baixo.

Eu tropecei, tentando me segurar. Eu fui mais longe do que


queria. Eu senti o roçar de um carro atrás de mim, um carro
estacionado. Eu estendi a mão para ele, tentando me equilibrar.

Minhas entranhas estavam em alerta. Vermelho. Eu estava


ficando maluca. Eu tinha que lidar com isso ou meu pior pesadelo se
tornaria realidade.

Rangendo meus dentes pela força, me endireitei contra a minha


própria tontura. Eu me agarrei ao carro e esperei que tudo se
estabilizasse ao meu redor. E então, ainda segurando, sabendo que
eu não estava fora de perigo, mas muito perto disso, senti um último
empurrão contra mim.

— Porra! Desculpa! Ei, ele...

Uma buzina soou.

Eu caí para trás, minha mão balançando no ar, alcançando uma


fortaleza, e então...

Dor.
Acordei com um leve sinal sonoro, minha boca ressecada e uma
dor de cabeça estridente.

— Aww. — Levantando a cabeça, estremeci. Dor passou por


mim e quase dobrei. Isso doía demais.

— Não se mova.

Não...

Eu mantive meus olhos fechados, mas eu sabia que ele estava


lá. Eu o senti antes mesmo de ele falar. Eu não o queria aqui. Se ele
estivesse aqui, não era bom. Havia apenas uma coisa que o levaria
ao meu leito.

Deus, não.

Por favor. Por favor.

Eu rezei silenciosamente, mas então Kai falou.

— O bebê se foi.

Eu não queria ouvir essas palavras. Minhas mãos se moveram


para a minha barriga. Houve o menor impacto inicial. Ela parecia
plana de novo.

— Não. — eu engasguei, me enrolando. – Não, não, não.

— Riley... — A cama mergulhou sob seu peso e eu girei ao redor.


— NÃO! — Eu o empurrei. — Saia! Saia de perto de mim.

— Riley...

Eu me afastei de novo. Eu não queria ver a dor dele. Eu não


queria ver que ele tinha perdido peso, como ele parecia abatido.
Magro. Eu não queria ver seu sofrimento óbvio, porque não
importava, nada disso importava. Ele arrancou tudo de mim, sem
saber, deixando para trás uma parte dele. E agora aquela pequena
bênção se foi.

— Não. — Eu comecei a soluçar, abraçando meu travesseiro. —


Não.

Ele suspirou atrás de mim, sua voz falhando.

— Riley...

— Vá embora!

— Não!

A cama afundou ainda mais. O lençol se levantou e senti sua


mão nas minhas costas. Ele apenas a colocou lá por um momento,
seus dedos tremendo e então ele começou a alisá-la para cima e para
baixo. Ele ficou mais confiante quando eu não gritei nem recuei.

— Eu não posso. Eu não posso mais. Não depois disso. — Ele


parecia tão quebrado.

Uma lágrima vazou do meu olho e eu abracei aquele travesseiro


ainda mais apertado.
— Quando Jonah ligou e me contou o que aconteceu, eu já
estava chegando. Você tem que saber disso. Deus. Você poderia ao
menos ouvir toda a história?

Sua mão parou, mas começou a se mover novamente depois de


um momento. Ele deslizou para cima e para baixo do meu pescoço
para o meu quadril. De novo e de novo.

— Eu pensei que poderia ficar com você. Eu era egoísta demais


para desistir de você, mas observando você durante o meu encontro
com o conselho e então sabendo como você lidaria com seu pai, tive
um vislumbre do futuro. Eu me vi. Eu vi minha mãe. Eu vi você sendo
presa neste mundo. Eu. Tanner. Brooke. Jonah. Nós nascemos neste
mundo. Não podemos sair, mesmo que quiséssemos, mas o nível de
lealdade em que esse mundo prospera não é o que eu quero para
você.

Eu não queria ouvir isso, mas não podia me afastar. Eu estava


tentando. Eu queria dizer a ele para guardar tudo e queria chamar
uma enfermeira para fazê-lo sair.

Mas eu não fiz nada disso.

Eu escutei.

— Demorei quatro dias para deixar você ir. Eu pensei sobre isso
várias vezes. Toda vez que eu pensava que poderia me afastar de
você, eu acabava alcançando você de novo e então aquele último
dia... — Deus. Ele expulsou um som irregular. Sua mão pressionou
mais contra mim, tremendo. — Você tem que saber que eu
arranquei meu coração quando disse essas palavras. E elas eram
mentiras. Eu só precisava que você fosse, se libertasse dessa vida o
máximo que pudesse.

