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2.

DIREITO
ADMINISTRATIVO
AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - NEPOTISMO

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA ÚNICA DA COMARCA DE


_____ - PB

O Ministério Público do Estado da Paraíba, por meio de seu representante legal infra firmado, em
exercício na Promotoria de Justiça dessa Comarca, vem, com fulcro nos artigos 37 caput e §4º, 129 II e III,
182 e 225, todos da Constituição da República, no artigo 25, inciso IV, “b”, da Lei nº 8.625/93 (Lei Orgânica
Nacional do Ministério Público), na Lei n.º 7.347/85, art. 21 e na Lei 8.429/92, ajuizar a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA

A ser processada em face de RIQUINHO RICO DA SILVA, brasileiro, prefeito do município de


XXXXX – PB, domiciliado na Rua dos Prefeitos, 000, Bairro dos Honestos; ou na sede administrativa da
Prefeitura XXXXX – PB, pelos fatos e fundamentos a seguir declinados.

I - DOS FATOS
A presente ação visa responsabilizar o prefeito Municipal de XXXXX – PB, por ter, na condição de
gestor público, incidido na prática de NEPOTISMO no âmbito do Poder Municipal, ao nomear e autorizar a
permanência para cargos comissionado terceiros com relação de parentesco consanguíneo, em linha reta, e
por afinidade, seus.
A presente ação foi impulsionada a partir de uma “denúncia”, motivada por vereadores locais, a
saber: Fulano de Tal, Cicrano de Tal e Cinética de Tal, que apresentaram cópias dos seus diplomas
expedidos pela Justiça Eleitoral e, o fizeram na condição de representantes do povo, que, por conseguinte,
possuem a obrigação de fiscalizar, velar e zelar pelos bens públicos e da comunidade.
Pois bem, supramencionados vereadores apresentaram – à Procuradoria Geral do Ministério Público
Estadual, para averiguação da conduta criminal, que, por sua vez, remeteu os autos a essa Promotoria de
Justiça cumulativa – documento, contendo uma lista com diversos nomes de pessoas com parentesco, que
exercem funções públicas, sendo, portanto, beneficiados pelo seu parente, prefeito.
A cópia dos documentos que instruem a presente ação, evidenciam, de maneira cristalina, a prática
do Nepotismo no Município de XXXXX – PB, consubstanciada na nomeação de pessoas, por indicação de
parente e afins, para o exercício de cargos comissionados, conforme quadro demonstrativo abaixo
transcrito:
NOME E CARGO OCUPADO PARENTE E FUNÇÃO OCUPADA

ESPOSA DO PREFEITO, Maria Rica da Silva –


RIQUINHO RICO DA SILVA - PREFEITO
SECRETÁRIA DA AÇÃO SOCIAL

RIQUINHO RICO DA SILVA - PREFEITO MÃE DO PREFEITO, Josefa Rica da Silva - DENTISTA

IRMÃO DO PREFEITO, José Rico da Silva –


RIQUINHO RICO DA SILVA - PREFEITO
SECRETÁRIO DE INFRAESTRUTURA

RIQUINHO RICO DA SILVA - PREFEITO PARENTE, João Rico da Silva - DENTISTA


NOME E CARGO OCUPADO PARENTE E FUNÇÃO OCUPADA

ESPOSO, Fulano Riqueza – LOCAÇÃO DE VEÍCULO


MARIA RIQUEZA – VICE-PREFEITA
“CARRO PIPA”, PLACA XXX-0000

FILHA, Patricinha Riqueza – SECRETÁRIA ADJUNTA


MARIA RIQUEZA – VICE-PREFEITA
DA SAÚDE

GENRO, Encostado Riqueza – ASSESSOR ESPECIAL


MARIA RIQUEZA – VICE-PREFEITA
II

MARIA RIQUEZA – VICE-PREFEITA PRIMO, Encostado Parente – ASSESSOR ESPECIAL II

MARIA RIQUEZA – VICE-PREFEITA IRMÃO, Esperto riqueza – ASSESSOR ESPECIAL II

NOME E CARGO OCUPADO PARENTE E FUNÇÃO OCUPADA

Fulana – SECRETÁRIA ADJUNTA DE


FILHA, Fulaninha.
EDUCAÇÃO

NOME E CARGO OCUPADO PARENTE E FUNÇÃO OCUPADA

Fulano – SECRETÁRIO DE
PARENTE, Fulana
AGRICULTURA

Nepotismo cruzado:

NOME E CARGO OCUPADO PARENTE E FUNÇÃO OCUPADA

Fulano – PRESIDENTE DA CÂMARA


FILHA, Fulana – MÉDICA (CRM)
MUNICIPAL DE XXXXX

Diante de tais constatações, verifica-se que o promovido nomeou nos quadros as pessoas aduzidas,
incidindo, por conseguinte, em Nepotismo, razão pela qual se busca sua responsabilização.
Diante da clara afronta aos Princípios Constitucionais da Moralidade Administrativa,
Impessoalidade, Igualdade e Eficiência, que regem a Administração Pública, decorrente da prática nefasta
do nepotismo, resolveu o Ministério Público ajuizar a presente ação para a responsabilização do agente
ímprobo.

II - DO DIREITO

II.1 – Do conceito de nepotismo


O Nepotismo no âmbito da Administração Pública consiste na nomeação de parentes para o
exercício de cargo ou função pública que não exigem a regra geral do concurso público para provimento.
Trata-se de um procedimento ilícita consubstanciada na forte influência do vínculo familiar como
motivação do ato administrativo de nomeação.
As relações de parentesco são sustentadas por laços afetivos e de solidariedade familiar inegáveis. O
principal pilar da sociedade é a família. Assim, é natural que a autoridade queira dar preferência a um
parente seu, em lugar de um desconhecido ou estranho (não parente), para ocupar cargos ou funções
gratificadas de livre nomeação.
Com a prática do Nepotismo, o critério do parentesco para o preenchimento dos cargos e funções
públicos é um fator determinante, valorizando o favorecimento pessoal, em detrimento das regras da ética,
da moral, da impessoalidade, da igualdade e da eficiência, valores necessários ao bom andamento do
serviço público.
A nomeação eivada pelo Nepotismo torna o ato administrativo viciado, pelo fato de violar os
Princípios Constitucionais norteadores da Administração Pública, como veremos adiante.
Lamentavelmente, o nepotismo pode ser observado como uma prática corriqueira na administração
pública brasileira, seja de forma declarada, seja na forma dissimulada, como é o Nepotismo cruzado.
É de conhecimento geral no país o costume dos gestores públicos tornarem os cargos comissionados
e funções de confiança e gratificadas, em quase sua totalidade, em verdadeiros “cabides de emprego” para
seus familiares, que passam a ser remunerados às expensas do Poder Público, sem qualquer outro critério
de seleção.

II.2 – Da Violação dos Princípios Constitucionais da Administração Pública


A prática do Nepotismo no serviço público viola os princípios norteadores na Administração
Pública estabelecidos constitucionalmente (art. 37, caput), aplicados aos três Poderes (Executivo,
Legislativo e Judiciário), nas três esferas de governo (Federal, Estadual e Municipal).

a) DA VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA IMPESSOALIDADE E DA IGUALDADE


A escolha de parentes para ocupar cargos comissionados e funções gratificadas implica a adoção de
critério que afetam a isonomia entre os eventuais concorrentes à vaga e que favorecem o atendimento a
interesses pessoais da autoridade e do servidor parente, em detrimento do interesse público.
Pelo princípio da igualdade, a Administração Pública tem que tratar a todos os administrados sem
discriminações, benesses, favoritismos, perseguições, simpatias ou qualquer animosidade pessoal, política
ou ideológica, que possa interferir na atuação administrativa, e muito menos com interesses pessoais ou de
grupos de qualquer espécie.
O interesse público é que deve ser sopesado sempre, e somente em nome do interesse público é que
pode haver tratamento desigual por parte da Administração entre seus administrados.
A nomeação de parentes para cargos em comissão ou funções gratificadas, configurando o
nepotismo, acaba por violar a igualdade entre os administrados, sem a devida fundamentação ou
justificativa fincada no interesse público.
Nesse ponto, os Princípios da igualdade e da impessoalidade têm fundidos seus conteúdos,
impedindo a atuação arbitrária e personalística do Estado.
A atuação direcionada da Administração, de forma desigual, em relação a um indivíduo só encontra
legitimidade quando o fator de discriminação guarda correlação direta com o fim alcançado, e quando este
tem amparo no ordenamento jurídico.
Do contrário, não havendo tais elementos, próprios da discriminação “positiva”, a atuação
administrativa será juridicamente ilegítima, contrária ao conteúdo normativo da Isonomia, e mais,
especificamente, da sua vertente da Impessoalidade.
Por outro lado, a norma de vedação à pessoalidade também proíbe que a Administração seja
personificada pelo indivíduo que a representa. É o chamado Princípio da Impessoalidade.
O administrador não pode vincular o seu nome à sua administração e, por conseguinte, fazer de seus
parentes ocupantes de cargos comissionados ou de funções gratificadas, como uma marca pessoal na
Administração. O agente não pode tomar para si a figura de sua função pública, tornando-a parte de sua
esfera pessoal, uma extensão de sua individualidade, em total contraposição às noções de coletividade e
sociedade pelas quais deveria primar.
Trata-se de conduta condenada pelo sistema constitucional brasileiro, como anota José Afonso da
Silva:
“O princípio ou regra da impessoalidade da Administração Pública significa que os atos e
provimentos administrativos são imputáveis não ao funcionário que os pratica mas ao órgão
ou entidade administrativa em nome do qual age o funcionário. Este é um mero agente da
Administração Pública, de sorte que não é ele o autor institucional do ato. Ele é apenas o órgão
que formalmente manifesta a vontade estata l”. (SILVA, José Afonso da. Curso de Direito
Constitucional Positivo. 23 ed. São Paulo: Malheiros, 2004).
A violação do Princípio da Impessoalidade pela prática do nepotismo já foi reconhecida pelo
Superior Tribunal de Justiça:
“ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. CONTRATAÇÃO DE ADVOGADO COM FUNÇÕES
DE PROCURADOR GERAL DO MUNICÍPIO. LICITAÇÃO. DESOBEDIÊNCIA AO PRINCÍPIO DA
IMPESSOALIDADE.
1. Contratação do ex-Procurador Geral, vencedor do certame. Transmudação do cargo de
Procurador Geral em advogado de confiança no afã de permitir ao profissional o exercício
simultâneo da função pública e do munus privado da advocacia.
2. O princípio da impessoalidade obsta que critérios subjetivos ou anti-isonômico influam
na escolha dos exercentes dos cargos públicos; máxime porque dispõem os órgãos da
Administração, via de regra, dos denominados cargos de confiança, de preenchimento
insindicável.
3. A impessoalidade opera-se pro populo, impedindo discriminações, e contra o
administrador, ao vedar-lhe a contratação dirigida intuito personae.
(...)”.
(RECURSO ESPECIAL 2002/0001958-0 Relator(a) Ministro LUIZ FUX (1122) Órgão Julgador
T1 - PRIMEIRA TURMA Data do Julgamento 01/10/2002 Data da Publicação/Fonte DJ
28.10.2002 p. 231).
Tem-se que o Supremo Tribunal Federal já reconheceu que o Nepotismo viola o Princípio da
Impessoalidade, proferindo decisão de mérito nesse sentido, através do voto do relator Ministro Carlos
Ayres Brito, ao julgar a Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 12/2006, repetindo os termos da
decisão liminar:
“Em palavras diferentes, é possível concluir que o spiritus rectus da Resolução do CNJ é
debulhar os próprios conteúdos lógicos dos princípios constitucionais de centrada regência de
toda a atividade administrativa do Estado. Princípios como:
I – o da impessoalidade, consistente no descarte do personalismo. Na proibição do marketing
pessoal ou da auto-promoção com os cargos, as funções, os empregos, os feitos, as obras, os
serviços e campanhas de natureza pública. Na absoluta separação entre o público e o privado,
ou entre a Administração e o administrador, segundo a republicana metáfora de que “não se
pode fazer cortesia com o chapéu alheio”. Conceitos que se contrapõem à multi-secular cultura
do patrimonialismo e que se vulnerabilizam, não há negar, com a prática do chamado
“nepotismo’. Traduzido este no mais renitente vezo da nomeação ou da designação de parentes
não-concursados para trabalhar, comissionadamente ou em função de confiança, debaixo da
aba familiar de seus próprios nomeantes. Seja ostensivamente, seja pela fórmula enrustida do
“cruzamento” (situação em que uma autoridade recruta o parente de um colega para ocupar
cargo ou função de confiança, em troca do mesmo favor);
II – (...);
III – o princípio da igualdade, por último, pois o mais facilitado acesso de parentes e familiares
aos cargos em comissão e funções de confiança traz consigo os exteriores sinais de uma
prevalência do critério doméstico sobre os parâmetros da capacitação profissional (mesmo que
não seja sempre assim). Isto sem mencionar o fato de que essa cultura da prevalente
arregimentação de mão-de-obra familiar e parental costuma carrear para os núcleos familiares
assim favorecidos uma super-afetação de renda, poder político e prestígio social.”
Também o Supremo Tribunal Federal, nos autos do Recurso Extraordinário nº 579.951-4/RN, no
voto do Relator Ricardo Lewandowshi, já reconheceu expressamente:
“Além de ofensiva à moralidade administrativa, a nomeação de parentes para cargos e funções
que não exigem concurso público, como já se viu acima, fere o princípio da impessoalidade e,
por extensão, o basilar princípio da isonomia, porque prevalece o nefasto “QI”, o popular
“quem indica”, mencionado pelo Ministro Marco Aurélio em seu voto pioneiro sobre o
nepotismo, na ADI 1.521/RS, em que o Plenário indeferiu pedido de medida cautelar para
suspender a eficácia de dispositivos da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul, que
traziam normas vedando a contratação de parentes de autoridades públicas”.

Portanto, seja tomando como ponto de vista o tratamento anti-isonômico (ou pessoal) ofertado aos
administrados, ou a personalização da Administração Pública na figura do agente competente para
promovê-la, a prática do nepotismo encontra obstáculos insuperáveis nos princípios da isonomia e da
impessoalidade.
Apesar de ter poder discricionário na escolha do ocupante de cargo em comissão ou função de
confiança, o administrador público não pode fundar-se na afinidade ou na consanguinidade, pois, se tal
conduta fosse permitida, o preenchimento de cargos e funções públicas estariam sujeitos à transmissão
hereditária, que teve vigência nos períodos régios, em detrimento do interesse público para beneficiar o
interesse familiar do agente público.

b) DA VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA MORALIDADE


A Moralidade Administrativa é desenhada pela doutrina como o nexo, a “ponte” de ligação entre os
comandos jurídicos e os valores éticos da sociedade em geral 1. Trata-se de ponto de intersecção entre as
esferas jurídica e ética em sentido estrito, fator legitimador da própria produção jurídico-administrativa.
Com efeito, a ordem jurídica que não mantenha ferramenta de constante atualização de seus
indicadores axiológicos frente à sociedade, fonte primeira de todos os comandos éticos 2, perde
legitimidade perante a mesma, que é a própria razão de sua existência.
É assim que toda a produção legislativa ordinária e todos os atos administrativos nacionais, a fim de
que não firam a norma principiológica referida, devem coadunar-se à “moral administrativa nacional 3”,
conjunto de valores éticos tidos como obrigatórios à máquina administrativa para o desempenho de suas
funções.
Nada obstante, os modelos, ou “standards” de normas morais utilizados para a aplicação do
princípio não devem guardar semelhança com aqueles componentes dos códigos morais subjetivos
inerentes a cada pessoa humana. A “moral administrativa” aqui delineada contém ares de objetividade que
a tornam prevalente no seio da comunidade em que está ancorada. É dizer, a Constituição, ao estabelecer o
princípio de legitimidade ética da Administra Pública não delegou ao hermeneuta a definição, de acordo
com suas concepções pessoais, do que vem a ser a moralidade administrativa. Assim apregoa a doutrina
especializada:
“Nada obstaria que afirmássemos que, em vez de tornar imperativa a prevalência de uma
determinada moral, o Direito vem para fazer conviverem as diversas morais. Aproveitando-se o
pensamento de Walzer, o Direito se relaciona com a moral, não no sentido de impor a cada
grupo uma determinada escultura modal específica (moral minimalista), mas, e apenas, no
sentido de fornecer a todos os grupos a pedra moral genérica (moral maximalista), para que
cada um, a partir dela, lapide sua própria escultura, perfazendo esse cenário uma diversidade

1 RANGEL JÚNIOR, Hamilton. Princípio da moralidade institucional: conceito, aplicabilidade e controle na Constituição de 1988.
São Paulo: Juarez de Oliveira, 2001. pp. 27-30.
2 O qualificativo “ético” é aqui manejado de forma ampla, a abranger todas as formas de manifestações deontológicas que a
humanidade seja capaz de produzir (sejam elas éticas em sentido estrito, jurídica ou moral).
3 “Não se trata — diz Hauriou, o sistematizador de tal conceito — da moral comum, mas sim de uma moral jurídica, entendida como
‘o conjunto de regras de conduta tiradas da disciplina do interior da administração’” (MEIRELLES, Hely Lopes apud MORAES,
Alexandre. Direito Constitucional. 21 ed. São Paulo: Malheiros, 1995. p. 82).
artesanal que o Direito virá a preservar” 4.
O trato da matéria, outrossim, deve sempre obedecer a um juízo de adequação entre a atuação
administrativa concreta e a “moral administrativa”, estabelecendo, de pronto, se a medida é compatível ou
não com o conjunto de valores que a sociedade erigiu objetivamente como modelos à condução de sua
máquina administrativa. É a partir da análise excludente que se verifica o grau de moralidade de um ato
infraconstitucional, já que é inviável a delimitação exata das prescrições éticas objetivamente aceitas pela
sociedade brasileira5.
Tomando o caso examinado em específico, infere-se que a reprovação social ao nepotismo, como
visto, vem de longa data. A concepção de que uma pessoa, por deter atributos parentais diversos de outras,
deve receber melhores oportunidades profissionais é contrária ao sentimento ético de uma forma geral,
ultrapassando consideravelmente as barreiras de tempo e espaço.
Isso se deve muito à natureza das normas ofendidas pela prática do nepotismo. Deveras, os valores
da igualdade e da indisponibilidade da coisa pública só não encontram guarida jurídica, ética ou moral em
sociedades que abonem a confusão patrimonial dos bens estatais com os de seus soberanos ou que estejam
sob regime de exceção.
Além disso, a nomeação de nepotes, ainda que tomada de per si (sem se considerar as normas do
Direito posto), é tida como antiética.
A consciência coletiva nacional tende a se sentir repugnada com a manipulação da máquina estatal
em prol de interesses próprios, pelos representantes de seu titular, o povo — mormente na atualidade,
quando a população tem se deparado constantemente com a omissão penosa do Estado em vários serviços
de ordem essencial.

Essas alegações são bem corroboradas por Emerson Garcia:


“Em um primeiro momento, a conduta acima mencionada (nomeação de parentes para o
provimento de cargos em comissão) poderia ser considerada como dissonante do princípio da
moralidade administrativa, pois fere o senso comum imaginar que a administração pública
possa ser transformada em um negócio de família”6.
Referidas considerações são facilmente transmissíveis ao âmbito administrativo, compondo a
denominada “Moral Administrativa”. A prevenção de intrusões indevidas da esfera particular do indivíduo
no exercício de sua função pública é, certamente, meta almejada pelo conjunto de regras morais-
administrativas brasileiras, assim como o combate à personalização da coisa pública.
Tais valores adequam-se ao conceito de moralidade administrativa adotado pelo Direito brasileiro,
como acentua Hamilton Rangel, citando Tércio Sampaio:
“A imoralidade faz com que a obrigação jurídica perca o sentido (...). Sentido, assim, tem a ver
com a valia das coisas, com sua dignidade intrínseca. (...) A noção de sentido tem algo a ver,
afinal, com a idéia de senso comum. (...) senso comum é algo que o homem experimenta em
contato com os outros e não solitariamente. Por isso, também nestes termos, a exigência moral
de justiça é uma espécie de condição para que o direito tenha um sentido. A arbitrariedade,
assim, priva o direito do seu sentido porque torna as normas de conduta mera imposição,
unilateral, que prescinde dos outros enquanto um mundo comum.
(...)
Para esse autor, então, a imoralidade de uma conduta humana normatizada corresponde à
perda de seu sentido, de sua valia, em virtude de o comportamento individual ter-se desviado
do senso comum, manifestando-se arbitrário. A contrario sensu, a moralidade de uma conduta
humana normatizada corresponde à manutenção de seu sentido, de sua valia, em virtude de a
prática ter respeitado o senso comum, fugindo à arbitrariedade. Ora, se é o senso comum que

4 RANGEL JÚNIOR, Hamilton. Princípio da moralidade institucional: conceito, aplicabilidade e controle na Constituição de 1988.
São Paulo: Juarez de Oliveira, 2001. pp. 29-30.
5 José dos Santos Carvalho Filho (Direito Administrativo. 10ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2003, p. 15) expressa bem essa
tendência de identificação direta da imoralidade do ato.
6 GARCIA, Emerson. O nepotismo. Disponível em: http://www.jus.com.br. Último acesso em: 20 fevereiro 2006; itálicos originais.
define as fronteiras do que é subjetivo (individual) e do que é objetivo (coletivo),
desrespeitar essa fronteira é fugir ao senso comum, e, na linha desse autor, manifestar-se
arbitrário, fugidio ao sentido, à valia, à dignidade intrínseca das coisas; eivado de
imoralidade, então”7.
Como se vê, a contratação ou nomeação de parentes por aqueles que detenham tais prerrogativas no
serviço público, pela sua frontal contraposição ao conjunto de regras éticas afetas à Administração Pública
brasileira, revelam-se faltas ao Princípio Constitucional da Moralidade Administrativa.

c) DA VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA


O princípio da eficiência, como salvaguardado pela Constituição para o sistema administrativo
brasileiro, encontra duas vertentes principais de consecução: (1) a racionalização da relação
meio/resultado na produção administrativa (derivada “econômica/administrativa” da Eficiência) e (2) a
acomodação dessa mesma produção, racionalizada, às normas legais e constitucionais atinentes à espécie
(derivada “jurídica”).
Tais derivadas são consequências diretas da inserção de um princípio originariamente econômico no
âmbito jurídico, ou mais especificamente, no Direito Positivo brasileiro. Com efeito, a partir dessa
manifestação de interdisciplinaridade, o Direito abraçou para si alguns conceitos e normas característicos
da Ciência Administrativa ou da Gestão Econômica, sempre os amoldando aos imperativos da ordem
constitucional já consolidada.
Assim, a eficácia nos resultados deve estar sempre condicionada à adequação social da medida da
mesma forma que a relação custo/benefício não poderá olvidar dos ditames sociais básicos, dentre outras
ponderações. É dizer: a conjugação da eficácia ou efetividade econômicas à ordem jurídica administrativa
espelha o significado jurídico da Eficiência, como bem anota a Doutrina:
“Assim, princípio da eficiência é aquele que impõe à Administração Pública direta e indireta e
a seus agentes a persecução do bem comum, por meio do exercício de suas competências de
forma imparcial, neutra, transparente, participativa, eficaz, sem burocracia e sempre em busca
da qualidade, primando pela adoção dos critérios legais e morais necessários para a melhor
utilização possível dos recursos públicos, de maneira a evitar-se desperdícios e garantir-se uma
maior rentabilidade social. Note-se que não se trata da consagração da tecnocracia, muito
pelo contrário, o princípio da eficiência dirige-se para a razão e fim maior do Estado, a
prestação dos serviços sociais essenciais à população, visando a adoção de todos os meios
legais e morais possíveis para a satisfação do bem comum” 8.

