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CIRCULO PRIVILEGIADO
Fundamentos sociais da distinção arquitetônica
arquitetônica C 1 rC L110 prIV1Iegl"d uO

Garry Stevens

O entendimento corrente do que seja


arquitetura se concentra nos gênios
criativos, naqueles indivíduos
responsáveis pelo projeto das obras
mais significativas. Segundo Garry
Stevens. contudo, os arquitetos mais
bem-sucedidos devem esse sucesso
não tanto à sua genialidade. mas ao seu
background social e a uma série de
outros fatores que pouco tem a ver com
o talento inato. Enfocar apenas a
profissão de arquiteto é ignorar o campo
muito mais amplo da arquitetura, o qual
estrutura todo o universo social do
arquiteto e do qual os arquitetos são
apenas uma parcela. Este livro faz um
estudo crítico do campo da arquitetura,
demolindo muitos de seus mitos e
desmascarando muitos de seus heróis.
Valendo-se do aparato conceituai do
sociólogo Pierre Bourdieu. Stevens
aborda o campo da arquitetura em dois
níveis. Em primeiro lugar, apresenta
uma visão detalhada do campo. como
ele é em qualquer época e quais são
seus diferentes elementos e inter-
relações. Em segundo lugar. analisa a
dinâmica desse campo no tempo. do
Renascimento até o presente. Stevens
discute o sistema de ensino de
arquitetura bem como aspectos do
cotidiano. tais como a competição pela
fama. E conclui que ao longo da
história, os arquitetos mais eminentes e
de renome estiveram sempre
associados uns aos outros por meio de
relações de mestre/pupilo. Tais redes de
relacionamentos. que perduram ainda
hoje, garantem um mecanismo de
influência arquitetônica que opera em
paralelo ao ensino institucional.
FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Reitor
Lauro Morhy
Garry Stevens
Vice-Reitor
Timothy Martin Mulholland

EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA


Diretor
Alexandre Lima

CONSELHO EDITORIAL

Presidente
Elizabeth Cancelli O círculo privilegiado
Fundamentos sociais da distinção arqui
Alexandre Lima, Clarimar Almeida Valle, Dione Oliveira Moura,
Henryk Siewierski, Jader Soares Marinho Filho, Marília Steinberger,
Ricardo Silveira Berrardes, Suzete Venturelli

Tradução
Lenise Garcia Corrêa Barbosa

Revisão técnica
Sylvia Ficher

Coleção Arquitetura e Urbanismo

EDITORA

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UnB
Equipe editorial: Severino Francisco (Supervisão editorial);
Rejane de Meneses (Acompanhamento editorial);
Gilvam Joaquim Cosmo (Preparação de originais);
Ana Flávia Magalhães Pinto, Gilvam Joaquim Cosmo e
Wilma Gonçalves Rosas Saltarelli (Revisão);
Ana Flávia Magalhães Pinto e Rejane de Meneses (índice);
Raimunda Dias (Editoração eletrônica);
Grupo Holo (Capa); Elmano Rodrigues Pinheiro (Supervisão gráfica)

Sumário
Título original: The favored circle: the social foundations of architectural distinction
Copyright 1998 by Massachusetts Institute of Technology
Copyright 2003 by Editora Universidade de Brasília, pela tradução

Impresso no Brasil O CiRCl11.0 PRIVILEGIADO NO ALVO, 9


"Perigoso, maldoso, subversivo e ofensivo", 9
Direitos exclusivos para esta edição: Minha carreira de perplexidades, 10
Editora Universidade de Brasília Em busca do gênio: o enfoque psicológico, 14
SCS — Q. 02 — Bloco C —Ng 78 A arquitetura e o social, 19
Ed. OK — 22 andar Os sociólogos são críticos, 19
70300-500 Brasília- DF
Os arquitetos não estão preocupados com o social, 21
Tel: (0xx61)226-6874
Fax: (0xx61)225-5611 O discurso arquitetônico evita o social, 22
editora@unb.br Uma sociologia da arquitetura é redundante, 24
Estudos sociológicos da arquitetura, 26
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser armazenada Estudos sobre a prática, 27
ou reproduzida por qualquer meio sem a autorização por escrito da Editora.
Estudos histórico-teóricos, 30
Ficha catalográfica elaborada pela Estudando a arquitetura como uma profissão, 33
Biblioteca Central da Universidade de Brasília A sociologia das profissões, 36
Defeitos de uma sociologia da "profissão", 38
Stevens, Garry
Mudando o estudo sociológico da arquitetura, 42
S844 O círculo privilegiado: fundamentos sociais da distinção arquitetônica
Reformulando "profissão", 42
Garry Stevens; tradução Lenise Garcia Corrêa Barbosa; revisão técnica de
Sylvia Ficher. —Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003. Abandonando "profissão" no estudo social da arquitetura, 44
272 p.: il. — (Arquitetura e Urbanismo)
Tradução de: The favored circle: the social foundations of architectural A CAIXA DE FERRAMENTAS DE PIERRE BOURDIEU, 47
distinction.
Apresentando Bourdieu, 47
ISBN 85-230-0740-7
Bourdieu no campo intelectual, 48
1. Arquitetura. 2. Urbanismo. I. Barbosa, Lenise Garcia Corrêa. II. Fichei.,
Um sociólogo bem francês, 49
Sylvia. III. Título. IV. Série.
Bourdieu e outros pensadores, 54
CDU 72.01
711.01 Bourdieu e a teoria da arquitetura, 59
6 Sumário
O círculo privilegiado
7

Um panorama da teoria bourdiana, 60 As nacionalidades dos arquitetos, 155


A sociologia formal de Bourdieu, 62 Os edifícios dos arquitetos, 156
O problema central da sociologia, 63 O crescimento histórico da comunidade arquitetônica, 160
A resolução de Bourdieu para o problema central da sociologia, 65 Limites temporais, 161
Vinculando a prática à estrutura, 69 Crescimento per capita, 163
O modelo de sociedade de Bourdieu, 74 As duas comunidades da MEÃ, 167
Poder simbólico e cultura, 74 O crescimento do setor dos arquitetos maiores, 169
Capital simbólico, 76 O crescimento do setor dos arquitetos menores, 172
Estratégias de investimento, 79 A dinâmica histórica do campo, 174
Espaço social e estrutura de classes, 80 A dinâmica do setor dos arquitetos maiores, 176
Movimento histórico no espaço social, 82 A dinâmica do setor dos arquitetos menores, 184
A transição barroca, 190
A ARQUITETURA COMO UM CAMPO, 83
O que a cultura faz, 83 COMPREENDENDO O ENSINO DE ARQUITETURA, 193
A cultura como um campo de batalha entre as classes, 84 O novo sistema de reprodução do campo, 193
Gosto, 87 A crítica do ensino de arquitetura, 194
O campo da cultura, 90 Grã-Bretanha: o contrato de pupilagem, 200
Campos, 90 França: o modelo de certificação pelo Estado, 206
Campos e habitas, 92 Alemanha: a pesquisa ingressa nas universidades, 209
Funções do campo da cultura, 94 Estados Unidos: uma síntese instável, 211
Assegurando o fechamento por meio da cultura, 96 Como as escolas socializam, 214
Esquema da estrutura do campo, 98 Privilegiando os privilegiados, 216
O campo da arquitetura, 100 A longevidade do sistema de ateliê, 233
Estrutura básica, 101 A arquitetura como disciplina, 234
Formas de capital, 106 A disciplina no campo, 236
Em busca da autonomia, 109 A estrutura da disciplina, 237
Um campo semi-autônomo, 112 A arquitetura e as disciplinas relacionadas, 241
O que fazem os concursos de arquitetura, 115
TRANSFORMAÇÕES CONTEMPORÂNEAS, 243
Sacerdotes e profetas: o conflito no interior do campo, 117
A expansão do setor subordinado, 243
Como o campo funciona: três exemplos, 122
A crise permanente no ensino de arquitetura, 245
Do Movimento Moderno ao Estilo Internacional, 122
A crítica dos intelectualmente dominantes, 246
Atacando a autonomia do campo, 124
A crítica dos profissionalmente dominantes, 247
A chegada do deconstrutivismo, 132 Transformações do campo, 248
O novo mercado de credenciaiá, 248
O CAMPO ATRAVÉS DOS TEMPOS, 143
Novas trajetórias, 250
Um tríplice espaço social, 143 Explicando alguns enigmas, 251
Um estudo da história da arquitetura, 146
Um retrato do arquiteto, 153 Índice, 257
O círculo privilegiado no alvo

a
"Perigoso, maldoso, subversivo e ofensivo"

O que tenho a dizer neste livro é extremamente simples: existe uma base
social para o desenvolvimento intelectual. Isto vale tanto para o desenvolvi-
mento de um indivíduo ao longo de sua vida quanto para o desenvolvimento de
toda uma arena de pensamento — a arquitetura — por um período de quinhentos
anos.
Dito assim, parece quase impossível discordar. No entanto, conforme cons-
tatou o sociólogo francês Pierre Bourdieu — cujo aparato analítico fundamental
é, em boa parte, adotado neste trabalho —, um desenvolvimento pleno dessa
proposição desperta um antagonismo intenso por parte daqueles a quem é apli-
cado (como no título desta seção, que repete o comentário de um colega feito
após uma palestra que dei sobre este livro). Quando os indivíduos para os quais
esse aparato é dirigido percebem as conseqüências lógicas de se afirmar que
há uma gênese social para a criatividade arquitetônica, ou seja, que seu"suces-
so se deve pelo menos tanto às suas origens sociais e às estruturas sociais nas
quais estão inseridos quanto à sua criatividade inata (ou, como diz Bourdieu,
tanto às determinações não escolhidas de seu meio social quanto às escolhas
não determinadas para a aplicação de seus dons), eles vêem nesse conceito um
insulto à exaltação do gênio, a qual tem sido uma presença constante no discur-
so do campo da arquitetura desde Vasari ou até mesmo antes.
Essa é a razão pela qual eu, assim como Bourdieu, acho que, para apresen-
tar meu argumento, tenho de carregar nas cores. Com isso, corre-se o risco
inverso, o de ser mal entendido pelo leitor como tendo afirmado que não existe
talento ou gênio, que tais qualidades individuais são totalmente redutíveis ao
meio social. Esse, evidentemente, não é o caso. Argumento, neste livro, que
uma das principais funções do sistema de ensino arquitetônico é produzir indiví-
duos cultos; que a função central da disciplina da arquitetura é produzir instru-
mentos de gosto; que manifestações de criatividade arquitetônica de alto nível
10 Garry Stevens
O círculo privilegiado 11

podem ser mais facilmente explicadas pela mera existência e estrutura carac-
Arquitetura da Universidade de Sydney, uma universidade bem aos moldes de
terística dos encadeamentos entre mestres e pupilos. No entanto, eu não pre-
Oxbridge.* Passei quase vinte anos ali, como estudante e professor. Em unia
tendo negar com tais constatações que o ensino de arquitetura também confere
situação pouco comum no mundo de língua inglesa, o corpo docente estava
habilidades e competências, que a disciplina da arquitetura gera conhecimentos dividido em dois departamentos de nomes complicados: o Departamento de
e que é necessário talento para ocupar as mais altas esferas do gênio Arquitetura, Planejamento e Artes Associadas (Department of Architecture,
arquitetônico.
Planning and Allied Arts, DAPAA) e o meu próprio Departamento de Ciência
É ambíguo dizer que este livro é um estudo social da arquitetura. Tal apre- da Arquitetura e do Projeto (Department of Architectural and Design Science,
sentação poderia se referir a um exame dos artefatos que constituem o ambi- DADS), correspondendo à divisão entre as humanidades e as ciências. O pri-
ente construído: como as pessoas utilizam e utilizaram aqueles edifícios deno- meiro é responsável pelo ensino de história, projeto, prática profissional e cons-
minados "arquitetura".' Este livro é um estudo social da arquitetura em um trução; o segundo, pelo ensino de ciências ambientais, construção, estruturas e
segundo sentido, empregando a palavra "arquitetura" para se referir aos indiví- computação. Ainda que essa seja uma divisão muito comum, sua história data
duos envolvidos na construção de artefatos, às estruturas sociais imediatas em das aulas dc T. L. Donaldson, o primeiro professor de arquitetura nos países de
que esses indivíduos estão inseridos e aos discursos de que participam. língua inglesa.' O corpo docente do DAPAA é constituído principalmente por
Utilizo a expressão "estudo social da arquitetura" — em vez de algo como portadores de diplomas de arquitetura, e o do DADS, por uma mistura de indi-
"estudo social dos arquitetos" — porque tentarei convencer o leitor de que con- víduos, alguns com formação em arquitetura e outros com formação em enge-
centrar a atenção nos integrantes da ocupação da arquitetura, como já fize- nharia e nas ciências físicas.
ram vários estudos anteriores, é ignorar aspectos importantes de uma entidade O DADS tem poucas contrapartidas em outras universidades.
social muito maior, o campo da arquitetura, o qual estrutura todo o universo O departamento é fruto do entusiasmo pela aproximação da ciência à arquite-
social do arquiteto e do qual os arquitetos são apenas uma parte. tura que empolgou a Comunidade Britânica na década de 1950. Enquanto a
maioria das escolas de mesmo tamanho que a da Universidade de Sydney —
com seus trezentos estudantes — terá somente alguns professores na área do
Minha carreira de perplexidades DADS, ou poderá mesmo ser totalmente dependente de instrutores ocasionais,
o DADS tem um corpo docente de 15 professores. Não apenas os cientistas da
Não posso e nem pretendo ser um analista imparcial da arquitetura. Tal arquitetura da Universidade de Sydney gozam de considerável autonomia em
como outros sociólogos diante de suas problemáticas, eu tenho um envolvimento razão de possuírem seu próprio departamento, corno essa autonomia permitiu o
pessoal nessa análise e acredito que existe um dilema que precisa ser solucio- desenvolvimento e a expansão desses aspectos da arquitetura em um grau
nado. Há uns cinqüenta anos, muitos sociólogos teriam se declarado observa- pouco comum em outros lugares: o DADS possui um excelente programa
dores científicos desinteressados da sociedade, tão distanciados ao estudar seu de pós-graduação, uma reputação internacional em pesquisa e uma opinião de
próprio meio social quanto os físicos diante de elétrons. Poucos fariam tal afir- peso no desenvolvimento do currículo acadêmico de formação profissional.
mação hoje em dia, reconhecendo — como discutirei mais adiante — a impossi- Os dois departamentos nunca conviveram bem, seu relacionamento vari-
bilidade de se estudar objetivamente o mundo social no qual se está envolvido. ando da mera tolerância à guerra total. Sem dúvida, tensões internas em uma
Há, portanto, um elemento normativo e crítico no empreendimento sociológico. escola de arquitetura não são raras. Dado o luxo da estabilidade, os acadêmi-
Assim, este livro surgiu de minha tentativa de entender e explicar uma cos não sofrem as mesmas restrições que o tato comercial impõe àqueles no
guerra fratricida entre as duas principais facções na minha velha Faculdade de
setor privado, que só podem expressar opiniões dissidentes fortes colocando
em risco seu emprego. Mas as tensões na Universidade de Sydney eram dife-

' Há uma literatura considerável sobre o assunto, várias revistas especializadas e, pelo menos,
uma entidade profissional própria — a Environment and Design Research Association (EDRA).
* Contração de Oxford e Cambridge, universidades tidas corno urna única entidade em termos de
Pode-se encontrar uma boa revisão bibliográfica em uma fonte inesperada: D. L. Lawrence c S.
M. Low, "The Built Environment and Spatial Form", Annual Review of Anihrapology tradição, prestígio e organização. (N. do R. T.)
19 As aulas inaugurais dc T. L. Donaldson no University College, em 1841, foram sobre Arquite-
(1990): 453-505.
tura como Arte e Arquitetura como Ciência.
12 Garry Stevens
O círculo privilegiado 13

rentes daquelas encontradas em outras escolas, onde o conflito entre humanistas arquitetura, na Universidade de Sydney pode-se vivenciar tais divergências de
e tecnólogos é uma escaramuça menor no turbilhão gerado pelas discórdias
modo intenso. O DAPAA e os profissionais locais consideravam o DADS, no
cotidianas entre os professores de projeto.
melhor dos casos, uma irrelevância e, no pior, um parasita sugando o dinheiro e
os recursos do DAPAA. Os estudantes concordariam úom isso, acrescentan-
do que as disciplinas do DADS são maçantes e ocupam muito tempo do currí-
culo. Todos teriam concordado que o papel adequado para os tecnólogos seria
Nota sobre a terminologia ministrar palestras ocasionais, atuar como consultores sem grande importância
em um ateliê de projeto; em resumo, deveriam assumir o papel subserviente
Este livro descreve e analisa o campo arquitetônico como ele existe que têm em outras escolas.
atualmente nos países de língua inglesa. Usei exemplos da América do Em vinte anos de lutas acadêmicas internas, o DAPAA nunca conseguiu
Norte, do Reino Unido e de meu próprio país, a Austrália, para expor se livrar do pesadelo. Essa incapacidade foi, em parte, resultado da inépcia
minha argumentação. Os exemplos também esclarecem algumas diferen-
política do DAPAA: enquanto o corpo docente do DADS era capaz de manter
ças importantes e interessantes entre as três nações.
uma coesão de objetivos pouco comum entre acadêmicos, as constantes ma-
Alguns comentários sobre a terminologia podem evitar confusões
posteriores. Eu irei me referir com freqüência às associações profissionais quinações entre as facções internas do DAPAA desviavam as atenções do
desses países: o American Institute of Architects (AIA), o Royal Institute inimigo comum. Havia, é claro, outras razões. Apesar de o DADS ocupar uma
of British Architects (RIBA) e o Royal Australian Institute of Architects posição desoladora na comunidade arquitetônica, sua reputação na área de
(RAIA). Na Austrália, o corpo docente, chamado de facuity pelos norte- pesquisa era excelente, algo considerado bem mais importante para a universi-
americanos, é denominado apenas de siai); Faculty (sempre com maiús- dade. O DADS estava entre os cinco melhores centros de pesquisa em projeto
cula) equivale a School ou College nos Estados Unidos. Em meu país, assistido por computador (CAD) e possuía um renome internacional por seu
somente os docentes mais antigos recebem o título de professor — todos trabalho em iluminação, acústica e análise térmica das edificações. Os progra-
os demais são lecturers (instrutores). "Estudantes de graduação" quer mas de pós-graduação de prestígio, o fluxo constante de livros e artigos e seu
dizer o mesmo em quase todos os lugares, menos nos Estados Unidos, sucesso em atrair fundos para pesquisa asseguravam que não corria risco al-
onde a expressão se refere aos estudantes de pós-graduação. No Reino gum de dissolução.
Unido e na Austrália, o título de mestre corresponde a um diploma em Quando se discutia os motivos das hostilidades — como sempre se fazia —,
pesquisa e jamais a um diploma profissional; um Philosophy Doctorate sua existência era atribuída ao fato de que um departamento perversamente se
(Ph.D.) é o nível inferior de doutoramento e raramente exige créditos de recusava a reconhecer as virtudes superiores do outro. O DADS não podia
disciplinas. Os doutoramentos em níveis mais elevados, tais como um compreender por que o DAPAA era incapaz de reconhecer sua superioridade
Doctorate in Architecture (D.Arch.), em geral são distinções honorárias na comunidade acadêmica. Afinal de contas, não era a pesquisa a própria ra-
a indivíduos ilustres, enquanto nos Estados Unidos eles podem ser diplo- zão de ser do meio acadêmico? O DAPAA, por sua vez, não entendia por que
mas profissionais de grau inferior a um Ph.D. o DADS não percebia que sua única missão era dar aulas para o curso de
graduação. Cada departamento rejeitava os vícios a ele atribuídos. Se os estu-
dantes questionavam a relevância e a competência das disciplinas oferecidas
pelo DADS, os alvos dessas zombarias respondiam que os estudantes não sa-
Quando os únicos representantes das ciências e da tecnologia são um ou
biam o que era bom para eles. Se o DAPAA não se mexia para produzir artigos
dois professores ou uns poucos instrutores que lecionam de tudo, desde estru-
e livros complicados, era porque isso não tinha nada a ver com o projeto de
turas e prevenção de incêndios até acústica e iluminação, é quase impossível
edificios.
que ameacem a hegemonia dos professores de projeto e dos historiadores.
Essa situação toda era atribuída à politicagem acadêmica: uma vez que
Enquanto em outras escolas se está vagamente consciente das diferenças e
certos indivíduos recalcitrantes, arrogantemente ambiciosos ou grosseiramente
discordâncias entre os componentes humanistas e os tecnológicos do ensino de
incompetentes fossem afastados, tudo ficaria bem.
14 Garry Stevens O círculo privilegiado 15

Em meus primeiros anos como professor, eu teria concordado. Considera- O locus classicus é o estudo realizado há quase quarenta anos por Donald
va o desempenho superior de meu próprio departamento como uma profissão MacKinnon.4 Ele pediu a 120 arquitetos que se submetessem a testes psicoló-
de fé e adotei um ar de condescendência diante de opiniões contrárias. Em gicos por todo um fim de semana. Um terço dos arquitetos foi convidado tendo
minhas aulas, fosse o tema segurança contra incêndios ou estruturas, havia por base seu altíssimo grau de criatividade, outro terço foi escolhido por possuir
sempre alguns estudantes que perguntavam: "Nós realmente temos de saber
isto?" E eu sempre respondia pacientemente e de modo afirmativo — é claro
4M, considerável talento para o projeto — ainda que não de primeira linha — e o
último terço foi selecionado ao acaso. O último grupo foi considerado de pa-
que precisam.
dão médio em criatividade.
A possibilidade de que houvesse outros processos, mais profundos e sutis, u."
Tendo por base a aplicação de dez testes, foram feitas inúmeras medições
intervindo no ensino de arquitetura para além daqueles que pensávamos existir de personalidade e inteligência nos três grupos. Aqueles pertencentes ao grupo
tornou-se evidente para mim depois que comecei a estudar sociologia. À medi- criativo obtiveram pontos como mais femininoss , mais flexíveis e mais felizes
da que ia adquirindo o que tem sido chamado de "imaginação sociológica",
consigo mesmos do que os demais e, por outro lado, menos sociáveis, menos
comecei a suspeitar que a disputa toda estava mal colocada e que as altercações
4 responsáveis, com menos autocontrole e menos preocupados em causar boa
— que geralmente acabavam em discussões sobre até que ponto a arquitetura é impressão. Foram também avaliados como intuitivos e introvertidos. Um teste
artística, científica ou profissional — resultavam de controvérsias sobre ques-
de comportamento interpessoal revelou que eram nitidamente pouco sociáveis:
tões completamente erradas.
tinham pouca vontade de ser incluídos nas atividades dos outros ou de incluírem
Descobri que outros cientistas da arquitetura estavam em posição seme-
os outros em suas atividades. Quando obrigados a se relacionar com outras
lhante em suas próprias escolas. As tensões em Sydney, de conhecimento pú-
pessoas, os testes mostraram que se empenhavam em controlar as atividades
blico, eram mais intensas que as demais, mas certamente não eram as únicas;
do grupo e que resistiam abertamente a se submeter ao controle dos demais.
e se não eram as únicas, não poderiam ser o resultado de obstinações pessoais.
Os criativos também apreciavam mais os valores estéticos e teóricos e menos
Como indica Templer, a disciplina da arquitetura como um todo está rachada
os valores econômicos do que os dois grupos de controle. Os grupos de contro-
em um domínio científico (ou, se se preferir, cientifisante) e um domínio
humanístico.3 le acreditavam que a satisfação dos clientes era muito importante (ocupando o
oitavo lugar entre cinqüenta afirmações descrevendo uma série de habilidades,
Comecei a perceber também que os estudantes, que poucos anos antes
haviam evitado e mesmo criticado nossos cursos — como irrelevantes e supos- hábitos de trabalho, interesses e valores), e o grupo criativo não (dando a esta
tamente apenas informativos —, eram agora, já recém-formados, as luzes emer- afirmação o trigésimo lugar). Os arquitetos de nível médio também se sentiam
gentes da profissão. Aqueles que haviam sido mais entusiastas das ciências responsáveis por sua profissão, enquanto os do grupo criativo não sentiam vir-
ambientais estavam definhando nos escalões inferiores dos escritórios, em ge- tualmente nenhuma responsabilidade. As autodescrições revelaram que o gru-
ral presos a uma tela de computador. Além disso, eram sempre os mesmos po criativo favorecia a autonomia, a mudança e a agressividade.
tipos de estudante — desde o primeiro ano era possível identificar quem era Encontrar mais de cem arquitetos que queiram se submeter a horas ou até
quem apenas pelo olhar. Por que era assim? mesmo dias de avaliação psicológica não é uma façanha logística desprezível.
Desde MacKinnon, a maioria dos estudos psicológicos tem sido direcionada

Em busca do gênio: o enfoque psicológico

D. W. MacKinnon, "The Nature and Nurture of Creative Tallent", American Psychologist 17


A literatura psicológica é o lugar óbvio para começar uma tentativa de 4
(1962): 484-495; "The Personality Correlates of Creativity: A Study ofAmerican Architects",
explicar as perplexidades de minha vida acadêmica. Talvez as disputas entre os 10 International Congress ofApplied Psychology (Copenhagen, 1962, 11-39; "Creativity and
acadêmicos e as diferentes trajetórias nas carreiras de meus alunos pudessem the Images of the Self", The Study ofLives, ed. R. W. White (Nova York: Atherton Press, 1963),
ser mais bem compreendidas examinando-se a psicologia do arquiteto. 251-278; e "Personality and the Realization of Creative Potential", American Psychologist 20
(1965): 273-281.
Corroborado por A. D. Kanner, "Fcmininity and Masculinity: Their Relatioships to Creativity
in Mele Architetcs and Their Interdependence from Each Other, Journal of Consulting and
3 J. Templer, "Architectural Research", Journal of Architectural Education 44, 1 (1990): 3. Clinicai Psychology, 44, nº 5 (1976): 802-805.
16 G a rry Stevens O círculo privilegiado 17

para a análise da criatividade nos estudantes de arquitetura, uma população criativos e medíocres foi a indiferença dos primeiros quanto a preocupações
mais acessível e fácil de persuadir.6 (Pelo menos, avaliar estudantes tem o econômicas.12
objetivo louvável de melhorar os processos de seleção para acesso às escolas Apesar dos resultados insignificantes, o enfoque psicológico continua pre-
de arquitetura.) Até agora os resultados têm sido uniformemente pouco pro- dominando entre as aplicações das ciências sociais à análise da arquitetura.
missores. Um psicólogo teve de admitir que "todos os esforços para identificar A busca de uma fórmula simples para explicar a genialidade atrai os pesquisa-
o estudante bem ou malsucedido obtiveram pouco êxito".7 Outros verificaram dores, enquanto os perfis elogiosos que produzem com seus levantamentos
que a bateria de Testes para Aptidões Gerais era incapaz de distinguir de modo encorajam ainda mais os arquitetos a participar em seus estudos. Além disso,
confiável os alunos fracos dos bons, classificando erroneamente quase 40% da uma vez que a psicologia, por definição, dirige sua atenção para o individual, é
amostragem.8 Um outro grupo de psicólogos também obteve pouco sucesso, uma iniciativa que encontra aceitação imediata na ideologia do gênio artístico,
ainda que visse seus resultados como um progresso.' Caso sua universidade um dos axiomas fundamentais do pensamento arquitetônico.
tivesse adotado o processo de seleção por ele sugerido, teria recusado 110 dos Isso não quer dizer que os estudos psicológicos não tenham valor. Minha
178 estudantes que de fato viriam a se diplomar. Não é nenhuma surpresa que principal crítica é que, por sua natureza, a psicologia exclui a possibilidade
se tenha encontrado algumas relações entre vários testes de habilidade es- de uma explicação social — urna sociogênese — para a criatividade
pacial e o desempenho acadêmico em arquitetura, ainda que as correlações arquitetônica em favor de uma explicação puramente individualista. É um dos
sejam muito pequenas.'° Em seu estudo sobre alunos de arquitetura mais avan- argumentos centrais deste livro que isso não basta, e que existem forças sociais
çados no curso, um grupo de pesquisa também encontrou somente correlações bem mais fortes agindo para produzir o gênio arquitetônico.
modestas com o teste de habilidade espacial e nenhuma correlação com medi-
ções acadêmicas padrão."
O grande objetivo da iniciativa psicológica é descobrir as características
de personalidade que determinam a criatividade arquitetônica, mas até hoje os 1,. Um psicólogo descreve os arquitetos
resultados têm sido inexpressivos. Como concluiu um psicólogo mais crítico do
trabalho de MacKinnon, a única diferença substancial entre seus arquitetos Poderia parecer que os psicólogos profissionais têm um carinho es-
pecial pelos arquitetos, um sentimento que é sem dúvida retribuído pelos
alvos de seus louvores. Devo admitir que estou cansado das atitudes dos
psicólogos, que oscilam entre a dissimulada ausência de críticas e a
6
Ver H. E. Schmidt, "Personality Correlates of the Creative Architecture Student", Perceptual bajulação absoluta. Por exemplo: em um trabalho que escreveu para
and Motor Skills 36 (1973): 1030; J. M. Peterson e G. Lansky, "Left-Handedness among a publicação oficial do American Institute of Architects, o AIA Journal,
Architects: Partia! Replication and Some New Data", Perceptual and Motor Skills Donald MacKinnon concluiu, dizendo:
45 (1977):
1216-1218; J. M. Peterson e G Lansky, "Left-Handedness among Architects: Some Facts and
Speculation", Perceptual and Motor Skills 38 (1974): 547-550; J. M. Peterson e L. M. Lansky,
"Success in Architecture: Handedness and/or Visual Thinking", Perceptual and Motor Skills 50 Se fosse resumir o que a esta altura me impressiona no genus
(1980): 1139-1143; e J. M. Peterson e G. Sweitzer, "Field-Independent Architecture Students", Architectus Creator varietas Americanus, diria que é a sua abertura à
Perceptual and Motor Skills 36 (1973): 195-198. experiência, sua liberdade em relação a restrições mesquinhas e ini-
7
H. E. Schmidt, "The Identification of High and Low Creativity in Architecture Students", : bições empobrecedoras, sua sensibilidade estética, sua . flexibilidade
Psychologia Africana 15 (1973): 39.
8
A. M. Dolke e R. S. Sharma, "General Aptitude Test Battcry (GATB) as a Predictor of 1' cognitiva, sua independência de pensamento e ação, sua grande
Academic Success in Architectural Courses", Indian Journal of Psychology energia, seu inquestionável compromisso com a criatividade e sua
50,
no 2 (1975): 163-173. busca incansável de soluções criativas para os problemas
D. E. Domer e A. E. Johnson, "Selective Admissions and Academic Success: An Admissions arquitetônicos cada vez mais difíceis de que eles se ocupam.
Model for Architecture Students", Gollege and University 58 (1982): 19-30.
10 P. Stringer, "The Role of Spatial Ability in a First Year Architecture Course", Architectural
Research and Teaching 2, no 1 (1971): 23-33.
I M. Karlins, C. Schuerhoff e M. Kaplan, "Some Factors Related to Architectural Creativity in
Graduating Architecture Students", Journal of General Psychology 81 (1969): 203-215. '2 R. Weisberg, Creativity: Beyond the Myth of Genius (Nova York: W. H. Freeman, 1993).
18 Garry Stevens
O círculo privilegiado 19


A arquitetura e o social
D. W MacKinnon, "Genus Architectus Creator Varietas Americanus",
AIA Journal, setembro de 1960, 35.
Apesar de a psicologia e a sociologia serem consideradas como ciências
irmãs, seus praticantes em geral não têm muito em comum. Sociólogos não
gios: MacKinnon parece não ter perdido nenhuma oportunidade para elo- podem realizar experimentos do mesmo modo que psicólogos, e, portanto, suas
metodologias são diferentes. A psicologia sempre foi bastante ligada às ciênci-
as biológicas, especialmente à medicina, enquanto a sociologia tem relações
Os arquitetos convidados responderam educadamente e até mes- mais próximas com a economia e as ciências políticas. As pessoas nunca se
mo de modo afetuoso [ao nosso convite]. Suas frases eram gramati- perguntam se deveriam consultar um sociólogo em vez de um psiquiatra. Qual-
calmente elaboradas e apropriadamente expressivas, e suas cartas quer um pode se exibir usando alguns termos de psicologia - id, ego, complexo
eram datilografadas com uma disposição nova em papéis timbrados de Édipo -, mas poucos compreendem o significado de papel social, posição
desenhados por eles mesmos; todos tão esteticamente agradáveis, a contraditória de classe ou habitus.
ponto de fazer com que suas cartas parecessem urna aceitação ainda Portanto, mudar do domínio psicológico para o sociológico é um passo
mais amistosa de meu convite do que realmente pretendiam ser. muito maior do que se poderia pensar inicialmente. Um problema a ser consi-
D. W. MacKinnon, "Genus Architectus Creator Varietas derado, quanto aos estudos sociológicos sobre arquitetura, é que o próprio cam-
Americanus", 32. po arquitetônico não tem sido receptivo à contribuição sociológica, nem à des-
crição e nem à análise sociológica. Isso provoca um clima de antagonismo que
Essas observações não eram apenas resultado de um esforço de ser gen- é exatamente o oposto do sentimento cordial que envolve o relacionamento
til com os leitores arquitetos. Ao escrever para revistas especializadas de psicólogo-arquiteto e que não ajuda em nada o sociólogo em sua tarefa. Pode-se
psicologia, as descrições de MacKinnon se tornam ainda mais olímpicas: sugerir quatro razões para tal fato:

O arquiteto criativo pensa em si mesmo como criativo... Acima 1.Os sociólogos são críticos.
de qualquer outra coisa, ele pensa que é imaginativo; 2. Os arquitetos não estão preocupados com o social.
inquestionavelmente comprometido com a criatividade; incansavel- 3. O discurso arquitetônico evita o social.
mente buscando soluções criativas para os difíceis problemas que 4. Acredita-se que não pode existir uma sociologia da criatividade.
ele repetidamente coloca para si mesmo; satisfeito apenas com solu-
ções que sejam originais e alcancem seus altos padrões de excelên-
cia arquitetõnica; esteticamente sensível; um espírito livre e indepen- Os sociólogos são críticos
dente de restrições mutiladoras e inibições empobrecedoras;
espontâneo; direto; e aceitando-se a si mesmo. Ele se sente predesti- Em primeiro lugar, enquanto os psicólogos parecem ter apenas coisas boas
nado para sua carreira de arquiteto. a dizer sobre a arquitetura,'3 os poucos sociólogos interessados no assunto são
As pessoas se surpreendem pela acuidade de sua autopercepção, bem mais críticos. O estudo psicológico do arquiteto busca averiguar os fatores
pelo grau com que os arquitetos se vêem como realmente são e pela determinantes do gênio, condição admirada por todos e a que todos aspiram.
consistência impressionante com que adaptam seus pensamentos e Parece ter ficado para os sociólogos a tarefa de analisar - em vez de sim-
comportamentos ao tipo de pessoas que pensam ser.
Ir
D. W. MacKinnon, "Creativity and Images of the Ser, The Study 13 Aqueles traços que poderiam ser considerados indesejáveis nunca são comentados. Pouco é
of Live.s, ed. R. W. White (Nova York: Atherton Press, 1963), 276. dito, por exemplo, que no Minnesota Multiphasic Personality Inventory o grupo dos mais
talentosos de MacKinnon obteve resultados moderadamente altos nas escalas de desvios
psicopáticos, paranóia e esquizofrenia.
20 Ga rry Stevens
O círculo privilegiado 21

plesmente adorar — a genialidade, e eles não são nada lisonjeiros no cumpri-


para seus projctos".16 Na mesma veia, um outro sociólogo, Herbert Gans, dis-
mento dessa tarefa. Sheny Ahrentzen e Linda Groat, por exemplo, dão suporte parou a seguinte observação: "Para começar, os arquitetos em geral não são
a seu trabalho com estes comentários feitos sobre mulheres arquitetas com grandes filósofos: as afirmações que querem fazer são muitas vezes incomple-
atividade acadêmica:
tas ou clichês, mesmo quando a arquitetura em si é boa".'7
Todos os sociólogos da arquitetura aqui mencionados acreditam que os
O sistema das estrelas da profissão é definitivamente dominado pelos ho-
4 arquitetos não prestam muita atenção ao social, às necessidades das pessoas
mens e exclui as mulheres. O campo encoraja a adoração do herói, e os heróis
que moram ou trabalham em suas edificações. Os sociólogos tendem a não
são todos homens. Eu já me cansei disso!... A história da arquitetura estuda
gostar de qualquer inclinação para o formalismo arquitetônico e que se distan-
a construção e o projeto tão-somente como atividades dos "grandes ho-
cie de considerações funcionais. Por estarem interessados no social, eles tam-
mens". Os livros tendem a ser sexistas, seja por omissão, seja por sua lingua- 4 bém não gostam da fixação da arquitetura no indivíduo. Como conseqüência,
gem — mesmo quando são bons em outras áreas. Para contrabalançar essa em geral não simpatizam (ou são até mesmos muito hostis) com a recente
situação, é necessário um esforço significativo, mas a maioria dos professo-
4 posição dominante na vanguarda do deconstrutivismo. Nada disso os leva a ser
res parece não perceber o sexismo e, assim, não se esforça para cornbatê-lo.14
amados pelos arquitetos contemporâneos.

É preciso reconhecer que, para os leigos, muito da sociologia parece con-


ter apenas críticas resmungonas. Para muitos, a disciplina parece pouco mais
Os arquitetos não estão preocupados com o social
do que um ataque de hordas marxistas. Há um pouco de verdade nisso: soció-
logos tendem a ser politicamente mais liberais. Contudo, conquanto o marxismo
Em segundo lugar, a psicologia dos arquitetos não é receptiva aos aspectos
continue sendo uma tradição teórica significativa na sociologia, muito desse
sociais. Os arquitetos não parecem ser indivíduos muito preocupados com a
significado deriva das inúmeras posições teóricas que foram criadas como re-
comunidade. Na literatura psicológica acima mencionada, identifica-se uma
ação a ele (como aquela de Pierre Bourdieu). Por outro lado, a aparência de clara tendência nos arquitetos, especialmente nos mais eminentes, de serem
esquerdismo entusiasmado talvez seja fruto do fato de que os sociólogos real- pouco sociáveis. Todos os três grupos de MacKinnon consideravam pouco
mente encontram problemas por toda parte — esta é uma das razões pelas quais importante a responsabilidade do arquiteto para com a sociedade. Seu grupo de
eles se tornam sociólogos. Além disso, eles em geral têm idéias sobre como
arquitetos mais criativo não estava nem um pouco interessado em interagir
resolver esses problemas, sobre corno a sociedade deveria ser. Os sociólogos, com outras pessoas e, quando obrigados a tal, preferiam lhes ditar ordens.
com suas opiniões incisivas sobre o que a sociedade deveria ser, muitas vezes
Como a socióloga Dana Cuff descobriu em suas entrevistas com alguns emi-
dizem coisas que a profissão da arquitetura não está interessada em ouvir. Por
nentes arquitetos nova-iorquinos, estes consideravam as pessoas como espec-
exemplo, Robert Gutman — o decano da sociologia da arquitetura — argumenta tadores, não como agentes ativos. Noções sociais fundamentais, tais como co-
que o mercado por excelência para a arquitetura é o projeto de edifícios monu- munidade, família, amizade ou relações de trabalho, eram mal definidas entre
mentais, que há arquitetos em excesso para esse mercado e que a profissão eles.'6 Fica-se com a sensação de que as pessoas se intrometem no caminho
deveria reduzir o número e o tamanho dos escritórios e diminuir a quantidade dos arquitetos e da arquitetura. Basta dar uma olhada em qualquer uma das
de formados e de escolas.' 5 Em outro texto, critica impiedosamente "a tendên-
sofisticadas revistas de arquitetura que exibem o talento arquitetônico e não
cia dos arquitetos de folhear livros de ciências sociais e filosofia à procura de podemos deixar de nos surpreender com a ausência de pessoas nas fotografias.
frases que expr.essem suas opiniões pessoais e emprestem um imprimatur

14 S. Ahrentzen e L. N. Groat, "RethinkingArchitectural Education: Patriarchal Conventions and 16 R. Gutman, "Human Nature in Architectural Theoiy. The Example of Louis Kahn", Architects'
Alternative Visions from the Perspectives of Women Faculty", Journal of Architectural and People, ed. R. Ellis e D. Cuff (Nova York: Oxford University Press, 1989), 107.
Planning Research 9, rt2 2 (1992): 100. '7 H. J. Gans, "Toward a Human Architecture: A Sociologist's View of the Profession", Journal
I ' R. Gutman, "Architects and Power: The Natural Market for Architecture", Architectural Education 31, tf 2 (1978): 27.
Progressive
Architecture, dezembro de 1992, 39-41. 1 8 D. Cutf, "Through the Looking G lass: Seven New York Architects and Their People", Architects'
People. ed. Ellis e Cuff, 64-102.
22 Garry Stevens O circulo privilegiado 23

Talvez seja impossível esvaziar as ruas de Nova York para fotografar seu mais o da determinação dos princípios abstratos subjacentes à forma construída.
novo arranha-céu, mas tem-se a impressão de que os fotógrafos, sempre que Acredita-se que, uma vez descobertos, esses princípios permitiriam que os ar-
possível, desocupam o edifício e seus arredores para apresentá-lo como um quitetos projetassem boa arquitetura. Desde a Grécia antiga, tem sido conside-
intocado objet d'art não contaminado por usuários, clientes e moradores. rado evidente que tais princípios devam ser de natureza matemática. Às vezes
a matemática empregada é numérica e, às vezes, geométrica. O primeiro caso
resulta em sistemas modulares e de proporções. Seguir a segunda alternativa
leva ao entendimento que a arquitetura deve emular a ordem geométrica laten-
Por que sociólogos não são objetivos te na natureza e tende a produzir esquemas para a análise das formas acaba-
das. Em ambos os casos, o que se busca é uma ordem naturalista, derivada da
O eminente sociólogo americano Stephen Cole assim coloca a questão: estrutura do mundo e profundamente supra-humana.
A questão é que as teorias sobre a forma arquitetônica nunca foram teorias
Um sociólogo, por exemplo, pode escolher um problema em fun- sociais; mesmo quando pretenderam ser, a realidade foi bem diferente. Veja-
ção de suas experiências de vida. Assim, passei a me interessar pelos se, por exemplo, o comentário de Spiro Kostof sobre o Movimento Moderno:
sindicatos de professores — tema de minha dissertação de doutorado
— porque minha mãe era membro militante do sindicato e havia parti- A retórica modernista não economizou eloqüência quanto às necessidades
cipado das primeiras greves e não porque o campo da pesquisa era dos usuários. Representava a arquitetura como o veículo do bem-estar social
particularmente importante para responder a questões teóricas pre- e estabeleceu a questão da habitação popular como a mais alta prioridade da
mentes. Ou uma socióloga vai se decidir por estudar casamentos entre arquitetura. Mas nunca se cogitou consultar o usuário da moradia durante o
processo de seu projeto... Os usuários não sabiam o que queriam ou, mais
negros e brancos por ser parte de um casamento inter-racial... Quando
importante, o que deveriam ter. Suas necessidades coletivas, interpretadas
feministas estudam as causas da desigualdade entre os sexos, a mai-
pelo arquiteto e pelo órgão financiador, seriam codificadas no "programa" —
oria não o faz porque o tema tem significado teórico, mas porque como se fazia no passado com os hospitais, as escolas e as prisões. O ajuste
querem mostrar que a desigualdade, a qual é "ruim", é resultado da poderia não ser muito confortável no começo. As moradias poderiam parecer
discriminação, a qual "deveria" ser eliminada. Esses objetivos polí- estranhas aos nossos hábitos. A falha era de nossos hábitos. Nós iríamos
ticos e sociais são freqüentemente mais importantes para os pesqui- aprender a nos adaptar ao novo Wohnkultur porque ele se baseava em pa-
sadores e para aqueles que se interessam pela sociologia do que os drões racionalmente estabelecidos... As revoluções arquitetônicas exigiam o
objetivos cognitivos. reprojeto da humanidade."

S. Cole, "Why Sociology Doesn't Make Progress Like the Natural Portanto, não só os arquitetos, pessoalmente, são animais pouco sociais,
Sciences", Sociological Forum 9, 1-12 2, 1994, 146, 151. como também pouco sociais são suas teorias.2L

'" S. Kostoff, "Foreword", Architects 'People, ed. Ellis e Cuff, xiii.


O discurso arquitetônico evita o social '' De fato, nada poderia estar mais longe da verdade do que a afirmação que "a nobreza da
arquitetura residiu sempre na idéia de que é uma arte social", conforme descreve o relatório
Boyer sobre ensino de arquitetura (E. L. Boycr e L. D. Mitgang, Building Community [Princeton,
A partir daí surge um terceiro aspecto, mencionado por Bill Hillier já há NJ: Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching, 1996], 3). Curiosamente, essa
algum tempo.I9 Ele descreveu o problema central da teoria da arquitetura como profunda insociabilidade estende-se para o campo associado do projeto assistido por compu-
tador. Muitos dos trabalhos teóricos mais eminentes nessa área são extremamente formal istas
e despovoados, tal como o de W. J. Mitchell, The Logic of Architecture (Carnbridge: MIT
Press, 1990). Para unia maior discussão, ver A. Ward, "The Supprcssion of the Social in
"13. Hillier, "Quite Unlikc the Pleasurcs of Scratching: Theory and Meaning in Architectural Design", Reconstructing Architecture, cd.T. A. Dutton e L. H. Mann (Minneapolis: University
Form", 9H7 (1985): 66-71. of Minnesota Press, 1996), 27-70.
24 Garry Stevens O círculo privilegiado 25

A história da teoria da arquitetura poderia ser escrita como um ciclo de ontologicamente" ao esquecimento25 ), exceto para as pesquisas relativamente
teorias formalistas, seguido por uma crise de confiança, uma busca por valores inofensivas sobre as relações entre as forças sociais e os movimentos artísticos.
externos nos quais fundamentar uma teoria da forma e, então, um aumento As sociologias da arquitetura entram necessariamente em conflito com
lento da introversão e do formalismo. Mais ainda, a teoria da arquitetura tem se várias suposições importantes sobre estética e teoria da arquitetura. Há quatro
alinhado, historicamente, com a filosofia e não com alguma das ciências sociais. pressupostos entre os filósofos e teóricos da arquitetura quanto aos quais os
Os debates acadêmicos e críticos são feitos nas altas esferas da teoria estéti- sociólogos devem se posicionar.
ca. Eles são mais congruentes com os estudos culturais que os franceses fa-
zem tão bem do que com qualquer forma de sociologia anglófona ou mesmo de • Os grandes edifícios, enquanto obras de arte, são únicos. O sociólogo, por sua
filosofia anglófona; assim, ao longo de quase toda a sua história, a arquitetura vez, deve se voltar para regularidades observáveis.
voltou-se para a Europa para fundamentar seu conteúdo intelectual. Adotando • Os grandes edifícios são obra de um único criador. A teoria da arte sempre
o pós-modernismo como sua própria e predileta invenção, os intelectuais da esteve centrada no indivíduo. Por exemplo, para enfrentar a grande e nova
arquitetura contribuíram entusiasticamente para a já vasta literatura sobre o forma de arte do século XX, o cinema teve de inventar a teoria do auteur, a
assunto:22 Noções como "texto" e "discurso" e coisas assemelhadas apare- qual mantém que um filme pode ser um esforço coletivo, mas todos, exceto
cem freqüentemente, acima de tudo alinhando a teoria da arquitetura com os o diretor, são apenas trabalhadores braçais. A sociologia está preocupada
estudos literários francófonos. Como salientou o sociólogo americano Randall com o coletivo.
Collins, assim como a sociologia é uma disciplina subdesenvolvida na França, • O valor estético é inerente nos grandes edifícios. O sociólogo, pelo contrá-
também lá a teoria da arquitetura é sociologicamente empobrecida." rio, deve determinar como e por que a sociedade acaba por valorizar deter-
minadas obras, enquanto outras são relegadas ao esquecimento. Uma socio-
logia da arte (em geral) nega o essencialismo.
Uma sociologia da arquitetura é redundante • A arquitetura é a expressão do gênio singular do criador. O esteta afirmaria
que a sociologia da arquitetura é, portanto, redundante, uma vez que ignora
Isto nos leva à razão definitiva para a falta de interesse da arquitetura pela a conseqüente impossibilidade de se analisar uma obra.
esfera social. A resposta típica dos filóãofos e teóricos a qualquer sociologia da
arte tem sido negar a validade desse tipo de iniciativa.24 Desde Kant, a filosofia
trabalha com á idéia da arte como sendo autônoma, e seus problemas principais
têm sido: como se pode distinguir arte de não-arte, ou como se pode determinar A teoria pós-moderna e sua ausência neste livro
a qualidade estética, ou apenas o que é beleza, e assim por diante (apesar das
chamadas teorias pós-modernas). Ao manterem que a arte é essencialmente Você não vai encontrar a expressão "pós-moderno" muito emprega-
transcendental, os filósofos da estética, os historiadores da arte e os críticos da neste livro, porque os teóricos mais associados a este termo de fato
eliminam a própria possibilidade de existir urna sociologia da arte ("relegada não têm muito a nos dizer. Os reis-filósofos franceses não têm nenhum
interesse nos resultados acumulados pela sociologia, porém, uma vez que
os temas sociológicos não podem ser evitados, tais filósofos continuam
inventando suas próprias sociologias amadoras. Isto tem exasperado al-
" Três exemplos silo suficientes: G. Rose, "Architecture and Philosophy: The Postmodern guns anglo-americanos (até mesmo eu). Randall Collins, um dos mais no-
Complicity", Theory, Culture and Society 5 (1988): 357-371; J. Knesl e K. Frampton, "Cultu- táveis sociólogos americanos, manifestou sua irritação com parisienses,
ral Resistance in the Postmodern Condition", Precis 6 (1987): 113-117; e S. Zukin , "The tais como Foucault, do seguinte modo:
Postmodern Debate over Urban Form", Theory, Culture and Society 5 (1988): 431-446.
23
R. Collins, "Sociology: Prose i ence or Antiscience?", American Sociological Review 54 (1989):
124-139, e "Cumulation and Anticumulation in Sociology", American Sociological Review 55
(1990): 462-463.
T. J. Diffey, "The Sociological Challenge to Aesthetics", British Journal of. Aesthetics
24, 112 2 25 S. Woolgar e D. Pawluch, "Ontological Gerrymandering: The Anatomy of Social Problems
(1984): 168-171.
Explanations", Social Problems 32, n" 3 (1985): 214-227.
26 Garry Stevens 27
O círculo privilegiado

dores. Não obstante, em ambos os casos a arquitetura parece escapar pelos


A sociologia amadora dos filósofos e teóricos da literatura interstícios. Enquanto se encontra um volume significativo de trabalhos de his-
parisienses é impressionante, em especial para as pessoas que não tória da arte e da arquitetura que podem ser considerados como levando em
têm muitos conhecimentos sobre as conquistas da sociologia. Não é conta a dimensão social, a sociologia da arte propriamente é um foco de aten-
preciso dizer aos sociólogos que as convenções sociais são arbitrá- ções relativamente recente no mundo de língua inglesa, atraindo interesse so-
rias e historicamente construídas... Onde os amadores .fizeram con- mente da década de 1960 em diante." Mesmo hoje, ela é responsável por
tribuições importantes, estas não ocorreram graças a avanços teóri- apenas 2% da literatura sociológica." Possui uma história apenas um pouco
cos, mas sim pela adoção de idéias paralelas àquelas idéias mais longa na Europa, e isto em razão principalmente de um grupo de sociólo-
sociológicas já existentes e por sua aplicação a novos materiais gos da chamada Escola de Frankfurt e a outros pensadores marxistas."' Em
empíricos. É nesse contexto que as contribuições de Foucault, por geral, as análises marxistas não foram bem recebidas porque, na tentativa de
exemplo, são valiosas... Foucault era, antes de mais nada, um histo- explicar tudo em termos econômicos, davam a impressão de serem simplórias
riador da psiquiatria que percebia as conexões entre sua especiali- e reducionistas.
dade e outras esferas institucionais... O detalhe histórico e o novo Nesse pequeno subcampo da sociologia, as artes de interesse para os ci-
entendimento da psiquiatria são contribuições bem-vindas, mas não entistas sociais têm sido a pintura, a escultura, a música e a ópera.3° A arquite-
constituem nenhuma grande novidade teórica. Em seus esforços de tura tem atraído apenas interesses passageiros. Isto ocorre, sem dúvida, por-
teorização, Foucault encontrou um tema sociológico mais moderno, que as demais artes representam casos mais simples, uma vez que dão a
as relações entre m icroprocessos e a macroestrutura do poder. Mais impressão de ser menos contaminadas por preocupações não-artísticas e, por-
uma vez, congratulações; mas, francamente, trata-se de uma tanto, mais fáceis de ser compreendidas pelos sociólogos. A arquitetura tam-
performance de amador. bém tem sido muito pouco estudada por aqueles interessados na sociologia das
profissões; direito e medicina são os temas típicos de pesquisa. Novamente, es-
R. Collins, "Cumulation and Anticumulation in Sociology", American tas duas áreas dão a impressão de serem mais "desenvolvidas" como profissões
Sociological Review 55, 1990, 462. e, conseqüentemente, mais interessantes para a pesquisa.

