Você está na página 1de 50

Introdução ao

Novo Testamento
Unidade 4

1
Aula 1 - O livro de Hebreus

Objetivos

 Compreender Jesus como o aperfeiçoador da fé;


 Entender as circunstâncias que levara à carta de Hebreus;
 Concluir que conhecer a Cristo é tudo;
 Aplicar verdades eternas escatologicamente na vida.
 Clarificar o pano de fundo de cada uma desses textos;
 Compreender os focos centrais dos conteúdos;
 Facilitar uma leitura mais compreensiva dos textos; Aplicar em nosso
contexto esses princípios.

Introdução da aula

Sejam muito bem-vindos e bem-vindas!

Estamos caminhando para a última etapa desta disciplina.

Hoje, estudaremos sobre o livro de Hebreus - as coisas mais excelentes - e


acerca das epístolas em que verificamos o enfrentamento do perigo das
heresias, no final do primeiro século da era cristã – 2 Pedro, Judas, 1,2,3 João.

Indicação de áudio

Vamos ao nosso áudio!

Pano de fundo

Essa homilia anônima, conhecida desde a antiguidade como “A carta aos


Hebreus”, traz uma argumentação de sofisticação retórica excepcional para
sustentar a superioridade escatológica da mensagem cristã sobre o sistema de
salvação da lei mosaica.

O crescimento rápido da igreja gentílica, independentemente do

Judaísmo, tanto por tradição como por convicção, só podia conduzir a uma
separação brusca e definitiva. Os membros da igreja judaica continuavam
apegados às observâncias da Lei apesar de confiarem em Jesus, o Messias,
para sua salvação.

A tensão entre judeus e gentios, que se manifestou ao longo dos primeiros


trinta anos da história cristã, tornou-se maior à medida que as igrejas de todo

2
o mundo daquela época rivalizavam com as sinagogas em número de
membros e em crescimento.

A rejeição judaica da mensagem cristã chegou, finalmente, ao ponto em que


até Paulo abandonou todas as esperanças de um arrependimento nacional.
Embora tivesse dito: "Pois eu até desejaria ser amaldiçoado e separado de
Cristo por amor de meus irmãos, os de minha raça" (Rm. 9: 3), o apóstolo
afastou-se deles e declarou: "Portanto, quero que saibam que esta salvação de
Deus é enviada aos gentios; eles a ouvirão!" (At 28: 28).

Essa ruptura foi acentuada ainda mais por dois outros fatores. Logo de início,
quando, em Jerusalém, Pedro dissera a um público constituído por judeus:
"Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão
longe, para todos quantos o Senhor, nosso Deus, chamar" (Atos 2.39), ficará
proclamada a universalidade do evangelho.

O judeu era exclusivista e repugnava-lhe a ideia de se unir com os gentios em


uma só comunhão se isso não implicasse que aqueles se transformassem em
judeus completos (exemplo At 10.14,28 em que as palavras atribuídas a Pedro
demonstram seus antigos preconceitos).

O segundo fator que tornou completa essa ruptura foi a queda de Jerusalém
em 70 d.C.

O judaísmo como religião e o judaísmo como sistema político eram a mesma


coisa, e quando o sistema político ruiu, de forma que os judeus ficaram sem
país, sem templo e sem governo próprio, perderam muito de seu sistema
essencial. Quando o judaísmo se viu forçado a abandonar esses meios de
expressão externa, transformou-se unicamente na adoração de Deus por
intermédio de seu estudo da lei e, por conseguinte, fortaleceu-se mais do que
nunca seu legalismo.

Para os cristãos judeus, essa tensão criava alguns problemas invulgares. Todos
os cristãos criam na autoridade divina do Antigo Testamento e serviam-se dele
como base de sua fé e pratica. Agora, como interpretar o Antigo Testamento?

Deveriam seguir os rabinos em uma interpretação estática, ou deveriam, como


cristãos, encarar todos os escritos do Antigo testamento à luz da nova
revelação de Jesus como o Messias?

Qual a posição que deveriam assumir perante a situação nacional? Se


acreditavam nas palavras de Jesus, que declarou em seu discurso no monte das
Oliveiras que em Jerusalém não ficaria pedra sobre pedra (Mat 24.2; Lc
19.41-44), só podiam aceitar a tomada da cidade como o julgamento inevitável
de Deus sobre aqueles que tinham rejeitado o Rei. Se, no entanto, se voltavam
da lei para a graça e de Jerusalém como centro de adoração para suas próprias
igrejas, seriam considerados traidores pelos seus compatriotas fiéis à lei. Se

3
voltassem para o legalismo, estariam abandonando Cristo e perderiam tudo
quanto ele pusera ao alcance deles.

Não era uma decisão fácil, e muitos judeus cristãos tanto na Palestina como na
dispersão tropeçavam em uma ambiguidade de pensamento. A decisão era
importante por afetar os destinos da igreja. Os judeus cristãos tinham, de uma
maneira geral, uma preparação mais sólida que os cristãos gentios e, por
conseguinte, uma fé mais inteligente por conhecerem as Escrituras. Sua
fidelidade ou sua deserção exerceriam uma influência poderosa sobre os frutos
do esforço missionário. Por amor deles e por amor da igreja crescente, era
necessário mostrar-lhes que Deus faria algo de novo e que eles deviam
caminhar passo a passo com o Senhor na fé, em vez de recuar.

O livro de Hebreus foi escrito para resolver esse dilema. Seu destinatário exato
é desconhecido, pois não contém qualquer saudação formal, e nos
manuscritos mais antigos, o título é simplesmente: “Aos Hebreus”. As pessoas a
quem essa epístola foi enviada estavam plenamente familiarizadas com o
Antigo Testamento e com seu sistema sacrificial. Foram postas em contato
com o evangelho e ouviram pregar homens que haviam sido testemunhas da
vida de Jesus e que possuíam os dons do Espírito Santo (Hb2.3,4). Eles mesmos
crentes inabaláveis, que suportavam a perseguição psicológica e física por
amor à sua nova fé (10.32-34). Não eram novatos na fé.

Sua localização geográfica é assunto controverso e depende, em grande parte,


da interpretação de uma frase no capítulo treze (13.24): "Os da Itália lhes
enviam saudações". Será que isso quer dizer que o autor se encontrava na
Itália, de onde transmitia cumprimentos a esses cristãos hebreus onde quer
que eles estivessem? Ou que eles viviam na Itália e que seus amigos eram da
Itália, no sentido de que viajavam ou residiam longe da pátria e enviavam
saudações para sua terra natal?

Autor

O problema da autoria constitui um grande enigma. O escritor não revela seu


nome nem se refere a quaisquer circunstâncias ou ligações que o identifiquem
com absoluta certeza. O estudo da epístola mostra tratar-se de um homem de
alta competência literária, com um estilo mais próximo do grego clássico do
que qualquer outro escritor do Novo Testamento. Não era discípulo imediato
de Cristo (Hb 2: 3). Era muito versado no Antigo Testamento, do qual citava a
versão conhecida como a Septuaginta (LXX). Talvez fosse judeu, visto empregar
muitas vezes a primeira pessoa do plural ao dirigir-se a seu público judeu. Era
amigo de Timóteo e, provavelmente, pertencia ao círculo paulino (Hb 13: 23).
Seu uso da citação de Habacuque 2.4, "o meu justo viverá pela fé" (Hb 10: 38),
está de acordo com o uso que Paulo fez dessa mesma frase em Romanos1: 17 e
Gálatas 3.11.

4
Várias hipóteses são sugeridas no que diz respeito à sua identidade, embora
nenhuma tenha em si a mesma unanimidade de tradição que apoie a autoria
do terceiro evangelho e de Atos, atribuído a Lucas.

Desde os primeiros tempos, a Igreja Oriental considera essa epístola produto


de Paulo, mas provavelmente de forma indireta. Eusébio declarou que
Clemente de Alexandria afirmava que Paulo a escrevera em hebraico e que
Lucas a traduzira para o grego. Orígenes diversas vezes a citou como tendo
sido escrita por Paulo e admitia que era, geralmente, considerada como desse
apóstolo, mas ao dar sua opinião disse: "Se pois alguma igreja considera essa
epístola proveniente de Paulo, que seja louvada por isso, pois tão pouco esses
homens da Antiguidade a transmitiram como tal sem causa; mas só Deus sabe
quem foi que realmente escreveu essa epístola". A linha geral de
argumentação do estilo do livro não é paulino.

Muitos outros autores são sugeridos, sendo o principal Barnabé, a quem


Tertuliano a atribui, e Apolo, uma sugestão de Martinho Lutero. A favor de
Barnabé milita tanto o fato de ele ter sido judeu, levita e amigo de Paulo, cujo
ensinamento devia ser muito parecido com o desse apóstolo, como o de ser
um homem que podia trabalhar tanto entre os judeus como entre os gentios.
Sua longa experiência de ensino se coadunaria com o caráter didático da
epístola. Por detrás de Apolo, não existe qualquer tradição primitiva. Era judeu,
alexandrino, versado nas Escrituras e singularmente bem sucedido em seu
ministério entre os judeus; era amigo de Paulo e ainda ativo em seu ministério
no fim da vida desse apóstolo (Tt 3:13).

Em nenhuma dessas hipóteses, as conclusões têm o peso de provas definitivas.


Uma coisa é certa, como Hayes disse"se a autoria dessa epístola é incerta, sua
inspiração é indiscutível".

Data

A epístola foi escrita já na segunda geração de cristãos (Hb 2: 1-4) e após um


intervalo considerável de tempo após a conversão dos destinatários (Hb 5: 12).
Já haviam se esquecido dos "primeiros dias" (Hb 10: 32), e seus dirigentes
tinham morrido (Hb 13: 7). Timóteo estivera na prisão (Hb 13: 23), mas
continuava vivo e fora posto em liberdade.

As alusões ao sacerdócio implicam que o templo ainda estava de pé, apesar de


a abolição das instituições judaicas (Hb 12: 27) não estar muito longe de
acontecer. A perseguição era iminente (12: 4).

A epístola parece coadunar-se melhor com a situação do final dos anos 60,
quando a igreja em Roma receava a perseguição, e quando a queda da
comunidade judaica era iminente.

5
Esboço

O tema da epístola gira inteiramente em torno da palavra "melhor",


empregada em uma série de comparações para mostrar como a revelação de
Deus em Cristo é superior à revelação dada por intermédio da lei
especialmente por ter sido a lei aplicada por meio do sacerdócio levítico.

A qualidade de revelação e a validade da lei para sua época específica não são
de forma alguma negadas; por outro lado, grande parte da argumentação de
Hebreus fundamenta-se no Antigo Testamento. A nova revelação em Cristo
substituiu a velha; a vinda da substância tornara obsoleta a sombra.

Em estrutura, o livro consiste na referida série de comparações, a cada uma das


quais se segue um aviso e uma exortação geralmente contidos em um
parêntese; é como uma oração, que começa com uma proposição e se
prolonga em um argumento aplicado periodicamente às necessidades dos
leitores, terminando com um ápice veemente.

Se excluirmos o capítulo 13, trata-se de um livro cujo estilo não é epistolar e


que poderia ser descrito como um discurso.

HEBREUS: A EPÍSTOLA DAS COISAS MELHORES

1. O melhor mensageiro: o Filho - Parêntese: o perigo da


negligência
2. O melhor apóstolo - Parêntese: o perigo da descrença
e da desobediência
3. Um melhor sacerdote - Parêntese: o perigo da
imaturidade
4. Uma melhor aliança
5. Um melhor sacrifício
6. Um melhor caminho: a fé - Parêntese: o perigo da
rejeição
7. Conclusão: a prática da Fé

Conteúdo

A argumentação precedente se destinava a encorajar um grupo de pessoas


tentadas a abandonar sua fé sob a pressão da perseguição e em virtude de seu
apego à revelação mais antiga da Lei.

O escritor demonstra que o mesmo Deus que entregara a Lei a Moisés pela
mão dos anjos falou mais tarde historicamente por intermédio de seu Filho,
feito temporariamente um pouco menor que os anjos para poder entrar
perfeitamente na esfera da vida humana e participar dela (Hb 2: 9,10,14-18). Por

6
ser simultaneamente divino e humano, está apto a atuar como sumo
sacerdote, no que é superior ao sacerdócio arônico.

A morte não pode por fim à sua missão (Hb 7: 24), e sua esfera de serviço
situa-se no santuário celeste, na própria presença de Deus (Hb 9: 11,12). Além
disso, o sacrifício que ele oferece não deve ser repetido: de próprio é a
oferenda, bem como o sacerdote, completamente aceitável a Deus, poderoso
para abolir a culpa de transgressões cometidas sob o regime da lei e sob o
regime da graça (Hb 9:15 e 10:10,19).

A salvação eterna é alcançável pela fé, a mesma fé exercida pelos homens do


Antigo Testamento, que eram os dirigentes espirituais de sua geração. Essa fé
aplicada às condições em que viviam os leitores lhes daria segurança,
resistência e, finalmente, entrada em um reino inabalável.

PERIGOS QUE AMEAÇAM

Na lista de perigos que ameaçam os crentes, há uma série de advertências


progressivas.

Cada um deles é um passo mais radical para longe da fé que o precedente.