E mais adiante arremata o constitucionalista brasileiro, fazendo citação direta a Joaquim Gomes
Canotilho e Vital Moreira:
“Canotilho e Moreira, igualmente, fazem essa advertência, afirmando que “não se trata de
uma perspectiva meramente tecnocrática, pois, como resulta do princípio da gestão
participativa, à Constituição interessam não apenas os meios tecnológicos de organização,
mas também as condicionantes sócio-políticas em que se move a Administração Pública” 9”
Faz-se viável, portanto, depurar — ante o conteúdo jurídico do princípio da eficiência — que o
contexto analisado apresenta transgressões indeléveis também a essa norma basilar da Administração
Pública.
A racionalização dos meios, a obtenção de resultados mais céleres, a conformação de uma produção
administrativa mais acelerada aos princípios e regras jurídicos, todos objetivos almejados pela previsão
constitucional, só podem ser alcançados a partir de uma sistematização racional, cientificamente
organizada, do quadro de servidores públicos.
Tal modo de execução das atividades administrativas tem como pressuposto inarredável, assim, o

7 RANGEL JÚNIOR, Hamilton. Princípio da moralidade institucional: conceito, aplicabilidade e controle na Constituição de 1988.
São Paulo: Juarez de Oliveira, 2001. pp. 18-19; grifos acrescidos.
8 MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2002. p. 317; itálicos originais; negritos acrescidos.
9 Idem, ibidem.
ingresso de servidores capacitados de acordo com a função a ser exercida, selecionados pelo modo mais
apropriado na atualidade, do ponto de vista econômico, administrativo e jurídico: a seleção objetiva
(gênero do qual o concurso público é espécie).
A concorrência de fatores estritamente subjetivos, como os de parentesco, emocionais e até afetivos
no processo seletivo, a contrario sensu, é fator de ineficiência das atividades dos futuros selecionados para
cargos ou funções públicas, gerando incontido desrespeito ao comando principiológico constitucional.
Portanto, a prática do Nepotismo se choca com o Princípio da Eficiência, especialmente na forma de
provimento do cargo ou função. A nomeação de um parente para o exercício de cargo público não garante
a eficiência desse sevidor, o que seria mais provável de se obter com a adoção de um critério objetivo de
seleção, como o concurso público.
A Doutrina tradicional do ramo constitucional do Direito há muito apregoa a incompatibilidade da
prática de favorecimento pessoal com o modelo de Estado Democrático de Direito adotado pela Carta de
1988, principalmente em razão da má qualidade do serviço ofertado:
“A democracia, com eleições periódicas e substituições freqüentes dos governantes, numa
primeira fase, até piorou a situação, dando ensejo ao triunfo do spoil´s system. Cada mudança
de governo, particularmente quando este passava para o partido adversário, acarretava a
“derrubada” dos servidores nomeados pelo anterior e a distribuição dos lugares entre os
apaniguados do novo, como pagamento pelos serviços eleitorais prestados.
Tal sistema gerava inconvenientes graves, quais a instabilidade administrativa, as
interrupções no serviço, a descontinuidade nas tarefas, e não podia ser mantido no Welfare
State, cujo funcionamento implica a existência de um corpo administrativo capaz,
especializado e treinado, à altura de suas múltiplas tarefas. Se de modo geral foi abandonado,
mas se demitindo os admitidos pelo governo anterior, continua a praxe de premiar os
correligionários à custa da administração pública”10.
Na mesma esteira, apregoa Diógenes Gasparini sobre a ineficiência do processo discricionário de
escolha de servidores:
“Pelo concurso, afastam-se os inábeis e os indicados por figuras proeminentes do mundo
administrativo, social e político, e prestigiam-se os mais aptos à satisfação dos interesses da
Administração Pública”11.
Anotem-se, ainda, as oportunas considerações do Min. Carlos Ayres de Britto, relator da ADC nº 12,
que tem por objeto a Resolução nº 07 do Conselho Nacional de Justiça, acrescentando variados outros
empecilhos à concreção do princípio da eficiência, a partir da prática de nepotismo:
“36.(...)II – o princípio da eficiência, a postular o recrutamento de mão-de-obra qualificada
para as atividades públicas, sobretudo em termos de capacitação técnica, vocação para as
atividades estatais, disposição para fazer do trabalho um fiel compromisso com a assiduidade
e uma constante oportunidade de manifestação de espírito gregário, real compreensão de que
servidor público é, em verdade, servidor do público. Também estes conceitos passam a
experimentar bem mais difícil possibilidade de transporte para o mundo das realidades
empíricas, num ambiente de projeção do doméstico na intimidade das repartições estatais,
a começar pela óbvia razão de que já não se tem a necessária isenção, em regra, quando se
vai avaliar a capacitação profissional de um parente ou familiar. Quando se vai cobrar
assiduidade e pontualidade no comparecimento ao trabalho. Mais ainda, quando se é
preciso punir exemplarmente o servidor faltoso (como castigar na devida medida um pai, a
própria mãe, um filho, um(a)esposo (a) ou companheiro (a), um(a) sobrinho (a), enfim, com
quem eventualmente se trabalhe em posição hierárquica superior?). E como impedir que os
colegas não-parentes ou não-familiares se sintam em posição de menos obsequioso tratamento
funcional? Em suma, como desconhecer que a sobrevinda de uma enfermidade mais séria, um
trauma psico-físico ou um transe existencial de membros de u´a mesma família tenda a
repercutir negativamente na rotina de um trabalho que é comum a todos? O que já significa a
paroquial fusão do ambiente caseiro com o espaço público. Pra não dizer a confusão mesma

10 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de direito constitucional. 20 ed. São Paulo: Saraiva, 1993. p. 203; grifos acrescidos.
11 GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 9 ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 172.
entre tomar posse nos cargos e tomar posse dos cargos, na contra-mão do insuperável
conceito de que “administrar não é atividade de quem é senhor de coisa própria, mas gestor
de coisa alheia” (Rui Cirne Lima);
Também, o Supremo Tribunal Federal, nos autos do Recurso Extraordinário nº 579.951-4/RN, no
voto do Relator Ricardo Lewandowshi, já reconheceu expressamente:
“E no mais das vezes, a nomeação de parentes, dada absoluta inapetência destes para o
trabalho e o seu completo despreparo para o exercício das funções que alegadamente exercem,
vulnera também o princípio da eficiência, introduzido pelo constituinte derivado no caput do
art. 37 da Carta Magna, por meio da EC 19/1998, num evidente desvio de finalidade,
porquanto permite que o interesse privado, isto é, patrimonial, no sentido sociológico e também
vulgar da expressão, prevaleça sobre o interesse coletivo”.
Para o Ministro, o que está em causa “não é o trabalho desempenhado por esses “servidores-
parentes”, mesmo porque a obrigação de bem trabalhar constitui dever de todos os ocupantes de cargos
públicos, sejam eles concursados ou não. O que está em debate, com efeito, não é a qualidade do serviço
por eles realizado, mas a forma do provimento dos cargos que ocupam, que se deu em detrimento de
outros cidadãos igualmente ou mais capacitados para o exercício das mesmas funções, gerando a
presunção de dano à sociedade como um todo”. Não se questiona a competência, a aptidão ou a capacidade
dos parentes nomeados, mas a força propulsora da indicação para o cargo ou função.
Por outro lado, a nomeação de parentes aumenta as chances de comprometer a excelência na
prestação do serviço público. Isto também porque a hierarquia administrativa acaba por ser viciada pela
prática do Nepotismo. Afinal, se o servidor foi galgado ao cargo em razão das fortes relações de parentesco
que têm com a autoridade pública, não é crível que seus deslizes funcionais sejam reprimidos pela
Administração com o rigor exigido pela lei.
Também é de se supor que ao servidor parente, em razão do parentesco, sejam reservadas as tarefas
mais amenas, os trabalhos menos penosos, as oportunidades mais cobiçadas. Afinal, ele é da família.
Não é desarrazoado presumir, ainda, que as cobranças e as exigências de resultados sejam
reservadas apenas aos servidores não parentes. Afinal, eles não são da família. Novamente, o interesse
público cede diante do interesse familiar e o princípio da impessoalidade é malferido.

d) DA VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DO INTERESSE PÚBLICO


A atividade administrativa, num Estado Democrático, deve se basear exclusivamente em interesses
de ordem pública. O afastamento dessas diretrizes básicas, com a consideração de demandas privadas no
trato da res pública desvirtua a própria existência da máquina administrativa, e, por conseguinte, de seus
agentes e serviços.
Essa é a lição da Doutrina administrativista, em voz unânime:
“A indisponibilidade dos interesses públicos significa que, sendo interesses qualificados como
próprios da coletividade — internos ao setor público —, não se encontram à livre disposição de
quem quer que seja, por inapropriáveis. O próprio órgão administrativo que os representa não
tem disponibilidade sobre eles, no sentido de que lhe incumbe apenas curá-los — o que é
também um dever — na estrita conformidade do que predispuser a intentio legis.
[...]
Em suma, o necessário — parece-nos — é encarecer que na administração os bens e os
interesses não se acham entregues à livre disposição da vontade do administrador. Antes, para
este, coloca-se a obrigação, o dever de curá-los nos termos da finalidade a que estão adstritos.
É a ordem legal que dispõe sobre ela.”12.
“Princípio da indisponibilidade. Não se acham, segundo esse princípio, os bens, direitos,
interesses e serviços públicos à livre disposição dos órgãos públicos, a quem apenas cabe curá-
los, ou do agente público, mero gestor da coisa pública. Aqueles e este não são seus senhores

12 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 16 ed. São Paulo: Malheiros, 2003. pp. 64-65; itálicos
originais.
ou seus donos, cabendo-lhes por isso tão-só o dever de guardá-los e aprimorá-los para a
finalidade a que estão vinculados13.
A mesma leitura é ofertada pelos Tribunais:
“ADMINISTRATIVO: PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DO INTERESSE PÚBLICO. PODER
DE DIREÇÃO DO PROCESSO. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO GERAL DE DIREITO QUE VEDA O
ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA, DESCONTO DO MONTANTE JÁ PAGO NA VIA
ADMINISTRATIVA. AUSÊNCIA.
1 - Ainda que não tenha havido pedido da parte a respeito do desconto das parcelas pagas na
via administrativa, agiu o MM. Juiz a quo corretamente, ao determinar a dedução do montante
aludido, em atenção ao princípio da indisponibilidade do interesse público.
2 - Aplicação do princípio geral de direito que veda o
enriquecimento sem causa.
3 - Em face do princípio da indisponibilidade do interesse público, não remanesce à
administração pública qualquer margem de escolha para optar entre o pagamento do
montante devido sem o desconto do que já foi pago administrativamente ou com o referido
desconto.
4 - O administrador no exercício da gestão do dinheiro público, exerce função
administrativa, estando portanto adstrito ao cumprimento da finalidade pública erigida na
lei e nos princípios constitucionais, dentre os quais exsurge sobranceiro o princípio da
indisponibilidade do interesse público.
5 - Agravo improvido”. (TRF 3ª Região, Agravo de Instrumento nº 46.652, Relator(a): Juiz Arice
Amaral, Segunda Turma, Julgamento: 30/11/1999, DJU: 12/04/2000, p. 175; grifos acrescidos).

A partir das linhas básicas relativas ao princípio da indisponibilidade do interesse público, infere-se
que a nomeação ou contratação de nepotes afronta também essa prescrição fundamental da Carta
Republicana 1988.
Deveras, como já restou assentado, o agente motivador da prática de nepotismo traz para o exercício
de suas funções interesses destinados à mera promoção econômica de familiares, em detrimento do norte
de consecução eficiente do bem coletivo a que está submetida à Administração Pública.
O desvio de finalidade, neste ponto, é expresso. O ato que deveria ter como fim único a realização de
medidas administrativas instrumentais à realização concreta das aspirações da sociedade volta-se de
súbito ao favorecimento de alguns indivíduos particulares, que detêm vínculo de parentesco com o agente.
A confusão entre as personalidades natural e administrativa do agente gera total desprestígio à
necessária separação republicana entre as esferas privada e pública, e, por conseguinte, subtrai do
interesse público ferramentas imprescindíveis à sua materialização.
Depreende-se, pois, que o desvio de finalidade inerente ao ato de Nepotismo denuncia a
interferência de interesses privados do agente na condução do munus público, contrariando a regra basilar
do Estado Democrático de Direito14.

II.2 – Da proibição do nepotismo imposta pela própria Constituição Federal:

a) DA APLICABILIDADE IMEDIATA E FORÇA NORMATIVA DOS PRINCÍPIOS


CONSTITUCIONAIS

13 GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 9 ed. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 17; itálicos originais.
14 O Princípio é norma constitucional implícita, decorrência direta da adoção do modelo de Estado Democrático de Direito e de
alguns comandos esparsos do texto constitucional. Cf., para tanto, MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito
Administrativo. 16 ed. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 87.
Há muito a Doutrina vem acentuando a força normativa dos princípios constitucionais. As lições de
que os seus conteúdos devem ser encarados como meras declarações de vontade ou normas programáticas
sem eficácia imediata já foram ultrapassadas, em homenagem ao corolário da supremacia constitucional.
Com efeito, se é certo que as normas constitucionais detêm superioridade material e formal frente à
legislação ordinária, com mais razão ainda deve-se atribuir maior efetividade à sua principiologia. Os
princípios, como normas gerais, informadoras e regentes de todo o sistema jurídico representam
prescrições de ordem fundamental, necessárias à própria existência válida da norma jurídica.
Sem esse alicerce — ou sem a sua correspondente efetividade, a ordem constitucional tende a sofrer
um colapso irreversível, pondo em risco a própria base do sistema jurídico.
Portanto, os princípios não são meras recomendações. São, sim, comandos normativos, de caráter
congente, impositivo e aplicação imediata.
A aplicação impositiva e imediata dos princípios constitucionais em matéria de nepotismo foi
entendimento recentemente sufragado pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos do Recurso
Extraordinário nº 579.951-4/RN, no voto do Relator Ricardo Lewandowshi, quando reconheceu
expressamente:
“É que os princípios constitucionais, longe de configurarem meras recomendações de caráter
moral ou ético, consubstanciam regras jurídicas de caráter prescritivo, hierarquicamente
superiores às demais e “positivamente vinculantes”, como ensina Gomes Canotilho.7 A sua
inobservância, ao contrário do que muitos pregavam até recentemente, atribuindo-lhes uma
natureza apenas programática, deflagra sempre uma consequência jurídica, de maneira
compatível com a carga de normatividade que encerram. Independentemente da preeminência
que ostentam no âmbito do sistema ou da abrangência de seu impacto sobre a ordem legal, os
princípios constitucionais, como se reconhece atualmente, são sempre dotados de eficácia, cuja
materialização pode ser cobrada judicialmente se necessário.
(...)
Ora, tendo em conta a expressiva densidade axiológica e a elevada carga normativa que
encerram os princípios abrigados no caput do art. 37 da Constituição, não há como deixar de
concluir que a proibição do nepotismo independe de norma secundária que obste formalmente
essa reprovável conduta. Para o expurgo de tal prática, que lamentavelmente resiste incólume
em alguns “bolsões” de atraso institucional que ainda existem no País, basta contrastar as
circunstâncias de cada caso concreto com o que se contém no referido dispositivo
constitucional”.
E citou a manifestação do Ministro Gilmar Mendes sobre a mesma matéria:
“Dentre tais pronunciamentos, destaco a manifestação do Ministro Gilmar Mendes, nos
seguintes termos: “Essa moralidade não é elemento do ato administrativo, como ressalta
GORDILLO, mas compõe-se dos valores éticos compartilhados culturalmente pela comunidade
e que fazem parte, por isso, da ordem jurídica vigente. A indeterminação semântica dos
princípios da moralidade e da impessoalidade não podem ser um obstáculo à determinação da
regra da proibição ao nepotismo. Como bem anota GARCÍA DE ENTERRIA, na estrutura de
todo conceito indeterminado é identificável um ‘núcleo fixo’ (Begriffkern) ou ‘zona de certeza’,
que é configurada por dados prévios e seguros, dos quais pode ser extraída uma regra aplicável
ao caso. A vedação ao nepotismo é regra constitucional que está na zona de certeza dos
princípios da moralidade e da impessoalidade ”(grifei).
(...)
“Assim, o argumento, data venia falacioso, de que, se a Carta Magna não vedou expressamente
a ocupação de cargos em comissão ou de confiança por parentes, essa prática seria lícita, não
merece prosperar, pois totalmente apartada do ethos que permeia a “Constituição-cidadã” a
que se referia o saudoso Ulisses Guimarães”.
E concluiu dizendo:
“Por tudo quanto até aqui exposto, entendo que carece de plausibilidade a exegese segundo a
qual que o nepotismo seria permitido simplesmente porque não há lei que o proíba ”.
Desta feita, assentado que os conteúdos normativos dos princípios constitucionais administrativos
vedam a contratação ou nomeação de parentes de forma arbitrária e que a vinculação e efetividade plenas
dessas normas são ínsitas à própria organização constitucional e amplamente reconhecidas pela Doutrina
especializada, é forçoso reconhecer a inconstitucionalidade e, por conseguinte, a nulidade dos atos que
revelem a prática de Nepotismo.

b) DA RESOLUÇÃO Nº 07 DO CNJ, CONSAGRADA PELA DECISÃO E FUNDAMENTOS DA AÇÃO


DIRETA DE CONSTITUCIONALIDADE Nº 12
Cuidando da vedação ao Nepotismo no âmbito do Poder Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça
editou a Resolução de n.º 07, de 18 de outubro de 2005, determinando a exoneração das pessoas ocupantes
de cargos de provimento em comissão e de funções gratificadas que se encontram na situação prevista no
art. 2º da mesma Resolução:
“Art. 2° Constituem práticas de nepotismo, dentre outras:
1 - o exercício de cargo de provimento em comissão ou de função gratificada, no âmbito da
jurisdição de cada Tribunal ou Juízo, por cônjuge, companheiro ou parente em linha reta,
colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, dos respectivos membros ou juízes
vinculados;
II - o exercício, em Tribunais ou Juízos diversos, de cargos de provimento em comissão, ou de
funções gratificadas, por cônjuges, companheiros ou parentes em linha reta, colateral ou por
afinidade, até o terceiro grau, inclusive, de dois ou mais magistrados, ou de servidores
investidos em cargos de direção ou de assessoramento, em circunstâncias que caracterizem
ajuste para burlar a regra do inciso anterior mediante reciprocidade nas nomeações ou
designações;
III - o exercício de cargo de provimento em comissão ou de função gratificada, no âmbito da
jurisdição de cada Tribunal ou Juízo, por cônjuge, companheiro ou parente em linha reta,
colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, de qualquer servidor investido em
cargo de direção ou de assessoramento;
IV - a contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária de
excepcional interesse público, de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou
por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, dos respectivos membros ou juízes vinculados, bem
como de qualquer servidor investido em cargo de direção ou de assessoramento;
[...]
§ 1° Ficam excepcionadas, nas hipóteses dos incisos I, II e III deste artigo, as nomeações ou
designações de servidores ocupantes de cargo de provimento efetivo das carreiras judiciárias,
admitidos por concurso público, observada a compatibilidade do grau de escolaridade do cargo
de origem, a qualificação profissional do servidor e a complexidade inerente ao cargo em
comissão a ser exercido, vedada, em qualquer caso a nomeação ou designação para servir
subordinado ao magistrado ou servidor determinante da incompatibilidade.
§ 2° A vedação constante do inciso IV deste artigo não se aplica quando a contratação por
tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público
houver sido precedida de regular processo seletivo, em cumprimento de preceito legal.
[...]
Art. 3º É vedada a manutenção, aditamento ou prorrogação de contrato de prestação de
serviços com empresa que venha a contratar empregados que sejam cônjuges, companheiros
ou parentes em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, de
ocupantes de cargos de direção e de assessoramento, de membros ou juízes vinculados ao
respectivo Tribunal contratante, devendo tal condição constar expressamente dos editais de
licitação.”
Essa resolução foi objeto de Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 12/2006 , ajuizada pela
Associação dos Magistrados do Brasil, perante o Supremo Tribunal Federal. Em sede de liminar, foi
reconhecida a constitucionalidade das disposições dessa Resolução. Recentemente, a Suprema Corte
julgou definitivamente o mérito dessa ação, declarando a sua constitucionalidade e reconhecendo que a
prática do Nepotismo viola os Princípios Constitucionais da Moralidade, Impessoalidade, Igualdade e
Eficiência.
A decisão e fundamentos de mérito proferidos nos autos da ADC nº 12, em sede de controle
concentrado de constitucionalidade, consolidaram o teor da Resolução nº 07 do Conselho Nacional de
Justiça em nosso ordenamento jurídico, de modo a proibir o exercício de qualquer função pública em
Tribunais, por parentes consanguíneos, em linha reta e colateral, ou por afinidade até o terceiro grau de
magistrados vinculados aos mesmos, ainda que por meio indireto, como a contratação temporária, a
terceirização ou a contratação direta de serviços de pessoas físicas.
Incabível falar, na quadra atual vivenciada, em desconhecimento do entendimento sufragado pela
Corte Superior ou ausência de má-fé quando ocorrente nomeações em casos de Nepotismo, devendo o
agente público ser responsabilizado quando busque a aventura do ilícito, o que se objetiva através da
corrente ação.

c) DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nº 579.951-4 (Água Nova/RN)


Além da ADC nº 12, valeu como forte precedente da súmula vinculante nº 12, a recente decisão do
Supremo Tribunal Federal, proferida nos autos do recurso extraordinário nº 579.951-4, onde se delineou
fundamentos de mérito, confirmando a inconstitucionalidade da prática do Nepotismo à luz dos já
asseverados princípios da moralidade, eficiência, impessoalidade e igualdade — independentemente da
atuação do legislador ordinário, por meio do voto condutor do Ministro Ricardo Lewandowski.
Com esses julgamentos, o Supremo Tribunal Federal deu um passo gigantesco no caminho da
erradicação do Nepotismo nesse país, chegando a editar a Súmula Vinculante n° 13, estendendo a
proibição do nepotismo aos demais poderes da República, nos três níveis de governo.

d) DA SÚMULA VINCULANTE Nº 13 DO STF


A partir desses precedentes (ADI 1521-medida cautelar, MS 23720-mérito, ADC 12- medida cautelar
e mérito, RE 579951-mérito), a celeuma do Nepotismo foi, em tese, pacificada pela edição da Súmula
Vinculante, do Supremo Tribunal Federal, publicada no DOU de 29/08/2008.
Os limites do Nepotismo, bem como sua vedação, foram recentemente definidos e reconhecida por
esta Súmula, que estabeleceu expressamente o que se caracteriza como nepotismo, vedando essa prática,
nos seguintes termos: “A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por
afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa
jurídica, investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em
comissão ou de confiança, ou, ainda, de função gratificada na Administração Pública direta e indireta,
em qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido o
ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal”.
Em resumo, a súmula diz que não pode haver dois parentes (definidos dentro do contexto do
Nepotismo: até 3º grau) exercendo cargos em comissão ou mesmo funções gratificadas ao mesmo tempo,
no mesmo quadro de pessoal do serviço público. Há um impedimento claro.
De início, vale registrar que a Súmula Vinculante nº 13 não ressalvou expressamente a não aplicação
da vedação aos agentes políticos. Além disso, o Ministro Relator do recurso Extraordinário nº 579951-
4/RN, Ricardo Lewandowski, na parte dispositiva do seu voto, afirmou que considerava hígida a nomeação
do agente político por não ter ficado evidenciada a prática do nepotismo cruzado, e não mencionou
qualquer permissão no sentido de parentes poderem exercer cargo de agente político. Cumpre ressaltar,
ainda, que em declaração à impressa, referindo à criação de Secretarias de Estado pelo governo do Estado
do Rio de Janeiro para garantir a nomeação de parentes, o Min. Marco Aurélio declarou que essa manobra
constituía “burla à Súmula nº 13”. Diante disso, é de se reconhecer que os agentes políticos estão incluídos
na vedação à prática do Nepotismo prevista na Súmula Vinculante nº 13.
Por outro lado, a súmula não exigiu a ocorrência de hierarquia entre os cargos/funções para a
caracterização do Nepotismo, não sendo mais necessário apurar essa subordinação para constatar o
Nepotismo. Desse modo, havendo parentesco, independentemente de haver ou não subordinação direta,
está caracterizado o Nepotismo, conforme a Súmula nº 13.
A súmula também não previu a possibilidade do servidor concursado, que seja parente do agente
político ou de qualquer servidor comissionado do mesmo quadro de pessoal, poder ocupar cargo
comissionado ou função de confiança ou gratificada. Desse modo, a ocupação desses cargos não pode ser
feita por parentes, mesmo que tenham se submetido a concurso público para o provimento de cargo efetivo
no mesmo nível de escolaridade.
Por fim, a súmula previu expressamente a proibição, também, do Nepotismo cruzado, ou seja, a
troca de favores (nomeações de parentes) entre Poderes.
Frise-se que essa Súmula possui aplicação imediata.
A tomada de atos administrativos em momento posterior à promulgação da mesma importa em
clara ofensa aos princípios constitucionais regedores da Administração Pública, sujeitando o
responsável a incidência da Lei de Improbidade Administrativa, sob pena de todo o arcabouço
jurisprudencial e a decisão do Supremo Tribunal Federal ser um nada jurídico, um faz de conta ilusório.
Destaque-se ainda que a Súmula fora promulgada no DOU de 29/08/2008, estando o povo
brasileiro cansado de práticas nepotes que devem ser combatidas severamente pelo Poder Judiciário
quando o gestor Público ouse praticá-las!
e) DA DEFINIÇÃO DO VÍNCULO DE PARENTESCO CARACTERIZADOR DO NEPOTISMO
A Resolução nº 07 do Conselho Nacional de Justiça fixou como parâmetro de aferição objetiva da
influência familiar na nomeação para ocupar cargo público ou para contratar com o poder público o
terceiro grau de parentesco, tendo incluído os parentes por afinidade colaterais de mesmo grau.
Em sede de controle de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADC
nº 12/2006, o Ministro Carlos Ayres Brito, ao proferir seu voto liminar, reconheceu que “ a Resolução n°
7/05, ato normativo que tenho como de natureza primária, podia mesmo fazer do terceiro grau de
parentesco um critério de inibição ao ‘nepotismo’” . Nessa mesma sessão de julgamento, os Ministros
debateram e concluíram que a Resolução nº 07 do CNJ não estabelecia e nem criava nova hipótese de
parentesco, mas adotava como critério de inibição do nepotismo o terceiro grau das relações familiares, o
que não pressupõe necessariamente o parentesco legal. Esse entendimento foi mantido no julgamento do
mérito da ação.
Com isso, o Supremo Tribunal Federal adotou como critério de inibição do nepotismo o parentesco
até o terceiro grau, inclusive no atinente aos parentes colaterais por afinidade, ratificando o critério
adotado pela Resolução nº 7-CNJ, e adaptando ao Direito Administrativo e à realidade sociocultural
brasileira o conceito de parentesco.
Esse entendimento foi, inclusive, ficou consignado na redação da Súmula Vinculante nº 13, daquele
Tribunal, a qual tem o poder de vincular não somente o Poder Judiciário, mas também os poderes
Executivo e Legislativo, dispondo da seguinte maneira, ipsis literis:

f) DA INTEGRAÇÃO DO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO NO QUE PERTINE AO NEPOTISMO -


