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Universidade Federal de Minas Gerais

Faculdade de Direito

Karina Silvares
Maria Fernanda Martins
Raphael Ferreira

Análise dos Acórdãos Rutili (1975), Patrick (1977), Cassis de Dijon (1979) e o princípio
da livre circulação

Belo Horizonte
2019
Introdução
O presente trabalho pretende analisar a importância de acórdãos do Tribunal de Justiça
Europeu (ou apenas TJ) da década de 70, ou seja, a Europa a esta época estavam em uma
integração pela Comunidade Econômica Europeia, que se tratava de uma fase de transição
entre uma União Aduaneira para um Mercado Comum1. Assim, a análise que faremos
pretende mostrar como os acórdãos foram essenciais para a consolidação do princípio da livre
circulação, um dos requisitos para classificar um determinado bloco de integração como
Mercado Comum.

O Caso “Rutili”
No que tange a esse princípio, o acórdão do Ministro do Interior Rutili2 se destaca.
Este caso, em breve descrição, trata-se de um cidadão italiano que estava sendo restringido de
ter acesso a um certo departamento francês, no qual residia sua família, em função da
Diretiva3 n° 64/221 do Conselho, de 25 de Fevereiro de 1964, que permitia essa restrição “por
razões de ordem pública, segurança pública ou saúde pública”. No entanto, isso era pautado
em tratamento diferenciado entre estrangeiros e nacionais, que foi esclarecido pelo TJ como
contrário aos princípios da Convenção Europeia dos Direitos do Homem (CEDH), bem como
ao Regulamento do Conselho n. ° 1612/68 e a Diretiva do Conselho n° 68/360, ambos de 15
de Outubro de 1968. O que é extraordinário desse caso, no entanto, é a utilização dessa
convenção como fonte do direito comunitário para restringir o direito interno dos Estados-
membros.
Segundo Lucas Fonseca e Melo (2016)4, o TJUE se divide em três fases principais: a
primeira, se trata de um momento positivista ou agnóstico no qual não há um reconhecimento
dos direitos fundamentais como fonte do direito comunitário, mas apenas os tratados de