Estudos sobre a prática

Estudos sociológicos da arquitetura Tal como se encontra hoje, a maior parte da pesquisa empírica em sociolo-
gia da arquitetura tem enfocado diretamente o que os arquitetos consideram a
Os escassos estudos sociológicos da arquitetura podem ser classificados forma tradicional e, certamente, mais desejável de ganhar a vida, as firmas e os
em três grandes categorias: estudos sobre a prática, estudos histórico-teóricos
e estudos sobre gênero.26 Toda a literatura pode ser lida em um único dia.
A falta de material pode parecer fora do comum, uma vez que a arquitetura
Social Science and
intersecta duas especializações sociológicas — a sociologia das profissões e a " 1. Balfe, "Moving toward a New Paradigm on Social Sciences and the Arts",
the Arts, 1984: A State-of-the-Arts Review from the7enth Annual Conference on Social 7'heoly,
sociologia da arte — e, portanto, deveria ser objeto das atenções dos pesquisa-
Politics, and the Arts, cd. J. P. Robinson (Lanham, MD: University Press of America, 1985), p.
5-16.
(Nova York: Cambridge University Press,
" V. L. Zolberg, Constructing a Sociology of the Arts
26 1990).
Urna quarta categoria poderia ser denominada consultiva, na qual o sociólogo tenta explicar ao
29 Ver, por exemplo, T. Adorno,
Introduction to the Study of Music (Nova York: Seabury Press,
arquiteto quais os benefícios que a sociologia pode trazer para o seu trabalho, tal corno em (Chicago: University of Chicago Press, 1982);
1976 [1962]); A. Hauser, The Sociology ofArt
Gans, "Toward a Human Architecture"; R. Gutman, "Architecture and Sociology", American (Londres: MacM illan, 1981).
Sociologist 10 (1975): 219-228; e J. Blau, "The Context and Content of Collaboration: e J. Wolff, The Social Production ofArt
" Urna revisão bibliográfica da sociologia da arte pode ser encontrada em J. R. Blau, "Study of the
Architecture and Sociology", Journal of Architectural Education 3
45, ns 1 (1991): 36-40. Annual Review of Sociology 14 (1988): 269-292.
Arts: A Reappraisal",
28 Garry Stevens O círculo privilegiado 29

escritórios do setor privado. A pesquisa nessa área tem concebido a arquite- rentáveis. Seu último desafio é o de descobrir maneiras para melhorar o estado
tura como consistindo de indivíduos agrupados em escritórios de prática pro- de espírito dos jovens arquitetos e motivar os escritórios a realizar um bom
fissional que prestam serviços para vários tipos de clientes. As questões de trabalho."
interesse ficam centradas na natureza do mercado para tais serviços e em Um estudo descritivo aprofundado de Dana Cuff, com base em pesquisas
como esse mercado vem mudando. Em geral, encontra-se uma forte inclina- de observação partícipe em várias firmas de arquitetura, gerou uma descrição
ção pragmática nesses estudos, e alguns são escritos como manuais para as da carreira típica de um indivíduo na escola de arquitetura, na graduação e no
firmas, oferecendo conselhos sobre como ir em direção a uma prática mais trabalho."
feliz e saudável.
Judith Blau, que pesquisou inúmeros aspectos do mundo artístico, também
Robert Gutman, em seu livro Architectural Practice,
descreve em deta- estudou o mundo da prática arquitetônica.36 Em 1974 fez levantamentos em
lhe a profissão como existia nos Estados Unidos em meados dos anos 1980.31 152 escritórios de Manhattan, com o objetivo de determinar vários traços
Resumindo seus achados, Gutman apresentou cinco desafios para a profissão. organizacionais e sua evolução no tempo. Conforme relata em seu livro
Em primeiro lugar, a profissão deve ajustar o número de indivíduos atuando no Architect.s. and Firms, não havia características estruturais que distinguissem
campo da arquitetura ao potencial de demanda por seus serviços. E chama a as firmas que faliam daquelas sobreviventes. Entretanto, era possível apontar
atenção para o êxito obtido pelo direito e pela medicina na restrição de matrícu- uni padrão quando as firmas eram classificadas em uma de três categorias:
las nas escolas, sugerindo que a arquitetura siga o mesmo caminho — ainda que bem-sucedidas, apenas sobrevivendo ou totalmente falidas. Ela descobriu que
isto acabe com o suprimento de mão-de-obra barata representada pelos re- firmas de mesmo tipo ou faliam ou eram bem-sucedidas, e tais firmas eram
cém-formados que os escritórios estão acostumados a ter." Também sugere o diferentes daquelas que apenas sobreviviam. Blau concluiu que o decisivo na
desenvolvimento de algum tipo de sistema de estratificação, como na medicina, prevenção de desastres, no resistir durante os períodos de depressão, era ter
na qual internos, residentes, enfermeiras e outros profissionais paramédicos um escritóiio com o porte adequado e um fluxo contínuo de comissões de gran-
são controlados por membros da própria profissão médica. des empresas. Mesmo assim, escritórios menores equilibravam-se em uma
Em segundo lugar, Gutman desafia a profissão a desenvolver urna filosofia posição de risco: características, tais como flexibilidade organizacional, comis-
da prática que corresponda às demandas da indústria da construção. Critica os sões não-locais, liberdade quanto a restrições impostas por uma firma matriz e
arquitetos — e em especial suas entidades profissionais — por não serem capa- dependência de uma rede de referências, poderiam ter como conseqüência
zes de desenvolver políticas consistentes quanto às suas relações com outras tanto a extinção quanto o crescimento.
profissões atuantes nessa indústria. E descreve a comunidade das firmas de Um último estudo descritivo de interesse é o de Magali Sarfatti Larson et
arquitetura corno dividida e sem a liderança do AIA." al." Sua equipe fez levantamentos em um em cada 12 escritórios americanos
Em terceiro lugar, apela à profissão para que mantenha um controle firme listados no Profile of Architectural Firms do AIA para 1978. Dentre outros
de um mercado cada vez mais competitivo. Propõe o estabelecimento de pro- resultados, verificou-se a existência de fortes vínculos ecológicos entre a di-
gramas de treinamento especializado nas escolas, de modo que os arquitetos
possam adquirir experiência em outras áreas da construção. Como uma alter-
nativa, sugere o retorno do arquiteto à essência de sua atribuição, aquela do Discussão sobre se a baixa moral é urna falha do sistema educacional ou da prática pode ser
34
projeto artística. O quarto desafio está na necessidade de manter os escritórios encontrada em P. Carolin, "Expectation versus Reality in Architectural Education", Strategic
Study of the Profession, ed. F. Duffy (Londres: Royal Institute of British Architects, 1992),
171-182.
31 R. Gutman, Architectural Practice: /1 Criticai View 35 D. Cuff, Architecture: The Story of Practice (Cambridge: MIT Press, 1991).
(Princeton: Princeton Architectural Press, The Design Professions
1988). 36 J. Blau, "Wherc Architects Work: A Change Analysis, 1970-1980",

and the Buil! Environment, ed. P. Knox (Beckenham, Grã-Bretanha: Croom Helm, 1988), 127-
32
Os salários inferiores aos padrões legais ou até mesmo o não-pagamento de jovens arquitetos 146; J. R. Blau e K. L. Lieben, "Growth, Decline, and Death: A Panei Study ofArchitectural
são atacados em T. Fisher, "The Intern Trap: How the Profession Exploits Its Young",
Progressive Architecture, julho de 1994, 69-73. Firms", Professionals and Urban Farta, ed. J. R. Blau, M. La Gory e J. S. Pipkin (Albany:
33
State University ofNewYork Press, 1983), 224-250; e J. Blau, Architects and Firms (Cambridge:
Quase dez anos depois das observações de Gutman, o AIA continuava sendo ferozmente
MIT Press, 1984).
criticado como caro, irrelevante, ineficiente e incompetente. Ver M. J. Crosbie, "AIA: Worth
37 M. S. Larson, G. 1,eon e J. Bolick, "The Professional Supply of Design: A Descriptive Study
the Price of Admission?", Progressive Architecture,
abril de 1994, p. 61-100. ofArchitectural Firms", Professionals and Urban Forni, ed. Blau, La Gory e Pipkin, 25 I -279.
30 Garry Stevens O círculo privilegiado 31

mensão da indústria da construção local, o número de escritórios e o número de concepção do papel do arquiteto como o de um especialista na elaboração de
faculdades de arquitetura. Em geral, os escritórios haviam sido estabelecidos •1 códigos estéticos ao longo do processo de desintegração do ancien regime e
por arquitetos formados no mesmo estado e recrutavam localmente a maioria até o período moderno.
de seu pessoal qualificado.
A seguir, Larson ressalta que a Revolução Industrial trouxe novas tensões
para o papel do arquiteto. Como especialistas em estética, os arquitetos foram
Estudos histórico-teóricos confrontados com o problema cada vez mais difícil de dar expressão adequada
aos novos e diferentes tipos de edifícios demandados pela industrialização.
Um segundo tipo de pesquisa sociológica busca explicar o desenvolvimen- Enquanto tentavam resolver esses problemas em termos eminentemente sim-
to da profissão da arquitetura e como se tornou o que é atualmente. Tais traba- bólicos c teóricos, os engenheiros estavam se inserindo mais e mais na constru-
lhos são uma necessidade tanto histórica como teórica. ção de edifícios. As tentativas dos arquitetos de teorizar uma justificativa para
Poucos sociólogos preocuparam-se com teorias específicas sobre a pro- sua relevância começaram a parecer insignificantes, quando confrontadas com
fissão arquitetônica. A primeira foi Magali Sarfatti Larson, que construiu uma a indubitável competência dos engenheiros na execução de edificações. Além
teoria do desenvolvimento histórico com base em seus trabalhos anteriores disso, tal teorização, até então desenvolvida em termos históricos, foi complica-
de sociologia das profissões.38 Larson mantém que o papel ocupacional da da pela ascensão de ideologias cientificistas e positivistas. A tradição clássica
arquitetônica depende de dois conjuntos de relações sociais. O primeiro se dá nada tinha a dizer sobre fábricas, armazéns ou estações ferroviárias.
entre aqueles que concebem o edifício e aqueles que executam tal concepção Assim como os profissionais em muitas outras ocupações em inícios do
ou, como ela os denomina, entre tetos e techne. Os arquitetos existem apenas século XIX, os arquitetos embarcaram no que Larson denomina projeto de
quando a execução da construção está separada de sua encomenda. profissionalização. Isto envolvia duas frentes de ataque. Em primeiro lugar,
A segunda relação social existe entre os clientes, que definem as funções de definindo e controlando um mercado protegido para serviços arquitetônicos,
um edifício, e aqueles que fazem a intermediação entre os clientes e os execu- que deveriam ser diferenciados dos serviços oferecidos por competidores, tais
tores (construtores). O papel arquitetônico apareceu muitas vezes em determi- como os construtores ou os engenheiros, e defendido em termos de competên-
nadas circunstâncias históricas, quando um grupo especial de construtores (tais cia e de benefícios concedidos. Em segundo lugar, vinculando status social e
como os mestres maçons) ou indivíduos excepcionais (como nos princípios da privilégios socioeconômicos concretos ao fato de se ser membro da categoria
Renascença) surgem e fazem a intermediação entre as elites que encomen- profissional. Para tanto, era preciso obter algum tipo de meio institucional de
dam edificações e suas convenções estilísticas. autodefinição e defesa corporativa e necessário encontrar uma justificativa
Por toda a Idade Média, o arquiteto permaneceu quase sempre anônimo. ideológica adequada para a exclusão dos competidores. E implicava, também,
Segundo Larson, o carisma do grande edifício, por sua vez, era apropriado pelo a criação de competências padronizadas entre seus praticantes para distinguir
mecenas. Na Renascença, os arquitetos conseguiram virar o jogo a seu favor e seus serviços de outras alternativas. A sanção do Estado, o ensino formal e o
contra os mecenas transferindo as propriedades carismáticas do edifício para credenciamento profissional podem satisfazer tais exigências.
um discurso abstrato e teórico sobre a arquitetura. A passagem da ocupação Larson explica, assim, a formação das associações profissionais de arqui-
para uma fase acadêmica e oficial se deu no final do Barroco, na França, com tetos na primeira metade do século como tentativas de definir os arquitetos e
o monarca controlando cada vez mais os programas dos edifícios monumen-
excluir os meros construtores. A substituição da pupilagem nas corporações de
tais. O estabelecimento da Académie Royale d'Architecture, naquele país, per- ofícios pelo ensino formal teria sido o método adotado para padronizar as com-
mitiu que os arquitetos obtivessem o controle oficial das dimensões simbólicas petências arquitetônicas. O problema fundamental que incomodava a profissão
e estéticas da arquitetura. Após urna breve dissolução durante a Revolução, era então, e ainda é hoje, a sua incapacidade de construir um monopólio do
essa academia ressurgiu como a École des Beaux-Arts, preservando assim a mercado. Como coloca Larson, uma vez que os produtos dos arquitetos e dos
não-arquitetos são funcionalmente indistinguíveis, a profissão nunca foi capaz
de elaborar unia justificativa ideológica suficientemente convincente para per-
" M. S. Larson, "Emblem and Exccption: The Histories] De lin ition adie Architeet's Professional suadir o Estado a permitir que monopolizasse o projeto dos edifícios. Apelos
Role", Profissionais and Urban For•m. ed. 13Iau, La Gory e Pipkin, 49-85. para argumentos estéticos e teóricos nunca foram bem-sucedidos em uma so-
32 Garry Stevens O círculo privilegiado 33

ciedade na qual a pluralidade cultural é aceitável de um modo no qual a por meio de um estudo das premiações anuais da revista americana Progressive
heterodoxia médica, por exemplo, não é. Architecture.42 Essas premiações de grande prestígio são julgadas por arquite-
A teoria do monopólio de mercado de Larson foi criticada por David Brain tos eminentes; analisando o discurso dos jurados, Larson mostrou corno julga-
em seu estudo sobre o desenvolvimento da profissão da arquitetura nos Esta- mentos da qualidade arquitetônica refletem concepções normativas sobre o
dos Unidos no século XIX.39 Seu argumento é que a teoria de Larson é incapaz papel social do arquiteto. Em sua opinião, o surgimento do pós-modernismo
de explicar por que a dimensão estética, especificamente, surge como o com- representou o retorno a um formalismo e a urna "supremacia arquitetônica"
ponente-chave do papel do arquiteto, e propõe um modelo centrado na nature- que negava qualquer espaço para o social. Em um estudo posterior, deu segui-
za da retórica arquitetônica. Para ele, Larson é indiferente ao real conteúdo do mento a seu interesse pelo discurso, demonstrando como os concursos
conhecimento profissional, considerando-o simplesmente como um recurso a 1111P' arquitetônicos reafirmavam valores centrais da ideologia da profissão.43
ser empunhado na disputa pela monopolização e pela legitimação. Examinando
o processo de profissionalização arquitetônica em fins do século retrasado, Brain
discerne a evolução de urna retórica do estilo que foi capaz de unir os vários Estudando a arquitetura como uma profissão
profissionais, dispersos em diferentes locais de trabalho, em urna profissão co-
esa. A principal ameaça era o ecletismo que, no segundo terço do século, supe- Quase todo o trabalho sociológico sobre arquitetura tem sido realizado estri-
rou o previamente dominante estilo neoclássico. Empregando urna panóplia de tamente no quadro da sociologia das profissões. A maioria dos leitores da litera-
estilos e nenhuma justificativa teórica para qualquer um deles, os arquitetos não tura arquitetônica provavelmente aceitaria algo que se aproximasse destas três
conseguiam encontrar muitas características que os distinguissem dos constru- caracterizações: a primeira, de um artigo na Architectural Record, a segunda, do
tores. Acharam uma solução ao adotarem o sistema estilístico heaux-arts, o Journal of. Architectural Education, e a terceira de uma coleção de ensaios
que permitiu que a profissão se justificasse, como um todo, pela natureza do literários sobre a prática profissional contemporânea:
como fazia o que fazia. À medida que elabora sua análise, Brain mostra como
o regime beaux-arts oferecia um método racional de projeto que poderia ser Primeiro, que uma profissão é intelectual e exige uni profissional que exer-
ça seu julgamento e lide com um conjunto substancial de conhecimentos.
formalmente ensinado nas escolas, um fundamento prático para uso rotineiro
Ela exige, também, um compromisso para o resto da vida com o estudo...
em grandes escritórios e uma estrutura disciplinar coerente na qual um merca- Segundo, a profissão deve ser prática — seu conhecimento precisa ser apli-
do para serviços únicos pudesse se sustentar." Esse sistema conseguia unir o cado à realidade e a preocupações reais. Terceiro, uma profissão possui
prático de província com o projetista da grande cidade e explicar por que os técnicas e competências... Em uma verdadeira profissão, contudo, tais téc-
projetos de uma prefeitura ou de uma pequena habitação seguiam os mesmos nicas são secundárias em relação ao conjunto de conhecimentos básicos
princípios. E permitia ainda que a profissão constituísse uma base teórica coe- para sua aplicação adequada... Quarto, unia profissão precisa ser organi-
rente, capaz de abarcar problemas que até então corriam o risco de passar a zada em associações e/ou grupos de profissionais."
ser solucionados por outras profissões. O que diferencia um grupo profissional, qualquer que ele seja, é que
seus membros devem lidar com incertezas, e eles fazem isso tendo por
Em trabalho posterior, Larson alterou seu enfoque teórico, passando a exa-
base uni longo treinamento formal, seguido por um treinamento informal
minar o papel do discurso na elaboração da prática arquitetõnica." Analisou o supervisionado, tais como estágios ou programas de residência. Essa é a
declínio do modernismo e a ascensão dos estilos arquitetônicos pós-modernos distinção clássica entre ocupações e profissões."

39 D. Brain, "Practical Knowledge and Occupational Control: The Professionalization of " M. S. Larson, Behind the Postmodern Facada (Berkeley: University of California Press,
Architecture in the United States", Sociological Forum 6, no 2 (1991): 239-268.
1993).
" D. Brain, "Discipline and Style: The Ecole de Beaux Arts and the Social Production of an 43 M. S. Larson, "Architectural Competitions as Discursive Events", Theory and Society 23
American Architecture", Theory and Society 18 (1989): 807-868.
(1994): 469-504.
4 ' M. S. Larson, "In the Matter of Expelis and Professionals, or How Impossible R Is to Leave
44 R. Filson, "Can Schools Span the Gap to Practice?", Architectural Record, novembro de 1985,
Nothing Unsaid", The Formation of Professions: Knowledge, State and Stra1egy,
ed. R. 59.
Torstendahl e M. Burrage (Londres: Sage, 1990), 24-50.
43 Blau, "Context and Content ofCollaboration".
34 Garry Stevens O círculo privilegiado 35

Em primeiro lugar, há uma reivindicação profissional quanto a conhe-


cimentos exclusivos e especializados. Mais ainda, essa reivindicação é cando a esse tema no caso da arquitetura; contudo, existem muitos grupos
corroborada por exigências prescritas para o ensino e o treinamento. Em
segundo lugar, a competência e a habilidade de todos os profissionais são 4 conduzindo valiosas pesquisas empíricas e teóricas sobre gênero na arqui-
explicitamente garantidas... Em terceiro lugar, e talvez o mais significativo, tetura. Eu lhes cedo a palavra.
a profissão reivindica que serve a sociedade." Por exemplo, Kingsley e Glynn realizaram dois levantamentos para
estabelecer o grau de discriminação de gênero na arquitetura. Um foi
Em conjunto, esses comentários extraídos da literatura arquitetônica per- realizado com mulheres diplomadas e o outro com uma amostragem de
tencem inequivocamente à tradição anglo-americana de conceituar uma de- homens arquitetos exercendo a profissão. Eles constataram a existência
terminada classe de atividades — as profissões — como algo bem diferente de salários mais baixos para mulheres com competências iguais às dos
das demais, como sendo de certo modo "mais elevada", mais nobre e de homens, de urna tendência por parte das mulheres de abandonar o campo
maior prestígio. As pessoas acham que é melhor que a sua ocupação seja arquitetônico e de um sentimento geral de frustração entre as mulheres,
uma profissão em vez de apenas um emprego: o nome tem uma força simbó-
sejam estudantes, diplomadas ou professoras. Ahrentzen e Groat critica-
lica. Assim como John Cullen, quando os anglófonos pensam em "profissão",
ram o profundo sexismo presente no ensino de arquitetura, porque este
eles tomam como exemplo a advocacia e a medicina anglo-americanas, consi-
propõe uma visão da história da arquitetura como obra de grandes ho-
deradas as mais bem-sucedidas, poderosas e prestigiosas de todas as profis-
sões. As demais ocupações são vistas corno lutando para alcançar essa forma mens, encoraja a idéia de mestres arquitetos, transforma os julgamentos
ideal. A arquitetura é freqüentemente comparada com esses tipos ideais e con- dos projetos dos estudantes em campos de batalha e promove o assédio
siderada lamentavelmente insuficiente. sexual. Frederickson apresentou provas quantitativas sobre tais fatos, ao
mostrar que as estudantes são interrompidas com mais freqüência duran-
te o julgamento de seus projetos e que as juradas falam menos e por
períodos de tempo mais curtos do que os homens.
Estudos sobre gênero
Ver K. Kingsley e A. Glynn, "Women in the Architectural Workplace",
Um dos temas deste livro é a maneira como formas ocultas de domi- Journal of Architectural Education 46, n° 1 (1992), 14-19; S. Ahrentzen
nação operam no campo da arquitetura. Não há dúvida de que as mulhe- e K. H. Anthony, "Sex, Stars, and Studios: A Look at Gendered Educational
res, em particular, sofrem com esses mecanismos, mas não abordo isola- Practices in Architecture", Journal of Architectural Education 47, ni 1
damente o tema das mulheres na profissão. Este livro examina mais os (1993), 38-48; L. Groat e S. Ahrentzen, "Reconceptualizing Architectural
instrumentos gerais que operam no nível das classes em todas as pessoas, Education for a More Diverse Future", Journal of Architectural
homens e mulheres. Tanto quanto eu saiba, há poucos estudiosos se dedi- Education 49, nfi 3 (1996), 166-183; e L. Groat e S. Ahrentzen, "Voices
for Change in Architectural Education", Journal of Architectural
Education 50, n° 43 (1997), 271-285:

46 R. Ferris, "Introduction", Reflections on Architectural Practices in the Nineties, ed. W. S.


Saunders (Nova York: Princeton Architectural Press, 1996), 8-9. Para maiores detalhes, o leitor
ansioso por saber se a arquitetura é uma "profissão verdadeira" pode consultar a discussão de Tanto parte da literatura sociológica como da literatura arquitetônica pro-
Cullen sobre o grau no qual a arquitetura atinge cinco critérios selecionados de profissionalismo. cura diagnosticar e remediar tal situação, na esperança de elevar a profissão
Os critérios de Cullen foram: a complexidade das relações com as pessoas, a força das associa-
ções profissionais, o tempo de duração do treinamento, as exigências legais para registro e o
ao seu lugar de direito. Por exemplo, Thomas Fisher — editor-chefe da extinta
prestígio. Ele concluiu que a arquitetura não era tão profissionalizada como a medicina ou Progressive Architecture, uma das revistas profissionais mais lidas em sua
o direito, mas com certeza era urna "verdadeira profissão". J. Cullen, "Structural Aspects of the época — apontou vários problemas graves que afetam a profissão: taxas eleva-
Architectural Profession", Journal of Architectural Education 31, nu 2 (1978): 18-25. das de desemprego e subemprego, intensa competição por trabalho e sala-
36 Garry Stevens O círculo privilegiado 37

rios estagnados ou decrescentes.47 Em sua opinião, as origens desses proble-


do-se um continuam de profissionalização, com as diferentes ocupações loca-
mas eram: aumento da produtividade causado pela difusão do uso do computa- lizadas em diferentes posições neste continuum.
dor, erosão da base tradicional de clientela, concorrência de outras profissões e Um sociólogo das profissões, Eric Freidson, identifica essa descrição com
uma desilusão pública generalizada com os arquitetos. Na busca de possíveis o conceito leigo do que seja profissão, uma vez que corresponde muito de perto
soluções ou "modelos de ação", Fisher examinou outras profissões, justamente à imagem que o profissional tem de si mesmo e, de fato, é quase apologética,
as que considerava mais bem-sucedidas. A medicina, segundo ele, poderia en- servindo apenas para revalorizar o senso comum." Eu acrescentaria, ainda,
sinar a especialização para a arquitetura. A organização da arquitetura é prati- que é particularmente hipócrita e interesseiro atribuir-se urna superioridade moral
camente o oposto daquela da medicina: nesta última, profissionais generalistas a determinadas profissões em detrimento de outras, argumentando que elas
coordenam os esforços de especialistas altamente pagos e agem como condu- "servem à sociedade", enquanto o resto das pessoas estaria apenas correndo
tores na transmissão dos resultados das pesquisas aos pacientes; a arquitetura, atrás de dinheiro.
por sua vez, estaria saturada de generalistas caros e de empregados Freidson e Larson desenvolveram, de modo quase independente, um mo-
especializados com baixos salários. A profissão médica mostrava como era delo das profissões bem menos lisonjeiro, o modelo do monopólio de merca-
possível incorporar cada vez mais expertise a uma ocupação. A expansão da do." As profissões não seriam bandos de especialistas confiáveis, dando aos
advocacia, desde a virada do século XIX, poderia ensinar a arquitetura a clientes o beneficio de sua sabedoria, adquirida ao longo de muitos anos de
ampliar os mercados para serviços. Da engenharia, a arquitetura poderia sacrifício pessoal nos corredores sombrios da academia. Elas seriam organiza-
aprender corno criar uma base de pesquisa para desenvolver conhecimentos. ções que estariam tentando obter o controle intelectual e organizacional de
importantes áreas de interesse social. As profissões seriam monopólios bem-
sucedidos em convencer os outros a lhes entregar, justificadamente ou não, tal
A sociologia das profissões monopólio:
Esses dois conjuntos de teorias trabalhavam praticamente com a mesma
A sociologia das profissões, conforme entendida da década de 1930 à de concepção de "profissão", e ambas sabiam o que era uma "profissão" só de
1960, identificou como sua tarefa principal explicar por que algumas ocupações olhar. Em resumo, uma profissão tinha os seguintes elementos:
haviam conseguido obter recompensas materiais e simbólicas que escapavam
a outras. Como explica o sociólogo Andrew Abbott, o foco do interesse estava • Uma ocupação não-manual, white collar, constituída idealmente por prati-
nos padrões organizacionais de uma profissão, em como haviam surgido e se cantes liberais.
desenvolvido." As profissões eram caracterizadas como corpos organizados • Uma educação formal demorada em uma universidade, proporcionando urna
base teórica rigorosa e extensa.
de especialistas que aplicavam conhecimento especializado e esotérico no es-
tudo dos casos a eles apresentados pelos clientes. Esse conhecimento era ad- • Um conjunto de organizações auto-reguladoras para a participação e para o
controle do trabalho, regulamentando o acesso à profissão e santificadas
quirido ao longo de um período considerável de treinamento formal em um
pelo Estado.
sistema educacional complexo. Os interesses dos clientes seriam protegidos
Um monopólio do trabalho na profissão, garantido pelo Estado.
por um código de ética, mais ou menos regulamentado pelo estado, e por um
Uma autonomia do Estado e da opinião dos clientes no que se refere à
módico de altruísmo supostamente inexistente em ocupações menores, cujos
excelência.
membros eram vistos como motivados por interesses mais mercenários. Um Uma relativa homogeneidade, com os praticantes da atividade tendo dife-
pouco à la Cullen, a diversidade empírica das profissões seria explicada supon- rentes habilidades e competências, mas de resto mais ou menos permutáveis.

47 T. Fisher, "Can This Profession Be Saved?", Progressive Architecture, fevereiro de 1994, 45-
9 E. Freidson, "The Theory of the Professions: State of the Art", The Sociology ofthe Professions,
49, 84.
" A. Abbott, The System of Profèssions: An Essay on the Division of Expert Labor (Chicago: ed. R. Dingwall e P. Lewis (Londres: Maernillan, 1983), 19-37.
University of Chicago Press, 1988). s° M. S. Larson, The Rim ofProfessionalism: A Sociological Analysis (Berkeley: University of
California Press, 1977).
Defeitos de uma sociologia da "profissão"
da classe, e apenas então um arquiteto. A idéia de se agrupar certas atividades
Hoje em dia, os sociólogos em geral concordam que tal conceituação de 4 corno "as profissões" faz bem menos sentido no contexto de tal mentalidade.
profissão é paroquial, restrita ao mundo anglófono. Os europeus têm dificulda- Isto faz menos sentido ainda, quando visto na perspectiva histórica. As
des para compreender o conceito como um todo. Na Alemanha, por exemplo, modernas profissões anglo-americanas surgiram a partir de grupos de pessoas
pode-se falar em freie Berufe
ao se referir a um praticante auto-empregado ou que faziam trabalhos similares em um mercado capitalista. A identidade de
em akademishe Berufe,
referindo-se às antigas profissões de formação uni- grupo estava centrada no trabalho semelhante. A arena em que lutavam pelo
versitária, como o clero, a teologia, o direito e o ensino de segundo grau, mas direito de monopolizar certo trabalho era, em última instância, aquela da opinião
não há uma única expressão equivalente a "profissão".5 pública. O único papel desempenhado pelo Estado era sancionar e implantar na
' A palavra é usada em
outras línguas estritamente corno uma importação técnica da sociologia." lei um monopólio sobre aquele trabalho. As profissões européias surgiram prin-
Na tradição anglo-americana, os profissionais identificam-se a si mesmos cipalmente do serviço público das nações em processo de industrialização em
pelo tipo de trabalho que fazem, e o seu status princípios do século XIX. Seus modelos mais próximos eram a aristocracia e a
e prestígio advêm do fato de
pertencerem a uma ocupação corporativamente organizada. Porém indivíduos estrutura militar. Na França e na Alemanha, até meados do século, a grande
que não são anglo-americanos e que nós
rotularíamos de profissionais quase maioria dos profissionais — médicos, advogados, engenheiros — era empregada
sempre não pesam em si mesmos como tal. No Japão, o pelo Estado e organizada em hierarquias burocráticas. A identificação do indi-
status e a identidade
de um indivíduo dependem, em primeiro lugar, da companhia na qual trabalha, víduo estava baseava em seu emprego como funcionário público e no fato de
depois, da posição que ocupa nessa companhia, e que havia se formado em urna escola estatal de elite, tais como as grandes
que faz. Na Europa, o status depois, do tipo de trabalho
em geral é conferido pela formação em uma das écoles francesas, e não no trabalho que fazia. Na França, um engenheiro do
universidades ou escolas públicas de elite, independentemente da especialidade Estado, diplomado pela École Polytechnique, não pensava em si mesmo como
obtida (do mesmo modo em que, nos países de língua inglesa, fica-se mais tendo muito em comum com um engenheiro do setor privado que não havia se
impressionado ao se saber que alguém é formado por Yale ou Cambridge do formado na mesma escola.
que ao se saber o que lá estudou). Ou seja, uma pessoa identifica-se com a A noção de profissões de Estado é alheia aos anglo-americanos. Somente
classe empresarial, caso trabalhe para si mesmo, ou como tendo uma certa a atividade de ensino aproxima-se dessa idéia, mas poucos professores, apesar
posição hierárquica, caso pertença ao serviço público. O conteúdo em si de seu de serem em geral empregados públicos, iriam pensar em si mesmos como a
trabalho (projetar edifícios ou curar doentes) é menos importante do que para serviço do Estado. Talvez a situação análoga mais próxima no mundo de fala
quem esse trabalho é feito (para o Estado ou para indivíduos)." Nos países do inglesa seja a distância que um diplomado em administração de empresas por
Benelux, por exemplo, um arquiteto deve se registrar como chefe, assalariado uma universidade de elite, trabalhando como executivo em uma grande empre-
ou funcionário público, devendo informar às autoridades caso mude de posi- sa, acredita que o separa do proprietário de um bar, apesar do primeiro ser
ção.54
Um arquiteto anglo-americano é, antes de mais nada, um arquiteto; já assalariado e o último não e de ambos serem ocupacionalmente classificados
uni europeu é um diplomado de tal ou tal escola e é membro de uma determina- como "gerentes".
Na Alemanha, as organizações que acreditamos ser fundamentais para a
identidade profissional — as associações e as sociedades definidas por ocupa-
51
ções — não apareceram antes da década de 1870. A primeira organização nacio-
J. Kocka, "`Bürgertuin' and Professions in the Nineteenth Century: Two Alternative nal, a Bund Deutscher Architekten (BDA), foi criada apenas em 1903, quase
Approaches",
Professions in Theory and Ilistoly: Rethinking the Study of the Professions, oitenta anos depois de sua equivalente inglesa." Hoje em dia, o que nós consi-
M. Burrage e R. Torstendahl (Londres: Sage, 1990), 62-74. ed.
52
R. Torstendahl, "Knowledgc and Power",
University and Society, ed. M. Trow e T. Nybom
deraríamos como uma única "profissão" está dividido em duas: os arquitetos do
(Londres: Jessica Kingsley, 1991), 35-46.
53
R. Collins, "Changing Conceptions in the Sociology of Professions",
Professions, ed. Torstendahl e Burrage, 11-23, The Formation of
54
Z. B. Jaszczolt, "Introduction", V. Clark, "A Struggle for Existence: The Professionalization of German Architects", German
Architectural Practice in Europe 4: Benelux, 53
(Londres: Riba Publications, 1975), 5-9. ed. K. Hall Professions 1800-1950, ed. G. Cocks e K. H. Jarausch (Oxford: Oxford University Press,
1990), 143-160.
40 Garry Stevens O círculo privilegiado 41

serviço público, de status elevado, tendem a pertencer à BDA — uma organiza-


ra.57 Os arquitetos espanhóis cuidam de edificações altamente técnicas, tal como
ção de elite da qual para se ser membro é exigido o patrocínio de um associado fábricas, que os arquitetos de língua inglesa tendem a deixar para os engenheiros
—, enquanto os arquitetos do setor privado, de status inferior, pertencem ao
civis. Do mesmo modo, os arquitetos dos países do Benelux são responsáveis por
Vereinigung Freischaffender Architekten (VFA).
desenhos técnicos que, no Reino Unido ou nos Estados Unidos, seriam executa-
Na Itália, a arquitetura funciona mais do que tudo como um mecanismo de dos por engenheiros. As jurisdições cobertas por arquitetos, engenheiros civis,
ingresso em uma elite cultural." Enquanto os Estados Unidos e o Reino Unido arquitetos paisagistas, designers de interiores, gerentes de projetos, planejadores
possuem de 120 a 150 estudantes de arquitetura para cada milhão de habitan- e gerentes de instalações variam consideravelmente de lugar para lugar."
tes, a Itália está formando o número assustador de 1.700 arquitetos por milhão O exame dos dados sobre o número de arquitetos per capita permite
de habitantes. Naquele país, 97% ou mais dos formados em arquitetura nunca verificar que o termo "arquiteto" não é um rótulo simples que pode ser facil-
entram para a prática e não se vêem como membros da profissão da arquitetu- mente transferido de uma nação para outra." Encontramos números extrema-
ra, do mesmo modo em que os bacharéis em artes dos países de língua inglesa mente elevados em alguns países: o Japão, a Itália e a Grécia têm, cada um,
não se consideram membros de uma profissão "artística".
mais de 1.300 arquitetos por milhão de habitantes. Será que realmente há muito
Desde seu surgimento, as profissões européias foram ocupações definidas mais projetos de edifícios sendo realizados nesses lugares do que, digamos, no
e controladas pelo Estado. Aquelas, cuja formação se dava na esfera das gran-
Chile, no Reino Unido, na França, na Austrália ou na Hungria, cada um destes
des écoles, na França, ou das universidades, na Alemanha, e cujos membros
países com cerca de quinhentos arquitetos por milhão de habitantes? Será que
estivessem destinados ao serviço público, tinham — e ainda têm — uma posição o Canadá, a Polônia, a Rússia e a Coréia — todos países com menos de trezen-
social equivalente à das profissões anglo-americanas. Já os profissionais for- tos arquitetos para cada milhão de habitantes — poderiam encontrar trabalho
mados pelas universidades de província francesas ou pelas escolas politécnicas
alemãs não tinham, e ainda hoje não têm, tal status.
Falar simplesmente em "profissão" é, portanto, ignorar muitos problemas
• para todos esses outros arquitetos, caso seus números fossem quadruplicados
para as proporções italianas?
Em um mesmo país, as diferentes profissões apresentam padrões varia-
importantes. Primeiro, há diferenças substanciais entre uma mesma atividade dos. O conceito popular de profissão não nos ajuda a explicar por que médicos
em países diferentes; a maneira de se conceituar a atividade também pode ser têm posição profissional mais elevada do que enfermeiras, ainda que se exija
completamente diferente. Mais ainda, o conteúdo do trabalho executado na formação universitária de ambos, ou por que arquitetos que nunca freqüenta-
mesma ocupação pode ser surpreendentemente diferente. A jurisdição da ar- ram uma universidade têm o mesmo status que aqueles que freqüentaram. Por
quitetura varia de país para país e, por isso, varia também sua relação com que em países em que é adotado o sistema legal inglês pensa-se que os diver-
outras ocupações na indústria da construção. Na França, os arquitetos rara- sos tipos de médicos especialistas pertencem a uma única profissão, enquanto
mente fazem desenhos de execução e é comum que não acompanhem a cons- procuradores (solicitors) e advogados (barristers) pertencem a duas profis-
trução. Na Austrália e em outras nações da comunidade inglesa, as medições e sões diferentes? Ou, ainda no mundo de língua inglesa, por que se pensa que o
os orçamentos de grandes edificações são feitos por fiscais de quantidades, os
chamados surveyors, uma ocupação totalmente independente dos arquitetos.
Os arquitetos noruegueses são invariavelmente responsáveis também pelo pla-
H. B. Ellwood, "Introduction", Architectural Practice in Europe 3: Italy, ed. K. Hall (Londres:
nejamento urbano.
Riba Publications, 1974), 5-9.
Não apenas a divisão de trabalho varia, como também o tipo de cliente s' J. M. Dixon, "PIA Reader Poll: Fees and Encroachment", Progressive Architecture, novembro
atendido pelos arquitetos. Na Itália, quase todas as construções de pequeno dc 1988, 15-17.
porte são de responsabilidade dos geometria, que se assemelham aos surveyors, 59 A fonte é a União Internacional dos Arquitetos, citado em Rogers e J. Welsh, "World Cup",

RIBA Journal, junho de 1995, 10-13. Contar arquitetos (ou estudantes de arquitetura) não é
e a divisão de trabalho entre arquitetos e engenheiros civis é muito pouco cla- uma tarefa fácil como pode parecer. Devemos contar aqueles com diplomas de arquitetura,
aqueles que estão registrados (licenciados) ou aqueles que se autodenominam arquitetos por
ocasião do censo? Conheço um bom número de arquitetos que nunca se preocupou em prestar
os exames dc credenciarnento e alguns que não têm nem diploma nem registro. A questão é até
56 B. Allies, H. Anderson e L. Hellman, "Students of Europe 1", Architects 'Journal, 20, abril de mais confusa naqueles países que possuem uni sistema regional de registro em vez de nacional,
1988, 35-49.
como os Estados Unidos, a Austrália e a Itália.
arquiteto que só realiza projetos residenciais de pequeno porte pertence à mes-
ma profissão daquele que só faz grandes empreendimentos comerciais, quando análises anteriores. Em primeiro lugar, argumenta que o foco na estrutura
na Itália eles têm ocupações diferentes? profissional é inadequado porque, em vez de estudar o conteúdo da vida profis-
Quando Thomas Fisher buscou na engenharia e na medicina remédios sional, estuda sua forma. O nó da questão do profissionalismo é qual o traba-
para os problemas da arquitetura, partiu do princípio de que todas as profissões lho que as pessoas fazem em uma ocupação; o que deveria ser estudado é
são mais ou menos iguais. Mas será que o são? Os engenheiros calculistas quem está fazendo o que para quem e como, sem se preocupar com associa-
ganham a vida produzindo os certificados de segurança que o Estado exige ções profissionais, registros ou ética, e assim por diante. O fenômeno essencial
para a maioria das estruturas, e o clínico geral sobrevive principalmente da da vida profissional é o vínculo entre uma profissão e o seu trabalho — sua
emissão de licenças temporárias para que as pessoas possam comprar remédi- jurisdição, no dizer de Abbott. O estudo das profissões deveria ser o estudo de
os. O médico especialista passa sua vida em hospitais, imensos locais de traba- como esse vínculo é criado e como está ancorado por uma estrutura social
lho concentrado nos quais dirige os serviços diários de um grande número de formal e informal.
praticantes de outras áreas da saúde. Será que algum desses Em segundo lugar, argumenta que é inútil estudar uma profissão de cada
modi operandi
tem muita semelhança com a maneira na qual trabalha o arquiteto? vez. A força condutora na história das profissões está na competição entre
Porém, mais importante,
pensar a arquitetura como uma "profissão" é elas, a competição para estabelecer fronteiras de jurisdição. Novas profissões
encobrir suas relações com outros elementos da sociedade
e, em especial, surgem quando jurisdições se esvaziam e morrem ao serem conquistadas por
desconsiderar a importância de seus mecanismos de reprodução, ou seja, do
outros grupos. Suas histórias são, portanto, interdependentes, e uma tarefa maior
sistema educacional. A preocupação com o corpo de praticantes da profissão
da sociologia das profissões é mostrar como a interação desses vínculos de
relega outros atores sociais de importância na arquitetura para posições margi-
nais, quando seria melhor considerar todos em conjunto como constituindo um jurisdição entre as ocupações determina a história caso a caso de cada profis-
sistema no qual os praticantes são apenas um dos componentes. são. Deve-se estudar o sistema inteiro de profissões e não exemplos isolados.
Abbott diferencia as profissões de outras ocupações caracterizando-as
corno atividades que recorrem a aplicações de algum tipo de conhecimento
Mudando o estudo sociológico da arquitetura abstrato em seu trabalho. Ele afirma que apenas um sistema de conhecimentos
regido por abstrações pode redefinir seus problemas e suas tarefas, defender
Após a conclusão de seu trabalho sobre o modelo de monopólio do merca- seu território de intrusos e encontrar novos problemas para expandir sua juris-
do das profissões, Magali Larson admitiu que havia exagerado na importância dição.
atribuída aos mercados protegidos e virtualmente omitido as profissões euro- Estabelece que as tarefas básicas do trabalho profissional são o diagnósti-
péias de sua análise." Hoje em dia, a tendência entre os sociólogos é abando- co, a inferência e o tratamento. O diagnóstico atribui propriedades subjetivas a
nar o conceito paroquial anglo-americano de "profissão".6 um problema, que são então relacionadas com várias dimensões conceituais no
' Há duas alternati-
vas: reformular o conceito ou abandoná-lo de vez. discurso profissional. O diagnóstico reinterpreta um problema em termos de
seu discurso, aceitando e rejeitando informações. Uma profissão torna-se mais
sujeita à competição com outras caso restrinja severamente o tipo de evidência
Reformulando "profissão"
considerada relevante. A arquitetura, por exemplo, não tem historicamente se
interessado por questões de segurança estrutural e, menos ainda, por sistemas
A tentativa mais bem-sucedida de reformular o conceito de profissão foi ambientais. Assim que surgiram, na segunda metade do século XIX, ocupações
aquela de Andrew Abbott.62
Ele discorda de dois pontos presentes em todas as independentes para cuidar desses assuntos, os arquitetos trataram de se livrar
deles o mais rápido possível. Como os edifícios se tomaram mais complexos, os
problemas que colocam geram mais informações, porém as regras de relevân-

Larson, "In the Matter of Experts and Professionals".
61 E. Freidson, "Changing Nature of Professional Control",
cia estrita da arquitetura tenderam a desconsiderar tais informações, deixando
1-20. Annual Review of Sociology 10 (1984); sua interpretação para outras ocupações.
62 Abbott, The System of Professions. O tratamento está organizado em torno de um sistema tipológico que clas-
sifica em conjunto problemas passíveis de serem tratados com remédios semc-
lhantes. Uma profissão deve evitar um vínculo muito próximo entre diagnóstico
Qualquer tentativa de estudar os arquitetos em termos do conceito corren-
e tratamento, uma vez que isso a deixaria exposta à rotinização. Corno salienta
te de profissão apresenta vários defeitos:
David Brain, tal dilema ocorreu em meados do século XIX nos Estados Unidos,
quando os arquitetos se viram competindo com construtores que se valiam de
livros estrangeiros de modelos para projetar edificios.63 • Conduz a uma concentração inadequada de esforços no mercado capitalis-
Um construtor tinha ta e na estrutura das firmas e dos escritórios do setor privado. Pouco se tem
apenas de selecionar qual estilo (tratamento) estava disponível para um deter-
a dizer sobre países como Portugal, onde a maioria dos arquitetos é empre-
minado tipo de edifício (diagnóstico) e produzi-lo para o cliente. A eficácia dos
gada pelo Estado.
tratamentos também deve ser relativamente fácil de ser avaliada por leigos.
• Concentra-se nos produtos da ocupação. Ignora completamente á possibi-
Uma profissão torna-se redundante caso ninguém possa dizer se um tratamen-
lidade de que os arquitetos possam ter outras funções além do projeto de
to foi eficaz ou não. Esse é um dos problemas mais significativos que afetam a
edifícios e, assim, separa de modo inadequado o estudo dos arquitetos de
arquitetura. No interior do campo, os arquitetos muitas vezes discutem a quali-
seu meio social e dos sistemas nos quais eles estão inseridos.
dade de um edifício, se é um sucesso ou um desastre em termos estéticos. • Ignora a estratificação interna, em especial a estratificação social que exis-
Mais ainda, suas opiniões sobre o sucesso do tratamento (o projeto de um te entre os arquitetos enquanto indivíduos. Há uma imensa diferença entre
edifício) muitas vezes estão em desacordo com a opinião de outras pessoas. Os um Stanford White, que circulava pela alta sociedade de Nova York no final
supostos peritos não conseguem concordar entre si, e o público, freqüentemente, do século XIX, e alguém que trabalha em uma cidadezinha de interior fa-
não concorda com os peritos. Em tal situação, não é surpreendente que os zendo pequenos acréscimos e reformas. Títulos ocupacionais podem ser
arquitetos projetem tão pouco do ambiente construído."
iguais em diferentes locais de trabalho, mas o que indivíduos com um mes-
mo título realmente fazem e sua posição na sociedade podem ser muito
diferentes. Será que um arquiteto que tem adesso direto a um líder nacional
Abandonando "profissão" no estudo social da arquitetura possui muito em comum com outro que mal consegue convencer uma auto-
ridade municipal a autorizar uma alteração no telhado de uma casa de su-
O estudo de Abbott serve para estender o conceito de profissão para além búrbio?
do paroquialismo anglo-americano ao qual esteve restrito nos últimos trinta ou • Por fim, todos os conceitos de "profissão" consideram a aplicação de co-
quarenta anos. Seu trabalho será citado várias vezes nas próximas páginas pelo nhecimento especializado como fundamental para sua definição. Isso elimi-
entendimento que proporciona da arquitetura.
na do cenário a noção de que ser alguma coisa seria mais importante do que
Porém, ainda que útil, um conceito reformulado de "profissão" é muito conhecer aquela coisa. Nas próximas páginas, vou sugerir que o foco no
limitado para nos ajudar a compreender a sociologia dos arquitetos. Aqueles conteúdo do conhecimento não é necessariamente a melhor maneira de
que se dedicaram mais a esse estudo consideram o campo arquitetônico como conceber a arquitetura e que tal posicionamento nos desvia do exame da
uma profissão que não conseguiu alcançar a glória de suas ocupações irmãs, o importância do ser social na definição da ocupação.
direito e a medicina, em razão, sem dúvida, de
urna bagagem ideológica inade-
quada que mantém que tal ocupação é uma arte. Em suas análises, a arquitetu- Por todas essas razões, entendo que é melhor abandonar qualquer análise
ra aparece como uma profissão pouco convencional e ligeiramente atrasada, da arquitetura feita unicamente em termos de "profissão", e, daqui por diante,
mas simpática.
esta palavra será empregada apenas para designar o corpo de praticantes, sem
envolver qualquer uma das conotações inerentes à velha sociologia anglo-ame-
ricana.
(.3 Brain, "Discipline and Style".
(
I As melhores estimativas são de que os arquitetos estão envolvidos na construção de 30% a
50% do valor de contrato dos edifícios produzidos nos países desenvolvidos. Ver R. Verges-
Escuin, "Present and Future Missions for the Architect",
International Union of Architects Fffleenth World Congress of the
(Cairo, 1985).
,I
,1
,
I
1
,

A caixa de ferramentas de Pierre


Bourdieu

Apresentando Bourdieu

Sempre pensei que a velha sociologia anglo-americana das profissões era


uma ferramenta pobre para analisar a arquitetura; um instrumento um tanto
tosco que, por tratar a arquitetura como uma entidade social particular, uma
profissão — diferindo apenas pelo conteúdo de seu trabalho de outras ocupa-
ções de grande prestígio no mundo anglófono (direito, medicina, engenharia) —,
servia mais para desorientar o analista do que para ajudá-lo.
Essa sociologia ainda é popular entre os analistas amadores da profissão —
afinal, ela está de acordo com o "senso comum" que os profissionais têm de si
mesmos. Mais recentemente, esse enfoque um tanto antiquado começou a
desaparecer, dando lugar a outros mais sofisticados.' As perspectivas teóricas
que informam essa nova postura não vieram da velha sociologia anglo-ameri-
cana das profissões e das artes, porém de uma tradição intelectual européia
que há muito se preocupa com o estudo da cultura e da sociedade. Proeminen-
te entre tais influências é o trabalho do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Ele
não tem nada a dizer sobre as profissões per se e considera sua descrição
apenas como um componente de uma sociologia geral das ocupações. Sua
importância para este livro está em seu excepcional trabalho nas áreas da cul-
tura e da educação e em sua elaboração de uma impressionante caixa de fer-
ramentas de conceitos sociológicos. Essas são ferramentas de grande poder;
como escreve Scott Lash na introdução de uma obra sobre a contemporânea