APLICAÇÃO EM CONJUNTO DA SÚMULA 13 DO STF E DA RESOLUÇÃO Nº 07 DO CNJ
Apesar da perfeita compreensão pelos aplicadores do Direito e da sociedade brasileira de que a
prática do Nepotismo é conduta que viola os princípios constitucionais da Administração Pública, tal
conduta administrativa passou décadas sendo admitida no sistema jurídico brasileiro, sob o pretexto de
que não havia norma jurídica definindo as hipóteses objetivas que caracterizariam o Nepotismo.
Entretanto, tal omissão não é mais sustentável, sobretudo após a edição da Súmula Vinculante nº 13
e o reconhecimento pelo Supremo Tribunal Federal do caráter normativo da Resolução nº 07 do Conselho
Nacional de Justiça.
Como dito, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 579951-4, o Supremo Tribunal Federal
deixou claro, em seus fundamentos, que a vedação ao Nepotismo é uma decorrência lógica dos princípios
constitucionais da moralidade, impessoalidade e eficiência, que norteiam toda a Administração Pública,
dos três Poderes e nos três níveis de Governo.
No corpo do voto, o Ministro-relator Ricardo Lewandowski esclareceu que não competia ao
Supremo Tribunal Federal atuar como legislador positivo, sendo-lhe vedado inovar o sistema normativo.
Com isso, a Corte Suprema reconheceu que a especificação dos limites do Nepotismo caberia ao Poder
Legislativo, entretanto, na falta de uma lei federal disciplinando o assunto, o STF também reconheceu, no
julgamento de mérito da ADC nº 12, a constitucionalidade da Resolução nº 07/2006, editada pelo Conselho
Nacional de Justiça, admitindo a capacidade regulamentadora daquela instituição, muito embora restrita
aos órgãos do Poder Judiciário.
Constatada a omissão do legislador, diante da ausência de lei federal disciplinando o Nepotismo, e
sendo reconhecido o caráter normativo da Resolução nº 07 do Conselho Nacional de Justiça pelo próprio
STF, impõe-se a apliação das vedações contidas nessa regulamentação, por analogia, também aos Poderes
Executivo e Legislativo, bem como os Tribunais de Contas e Ministérios Públicos, com fundamento no
disposto no art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil, o qual dispõe:
“Art. 4º. Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes
e os princípios gerais do direito.”
Ao comentar o art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil, a professora Maria Helena Diniz
assevera:
“Para integrar a lacuna, o juiz recorre, preliminarmente, à analogia, que consiste em aplicar, a
um caso não contemplado de modo direto ou específico por uma norma prevista para uma
hipótese distinta, mas semelhante ao caso não contemplado.
(...)
Modernamente, encontra-se na analogia uma averiguação valorativa. Ela seria um
procedimento argumentativo, sob o prisma da lógica retórica, que teria por escopo ‘transferir
valores de uma estrutura para outra. Teria um caráter inventivo, já que possibilita ‘ampliar a
estrutura de uma situação qualquer, incorporando-lhe uma situação nova’, tendo por base o
juízo de semelhança.
(...)
O fundamento da analogia encontra-se na igualdade jurídica, já que o processo analógico
constitui um raciocínio ‘baseado em razões relevantes de similitude’, funda-se na identidade de
razão, que é o elemento justificador da aplicabilidade da norma a casos não previstos, mas
substancialmente semelhantes, sem contudo ter por objetivo prescrutar o exato significado da
norma, partindo, tão-só, do pressuposto de que a questão sub judice, apesar de não se
enquadrar no dispositivo legal, deve cair sob sua égide por semelhança de razão.” 15
A vedação do Nepotismo no Poder Judiciário possui a mesma razão de ser da vedação que deve
haver nos Poderes Executivo e Legislativo, Tribunais de Contas e Ministérios Públicos. Ambas se
fundamentam na violação aos Princípios Constitucionais da Administração Pública. Ocorrem situações
semelhantes, quase idênticas, nas quais se verificam as mesmas violações, mudando-se tão somente o
poder no qual tal falta constitucional está sendo perpetrada. Por isso, para coibir essas violações, o
julgador deve utilizar a mesma ratio iuris, qual seja, a analogia.
Constata-se, portanto, que os mesmos fundamentos aplicam-se aos casos semelhantes,
determinando a integração do sistema jurídico por meio da analogia.
Assim, partindo da premissa que a Resolução nº 07/2006 é constitucional e delimitou hipóteses de
nepotismo, e tendo em vista que a analogia é suficiente para suprir a lacuna legal, deve ser aplicada
analogicamente à administração dos demais Poderes, enquanto não houver legislação federal específica,
em conjunto com a Súmula Vinculante nº 13, prevalecendo esta última em caso de conflito.
Em consonância, vale dizer que as decisões proferidas em ADC tem eficácia geral e “efeito
vinculante relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e
indireta, nas esferas federal, estadual e municipal” (Constituição da República, artigo 102, §2º). Além

15 DINIZ, Maria Helena. Lei de Introdução ao Código Civil Comentada. 3. ed.. São Paulo. Saraiva, 1997. pág. 110-112.
disso, os fundamentos de decisões adotados em sede de controle concentrado de constitucionalidade —
do qual a ADC é espécie — são tão vinculantes quanto seus dispositivos, e deles inafastáveis, como se
pode aferir da decisão do mesmo Pretório na Reclamação 2986/SE.
Com essa decisão, vê-se que o Supremo Tribunal Federal tem adotado e defendido, sob o nome de
transcendência dos fundamentos, entendimento segundo o qual os próprios fundamentos da decisão em
sede de controle concentrado de constitucionalidade são vinculantes frente aos órgãos do Judiciário e à
administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal 16, por serem
logicamente indissociáveis do dispositivo declaratório final:
“FISCALIZAÇÃO ABSTRATA DE CONSTITUCIONALIDADE. RECONHECIMENTO, PELO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, DA VALIDADE CONSTITUCIONAL DA LEGISLAÇÃO DO
ESTADO DO PIAUÍ QUE DEFINIU, PARA OS FINS DO ART. 100, § 3º, DA CONSTITUIÇÃO, O
SIGNIFICADO DE OBRIGAÇÃO DE PEQUENO VALOR. DECISÃO JUDICIAL, DE QUE ORA SE
RECLAMA, QUE ENTENDEU INCONSTITUCIONAL LEGISLAÇÃO, DE IDÊNTICO CONTEÚDO,
EDITADA PELO ESTADO DE SERGIPE. ALEGADO DESRESPEITO AO JULGAMENTO, PELO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, DA ADI 2.868 (PIAUÍ). EXAME DA QUESTÃO RELATIVA AO
EFEITO TRANSCENDENTE DOS MOTIVOS DETERMINANTES QUE DÃO SUPORTE AO
JULGAMENTO, “IN ABSTRACTO”, DE CONSTITUCIONALIDADE OU DE
INCONSTITUCIONALIDADE. DOUTRINA. PRECEDENTES. ADMISSIBILIDADE DA
RECLAMAÇÃO. MEDIDA CAUTELAR DEFERIDA.
[...]
O litígio jurídico-constitucional suscitado em sede de controle abstrato (ADI 2.868/PI),
examinado na perspectiva do pleito ora formulado pelo Estado de Sergipe, parece introduzir a
possibilidade de discussão, no âmbito deste processo reclamatório, do denominado efeito
transcendente dos motivos determinantes da decisão declaratória de constitucionalidade
proferida no julgamento plenário da já referida ADI 2.868/PI, Rel. p/ o acórdão Min. JOAQUIM
BARBOSA.
Cabe registrar, neste ponto, por relevante, que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no
exame final da Rcl 1.987/DF, Rel. Min. MAURÍCIO CORREA, expressamente admitiu a
possibilidade de reconhecer-se, em nosso sistema jurídico, a existência do fenômeno da
“transcendência dos motivos que embasaram a decisão” proferida por esta Corte, em processo
de fiscalização normativa abstrata, em ordem a proclamar que o efeito vinculante refere-se,
também, à própria “ratio decidendi”, projetando-se, em consequência, para além da parte
dispositiva do julgamento, “in abstracto”, de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade.
Essa visão do fenômeno da transcendência parece refletir a preocupação que a doutrina vem
externando a propósito dessa específica questão, consistente no reconhecimento de que a
eficácia vinculante não só concerne à parte dispositiva, mas refere-se, também, aos próprios
fundamentos determinantes do julgado que o Supremo Tribunal Federal venha a proferir
em sede de controle abstrato, especialmente quando consubstanciar declaração de
inconstitucionalidade, como resulta claro do magistério de IVES GANDRA DA SILVA
MARTINS/GILMAR FERREIRA MENDES (“O Controle Concentrado de Constitucionalidade”, p.
338/345, itens ns. 7.3.6.1 a 7.3.6.3, 2001, Saraiva) e de ALEXANDRE DE MORAES
(“Constituição do Brasil Interpretada e Legislação Constitucional”, p. 2.405/2.406, item n. 27.5,
2ª ed., 2003, Atlas)”17
Com isso, os fundamentos adotados na decisão da ADC nº 12 se aplicam a todas as hipóteses fáticas
semelhantes às apresentadas ao Poder Judiciário que reclamem a definição da disciplina constitucional
sobre o Nepotismo.
Além da analogia, vale dizer que os princípios gerais do direito também são aplicáveis em caso de
omissão legislativa (art. 4º da LICC).
16 Art. 102, §2º, da Constituição da República.
17 Reclamação 2986 MC/SE, Relator: Celso de Mello, Decisão: 11/03/2005; grifos acrescidos.
No caso do Nepotismo, o princípio da Razoabilidade determina de forma imperiosa a aplicação de
tratamento isonômico a todos os órgãos da Administração Pública, mediante a integração do sistema
jurídico, aplicando-se a Súmula nº 13 juntamente com os dispositivos da Resolução nº 7-CNJ, aos poderes
Executivo e Legislativo e ao Ministério Público. Dessa maneira, haverá a integração do sistema jurídico de
forma e será conferido tratamento isonomico e com igual rigor a todo Nepotismo, seja no Judiciário, no
Executivo, no Legislativo, no Ministério Público ou nos Tribunais de Contas.
Não é lógico ou racional que uma hipótese de Nepotismo caracterizada no Poder Judiciário não se
caracaterize nos Poderes Executivo ou Legislativo. Não pode haver tratamento diferenciado entre poderes.
A partir da aplicação conjunta da Súmula nº 13 e da Resolução nº 07, seja pela analogia, seja pelo
principio da Razoabilidade, resta evidenciada a proibição de contratar ou nomear parentes até o 3º grau da
autoridade nomeante, de servidor comissionado da mesma pessoa jurídica e de membros de Poder (Juízes,
membros do Ministério Público, Secretários, Governadores, Prefeitos, Deputados, Vereadores e membros
de Tribunais ou Conselhos de Contas 18), para o exercício de cargo comissionado ou função de confiança ou
gratificada, inclusive para o exercício de cargo a ser ocupado por agente político, já que nem a súmula e
nem o voto do Ministro-Relator excetuaram esses cargos, e mesmo que não haja subordinação direta e que
o parente daqueles tenham se submetido a concurso público.
Conclui-se que as pessoas que geram Nepotismo são: autoridade nomeante, agentes políticos,
membros de Poder e servidores comissionados. As pessoas que são atingidas pelo nepotismo são: agente
político não eleito/não concursado, servidor comissionado e ocupante de função de confiança ou
gratificada.

II.3 – Da Nulidade dos Atos Inconstitucionais por Desvio de Finalidade


O controle de constitucionalidade de atos normativos encontra fundamento em uma dessas normas
básicas: a de Supremacia do texto constitucional frente aos demais componentes da ordem jurídica. O
alicerce dessa norma principiológica está situado na concepção atual de que a Constituição é elaborada
por um órgão de vontade popular imediata, detentor do Poder Constituinte originário.
Assim é que o ato infraconstitucional que esteja em desconformidade com a Lei Maior perde o seu
fundamento de validade, já que as normas contidas nesta última expressam a vontade imediata do órgão
popular soberano (seja ele Assembleia, Comissão, ou, como no Brasil convencionou-se denominar, com
relação à experiência de 1988, “Congresso Constituinte”).
Partindo-se de um raciocínio lógico direto, é imperioso reconhecer que a Constituição Federal, por
ser hierarquicamente superior — seja tão-somente por situar-se no mais alto patamar hierárquico formal,
seja pela alta carga axiológica de seu conteúdo — comanda toda a produção legislativa e administrativa
que estejam insertos em determinada ordem jurídico-constitucional.
Portanto, toda produção administrativa ou legislativa deve obedecer aos comandos constitucionais,
sob pena de nulidade. Essas são as conclusões de José Afonso da Silva, após promover assaz interligação
entre os conceitos de supremacia formal e rigidez constitucionais:
“A doutrina distingue supremacia material e supremacia formal da constituição.
Reconhece a primeira até nas constituições costumeiras e nas flexíveis. Isso é certo do ponto de
vista sociológico, tal como também se lhes admite rigidez sócio-política. Mas, do ponto de vista
jurídico, só é concebível a supremacia formal, que se apoia na regra da rigidez, de que é o
primeiro e principal corolário.
[...]
Nossa Constituição é rígida. Em consequência, é a lei fundamental e suprema do Estado
brasileiro. Toda autoridade só nela encontra fundamento e só ela confere poderes e
competência governamentais. Nem o governo federal, nem os governos dos Estados, nem os
dos Municípios ou do Distrito Federal são soberanos, porque todos são limitados, expressa ou
implicitamente, pelas normas positivas daquela lei fundamental. Exercem suas atribuições nos
termos nela estabelecidos.
18 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23 ed. São Paulo: Malheiros, 2004. p. 663.
Por outro lado, todas as normas que integram a ordenação jurídica nacional só serão válidas
se se conformarem com as normas da Constituição Federal” 19.
O ato de nomeação viciado por desvio de finalidade - pressuposto de validade do ato
infraconstitucional – torna o ato eivado de inconstitucionalidade do ato, insanável por meio de
convalidação, retificação ou ratificação20.
É o que apregoam a doutrina e a jurisprudência pátrias, referindo-se expressamente ao exemplo do
desvio de finalidade (ou de poder21):
“Seabra Fagundes (1984:42-51), refutando a possibilidade de aplicar-se ao direito
administrativo a teoria das nulidades do direito civil, entende que os atos administrativos
viciosos podem agrupar-se em três categorias: atos absolutamente inválidos ou atos nulo, atos
relativamente inválidos ou anuláveis e atos irregulares. Atos nulos são os que violam regras
fundamentais atinentes à manifestação da vontade, ao motivo, à finalidade, ou à forma,
havidas como de obediência indispensável pela sua natureza, pelo interesse público que as
inspira ou por menção expressa da lei”.22
“É claro, pois, que só pode haver convalidação quando o ato possa ser produzido validamente
no presente. Importa que o vício não seja de molde a impedir a reprodução válida do ato. Só
são convalidáveis atos que podem ser legitimamente produzidos.
[...]
São nulos:
os atos que a lei assim os declare;
os atos em que é racionalmente impossível a convalidação, pois, se o mesmo conteúdo (é
dizer, o mesmo ato) fosse novamente produzido, seria reproduzida a invalidade anterior.
Sirvam de exemplo: os atos de conteúdo (objeto) ilícito; os praticados com desvio de poder; os
praticados com falta de motivo vinculado; os praticados com falta de causa” 23.
“ADMINISTRATIVO. AÇÃO POPULAR. EFEITOS DA SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA.
DESCONSTITUTIVO E CONDENATÓRIO. PROVA DO PREJUÍZO CAUSADO AO ERÁRIO.
NECESSIDADE.
O pedido de natureza desconstitutiva independe de prova da lesão. Constatada a ilegalidade
do ato impugnado, impõe-se, salvo situações excepcionais que autorizam a sua convalidação,
o decreto de nulidade por vício de forma, incompetência do agente, ilegalidade do objeto,
inexistência dos motivos ou desvio de finalidade.” (Superior Tribunal de Justiça, Resp 663889,
Relator: Min. Castro Meira, Segunda Turma, Julgamento: 06/12/2005, DJU: 01/02/2006, p. 484).
No caso do Nepotismo, o desvio de finalidade causado pelo favorecimento pessoal é considerado um
vício de natureza absoluta, insanável, por violação aos princípios constitucionais da Administração
Pública – impessoalidade, eficiência e moralidade. O agente motivador do ato de nepotismo desvia o foco
da máquina administrativa, da consecução do interesse público para a realização de demandas
particulares, revelando de forma cristalina o vício de finalidade no seu agir funcional.
A nomeação abalizada em parentesco constitui vício de motivação na formulação do ato
administrativo, redundando em privilégio sem amparo jurídico. A pessoalidade, então, é motivo que

19 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23 ed. São Paulo: Malheiros, 2004. pp. 46-47; grifos acrescidos.
20 Até mesmo a interpretação conforme a constituição, método de declaração de inconstitucionalidade de norma ou ato
administrativo sem redução de texto, considera esse primado, já que exclui uma das interpretações oriundas daquele texto escrito.
Ainda que não haja redução do texto literal do ato, a atividade fiscalizatória do órgão Judiciário determina a exclusão
(incidentalmente ao caso fático tratado ou de forma abstrata, geral) de uma das normas extraídas daquele diploma administrativo
ou legal a partir do processo de exegese. Há, em verdade, redução normativa, sendo inviável cogitar-se de convalidação do ato
impugnado.
21 Celso Antônio agrupa no conceito de “desvio de poder” o uso do ato para fim diverso, ainda que público, do que estabelecido
legalmente, bem como para fim particulares, em flagrante desvio à finalidade pública (Cf. MELLO, Celso Antônio Bandeira de.
Curso de Direito Administrativo. 15 ed. São Paulo: Malheiros, 2003. pp. 371-372).
22 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2000. p. 225; negritos originais; sublinhados
acrescidos.
23 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 15 ed. São Paulo: Malheiros, 2003. pp. 430 e 434; itálicos
originais; sublinhados acrescidos.
desnatura a higidez jurídica do ato, eivando-o de vício insanável. O interesse público fica, por
conseguinte, em segundo plano.
Desta feita, todos os de nomeação e posse dos nepotes devem ser declarados nulos pelo Poder
Judiciário, em face da inércia no exercício do poder de autotutela pela própria Administração Pública
demandada.
No julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, do Recurso Extraordinário nº 579.951/RN, o
Ministro Ricardo Lewandowski declarou NULO o ato de nomeação considerado Nepotismo:
“Por todo o exposto, pelo meu voto, conheço do recurso extraordinário, dando-lhe parcial
provimento, declarando nulo o ato de nomeação de Francisco Souza do Nascimento,
considerando hígida a nomeação do agente político Elias Raimundo de Souza, em especial por
não ter ficado evidenciada a prática do nepotismo cruzado, acompanhando, nesse aspecto, o
entendimento da douta maioria.”
E meio do voto, o Ministro fez referência à ementa referente a ADI nº 2.661/MA, julgado de relatoria
do Ministro Celso de Mello:
“O PRINCÍPIO DA MORALIDADE ADMINISTRATIVA - ENQUANTO VALOR CONSTITUCIONAL
REVESTIDO DE CARÁTER ÉTICO-JURÍDICO - CONDICIONA A LEGITIMIDADE E A VALIDADE
DOS ATOS ESTATAIS. - A atividade estatal, qualquer que seja o domínio institucional de sua
incidência, está necessariamente subordinada à observância de parâmetros ético-jurídicos que
se refletem na consagração constitucional do princípio da moralidade administrativa. Esse
postulado fundamental, que rege a atuação do Poder Público, confere substância e dá
expressão a uma pauta de valores éticos sobre os quais se funda a ordem positiva do Estado. O
princípio constitucional da moralidade administrativa, ao impor limitações ao exercício do
poder estatal, legitima o controle jurisdicional de todos os atos do Poder Público que
transgridam os valores éticos que devem pautar o comportamento dos agentes e órgãos
governamentais”.
Somente com a proibição do Nepotismo é que o interesse público estará a salvo dessas e de outras
mazelas. Do contrário, havendo desvio de finalidade no ato administrativo, pela incidência do Nepotismo
em sua motivação, o ato será sempre viciado, portanto, nulo de pleno direito.

II.4 – Da Prática dos Atos de Improbidade Administrativa


Os atos do promovido, Prefeito Municipal de São Miguel de Taipu - PB, de nomear parente seus,
vice-prefeita, secretários e de vereadores, para o exercício de cargos comissionados (inclusive, além dos
cargos, existem esposos e filhos dos gestores com veículos locados para a administração pública), viola os
princípios da administração pública e configuram nomeações vedadas pela Súmula Vinculante nº 13-STF
e Resolução nº 07-CNJ.
Com isso, os atos de nomeação praticados pelo querelado constituem NEPOTISMO e, por violarem
os princípios da Administração Pública, importam em atos de improbidade administrativa, sujeitando o
agente público às penalidades previstas na lei 8.429/1992.
O Nepotismo infringe o art. 11, caput e inciso I, senão vejamos:
“Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da
administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade,
imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente:
I – praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou diverso daquele previsto, na
regra de competência;
As nomeações irregulares e que favorecem aos parentes dos vereadores, os quais ele quis privilegiar,
infringe os princípios da legalidade, moralidade, impessoalidade, da isonomia e da eficiência.
Além de violar os princípios da Administração Pública, essas nomeações visam fim proibido em lei,
na Constituição Estadual e Federal, pois ferem frontalmente a exigência da contratação por meio de
concurso público e privilegia apenas aqueles que são parentes.
O impetrado tem pleno conhecimento da relação de parentesco caracterizadora do Nepotismo ora
questionado, bem como consciência da ilicitude perpetrada com essas nomeações, inclusive, porque, é
notória a forte autuação dos Ministérios Públicos Estaduais, no combate ao Nepotismo em todos os Estados
da Federação.
Assim sendo, só resta seja julgada procedente esta ação para o fim de aplicar ao requerido às penas
previstas no art. 12, incisos II e III da Lei 8.429 de 1992, como por exemplo, o ressarcimento integral do
dano, perda da função pública, a suspensão dos direitos políticos por cinco anos, pagamento de multa
civil de pelo menos doze vezes o valor de sua remuneração.
Veja que o Nepotismo é reconhecido pela jurisprudência brasileira como ato de improbidade
administrativa por violar aos princípios da administração pública:
“PROCESSO CIVIL. AÇÃO DE IMPROBIDADE. NEPOTISMO. NOMEAÇÃO PELO JUIZ DE
CÔNJUGE OU COMPANHEIRO PARA TRABALHAR EM SEU PRÓPRIO GABINETE.
GRADAÇÃO DAS SANÇÕES.
1. Não é moral nem ético o juiz nomear, ou indicar, o companheiro para trabalhar em seu
gabinete.
2. Deve haver gradação na aplicação das sanções, levando-se em conta a gravidade do ilícito,
a extensão do dano e o proveito patrimonial obtido. Pode-se, assim, aplicar uma ou mais
sanções”. (TRF- 1ª Região. AC 2004.41.00.001337-0/RO, Rel. Desembargador Federal Tourinho
Neto, Terceira Turma,e-DJF1 p.10 de 20/06/2008).
“PROCESSO CIVIL. AÇÃO DE IMPROBIDADE. CUMULAÇÃO DE PEDIDOS. QUESTÕES
SUSCITADAS E DISCUTIDAS NO PROCESSO. CPC, ART. 515, § 1º. NEPOTISMO. GRADAÇÃO
NA APLICAÇÃO DAS SANÇÕES.
1. Pode haver cumulação de pedidos das ações civis públicas e de improbidade administrativa.
2. Determinados atos de improbidade podem tipificar infração penal, mas não trata a Lei
8.429, de 1992, desta questão.
3. As questões suscitadas e discutidas, ainda que a sentença não as tenha apreciado poderão
ser objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal. Nesse caso, não está sendo inobservado o
princípio do duplo grau de jurisdição.
4. Deve haver uma gradação na aplicação das sanções, levando-se em conta a gravidade do
ilícito, a extensão do dano e o proveito patrimonial obtido. Pode-se, assim, aplicar de uma ou
mais sanções.
5. Não é moral nem ético o juiz nomear, ou indicar, o próprio filho, não pertencente ao
quadro funcional do órgão, para trabalhar em seu gabinete”. (TRF – 1ª Região. AC
2003.41.00.002798-5/RO, Rel. Desembargador Federal Tourinho Neto, Terceira Turma,e-DJF1
p.183 de 04/04/2008).
“EMENTA: AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - PRESIDENTE DA
CÂMARA - CONTRATAÇÃO DO FILHO - IDADE MÍNIMA - LEGALIDADE E MORALIDADE -
NEPOTISMO - COMUTATIVIDADE DAS PENAS. Nos termos da Lei de Improbidade
Administrativa, constituem atos de improbidade administrativa aqueles que importem na
violação dos princípios administrativos e prejuízo ao erário, devendo o agente público infrator
ser submetido às penalidades cominadas no art. 12 da referida lei. Na hipótese vertente, a
conduta do apelante sobressai-se pela afronta ao princípio da moralidade e impessoalidade,
pois contratou seu filho para prestar serviços na condição de office boy na Câmara Municipal,
órgão do qual é presidente. Além disso, o presidente da Câmara infringiu o disposto no art. 7º,
VI, da Lei Municipal Complementar 666/93, que determina 16 anos como a idade mínima para
ingresso no serviço público, e, no caso, seu filho tinha, quando da contratação, apenas, 15
anos de idade. O nepotismo viola o princípio da moralidade, porque o Administrador Público
deve sempre escolher, a bem do interesse público, o servidor que melhor servir à
Administração. A vedação ao nepotismo e ao favorecimento relaciona-se também ao princípio
da impessoalidade, porque como verdadeiro escopo da Administração, tem-se que a escolha
não deve se basear apenas em laços afetivos ou sanguíneos existentes entre o candidato e o
administrador”. (TJMG, 4ª Câmara Cível, processo n° 1.0512.05.030290-4/001(1), relator:
Des.Dárcio Lopardi Mendes, data de julgamento: 22/11/2007, data de publicação: 06/12/2007)
“AÇÃO CIVIL PÚBLICA. MINISTÉRIO PÚBLICO. PREFEITO MUNICIPAL. LIMITES DE
RECURSOS PÚBLICOS. VENCIMENTOS RELATIVOS AO FUNCIONALISMO NO ÚLTIMO MÊS
DO MANDATO. CRITÉRIO PESSOALMENTE ADOTADO PARA ESCOLHA DOS DESTINATÁRIOS
DO PAGAMENTO. FAMILIARES, AFINS E ALIADOS OCUPANTES DE CARGOS
COMISSIONADOS E EFETIVOS. ATO OFENSIVO A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS
ADMINISTRATIVOS. LEI 8.429/92. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. PROCEDÊNCIA DO
PEDIDO. SENTENÇA REFORMADA. - O ato administrativo praticado pelo réu, “”ao apagar das
luzes”” de seu mandato, revela-se administrativamente ímprobo por atentar contra os
princípios constitucionais consagrados à Administração Pública da impessoalidade, da
moralidade administrativa, de justiça e de equidade, ainda que não tenha importado
enriquecimento ilícito ou causado prejuízo material ao erário público. O critério pessoal, sem
alicerce legal, justificativa moral e senso de equidade, adotado pelo mandatário político para
“”escolha”” dos destinatários do pagamento de verbas remuneratórias de dezembro de 2004,
frente à suposta limitação orçamentária, evidencia prática de nepotismo em relação aos
parentes e afins contemplados, ocupantes de cargos comissionados, e de discriminação em
relação à imensa maioria de servidores efetivos que não puderam receber regularmente suas
verbas remuneratórias na ocasião, em virtude do ato administrativo, ao contrário de alguns
poucos servidores efetivos apontados pelo Ministério Público como sendo aliados políticos”.
(TJMG, 1ª Câmara Cível, processo n° 1.0248.05.001373-4/001(1), relator: Des. Armando Freire,
data do julgamento: 29/07/2008, data da publicação: 29/08/2008)
“IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. Nepotismo. Município de Engenheiro Coelho. Antecipação
de tutela para afastar de cargos de nomeação em comissão a esposa, filho e sobrinhos do
Prefeito Municipal. Quantidade de familiares nomeados que, por si só, indica a violação dos
princípios da moralidade, impessoalidade e eficiência da Administração. Conduta corroborada
pela análise da situação de cada uni dos nomeados, que não ostentam qualificação adequada
para o exercício dos cargos. Verossimilhança do alegado e risco de lesão aos princípios que
norteiam a Administração Pública. Agravo improvido”. (TJSP, 10ª Câmara de Direito Público,
agravo de instrumento n° 7169995100, relator: Antônio Carlos Villen, data de julgamento:
10/03/2008, data de registro: 14/03/2008).
“APELACAO CIVEL. ACAO CIVIL PUBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.
NEPOTISMO. CABIMENTO DA MULTA CIVIL PREVISTA NO ART. 12, III DA LEI N. 8429/92.
REDUCAO. 1 - E CABIVEL A APLICACAO DA MULTA CIVIL PREVISTA NO ART. 12, INC. III DA
LEI 8.429/92 AO ADMINISTRADOR QUE SE UTILIZA DAS PRERROGATIVAS DE SEU CARGO
POLITICO PARA CONTRATAR PARENTES PARA O EXERCICIO DE FUNCAO PUBLICA, EM
CLARA AFRONTA AOS PRINCIPIOS FUNDAMENTAIS DA ADMINISTRACAO PUBLICA
PREVISTOS NO ART. 37, CAPUT, DA CONSTITUICAO FEDERAL. 2 - A CONDENACAO DO
AGENTE POLITICO AO PAGAMENTO DA MULTA CIVIL PREVISTA NO ART. 12, III DA LEI DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA DEVE OBEDECER OS PRINCIPIOS DA
PROPORCIONALIDADE E DA RAZOABILIDADE, DIANTE DAS CIRCUNSTANCIAS DO CASO
CONCRETO, IMPONDO-SE A REDUCAO DO ‘QUANTUM’ EM CASO DE EXCESSO PELO
JULGADOR DE PRIMEIRA INSTANCIA.” (TJGO, 2ª Câmara Cível, Apelação Cível n° 107986-
7/188, relator: José Ricardo M. Machado, data de julgamento: 03/07/2008, publicação: DJ 139
de 25/07/2008)
“AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - ANTECIPAÇÃO DE TUTELA - CARGOS
DE CONFIANCA - NEPOTISMO - INADMISSIBILIDADE - PRINCIPIOS CONSTITUCIONAIS DA
ADMINISTRACAO PUBLICA - PRECEDENTE DO STF - DECISUM REFORMADO. RECURSO
PROVIDO POR MAIORIA.
I - A apesar de não haver proibição legal que impeça os poderes Executivo e Legislativo de
contratar parentes para cargos de confiança, preponderam os Princípios Constitucionais de
Moralidade, Impessoalidade, Eficiência e Isonomia, a nortearem as contratações de servidores
pela Administração Publica, em qualquer esfera de poder.
II- Decisão reformada. Recurso provido por maioria”. (TJSE, AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº
0483/2007, RIACHAO DO DANTAS, Relator: DES. CEZÁRIO SIQUEIRA NETO, Julgado em
18/03/2008).
E o ato de improbidade administrativa por violação aos princípios da administração pública, como é
o Nepotismo, independe de prejuízo econômico ao Erário:
“AÇÃO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. LEI 8.429/92. VIOLAÇÃO DOS DEVERES DE
MORALIDADE E IMPESSOALIDADE. SERVIDORES CONTRATADOS SEM CONCURSO
PÚBLICO PELO EX-PREFEITO. LESÃO À MORALIDADE ADMINISTRATIVA QUE PRESCINDE
DA EFETIVA LESÃO AO ERÁRIO. PENA DE RESSARCIMENTO. PRINCÍPIO DA
RAZOABILIDADE. APLICAÇÃO. DANO EFETIVO. INOCORRÊNCIA.
1. Ação civil pública intentada pelo Ministério Público Estadual em face de ex-prefeito de
Riolândia - SP e de ex-servidores públicos municipais, por ato de improbidade administrativa,
causador de lesão ao erário público e atentatório dos princípios da Administração Pública,
consistente na contratação irregular dos servidores co-réus, sem a realização de concurso
público.
2. A Lei nº 8.429/92, da Ação de Improbidade Administrativa, explicitou o cânone inserto no
artigo 37, § 4º, da Constituição Federal de 1988, tendo por escopo impor sanções aos agentes
públicos incursos em atos de improbidade nos casos em que: a) importem em enriquecimento
ilícito (artigo 9º); b) causem prejuízo ao erário público (artigo 10); e c) atentem contra os
princípios da Administração Pública (artigo 11), aqui também compreendida a lesão à
moralidade administrativa.