1
Em poucas palavras, a União Aduaneira consiste em um acordo de livre comércio entre os países,
além de conter uma política externa comum, além de algumas políticas externas comuns, também. A grande
diferença desta para o Mercado Comum, é que neste, existe a livre circulação de pessoas, serviços e capitais,
bem como outros direitos que materialização essa circulação, como o direito à permanência.
2
UNIÃO EUROPÉIA. Tribunal de Justiça. Acórdão TJUE de 25 de Outubro de 1975, Rutili, Processo
36/75, Col. 1975, p. 415.
3
“Um ‘regulamento’ é um ato legislativo vinculativo, aplicável em todos os seus elementos em todos
os países da UE”. Por outro lado, “uma ‘diretiva’ é um ato legislativo que fixa um objetivo geral que todos os
países da UE devem alcançar. Contudo, cabe a cada país elaborar a sua própria legislação para dar cumprimento
a esse objetivo”. Em outras palavras, a principal diferença é que a diretiva permite que o Estado-membro tenha
mais discricionariedade no meio em que ele vai alcançar uma determinada meta fixada por ela. UNIÃO
EUROPEIA. Regulamentos, diretivas e outros atos legislativos. [S. l.], 2013. Disponível em:
https://europa.eu/european-union/eu-law/legal-acts_pt. Acesso em: 16 jun. 2019.
4
MELO, Lucas Fonseca e; JÚNIOR, José Levi Mello do Amaral. O efeito direto das diretivas e os
direitos fundamentais. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 13, n. 2, 2016, p. 536-563.
integração. Na segunda fase, o Tribunal, percebendo o risco desse agnosticismo, passa a
integrar os direitos fundamentais aos princípios gerais do Direito Comunitário, tendo em vista
as tradições constitucionais comuns aos Estados-membros. Chegando à terceira fase, e aqui
reside a importância da jurisprudência de Rutili, acrecenta-se os instrumentos internacionais,
por exemplo a CEDH, de que os Estados eram parte em comum como fonte primária do
direito comunitário.
Dessa maneira, a jurisprudência supracitada é de extrema importância na medida em
que, segundo Nuno Piçarra (1996)5, o TJ passa a se considerar competente para apreciar um
caso segundos os princípios gerais desses instrumentos internacionais, como os dos artigos 8°,
9°, 10 e 11 da CEDH. Portanto, é possível apreciar, em relação a esses princípios, não apenas
limitações à liberdade de circulação dos trabalhadores, mas também de mercadorias, prestação
de serviço e permanência. Além disso, estende-se esse controle aos atos legislativos e
regulamentares restritivos da liberdades comunitárias fundamentais e, de forma mais geral, a
quaisquer atos normativos que apresentam alguma conexão com o direito comunitário.
A partir dessas considerações, é possível perceber que a União Europeia tem como
política efetivar, de fato, um Mercado Comum, na medida em que para a concretização do
princípio da livre circulação de pessoas, pressupõe-se o tratamento equitativo entre
estrangeiros e nacionais no que tange à prestação de serviços, direito à permanência, etc. Essa
efetivação se inclui nos Tratados a partir de uma lógica de revisão jurisprudencial, motivo da
importância de se analisar esses casos; como aponta Vital Moreira6, “muito antes da adesão
formal verificou-se uma adesão jurisprudencial”.
Ademais, também é perceptível por esses acórdãos a diferenciação entre o direito
internacional e o direito da integração, pois, como nota Fonseca e Melo (2016)7,
O direito da União Europeia forma um sistema jurídico autônomo, não se confundindo com o
direito internacional ou com o direito interno de um Estado-membro. É composto por um
conjunto de normas ordenadas hierarquicamente. Tem como caraterística singular a
supranacionalidade. (...) diferentemente do que ocorre na ordem jurídica internacional clássica,
a ordem jurídica da União Europeia pressupõe a partilha da soberania dos Estados-membros,
que se submetem a uma ordem jurídica superior de caráter supranacional.

5
PIÇARRA, Nuno. A Competência do Tribunal de Justiça das Comunidades Européias para Fiscalizar
a Compatibilidade do Direito dos Estados-Membros Com a Convenção Européia dos Direitos do Homem: Um
Estudo de Direito Constitucional. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS, Porto Alegre, v. 12, 1996, p. 212-
236.
6
MOREIRA, Vital. O tempo e a transposição de diretivas no direito da União Europeia. In: ESTUDOS
em homenagem a Miguel Galvão Teles. Coimbra: Almedina, 2012. v. 1. p. 717-745.
7
MELO, Lucas Fonseca e; JÚNIOR, José Levi Mello do Amaral. O efeito direto das diretivas…, cit.,
p. 536-563.
Portanto, a exigência do tratamento equitativo entre estrangeiro e nacional exigida
pela decisão do TJ, de forma a suprimir uma norma interna estatal demonstra a necessidade de
partilhar a soberania com os outros países do bloco de integração, estabelecendo uma lógica
completamente diferente do pressuposto de autonomia dos ordenamentos nacionais que
ocorre no direito internacional.
Em suma, a equalização exigida pelo TJ é inovador na medida em que se utiliza de
uma fonte que abre margem para o Tribunal regular outras áreas relacionadas ao direito
comunitário que não apenas a liberdade de circulação. Isso promove uma maior efetivação do
princípio da livre circulação, necessário ao Mercado Comum, por meio do exercício da
supranacionalidade, mostrando como o direito da integração se diferencia do direito
internacional.