' D. Brain, "Cultural Production as a `Society in the Making'", 77w Sociology of Culture, ed. D.
Crane (Oxford: Blackwcll, 1994), 191-220.
uar ry JlevenS
O círculo privilegiado 49

sociologia da cultura, "a sociologia geral da cultura de Bourdieu não é apenas a


político e polêmico, um defensor dos desfavorecidos contra as classes diri-
melhor, é também a única que interessa"?
gentes, talvez um pouco como Noam Chomsky. Nenhuma de suas atividades
Neste capítulo e no próximo apresento uma seleção de componentes da políticas interferiu em sua reputação em outras áreas e ele é considerado
caixa de ferramentas de Bourdieu e mostro como eles podem ser utilizados
pelos teóricos sociais anglófonos como um dos grandes sociólogos vivos, com
para fornecer uma descrição sociológica da arquitetura bem mais rica que a de
modelos anteriores. urna contribuição notável para as sociologias da educação, da cultura e da
arte.
As traduções de seus trabalhos para o inglês aparecem em geral uns cinco
anos depois de sua publicação na França. Até o presente, existem apenas qua-
Bourdieu no campo intelectual
tro monografias significativas feitas por escritores de língua inglesa — e umas
poucas coleções — dedicadas especificamente ao seu trabalho.6 Todavia, nos
Devemos começar pelo próprio Bourdieu. Bourdieu insiste sempre que o últimos 15 anos ele se tornou a figura de proa da diferenciada tradição gaulesa
que uma pessoa diz e faz é sempre influenciado por sua posição e localização nas ciências sociais, posição essa ocupada anteriormente por Louis Althusser,
social no campo, e que isso, com certeza, se aplica àquilo que os sociólogos Roland Barthes e Michel Foucault. Por muito tempo obscurecido por outros
fazem e dizem. Ninguém desenvolve teorias em um vácuo social — há sempre intelectuais franceses com mais personae pública, na década de 1990 ele al-
alguma motivação pessoal subjacente e devemos estar sempre alerta para esse cançou um lugar respeitável no mundo intelectual de língua inglesa.' Em parti-
fato. Qualquer tentativa por parte de um teórico de reivindicar urna objetivida- cular, exerceu uma grande influência naqueles interessados em como e por que
de divina é muito pior do que ingênua, é perigosamente enganosa, uma vez que os indivíduos agem como agem, como essas ações estão relacionadas a estru-
disfarça o que bem pode ser fortes preconceitos pessoais com uma fachada de turas sociais e como interagem cultura e sociedade'
neutralidade científica. Muitos pecados foram cometidos em nome de urna "ci-
ência objetiva", e uma maneira de preveni-los é admitir desde o começo que o
pesquisador não é e não pode ser um observador e analista neutro. Não se Um sociólogo bem francês
pode discutir a teoria sem que se discuta o homem que teoriza.
Bourdieu não é um nome conhecido do leitor de arquitetura como aqueles O primeiro problema que o leitor de Bourdieu deve enfrentar é o seu estilo.
de outros intelectuais franceses, tais corno Foucault, Derrida ou Banhes, ainda Seus escritos são, de tal modo, prolixos, discursivos, complexos, formais e
que tenha sido classificado, em uma pesquisa sobre os intelectuais franceses, retóricos que, quando se consegue entendê-lo, fica-se facilmente com a im-
entre os dez mais influentes em sua área. 3 Bastante conhecido na França,
somente passou a ter influência significativa no campo anglo-americano nos ibe
últimos 15 anos, desde a tradução para o inglês de seu livro Distinction.4
Nessa ocasião, "ele, mais do que qualquer outra figura comparável..., passou 6D. S. Swartz, Culture and Power: The Sociology of Pierre Bourdieu (Chicago: University of
a personificar o valor e o vigor contínuo de urna tradição intelectual distinta- Chicago Press, 1997); D. Robbins, The Work ofPierre Bourdiett: Recognizing Society (Milton
mente francesa nas ciências sociais".5 Bourdieu não gosta de viajar e, por ter Keynes, GB: Open University Press, 1991); B. Fowler, Pierre Bourdieu and Cultural Theoty
(Londres: Sage, 1997); An Introduction to the Work ofP lerre Bourdieu: The Practice ofTheoty,
evitado o circuito literário norte-americano, não é muito conhecido fora dos ed. R. Harker, C. Mahar e C. Wilkes (Londres: Macmillan, 1990); Bourdieu: Criticai Perspectives,
círculos sociológicos. Na França ele é considerado um intelectual partidário, ed. Calhoun, LiPuma e Postone; e Jenkins, Pierre Bourdieu. Recomendo Swartz e Robbins;
Jenkins é mais fácil de ler, mas permanentemente hostil ao seu assunto. Fowler é bastante denso
e leitura estritamente para outros sociólogos. Urna bibliografia atualizada na Internet (na época
2 em que este trabalho estava sendo escrito) pode ser encontrada em http://www.massey.ac.nz/-
S. Lash, "Pierre Bourdieu: Cultural Economy and Social Change", Bourdieu: Criticai
Perspectives, ed. C. Calhoun, E. LiPuma e M. Postone (Cambridge, GB: Polity Press, 1993), NZSR DA/bourd ieu/home. htm.
193. A evidência é fornecida no índice de Citações do Institute for Scientific Information. As citações
3 "Le Palinarès", L'Evénement du Jeudi, de Bourdieu em conjunto nos índices de Artes e Humanidades e Ciências Sociais superaram as
2-8 de fevereiro de 1989, 66.
Bourdieu, Distinction: A Social Critique ofTaste, de Jacques Derrida desde 1994. As citações de Foucault são quase que duas vezes mais nume-
trad. R. Nice (Cambridge: Harvard Uniymity rosas do que aquelas de ambos os seus colegas.
Press, 1984).
5 R. Jenkins, Pierre Bourdieu /.0" s D. Crane, "Introduction: The Challenge of the Sociology of Culture as a Discipline", The
(Londres: Routledge, 1992), 11.
Sociology of Culture , ed. Crane, 1-20.
J lJdf ty JLeVt.'115
O círculo privilegiado 51

pressão de que ele está defendendo posições às quais ardorosamente se opõe.


mais palpável. Discussões são feitas nessas páginas, e nós nos sentimos
Suas formulações teóricas são difusas e estão espalhadas, o que dificulta a como perplexas não-pessoas. Somos convidados para jantar e acabamos em
indicação de referências precisas sobre alguma idéia específica. Por tais moti- silêncio, ouvindo sem entender as conversas em voz abafada dos verdadei-
vos, neste livro não aparecerão com freqüência citações diretas de Bourdieu. ros convidados. Assim seduzidos, cobiçamos urna mísera nota de pé de pági-
O interessado deve enfrentar, ainda, o volume impressionante de seu trabalho: na e nos dão migalhas ou, pior, coisa nenhuma."
urna bibliografia lista cerca de 160 itens escritos, co-escritos ou traduzidos de
1958 a 1991.9 Ler Bourdieu é como assistir a um filme de Peter Greenaway:
por traz da torturada beleza rococó, pode-se perceber que ele de fato tem algo
profundo e importante a dizer, porém muitas vezes fica difícil determinar justa- Por que os intelectuais franceses são difíceis de ler
mente o quê. Deve-se persistir, do mesmo modo que se persiste com Derrida
ou Foucault, uma vez que o artifício teatral que faz parte do repertório de todo Nos últimos cinqüenta anos, a teoria da arquitetura tem sido influen-
intelectual francês é crucial para o conteúdo de seu pensamento. Ao comparar ciada de maneira sutil, mas constante, por várias gerações de um tipo de
as comunidades intelectuais do mundo de língua inglesa, da França, da Alema- intelectual público que a França se orgulha de produzir. Infelizmente, quando
nha e do Japão, lohan Galtung refere-se à prosa sociológica francesa: suas idéias atravessam o Canal da Mancha ou o Atlântico, elas são arran-
cadas do contexto no qual nasceram e se desenvolveram. Freqüentemente,
Penso que o enfoque gálico [sic] é, com certeza, um encarrilhar de palavras, o significado e a importância dessas idéias em seus novos lares são bem
não necessariamente dedutíveis. As palavras conotam algo, elas têm convic- diferentes de sua intenção quando no coração de Paris. Isto se aplica
ção... [Este] poder de convencimento é devido menos a urna estrutura lógica tanto a Derrida e Foucault como a Bourdieu.
do que a urna certa qualidade artística que a prosa gaulesa da ciência social Acho importante lembrar as origens sociais dessas idéias. Utilizando
muitas vezes possui, em particular quando falada e escrita por seus verdadei- um dos conceitos-chave de Bourdieu, Charles Lemert descreve a cena
ros mestres. Talvez a persuasão seja obtida menos pelas implicações do que intelectual parisiense como um champ, um "campo". Nesse caso, o pro-
pela élégance. Por detrás da elegância não está apenas o domínio do bom
pósito é dar uma dupla conotação para a palavra: um campo de força no
estilo — ao contrário da secura da prosa das ciências sociais alemãs, a qual qual seus membros estão contidos — portanto, um lugar no qual aconte-
muitas vezes beira a monotonia —, mas também o uso de bon-mots, da palavra cem certas práticas — e um campo de batalha, no qual seus membros se
justa, de duplos sentidos, de aliterações e de vários recursos semânticos e esforçam para obter poder e prestígio e onde ocorrem os combates. Os
até mesmo de truques tipográficos.'
intelectuais parisienses estão engajados em uma batalha intensa no interi-
or dos muros da Cidade Luz:
O sociólogo francês Charles Lemert enfatiza a natureza hermética e a
organização em círculos fechados da vida intelectual francesa:
Diante de "toda Paris", os autores devem enfrentar o escrutínio
de um público leitor ambicioso, criado em grande parte por uma
Aqueles de nós exilados em urna vida fora do mundo literário parisiense estrutura perversamente densa e implodida de editoras, revistas, jor-
muitas vezes nos confundimos e ficamos desconcertados com os códigos
nais, comentaristas de rádios e televisão que fazem a mediação entre
secretos que parecem governar aqueles que escrevem de seu interior. O que
escritores e leitores. A batalha envolve o desejo dos escritores de
ganhamos em aluguéis baratos e ar piá, perdemos em nossa capacidade de
decifrar o que lemos. Frases intrincadas nos seduzem por suas formas magní- serem lidos e a necessidade dos leitores de se manterem bem versa-
ficas, porém freqüentemente ficamos cansados com a falta de substância dos... Na França, tout Paris significa tudo. Desse modo, é muito difi-

9 P. Bourdieu e L. J. D. Wacquant, An Invitation to Reflexive Sociology


(Chicago: University of
Chicago Press, 1992).
1
" J. Galtung, "Structure, Culture and Intellectual Style: An Essay Comparing Saxonic, Teutonic,
Gallic and Nipponic Approaches", Social Science Information ' C. C. Lemert, "Literaiy Politics and the Champ of French Sociology", Theory and Society 10
I
20, 6 (198 I): 830.
(1981): 645.
52 uarry 3tevens
O círculo privilegiado 53

Enquanto os portadores de capital educacional não-certificado podem sem-


cil e freqüentemente embaraçoso para os intelectuais de Paris não pre se ver obrigados a demonstrar sua competência, porque eles são apenas
ter uma opinião sobre o que tem sido ou está sendo escrito. oquefazem, um mero subproduto de sua própria produção cultural, os porta-
Paris — como capital literária e como champ intelectual — é um dores de títulos de nobreza cultural — como os membros titulares de uma
campo no qual as idéias e seus autores chegam, conquistam, ocupam aristocracia cujo "ser", definido por sua fidelidade a uma linhagem, a um
o centro das atenções por um momento e então, inevitavelmente, caem. estado, a uma raça, a um passado, a uma nação ou a uma tradição, não é
Como coloca Bourdieu: "Conflitos epistemológicos são sempre, redutível a algum "fazer", a algum know-how ou função — apenas têm de ser
o que são, porque todas as suas práticas derivam seu valor de seus próprios
inseparavelmente, conflitos políticos". O conhecimento e a arte de autores, sendo a afirmação e perpetuação da essência por virtude da qual são
escrever ihiplicam a proteção do território político de um autor em realizadas.'2
um campo cujas fronteiras mudam constantemente...
[A sociologia francesa] é muitas vezes moldada em e por uni Provavelmente, Bourdieu justificaria a maneira como escreve pelo fato de
espaço literário desconhecido para a maioria dos estrangeiros. Esse que ela serve para permanentemente nos recordar que ele é um indivíduo de-
é o espaço entre a aparência do texto publicado e a estrutura social terminado no interior de um campo determinado, com seus próprios interesses
profunda dos debates de tout Paris que exerce pressão sobre o autor e objetivos, moldado pelas forças que atuam no interior desse campo. Ele argu-
Por essa razão, do ponto de vista do leitor, muitos de nós ficamos mentaria que as virtudes que seriam apreciadas pelos sociólogos anglo-ameri-
frustrados com aquela vasta parcela de escritores franceses nas ci- canos na escrita — clareza, neutralidade, objetividade — servem apenas para
ências sociais que faz referências — embora muitas vezes sem citar a ocultar seus interesses pessoais.
fonte — ao que está sendo dito e escrito. Freqüentemente procuramos Em urna disciplina já por si crítica e polêmica, Bourdieu é mais polêmico
em vão as notas de pé de página que permitiriam identificar os que a grande maioria. Ele é um teórico crítico no sentido técnico de alguém que
contendores aos quais o texto alude. O autor parisiense — livre das não somente tem idéias sobre como a sociedade funciona, mas também sobre
imposições do empirismo anglo-americano quanto ao uso de notas como deveria funcionar. Bourdieu é um homem irado, seus trabalhos "vibrando
de pé de página — muitas vezes considera a documentação supér- com os ritmos da condenação filosófica",'' impulsionado por uma onda de pai-
flua, uma vez que "todos sabem" que a referência é a Sartre, ou aos xão sincera motivada pela convicção de que a sociedade moderna está dividida
marxistas humanistas, ou a Aron, ou seja lá quem for. por profundas iniqüidades, iniqüidades ainda maiores por estarem camufladas e
serem recebidas como práticas perfeitamente aceitáveis e naturais. Tem-se a
C. C. Lemert, "Literary Politics and the Champ ofFrench Sociology", clara sensação de que sua origem provinciana deixou um legado de ressenti-
Theory and Society 10 (1981): 646, 647. mento para com os aristocratas parisienses e de que, de algum modo, a sua
obra sociológica toda é sua vingança contra essa sociedade.
A noção de que em sociedade as coisas não são como parecem; de que a
sociedade funciona em certo sentido para além do controle dos indivíduos que
Uma vez que na França ser um intelectual é ser literário, o escritor que a integram; de que padrões sociais podem ser produzidos e persistir mesmo
quer se fazer notar deve possuir um estilo digno de nota. Descrevendo quando as pessoas neles envolvidas não estão conscientes de sua existência e
caridosamente, o estilo de Bourdieu é no mínimo afetado. Bourdieu não tanto não os queiram, não é exclusividade de Bourdieu — é um lugar-comum da soci-
escreve como declama. Richard Nice, seu tradutor mais constante, conseguiu ologia. Porém as tentativas de Bourdieu de desmascarar as realidades por de-
apreender muito bem a natureza barroca do francês, apesar de Bourdieu tê-lo trás das aparências superficiais da nossa experiência diária dão ao seu trabalho
censurado por tentar reproduzir demais os efeitos retóricos. Depois de algum
tempo, admito, a teatralidade nos domina e, graças a Nice, há um número mais
do que suficiente de frases elegantes para manter nosso interesse. Aqui está ' 2 Bourdieu, Distinction, 23.
um exemplo retirado de Distinction: • '3 R. Col I ins, "Cultural Capitalism and Symbolic Violcnce", Sociology Since Mid-centwy: Essays
in Theory Cwnulation, ed. R. Collins (Nova York: Acadetnic Press, 1981), 173.
54 Ga rry Stevens O
O circulo privilegiado 55

um tom especialmente estridente, tom esse que seu estilo barroco nada faz Foucault, sua incapacidade de explicar as formas mais sutis de dominação pro-
para aliviar. Seriam tais polêmicas necessárias? Considerando a estrutura teó- duzidas meramente pelas próprias crenças. Como se verá mais adiante, a no-
rica do trabalho de Bourdieu, elas com certeza são pertinentes, assim como são ção de Bourdieu de habitas serve para explicar como esquemas cognitivos de
para Derrida e Foucault. percepção, apreciação e ação acabam por ser sutilmente instilados em indiví-
Como um argumento a mais em defesa de seu estilo idiossincrático, duos e grupos. Em terceiro lugar, Bourdieu defende que o poder está concen-
Bourdieu poderia lembrar ainda que, como já apontado pelo sociólogo Ian Craib, trado em determinados setores institucionais e em partes do espaço social e
a teoria social envolve algo que já conhecemos em íntimo detalhe — a nossa não difundido por toda a sociedade.'
própria vida social» A teoria tenta explicar nossa experiência cotidiana do
mundo, nossas experiências mais próximas, com conceitos que não são tão
próximos assim, em geral em termos de coisas de que não temos e não pode- Bourdieu sobre seus críticos
mos mesmo ter qualquer experiência direta. Bourdieu poderia argumentar que
a linguagem das ciências sociais deve se distanciar da linguagem do dia-a-dia, O sociólogo britânico Richard Jenkins desancou a obscuridade do
porque a linguagem do dia-a-dia está predisposta, por sua própria natureza, a estilo de Bourdieu no livro Homo Academicus. Vale a pena citar a res-
"aceitar" o inundo social existente. Não é possível descrever proveitosamen- posta de Bourdieu, para mostrar tanto o seu estilo — e este em uma entre-
te um mundo social com a linguagem normal que este produz, razão pela qual vista e não em um texto cuidadosamente preparado — como o porquê de
o sociólogo deve, a cada momento, chamar a atenção do leitor para o fato de sua objeção a textos de escritura simples.
estar usando a linguagem de formas diferentes daquelas do dia-a-dia. [Quando Jenkins] vai tão longe, a ponto de me condenar por
A linguagem deve romper com o cotidiano» Acredito que devemos aceitar empregar urna expressão como "a modalidade dóxica das declara-
as razões que levam Bourdieu a adotar um estilo pouco comum; não obstante, ções", ele revela não apenas a sua ignorância ("modalidade dóxica"
pode-se fazer uma exposição de suas teorias sem deixar o leitor completa- é uma expressão de Husserl que não foi naturalizada pelos
mente atônito e nem obscurecer nossos argumentos. etnometodologistas) corno também, e muito mais significativo, sua
ignorância de sua própria ignorância e das condições históricas e
sociais que a tornam possível.
Bourdieu e outros pensadores
Se, adotando o modo de pensamento sugerido em fomo
Talvez o pensador com maiores afinidades com Bourdieu seja Michel Academicus, o Sr. Jenkins tivesse voltado um olhar reflexivo para a
Foucault. Como ele, Bourdieu trata de questões de poder, e os dois concordariam sua crítica, teria descoberto as disposições profundamente
que o poder é um produto das relações entre as pessoas, não uma qualidade antiintelectuais que se escondem por detrás de sua elegia da simpli-
inerente a elas, que em geral está oculto nas formas não-questionadas de ver e cidade; .e não teria *reciclo à simples vista os preconceitos ingenu-
descrever o mundo. Eles também concordariam que o exercício do poder não amente etnocêntricos que estão na base de sua denúncia do meu
precisa ser consciente ou o resultado de tomadas de decisão explícitas. Mas particularismo estilístico... Ele poderia ter se perguntado se o culto
Bourdieu discordaria de Foucault em três questões. Em primeiro lugar, Bourdieu
entende que o poder não age necessariamente por meio do discurso ou de
conjuntos formais de conhecimentos. Em vez disso, as relações se tornam
internalizadas em nós, em nossas crenças aceitas como verdadeiras. Esse
mecanismo permite que Bourdieu supere a segunda falha que se percebe em
' 6 L. J. D. Wacquant, "On the Tracks of Symbolic Power: Prefatory Notes to Bourdieu's 'State
Nobility'", Theory, Culture and Society 10 (1993): 1-17; L. J. D. Wacquant, "From Ruling
- Class to Field of Power: An Interview with Pierre Bourdieu on La Noblesse d'État", Theory.
Culture and Society 10 (1993): 19-44; e R. Johnson, "Pierre Bourdieu on Art, Literatura and
' 4 I. Craib, Modern Social Theory (Londres: Wheatsheaf, 1984). Culture", em P. Bourdieu, The Field of Cultural Production: Essays on Art and Literatura, ed.
i 5 P. Bourdieu, Sociology in Question, trad. R. Nice (Londres: Sage, 1993). R. Johnson (Cambridge, GB: Polity Press, 1993), 1-25.
56 Garry Stevens O círculo privilegiado 57

empíricas do trabalho de campo. Bourdieu ridiculariza a noção de Adorno de


das "palavras simples", do estilo simples, do inglês simples, ou do que experimentos de vanguarda com a forma artística podem mudar ou sub-

!le
understatement (o comentário incompleto que pode levar os virtuosi verter a ordem social como sendo uma fantasia que só intelectuais podem ter
dessa retórica da anti-retórica, tal como Austin, a imitar no título de por se recusarem a admitir que falam apenas para si mesmos, Seu discurso
seus livros ou artigos a simplicidade ingênua das cantigas de crian- circulando no minúsculo círculo da elite, os leitores de revistas acadêmicas
ças) não está associado a outra tradição acadêmica, a sua própria, como Tel Quel, Partisan Review, e assim por diante.18 A Escola de Frankfurt
assim instituída como a medida absoluta de qualquer possível argumentava que a cultura desempenha sua função ideológica de legitimação
performance estilística. E, caso tivesse compreendido a verdadeira da estrutura de classe existente ao impedir qualquer reconhecimento das dife-
intenção de Homo Academicus, teria descoberto em seu desconcerto renças de classe. Se somos todos da classe média, fica evidente que não exis-
não o seu desgosto com o meu modo de escrever, mas uma oportuni- tem classes. A cultura mistifica e obscurece as reais relações entre classes que
dade para questionar a arbitrariedade das tradições estilísticos im- afetam as pessoas. Bourdieu entende que a cultura, longe de pretender obliterar
postas e instiladas pelos vários sistemas escolares das diferentes na- as classes ao evitar o seu reconhecimento, age para legitimá-las ao difundir
ções; ou seja, uma oportunidade de se perguntar até que ponto as seu reconhecimento errôneo. A cultura torna-se um sistema de símbolos de
exigências que as universidades inglesas impõem em questões de lin- classe que revela, o tempo todo, a posição de classe de uma pessoa.
guagem não constituem uma forma de censura, ainda mais formidá- Vários escritores têm comparado Bourdieu a Thorstein Veblen, o excêntri-
vel pelo fato de que pode permanecer quase tácita, por meio da qual co, brilhante e cáustico economista e sociólogo americano de fins do século
operam certas limitações e mutilações ignoradas que o sistema esco- XIX. hiá semelhanças com a idéia de consumo conspícuo de Veblen, porém
lar inflige a todos nós. Bourdieu argumenta, contra Veblen, que não há elemento algum de escolha
racional aqui envolvido, uma vez que nossas escolhas são grandemente deter-
A critica original de P. Bourdieu, Homo Academicus, trad. R. Nice
minadas para nós por nosso habitus, conceito que será discutido a seguir.
(Stanford, CA: Stanford University Press, 1988), está em R. Jenkins, Bourdieu é um oponente amargo do heideggerianismo e da estética a ele
"Language, Symbolic Power and Communication: Bourdieu's Homo aaikb associada, a qual já dominou o pensamento arquitetônico via deconstrutivismo.' 9
Academicus", Sociologry 23, n24 (1989): 639-645. A resposta de Bourdieu
Ele acusa a escola toda de desonestidade intelectual e de aristocratismo filosó-
está em P. Bourdieu e L. J. Wacquant, An Invitation to Reflexive
fico escondidos por trás de uma fachada de radicalismo, muito na mesma linha
Sociology (Chicago: University of Chicago Press, 1992), 169.
do ataque de Diane Ghirardo ao mais devotado seguidor de Derrida em arqui-
tetura, Peter Eisenman, por ser urna "vanguarda falsificada"." Seguindo a
velha tradição francesa segundo a qual "uma vez mencionado um oponente, ele
Entre os antecessores de Bourdieu está o grupo de sociólogos conhecido não deve ser tratado com palavras delicadas",21 Bourdieu reserva um veneno
como Escola de Frankfurt, cujos membros mais conhecidos foram Theodor especial para Derrida e seus coortes:
Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas. Assim como
Bourdieu, eles estavam preocupados em revelar como a cultura e as práticas
de consumo contribuem para a reprodução da desigualdade social» Porém, 's Ver M. Sabour,"Bourdieu's Renewed Criticai Evaluation of Cultural Capital, Symbolic Violente
enquanto eram abstratos e filosóficos, Bourdieu é totalmente empírico. Ele os and Vocation of Sociology", International JournalofContemporarySociology 28 (1991): 129-
rejeita como aristocratas que não querem sujar suas mãos nas realidades 139; e E. Wilson, "Picasso and Paté de Foie Gras: Pierre Bourdieu's Sociology of Culture",
Diacritics 18 (1998): 47-60.
P. Bourdieu, "Back to History: An Interview", The Heidegger Controversy:
A Critica! Reader, ed. R. Wolin (Nova York: Columbia University Press, 1991), 274-281.
" D. Ghirardo,"Eisenman's Bogus Avant-Garde", Pragressive Architecture, novembro de 1994,
' 7 D. Gartman, "Culture as Class Symbolization or Mass Reification? A Critique of Bourdieu's
70-73.
Distinction", American Journal ofSociology 97, 112 2 (1991): 421-447.
71 Lemert, "Literary Politics and the Champ of French Sociology", 647.
[Há] uma visão da filosofia, especialmente pela exaltação
das obras de Nietzsche
ou Heidegger, que conduz a um esteticismo de transgressão, a um Bourdieu e a teoria da arquitetura
chie", "radical
como dizem alguns dos meus amigos americanos, que é extremamente
ambíguo intelectual e politicamente... A crítica, não da cultura, mas dos usos Somente agora as idéias de Bourdieu começam a ter influência na teoria
sociais da cultura COMO um capital e instrumento de dominação simbólica, é da arquitetura. Um de seus conceitos mais famosos, o de capital cultural ou
incompatível com a diversão estética muitas vezes escondida por trás de uma simbólico, tem aparecido em vários trabalhos de teóricos preocupados com a
fachada científica... Dentre os filósofos franceses que elevaram a estetização dimensão socia1.24 O único artigo na literatura propriamente arquitetônica que
da filosofia a um grau até então inigualado, Derrida é sem dúvida o mais
discute Bourdieu em profundidade é de John Snyder e trata especificamente de
habilidoso e o mais ambíguo, na medida em que consegue dar a aparência de
uma ruptura radical para essas semi-rupturas que levam o jogo da destruição sua opinião sobre Heidegger." Entre os sociólogos da arquitetura, mais recen-
iconoclasta para o universo da cultura. Suas análises sempre param no ponto temente Magali Larson e David Brain vêm adotando alguns de seus conceitos
em que caem no "vulgar"." mais importantes."
As razões para essa indiferença por parte da arquitetura não são difíceis
if,
Em geral, Bourdieu despreza os "intelectuais proletários" parisienses que, de identificar. Diferentemente de outros luminares franceses, Bourdieu nunca
em sua opinião, são sempre muito cuidadosos com reivindicou o manto de filósofo-rei, traje particularmente sedutor para os teóri-
decorrentes de serem membros da casta a manutenção dos privilégios
brahmin, que é a filosofia francesa, cos da arquitetura. Diferentemente de Derrida ou de Michel Foucault, ele nun-
embora finjam denunciá-los. Ele fica particularmente irritado porque a filosofia ca cortejou a mídia e tem evitado, de forma evidente, os volumosos e verbosos
denuncia as ciências sociais e ao mesmo tempo lhes pede ajuda: debates que constituem o discurso do pós-modernismo.27 Ainda que seja difícil,
atualmente, encontrar algum texto acadêmico sobre arquitetura que não consi-
De fato, parece-me que a filosofia rotulada de pós-moderna (por meio de um dere o pós-modernismo como essencial para sua argumentação, sempre que
desses mecanismos de rotulação até agora reservados para o mundo das Bourdieu se referiu ao pós-modernismo foi apenas para descartá-lo como um
1 artes) meramente reaproveita, ainda que negando, algumas das descobertas
modismo intelectual." Talvez Bourdieu tivesse encontrado uma audiência há
não apenas das ciências sociais mas também da filosofia historicista que
está, implícita ou explicitamente, inscrita na prática dessas ciências. Essa uns vinte e cinco anos, durante o breve flerte da arquitetura com o social,
apropriação disfarçada, que é legitimada pela negação do empréstimo, é urna porém a teoria e os escritos contemporâneos — uma espécie de nouvelle cousine
das estratégias mais poderosas já empregadas pela filosofia contra as ciências heideggeriana — não têm lugar para alguém tão desagradavelmente à esquer-
sociais e contra a ameaça de relativização que essas ciências representam da. Os teóricos — que preferem que seus visionários sejam, como seus arquite-
para ela. A ontologização da historicidade de Heidegger é, indiscutivelmente, tos, dotados de uma visão profética única, pessoal e solitária — achariam os
o modelo para essa operação. É urna estratégia análoga ao "jogo duplo" que extensos estudos empíricos de Bourdieu pouco atraentes e ficariam desiludidos
permite que Derrida extraia das ciências sociais (contra as quais se posiciona) quando descobrissem que seu trabalho é coletivo e feito tendo por base os
alguns de seus instrumentos mais característicos de "deconstrução". Ao
esforços de seus colaboradores do Collège de France.
mesmo tempo que opõe ao estruturalismo e à sua noção de estrutura "estáti-
ca" urna variante "pós-
modernizada" da crítica bergsoniana dos efeitos redu-
tores do conhecimento científico, Derrida pode se dar ares de radicalismo...
[No entanto, sua] crítica implícita da instituição permanece mal cozida, ainda
que bem feita o suficiente para provocar arrepios deliciosos com urna revolu- 24 Ver, por exemplo, Ward, "The Suppression of the Social in Design", Reconstructing Architecture,
ção de faz-de-conta.23 ed. T. A. Dutton e L. H. Mann (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996), 27-70.
" J. R. Snyder, "Building, Thinking and Politics: Mies, 1-leidegger, and the Nazis", Journal vf
Ii Architectural Education 46, n52 4 (1993): 260-265.
26 M. S. Larson, "Architectural Competitions as Discursive Events", Theory and Society 23
(1994): 469-504; M. S. Larson, Behind tlw Postmodern Facade (Berkeley: University of
" Encontra-se uma longa discussão com Bourdieu em L. J. D. Wacquant, "Towards a Refiexive California Press, 1993); e Brain, "Cultural Production as 'Society in the Making'".
Sociology: A Workshop with Pierre Bourdieu", " S. Lash, Sociology of the Postmodern (Londres: Routledge, 1990).
23 Sociological Theoty 7 (1 989): 48.
P. Bourdieu, "The Historie& Genesis ofa Pure Aesthetic", 28 Wacquant, "Towards a Reflexive Sociology"; e L. J. D. Wacquant e P. Bourdieu, "For a Socio-
(Oxford, GB: Blackwell, 1989), 147. Analytic ilesthetics, ed. R. Shusterman
Analysis of Intellectuals: On 1Iorno Acadernicus", Berkeley Journal of Sociology 34 (1989):
1-29.
60 Garry Stevens O círculo privilegiado 61

Os teóricos da arquitetura iriam achar Bourdieu difícil de digerir. Tendo tipos de teorias que uma pessoa inventa sobre a sociedade. Para Bourdieu,
mais corno antepassados intelectuais os pensadores sociais Max Weber e Karl se a metodologia é compreendida de forma errada, a teoria será necessaria-
Marx do que os filósofos Martin Heidegger e Edmund Husserl, ele se encontra mente inadequada. Mais ainda, as teorias existem para ser usadas e devem
a urna distância filosófica considerável de outros produtos franceses recente- ser descartadas caso se mostrem insuficientes. Elas devem ser constante-
mente importados para o mundo de língua inglesa. Ele se coloca claramente no mente testadas pelos dados empíricos; mas a metodologia determina quais
campo da sociologia e declina o título de filósofo. Quando os pós-estruturalistas dados serão considerados relevantes. Com uma abertura pouco comum,
— até mesmo alguns teóricos da arquitetura — invocam o social, eles o fazem Bourdieu convida continuamente o leitor a criticar os processos que ligam
apenas como uma arma em sua batalha para avançar os interesses das huma- teoria, metodologia e dados.3I
nidades contra as ciências. Ao atacar a natureza socialmente construída do
mundo, negam a eficácia da ciência, em especial do positivismo, e sua Em termos substantivos, os temas de Bourdieu são sete:
autoproclamada tarefa de produzir conhecimento confiável e verdadeiro. Seu
único uso da sociologia é para negar sua utilidade."
Poder e dominação. O trabalho de Bourdieu foi descrito por um de seus
mais dedicados seguidores como urna "antropologia generativa do poder".
Ele está preocupado corno os mecanismos que geram, mascaram e ajudam
Um panorama da teoria bourdiana*
a perpetuar a dominação.32
• O mundo simbólico. Segundo ele, os mecanismos de dominação são
É difícil encontrar um ponto de partida para descrever o trabalho de Bourdieu, grandemente influenciados pelos meios simbólicos, isto é, pela cultura. Ele
em decorrência de sua natureza difusa e intricada." Vários aspectos devem procura revelara contribuição específica das formas simbólicas para a cons-
ser mencionados antes de nos aprofundar em seu estudo. Em primeiro lugar, há trução das desigualdades, ao mascararem suas raízes políticas e econômi-
três questões formais:
cas, e como a cultura reproduz as estruturas sociais que mantêm a desigual-
• Bourdieu exige engajamento. Ele não está interessado em apresentar idéias dade."
• A percepção errônea de práticas. Os meios simbólicos de dominação
para teóricos acomodados. Se aceita que o que ele diz é verdade ou faz funcionam tão bem porque são mal percebidos. Muitas práticas sociais são
sentido, você se compromete com certas práticas, do mesmo modo corno se retratadas, e genuinamente consideradas, como desinteressadas ou naturais
você acreditasse em Marx ou na Bíblia, comprometendo-se a viver a sua ou objetivas, mas agem de fato para promover os interesses de alguns mem-
vida de uma certa maneira e a tentar realizar mudanças específicas na
sociedade. bros privilegiados da sociedade em detrimento de outros. É essa percepção
• Seu trabalho é reflexivo. A metodologia de Bourdieu exige que o so- errônea que lhes dá legitimidade.34
• A cultura é usada para reforçar o sistema de estratificação. O efeito
ciólogo esteja constantemente atento à sua própria posição na socie- final desse processo é que os símbolos e a cultura são usados para perpetuar
dade em que vive e a como isso afeta os estudos dessa sociedade. o sistema de classes existente. Portanto, os sinais e as práticas culturais são
• Há uma interação constante entre o teórico, o metodológico e o
meios importantes para manter o privilégio de certos grupos.
empírico. O modo de fazer sociologia tem urna influência importante nos
• Capitais simbólicos e econômicos. Os interesses simbólicos e econômi-
cos são diferentes e irredutíveis entre si. Mesmo assim, o mundo simbólico

29 R. Collins, "For a Sociological Philosophy",


Theory and Society 17 (1988): 669-702.
* No original é empregado o termo bourdivin —
referência jocosa ao nome de Pierre Bourdieu, que 31 Esta é uma das poucas concessões que Jenkins faz a Bourdieu, em Jenkins, Pierre Bourdieu.
contém a palavra dieu, ou seja, deus em francês— corrente nos meios intelectuais franceses para
32 Wacquant, "On the Tracks of Symbolic Power".
designar seus seguidores (N. do R.T.).
33 Ver L. J. D. Wacquant, "Bourdieu in America: Notes on the Transatlantic Importation of Social
30
Para aqueles que querem conhecer Bourdieu diretamente, sugiro que comecem com seu livro
Distinction e duas coleções de seus ensaios: The Field of Cultural Production Theory", Bourdieu: Criticai Perspectives, ed. Calhoun, LiPurna e Postone, 235-262.
(mencionado 34 Ver R. Brubaker, "Rethinking Classical Theory: The Sociological Vision of Pierre Bourdieu",
acima) e The Bules of Ari (Stanford: Stanford University Press, 1996).
Theory and Society 14 (1985): 745-775.
62 Garry Stevens O círculo privilegiado 63

opera economisticamente, uma vez que as pessoas tentam acumular capital O problema central da sociologia
simbólico como fazem com o capital econômico, e podemos falar em taxas
de retomo e estratégias de investimento desse capital. Essas duas formas Desde o seu surgimento, a sociologia tem sido atormentada por um proble-
de capital obedecem a lógicas diferentes de acumulação e de aplicação, ma fundamental que, mais cedo ou mais tarde, todo teórico social importante
mas são parcialmente conversíveis entre si.
• Práticas podem ser compreendidas economisticamente.
A sociologia se
4* tem de enfrentar: aquela da ação e da estrutura. O problema surge da observa-
ção que a sociedade parece ser constituída por dois tipos diferentes de entida-
torna, assim, um estudo da economia das práticas. Sua tarefa principal é de. Em primeiro lugar, há os indivíduos, os agentes. Eles têm intenções e são
esclarecer a lógica histórica e estrutural da ação social por meio da classifi- reflexivos: possuem carências, necessidades, desejos e objetivos e podem re-
cação e posicionando os agentes de acordo com suas lutas individuais, de fletir c alterar suas ações do modo que quiserem. Mas as sociedades não são
grupo e de classe para acumular capital simbólico e econômico." constituídas apenas por agentes. Cada agente vive em algum tipo de relação
• A sociedade é um espaço relacional. A sociedade pode ser pensada como
com outros agentes e cada sociedade é construída, portanto, com relações. Os
um espaço ocupado por pessoas e instituições. O modo mais importante de padrões destas relações tendem a se reproduzir ao longo do tempo, perdurando
pensar esse espaço é relacional: as pessoas estão sempre em algum tipo para além do tempo de vida de qualquer indivíduo. Mais ainda, os agentes
de relação com todas as demais, seja ela superior, inferior ou igual. Quando engajados nas relações muitas vezes não percebem ou não desejam tais rela-
muda a posição de uma pessoa ou de um grupo, mudam, necessariamente, ções. Portanto, devem existir outros tipos de entidades além dos próprios indi-
suas relações com todos os demais e, assim, muda também o espaço social 41111 víduos, as quais são tradicionalmente conhecidas como estruturas sociais.
como uni todo.
O problema fundamental da sociologia é como construir teorias que abar-
quem ambos, agentes e estruturas. A solução específica desse problema gera,
em primeiro lugar, uma ontologia — uma teoria sobre a natureza das entidades
A sociologia formal de Bourdieu
sociais. Em segundo lugar, gera uma epistemologia — uma teoria do conheci-
mento e dos tipos de explicação que são considerados significativos. Essa tare-
É de suma importância no pensamento de Bourdieu o fato de que ele entre- fa tem se mostrado imensamente difícil, como atesta a existência de inúmeras
laça suas teorias sobre a sociedade com suas teorias sobre a sociologia. No escolas antagônicas de sociologia, cada qual com sua própria solução.
mundo anglófono nos últimos anos, ele tem sido entendido principalmente como Como assinala o sociólogo britânico lan Craib, teorias criadas para estudar
um teórico social, mas sua contribuição mais duradoura talvez seja metodológica, estruturas devem oferecer descrições e explicações de um certo tipo." As
para a construção de um ofício da prática de pesquisa em sociologia." Sob esse descrições devem ser inteligíveis e analógicas. As explicações devem tratar de
aspecto, ele não está em sintonia com outros pensadores pós-estruturalistas, uma causas, não apenas mostrando que x causa y, mas também como isto é feito.
vez que tende a ser um universalista metodológico em um mundo de relativistas As causas não são vistas como coisas ou eventos singulares, mas como resi-
teóricos. Apesar de os escritores de língua inglesa estarem adotando cada vez fillpdindo em arranjos particulares de relações.
mais seu trabalho teórico, em geral ignoram que, ainda que profundamente teóri- Teorias sobre a agência ou ação humana devem incorporar também a
co, Bourdieu é também eminentemente empírico: as pessoas que visitam seu

le
causação, mas nessa situação as causas são teleológicas. Uma ação é explicada
escritório costumam ficar impressionadas com o imenso volume de trabalhos de por seu resultado final, pelo fato de que o agente estava tentando obter algo.
campo em andamento." Suas teorias pretendem ser um conjunto de ferramen- Quando se procura os mecanismos causais para tentar explicar as estruturas,
tas sociológicas, para ser usadas e testadas em situações do mundo real. deve-se observar as formas de pensar dentro da cabeça das pessoas para
explicar as ações. Dificultando ainda mais o ajuste de ambos os tipos de expli-
35
cação em uma única teoria, não há urna relação simples entre as intenções e as
Ver D. McCleary, "Extended Review of Bourdieu's Choses dites", Sociological Review
(1989): 373-383. 37 ações dos indivíduos e seus efeitos nas estruturas maiores. Tampouco as estru-
36 Ver P. Bourdieu, Logic of Practice
(Cambridge: Polity Press, 1990), e urna avaliação de seu turas afetam os indivíduos de um modo completamente determinista.
trabalho em G Hage, "Pierre Bourdieu in the Nineties: Between the Church and the Atelier",
Theory and Society 23 (1994): 419-440.
37 Ver Hage, "Pierre Bourdieu in the Nineties".
38 Craib, Modern Social Theoiy.
mor
As teorias sociológicas maiores em geral tendem a favorecer um tipo de
• O que está "no intimo" das pessoas e o que está fora delas? Posição

lik
entidade e de explicação em detrimento de outro, privilegiando ou os agentes ou
as estruturas. Esses pontos de vista podem ser rotulados como subjetivistas objetivista: há estruturas que existem acima e além da particularidade do
versus indivíduo. Posição subjetivista: em última análise, tudo se resume ao conteú-
objetivistas. O enfoque subjetivista é uma visão de baixo para cima e dá impor-
tância e valor àquilo que os indivíduos sabem e à sua capacidade de organizar do das mentes das pessoas.
sua vida a cada momento. A idéia é compreender o mundo do ponto de vista do
indivíduo e pressupõe, primeiro, que é possível alcançar urna tal compreensão Como indicaram Ian Craib e Malcolm Waters, em suas resignadas revi-
e, segundo, que a apreensão individual do mundo é urna forma mais ou menos sões da teoria sociológica moderna, teorias localizadas em qualquer ponto do
adequada para conhecê-lo. Esse é o caminho seguido pelas escolas de sociolo- 4 continuum subjetivista—objetivista têm sido até o momento insuficientes." As
gia fenomenológica e etnometodológica. O enfoque objetivista procura descrever teorias que dão ênfase à ação tendem a ser analíticas e descritivas e são fracas
as relações de grande alcance que estruturam as práticas individuais, elucidando na atribuição das causas aos processos. A sociedade é reduzida à totalidade
as estruturas que nos governam, mas das quais temos pouca experiência dire- dos comportamentos das pessoas e se torna uma espécie de geléia de ação
ta. As coisas realmente importantes na sociedade são consideradas como sen- congelada. O resultado é mais uma psicologia social do que uma sociologia.
do independentes das mentes dos agentes. Essa é a posição adotada pelos Por outro lado, as teorias localizadas no extremo objetivista tendem a se esque-
estruturalistas e pelos marxistas estruturalistas.39 cer de vez das pessoas, e muitas vezes os indivíduos ficam parecendo atores
A posição que se toma em relação ao continuurn pegos em uma peça que não escreveram.
subjetivista—objetivista
irá decidir a resposta a quatro questões importantes:"

• Que aspectos da vida social podem ser cientificamente entendidos? Á resolução de Bourdieu para o problema central da sociologia
Posição objetivista: em geral, aqueles das ciências naturais, do positivismo;
Bourdieu refere-se à sua solução particular do problema subjetivista—
apenas podem ser estudadas aquelas questões que podem ser
objetivista (ou ação—estrutura) como um "estruturalismo construtivista" ou um
operacionalizadas e, preferivelmente, receber um tratamento matemático
"construtivismo estruturar.' Para ele, isto significa, primeiro, que existem es-
ou quantitativo. Posição subjetivista: as descrições e as narrativas qualitati-
vas captam as realidades importantes da vida social. truturas objetivas no próprio mundo social — e não apenas em sistemas simbó-
• licos — que estão fora das mentes das pessoas ou dos agentes. Segundo, ainda
Qual a posição epistemológica relativa das concepções dos sociólo-
gos e dos agentes? que seja assim, são os próprios agentes que constroem o mundo. O inundo
Posição objetivista: as idéias dos agentes sobre o que
está acontecendo são inadequadas e de uso limitado; apenas um indivíduo social não é apenas um dado empírico pronto para ser estudado por pesquisa-
de fora pode produzir uma descrição imparcial. Posição subjetivista: os agen- dores neutros, mas é ativamente constituído por práticas e crenças. Alguns
tes conhecem melhor que o sociólogo o que está acontecendo em sua socie- comentaristas chamaram seu enfoque de "estruturalismo generativo", um nome
dade, e o sociólogo precisa construir suas teorias a partir dos agentes. que enfatiza sua idéia de que as estruturas objetivas são geradas pelas práticas
• As explicações são mecânicas ou teleológicas? cotidianas das pessoas.
Posição objetivista: as pes- Bourdieu concorda com aqueles no extremo do pólo subjetivista, os
soas são vistas como suscetíveis a fatores estruturais, aprisionadas por forças
fenomenologistas e etnometodologistas, quanto ao fato de as pessoas terem
vastamente maiores do que elas (parecido com o behaviorismo). Posição
uma apreensão dinâmica do mundo e construírem sua própria visão sobre ele.
subjetivista: as pessoas agem racionalmente ou, ao menos, voluntariamente
por razões teleológicas. Mas enquanto essas escolas sustentariam que isto é tudo o que há no mundo
social, Bourdieu afirma que a construção subjetiva da realidade é feita sob a

39
J. B. Thompson, "Introduction", em P. Bourdieu,
Language and Symbolic Power, ed. J. B.
Thompson (Cam bridge, GB: Polity Press, 1991), 1-23. Craib, 4 ' M. Waters, Modern Sociological Theory (Londres: Sage, 1994), e Craib, Modern Social Theory.
excelente resumo. Modern Social Theory tem um 42 R Bourdieu, "Social Space and Symbolic Power", em P. Bourdieu, In Other Words: Essays
4
° Essa divisão foi feita segundo Brubaker, "Rethinking Classical Theory". Towards a Reflexive Sociology, trad. M. Adamson (Stanford: Stanford University Press, 1990),
125-139.
1

coação de estruturas que existem objetivamente. Isto tem uma conseqüência


Uma última objeção às entrevistas em profundidade características do
importante para a sua metodologia, um vez que implica que o sociólogo não 1
método sociológico subjetivista é que o observador traz necessariamente consi-
pode simplesmente aceitar as descrições que os indivíduos fazem de sua pró-
go toda a bagagem mental de seu próprio mundo social. Se é verdade que as
pria vida social. Um excelente exemplo: quando perguntados, a maioria dos
pessoas constroem ativamente a realidade social, então os sociólogos também
ocidentais dizem que pertencem à classe média, independentemente de suas
reais circunstâncias. Com exceção de americanos com boa situação financei- constroem sua própria realidade, o que influencia seu estudo da sociedade. Um
dos aspectos cruciais da metodologia de Bourdieu é que o sociólogo deve abor-
ra, as pessoas ricas se colocam modestamente abaixo da sua verdadeira posi- dar reflexivamente qualquer ato de observação, ou seja, deve refletir conscien-
ção econômica. Em comparação, os australianos pobres relutam em admitir temente sobre como seus próprios preconceitos estão afetando suas práticas.
que estão na parte inferior da escala econômica e descrevem sua localização
Os cientistas da arquitetura não perdem tempo se preocupando em saber como

1
alguns pontos acima de suas circunstâncias financeiras."
seus preconceitos sociais afetam seus estudos sobre o efeito dos ventos na
Inconscientes das estruturas que condicionaram seu comportamento e suas
estrutura dos edifícios. Os sociólogos da arquitetura precisam se preocupar em
crenças, as pessoas fazem descrições falsas ou parciais de suas vidas sociais.
saber como sua própria posição no campo acadêmico afeta suas descrições de
Falando com o sociólogo, é provável que dêem respostas normativas, contando
seu objeto de estudo.
o que deveria acontecer em seu mundo social e não o que realmente acontece. Bourdieu inverte o método antropológico convencional, segundo o qual o
Seu discurso também será autoconscientemente semiteórico, urna vez que o
sujeito tenta instilar seu conhecimento no observador. pesquisador deve imergir na sociedade que está estudando. Tal imersão nunca
é possível, uma vez que o observador não é um membro autêntico da sociedade
Para Bourdieu, a análise da vida cotidiana feita pelo etnometodologista é
que estuda e, no mínimo, está conscientemente observando e analisando. Em
apenas a análise de como as pessoas se conformam às restrições colocadas
vez de pretender que é possível se imergir em uma sociedade e, ao mesmo
por estruturas invisíveis. Ele descreve tal análise como "urna forma despolitizada
tempo, analisá-la, o sociólogo deveria tomar o rumo oposto e se distanciar do
de análise do conformismo", satisfeita em catalogar os predicamentos da vida
sujeito: o sujeito tem de ser objetivado. Mas é necessário um segundo passo
social sem tentar ou querer fazer nada a seu respeito." Esse comentário ecoa
para trás, em função da insistência na reflexão. O pesquisador deve escrutinar
a opinião do sociólogo do meio ambiente construído, Bill Hillier, o qual afirmou
a sua própria postura científica quanto ao ato inicial de objetivação e as conse-
há algum tempo, em uma observação casual, que a fenomenologia importada qüências da adoção de tal postura na análise sociológica resultante. A esse
para o pensamento arquitetônico tende a atrair os místicos de extrema direi- processo, como um todo, Bourdieu dá o nome pouco atraente de "objetivação
ta." Do mesmo modo, Bourdieu caracteriza os pensadores hermenêuticos corno
do ato de objetivação"."
aristocratas que erroneamente confundem um modo de pensar típico das clas- Essa insistência na reflexividade diferencia seu trabalho de todas as de-
ses privilegiadas com uma descrição universal do pensamento humano. Por
mais formas de sociologia que estão no extremo objetivista do continuum, aquelas
exemplo, o influente trabalho de orientação fenomenológica de Donald Schõn
que seguem o modelo das ciências naturais ou que alegam operar de modo
sobre o ensino de arquitetura em ateliês poderia ser considerado como uma
positivista, tais como o estruturalismo francês ou o velho funcionalismo estrutu-
tentativa de impor as mentalidades das classes superiores ao estudante de ar-
quitetura." ral americano.48 Bourdieu entende que as explicações que produzem são re-
motas, distantes e teóricas, dando a entender que são descrições desinte-
ressadas da realidade social. Ele é particularmente crítico dos estruturalistas e
de suas tentativas de discernir regras de vida social. As pessoas não tocam sua
43
J. Kelley e M. D. R. Evans, "Class and Class Conflict in Six Western Nations",
SocioIogical Review 60 (1995): 157-178. An6.ican
44
Wacquant, "Towards a Rcflexive Sociology". A mesma opinião é mantida por muitos outros
sociólogos de esquerda: ver, por exemplo, S. G. McNall e J. C. M. Johnson, "The New
47 Mais informações sobre a epistemologia e a metodologia de Bourdieu podem ser encontradas
Conservatives; Ethnomethodologists, Phenomenologists, and Symbolic Interactionist",
Insuizent Sociologist 4 (1975): 49-65 (que titulo para urna publicação!). particularmente em Bourdieu e Wacquant, An Invitation to Reflexiva Sociology, e Bourdieu,
45 B. Hillier, Sociology tn Question.
"Quite Unlike the Pleasures of Scratching: Theory and Meaning in Architectural
Form", 9H7 (1985): 66-71. 48 Com sua mordacidade habitual, Bourdieu afirma que a velha corrente da sociologia americana
46 D. Schõn, "Reflections in Action", tem sido inepta e danosa e que seus decanos, Robert Merton e Talcot Parsons, têm "opiniões
RIBA Transactions 2 (1982): 65-72.
de nível escolar". Vcr Sabour, "Bourdieu's Renewed Criticai Evaluation".
68 Ga rry Stevens O círculo privilegiado 69

vida aderindo a regras; a vida diária é muito mais bagunçada, cheia de improvi-
sações táticas e de imprecisões estratégicas. Bourdieu sobre a validade da ciência
Nos últimos 15 anos, tornou-se popular uma postura construtivista na socio-
logia da ciência.4° Ela tem se manifestado como uma tentativa de descrever em Longe de levar a um ataque niilista da ciência, como certas aná-
detalhe as atividades dos cientistas em laboratórios, para estudar como eles pro- lises assim chamadas "pós-modernas", que não fazem nada mais do
duzem "fatos". Uma vez que o construtivismo tem como premissa a noção de
que toda realidade é construída pelas pessoas, de que não há uma realidade maior • que acrescentar o sabor do mês temperado com uma pitada de radical
chie francês à velha rejeição irracionalista da ciência, e mais especi-
"lá fora", ele mantém que o conhecimento científico é apenas mais uma dessas ficamente da ciência social, sob a égide de uma denúncia de
construções e não uma descrição cada vez mais acurada da realidade elementar, "positivismo" e "cientificismo", esse tipo de experimentação socio-
como afirmam tanto o senso comum como o positivismo. Nos últimos anos, lógica aplicada ao próprio estudo sociológico pretende demonstrar
Bourdieu e tais sociólogos da ciência têm desempenhado um papel importante
para o retomo da perspectiva construtivista na sociologia anglo-americana.
e que a sociologia pode escapar do circulo vicioso... e que na busca
desse fim necessita apenas jazer uso do conhecimento que ela ofere-
O construtivismo tem alguma afinidade com a deconstrução (a semelhan- ce do mundo social no qual a ciência é produzida, de modo a tentar
ça nos nomes é lamentável). Não obstante, eles diferem em dois aspectos. Em ganhar controle sobre os efeitos do determinismo social que afeta
primeiro lugar, os derridanianos concentram-se na literatura, na linguagem e no tanto esse mundo — a não ser que seja exercida extrema cautela —
41
significado, enquanto os construtivistas têm um interesse maior por objetos fisi- como o próprio discurso científico. Em outras palavras, longe de
cos e outros materiais não-literários. Em segundo lugar, enquanto os derridanianos destruir seus próprios fundamentos ao revelar os determinantes so-
tentam desmistificar o discurso pela exposição de seu vazio, os construtivistas ciais que a lógica dos campos de produção impõe em todas as produ-
tentam destronar a ciência mostrando os detalhes comezinhos de como ela é de ções culturais, a sociologia reivindica um privilégio epistemológico:
fato construída, expondo todas as atividades de bastidores que nunca são dis- aquele conferido pelo fato de ser capaz de reinvestir na prática
cutidas em artigos cientificos.5° científica seus próprios ganhos científicos, sob a forma de um au-
O construtivismo de Bourdieu difere em um aspecto importante tanto da mento sociológico de vigilância epistemológica.
forma anteriormente descrita como de uma variedade de enfoques comumente
rotulados de pós-modernos. Batendo de frente na noção hoje comum de que P. Bourdieu, HOmoAcademicu.s, trad. R. Nice (Stanford, CA: Stanford
não podemos conhecer nada com algum grau de certeza, de que o empreendi- University Press, 1988), xii.
mento científico é um remanescente do projeto iluminista, Bourdieu defende
vigorosamente a capacidade da sociologia de produzir conhecimento verdadei-
ro, objetivo e confiável sobre o mundo social. Opondo-se à esmagadora contra-
reação à ciência positivista que os intelectuais europeus vêm promovendo nos Vinculando a prática à estrutura
últimos cinqüenta anos (chamada por um escritor de "vingança das ciências
humanas"),51 Bourdieu defende a viabilidade da ciência, e em especial da ciên- Prática e doxa
cia social, para alcançar resultados significativos.
Qualquer solução para o problema central da sociologia deve explicar a
mistura de liberdade e coerção que é a ação social. Somos agentes com vonta-
de própria, mas não somos completamente livres para fazermos o que quiser-
" As resenhas mais recentes são B. Barnes, "How Not to Do the Sociology of Knowledge", mos. Bourdieu começa perguntando apenas o que são "práticas". Rejeita, como
Armais of Scholarship 8, no 3-4 (1991): 321-335; e R. Hagendijk, "Structuration Theory,
ambígua, a noção estruturalista de que nossos comportamentos são determina-
Constructivism, and Scientific Change", Theories ofScience in Society,
ed. S. E. Cozzens e T. dos por conjuntos de regras, explícitas ou implícitas. O estruturalismo não es-
F. Gieryn (Bloomington: Indiana University Press, 1990), 43-66.