1. Primeiro, vem o perigo da negligência, caracterizado


pela palavra "desviemos" (Hb 2:1). Indica indiferença,
não oposição.
2. O segundo, o perigo da descrença, vem resumido na
citação do Salmo 95, que por sua vez descreve a
atitude dos israelitas perante a promessa da entrada
na Palestina. Ao exagerar a oposição que enfrentariam
e ao esquecer o poder manifesto de Deus em sua
experiência passada, eles não reclamaram sua legítima
herança, perdendo assim a bênção que Deus
preparara para eles.
3. Ligado à descrença, e praticamente sinônimo dela, é o
perigo da desobediência. A má vontade em obedecer
à nova revelação seria fatal para o progresso espiritual.
4. O perigo da imaturidade e o perigo da rejeição são
muito parecidos. Ambos ocasionaram consideráveis
controvérsias teológicas. As advertências parecem
indicar que, uma vez que uma pessoa se recusa a
obedecer ou abandona sua posição de fé, já não pode
ser restaurada (Hb 6: 6; e 10: 26). Ambas as passagens
se referem a uma rejeição deliberada e propositada de
Cristo, um abandono voluntário da verdade, e não

7
uma recaída ou erros súbitos que o culpado
lamentaria ele mesmo.
5. Sem atenuar o perigo da falta de cuidado, podemos
dizer que essas advertências dizem respeito à
apostasia voluntária mais que a um declínio
inconsciente.
6. O último perigo constitui o ponto culminante da série
e implica uma recusa aberta de dar ouvidos à
revelação de Deus por intermédio de seu Filho.
"Cuidado! Não rejeitem aquele que fala" (Hb 12: 25). A
referência é ao sangue de Jesus, "que fala melhor do
que o sangue de Abel" (Hb 12: 24), porque convida à
salvação, em vez de invocar a vingança. Caso se rejeite
essa voz, a condenação é definitiva.

Paralelamente às advertências que aparecem periodicamente no texto,


encontram- se exortações que dão um caráter positivo à argumentação.

No texto grego, elas são claramente indicadas pelo emprego da primeira


pessoa do plural do subjuntivo exortatório.

A lista abaixo mostra como essas exortações se encontram distribuídas no livro.

1. Temamos - Hb 4: 1
2. Esforcemo-nos para entrar nesse descanso - Hb 4: 11
3. Apeguemo-nos com toda firmeza à fé que
professamos – 4: 14
4. Aproximemo-nos do trono da graça com toda
confiança – 4: 16
5. Avancemos para a maturidade – 6: 1
6. Aproximemo-nos de Deus com um coração sincero –
10: 22
7. Apeguemo-nos com firmeza à esperança que
professamos – 10: 23
8. Consideremos uns aos outros – 10: 24
9. Livremo-nos de tudo o que nos atrapalha – 12: 1
10. Corramos com perseverança a corrida que nos é
proposta – 12: 1 11. Sejamos agradecidos – 12: 28
11. Saiamos até ele – 13: 13.
12. Ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de
louvor – 13:15

8
Com exceção da primeira, que se refere ao temor, um sentimento negativo,
cada uma dessas exortações admoesta o crente a que entre em uma fase mais
elevada de perfeição espiritual, culminando em: "Portanto, saiamos até ele, fora
do acampamento, suportando a desonra que ele suportou"; (Hb 13: 13).

A prova final de sujeição a Cristo é a sua cruz.

Oito dessas treze advertências ocorrem nos últimos quatro capítulos, pois com
a conclusão do argumento, fortalece-se a aplicação.

As outras cinco estão relacionadas com avisos mais severos, oferecendo uma
palavra de encorajamento ao que, de outro modo, seria apenas uma dissuasão
negativa.

Apreciação

O que há de mais valioso no livro de Hebreus é seu ensino sobre o ministério


presente e o sacerdócio de Cristo. Há no Novo Testamento muitas referências
a sua ascensão e ao seu lugar à direita do Pai, mas, com exceção de Romanos
8: 34, nenhuma delas explica o que ele faz agora.

Hebreus, pela sua interpretação da referência messiânica no Salmo 110: 4 - "O


Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a
ordem de Melquisedeque”, estabeleceu todo um novo alicerce para a
segurança do crente em Cristo.

Assim como os sacerdotes aarônicos, por meio de seus sacrifícios e de sua


intercessão, ministravam as necessidades espirituais do crente do Antigo
Testamento que obedecia à Lei, também Cristo, em uma medida mais plena
porém invisível, ministra agora as necessidades espirituais daqueles que se
encontram sob a graça.

Aqueles que tinham assistido ao desaparecimento da linhagem sacerdotal


judaica e que sentiam que com ela desapareceu um sistema de salvação
divinamente ordenado, devem ter ficado grandemente edificados com o
ensinamento de que "visto que vive para sempre, Jesus tem um sacerdócio
permanente" (Hb 7: 24).

O GRANDE TEMA DE HEBREUS

Hebreus constitui uma amostra excelente do ensino na igreja primitiva.

Ao contrário de muitas epístolas de Paulo, Hebreus não abordou alguns


assuntos sem relação uns com os outros, tampouco era um sermão
evangelístico dirigido a um auditório misto, e sim a exposição de um único
tema: a nova revelação de Deus fundamentada em versículos do Antigo

9
Testamento que encerram a verdade latente e se desenvolvem de uma forma
retórica e ordenada até atingirem um ponto culminante.

O emprego das citações dá uma boa ideia dos trechos e dos métodos de
interpretação usados pelos mestres cristãos do século I.

Doutrinariamente, Hebreus coaduna-se com as epístolas paulinas, embora não


adote sua fraseologia.

Seu tema, como o de Romanos e de Gálatas, é a salvação pela fé mediante o


sacrifício de Cristo.

Em Hebreus, dá-se mais espaço à ilustração da fé de Abraão do que em


qualquer outra instância, integrando-a, assim, ao emprego que Paulo dela fez.
Nas poucas referências ocasionais à vida terrena de Cristo, há algumas
semelhanças com Lucas. Veja: (Hb 2: 3; Lc 1: 2) ; (Hb 2: 18; Lc 4: 13) ; (Hb 5: 7; Lc
22: 44) ; (Hb12: 2; Lc 9: 51); (Hb12:24; Lc 22: 20). Contudo, essas referências são
tão próximas a ponto de provar qualquer coisa a respeito da autoria.

Considerações finais

Hebreus é uma boa prova da independência crescente da igreja gentílica e da


ampliação da revelação universal que veio por intermédio de Cristo.

Do ponto de vista cristológico, Hebreus enriquece muito a doutrina da


redenção, que a coloca em relação à aliança.

Esse livro explica o sentido da Nova Aliança mais plenamente que Jeremias, a
quem cita (Hb 8: 8-12; Jr 31: 31-34).

Hebreus liga a encarnação à redenção (Hb 2: 14-17).

No estudo do Antigo Testamento, Hebreus é um excelente guia quanto ao


sentido da tipologia e da compreensão do significado permanente do ritual
levítico.

Não pretende dar um relato pormenorizado de todos os aspectos das


oferendas e festivais, mas a confirmação que apresenta de sua função profética
por apontar para Cristo constitui uma chave valiosa de acesso aos tesouros do
Antigo Testamento.

É o melhor comentário que existe sobre esses assuntos.

O trecho mais familiar em Hebreus, como se sabe, é o capítulo 11 que esboça o


progresso da Fé ao recorrer às ilustrações extraídas do Antigo Testamento.

Romanos, ao citar o texto de Habacuque, explica o sentido de "justo",


mostrando quem é justificado e como isso se dá.

10
Gálatas revela o que realmente é a vida sob o regime da graça - um exercício
da liberdade espiritual, expondo assim a ideia de "viver".

Hebreus demonstrou o sentido e o progresso da fé. Esse livro, pelos seus


avisos, exortações e galeria de exemplos, procura mostrar no que consiste a fé,
como funciona e os resultados que alcança.

De acordo com Merrill Tenney, esses três livros, Romanos, Gálatas e Hebreus,
constituem uma trilogia que explica o âmago e a essência da vida cristã de fé.

Indicação de Leitura

Hoje, a leitura complementar indicada é “A Epístola aos Hebreus” (Cap.25,


p.521-525)

Nossa caminhada segue agora para Judas, 1,2 3 e João

PANO DE FUNDO

A evidência que nos resta dos últimos quatro decênios do século 1 revela que
as igrejas eram afligidas pelas heresias e divididas pelas cismas.

Cinco breves epístolas, 2Pedro, Judas 1, 2 e 3João, foram escritas para resolver
o problema criado por essas tendências para as falsas doutrinas dentro da
igreja.

2PEDRO

A segunda carta de Pedro é uma das epístolas gerais. Foi endereçada às igrejas
e seus indivíduos. Essa epístola, semelhantemente a hebreus, Tiago, 1Pedro e 1,
2, 3João, circulava entre as igrejas.

Estudar essa epístola é um desafio pelas seguintes razões:

 Primeiro, porque essa carta foi uma das mais criticadas e uma das mais
tardias em ser reconhecida, no cânon sagrado, como livro inspirado.
 Segundo, porque há abundantes questionamentos acerca da autoria
petrina, até mesmo entre comentaristas conservadores.
 Terceiro, porque em questão de estilo, difere da Primeira Carta de
Pedro. Na opinião de Jerônimo, Pedro deve ter contado com copistas
diferentes.
 Quarto, porque essa epístola não recebeu atenção dos estudiosos ao
longo dos séculos.

11
Michael Green chega a dizer que 2Pedro e Judas são um canto muito obscuro
do Novo Testamento e que quase nunca se prega sobre esses escritos;
comentários e artigos em revistas eruditas raramente tratam deles.

William Barclay ressalta que essa carta é um dos livros mais esquecidos do
Novo Testamento.

R. C. Sproul afirma que há menos comentários escritos sobre essa carta do que
qualquer outro livro do Novo Testamento, com a possível exceção de Judas.

Em 2Pedro há 57 palavras que se encontram somente nesta epístola, não


ocorrendo em nenhum outro livro do Novo Testamento.

O tema central de 1Pedro é o encorajamento durante os tempos de


perseguição, 2Pedro, porém, trata da ameaça da heresia gnóstica. R. C. Sproul
diz, com razão, que o gnosticismo foi uma das maiores ameaças à igreja cristã
a partir da segunda metade do século I e nos dois séculos seguintes.

Pedro, já no seu tempo, entendeu que a maior ameaça ao bem-estar do povo


de Deus era o falso ensino.

AUTORIA

Essa epístola leva o nome de Simão Pedro, porta voz dos doze apóstolos,
homem que ocupou o centro das atenções de Lucas nos dez primeiros
capítulos de Atos.

Simon Kistemaker aponta que durante séculosos estudiosos questionaram o


fato de Pedro, ou outra pessoa que tomou o seu

nome, ser o autor dessa carta. Na verdade, essa epístola tem sofrido
negligência acadêmica tanto por parte dos que negam a autoria petrina como
daqueles que a sustentam.

William MacDonald diz que há mais problemas em aceitar esse livro como
autêntico do que qualquer outro do Novo Testamento. Porém, todos esses
problemas não são suficientemente fortes para refutar a autoria petrina.

As cartas escritas no século 1 começavam com o autor porque eram escritas


em rolos, o que facilitava a comunicação. O autor se apresenta como “Simão
Pedro”, o mesmo da primeira epístola. Não apenas cita seu nome, mas
também sua identificação: servo e apóstolo de Jesus Cristo (1.1). A primeira
palavra descreve sua humildade, e a segunda, sua autoridade.

A Segunda Carta de Pedro é uma epístola que tem como origem a autoridade
que Jesus concedeu aos seus apóstolos. Pedro recebeu autoridade de Cristo,
que o enviou como seu representante. Essa carta foi escrita com a autoridade
divina.

12
Os destinatários da carta

Depois de apresentar-se, Pedro dirige-se a seus destinatários, denominando-os


como aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso
Deus e Salvador Jesus Cristo (1.1b). É muito provável que esses irmãos fossem
os mesmos crentes dispersos, eleitos forasteiros da Dispersão no Ponto,
Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 1.1). Esses crentes, mesmo perseguidos e
dispersos, alcançaram uma fé preciosa; fé na justiça de Cristo, o próprio Deus
encarnado, nosso único Salvador. Pedro diz aos seus leitores que essa é a
segunda carta que está escrevendo (3.1). A maioria dos comentaristas entende
que se trata de uma referência à Primeira Carta de Pedro. Sendo assim, os
destinatários da segunda carta devem, obviamente, ser as mesmas pessoas
para as quais 1Pedro foi enviada, ou seja, os cristãos da Ásia Menor
mencionados em 1Pedro 1.1.10.

Os leitores também parecem familiarizados com as epístolas de Paulo (3.15,16),


uma vez que algumas dessas cartas foram enviadas aos cristãos da Ásia Menor.

O ESTILO

A maioria dos estudiosos afirma que há grande diferença de estilo entre a


Primeira Carta de Pedro e essa epístola. A primeira tem um grego erudito,
enquanto essa, um estilo mais comum.

Kistemaker diz que, em 1Pedro, a forma de apresentação é suave e polida. O


mesmo já não é verdade na Segunda Epístola de Pedro, cujo estilo é abrupto,
com palavras formais e cujo significado é obscuro em muitas passagens.