3. Acórdão recorrido calcado na assertiva de que, “apesar das contratações inconstitucionais e


ilegais, não houve prejuízo ao patrimônio público, na medida em que os servidores Celso Luiz
Santana e José Inácio Borges efetivamente prestaram seus serviços, fazendo jus ao recebimento
da respectiva paga, não se justificando a condenação de Antônio Gonçalves da Silva a restituir
aos cofres da Municipalidade os valores a eles pagos”.
4. In casu, o ato de improbidade se amolda à conduta prevista no art. 11, revelando
autêntica lesão aos princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa, tendo em
vista a contratação de parente e de amigo do ex-prefeito para exercerem cargos públicos
sem a realização de concurso público.
5. Deveras, a aplicação das sanções, nos termos do artigo 21, da Lei de Improbidade,
independem da efetiva ocorrência de dano ao patrimônio público, o que autoriza a aplicação
da norma sancionadora prevista nas hipóteses de lesão à moralidade administrativa.
(...)”. (STJ. REsp 711732 / SP ; RECURSO ESPECIAL
2004/0179176-8 Relator(a) Ministro LUIZ FUX (1122) Órgão Julgador T1 - PRIMEIRA TURMA
Data do Julgamento 28/03/2006 Data da Publicação/Fonte DJ 10.04.2006 p. 139)

III - Dos Pedidos

Ante o exposto, requer o Ministério Público:


a) a notificação do promovido RIQUINHO RICO DA SILVA para, querendo, no prazo legal, oferecer
manifestação por escrito (art. 17, § 6º, da Lei nº 8.429/92);
b) a citação do promovido RIQUINHO RICO DA SILVA para apresentar defesa, sob pena de revelia e
confissão quanto à matéria de fato;
c) a citação da Prefeitura Municipal de XXXXX – PB, para contestar ou, de outra forma, assumir a
posição processual que lhe aprouver, consoante permite o art. 17, § 3º da Lei nº 8.429/92;
d) a procedência do pedido, para o fim de condenar o promovido, nos moldes de art. 12, inciso IIII
da Lei de Improbidade Administrativa n.º 8.429/92, para que seja determinada a perda da sua função
pública, seja suspenso seus direitos políticos por cinco anos, seja condenado ao pagamento de multa civil
de no mínimo doze vezes o valor de sua remuneração percebida e determinada a sua proibição de
contratar com o Poder Público ou receber benefícios fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda
que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos.
e) a condenação do promovido RIQUINHO RICO DA SILVA, ao pagamento de todas as custas
judiciais e sucumbenciais.

Protesta o Ministério Público pela produção de todas as provas admissíveis em direito.


Por inestimável, atribui-se à causa do valor de R$100.000,00 (cem mil reais).

Termos em que pede deferimento


Nome da Cidade, 00 de dezembro de 2020

Promotor de Justiça
AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA AMBIENTAL (não apresentação
de projeto de aterro sanitário)

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA ÚNICA DA COMARCA DE


___________ - ____

O Ministério Público do Estado da Paraíba, através do Promotor de Justiça, Curador do Meio


Ambiente de Pilar - PB, vem, com fulcro nos artigos 37 caput e §4º, 129 II e III, 182 e 225, todos da
Constituição da República, no artigo 25, inciso IV, “b”, da Lei nº 8.625/93 (Lei Orgânica Nacional do
Ministério Público) e nos artigos 1º, 2º, 4º, 5º, 11 e 12, da Lei 8.429/92, ajuizar a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA AMBIENTAL

a ser processada segundo o rito ordinário, em face de FULANA, brasileira, Prefeita do Município de
XXXXX – PB, Portadora do CPF 000.000.000-00, podendo ser encontrada na Rua dos Prefeitos, Bairro,
XXXXX – PB, ou na sede administrativa da Prefeitura Municipal de XXXXX – PB, pelos fatos e
fundamentos a seguir declinados.

I. DOS FATOS
A demandada, na condição de gestora do município de XXXXX – PB, não apresentou projeto de
aterro sanitário, em consórcio ou separadamente à SUDEMA, órgão licenciador para atividade,
devidamente acompanhado de cronograma de execução, contemplando todas as exigências discriminadas
na Resolução CONAMA nº308/2002. Também não apresentou projeto de recuperação da área degradada,
utilizada como lixão, à SUDEMA, para que o aterro sanitário fosse instalado em local diverso.
Acentuou, ainda, o órgão supramencionado, que o município foi autuado por fazer funcionar aterro
sanitário “LIXÃO”, serviço potencialmente poluidor, sem licença dos órgãos ambientais competentes.
Tendo em vista, o não cumprimento das exigências já mencionadas, foi a demandada condenada
pela Justiça Federal, em sentença transitada em julgado (TRF-5ª Região – Apelação Cível nº 528.749-PB –
Processo 2007.82.00.009354-7. Rel.: Juiz Francisco Cavalcanti) 24; ficando, por conseguinte, latente a
inobservância da gestora municipal com os desígnios da Constituição Federal, que determina como sendo
um dever dos gestores a proteção e defesa do Meio Ambiente, bem como das diretrizes da Política
Nacional dos Resíduos Sólidos, que reúne o conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes,
metas e ações, com vistas à gestão integrada e ao gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos
sólidos, estipuladas na Lei Federal nº 12.305/2010.
O descumprimento, portanto, deixou em risco o a saúde a população, bem como a fauna e a flora
local. É sabido que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações; e que incumbe ao Poder Público proteger a
fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, e, ainda,
que as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas
ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos
causados.
Ao inobservar as diretrizes legais e as determinações do Processo 2007.82.00.009354-7, a gestora do
município de XXXXX – PB, causou poluição em níveis tais que resultam em danos à saúde humana, e que

24 Ementa em anexo.
provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora, quando fez lançamento de
resíduos sólidos, líquidos, gasosos e detritos, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou
regulamentos.
A comunidade local e o meio ambiente, como um todo, face a inércia do poder publico municipal,
estão, de tal maneira, até a presente data, em risco.

II. DO DIREITO
a) Do cabimento da ação civil pública e da legitimidade do Ministério Público
A Constituição Federal assegura o acesso à Justiça (garantias da ação e da defesa), em dispositivo que
assim se ostenta:
“A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” (art. 5º, XXXV).
O princípio inserto em tal dispositivo confere o direito subjetivo de se postular provimento
jurisdicional em virtude de violação da ordem jurídica.
Atento à existência de interesses de elevada abrangência e repercussão, que aproveitam em maior ou
menor medida a toda coletividade, o legislador regrou, em uma série de dispositivos, o exercício do direito
de ação por meio de instrumento coletivo, a ser utilizado pelo órgão estatal incumbido da defesa do
interesse social.
O artigo 129, III, da Carta Política, por outro lado, conferiu ao Ministério Público a função de
promover ação civil pública para a proteção de interesses difusos e coletivos, como um dos instrumentos
ensejadores da consecução das finalidades institucionais, isto é, a defesa da ordem jurídica, do regime
democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis (artigo 127, da CF).
A Lei nº 7.347/85 prevê a possibilidade de propositura de ação civil pública para tutela de todo e
qualquer interesse difuso ou coletivo (artigo 1º, IV), bem assim a legitimidade do Ministério Público para
seu ajuizamento (artigo 5º).
A Lei Orgânica Nacional do Ministério Público (Lei nº 8.625/93), por outro giro, atribuiu ao
Ministério Público a função de promover a ação civil pública destinada à proteção, prevenção e reparação
dos danos causados a interesses difusos, coletivos e individuais indisponíveis e homogêneos.
Assim, na medida em que se discute na presente ação matéria que interessa a todas as pessoas da
comunidade de Pilar - PB, inegável a adequação do meio processual utilizado e a legitimidade ativa do
Parquet.

b) Da Política Nacional de Resíduos Sólidos


Em 02 de agosto de 2010 foi instituída a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que reúne o conjunto
de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações, com vistas à gestão integrada e ao
gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos; através da Lei nº 12.305/2010, na qual
ficou determinado, nos termos do Artigo 55, o prazo de dois anos para que todos os municípios da
República Federativa do Brasil adotem os instrumentos elencados no Artigo 8º, além do disposto nos
Artigos 16 e 18, da lei supramencionada.

c) Da Obrigação do Poder Público em Defender o Meio Ambiente


Os administradores públicos, de qualquer esfera do poder, possui a obrigação constitucional e legal
de defender, preservar, velar e zelar o meio ambiente, conforme disposições da Constituição da República
Federativa do Brasil:
Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:
(...)
VI - proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas.
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das
espécies e ecossistemas;
(...)
VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco
sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.
(...)
§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

d) Dos Crimes Ambientais Cometidos


Observa-se que, o descuido com os resíduos sólidos oriundos da cidade de XXXXX – PB, além da
inobservância das normas constitucionais, resulta em crime tipificado pela Lei dos Crimes Ambientais, Lei
nº 9.605/98.
Ora, o descaso com a acomodação inadequada dos resíduos sólidos causa – incontestavelmente –
poluição em níveis tais que resultem ou possam resultar danos à saúde humana e ao meio ambiente como
um todo; nos termos do Artigo 54 da Lei 9.605/98:
Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar
em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição
significativa da flora:
(...)
§ 2º Se o crime:
(...)
V - ocorrer por lançamento de resíduos sólidos, líquidos ou gasosos, ou detritos, óleos ou
substâncias oleosas, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou regulamentos:
Pena - reclusão, de um a cinco anos.
e) Da Condenação do Município de XXXXX - PB
É de bom alvitre ressaltar que, face o não cumprimento das determinações constitucionais e
infraconstitucionais elencadas nos dois itens anteriores, o município de XXXXX – PB foi condenado pela
Justiça Federal, em sentença transitada em julgado (TRF-5ª Região – Apelação Cível nº 000.000-PB –
Processo 0000.00.00.000000-0. Rel.: Juiz Francisco Cavalcanti) 25.

f) Da Improbidade Administrativa Ambiental da Representante do Poder Público Municipal


A improbidade administrativa possui como característica o seu grave potencial lesivo; afinal, mais
do que pela sua nociva repercussão sobre a vida social, pelo mau exemplo que dissemina e pelo
incomensurável descrédito que aplica à classe dirigente, agride os princípios nucleares da ordem jurídico-
constitucional positiva26.
A Administração Pública, no exercício de suas funções tem o dever de buscar sempre o interesse
público como meio de propiciar o bem-estar social. Para a concretização desse objetivo ela precisa praticar
determinados atos, dando-lhes publicidade.

25 Ementa em anexo.
26 Conforme: Pazzaglini Filho, Marino. et al, Improbidade administrativa. 3. Ed. São Paulo: Atlas, 1998. p. 13.
Esses atos estão previstos em leis. No caso do exercício da atividade urbanística e ambiental o agente
público não tem qualquer margem de atuação em critérios de conveniência e oportunidade. Nessa esteira
são as palavras de Hely Lopes Meirelles27: “o agente público fica inteiramente preso ao enunciado da lei,
em todas as suas especificações”.
De tal sorte, a omissão de qualquer representante do Poder Público – quando versar acerca de
matéria ambiental - implica na busca de sua responsabilização imediata, o que presentemente ocorre por
intermédio de ação civil de improbidade administrativa ambiental.
Isto porque, as questões ambientais são marcadas de intensa atividade administrativa, concernentes
em atos autorizadores ou licenciadores do Poder Público e atos de fiscalização das práticas potencialmente
danosas ao meio ambiente, além do implemento de programas voltados à proteção ambiental dos diversos
recursos disponíveis.
Eventual omissão, que não tem por antecedente o exercício da discricionariedade, significa descaso
com a coisa pública.28
A Lei de Improbidade Administrativa deve ser aplicada de maneira correlacionada com as leis
ambientais de forma a observar e obedecer aos princípios que regem o Direito Ambiental, insculpidos pela
Constituição Federal.
Isso porque, se, por um lado, o Estado é o promotor por excelência da defesa do meio ambiente na
sociedade quando elabora e executa políticas públicas ambientais e quando exerce o controle e a
fiscalização das atividades potencialmente degradadoras do meio ambiente, por outro lado, ele aparece,
também, em muitas circunstâncias, como responsável direto e indireto pela degradação da qualidade
ambiental, quando elabora e executa outras políticas públicas – como, por exemplo, as relacionadas ao
desenvolvimento econômico e social – e quando se omite no dever que tem de fiscalizar as atividades que
causam danos ao meio ambiente e de adotar medidas administrativas necessárias à preservação da
qualidade ambiental.29
Em decorrência da norma trazida na Constituição Federal coube ao legislador brasileiro especificar
os atos de improbidade administrativa, o que ocorreu com a vigência da Lei nº 8.429/92, conforme se vê de
seus artigos 1º, 2º, 4º, 5º, 11 e 12:
Art. 1° Os atos de improbidade praticados por qualquer agente público, servidor ou não, contra
a administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal, dos Municípios, de Território, de empresa incorporada ao
patrimônio público ou de entidade para cuja criação ou custeio o erário haja concorrido ou
concorra com mais de cinquenta por cento do patrimônio ou da receita anual, serão punidos
na forma desta lei.
Art. 2° Reputa-se agente público, para os efeitos desta lei, todo aquele que exerce, ainda que
transitoriamente ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou
qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função nas
entidades mencionadas no artigo anterior.
Art. 4° Os agentes públicos de qualquer nível ou hierarquia são obrigados a velar pela estrita
observância dos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade no trato
dos assuntos que lhe são afetos.
Art. 5° Ocorrendo lesão ao patrimônio público por ação ou omissão, dolosa ou culposa, do
agente ou de terceiro, dar-se-á o integral ressarcimento do dano.
Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da
administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade,
imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente:

27 Direito Administrativo Brasileiro, Malheiros, 19ª ed.


28 Marcos Vinicius Monteiro dos Santos. A Improbidade Administrativa decorrente da Omissão na Atuação dos Agentes Públicos.
Manual Prático da Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo. São Paulo: Imprensa Oficial, MP/SP, 2005.
29 Álvaro Luiz Valery Mirra. Proteção do Meio Ambiente: a omissão do Poder Público e o papel do Judiciário no controle da
Administração Pública. Revista de Direito Ambiental Ano 8, nº 30. São Paulo: RT, 2003.
I - praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou diverso daquele previsto, na
regra de competência;
II - retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício;
III - revelar fato ou circunstância de que tem ciência em razão das atribuições e que deva
permanecer em segredo;
IV - negar publicidade aos atos oficiais;
V - frustrar a licitude de concurso público;
VI - deixar de prestar contas quando esteja obrigado a fazê-lo;
VII - revelar ou permitir que chegue ao conhecimento de terceiro, antes da respectiva
divulgação oficial, teor de medida política ou econômica capaz de afetar o preço de
mercadoria, bem ou serviço.
Art. 12. Independentemente das sanções penais, civis e administrativas previstas na legislação
específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes cominações, que
podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, de acordo com a gravidade do fato:
I - na hipótese do art. 9°, perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio,
ressarcimento integral do dano, quando houver, perda da função pública, suspensão dos
direitos políticos de oito a dez anos, pagamento de multa civil de até três vezes o valor do
acréscimo patrimonial e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou
incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa
jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de dez anos;
II - na hipótese do art. 10, ressarcimento integral do dano, perda dos bens ou valores acrescidos
ilicitamente ao patrimônio, se concorrer esta circunstância, perda da função pública,
suspensão dos direitos políticos de cinco a oito anos, pagamento de multa civil de até duas
vezes o valor do dano e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou
incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa
jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco anos;
III - na hipótese do art. 11, ressarcimento integral do dano, se houver, perda da função pública,
suspensão dos direitos políticos de três a cinco anos, pagamento de multa civil de até cem
vezes o valor da remuneração percebida pelo agente e proibição de contratar com o Poder
Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda
que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos.
Parágrafo único. Na fixação das penas previstas nesta lei o juiz levará em conta a extensão do
dano causado, assim como o proveito patrimonial obtido pelo agente.
Por conseguinte, e, em virtude de exercer a função de Prefeita Municipal, a demandada encontra-se
evidentemente subordinada aos princípios constitucionais previstos no art. 37 da Constituição Federal,
inclusive no seu parágrafo quarto, que assim determina:
Constituição Federal. Art. 37, § 4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a
suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o
ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal
cabível.