K. Knorr-Cetina, "Primitive Classification and Postmodernity: Towards a Sociological Notion clarece se tais regras são produzidas e claramente compreendidas pelos pró-
of Fiction", Theory, Culture and Society 11 (1994): 1-22. prios agentes ou se emanam de coerções objetivas e exógenas ou simplesmente
5 ' S. Ward, "The Revenge adie Humanities",
Sociological Perspectives
38, nu 2 (1995): 109-128. de conceitos explicativos dos sociólogos. Bourdieu substitui a noção de regra
pela de estratégia, como uma orientação geral da prática." As práticas rara-
mente surgem do cálculo racional, e Bourdieu é particularmente crítico daque- de forma absoluta. Apenas levantes tremendos, como a Revolução Americana
las teorias — algumas derivadas da economia — que descrevem as pessoas e a Revolução Francesa, puderam mostrar que tal coisa não tinha de ser acatada.
Em segundo lugar, essa percepção de naturalidade é uma percepção er-
corno que levando suas vidas perseguindo estratégias conscientemente calcu-
rônea ou, na terminologia de Bourdieu, um reconhecimento errôneo. Como
ladas de maximização da utilidade (teoria da ação racional)." Não agimos
peixes dentro d'água, os indivíduos se movem nas sociedades através da or-
como economistas em miniatura, que escolhem a melhor das numerosas possi-
bilidades que são apresentadas durante a vida. dem simbólica aceita, a qual estrutura o todo da experiência vivida, mas que o
estrutura tão por completo justamente por não ser vista ao estruturá-lo.
Porém, apesar de as pessoas não serem friamente racionais, elas são ra-
A isso se segue a terceira característica, a arbitrariedade da ordem dóxica:
zoáveis. A maior parte de nossas vidas transcorre sem cálculos intelectuais,
essa ordem poderia ser outra que não a que é. Apenas as pessoas não inseridas
porém por meio de um processo de construção prática. Por vezes, Bourdieu
em urna ordem social particular percebem que ela não é natural, porém apenas
compara a vida a um jogo ou a um conjunto de jogos em que estamos envolvi-
uma maneira particular de fazer as coisas. Para o vasto número de pessoas
dos, os quais aprendemos a jogar pela observação e pela participação e não
que não participa da indústria da haute couture, as caríssimas criações da alta
pela leitura de um manual de regras. Ele pressupõe a existência de um vínculo moda são, mais que tudo, ridículas; para aqueles que fazem parte dela, é a
fundamental entre ações e interesses, pelo fato de que nossas ações são deter- própria vida.
minadas por nossos interesses, mas não de um modo intelectual. Nossos inte-
resses determinam quais os jogos que queremos jogar (pai, empregado, médi-
co, executivo, mecânico). E não estamos interessados em alguns jogos. Uma Habitus
0
vez que todos estes jogos não possuem regras explícitas, somos obrigados a
construir nossa própria lógica de práticas para nos conduzir pela vida, urna O mecanismo pelo qual a experiência da doutrina é produzida é também
lógica que é politética, dogmática, capaz de sustentar urna multiplicidade de aquele pelo qual Bourdicu vincula a prática às estruturas. Bourdieu emprega o
significados confusos e, muitas vezes, logicamente contraditórios. termo habitus. Com ele, refere-se a um constructo que é tanto psicológico,
Central para as idéias de Bourdieu sobre as ações e as práticas humanas é uma vez que está na cabeça das pessoas, quanto social, uma vez que se pode
que a maioria delas acontece em um meio ambiente dóxico, referir a um grupo ou a uma classe como tendo um habitus. O habitus é um
doutrinário. Isso
significa a aceitação incontestável da vida diária, a adesão a um conjunto de conjunto de disposições interiorizadas que induz as pessoas a agir e reagir de
relações sociais que aceitamos como auto-evidentes?' Bourdicu lista três as- determinadas maneiras e é o produto final do que a maioria das pessoas cha-
pectos importantes da experiência dóxica: a naturalidade, maria de socialização ou "enculturação". Em grande parte, não escolhemos ser
errôneo e a arbitrariedade. o reconhecimento
o que somos, mas recebemos de nossa família urna maneira de olhar e fazer as
Em primeiro lugar, a "ordem natural das coisas" é vista como de algum coisas, um habitus, transmitido pelas gerações prévias. Em um sentido bem
modo universalmente certa e normal. A própria idéia de desafiá-la simples- real, o habitus é um análogo social da herança genética. Essa identidade é
mente nunca ocorre a ninguém, nem aos poderosos e nem aos desprovidos de modificada à medida que passamos pelo sistema educacional e à medida que
poder. Assim, por exemplo, na Europa medieval e em princípios da era moderna, encontramos outros indivíduos ao longo de nossas vidas. De qualquer modo, as
era considerado absolutamente natural que um monarca absoluto governasse possibilidades de mudança são circunscritas por nossa própria história, pela
história de nossa classe e pelas expectativas dos grupos com os quais nos
identificamos. Podemos fazer nossa própria história, mas não necessariamente
nas circunstâncias por nós escolhidas.
" Lima boa discussão aparece em Johnson, "Picrre Bourdieu on Art, Litcrature and Culture".
53 Ver J. Elster,
Sour Grapes: Studies in the Subvet-sion of Rationality O habitus, nessa formulação, parece agir como uma espécie de curva de
University Press, 1983). (Cambridge: Carnbridge feedback entre as estruturas sociais e as práticas pessoais e é o veículo pelo
" Ver N. Garnham e R. Williams, "Pierre Bourdieu and the Sociology of Culture: An Introduction", qual Bourdieu conecta as duas (Ilustração 2.1). É por essa ligação que a ordem
Media, Culture and Society: A Critica! Reader, ed. Collins
et al. (Londres: Sage, 1996), 116- social é reproduzida — e reproduzida de modo tão eficaz — através dos tempos.
130; e T. Moi, "Appropriating Bourdieu: Feminist Theory and Pierre Bourdieu's Sociology of
Culture", New Literaty History Todas as pessoas têm seus próprios habitus, instilados desde o nascimento,
22 (1991): 1017-1049,
mas modificados pela experiência. Contudo, grupos e classes também têm um
72 Garry Stevens O círculo privilegiado 73

o habitus produz. O habitus nos provê com uma maestria prática das situa-
Estruturas sociais ções sociais, dizendo-nos "instintivamente" o que fazer.
O habitus não determina, mas guia. Ele fornece o sentimento do jogo."
Os indivíduos são, ao mesmo tempo, completamente livres e completamente
que são internalizadas pelo coagidos como — na metáfora de Bourdieu — o bom jogador de tênis, o qual,
apesar de completamente governado pelo desenrolar do jogo, não obstante o
controla completamente." Nas situações em que nosso habitus está correta-
mente ajustado ao jogo social que estamos jogando, sentimo-nos confortáveis,
Habitus cria
naturais, à vontade — sabemos como reagir e nos sentimos em casa. Quando
mudamos para um outro jogo — um bombeiro indo a uma reunião da alta socie-
dade, uma socialite em uma construção —, nosso habitus pode ser inadequado
que regula para lidar com a situação e nos sentimos pouco à vontade, sem sabermos muito
bem a coisa certa para falar ou a forma correta de nos comportar, não gostan-
do muito do que está acontecendo.
Práticas O habitus também é uma estrutura estruturada, urna vez que Bourdieu o
compreende corno uma internalização das estruturas do mundo social." Como
o enculturamento começa no nascimento, ele é um produto das condições ma-
teriais e simbólicas da existência de uma família, das condições moldadas pela
Ilustração 2.1 Relação do habitus com as estruturas e as práticas, segundo Pierre classe do indivíduo e, portanto, pelas estruturas maiores da sociedade. Assim,
Bourdieu
em um sentido extremamente importante, o habitus é uma incorporação do
sistema social como um todo, e cada um de nós carrega em sua cabeça toda a
história do nosso espaço social. Porém essa história é obliterada e se manifesta
como uma ordem evidente por si mesma. É isto que gera a experiência dóxica,
habitus, e, assim, o conjunto de disposições e práticas de cada indivíduo é uma
doutrinária, a sensação de se estar à vontade ao jogar os jogos da sociedade,
variante das disposições da classe desse indivíduo. Bourdieu, portanto, vê a
porque já internalizamos efetivamente o desenrolar desses jogos em nossas
família como o elo-chave entre a classe e o indivíduo, transmitindo o habitus da
mentes, sem nunca termos explicitamente aprendido quaisquer de suas "re-
classe para a criança.55
gras". Também, neste sentido, nosso habitus nos aprisiona na experiência
O habitus de uma pessoa gera percepções, atitudes e práticas. É, ao mes-
dóxica, exatamente porque vivemos na ilusão de que somos livres para fazer o
mo tempo, o filtro através do qual interpretamos o mundo social, organizando que queremos, como o peixe dentro d'água se sente livre para nadar por onde
nossas percepções das práticas das outras pessoas, e o mecanismo que utiliza- quiser, sem nunca saber que há outros que também caminham ou escalam
mos para regular nossas ações naquele mundo, produzindo nossas próprias
montanhas ou voam."
práticas. Nesse sentido, é uma estrutura estruturante. Entretanto, o habitus
não deve ser conceituado no sentido estruturalista: ele não é uma coleção passiva
de conhecimentos, um conjunto de regras que aplicamos às situações sociais.
É um conjunto ativo e inconsciente de disposições não-formuladas para agir e 56 A metáfora "jogo" é defectiva, urna vez que Bourdieu a emprega sem conotar que qualquer um
perceber, e muito de seu poder de estruturar nossas vidas sem que nos aperce- pode dizer quais são as regras do jogo ou mesmo que há regras explícitas.
bamos dele decorre da ausência de consciência do hábito e da habituação que 57 P. Lamaison, "From Rules to Strategies: An Interview with Pierre Bourdieu", Cultural
Anihropology 1, nu 1 (1986): 110-120.
58 P. Bourdieu, "A Reply to Some Objections", em Bourdieu, /n Olhar Words: Essays Towards
a Reflexiva Sociology, 106-119, e P. Bourdieu, "On Symbolic Power", em Bourdieu, Language
and Symbolic Power, 163-170.
55 P. Bourdieu, "On the Family as a Realized Category", Theory, Culture and Society 13 (1996): " Ver P. Bourdieu e J. C. Passeron, Reproduction in Education, Society and Culture, trad. R. Nice
19-26. (Londres: Sage, 1990).
O modelo de sociedade de Bourdieu
e reproduzir a estrutura de classes, um sistema de desigualdade. Por essa ra-
Poder simbólico e cultura zão, a cultura é o centro de suas contribuições substantivas — diferentemente
4 de suas contribuições formais — para a teoria sociológica. Como muitos (se-
não a maioria) dos sociólogos, Bourdieu acredita que a estrutura de classes das
O ponto
de partida para o modelo de sociedade de Bourdieu é a suposição sociedades modernas é iníqua, negando para alguns o que poderia lhes perten-
nada excepcional de que todas as sociedades se caracterizam pela competição
cer, enquanto garantindo para outros a concessão de privilégios que não mere-
entre grupos para favorecer seus próprios interesses. Essas lutas atuam em cem. Muito de seu trabalho é dedicado a desmascarar os mecanismos por meio
muitos níveis diferentes: entre indivíduos, famílias, classes e todo tipo de outras
entidades coletivas. É obvio, também, que alguns grupos são mais bem-sucedi- dos quais isso acontece.
violên-
dos em promover seus interesses do que outros — eles controlam mais recur- De suma importância dentre eles é a imposição do que chama de
sos. Não só eles têm controle, como mantêm o controle, e isso somente é cia simbólica, o uso do poder simbólico para obter o que teria de ser, de outro
possível negando tais recursos aos competidores. Esse ato social fundamental modo, alcançado pela força. A essência do conceito é que um indivíduo ou um
significa que, nos muitos campos que se intersectam e que a sociedade abarca, grupo controla o poder simbólico sobre os outros simplesmente os convencen-
alguns grupos são dominantes e alguns são subordinados. O controle dos recur- do que assim deve ser. Sua característica-chave é não ser percebido como
sos, ao mesmo tempo, requer e confere poder, e é com o poder que Bourdieu poder per se, mas como um direito legítimo de fazer exigências aos outros. Um
está primordialmente preocupado — como é exercido, quem o exerce e em
1 bom exemplo seria a estrutura de classes da Europa medieval. Naquela época,
beneficio de quem.
as pessoas pensavam que a sociedade estava estruturada em um domínio espi-
Em comum com outros pensadores europeus, tal corno Foucault, Bourdieu ritual e em um domínio temporal, com hierarquias mais ou menos elaboradas
considera inadequada a definição usual anglo-americana de poder como con- em cada um deles. As pessoas eram inculcadas desde o nascimento em unia
trole. Para Bourdieu, poder é a capacidade de impor uma definição específica doxa que afirmava que todo indivíduo nascia em uma determinada posição
da realidade que é desvantajosa para outros.° O tipo mais óbvio de poder é a social da ordem temporal, uma ordem definitivamente fundamentada em cren-
força física, mas apenas poucos grupos a utilizam. Ela é ineficiente, e a maioria ças religiosas. Ter nascido um camponês ou um servo significava que o indiví-
das sociedades concede o monopólio do uso da violência física legítima ao duo aceitava aquela posição na ordem, aceitava o lugar ocupado no estado
Estado. Um segundo tipo de poder é o econômico. Sua importância é obvia. feudal, aceitava que trabalhava para o senhor local, aceitava os impostos e as
A teoria marxista mantém que o poder econômico é o único tipo de poder e que imposições, os encargos e os confiscos. Do mesmo modo, ter nascido nobre
todos os grupos podem ser posicionados em algum tipo de hierarquia social, era aceitar inquestionavelmente que se tinha o direito de viver do trabalho dos
suas posições condicionadas à quantidade de capital econômico que controlam. demais.
Uma das principais contribuições de Bourdieu para a moderna teoria sociológi- O poder simbólico opera de modo muito mais eficaz do que o poder físico
ca foi a ampliação da teoria de Max Weber, ao demonstrar decisivamente que porque ele convence aqueles que dele tiram menos proveito a participarem em
não é bem assim, que existe urna terceira forma de poder, mais potente e sua própria sujeição, de serem cúmplices ativos. Os americanos pobres podem
omnipresente — o simbólico. O poder simbólico envolve a manipulação de sím- defender as mais profundas crenças existentes na sociedade americana sobre,
bolos e conceitos, idéias e crenças, para alcançar seus fins. digamos, o individualismo, apesar de tal ideologia trabalhar contra eles, de ne-
No nível mais elevado, aquele da sociedade como um todo, chamamos o gar atendimento completo de saúde ou benefícios sociais; o mais miserável dos
campo no qual o poder simbólico atua de "cultura". Uma das idéias defendidas cidadãos da classe baixa britânica pode sentir ainda uma deferência natural por
por Bourdieu é que a lógica do campo cultural é tal que age para criar, legitimar um membro da nobreza, um claro desconforto e uni sentimento de estar na
presença de alguém de maior valor do que ele. É muito mais fácil controlar os
recursos, se um grupo pode simplesmente convencer os competidores que deve
6
" M. Lamont e R. Wuthnow, "Betwixt and Between: Recent Cultural Sociology in Europe and
controlá-los. Não há por que carregar um porrete, se todos os seus rivais estão
the United States", Frontiers of. se flagelando em seu beneficio. Não há por que persuadir as pessoas, se elas
Social Theory: The New Synthesis, ed. G. Ritzer (Nova York:
Columbia University Press, 1990). voluntariamente acedem. O poder simbólico é, portanto, essencialmente mal
/b barry Stevens
O círculo privilegiado 77

percebido (reconhecido erroneamente, na terminologia de Bourdieu) como


ital concentrado nos membros individuais de urna rede social, mais alto será
perfeitamente legítimo e completamente natural. Essas qualidades ocultam as o valor daquela rede; desse modo, as classes privilegiadas possuem uma vanta-
relações de poder que existem de fato entre os grupos dominantes e domina-
gem inerente sobre as classes mais baixas, simplesmente porque seu capital
dos. O poder simbólico, operando no campo da cultura, é usado pelas classes
social é maior. Além disso, os indivíduos das classes altas possuem mais "laços
dominantes da sociedade para manter sua dominação. Nem o poder econômi-
superficiais" com as demais pessoas do que os menos privilegiados. Ou seja,
co e nem o poder físico são suficientes. Os grupos que mais se beneficiam da possuem redes maiores de conhecidos, de pessoas que não conhecem muito
sociedade o fazem com um conflito social mínimo porque o sistema cultural bem, mas que podem ser de incalculável ajuda nos negócios.62 Mais ainda, isto
daquela.sociedade é construído de modo a fazer com que sua dominação pare- permite que as classes mais altas necessitem menos de outras formas de capi-
ça natural. Somente quando a naturalidade e a legitimidade da ordem cultural tal cultural — elas precisam de menos qualificações formais e investem nos
entram em colapso é que as classes dominantes se vêem em grave dificuldade, campos em que podem mais habilmente dispor de seu capital socia1.63 Conhecer
porque então a arbitrariedade daquela ordem é exposta e alternativas se tor- a rainha da Inglaterra ou o presidente dos Estados Unidos não vai ajudá-lo a
nam imagináveis.
arrumar um emprego como programador de computador em um banco, caso
você não sabia computação, mas poderá colocá-lo no conselho diretor do mes-
Capital simbólico mo banco, mesmo que você não saiba nada sobre finanças.
A quarta forma de capital cultural é muito mais sutil e é o elemento que
torna a noção bourdiana de capital cultural tão importante. É obvio que não é
Do mesmo modo que o poder econômico deriva da posse de capital econô-
necessário possuir uma galeria de arte ou um monte de diplomas para ser con-
mico, igualmente o poder simbólico deriva da posse de capital cultural. Assim
siderado culto, e é perfeitamente possível possuir urna vasta quantidade de
como em todas as sociedades, grupos — de famílias a organizações a classes —
bens culturais e um ou dois diplomas e, ainda assim, ser considerado vulgar,
competem na arena econômica para aumentar sua riqueza econômica, para
grosseiro e desagradável. A posse de bens ou qualificações é um modo de
maximizar seu capital econômico, assim competem também na arena cultural
possuir capital cultural, mas há uma outra maneira de possuí-lo, simplesmente
para maximizar seu capital cultural.
'pelo fato de se ser culto. Isto é o capital cultural corporificado, cujo significa-
Esta noção de capital cultural é a segunda contribuição bourdiana de im-
do para Bourdieu é o de que ele existe no íntimo dos indivíduos, sob a forma de
portância para a teoria social, podendo apresentar quatro formas básicas:
atitudes, gostos, preferências e comportamentos. Como falamos, caminhamos
institucionalizada, objetivada, social e corporificada.6 ' Três são bem fáceis de
e nos vestimos, o que gostamos de ler, os esportes que gostamos de praticar, o
se compreender. O capital cultural institucionalizado é constituído por qualifi-
carro que gostamos de guiar, os tipos de roupas que usamos, os passatempos
cações acadêmicas e realizações educacionais, saber coisas e ser certificado que preferimos, todas as inúmeras possibilidades em que gosto e atitudes se
como alguém que as conhece. O capital objetivado é constituído por objetos ou
manifestam são marcas de capital cultural corporificado. Como ressaltou um
bens culturais, tais como obras de arte ou qualquer um dos inúmeros objetos sociólogo, parte da importância de Bourdieu está em ter percebido que as práti-
Ir
simbólicos produzidos na sociedade. O capital social consiste de redes durá-
cas aparentemente mais triviais e naturais — as roupas que vestimos, as comi-
veis de pessoas com as quais se pode contar para apoio e auxílio ao longo da das de que gostamos, os amigos que fazemos — são todas cruciais."
vida. Tal capital é particularmente útil naquelas áreas da vida social que não A potência peculiar desse tipo de capital está no fato de que — para reiterar
foram burocratizadas pelo Estado, nas quais a habilidade formalmente certifi- uma das frases de Bourdieu — os proprietários de outras formas de capital
cada conta menos que as habilidades sociais. Naturalmente, quanto maior o

61 P. Bourdieu, "The Forms of Capital", Handbook of Theoiy and Research for the Sociology of 62 Ver M. Granovetter, "The Strength of Weak Ties: A Network Theory Revisited", Sociological
Education, ed. J. G. Richardson (Nova York: Greenwood Press, 1986), 241-258, e M. Lamont Theory 1983, ed. R. Collins (San Francisco: Jossey-Bass, 1983), 201-233.
63 Ver R. L. Zweigcnhaft, "Prep School and Public School Graduates of Harvard", Journal of
e A. Lareau, "Cultural Capital Allusions, Gaps and Glissandos in Recent Theoretical
Developments", Sociological Theory 6 (1988): 153-168. Higher Education 64 (1993): 211-224.
64 Moi, "Appropriating Bourdieu".
uarry ,tevens O círculo privilegiado 79

social são apenas os que possuem,


enquanto os portadores de capital Estratégias de investimento
corporificado têm apenas de ser o que são.
Talvez o exemplo mais conhecido
c facilmente aceito seria o conceito de "cavalheiro" (gentlernan)
(lady). ou "dama" Todos os indivíduos tentam aumentar os bens que possuem, sejam eles
Qualquer pessoa, rica ou pobre, pode ser gentil (no sentido arcaico na
econômicos ou simbólicos. Para tanto, no decorrer de suas vidas seguem estra-
língua inglesa); não é preciso possuir qualquer coisa ou declarar este fato por
qualquer outro meio, basta simplesmente ser. tégias de investimento em ambos os capitais — econômico e simbólico. É nesse
sentido que Bourdieu argumenta que se pode pensar o capital simbólico em
A posse de capital econômico permite o consumo de bens econômicos
termos "economáticos". Mas não em termos econômicos. O simbólico não é
pelo mero fato de sua posse — todos sabem como gastar dinheiro. Os bens
diretamente redutível ao econômico, como seria considerado pelos marxistas.
simbólicos só podem ser "consumidos" se se têm os esquemas mentais corretos
Nem todos nós valorizamos do mesmo modo os mesmos capitais simbólicos.
de apreciação, se seus significados são compreendidos. Os símbolos são sem- 1
Obter um diploma de arquitetura é um objetivo vantajoso para uns, mas não
pre códigos de um tipo ou outro e devem sempre ser decodificados. Uni conta-
para outros. As pessoas perseguem aquelas estratégias que acreditam que lhes
dor, ao olhar para uma casa projetada por Eisenman, vê algo muito diferente do 66
que um arquiteto. retornarão os rendimentos mais altos, simbólicos ou econômicos Os campos
em que decidem ingressar (carpintaria ou arquitetura), seu estágio à época do
Uma vez que o conjunto de disposições que permite que um indivíduo con-
ingresso (quando jovens ou velhos) e o que fazem nesse campo (assalariados
suma objetos simbólicos é parte de seu capital corporificado, segue-se que o
ou na atividade privada), tudo isso depende de como percebem suas chances
capital corporificado afeta a taxa de retorno obtida com os demais capitais
de sucesso. Todos nós ajustamos nossas aspirações e objetivos à situação em
simbólicos. Além disso, uma vez que o capital corporificado não é percebido
que nos encontramos em virtude do nosso lugar na estrutura social. As pessoas
como capital, ele age de forma encoberta, dissimulada. As pessoas têm rea-
tentam realizar o que pensam que é possível. Demonstramos nossa aceita-
ções diferentes ao saberem que Donald Trump ou que Gore Vidal comprou
ção prática das realidades da vida social nos excluindo das áreas nas quais
uma gravura renascentista: a quantidade de capital simbólico que nos parece que
pensamos que não seremos bem-sucedidos. Desse modo, os menos favoreci-
Trump está recebendo com essa compra é bem inferior à quantidade que Vidal
dos se eliminam por si mesmos daqueles campos que sabem que são arrisca-
recebe. Por que deveria ser assim? Porque compreendemos que Vidal é uma
dos, aqueles dominados pelos dominantes.
pessoa culta e que Trump não é. Vidal é capaz de apreciar a gravura, Trump não.
O capital econômico e o capital cultural são formas bem distintas, ainda
que conversíveis entre si dc diferentes maneiras a diferentes taxas de inter- Classe Social Austrália Reino Unido Estados Unidos Suécia Polônia
câmbio. Por exemplo, o sistema educacional permite que o capital cultural seja
Terço superior 33 18 75 23 21
convertido em capital econômico, ao dar acesso aos setores mais bem pagos
do mercado de trabalho; ou a rede de antigos colegas de turma converte o Terço 27 8 7
15 5
capital social em econômico, ao propiciar contatos de negócio. Como as taxas intermediário
de câmbio são extremamente arbitrárias, elas são objeto de disputa entre os Terço inferior 12 5 27 4 7
vários grupos, cada um tentando maximizar a taxa de retorno dos tipos especí-
ficos de capital que possuem. Cem anos atrás, um arquiteto americano, cuja
única educação formal havia sido alguns anos na École des Tabela 2.1 Porcentagem de cada classe social que participa da educação superior.
Beaux-Arts, estava (Fonte: D. Anderson, "Access to University Education in Australia 1852-1990: Changes
destinado a uma rápida ascensão, como atestam a existência da elitista Society
in the Undergraduate Sound Mix", The Australian Universities Review 33, riPi 1 e 2
of Beaux Arts Architects e as carreiras de Richard Morris Hunt e de Charles [1990]: 37-50. Os dados sobre os Estados Unidos são ligeiramente inflacionados por-
McKirn.65 O cachet
assim obtido teria sido bem menor nos anos 1960, pouco que a definição americana de educação superior inclui formas que são excluídas em
antes do fechamento da Society.
outros países.)

65 P. R. Baker, Richard Morris Hunt


(Cambridgc: MIT Press, 1980); L. M. Roth, McKim,
and White Architect.v (Nova York: Harper and Row, 1983). Mead
66 R Bourdieu, "Price Formation and the Anticipation of Profits", em Bourdieu, Language and
Symbolic Power, 66-102.
Para observar o poder desse efeito basta apenas considerar a proporção
de pessoas de cada classe social que participa na educação superior (Tabela
2.1). A análise dos dados de diversos países tem demonstrado a universalidade Fração dominante da
de tal efeito. Poderia se supor que os custos de uma educação superior nos classe dominante • Administrativo: dto nível
Estados Unidos funcionasse contra as classes mais
baixas, mas padrões simila-
res também se mantêm em outras nações. A eliminação de todas as taxas nas
universidades australianas nos anos 1970, as universidades populares
(red brick) Profissional: científico
do Reino Unido, o socialismo democrático na Suécia e o comunismo na Polônia
não alteraram o fato de que as classes mais privilegiadas são vastamente mais
inclinadas a mandar seus filhos para a universidade. Ao dizerem "Isso não é
para mim", os menos favorecidos se excluem por si mesmos de modo muito • Vendas: alto nível
mais eficaz do que seria possível com qualquer outra punição econômica. Profissional: serviço social

• Profissional:
cultural
Espaço social e estrutura de classes
Serviço: preventivo Mistas •
1 .
Bourdieu usa as noções de capital cultural e capital econômico para criar Habilidade manual • Clero
um modelo da sociedade como um espaço bidimensional no qual indivíduos, :Trabalhador de *Agricultor • Vendas: nível baixo
• Serviços: com habllida s Fração subordinada da
grupos e classes podem ser localizados (Ilustração 2.2). Ele operacionaliza o ansporte • classe dominante
conceito de classe de um modo fundamentalmente diferente dos teóricos mar- *Trabalhador
xistas. Em termos marxistas, urna classe é definida por suas relações com os cabilldades L
• Serviço: sem habilidades
meios de produção e é motivada por algum tipo de reconhecimento de identida- manuais médias •
• Administrativo:
de. Em termos bourdianos, uma classe é um grupo de pessoas que ocupa posi- Fazenda: trabalhador • administração
ções similares no espaço social.° júnior
Classes I
As classes são definidas de modo relativo, como estando acima ou abaixo subordinadas
urnas das outras em termos do capital que possuem. Uma vez que é sempre
melhor ter mais do que menos e que aqueles que possuem mais podem avançar - Capital Cultural +
mais seus interesses do que aqueles que possuem menos, a sociedade natural-
mente se subdivide em classes subordinadas e dominantes. Em certo sentido,
existem tantas classes quanto os diferentes pontos distinguidos no espaço social, Ilustração 2.2 O espaço social nos Estados Unidos, mapeado segundo as ocupações.
mas pode-se fazer uma divisão mais ampla em três classes. A (Análise do autor, baseada em dados de P. DiMaggio e M. Useem, "Cultural Democracy
nada é classe subordi-
constituída por aqueles que possuem pouco das duas formas de capital. in a Period of Cultural Expansion: The Social Composition of Arts Audiences in the
Uma vez que, em última instância, o capital econômico domina o capital cultu- United States", Art and Society: Readings in the Sociology of the Arts, ed. A. W. Foster
ral, a própria classe dominante e J. Blau [Albany: State University of New York Press, 1989], 147-171; e R. A. Peterson
se divide em frações:
os dominantes são aque- e A. Simkus, "How Musical Tastes Mark Occupational Groups", Cultivating Diferences,
les com mais capital econômico — empresários, gerentes e assim por diante; os ed. M. Lamont e M. Fournier [Chicago: Chicago University Press, 1992], 152-186.)
subordinados são constituídos por aqueles com mais capital cultural: intelec-
tuais, artistas, profissionais. Os primeiros são responsáveis pela produção de

67
P. Bourdieu, "What Makes a Social Class? On Theoretleal and Practical Existence of Groups",
BerkeleyJournal of Sociology
32 (1987): I -16.
82 barry Stevens

bens materiais. Os últimos, como será discutido no próximo capítulo, são res-
ponsáveis pela produção de bens simbólicos.

Movimento histórico no espaço social

Os indivíduos não são completamente definidos por sua localização atual


no espaço social. Eles carregam por toda parte a história de suas classes e
grupos em seu habitus; desse modo, as práticas em que se engajam dependem A arquitetura como um campo
não só de sua posição atual, mas também de corno a alcançaram, de suas
posições passadas."
O movimento no espaço social não é fácil, nem tão comum como alguns
acreditariam, mas ele ocorre e não é ao acaso. Bourdieu descreve as posições
potenciais para as quais se pode mover na sociedade como trajetórias. Para O que a cultura faz
um dado volume de capital cultural e econômico corresponde um grupo de
trajetórias mais ou menos prováveis, o campo das posições possíveis. Tais tra- A arquitetura e os arquitetos estão inseridos no campo da cultura, campo
jetórias se aplicam a indivíduos e a classes, todos ligados pela família. O espaço este que tem sido uma das preocupações de Bourdieu. Seu interesse está em
das possibilidades é restringido não somente pelo volume inicial de capital identificar como a cultura serve a funções sociais. O argumento básico é que a
de cada um, mas também pelo habitus, o qual age para gerar as estratégias de cultura é utilizada para esconder a verdadeira natureza das relações de poder
investimento que cada um persegue. Poucas crianças de famílias de trabalha- 41 " entre grupos e classes. No capitalismo moderno, as classes têm tomado, cada
vez mais, a forma que um dos criadores da sociologia, Max Weber, denominou
dores rurais acabam por ser magnatas da indústria e vice-versa. Porém, é claro
que algumas conseguem. O sistema permite apenas que um número suficiente de grupos de status, baseada em estilos de vida diferenciados e não — como
de pessoas — Bourdieu os chama de miracules — migre rapidamente dos estra- poderia parecer — em posições dominantes decorrentes do poder e do privilé-
tos sociais mais baixos para os mais elevados, precisamente para que possam gio. Com o colapso da credibilidade do comunismo como modo de condução de
ser usados com evidência de que a sociedade é de fato meritocrática. um país, a velha retórica socialista sobre o conflito de classes parece ridícula
A trajetória que um indivíduo ou uma família percorreu para chegar à sua para as sociedades ocidentais onde "todos são da classe média". Apesar da
posição social irá definir seu ser social tanto quanto as quantidades e os tipos de crença corrente entre alguns de que as pessoas pertencentes às classes inferio-
capital que controla. Há uma imensa diferença entre uma família aristocrática res simplesmente não querem se ajudar, as sociedades modernas parecem ser
que perdeu sua fortuna e urna família de agricultores que acaba de ganhar uma, meritocracias, recompensando o talento e o empreendimento. A evidente distri-
ainda que tenham a mesma riqueza. A Família Buscapé não é os Rothschild. buição desigual de recompensas materiais e simbólicas é explicada como resul-
Embora indivíduos pertencentes a duas famílias possam ter capitais idênticos e tado de uma distribuição desigual de talentos naturais entre os indivíduos.
posições semelhantes no espaço social, esse efeito da trajetória produz uma Bourdieu argumenta que essa explicação, corriqueira no dia-a-dia mas ti-
hysteresis entre o habitus gerado pela existência social prévia dos indivíduos e
picamente característica do pensamento político conservador, mascara a ver-
aquele exigido por suas novas vidas. Bourdieu afirma que patologias sociais sig- dadeira natureza da estrutura social. Contra a idéia de que indivíduos são bem-
nificativas podem ser produzidas quando classes inteiras experimentam essa sucedidos ou não em razão de seu talento pessoal, deve-se pesar o fato de que
hysteresis: um grupo que está sendo rebaixado de classe será incapaz de preen-
há uma continuidade extraordinária nas classes dominantes de geração para
cher as expectativas que sua prévia posição permitiria ter, e os descontentamen- geração. Se fotografássemos as famílias dominantes de uma determinada socieda-
tos resultantes em suas gerações mais jovens podem resultar em estouros sociais. de, digamos, a cada cinqüenta anos, iriam reaparecer os mesmos nomes. Se o
sucesso fosse estritamente uma questão pessoal, individual, então deveríamos
68 Veja Bourdieu, Distinction. encontrar uma boa dose de mobilidade entre as diferentes camadas sociais.
A evidência é que, conquanto haja uma mobilidade considerável entre os vários
84 Garry Stevens
O círculo privilegiado 85

níveis no interior das camadas médias da sociedade, há muito pouca mobilidade


ele define o que é bom e o que vale a pena possuir e o que é ruim e não vale a
social para dentro e para fora, tanto das camadas mais baixas como das mais
pena ter. Os grupos que obtiveram êxito em ter seu próprio sistema simbólico,
altas.' Se uma pessoa nasce muito pobre ou muito rica, seus filhos e netos
provavelmente terão a mesma situação. seus próprios gostos, estilo de vida e cultura, definidos como socialmente valio-
sos e dignos de serem emulados e adquiridos, são aqueles que dominam a
Em uma sociedade na qual o sistema educacional supostamente deve as-
sociedade. As classes lutam, portanto, para impor seus próprios sistemas sim-
segurar a igualdade de oportunidades, como explicar a persistência dessa es-
bólicos e para impor seus próprios pontos de vista sobre a ordem social que
trutura de classe? Baseando-se extensivamente em Weber, Bourdieu argu-
menta que a desigualdade é mantida pelo uso do poder simbólico, pelos meios esses sistemas ajudam a criar.'
culturais. A classe dominante mantém fechado o espaço social e transmite Nas lutas de classes no terreno simbólico, a própria natureza da batalha
poder e privilégio através das gerações erigindo barreiras simbólicas em torno fica escondida daqueles que a disputam, de um modo que seria impossível
de si mesma. Estas assumem a forma de gostos e estilos de vida diferenciados. caso o conflito fosse econômico. Se os ricos fazem lobby junto ao Estado
Gosto, estilo de vida, cultura e classe estão intimamente ligados — um fato para reduzir seus impostos, isto é considerado um ato descarado de interesse
conhecido há bastante tempo pelos publicitários.2 de classe e pode-se esperar que encontre alguma resistência. Mas se os
ricos subsidiam companhias de ópera e dança ou constroem um novo museu
de arte, tais coisas — apesar de serem esmagadoramente a província cultural
A cultura como um campo de batalha entre as classes dos privilegiados, raramente visitada pelas classes mais baixas — são vistas
como atos desinteressados que beneficiam a sociedade como um todo. Des-
Conforme coloca o sociólogo britânico Richard Jenkins, a cultura é alguma se modo, a cultura dos dominantes torna-se aquela que todos os demais deve-
coisa com a qual as pessoas lutam, pela
qual elas lutam e o terreno no qual elas riam apoiar; os ricos podem promover os interesses de sua classe sob o disfarce
lutam.' A arbitrariedade essencial dos símbolos, dos bens culturais, é o que lhes


de estar promovendo os interesses da sociedade.'
permite ser o objeto de disputas, nas quais grupos tentam convencer outros Existe, portanto, uma cultura dominante que valoriza certos bens culturais
grupos a valorizar seu próprio capital mais do que aquele de seus rivais. Se os e persuade a sociedade a aceitar essa avaliação. Alguns analistas não aceitam
bens culturais não fossem arbitrários — no sentido em que o dinheiro não é a idéia de que existe uma única cultura dominante na maioria das nações oci-
arbitrário (é absurdo argumentar que os meus cem dólares valem mais que os dentais, afirmando que a verdade está mais próxima da noção de cultura como
seus cem dólares) —, não haveria possibilidade alguma de competição. E todos reificação de massas desenvolvida pela Escola de Frankfurt.6 Outros, como a
concordariam que urna casa projetada por um arquiteto é melhor do que uma socióloga americana Judith Blau, insistem que a brecha entre a alta cultura e
casa popular, o que encerraria definitivamente a questão. Todos nós sabemos a cultura popular se desgastou, que existe uma cultura padrão na qual todos
que não é bem assim: poucas pessoas fora das classes mais altas chamam participam.' Essa crítica tem sido estridentemente vocalizada por pesquisadores
arquitetos para projetar residências particulares, apesar de seus honorários re- conservadores americanos, os quais consideram as teorias de Bourdieu pessimis-
presentarem apenas urna parte ínfima do custo total de urna construção. Sus- tas e ultrapassadas. Suspeito que isso ocorre, em parte, porque os intelectuais
peito que essa situação não se alteraria mesmo se os arquitetos trabalhassem americanos se sentem embaraçados por serem intelectuais, como descobriu
de graça. um sociólogo,8 e mantêm a dileta ilusão de que, enquanto a Europa continua
A cultura é urna estrutura estruturante porque, mesmo sendo arbitrária e sendo um imbróglio de classes como sempre foi, os Estados Unidos são urna
não podendo refletir a realidade, ajuda a definir
o que é real. O sistema simbó-
lico da sociedade valoriza alguns objetos e práticas culturais e deprecia outros;
P. 13ourdieu, "On Symbolic Power", em P. Bourdieu, Language and Symbolic Power, ed. J. B.
Thompson (Cambridge, GB: Polity Press, 1991), 163-170.
' Urna excelente revisão da literatura sobre classes encontra-se em R. Crompton, O. Gartman, "Culture as a Class Symbolization or Mass Reifleation? A Critique of Bourdieu's
Stratification: An Introduction to Cunrnt Debates Class and Distinction", American Journal ofSociology 97, n2 2 (1991): 421-447.
= B. Rigby, Popular Culture in Modern France (Cambridge, GB: Polity Press, 1993).
Ver Rigby, Popular Culture in Modern France.
3 Jenkins,
Pierre Bourdieu (Londres: Routledge, 1992). Routledge and Kegan Paul, 1991).
(Londres:
J. R. Blau, "Study in the Arts: A Reappraisal", Annual Review ofSociology
14 (1998): 269-292.
(Chicago: Chicago University Press, 1992).
8 M. Lamont, Money, Morais and Manners
86 Garry Stevens
O círculo privilegiado 87

democracia tanto cultural como política. Mas há nos Estados Unidos, de fato,
grandes variações na participação das diferentes classes nas diferentes ativi- Gosto
dades culturais.
O gosto é o principal mecanismo pelo qual os grupos privilegiados podem
Talvez fosse melhor se referir não a uma cultura dominante, o que implica-
manter sua coesão e se separar dos de fora. Bourdieu define o gosto como
ria uma correspondência simples entre uma dada prática cultural (tal como a
' uma certa propensão a se apropriar, material ou simbolicamente, de um dado
ópera) e urna classe, mas sim a um regime cultural dominante, com o que quero
conjunto de objetos ou práticas.'3 O gosto é bem mais eficiente do que outros
conotar urna situação mais complexa. Atualmente, os membros das classes
meios de exclusão por três razões. Em primeiro lugar, o gosto é erroneamente
mais altas nos países de língua inglesa diferem das camadas mais baixas tanto
reconhecido. Ninguém gostaria de pensar que fuma cigarros, bebe Moêt ou vai
na quantidade quanto no espectro das formas culturais que consomem. Eles
à ópera porque essas são exigências implícitas para ser membro de sua classe.
estão mais para omnívoros (elitistas inclusivistas, que aceitam muitas práticas)
do que para esnobes (elitistas exclusivistas, que rejeitam certas práticas). Os
privilegiados revelam sua classe não por gostarem mais de ópera do que de
rock, mas por gostarem de ambos: seu conhecimento cultural é mais amplo, Porcentagem que freqüenta Com grau universitário Apenas com ensino médio
profundo e abrangente do que o dos demais.' Em seu estudo sobre a classe 65 13
Balé
média americana, Michelle Lamont também ressaltou que as fronteiras morais
Música clássica 63 15
se fazem notar tanto quanto as culturais. '°
Ópera 62 19
É verdade que existe muito mais em comum entre as classes no que se
refere à cultura material do que Bourdieu estaria pronto a admitir, mas mesmo Teatro 58 17
isso pode ser um fato mais ilusório do que real. Bourdieu alerta que mostrar Museus de arte 48 17
uma semelhança quanto a padrões dc consumo material entre as classes pode Museus de ciências 34 40
mascarar os diferentes usos para os quais tais itens são destinados." Por exem- População dos EUA 14 74
plo, apesar de a proporção de aparelhos de televisão e de videocassetes ser
igual nas classes média-baixa e alta, isto ainda significa que, no primeiro caso,
Tabela 3.1 Porcentagem de pessoas nos Estados Unidos que participam em várias
vive-se com a televisão sempre ligada, sintonizada em determinados canais e
atividades culturais, por grau de instrução. (Fonte: P. DiMaggio e M. Useem, "Cultural
em determinados programas, ou então passando fitas dc vídeo alugadas, enquan- Democracy in a Period of Cultural Expansion: The Social Composition of Arts Audiences
to, no segundo caso, o videocassete é usado principalmente para gravar progra- in the United States", Art and Society: Readings in the Sociology of the Arts, ed. A.W.
mas para serem vistos em outra ocasião.I 2 Foster e J. Blau [Albany: State University of New York Press, 1998], 141-171.)

" Na França de Bourdieu, as classes mais altas podem ainda ser esnobes em vez de omnívoras.
Ver B. Bryson, "`Anything but Heavy Metal': Symbolic Exclusion and Musical Dislikes", As diferentes culturas nos Estados Unidos
American Sociological Review 61 (1996): 884-889; R. A. Peterson e R. M. Kern, "Changing
Highbrow Taste: From Snob to Omnivore", American Sociological Review 61
(1996): 900- As Tabelas 3.1 e 3.2 ilustram a divisão cultural entre classes nos
907; P. DiMaggio e M. Useem, "Cultural Democracy in a Period of Cultural Expansion: The
Social Composition ofArts Audiences ir the United States", Arts and Society.• Readings in the Estados Unidos. A Tabela 3.1 mostra a proporção de americanos que
Sociology of Arts, ed. A. W. Foster e J. Blau (Albany: State University of New York Press, freqüentam as diversas atividades culturais, separados por nível educacio-
1989), 141-171; e P. DiMaggio, "Are Art-Museum Visitors Different From Other People?", nal. Aqueles com menos nível educacional evitam o balé, a música clássi-
Poetics 24 (1996): 161-180.
1 ° Lamont, Money, Morais and Manners. ca, a ópera. Deve-se prestar particular atenção para o fato de que as
'' P. Bourdieu, Distinction: A Social Critique of Toste,
trad. R. Nice (Catnbridge: Harvard University
Press, 1984).
12 N. Garnham, "Bourdieu, the Cultural Arbitraiy, and Television",
Bourdieu: Criticai Perspectives,
ed. C. Calhoun, E. LiPuma e M. Postone (Cambridge, GB: Polity Press, 1993), 178-192.
13 Ver Bourdieu, Distinction.
88 Garry Stevens O círculo privilegiado 89

r
Porcentagem
classes mais baixas acham que vale a pena visitar museus de ciências, Porcentagem que freqüenta
que prefere
porque o entendimento científico nunca foi urna marca de refinamento da
classe alta como, por exemplo, o entendimento de música clássica.