O Caso “Patrick”
O segundo caso a ser analisado é o caso acórdão Patrick/Ministério da Cultura de
1977. O caso trata-se de um cidadão britânico, Richard Hugh Patrick, que possuía diploma de
arquitetura emitido no Reino Unido pela Architectural Association, que, no início do ano de
1973, solicitou uma autorização para exercer a profissão de arquiteto na França. Nesse
sentido, a lei francesa 1940 que regulamentava a profissão de arquiteto previa que cidadãos
estrangeiros poderiam exercer a profissão na França em condições de reciprocidade
estabelecidas nas convenções diplomáticas e mediante apresentação de títulos equivalentes ao
diploma exigido aos arquitetos franceses. Além disso, a lei dispunha no caso dos estrangeiros
não abrangidos pelas disposições eles poderiam a título excepcional, obter a referida
autorização.
Entretanto, mesmo que um decreto Ministerial de 1964 tenha reconhecido a
equivalência do diploma da Architectural Association, a autorização solicitada por Patrick foi
indeferida. Para isso, foi utilizada a justificativa de que a autorização prevista na lei de 1940 é
de caráter excepcional sempre que não existir convenção de reciprocidade entre a França e o
país de origem do candidato, no caso o Reino Unido. Ademais, na falta de convenção
específica com esse objeto entre os Estados-membros da CEE, o Tratado que institui a
Comunidade Económica Europeia não a pode substituir, visto os artigos 52°e 58°, que se
referem à liberdade de estabelecimento, remeterem, sua realização, para diretivas do Conselho
ainda não aprovadas.
Assim, Patrick interpôs um recurso para anulação dessa decisão no Tribunal
administrativo de Paris, alegando que a decisão feria os artigos 52°, 53° e 54° do Trado de
Roma. O artigo 52° previa que as restrições ao estabelecimento seriam progressivamente
suprimidas e que o acesso às atividades não assalariadas e ao seu exercício seria definido pela
legislação do país de estabelecimento sendo a mesma aplicada a seus cidadãos e aos
estrangeiros. O artigo 53° previa que novas formas de restrição ao estabelecimento não
poderiam ser introduzidas pelos os Estados-membros e o 54° previa um programa geral para
supressão das restrições à liberdade de estabelecimento.

Neste Sentido o Tribunal de Paris enviou a questão ao Tribunal de Justiça Europeu,


quanto a interpretação dos artigos 52 a 54. O TJ deu sentença favorável a Patrick, baseando-se
no artigo 52° do Trado de Roma. O tribunal entendeu que esse artigo prevê uma obrigação de
um resultado determinado que deve ser facilitado pelo programa, porém não está
condicionado a ele. Além disso, refutou o argumento da não aplicação por não haverem
diretivas, argumentando que o período de transição já havia encerrado, portanto, nesse caso as
diretivas seriam supérfluas pois o próprio tratado já possui efeito direto. Ademais, o tribunal
utilizou a jurisprudência de um acórdão de 1974 (Reyners, processo 2/74, Colect. 1974) que
tinha definido que uma lei que é estabelecida por um Estado membro para os seus cidadãos,
pode ser invocada diretamente por nacional de todos os outros Estados membros, logo a lei
francesa que estabelecia que o cidadão francês para exercer a arquitetura deveria possuir
diploma poderia ser invocada por Patrick.

Por fim o tribunal definiu que quanto aos novos Estados membros, como era o caso do
Reino Unido, por falta de disposições transitórias em relação ao livre estabelecimento em seu
tratado de adesão, entendeu-se que o princípio contido no artigo 52° produz todos os seus
efeitos a partir de 1 de janeiro de 1973, data na qual o tratado de Roma entrou em vigor nestes
países. Declarando:

A partir de 1 de Janeiro de 1973, um nacional de um novo Estado-membro que prove possuir


um título reconhecido pelas autoridades competentes do Estado-membro de estabelecimento
como equivalente ao diploma emitido e exigido nesse Estado goza do direito de acesso à
profissão de arquiteto e ao seu exercício nas mesmas condições que os nacionais do Estado-
membro de estabelecimento sem que lhe possam ser opostas outras condições.
(LUXEMBURGO, 11/77,1977)