III. DA JURISPRUDÊNCIA
Corroborando com o intento, podemos citar várias decisões dos tribunais brasileiros:
DIREITO ADMINISTRATIVO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA -PREFEITO - CONDUTAS QUE
OCASIONARAM DANOS AMBIENTAIS - INOBSERVÂNCIA DO ARTIGO 225 DACONSTITUIÇÃO
FEDERAL - CARACTERIZAÇÃO DE ATODE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - APLICAÇÃO DA
LEI 8.429/92. Súmula: Negaram Provimento. (TJMG, Número doProcesso:1.0107.06.999989-
7/001, Relator: Audebert Delage, Data do Julgamento: 05/10/2006, Data da
Publicação:24/10/2006)
“EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PROCESSUAL CIVIL. (APELAÇÃO CÍVEL. CONSTITUCIONAL,
ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. MUNICÍPIO DE PINHEIRO
MACHADO. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS
URBANOS. ATERRO CONTROLADO. DANOS AMBIENTAIS. NECESSIDADE DE COBERTURA
DIÁRIA. OMISSÃO DO PREFEITO MUNICIPAL. PROCEDÊNCIA NA ORIGEM. IMPROVIMENTO
EM GRAU RECURSAL. 1. PRELIMINAR. REVALIDAÇÃO DA SENTENÇA DESCONTITUÍDA
PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. (...) 2. DO APELO DO MUNICIPIO DE PINHEIRO MACHADO.
De acordo com a norma 8.849/85 da ABNT, item 3.2, a necessidade de cobertura do lixo é
diária, o que possibilita a adequação das condições operacionais do aterro. Ademais, esta
técnica de cobertura diária e utilizada em todos os aterros do Brasil. IMPROVIMENTO. 3. DO
APELO DE CARLOS ERNESTO BETIOLLO. 3.1. Comete ato de improbidade o administrador
que retarda e omite indevidamente ato de ofício, agindo contrariamente ao dever de boa
administração, conforme o art. 11, II da Lei n.º 8.429/92. 3.2. Ainda mais quando o mesmo
administrador é recorrente na conduta, porquanto, ao que se constata dos autos pela segunda
vez, em mandatos consecutivos, o ex-prefeito Carlos Ernesto Betiollo deixou de proceder a
cobertura de resíduos sólidos urbanos depositados em aterro controlado, o que importou em
ocorrência de danos ambientais. IMPROVIMENTO. PRELIMINAR REJEITADA. APELOS NÃO
PROVIDOS.) INEXISTÊNCIA DE OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO, OMISSÃO OU
NECESSIDADE DE ESCLARECIMENTOS. EMBARGOS DESACOLHIDOS”. (Embargos de
Declaração Nº 70018431924, Quarta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Wellington Pacheco Barros, Julgado em 21/03/2007)
“AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - I - Ação promovida
em face de prefeito. Competência do Juízo de primeiro grau. Inconstitucionalidade dos §§ 1o e
2°, do artigo 84, do Código de Processo Penal, declarada pelo Egrégio Supremo Tribunal Federal
(ADIN 2797). AÇÃO CIVIL PÚBLICA - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA -II – A causa de pedir e
o pedido apresentam-se claros e objetivos, não havendo qualquer dificuldade de interpretação
capaz de dificultar a defesa dos réus. III - Legitimidade ativa do Ministério Público. A norma
constitucional, definindo como funções institucionais do Ministério Público, ‘a defesa da ordem
jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis’, atribuiu
poderes para “promover o inquérito civil e a ação civil pública, para proteção do patrimônio
público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos” (arts. 127 e 129,
inc. III). (...) Preliminares afastadas. Recurso improvido”. (TJ/SP, Agravo de Instrumento nº
4031475700, Relator(a): Moacir Peres, Órgão Julgador: 7ª Câmara de Direito Público, Data do
Julgamento: 08/10/2007).
“ADMINISTRATIVO E PROCESSO CIVIL - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA – AÇÃO CIVIL
PÚBLICA - ART. 11 DA LEI N. 8.429/92 - NECESSIDADE DA CORTE DE ORIGEM MANIFESTAR-
SE SOBRE LESÃO A PRINCÍPIOS ADMINISTRATIVOS - OMISSÃO RELEVANTE - VIOLAÇÃO
DO ART. 535, II, DO CPC. 1. O Tribunal a quo não atentou para o fato de que os atos de
improbidade, a teor do art. 11 da Lei n. 8.429/92, também se configuram mesmo quando
inexistente lesão ao erário público ou enriquecimento ilícito dos réus. 2. “A existência de
omissão relevante à solução da controvérsia, não sanada pelo acórdão recorrido, caracteriza a
violação do art. 535 do CPC.” (REsp 839.468/BA, Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª Turma, DJ
13.11.2006). 3. Recurso especial parcialmente conhecido e provido, a fim de que os autos
retornem ao Tribunal a quo para o julgamento completo dos embargos de declaração” (STJ,
REsp 736656 / MG, 2ª Turma, Ministro HUMBERTO MARTINS, Data do Julgamento
06/02/2007).
“EMENTA: 1) PROCESSO CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. CABIMENTO. LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO PARA ATUAR NA
DEFESA DO PATRIMÔNIO PÚBLICO. ART. 129, III, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988. O
cabimento da Ação Civil Pública por ato de improbidade administrativa e a legitimidade do
Ministério Público para propô-la decorre da previsão expressa do art. 129, III, da Constituição
Federal de 1988, segundo o qual é função institucional do Ministério Público promover o
inquérito civil e a ação civil pública para a proteção do patrimônio público e social, do meio
ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. 2) PROCESSO CIVIL E ADMINISTRATIVO.
SANÇÕES PREVISTAS NA LEI DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA (LEI Nº. 8.429/92).
POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO. AUSÊNCIA DE INÉPCIA DA INICIAL. a) Não há que se
falar em impossibilidade jurídica do pedido, porque o pleito do Ministério Público de que o
Apelante seja condenado pela prática de ato de improbidade administrativa, com as sanções
dela decorrentes, não é vedado pelo ordenamento jurídico, pelo contrário, está expressamente
previsto. b) De mesma forma, não há que se falar em inépcia da inicial porque não há
qualquer dúvida, como afirma o Apelante, sobre o que pretende o Autor, já que ficou claro,
desde a inicial, que o que pretende é a condenação do Apelante pela prática de ato de
improbidade administrativa consistente na omissão de encaminhar ao Tribunal de Contas os
documentos referentes às licitações efetuadas no Município de Inajá no exercício financeiro de
1994 período em que o Apelante era dele Prefeito. 3) ADMINISTRATIVO. PRESCRIÇÃO. ART. 23
DA LEI Nº. 8.429/92. INAPLICABILIDADE DO CÓDIGO CIVIL. PREVALÊNCIA DA NORMA
ESPECIAL. O prazo prescricional para a propositura de Ações Civis Públicas por ato de
improbidade administrativa é o previsto no art. 23 da Lei nº. 8.429/92, ou seja, de cinco (5)
anos, contados a partir do término do exercício do mandato de Prefeito, e não o geral previsto
pelo Código Civil, já que, conforme regra de hermenêutica, deve prevalecer a norma especial.
4) ADMINISTRATIVO. LEI 8.429/92. OMISSÃO INJUSTIFICADA DE PREFEITO EM ENVIAR AO
TRIBUNAL DE CONTAS OS DOCUMENTOS REFERENTES ÀS LICITAÇÕES DO MUNICÍPIO NO
EXERCÍCIO FINANCEIRO DE 1994. VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE E DA
MORALIDADE ADMINISTRATIVA. DANO NÃO COMPROVADO. IRRELEVÂNCIA. ATO DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA VERIFICADO. a) Ao sonegar, injustificadamente, os
documentos referentes às licitações efetuadas no Município de Inajá no exercício financeiro de
1994, período em que o Apelante era dele Prefeito, mesmo após o Tribunal de Contas os ter
solicitado, caracteriza ato de improbidade administrativa, porquanto, ao assim agir, o Chefe do
Poder Executivo Municipal violou os princípios da legalidade e da moralidade. Desta forma, o
Apelante deixou de prestar contas quando tinha o dever de fazê-lo, o que, segundo o art. 11, VI,
da Lei nº. 8.429/92 caracteriza ato de improbidade administrativa. b) O fato de nenhum dano
material ter restado comprovado não prejudica a aplicação das sanções legais previstas, já que
conforme o art. 21, I da Lei nº. 8.429/92, a aplicação das sanções independe “da efetiva
ocorrência de dano ao patrimônio público.”. 5) ADMINISTRATIVO. ART. 12, III DA LEI DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. APLICAÇÃO DE SANÇÕES DESPROPORCIONAIS SE
COMPARADAS À GRAVIDADE DO ATO. REDUÇÃO DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. a) Em se
tratando de sanções desproporcionais aplicadas pela prática de ato de improbidade pode o
Tribunal, de ofício, reduzi-las. b) No caso, a suspensão dos direitos políticos do Apelante por
cinco (5) anos e sua condenação ao pagamento de pena de multa de cinqüenta (50) vezes o
valor da remuneração por ele percebida é desproporcional se comparada à gravidade do ato,
razão pela qual reduzo a suspensão para três (3) anos e a multa para quatro (4) vezes o valor
da remuneração mensal percebida pelo Apelante em dezembro de 1996. 6) APELO A QUE SE
NEGA PROVIMENTO; SANÇÕES REDUZIDAS DE OFÍCIO” (TJ/PR, Acórdão nº 17773, 5ª
Câmara Cível, Rel.: Leonel Cunha, julgado em 05/06/2007).
“AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE RESPONSABILIDADE POR ATO DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - EXISTÊNCIA DE INDÍCIOS SUFICIENTES DA PRÁTICA DE
ATO ÍMPROBO A ENSEJAR O RECEBIMENTO DA INICIAL - DECISÃO FUNDAMENTADA -
ANÁLISE DE TODAS AS PRELIMINARES ARGUIDAS PELA DEFESA - ARTIGO 17, § 8º, DA LEI
Nº 8.429/92 - INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO - RECURSO NÃO PROVIDO - DECISÃO UNÂNIME.
- Não sendo constatada qualquer das hipóteses de rejeição da inicial, de acordo com o artigo
17, § 8º, da Lei de Improbidade Administrativa e havendo indícios da prática de ato ímprobo,
ilegal ou lesivo ao patrimônio público, o recebimento da ação civil pública é medida que se
impõe” (TJ/PR, Acórdão 16695, 5ª Câmara Cível, Rel.: Antonio Lopes de Noronha, Julgamento:
21/11/2006).
“ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. EX-PREFEITO. NEGATIVA DE PUBLICIDADE A ATOS OFICIAIS. ARTIGO 11,
IV, DA LEI Nº 8.429/92. SENTENÇA DE 1º GRAU QUE EXTINGUE O FEITO SEM JULGAMENTO
DE MÉRITO, ANTE A INÉPCIA DA INICIAL E A ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM DO
MINISTÉRIO PÚBLICO. DESACERTO. RESPONSABILIZAÇÃO DO EX-PREFEITO. VIOLAÇÃO
AOS PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE E DA PUBLICIDADE. LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO
PÚBLICO PARA PROPOR AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM O FIM DE RESGUARDAR O
PATRIMÔNIO PÚBLICO. MÉRITO. JULGAMENTO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 515, PARÁGRAFO
3º DO CPC. MATÉRIA DE DIREITO. CONJUNTO PROBATÓRIO SUFICIENTE AO DESLINDE DA
CAUSA. CONDIÇÕES DE PRONTO JULGAMENTO. CONFIGURAÇÃO DE ATOS DE
IMPROBIDADE .OMISSÃO. DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL. DESNECESSIDADE DE
PREJUÍZO AO ERÁRIO. APLICAÇÃO DAS PENALIDADES DE FORMA PROPORCIONAL À
GRAVIDADE DO ATO ÍMPROBO PRATICADO PELO EX- PREFEITO. HONORÁRIOS DA
SUCUMBÊNCIA DEVIDOS AO FUNDO ESPECIAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. LEI ESTADUAL
Nº 12.241/1999. RECURSO DE APELAÇÃO PROVIDO E ADESIVO NÃO CONHECIDO. 1. É
possível propor-se ação civil pública com fulcro na Lei de Improbidade Administrativa
(8.429/92), cuja natureza da demanda se amolda às prerrogativas do parquet. 2. O Ministério
Público tem atribuições (deveres) constitucionais para funcionar como parte nos processos que
envolvem interesse público, como o são as ações de improbidade administrativa, inclusive com
o dever de atuar preponderantemente como parte, movimentando o Judiciário quando
identifique qualquer possibilidade de lesão aos princípios que regem a administração pública.
3. Os artigos 515 e 516 do CPCivil permitem que sejam apreciadas pelo Tribunal todas as
questões suscitadas e discutidas no processo ainda que a sentença não as tenha julgado por
inteiro, além de serem também submetidas ao exame pelo Tribunal as questões anteriores à
sentença, ainda não decididas. 4. Mesmo inexistindo dano patrimonial ao erário público, deve
ser admitida a prática de ato de improbidade administrativa, mormente quando tal ato infrinja
direitos de natureza não patrimonial, como a legalidade, a moralidade e a publicidade. 5. A
publicidade dos atos oficiais está elencada na Constituição Federal como um dos princípios
basilares da administração pública, sendo esta a razão suficiente para que a sua negativa pelo
agente público seja considerada como ato ímprobo. 6. Ademais, não há que se falar em
ausência de improbidade pela não configuração de prejuízo ao erário, uma vez que a negativa
de publicidade dos atos administrativos está classificada na Lei Nº 8.429/92 como pertencente
aos “atos de improbidade administrativa que atentam contra os princípios da administração
pública.”. 7. As penas da LIA são cumulativas e concorrentes e o princípio da
proporcionalidade somente é aplicável no plano quantitativo e não qualitativo. Apelação
provida. Recurso Adesivo não conhecido” (TJ/PR, acórdão nº 27207, 1ª Câmara Cível, Rel.
Rosene Arão de Cristo Pereira, Julgamento: 25/07/2006).
“REEXAME NECESSÁRIO - AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE RESPONSABILIDADE POR DANO
CAUSADO AO MEIO AMBIENTE CUMULADA COM OBRIGAÇÃO DE FAZER LIXO URBANO -
LOCAL INAPROPRIADO PARA O DEPÓSITO - DANOS AO MEIO AMBIENTE CARACTERIZADO
SENTENÇA MANTIDA. PARÁGRAFO 1º IV) que impõe ao poder público ações efetivas de
preservação. É necessária a atenção redobrada quanto ao destino dado ao lixo urbano, vez que
tem causado desastres ecológicos de grande monta. Não é prejudicial somente à fauna e à
flora, pois neste caso pode causar um dano à saúde física da população, por encontrar-se o
lixão, dentro da área de mananciais do Município de Realeza. Observa-se que os responsáveis
não estão dando a devida atenção ao caso, uma vez que assinaram um acordo(f. 30) e não
cumpriram, justificando com alegações de não possuírem recursos financeiros e que a
burocracia atrapalha o andamento dos projetos, que nada mais significam do que atos
protelatórios que na verdade se traduzem em descaso com o problema. Neste sentido, têm
entendido os Tribunais: AÇÃO CIVIL PÚBLICA DANOS PROVOCADOS AO MEIO AMBIENTE
DEVIDO À DEPOSIÇÃO DE LIXO EM LOCAL E FORMA INADEQUADOS PELA
MUNICIPALIDADE ADEQUAÇÃO DA AÇÃO PREVISÃO CONSTITUCIONAL ARTIGO 225,
PARÁGRAFO 1º, IV, DA C/F OBRIGAÇÃO DO PODER PÚBLICO DE DEFESA E PRESERVAÇÃO
DO MEIO AMBIENTE’(AC n.º 153.486.5/3 8ª Câmara de Direito Público do TJSP Rel. Des. Celso
Bonilha) (TJ/PR; Acórdão n.º 9564; 6ª Câmara Cível; rel. Juiz Conv: Mário Helton Jorge; Julg.
09/10/2002).

IV. DO PEDIDO
Ante o exposto, o Ministério Público do Estado da Paraíba requer:
a) seja a presente ação seja recebida, autuada e processada na forma e no rito ordinário, conforme
preconiza o artigo 17 da Lei nº 8.429/92;
b) seja, ao final, a presente ação julgada procedente, em todos os seus termos;
c) a citação da demandada, para, querendo, oferecer contestação, sob pena de revelia;
d) a procedência do pedido para que seja reconhecida a existência da ato de improbidade
administrativa ambiental, nos termos do artigo 11 da Lei 8.429/92, e, por conseguinte, condenar a
demandada nas sanções do artigo 12, inciso III, do mesmo diploma legal (Lei 8.429/92), a saber:
ressarcimento integral do dano, se houver, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos de três
a cinco anos, pagamento de multa civil de até cem vezes o valor da remuneração percebida pelo agente e
proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta
ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de
três anos.
e) a dispensa do pagamento de custas, emolumentos e outros encargos, desde logo, ante o teor do
disposto no artigo 18 da Lei n° 7.347/85.

Protesta provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos.


Dá à causa o valor de R$100,00 (cem reais).

E. deferimento.
Pilar - PB, 12 de agosto de 2013

Promotor de Justiça
AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE OBRIGAÇÃO DE FAZER EM DECORRÊNCIA DE DESVIRTUAMENTO DE
PROGRAMAS SOCIAIS DO GOVERNO FEDERAL

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da __Vara da Comarca de __________- _____

O Ministério Público Estadual, por seu Promotor de Justiça, infra-assinado, no uso de suas
atribuições legais previstas nos artigos 1º e 26, inciso IV, alínea “a”, da Lei Complementar nº ____, e com
fundamento no artigo 129, incisos II e III , da Constituição Federal de 1988, bem como no artigo 3°, da Lei
n. 7.347/85 e com supedâneo nos elementos fáticos e jurídicos colhidos nos autos do Inquérito Civil
nº__________, que foi instaurado pela Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos e da
Cidadania, doravante referendado como IC ____ propõe a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA PARA O CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER

em face do MUNICÍPIO de ________, na pessoa do Prefeito Municipal, ___________, com sede na Av.
________, n.____, bairro, nesta cidade; e da coordenadora dos programas de benefícios estaduais________,
residente à rua ________, bairro ____, neste Município, pelos seguintes fatos e fundamentos jurídicos:

DOS FATOS
Tratam os presentes autos de inquérito civil instaurado pela Promotoria de Justiça de Defesa dos
Direitos Humanos e da Cidadania, no dia _________, a fim de averiguar se os beneficiários de programas do
Governo (Municipal, Estadual e Federal) estavam atendendo, ou não, aos requisitos exigidos pelos mesmos
para a devida inclusão, tendo em vista que chegou ao conhecimento deste órgão a informação da
existência de beneficiários credenciados nos referidos programas sociais em desacordo com as exigências
legais previstas, entre outros, do Decreto n. 11.857, de 20 de abril de 2004 (fls.______).
Diante da informação, fora instaurado o IC n.º________, no qual foram juntados os ofícios
encaminhados à Coordenadora Municipal dos programas bolsa-escola e segurança alimentar,
Sr.ª_________, tendo a mesma informado sobre a impossibilidade de fornecer a relação contendo nomes e
endereços dos beneficiários dos mencionados programas (fls._____), bem como ofício da Prefeitura
Municipal de_________, no qual o Sr. _____________encaminhou a relação dos beneficiários cadastrados
nos programas sociais do Governo Federal (fls. ________), como também ofício à Superintendente dos
Programas de Inclusão Social, Sr.ª ____________, onde a mesma encaminhou a relação dos beneficiários
que recebem do programa bolsa escola estadual (fls. ______) e também o ofício, no qual a supracitada
Superintendente narrou como é realizada a entrega do benefício do referido programa e cópia do Decreto
que rege o programa de inclusão social, juntamente com a relação dos beneficiários com o nome, CPF e RG
(fls._____).
Em ___ de _______de___, fora determinado (fls.____) que se oficiasse à Prefeitura Municipal
de______, na pessoa do chefe do poder executivo a fim de requerer a informação de cargos e salários das
pessoas constantes às fls. ______(funcionários públicos municipais), bem como a expedição de notificação
às demais pessoas (fls.____), a fim de comparecerem nesta Promotoria de Justiça para serem tomadas por
termo as respectivas declarações.
Em resposta ao ofício (fls.____), o prefeito municipal encaminhou a certidão contendo nomes das
pessoas com os respectivos cargos e salários (fls.___). Assim sendo, houve a necessidade de notificação das
mencionadas pessoas, a fim de serem ouvidas na Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos e
da Cidadania.
Fora juntado o Decreto n.º _______da Prefeitura Municipal de________, sobre a tomada de contas no
Programa PETI (fls.____).
Em_________, fora oficiado ao Conselho Superior do Ministério Público, a fim de solicitar dilação de
prazo do mencionado inquérito (fls.____).
Na data de____________, fora efetuada a juntada de extratos bancários referentes a pagamentos da
“Bolsa Criança Cidadã” (fls.______).
Fora oficiado à Superintendente da Secretaria de Estado de Trabalho, Assistência Social e Economia
Solidária, a fim de solicitar os critérios adotados para o fornecimento de benefícios aos acampados do
Município de __________(fls.____).
Efetuou-se a juntada do ofício acerca da solicitação de fls.____ da Superintendente do Programa de
Inclusão Social da Secretaria de Estado de Trabalho, Assistência Social e Economia Solidária, bem como
cópia do Decreto Estadual n.º _____ (fls._____).

É o relatório.

DA FUNDAMENTAÇÃO

I– PRELIMINAR de MÉRITO

– Da legitimidade ad causam

Não obstante a celebração do convênio de cooperação técnica celebrado entre o Ministério do


Desenvolvimento Social e Combate à Fome e o Ministério Público do Estado de ___________(fls._____), em
cuja cláusula primeira ficou estabelecido o seguinte:
“CLÁUSULA PRIMEIRA – Do Objeto
Constitui objeto do presente Convênio a cooperação técnica para proteção dos bens, valores e
direitos relativos ao Programa Bolsa Família, aos programas remanescentes de transferência de
renda e ao cadastro único.”
Temos que à luz da Constituição Federal de 1988, verbis:
“Art. São funções institucionais do Ministério Público:
(...)
III – promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio
público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos;” (g.n.)
E, ainda, com fulcro na Lei n. 7.347/85, temos que:
“Art. 5° A ação principal e a cautelar poderão ser propostas pelo Ministério Público, pela
União, pelos Estados e Municípios...” (g.n.)
Destarte, tendo em vista ser o Ministério Público órgão colegitimado para a propositura da presente
ação civil pública, conforme embasamento legal supracitado, é mister que se reconheça sua legitimidade
ad causam ativa.

II – DO MÉRITO
Da análise das provas documentais acostados aos autos e, principalmente, das provas testemunhais,
constata-se que o Poder Executivo Municipal de __________e a Coordenadora___________, desde a
implantação dos benefícios assistenciais neste Município, não procederam ao recadastramento de todos os
beneficiários, a fim de averiguar se os mesmos ainda continuam atendendo aos requisitos exigidos para
tais benefícios, bem como se outras pessoas poderiam ser cadastradas para passarem a receber algum
benefício social, como nos demonstram, por exemplo, as seguintes declarações, verbis:
“(...)”
Das declarações da coordenadora ____________infere-se que a mesma contrariou e continua
contrariando o princípio da eficiência, pois, embora esteja à frente dos programas sociais estaduais
desde_______, até a presente data demonstrou-se ineficiente para o cargo que ocupa, confessando,
inclusive, que desde _______os beneficiários da área rural não mais receberam visitas das agentes, haja
vista não possuírem veículo para se deslocarem até a zona rural e, ainda, que pode acontecer de que
beneficiários residentes na zona rural estejam recebendo benefícios sem estarem atendendo aos requisitos.
Da mesma forma, vem ocorrendo com as pessoas acampadas nesta Comarca, só que neste caso, torna-se
mais evidente a ineficiência da coordenadora, pois sequer sabe quem são os beneficiados, haja vista tal
encargo ser da própria coordenação do acampamento, porém não há qualquer documento que comprove
ser da coordenação tal incumbência. Vejamos as declarações da coordenadora, verbis:
“...” (fls.____)
Da análise das declarações supracitadas, verifica-se que não havia e ainda não há escolha criteriosa
por parte daqueles que são responsáveis pela gestão dos benefícios advindos da União, in casu, o
Município de __________e do Estado de__________, ou seja, da Coordenadora ______________, a qual
chegou a admitir que “...”(fls._____).
No que tange à ineficiência do Município, verifica-se que não houve, desde a concessão dos
benefícios advindos da União, a preocupação de recadastrarem, pelo menos uma vez por ano, as pessoas
inscritas nos diversos programas, pois, somente desta forma é que estaria atendendo um dos princípios
mais básicos da Administração Pública, qual seja, o da eficiência.
No mesmo diapasão segue a atual secretária municipal de assistência social, pois, segundo esta “até
a presente data não houve o recadastramento total dos beneficiários do bolsa família, do bolsa escola
federal, do vale gás e do bolsa alimentação” (fls.____) , ou seja, revelando o total descaso para com o
erário público, por conseguinte, contrariando o princípio da eficiência.
Ocorre que sequer o Município tem o controle dos beneficiários que trabalham na própria
Administração Pública Municipal, como nos demonstram as declarações abaixo transcritas, a fortiori, as
demais pessoas, via de conseqüência, tal qual ocorre com a coordenadora dos benefícios estaduais, o
Município também contrariou e continua contrariando o princípio da eficiência.
A fim de corroborar a constatação supracitada, qual seja, a ineficiência, vejamos as seguintes
declarações:
“...” (fls. _____)
“...” (fls. _____)
É de meridiana clareza a omissão dos agentes, vale dizer, do Chefe do Poder Executivo Municipal,
bem como da coordenadora dos benefícios destinados aos acampados e à população rural, vez que ao
longo de todos esses anos, os mesmos não se deram o trabalho de averiguar se todos os beneficiários
atendiam aos requisitos exigidos, como, por exemplo, os estabelecidos no Decreto n. _______/________
(fls.____) e no Decreto n. _______(fls.____).
Neste ponto, é oportuna a lição de Celso Antônio Bandeira de Mello30, verbis:
“... a Administração Pública está, por lei, adstrita a cumprimento de certas finalidades,
sendo-lhe obrigatório objetivá-las para colimar interesse de outrem: o da coletividade. É em
nome do interesse público – o do corpo social – que tem de agir, fazendo-o na conformidade
da intentio legis. Portanto, exerce ‘função’, instituto – como visto – que se traduz na idéia de
indeclinável atrelamento a um fim preestabelecido e que deve ser atendido para o benefício
de um terceiro. É situação oposta à da autonomia da vontade, típica do Direito Privado. De
regra, neste último alguém busca, em proveito próprio, os interesses que lhe apetecem,
fazendo-o, pois, com plena liberdade, contanto que não viole alguma lei”.
Ademais, é cediço que o benefício, por exemplo, o bolsa-escola, se destina àquele que esteja numa
situação tal que haja a necessidade de que lhe seja fornecido, porém, a partir do momento que o status quo
ante é modificado, faz-se necessária nova avaliação para que o mesmo continue recebendo. Por outro

30 In “Curso de Direito Administrativo”, 17ª edição, editora Malheiros, São Paulo, 2004, p. 89.
vértice, não havendo nova avaliação, certamente, tornar-se-á difícil constatar se o mesmo ainda deverá
continuar recebendo o benefício.
Da análise das declarações, verificamos que havia pessoas que não deveriam estar recebendo
qualquer espécie de benefício social, porquanto não atendiam ao mínimo exigível para estarem
cadastradas, vale dizer, a renda per capita da família era superior a meio salário mínimo, senão vejamos:
“...” (fls. ____)
O exemplo mais evidente do descontrole por parte do Município é demonstrado através das
declarações da Sra. _______às fls.____, verbis:
“...” (fls. _____)
O que se percebe da leitura, por exemplo, do ofício de fls. ____ é que ora o Município diz que a
responsabilidade é da Coordenadoria do Estado no Município, ou seja, da Sra. _________, ora do
Ministério de Desenvolvimento Social, quando, ao nosso sentir, a responsabilidade é de todos os agentes
que administram a coisa pública.
É importante frisar que o agente público deve obedecer indiscutivelmente aos
princípios da Administração Público esculpidos no artigo 37, caput, da CF/88, sob pena de fazer da coisa
pública um negócio particular, esquecendo-se do mais comezinho princípio, vale dizer, o da eficiência,
pois, o Município de ______e a coordenadora________, até a presente data, demonstraram-se ineficientes
nos seus misteres, haja vista não terem procedido ao recadastramento dos beneficiários dos programas
sociais levados a efeito pelos Governos Estadual e Federal.
Ademais, conforme preleciona Alexandre de Moraes, verbis;
“O administrador público precisa ser eficiente, ou seja, deve ser aquele que produz o efeito
desejado, que dá bom resultado, exercendo suas atividades sob o manto da igualdade de
todos perante a lei, velando pela objetividade e imparcialidade.” (in “Direito
Constitucional”, 6ª edição, editora Atlas, São Paulo , 1999, p. 297).
Nesse diapasão, segue a professora Maria Sylvia Zanella Di Pietro, para quem o princípio da
eficiência:
“... impõe ao agente público um modo de atuar que produza resultados favoráveis à
consecução dos fins que cabem ao Estado alcançar...” (in “Direito Administrativo”, 10ª
edição, editora Atlas, São Paulo, 1998, p. 73/74).
As omissões dos réus demonstram o total descaso para com a coisa pública, pois, há pessoas
necessitadas que deveriam estar inseridas em algum programa social, bem como há pessoas que deveriam
ser excluídas e que ainda estão usufruindo o dinheiro que não lhes deveria ser destinados, como é o caso
da maioria dos servidores públicos deste município.
Os réus tinham, têm e terão o dever-poder de atender ao princípio da eficiência e, para tanto,
deverão proceder ao recadastramento de todas as pessoas.
Neste momento é oportuno lembrar aos réus o pensamento de Platão, verbis:
“...chamei aqui de servidores das leis aqueles que ordinariamente são chamados de
governantes, não por amor a novas denominações, mas porque sustento que desta
qualidade dependa, sobretudo a salvação ou a ruína da cidade. De fato, onde a lei está
submetida aos governantes e privada de autoridade, vejo pronta a ruína da cidade; onde, ao
contrário, a lei é senhora dos governantes e os governantes seus escravos, vejo a salvação
da cidade e a acumulação nela de todos os bens que os deuses costumam dar às cidades.”
(Leis, 715d).
Com base no princípio da eficiência é que foi analisada as condutas omissivas dos réus, afigurando-
se-nos a invocação do princípio da inafastabilidade do Poder Judiciário (art. 5°, inciso XXXV,CF/88) para
que ao final confira total procedência aos pedidos e requerimentos abaixo elencados.