Música country
Música clássica
Renda

Museus de arte
Peças de teatro
A Tabela 3.2 mostra as preferências musicais e artísticas dos ameri- média
($)
canos, separadas por ocupação dos entrevistados. Os arquitetos perten-
8' C
cem à categoria "Profissional, cultural". Aqueles no grupo ocupacional
mais rico (alta administração) ou em qualquer uma das categorias profis- Atividade

VII
sionais tendem a participar mais de certas atividades de lazer do que aque-

[6
-,
5
,...,
Administração, alia 45,500 10 7
les nas categorias ocupacionais mais mal remuneradas. Quando examina-

I
39,900 18 26 7 45 18 13
Profissional, cientifico
mos os dados sobre formas culturais gratuitas ou quase gratuitas, tais 36,500 11 24 8 41 11 20
Profissional, vendas
como museus de arte, ou quando lembramos que as entradas para um 33,400 19 32 14 48 19 7
Profissional, serviço social
concerto de rock custam quase a mesma coisa que para a ópera, ou que
32,500 8 22 9 37 8 23
Profissional, técnico
uma noite em um bar ouvindo uma banda local de rock custa mais 59 29 9
Profissional, cultural (incluindo os arquiteto!) 32,000 29 38 11
ou menos a mesma coisa que uma noite no teatro, fica evidente que ra- 28 12 57 24 12
Artistas 29,500 24
zões econômicas não podem explicar essa situação. Do mesmo modo, 25 6 21
Funcionário 28,000 3 14 6
razões econômicas não explicam por que, por exemplo, fumar é mais 3 36
Manual habilitado 27,000 1 6 2 14
comum nas classes mais baixas do que na classe mais alta.
23,000 1 6 1 15 O 21
Operário
28,000 7 13 5 24 7 23
População EUA

Tabela 3.2 Participação em atividades artísticas e preferência musical, por grupo


As pessoas também não gostariam de pensar que seus gostos são o produ-
to da criação que receberam, da inculcação de seu habitus. Pelo contrário, ocupacional. (Fonte: R. A. Peterson e A. Simkus, "How Musical Tastes Mark
Occupacional Groups", Cultivating Dfferences, ed. M. Lamont e M. Fournier [Chica-
defende-se acaloradamente que o gosto é uma coisa absolutamente pessoal e go: University of Chicago Press, 1992], 152-186.)
natural — simplesmente, eu tenho os gostos que tenho. Esta é a segunda proprie-
dade do gosto, a naturalidade. Nada é mais eficaz para negar que a cultura é
uma arma social do que meramente afirmar que nossos gostos são puramente
naturais e que, se tenho um gosto mais requintado do que o seu, é apenas superior" e "cultura inferior", ele não deve ter tido dúvida de que as pessoas
porque eu tenho naturalmente um gosto melhor. Afinal de contas, o significado que estavam se pondo de acordo incluíam somente aquelas com a educação e
original da expressão De gustibus non est disputandum a competência — isto é, o bom gosto, o ser social correto — para emitir tais
não é uma constatação
da pluralidade de gostos, mas uma afirmação de sua irredutível naturalidade, julgamentos.° Ou como disse César Daly, fundador de uma das primeiras
indicando implicitamente que não se pode contestar o bom gosto daqueles que revistas de arquitetura, a Revue Générale de l'Architecture: "Em uma demo-
o possuem. Tampouco é possível contestar meu gosto se se acredita que ele cracia, assim como em uma monarquia aristocrática, é sempre a elite que ver-
surgiu naturalmente de meu valor inerente e não da minha posição de classe e dadeiramente guia a multidão, ostensivamente ou não".16
criação." Quando Royston Landau, escrevendo como professor da elitista
Architectural Association, em Londres, disse que "é [a] concordância sobre o
que é importante que permite que sejam feitas tais distinções entre "cultura
15 R. Landau, "Enquiring into the Architectural Agenda", Journal of Architectural Education 40,
n2 2 (1987): 41.
Revue Générale de
14 16 Citado em H. Lipstadt, "The Building and The Book in César Daly's
L. J. D. Wacquant, "On the Tracks of Symbolic Power: Prefatory Notes to Bourdieu's `State ed. J. Ockman e B. Colomina (Nova York: Princeton
Nobility'", Theory, Culture And Society 10 (1993): 1-17. L'Architecture" , Architecureproduction,
Architectural Press, 1988), 50.
Em terceiro lugar, o gosto é corporificado. O gosto é adquirido bem deva-
religião, das relações de classes, e assim por diante. Como uma primeira apro-
gar e desde a infância, pela imersão nas práticas do bom gosto. Você não pode ximação, podemos considerar o campo da arquitetura como sendo constituído,
adquirir bom gosto lendo livros ou freqüentado conferências, fato que tem ser- entre outras coisas, por arquitetos, críticos, professores de arquitetura, constru-
vido de base para tantas comédias que descendem da peça de Shaw,
Pygmalion. tores, todo tipo de clientes, a parcela do Estado envolvida com a construção,
O gosto é simplesmente parte do seu ser social e se manifesta para os outros instituições financeiras e mais o discurso arquitetônico e as exigências legais
por meio de atitudes e predileções, por meio de milhares de sutilezas que não quanto a edificações, entre outras coisas.
podem ser codificadas. Se o gosto pudesse ser codificado, não poderia desem- Dessa catalogação, pode-se ficar com a impressão de que "campo" é uma
penhar sua função de exclusão, pois qualquer arrivista poderia adquiri-lo. Daí o palavra muito vaga e de pouco poder analítico. No entanto, um campo não é um
ódio que os arquitetos mais eminentes (quer dizer, os que têm mais gosto) sen- contexto ou meio ambiente social nebuloso, nem uma mera enumeração de
tem pelas regulamentações mesquinhas que o Estado lhes impõe, uma vez que relações. Bourdieu utiliza o termo para descrever um verdadeiro universo social
estar preso a miudezas é a própria antítese de seu ser social. com propriedades definidas)* A palavra serve para conotar, ao mesmo tempo,
Talvez essas propriedades do gosto expliquem um dos grandes mistérios um campo de batalha e um campo de. força. No primeiro sentido, é um local
da persona
do arquiteto: a extraordinária falta de humor e a arrogância purita- de luta. Os indivíduos em um campo competem pelo controle dos recursos e
na observada nos grandes arquitetos. Dê uma lida nas biografias dos Mestres capitais específicos desse campo. Na arquitetura, por exemplo, os arquitetos
para ver se encontra um espírito brincalhão, extravagante e sem pretensões e competem pela posição de grandes criadores, uma forma de capital simbólico
você ficará desapontado. A partir de minha própria experiência, quanto mais sem valor algum, digamos, no campo da religião.
eminentes os arquitetos, mais consideram a si e às suas obras com solene No segundo sentido, um campo é um local no qual forças atuam sobre seus
formalidade. Um gracejo inocente sobre seu trabalho terá como resposta um membros c no qual cada membro exerce uma força proporcional à composição
olhar fulminante dos aristocratas mais frios ou um insulto dos mais e natureza do capital específico que controla naquele campo. A posição de um
temperamentais; porque atacar o gosto e o julgamento estético de uma pessoa indivíduo em um campo não pode ser definida em termos absolutos, mas so-
é atacar a pessoa como um todo, é atacar todo o seu capital cultural cormrificado. mente de modo relativo, relacional. O capital de um campo somente tem signi-
Criticar as obras de um Mestre é agredir o seu próprio ser. ficado naquele campo; portanto, seu valor depende do estado do todo e está
sujeito a desvalorizações ou reavaliações à medida que muda o estado do cam-
po. A história da arquitetura oferece exemplos excelentes. Após a Exposição
O campo da cultura Universal de Colombo, realizada em Chicago em 1893, o capital cultural repre-
sentado pelo conhecimento dos cânones da École des Beaux-Arts tornou-se
muito mais valorizado por arquitetos e seus benfeitores do que as idéias dos
Campos
progressistas nativistas americanos. A história do Movimento Moderno é preci-
samente a história das tentativas afinal vitoriosas da vanguarda dc desvalorizar
A arena na qual a competição entre as classes ocorre é aquela da cultura. completamente o capital beaux-arts em favor do seu próprio capital)9 Assim,
Bourdieu conceitua essa arena como um campo. a localização de um indivíduo altera-se à medida que sua posição é afetada pela
Venho usando apalavra "cam-
po" de modo um tanto solto para me referir à arquitetura e a outras áreas totalidade das linhas de força que operam no campo.
sociais; mas Bourdieu a emprega como um termo técnico específico. Conforme A estrutura da distribuição de capital entre indivíduos estrutura o campo, e,
sintetizado por um sociólogo, uni campo é um conjunto dc instituições sociais, desse modo, a posição de cada indivíduo depende das demais posições no cam-
indivíduos e discursos que se suportam mutuamente." A sociedade é com- po. Uma conseqüência interessante dessa maneira de examinar os campos é
posta por inúmeros campos que se sobrepõem: os campos da educação, da

18 P. Bourdieu, "Field of Power, Literary Field and Habitus", em P. Bourdieu, The Field of
17
Encontra-se uma boa discussão em D. Robbins, Cultural Production, ed. R. Johnson (Cambridge, GB: Polity Press, 1993), 161-175.
Society The Work of Pierre Bourdieu: Recognizing 19 D. Brian, "Discipline and Style: The École de Bcaux-Arts and thc Social Production of an
(Milton Kcynes, GB: Open University Press, 1991).
American Architecture", Theory and Society 18 (1989): 807-868.
que posições individuais não existem sem um campo para
nele existir. Este ou
aquele arquiteto em particular existe porque nós construímos um campo de posições e de acordo com os ditames de seu habitus. Harker et al. resumiu
arquitetônico. Criar um papel social e lhe dar um rótulo - "arquiteto" — é fazer as relações entre habitus, capital, campo e prática pela pseudo-equação abai-
existir, como por encanto, um determinado campo.2°
O exemplo da beaux-arts xo (reformulada como Ilustração 3.1):
esclarece uma característica muito importante
dos campos. Bourdieu considera os campos como ocupados por pessoas ten- (Habitus x Capital) + Campo = Prática22
tando maximizar suas formas de capital.
21 Nesse sentido, cada campo opera
de acordo com uma lógica economistica. Mas a competição pelo capital econô- Todas as práticas acontecem em algum campo. O habitus de um indivíduo
mico é muito direta, na medida em que o capital econômico é monolítico: dinhei- unifica todos os seus comportamentos, de tal modo que as práticas específicas
ro é dinheiro. Disputas por capitais simbólicos são mais complexas, uma vez que um agente desenvolve em um campo dependem não somente de sua posi-
que o valor do capital como um todo é estabelecido pelo campo e, sendo arbi- ção no campo, mas também de seu habitus. Suas chances de ganhar ou perder
trário, pode mudar ao longo do tempo. Assim, um indivíduo pode melhorar suas um determinado jogo dependem de algo além da quantidade de capital que
circunstâncias de duas maneiras: ou pelo aumento da quantidade total de capi- possui. Um indivíduo pode ser rico nas formas corretas de capital, porém pode
tal ou por sua revalorização. O declínio do prestígio dos grandes escritórios de
orientação descobrir que o sucesso em um campo lhe é negado porque seu habitus gera
beaux-arts
na comunidade arquitetônica americana, em fins do sé- práticas inadequadas. Esse é o destino de todos os arrivistas, daqueles que
culo XIX, ocorreu não por unia diminuição na quantidade do seu capital simbó- repentinamente conseguem, tarde na vida, os meios para ingressar em um campo
lico — representado pelo projeto de admiradas estruturas almejado e descobrem que — não tendo sido criados nesse jogo desde a mais
beaux-aras
pelo total colapso do valor daquele capital. As disputas no universo —, mas
simbólico, tenra idade — não têm uma sensibilidade natural para ele. Como a todo momen-
portanto, têm dupla face: maximizar o capital e mudar seu valor. As pessoas to seu habitus denuncia suas origens, descobrem uma velada rejeição, sem
competem para impor ao campo sua definição do que é simbolicamente valioso nunca compreender exatamente por que não são aceitos.
ou, na terminologia de Bourdieu, tentam impor um
princípio de dominação.
Campos e habitus

Outra maneira de examinar qualquer campo é vê-lo como um espaço social


no qual se joga um jogo. Falar em jogo não é banalizar ou depreciar o campo,
mas enfatizar certos aspectos de seu funcionamento. Joga-se sempre tendo
em vista as recompensas específicas do campo, as quais são irredutíveis àque-
las de outros campos. Para os de fora o jogo pode parecer sem im
porém aqueles que estão jogando também estão unidos por acreditareportância,
m no jogo
e nas vantagens pelas quais ele é jogado. Os jogadores não têm liberdade para Ilustração 3.1 Práticas acontecem em campos específicos.
jogar como queiram, e jogam de acordo com seu lugar no conjunto estruturado

Os filhos dos privilegiados podem se sair melhor do que os demais, mesmo


2"
P. 13ourdieu, "The Field of Cultural Production, or: The Economic quando contam com capitais menos institucionalizados, porque seu habitus os
(1983): 311-356; P. Bourdieu, World Reversed", Poetics 12
Sociology in Question, provê com uma sensibilidade intuitiva para o jogo que querem jogar — seu capi-
J. D. Wacquant, "Towards a Reflexivo Sociolo trad. R. Nice (Londres: Sage, 1993); e L.
Sociological Theoiy 7 (1989): 26-63. gy: A Workshop with Pierre Bourdieu",
21
Uma
para oboa discussão
livro sobre a acumulação de capital encontra-se na introdução de Thompsom
de Bourdieu,
Language and Symbolic Power, 1-23.
22 R. Harker, C. Mahar e C. Wilkes, ed., An Introduction to the Work of Pierre Bourdieu: Language
and Symbolic Power, 1-23.
94 Garry Stevens O círculo privilegiado 95

tal corporificado mais do que compensando outras falhas. Naquelas situações controle das recompensas materiais e simbólicas da sociedade. O campo
em que o recém-chegado precisa batalhar para entender todas as regras sociais cultural possui cinco funções específicas:25
sutis, disfarçadas e aceitas sem discussão que regem o jogo, o privilegiado
apenas segue sua própria disposição. Assim, enquanto o recém-chegado tem • Legitimar a cultura dominante.
de trabalhar para ser reconhecido, aqueles que estão imersos no jogo desde • Desvalorizar outras culturas.
jovens parecem ter um dom natural para jogar, alcançando sem esforço o topo, • Inibir a formação de culturas contrárias à legitimidade.
graças ao seu talento "natural".23 É por essa razão que o psicólogo D. W. • Integrar as classes dominantes.
MacKinnon descobriu que todos os seus grandes arquitetos vinham de famílias • Integrar (de modo fictício) a sociedade.
artísticas, mas não considerou tal fato significativo, preferindo suas complexas
explicações psicológicas a uma explicação social mais simples. Dentre essas funções, a principal é a legitimação da cultura dominante.
Os privilegiados não apenas jogam melhor, como também conhecem O campo cultural é responsável pela valorização daqueles bens c práticas sim-
melhor as vantagens específicas pelas quais vale a pena jogar. Eles tornam bólicos favorecidos pelos dominantes, convencendo-nos de que, no contexto
decisões mais sábias ao investir seus capitais simbólicos e econômicos, fa- arquitetônico, uma casa projetada por um arquiteto é culturalmente superior a
zendo avaliações melhores dos riscos envolvidos e das prováveis taxas de uma casa dc algum empreendimento imobiliário. Antes que o leitor discorde,
lucro. O aspirante esperançoso, oriundo da classe errada, angustia-se para alegando que de fato tal é o caso, que não é necessário passar por urna lava-
tomar decisões sobre sua carreira e faz a escolha segura e de bom-senso. gem cerebral feita por algum tipo de conspiração cultural, porque os arquitetos
Aqueles que nasceram para o jogo simplesmente terminam com o emprego realmente desenham casas melhores, eu lhe pediria que se lembrasse dos
certo, na firma certa e fazendo o tipo certo de trabalho. Mais ainda, as famí- vários exemplos de edifícios muito elogiados, projetados pelos mais eminentes
lias das classes mais baixas tendem a investir seu capital social em urna gama arquitetos da história recente, que são detestados por seus usuários,26
restrita de ocupações, enquanto aquelas das classes mais altas investem em O processo age nos dois sentidos, entre o produtor cultural e o consumidor
uma variedade de campos (finanças e medicina e arquitetura e política), pro- cultural. O arquiteto lucra mais projetando edifícios de bom gosto para pessoas
tegendo-se desse modo, caso um dos campos se desvalorize. 24 de bom gosto e, ao mesmo tempo, demonstra seu próprio refinamento pela
seleção de um cliente refinado, assim corno, por seu lado, o cliente demonstra
seu refinamento ao selecionar um arquiteto refinado. Alberti já sabia muito bem
Funções do campo da cultura disso há quinhentos anos:

A cultura é o campo no qual são travadas as batalhas simbólicas da Existe algo que não devo omitir aqui, algo que está pessoalmente relacionado
sociedade. Sua função geral é reforçar o sistema de classes existente por com o arquiteto. Isto é, que você não deve sair correndo para oferecer seus
meio da criação de barreiras — sub-reptícias e implícitas — ao acesso às clas- serviços a qualquer um que dê a entender que vai construir; urna falha da qual
ses mais elevadas, desse modo permitindo que tais classes mantenham o os descorteses e vaidosos são bem capazes de ser culpados... Por que eu
deveria oferecer essas invenções que me custaram tantos estudos e esforços
para talvez não ganhar outra recompensa além da confiança de urnas poucas
pessoas sem gosto e habilidade?
2
' P. Bourdieu, "A Reply to Some Objections", em P. Bourdieu, In ...Eu preferia que você, se possível, apenas se preocupasse com pessoas
Other Words: Essays Towards
a Reflexive Sociology, trad. M. Adamson (Stanford: Stanford University da mais alta posição e qualidade, e também com aquelas que são verdadeira-
Press, 1990), 106-
] 19.
24
Os "valores de familia" que tantas vezes aparecem na retórica política podem ser considerados
como outro meio pelo qual as classes mais altas cooptam as classes mais baixas para ajudá-las
a manter sua dominação, uma vez que o capital social acumulado na familia de classe alta é 25 Adaptado dc P. I3ourdieu, "The Market of Symbolic Goods", Poesias 14 (1985): 13-14, e
imensamente maior do que naquela de classe baixa. Ver também T. Moi, "Appropriating Bourdieu, Language and Symbolic Power.
Bourdieu: Feminist Theory e Pierre Bourdieu Sociology of Culture", New Literary History 26 Pode-se encontrar exemplos em Architects' People, ed. R. Ellis e D. Cuff (Nova York: Oxford
(1991): 1017-1049. 22
University Press, 1989).
96 Garry Stevens O círculo privilegiado 97

mente apreciadoras dessas artes: porque seu trabalho perde sua dignidade tipo de mecanismo de fechamento social para proteger seus privilégios. Na
ao ser feito para pessoas medíocres."
sociedade contemporânea, um dos principais mecanismos é proporcionado pelo
Vinculada à função de legitimação está sua contrapartida, aquela da desva- -41 sistema educacional, o qual certifica formalmente determinados indivíduos como
competentes para ingressar em determinadas ocupações. Porém muitos gru-
lorização de outras culturas. Revelo minha vulgaridade ao pendurar um retrato de
Elvis Presley em uma parede e meu cultivo ao pendurar urna pintura abstrata pos, em especial aqueles privilegiados, exigem não somente essa forma
de algum artista local emergente que acaba de realizar sua primeira exposição. institucionalizada como também outras formas — tácitas — de capital cultural.
O campo cultural também funciona para prevenir a formação de Apesar de ausentes da descrição formal da ocupação, essas exigências implí-
contraculturas. Estas devem ser diferenciadas de movimentos heterodoxos citas e não ditas são tão necessárias quanto o diploma para garantir o ingresso
de vanguarda no interior do campo. Tais movimentos são produto de disputas em um grupo."
internas e não fazem nada que possa ameaçar a legitimidade da cultura como Qualquer pessoa que tenha sofrido alguma forma de discriminação — por
um todo. Eles serão discutidos mais adiante neste capítulo. Contralegitimações idade, sexo ou origem ética — está bem consciente de que o fracasso não é
nascentes podem ser encontradas em sociedades assoladas por fissuras sociais necessariamente o fracasso em saber algo, mas o fracasso em ser algo.
profundas, como a África do Sul, onde a parcela subjugada não-branca possui Mais sutil e mais poderosa é a discriminação que não é reconhecida como tal
seus próprios sistemas simbólicos e, após muitos anos, uma oportunidade de por ninguém — porque praticada por todos — na qual o sucesso é negado porque
legitimá-los e derrubar a cultura branca outrora dominante. As verdadeiras ao se tem o espírito de equipe, o sentimento visceral de pertencer, de estar
contralegitimações têm uma oportunidade de se formar somente quando a clas- ajustado, de ser "um de nós". Não há maior empecilho para o sucesso do que
se dominante entra em algum tipo de crise. não conseguir obter todas as exigências implícitas demandadas para uma ocu-
A integração das classes dominantes é alcançada Pela criação de urna pação, barreira essa ainda mais inexpugnável porque ninguém a enxerga.
cultura comum. Ao se concordar quanto aos símbolos que são importantes e O operário da construção que bebe vinhos finos em vez de cerveja, que prefere
quanto aos que não são, facilita-se a comunicação entre seus membros. Ao se música clássica a bandas de rock e passa o intervalo de almoço lendo filosofia
apresentar essa cultura como propriedade universal da sociedade corno um francesa vai achar difícil a vida no canteiro de obras, pelas mesmas razões que
todo, quando é de fato tão-somente a propriedade dos dominantes, ficticiamen- tais qualidades servem para sutilmente realçar o prestígio de um arquiteto. Di-
te se une o todo em um movimento para apoiar o dominante. Ao se fazer de zer que alguém é um arquiteto não é dizer apenas que possui um certo tipo de
conta que não há divisão, mantém-se mais efetivamente a divisão — afinal so- diploma ou que pode projetar edificios, é dizer que possui um determinado con-
mos todos da classe média, não é verdade? junto de atitudes, gostos e disposições, todos formas de capital cultural que
distinguem um arquiteto de um mero construtor.
Em qualquer ocupação privilegiada, percebe-se que seus membros possuem
Assegurando o fechamento por meio da cultura
muito mais em comum do que o que é explicitamente exigido. Qualquer profes-
401N, sor experiente sabe distinguir uma sala de aula cheia de estudantes de enge-
É uma banalidade afirmar que classes diferentes possuem gostos e estilos
nharia de uma de estudantes de arquitetura, assim como qualquer profissional
de vida diferentes. A novidade de Bourdieu está em investigar corno essas
do ramo sabe distinguir uma festa de Natal de uma empresa de engenharia de
diferenças entre as classes funcionam para manter a desigualdade.28 Grande
urna de arquitetura. O sucesso não depende simplesmente de uma inteligência
parte de sua obra busca mostrar como gosto e cultura são usados por grupos
moderada, nem de habilidades específicas, nem de experiência, nem das cre-
para se definir e se unir, para prevenir a intromissão de indivíduos de fora e
denciais adequadas. Depende também de se possuir todas as exigências não
para maximizar a homogeneidade. Todos os grupos coesos empregam algum
reveladas que — conquanto nunca apareçam em alguma descrição formal do
serviço — são a base do real valor social da atividade. Desse modo, o real
27 L. B. Alberti, Ten Books on Architecture (Londres: Alec Tiranti, 1955), 207.
" J. Frow, "Accounting for Tastes: Some Problems in Bourdieu's Sociology of Culture", Cultural
,S'tudies 1, no 1 (1987): 59-73.
2') Ver Bourdieu, Distinction.
98. Garry Stevens O círculo privilegiado 99

propósito de se obter um diploma de Harvard ou Oxford, por exemplo, não é Examinando agora a estrutura interna do campo, o grande divisor está
demonstrar que se começou com urna educação superior, mas que se possui o entre aqueles que produzem bens simbólicos para consumo de massa por todas
capital social e econômico necessário para ingressar nessas instituições. as classes e aqueles que produzem apenas para a cultura dominante (Ilustra-
ção 3.2). No primeiro caso, no Campo da Produção de Massa (CPM), a cultu-
71 ra é uma mercadoria transmitida pela televisão e demais mídias ou vendida em
Esquema da estrutura do campo
lojas de departamento. O mercado é o público. Nos termos de Bourdieu, o
princípio dominante de estratificação — o sistema pelo qual o campo mede
Por trás da dinâmica interna do campo da cultura há um conjunto de ten- o sucesso, pelo qual hierarquiza seus membros — é primordialmente econômico.
sões estruturais. A primeira surge da relação dos produtores culturais com as No segundo caso, no Campo da Produção Restrita (CPR), o sucesso certa-
1
outras classes. O campo cultural é o local de uma dupla hierarquia, no sentido mente não significa sucesso econômico, mas sim intelectual, estético.
de que seus membros fazem parte da classe dominante, possuindo quantidades
significativas de capital cultural, mas são também a fração subordinada daque-
la classe, não tendo as imensas quantidades de capital econômico que possui a Campo da cultura
fração dominante.3° Essa ambigüidade cultural coloca os produtores culturais
em uma relação ambivalente com ambas as classes, a dominante e a subordi- ampo da Produção Restrita (CPR)
nada. Sendo urna fração subordinada de sua própria classe, os produtores cul- Produtores dominantes
turais estão engajados em uma permanente luta com os economicamente do- Vanguardas

autonomia crescente
minantes quanto ao valor relativo dos bens simbólicos em relação aos bens
econômicos e quanto às respectivas taxas de conversão.3 ' A produção cultural
Produtores subordinados
é essencial para os dominantes, porque é o meio pelo qual governam sem grandes
dificuldades. A cultura deve, portanto, possuir algum valor significativo. Mas não
um valor excessivo, porque senão ameaçaria a primazia do capital econômico.
Por essa razão, a fração dominante da classe dominante deve encontrar um
meio-termo entre a supervalorização e a subvalorização dos produtos do campo
da cultura, resistindo aos esforços naturais dos membros deste campo para Campo da Produção de Massa (CPmj
supervalorizar os bens simbólicos.
Como membros da classe dominante, os produtores culturais estão pre-
destinados a assegurar sua distinção em relação aos subordinados por meio de
sua própria produção simbólica. Porém isso não significa que estejam sempre
aliados à fração dominante de sua própria classe contra as classes subordina-
das. Em tempos de crise, os produtores podem colocar seus serviços à disposi- produz Fração dominante produz
para da classe para
ção da classe subordinada. Tal aliança está fundamentada no que Bourdieu dominante
chama de homologia de posição entre os produtores culturais — subordinados
em suas próprias classes — e aqueles subordinados no campo das relações de
classe como um todo.32 Fração subordinada
Classe da classe
w
subordinada dominante

3° P. Bourdieu, "Thinking About Limits",


Theory, Culture and Society 9, n2 I (1992): 37-49. — Cultural +
r' ' Ver N. Cambam e R. Williams, "Pierre Bourdieu and The Sociology of Culture: An Introduction",
i. Media, Culture and Society: A Criticai Reader, ed. R. Collins et ai.
(Londres: Sage, 1986), 116-130. Ilustração 3.2 Estrutura do campo da cultura e sua relação com o campo das relações de
3' P. Bourdieu, "The lntellectual Field: A World Apart", em Bourdieu, In Other Words,
123-139. classe.
100 Ga rry Stevens O círculo privilegiado 101

No interior do próprio campo da produção restrita, há um segundo divisor, Estrutura básica


aquele existente entre os membros já estabelecidos, que dominam o campo, e
os recém-chegados, que estão tentando alcançar o topo.33 Essas duas oposi- A clivagem básica entre os dois subcampos — de massa e restrito — fica
ções no interior do campo são responsáveis por sua dinâmica mais importante. evidente se comparamos a habitação-padrão produzida em massa com a ha-
Uma vez que a descrição dos complicados processos que ocorrem é mais fácil bitação projetada por um arquiteto. Podemos começar pela observação ime-
de ser feita por meio de exemplos, continuarei minha exposição do modelo de diata que a primeira é chamada de "lar" e a última de "casa" (ao menos em
Bourdieu para o campo cultural, até aqui empregado apenas de forma elíptica à meu próprio país, a Austrália).* Tipicamente, o lar destina-se à venda para
arquitetura, aplicando-o mais diretamente a esta área. casais jovens com filhos pequenos. O próprio nome já denota que uma família
está comprando um lugar para morar, não apenas um objeto, enquanto casa
(arquitetada) dá ênfase à natureza reificada da edificação, rejeitando explici-
O campo da arquitetura tamente qualquer conotação de que pessoas irão habitá-las. O lar, ainda que
possa ter sido projetado por um arquiteto, está destinado a ser reproduzido
Uma conseqüência importante do exame da arquitetura como um campo várias vezes, enquanto a casa se destina a ser única — sua maior atração está
é a eliminação da noção de que se referir à arquitetura como uma arte, ciên- no fato de ser única. Uma habitação popular é um sucesso, caso seja vendida
cia ou profissão tenha alguma utilidade. Esses são conceitos simplesmente pelo preço correto (do ponto de vista de ambos, o comprador e o vendedor).
1
inadequados para se aplicar a uma entidade tão complexa. A idéia de "cam- Isso implica que o critério básico do sucesso é econômico, uma vez que o
po" nos sensibiliza para o fato de que os arquitetos são apenas uma parte de construtor- padrão de habitações constrói para satisfazer as demandas de
um sistema social muito mais amplo. Nas descrições sociológicas corriquei- mercado geradas por um público consumidor. O construtor que não consegue
ras, considera-se que as forças sociais atuam diretamente na profissão. Corno satisfazer as expectativas do cliente vai à falência. As casas arquitetadas são
ressalta Abbott, não é assim que ocorre. As forças sociais incidem no campo um êxito em termos estéticos, não econômicos.35
Entre os dois campos podemos distinguir todo um conjunto de oposições
como um todo, e o campo como um todo age como mediador entre tais forças
e seus próprios componentes.34 estruturadas:

• Mercado de massa, produção em larga escala versus objetos únicos.


• Projetistas anônimos versus arquitetos de renome.
• Clientes com recursos médios versus clientes ricos.
• Critérios econômicos e funcionais versus critérios estéticos e simbólicos.
• Produção para satisfazer demandas econômicas de consumidores exter-
33
A confirmação empírica dessa descrição da estrutura de um campo cultural vem, por exemplo,
nos ao campo versus produção estética para satisfazer demandas simbó-
da literatura. Ver H. K. Anheier e J. Gerhards, "Literary Myths and Social Structure", Social
Forces 69, nu 3 (1991): 811-830; H. K. Anheier e J. Gerhards, "The Acknowledgement of licas de consumidores no interior do campo.
Literary Influence: A Structural Analysis of a German Literary Network", Sociological Forum • Funções sociais explícitas versus objetificação não-social.
6, n11 (1991): 137-156; H. K. Anheier, J. Gerhards e F. P. Romo, "Forms of Capital and Social
Structure in Cultural Fields", American Journal of Sociology 100, 111
4 (1995): 859-903; e J.
Gerhards e H. K. Anheier, "The Literary Field: An Empirical Investigation of Bourdieu's
Soei ology of Art", International Sociology 4, n1 2 (1989): 131-146.
34 Um aspecto também levantado por A. Abbott,
The System of Professions: An Essay on The
Division of Expert Labor (Chicago: University of Chicago Press, 1988). Devemos questionar
• No original são empregados os termos honre e house, respectivamente (N. do R.T.).
aquelas análises que estabelecem uma conexão direta entre edifício e estrutura social, relacio- Outro exemplo da dicotomia: dois amigos meus possuem qualificações idênticas c, no momen-
35
nando a produção do obras arquitetônicas diretamente com as origens sociais de seus criadores to, fazem trabalhos idênticos, precisamente coordenação de locação. Um trabalha para uma
ou mesmos de seus clientes. Ver também R. Johnson, "Pierre Bourdieu on Arts, Literature and grande construtora, o outro para uma grande firma de arquitetura. Um recebe exatamente duas
Culture", em Bourdieu, The Field of Cultural production, 1-25.
vezes mais que o outro. Adivinhe quem?
102 Garry Stevens G círculo privilegiado 103

EM/

burocráticos (exames, conselhos de registro) que o próprio campo inventou. Tais


Os arquitetos projetam para satisfazerem a si mesmos mecanismos podem conceder o título a alguns a quem o campo quer excluir e
excluir alguns a quem gostaria de incorporar. Hoje em dia, nas nações de língua
inglesa, Buckminster Fuller não poderia legalmente se denominar arquiteto.
Uma habitação popular deve satisfazer ao cliente. Uma casa conce- O campo da arquitetura, também historicamente, tem se inclinado a excluir
bida por arquiteto, não como mostram essas histórias de coberturas com de seu discurso não somente os projetistas de edifícios produzidos em massa,
goteiras:
mas muitas vezes os edifícios para as massas, tais como estruturas de trans-
porte (estações ferroviárias), fábricas, cinemas, shoppings e depósitos. Estes
Alguns dias depois que a Arnilia Savoie havia se mudado para
são, em geral, incluídos no cânone apenas quando projetados por indivíduos que
sua _famosa casa, a cobertura da sala de estar começou a apresentar
já haviam atuado no campo da produção restrita — arquitetos propriamente — ou
vazamentos. Eles ficaram muito aborrecidos e imediatamente chama-
ram Le Corbusier. aqueles que, posteriormente, vieram nele ingressar.
À medida que mudam a natureza e os valores do capital simbólico no interior
Quando este chegou, foi imediatamente levado para inspecio-
do campo, não apenas o campo se reestrutura, como também mudam suas fron-
nar os danos e sugerir uma solução. Ele ficou, por alguns segundos,
teiras. Algumas das lutas mais importantes no interior dos campos são sobre sua
observando fixamente a água e então olhou para o teto e, novamente,
para a água. Finalmente, virou-se para os Savoie e pediu uma folha própria definição, sobre quem tem o direito de ser considerado seu membro, de
de papel. O Sr. Savoie voltou em um minuto com urna folha de papel em ser ouvido." Isto é arquitetura ou seria uma construção? Quando, por exemplo,
branco. Entregou-a para Le Corbusier. Corbu a colocou em uma mesa o campo contemporâneo da arquitetura incorporou Buckminster Fuller como ar-
próxima, dobrou-a cuidadosamente e fez um barco de papel. quiteto, mudou sua própria natureza, uma vez que a incorporação de um indivíduo
Caminhou até o centro da sala, inclinou-se e pôs o barco dentro de origens tão pouco comuns introduziu um novo conjunto de capitais no campo e
d'água, disse au revoir e foi embora. alterou as linhas de forças sociais existentes entre todos os membros.
Podemos nos referir, portanto, aos dois componentes daquilo que chamaría-
Um cliente de Frank Lloyd uma vez o chamou para lhe dizer que
o telhado de sua sala de estar estava com goteiras. "O telhado tem mos de modo vago de campo do meio ambiente construído como, talvez, o
uma goteira sobre minha cabeça, logo acima da minha poltrona, o campo da construção — preocupado com a produção de massa — e o campo da
que devo fazer?" Wright respondeu: "Mude a cadeira de lugar". arquitetura propriamente — preocupado com a produção restrita?' O sociólogo
Robert Gutman percebeu a diferença quando cunhou a expressão "mercado
A. C. Antoniades, "Architecture from Inside Lens (sie)", Architecture natural" para a arquitetura:
+ Urbanism, julho de 1979, 8 , 17.
Raro é o edifício não projetado por um arquiteto que represente os valores
supremos de urna civilização. Isto tem sido verdade para templos, palácios,
bibliotecas e prefeituras na Grécia, em Roma e na Europa do período da Re-
nascença; e, mais recentemente, para museus, universidades, edifícios go-
Historicamente, os arquitetos têm tido muito pouco envolvimento com o
vernamentais e sedes de corporações. O projeto dos grandes edifícios monu-
mercado de massa. Um dos motivos é simplesmente de definição: o discurso
mentais de projeção é o único domínio da arquitetura, seu "mercado natural".
do campo é tal que tem evitado rotular como "arquiteto" aqueles projetistas de Nenhuma outra profissão foi capaz de concorrer efetivamente neste mercado,
edifícios atuantes no mercado de massa. Chame-os de desenhistas, de empre- seja no passado ou seja nos dias de hoje."

SI
endedores imobiliários, de projetistas, de engenheiros — mas não de arquitetos.
Dessa maneira, o campo realiza uma de suas funções primordiais, aquela de
decidir quem é seu membro. Uma das conseqüências irônicas do uso crescente 36 Ver Bourdieu, "The Field of Cultural Production".
de qualificações formais e de licenciamentos, o qual produziu pessoas que têm 37 R. Gutman, "Architects in the Home-Building Industry", Professional and Urban Form, ed.
direito por lei ao título de "arquiteto", é de enfraquecer a autoridade do campo J. S. Blau, M. La Goiy e J. S. Pipkin (Albany: State University ofNew York Press, 1983), 208-223.
para nomear e rotular. O campo é, atualmente, obrigado a honrar os mecanismos 38 R. Gutman, "Architects and Power: The Natural Market for Architecture", Progressive

Architecture, dezembro de 1992, 40.


104 Garry Stevens O círculo privilegiado 105

Sua observação é válida, apesar de que, em minha opinião, ele tenha inver- unifamiliares (construídas para pessoas de gosto) e estruturas institucionais
tido o vínculo causal. Os arquitetos são as únicas pessoas que projetam edifícios (construídas para centros de poder) do que a indústria da construção em geral.
de grande importância, porque o discurso arquitetônico define os projetistas
Edifícios comerciais são particularmente ignorados pelo campo.
desses edifícios como arquitetos. Podemos citar rapidamente, como exemplos, Um exemplo menor mas ilustrativo deste fenômeno é apresentado pelas
Christopher Wren, Thomas Jefferson e Buckminster Fuller, todos com inúme- associações profissionais das nações da Comunidade Britânica. Em muitos destes
ras realizações em outros campos e cujas obras construídas impressionaram de países, o adjetivo "Real" pode ser usado, com a permissão da Rainha, em um
tal modo o campo que se tornou impossível chamá-los simplesmente de "cien-
nome institucional, como por exemplo a Royal Canadian Mounted Police. Esse
tista", "político" ou "inventor". Mesmo assim, Gutman acertou no alvo com sua acréscimo não tem outra função que não aquela de sugerir uma certa solidez
caracterização do campo arquitetônico da produção restrita. Para reformulá-la conservadora e um leve esnobismo. No Reino Unido, na Austrália, no Canadá
no esquema conceitual bourdiano, bem menos cortês, o campo arquitetônico
e na Nova Zelândia, todas as associações profissionais de arquitetura solicita-
é responsável pela produção daquelas partes do meio ambiente construído
ram e receberam o direito de usar a palavra, corno o Royal Architectural Institute
que as classes dominantes usam para justificar seu domínio da ordem
social. Edifícios do poder, edifícios do Estado, edifícios de reverência, edifícios of Canada. Mas nesses mesmos países, nenhuma das entidades equivalentes
para respeitar e impressionar. que representam a profissão irmã da engenharia civil se incomodou, deixando-
nos, por exemplo, com a Canadian Society for Civil Engineers.
A Tabela 3.3 mostra os tipos de edifícios considerados como "arquitetura",
Deve-se enfatizar que essa função essencial de justificar a dominação do
comparados com a atual composição do trabalho das firmas arquitetônicas
dominante se mantém sem que arquitetos ou clientes estejam conscientes dela.
americanas em 1982. Para o conteúdo do campo restrito, utilizei uma lista de
edifícios que compilei da Macmillan Encyclopedia of Architects (MEA)." Na verdade, a arquitetura é capaz de desempenhar tal função apenas se as
pessoas não estiverem conscientes dela, apenas se for erroneamente reconhe-
A ilustração mostra que o campo restrito está mais preocupado com moradias
cida corno um esforço puramente estético. Os arquitetos acreditam — têm de
acreditar — que seus projetos ocorrem em um universo estético, que são indife-
rentes aos jogos que se realizam no campo do poder, que apenas questões
Obras dos
arquitetos do Obras de firmas artísticas estão em jogo.4° Porém, justamente por agirem de tal modo, os arqui-
• MEA americanas tetos produzem mais eficazmente os símbolos que os dominantes empregam
Institucional (governo, religiosq educacional) 40 para preservar seu lugar no topo da ordem social. Afinal, o que são os "valores
27
Residência' unifamiliar supremos da civilização" mencionados por Gutman senão aqueles aspectos da
32 5
Outros cultura, do mundo simbólico, produzidos por aqueles que dominam? Frank Lloyd
10 7 Wright pôde melhor perseguir seu sonho de uma arquitetura orgânica, total-
Comercial 9 44 mente americana, projetando casas para o mesmo tipo de homens de negócios
Transportes 4 3 conservadores, republicanos, de classe alta que haviam sido os clientes prece-
Residencial coletiva 3 9 dentes daqueles a quem mais odiava, ou seja, os arquitetos que haviam aderido
Industrial 2 5 ao ecletismo beaux-arts; ao mesmo tempo, estava convencido de que estava
engajado a serviço da Arquitetura, sem se dar conta de que, ao melhor servir
Tabela 3.3 Comparação dos tipos de edifícios que o campo considera importante de ser
seus próprios interesses, ele também servia melhor aos interesses dos "me-
lembrados, em comparação com obras que os arquitetos americanos de fato fazem.
(Fonte: dados da MEA compilados pelos autor; dados sobre os EUA, R. Gutman, lhores".41
Architectural Practice: A Criticai View [Princeton Architectural Press, 1988].)

4 ° P. Bourdicu, "Outl i ne of a Sociological Theory of Art Perception", International Social Science


Journal 20 (1968): 589-612.
39 A. Placzek, ed., Macmillan Encyclopedia of Architects, 4 v. (Nova York: Macmillan, 1982). Al Ver L. K. Eaton, Two Chicago Architects and Their Clients (Cambridge: MIT Press, 1969).
Formas de capital 107

arquitetos competem pelo sucesso material ou econômico e pelo poder profis-


Inúmeros problemas foram criados para a atividade arquitetônica pela con- sional. O segundo é o prestígio ou status intelectual, no qual os arquitetos com-
fusão dos dois campos (restrito e de massa) e pelo pressuposto
de que consti- petem para ser reconhecidos como grandes criadores ou pensadores. Este status
tuem uma unidade. Não apenas estes dois campos não são uma entidade social
ou capital simbólico é bem específico da arquitetura, uma vez que é, nada mais
única, também seus vínculos são frágeis. O subcampo de massa tem uma atitu-
e nada menos, do que o gênio arquitetônico. O prestígio intelectual que arquite-
de interesseira em relação ao subcampo restrito, uma vez que este último é o
tos como Peter Eisenman ou Michael Graves possuem no interior do campo a
produtor das formas arquitetônicas legítimas, mas toma suas soluções de se-
gunda mão e tem de suportar ser ridicularizado pela que pertencem pode ser reconhecido fora do próprio campo quando, por exem-
intelligentsia plo, são mencionados em artigos no New York Times, mas não chegam a ter a
forma sem compreender o significado. Por outro lado, o subcampopor imitaràsa
restrito
vezes examina seu parente subordinado, porém apenas para dar uma dimensão mesma importância para os leitores daquele jornal que têm para os arquitetos
estética ao que encontra. Foi assim que americanos. A questão é que cada campo possui uma forma específica de
Learning from Las Vegas, capital, e, à medida que se acumula aquela forma de capital, conquista-se o
Venturi, em vez de criar — como pretendia — uma atitude de respeito de
peloRobert
cam-
po da produção de massa, acabou por gerar um pós sucesso naquele campo.
-modernismo da paródia,
sobrecarregado por códigos que apenas os membros do campo poderiam O capital não é possuído somente por arquitetos individuais, nem mesmo
apreciar.
somente por indivíduos. Críticos, comentaristas, escritórios, escolas, revistas,
As dinâmicas
resultando internas dos dois campos são muito diferentes, cada editoras, museus e galerias também possuem quantidades variadas de capital.
de
respectiva estrutura e dos diferentes capitais ativos emurna
sua identificar seu Cada urna das duas formas de capital gera seu próprio sistema de estratificação,
interior. Podemos imediatamente duas formas por meio do qual todos podem ser hierarquizados segundo as quantidades de
(Ilustração 3.3). O primeiro é o de capital ou poder
status capital que possuem. Observe-se que esses dois sistemas de estratificação
profissional ou temporal, no qual os
diferem muito daqueles empregados correntemente para classificar arquitetos
e escritórios. Basta lembrar que urna sociologia convencional da arquitetura
corno profissão hierarquiza somente os escritórios, ignorando todos os demais
componentes do campo — e os hierarquiza apenas pelo tipo de trabalho que
Profissionalmente
realizam ou por seu tamanho ou por seus dividendos e não segundo quaisquer
dos critérios aqui definidos.
Poderoso
o
As duas formas de capital — intelectual e temporal — são bem diferentes e
independentes entre si no caso do campo arquitetônico anglófono. Um arquite-
E to pode se tornar o presidente de sua associação nacional ou fazer parte de
O)
o comissões governamentais ou fundar uma firma grande e lucrativa, acumulan-
a
o do assim um vasto capital temporal, sem adquirir o menor capital intelectual.
o
Em seu estudo sobre o processo de aquisição de fama na arquitetura america-
Subordinados
na, Roxanne Williamson registra que, após 1910, os ganhadores da Medalha de
Vanguarda
consagrada Ouro do American Institute ofArchitects nunca foram profissionais importan-
tes. Ela ressalta que as firmas maiores, mais ricas e com o maior volume de
negócios raramente eram lembradas para além de suas próprias gerações.42
- Capital intelectual +
Magali Sarfati Larson faz urna observação semelhante:
Ilustração 3.3 As formas de
capital no campo arquitetônico, defluindo seu espaço
42 R. K. Williamson, American Architects and the Mechanics of Fame
(Austin: University of
Texas Press, 1991), p. 13.
108 Garry Stevens
O círculo privilegiado 109

As grandes firmas arquitetônicas (...) são conhecidas, procuradas e regia-


mente pagas para fornecer (...) serviço eficiente em projetos grandes e caros.
O capital simbólico ou intelectual da arquitetura é, como em outros campos
Do ponto de vista prático profissional, essas firmas oferecem aos clientes da cultura, definido principalmente de forma negativa: pelo fato de que não é
garantias incomparáveis de competência, eficiência, confiabilidade e apoio econômico ou temporal. Este não é apenas um conceito bourdiano, mas uma
técnico. Para os arquitetos que empregam, oferecem a perspectiva de um noção amplamente difundida no próprio campo. Por exemplo, os arquitetos
avanço regular na carreira. No entanto, o renome público, a aura da arquitetu- freqüentemente assumem que existe de fato uma oposição entre os dois capi-
ra corno arte e as aspirações de um criador à imortalidade raramente estão — se tais: é possível ser bom ou ser rico, mas é muito difícil ser os dois." A socióloga
é que alguma vez estiveram —vinculados ao modelo empresarial racionalizado Dana Cuff registra muitos casos de arquitetos que dizem que as firmas grandes
da prática profissional.43
21, (por conseguinte, ricas) não conseguem realizar projetos de alta qualidade."
O pior insulto que se pode fazer a um arquiteto é acusá-lo de ser "vendido", de
Pelo inverso, basta lembrar que Frank Lloyd Wright nunca desejou ou al-
comprometer sua integridade artística — a qual é, obviamente, o seu capital
cançou qualquer posição profissional, apesar de ter sido, em seus últimos anos,
simbólico. Nada é mais vulgar do que o mero dinheiro c nenhuma consideração
honrado e prestigiado por todos aqueles que ocupavam os cargos mais eleva-
menos relevante para o sucesso estético de um edifício do que seu custo.
dos do poder profissional. Sem dúvida, em todos os países as associações pro-
O bom gosto não pode ser comprado, e a tentativa de comprá-lo é precisamen-
fissionais são alternativas para as firmas mais ricas c poderosas na obtenção
te urna demonstração de falta de gosto. A dedicação ao capital simbólico
de capital temporal. Seu relacionamento com aqueles que possuem capital inte-
lectual elevado é sempre difícil, uma vez que os Mestres consideram imperti- implica uma negação do econômico. Não é, portanto, nenhuma surpresa que
nente a pretensão das associações de julgar o que elas mesmas não possuem — os grandes arquitetos de MacKinnon fossem tão diferentes, psicologicamente,
corno testemunha a aceitação indelicada de Wright da Medalha de Ouro da dos arquitetos medianos quanto à sua desaprovação dos valores econômicos.
AIA. Seu relacionamento com os subordinados no campo — os empregados A aversão pelo vulgar dinheiro caminha de mãos dadas com a pretensão estética.
que trabalham com mouse e régua T — também é ambivalente. As associações
têm sempre de se esforçar para disfarçar sua falta de entusiasmo no que se
refere a reivindicações por salários razoáveis e a condições de trabalho decen- Em busca da autonomia
tes e sua oposição à criação de associações separadas para os assalariados,
neste último caso alegando que isto seria pouco profissional e contra os interes- O campo da produção de massa (construção) é dirigido por demandas de
ses da atividade. mercado sobre as quais não possui controle. Na terminologia de Bourdieu, esse
O peso relativo atribuído às formas de capital temporal e intelectual depen- campo possui pouca autonomia em relação a outros campos sociais, razão pela
de da estrutura do campo. Urna das diferenças entre os campos da produção qual ele se refere ao princípio de hierarquização que opera no campo de massa
de massa e da produção restrita é que o capital temporal (ou econômico) é o (o princípio econômico ou temporal) como o "princípio heterônimo de
mais importante para os produtores no primeiro campo. O sucesso no campo estratificação". Umas das principais diferenças entre campos sociais está em
da produção de massa significa sucesso econômico, pela venda de produtos sua autonomia, no grau em que podem operar independentemente das deman-
que os consumidores querem comprar. Sem dúvida, há um orgulho profissional das de outros setores sociais." Um campo heterônimo, como o da construção,
em se criar um bom projeto de habitação popular, e os prêmios para projetos é dependente da saúde da economia, dos desejos do Estado e das exigências
nessa categoria são cobiçados, mas o lema do campo é oferecer valor pelo
dinheiro: projetos de alta qualidade por um preço acessível. E quase todos os
escritórios e indivíduos em seu interior estão estratificados de acordo com a
" M. S. Larson, "Architectural Competitions as Discursive Events", Theoty and Society 23
quantidade de capital econômico que acumulam e, por extensão, de acordo (1994): 469-504
com seu sucesso material, econômico. '1 ' D. Cuff, Architecture: The Story of Practice (Cambridge: MIT Press, 1991).
" Bourdieu não é totalmente consistente no que exatamente a autonomia de um campo o torna
autônomo, dando duas respostas possíveis: ou das demandas específicas da classe dominante
" M. S. Larson, Behind the Postmodern Facade (Berkeley: University of California Press, ou das operações no campo social como um todo. Ver S. Lash, "Pierre Bourdieu: Cultural
1993), p. 8. Economy and Social Change", Bourdieu: Criticai Perspectives, ed. Calhoun, LiPuma e Postone,
193-2 1 1 .
110 Garry Stevens O circulo privilegiado 111

dos consumidores. Quanto mais autônomo um campo, mais pode fazer corno Bourdieu cita as ciências puras como os campos mais autônomos, porque
quiser e mais seus produtos são criados para satisfazer suas próprias exigências, produzem ciência para seus próprios membros, os quais são os únicos que têm
não aquelas de algum mercado exógeno. o direito de julgar a qualidade de seus "produtos". A autonomia é medida pela
habilidade com que um campo translada pressões externas para a sua própria
lógica. Assim, quando as ciências puras reagem a demandas urgentes que lhes
A aversão pelo dinheiro vulgar são feitas, por exemplo, quanto a armas nucleares, a uma vacina contra a Aids,
a urna cura do câncer, a melhores métodos para descobrir depósitos de petró-
Nada caracteriza mais aqueles que possuem capital intelectual do leo, essas atividades eminentemente práticas são transmudadas pelo campo
que uma aversão pela vulgaridade de um estilo de vida materialista. Por naquilo que denomina de "busca do conhecimento científico". Mesmo que os
exemplo, temos aqui uma declaração do elegante arquiteto Peter Eisenman, resultados sejam de fato úteis para o cliente — seja ele o Estado ou o setor
na qual ele denigre o estilo de vida da classe média ao mesmo tempo em privado —, o produto mais importante do ponto de vista dos cientistas é o conhe-
que apresenta suas próprias práticas como liberais: cimento demonstrado na forma de trabalhos, artigos e livros. Os cientistas não
Estou procurando novos leitores. (...) Estou procurando pessoas medem o prestígio científico pela realização de produtos socialmente úteis, ain-
para ler meu trabalho não como uma série de imagens, mas como um da que lhes possam proporcionar glória, mas pelos resultados alcançados no
evento de leitura, como textos. É isto que tento ensinar aos estudan-
processo de chegar lá.
tes: tento despertá-los para o que é ser. Ou seja, qual é a diferença
entre a sabedoria e o conhecimento (..) Tento ajudá-los a fazer ar- No caso do campo do meio ambiente construído, a autonomia é fraca no
quitetura para si mesmos e a ter a capacidade de satisfazer a si pró- campo da produção de massa e mais forte no campo da produção restrita, ou
prios, para que não estourem os miolos aos 35 anos de idade ao seja, na arquitetura propriamente dita. Assim como outros campos culturais,
descobrirem que a garagem para dois carros, a caminhonete, o bar- este campo se esforça para ampliar sua autonomia, o que exige, em essência, o
co, as crianças, o cachorro, a mulher não são nada (..) Eu não aumento da autonomia de seus vários capitais. A dinâmica de qualquer campo
julgo. Estou, quando muito, desprogramando-os — pedindo-lhes que cultural, incluindo o da arquitetura, vem principalmente de sua tendência natu-
esqueçam da bagagem e apenas curtam comigo na estação. ral de querer se tornar o único juiz de seus próprios produtos. A forma ultimada
de autonomia desenvolve-se quando a produção é feita tão-somente para os
Citado cm D. Cuff, "Through the Looking Glass: Seven New York produtores, de tal modo que a parcela produtiva c a parcela consumidora do
Architects and Their People", Architects' People, ed. R. Ellis e D. Cuff
campos são unificadas.
(Nova York: Oxford University Press, 1989), 67-68.
As ciências puras contemporâneas são os campos que mais se aproximam
desse estado puro, não maculado. A esse respeito, seus resultados podem ser
E agora, a descrição de um jovem arquiteto australiano, publicada no
suplemento do jornal mais vendido de Sydney, o Sydney Morning Herald: atribuídos a três fatores: sucesso na construção de uma ideologia amplamente
aceita, pela qual se considera a ciência como sendo mais bem julgada por ou-
Nonda Katsalidis está falando em seu apartamento, que parece tros cientistas; uma utilidade indubitável para a fração dominante da classe
uma galeria de arte sem a arte e exibe todos os signflcantes visuais dominante na geração de riqueza econômica; e um contrato implícito de não-
da tradição modernista da qual ele vem: paredes e teto de concreto interferência na ordem social. Pela alegação de neutralidade de valores e pela
aparente, escada severa, janelas altas de vidro, mesas descobertas, separação clara de suas preocupações daquelas da moral — ou seja, ao cabo,
virtualmente nenhuma pintura ("muito burguês", diz Nonda, que se daquelas do social —, as ciências funcionam quase sem nenhuma interferênciaf
vê como um migrante, um rapaz de origem operária,. e despreza ativi- A autonomia é alcançada por meio do desenvolvimento de um princípio de
dades indulgentes como colecionar arte ou carros: "Eu não sinto estratificação inteiramente sob o controle do campo, de tal modo que somente
que preciso possuir coisas").

C. McGregor, "Stretch of the Imagination", Good Weekend, suple-


mento do Sydney Morning Herald, junho 3, 1995, 26. 47 J. Ben-David, The Scientist's Role ira Society: A Comparative Study (Englewood Cliffs, NJ:
Prentice-l-lall, 1971).
112 Garry Stevens

produtores sejam percebidos como os juízes legítimos dos demais produtores.