Uma das explicações é que a primeira epístola foi compilada por Silas, profeta
da Igreja de Jerusalém (1Pe 5: 12). Embora o conteúdo fosse de Pedro, o estilo
era de Silas. Mas na segunda carta é possível que Pedro não tenha recebido
ajuda ou tenha usado outro copista. Outra explicação plausível está no fato do
mesmo autor poder variar de estilo em cartas distintas, dependo da natureza
do assunto que está tratando.

Mais importante que dar voz aos críticos é abrir nossos olhos para as verdades
solenes dessa epístola e abrir os ouvidos da alma para escutar Deus que nos
fala por meio da voz apostólica.

DATA

Desde que concluímos que a igreja estava certa ao reconhecer 2-Pedro como
canônica, tanto da perspectiva histórica como espiritual, devemos situar uma
data bem próxima à morte de Pedro.

13
Chegamos a essa conclusão quando examinamos o que o apóstolo escreveu:
Também considero justo, enquanto estou neste tabernáculo, despertar-vos
com essas lembranças, certo de que estou prestes a deixar o meu tabernáculo,
como efetivamente nosso Senhor Jesus Cristo me revelou (2Pe1:13,14; cf. Jo
21:18,19).

Na opinião de Kistemaker, Pedro está escrevendo uma espécie de testamento


no qual expressa suas admoestações antes de partir.

A data exata em que essa epístola foi escrita ainda está em aberto, porém,
Eusébio, historiador da igreja, coloca a morte de Pedro na época da
perseguição de Nero (64-68 d.C.). Como Nero morreu em 68 d.C., é muito
provável que 2Pedro tenha sido escrita por volta do ano 67 d.C.

A CARTA NO CÂNON

Na verdade, a igreja esteve engajada por trezentos anos em debate, discussão


e análise de vários livros do século 1 com o propósito de estabelecer de uma
vez por todas quais eram os livros verdadeiramente

inspirados. Em virtude do falso e herético cânon de Marcião ter se espalhado


pela igreja, foi necessário um esforço redobrado para verificar com exatidão
quais livros tinham autoridade apostólica.

Não há vestígio do reconhecimento de 2Pedro senão depois do ano 200 d.C. A


epístola não está incluída no Cânon Muratoriano, que data de 170 d.C. e
constitui a primeira lista oficial dos livros do Novo Testamento. Não figurava na
antiga versão latina das Escrituras e tampouco existia no Novo Testamento da
primitiva igreja da Síria.

Os grandes eruditos de Alexandria não conheciam essa epístola ou tinham


dúvidas quanto a ela.

O próprio reformador João Calvino expressou suas restrições quanto à autoria


petrina, enfatizando, por outro lado, sua importância canônica.

Sua entrada no cânon foi extremamente precária.

Na Reforma, Lutero a considerou Escritura de segunda classe.Foi rejeitada por


Erasmo e vista com hesitação por Calvino. Só no século III, é que Orígenes cita
pela primeira vez 2Pedro como parte das Escrituras.

Jerônimo, no fim do século IV, reconheceu que Simão Pedro escreveu duas
cartas gerais. A igreja universal, apesar de reservas e dúvidas, reconheceu a
canonicidade de 2Pedro.

O Concílio de Laodicéia em 360 d.C. colocou 2Pedro entre os livros canônicos,


assim como o Concílio de Hipona (393 d.C.) e o Concílio de Cartago (397 d.C.).

14
No entanto, é sabido que a autoria petrina desta epístola foi fortemente
afirmada por homens como Atanásio, Ambrósio e Agostinho. O testemunho
interno do livro e o testemunho externo da história da igreja são eloquentes.

QUAL O PROPÓSITO?

Se o foco da primeira carta foi preparar a igreja para enfrentar o sofrimento


que se espalhava, o propósito desta epístola é alertar a igreja acerca dos falsos
profetas. Assim como Paulo escreveu duas cartas tanto aos crentes de
Tessalônica como aos crentes de Corinto, Pedro também escreveu duas
epístolas para os crentes judeus e gentios da Ásia Menor.Nessa segunda carta,
ele advertiu os crentes sobre os perigos dos falsos mestres que se infiltraram
nas comunidades cristãs. A heresia em mira foi o gnosticismo.

A primeira Epístola de Pedro trata do perigo fora da igreja: as perseguições. A


Segunda Carta trata do perigo dentro da igreja: a falsa doutrina. A primeira foi
escrita para animar; a segunda, para advertir. Na primeira, vemos Pedro
cumprindo a missão de fortalecer os irmãos; na segunda, cumprindo a missão
de pastorear as ovelhas, protegendo-as dos perigos ocultos e insidiosos, para
que andem nos caminhos da justiça.

O TEMA E AS ÊNFASES

O tema da segunda carta pode ser resumido da seguinte maneira: o


conhecimento completo de Cristo é uma fortaleza contra a falsa doutrina e
contra a vida imoral.

Algumas ênfases bem nítidas:

Em primeiro lugar, o combate aos falsos mestres.

Robert Gundry diz que os mestres heréticos, que mascateavam com doutrinas
falsas e praticavam uma moralidade frouxa, começavam a lançar sérias
investidas contra a igreja, penetrando no seu interior.

A Segunda Epístola de Pedro é uma polêmica contra os tais, particularmente


contra seu ensino, no qual negavam a realidade da volta de Jesus. Pedro
assevera o verdadeiro conhecimento da fé cristã a fim de fazer frente àquela
doutrinação herética. Pedro adverte os leitores acerca dos falsos profetas que
aparecem com heresias destruidoras, a fim de corromper as pessoas (2Pe
2:1,2,13,14).

Assegura aos crentes que esses falsos profetas serão repentinamente


destruídos (2Pe 2: 3,4). Pedro exemplifica essa destruição citando o dilúvio e a
destruição de Sodoma e Gomorra (2Pe 2: 4-8). Compara os falsos profetas a
Balaão (2Pe 2: 15,16). Alerta para o fato desses mestres do engano estar

15
decididos a desviar os cristãos do caminho da verdade e da santidade,
prometendo-lhes uma falsa liberdade que nada mais é que libertinagem (2Pe
2: 17-22, 25).

Os falsos mestres do capítulo 2 possivelmente são os mesmos escarnecedores


do capítulo 3. Esses hereges haviam rompido com a fé cristã (2Pe 2: 1,20,21)
para espalhar seu veneno letal e suas heresias perniciosas.

O apóstolo Pedro fez uma lista de seus ensinamentos pervertidos:

1. Rejeitam Jesus Cristo e o seu evangelho(2:1) ;


2. Repudiam a conduta crista (2:2) ;
3. Desprezam a autoridade (2:10a) ;
4. Difamam autoridades superiores (2.10b) ;
5. São imorais (2:13, 14) ;
6. Falam de liberdade, mas são escravos da depravação
(2:19) ;
7. Ridicularizam a doutrina da volta de Cristo (3:4) ;
8. Rejeitam o juízo final (3:5­7) ;
9. Distorcem os ensinamentos das epístolas de Paulo
(3:16) ;
10. Vivem em pecado (3:16).

William Barclay sugere que esses falsos mestres eram antinomianos, ou seja,
usavam a graça de Deus como justificativa para pecar. Muito provavelmente,
como já afirmamos, esse grupo era uma semente daquela devastadora heresia
chamada “gnosticismo”.

Os gnósticos defendiam a tese de que o espírito é essencialmente bom e a


matéria é essencialmente má. O gnosticismo desembocou no ascetismo e na
licenciosidade. Esses falsos mestres denunciados por Pedro alegavam que não
importava o que alguém fizesse com o corpo, pois os atos externos, segundo
criam, não afetavam o homem.

O gnosticismo devastou a igreja nos três primeiros séculos. Esses mestres do


engano ensinavam que a verdade, especialmente a verdade maior, não poderia
ser alcançada pela mente, pelo uso da razão, nem mesmo pela investigação
científica.

O único caminho para conhecer a verdade de Deus era através da intuição


mística que estava além das categorias da razão e do testemunho
experimental. O gnosticismo tentou amalgamar o cristianismo com a filosofia
grega e o dualismo oriental.

16
Em segundo lugar, a segunda vinda de Cristo. O

caráter predominantemente escatológico de 2Pedro revela-se com maior


clareza no último capítulo.

Kistemaker afirma que em 2Pedro são desenvolvidos os seguintes temas


escatológicos: o julgamento divino, a destruição do mundo e a promessa de
novos céus e nova terra.

Especialmente no terceiro capítulo, Pedro se refere ao Dia do Senhor, que é o


dia do julgamento, o dia de Deus (3: 7,8,10,12). Enquanto 2Pedro dedica um
capítulo para tratar da segunda vinda de Cristo e do julgamento, 1Pedro faz
uma única alusão a esse dia (2: 12).

Nenhum outro livro do Novo Testamento possui detalhes tão claros acerca do
fim do universo. Pedro anuncia a promessa de um novo céu e uma nova terra
(2Pe 3:13; Is 65:17 e 66:22; Ap 21:1). Descreve o novo céu e a nova terra como
lugares nos quais habita justiça (2Pe 3: 13). Os cristãos, que já são
coparticipantes da natureza divina (1: 4) e aguardam a entrada no reino eterno
de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (1: 11), desfrutarão para sempre deste
lar na nova criação de Deus.

Kistemaker esclarece que os cristãos experimentam, portanto, em sua vida de


fé, a tensão entre o “já” e o “ainda não” ; o “agora” e o “então”.

Em terceiro lugar, a supremacia da Palavra de Deus.

Essa é a principal contribuição de 2Pedro para o ensino do Novo Testamento.


Tanto a primeira como a segunda carta de Pedro enfatizam a inspiração das
Escrituras (1Pe 1: 23-25; 2Pe 1: 20,21). Pedro entendia que as Escrituras do
Antigo Testamento foram inspiradas pelo Espírito Santo, ou seja, os escritores
humanos não publicaram suas próprias ideias, mas a revelação de Deus. Os
escritores não eram a fonte da mensagem, e sim seus portadores.

Em quarto lugar, o conhecimento de Deus.

Em sua primeira epístola, Pedro enfatizou a graça de Deus (1Pe 5: 12); porém,
na segunda, destacou o conhecimento de Deus. O termo “conhecer” ou
“conhecimento” é usado pelo menos treze vezes nessa breve epístola.
Enquanto os gnósticos estribavam seu ensino num conhecimento místico,
Pedro deixou claro que o verdadeiro conhecimento de Deus não vem por meio
do êxtase, mas por meio de Cristo.

17
Em quinto lugar, Jesus como Salvador.

Se a Primeira Carta de Pedro dá um destaque para o sofrimento, a morte, a


ressurreição e a ascensão de Cristo, a Segunda Carta realça a sua
transfiguração. Pedro mostra uma preferência pelo uso do termo “Salvador”
para se referir a Jesus (2Pe 1: 1,11; 2: 20 e 3: 2,18).

JUDAS

Pano de fundo

A relação literária entre Judas e 2Pedro é um fator importante na determinação


do pano de fundo.Não pode haver dúvida deque são duas epístolas distintas
No entanto, as semelhanças ocasionais de pensamento e de vocabulário entre
as duas não podem ser mero acidente. Uma comparação da epístola de Judas
com 2Pedro convencerá qualquer leitor do texto traduzido ou do texto grego
de que existe certa relação entre elas.

Qual é essa relação?

Propuseram-se quatro respostas diferentes:

1. 2Pedro e Judas não têm relação uma com a outra, a


não ser a de haverem sido escritas a pessoas que
enfrentavam a mesma situação. Essa solução não
explica de forma adequada as minúsculas semelhanças
verbais.
2. 2Pedro e Judas foram parafraseadas de alguma fonte
comum. Essa solução é improvável, pois ambos os
autores estavam aptos a escrever eles próprios suas
epístolas. Assim, introduzir uma terceira epístola
desconhecida só aumenta a confusão.
3. 2Pedro foi buscar muitos de seus
elementos em Judas.

As referências históricas de Judas são mais exatas e circunstânciais, e sua


organização, mais clara. Parece que a epístola mais curta foi utilizada pela mais
longa, em vez de a mais curta ser uma condensação da mais extensa.

4. Judas foi estimulado a escrever esta epístola ao ler a


de Pedro, mas organizou-se de forma
independente.

18
O AUTOR

O autor era sem dúvida o irmão de Tiago, moderador da igreja de Jerusalém e


meio-irmão de Jesus, mencionado em Marcos 6:3.

Ele, como Tiago, também deve ter crido em Jesus como Messias depois da
ressurreição, e passou a ser contado entre o grupo expectante no dia de
Pentecoste. Parece não ter tido parte destacada nos negócios da igreja
apostólica.

LOCAL E DATA

A epístola não oferece qualquer indicação clara quanto ao local ou data em


que foi escrita.

Se Judas trabalhava junto das igrejas judaicas da Palestina, é muito provável


que a epístola tivesse sido enviada a elas no período que imediatamente
precedeu a queda de Jerusalém.

Pode-se aventar que aquilo que Pedro predissera para o setor da igreja ao
qual escrevia já começara a se realizar na igreja pela qual Judas era
responsável. Se a epístola de Pedro tinha acabado de circular, a de Judas pode
muito bem ser datada de aproximadamente 67 ou 68 d.C. Por outro lado, o
apelo de Judas à memória do povo (verso 17) significa que o texto de2Pedro
circulava já havia muito tempo.