Um soluço pegou em sua voz.

— Eu não mereço você, Riley. As razões pelas quais você lutou


contra mim foram as razões pelas quais eu tive que deixar você ir.
Eu precisei. Você pode não achar que merece uma vida normal, mas
eu sei. Você merece isso e muito mais. Você merece a porra da lua e
das estrelas e todas as coisas bregas do mundo, porque é verdade.
Você é minha bondade. Minha redenção. Minha salvação, Jesus, você
despertou algo bom em mim que eu nunca soube que estava lá e
percebi que toda vez que eu te abraçava eu estava te destruindo.
Pouco a pouco. Quanto mais bondade você me deu, mais escuridão
eu te devolvi. Eu estava mudando você. Eu a mudei e agora isso.

Sua mão estremeceu, mas depois começou a esfregar em um


círculo lento.

— Eu sabia que você queria sair. Eu sabia sobre as casas, mas


não percebi que você pretendia desaparecer até que a Rede chamou.

Eu fiquei tensa.

— O quê?

Meu peito apertou novamente. Se a rede o chamasse, então...

— Seus amigos tentaram sair. Eles os pegaram e me alertaram.


Jonah já estava aqui tratando de outro assunto, então eu mandei ele
procurar você. Ele tentou dizer a você que eu ia voltar, que eu tinha
coisas para te contar, mas ele disse que alguns sem-teto começaram
a brigar ao seu lado e você foi empurrada.
Ele parou por um momento, depois falou novamente com uma
voz rouca.

— Eu estava no avião quando ele ligou e disse que você estava


no hospital. O médico me contou sobre o bebê e, caralho, Riley. —
Sua mão parou, tremendo novamente. — Puta merda, Riley. Se eu
tivesse perdido você e o bebê? Vocês dois?

Cada palavra rasgou minha alma.

O bebê. Ele ou ela, eu nunca descobri qual.

O bebê foi embora.

Eu chorei de novo; Eu não pude parar. Kai me levantou e me


embalou em seus braços.

Uma parte de mim queria resistir a ele. Ele me machucou tanto,


mas sentindo suas lágrimas na minha pele, eu cedi. Eu não tinha
forças para me afastar. Eu apenas dobrei, pressionei minha cabeça
em seu peito e chorei.

Ele passou os braços em volta de mim, movendo-se para


descansar contra a cabeceira da cama. Ele me segurou como se eu
fosse nosso filho perdido.

Eventualmente eu chorei tudo que tinha pra chorar.

A enfermeira nos encontrou e foi chamar o médico. Depois de


um momento ele entrou, lançando um olhar desconfiado para Kai
enquanto ele se movia para olhar pela janela. Com a cabeça baixa, as
mãos nos bolsos, ele parecia não ouvir, mas eu sabia que ele estava
ouvindo. Ele aceitou todas as perguntas que o médico me fez, todas
as informações e sinais vitais que eles verificaram. Tudo isso.

Um carro bateu no meu quadril, não o suficiente para me


esmagar, mas enviou meu corpo voando no ar. Quando eu aterrissei,
minha barriga bateu em outro carro estacionado ao longo da rua,
que amorteceu minha queda e então minha cabeça bateu na lateral
do carro enquanto eu me estatelei ao lado dele.

Eu tinha hematomas por toda parte, uma concussão. O impacto


com o segundo carro me fez abortar. Eles estavam preocupados com
o sangramento interno, mas depois da cirurgia, tudo foi consertado.
Exceto o bebê. Exceto a razão pela qual eu tentei deixar tudo para
trás.

Essa foi a verdadeira razão por trás de sair dos negócios de meu
pai, a razão pela qual eu queria vender todas as casas. O bebê era o
motivo pelo qual eu precisava desaparecer.

Porque meu filho teria crescido como um Bennett. Ele ou ela


teria vivido nas sombras dos Bennett e eu não queria isso. Foi a
razão pela qual Kai tentou me deixar ir, e foi por isso que eu estava
tentando desaparecer.

Eu estava perto, mas não aconteceu. Pensando nisso, eu estava


desleixada.