Isso implica o desenvolvimento de capitais específicos ao campo, cujos valores
■ illik- O círculo privilegiado 113

preservá-los para uma exposição para colegas da profissão a ser reali-


zada alguns dias mais tarde. Sua escusa era que a plebe poderia danificar os
são estabelecidos unicamente por aquele campo. As formas temporais de capi- delicados objetos. Talvez isso fosse verdade, mas de qualquer modo tal atitude
tal nunca conseguem preencher essa função: formas temporais de capital, tal também revelava exatamente a que opiniões os professores de projeto davam
como o poder profissional, dependem em última instância de capitais econômi- ou não valor.
cos; desse modo, o poder temporal está inescapavelmente amarrado a forças Diante de incidentes como esse, compreende-se por que muitos críticos do
que operam em outros campos. Todos os arquitetos podem ser classificados — campo da arquitetura consideram repugnante a busca pela autonomia. Quando
ainda que apenas de modo vago — segundo os vínculos de trabalho (assalariado, criticam severamente a arquitetura como sendo obcecada consigo mesma en-
proprietário), o tamanho do escritório em que trabalham, o número de comitês quanto urna arte, acreditam que tal fato seja algum tipo de epifenômeno e que
profissionais a que pertencem, as comissões governamentais para as quais são bastaria um pouco de reeducação para que o campo pudesse ser persuadido a
convidados e as assessorias que realizam, porém todas estas são manifesta- cair em si e construir edifícios agradáveis, funcionais e humanos. Não é bem
ções de poder temporal e nunca irão impulsionar um arquiteto para as fileiras assim. A crítica está mal colocada e é feita em vão. O esforço para conquistar
imortais dos bons e dos famosos. Tal classificação é um princípio heterônimo autonomia é um aspecto absolutamente integral do campo
de estratificação. Em arquitetura, a forma mais valiosa de capital é a simbólica A dinâmica básica do campo arquitetônico é guiada por preocupações sim-
— intelectual, estética —, e esse fato fornece o princípio dominante de bólicas e pela tentativa de se alcançar uma reputação graças à produção de
estratificação, o qual é também um princípio autônomo, uma vez que é criado grande arquitetura, a qual, por sua vez, é aquela que o campo define como
pelo próprio campo." grande. Contudo, a sociedade e vários de seus grupos colocam outras exigên-
cias para os arquitetos, que vão além do puramente simbólico. Tais demandas
ultrapassam em muito as exigências extra-simbólicas feitas a outros artistas.
Um campo semi-autônomo Os clientes estão sempre interferindo com o que o arquiteto quer fazer; os
consultores técnicos ficam trazendo novos problemas; as autoridades colocam
A existência de uma busca da autonomia, graças à qual os arquitetos pro- todo tipo de requerimentos para as construções, e sempre, sempre: custos,
jetam para outros arquitetos, ficou clara para mim em razão de um incidente custos, custos. Nenhuma área do campo cultural restrito (tais como a escultu-
ocorrido na Faculdade de Arquitetura de Sydney. Eu havia sido encarregado de ra, a poesia, a pintura, a música) está tão amarrada a outros campos sociais e é,
acompanhar os passeios pela faculdade durante o dia de visita à universidade, portanto, menos autônoma. A tremenda tensão que isso cria no interior da ar-
o qual se realiza a cada dois anos e é uma oportunidade para os moradores da quitetura manifesta-se em urna variada sintomatologia: a teoria arquitetônica
cidade verem como está sendo aplicado o dinheiro arrecadado com impostos. nunca se recuperou da perda das certezas do modernismo; os arquitetos preo-
A ocasião não podia ser melhor: os ateliês de projeto estavam repletos com cupam-se com a sua perda de influência na indústria da construção; o sistema
maquetes, expostas para as avaliações de final do semestre. Em meu primei- educacional parece inadequado; as associações profissionais estão destroçadas
ro passeio, fiquei chocado ao descobrir que os ateliês haviam sido trancados e sem rumo.
e, em alguns casos, haviam sido feitas barricadas para manter o público de Uma das tragédias da arquitetura é que seus praticantes rapidamente pas-
fora. Mais tarde, descobri que os professores de projeto não tinham interesse sam a ganhar a vida trabalhando em horário integral na profissão. Há um bom
algum em mostrar os trabalhos de seus estudantes para o populacho e prefe- número de pintores, cantores, músicos, gravuristas e escultores que trabalham
meio período, todos obrigados a ganhar seu sustento fora de sua arte, podendo
assim se dar ao luxo da indulgência sem concessões. Poucos arquitetos podem
48 A noção de estratificação de Bourdieu é congruente com a descoberta de Abbott de que os fazer isso.
profissionais atribuem status mais elevado para aqueles colegas envolvidos com o trabalho Apenas aqueles arquitetos com as maiores quantidades de capital simbóli-
mais puro, isto é, o trabalho que mais se aproxima do problema profissional ideal, puro de co ou de reputação — como Wright, Le Corbusier e Mies van der Rohe já nos
considerações supérfluas (como pessoas ou dinheiro). Ver A. Abbott, "Status and Strain in the pontos altos de suas carreiras — podem ditar seus próprios termos e dizer aos
Professions", American Journal of Sociology 86 (198 1 ): 819-834.
clientes o que é bom para eles, pois assim fazendo eles definem a superioridade
d ry J-ceven5
1111, O círculo privilegiado 115

simbólica do próprio cliente." Os demais integrantes do campo têm de enfren-


que o campo cultural funciona na mais completa ignorância de suas próprias
tar demandas conflitantes. Essas são refratadas pelo campo para sua própria
funções sociais, ele talvez não pudesse ter encontrado um exemplo melhor de
lógica, uma lógica movida, em última instância, por princípios puramente estéti-
cos. Talvez a melhor ilustração desse fato possa ser encontrada nos escritos e um campo evitando colidir com algum obstáculo submerso que poderia levá-lo
nas obras do Movimento Moderno. Enquanto se falava muito sobre o desenvol- ao naufrágio — ameaçando renegar o contrato implícito feito com a classe do-
vimento de uma arquitetura funcional, de urna arquitetura social, de uma arqui- minante de servir somente a ela — do que o processo pelo qual o campo
tetura para as pessoas usarem, terminou-se por produzir aquilo que a lógica do "! arquitetônico contemporâneo recontou a história da neutralização social do Mo-
campo exige — um estilo, uma estética. Graças a uma ginástica mental tão vimento Moderno como uma assombrosa evolução do gênio artístico de seus
heróica quanto sua ousadia arquitetônica, os modernistas transmudaram as de- membros.
mandas sociais em estéticas. Como menciona o historiador Spiro Kostof, ne-
nhum desses heróis tinha qualquer intenção de consultar de fato os usuários, e,
se as pessoas não se ajustavam à nova arquitetura, a falha estava nas pessoas." O que fazem os concursos de arquitetura
Assim, até mesmo quando o campo parecia mais receptivo a exigências não-
simbólicas, nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, sua lógica O concurso arquitetônico pode ser um exemplo suficiente da falta de auto-
transformou-as essencialmente em produções simbólicas. nomia do campo. Essa é urna das instituições mais duradouras da arquitetura
A arquitetura, diferentemente da pintura, da escultura ou, talvez, até mes- profissional, com uma história de vários séculos. Um bom quarto do código de
mo do cinema, alcançou apenas uma modesta autonomia. O fato de que tenha ética do Royal Australian Institute of Architects — um documento cujo objetivo
chegado a conseguir alguma autonomia pode ser atribuído à dedicação e ao ostensivo é mediar as relações entre a profissão e a sociedade, possuindo por-
esforço do campo para obtê-la por meio da estética. Não só tal situação cria tanto uma posição simbólica importante — é dedicado ao estabelecimento dos
um sistema autônomo de estratificação, mas comodamente remove a arquite- princípios básicos da conduta dos arquitetos. Há muitos anos, os concursos
tura da arena política: recusando-se a considerar seriamente o "bem-estar so- vêm sendo objeto de duas duras críticas. Em primeiro lugar, obrigam os arqui-
cial" pela negação de que este seja de responsabilidade dos grandes arquitetos, tetos a trabalhar de graça, a trabalhar tendo em vista um objetivo que sabem
neutraliza-se como ator político e deixa a fração dominante das classes domi- que poderá não lhes render nada. Em segundo lugar, o mecanismo dos concur-
nantes livres de crítica, ao menos na esfera da arquitetura.
sos não permite interação alguma entre cliente e arquiteto na fase mais crucial
Dois exemplos ilustram esse ponto. A história da arquitetura menciona do processo de projeto.52 Por que, então, os arquitetos persistem nessa prática?
somente de passagem que a obra de William Morris no Movimento Artes e
O esquema conceitual de Bourdieu permite distinguir um duplo papel dos
Ofícios foi motivada por seu reconhecido socialismo e por sua paixão pela
concursos de arquitetura no mundo social. Primeiro, entre todos os subcampos
revolução da ordem social. Os riscos evidentes contidos na crítica social apre-
do campo da produção cultural, a arquitetura é aquele que possui os meios mais
sentada pelo Movimento Moderno, a qual foi possível em razão da crise ocor-
limitados para aumentar seu estoque de capital simbólico. Isso a coloca em
rida com a classe dominante após a Primeira Guerra Mundial, foram rapida-
mente tornados inofensivos, transformados em um esteticismo socialmente desvantagem, quando comparada com seus concorrentes no interior do campo
inócuo pela lógica do campo, agindo com a cumplicidade ativa dos principais da produção cultural. A pintura, a escultura, a poesia e a música podem ser
militantes do movimento.51 Quando Bourdieu chama atenção para o fato de todas produzidas com recursos comparativamente bem inferiores e apresenta-
das ao público em galerias, jornais, pequenas revistas e recitais. Os arquitetos

*19 Ver A. Saint, "The Architect and the Architectural 11 istorian",


RIBA Transactions 2, 1-12 2
(1983): 5-17, e em especial A. Saint, The Image of the Architect
(New Heaven: Vale University
Press, 1983). " Há alguma literatura disponível sobre os concursos de arquitetura. Ver H. Lipstadt, "The Experi-
5 ° S. Kostof, "Foreword",
Architect :s People, ed. Ellis e Cuff, ix-xix. mental Tradition", The Experimental Tradition, ed. H. Lipstadt (Nova York: Princeton Architectural
51
D. Brian, "Cultural Production as Society in the Making': Architecture as an Exemplar of the Press, 1989), 9-19; B. Bergdoll, "Competing in the Academy and the Marketplace: European
Social Construction of Artifacts", The Sociology ofCulture, Architectural Competitions 1401-1927", The Experimental Tradition, ed. Lipstadt, 20-51; e J.
ed. D. Crane (Oxford: Blackwcll,
1994), 191-220. Bassin, Architectural Competitions in Nineteenth Cenho), England (Ann Arbor: UMI Research
Press, 1984).
requerem somas imensas de dinheiro. O concurso oferece um meio de aumen-
tar o estoque de capital tanto de um arquiteto, individualmente, como do campo, Sacerdotes e profetas: o conflito no interior do campo
corno um todo (como Larson também ressaltou), sem incorrer na despesa ex-
travagante que representa a construção de edifícios." Um dos conjuntos de relações que impulsiona a dinâmica do campo da
Nada revela mais a extrema importância do aspecto simbólico da ar- produção restrita é aquele operando entre ele e o campo da produção de mas-
quitetura do que o fato de os desenhos de edifícios serem pelo menos tão sa. Outro é o conjunto de relações entre os vários agentes no próprio campo
importantes quanto os objetos que representam. Um projeto não executado restrito. É o espaço das disputas internas entre artistas e intelectuais, entre
possui virtualmente a mesma força simbólica que um edifício real; desse modo, aqueles que estão nos níveis mais elevados da hierarquia e aqueles nos níveis
mais baixos, no que se refere ao conteúdo dos dois princípios de estratificação
os desenhos daqueles de vanguarda são tão valorizados quanto os produtos
e à relação entre esses princípios. É a luta para impor o modo legítimo de
construídos. De fato, como os desenhos estão mais distantes das realidades
produção cultural, para definir quem é e quem não é um bom arquiteto, para
vulgares da funcionalidade que os edifícios têm de resolver, eles representam
dizer quem é ortodoxo e quem é herético, para definir os limites do campo e
urna aproximação superior do puramente estético. Os desenhos de concur-
para determinar quem pode participar do jogo. A luta consiste em uma dialética
sos são praticamente os únicos produtos sobre os quais o arquiteto tem total perpétua entre arquitetos, críticos e instituições. Neste caso, a busca do suces-
controle. Não é preciso escutar o cliente para além da leitura do programa do so nada mais é que a busca do direito de definir os conteúdos do princípio
concurso; as considerações econômicas podem ser apresentadas de forma autônomo de estratificação, do direito de avaliar o capital cultural dos demais
mais palatável; a liberação da necessidade de interagir com os diversos con- em termos do seu próprio capital.
sultores técnicos exigidos pelos grandes projetos; a suspensão temporária Muito de seu modelo da dinâmica do mundo da arte Bourdieu retira do
das desprezíveis normas de construção. Nenhum dos fatores usuais que são campo da religião, em parte porque acredita que há várias analogias entre suas
impingidos na autonomia do arquiteto estão presentes no concurso. Na ver- :struturas internas e, em parte, porque acredita que o mundo cultural substituiu
dade, em um concurso pode ser melhor obter uma menção honrosa do que o argamente as ideologias religiosas na justificação da dominação e da desigual-
primeiro lugar, porque assim o arquiteto não corre o risco de perder capital ade social." Enquanto a cristandade medieval asseverava que os indivíduos
simbólico por ter seu projeto alterado, caso venha a ser construído. ..cupam seu lugar na ordem social por força da divina providência, a sociedade
Finalmente, a maioria dos concursos é realizada para as edificações do moderna tende a manter as pessoas em seus lugares pela afirmação da superio-
poder que servem à classe dominante em algum sentido simbólico. Em geral, ridade natural de determinados gostos c estilos de vida.
são edifícios de considerável importância local ou nacional. O concurso per- O motor que impulsiona .o campo é o conflito entre aqueles que alcança-
mite que as elites relembrem o campo que, ao cabo, ele está a ram o topo, a fração dominante ou a vanguarda estabelecida, e aqueles que não
seu serviço. conseguiram, a fração subordinada dos recém-chegados. Bourdieu refere-se à
Reciprocamente, o concurso arquitetônico permite que a profissão faça uma
demonstração ritual de fidelidade às elites, mostrando como os arquitetos são • fração dominante como a vanguarda consagrada, porque suas produções sim-
servidores leais e responsáveis dos poderosos. Se os concursos obrigam que bólicas, seu capital simbólico, foram valorizados ou consagrados pelo campo.
É crucial compreender que essa autoridade para consagrar é conferida ao campo
aqueles econômica e politicamente dominantes reconheçam da maneira mais
como um todo, à rede de relações entre todos os agentes no campo. Bourdieu
pública possível sua dependência simbólica dos arquitetos, estes, por sua vez,
rejeita totalmente a noção de uma estética essencialista, a idéia de que alguns
aproveitam a ocasião para refazer o pacto, reconhecendo sua dependência
edifícios sejam inerentemente excepcionais. Todo valor estético é outorgado
material dos ricos e poderosos. A maioria das participações em concursos é
pelo campo, e o que é valorizado como excepcional ou não depende do resultado
feita com altos custos e muita dedicação, e o sacrifício exigido torna esses da competição entre os membros do campo. É evidente que o campo está
ritos de devoção ainda mais pungentes.
empenhado em negar tal proposição. Nenhum arquiteto que se dedique a jogar

" Ver Larson, "A relliteetural Cornpetitions as Discursive Events".


54 B. Fowler, "The 1-legemonic Work ofArt in the Age of Electronic Reproduction: The Case of
Pierre Bourdieu", Thealy, Culture and Society 11 (1994): 129-154.
118 Garry Stevens O círculo privilegiado 119

o jogo poderia acreditar que os produtos de seu talento único sejam definidos ses econômicas ou simbólicas sólidas. Uma renda própria é um substituto ma-
meramente por um julgamento arbitrário, que a qualidade resida não na visão ravilhoso para a participação em comissões. É bem verdade que a pretensão
singular, mas na avaliação do coletivo.
estética implica um certo desdém por aquisições financeiras, porém é tão mais
A competição pelo sucesso é mais bem interpretada como competição fácil desprezar o dinheiro quando já o possuímos. Os exemplos são em grande
pela consagração. Há duas estratégias básicas que podem ser empregadas: número na arquitetura, na qual o sucesso precoce muitas vezes começa com o
conservação ou subversão. A primeira é utilizada por aqueles que já dominam o projeto de urna casa para pais ou parentes ricos. Basta mencionar Philip Johnson,
campo; eles efetuam estratégias essencialmente defensivas, destinadas a mantê- que pôde bancar o lançamento do International Style em uma exposição no
los onde estão. Estas tendem a ser estratégias de silêncio, não tanto de defesa Museum ofModern Art (MoMA) em 1932, em Nova York, porque sua fortuna
de sua ortodoxia corno de reafirmação de sua auto-evidência." Todos os sím- dc família era mais que suficiente para ampará-lo caso sua revolução não des-
bolos são, por definição, arbitrários. Mas os dominantes devem sempre e em se certo.
qualquer lugar negar tal fato. É evidente que um prédio deva ser proporciona-
Em alguns campos, os produtos de seus produtores podem ser avaliados
do segundo princípios derivados do corpo humano (Vitruvio). É evidente que segundo critérios sobre os quais é difícil não se estar de acordo. Na engenharia,
um banco deva ter uma fachada renascentista (Beaux-Arts). É evidente que o por exemplo, há um consenso universal de que o custo é uma consideração
gótico seja a arquitetura da idade industrial (Viollet-le-Duc). É evidente que
devamos ter paredes brancas. É evidente que um edifício não deva ter decora-
iscrucial; no caso de uma ponte, todos os demais aspectos iguais levam vanta-
gem sobre o projeto mais barato. No caso dos produtos simbólicos, tais como a
ção alguma. É evidente que um prédio deva expressar sua função. Aqueles
arquitetura, os critérios de sucesso estético são essencialmente contestáveis.
estabelecidos no campo devem evitar a todo custo a possibilidade de que A própria arbitrariedade dos critérios estéticos torna possível a competição
alguém possa revelar a arbitrariedade essencial dc sua estética." entre arquitetos. Como tal, quando alguém cria fama e faz seu nome, isto signi-
Os recém-chegados ou aqueles já engajados na competição pela consa- fica que obteve um reconhecimento da diferença entre sua criação e seus
gração têm duas opções. Tanto podem produzir edifícios (ou desenhos ou pro- trabalhos menores. Uma vez que consagrar é rotular como valioso, os que têm
jetos para concursos ou exposições ou tratados) que afirmem os valores e o pretensões a ser de vanguarda procuram rótulos para distinguir seus produtos
capital dos membros dominantes e, assim, juntarem-se a eles, ou podem adotar e outros. Em grande parte, estes rótulos não servem tanto para definir uma
a estratégia bem mais arriscada de criar urna nova estética, uma nova forma de ova posição de vanguarda como para criá-la, para produzir a própria diferen-
capital simbólico, e desse modo desafiar o establishnient. Os riscos presentes
ça que tenta expressar. O direito de nomear é crucial nas disputas entre as
nesta última opção são bem maiores do que, por exemplo, aqueles enfrentados vanguardas. Assim, quando Jorge Glusberg, em sua introdução ao livro
por membros audaciosos do campo da produção de massa quando introduzem Deconstruction: A Student Guide, de Geoffrey Broadbent, comenta a expo-
um novo produto no mercado, porque enquanto estes últimos respondem a de- sição Deconstructivist Architecture, realizada por Philip Johnson no MoMA —
mandas de consumidores que estão fora de seu campo (uma vez que os cons-
trutores não são seus próprios consumidores), o empenho daqueles de van- O título foi escolhido para esclarecer qualquer concepção equivocada, para
guarda antecede as possíveis exigências de seu mercado, constituído por eles ressaltar que a mostra não indicava a presença de um novo estilo, movimento
mesmos. ou credo, mas que estava apenas mostrando a existência de sérias semelhanças
Portanto, uma tentativa de revolução simbólica é mais bem feita com o na obra dos sete arquitetos."
conhecimento de que se tem um arsenal a seu favor; assim, os membros do
campo mais passíveis de promover uma heresia são aqueles que possuem ba-

" J. Glusberg, "Foreword", Journal of Architectural Theory and Cri ticism I , 2 (1991): 9. Esta
publicação é excelente sob vários aspectos. Primeiro, apesar de passar-se por um jornal, na
55
realidade é uma monografia, uma introdução muito bem escrita para a arquitetura deconstrutivista
P. Bourdieu, "The Production of Belief Contribution to an Economy of Symbolic Goods",
pelo admirável acadêmico inglês Geoffrey Broadbent. Seu aparente patrocinador é a União
Media, Culture and Sociely A Criticai Reader, ed. Col fins et al., 131-163.
" Por isso o desprezo do establishment Internacional de Arquitetos, urna organização considerada as Nações Unidas da profissão e tão
pela paródia, a qual, quando levada muito longe, revela eficiente e eficaz quanto. Segundo, o nome do autor não aparece na capa, substituído pelo do
pelo ridículo a natureza arbitrária de seus produtos simbólicos.
editor.
120 Garry Stevens O circulo privilegiado 121

— ele é ingênuo, se não positivamente hipócrita. O objetivo central de tais expo- cem-chegados que já são membros da elite, econômica e simbolicamente, rica.
sições é fazer com que o público perceba semelhanças, é criar urna escola ou Eles sabem que sua riqueza lhes garante um lugar na ordem a que se opõem e
um movimento no qual antes havia apenas indivíduos isolados, multiplicando que serão sempre tratados com indulgência.
assim o capital simbólico de cada um pela mobilização do capital coletivo do Como oponentes dos dominantes, os profetas também se opõem ao conjun-
todo." to todo de instituições consagradas no campo.° Eles se dedicam a atacá-las
O poder de produzir tais rótulos e fazer com que sejam aceitos como deno- por suas opiniões antiquadas, dogmatismo, rigidez, burrice, inflexibilidade e
tando uma diferença é um dos maiores poderes que o campo pode conferir a incapacidade de se adaptar à nova era. O trecho que se segue foi extraído de
um indivíduo ou a uma instituição. Daí a enorme influência exercida no campo uma das declarações do Ciam em 1928:
pelo crítico de arquitetura Charles Jencks após a publicação de seu livro Modern
Movements in Architecture (1973) e de seus vários artigos e livros posterio- Os arquitetos modernos, tendo a firme intenção de trabalhar de acordo com
res, uma vez que, ao nomear alguém como pós-moderno ou supermoderno ou os novos princípios, não podem deixar de considerar as academias oficiais
seja lá o quê, ele cria as diferenças entre o novo e o velho. Isso não significa (...) como instituições que obstruem o caminho do progresso.
que se esteja negando que Jencks seja inteligente e que tenha percepção; afi- Essas academias, por definição e por função, são as guardiãs do passa-
nal, ele não está fantasiando no vazio. Sua análise inicial foi, sem sombra de do (...) As academias corrompem a vocação do arquiteto em sua própria ori-
dúvida, instigante e inovadora e, como tal, ganhou ampla aceitação como uma gem. Seu ponto de vista é incorreto e suas conseqüências incorretas.
Portanto, para garantir a prosperidade do país, o Estado deve arrancar o
descrição lúcida da arquitetura contemporânea. Tão lúcida, na verdade, que o
ensino da arquitetura das mãos das academias»
campo acabou por aceitar seus rótulos para movimentos e o agrupamento em
escolas que fez de arquitetos c edificios.
As associações profissionais são os alvos preferidos dos profetas. Por
Bourdieu descreve, de um lado, as vanguardas estabelecidas e, do outro, 'exemplo, já li em algum lugar que a "decadência" do arquiteto americano pode
os recém-chegados lutando para mudar o campo, como sacerdotes e profe-
tas." Os sacerdotes não são apenas os dominantes estabelecidos no campo, ser atribuída à decisão do AIA, em 1980, de permitir que arquitetos participem
em licitações que incluem, em um mesmo pacote, o projeto e a construção.62
eles estão também inseridos no aparato institucional do campo — em museus, Assim procedendo, o arquiteto acaba por se envolver nos aspectos econômicos
em galerias, no sistema educacional, nas academias, no governo, em conselhos que são anátema para o princípio autônomo de estratificação do campo. Daí,
editoriais. Eles controlam as mais importantes instituições de consagração no acusam os profetas, seguiu-se urna perda de prestígio e trabalho, um colapso
campo. O sistema educacional, em particular, é acusado de perpetuar, transmi-
dos padrões (estéticos) americanos de construção, um abandono de princípios
tir e proteger o cânone de clássicos, o capital simbólico mais valioso do campo,
por meros ganhos financeiros e uma absoluta traição da sociedade — uma ver-
de uni modo semelhante ao que faz a Igreja. Ao final, aqueles que integram
dadeira expulsão do paraíso. Os profetas estão sempre prontos a acreditar que
este sistema, aqueles que escrevem as histórias, são aqueles que irão dar emi-
os sacerdotes, que estão mais próximos dos poderosos de outros campos, são
nência a um arquiteto ou fazê-lo cair no esquecimento.
altamente passíveis de ser seduzidos por prazeres mundanos, os quais compen-
É a autoridade dos sacerdotes que os recém-chegados devem decidir rati-
sam a renúncia sacerdotal da Verdadeira Arquitetura. E, evidentemente, as
ficar — tornando-se assim acólitos — ou contestar — tornando-se heréticos ou
acusações dos profetas são sempre acusações morais, contendo todo o ultraje
profetas. Ser um profeta é ter uma visão que subverte a ortodoxia existente, a
hierarquia existente, o capital simbólico existente do campo. É uma estratégia
pessoal excepcionalmente arriscada, uma estratégia em geral adotada por re-
60 A exposição mais completa está em P. Bourdieu, The Rules ofArt (Stanford: Stanford University
Press, 1996).
ed. U. Conrads
61 Citado em Program and Manffestoes on the 20' Centuty Architecture,

58
(Cambridge: MIT Press, 1970), 112.
P. Bourdieu, "Intelectual Field and Creative Project", Social Science Information 8, n0 affactors.html,
2 (1969): 62 D. Bucsescu e A. Cheng, "Factors Other Than Price", http://www.ounce.com/30I
89-119.
1996. (Tenho horror de citar fontes da Internet, uma vez que são suscetíveis ao que Bill
" P. Bourdieu, "Genesis and Structure of the Religious Field", Comparative Social Research
Mitchell, em seu livro City ofBits [Cambridge: MIT Press, 1995], chama de link rot,
13 mas não
(1991): 1-44.
tenho nenhuma referência por escrito. Boa sorte na busca.)
122 Garry Stevens O círculo privilegiado 123

adequado para censurar aqueles que violaram as mais santificadas barreiras Urna leitura dos manifestos das décadas de 1920 e 1930 mostra claramen-
morais. Que transgressão poderia ser maior que a ousadia de dar mais valor ao te a orientação social desses jovens heróis. Uma estratégia — urna estratégia
econômico do que ao simbólico?
inconsciente — baseada na homologia de posição entre grupos subordinados
Porém a acusação mais grave dos profetas é que aqueles encarregados da
fornece a mais poderosa das fundamentações, uma vez que permite que a
consagração não são capazes de reconhecer o profeta. Profeta algum deseja
vanguarda arquitetônica argumente que a reforma, a melhoria de toda a ordem
subverter o sistema todo, ele deseja apenas subverter os princípios de
estratificação nos quais se fundamenta. Mesmo assim, quem se revolta — e social, somente pode acontecer se houver uma reforma do campo arquitetônico:
aqui você pode escolher seu iconoclasta arquitetônico favorito — acredita e, em ale subverter a hierarquia de relações sociais como um todo requer primeiro a
muitos casos, acredita com mais zelo do que a maioria, que o jogo da arquitetu- subversão da hierarquia dos arquitetos." Um objetivo tão grandioso também
ra é um jogo sério, que vale a pena ser seriamente jogado. Suas revoluções são lhes permitiu desabafar toda a indignação moral que acompanha a cruzada
sempre parciais, para mudar as regras do jogo em seu beneficio e não para dar profética em urna tarefa de proporções épicas condizentes.
fim ao próprio jogo. Sem dúvida, o profeta pode alegar que está fazendo a Porém, como já ressaltou Bourdieu, as alianças derivadas de urna homologia
tentativa mais radical possível de reforma, que está questionando tudo o que os de posição são frágeis.65 O habitas dos produtores culturais tem mais em
sacerdotes defendem. Apesar disso, o que não questiona é a necessidade em si comum com o de seus colegas da parcela dominante da classe dominante do
de sacerdotes; e até mesmo o ataque conscientemente mais radical é que com aquele das classes mais baixas. As duas parcelas das classes mais
transmudado, com a cumplicidade aquiescente do profeta, em um ato artístico altas estão unidas por um conjunto de práticas e objetivos comuns que dificil-
— como foi, por exemplo, o movimento Dada. mente pode ser perturbado por alianças adicionais entre urna parcela e outras
classes. Além do mais, qualquer aliança de arquitetos com quem não pertence
ao campo arquitetônico necessariamente ameaça sua autonomia e a autonomia
Corno o campo funciona: três exemplos
do princípio estético de estratificação. Uma reivindicação no sentido de esta-
rem projetando para o povo pareceria ser o tipo mais sério de ataque à autono-
Do Movimento Moderno ao Estilo Internacional
mia da arquitetura, porque pareceria urna imposição ao campo de aspirações
alheias. Em um elevado grau, os modernistas conseguiram evitar qualquer
A história recente do pensamento arquitetônico é uni excelente exemplo
da perpétua luta que ocorre no interior do campo restrito. Em seus embates ameaça à sua autonomia intelectual pelo simples expediente de ignorar aqueles
para subverter o establishment arquitetônico beaux-arts, para quem afirmavam estar projetando. Como colocado por Spiro Kostof:
os jovens
vanguardistas europeus do período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial
adotaram urna estratégia que Bourdieu identifica como aquela de procurar alia- A retórica modernista foi eloqüente ao se referir às necessidades dos usuários.
Apresentou a arquitetura como o veículo do bem-estar social e estabeleceu a
dos com interesses homólogos em outros campos. Uma vez que todos os cam-
habitação popular corno a mais alta prioridade da arquitetura. Porém nunca se
pos são, mais ou menos, divididos em subordinados e dominantes, é sempre
cogitou consultar o usuário dos conjuntos habitacionais no transcurso de
possível para o subordinado em um campo identificar como aliados naturais seu projeto. Ninguém se deu ao trabalho de explicar o porquê, urna vez que o
aqueles que estão na mesma posição em outros campos.`'' O que seria mais
natural para aqueles que gostariam de derrubar os sacerdotes da arquitetura do
que buscar na miséria das classes mais baixas no pós-guerra a razão e a funda-
mentação para sua revolução? Isso não quer dizer que os heróis do Movimento " Essa estratégia é possível tanto para indivíduos como para grupos. Por exemplo, em seus
Moderno não fossem totalmente dedicados e sinceros em seus objetivos. primeiros anos, Le Corbusier e Frank Lloyd Wright trabalharam principalmente para clientes
O campo da arquitetura não precisa que seus membros sejam hipócritas para que ocupavam posições semelhantes às suas em seus próprios espaços sociais. Ver L. Soth,
que possam vir a produzir todos os efeitos sociais do campo. "Le Corbusier's Clients and Their Parisian Houses of the l 920's", Art History 6, n6 2 (1983):
I 88-198. Vale a pena ressaltar que o Movimento Moderno é o único exemplo bem-sucedido de
urna revolução por uma vanguarda arquitetônica que usou o princípio de cooptar aliados por
meio de uma homologia estrutural. Tentativas parciais anteriores, tal como o movimento Arts
"3 P. Bourdieu, "Social Space and Symbolic Power", em Bourdieu, and Crafts, foram abortadas.
In Other Words, 125-139. 6$ Bourdieu, "The Intellectual Field".
panorama era óbvio. Os usuários não eram uma entidade estável e coerente. meados dos anos 1970. À época em que Wolfe estava escrevendo, a hegemonia
E os usuários não sabiam o que queriam ou, mais importante, o que deveriam
ter.66 do Modernismo já havia claramente passado, e os vários contramovimentos
que Charles Jencks iria rotular de Pós-Modernismo estavam apenas começan-
Conforme mostra Bourdieu, o capital que um artista acumula com uma do a aparecer nas obras dos novos vanguardistas. No mesmo estilo saboroso
prática cultural tende a diminuir com o tamanho de sua audiência. Qual o cré- em que escrevera seus best-sellers anteriores, Wolfe reconta a história do
dito que se pode obter da admiração de massas sem instrução? De certo modo, movimento desde suas origens na Alemanha e na Holanda até sua passagem
era inevitável que, no auge do modernismo, as opiniões dos usuários não con- para o outro lado do Atlântico e sua transformação no Estilo Internacional. Em
tassem para nada. Assim, quando os heróis do Movimento Moderno cruzaram quatro rápidos capítulos, ridiculariza todos os seus heróis, de Walter Gropius a
o Atlântico e foram parar no alto da hierarquia do campo arquitetônico ameri- Louis Kahn, c, nos três capítulos finais, investe sua irritação contra os
cano em fins da década de 1930 e após a guerra, sua defesa de soluções vanguardistas contemporâneos, de Michael Graves a Robert Venturi. O livro
socialistas para as habitações populares foi discretamente deixada cair no es- tornou-se outro best-seller, muito a contragosto do establishment arquitetônico
quecimento e seus objetivos sociais desapareceram. Vendo-se nas esferas mais americano, e muitos de seus membros teriam ficado felizes vendo tanto o livro
elitizadas da academia americana, nas universidades da Ivy League* e corno seu autor na fogueira.
congêneres, suas afinidades naturais com os economicamente poderosos vol- Aqueles leitores que não eram arquitetos avaliaram o livro de um modo
taram à tona. O pouco que restara das ameaças à autonomia da arquitetura foi completamente diferente. Escrevendo no American Spectator, Gavin Stamp
definitivamente enterrado com a transformação do Movimento Moderno no comenta que: "Em minha última viagem de Londres para a América logo des-
Estilo Internacional. E o velho pacto de aliança de dois segmentos das classes + cobri que um método infalível de causar arrepios de choque e desaprovação
dominantes pode ser reafirmado pela colocação desse estilo a serviço da Amé- em um jantar era dizer que em Da Bauhaus ao nosso caos, Tom Wolfe havia
rica capitalista. acertado no alvo".68 Em The Listener, Stephen Bayley escreveu que o sistema
arquitetônico de Nova York era "um bando narcisista, superior e egoísta no
melhor dos casos (...) Acostumados a ser tratados como estando apenas abaixo
Atacando a autonomia do campo de Deus na cadeia de poder, os aristocráticos arquitetos não gostaram de receber
o mesmo tratamento que alguns pobretões caipiras".69
Nada expõe tanto o funcionamento interno do campo da produção restrita Os que foram favoráveis ao livro consideraram que era urna obra engra-
como um ataque a seus capitais simbólicos mais valiosos. Por implicação, isso çada, irreverente e satírica, agradável e divertida. Urna crítica curta no Library
representa também um ataque ao direito que o campo tem de passar julgamen- Journal dizia: "O arquiteto e o estudante ficarão encantados com os esboços
to em suas próprias criações, à sua autonomia. Nos campos em que é impossí- biográficos (...) Wolfe conseguiu outra vez. Esta vinheta histórica sobre as
vel convocar a ajuda de critérios exógenos (tais como custo ou função), todos idéias por detrás da arquitetura moderna é sempre divertida e muitas vezes
os julgamentos dependem da autoridade dos juízes, e estes, em última instância, brilhante".7" Choice chamou-o de "espirituoso e iconoclasta". Na National
de seus próprios gostos. O livro Da Bauhaus ao nosso caos,
67 de Tom Wolfe, Review, um dos editores da revista, Sobran, escreveu que: "Sem dúvida, é um
representou um ataque arrasador à arquitetura moderna, tendência cujos prin- livro extraordinário. Como todos os seus livros, vai ser um deleite lê-lo depois
cípios haviam dominado o campo desde o final da Segunda Guerra Mundial até que todo o alvoroço houver diminuído e sua correção essencial tenha sido
assim i lada".7'

66 Kostof, "Foreword", Architects' People,


ed. Ellis and Cuff, xiii.
* Ivy League — a Liga da Hera, em urna referência à hera que recobre as paredes de seus edifícios
63 G. Stamp, "Review of From Bauhaus to Ow. House", American Spectator, abril de 1982, 32.
— é a denominação dada ao grupo de universidades americanas mais antigas e
quase todas localizadas na costa leste (N. do R.R.).
de maior prestígio, 69 S. Bayley, "Snapping Wolfe", The Listener, 15 de abril, 1982, 21.
67 T. Wolfe, Da Bauhaus ao nosso caos, 7 ° E. Nilsson, Library Journal, 12 de novembro, 1981, 2130.
trad. * (Rio de Janeiro: Rocco, 1990 [1981D. 71 Sobran, "Case Closed", National Review, 27 de novembro, 1981, 1426.
As resenhas negativas, todas feitas por críticos de arquitetura ou de arte,
abominaram o estilo de Wolfe, chamando-o de mordaz, maldoso, malicioso O leigo para quem Wolfe está escrevendo pode não ter um olhar mais
acurado para arquitetura do que ele mesmo, mas isso apenas enfraquece a
rancoroso.
ad hominem,Eles acharam o livro de uma verborragia fácil, repleto de ataques posição de Wolfe: corno ele pode criticar, com alguma autoridade, aquilo que
um livrinho sarcástico. Salientaram sua falta de originalidade e o não pode enxergar?72
fato de que o modernismo já estava em decadência há algum tempo. Na
Architectural Review,
o conhecido historiador da arquitetura, Joseph Rykivert, Poucas das resenhas negativas nem sequer mencionavam o fato de que a
classificou-o como "uma coleção de erros fatuais" e "um livreco insignificante arquitetura moderna não era do agrado do grande público. Sem dúvida, um dos
e enganador". Em The Nation,
Michael Sorkin, um arquiteto e crítico, escre- charmes do livro se deve a tal fato. O crítico do Punch, Stan Davies, expressou
veu que o livro era "um relato sem originalidade, ainda que maldoso, do que bem essa questão quando escreveu:
Wolfe acha que não está adequado na arquitetura moderna e nos arquitetos
modernos, em especial em suas roupas e em suas aparências". Você pode estar se perguntando por que o mundo ocidental está cheio de
O que havia de tão ruim em caixas de vidro nas quais todo mundo detesta viver ou trabalhar, até mesmo
te, Da Bauhaus ao nosso caos (daqui em
dian- as pessoas que as encomendaram e pagaram por elas.
DBNC)? As reclamações mais comuns feitas pelos críticos contrários eram
que a história de Wolfe estava errada e que seu estilo era malicioso. O argu- Você pode se perguntar, enquanto se debate caminhando pela mais nova
mento básico do livro é que a arquitetura moderna é simplesmente horrível e piazza varrida pelo vento, tentando se proteger da poeira e do entulho que
voam contra o seu rosto propelidos pelas lufadas da ventania provocada
que esse horror foi infligido aos americanos por um grupo de emigrados euro-
pelas monstruosidades de cinqüenta andares ao seu redor, porque os arqui-
peus, os quais haviam conseguido instalar-se na academia arquitetônica e con- tetos que construíram tudo isso deveriam ser os receptáculos de incontáveis
vencido a América capitalista a adotar, como sua fachada de conjunto, um honrarias em vez de serem jogados no rio mais próximo com algumas tonela-
estilo sem alma, desumano. Como várias resenhas, tanto favoráveis corno des- das de concreto em seus pés.
favoráveis, ressaltaram, sua história era Você pode olhar para Ludgate Hill e imaginar como era a aparência de St.
seletiva e inacurada. Sua idéia de que
o Modernismo havia sido impingido na América não era verdadeira, e inúmeros Paul antes de ter sido engalanado com cacos de cerâmica e talvez você chore.
comentaristas mencionaram que o tenor do livro de Wolfe era quase antieuropeu Você pode inspecionar o mais recente Haus der Kultur construído para dar
e nacionalista. Muitos o chamaram de conservador ou de direita. Mas, com um lar para Shakespeare e Mozart e, à medida que observa sua barbárie, pura
e simples, você poderá se perguntar por que Richard Sei fert e Sir Denys
certeza, ser uni historiador fraco ou uni contador de anedotas picantes não são
Lasdun não são sumariamente fuzilados. Neste caso, este livro de Tom Wolfe
pecados suficientes para justificar a contra-reação maldosa de considerar o vai informá-lo e também lhe dar novas esperanças."
livro corno "um regurgitamento violento e maciço do lixo psíquico de Wolfe",
contendo "quase toda a distorção, falsificação,geral desinformação e calúnia
com a qual alguém poderia atulhar as páginas de
um livro
esin tão pequeno" con-
forme escreveu o renomado arquiteto e projetista George Nelson. Criticas arquitetônicas a Wolfe
Sem dúvida, uma das falhas de Wolfe foi a de não ser um membro consa-
grado do pequeno e fechado círculo dos críticos arquitetônicos. Uma linha co-
Se ele não está preparado para trair sua classe, está ao menos
mum de defesa contra DBNC foi a de alegar que seu autor não tinha um olhar pronto para tagarelar. E quando chega o momento de defender de
de arquiteto para ver as coisas, de que ele não era melhor do que qualquer
fato alguma coisa, resulta que são Morris Lapidus, John Portman e
pessoa do público. Evidentemente, isto é apenas urna asserção do direito do
campo de julgar a si mesmo e de ser o Ed Stone aqueles Liberaces da arquitetura. Do mesmo modo, Wolfe
único juiz de si mesmo. Corno expôs confirma sua predileção por almofadas de seda tailandesa, sofás
David Greenspan na
Progressive Architecture:
Sua definitiva incapacidade de ver é
o que vicia totalmente a tentativa de
Wolfe de trazer a Verdade sobre a arquitetura moderna para o público ameri-
cano...
72 D. Greenspan, "Right Again?", Progressive Architecture, dezembro de 1981, 110.
73 S. Davies, "Crying Wolfe", Punch, 24 de março, 1982, 497.
revestidos com tecidos estampados de zebra, dourados e alguns
chotchkies À medida que se deixa levar por sua imaginação, uma vez que
espalhados pela casa. Essa é a apostasia escorregadia da
burguesia que demonstra, mas não completamente. A alta burguesia ninguém poderia acusar Wolfe de alguma preocupação com a vera-
influencia os gostos da pequena burguesia. Freqüentamos o Morey, cidade, ele se auto-intitula um crítico ou um historiador social, mas
mas bebemos nossa cerveja na garrafa. Que coisa mais pequeno bur- de fato não está interessado nem em história, nem em crítica. O que
guês! faz, até onde posso deduzir, é apenas fofoca. Não uma fofoca de
Finalmente, o livro de !golfe não produz nenhum efeito em razão comadres, para passar o tempo, mas urna fofoca maldosa. Uma fofo-
da banalidade de suas conclusões e do seu desprezo descarado por ca ambivalente, de tal modo que muitas de suas vítimas nem perce-
seu assunto. É claro que qualquer polêmica intimida os fatos. Wolfe bem que foram atingidas por um dos maiores fofoqueiros do mundo.
primeiro os maltrata, para depois asfixiar o que sobrou com a lama Imagino que isto, para Wolfe, seja um supremo prazer.
de sua prosa. Talvez porque seu material esteja tão longe de suas O único beneficio que posso encontrar neste livro perverso e
simpatias, o conhecido brilho de Wolfe transforma-se em lamúrias... corruptor é que, se for visto pelo que vale, um espelho distorcido de
Pode ter certeza, ele emprega praticamente tudo o que tem em seu uma realidade imensamente complexa poderá prestar um bom servi-
velho catálogo de truques... Mas a esperteza é apenas intermitente, ço como uni manual sobre lavagem cerebral e consciências
o
argumento não é apurado. Tom Wolfe é ótimo no esnobismo de ser lobotomizadas.
menos esnobe que os outros, em brincar de não ser enganado.
E ninguém é enganado. C. Nelson, "Tom Wolfe's Fantasy Bauhaus", American Institute of
Architects Journal, dezembro de 1981, 72, 74-75.
M. Sorkin, "Wolfe at the Door", The Nation, Sua clientela é uma nova direita xenófoba e filistina que (como
447. 31 de outubro, 1981,
fazem, em geral, os filisteus xenófobos) defende uma sanção
populista... As esposas dos empreendedores imobiliários que cons-
[O argumento de Wolfe] parece familiar, como devem ser as ca- truíram os mais horrorosos arranha-céus podem, com segurança,
ricaturas. O desmantelamento do dogma modernista vem ocorrendo deixar [este livro] sobre suas mesinhas de café.
há dez anos ou mais... Todos, até mesmo Wolfe, sabem alguma coisa
sobre isto. Porém ele não acrescenta nada novo ao argumento, com J. Rykwert, "Camp Clown", Architectural Review, junho de 1982,
exceção, talvez, de uma espécie de rancor arrogante e unia hostili- 70.
dade gratuita contra a intelligentsia.

R. Hughes, "White Gods and Cringing Natives",


1981, 73. Time, 19 de outubro,

r. As reações do campo ao livro de Wolfe podem ser compreendidas melhor


É essencial, em qualquer bom golpe que envolva um livro, que com as descrições apresentadas. Aos olhos dos arquitetos aristocráticos, Wolfe
as principais resenhas sejam críticas afiadas, que entrem nos míni-
cometeu dois grandes pecados: expôs que o jogo da cultura é um jogo e atacou
mos detalhes para mostrar que o comentarista sabe mais sobre o
assunto do que o próprio autor. No caso de o seu bom gosto. A hegemonia da fração dominante do campo restrito, a van-
caos, qualquer um teria passado no teste... Da Bauhaus ao nosso guarda consagrada, depende de que seu capital simbólico seja visto como uma
doxa, como evidentemente valioso em si. No momento cm que se torna possí-
O livro, que está sendo apresentado como uma história da arqui-
vel questionar tal capital, a fração dominante perde sua melhor forma de defe-
tetura moderna, é deliberadarnente mentiroso e vazio de conteúdo.
sa, porque este se transforma em uma ortodoxia, e contra uma ortodoxia é
A única razão para discuti-lo não é o livro em si, mas a poluição
geral que traz ao meio ambiente intelectual... sempre possível conceber uma heterodoxia. Escrevendo na London Review
qf Books, Reyner Banham percebeu tal fato quando tentava explicar a recep-
ção de DBNC na América:
No entanto, essa revelação amena de lugares secretos dificilmente pode ex-
plicar a reação quase paranóica que causou. Penso que algo peculiar — muito A entrada para a maioria dos campos culturais requer um investimento de
peculiar — à arquitetura moderna na América do Norte é o culpado por tal porte. Uma pessoa não pode simplesmente comprar seu acesso, ela tem de se
apreensão ligeiramente histérica. [A arquitetura moderna americana) não só é tornar culta, aprendendo toda a miríade de práticas e gostos que distingue
urna subcultura fechada, mas também já se tornou um sistema acadêmico alguém como digno de se pronunciar sobre estas mesmas práticas e gostos.
muito bem entrincheirado... Em aliança com a seção de arquitetura do Moscam A naturalidade do bom gosto vem do habitas, e este tem de ser inculcado
ofModern Art (fundado pela família de Philip Johnson) e com o desde a infância. A ambição de se tornar um crítico respeitado de arquitetura
establishment ou uni grande arquiteto requer muito mais do que a obtenção de uma educação
da história da arte (predominantemente alemão), eficientemente estabeleceu
uma agenda para três, senão quatro, gerações de arquitetos, artistas, críticos, ou conhecimento formal, ela requer uma lenta aquisição de todos os modos e
historiadores e designeis.
Ridicularizar tudo isso é ameaçar a segurança aca- maneiras da classe alta. Desse modo, o investimento necessário para ingressar
dêmica e intelectual de milhares que cresceram sob sua no campo e aspirar a seus mais altos louros não é uns meros anos de universi-
hegernonia.74
dade, é toda uma vida." Uma vez que um ataque ao campo é também um
Diferentemente das ciências, as áreas culturais, tais como a arte e a arqui- ataque a seus membros, Wolfe ameaçou causar a desvalorização desse consi-
tetura, não podem recorrer a externalidades para defender derável investimento.
seus julganxentos."
É bem verdade que todas as teorias arquitetônicas começam com algum tipo Um outro termo para esse investimento é "gosto". O oposto de gosto é a
de racionalização exógena (as proporções do corpo humano, a teoria platônica vulgaridade. E se os membros dominantes do campo da produção restrita — os
dos números, e assim por diante), mas estas desaparecem no decorrer de uma sacerdotes artísticos — são aqueles que, por definição, possuem o melhor dos
geração, à medida que o desejo natural do campo por autonomia assume o gostos, os piores gostos pertencem àqueles a quem os primeiros devem se opor,
comando. Nada ameaça mais o capital simbólico do dominante do que a de- àqueles que são economicamente ricos, porém pobres em capital cultural, àqueles
monstração que o estilo que defende é arbitrário, e não há melhor arma para da fração dominante da classe dominante — os homens de negócio, os empre-
expor a arbitrariedade do que o ridículo ou a paródia. Daí o horror demonstrado sários. George Nelson é quem melhor expressa o desprezo que o campo tem
pela crítica de fotografia Janet Malcolm, em um artigo na por aqueles que não possuem bom gosto, pelos inferiores sociais, expondo sem
Books: New York Review of se dar conta o aristocratismo essencial que é a própria essência da arquitetura:

Fui um admirador de Wolfe por muitos anos e achava suas excursões no


Wolfe, cinicamente desprezando a ideologia dos modernistas do século XX
mundo dos hippies, dos aficionados por carros sob encomenda, da miscelâ-
como sendo unia pose, escreve sobre a arquitetura moderna como se fosse nea de pessoas insignificantes tentando alcançar alguma posição,
algo que tivesse sido colocado na terra simplesmente para irritá-lo, sem ne- esclarecedoras e engraçadas. A fofoca cai bem com tais temas; de qualquer
nhuma história social e cultural. Sua teoria de uni universo fechado da arte — modo, não há muito mais a fazer com eles. Sua característica unificadora
que reduz a revolução modernista na arte, literatura, música, (entendendo sempre que existem exceções) é que todos querem ser alguém.
design e arquite-
tura no nível de um programa de estudantes de segundo grau invadido por Um autor pode ridicularizá-los e ninguém se importa.
rodas de boêmios exibicionistas — não é meramente absurda, é preocupante." Arquitetos, artistas, cientistas e demais pessoas desse tipo habitam
urna região muito diferente. A característica que unifica seus ocupantes é um
desejo de fazer algo, e o ato de fazer, nos melhores casos, é geralmente volta-
do para uni nível idealista... Há uma dignidade em tais aspirações que as
74 pessoas reconhecem e respeitam, e, mesmo que os esforços sejam quixotes-
It. Banham, "Thc Scandalous Story ofArchitecture in Ainerica", cos ou utópicos, um autor não pode ridicularizar tais pessoas sem correr o
n2 7 (1982): 8. London Review of Books
75 4, risco, em última instância, de desagradar seus leitores."
Se as pessoas aceitam tais externai idades como uma justificativa
suficiente uma outra questão.
Um dos sucessos da moderna sociologia da ciência tem sido Mostrar quanto aé ciência depende de
urna realidade socialmente construída. A questão é que — pelo menos no momento — a arquitetura
explicitamente depende da autoridade conferida por gênios carismáticos. " Ver Bourdieu, Sociology in Question.
" J. Malcolm, "Wolfe in Wolfe's Clothing",
New York Review of Books "ig G. Nelson, "Tom Wolfe's Fantasy Bauhaus", American Institute of Architects Journal, dezem-
28, lig 14 (1981): 15-16.
bro de 1981, 79.
uarry Stevens
O círculo privilegiado 133

Sempre fico irritado quando leio este trecho. Não sabemos se ficamos
chocados pelo completo desdém de Nelson pela "miscelânea de pessoas insig- facilitavam essas estratégias R° Em 1988, o deconstrutivismo ingressou de forma
nificantes" ou por sua estarrecedora presunção quanto à superioridade natural explosiva no campo da arquitetura. Se alguém estivesse escrevendo uma histó-
de suade
própria classe. Deixo a última palavra para Arthur Drexler, diretor da ria puramente internalista da teoria arquitetônica, teria dificuldade em explicar
seção design como algo que é, essencialmente, uma teoria literária veio a ter alguma ligação
e arquitetura do MoMA, em um artigo no
AIA Journal: com a arquitetura. Até mesmo o seu criador, Jacques Derrida, ficou de certo
Li modo mistificado com a sua aplicabilidade à arquitetura. Porém outras teorias
a crítica de George Nelson do desagradável livrinho de Tom Wolfe com
uma emoção que bem pode ser descrita como euforia... Nenhuma pessoa da arquitetura brotaram de premissas ainda mais frágeis; e se a sociologia
culta levou a sério aquele produto, mas a resenha de Nelson distingue-se das ensina alguma coisa, é que o conteúdo de tais teorias tem apenas um papel
demais por tratar da verdadeira questão: o erro no livro do Sr. Wolfe não está modesto na determinação de seu sucesso ou fracasso histórico. Mais impor-
em sua tendenciosa desinformação, por mais irritante que possa sei; mas em tante é a extensão na qual podem ser utilizadas como instrumento nas disputas
sua inexorável, acachapante e desalmada
vulgaridade." que preocupam os membros da elite do campo.
A deconstrução (ou deconstrutivismo) possui inúmeras propriedades que a
A chegada do deconstrutivismo tornaram atraente para um grupo de arquitetos e críticos desejosos de se esta-
belecer como poder no campo:
Por volta de 1980, os indignados profetas modernistas e seus sucessores
haviam adotado as vestimentas sacerdotais e estavam mais uma vez aliados • A teoria já havia provado sua eficácia na derrubada de uma vanguarda
estabelecida em outro campo.
com a burguesia, ficando assim vulneráveis a urna nova onda de profetas para
denunciá-los como traidores da pureza arquitetônica. As posições ocupadas • Existia um mercado estabelecido de consumidores culturais.
pelos vanguardistas do Movimento Moderno haviam ficado desocupadas por • A teoria tinha potencial para valorizar a autonomia do campo.
ocasião de suas mortes. Havia uma menor disposição por parte da classe domi- • A deconstrução havia se originado em um campo com uma estrutura social
nante de aceitar o princípio básico de avaliação do capital simbólico do campo homóloga ao da arquitetura.
(o princípio autônomo de estratificação), o grau em que este se adaptava aos • A deconstrução exige um volume substancial de capital simbólico para ser
princípios estabelecidos pelo movimento. Um aumento substancial no número implementada.
de formados em arquitetura nos Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mun-
A eficácia da deconstrução na eliminação de um velho sistema acadêmico
dial, gerou uma pressão por novos nichos no campo. Que nova arma ideológica
havia sido demonstrada com seu sucesso nos departamentos de literatura ame-
os recém-chegados poderiam empunhar contra a fração dominante de seu cam-
ricanos. Essas estratégias tinham apenas de ser emuladas, em vez de pensadas
po? Uma vez mais, e de modo bastante inconsciente, as novas vanguardas
do nada. Mais ainda, a deconstrução havia se estabelecido nas mais eminentes
empregaram o princípio da homologia de posição e importaram uma ideologia
parcelas do sistema acadêmico americano, as escolas da Ivy League. Uma
que havia se mostrado muito eficaz na reestruturação do campo da produção
literária, impulsionando sua revolução teórica realizada em qualquer outro lugar que não nas instituições
derridaniana. vanguarda para posições de poder: a dominantes do campo arquitetônico é apenas uma rebelião de camponeses.
deconstrução
A deconstrução era, portanto, um capital simbólico de considerável valor antes
Os desenvolvimentos intelectuais dependem, para seu sucesso ou fracas-
mesmo de ter ingressado na arquitetura. A maior parte do trabalho de sua
so, do grau de apoio que seus partidários conseguem obter para a sua aceita-
valorização já havia sido feita — a vanguarda arqui-tetônica teve, tão-somente,
ção. Nos anos 1970, a deconstrução havia sido adotada por acadêmicos da
de importá-la. Antes da deconstrução, os departamentos de literatura estavam
literatura
status em Yale, Cornell e Johns Hopkins para promover suas carreiras e o
na defensiva, pressionados pelas universidades para igualarem sua produção
de sua disciplina, bem como as propriedades do deconstrutivismo que