CONTEÚDO

Judas anunciou que seu propósito era incitar os leitores para ''que batalhas
sem pela fé de uma vez por todas confiada aos santos'' (verso 3). A causa
dessa premência era a infiltração nas fileiras cristãs de homens que
''transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo,
nosso único Soberano e Senhor'' (v. 4).

A fraseologia que define a heresia coaduna-se com a de Pedro, mas mais


específica. Dá a impressão de que o erro mencionado é uma espécie de
antinomianismo que transformava a liberdade em licenciosidade e que
repudiava a soberania de Cristo. A heresia tinha-se afastado tanto do legalismo
que não observava restrições nem possuía padrões morais fixos. Era
especulação intelectual ociosa, acompanhada por oratória de fantasia, sem
quaisquer deveres.

Em sua argumentação geral, Judas cita três exemplos históricos de castigo:

19
1. A destruição do grupo descrente que saiu do Egito,
mas que não queria entrar na terra de Canaã;
2. Os “anjos que não conservaram suas posições de
autoridade;
3. E as cidades de Sodoma e Gomorra.

Em cada um desses casos, o castigo irrevogável de Deus caiu sobre pessoas


que tinham pecado abertamente e sem desculpa.

“Esses três grupos de pecadores declarados são comparados aos apóstatas


marcados na epístola de Judas pelo pronome ‘estes(as)’ ou ‘esses(as)’ (Jd v.
8;10; 12;14;16 e19).

Sua irrelevância, ignorância, caráter traiçoeiro e vazio, bem como o egoísmo,


são amarrados ao pelourinho da linguagem vigorosa de Judas.

A natureza de seu erro é descrita pela sua semelhança com os três grandes
rebeldes do Pentateuco:a oferta sem o cordeiro morto como fez Caim; o erro
de pensar que Deus é ministro da conveniência do homem, em vez de Senhor
de seus destinos – Balaão, e a arrogância de uma fé inventada pelo homem –
como foi Coré – que agiu contra Moisés.

APRECIAÇÃO

Uma das curiosidades dessa pequena epístola é sua atração pelas tríades de
pensamento.

São seis seções principais, dispostas em três pares:

 As primeiras duas apresentam pensamento;

 As segundas discutem a apostasia; e a

 As duas últimas apresentam a conclusão.

O autor descreve a si mesmo de três formas, ao se referir a seu nome próprio:


Judas; sua função: servo de Jesus Cristo e sua relação com a comunidade cristã:
o irmão de Tiago.

Saúda seus leitores chamando-lhes de os ''chamados'', ''amados' e


''guardados'', e em sua saudação deseja-lhes misericórdia, paz e amor.

O uso da literatura apócrifa ocasiona algumas dúvidas quantoa essa epístola.

A referência a Enoque, no versículo 14, concorda com uma passagem no livro


de Enoque, e a referência à disputa entre Miguel e o Diabo por causa do corpo
de Moisés ocorre na ascensão de Moisés.

20
Esses dois escritos foram produzidos no começo do século1 por escritores
judeus que

procuravam advogar os ensinamentos de sua seita, ou partido, apelando para


a autoridade dos dirigentes do Antigo Testamento.

As citações dão origem a um dilema: se Judas era inspirado, suas citações das
referidas obras dariam a esta igual autoridade?

De fato, a epístola mostra que na época havia um corpo de crenças


reconhecidas que poderia se chamar de cristianismo. A formulação doutrinária
é um processo lento, e a história do cristianismo dos últimos dois mil anos é a
história de ascensão e declínio de padrões e ênfases doutrinários.

O livro termina com umas das mais grandiosas bênçãos do Novo Testamento.

A ênfase dada à soberania de Cristo e seu poder para impedir que seus servos
caíssem no erro é particularmente apropriada ao tema de Judas.

1, 2 e 3 JOÃO

PANO DE FUNDO

Estas três breves cartas devem ser atribuídas a um só autor, que escreveu
também o quarto evangelho. Todos esses quatro escritos foram provavelmente
produzidos mais ou menos na mesma época e local.

A primeira epístola começa por meio de um resumo:''O que era desde o


princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que
contemplamos e as nossas mãos apalparam isto proclamamos a respeito da
Palavra da vida'' (1Jo1:1), como alicerce para sua aplicação da verdade. Esse
sumário pressupõe o quarto evangelho tanto em conteúdo quanto em seu
vocabulário, e as similaridades persistem ao longo de toda epístola.

O propósito afirmado na primeira epístola: ''Escrevi-lhes estas coisas, a vocês


que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida
eterna'' (1Jo 5:13), leva o leitor um passo adiante do evangelho, quando este
declara: ''Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo,
o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome''(Jo20.31). O evangelho
foi escrito para despertar a fé. A primeira epístola joanina foi escrita para
estabelecer a certeza.

A segunda e a terceira epístolas podem Ter sido escritas como ''cartas de


cobertura'', a uma igreja à qual o autor se dirige sob a figurada ''senhora
eleita'' (2Jo 1), e a outra a Gaio, o pastor (3Jo 1). A intenção era que elas fossem

21
notas particulares de conselho e saudação, enquanto que o corpo principal de
ensinamento vinha contido no evangelho e na primeira epístola.

Não é possível determinar o tempo exato e o local em que foram compostas,


mas a opinião mais aceitável é que esses documentos foram escritos por João
para que fossem enviados às igrejas asiáticas em meados do último terço do
século 1. Nessa época, a separação entre a igreja e a sinagoga era completa. A
controvérsia em torno da justificação pela fé em oposição às obras tinha, em
grande parte, esmorecido, e o influxo de gentios na igreja, com seu patrimônio
de pensamento filosófico, começava a afetar o ensino doutrinário.
Mostravam-se interessados na pessoa de Cristo.

Quem era ele? Se era Deus, como poderia ter morrido? Se morreu, como ele
poderia ser Deus?

Muitas soluções para esse dilema foram propostas, e o debate sobre a


natureza de Cristo ocupou o pensamento dos dirigentes eclesiásticos e as
deliberações dos concílios até o século V. Na verdade, esse debate, ainda hoje,
não terminou.

O erro específico que 1João visava a combater parece ter sido uma forma
precoce de gnosticismo, uma heresia que foi o inimigo mais perigoso da igreja
até finais do século II.

O gnosticismo era mais uma filosofia da religião do que um mero sistema.


Alicerçava-se na premissa de que o espírito é bom, amatéria, má, e que as duas
coisas não podem ter uma relação mútua e duradoura. A salvação consiste em
fugir do domínio da matéria para o domínio do espírito.

João afirma que, o que Cristo pregava era audível, visível e tangível (1Jo1): 1).
Ele afirma que, quem nega o Pai e o Filho é o anticristo(1Jo 2: 22) e declara que
"todo espírito que não confessa Jesus, não procede de Deus" (1Jo 4: 2,3).

Evidentemente, a posição de seus oponentes aproximava-se bastante do


gnosticismo docético.

As epístolas menores discutem o mesmo problema do ponto de vista da


política e da disciplina eclesiástica.

A primeira epístola de João diz que os seguidores da falsa doutrina "saíram do


nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos
nossos, teriam permanecido conosco" (1Jo 2:19).

Houve um cisma Em algumas igrejas das quais os partidários do erro haviam se


retirado para formar seu próprio grupo. Alguns deles, porém, tinham se
transformado em Mestres ambulantes, que procuravam penetrar nas igrejas
menores, imaturas e fracas. A segunda epístola contém advertências contra
eles:

22
“De fato, muitos enganadores têm saído pelo mundo, os quais não confessam
que Jesus Cristo veio em corpo. Tal é o enganador e o anticristo” (2Jo7).

A igreja é avisada para que não acolha nenhum desses mestres: "Não o
recebam em casa nem o saúdem. Pois quem o saúda torna-se participante das
suas obras malignas" (2Jo10,11).

A terceira epístola permite-nos contemplar um ou dois quadros da vida da


igreja naquele período. Ao que parece, grande parte do ministério era
desempenhada por pregadores itinerantes que faziam rondas periódicas,
fazendo reuniões em residências particulares.

O aparecimento de ditadores da igreja é refletido no comentário acerca de


Diótrefes, que não queria receber nenhum tipo de visitante e expulsava da
igreja quem os recebia.

CONTEÚDO

Na epístola de 1João, luz e amor, duas palavras, peculiarmente joaninas, são


dominantes. Ambas são utilizadas para descrever a divindade. (1.5;4.8), e o
desenvolvimento desses temas abrange uma parte predominante da epístola.

O conteúdo da segunda carta quer firmar nos leitores o perigo de


menosprezar a humanidade Cristo.

O conteúdo da terceira não se ocupa com verdades teológicas, é escrita a


Gaio, pastor dirigente. Trata da hospitalidade que deve ser dispensada aos
irmãos missionários que visitam a igreja.

APRECIAÇÃO

As epístolas joaninas, especialmente a primeira, são de valor incalculável como


medida de realização espiritual no âmbito individual. São quase puramente
declarativas e exortativas; em suas páginas, não se encontram exposição nem
argumentação teológica. A verdade histórica encerrada no evangelho é
aplicada em 1João ao crente individual, e as provas de sua posse da vida eterna
são esboçadas com clareza para que ele possa saber ao certo se
verdadeiramente creu ou não. O caráter brando do ensino nelas contido não
deve ser confundido com crença vaga ou com indecisão teológica.

Todas essas epístolas traçam uma linha nítida entre a verdade e a falsidade,
entre a justiça e a injustiça, entre a luz e as trevas e entre o amor e o ódio,
exigindo que o crente se coloque em um ou em outro lado da linha. ''Quem
tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida'' (1Jo 5:
12). Pressupõe uma revelação clara e mais perfeita da vida eterna em Cristo, o
padrão da verdade a ser aceito ou rejeitado pelos homens.

23
Na linguagem de Tenney, essas últimas epístolas apresentam uma frente sólida
contra a maré

Reinante de heresias e de erros. Todavia, não são unicamente de caráter


polêmico, mas também, construtivas em sua apresentação do ensino do
evangelho. A maturidade de pensamento e a santidade de vida são seus
objetivos.

Foram escritas não apenas para alcançar a vitória em um debate, mas para
ajudar e desenvolver o crente, para que este se defenda e para que o maligno
não se aposse dele (1Jo 5: 18).

Indicação de Leitura

Nossa leitura complementar será “Segunda Pedro: ética e escatologia” (Cap.26,


p.621641)

Boa leitura!!

Referência:

MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova,


2007.

24
Aula 2 - Apocalipse e o Cânon
Objetivo

Nossos principais objetivos para esta aula são:

 Clarificar as estruturas do Apocalipse;


 Aprender os modelos de interpretação;
 Assimilar um conteúdo viável;
 Compreender o aspecto ético do escatológico;
 Aplicar na vida prática suas advertências;
 Saber definir a palavra cânon desde a perspectiva
teológica;
 Entender o processo contextual da construção bíblica;
 Estar consciente das dificuldades encontradas no chegar
ao cânon;
 Ampliar a valorização dos critérios e princípios que a
Igreja na história conseguir validar.

Introdução da aula

Bem-vindos! Bem-vindas!

Estamos chegando ao final do nosso estudo cujo foco tem sido o novo
testamento. Esta é a última aula da disciplina, Pessoal!

Para encerrar o curso, temos dois temas muito intrigantes:

Apocalipse - a igreja expectante; e

O Cânon do Novo Testamento

Aos estudos, Turma!

Apocalipse - autoria

João encontrava-se em Patmos, uma ilha rochosa ao largo da costa da Grécia,


onde foi encarcerado por causa de sua fé (Ap. 1: 9 - 11). Ali foi lhe dada a visão
que descreveu, tendo-lhe sido ordenado que a transmitisse às sete igrejas da
Ásia: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia; (Ap. 1: 10),
com as quais estava familiarizado. “Escreva, pois, as coisas que você viu, tanto
as presentes, como as que acontecerão” ; (Ap.1: 19).

É o único livro do Novo Testamento inteiramente dedicado à profecia.

25
O autor desse livro declara explicitamente que o mensageiro que lhe trouxe a
última visão viera do Senhor. "O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas,
[que] enviou seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve hão
de acontecer" (Ap. 22: 6), e no versículo seguinte menciona a profecia deste
livro ­ “Eis que venho em breve! Feliz é aquele que guarda as palavras da
profecia deste livro” ; (Ap.22: 7).

Eu, João sou aquele que ouviu e viu estas coisas... (Ap.22: 8).

Pano de fundo

O livro de Apocalipse encerra o cânon e a história do Novo Testamento.


Independentemente de ser ou não o último livro a ser escrito, é final em seu
pensamento, pois encerra a expectativa de uma igreja que fora lançada no
mundo como uma instituição e que aguardava ansiosamente que sua missão
se consumasse.

Apocalipse é único por muitas razões.

Praticamente todo seu simbolismo se relaciona a imagens e símbolos que


ocorrem nos livros proféticos do Antigo Testamento. Grande parte de seu
conteúdo é profético, relacionando-se com o futuro.