Observa Luciano Ferreira Leite que:


“O primeiro direito do administrador frente à Administração, consiste, portanto, na
garantia de legalidade do comportamento administrativo e na aderência desse mesmo
comportamento ao interesse público, hipoteticamente descrito na norma.” (in
“Discricionariedade Administrativa e Controle Judicial”, editora RT, 1981, p. 35)
Os princípios não podem ser transgredidos, sob pena de instalarmos na sociedade uma situação que
ensejará um Estado Anárquico, pois, “a desatenção ao princípio implica ofensa, não apenas a um
específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos.” (MELLO, Celso Antônio Bandeira
de.“Curso de Direito Administrativo”, editora Malheiros, 5ª edição, 1994, p. 451)
O agente público lato sensu deve submeter-se aos princípios esculpidos no artigo 37, caput, da
CF/88, pois, caso contrário tomará a direção do contra-azimute, o que, certamente, o conduzirá à “falência”
do Estado.

DOS PEDIDOS
Ante o exposto, o membro do Ministério Público infra-assinado pede:
a total procedência dos pedidos formulados na presente ação;
que seja determinado ao Município, no prazo de 30 (trinta) dias, como obrigação de fazer, o
recadastramento total de todos os beneficiários de programas sociais relativos aos Governos
Municipal, Estadual e Federal;
que seja determinado à coordenadora_______, como obrigação de fazer, o recadastramento de todos
os acampados do Município e da população rural, bem como dos demais beneficiários de
programas sob a sua coordenação no prazo de 30 (trinta) dias;
a condenação dos réus ao pagamento das custas processuais e honorários periciais;
e, ainda, que seja fixada, em sentença, nos termos do artigo 11, da Lei n.º 7347/85, a multa no valor
correspondente a 1.000 (mil) UFERMS/dia, para cada descumprimento judicial que o
Município e a Coordenadora ________vierem a praticar, a ser depositado no “Fundo Estadual
de Defesa e Reparação dos Direitos Difusos Lesados”.

DOS REQUERIMENTOS

E, ainda, requer o seguinte:


a) a citação do Município de ________, na pessoa do chefe do Poder Executivo, com a autorização
contida no artigo 172, §2º, do Código de Processo Civil, para, querendo, responder à presente
demanda, sob pena de revelia e confissão quanto à matéria de fato;
b) a citação da Sra.____________, no endereço declinado às fls.____, com a autorização contida no
artigo 172, §2º, do Código de Processo Civil, para, querendo, responder à presente demanda,
sob pena de revelia e confissão quanto à matéria de fato;
c) a dispensa do pagamento de custas, emolumentos e outros encargos, à vista do disposto nos
artigos 18, da Lei 7.347/85;
d) a intimação do membro do Ministério Público, com a entrega dos autos, haja vista o disposto
no art.____, da Lei Complementar n.º___;
e) a juntada do Inquérito Civil n.º (____volumes), concluído por esta Promotoria de Justiça de
Defesa dos Direitos Humanos e da Cidadania;
f) a publicação de edital no órgão oficial, a fim de que os interessados, querendo, possam
intervir no processo como litisconsortes.
Dá-se ao valor da causa R$ ______(____) somente para efeitos fiscais.
Protesta provar o alegado pelos meios de prova em direito admitidos.

Nestes Termos
Pede deferimento.

_________, ___de ______de_____.

Promotor de Justiça
AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE OBRIGAÇÃO DE FAZER EM DEFESA DO MEIO AMBIENTE COM PEDIDO
LIMINAR

Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito da Vara Única da Comarca de ___________

URGENTE: HÁ PEDIDO DE LIMINAR

O Ministério Público Estadual, por seu Promotor de Justiça Substituto, infra-assinado, no uso de
suas atribuições legais previstas nos artigos 1º e 26, inciso IV, alínea “a”, da Lei Complementar nº_____, e
com fundamento no artigo 129, incisos II e III , da Constituição Federal de 1988, e com supedâneo nos
elementos fáticos, técnicos e jurídicos colhidos nos autos do inquérito civil nº_____, que foi instaurado
pela Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, doravante referendado como IC 03/00 propõe a
presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA


com
PEDIDO LIMINAR

em face do MUNICÍPIO DE ___________, na pessoa do Prefeito Municipal, ________________, da


cidade de_______, com sede à rua _________, s/n, pelos seguintes fatos e fundamentos jurídicos:

I. DOS FATOS
No dia _________ esta Promotoria de Justiça instaurou o inquérito civil sob o n. ______, através da
Portaria n.º _____(fls._____), visando apurar a razão pela qual estava e ainda continua sendo “jogado” lixo
em local inadequado, sendo, inclusive, tolerado pelo poder público municipal a freqüência de pessoas no
local, a fim de se alimentarem dos restos de lixo que lá são despendidos diariamente, tendo como
investigado o Município de___________, na pessoa de seu Prefeito.
Devidamente notificado (fls.___), o Prefeito Municipal respondeu às fls._____, asseverando o
seguinte:
“... em razão de compromissos inadiáveis, assumidos anteriormente, não poderei
comparecer nesta data na Promotoria de Justiça...” (g.n.)
Embora o Prefeito Municipal tenha aduzido às fls. ____que compareceria à Promotoria de Justiça no
dia _______, o mesmo não se fez presente.
A “Empresa de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural de _______”, através do engenheiro
agrônomo ________(fls._____) enviou à Promotoria de Justiça “Laudo Técnico”, onde elencou várias
sugestões, as quais, em sua maioria não foram atendidas pelo Município.
Embora o Prefeito Municipal tenha sido convidado, novamente, para chegar a um termo de
ajustamento, o mesmo limitou-se em responder ao ofício (fls.___), datado de ______, cujo recebimento deu-
se aos________, aduzindo no item 03 o seguinte:
“Considerando que não houve instrução técnica no inquérito civil, considero razoável a
supressão do parágrafo terceiro, em sua totalidade, até porque inócuo o parágrafo, haja
vista o fato de que, posteriormente vindo a ser ajuizada ação objetivando ressarcir
eventuais prejuízos ao meio ambiente e sendo julgada procedente, decorrerá a necessidade
de indenização sem que exista uma ação principal...” (g.n.)
Ainda, no bojo do referido ofício, o Prefeito Municipal finalizou, aduzindo que:
“Por fim sobre o prazo de 90 dias para apresentar projeto de recuperação da área e estudo
de impacto ambiental é muito pequeno. Ademais, a elaboração do EIA – Estudo de Impacto
Ambiental – em três áreas (como consta do item 5) encarecerá muito, razão porque
entendemos razoável ser melhor discutido este item.”
Às fls.___ o Ministério Público expediu ofício ao alcaide, haja vista até aquela data (___________) o
Município não ter tomado qualquer medida concreta na tentativa de, pelo menos, amenizar o problema, ao
que foi respondido (fls.____), entre outros itens, que:
“03. Por conseguinte, tomamos a providência de incluir, no orçamento do exercício de
2001, a dotação para esta finalidade, enviando no prazo legal à Câmara Municipal;”
Em atenção à solicitação feita pela Promotoria de Justiça, o “Conselho Regional de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia do Estado de ________– CREA” remeteu ao órgão do Ministério Público outro
“Laudo Pericial” (fls._____), o qual fora elaborado pelo engenheiro agrônomo _________, onde fez constar
em sua conclusão, verbis:
“O líquido proveniente da decomposição do resíduo orgânico (“chorume”), se acumula
formando uma pequena lagoa, poluindo superficialmente e com certeza poluindo também o
lençol freático, principalmente o Aqüífero Caiuá...O local possui apenas uma cerca que
isola parcialmente a área, não possuindo nenhum tipo de vigilância, o que permite a
presença de catadores, inclusive crianças...”
Tal qual o parecer da EMPAER, o CREA fez algumas recomendações, as quais, salvo melhor juízo,
não foram acolhidas.
A Promotoria de Justiça, em __________, oficiou ao Prefeito Municipal, solicitando a presença do
“ilustre” alcaide, a fim de que pudessem ser discutidas as propostas apresentadas pelos técnicos, bem
como, solicitou que o Município indicasse três áreas possíveis, para que a “Secretaria de Estado do Meio
Ambiente – SEMA”, pudesse escolher uma delas (fls. ____), ao que foi respondido, entre outros itens:
“02. Não será possível a presença do Prefeito, tendo em vista ter recebido o Ofício no dia
______, quando a agenda já se encontrava completamente tomada até o dia_____,
principalmente nesta data, quando tenho compromissos de interesse do Município já
anteriormente assumidos no Estado de_____.” (g.n.)
No item 04 do referido documento, assevera, em suma, que não havia escolhido as áreas solicitadas
pela Promotoria de Justiça.
Consta na ata da reunião do dia __________(fls.___), onde o engenheiro civil da Prefeitura, ________,
o qual estava representando o alcaide, propôs, entre outros que:
“O Prefeito deverá informar sobre a arborização no prazo de 15 (quinze) dias... Quanto à
aquisição de outra área também a SEMA deve aprová-la e deve ter dotação orçamentária
específica o que não ocorre no momento...”
A Promotoria de Justiça oficiou, novamente, o alcaide, no dia________, haja vista até aquela data o
Município não ter tomado as providências no sentido de protocolar junto à SEMA, o competente pedido de
licença para exercer as atividades relacionadas ao lixão (fls.___), o qual, até a presente momento, não foi
respondido.
Às fls. 94 o Prefeito Municipal foi oficiado, a fim de que se manifestasse quanto ao desejo de
consorciar-se com o Município de________, com vistas a construir um aterro sanitário, ao que não foi
respondido, sendo, novamente, oficiado (fls.____), o qual, novamente, não foi respondido.
O assessor técnico, engenheiro ________(fls._____) em sua conclusão técnica, disse que:
“Após a análise dos itens acima, recomendamos que o município, através do Sr. Prefeito
Municipal elabore um Termo de Ajuste de Conduta com a Promotoria de Justiça vinculando
as seguintes atividades:
Projeto técnico para a recuperação da área degradada.
Projeto técnico para a implantação do aterro sanitário.
Às fls.___ a Promotoria de Justiça requisitou informações ao alcaide sobre as providências tomadas
pelo Município, no que tange ao “lixão”, ao que não foi respondido.
Expediu-se notificações ao Chefe da Vigilância Sanitária do Município (fls. ___), assim como, para o
“gerente” de obras do Município (fls._____), tendo comparecido somente este no dia _______, conforme
“Termo de Declarações” (fls.______), acompanhado do assessor jurídico do Município.
O “Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA”, enviou à
Promotoria de Justiça o “Relatório de Vistoria” (fls._____), onde fez constar que no dia ______, a situação
do “lixão” encontrava-se da seguinte forma:
“O lixão está localizado na margem da Av. Pres. Vargas, onde foi constatada a situação
calamitosa...A Prefeitura retira terra do local, rebaixando o solo e fazendo buracos, onde o
lixo vem sendo depositado a céu aberto, sem qualquer cuidado... Plásticos são levados pelo
vento para as áreas adjacentes, podendo provocar a morte por asfixia de animais...
Observou-se a presença de várias pessoas, inclusive crianças... Muitos frascos de produtos
veterinários foram encontrados espalhados pela área... As águas do subsolo, provavelmente
estão sofrendo contaminação direta e constante... ficou evidente a contaminação da água...
A área não está apropriada para disposição final do lixo... A escolha de nova área implica
em executar alguns levantamentos, tais como: profundidade de lençol freático, distância de
mananciais... é um trabalho que deve ser feito com a máxima urgência, para cessar a
degradação ambiental... Quanto a possibilidade de recuperação da área, esta só é possível
se for retirado todo o lixo ali depositado...” (g.n.)
Devidamente notificados o engenheiro ___________, bem como o alcaide, os mesmos não se fizeram
presentes nas datas marcadas, os quais responderam, respectivamente:
“... informo que não poderei comparecer em virtude de compromisso de ordem profissional
assumido anteriormente para esta mesma data na cidade de _______...” (fls.___)
“... impossibilidade em comparecer nesta Promotoria, data de_____, às ____horas, tendo em
vista compromissos oficiais anteriormente agendados em -------- e --------, cujos são
inadiáveis (sic).” (g.n.) (fls. ___)
Insta salientar que o Prefeito Municipal fora notificado no dia _____, vindo, somente, há menos de
24 (vinte e quatro) horas do ato, comunicar que já possuía compromissos “inadiáveis”.
É o relatório.

II – DO MÉRITO

II.1. Do “Lixão”
Consta dos autos do IC _____ que na avenida Presidente Vargas existe um local inadequado para
onde são destinados todos os lixos da cidade de _____________.
Entrementes, não há qualquer “Estudo de Impacto Ambiental – EIA”, realizado pelo Poder Público
Municipal, pelo contrário, existem diversos laudos técnicos condenando o referido local, a ponto de se
fazer necessário a total retirada do lixo, para ser possível a recuperação da área, conforme “Relatório de
Vistoria” do IBAMA (fls. _____).
Neste ponto é oportuno trazer à colação o ensinamento de Édis Milaré, segundo o qual:
“LIXÃO – Forma inadequada de disposição final de resíduos sólidos, que consiste na
descarga do material no solo se qualquer técnica ou medida de controle. Este acúmulo de
lixo traz problemas como a proliferação de vetores de doenças (ratos, baratas, moscas,
mosquitos etc.), a geração de odores desagradáveis e a contaminação do solo e das águas
superficiais e subterrâneas pelo chorume. Além disso, a falta de controle possibilita o
despejo indiscriminado de resíduos perigosos, favorece a atividade de catação e a presença
de animais domésticos (suínos, p. ex.) que se alimentam dos restos ali dispostos.” (in
“Direito do Ambiente”, 2ª edição, editora Revista dos Tribunais, São Paulo, 2001, p. 735).
A definição supracitada demonstra exatamente o que vem ocorrendo na cidade de ____________,
bastando, para tanto, verificar as fotografias acostados aos autos às fls.________.

II.2. Do “Termo de Ajustamento”


Embora o alcaide tenha sido convidado a assinar o “Termo de Ajustamento”, conforme faz prova os
documentos de fls._____, o chefe do Poder Executivo Municipal limitou-se a fazer algumas conclusões
(fls._____), entre as quais, destacamos:
“01... Como está, eventuais prejuízos ao meio ambiente serão ressarcidos pelo Prefeito e não
pelo Município, o que não faz sentido...
02... O fato é que, como está, a assinatura do termo importa confissão, o que não deve
ocorrer por parte do Poder Público, salvo havendo lei autorizadora...
03... Considerando que não houve instrução técnica no inquérito civil, considero razoável a
supressão do parágrafo terceiro, sem sua totalidade, até porque inócuo o parágrafo, haja
vista o fato de que, posteriormente vindo a ser ajuizada ação objetivando ressarcir
eventuais prejuízos ao meio ambiente e sendo ela julgada procedente, decorrerá a
necessidade de indenização sem que exista uma ação principal.” (g.n.)
Prima facie, cabem alguns esclarecimentos, vez que as premissas propostas pelo Prefeito Municipal
não são verdadeiras, logo, pela regra do silogismo, proposições falsas levam à conclusão falsa, senão
vejamos: os prejuízos causados ao meio ambiente poderão ser ressarcidos, seja pelo ente público
Município, seja pelo agente público Prefeito Municipal, independentemente de seu nome constar ou não
no “Termo de Ajustamento”, porquanto, à luz da Constituição Federal de 1988, temos a responsabilidade
objetiva do Estado, vale dizer:
“Art. 37. Omissis.
(...)
§6º. As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços
públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros,
assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa.”
O inquérito civil é presidido e conduzido pelo órgão do Ministério Público, logo, a menos que se
considere o seu representante uma pessoa sem conhecimento técnico-jurídico para instruí-lo, o que seria
um total desrespeito para com a instituição do Ministério Público, bem como uma afronta ao próprio
dispositivo constitucional (art. 127, caput, CF/88), é mister concluir que o aduzido no item 03 das
conclusões do alcaide são palavras sem embasamento jurídico e técnico.
Ad argumentandum, ainda que se considerasse tal argumento direcionado à parte da engenharia,
outra sorte não deve ter o argumento, vez que as conclusões do alcaide vieram aos autos em ______,
porém, nesta data já constava nos autos o parecer técnico do engenheiro agrônomo _________, datado de
_______, logo, de duas, uma, ou o Prefeito Municipal além de julgar incompetente o membro do Ministério
Público, também considerou o engenheiro agrônomo um desconhecedor do assunto, ou, sequer se deu o
trabalho de manusear os autos.
Teria o Prefeito Municipal entendido como entendeu o gerente de obras e serviços do Município, ao
ser questionado se considerava que o laudo da EMPAER fora produzido por um técnico? Ao que respondeu
(fls. ___):
“... que entende, quanto ao conteúdo do documento de fls. ___, o Prefeito Municipal
entendeu que o Engenheiro que subscreveu o laudo supracitado não tinha conhecimentos
suficientes em algumas áreas por exemplo, danos ao meio ambiente...” (g.n.)
Diante de tal celeuma, seria interessante perguntar: Qual a formação do alcaide? Teria ele
conhecimentos melhores do que aqueles produzidos não só pelo engenheiro agrônomo
__________(fls.____), mas, também, pelos engenheiros ____________(fls.___), _____________(fls.____) e pela
engenheira agrícola _________ (fls.___)? Isso, sem considerar a falta de instrução técnica do membro do
Ministério Público para conduzir o inquérito civil, levando a concluir que o disposto no artigo 129, inciso
III, da CF/88, tornou-se letra morta.
Destarte, uma vez demonstrado o dolo ou culpa do alcaide, necessariamente, a responsabilidade
recairá sobre o mesmo, pouco importando se quem assinou o “Termo de Ajustamento” fora o Município ou
o Prefeito Municipal. Tal resultado é uma decorrência do princípio poluidor-pagador, vale dizer, será
responsável pelo ressarcimento do dano a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado que
causar, direta ou indiretamente, atividade causadora de degradação ambiental (art. 3º, inciso IV, Lei n.
6.938/81). Tal argumento demonstra a ausência de boa-fé, bem como a total omissão por parte daquele que
se diz representante da sociedade de __________, pois, em vez de se preocupar com nomes inseridos no
“Termo de Ajustamento”, seria de bom alvitre que, decorrido mais de 01 (um) ano, desde a instauração do
inquérito civil, já tivesse solucionado o problema do “lixão”.

Neste ponto é oportuno trazer à colação o ensinamento do professor italiano Renato Alessi, in verbis:
“La reazione e la responsabilitá dell´amministrazione per il danno cagionato dall
´esplicazione illecita della funzione amministrativa presuppone la giuridica riferibilità all
´ente pubblico dell´atto dannoso.” ( in “Diritto Amministrativo”, II, La Giustizia
Amministrativa, Milano, Dotta Giùffrê - Editore, 1950,p. 45) (“A reação e a responsabilidade
pelo dano causado pela administração, haja vista a explicação ilícita daquele que exerce a
função administrativa, pressupõe a manifestação jurídica para o ente público, em
decorrência do ato danoso.”) (tradução nossa)

II.3. Do princípio da eficiência


O agente público não pode olvidar dos princípios da Administração Público insculpidos no artigo
37, caput, da CF/88, sob pena de fazer da coisa pública um negócio particular, esquecendo-se dos mais
comezinhos conceitos, tais como, o princípio da eficiência, o que não se revelou, por parte do alcaide, até a
presente data, no que tange ao problema do lixão.
Salienta Alexandre de Moraes, verbis;
“O administrador público precisa ser eficiente, ou seja, deve ser aquele que produz o efeito
desejado, que dá bom resultado, exercendo suas atividades sob o manto da igualdade de
todos perante a lei, velando pela objetividade e imparcialidade.” (in “Direito
Constitucional”, 6ª edição, editora Atlas, São Paulo , 1999, p. 297).
Nesse diapasão, preleciona a professora Maria Sylvia Zanella Di Pietro que o princípio da eficiência:
“... impõe ao agente público um modo de atuar que produza resultados favoráveis à
consecução dos fins que cabem ao Estado alcançar...” (in “Direito Administrativo”, 10ª
edição, editora Atlas, São Paulo, 1998, p. 73/74).
É interessante trazer à colação os ensinamentos de Celso Antônio Bandeira de Mello, também no
que tange à concretização do princípio da moralidade administrativa, in verbis:
“De acordo com ele a Administração e seus agentes têm de atuar na conformidade de
princípios éticos. Violá-los implicará violação ao próprio direito, configurando ilicitude que
assujeita a conduta viciada à invalidação, porquanto tal princípio assumiu foros de pauta
jurídica, na conformidade do art. 37 da Constituição.” (“Elementos de Direito
Administrativo”, editora Malheiros, 3ª edição, 1992, p. 61)
As condutas do Prefeito Municipal para com a instituição do Ministério Público demonstraram a sua
intransigência, dificultando a busca de soluções que pudessem vir ao encontro das necessidades da
população, razão pela qual fez-se necessária a propositura da presente ação civil pública.

II. 4. Dos “Laudos Técnicos”


É por demais injustificado e incoerente considerar que os laudos técnicos produzidos por pessoas
da mais alta reputação e qualificação dentro do “Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura- CREA”
não tenham fundamentos, e, ainda, que seus conhecimentos técnicos não sejam suficientes para
proferirem as conclusões e as recomendações constantes dos autos.
Mutatis mutandis, seria o mesmo que afirmar que a máquina administrativa não necessita do Poder
Legislativo e do Poder Judiciário, quiçá do Ministério Público, principalmente, porque sequer teria a
competência para instruir tecnicamente um inquérito civil. Data maxima venia, a entender dessa forma,
melhor seria retornarmos à Idade Média, onde os mais afortunados é quem dirigia seus feudos.
O requerido deve rever seus atos e aproveitar o ensejo para lembrar o pensamento de Platão, verbis:
“... chamei aqui de servidores das leis aqueles que ordinariamente são chamados de
governantes, não por amor a novas denominações, mas porque sustento que desta
qualidade dependa sobretudo a salvação ou a ruína da cidade. De fato, onde a lei está
submetida aos governantes e privada de autoridade, vejo pronta a ruína da cidade; onde, ao
contrário, a lei é senhora dos governantes e os governantes seus escravos, vejo a salvação
da cidade e a acumulação nela de todos os bens que os deuses costumam dar às cidades.”
(Leis, 715d).
Com base nesses princípios e ensinamentos é que foi analisada a conduta do alcaide, afigurando-se-
nos violações a vários princípios constitucionais, cujas correções estão sendo agora solicitadas ao Poder
Judiciário, dado que a repressão a esses abusos e a busca da harmonização das relações sociais só serão
possíveis com a intervenção do Estado-Juiz.

II.5. Da inclusão no orçamento do exercício de 2000


Embora o prefeito municipal tenha asseverado às fls.___ que acabara de tomar conhecimento de que
a Câmara Municipal teria aprovado a proposta orçamentária, verdade é que, salvo melhor juízo, tal dotação
não existe, embora já estejamos já em vias da confecção do orçamento de _______, pois, conforme aduziu o
gerente de obras e serviços do Município às fls. ___, ao ser perguntado se tinha algum conhecimento sobre
a dotação supracitada, respondeu:
“... que não tem conhecimento de que fora incluída no orçamento do exercício de 2001 a
dotação para a finalidade referente a sanar o problema do lixão...”
Haja vista tratar-se de uma prova modificativa, à luz do artigo 333, do Código de Processo Civil,
vem:
“Art. 333. O ônus da prova incumbe;
(...)
II – ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo, ou extintivo do direito do
autor.” (g.n.)
Assim sendo, compete ao requerido provar o aduzido às fls.___, haja vista não se ter
conhecimento até o presente momento da referida dotação, pois se há, resta perguntar porque
não se tomou nenhuma providência para sanar o problema do lixão.
Entrementes, até a presente data, tais provas não foram apresentadas, o que não isentaria a
responsabilidade do chefe do poder executivo municipal, pois, apenas demonstraria um resultado positivo
ou negativo da conduta levada a efeito pelo Município.

II.6. Da recuperação da área degradada


A área onde se localiza o “lixão” está totalmente degradada, resultado das condutas omissivas do
requerido há mais de 01 (um) ano, muito embora tenha sido, constantemente, por parte da instituição do
Ministério Público, buscado uma solução que melhor pudesse atender à sociedade ___________, a qual não
foi levado a efeito graças à intransigência e à agenda do requerido repleta de compromissos inadiáveis.
Entrementes, a solução dos problemas ambientais não pode ficar ao nuto do Prefeito Municipal, na
esperança de algum dia poder compor a pauta do chefe do Poder Executivo Municipal, vez que a inércia
causará, como já vem causando, problemas irreversíveis para a natureza e para a população.
Ressalte-se, conforme lembra o professor Édis Milaré, verbis:
“... a proteção ao meio ambiente não pode mais ser considerada um luxo ou uma utopia,
pois o reconhecimento deste interesse geral permitirá um novo controle de legalidade e
estabelecerá instrumentos aptos a fazer respeitar o novo objetivo do Estado.” (Apud, p. 113)
Por fim, insta salientar que os laudos técnicos foram unânimes em afirmar que a recuperação da área
degradada deve ocorrer o quanto antes.
II.7. Do princípio da boa-fé
Da análise dos autos, constata-se, explicitamente, que houve má-fé por parte do requerido, haja vista
os seus repetitivos e constantes argumentos de que não poderia se fazer presente, mesmo quando fora
notificado para prestar declarações, dificultando com tais atos a busca da verdade real, bem como,
utilizando-se de subterfúgios para não se fazer ouvir no inquérito civil n.______, incorrendo, inclusive, na
conduta tipificada no Código Penal, qual seja, crime de desobediência (art. 330, CP).
As condutas do alcaide, bem como de seus gerentes, demonstraram total desconsideração para com
a instituição do Ministério Público Estadual, via de conseqüência, para com toda a sociedade de _______,
pois, à luz da Constituição Federal, temos que:
“Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do
Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses
sociais e individuais indisponíveis.” (g.n.)
As instituições legalmente constituídas e, principalmente, a sociedade _________, não podem ficar
ao nuto das conveniências e particularidades do agente público, a fortiori, quando eleito pelo sufrágio
universal, como foi o caso do requerido, por conseguinte, é mister que se invoque o princípio da
inafastabilidade do Judiciário, a fim de que se imponha as sanções cabíveis por tais descumprimentos,
principalmente, quando não há embasamento lógico-jurídico para sustentar tantos desmandos, sob pena
da Administração Pública tornar-se uma administração privada, o que estaria indo de encontro ao que
Celso Bandeira de Mello considera como uma das pedras de toque da Administração Pública, vale dizer,
sob pena de afrontar o princípio do interesse público sobre o interesse particular.
O princípio da boa-fé está acima de qualquer ingerência, seja ela política, social ou econômica.
É interessante salientarmos o pensamento de Orlando Gomes, verbis:
“Ao princípio da boa-fé empresta-se ainda outro significado. Para traduzir o interesse social
de segurança das relações jurídicas, diz-se, como está expresso no Código Civil alemão, que
as partes devem agir com lealdade e confiança recíprocas. Numa palavra, devem proceder
com boa-fé.” (In “Contratos”, editora Forense, atualizador: Humberto Theodoro Júnior, 18ª
edição, 1999, p. 42)
A violação ao princípio da boa-fé tornou-se patente, haja vista os subterfúgios utilizados pelo chefe
do poder executivo municipal, consubstanciados pelos constantes ofícios, sempre se utilizando do mesmo
argumento, qual seja, os compromissos inadiáveis.