79 A. Drexler, carta
ao American Institute ojArchitects Journal, ° M. Lamont, "How to Become a Famous French Philosophcr: The Case ofJacques Derrida",
fevereiro de 1982, 8. 8
American Journal of Sociology 93, nn 3 (1987): 584-622.
•-• v G , IJ
O círculo privilegiado 135

de pesquisas àquela das ciências. A deconstrução impulsionou-os para posi-


çõescde relevo em suas universidades, para o próprio centro do debate intelec- A deconstrução é uma estrutura teórica particularmente densa, exigindo
tual
ontemporâneo.'" O mesmo não poderia acontecer com a arquitetura,que um grande esforço para ser compreendida. Debatendo-se com esse típico pro-
havia dado para o mundo o termo "pós-moderno"? duto da intelectualidade galesa, Geoffrey Broadbent lamenta-se:
Um dos problemas perenes dos produtores da vanguarda é que eles produ-
zem à frente da demanda do mercado por seus produtos. A Mais ainda, é evidente que Derrida e seus intérpretes pretendiam de fato que
deconstrução criou isso fosse difícil. Sua intenção é fazer com que nos sintamos inadequados,
um atalho nesse desafortunado efeito ao presentear os arquitetos com um merca- para que eles pareçam ser mais inteligentes do que nós (...) [Tentativas] de
do existente de consumidores literários. As elites culturais já estavamprep crítica foram rejeitadas arrogantemente, violentamente, até mesmo com a ale-
a-
duzi-lo.para um decons-trutivisrno arquitetônico. Só faltava alguém para ro-
radas gação de que tais enfoques violam a própria natureza da "Deconstrução"...
p Até os entusiastas são bombardeados por tentar explicar a deconstrução
A deconstrução possuía grande potencial para aumentar a autonomia do para torná-la inteligível para os simples mortais... Fica claro que os
campo: ela é sublimemente formal, ascética e intelectual: e formalismo, por deconstrutivistas se sentem ameaçados quando alguém tenta expor seu cul-
definição, é um retiro adequado para unia pureza hermética, pureza que pode to esotérieo.82
ser apreciada e julgada somente por aqueles com os instrumentos certos para
A teoria deconstrutivista da arquitetura é igualmente obscura — por com-
paração, até o trabalho de Bourdieu é cristalino, e isto não é uma constatação
estas não ameaçam as relações entre os produtores culturais e a fraçãoporque
domi- desprezível. Ao fazer com que a teoria seja difícil de ser apropriada, aqueles
nante da classe dominante e trabalham a favor da manutenção da autonomia que a defendem podem evitar também sua desvalorização pela limitação de
arquitetônica. O recuo para o formalismo é a estratégia por excelência para seu uso a um círculo mais ou menos fechado de vanguardistas. Caso se consi-
ga valorizar a arquitetura deconstrutivista como o capital simbólico de valor no
emitirunia
isto, vez que assegura que apenas aqueles treinados no campo podem
julgamentos.
campo arquitetônico, sua teoria contém em si mesma um meio muito eficiente
Bourdieu ressaltou que os bens culturais não são como o dinheiro: eles não de proteger seu próprio valor: o outsider vulgar é impedido de adquirir o capital
podem ser simplesmente pelos meios mais elementares.
consumidos.
A arte de vanguarda, em especial,pode Isso tem a ver com a quarta propriedade que tornou a deconstrução atraen-
ser consumida apenas por aqueles que possuem o aparato mental certo, os es-
te para a vanguarda arquitetônica: sua dinâmica interna foi estruturada
quemas certos de apreciação, os códigos certos para decifrá-la. Um indivíduo
pode ter acesso a um bem cultural ou até mesmo possui-lo, mas somentepode homologamente à dinâmica de pensamento na comunidade acadêmica
arquitetônica. Em suas interessantes e divertidas comparações, o sociólogo
consumi-lo por meio dos esquemas certos de apropriação. Isso serve para manter
a raridade do capital cultural: ainda que possa estar facilmente disponível nos Johan Galtung ressalta que o ethos básico do mundo intelectual anglo-america-
museus, como edifícios ou na mídia, um bem cultural pode ser consumido ape- no deve muito às velhas tradições empiricistas e positivistas. Seja na filosofia
nas por aqueles que possuam as disposições ou na física, o dado é mais importante que a teoria, e o trabalhador intelectual
(habitas) e dedicaram seu tempo
para adquirir os instrumentos de apropriação. A cultura dominante pode estar fica feliz em sua labuta diária para acrescentar mais uma pequena peça ao
em toda parte, porém ela só pode ser consumida pelas frações dominantes. quebra-cabeça maior:
Quanto mais complexos os instrumentos necessários para sua decifração e
Com certeza, eles não são conhecidos por teorias arrasadoras e revolucio-
quanto maior a tendência de a arte estar repleta de códigos, duplos códigos e
nárias, por grandes perspectivas, por ter iluminado vastas áreas à custa dc
referências, mais a sua raridade é preservada e, por conseguinte, apreciada
sentido econômico). todas as nuanças, das sombras nas fendas e dos despenhadeiros de dúvi-
(no

s i B.
Robbins, "Poaching off the Disciplines",
Raritan 6, r? 4(1987): 8 82 G.Broadbent, "Deconstruction: A Student Guide", Journal ofArchitectural Theory and Criticisin
-96.
1, n22(1991): II, 35.
das, e assim por diante. Pode-se mesmo imaginar que um pesquisador saião
mediano ficaria tonto caso uma pirâmide teórica se elevasse cinco centime- (esta idéia está arraigada em todos os jovens cientistas franceses). Ele confir-
tros acima do chão." ma a importância das teorias. Ele confirma a natureza esotérica da ciência, a
qual está sempre em ruptura com o que se conhece... A ciência nunca é pura
Um critério-chave de seriedade acadêmica é o de ter escrutinado minucio- o suficiente — deveria estar cada vez mais distante do senso comum, cada vez
samente as fontes, de ter avaliado todos os dados. As comunidades intelectuais mais livre de traços empíricos... Pureza, cada vez mais pureza, é a máxima
bachelardiana."
tendem a se considerar como comunidades de artesãos, dotados de habilidades
e intelectos sem dúvida diferentes, porém com o suficiente em comum para se
A intelligentsia arquitetônica sempre pareceu ser mais francesa ou alemã
comunicarem uns com os outros de modo efetivo e significativo. Na Alemanha
em sua estrutura do que anglo-americana, optando pela preferência européia
e na França, cada comunidade é formada por muitos reinos distintos. O filósofo
por teorias (algumas homologias gerais estão resumidas na Tabela 3.4). Na-
britânico R. M. Hare costumava contar a história de um parente seu que estu-
queles lugares elevados em que vivem as vanguardas arquitetônicas, nunca
dara filosofia com Edmund Husserl em Freiburg. O enfoque de Husserl consis-
houve qualquer empatia pela predileção anglo-americana pelo trabalho intelec-
tia em apresentar seis volumes encadernados e dizer: "Aqui estão os meus
tual de pequena escala e orientação empírica. São todas teorias grandiosas,
livros: volte daqui a um ano"." É exatamente a mesma atitude que fica aa-
rente nesta história sobre Mies van der Rohe: p manifestos grandiloqüentes. E, ao cabo, tais teorias não são nada mais do que a
visão pessoal do arquiteto-profeta. Elas podem começar como algum tipo de
percepção de um problema do mundo real, porém têm muito pouco a ver com
Uma vez perguntei a Mies, quando era seu estudante, "se a grande arquitetu-
ra deve ser urna continuação das formas retilíneas suas, por que deveria dados precisos, indisputáveis, como nota Spiro Kostof na citação feita mais
haver um outro arquiteto? Será que o nosso futuro será constituído apenas acima. A noção básica anglo-americana de confrontar teorias com a evidência
de cópias do seu trabalho?" A resposta de Mies foi: "Bem.., será que isso não é irrelevante. Uma vez que o Mestre tenha construído uma teoria da arquitetu-
é suficiente?"
ra, isto basta. Como em um culto religioso, não há mais testes das proposições
iniciais, apenas o desenvolvimento pessoal da visão do grande arquiteto. A Ver-
A França e a Alemanha tendem a privilegiar a teoria em detrimento dos dade arquitetônica nunca é alcançada pela obtenção de uma correspondência
dados, a realidade da qual a teoria fala parecendo ser "uma realidade mais entre o mundano e o teórico, mas pela criação de um grande monumento.
real", como diz Galtung, uma realidade livre de ruídos e impurezas daquilo que O olho para a arquitetura sempre foi alçado ao transcendental. Caso lhe fosse
os anglo-saxãos obstinadamente consideram o mundo real. Escrevendo sobre feita a pergunta tipicamente anglo-saxã sobre se as teorias de Palladio são
a tremenda influência na França do filósofo da ciência e poeta Gaston Bachelard, "válidas" ou "verdadeiras", qualquer historiador da arquitetura franziria suas
dois sociólogos da ciência comentaram:
sobrancelhas de surpresa diante da absoluta irrelevância da questão. Quando
lhe fosse dito que os edifícios de Palladio quase nunca correspondem a qual-
Ele confirma a noção francesa de revolução: você não é um cientista se não quer um de seus trabalhos teóricos, o historiador daria de ombros." Tais fatos
engendrar urna revolução radical que subverta totalmente o estado da ciência não impedem que tanto seus escritos como seus edifícios estejam entre os mais
influentes da história. Palladio é um mestre, consagrado pelo campo como um
83 .1. gênio, e isto é o bastante.
Galtung,
Gallic "Structure, Culture, and Intellectual Style: An Essay Comparing Saxonic, Teutonic,
and Nipponic Approaches",
Social Science Information
de Galtung são apoiadas em outras áreas, por exemplo, por 20, ns26 (1981): 828.
G. Bowker e B.As teorias
Latour,
"A Booming
of Science 17 Discipline Short Discipline: (Social) Studies of Science in France",
View", Social (1987): Social &utiles
Studies 715-748;
ofSciencee G. Freudenthal, "Science Studies in France: A Sociological
84 20 (1990): 353-369.
R. M. Hare, "A School for Philosophers",
" Citado em N. L. Prak, Ratio 2 (1960): 107-120.
97. Architects: The Noted and the Ignored 86 Bowker e Latour, "A Booming Discipline Short of Discipline", 724.
(Chichester, GB: WileY, 1984),
" D. Howard e M. Longair, "Harmonic Proportion and Palladio's Quattro Libri", Journal ofthe
Society of. Architectural Historians 41 (1982): 116-143.
As maneiras européias de ser Campo intelectual
um intelectual anglo-americano
Campo arquitetônico Campo intelectual francês

Ciências naturais são Teoria e história são Filosofia e literatura são


[Na França há] uma admiração pelo poder de convicção, a exi- dominantes subcampos dominantes dominantes
bição verbal, o brilho que emana dos luminares. Mas nunca existirá Objetivo final é Estilo é valorizado como um
Estilo literário enfatiza desenvolver um estilo
urna comunicação completa, no mínimo porque cada mestre possui clareza e simplicidade fim em si
pessoal forte
sua própria linguagem. Um esforço por parte de alguém no sentido Principais arquitetos são
Intelectuais são
Intelectuais são pouco personalidades públicas
de informar que recebeu a mensagem será rejeitado com firmeza como conhecidos fora de seus
muito conhecidos no
importantes, de quem se
campo e opinam sobre
uma infração da integridade pessoal do mestre: "Você não me enten- campos vários assuntos
espera participação na vida
deu corretamente, eu não disse..." Esforços para demonstrar a pública
Figuras principais são Figuras principais são
reprodutibilidade serão desprezados como tentativas de plágio, corno carismáticas,
falta de originalidade de ambos os lados. Poucas figuras carismáticas carismáticas, desenvolvendo
desenvolvendo escolas de escolas de seguidores
seguidores
Na Alemanha, a estrutura parece ser; em geral, acentuadamente Sociologia pouco
piramidal. Havia um tremendo respeito pelo Sociologia bem Pouco interesse teórico
desenvolvida como
Professor, um respeito desenvolvida em questões sociais
disciplina
sem fingimentos, verdadeiro, e seu relacionamento com assistentes
Principais orientações:
menos importantes e estudantes era o do mestre com seus discípu- empirismo e positivismo Orientação hermenêutica Orientação antiempirica
los... Na Alemanha, as pessoas se orgulham de ser discípulos e se moderado
referem a si mesmas corno seguidores deste ou daquele Intelectuais vistos por vezes Arquitetos vistos como Intelectuais definem
Meister... [Os] como refinados, por vezes indivíduos refinados refinamento
discípulos compreendem o mestre e, ao fazê-lo, aceitam sua teoria como pedantes
sem ter de desafiá-la em sua essência... Quase nunca ouvi flar
so na França: lá, tem-se a impressão de que todos se consideram a
mesmos como um mestre, ou um mestre em `si
status nascenti. Pode-se
estar trabalhando no departamento ou no laboratório de outra 9es- Tabela 3.4 Comparação de algumas propriedades de três campos intelectuais.
soa, mas isto é um insulto temporariamente necessário à dignidade e
à mente humana, a ser rapidamente superado. Depois, será escrita a
síntese definitiva de Marx e Freud.
colas como o movimento Artes e Ofícios, tão britânico em seu amor pelas
coisas terrenas, parecem insignificantes quando comparadas ao impacto e ao
J. Galtung, "Structure, Culture and Intellectual Style: An Essay estrondo causados pelos modernos teutônicos.
Comparing Saxonic, Teutonic, Gallic and Nipponic Approaches",
Sciences Information Social Assim, o clima intelectual no qual a deconstrução derridaniana floresceu
20, r0 6 (1981): 835, 836. em sua França natal era semelhante àquele prevalecente na arquitetura anglo-
americana. A estrutura do campo acadêmico na qual o deconstrutivismo está
imbricado é diretamente transferível para a arquitetura. Porém a deconstrução
não poderia ter dado certo como deu sem a ajuda de críticos e editores, todos
Sem dúvida, isso explica o curioso papel das teorias arquitetônicas anglo- batalhando — da forma mais elegante possível, é claro — pelo sucesso no cam-
americanas na história da arquitetura ocidental. Pode-se sugerir que as comu- po." Em fins dos anos 1980, Charles Jencks havia se estabelecido como um
nidades arquitetônicas anglo-americanas vivem em um constante estado crítico e historiador cujas opiniões deveriam ser ouvidas. Jencks aderiu cedo à
de tensão entre a fidelidade ao luta, sabendo que, mesmo se a arquitetura deconstrutivista não fosse de seu
modus operandi
intelectual de seus países de
origem e uma atração pelas culturas mais nobres da França ou da Alemanha.
Em época alguma, um movimento arquitetônico originário do Reino Unido ou
dos Estados Unidos veio a dominar o pensamento arquitetônico ocidental. Es- 88 Muito do material neste parágrafo baseia-se em informações que me foram dadas por Geoffrey
Broadbent.
agrado, sua posição como crítico reconhecido resistiria não apenas enquanto o
campo o reconhecesse, como também enquanto ele reconhecesse
Andreas Papadakis, proprietário da Academy Editions e primeiro editoro campo.
de te urna década, na qual projetou em média uma pequena casa por
Language of Postmodern Architecture, The ano, Eisenman impulsionou seu próprio nome para a linha de frente
de autoria de Jencks, havia promovi-
do Zaha Hadid e Bernard Tschumi alguns anos antes. Papadakis havia desen- da comunidade arquitetônica por meio de artigos esporádicos em
volvido uma técnica de marketing Oppositions, o jornal do instituto, e em Skyline, sua revista mensal, e
de grande sucesso. Esta consistia em orga-
nizar seminários com conferencistas de importância recente ou controvertidos, de urna série regular de eventos no Institute for Architecture and Urban
dos Estados Unidos ou do Japão, para uma tarde de discussões com uns qua- Studies.
renta ou cinqüenta convidados e, em seguida, publicar os resultados primeiro
em artigos profusamente ilustrados na revista D. Ghirardo, "Eisenman 's Bogus Avant-Guarde", Progressive
AD Architectural Design de-
pois em livros. Jencks sugeriu um simpósio sobre a deconstrução, que foierea- Architecture, novembro de 1994, 72.
lizado em 1988 na prestigiosa Tate Gallery, em Londres. No mesmo ano, Philip
Johnson realizou uma exposição semelhante em Nova York, no MoMA. Acho que, neste caso, Ghirardo tomou o rumo errado. Tais táti-
A questão é que a deconstrução não foi bem-sucedida por causa de algu- cas não foram inventadas por Eisenman. A autopromoção está em
ma superioridade estética, mas sim porque certos indivíduos e instituições im- todo canto quando se trata das vanguardas arquitetônicas. Confe-
portantes no campo se mobilizaram para apoiá-la. rências, artigos na imprensa tanto profissional como popular, expo-
sições individuais e de grupos foram todos rotineiramente emprega-
dos, pelo menos nos últimos cem anos, para promover as idéias de
alguém. Antes disso, escreviam-se tratados. A autopromoção impiedosa
O caso Eisenman e a mobilização de capital social — amigos nos lugares certos — são a
própria essência de todas as tentativas fritas por aqueles que estão
nas posições subordinadas do campo para se impulsionar em dire-
Entre todos os valores mais venerados pela arquitetura, a originalida- ção ao topo. Muitos dos heróis do Movimento Moderno fizeram exa-
de classifica-se em primeiro lugar. No entanto, poucas são as disciplinas tamente a mesma coisa. Ghirardo, na verdade, ilustra habilmente a
que se apropriam tanto de teorias de outras corno a arquitetura. Cito como opinião de Bourdieu de que as revoluções de vanguarda são apenas
exemplo a altercação entre a acadêmica da arquitetura Diane Ghirardo e parciais, buscando subverter somente a hierarquia no interior do
o arquiteto Peter Eisenman. Em um artigo na campo, sem destruir o campo em si. Ela ressalta:
Progressive Architecture,
Ghirardo acusou Eisenman de ter conseguido transformar o que era uma Eisenman representa o desejo de adotar uma estética de van-
obra pequena e medíocre em um movimento do maior destaque: guarda, de controlar as fronteiras da cultura por meio de uma atitu-
Mais do que qualquer um de seus pares, a proeminência de de desafiadora de independência, simultaneamente gozando de to-
Eisenman baseia-se em seu extraordinário talento não só para pro- dos os benefícios de ser um ícone cultural central.
mover sua própria causa com uma habilidade sem precedente, como
também para convencer os outros a alçá-lo à proeminência. D. Ghirardo, "Eisenman Bogus Avant-Guarde", 72.
O conceito que melhor descreve a
performance de Eisenman é o
de um jogo, um jogo com o duplo objetivo de ganhar e nunca chegar Mas esse não é o aspecto que quero discutir, mas sim a reação de
ao fim. Com
um talento estudado para o jogo de cena, mais próximo Eisenman ao artigo. Eisenman adota exatamente as mesmas táticas em-
de R T Barnum do que de Wali Disney, em princípios dos anos 1970 pregadas por seu mentor, Jacques Derrida, em suas escaramuças com
Eisenman logrou transformar um minúsculo porgfólio de projetos e Thomas Sheehan sobre uma resenha que este último fez de um livro sobre
um vasto círculo de conhecidos em uma nova instituição, o Institute a controvérsia heideggeriana (a resenha de Sheehan foi publicada na New
.for Architecture and Urban Studies, com sede em Nova York. Duran- York Review of Books, 14 de janeiro, 1993, p. 30. Uma troca de corres-
pondências ocorreu nos cinco números seguintes, todos de 1993: 11 de
fevereiro, p. 44; 4 de março, p. 57; 25 de março, p. 65; 8 de abril, p. 49; 22
de abril, p. 68). Sheehan alegava que o livro em questão havia sido reco-
lhido após ameaças de medidas legais por parte de Derrida, em razão
de comentários críticos feitos sobre ele em seu prefácio. Após meses de
xingamentos e vituperações, as ofensas pessoais terminaram com um abai-
xo-assinado de 25 intelectuais em apoio a Derrida. Os comentários finais
de Sheehan foram:
O campo através dos tempos
A questão no affaire
Derrida é somente uma: não os direitos de
tradução ou a versão dos dativos franceses, mas o ego de Derrida e
a força que ele pode colocar a seu serviço, incluindo o poder de
encomendar — por meio de uma rede de faxes e telefonemas (e uma
boa dose de quedas de braço, segundo todas as informações) — as Um tríplice espaço social
duas cartas acima publicadas.
Que ironia que Derrida, tendo estabelecido uma linguagem para Até aqui venho descrevendo em linhas gerais a estrutura sincrônica do
criticar o poder e para deconstruir os imperialismos da autoria, ago- campo, aquela que existe em um dado momento. Neste capítulo quero discutir
ra se exiba, sob os aplausos de seus acólitos, como o próprio psico- as mudanças nessa estrutura no decorrer do tempo.' Vou começar tal análise
pata da pompa do podem: e ameace recorrer à mais antiga e brutal ressaltando que os arquitetos do campo não podem ser considerados como um
das armas, a polícia. todo homogêneo, porém devem ser tratados de acordo com suas localizações
no espaço social do campo, um espaço que é estruturado pela quantidade e
T. Sheehan, Carta para a pelo tipo de capital material e simbólico que os arquitetos possuem e pelos relacio-
1992, 69. New York Review of Books, 22 de abril,
namentos entre eles. Estendendo o conceito para além do uso que Bourdieu faz
do termo, o espaço social dos arquitetos pode ser visto como um meio ambien-
Não tenho como me posicionar quanto à validade do argumento inici- te, assim como um meio ambiente biológico, no qual os arquitetos competem
al de Sheehan, mas concordo com ele em que a reação geral de Derrida por recursos. A história da comunidade arquitetônica — seu tamanho, cresci-
ao livro sobre Heidegger e à resenha de Sheehan foi uma provocação. mento, expansão ou retração — depende do tamanho absoluto daquele meio
Em uma iniciativa idêntica e emocionada, Eisenman conseguiu convocar ambiente e da quantidade e da natureza dos recursos por ele disponibilizados.
apenas 17 amigos para descarregar seu ódio em Ghirardo, em uma rea- Concebo o ambiente arquitetônico do mesmo modo como Bourdieu concebe
ção exagerada e igualmente intimidante (P. Eisenman o espaço social: como um espaço no qual operam ambos os recursos, simbólico
Responds", Progressive Architecture, et al., "Eisenman
fevereiro de 1995, 88-91). Em quatro e econômico. Assim como os arquitetos podem ser diferenciados pela quanti-
densas páginas, puderam apresentar uma crítica de Ghirardo dez vezes dade de capital econômico e simbólico que possuem, eles também podem ser
mais longa do que seu próprio artigo (ainda que com um décimo de sua
inteligibilidade).

Devo advertir o leitor que esse tipo dc análise nunca foi tão popular nos países dc língua inglesa
corno na Europa. Adotar unia longa perspectiva temporal e buscar padrões que abarquem
séculos e continentes têm sido, em geral, considerados corno maluquice pelos historiadores
americanos e ingleses, ainda que seja a base de muitos historiadores franceáes. Ver os comentá-
rios sobre a reação americana à obra do grande historiador francês Fernand Braudel em D. H.
Fischer, The Great Wave (Nova York: Oxford University Press, 1996), um raro trabalho angltifono
nesta tradição.
diferenciados por seus
meios ambientes: alguns vivem em contextos domin
dos pelo econômico, outros em habitats Assim como no caso do subcampo dos economicamente dominados, o
Apesar de ser um continuam, dominados pelo simbólico.
tamanho do subcampo dos famosos também é limitado pelos recursos disponí-
o espaço social do arquiteto pode ser abor- veis. Existe apenas um certo tanto de dinheiro em circulação e, portanto, existe
dado com urna divisão tríplice baseada na natureza dos recursos dominantes
envolvidos: estes podem ser rotulados de setores econômico, intermediário e apenas um certo tanto de reputação, fama, aclamação, ou que outro nome se
simbólico. Uma vez que cada grupo de arquitetos vive em um meio ambiente quiser dar, para "sustentar" os famosos. Estudando os filósofos, Randall Collins
diferente, a dinâmica histórica de cada um varia. Mas, apesar desenvolveu o seguinte princípio:
das variações, os
processos que operam em todos os ambientes são semelhantes, no sentido de Eu sugeriria que, em um campo e em urna determinada época, há espaço
que os indivíduos estão engajados em uma competição por recursos finitos e estruturado somente para um número limitado de intelectuais criativos de
que tal competição estabelece limites ao tamanho da comunidade e à sua taxa grande eminência (já me referi a isso em outra ocasião como "a lei dos peque-
e ao tipo de crescimento.
nos números"). Disto decorre que as "oportunidades de mercado" estão
Em um extremo do espectro está o vasto corpo dos praticantes cotidianos restringidas pelo número de rivais que alguém tenha em um campo competi-
da atividade, vivendo em um mundo dominado pelo econômico. Nesse subcampo tivo. O que conta como sendo criativo, por ser socialmente validado na rede
intelectual, é determinado não por meros antecedentes individuais... mas tam-
(ao qual me refiro também como setor subordinado), a recompensa essencial é
o bém pelo desenvolvimento da estrutura de oportunidades, no campo e na-
dinheiro e a satisfação pela tarefa bem feita. Os indivíduos competem tendo quele momento, para todos os demais.'
o base suas habilidades vendáveis, e o recurso básico pelo qual competem é
por
trabalho. Estar se saindo bem significa conseguir um bom emprego em um A teoria de Collins sobre a dinâmica social dos intelectuais pode ser pro-
bom escritório. O número de praticantes é limitado, em última análise, por fato- veitosamente aplicada para enriquecer o modelo aqui apresentado. Com uma
res tais como a quantidade de construções sendo feitas e as oportunidades de clareza fora do comum em um sociólogo, ele argumenta que o motor essencial
mercado disponíveis para os arquitetos. O inundo pode manter somente um da história intelectual é o conflito entre indivíduos, a competição para apropriar
certo número de arquitetos, porque há apenas um certo tanto de trabalho para e elaborar o capital intelectual existente.' Essa é uma formulação muito próxi-
eles fazerem. A história da profissão é, em parte, a história de suas tentativas ma da idéia de Bourdieu do campo como um campo de batalha. Há dois tipos
de expandir seu meio ambiente e os recursos nele disponíveis, de tal modo que . de processos em ação. Um opera no espaço, sincronicamente, à medida que os
possa suportar mais arquitetos: rechaçando a voracidade de outras ocupações, 1 indivíduos competem pela eminência. Os comportamentos observados depen-
buscando proteção dos predadores via licenças, obtendo mais clientes (recur- dem da estrutura do campo: quantos indivíduos existem, em que posição estão
sos), prestando mais serviços, e assim por diante. Esse setor não possui contro- em seu ciclo de vida criativa, o número de recém-chegados comparado com o
le algum sobre as forças econômicas que o dominam e sofre todos os efeitos de praticantes estabelecidos e os vínculos entre eles. O segundo processo ope-
dos ciclos da economia nacional.
ra ao longo do tempo, à medida que os arquitetos transmitem capitais simbóli-
Considere agora as características do subcampo menor e mais prestigiado, cos entre si através de redes de relacionamentos pessoais.
localizado no outro extremo do continuam.
Os arquitetos mais eminentes pos- Nem todo arquiteto pode dominar o campo, porque dominar significa domi-
suem as maiores quantidades de capital simbólico. Eles existem em um espaço nar os demais. Os líderes precisam ter seguidores, caso contrário não lideram
dominado pelo simbólico e pelos recursos simbólicos. Nesse setor, a recompen- ninguém a não ser a si mesmos. O argumento de Collins é que os intelectuais
sa almejada é a reputação de ter uma alta criatividade, reputação esta que operam em um tipo particular de espaço social que define os limites do possí-
ficará para a posteridade. A competição está baseada em convencer o campo
a aceitar suas idéias pessoais sobre o que é arquitetura e como deveria ser feita
e em realizar tais idéias na forma construída. Os recursos em jogo não são
materiais e sim porções intelectuais ou simbólicas do campo intelectual. Estar R. Collins, "A Micro-Macro Theory of Intellectual Creativity: The Case of German ldealist
Philosophy", Sociological Theosy 5 (1987): 48. Uma exposição completa pode ser encontrada
se saindo bem significa ocupar um nicho no discurso da arquitetura, ser um
em Collins, The Sociology of Philosophies (Cambridge, MA: Belknap Press, 1998).
tópico de conversa entre os demais arquitetos e adquirir faina duradoura. 3 R. Collins, "Toward a Theory of Intellectual Change: The Social Causes of Philosophies",

Science, Technology and Human Values 14, no 2 (1989): 107-140.


vel. Estes limites são estabelecidos não apenas pela natureza do campo no qual
operam durante suas vidas, mas também pela história subseqüente do campo. historiador como "uma das publicações indispensáveis dos últimos anos".5
Dizer que há espaço somente para alguns arquitetos de alta eminência é dizer Examinando-a para o Journal of the Society of Architectural Historians, o
também que as gerações seguintes olharão para trás e farão seus próprios renomado historiador James O'Gorman escreveu:
julgamentos quanto ao gênio, rebaixando uns e elevando outros, permitindo que
apenas uns tantos sejam verdadeiramente eminentes. Esta é a flor da erudição de nossa geração... É uma aquisição bem-vinda
para nossa bibliografia de referência... Porque é um monumento maior de
Em qualquer momento determinado, o campo intelectual tem espaço so- informação sintética de nossa geração e um milagre nada pequeno da
mente para um certo tanto de gênios. Caso o espaço simbólico já esteja total- editoração contemporânea.6
mente ocupado com eminência, os recém-chegados vão encontrar dificuldade
para obter reconhecimento, tendo de permanecer à sombra dos eminentes até
que estes se tornem sombras. À medida que os eminentes deixam o campo,
abrem-se oportunidades para os demais: talvez epígonos, sucessores e herdei- A MEA é tendenciosa?
ros aparentes, aqueles que continuam a obra de seus predecessores; talvez
rebeldes e heréticos e novas vanguardas. Está claro que se fizeram esforços para assegurar que os arquitetos
incluídos na MEA representassem algum tipo de consenso da comunidade
de historiadores quanto a quem foi importante e quem não foi.
Um estudo da história da arquitetura
Não é de admirar que o conselho editorial da enciclopédia te-
nha enfrentado inúmeros dilemas quanto a quem incluir e a quem
Nenhum arquiteto ingressa no panteão dos grandes e bons tendo por alvo deixar de fora. Sempre que possível, decidimos pela inclusão; o cons-
unicamente o sucesso econômico. Aqueles que transmitem suas reputações trutor vernáculo, o artesão modesto mas de excelência, o fantástico
para a posteridade, aqueles cujos objetivos são as recompensas simbólicas da individualista, o amador consumado e, mais importante, a arquiteta
aclamação pelo gênio, vivem — virtualmente, por definição — em um ambiente cuja contribuição tem sido freqüentemente suprimida ou ocultada.
simbólico. O primeiro problema a ser considerado é justamente
esses arquitetos eminentes. quem são A. Placzek, "Foreword", Macmillan Encyclopedia of Architects,
Não se pode aceitar que alguém pretenda fazer
a seleção de indivíduos ou edificações por si mesmo, sozinho; isto seria um ccl. A. Placzek (Nova York: Macmillan, 1982), xii.
ato da mais alta presunção, que deixaria o historiador profissional vulnerável
a acusações de arbitrariedade e subjetivismo. Os editores da Macmillan Encyclopedia of Architects tiveram de
equilibrar suas próprias preferências, seu conhecimento do material
Mas se os dados fundamentais não podem ser fornecidos por um único
e seu julgamento no que diz respeito à importância relativa de cada
indivíduo, mesmo que seja uni historiador•, talvez a melhor resposta seja per-
arquiteto com as exigências de tempo e espaço e também com as su-
mitir que vários indivíduos gerem tal seleção. Esta foi a solução que adotei,
retirando meus dados da robusta gestões de peso oferecidas por consultores regionais e historiadores
(MEA). Macmillan Encyclopedia of Architects arquitetônicos locais para uma representação inclusiva de suas pró-
Esta imensa obra em quatro volumes e 2.400 páginas é, como disse prias áreas... [O] conselho ampliou o escopo da enciclopédia de
seu editor adjunto, "a compilação mais abrangente de biografias de arquitetos
jamais realizada".4 modo a incluir engenheiros, construtores de pontes, arquitetos pai-
Contendo cerca de 2.600 biografias, que variam em ex-
tensão desde pequenas menções a longos ensaios, foi considerada por um

5 M. Trachtenberg, "Some Observations on Recent Architectural History", Art Bulletin 70


A. Placzek, "Foreword",
Macmillan Encyclopedia of Architects, (1988): 213.
Macmillan, 1982), xi. ed. A. Placzek (Nova York:
6 J. F. O'Gorman, "Review of the Macmillan Encyclopedia of Architects"„Journal of the Society
opIrchitectural Historiam 43, IV 1 (1984): 78-79.
ry .)teveris
O círculo privilegiado ]4

sagistas, urbanistas, alguns mecenas e um punhado de escritores,


caso suas contribuições tenham sido tão influentes a ponto de terem Urna análise da história da arquitetura que utilize um banco de dados
mudado a face do meio ambiente humano. A pedido dos editores, extraídos da MEÃ será de fato urna análise de realidades históricas ou é
consultores especializados, em todo o mundo, revisaram o novo índi- uma exploração dos preconceitos de seus editores e colaboradores? Com
ce, sugerindo acréscimos e supressões. certeza, não cabe a mim, como sociólogo da arquitetura, apresentar meus
próprios julgamentos em face desses mais de seiscentos historiadores.
B. A. Chernow, "lntroduction", Parece-me que a atitude correta a ser tomada é relembrar que um campo
Architects, Macmillan Encyclopedia of
ed. A. Placzek (Nova York: Macmillan, 1982), xv-xvi. se autodefine. O único critério para ser membro de um campo é ser
capaz de exercer algum efeito nele. A MEÃ é útil para definir o cânone do
que aTendo
MEA uma autoria de mais de seiscentas pessoas, era de se esperar campo, como este se via a si mesmo em fins da década de 1970. Pergun-
fosse imune a críticas de tendenciosidade ou subjetivismo. tas sobre se fulano deveria ter recebido mais ou menos espaço ou se
Nem tanto. O historiador James O'Gorman usa a maior parte da sua deveria ser incluído ou não são exemplos do nível de dissensão que existe
resenha censurando a enciclopédia exatamente por isso:
em qualquer campo. De certo modo, a questão da tendenciosidade não
Não obstante, quem entrou e quem não entrou parece um capri- tem sentido, uma vez que pressupõe a idéia de que há alguma realidade
cho... Edwin A. Abbey está incluído porque fez alguns murais na histórica objetiva em relação à qual a tendenciosidade poderia ser compa-
Biblioteca Pública de Boston. Puvis de Chavannes e John Singer rada (para uma discussão do assunto, ver A. Tucker, "Contemporary
Sargent fizeram o mesmo e estão (acertadamente) ausentes da
Encyclopedia. Philosophy of Historiography", Philosophy of the Social Sciences 27,
John Frazee está incluído porque esculpiu algumas
lareiras de mármore, mas Daniel Chester French, cuja contribuição n9 1 [1997]: 102-129).
para as esculturas do Memorial a Lincoln teve importantes conseqü-
ências arquitetõnicas, não está. Giacomo Balla está incluído nessa
enciclopédia, apesar de seu verbete dizer especificamente que "nã
era um arquiteto"... Entre os mecenas, William Beckjárd está inclua.- Sua linhagem é impressiva: mais de seiscentos colaboradores de 26 países,
do; e por que não a família Mediei, Luís XIV,. Nelson Rockfeller ou representando, segundo seu editor adjunto, "quase a comunidade toda de estu-
quem mais você quiser para preencher as lacunas? Alguns historia- diosos, desde os mais reconhecidos até a geração emergente de pesquisado-
dores do século XX estão, outros não estão... O mesmo desequilíbrio res".' Claramente, trata-se de uma obra que se apóia na erudição de uma
marca a seleção de engenheiros e construtores... proporção substancial da comunidade global dos historiadores de arquitetura, e
tal Clarence
Schimdt que, ao que parece, foi o responsável pela construção de um eu a utilizei para construir um banco de dados de arquitetos eminentes.8
barracão em Woodstock, Nova York, abre o volume quatro, mas T C.
Hine, de Nottingharn, um importante arquiteto vitoriano, e Howard
Van Doren Shaw, de Chicago, que realizou casas para uma geração
de habitantes do Centro-oeste americano, criando uma alternativa 13. A. Chernow, "Introduction", Macmillan Encyclopedia ofArchitects, xvi.
para a Prairie School, não estão. Aqui, como em qualquer outro lu- Não que a MEA não contenha erros: James O'Gorman chamou a atenção dos editores por terem
gar a seleção tem laivos de uma desafortunada tendenciosidade... deixado uma data de nascimento incorreta passar, e eu pretendia citar Karel Bazel como o
Em geral, para finalizar essa ladainha, há muitos nomes listados que arquiteto que faleceu mais jovem até que percebi que constava em seu verbete que vinha
exercendo a profissão vários anos antes da data dada como de seu nascimento. Tais erros, cm
nunca seriam procurados em um dicionário de arquitetos e há muitos especial no que se refere a datas de nascimento e de falecimento, são inescapáveis em um
nomes que se esperaria encontrai; mas que não aparecem. trabalho tão grandioso. Uma vez que a maioria das análises feitas neste livro depende de
tik um número muito grande de exemplos, posso apenas esperar que o erro acidental seja insufi-
J. F. O'Gorman, "Review of the
Macmillan Encyclopedia of ciente para invalidar o todo.
Architects", Journal of the Society of Architectural Historians I ,i todas as biografias pelo menos duas vezes para caçar dados pertinentes e devo confessar que
(1984): 78-79. 43, nfi 1 achei que formam urna coleção de artigos monótonos. Apenas uma vez encontrei uma biografia
realmente divertida, a de Stanford White. Fiquei desapontado ao descobrir que havia sido
escrito por um editor da New Yorker e não por um historiador.
Na Tabela 4.1 é apresentada uma classificação dos arquitetos da ‘ 911,
incluindo todos os indivíduos com verbete próprio, além de todos aqueles MEA,
men-
cionados nos verbetes sobre firmas de arquitetura e famílias de arquitetos (prin- O banco de dados Vasari
cipalmente construtores medievais): um total de 2.654 indivíduos. Os editores
da MEÃ Em um tributo ao biógrafo renascentista da arte, chamei o banco de
tentaram manter uma cobertura ampla e incluíram muitas pessoas que
não são estritamente arquitetos. Mesmo assim, 81% (2.144) do total são de dados derivado da MEÃ de banco de dados Vasari. Para cada pessoa com
arquitetos (ou construtores) por toda a sua vida de trabalho e uns 11% (297) a biografia na MEA foi registrada a seguinte informação:
dedicaram-se à arquitetura a maior parte de suas vidas.
9 Apenas 8% (213) não • As datas de nascimento e óbito estavam disponíveis para 91% (2.403).
poderiam ser descritos de algum modo como arquitetos, construtores ou Eu me preocupei com as datas em que cada arquiteto ingressou e deixou
designeis.
o campo, de modo que a cronologia de interesse não estava em suas
O editor-chefe e o editor adjunto da MEA deixaram claro que a extensão datas de nascimento ou morte per se, mas no período de suas vidas cria-
de cada verbete é uma função direta da avaliação da importância do arquiteto tivas. Em geral, utilizei o método padrão de considerar o período criativo
de que trata. Alguns usaram as dimensões dos verbetes para seus próprios fins, de um indivíduo — conhecido como o floruit — dos quarenta anos até o
como um indicador de importância arquitetônica. I° Eu utilizei um procedimento falecimento. Naqueles casos em que as datas de nascimento ou óbito
mais simples, porém mais seguro, e dividi os arquitetos em quatro categorias: não estavam disponíveis, utilizei as datas da primeira e da última obra para
primeira, segunda, terceira e quarta ordem (Tabela 4.2). Os indivíduos com determinar o período criativo de um adicional de cerca de 7% (177) dos
verbetes de várias páginas foram incluídos na categoria de primeira ordem. indivíduos. Desse modo, foram atribuídas datas para 2.580 indivíduos (97%).
Aqueles cujos verbetes têm cerca de urna página foram incluídos na segunda • Considerando que a MEA abrange arquitetos desde Imhotep*, a deter-
ordem e aqueles cujos verbetes têm cerca de meia página na terceira ordem; minação da nacionalidade foi surpreendentemente fácil. A intenção era
os demais, com verbetes curtos, foram agrupados na quarta ordem. captar as mentalidades formadas em virtude de se ter nascido em um
A MEÃ certo lugar em um certo momento, mais do que determinar a cidadania
fornece uma lista das principais obras de cada indivíduo. Para
obter informações sobre os edifícios, selecionei ao acaso 38% (996) dos arqui- formal de cada um. Em apenas uns poucos casos — principalmente
tetos, tomando o cuidado de garantir que cada período, categoria e nacionalida- medievais — a nacionalidade foi problemática; nesses casos utilizei como
de estivessem proporcionalmente representados. O resultado foi um total de guia a etnia, em vez de fronteiras nacionais formais. No caso de imi-
9.999 obras (um total meramente fortuito), sendo registrado o local, a data e o grantes, considerei a nacionalidade do país de nascimento, caso o indi-
tipo de cada uma. Não houve problemas quanto à identificação da localização víduo tivesse imigrado depois dos dez anos de idade, e o país em que se
de cada edifício; contudo, não pôde ser identificado de imediato cerca de 1% estabeleceu, caso tivesse imigrado mais jovem. Então Marcel Breuer
tanto dos tipos (122) como das datas (79) das obras. foi classificado como húngaro, não como americano.
• Considerei como o lugar de formação a instituição na qual o indivíduo
obteve sua primeira qualificação formal, independentemente de ter sido
em arquitetura. Menos de 32% (837) receberam uma educação formal.
• A ocupação de origem registra a carreira intencionada pelo indivíduo,
conforme evidenciada por seu treinamento inicial ou primeiro emprego.
Por exemplo, Josef Albers foi classificado como professor de escola
primária porque passou os primeiros anos de sua vida de trabalho na-
" Porcentagens ou proporções são mais esclarecedoras c compreensíveis, mas para ser mais quela atividade.
completo o valor do dado bruto d geralmente apresentado entre parênteses daqui por diante.
Observação: As porcentagens são
arredondadas
e, por esta razão, os números individuais
I° podem não somar exatamente os totais apresentados no texto.
R. K. Williamson,
American Architects and the Mechanics of Fome
Texas Press, 1991). (Austin: University of
* Alto sacerdote egípcio, Imhotep (c. 2780 — 2680 a.C.) adquiriu o caráter mitológico de inventor
do uso da pedra corno material de construção (N. do R.T.).
152 Garry Stevens O circulo privilegiado 153

• Se a vida de trabalho de algum indivíduo incluía qualquer outra ativida-


rir Um retrato do arquiteto
de além do projeto de edifícios, registrei isto como uma atividade maior;
foram ignorados interesses menores, hobbies ou puro diletantismo. Após Para termos uma primeira impressão do campo, comecemos pelas ca-
À parte o projeto de edifícios, que
sua curta carreira como professor primário, a vida subseqüente de Albers racterísticas gerais dos arquitetos da MEÃ.
como professor de projeto foi registrada como uma atividade maior. Foi outros interesses são típicos das realizações dos arquitetos? Com base nas
computado um total de 2.266 atividades. Se um indivíduo começou em informações contidas nas bibliografias, fiz um levantamento das atividades de
aos quais
um outro campo que não o da arquitetura e, posteriormente, dedicou-se cada indivíduo. O resultado final foi urna listagem de 45 interesses
ao projeto de edifícios, a arquitetura foi anotada como uma atividade os arquitetos também se dedicaram, incluindo esquisitices, tais corno
maior. Foram listados 297 indivíduos em tal situação. embalsamador e carteiro.
• Por fim, fiz o levantamento das conexões ou dos vínculos entre os ar-
Destes, apenas sete apareceram como atividades desenvolvidas por mais
quitetos. Para tanto, considerei quatro
tipos de conexão: mestre, pupilo, de 5% dos arquitetos: teoria da arquitetura, ensino de arquitetura, serviço públi-
colega ou rival. Se um arquiteto era mencionado como tendo trabalha-
co, artes visuais, ensino de outras disciplinas, engenharia e urbanismo. Aqueles
do no escritório de outro ou tendo trabalhado sob sua tutela ou tendo
listados como teóricos (11% ou 281 indivíduos) deram algum tipo de contribui-
sido seu aluno, tal situação foi registrada como uma relação mestre—
pupilo. Arquitetos que trabalharam juntos ou que foram descritos como ção teórica maior para o campo — escrevendo livros ou artigos, mantendo algu-
sendo amigos próximos ou pertencendo a um mesmo círculo de amiza- ma atividade pública, fazendo conferências, etc. — acima e além da influência
des foram classificados como colegas. Algumas vezes a bibliografia de que tiveram seus projetos em si. Aqueles engajados no ensino de arquitetura
um indivíduo mencionava especificamente certos arquitetos como seus (8%, 218 indivíduos) ocuparam algum cargo em alguma escola ou instituição de
oponentes; nesses casos, foram classificados como rivais. Encontrei arquitetura. As relações pessoais mestre—pupilo, sendo tão ubíquas, não foram
um total de 2.293 conexões entre os arquitetos. consideradas nesta categoria. Os arquitetos listados no serviço público (7%,
190 indivíduos) ocuparam algum tipo de cargo no governo ou no Estado, não
necessariamente como arquiteto. O recebimento de uma encomenda estatal
para projetar um ou mais edifícios não qualificou um arquiteto como servidor
Número Porcentagem
Atividade principal do arquiteto ou público. As artes visuais (6%, 174 indivíduos) incluem todos aqueles que tam-
construtor 2.144 81 bém tiveram algum tipo de contribuição em pinturas, afrescos, esculturas, e
Do restante, aqueles com atividademaior assim por diante. Foram excluídos desta categoria aqueles que seriam conside-
de arquiteto ou construtor 297 11 rados como projetistas de interiores, especializando-se na decoração interna de
Total de arquitetos
2.441 edificios por quaisquer meios (3% do total). O lecionar (6%, 146 indivíduos)
92
Artistas visuais
39 inclui apenas aqueles que foram professores do segundo grau ou abaixo e ex-
>1
Engenheiros clui, especificamente, o ensino de arquitetura e de profissões afins e o ensino
35 >1
Paisagistas
22 de terceiro grau ou acima. Aqueles incluídos na engenharia (5%, 126 indivídu-
<1
Teóricos e historiadores da arquitetura os) produziram obras, tais como pontes, fortificações, etc., enfim, obras que
11 <1
Urbanistas
10 seriam projetadas atualmente nos países anglo-americanos por engenheiros ci-
<1 vis, engenheiros militares e engenheiros de outras especializações. A atividade
Todos os demais
90 3
Total dos não -arquitetos urbanística (5%, 124 indivíduos) foi utilizada para todos aqueles que projetaram
213 8
Total geral em uma escala maior do que uma única edificação ou conjunto, seja na Améri-
2.654 100
ca moderna ou na França barroca, e não meramente os denominados
Tabela 4.1 Composição dos indivíduos da MEA. planejadores.
Garry Stevens
O círculo privilegiado 155

Número Porcentagem Quando exemplos de indivíduos de grande cultura, com vários interesses e
prodigiosamente talentosos — tipicamente Wren, Jefferson e Michelangelo —
são apresentados para demonstrar a versatilidade do arquiteto, deve-se suspei-
tar que estes nomes vêm à mente com tal freqüência justamente porque são
exceções, não a regra.
Duas outras características devem ser ressaltadas. Primeiro, parece exis-
tir pouca relação entre habilidade em outras artes visuais e em arquitetura.
Tabela 4.2 Composição da MEA,
de acordo com a importância do arquiteto. Apenas 7% de todos os indivíduos tinham as artes visuais como atividade.
A proporção é bem maior antes de 1700, quando 16% de todos os arquitetos
praticavam uma arte fora da arquitetura. Segundo, os arquitetos não costumam
Esses sete tipos de atividades mais comuns totalizaram 1.258 exemplos, trocar de carreira. No total, 88% de todos os arquitetos começam suas vidas na
respondendo assim por 55% dos 2.266 no banco de dados, com os outros 38 arquitetura e aí ficam. Os indivíduos não são recrutados de outras ocupações
interesses constituindo os 45% restantes. Para alguns indivíduos, a própria para a arquitetura, nem ingressam na arquitetura tarde na vida. Apenas antes
"arquitetura" foi listada como uma atividade maior. Essas são pessoas que de 1800 havia uma presença significativa de indivíduos que começaram suas
começaram em uma ocupação diferente e, mais tarde, passaram para o pro- carreiras em outras ocupações que não a arquitetura, voltando-se para o proje-
jeto de edifícios. Se retirarmos essa categoria do total, ficaremos com 1.925 to de edificações em alguma época posterior, como fizeram cerca de 24%
atividades.
(antes de 1700) a 22% (durante os anos 1700). No século XX, o fechamento
Os dados oferecem resposta para algumas questões interessantes. A ar- social da profissão garantiu que uma porcentagem muito alta (94%) de arquite-
quitetura é o tipo de empreendimento criativo que atrai pessoas de outras ocu- tos eminentes fizesse da arquitetura o único empreendimento de suas vidas.
pações? Os indivíduos que nela ingressam trazem habilidades desenvolvidas
em outras áreas? Os arquitetos são "polimatas", ou seja, pessoas de grande
cultura e interesses diversificados, voltando sua atenção para aventuras criati- As nacionalidades dos arquitetos
vas para além da ocupação escolhida? Com certeza há uma concepção gené-
rica e vaga no meio profissional de que Cinqüenta e duas regiões ou nações foram berço dos arquitetos da MEA;
indivíduos de muitos talentos. Se os arquitetos têm sido, historicamente,
destas, 35 produziram menos do que 1% do total. A Tabela 4.3 mostra a distri-
evidência aqui reunida. isso ocorre, esse fato não é corroborado pela
buição e a proporção dos arquitetoá; cinco regiões nitidamente dominam: a
Fui generoso na alocação das atividades aos arquitetos, mas mesmo assim Inglaterra, a Itália, os Estados Unidos, a França e a Alemanha. Juntas, são
foram encontrados apenas 7,3 interesses de cunho não-projetual para cada responsáveis por mais de dois terços de todos os arquitetos que o campo esco-
grupo de dez arquitetos. Para quase três em dez arquitetos não foi identificado lheu para serem relembrados. Acrescentando-se o quarteto seguinte — os Países
nenhum dos demais interesses maiores aparte do projeto de edifícios. Se exa- Baixos, a Espanha, a Escócia e a Áustria, chega-se a cerca de 80% do total.
minarmos atentamente os dados para encontrar evidência dos amplos interes- Não há surpresa alguma em tal concentração. E não é preciso imaginar
ses e talentos dos arquitetos, ficaremos desapontados. Se fundirmos as catego- alguma forma de paroquialismo para explicar o excesso de representação de
rias de teoria e de ensino da arquitetura em uma única categoria de "arquitetura", umas poucas nações. O mundo social não é um lugar igualitário no qual a
então para cada dez arquitetos poderíamos enumerar apenas 5,4 interesses contribuição ou a produção de cada país é proporcional à sua população.
além daqueles associados com suas ocupações. Apresentando a questão de O total dos bens globais, por exemplo, está desigualmente distribuído, com uns
outra forma, se escolhêssemos ao acaso um indivíduo da 9% da população do mundo (EUA, Japão e Alemanha) desfrutando 50% de
MEA, haveria uma sua riqueza. Uma distribuição semelhante aplica-se à música popular, na qual
chance de meio a meio de se descobrir alguma evidência de que os arquitetos
podem se voltar para algo além daquilo que em geral é chamado de "vocação". 3% de todos os artistas colocados entre os quarentas mais populares dos EUA
são responsáveis por mais da metade das canções que chegam a alcançar
156 Garry Stevens O círculo privilegiado 157

aquela marca de popularidade." Dos milhares de compositores eruditos, ape:. Isso ilustra as duas funções primordiais do campo. Residências particulares
nas três (Bach, Mozart e Beethoven) compuseram aproximadamente 20% do revelam o bom gosto e a superioridade de seus moradores em relação às clas-
toda a música clássica que é regularmente executada pelas principais orques- . ses mais baixas; edificações religiosas são estruturas de poder. Em termos
tras.I2 Na própria MEA, os 4% mais importantes de arquitetos são responsá-- bourdianos, as primeiras são ilustrativas de como a arquitetura contribui para a
veis por cerca de um terço de suas páginas. Estes são exemplos do que é manutenção do domínio dos membros individuais das classes dominantes, as
chamado coloquialmente de "regra 80/20", a qual diz que 20% mais produti- últimas, de como contribui para a manutenção do domínio das classes mais
vos de fontes respondem por 80% do produto. É claro que os números exatos elevadas como um todo.
variam; no caso dos arquitetos da MEÃ, os 20% mais produtivos de arquite-
tos são responsáveis por cerca de 50% de todos os edifícios listados.13
Idade e realizações