Apocalipse situa-se na classe da literatura apocalíptica. A literatura apocalíptica


era geralmente produzida em épocas de perseguição e opressão para
encorajar aqueles que sofriam por causa de sua fé. Era caracterizada por
intenso desespero com respeito às circunstâncias contemporâneas e por uma
esperança igualmente intensa na intervenção divina no futuro; pelo emprego
de linguagem simbólica, de sonhos e de visões; pela introdução de potestades
celestes e demoníacas, como mensageiros e agentes no progresso do
propósito de Deus; pela predição de um castigo catastrófico dos ímpios e de
um livramento sobrenatural para os justos; e muitas vezes pela atribuição
pseudônima da obra a um personagem eminente na história bíblica, como
Esdras (2 Esdras) ou Enoque (O Livro de Enoque). O livro de Apocalipse ostenta
a maior parte dessas características, exceto que o autor revela seu nome e
parte do princípio de que é conhecido, não como uma celebridade do
passado, mas como um participante contemporâneo dos assuntos relativos
àqueles a quem se dirigia.

As condições em que o livro foi escrito podem ser razoavelmente deduzidas


por meio do estudo de seu conteúdo.

Destinava-se às sete igrejas da província da Ásia que já existiam havia bastante


tempo e nas quais se verificara crescimento espiritual seguido de declínio. Nas
cartas a essas igrejas, encontram-se indícios de que a perseguição era iminente
ou já tinha começado.

26
A igreja de Esmirna sofreria "perseguição durante dez dias" (Ap. 2: 10) ;

Antipas sofrera o martírio em Pérgamo (Ap. 2:13) ;

Filadélfia seria “guardada da hora da provação" (Ap. 3: 10).

Mesmo que essas passagens sejam interpretadas como se referindo a


acontecimentos futuros, a atmosfera de Apocalipse é de hostilidade e de
opressão. Na parte principal do livro, a fome, a guerra, a peste, a pressão
econômica e a perseguição são consideradas como os fenômenos típicos de
seu cenário.

Restam poucas dúvidas de que Roma imperial constituiu o modelo do poder


do Estado que Apocalipse pintou como inimigo do cristianismo.

A besta que tinha "autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação" (Ap.13:7),
tinha seu antítipo no domínio universal de Roma sob os césares.

A "marca" que os homens seriam obrigados a trazer para comprar ou vender


(Ap. 13:

16,17) era o termo empregado para indicar o selo imperial estampado em


testamentos, contratos, contas de venda e outros documentos para lhes dar
valor legal.

A prostituta chamada "Grande Babilônia", embriagada com o sangue dos


santos e dos mártires, estava sentada sobre sete montes (Ap. 17: 9), número
idêntico ao das colinas de Roma.

Se Apocalipse deve ser definitivamente interpretado como aplicável a Roma ou


não, isso sem dúvida aconteceu quando os cristãos o leram pela primeira vez.

Prevalecem duas escolas de pensamento com respeito à época e às


circunstâncias para as quais foi escrito.

Um grupo atribui esse livro aos dias de Nero, quando o incêndio de Roma
resultou na perseguição aos cristãos. Esta opinião apoia-se principalmente em
duas considerações: se João, filho de Zebedeu, escreveu Apocalipse, bem
como o evangelho e as epístolas que lhe são atribuídas, as diferenças radicais
de linguagem e estilo podem ser mais bem explicadas se considerar-se que
Apocalipse foi escrito talvez em data remota, quando seu domínio do grego
era ainda imperfeito, enquanto que o evangelho e as epístolas teriam sido
escritos em uma data posterior, quando ele era já mais proficiente nessa
língua. Além disso, sugeriu-se que o número místico "seiscentos e sessenta e
seis" (Ap. 13: 18) constitui o total dos valores numéricos das letras hebraicas
com que se escreve NeronKesare, portanto, o personagem descrito no capítulo
em questão, deve ser Nero.

27
Esse tipo de raciocínio parece demasiado frágil para servir de apoio a qualquer
conclusão definitiva, sobretudo em vista da ausência de corroboração da parte
da tradição externa.

A segunda possibilidade de atribuir data ao livro de Apocalipse situa-o em


finais do século 1, no reinado de Domiciano (81-96 d.C).

Essa data pelo menos tem a vantagem de se apoiar em evidência externa


explícita. Ireneu disse que João recebera sua visão "não muito antes, mas quase
nos nossos dias, em fins do reinado de Domiciano". Se bem que, no tempo de
Domiciano, não houvesse provavelmente uma perseguição generalizada, sua
insistência em ser adorado como uma divindade e a tirania crescente de sua
ditadura puseram-no em oposição ao crescimento do cristianismo e
constituíam o presságio do aparecimento das condições sociais, econômicas e
religiosas que Apocalipse profetizava.

Apocalipse, portanto, é um testemunho da hostilidade crescente que surgiu


entre a igreja e o Estado romano. Não implica forçosamente que se tivesse
adotado uma política universal de perseguição aos cristãos, mas revela
claramente que não pode haver transigência entre um Estado pagão e a igreja
cristã.

O resultado lógico do paganismo é o totalitarismo, que implica a adoração do


dirigente, em que este controla toda a atividade política, todos os recursos
econômicos, todas as cerimônias religiosas e toda a adoração pessoal. A
tolerância que Roma concedeu à igreja cristã transformou-se em suspeita
quando Paulo e outros pregadores cristãos foram julgados pelos dirigentes
judaicos, e depois a suspeita avolumou-se, dando lugar ao desprezo e ao ódio.
Em finais do século 1, os cristãos encontravam-se na defensiva em toda parte.
Apercebiam-se já da verdade das palavras de Jesus: "Se vocês pertencessem ao
mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo,
mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia"; (Jo 15:
19).

Apocalipse foi escrito no final do primeiro século, para encorajar as igrejas, que
sentiam essa hostilidade crescente, e para avisar os cristãos descuidados e
negligentes, sempre tentados a resvalar para uma conformidade fácil com o
mundo.

O Apocalipse é interpretativo. Contém nada menos que quatrocentas

alusões ao Antigo Testamento, se bem que não se encontre nele qualquer


citação direta. Seu simbolismo e seu programa estão relacionados com as
profecias do Antigo Testamento e ligam o significado destas às tendências da
nova dispensação.

Apocalipse dá uma ideia do clima espiritual da vida da igreja por intermédio do


julgamento das sete igrejas da Ásia. A sequência de visões que se segue, seja

28
qual for o sistema de interpretação adotado, constitui um quadro da
consumação final do propósito de Deus. Entretanto, por mais estranho que
sejam esses simbolismos, esse é o único livro do Novo testamento que fornece
uma previsão organizada do futuro.

Interpretações

Há quatro escolas principais de interpretação do livro de Apocalipse entre os


expositores modernos:

A escola preterista

A escola preterista afirma que o simbolismo de Apocalipse se relaciona


unicamente aos acontecimentos da época em que foi escrito. Nada no
simbolismo dos selos, das trombetas e das raças tem qualquer relação com o
futuro. O escritor exprimia simplesmente sua indignação moral perante os
abusos de seu tempo ao falar sobre o julgamento futuro. É esta a opinião da
maioria dos comentadores liberais, como R. H. Charles e C. C. Torrey; e tem a
vantagem de relacionar Apocalipse com o pensamento e os acontecimentos
históricos da época em que foi escrito, mas não deixa lugar para qualquer
elemento profético.

A escola idealista

A escola idealista, muitas vezes relacionada de uma maneira íntima com a


escola preterista, considera Apocalipse unicamente um quadro simbólico da
luta constante entre o bem e o mal, e entre o cristianismo e o paganismo. Ela
afirma que os símbolos não podem ser identificados como acontecimentos
históricos do passado ou do futuro, pois são simplesmente tendências ou
ideais.

Eis o que diz Raymond Calkins:

Compreendemos agora o que a palavra Apocalipse [revelação] significa. Não


significa uma revelação dos mistérios futuros do fim do mundo, do milênio ou
do dia do juízo. Tampouco significa primariamente uma revelação das glórias
do céu ou da beatitude dos remidos. Denota, antes, uma revelação do Deus
infinito, poderoso para salvar; um descortinar, para consolo e inspiração do
povo de Deus, o poder avassalador de um Salvador onipotente.

O método idealista de interpretação tem a vantagem de chamar a atenção do


leitor para a verdade ética e espiritual de Apocalipse, em vez de para os
aspectos discutíveis de seu simbolismo. Por outro lado, tende a reduzir o valor
desse simbolismo como veículo de profecia. Sua "espiritualização" tira de

29
Apocalipse todo o valor profético e dissocia-o de qualquer consumação
historicista definida. O dia do juízo, segundo essa teoria, vem sempre que se
decide um grande problema moral; não é um ponto culminante em que um
Cristo sobrenatural sobe a um trono visível.

A escola historicista

A interpretação historicista afirma que Apocalipse esboça de forma simbólica


todo o curso da história da igreja desde Pentecostes até o advento de Cristo.
Os símbolos descrevem em sequência os grandes acontecimentos que tiveram
lugar, isto é, os selos são a dissolução do Império Romano, a erupção de
gafanhotos do abismo, um quadro das invasões de outros povos.

Cada acontecimento importante na história do cristianismo era assim


anunciado em termos amplos, de forma que Apocalipse é como que um
calendário prévio de acontecimentos históricos. A maior parte dos
reformadores, até o ponto em que discutiram o Apocalipse, como também a
maioria dos comentários mais antigos e muitos dos pregadores evangélicos
modernos, como A. J. Gordon e A. B. Simpson, todos dessa opinião. Pelo
menos, eles têm uma justificação explícita na frase de Apocalipse 4: 1- "Suba
para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas".

A teoria historicista é mais literal que a idealista, mas seus defensores nunca
tentaram ser unânimes quanto ao significado dos vários símbolos. Mesmo
entre os historicistas, há quase tantas interpretações quanto comentadores.
Nem todas elas podem estar certas, e, uma vez que divergem tanto, há pelo
menos a possibilidade de os métodos estarem errados.

A escola futurista

Os futuristas afirmam que os primeiros três capítulos de Apocalipse se aplicam


ao tempo em que o livro foi escrito, ou então que as sete igrejas da Ásia
representam sete épocas na história da igreja, lançando uma ponte sobre o
hiato existente entre a era apostólica e o regresso de Cristo. Até esse ponto, os
futuristas são historicistas.

Começando com a frase em Ap. 4:1, "o que deve acontecer depois dessas
coisas", afirmam que o resto do livro discute acontecimentos que terão lugar
em um período chamado de a Grande Tribulação, mesmo antes do regresso
de Cristo, o qual se prolongará por um período que varia de três anos e meio a
sete anos, consoante às opiniões.

Os acontecimentos de Apocalipse relegados para esse período são


interpretados tão literalmente quanto possível, sendo, portanto, considerados
como inteiramente futuros no que diz respeito à era presente.

30
As teorias milenaristas

Uma maneira um tanto diferente de encarar Apocalipse mais do ponto de vista


escatológico que do ponto de vista histórico é o que nos oferecem três outras
divisões de pensamento baseadas em interpretações distintas do capítulo 20. O
ponto crucial da interpretação gira em torno do problema se os "mil anos"
devem ser considerados como literais ou simbólicos, e se precedem ou se
seguem à segunda vinda de Cristo.

A teoria pós-milenista considera os mil anos como um símbolo provavelmente


de um longo período que precederá a vinda de Cristo. No começo desse
período, o triunfo do evangelho sobre as nações inaugurará um reino de paz,
que durará até Cristo voltar para julgamento final.

A teoria amilenista mantém que o milênio não existe como um período que
deva ser considerado de forma literal, ou que, possivelmente, represente um
estado intermediário dos mortos. Cristo pode voltar a qualquer momento,
quando julgará o mundo e introduzirá o estado de eterna felicidade para os
justos: os novos céus e a nova terra.

Segundo a teoria pré-milenista, Cristo voltará pessoalmente para iniciar seu


reinado; os justos serão ressuscitados, reinando somente com ele na terra
durante mil anos; após seu reino, haverá uma rebelião final que será
imediatamente reprimida; e os ímpios serão julgados, momento em que se
inicia o estado eterno.

Não há nenhuma relação necessária entre essas teorias e as interpretações


cronológicas acima definidas. Geralmente, a questão do milênio é tratada a
sério apenas pelos historicistas e pelos futuristas, visto que os preteristas e os
idealistas consideram os "mil anos" apenas como mais outro símbolo.

Chave hermenêutica

A verdadeira chave da interpretação de Apocalipse não se encontra em


nenhuma dessas teorias por maiores que sejam seus méritos, mas sim na
estrutura do próprio livro, ao apresentar a pessoa de Cristo. O próprio título do
livro, "Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu

para mostrar aos seus servos o que em breve há de acontecer"; (Ap.1: 1), indica
que o tema central, ao revelar o futuro, é a pessoa de Cristo.

Há certas dúvidas se a "revelação de Jesus Cristo" significa a revelação de sua


pessoa ou a revelação que Ele deu e que emana Dele.

Se a primeira interpretação do título fixa o tópico, então Apocalipse é um


descortinar da pessoa do Cristo, e como sua pessoa se relaciona com o futuro.

31
Se a segunda interpretação for adotada, o tópico principal é o programa do
futuro conforme mediado por meio de Cristo.

Ambas são gramaticalmente possíveis e ambas dão a Cristo o lugar central no


livro.