Sendo assim, pode-se considerar que essa decisão foi muito importante para o
aprofundamento da integração europeia e para a consolidação e efetivação do princípio do
livre estabelecimento, uma vez que o acesso ao mercado de trabalho é fundamental para que o
indivíduo consiga se estabelecer em outro território. De modo, que a decisão inspirou várias
diretivas posteriores que visavam a harmonização curricular e consequentemente facilitar o
reconhecimento de diplomas entre os Estados-membros. Em 1992, o Tratado de Maastrich
estabeleceu no artigo 126° como um dos objetivos de ação da União “incentivar a mobilidade
dos estudantes e dos professores, nomeadamente através do incentivo ao reconhecimento
académico de diplomas e períodos de estudo” (UNIÃO EUROPEIA,1992). Objetivo que
também está presente no Tratado de Lisboa no artigo 165°. Portanto, com o passar dos anos a
educação se consolidou como uma das áreas importantes para incentivar o aprofundamento da
integração europeia.

A decisão do caso Patrick/Ministério da Cultura foi utilizada também como


jurisprudência para basear uma decisão do Tribunal em 1987. No caso em que a União
Nacional dos treinadores de futebol da França acusou o time Lille Sporting Club de violar a
lei francesa que regulava o exercício da profissão de treinador, por ter contrato um treinador
belga que tinha diploma belga. A lei determinava que o acesso a tal profissão está sujeito ao
porte de um diploma francês ou reconhecido como equivalente pelo governo e, no caso o
diploma belga não era reconhecido. Assim, o Tribunal da grande instância de Lille, decidiu
pelo o reenvio ao Tribunal com a questão:

Quando num Estado-membro, a uma profissão assalariada estiver subordinado à posse de um


diploma nacional ou de um diploma estrangeiro reconhecido como equivalente, o princípio
da livre circulação de trabalhadores consagrado pelo artigo 48.° do Tratado exige que a
decisão que recusa a um trabalhador nacional de um outro Estado-membro o reconhecimento
da equivalência do diploma concedido pelo Estado-membro de que é nacional seja
susceptível de um recurso de natureza jurisdicional e que seja fundamentada.
(LUXEMBURGO, 222/86,1987)

Assim, para fundamentar a decisão o Tribunal decidiu que conforme já havia decido
anteriormente, no acórdão Patrick aquela era uma questão que feria o artigo 52° do Trado de
Roma e consequentemente o princípio do livre estabelecimento, declarando que o caso era
susceptível a recurso de natureza jurisdicional que permitiria verificar a sua legalidade
relativamente ao direito comunitário, para que o interessado possa ter conhecimento dos
fundamentos subjacentes à decisão.

O Caso “Cassis de Dijon”