II.8. Dos atos de improbidade administrativa


O chefe do poder executivo municipal, demonstrou, até o presente momento, o seu total descaso
para com o Ministério Público e, principalmente, para com o meio ambiente, via de conseqüência para
com a saúde pública, haja vista ter decorrido mais de 01 (um) ano e até a presente data não houve nenhum
sinal efetivo de que o Prefeito Municipal estivesse tomando alguma providência no sentido de buscar
soluções ao problema que se nos depara. Muito provavelmente o senhor chefe do poder executivo tenha
muitos afazeres que o impeça, por exemplo, de atender à notificação legal da instituição do Ministério
Público. Seria o problema do lixão um caso de somenos importância? Será que os engenheiros agrônomos
não têm conhecimentos técnicos para que possam afirmar que a área degradada pelo lixão está poluída?
Porém, pelo menos uma coisa é certa, qualquer agente público, esteja sua agenda repleta ou não,
deve saber que:
“Art. 225 (CF/88) Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
(...)
IV – exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora
de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se
dará publicidade;
(...)
§3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.”
Ao compulsar os autos, constata-se que os atos do Prefeito Municipal atentaram contra os princípios
da Administração Pública, vez que suas constantes omissões violaram os deveres de legalidade e lealdade
às instituições e, notadamente, por retardar ou, ainda, por ter deixado de praticar, indevidamente, ato de
ofício (art, 11, inciso II, da Lei n. 8.429/92), não é por outra razão que até a presente data, o Prefeito
Municipal, decorrido mais de 01 (um) ano, jamais se fez presente a qualquer convite e, o que é pior, a
qualquer notificação expedida pela instituição do Ministério Público, demonstrando o seu total descaso.
Insta salientar, ainda, que suas constantes omissões fizeram com que o problema do lixo não fosse
solucionado.
Ousamos afirmar que, certamente, a culpa deverá recair em sua agenda de compromissos inadiáveis.
Cabe, portanto, a seguinte pergunta: Será que o alcaide terá condições de comparecer em juízo, ou será que
aparecerá algum compromisso inadiável, novamente? Resta-nos esperar.
A lei que trata sobre a probidade administrativa prescreve, verbis:
“Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da
administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade,
imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente:
(...)
II – retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício;” (g.n.)
Por fim cabe lembrar que as sanções previstas na “Lei de Improbidade Administrativa” independem
das sanções penais, civis e administrativas (art. 12, Lei nº 8.429/92).
Em nenhuma oportunidade o requerido apresentou alguma resposta razoável, a fim de que fosse
merecedor de credibilidade, pelo contrário, pois, fora notificado no dia _____ (fls. ____) para comparecer
à Promotoria de Justiça no dia ______, entretanto, deixou para responder que não poderia comparecer,
tendo em vista os compromissos oficiais anteriormente agendados e inadiáveis, somente no dia ______,
ou seja, há menos de 24 (vinte e quatro) horas antes de prestar seu depoimento.
E, o que é mais grave, ao fazer referência aos seus compromissos inadiáveis, acrescenta que os
mesmos são oficiais, dando a entender que o seu depoimento no inquérito civil n. _____pudesse ser algo
extra-oficial, demonstrando o seu desdém para com a instituição essencial à função jurisdicional (art. 127,
caput, CF/88).

II.9. Da liminar
É mister que haja a concessão de medida liminar, initio litis, a fim de que o meio-ambiente não
continue sendo alvo da inércia do chefe do poder executivo municipal, vez que a área do depósito de lixo,
conforme os vários pareceres técnicos acostados aos autos, continuará sendo irrecuperável, caso o lixo não
seja retirado daquele local.
Como se não bastasse o prejuízo ambiental, o que configura, inclusive crime ambiental, a população
estará sendo prejudicada, direta ou indiretamente, haja vista a contaminação do lençol freático Caiuá, além
da possibilidade constante de morte dos animais por asfixia.

II.9.1- Fumus boni juris


O pressuposto para a concessão da medida liminar, qual seja, o fumus boni juris está devidamente
caracterizado pelas provas documentais e testemunhais, principalmente, pelas provas técnicas constantes
dos autos.
O direito da sociedade de _______não está no plano da probabilidade, mas sim, no plano da
existência, haja vista a contaminação do meio ambiente, proveniente do depósito de lixo, causando um
problema de saúde pública para a população.
Oportuno trazer à colação o pensamento de Luiz Rodrigues Wambier, verbis:
“A expressão ‘fumus boni iuris’ significa aparência de bom direito, e é correlata às
expressões cognição sumária, não exauriente, incompleta, superficial ou perfunctória.”
(“Curso Avançado de Processo Civil”, Vol. 3, 3ª edição. editora RT,2000, p.28)
De fato, fazendo a subsunção do fato à norma, infere-se que o requerido violou vários princípios
constitucionais, entre os quais, o da legalidade, porquanto já se passou mais de 01 (um) ano, e até a
presente data não foi sequer apresentado um projeto de recuperação da área afetada pelo lixão,
demonstrando o total descaso do Município e do Prefeito para com a sociedade.

II.9.2- Periculum in mora


A população, tendo em vista a continuidade dos atos levados a efeito pelo atual chefe do poder
executivo municipal, vê-se na situação iminente de sofrer danos à saúde, vez que os danos ao meio
ambiente vêm sendo há mais de 01 (um) ano cometidos, sem que, para tanto, houvesse qualquer desejo em
ver solucionado o problema, haja vista os constantes compromissos inadiáveis do Prefeito Municipal, bem
como, de seus gerentes.
Diante da situação periclitante, é mister que o fechamento do referido depósito de lixo seja
decretado liminarmente, sob pena dos danos gerados pela inércia do Município tornarem-se irreversíveis,
ou de difícil a reparação.
Lembra o professor Humberto Theodoro Júnior, verbis:
“Por outro lado, deve-se ter como ‘grave’ todo dano que, uma vez ocorrido, irá importar
supressão total, ou inutilização, senão total, pelo menos de grande monta, do interesse que
se espera venha a prevalecer na solução da lide pendente de julgamento ou composição no
processo principal.” (g.n.) (in “Curso de Direito Processual Civil”, Vol. II, 19ª edição, editora
Forense, 1997, p.373)
Cabe ressaltar que a característica periculum in mora “é significativa da circunstância de que ou a
medida é concedida quando se a pleiteia ou, depois, de nada mais adiantará a sua concessão. O risco da
demora é o risco da ineficácia”31.
Caso não seja deferida a medida liminar, os munícipes continuarão sendo prejudicados e, ainda,
haja vista o comportamento do chefe do poder executivo municipal, demonstrado pelo total descaso para
com a instituição do Ministério Público Estadual, a população de __________ ver-se-á na necessidade de
deixar seus lares, sob pena de virem a sofrer os danos causados pelo “lixão”.

III – DOS PEDIDOS

31 “Curso Avançado de Processo Civil”, Vol. 3, 3ª edição, editora RT, 2000, p.28.
Ante o exposto, o membro do Ministério Público infra-assinado pede:

1) LIMINARMENTE, que seja retirado todo o lixo situado na avenida____________, conhecido como
“lixão”, destinando-o para outro local previamente autorizado pela “Secretaria de Estado do
Meio Ambiente – SEMA”, devendo, o Município, para tanto, apresentar o “Estudo de Impacto
Ambiental – EIA” e o “Relatório de Impacto ao Meio Ambiente – RIMA” no prazo de 15
(quinze) dias;
2) LIMINARMENTE, que seja determinado ao Município que destine um local para a coleta de
recipientes vazios de agrotóxicos, a fim de que os mesmos sejam enviados, a posteriori, às
empresas produtoras dos respectivos produtos, a exemplo do vem acontecendo em outros
Municípios de ________, conforme revelado por ocasião da audiência pública realizada no
CREA na cidade de ___________;
3) que o Prefeito Municipal comprove, através de provas documentais a razão pela qual não se fez
presente na Promotoria de Justiça nos dias: _______e ________, bem como, porque deixou de
enviar a informações requisitadas acerca do andamento das providências tomadas pelo
Município (fls._____);
4) que sejam juntadas aos autos cópias autenticadas do pedido de licença para utilizar a área do
“lixão”, devidamente protocolada junto à “Secretaria Estadual do Meio Ambiente – SEMA”;
5) que sejam remetidas cópias dos autos à “Secretaria de Estado do Meio Ambiente – SEMA”, à
Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de _________e à Câmara de Vereadores para que
sejam tomadas as medidas cabíveis, haja vista a necessidade de apurar a ocorrência de
infrações administrativas e penais do Prefeito Municipal da cidade de_________, com fulcro
no disposto no Capítulo VI da Lei n. 9605/98, Lei Complementar n. ______e no Decreto-lei n.
201/67;
6) que seja elaborado projeto técnico para a recuperação da área degradada, bem como projeto
técnico para a implantação do aterro sanitário, conforme conclusão do engenheiro
_________(fls.____), o qual deverá ser confeccionado dentro de 30 (trinta) dias;
7) que seja colocado um vigia 24 (vinte e quatro) horas, todos os dias da semana, no local destinado
ao depósito de lixo;
8) que seja retirado todo o lixo depositado no atual “lixão”, haja vista a recuperação da área só ser
possível após sua retirada, conforme parecer técnico do IBAMA (fls.____);
9) que apresente cópia autenticada que comprove ter incluído no orçamento do exercício de 2001 a
dotação para as despesas destinadas ao lixão, bem como da Lei Municipal referenda às
fls.____;
10) sejam aplicadas as disposições da “Lei de Improbidade Administrativa” (Lei n. 8.429/92), haja
vista o prescrito nos artigos 4º; 11, caput, inciso II; 12, inciso III;
11) que sejam remetidas cópias ao “Tribunal de Contas” do Estado, a fim de que tomem as
medidas que se fizerem necessárias;
12) a condenação dos réus ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios,
estes a serem recolhidos ao Fundo Estadual de Manutenção e Desenvolvimento do Ministério
Público, criado por Lei Estadual;
13) sem prejuízo da responsabilidade penal por possível prática de crime de desobediência, requer,
ainda, que seja fixada, em sentença, nos termos do artigo 11, da Lei n.º 7347/85, a multa no
valor correspondente a 1.000 (mil) UFERMS, para cada descumprimento judicial que o
Município vier a praticar, sendo que os valores daí advindos devem ser recolhidos ao Fundo
Estadual de Defesa do Meio Ambiente– FEDMA;
14) que sejam remetidas cópias autenticadas da “Lei de Diretrizes Orçamentárias” do ano de ______;
julgue procedentes todos os pedidos.

IV – DOS REQUERIMENTOS

E, ainda, requer o seguinte:

a) a citação do Município de ________, na pessoa do chefe do Poder Executivo, com a autorização


contida no artigo 172, §2º, do Código de Processo Civil, para, querendo, contestar a presente
demanda, sob pena de revelia e confissão quanto à matéria de fato;
b) a dispensa do pagamento de custas, emolumentos e outros encargos, à vista do disposto nos
artigos 18, da Lei 7.347/85;
c) a intimação do membro do Ministério Público, com a entrega dos autos, haja vista o disposto no
art. 105, inciso IV, da Lei Complementar n.º__(Lei Orgânica do Ministério Público do Estado
de _______);
d) a juntada do inquérito civil n.º_____, concluído por esta Promotoria de Justiça do Consumidor,
como prova documental em desfavor do Município de _____;

Dá-se ao valor da causa R$ _____(______) somente para efeitos fiscais.

Protesta provar o alegado pelos meios de prova em direito admitidos, juntada de novos documentos,
oitiva das testemunhas inframencionadas.

Nestes Termos
Pede deferimento.

__________, ___de ________de______..

Promotor de Justiça

Rol de Testemunhas:
1.
2.
ALEGAÇÕES FINAIS POR INFRINGÊNCIA AO ART. 1º, INCISO V E XII, DO DECRETO-LEI Nº 201/67 E
ARTIGO 92 DA LEI N. 8.666/93

Autos n._____________________
Autor: ______________________
Réu: _______________________

ALEGAÇÕES FINAIS
O órgão do MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL, por sua Promotora de Justiça, vem, perante Vossa
Excelência, apresentar ALEGAÇÕES FINAIS aduzindo, para tanto, o seguinte:
Tratam os autos de ação penal pública, figurando como ré ______________, ex-prefeita municipal,
sendo-lhe imputados os crimes previstos nos incisos V (ordenar ou efetuar despesas não autorizadas por
lei, ou realizá-las em desacordo com as normas financeiras pertinentes) e XII (antecipar ou inverter a
ordem de pagamento a credores do Município, sem vantagem para o erário), ambos do art.1º do Decreto-
Lei 201, de 27 de Fevereiro de 1967, e, ainda, o crime tipificado no artigo 92 da lei 8.666/93 (admitir,
possibilitar ou dar causa a qualquer modificação ou vantagem, inclusive prorrogação contratual, em favor
do adjudicatário, durante a execução dos contratos celebrados com o Poder Público, sem autorização em
lei, no ato convocatório da licitação ou nos respectivos instrumentos contratuais, ou, ainda, pagar fatura
com preterição da ordem cronológica de sua exigibilidade), e do artigo 359-C do Código Penal.
O órgão do Ministério Público Estadual juntou documentos às fls. 09/262.
A denunciada, preliminarmente, argüiu “inépcia” da denúncia (fls.______) e, no mérito, aduziu que,
se alguma coisa ocorreu, fora uma mera irregularidade (fls.____). Juntou documentos às fls._____.
Houve o recebimento da denúncia às fls.____, por conseguinte, procedeu-se ao interrogatório da
denunciada às fls.____.
É o sucinto relatório.

I - FUNDAMENTAÇÃO
Da análise dos autos, infere-se que o Município de _______, por meio da chefe do poder executivo
municipal à época, celebrou convênio com a “____________”, com a finalidade de pagar os plantões
médicos e prestar o atendimento da saúde da comunidade de ___________.
No referido convênio, estipularam-se as dotações que garantiriam as despesas efetuadas.
Outrossim, não houve cumprimento do convênio pela municipalidade, vez que somente foram
empenhados e pagos, em favor da ______________, os valores de R$ ___________(_________) e o contrato
estipulava que seriam repassados ____ (_____) parcelas de R$ __________(_____________), totalizando R$
__________(___________).
Do total de R$ __________contratados, não foram empenhados e nem pagos a diferença de R$
__________(_____________).
Insta salientar que a responsabilidade da ré sobre o prejuízo gerado à Municipalidade é manifesto
e a sociedade não pode ficar ao alvedrio de agentes públicos, que passam a dispor do dinheiro público
como se seu fosse, infringindo princípios da Administração Pública como, por exemplo, da legalidade.
O princípio da legalidade é essencial ao Estado de Direito e, principalmente, ao Estado Democrático
de Direito, constituindo, assim, vetor basilar do regime jurídico-administrativo.
É oportuno destacar que se permite a atuação do agente público, ou da Administração Pública,
apenas se concedida ou deferida por norma legal, não se admitindo qualquer atuação que não contenha
prévia e expressa permissão legal.

O cidadão, a fortiori, o administrador da coisa pública deve respeitar, entre outros princípios, o da
supremacia do interesse público sobre o privado, pois:
“O homem público não pode deixar que interesses particulares se sobreponham ao interesse
público, logo, deve em seus atos revelar a verdade real, nem que tenha para isso deixar de
lado sua posição pessoal, porquanto, diferentemente do que ocorre com a Administração
Privada, onde se pode fazer tudo que a lei não proíba, na Administração Pública só se pode
fazer o que a lei determina.”32
Não é despiciendo dizer que violar princípios, sejam eles explícitos ou implícitos, é buscar a
bancarrota de qualquer Estado que se diz de “Direito”.
Nesse diapasão, temos o ensinamento do professor Celso Antônio Bandeira de Mello, segundo o
qual:
“Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma. A desatenção ao
princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o
sistema de comandos”.33
Entre outros princípios a que se devem submeter os agentes públicos, cabe ressaltar aqueles
dispostos no artigo 37, caput, da Constituição Federal de 1988, quais sejam, legalidade, impessoalidade,
moralidade, publicidade e eficiência.
Observa Luciano Ferreira Leite que “o primeiro direito do administrador frente à Administração,
consiste, portanto, na garantia de legalidade do comportamento administrativo e na aderência desse
mesmo comportamento ao interesse público, hipoteticamente descrito na norma”. 34
Por fim, não se pode conceber que agentes públicos desconheçam seus deveres e obrigações,
porquanto o agente público só pode atuar secundum legem, vale dizer, só poderá fazer ou deixar de fazer
alguma coisa quando a lei autorizar, pois, na Administração Pública não há liberdade nem vontade
pessoal.35

I.1 – Do artigo 1º, inciso V do Decreto-lei n. 201/67


Delineia o artigo 1º, inciso V do Decreto-lei n. 201/67, verbis:
“Art. 1º São crimes de responsabilidade dos prefeitos municipais, sujeitos ao julgamento do
Poder Judiciário, independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores:
(...)
V – ordenar ou efetuar despesas não autorizadas por lei, ou realizá-las em desacordo com as
normas financeiras pertinentes:”
A denunciada aduz que atendeu aos ditames da Lei Municipal n._____, segundo a qual o Poder
Executivo poderia conceder auxílios e subvenções sociais à____________, até o valor de R$________
(_____________) mensais (fls.____).
Analisando a Lei Municipal n. _____(fls._____), verificamos que o seu fim foi a autorização de
concessões de auxílios e subvenções sociais, cujo teto fora de R$____________/mês.
Ocorre que analisando a Lei Municipal n. ______(fls.___), que fixou o orçamento do Município de
______para o ano de____, verifica-se que foram destinados à Secretaria Municipal de Saúde e de Promoção
Social, respectivamente, R$ ___________ e R$________, logo, a denunciada deveria atender ao estipulado
na Lei n.____, tendo em conta a norma financeira por ela mesma sancionada, qual seja, Lei Municipal
n.______, que fixou a despesa do Município de ______ para o exercício financeiro de _____. Ademais, o
pagamento à _____ao final de 12 (doze) meses sequer ultrapassaria a metade do somatório dos valores que
a lei orçamentária havia destinado àquelas secretarias, vez que totalizaria R$___________x 12 meses =
R$__________.

32 D´ANGELO, Élcio e Suzi D´Angelo. In “O Princípio da Probidade Administrativa e a Atuação do Ministério Público”, 2ª edição,
editora LZN, Campinas/SP, 2004, p. 13.
33 Curso de Direito Administrativo. Editora Malheiros, 5ª edição, 1994, p.451.
34 Discricionariedade Administrativa e Controle Judicial. Editora RT, 1981, p. 35.
35 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. Editora Saraiva, São Paulo, 1997, p. 82.
Com efeito, a denunciada, uma vez que não atendeu ao prescrito na Lei n.______, realizou despesas
outras que não as que deveriam realizá-las, via de conseqüência, agiu em desacordo com as normas
financeiras pertinentes, qual seja a Lei Municipal n._______.
A própria denunciada reconhece ter agido em desacordo com a Lei Municipal n.______, porém,
alega tratar-se de mera irregularidade. Vejamos o aduzido, quando de sua defesa prévia, verbis:
“Portanto, o convênio juntado às f. _____estão dentro das normas e se não foi cumprido,
ocorreu uma mera irregularidade que não constitui, em tese, crime previsto no art. 1º, inciso
V, do Decreto Lei 201/67, passível de ação penal.” (g.n.) (fls.____).
Sendo a denunciada a gestora do erário público e existindo uma norma que delimitava a destinação
do orçamento público municipal, não poderia a mesma desatender, sem motivo justificável, o estipulado
pelas Leis Municipais nº______. _____e ______.
Outrossim, da análise dos recibos emitidos pelos profissionais da área da saúde, observa-se a
constância de repasses parciais da Prefeitura Municipal aos mesmos, como, por exemplo, os acostados às
fls._______, entre outros, revelando, assim, que, de fato, não houve o pagamento integral do devido,
embora houvesse previsão na lei orçamentária.
É oportuno, também, trazer a lume as seguintes declarações:
“...” (Declarações de _______às fls. ____).
“...” (Declarações de _______às fls.____).
Destarte, se havia previsão orçamentária para o cumprimento dos compromissos assumidos pela
Prefeitura Municipal, na pessoa da denunciada, logo, concessa venia, admitir que a falta dos pagamentos
devidos é mera irregularidade é aceitar que o administrador público poder fazer tudo o que a lei não prevê,
de acordo com a sua livre e espontânea vontade.

I.2 – Do artigo 1º, inciso XII, do Decreto-lei n. 201/67


Prescreve o artigo 1º, inciso V do Decreto-lei n. 201/67, verbis:
“Art. 1º São crimes de responsabilidade dos prefeitos municipais, sujeitos ao julgamento do
Poder Judiciário, independentemente do pronunciamento da Câmara dos Vereadores:
(...)
XII – antecipar ou inverter a ordem de pagamento a credores do Município, sem vantagem
para o erário:”
A denunciada, em sua defesa prévia, aduziu o seguinte:
“...” (fls.____)
Verifica-se que a denunciada, conforme aduzido acima, de fato, anulou empenhos do exercício de
_______, conforme faz prova os documentos acostados às fls.____________.
A Administração Pública, realmente, pode anular seus contratos administrativos, porém, deverá
fazê-lo de forma excepcional e fundamentada, caso contrário, ofenderá, como ocorreu in casu, o princípio
da boa-fé, pois, se a cada mudança de “ventos” a denunciada adotava determinado comportamento,
necessariamente, não haveria como qualquer ente público ou privado estabelecer qualquer espécie de
contrato sob a administração pública da denunciada.
Ainda, com referência ao princípio da boa-fé, urge salientar o magistério do professor Ivo Dantas 36,
qual seja:
“... o Princípio da Boa-Fé não poderá ser, sob nenhuma hipótese, desconhecido, mesmo que se
argumente que a situação concreta é de direito público...”
No que tange à anulação, temos o magistério do saudoso Hely Lopes Meirelles 37, verbis:

36 In “Direito Adquirido, Emendas Constitucionais e Controle da Constitucionalidade”, 3ª edição, editora Renovar, Rio de Janeiro,
2004, p. 76.
37 In “Direito Administrativo Brasileiro”, 25ª edição, editora Malheiros, São Paulo, 2000, p. 221.
“Anulação: a extinção do contrato pela anulação é também forma excepcional e só pode ser
declarada quando se verificar ilegalidade na sua formalização ou em cláusula essencial. (...) A
extinção unilateral do contrato ilegal, sempre precedida de procedimento regular e com
oportunidade de defesa, só é admissível nos ajustes tipicamente administrativos, não o sendo
nos de Direito Privado celebrados pela Administração (compra e venda, doação e outros), cuja
nulidade só pode se declarada por via judicial em que se demonstre o vício que os invalida.”
Por conta de atos como estes é que, infelizmente, insistimos em dizer que:
“A realidade brasileira tem demonstrado que o agente público, sob o argumento de estar
atendendo aos anseios da sociedade, vem praticando atos administrativos de forma diversa
daquela prevista na regra de competência, vale dizer, está determinando a execução de ato não
permitido por lei, utilizando-se, para tanto, a afirmação falaciosa de que a lei não previa a sua
proibição.”38
Data maxima venia, invocar a Lei de Responsabilidade Fiscal, naquele momento, para subsidiar os
atos contrários à norma prescrita no artigo 1º, inciso XII, do Decreto-lei n. 201/67, é tentar buscar
absolvições às custas da sociedade de_______, pois aquela lei não veio a lume para prejudicar o
administrador probo e, sim, para desmascarar as artimanhas perpetradas pelos administradores ímprobos.

I.3 – Do artigo 92 da Lei n. 8.666/93


O artigo 92 da Lei n. 8.666/93 (Lei de Licitações e Contratos da Administração Pública) prescreve o
seguinte:
“Admitir, possibilitar ou dar causa a qualquer modificação ou vantagem, inclusive prorrogação
contratual, em favor do adjudicatário, durante a execução dos contratos celebrados com o
Poder Público, sem autorização em lei, no ato convocatório da licitação ou nos respectivos
instrumentos contratuais, ou, ainda, pagar fatura com preterição da ordem cronológica de sua
exigibilidade, observado o disposto no art. 121 desta lei:”
Conforme asseveramos às fls. ___, a denunciada pagou os salários de ______e __________, mas
deixou de pagar o de__________, invertendo, assim, a ordem cronológica de sua exigibilidade.
A denunciada, novamente, invocando argumentos que, talvez, pudessem lhe dar guarida caso
estivesse em defesa de seu patrimônio particular, tenta justificar a inversão dos pagamentos aduzindo,
para tanto, o seguinte:
“...” (fls.____).
Com este pensamento, em suma, a denunciada está a dizer que “perdido por um, perdido por dois,
perdido por mais, tanto faz, o que interessa é que já está perdido mesmo”. Entrementes, olvida-se a
denunciada que salários/vencimentos devem ser protegidos, a fim de evitar qualquer tipo de ingerências e
vontades externas, como ocorreu no caso que ora se nos afigura, pois, conforme preceitua a Constituição
Federal de 1988, temos que:
“Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria
de sua condição social:
(...)
X – proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa;”
O não pagamento do salário do mês de setembro/____sem qualquer justificativa plausível, tanto o é
que a denunciada determinou o pagamento dos salários dos meses de outubro e novembro/____, portanto,
se havia condições de pagar aos prestadores de serviços ao Município, por conseguinte, se não pagou o
salário de ______/2000 é porque, de forma intencional, não o quis.