Muita controvérsia poderia ter sido evitada se os expositores abordassem


Apocalipse do ponto de vista neutro de sua estrutura literária, em que sua
escatologia dependeria de sua cristologia.

Um segundo indício do conteúdo do livro é fornecido pela forma que a


experiência do autor lhe deu.

É óbvio que o livro consiste de uma série de visões, cada uma das quais é uma
unidade em si. Se bem que haja muitas divisões pequenas introduzidas pela
frase "e vi" (Ap.5: 1-11 e 6: 1-9).

Há quatro divisões principais que são introduzidas pela frase "no Espírito" (Ap.1:
10; 4: 2; 17: 1-3; 21: 9,10).

Essas divisões são de conteúdo variado e de comprimento desigual, mas dão


ao livro uma estrutura unitária. Junto com o prólogo e epílogo, dividem
Apocalipse em seis seções.

Ao longo do livro, aparecem várias sequências de "setes".

Há sete igrejas (Ap.2: 1,8,12,18; Ap.3: 1,7,14); sete espíritos de Deus (Ap.4: 5), sete
selos (Ap.6: 1,3,5,7,9,12; Ap.8: 1); sete trombetas (Ap. 8: 6,7,8,10,12; Ap.9:1,13;
Ap.11:15), sete trovões (Ap.10:3), sete taças (Ap.16: 1,2,4,8,10,12,17), sete
personagens principais (Ap.12: 1,3,5,7; Ap.13: 1,11; 14.1), e sete beatitudes (Ap.1:
3; Ap. 14:13; Ap.16: 15; Ap.19: 9; Ap.20:6; Ap.22: 7,14).

Algumas dessas fazem parte da estrutura literária do livro e apresentam-se em


uma sequência bem próxima, mas outras não. O uso do número sete denota
um plano de pensamento que torna Apocalipse mais do que um acúmulo
fortuito de símbolos bizarros.

Ocorrem esporadicamente outras combinações ou séries numéricas: há vinte e


quatro anciãos (Ap.4: 4); quatro criaturas vivas (Ap. 4:6); quatro cavaleiros
(Ap.6:1-8); quatro anjos (Ap.9:14); cento e quarenta e quatro mil em
companhias de remidos (Ap.7:4 e 14.1); doze portas na cidade de Deus
(Ap.21:12); doze fundamentos (Ap.21:14); doze espécies de fruto na árvore da
vida (Ap.22:2) e várias outras.

Há outra frase que merece menção. Em Ap (4: 5) ; (8: 5); (11: 19) e (16: 18),
fala-se de: "relâmpagos, vozes e trovões". Essas três últimas ocorrem
respectivamente no final de uma série de julgamentos. Serão repetidas ou
constituirão indício de que os três julgamentos terminam ao mesmo tempo e,

32
por conseguinte, que cada julgamento é simplesmente uma intensificação de
seu precedente?

Apreciação

Não é possível esgotar o assunto em uma única aula, mas podemos fazer
algumas observações que serão de utilidade para você.

O estilo de Apocalipse é o da literatura apocalíptica, mas diferencia-se


nitidamente da generalidade de tais escritos por ter um autor determinado,
que nomeia a si mesmo, com um objetivo definido em vista. Seu principal
propósito não é predizer a história da igreja em todos os pormenores, mas
mostrar as tendências gerais da era presente e sua consumação no regresso
pessoal de Cristo. A tripla declaração e o chamado contido no epílogo: "Eis que
venho em breve!" (Ap.22:7; 12 e 20). Reitera a promessa de Cristo às suas
igrejas (Ap.2: 16 e 3: 11), tornando o livro um aviso para o mundo e um
encorajamento para o povo de Deus.

Todo o livro de Apocalipse está impregnado por certas unidades.

A pessoa de Cristo é dominante, primeiro como uma figura glorificada, de


rosto resplandecente, vestida de branco, que examina, reprova e aconselha a
igreja. Declara o direito de julgar e de punir com a autoridade do rolo selado,
ele é o Cordeiro que adquiriu esse direito por meio de sua obra redentora
(Ap.5: 4-7). Na execução do julgamento, é o Conquistador montado em um
cavalo branco, como um general romano em triunfo (Ap.19: 11), com o título
"REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES" (Ap.19: 16).

Na consumação de todas as coisas, é o Noivo de seu povo (Ap.19:7 e 21:9),


novamente intitulado Cordeiro, por causa da redenção que operou.

É discutível a disposição cronológica de Apocalipse.

As últimas duas secções sâo paralelas uma da outra.

A primeira, em Apocalipse 17:1 e 21:8, ocupa-se da condenação do sistema


mundial maligno, representado pela prostituta Babilônia.

A segunda, em Apocalipse 21:9 e 22:5, descreve o aparecimento final da noiva


de Cristo, a Nova Jerusalém.

O paralelismo dessas secções implica tanto semelhança como contraste.


Ambas são introduzidas por um dos "sete anjos que tinham as sete taças". O
mensageiro celestial convidou o vidente a contemplar a cena com a seguinte
declaração: "Venha".

Cada uma representa o término de um propósito; uma, o fim da tendência de


afastamento de Deus; e a outra, o fim da redenção.

33
O paralelismo de contrastes não fica menos claro. A primeira seção apresenta
uma prostituta, a segunda uma noiva.

A primeira coloca a cena em um deserto (Ap.17: 3), a segunda em uma


montanha (Ap.21: 10).

A primeira diz que a prostituta está coberta de nomes blasfemos (Ap.17: 3) ; e a


última, que os nomes das doze tribos e doze apóstolos se encontram escritos
na cidade santa (Ap.21: 12,14).

A primeira apresenta Babilônia, a cidade de corrupção e de julgamento


(Ap.17:6); a segunda descreve a Nova Jerusalém, que desce pura e casta do céu
(Ap.21:10); aquela parece em um castigo tremendo; esta perdura em luz eterna;
aquela é amaldiçoada, esta abençoada.

O livro de Apocalipse apresenta uma perspectiva divina da história.

Seja qual for a interpretação dada a seus símbolos no que diz respeito aos
pormenores, seu ponto de vista geral é o da santidade divina, que vê tanto as
virtudes como as deficiências das igrejas, tanto a condenação como a
esperança do mundo.

A mensagem às igrejas é enviada pela Figura que se move no meio dos


castiçais de ouro; a cena onde é administrado o julgamento gira em ramo do
trono de Deus (Ap.4:2 e 19:5), e o julgamento final é pronunciado desse
mesmo trono (Ap.20: 11).

Na descrição dos novos céus e da nova terra, o trono ocupa ainda o lugar
central (Ap.22:1) como manancial do rio da vida.

Essa ênfase sobre o trono torna claro o conceito da soberania de Deus em


Apocalipse e seu domínio eterno nos assuntos humanos.

O otimismo dominante do livro é contrabalançado pelo realismo de seu


quadro do mal. Não contém a menor sugestão de que o mundo vá melhorar
com o andar do tempo, nem que, no fim, toda a humanidade se volte para
Deus em arrependimento e fé. Descreve a última civilização como
extremamente próspera, culturalmente adiantada e absolutamente ateísta
(Ap.18:1-5).

O último ato da humanidade organizada é uma rebelião armada contra Deus e


seu Cristo (Ap.20:7-10).

Em nenhum outro livro da Bíblia, excetuando-se as palavras de Jesus, se


encontra, em traços mais terríveis, a condenação final do pecado (Ap.20: 15).

Para o homem moderno do século XXI, Apocalipse parece agora menos


apocalíptico do que o era para seu pai e seus avôs.

34
As referências misteriosas às imagens que falam (Ap.13: 15), ao fazer descer
fogo do céu (Ap.13:13), ao controle econômico de grandes massas de
população, à obediência obrigatória a uma religião sintética (Ap.13:14), à
devastação geral da terra por causa de transformações elementares e por
causa de transformações físicas no calor do Sol (Ap.16: 3,8), a convocação de
todos os reis da terra para combater (Ap.16:14), a direção das nações entregues
a uma ou duas pessoas (Ap.19: 19,20) e o colapso completo do centro de
civilização em uma hora (Ap.18: 18-20) não estão fora do âmbito das
possibilidades da era atual.

Em muitos respeitos, Apocalipse é o livro mais moderno que existe.

Considerações finais sobre Apocalipse

Deus nos falou através da Lei e dos Profetas; falou novamente por intermédio
de seu Filho, que "agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos,
para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo"; (Hb. 9: 26).

Deverá vir ainda uma revelação mais ampla quando ele aparecer "uma vez por
todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si
mesmo"; (Hb 9: 28).

É para essa revelação e para essa vitória que aponta o livro de Apocalipse.

E com a promessa final: "Eis que venho em breve!", termina o Novo


Testamento.

Indicação de Leitura

Deixo para vocês a primeira parte da leitura complementar:

A Igreja Expectante: Apocalipse. Espero que gostem! (Cap. 22, p.392-397)

O cânon do Novo Testamento

Creio que a formação do Cânon do Novo Testamento está entre os assuntos


que despertam grande curiosidade, afinal... Como foi que as coisas
aconteceram para que chegássemos aos livros bíblicos que conhecemos hoje?

O Novo Testamento, por toda clareza dos distintos testemunhos textuais, é


notavelmente homogêneo em seu comprometimento com seus temas básicos.
Ele fornece uma visão poderosa e atraente da realidade, tanto a terrível como a
bela, e convida os leitores de seus vários textos a adotar, com simpatia, e como
se fosse deles mesmo, sua visão cristocêntrica do universo.

35
No final do século 1 os livros que constituíam o Novo Testamento haviam
chegado ao seu destino. Nem todos se

tornaram conhecidos por todos os cristãos logo de início. Ao contrário, é muito


provável que alguns cristãos primitivos não tivessem visto todos os evangelhos,
nem todas as epístolas de Paulo, nem todas as outras epístolas antes do fim do
século. Além disso, muitos evangelhos apócrifos, atos e epístolas circularam
durante o século II e foram aceitos por alguns grupos, ou teriam sequer
sobrevivido.

Critérios ou princípios

Que critérios presidiram à aceitação de uns e à rejeição de outros?

De acordo com que princípios os quatro evangelhos, Atos, as treze epístolas de


Paulo, as epístolas universais e Apocalipse foram reunidos para constituir o
Novo Testamento, enquanto que outros livros de idade quase igual foram
excluídos?

São essas perguntas que constituem o problema do cânon do Novo


Testamento.

A palavra "cânon" deriva do grego kanon, que significa "cana”, portanto uma
vara ou barra que, por ser utilizada em medições, passou a significar
metaforicamente um padrão.

Em gramática, significava uma regra; em cronologia, uma tabela de datas; e em


literatura, uma lista de obras que podiam ser corretamente atribuídas a
determinado autor.

Assim, o cânon de Platão refere-se à lista de tratados que podem ser atribuídos
a Platão como genuinamente de sua autoria.

Os cânones literários são importantes, porque só as obras genuínas de um


autor podem revelar seu pensamento. A inclusão de escritos espúrios na lista
deformaria ou exprimiria erroneamente os princípios que ele desejava
apresentar.

Do mesmo modo, se não é possível estabelecer o cânon do Novo Testamento


com rigor, sua autoridade será incerta e não poderá haver um padrão comum
para fé e a vida.

Contrariamente ao princípio adotado para a maior parte da literatura, o cânon


do Novo Testamento não pode ser unicamente resolvido à base da questão de
autoria.

Os livros que ele contém foram escritos por nove autores diferentes, nem há
qualquer motivo especial por que só esses nove tivessem sido escolhidos. Não

36
há nenhuma explicação definida para o fato de Filipe, por exemplo, não ter
sido inspirado a Escrever um evangelho, como Mateus o foi.

O critério que torna todas essas obras canônicas não é certamente o de


uniformidade de autoria humana. No entanto, se fosse possível demonstrar
que qualquer dos livros do Novo Testamento era falsamente atribuído à
pessoa cujo nome ostenta, seu lugar no cânon ficaria sob suspeita.

A questão da aceitação

O cânon não pode ser determinado unicamente pela aceitação dos vários
livros do Novo Testamento pela igreja. Alguns foram recebidos prontamente
em muitas igrejas; alguns poucos foram aceitos com hesitação por certas
igrejas e rejeitados por outras; e alguns outros ainda só foram mencionados
em data relativamente tardia, ou então seu direito de ser incluído no cânon foi
realmente debatido. Os preconceitos locais ou os gostos individuais podiam
influenciar o veredito que fora transmitido pelas igrejas e pelos escritores da
Antiguidade.

Apesar desse fato, o que uma pessoa ou setor da igreja rejeitava outra pessoa
ou outro setor o aceitava. Tampouco, era verdade que aqueles que tinham a
responsabilidade de julgar fossem tão destituídos de espírito crítico que
aceitassem qualquer coisa que impressionasse sua imaginação,
independentemente de seus méritos inerentes.

A crítica dos antigos não era menos falível que a dos especialistas modernos.
Por outro lado, os antigos tinham acesso a registros e a tradições que já
pereceram, e seu testemunho não pode ser posto de lado simplesmente por
não pertencer ao século XX. A aprovação eclesiástica da canonicidade fornece
prova corroborante, se bem que, em si, possa não ser decisiva.

Inspiração como critério

Se os critérios acima apontados não são suficientes, então o que o será?