O Caso “Cassis de Dijon”, é analisado tendo como base o Acórdão do Tribunal de
Justiça Europeu datado de 20 de fevereiro de 1979, onde o revendedor alemão Rewe- Zentral
pretendia importar um lote de Cassis de Dijon, originário de França, para o comercializar na
República Federal da Alemanha, porém ao solicitar da administração do monopólio do álcool
(Bundesmonopolverwaltung) autorização para importar o produto, teve desta uma resposta
negativa em virtude da insuficiência do teor em álcool do produto (compreendido entre 15% e
20%), sendo que este não possuía as qualidades indispensáveis para a sua comercialização na
República Federal da Alemanha (no mínimo teor igual a 25%), previstos na Lei nacional
alemã, esta baseada no no artigo 100.° do Branntweinmonopolgesetz e nas regulamentações
adotadas pela administração do monopólio. O comerciante se sentiu lesado pela aplicação da
legislação nacional, pois em seu entendimento contrariava a norma comunitária da CEE
(Comunidade Econômica Européia), uma vez que o impedimento se tratava de uma medida
de efeito equivalente a uma restrição quantitativa proibida pelo tratado da CEE.
A importância do caso em questão é enxergar a atuação e importância existente no
instituto do reenvio prejudicial existente na integração europeia, este que fora aplicado em
1979 e continua vigente até os dias de hoje com o advento da União Europeia (UE). O reenvio
prejudicial é um procedimento jurídico mediante o qual o Tribunal de Justiça da União
Europeia (TJUE) pode ser chamado a responder questionamentos feitos por tribunais
nacionais dos Estados membros da UE, sobre questões sobre a interpretação e validade do
direito comunitário, comumente originárias do conflito entre ele e o direito nacional.
Apesar de os cidadãos europeus se valerem do efeito direto, ou seja, possuem o direito
de demandar suas questões frente aos tribunais comunitário, esse reenvio apenas pode ser
feito pelos tribunais nacionais, segundo disposto no art. 267 do Tratado sobre o
Funcionamento da União Europeia (TFUE). A função do tribunal é o esclarecimento das
questões, sendo assim ele não se encontra em posição de hierarquia e sim de cooperação, uma
vez que todo juiz na UE é juiz europeu e deve aplicar o direito comunitário, jamais se opor a
ele. A função do TJUE é apenas uma iniciativa de harmonização do direito europeu.
As interpretações feitas pelo TJUE foram responsáveis pela criação e solidificação de
importantes princípios de direito comunitário europeu, dessa forma a sua atuação ultrapassa
os limites da aplicação do direito e se efetiva como importante para o processo de uma efetiva
integração por meio da criação de jurisprudência uniformizadora do direito aplicado no Bloco.
A interpretação do Caso “Cassis de Dijon” teve fundamental importância na criação
do princípio do reconhecimento mútuo. Após a negativa na autorização para importação da
bebida por Rewe-Zentral AG, esta processou o Bundesmonopolverwaltung fur Branntwein, e
dado o entendimento controverso entre o direito comunitário e nacional alemão, a questão foi
encaminhada pelo Tribunal de Finanças do Estado Federado de Hesse para o TJUE, a fim de
obter interpretação dos artigos 30 e 37º do Tratado de Roma que instituiu a Comunidade
Econômica Europeia (Tratado CEE), em relação ao mencionado artigo 100 (3) da lei alemã
sobre o Monopólio de Bebidas Espirituosas.
Foram as seguintes perguntas encaminhadas ao TJUE:
1. A fixação do teor alcoólico mínimo corresponde a uma medida de efeito
equivalente a restrições quantitativas às importações, contida no artigo 30º do
Tratado CEE?
2. A fixação de tal teor alcoólico mínimo pode ser considerada discriminação, na forma
prevista no artigo 37 º do Tratado CEE?
O entendimento do Governo Alemão era de que a restrição deveria continuar sendo
aplicada, pois a diferença de regulação entre Estados membros poderia ser mantida caso “tais
medidas pudessem ser consideradas necessárias para a satisfação de exigências imperativas
atinentes, designadamente, à eficácia dos controlos fiscais, à proteção da saúde pública, à
lealdade das transações comerciais e à defesa dos consumidores”, dessa forma apresentou 2
argumentos:
1. Salvaguarda da saúde pública: a fixação do teor mínimo em álcool pela legislação nacional
visa evitar a proliferação de bebidas espirituosas no mercado nacional, em especial de bebidas
espirituosas de fraco teor em álcool, produtos esses suscetíveis, em sua opinião, de provocar
mais facilmente habituação do que as bebidas de teor em álcool mais elevado (Não se
sustentou frente ao tribunal, pois o consumidor ainda poderia adquirir uma enorme gama de
bebidas com teor alcoólico médio e fraco, e mesmo os de alto teor eram consumidos de forma
diluída, logo não houve efetiva demonstração de aumento de alcoolismo).
2. Proteção dos consumidores face às práticas comerciais desleais: a fixação de um limite
inferior do teor em álcool de determinados licores visa proteger o consumidor relativamente a
práticas desleais de produtores ou distribuidores de bebidas alcoólicas. Eles pretenderam
demonstrar que os gastos com a produção de bebidas com elevado teor de álcool são mais
caros para produzir, pois o álcool é o fator encarecedor, sendo assim, as bebidas mais leves
competiriam de forma desleal dado o seu baixo custo para produção. Ademais a proibição
deixaria o consumidor seguro sobre os possíveis níveis de álcool consumido, tendo em vista
uma maior transparência das transações comerciais e da oferta ao público (Esse argumento
não se sustentou, pois, a tentativa de clareza e lealdade do produto ofertado pode muito bem
ser alcançada mediante informações nos rótulos, não sendo necessária a padronização do
teor).
Por fim o entendimento do TJUE foi de que a proibição da importação das bebidas
com menor teor alcoólico não prossegue uma finalidade de interesse geral suscetível de
primar sobre as exigências de livre circulação das mercadorias, que faz parte das regras
fundamentais da Comunidade prevista em seu tratado, uma vez que a sua proteção excessiva
dificultava a livre circulação de mercadorias, e também que o efeito prático de disposições
desse tipo consistiria essencialmente em conceder vantagens às bebidas alcoólicas de forte
teor em álcool, afastando do mercado nacional produtos de outros Estados-membros que não
correspondam a tal especificação.
Ao reconhecer o direito de importação das bebidas Cassis de Dijon o TJUE consolidou
o princípio do reconhecimento mútuo, uma importante garantia para a livre circulação de
mercadorias, uma vez que, um Estado-Membro não pode proibir a venda no seu território de
produtos legalmente comercializados noutro Estado-Membro, mesmo que esses produtos
tenham sido fabricados de acordo com regras técnicas diferentes das que aplicam aos produtos
nacionais. A decisão exigiu a aceitação das regras nacionais dos exportadores europeus e, ao
fazê-lo, impôs a “confiança” como importante elemento na relação comercial dentro do bloco.
Os Estados-Membros não mais estavam em posição de questionar as regras do vendedor. A
desconfiança em relação aos critérios de produção não podia mais ser considerada. Essa
facilidade comercial, portanto, não se deu de forma desregrada, pois o TJUE reconheceu
excessos e por isso impôs restrições, quais sejam: eficácia dos controles fiscais, proteção da
saúde pública, lealdade das transações comerciais e defesa do consumidor.
Embora não seja o único caso que trata do princípio do reconhecimento mútuo, o caso
Cassis de Dijon teve fundamental importância em sua consolidação, pois foi a primeira vez
que que foi tratado de forma clara, sendo influente jurídico e politicamente, já que representa
para a história do Princípio do Reconhecimento Mútuo verdadeiro ponto de inflexão no
pensamento sobre a livre circulação de mercadorias entre os países que fazem parte da União
Europeia.