I.4 – Do artigo 359-C do Código Penal


O artigo 359-C, do Código Penal, de fato, fora acrescentado pela Lei n. 10.028, de 19 de outubro de
2000, logo, pelo princípio da legalidade, assiste razão à denunciada no que tange ao crime tipificado no

38 D´ANGELO, Élcio e Suzi D´Angelo. In “O Princípio da Probidade Administrativa e a Atuação do Ministério Público”, 2ª edição,
editora LZN, Campinas/SP, 2004, p. 68.
referido artigo, porquanto o mesmo não poderia subsumir-se à conduta anterior descrita pela denunciada,
vez que, à luz do Código Penal, temos:
“Art. 1º. Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal.”
Outrossim, não podemos olvidar a norma constitucional que consubstancia a irretroatividade da lei
penal in pejus, senão vejamos:
“Art. 5º. Omissis:
(...)
XL – a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu;”
Destarte, se a denunciada assumiu obrigação no último ano do seu mandato, precisamente no dia
_________(fls._____) e, uma vez que o mandato se findou no mês de dezembro, por conseguinte, é forçoso
concluir que a denunciada não cometeu o crime tipificado no artigo 359-C, do Código Penal.

II - CONCLUSÃO
Ante o exposto, o órgão do Ministério Público Estadual requer a condenação da ré _________como
incursa nas penas do art. 1º, inciso V e XII, do Decreto-lei nº 201/67 e artigo 92 da Lei n. 8.666/93, porém,
requer-se a absolvição da mesma no que tange ao tipo prescrito no artigo 359-C, do Código Penal, nos
termos da fundamentação retro.

_________, ___de _________de_______.

Promotor de Justiça
RAZÕES DE AGRAVO DE INSTRUMENTO EM FACE DE PREFEITO MUNICIPAL

Autos de “Pedido de Suspensão de Liminar” n. ____________


AGRAVANTE: ______________________
AGRAVADO: Município de ____________

EGRÉGIA TURMA RECURSAL


O órgão do Ministério Público Estadual, por seu Promotor de Justiça infra-assinado, no uso de suas
atribuições legais, e com fundamento no artigo 12, §1º, in fine, da Lei n. 7.347/85, bem como com
supedâneo nos elementos fáticos, técnicos e jurídicos colhidos nos autos da Ação Civil Pública n. ______,
que foi proposta pela Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, interpõe o presente

RECURSO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO


haja vista a decisão proferida pelo presidente do Tribunal de Justiça, o qual deferiu o “pedido
formulado na inicial, ordenando a suspensão da eficácia do ato invectivado, constante dos autos da Ação
Civil Pública _____”, conforme cópia em anexo (fls. ____).

I. DOS FATOS
No dia ______ esta Promotoria de Justiça do Meio Ambiente instaurou, através da Portaria n.º _____
(fls.____), o inquérito civil - IC n. _____, com a finalidade de se apurar os responsáveis pelos danos
causados ao meio ambiente, haja vista as erosões na estrada vicinal, localizada no final da linha
do__________, km____, cujo mapa segue em anexo (está hachuriado).
A Promotoria de Justiça encaminhou ofício ao geógrafo do Município (fls.___), onde foi requisitado,
no prazo de 15 (quinze) dias, “Parecer Técnico” sobre o objeto do IC____, sendo respondido pelo prefeito
municipal (fls.___), o qual aduziu, em suma, que estaria designando uma comissão técnica, constituída
pelo Dr.______, engenheiro agrônomo; Dr. ___________e pelo referido Sr.____, geógrafo e agrimensor, todos
da Gerência de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Município, acrescentando que o
“aludido travessão não faz parte do sistema viário do Município”, porém não fez prova do aduzido quando
de sua contestação da ação civil pública.
Foram notificados para comparecer à Promotoria de Justiça, no dia _________, as seguintes pessoas:
________(fls.___); ______________________(fls.____);______________________(fls.____) e, ainda, convidados:
o representante da “Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA” (fls.____); o
geólogo______________ (fls.___);____________, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Cultura e
Turismo (fls.____); o comandante da Polícia Ambiental da cidade de___________, Tenente
_______(fls.______).
Às fls. ____fora anexado o “Parecer Técnico” da comissão municipal, onde o alcaide julgou oportuno
salientar entre outros “julgamentos” que:
“3. Tal degradação, exatamente idêntica ao que ocorre, nos dias atuais, em todo o território do
Município, é causada exclusivamente pelos proprietários Rurais...
5. O Tal “travessão” citado, nunca fez parte da rede viária do Município... Todos os
reclamantes, porventura residentes na linha _________, tem esta devidamente mantida e
conservada pela Prefeitura, que, inclusive mantém ônibus diário por ali (sic), no transporte de
Estudantes.
6... a Prefeitura foi a luta... adquiriu possantes tratores com moderno terraceador para
construir curvas de nível, oferece serviços técnicos inteiramente as expensas do erário
Municipal”. (g.n.)
O chefe substituto do IBAMA-______, encaminhou o relatório providenciado pelo técnico do IBAMA
(fls. 56/62), cuja conclusão fora a seguinte:
“Considerando que a causa dos danos ambientais verificados no local, tem origem na falta de
manutenção do trecho da estrada, de responsabilidade da Prefeitura Municipal de_______,
sugerimos que a mesma seja responsabilizada e notificada por tais danos.” (g.n.)
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Cultura e Turismo, através do engenheiro agrônomo,
________, encaminhou “Relatório de Vistoria” (fls._______), cuja conclusão fora a seguinte:
“O processo erosivo está configurado como voçoroca, e precisa de soluções imediatas,
principalmente em virtude da proximidade do período de chuvas intensas que poderão
ocasionar ainda maiores danos ambientais.
A participação de todos os envolvidos faz-se necessário...” (g.n.)
No dia _______houve a audiência para tratar do referido objeto do inquérito civil, onde se fizeram
presentes as seguintes pessoas:_______________;________________, cuja conclusão fora a seguinte
(fls._____):
“...”
Assim sendo, ao término da audiência, todos assinaram o referido termo.
O chefe do poder executivo municipal encaminhou ofício a esta Promotoria de Justiça (fls.____),
aduzindo, entre outros argumentos:
“13 - Por outro lado, a presença na audiência, da ilustre Vice Prefeita do município, se
constitui em simples gentileza, tendo em vista que o Prefeito se encontrava no Estado
do_______, tratando de compromissos anteriores da área de Saúde...” (g.n.)
Entrementes, em sua contestação (cópia em anexo – fls. ____) reconhece, contrariando o aduzido às
fls.____, que o referido “Termo de Audiência” (cópia em anexo – fls. ____) traduz um “Termo de
Ajustamento de Conduta”.
Destarte, diante de tais provas documentais, técnicas e, ainda, haja vista o reconhecimento de que as
máquinas deveriam estar trabalhando dentro do prazo estipulado no referido “Termo de Ajustamento”, e,
diante da inércia do Município em ver resolvido o problema ambiental causado, entre outros motivos, pela
sua omissão, fez-se necessária a propositura da Ação Civil Pública n._______.

II – FUNDAMENTAÇÃO

II.1. PRELIMNARES DE MÉRITO

II.1.1. Da falta de pressuposto processual


Muito embora o conhecimento e procedência do pedido de suspensão de liminar n. __________tenha
sido fundamentado com fulcro no artigo 12, §1º, da Lei 7.347/85, sob o argumento de grave lesão à ordem,
prima facie, tal suspensão só poderia ser conhecida em sede de recurso, haja vista o disposto no próprio
artigo supracitado, senão vejamos:
“Art. 12. Omissis:
§1º. A requerimento de pessoa jurídica de direito público interessada, e para evitar grave lesão
à ordem, à saúde, a segurança e à economia pública, poderá o Presidente do Tribunal a que
competir o conhecimento do respectivo RECURSO suspender a execução da liminar...” (g.n.)
Assim sendo, tal pedido deveria ser conhecido somente se fosse interposto o devido recurso,
lembrando que neste caso dever-se-ia requerer e não pedir, conforme prescreve a norma supracitada, o que
não ocorreu in casu, conforme o próprio julgador reconheceu em sua decisão, caso contrário não teria
asseverado, verbis:
“... aprecio a questão sem analisar o aspecto da juridicidade da decisão ora atacada, cuja
possibilidade somente se vislumbra em sede de recurso de agravo.” (g.n.) (fls. ____)
Ficou patenteado o recebimento do pedido como uma petição inicial, haja vista o MM.
Desembargador ter feito constar no dispositivo que:
“... defiro o pedido formulado na inicial...”
É consabido que o Tribunal de Justiça possui competência originária para julgar determinadas ações,
entrementes, tal pedido não se encontra nesse referido rol, pois, somente poderia ser conhecido, caso o
peticionário interpusesse o recurso devido.
Daí a razão do pedido não poder ser conhecido, vez que o peticionário não se utilizou da medida
processual cabível.
Destarte, é mister que o pedido de suspensão de medida liminar não seja conhecido por falta de
pressuposto processual de validade.

I.2. Da falta de fundamentação


Não se pode olvidar de que a ausência de fundamentação no julgamento do Poder Judiciário
ensejará a nulidade, haja vista o disposto no artigo 93, inciso IX, da Constituição Federal.
Da análise do decisum constata-se que o eminente juízo ad quem fez constar, verbis:
“... uma vez que o Executivo Municipal não pode ser compelido a promover o conserto de
uma estrada vicinal, deteriorada pelo processo de erosão, que não é sequer municipal...” (fls.­
_____)
Entrementes, salvo melhor juízo, o agravado não fez provas nos autos de que o travessão da
linha_______, não fizesse parte do Município, mesmo porque não poderia demonstrar tal argumento, vez
que o referido travessão faz parte do Município de_________, conforme faz prova o mapa da cidade em
anexo.
A falta de fundamentação neste ponto torna-se patente, vez que a decisão do juízo ad quem se
baseou em informação, mas não em provas, senão vejamos:
“Se tal não bastasse, há a informação de que a estrada onde a obra deve ser executada não
pertence ao município.” (fls. ____)
Muito embora o Estado-Juiz possa utilizar-se do princípio da persuasão racional, entretanto, a
informação de que a estrada onde a obra deve ser executada não pertence ao município, data maxima
venia, é inconsistente para fundamentar uma decisão judicial.
É oportuno trazer à colação os ensinamentos dos professores Antônio Carlos de Araújo Cintra, Ada
Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco, verbis:
“Princípio da persuasão racional do juiz – Tal princípio regula a apreciação e a avaliação
das provas existentes nos autos, indicando que o juiz deve formar livremente sua convicção.
(...)
Essa liberdade de convicção, porém, não equivale à sua formação arbitrária: o
convencimento deve ser motivado ( Const. , art. 93, inc. IX; CPP, art. 381, inc. III; CPC, arts.
131, 165 e 458, inc. II), não podendo o juiz desprezar as regras legais porventura existentes
(CPC, art. 334, inc. IV; CPP, arts. 158 e 167) e as máximas de experiência (CPC, art. 335).”
(g.n.) (In “Teoria Geral do Processo”, 12ª edição, editora Malheiros, São Paulo, 1996, p.
67/68).

A liminar concedida pelo minucioso juiz singular fora dada com espeque nas referidas normas,
mesmo porque teve a oportunidade de apreciar todas as provas produzidas nos autos, as quais, certamente,
não foram levadas ao conhecimento do juízo ad quem pelo agravado.
Portanto, o argumento do agravado, de forma isolada, não possui guarida para dar subsídio ao
julgador, faltando, por isso, fundamentação.
Ademais, à luz do Código de Processo Civil, é cediço que:
“Art. 333. O ônus da prova incumbe:
(...)
II – ao réu (in casu, o peticionário, ora agravado) quanto à existência de fato impeditivo,
modificativo ou extintivo do direito do autor.” ( observação e grifo nosso).
Outrossim:
“Incumbe à parte diligenciar a juntada da prova, quando a mesma se encontra em seus
próprios arquivos.” (JTA 98/269)
O Município de___________, certamente, possui o mapa da cidade, então resta a pergunta: Porque
não juntou nos autos da Ação Civil Pública o referido documento, pelo contrário, reconheceu ser o
travessão, como, de fato, o é, haja vista o mapa juntado em anexo pelo agravante, fazer parte do Município,
não fosse assim, não teria reconhecido o documento de fls. _____como um termo de ajustamento, em cujo
bojo consta que os trabalhos contra a erosão devem ser concomitantes, vale dizer, entre os proprietários
das fazendas limítrofes à estrada e o Município e, não, de forma isolada, sob pena dos problemas
ambientais continuarem ad perpetuam, bastando, para tanto, analisar os pareceres técnicos elaborados
pelos engenheiros do “Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis –
IBAMA” e da “Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Cultura e Turismo do Estado de
________________”.

II.2. DO MÉRITO
Pelo princípio da eventualidade ou da preclusão, caso as preliminares não sejam conhecidas, é
mister que adentremos no mérito.

II.2.1. Do “Termo de Ajustamento de Conduta”


Embora o alcaide tenha se referido ao acordo celebrado no dia ___________ como um simples ato de
gentileza da vice-prefeita, eis que em sua contestação à ação civil pública n. ______reconhece que o
mesmo traduz um “Termo de Ajustamento de Conduta”, senão vejamos:
“... não há dúvida de que, por disposição legal e entendimento doutrinário, o documento
acostado aos autos, às folhas_____, é um título executivo extrajudicial.” (g.n.)
Tal reconhecimento vem corroborar o entendimento de que o Poder Executivo Municipal
desconsiderou o acordo, fato que está gerando prejuízos irreversíveis ao meio ambiente, haja vista a
omissão e inércia da Administração Pública Municipal.
Não é despiciendo lembrar que o “Termo de Ajustamento de Conduta” possui, entre outras
características, a de ensejar execução de obrigação de fazer, a qual está consubstanciada na colocação de
máquinas da sociedade de_________, que estão, momentaneamente, sob a administração pública do atual
representante do Poder Executivo Municipal, haja vista que o mesmo fora eleito, inclusive por aqueles que
se fizeram presentes no dia em que fora assinado o referido termo.
No que tange ao meio ambiente, a Constituição Federal de 1988, prescreve:
“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” (g.n.)
O meio ambiente não pode ficar ao alvitre da inércia e omissão do chefe do Poder Executivo
Municipal, vale dizer, deixando arrastar o problema ad perpetuam, esperando que outros administradores
tomem a iniciativa que ao atual compete.
Neste ponto, é oportuno trazer a lume os ensinamentos do professor Édis Milaré, verbis:
“De acordo com o senso comum, a sociedade humana não se limita às nossas pessoas
(gerações presentes) nem termina em nossos dias (gerações futuras). Somos responsáveis
pela propagação da espécie, não somente sob o ponto de vista biológico mas, ainda, sob
outros pontos de vista (histórico, cultural, econômico etc.).” (In “Direito do Ambiente”,
editora Revista dos Tribunais, 2ª edição, São Paulo, 2000,p. 123).
Destarte, é melhor para a sociedade ___________ que a mesma seja retribuída com o mínimo de
trabalho advindo do poder público municipal, o qual está inerte há muito tempo, sob pena do meio
ambiente jamais ser recuperado.
II.2.2. Do princípio da impessoalidade
Ao contrário do afirmado pelo alcaide (cópia em anexo – fls.____), e bem como pelo nobre
magistrado (fls._____), o Ministério Público não deseja afrontar o princípio da impessoalidade, mesmo
porque, conforme preceitua a Constituição Federal de 1988:
“Art. 127. O Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do
Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses
sociais e individuais indisponíveis.” (g.n.)
Assim sendo, não se está defendendo interesses particulares, porquanto o meio ambiente é um
interesse de toda a sociedade de_________, porque não dizer, de toda a humanidade, devendo constar,
inclusive, no rol das gentilezas do Poder Executivo Municipal.
Outrossim, insta salientar que a instituição do Ministério Público, possui, entre outras funções
institucionais, conforme preceitua a Constituição Federal de 1988:
“Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:
(...)
II – zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos
direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia;”
Portanto, deflui que a ação civil pública proposta pelo Ministério Público visa tão-somente defender
e preservar o meio ambiente (art. 225, CF/88), e, não, para atender à vontade do autor da ação, vez que
compete a esta instituição a defesa dos interesses metaindividuais, logo, diametralmente oposto ao
asseverado às fls. ____, verbis:
“Comungo, nesse passo, do pensamento externado na inicial quando afirma que com a
liminar vários outros administrados serão preteridos em decorrência da vontade do autor da
ação, que considera este caso urgente...”(g.n.)
É certo que a urgência é relativa, por conseguinte, é mister que seja invocado o princípio da
proporcionalidade, o qual veio a lume para resolver problemas como ocorre no caso em tela.
O próprio magistrado, quando comungou com o pensamento externado na inicial, entendeu que os
outros casos são mais urgentes que o ora apresentado, pois, salvo melhor juízo, o agravado não juntou na
sua petição inicial os documentos que acompanham o presente recurso.
Ademais, o agravado não demonstrou, através de provas, nos autos da Ação Civil Pública
n.__________, que o caso do referido travessão é menos urgente que os demais, vez que se limitou a aduzir
que havia uma lista de espera.
Obviamente, não se quer preterir ou impor cumprimento de obrigação a qualquer Poder ou
Instituição, mesmo porque os mesmos são independentes e harmônicos entre si (art. 2º, CF/88), porém, o
administrador público não pode se utilizar do manto do princípio da impessoalidade para omitir-se, como
o faz o chefe do poder executivo do Município de_________.
Foi somente após uma análise percuciente das provas técnicas e testemunhais é que o Ministério
Público Estadual propôs a ação civil pública, vale dizer, não fora pela mera “vontade do autor da ação”, o
que configuraria um juízo subjetivo, via de conseqüência, estaríamos afrontando os próprios princípios da
instituição.
A solução do problema ambiental que se arrasta por mais de 05 (cinco) anos, até a presente data
não fora resolvido, cabe a seguinte pergunta: Será que a vez na fila de espera ainda não chegou ou, será
que este caso não é tão urgente, podendo, assim, esperar mais 05 (cinco) anos?
A colocação de maquinário e pessoal no travessão em nada afetará o princípio da impessoalidade,
porquanto se estará atendendo a princípios maiores, quais sejam:
Princípio do ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa humana;
Princípio da natureza pública da proteção ambiental;
Princípio do poluidor-pagador (polluter pays principle).
Outrossim, embora o magistrado tenha feito constar em seu decisum que a omissão que se quer
imputar à administração pública municipal deva ser discutida em sede própria (agravo de instrumento)
(fls. ____), verdade é que o mesmo adentrou nesse mérito ao asseverar que o “Município havia firmado um
termo de compromisso de ajustamento, subscrito pela Vice-Prefeita, a qual não tem a representação legal
do Município”, demonstrando, assim, seu pré-julgamento, embora, como lembrou tal aspecto refoge dos
estreitos âmbitos desta medida (fls. 146).
O princípio do interesse público sobre um interesse de ordem interna deve sempre preponderar,
vale dizer, cumprindo o “Termo de Ajustamento de Conduta” a Administração Pública não estará
ofendendo o princípio da impessoalidade, porquanto a erosão se revela um problema de grande
proporção, conforme demonstram os documentos em anexo.
Os proprietários já demonstraram interesse e predispuseram-se a iniciar os trabalhos dentro do
prazo de 15 (quinze), conforme ficou acordado no documento de fls. _______, entretanto, faz-se necessário
que haja um trabalho concomitante, ao que o Município se nega em fazê-lo, sob o argumento de que tal
acordo “contraria frontalmente” norma essencial do DEFAP (fls._____), devendo ser ressaltado que o
mesmo teve a anuência dos próprios agentes públicos municipais.
É oportuno lembrar que a responsabilidade do Município é objetiva, haja vista o disposto no artigo
37, §6º, da CF/88, por conseguinte, a omissão do chefe do Poder Executivo Municipal sujeitar-se-á aos
ditames do ordenamento jurídico administrativo, civil e penal, pois, entre outras infrações, ressalte-se,
conforme dispõe a Lei n. 9.605/98:
“Art. 68. Deixar, aquele que tiver o dever legal ou contratual de fazê-lo, de cumprir obrigação
de relevante interesse ambiental.
(...)
Art. 70. Considera-se infração administrativa ambiental toda ação ou omissão que viole as
regras jurídicas de uso, gozo, promoção, proteção e recuperação do meio ambiente.”
Pois, conforme preleciona Édis Milaré, verbis:
“Avança também o legislador ao definir, na Seção V do Capítulo V, alguns crimes decorrentes
da improbidade administrativa, regrando a conduta tolerante ou irresponsável do agente
público que ... deixa de cumprir obrigação de relevante interesse ambiental.” ( Apud, p. 470)
No que tange à responsabilidade objetiva (art. 37, §6º, CF/88), é oportuno trazer à colação os
ensinamentos de Hely Lopes Meirelles, verbis:
“O exame desse dispositivo revela que o constituinte estabeleceu para todas as entidades
estatais e seus desmembramentos administrativos a obrigação de indenizar o dano causado a
terceiros por seus servidores, independentemente da prova de culpa no cometimento da
lesão.” (In “Direito Administrativo Brasileiro”, editora RT, 15ª edição, 1990, São Paulo, p. 551).

II.2.3. Do periculum in mora


Prima facie, o Prefeito Municipal aduz às fls. 10, após ter-lhe sido requisitado “Parecer Técnico”
sobre a erosão na linha ______, km ___, poente, verbis:
“3º) O aludido travessão não faz parte do sistema viário do Município.”
Constata-se que a preocupação do alcaide limita-se ao sistema viário do Município, como se a erosão
na estrada vicinal na linha Iguaçu não fosse um problema, também, do Município, ou, quiçá, um problema
de somenos importância, devendo tal problema ambiental entrar na fila de espera, pois, conforme aduzido
às fls.____:
“... não podemos precisar o dia e hora, tendo em vista vários fatores, como a quebra ou reparos
de máquinas, muitas vezes onerosas e demoradas, como atualmente já ocorre...”
Entrementes, o Município sequer se dignou em cumprir com o acordado no dia ________, o qual fora
reconhecido pelo alcaide, quando de sua contestação, contrariando o aduzido às fls.____.

Tal acordo fora assinado por 13 (treze) pessoas, entre elas, pela vice-prefeita onde:
“Chegou-se ao consenso de que o prazo de 15 (quinze) dias é o suficiente para dar início aos
trabalhos...”
Ocorre que decorreram quase 03 (três) meses e até a presente data a Administração Pública não se
dignou de iniciar os trabalhos no referido travessão.
A sociedade, que se faz representar pela instituição do Ministério Público, bem como o meio
ambiente, não pode ficar ao nuto daquele que fora eleito pela mesma sociedade que se vê, hodiernamente,
diante de uma erosão que se arrasta há anos, sem que fosse tomada qualquer providência.
Porém, não se pode olvidar, conforme ensina Wolgran Junqueira Ferreira, verbis:
“Por questão de ordem moral, ética e jurídica, as pessoas a quem se confiou a administração
de bens públicos, são obrigadas a um extremo cuidado com o manuseio da coisa pública. Não
podem fazer como seus, os bens e haveres da comunidade.” (in “Responsabilidade dos
Prefeitos e Vereadores”, 7ª edição, editora Edipro, 1999, p. 11).
O alcaide aduz que fora afirmado que o problema se arrasta por longo período – 05 anos, como, de
fato o é, porém tal descaso não afasta o periculum in mora, pelo contrário, revela-nos quão urgente se torna
em resolver este problema ambiental.
Não fosse o referido travessão pertencente à massa viária do Município de ___________, então, por
qual razão o alcaide estaria preocupado com o mesmo, inclusive encaminhando equipe técnica de próprio
Município para elaborar laudo técnico? Só há uma resposta, porque tal travessão pertence ao Município de
___________, daí o aduzido na decisão do juízo ad quem não ter fundamentação objetiva, haja vista ter
feito constar que o Executivo Municipal não poderia ser compelido a promover o conserto de uma estrada
vicinal que sequer é municipal.
Cabe ressaltar que a característica periculum in mora “é significativa da circunstância de que ou a
medida é concedida quando se a pleiteia ou, depois, de nada mais adiantará a sua concessão. O risco da
demora é o risco da ineficácia”39.
A relutância do alcaide em disponibilizar “seus tratores” está causando prejuízos irreversíveis à
natureza, razão pela qual é mister que se mantenha a decisão do juízo a quo, vale dizer, que o Município
cumpra com o estabelecido no dia _____________, desde já, porquanto o referido prazo já decorreu sem
que houvesse qualquer medida deste, sob pena de tornar-se ineficaz o provimento final ( periculum in
mora).

II.2.4. Do fumus boni iuris


No que tange ao fumus boni iuris, o representante da Administração Pública Municipal asseverou
que tal requisito não se evidencia através das provas documentais, haja vista as mesmas demonstrarem
“guarida no ordenamento jurídico” (cópia em anexo – fls. ___).
Data venia, se a degradação do meio ambiente não evidencia a “fumaça do bom direito”, então,
infere-se que o mesmo se revelará para o Poder Executivo Municipal quando, certamente, sequer existir o
referido travessão.
Ademais, as provas documentais são autênticas e demonstram a realidade dos fatos, vale dizer,
enquanto o alcaide deseja discutir questiúnculas, a natureza vai sofrendo com a inércia e omissão da
Administração Pública .

III – CONCLUSÃO

39 WAMBIER, Luiz. In “Curso Avançado de Processo Civil”, Vol. 3, 3ª edição, editora RT, 2000, p.28.
Destarte, ante o exposto, o membro do Ministério Público Estadual requer que o presente recurso
seja CONHECIDO e que lhe seja dado PROVIMENTO, a fim de que se mantenha a decisão proferida pelo
juízo a quo, conforme exposto nos termos da fundamentação retro.
___________, ___ de ___________ de _______.

Promotor de Justiça
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