O verdadeiro critério da canonicidade é a inspiração. "Toda a Escritura é


inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e
para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente
preparado para toda boa obra” (2Tm 3: 16,17).

Em outras palavras, aquilo que foi dado pela inspiração de Deus era
escriturístico, e o que não veio por inspiração de Deus não o era, se "Escrituras"
significarem o registro escrito da Palavra de Deus revestida de autoridade.

Se esse critério for adotado como definitivo, necessitamos responder a uma


pergunta: "Como se demonstra a inspiração?". Os livros do Novo Testamento

37
não começam todos com a afirmação de que foram inspirados por Deus.
Alguns se relacionam com assuntos muito corriqueiros, outros contêm enigmas
históricos, literários e teológicos que, só com dificuldade, podem ser resolvidos.

Será possível mostrar sua inspiração a contento de todos?

A resposta a esse problema é tripla.

 Primeiro, a inspiração desses documentos pode ser apoiada


pelo seu conteúdo intrínseco.

 Segundo, essa inspiração pode ser corroborada pelo seu


efeito moral.

 Finalmente, o testemunho histórico da igreja cristã mostrará


o valor que era dado a esses livros, embora a igreja não
fizesse com que eles fossem inspirados ou canônicos.

Com respeito ao seu conteúdo intrínseco, todos eles têm como tema central a
pessoa e a obra de Jesus Cristo.

Os evangelhos têm certo caráter biográfico; Atos registram os efeitos históricos


de sua personalidade; as epístolas prendem-se com ensinamentos teológicos
práticos que emanam da contemplação de sua pessoa, e Apocalipse prediz sua
relação com o futuro.

A objeção de que qualquer personagem eminente da Antiguidade poderia ser


imortalizado por meio de um agregado de literatura não é válida.

Fora do Novo Testamento não há indicação de que Jesus Cristo fosse


considerado importante pelos dirigentes e mestres de seu tempo, e não havia
qualquer razão natural para que os escritos que diziam respeito à pessoa do
Salvador sobrevivessem no mundo romano.

O Novo Testamento confessa que a mensagem referente a Cristo era um


"escândalo para os judeus e loucura para os gentios" (1Co 1: 23).

Aos olhos de seus contemporâneos, ele não era mais do que qualquer outro
aspirante ao título de Messias, suprimido pelo governo.

Se a literatura que lhe diz respeito resistiu e se tornou poderosa, deve ter
havido qualquer coisa para produzir semelhante efeito.

A mensagem referente à pessoa de Cristo era única. No século1, não eram


desconhecidos os cultos que tinham indivíduos no centro, mas esses indivíduos
eram míticos, ou então, se eram históricos, sua adoração não perdurava. Essa
mensagem única gira em torno dos livros chamados canônicos.

38
Os apócrifos

Os apócrifos, tanto os evangelhos como Atos, preocupam-se mais com os


milagres do que com o ensino, e as poucas epístolas apócrifas não passam de
mosaicos de trechos extraídos do cânon reconhecido.

Em precisão de narrativa, de profundidade de ensino e do aspecto


cristocêntrico, há uma diferença discernível entre os livros canônicos e os que
não o são.

Em efeito ético e espiritual, os livros canônicos são diferentes. Toda a literatura


pode registrar o pensamento humano; algumas obras podem influenciá-lo
profundamente; mas os livros do Novo Testamento transformam-no. Seu
poder constitui uma boa prova de sua inspiração. Embora essa prova pareça
altamente subjetiva por se basear na reação humana à palavra escrita, ela, no
entanto, éválida.

Caráter dinâmico

Os escritos do Novo Testamento não constituem apenas leitura proveitosa; são


também potentes e dinâmicos.

Seu efeito moral é demonstrado pelo seu poder dentro da igreja cristã. Embora
não se possa dizer que todo membro da igreja primitiva tivesse um exemplar
de bolso do Novo Testamento para estudo assíduo, pode-se demonstrar que
os dirigentes o conheciam e o utilizavam; onde quer que sua mensagem fosse
proclamada e recebida, a igreja se expandia e operava uma limpeza moral na
sociedade.

Nem todo cristão professo do século 1 em diante tinha caráter imaculado;


tampouco a igreja se mostrava sempre isenta do mal. Apesar desses fatos,
entre os padrões morais do paganismo e os da igreja do Novo Testamento
havia um grande abismo; surgiram o amor, a pureza, a humildade, a verdade e
muitas outras virtudes que mal existiam no paganismo. Por mais frouxamente
que os cristãos seguissem os ideais que os caracterizavam, distinguiam-se dos
pagãos que os cercavam, graças ao poder da verdade do Novo Testamento.

As provas da mensagem divina e do poder moral desses livros não podem ser
aplicadas com sucesso por um único indivíduo em uma esfera limitada, para
que se não argumente que a dinâmica do cânon era apenas o efeito fortuito
produzido pela relação acidental tempo-temperamento. Quando o
testemunho interno das próprias obras e o testemunho externo daqueles que
as conheciam e a utilizavam são unânimes em mostrar que elas provêm de
Deus, os critérios de canonicidade tornam-se mais seguros.

39
Autoria e Cânon

A investigação da evidência interna dos livros do Novo Testamento revela que


seus autores se arrogavam certa autoridade canônica.

O Antigo Testamento era citado livremente como "palavra de Deus", inspirada


e proveitosa tanto para fé como para vida (2Tm 3: 15-17; 2Pe 1: 20,21; Hb 8: 8;
At 28:25).

No entanto, junto com isso, havia um apelo à "palavra do Senhor", uma


referência aos ensinamentos de Jesus (1Co 9: 9,13,14; lTs 4:15; 1Co 7: 10,25). E
essas duas normas eram consideradas autoridade divina para os ensinamentos
da igreja primitiva.

Além disso, é possível revelar o apelo da revelação divina aos apóstolos, como
também por meio deles.

Paulo declarou que fora enviado "não da parte de homens nem por meio de
pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai" (Gal 1:1), e que não
recebeu sua mensagem, nem o que ele ensinou, de homens, mas "de Jesus
Cristo por revelação" (v. 12).

O Evangelho que ele pregava era aceito por seus ouvintes "não como palavra
de homens, mas conforme ela verdadeiramente é, como palavra de Deus, que
atua com eficácia em vocês, os que creem"; (1Ts 2: 13).

Qualquer outra mensagem distinta dessa não é proveniente de Deus, e


declara-se uma maldição de algum tipo para aquele que proclama outro
evangelho, ou que seja desobediente à instrução apostólica (Gal 1: 6-9; 2Ts
3:14).

A coleção das epístolas de Paulo foi logo reconhecida pela igreja. Assim, houve
um movimento em direção à ideia de um "cânon" quando ficou claro que as
epístolas de Paulo eram consideradas em termos de igualdade às outras
Escrituras (2Pe 3:15,16).

RECONHECIMENTO DO CÂNON

Conforme se observou acima, a decisão final do problema do cânon não podia


ser tomada arbitrariamente por uma só pessoa ou por um só grupo local.

A distinção entre os livros canônicos e os não canônicos foi produto de uma


consciência espiritual em desenvolvimento. Em uma data remota, porém,
traçaram-se linhas de discriminação, tampouco foram meramente o resultado
de preferências ou de preconceitos pessoais alheios a um espírito crítico. A
igreja não determinou o cânon; mas reconheceu o cânon. No sentido mais

40
amplo, nenhum concílio eclesiástico poderia criar um cânon, se a inspiração é a
qualidade essencial da canonicidade, porque nenhum grupo ou concílio
poderia insuflar inspiração em obras já existentes. Tudo quanto os concílios
podiam fazer era dar sua opinião acerca dos livros que eram canônicos e dos
que não eram e, depois, deixar que a história justificasse ou invalidasse seu
veredicto ou o revertesse.

O testemunho externo quanto à existência de um cânon do Novo Testamento


é simultaneamente informal e formal.

O testemunho informal consiste no uso corrente dos livros do Novo


Testamento pelos pais da igreja primitiva. Suas citações atestam tanto a
existência quanto a autoridade desses livros, pois era impossível citar livros que
não existiam, e a maneira como a citação é feita mostra se ela implica
autoridade ou é apenas uma alusão passageira.

O testemunho formal é encontrado em cânones, ou listas, compilados


propositadamente como padrão de autoridade, ou nas atas dos concílios que
se ocuparam do problema.

As citações, é claro, podem ser questionadas, visto serem tão indiretas que
suas origens eram incertas. Em muitos exemplos, porém, mesmo que a citação
seja inexata, seu vocabulário ou conteúdo identifica-a como pertencente a
algum livro que o autor da citação deve ter conhecido e usado, de forma que é
válida para todos os fins práticos.

Os testemunhos informais

O documento mais antigo contendo citações de qualquer dos livros do


NovoTestamento foi provavelmente Clemente, obra considerada canônica
autêntica por alguns cristãos. Encontra-se no Códice Alexandrino, incluída com
os livros do Novo Testamento. Foi escrita de Roma à igreja de Corinto,
sendo-lhe geralmente atribuída a data de aproximadamente 95 d.C. Contém
alusões claras ao livro de Hebreus, 1 Coríntios e Romanos, como também ao
Evangelho de Mateus.

Inácio de Antioquia na Síria (cerca de 116 d.C.) conhecia todas as epístolas de


Paulo e citava Mateus, com uma possível alusão a João. Ele considerava
autoridades "os profetas, mas acima de tudo o Evangelho", como também
considerava as palavras do Senhor (provavelmente em forma oral) como
autoritativas, assim como o Antigo Testamento também o era.

Policarpo de Esmirna (cerca de 150 d.C.) estava também familiarizado com as


epístolas paulinas e o Evangelho de Mateus. Cita 1Pedro e 1João e,
provavelmente, conhecia Atos.

41
OUTROS ESCRITOS DÃO TESTEMUNHO

A Didaquê, produzida durante a primeira metade do século II, serve-se


simultaneamente de Mateus e de Lucas, bem como de muitos outros livros do
Novo Testamento.

A Epístola de Barnabé (cerca de 130 d.c.) cita Mateus, recorrendo à frase formal.
"Está escrito", para introduzir a citação. Essa passagem "pode também ser
apresentada como evidência para o fato de que se começa a atribuir igual
valor ao Evangelho e às Escrituras do Antigo Testamento" (Kümmel).

Justino Mártir (cerca de 100 a 165 d.C.), um grego sírio que fora filósofo,
refere-se a

Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos e muitas das epístolas paulinas. Ele afirma
que as "memórias dos apóstolos", chamadas evangelhos, eram lidas todos os
domingos na adoração da igreja junto com o Antigo Testamento. A partir das
afirmações de Justino, percebemos que, junto com o Antigo Testamento, uma
nova norma (i.e., cânon) começa a aparecer com referência à leitura das
Escrituras do culto da igreja primitiva.

Seu aluno Taciano compôs a primeira harmonização dos evangelhos, chamada


o Diatessaron, que foi uma obra padrão para a igreja durante muitos anos.

Na era de Irineu, que floresceu por volta de 170 d.C., já não havia dúvidas
quanto a serem os livros do Novo Testamento revestidos de autoridade. O
crescimento do gnosticismo e de heresias semelhantes provocou um caudal de
literatura de apologética que prosseguiu até ao tempo de Orígenes (250 d.C.).
A necessidade de uma base de autoridade para discussão tornava-se evidente,
e os apologistas voltavam-se naturalmente para os escritos apostólicos. Irineu
utilizou e citou extensamente todos os quatro evangelhos, Atos, as epístolas de
Paulo, muitas das epístolas universais e Apocalipse. Disse ele que só poderia
haver quatro evangelhos, e que qualquer tentativa para aumentar ou diminuir
esse número seria uma heresia. Citou Paulo mais de duzentas vezes. Em uma
passagem, criticou Marcião por dizer que só Lucas e as epístolas de Paulo eram
autênticas, o que implicava que aceitava como revestidos de autoridade não só
os escritos reconhecidos por Marcião, mas também outros.

Aludiu a todos os livros do Novo Testamento, exceto Filemom e 3João.

Tertuliano de Cartago (cerca de 200 d.C.) citou todos os livros do Novo


Testamento, exceto Filemom, Tiago, 2 e 3João. Como Irineu, citou-os, como
prova da verdade. Ao reconhecer para igreja "o completo instrumento de cada
testamento", ele deixou claro que há um "Antigo Testamento" e um "Novo
Testamento".

42
Orígenes, o grande pai alexandrino, contemporâneo de Tertuliano (cerca de
185 a 250 d.C.), estava familiarizado não só com a igreja de sua própria cidade,
mas também viajara muito a Roma, a Antioquia, a Cesaréia e a Jerusalém.

Dividia os livros sagrados em duas classes: os homologoumena, que eram


indubitavelmente autênticos e aceitos por todas as igrejas, e os antilegoumena,
que eram disputados e não eram aceitos por todas as igrejas.

Os primeiros incluíam os evangelhos, treze epístolas de Paulo, 1Pedro, 1João,


Atos e Apocalipse.

A última classe era constituída por Hebreus, 2Pedro, 2 e 3João, Tiago e Judas.
Na mesma classe, incluía Barnabé, Pastor de Hermas, a Didaquê e o evangelho
dos Hebreus.

Em algumas ocasiões serviu-se de muitos desses escritos como inspirados, de


forma que não definiu as linhas do cânon tão rigorosamente, como aconteceu
mais tarde.