Referências bibliográficas
LUXEMBURGO. Tribunal da União Europeia. Processo: 11/77. Presidente: H. Kutsche.
Luxemburgo, 28 jun. 1977. Disponível em:
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LUXEMBURGO. Tribunal da União Europeia. Processo: 222/86. Presidente: G.Bosco.
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=PT&mode=lst&dir=&occ=first&part=1&cid=177810. Acesso em: 15 jun.2019.
MELO, Lucas Fonseca e; JÚNIOR, José Levi Mello do Amaral. O efeito direto das diretivas e
os direitos fundamentais. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 13, n. 2, 2016, p.
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MOREIRA, Vital. O tempo e a transposição de diretivas no direito da União Europeia. In:
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PIÇARRA, Nuno. A Competência do Tribunal de Justiça das Comunidades Européias para
Fiscalizar a Compatibilidade do Direito dos Estados-Membros Com a Convenção Européia
dos Direitos do Homem: Um Estudo de Direito Constitucional. Revista da Faculdade de
Direito da UFRGS, Porto Alegre, v. 12, 1996, p. 212-236.
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content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:11992M/TXT&from=PT. Acesso em: 15 jun.2019.
UNIÃO EUROPEIA. Regulamentos, diretivas e outros atos legislativos. [S. l.], 2013.
Disponível em: https://europa.eu/european-union/eu-law/legal-acts_pt. Acesso em: 16 jun.
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__________________. Tribunal de Justiça. Acórdão TJUE de 25 de Outubro de 1975, Rutili,
Processo 36/75, Col. 1975, p. 415.