No período nicênico, Eusébio de Cesaréia (cerca de 265 a 340 d.C.) trilhou o


caminho de Orígenes. Colocou na categoria de livros aceitos os evangelhos, as
catorze epístolas de Paulo, incluindo-se Hebreus, 1Pedro, Atos, 1João e
Apocalipse.

Entre os livros disputados encontravam-se Tiago, Judas, 2Pedro, 2 e 3João.


Rejeitou cabalmente Atos de Paulo, Apocalipse de Pedro, Pastor de Hermas e
outros escritos, estabelecendo uma linha nítida entre as obras canônicas e as
apócrifas.

Esses homens, os dirigentes da igreja, embora não concordassem sobre a


canonicidade de todos os livros do Novo Testamento, mostram muito
claramente que já em seu tempo começava a se formar um cânon, e que
alguns livros eram aceitos sem hesitação, enquanto outros eram considerados
dúbios.

As listas formais ou cânones

A lista dos livros do Novo Testamento conhecidos ou aceitos por determinadas


igrejas ou dirigentes individuais pode ser deduzida das citações e das
afirmações que ocorrem nas obras dos pais da igreja primitiva. Tais listas,
porém, não eram oficiais, pois nem sempre representavam mais do que apenas
preferências ou opiniões particulares. Algumas vezes, refletiam uma prática
geral, mas, não raro, representavam o cânon de uma localidade, de uma igreja
ou de um homem.

43
O primeiro cânon conhecido a ser adotado conscientemente por um grupo
importante e unitário foi o Cânon de Marcião, que apareceu cerca de 140 d.C.

MARCIÃO

Marcião nasceu em Sinope, no Ponto, onde seu pai era bispo. Era tão hostil aos
judeus que repudiou todo o Antigo Testamento e procurou estabelecer um
cânon do Novo Testamento isento de influências

judaicas. Escolheu Lucas como seu evangelho, se bem que rejeitasse os dois
primeiros capítulos contendo o relato do nascimento virginal e servia-se de dez
epístolas de Paulo, excluindo as pastorais e Hebreus. Sua lista começava com
Gálatas, seguindo-se 1 e 2Coríntios, Romanos, 1 e 2Tessalonicenses, Efésios (a
que chamava Laodicenses), Colossenses, Filipenses e Filemom.

O cânon de Marcião provocou uma reação violenta na igreja. O fato de rejeitar


certos livros mostrava que tinham sido considerados como revestidos de
autoridade no tempo de Marcião, e os oponentes deste acorreram em defesa
dos livros que ele rejeitara.

Tertuliano escreveu cinco livros contra seus erros.

A organização arbitrária de um cânon por Marcião mostrou que os livros que


aceitou deviam ser considerados indiscutivelmente autênticos, e que aqueles
que rejeitaram eram aceitos como canônicos pelos cristãos em geral.

Uma segunda lista de grande importância foi o Cânon Muratoriano, nome este
que deriva do historiador e bibliotecário italiano que primeiro o encontrouna
Biblioteca Ambrosiana, em Milão. O próprio manuscrito não é mais antigo do
que o século VII, mas seu conteúdo pertence provavelmente ao último terço
do século II,(170 d.C.). O manuscrito não está completo, pois constitui apenas
um fragmento de uma obra maior. Começa no meio de uma frase, e o primeiro
livro mencionado é Lucas, a que o fragmento chama de o terceiro evangelho.

É quase certo que Mateus e Marcos precederam Lucas nessa lista; segue-se
João, com uma referência inconfundível à primeira epístola. Atos, 1 e
2Coríntios, Efésios, Filipenses, Colossenses, Gálatas, 1 e 2Tessalonicenses,
Romanos, Filemom, Tito, 1 e 2Timóteo, Judas, 2 e 3João e Apocalipse são
também incluídos.

CÂNON MURATORIANO

O autor do fragmento muratoriano rejeitava as epístolas de Paulo aos


laodicenses e aos alexandrinos; e, embora incluísse o Apocalipse de Pedro na

44
mesma classe "reconhecida" do Apocalipse de João, tinha dúvidas acerca do
primeiro, pois disse: ''Alguns de vocês não acham que deva ser lido
publicamente na igreja”. Não menciona Tiago nem Hebreus, nem as

epístolas de Pedro; talvez ignorasse sua existência, se bem que não pareça
possível que se esquecesse de Hebreus, pois Clemente de Roma citava essa
epístola tão livremente.

Uma lista africana do século IV (360 d.C.), compilada por um desconhecido,


incluía os quatro evangelhos, treze epístolas de Paulo, Atos, Apocalipse, três
epístolas de João, das quais o escritor conhecia apenas uma, e duas de Pedro,
dasquais considerava apenas uma como autêntica.

A LISTA DE ATANÁSIO

A "Carta Festal" de Atanásio (367 d.C.) estabelece uma distinção nítida entre "os
escritos inspirados por Deus [...] transmitidos aos nossos pais por aqueles que
foram testemunhas oculares e servos da palavra desde o início", e os
"chamados escritos secretos" dos hereges.

A lista de Atanásio incluía os quatro evangelhos, Atos, Tiago, 1 e 2Pedro, 1, 2 e


3João,

Judas, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e


2Tessalonicenses, Hebreus, 1 e 2Timóteo, Tito, Filemom e Apocalipse. Atanásio
afirmou: "Estes são mananciais da salvação [...] que ninguém lhes acrescente ou
deles retire seja o que for".

Os pais da igreja empenhados em controvérsias eram mais positivos quanto à


veracidade e à confiabilidade dos escritos do Novo Testamento do que aqueles
que os citavam simplesmente para edificação dos fiéis, pois esses últimos
aceitavam-nos incondicionalmente, enquanto os pagãos e hereges não tinham
essa mesma atitude.

Em finais do século IV, a opinião pública tinha concordado unanimemente na


autoridade e autenticidade desses livros.

OS CONCÍLIOS

A discussão formal no cânon por delegados da igreja, reunidos em concílio


oficial, teve lugar somente em finais do século IV.

O primeiro concílio onde o assunto foi ventilado foi o de Laodicéia,

em 363 d.C. Ao que parece, não era uma assembleia plenária de todas as
igrejas, mas representava principalmente a região da Frígia. O 59° artigo desse
concílio decretava que nos cultos da igreja só se deveriam ler livros canônicos

45
do Novo Testamento; mas 16° artigo, que continha uma lista definitiva,
provavelmente não é genuíno nem pode ser citado como averdadeira decisão
do concílio.

Em 397, o terceiro Concílio de Cartago emitiu um decreto semelhante ao do


Sínodo de Laodicéia e apresentou uma lista de escritos idêntica à dos vinte e
sete livros do atual Novo Testamento.

Em 419, o Concílio de Hipona repetiu a mesma decisão e a mesma lista.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Dos dados aqui reunidos, é evidente que nem todos os atuais livros do Novo
Testamento eram conhecidos ou aceitos por todas as igrejas do Oriente e do
Ocidente durante os primeiros quatro séculos da era cristã.

Alguns, como os evangelhos, já eram conhecidos desde os dias mais remotos;


outros, como Hebreus, eram conhecidos, mas postos em dúvida graças à
incerteza de sua autoria; outros ainda, como 2Pedro, e, 2 e 3João, eram sequer
mencionados, ou seu direito de ingressar no cânon era disputado. Nenhum
desses livros foi aceito pelas igrejas em resultado de coação eclesiástica.

Os concílios que discutiram o cânon só tiveram lugar no século IV e, nessa


época, o Novo Testamento já se tornara as Escrituras da igreja.

A relutância aparente com que certos livros, como Tiago, 2 e 3João e Judas
foram incluídos no cânon não significa que fossem espúrios. Filemom, 2 e
3João e Judas são epístolas tão curtas que só raramente seriam citadas, e, além
disso, foram dirigidas a indivíduos cuja localização pode ter sido obscura. Ao
contrário das epístolas maiores, enviadas às igrejas importantes ou postas a
circular pelas províncias, as epístolas menores só atrairiam a atenção geral
quando houvesse procura delas ou quando as pessoas ou grupos a que
pertenciam chamassem para elas a atenção do público.

As variações do cânon, portanto, eram resultantes das condições e dos


interesses locais. Mostravam, todavia, que, apesar da superstição, as igrejas e
seus dirigentes não aceitavam cegamente todos os manuscritos que
ostentassem o nome de um apóstolo ou que professassem relatar
acontecimentos históricos e ensinamentos até ali não revelados.

O cânon existente saiu de um vasto corpo de tradição oral e escrita e de


especulação e impôs-se às igrejas graças à sua autenticidade e poder dinâmico
inerente.

Dois fatores, pelo menos, foram relevantes a essas escolhas dos livros:

46
1. Exigia-se a autoria apostólica, e
2. O escrito era direcionado para a igreja como um todo
- critério refletido, por exemplo, no cânon
muratoriano.

Notam-se três estágios no começo do desenvolvimento do cânon:

Primeiro, os escritos do Novo Testamento são citados individualmente por


autores que aceitam automaticamente a força de seu testemunho mais do que
se servem deles em polêmica;

Segundo, polemistas como Irineu e Orígenes, engajados nessa controvérsia,


sentiam a necessidade de definir a autoridade em que se apoiavam, mas não
apelavam para qualquer decisão eclesiástica especifica;

Finalmente, veio o veredicto dos concílios, que seguiu o critério dos dirigentes
passados e contemporâneos e estabeleceu uma distinção oficial entre as obras
canônicas e as apócrifas.

Essa distinção refletiu-se na lista dos livros em suas várias versões e


manuscritos utilizados pelas igrejas. Os grandes manuscritos, o Códice Sinaítico
(Aleph) e o Códice Vaticano (B), datando do século IV; incluíam originalmente
todo o Novo Testamento.

Códice Sinaítico

A versão siríaca admitiu em seu cânon 2 e 3João, 2Pedro, Judas e o Apocalipse


só no século VI.

Um estudo dos vários livros citados, listas e cânones dos primeiros quatro
séculos mostrará que os livros geralmente mais debatidos, ou omitidos, eram
Tiago, Judas, 2Pedro, 2 e 3João e Filemom.

Podem-se sugerir várias razões para negligenciarem esses livros.

Tiago foi escrito para os membros da dispersão judaica e tinha pouco interesse
doutrinário que estimulasse a mentalidade especulativa dos cristãos gregos.

Judas, 2 e 3João e Filemom eram tão breves que tinham pouco conteúdo que
seria de interesse geral.

As últimas três epístolas eram também particulares ou semiparticulares quanto


ao seu conteúdo, de forma que podem não ter sido postas em circulação tão
rapidamente como as obras mais extensas de seus autores.

2Pedro foi objeto de dissensão até a era de Eusébio, sendo menos citada e
mais discutida pelos pais da igreja do que qualquer outro livro do Novo
Testamento. Jerônimo declarava que a hesitação dos pais da igreja em aceitar

47
essa epístola era graças ao fato de seu estilo ser tão diferente da epístola de
1Pedro.

Desde o século IV, não há transformações de monta no cânon reconhecido,


embora desde a Reforma para cá, se tenha dado expressão a muitos pontos de
vista individuais. Lutero rejeitava veementemente a epístola de Tiago,
principalmente por não parecer coadunar-se com a doutrina da justificação
pela fé. Calvino nutria dúvidas quanto a 2Pedro.

Em tempos mais recentes, o avanço da crítica histórica quase dissolveu a ideia


da existência de qualquer cânon, fazendo da diferença entre a literatura do
Novo Testamento, os livros apócrifos e os escritos dos pais da igreja uma
diferença de grau ou de tempo mais que de espécie ou qualidade. Tal
conclusão tiraria ao Novo Testamento qualquer autoridade objetiva, tornando
impossível qualquer aplicação geral da verdade que encerra.

O cânon, portanto, não é produto do critério arbitrário de qualquer pessoa,


nem foi determinado por voto conciliar. Resultou do emprego dos vários
escritos que provavam seu mérito e sua unidade por causa de seu dinamismo
interno.

Alguns livros foram reconhecidos mais lentamente do que outros em razão da


brevidade, ou por causa do caráter remoto, ou particular, de seu destino, ou
em virtude do anonimato quanto à autoria, ou ainda em razão da aparente
falta de aplicabilidade às necessidades eclesiásticas imediatas. Nenhum desses
fatores milita contra a inspiração de qualquer desses livros ou contra seu
direito de ter um lugar na palavra autorizada de Deus.

Indicação de Leitura

Pessoal, não deixem de realizara última leitura da nossadisciplina: “A formação


do Cânon no Novo Testamento” (p.547 -556). Boa

Terminamos aqui nossas aulas!

Desejo a todos bons estudos e sucesso!

48
Referência:

TENNEY Merril C. O Novo Testamento, sua origem e análise. São Paulo: Shedd,
2008.

49
Esperamos que este guia o tenha ajudado compreender a organização e o
funcionamento de seu curso. Outras questões importantes relacionadas ao curso
serão disponibilizadas pela coordenação.
Grande abraço e sucesso!

Esperamos que este guia o tenha ajudado compreender a organização e o


funcionamento de seu curso. Outras questões importantes relacionadas
ao curso serão disponibilizadas pela coordenação.
Grande abraço e sucesso!

50

Você também pode gostar