Os edifícios dos arquitetos Há um sentimento corrente que os arquitetos são um pouco como os
pintores, vivendo muito e produzindo até uma idade avançada. Assim
A Tabela 4.4 mostra os tipos de edifícios projetados pelos arquitetos da Placzek celebrou tal longevidade na introdução da MEÃ:
amostragem randômica que selecionei na MEA.I 4 A preponderância de mora-
Diferentemente de tantos dos grandes poetas e músicos, os gran-
dias particulares para uma única família e de obras religiosas é impressionante.
des arquitetos são um grupo particularmente longevo. Eles são resis-
tentes. Sempre tiveram de ser, lidando com materiais, estruturas e
demandas da sociedade. Dentre os vinte arquitetos de maior relevo
" K. L. Cook, "Laws of Scattering Applied to Popular Music", Journal of the American Society da enciclopédia, apenas dois — Rafael e H. H. Richardson — morre-
for Information Science 40 (1989): 277-283. ram antes dos cinqüenta anos de idade, e inúmeros deles realizaram
' 2 D. K. Simonton, Genius, Creativity and Leadership
(Cambridge: Flarvard University Press, suas melhores obras depois dos setenta.
1984).
13
Se o fato de existir uma concentração na distribuição nacional dos arquitetos da MEA não é, por
si só, excepcional, será que existe alguma peculiaridade no grau desta concentração? O proble-
A. Placzek, "Foreword", Macmillan Encyclopedia of Architects,
ma em responder esta questão é a falta de qualquer meio razoável para determinar o que ed. A. Placzek, 4 v. (Nova York: Macmillan, 1982), xii.
constituiria um alto ou baixo grau de desigualdade na distribuição por país. Estudos fornecendo
dados comparáveis sobre outras atividades criativas são extremamente raros, e apenas dois Tal impressão é mais ou menos confirmada pela enciclopédia. Dos
deles examinaram a distribuição nacional por um período tão longo quanto o aqui considerado. arquitetos falecidos para os quais era possível calcular o tempo de vida
O estudo de Mitsutomo sobre os cientistas, abrangendo o período dc 1500 em diante, mostra (2.091), um total de 24% (510 indivíduos) alcançaram o octogésimo ani-
que cinco países eram responsáveis por 86% do total: os Estados Unidos, a Inglaterra, a
Alemanha, a França e a Itália (Y. Mitsutomo, "The Shifting Center of Scientific Activity in the versário. Se isso é um feito fora do comum, é uma outra questão. Para
West", Japanese Studies in Me History of Science 1
(1962): 57-65). O estudo de Simonton
sobre artes visuais (principalmente pintores e escultores), considerando o período de 1050 em
diante, revela uma distribuição similar (D. K. Simonton, "Anistie Creativity and Interpersonal
Relationships across and within Generations", Journal ofPersonality and Social Psychologry
46 (1984): 1273-1286). Para a economia, alguns dados são fornecidos por B. S. Frey e W. W.
Pommerehne, "The American Domination among Eminent Economist", Scientometrics 14 Aqueles edifícios de uso exclusivo de chefes de Estado, como a Casa Branca ou o Palácio de
(1988): 97-110. Nestes estudos, as quatro nações que mais contribuíram foram responsáveis Buckingham, foram classificados como edifícios de Estado. Aqueles que permaneceram em
por mais de 80% dos indivíduos. Fica evidente que a distribuição de arquitetos é mais igualitária urna mesma família, independentemente de mudanças em sua posição no governo, foram clas-
do que a dos cientistas, economistas ou artistas em geral. sificados como residências. Casos ambíguos foram classificados como residências. A categoria
'' Edifícios residenciais para uma única família incluem todos aqueles, de casas a castelos, que se municipal refere-se a obras governamentais menores, obras realizadas por urna instância infe-
destinam a uma única pessoa ou família. Esse critério exclui edifícios de apartamentos, porém rior de governo e estruturas públicas com financiamento privado, tais como banhos, cadeias,
inclui palácios. Estes últimos e as demais residências de governantes colocaram uni problema, bibliotecas, prefeituras, fontes e uma variedade de outros itens. Edifícios residenciais múltiplos
na medida em que poderiam ser classificados ou como residências ou como edifícios de Estado. são hotéis e edifícios de apartamentos.
158
Garry Stevens O círculo privilegiado 159

serem lembrados pela posteridade, os indivíduos precisam ter vivido tem-


po suficiente para tais acidentes inoportunos de longevidade é preciso um estudo longitudinal
produzir alguma coisa digna de atenção, o que implica que compare indivíduos com tempos de vida iguais.
que tenham vivido pelo menos até os trinta anos (só a matemática e a O método escolhido foi inventariar a produtividade somente daqueles
poesia parecem estar repletas de produtores precoces). Tendo alcançado arquitetos que alcançaram pelo menos os 79 anos de idade (os octogenários
essa idade, a expectativa é de outros trinta (no século XVII) a cinqüenta realizaram cerca de 1% de sua produção total depois dos oitenta anos).
(no século XX) anos de vida. Conquanto não haja necessariamente qual- Isso é mostrado no Gráfico 4.1, o qual mapeia a produtividade arquitetônica
quer relação entre a quantidade de trabalho criativo ao longo de uma vida por década e a compara com a produtividade de cientistas, humanistas
e a sua qualidade, deixar uma obra extensa com certeza aumenta as (historiadores, filósofos, novelistas eruditos) e músicos, obtida de um estu-
chances de se manter uma reputação através dos tempos. O simples fato do semelhante conduzido por Dennis (ver W. Dennis, "Creative Productivity
Journal of Gerontology 21
de que indivíduos que vivem muito e têm urna produção considerável le- Between the Ages of 20 and 80 Years",
vam uma vantagem natural sobre aqueles que morrem cedo e produzem [1 9661: 1 -8). A curva de produtividade dos arquitetos é similar à dos músi-
pouco significa que o grupo de criadores ilustres está propenso a ter tem- cos, divergindo principalmente pelo fato de que os arquitetos produzem
pos de vida mais longos do que o resto da sociedade, em especial nos bem menos quando em seus vinte anos e mais quando em seus setenta
períodos anteriores a 1850. A partir do banco de dados Vasari, verifica- anos. Contudo, comparados aos cientistas e aos humanistas, os arquitetos
mos que o tempo de vida médio dos arquitetos que faleceram antes de idosos são produtores fracos. Quando em seus sessenta e setenta anos,
1700 é de 68 anos de idade e daqueles que faleceram no século XX é de os arquitetos produzem cerca da metade do que realiza qualquer um dos
72 anos. dois grupos. Contrariamente à sabedoria comum, parece que a arquitetu-
Um exame adicional do Vasari revela dois dados inesperados. O pri- ra não é um jogo nem para os jovens nem para os velhos, mas para os de
meiro é a extraordinária constância nas características da produtividade meia-idade.
dos arquitetos ao longo de todas as mudanças ocorridas na ocupação,
desde 1700 até o presente: em geral, os arquitetos produziram sua primei-
ra obra digna de nota por volta dos 32 ou 33 anos de idade, e a última aos
57 ou 58 anos, com urna média de vida de trabalho de 25 anos. Este
parece um término surpreendentemente prematuro do período de
criatividade arquitetõnica. Em segundo lugar, ao contrário de minhas ex-
Região Número 1 Porcentagem
pectativas, antes de 1700 os arquitetos projetavam seu primeiro edifício e Região Número Porcentagem
alcançavam o ponto médio de suas carreiras um pouco mais tarde na vida 16 Rússia 39 1
Inglaterra 436
do que aqueles que nasceram nos séculos seguintes. Boêmia 38 1
Itália 420 16
A organização das informações sobre a criatividade por década de Canadá 38 1
EUA 406 15
vida permite obter mais detalhes, porém, para que isso seja significativo, 1
13 Suécia 37
faz-se necessário algum tipo de comparação com outros campos. E é França 334
8 Dinamarca 36 1
preciso tomar alguns cuidados. Um inventário direto de obras e de idades Alemanha 224
Irlanda 33 1
dos indivíduos quando de sua realização é metodologicamente inadequa- Países Baixos 105 4
P-- 1
do, uma vez que com tal procedimento os dados ficam alterados em razão 3 Grécia 29
Espanha 85
das diferenças nos tempos de vida. Se, por exemplo, um inventário desse Japão 26 1
Escócia 79 3
tipo indicasse que os poetas apresentam uma tendência para morrer jo- Todos osdemais35 237 9
Áustria Si 2
vens e os arquitetos não, iríamos chegar à conclusão equivocada de que
os poetas são mais produtivos quando jovens. Para remover os efeitos de Tabela 4.3 Nacionalidades dos arquitetos (porcentagem produzida em cada região que
contribuiu com pelo menos 1%).
u.
160 Garry Stevens
O círculo privilegiado 161

30%
a um processo de ajuste. O ajuste de dados é um processo usado comumente
• Cientistas
25% para tomar visíveis padrões importantes que de outro modo ficariam perdidos
I♦Humanistas
Músicos
na confusão aleatória dos dados. A Ilustração 4.2 apresenta o crescimento
20% básico nos números de arquitetos eminentes no período de 1300 até a época da
°Arquitetos
15%
publicação da MEA em 1982 (o qüinqüênio começou em 1980).

10%
Limites temporais
5%
Devemos deixar claro quais são os limites temporais dessa discussão.
0% O primeiro está situado por volta de 1400. Antes daquela época, há poucos
20s 30s 60s 70s
indivíduos mencionados na MEA: apenas 110 para todo o período anterior a
Gráfico 4.1 Porcentagem de produção ao longo da vida por década de vida.
600

Uso Número Porcentagem SOO


Uso Número Porcentagem
Residencial
unifarniliar 3.235 33 Urbanístico 211 2
400
Religioso 1.952 20 Médico e
científico 199 2
Comercial 856 9 Paisagismo 181 2 300
Municipal 787 8 Industrial 168 2
Educacional 584 6 Militar 126 1
Estado 396 4 Monumento 116 1 200
Transporte 384 4 Esportes 56 <1
Residencial
multifamiliar 328 3 Teatro 21 <1
100
Exibição 245 2 Desconhecido 122
Tabela 4.4 Edifícios projetados por arquitetos da
MEA, classificados pelo uso.
o
1300 1400 1500 1600 1700 1800 1900 2000

Ilustração 4.2 Crescimento no número de arquitetos eminentes vivos. Número de vivos


O crescimento histórico da comunidade arquitetônica
em cada qüinqüênio desde 1300 até 1980.

Dividi o tempo histórico em qüinqüênios'5 e calculei o número de arquite-


tos da MEA
que começaram a se destacar em cada período. Como em todas as
uma divisão menor, como, por exemplo, os dados sobre a população de um país através dos
análises apresentadas no presente capítulo, os dados brutos foram submetidos
tempos. As décadas começam em anos divisíveis por dez, os qüinqüênios em anos divisíveis
por cinco. Desse modo, pode-se referir à década de "1870" como representando os anos de
15 1870 a 1879, o que é a maneira natural de se pensar em décadas. Alguns prefeririam que as
A maioria das análises usa a década como a unidade básica de tempo, em vez do qüinqüênio.
unidades de tempo fossem centralizadas em tais anos, porém teríamos de usar "1870" para nos
A década é usada quando os dados não são detalhados o suficiente, a ponto de poderem aceitar
referir ao período de 1865 a 1874.
162 Garry Stevens O círculo privilegiado 163

1400 e apenas um pequeno número mencionado como estando vivo em qual- escirnento per capita
quer momento ao longo dos anos 1300. O século XV é, portanto, o primeiro que
podemos introduzir de modo significativo em nossa discussão. Considerar o Que tipo de padrões de crescimento per capita poderíamos esperar en-
ano de 1400 como nosso ponto de partida coincide exatamente com o pronun- contrar na população de arquitetos notáveis? Como uma primeira aproxima-
ciamento de Vasari de que o concurso para o segundo conjunto de portas do ção, poderíamos esperar encontrar aproximadamente o mesmo número de ar-
Batistério de Florença em 1401, do qual participaram Ghiberti e Brunelleschi, quitetos per capita através dos anos.
entre outros, marcou o início da arquitetura "moderna". Em geral, a escassez Utilizei a população do mundo ocidental baseando-me nas estimativas
de dados exatamente em 1400 nos levará a começar alguns anos mais tarde, de fornecidas por McEvedy e Jones, provavelmente as melhores disponíveis."
1420 a 1450. Para períodos anteriores a 1400, temos apenas os padrões medievais, que po-
Se o parâmetro anterior é fácil de ser estabelecido, o posterior é um pouco demos considerar como o dado de base (Ilustração 4.4). Ao longo do período
mais difícil. O último qüinqüênio possível é 1980-1984, uma vez que a enciclo- em exame, um conjunto surpreendentemente claro de padrões apresenta-se,
pédia foi publicada em 1982. Claramente, algo peculiar aconteceu depois que a dividindo a história da comunidade em quatro fases distintas. A primeira é um
população arquitetônica atingiu seu nível mais alto, com 536 indivíduos, no rápido crescimento durante os anos 1400, obviamente correspondendo à Re-
qüinqüênio 1940-1944. No último qüinqüênio (1980), a população havia caído nascença. A curva atinge então um platô que vai de cerca de 1480 a 1680,
para apenas 351 indivíduos, quase que a mesma de 1895. Uma causa disso oscilando entre 35 a cinqüenta arquitetos para cada cem milhões.'8 Uma outra
deve ser o critério de inclusão na MEA, que admitiu apenas aqueles nascidos transição acentuada ocorre dos anos seguintes até cerca de 1730, seguida por
antes de 1931. Estes arquitetos iriam aparecer nos dados como tendo se desta- um segundo platô, no qual o índice se estabiliza em setenta a noventa por cem
cado a partir do seu quadragésimo aniversário, o qüinqüênio 1970-1974. Este milhões.
seria, então, o último qüinqüênio no qual recém-chegados poderiam aparecer e
se poderia esperar um déficit nos dois qüinqüênios remanescentes (1975 e 1980).
Contudo, tal fato não pôde ter tido efeito algum no acentuado declínio que
ocorre de 1945 em diante. Limites geográficos
A explicação mais razoável é que o declínio é uma conseqüência dos pro-
cessos de avaliação histórica: a comunidade histórica não teve tempo para Juntamente com os limites temporais, há os limites geográficos a se-
chegar a um consenso sobre a importância dos arquitetos trabalhando depois rem considerados na análise. Vimos que a MEA é, para todas as intenções
da Segunda Guerra Mundial. O período de declínio da população pode ser in- e efeitos, um catálogo de arquitetos ocidentais, em grande parte uma sim-
terpretado como um indicador forte do lapso de tempo necessário para a for- ples — embora lamentável — conseqüência do anonimato dos projetistas de
mação de um consenso na comunidade dos historiadores de arquitetura. (Uma edifícios de outras regiões. Podemos refinar um pouco essa noção obser-
hipótese alternativa é que a segunda metade do século XX é deficiente em vando que os indivíduos e os edificios dignos de nota registrados em seus
arquitetos notáveis. Isso é muito difícil de acreditar, em especial em razão das volumes foram extraídos quase que em sua totalidade da região compre-
proporções do declínio.) Os dados sugerem que o período para a formação de
um consenso é de cerca de quarenta anos, de 1940 até a publicação da MEA
em 1982. O tempo necessário para chegar a um consenso é significativamente
mais longo do que aquele nas ciências naturais, no qual a concordância sobre a
relevância é tipicamente alcançada em um período de cinco a dez anos a partir "7 C. McEvedy e R. Jones, Atlas of World Populalion Ilrstory (Harmondsworth, GB: Penguin,
da publicação de résultados.'6 Desse modo, fica estabelecido o limite final de 1985).
nossa análise, que daqui em diante estará confinada ao período de 1400 a 1940. 1 Obtém-se resultados semelhantes caso examinarmos o número de arquitetos
per capita da
população urbana, definindo a última como o número de pessoas vivendo em municípios de
pelo menos 10 mil habitantes. De 1500 a 1650 a Europa propriamente (não o conjunto dos
países ocidentais aqui considerado) suportou cerca de dez arquitetos por milhão de habitantes
16
R. Collins, "Why the Social Sciences Won't become High-Consensus, Rapid-Discovery urbanos. Por volta de 1750, este número havia aumentado para cerca de 15 arquitetos por
Science", Sociological Forum 9, ri2 2 (1994): 155-176.
milhão.
v C rl

O círculo privilegiado 165

endida pelo mundo antigo romano e iraniano —Europa, a costa meridional


do Mediterrâneo e o Oriente Próximo até o deserto de Thar para além do
rio Indus. Esta é uma região limitada pelo círculo polar ártico, o oceano
Atlântico, o deserto do Sahara e o mar da Arábia, fronteiras que têm
servido historicamente para manter seus habitantes em seu interior e os
demais de fora. A fronteira oriental, formada pelos Urais, descendo até o
maciço da Ásia Central e o deserto de Thar, é mais permeável, e sempre
existiram relações significativas entre o Oriente Próximo, a África Orien-
tal e a índia. Mas incursões maiores foram poucas. Antes de nosso limite
temporal de 1400, as invasões dos mauryas (século IV a.C.), Yue-Chih
(século II a.C.), Hunos (século I), turcos (século VI) e mongóis (século
XIII) foram as Únicas importantes na região; e depois de 1400 não ocorre-
ram outras. Por outro lado, do século XVI em diante ocorreu um significa-
tivo desvio de interesse desta região para as Américas e alguns outros
lugares, que permanece até os dias de hoje e soma talvez 65 milhões de
pessoas, o que deve ser levado em conta.
o Portanto, podemos tomar como nossa região geográfica de interesse Ilustração 4.3 Limites geográficos do presente estudo: o mundo ocidental.
hemisfério ocidental e sua extensão para o Novo Mundo: o mundo oci-
dental (Ilustração 4.3). O espaço geográfico assim definido inclui todos os
mencionados na MEA,
com a diminuta exceção de 34 indivíduos. 90

80
Transição
renascehtista
70
Não é necessário um grande requinte matemático para se identificar ime-
diatamente um padrão: uma elevação rápida, um platô, outra elevação rápida, 60 Fase Fase moderna Fase
mais um platô. As imprecisões quanto aos índices populacionais exigem cautela
medieval inicial moderna
e não devemos exigir detalhes precisos, porém as disjunções entre os quatro 50
1,1 períodos são tão claras que mesmo incorreções substanciais nos dados sobre a
população
ro não desmentiriam a análise. Os dois platôs diferem apenas no núme-
de arquitetos 40
per capita, que é o dobro no segundo caso.

J
A ilustração revela uma surpresa. O período que rotulei de transição 30
renascentista é absolutamente esperado, indicando a transição da organização
medieval em guildas para aquela do artista independente. Porém a transição 20
barroca, um período em que a proporção de arquitetos
per capita duplicada,
não havia sido previamente detectada pelos historiadores. Talvezéisso Transição
ocorra 10 barroca
porque o período não foi uma grande época de metamorfose estilística, mas sim
de continuidade. Esta é a época de Wren, Hawksmoor, Vanbrugh, Fischer von o i
Erlach, Boffrand e Hildebrandt. O período de transição está localizado exata- 1300 1400 1500 1600 1700 1800 1900 2000
mente no meio do período Barroco, em geral considerado na arquitetura como
Ilustração 4.4 Número de arquitetos vivos por cem milhões de pessoas, em cada déca-
da, de 1300 até 1400.
166 Garry Stevens O círculo privilegiado 167

se iniciando em princípios dos anos 1600, com Bemini e Bellini. O período Uma comparação destas duas Ilustrações (4.5 e 4.6) revela que os dois
Rococó na França começa somente depois de essa transição estar já bem setores seguem padrões de crescimento surpreendentemente diferentes. Quando
adiantada, em princípios dos anos 1700, e o Neoclassicismo somente em mea- os arquitetos maiores são retirados, a estrutura de quatro fases do todo se toma
dos dos anos 1700. Nenhuma mudança de estilo pode ser mapeada no começo ainda mais acentuada para a comunidade menor. Os platôs ficam um pouco
ou no final da transição. 1 mais suaves: no primeiro platô, a variação passa a ser de 25 a 35 arquitetos por
Uma outra surpresa é encontrada quando se separa os arquitetos por sua cem milhões de pessoas por década e, no segundo, de sessenta a 75 arquitetos.
importância. Os maiores arquitetos, aqueles classificados em minha categoria de Por outro lado, essa estrutura não é visível de nenhum modo no crescimento
primeira ordem e aos quais a MEA dedica várias páginas, são apenas 114 indivídu- dos arquitetos maiores. Pelo contrário, encontramos um surpreendente padrão
os. Esta é uma quantidade excessivamente pequena e perigosa para os tipos de de picos e depressões.
análises aqui apresentados: em qualquer momento apenas um punhado de tais ar-

eme
quitetos estão vivos. Mas se acrescentarmos a eles Os 278 arquitetos pertencentes
80

I
à categoria de segunda ordem, aos quais foi alocada ao menos urna página ou algo
assim, o grupo resultante passa a ser de 392 indivíduos e é suficientemente grande cã
para fornecer uma base para conclusões sólidas. Por conveniência, vamos designá- ntista xa
los como os arquitetos maiores (Ilustração 4.5). Aqueles compreendidos nas ou-
60
tras duas categorias (terceira e quarta ordem) serão designados arquitetos me-
nores (Ilustração 4.6). Fase
Fase Fase moderna moderna
medieval inicial

2, 40

20
1
Transição
barroca

O 2000
1300 1400 1500 1600 1700 1800 1900
1
Ilustração 4.6 Número de arquitetos menores vivos por cem milhões de pessoas por
década, de 1300 até 1940.

As duas comunidades da MEA

o Para além do vastíssimo corpo daqueles não lembrados e que ficaram de


1 00 1500 1600 1700 1800 140n 'rir% fora, tem-se a impressão de que a MEA abriga duas comunidades diferentes,
que operam com dinâmicas muito diferentes. Estas três comunidades
correspondem aproximadamente àquelas que vivem nos três ambientes do es-
Ilustração 4.5 paço social arquitetônico que apontei anteriormente: em um ambiente domina-
Número de arquitetos maiores vivos por cem milhões de pessoas por
década, de 1400 até 1940. do pelos recursos simbólicos (a fração dominante dos dominantes, dos arquite-
:)11.5.4ft Garry Stevens
O círculo privilegiado 169

tos maiores); em um meio ambiente intermediário (a fração subordinada dos


O crescimento do setor dos arquitetos maiores
dominantes, dos arquitetos menores); e em um mundo econômico (o setor su-
bordinado, dos demais praticantes da atividade) (Tabela 4.5). A fração dos O padrão básico que poderíamos esperar encontrar é que o tamanho da
arquitetos maiores vive em um ambiente simbólico que fornece recursos sim- 1 comunidade arquitetônica cresce exponencialmente. Esse tipo de crescimento
bólicos e que é - assim como o setor subordinado do conjunto de praticantes - é característico dos organismos vivos, de populações (como a dos cientistas) e
limitado pelos recursos disponíveis. Ambos operam segundo uma lógica ecoló- de muitos processos sociais, como o crescimento econômico.19 O índice de
gica; mas há diferenças significativas entre os dois. O setor subordinado vive crescimento é proporcional ao tamanho da população, como em qualquer pro-
graças aos recursos econômicos fornecidos pelo ambiente socioeconômico geral, cesso de taxa composta, de modo que quanto maior a população, maior o cres-
recursos estes sobre os quais tem pouco controle. O setor dos arquitetos mai- cimento absoluto.
ores existe em um mundo simbólico, cujos recursos simbólicos são produzidos
por ele mesmo. Tais recursos são transmitidos de arquiteto para arquiteto ao
Números absolutos Normalizados para 1850 = 1
longo do tempo, sob a forma de capital simbólico. Desse modo, as relações
entre os arquitetos maiores - as cadeias de mestres e pupilos, as redes de P rofissã o Profissão Secundário
Principal Secundário , Principal
colegas - ajudam a explicar o comportamento do todo. Como pretendo mos- (mi1hares) (milhares)
trar, essas relações geram o fenômeno cíclico observado no crescimento da 1850 0,6 27 15 1,0 1,0 1,0
comunidade dos arquitetos maiores. 11 2,0 1,5 0,7
1860 1,2 40
1870 2 50 18 3,3 1,9 1,2
1880 3,3 66 22 5,5 2,4 1,5

1890 8 94 27 13,3 3,5 1,8


Importância na MEA Setor 1,7
Recursos 1900 11 135 26 18,3 5,0
Primeira ordem 1910 16 153 23 26,7 5,7 1,5

Segunda ordem Principal Simbólicos 1920 17 142 17 28,3 5,3 1,1

1930 23 127 17 38,3 4,7 1,1


Terceira ordem
1940 22 113 15 36,7 4,2 1,0
Quarta ordem Secundário Intermediários
1950 25 109 12 41,7 4,0 0,8
Não listados na MEA Subordinado 1960 38 100 8 63,3 3,7 0,5
Econôrnicos
Tabela 4.5 Resumo dos setores do campo. 1970 57 85 8 95,0 3,1 0,5
1980 90 72 6 150,0 2,7 0,4

Tabela 4.6 Crescimento dos diferentes segmentos do campo nos Estados Unidos. (Fonte:
Espremidos entre os arquitetos subordinados e os arquitetos maiores estão os números para a profissão foram extraídos dos dados do censo americano.)
os arquitetos menores da MEA.
Estes vivem em um espaço social intermediá- 4E;
rio entre o puramente econômico e o puramente simbólico. Como se verá adian-
te, os arquitetos menores têm vínculos mais tênues com as redes de relaciona- ' 9 Para alguns estudos feitos sobre o crescimento exponencial da ciência, ver D. S. Price, Science
mentos pessoais que interligam os arquitetos maiores. Tais vínculos são since Babylon (New Heaven: Yale University Press, 1961); D. S. Price, Little Science, Big
Science (Nova York: Columbia University Press, 1963); D. S. Price, "Ups and Downs in the
suficientemente fortes para protegê-los das tempestades econômicas mais bran- Pulse of Science and Technology", The Sociology of Science, ed. J. Gaston (São Francisco:
das que açoitam o setor subordinado, mas não tão fortes a ponto de tor- Jossey-Bass, 1978), 162-171; B. C. Griffith, "Derek Price's Puzzle: Numerical Metaphors for
ná-los totalmente inatingíveis. the Operation of Science", Science Technology and Human Values 13 (1988): 352-360; e S. E.
Cozzens, "Using the Archive: Derek Price's Theory of the Differences among the Sciences",
Scientometrics 7 (1985): 431-441.
ltu Garry Stevens
O círculo privilegiado 171

O crescimento exponencial pode ser descrito por um único número: pelo 70


aumento da porcentagem anual ou pelo índice exponencial. Tais números, con-
tudo, não dão urna boa idéia da natureza do processo sendo descrito: dizer que
algo está crescendo a uma taxa de 1% ao ano em vez de 3% não explica muita ;
coisa para o leigo. Mais esclarecedor é descrever o crescimento em termos do 60
seu período de duplicação, do tempo que leva para que uma população dobre
de tamanho. Dizer que algo vai dobrar de tamanho em setenta anos cm vez de
em 24 anos transmite muito melhor uma situação do que dar taxas anuais bru-
tas de crescimento de 1% ou 3%. Por essa razão, nossa discussão irá descre- 1
ver o crescimento em termos de períodos de duplicação.

____..........
Produzir mais arquitetos não produz mais gênios

As dinâmicas dos setores principal e secundário são bastante dife-


rentes das dos arquitetos em exercício do setor subordinado. Podemos
perceber isso, por exemplo, examinando o número de arquitetos que exer-
cem a profissão nos Estados Unidos (a partir dos dados do censo america-
no) e o número de arquitetos maiores e menores vivos (a partir dos dados dc
nosso estudo) (Tabela 4.6; as três colunas da direita mostram os mesmos 20
dados normalizados, de tal modo que o valor para o ano 1850 é 1,0).
O tamanho da população profissional não tem qualquer relação com
o número de arquitetos da MEA
que estão vivos em qualquer momento.
Enquanto o número de arquitetos do setor subordinado aumentou 37 ve-
zes entre 1850 e 1940 (o término do presente estudo), o grupo de arquite-
tos menores em algumas poucas ocasiões chegou a ser cinco vezes maior
do que em 1850; já o grupo de arquitetos maiores nunca chegou a ser mais
10
ri.0.1.,
do que duas vezes maior do que em 1850.
Produzir mais arquitetos qua- 4O0 1500 1600 1700 1800 1900
lificados simplesmente não tem efeito algum na geração de gênios
arquitetônicos. Ilustração 4.7 Crescimento do setor de arquitetos maiores e a curva exponencia ajus-
tada. Número de arquitetos vivos em cada qüinqüênio.
.1

Examinemos primeiro o setor principal. Ajustei os dados para A criatividade arquitetônica da mais alta ordem não está distri-
o
período de 1450 a 1940 em uma única curva exponencial. (Para o período buída homogeneamente no tempo: períodos de florescimento criativo são re-
anterior a 1450, o número muito pequeno de arquitetos distorce o processo de gularmente seguidos por períodos de escassez. Quando arquitetos da primei-
ajuste da curva.) A curva tem um tempo de duplicação de 147 anos (Ilustração ra ordem florescem, tendem a fazê-lo em grupos. Mais ainda, esse padrão
4.7).
A Ilustração 4.8 apresenta os mesmos dados quando essa tendência geral cíclico é surpreendentemente regular. Pontos altos seguem depressões a in-
de crescimento é removida ("residuais", na terminologia estatística), mostran- tervalos de cerca de cinqüenta anos em média, os picos ocorrendo consisten-
do os ciclos acima e além do crescimento histórico esperado.
temente na metade dos séculos, as depressões na virada, para um ciclo com-
1 72 Ga rry Stevens 11111r O círculo privilegiado 173

pleto de mais ou menos um século. O padrão se mantém até 1870, e, então, a


esperada queda cinqüenta anos depois não ocorre (Tabela 4.7). e"

60%
Centro
Tipo Exemplos de períodos de pico Número de
aproximado
maiores arquitetos 40%
1480?
1510
1550
Pico
Vale
Pico
Alberti
setenta anos entre picos
Michelangelo, Palladio Vignola
vivos
8A
47 20%
11111111E
16*
1610 Vale cem anos entre picos 77 —0%
1650
1690
Pico
Vale
Mansart, Borromini, Bernini
noventa anos entre picos
19A
97 ITU Min
1740
1810
1870
Pico
Vale
Pico
Soufflot, Blondcl, Boullée
130 anos entre picos
Renwick, Richardson, Hum
29A
167
47A
—40%
r- MIM
Tabela 4.7 Estrutura do crescimento de arquitetos maiores importantes: resumo dos 60% 1900 2000
ciclos de picos e vales. 1400 1500 1600 1700 1800

Ilustração 4.8 Residuais da tendência de crescimento exponencial do setor de arquite-


tos maiores.
O crescimento do setor dos arquitetos menores

Também ajustei as curvas exponenciais para as quatro fases do setor se- Tempo de
Limites Duração duplicação
cundário reveladas pelos dados per capita Período
(Tabela 4.8). Os limites de cada Aproximados (anos) (anos)
período foram determinados a partir dos dados per capita
e ligeiramente com- 17
primidos em um ou dois qüinqüênios de modo a oferecer o melhor ajuste Transição renascentista 1420-1475 55
exponencial. O leitor deve considerar as datas precisas como pontos razoáveis Moderno inicial 1475-1685 210 350
de divisão. Infelizmente, análises quantitativas como esta exigem alguns pontos Transição barroca 1685-1735 50 42
de parada. Não estou de modo algum sugerindo que, por exemplo, a transição 1735-1940 205 81
Moderno
renascentista decolou de repente no qüinqüênio que se inicia em 1420 e parou 520 97
de crescer, também de repente, em 1475. Total 1420-1940
Para mostrar o crescimento do setor secundário e as curvas ajustadas, Tabela 4.8 Taxas de crescimento das quatro fases do setor de arquitetos menores.
usei uma escala logarítmica no eixo y de modo a mostrar mais claramente os
padrões (Ilustração 4.9). Em tal escala, uma curva de crescimento exponencial
é representada como uma linha perfeitamente reta. O padrão básico é o de dois
períodos de crescimento lento, cada um com cerca de dois séculos de duração, os dois períodos de platô, a comunidade cresceu muito mais devagar: ela do-
separados por dois períodos de crescimento rápido, cada um com cerca de brou a cada 350 anos na fase moderna inicial e a cada 85 anos na fase moder-
cinqüenta anos de duração. Os dois períodos de transição têm tempos de dupli- na. Nos dois períodos de platô, as taxas de crescimento são quase idênticas às
cação rápidos: 17 anos para a Renascença e 42 anos para o Barroco. Durante da população ocidental.
174
Garry Stevens O círculo privilegiado 175

1000 —
de de sustento, e as taxas de crescimento são modestas. A população simples-
mente continua a crescer em uma curva mais ou menos suave, sem restrições
Transiç 10
de qualquer diminuição de recursos. O segundo padrão, logístico, é caracterís-
rcnascenista rrQ9sl900 tico de populações com taxas médias de crescimento em um ambiente com
uma capacidade moderada de sustentação. Em um primeiro momento, o cres-
cimento é exponencial, mas, à medida que os recursos se tornam mais escas-
100
sos, a taxa de crescimento diminui. À medida que a população se aproxima e
Fase alcança a capacidade de sustento, o crescimento cessa e se mantém indefini-
moderna
damente no ponto de saturação. O resultado é uma curva em S. O setor secun-
dário apresenta duas dessas curvas logísticas. A terceira forma de crescimen-
to, oscilatório, ocorre com taxas elevadas de crescimento e urna baixa capacidade
10
de sustentação. Inicialmente, o crescimento é exponencial. Taxas de cresci-
mento rápidas aumentam a população antes que o efeito de escassez de recur-
sos se faça sentir. A população tende a exceder a capacidade de sustentação.
Fase Quando a falta de recursos se torna significativa, a população sofre uma queda
moderna inicial
igualmente rápida, para voltar a crescer apenas quando a densidade de popula-
ção declina. O resultado é um conjunto de ciclos que, em geral, tendem a dimi-
1 nuir e a convergir para o limite de saturação.
1400 1500 1600 1700 1800 1900 2000
Ilustração 4.9
Crescimento do setor de arquitetos menores (número de arquitetos vi-
vos em cada
logarítmica). qüinqüênio) e as curvas exponenciais para ajustar as quatro fases (escala A paisagem solitária do gênio arquitetônico

Há uma conseqüência importante do simples fato de a comunidade


arquitetônica ter crescido exponencialmente a uma taxa determinada. Um
de todos os arquitetos notáveis
A dinâmica histórica do campo exame dos dados mostra que cerca de 1/4
que viveram estava vivo em um mesmo momento. Por exemplo, em 1940
havia 536 arquitetos (maiores e menores) vivos comparados aos 2.320
Voltemos a considerar cada população como dependente dos recursos es-
que haviam surgido desde 1400, urna proporção de cerca de 25%. Essa é
pecíficos que lhe estão disponíveis. Cada ambiente fornece uma quantidade
uma propriedade do crescimento exponencial — que faz com que tal pro-
limitada desses recursos e, portanto, pode suportar apenas um número limitado contigüidade, seja a mes-
de indivíduos. A dinâmica de uma população é determinada pela taxa de cres- porção, às vezes denominada immediacy ou
ma, independentemente da data para a qual o cálculo é feito (no caso de
cimento "natural" da população — a taxa de aumento quando existe uma quan-
uma taxa de crescimento constante) — e que depende exclusivamente
tidade efetivamente ilimitada de recursos — e pela densidade da população com-
da taxa de crescimento e do tempo de vida característico dos indivíduos de
parada com a capacidade de sustento ou limite de saturação o número máximo
uma população. Ou seja, a contigüidade de uma população com cresci-
de indivíduos que um ambiente pode sustentar indefinidamente. Quanto mais próxi-
mento constante é sempre a mesma, independentemente de ter sido medi-
ma a população estiver da capacidade de sustentação do ambiente, mais vaga-
roso o seu crescimento, na medida em que os indivíduos são obrigados a com- da em 1700 ou 1900.
petir entre si pelos recursos. Compare isso ao crescimento de longo prazo de cientistas notáveis, o
qual possui um tempo de duplicação de cerca de cinqüenta anos. A essa
Há três padrões gerais de crescimento: exponencial, logístico e oscilatório.
O primeiro ocorre quando a população é pequena comparada com a capacida- taxa, a proporção de contigüidade é de cerca de 45%, de tal modo que os
176
Garry Stevens O círculo privilegiado 177

nentes vivos varia em uma faixa bastante ampla, de cerca de quarenta a


cientistas se vêem vivendo em um mundo intelectual habitado sempre por cinqüenta anos de idade. Em geral, a idade média dos arquitetos ilustres logo
quase a metade de todos os cientistas que já viveram. Para esses indivídu- após os períodos de pico aproxima-se dos cinqüenta anos, comparado com
os, a ciência é algo que está sendo criado por pessoas que estão vivas uma idade média geral de 44,5 anos para todas as épocas. Nas décadas
agora. Mas apenas um em cada quatro de todos os arquitetos notáveis subseqüentes aos períodos de pico, as taxas de ingresso são baixas. Normal-
que algum dia viveram está vivo agora (uma contigüidade de longo prazo mente a comunidade dos mais famosos é renovada pela adição, a cada déca-
de 25%). O mundo intelectual do arquiteto é dominado pelo passado. Por da, de 33% a seus números. Quando o campo já está ocupado por gênios,
essa razão, contar a história da ciência é muito diferente de contar a his- este número cai para 18%. Os anos que se seguem aos picos máximos tam-
tória da arquitetura. Há muito mais história para ser contada quando uni bém apresentam um ritmo de substituição fraco:' menos indivíduos ingressan-
indivíduo é um arquiteto do que se for um cientista. E é por isso, sem
dúvida, do, mas também poucos saindo.
que sua própria história é objeto de tanto interesse para o campo Os vales ocorrem quando o campo intelectual está esparsamente populado.
da arquitetura, de uma forma que não chega a interessar qualquer unia Os arquitetos maiores são, em média, uns oito anos mais jovens do que nos
das ciências ou mesmo a engenharia. O sentimento profundo de tradição períodos de pico, tendo cerca de quarenta anos. Os recém-chegados são
no interior do campo arquitetõnico emerge de uma simples propriedade mais abundantes, com o campo recebendo cerca de quatro novos membros
estrutural do campo que não pode ser posta de lado sem maiores preocu- para cada dez já estabelecidos, e poucos dos antigos habitantes sobrevivem à
pações.
década.
Talvez esse fenômeno explique a falsa modéstia por vezes notada Em uma versão idealizada da dinâmica do setor principal (Ilustração 4.10),
naqueles que estão no pináculo do sucesso arquitetõnico. O setor principal o padrão cíclico fundamental de crescimento é mostrado pela curva em negrito,
tem um tempo de duplicação ainda maior do que o de seus colegas no oscilando para cima e para baixo a cada século. Resumindo, quando um cam-
setor secundário, da ordem de 147 anos. Isso implica uma contigüidade po está lotado com celebridades, ele é também um campo mais estagnado,
de cerca de 17%. Ou seja, a qualquer momento, cerca de um em seis de com arquitetos mais velhos, admitindo menos recém-chegados e retendo mais
todos os arquitetos mais célebres que hajam jamais nascido está vivo. Por indivíduos de tempos anteriores. Já aquelas ocasiões nas quais percebemos
outro lado, quase um em dois de toda a elite de cientistas que já viveu uma escassez de gênios são também, nos bastidores, as mais dinâmicas: indi-
ainda está trabalhando. Onde os cientistas eminentes veriam unia multi- víduos mais jovens, um número maior de indivíduos ingressando, menos so-
dão de contemporâneos eminentes, formando uma paisagem ativa e po- breviventes dos velhos tempos. Consideraa cmo um too, tal descrição
pulosa, o grande arquiteto vislumbra apenas uns poucos outros picos se comunidade dos
implica algum tipo de validação da metáfora ecológica. A d
elevando acima de unia planície de mediocridade.
arquitetos maiores aumenta até ficar saturada com gênios, chegando ao pon-
to em que os recém-chegados não são capazes de se infiltrar no espaço
intelectual — não necessariamente em razão de qualquer falta de talento de
sua parte, mas porque suas contribuições são simplesmente ofuscadas pela
A dinâmica do setor dos arquitetos maiores riqueza de talento já existente. À medida que os mais velhos morrem ou se
aposentam, abrem-se oportunidades para os jovens, criando novos nichos no
Um exame das várias características do setor principal durante os pon- território intelectual da arquitetura para serem explorados.
tos de inflexão fornece mais evidência de que essa comunidade se comporta
como uma população que está passando por um crescimento cíclico. Tais
Como as conexões entre os arquitetos dirigem a dinâmica do setor principal
características são: a média da idade, a taxa de ingresso, a taxa de saída e a
substituição por década dos membros do setor. Considere em primeiro lugar ob. -
Até aqui venho argumentando que o setor principal é mais proveitosamen
os períodos de pico da Ilustração 4.8. A média da idade dos arquitetos emi-
como ocu•ando um ambiente simbólico, com recursos simbóli-
178
Ga rry Stevens
O circulo privilegiado 179

bourdianos, o mestre transmite capital cultural para seus pupilos. Quanto mais
Número de Média
eminente o mestre, maior o capital que pode ser transmitido.2°
arquitetos maiores
(relativo ao
de idade Considere agora os dados sobre as relações entre os arquitetos. Toda uma
o
limite de saturação)
metade dos arquitetos maiores teve um mestre também registrado na MEA,
que ocorre com menos de um terço dos arquitetos menores. A disparidade é
ainda maior pelo lado da produção. Mais uma vez, uma metade dos arquitetos
maiores tem pupilos incluídos na enciclopédia, mas apenas 18% dos arquitetos
menores tiveram pupilos que mais tarde se tornaram eminentes. Quanto aos
encadeamentos mestre—pupilo, cerca de um terço dos arquitetos maiores (32%)
não está neles incluídos, contra cerca de seis em dez (58%) dos menores. Uma
vez mais, apenas dois em dez dos arquitetos maiores não possuíam nenhum tipo
para quatro em
Taxa do cada de relação (mestre, pupilo, colega, rival) com alguém na MEA,
cada dez arquitetos menores na mesma situação.

muitos membros novos,


alta substituição Arquitetos maiores isolados
Taxa de ingresão
e substituição
Nem todos os arquitetos maiores pertencem a uma cadeia de mes-
Poucos membros novo.,
tres e pupilos. Possuir tal relacionamento não é condição incondicional-
baixa substituição — mente necessária para a eminência. Dos arquitetos da primeira ordem na
25
MEA, aqueles que ocupam várias páginas, apenas Steiner, Marchioni, Holl,
50 75 100 125

Guarini, Fuga, Fathy e Fanzago não tinham conexões de qualquer tipo


Ilustração 4.10 com outros arquitetos. Isso representa sete em 114, ou seja, 6%. A inclu-
Relação idealizada entre o padrão fundamental de crescimento, a média
de idade, taxas de saída e ingresso e substituição dos arquitetos maiores. O eixo são de Rudolf Steiner, mesmo sem levar em conta a extensão de seu
tempo, o eixo y é o valor dos respectivos indicadores. xéo

cos finitos, e que a existência desta finitude impõe limites ao número possível
° Em seu inovador estudo sobre os arquitetos americanos, Roxanne Wi I liamson quase chegou a
dos eminentes a qualquer momento. Mostrarei agora o processo exato que 2
esta conclusão ao mostrar como os grandes arquitetos americanos passaram pelos escritórios
gera o fenômeno cíclico que observamos e como tal processo fornece também de outros grandes arquitetos. Mas ela tentou escapar da implicação social desse fato e desen-
volveu uma explicação que evitava a todo custo a conclusão pouco agradável de que os antece-
um mecanismo que liga o nível micro (o arquiteto individual) ao nível macro (os
ciclos de explosão e recessão). dentes sociais de uma pessoa c seu capitai cultural podem impulsioná-la para a eminência.
Restou-lhe apenas como conclusão a idéia de que os arquitetos recebiam nesse contato alguma
O caminho mais proveitoso é continuar seguindo a linha de pensamento de "centelha criativa", uma espécie de legado da chama divina da criatividade pelo qual eram
Collins e considerar mais detalhadamente as relações entre os grandes arquite- investidos de "coragem e autoconfiança para serem fiéis à sua visão pessoal". Sem dúvida,
porém, o contato pessoal com arquitetos eminentes também fornece capital simbólico ou
tos. Collins argumenta que as principais estruturas sociais de um campo inte- sob a forma de contatos sociais, modos e maneiras de ser social e
cultural para o protégé
lectual são as cadeias de mestre—pupilo e que seu exame mostra que os mais conhecimento tácito. Se se trata da transmissão de uma centelha criativa ou da transmissão de
eminentes estão envolvidos em mais cadeias que os menos ilustres. Em termos redes de relacionamentos, seu mecanismo essencial ainda é a seqüência mestre—pupilo. Ver
Will iamson, American Architeets and the Mediantes of Fome.
Ga rry Stevens
O círculo privilegiado 181

Cinco arquitetos Quatro arquitetos


verbete, é um pequeno mistério. Hasan Fathy é um "filósofo, professor, maiores
foram mestres
arquiteto, artista, poeta e defensor dos pobres". Sua inclusão dependeu do
fato de ter criado urna arquitetura egípcia com características nativas.
Elias Holl foi um construtor que se destacou por volta de 1600. Ele foi
aprendiz de seu pai Hans, que não conseguiu ser incluído na
Ferdinando Fuga (com Alessandro Galilei, mencionado abaixo) foi um MEA.
pu-
er4
6%5
pilo de Giovanni Batista Foggini, que também não conseguiu impressionar
os editores da enciclopédia. Carlo Marchioni foi pupilo de outro arquiteto

f)5
ausente, Fillipo Barigioni, o qual, por sua vez, estudou com Carlo Fontana
e Mattia de Rossi, ambos incluídos na
MEÃ e classificados por mim corno
maiores. Cosimo Fanzago e Guarino Guarini parecem ser genuinamente
isolados. Aparte destes, Alberti, Laugier, L'Enfant e Galilei tiveram cone- Dez arquitetos
maiores
Onze arquitetos
menores
xões com colegas, porém nem mestres nem pupilos. Desse modo, um foram colegas foram colegas

total de 11 (10%) dos maiores não podem ser incluídos em uma cadeia de
mestre—pupilo.

Para cada dez arquitetos maiores


!35
Informações adicionais são fornecidas nas Ilustrações 4.11 e 4.12.
21 Estas
mostram em detalhe o número de relações para cada setor, em termos do
número médio de mestres, pupilos ou colegas para cada dez arquitetos (exclu-
ídos décimos). Cada dez arquitetos maiores tiveram 16 pupilos, cinco dos quais

5,5çif)f)
foram também arquitetos maiores e 11 foram menores. Eles também tiveram
cinco arquitetos maiores e quatro menores como mestres. Entre eles, trabalha- 1114
,z0
ram com 21 colegas, divididos igualmente em maiores e menores. No todo, 1,4
possuíram 45 relacionamentos com outros arquitetos. Os arquitetos menores •
estão em redes bem mais esparsas, com um número total de apenas 12 relacio- Cinco arquitetos
maiores
namentos. O número de seus pupilos é surpreendentemente inferior: cada gru- foram pupilos
Onze arquitetos
po de dez foi professor de menos de um arquiteto maior e de dois arquitetos menores
foram galgos
menores. Eles também trabalharam com um número substantivamente menor
de amigos eminentes: cerca de dois arquitetos maiores e três arquitetos meno-
res. Os arquitetos maiores estão ligados não somente com muito mais colegas Ilustração 4.11 Relacionamentos entre arquitetos maiores e os demais. Os números são
para um grupo de dez arquitetos maiores.
arquitetos, como também com os mais eminentes. Quanto mais eminente se é
e quanto mais eminentes as pessoas com quem se estudou, mais eminentes são
seus colegas de profissão e mais eminentes se tornarão seus pupilos.

2
' Os números são aproximados.
Dois arquitetos
maiores 2,5 arquitetos
foram mestres menores mente um ajuste mais ou menos próximo entre o que se deseja e o que se pode
foram mestres
ter. Os problemas surgem caso as expectativas não possam ser alcançadas,
caso as coisas que uma classe ou grupo acredita ser de seu direito se tornem
impossíveis. Isto é, caso o habitus de um grupo esteja sintonizado com um
estado anterior da sociedade, ele pode gerar disposições e práticas inadequa-
das para o mundo de hoje (efeitos hysteresis).22
Dentre muitas outras coisas, o contato pessoal com arquitetos notáveis
passa para o protégé um sentido da estrutura do campo, um sentido do que
vale a pena almejar, de que expectativas podem ser ou não realizadas. Quando
osetor principal está saturado com gênios, os indivíduos vêem menos chances
Dois arquitetos
maiores Três arquitetos
de chegar ao topo e aspiram por menos; quando parece haver uma escassez de
foram colegas menores criatividade, os indivíduos têm ambições maiores e aspiram ingressar nas filei-
foram colegas
ras dos imortais. Essas aspirações e expectativas são inculcadas pelo sistema
de encadeamento mestre—pupilo. O ponto-chave é que existe um efeito de
retardamento nesse sistema. O indício crucial é que a diferença média de idade
entre um mestre e um pupilo é de 22,1 anos. No processo de inculcação ao qual
o protegido é submetido, ele ou ela estará recebendo um habitus gerado há
Para cada dez arquitetos menores vinte anos, durante o treinamento do próprio mestre. A mentalidade do pupilo
incorpora, assim, o estado do campo intelectual como luivia sido duas décadas
antes e terá predisposições e gostos apropriados àquela época.
É essa defasagem que produz o fenômeno cíclico já observado. Podemos
quantificá-lo empregando uma equação da ecologia populacional para simular
o efeito do retardamento no crescimento da população de arquitetos maiores.23
0,5 arquitetos
Após substituir os valores adequados para a capacidade de sustentação e a
maiores
Dois arquitetos
taxa de crescimento e introduzir um índice de defasagem que faz a população
foram pupilos
menores crescer de acordo com seu tamanho vinte anos atrás, em vez de seu tamanho
foram pupilos
atual, o resultado é a geração de ciclos de cem anos que correspondem, com
Ilustração 4.12 uma proximidade surpreendente — dada a simplicidade do modelo —, às locali-
Relacionamentos entre arquitetos menores e os demais. Os números
são para um grupo de dez arquitetos menores. zações e às intensidades temporais dos ciclos mostrados pelos dados. Multipli-
cando os dados per capita pela população ocidental atual, retornamos para o
tamanho da população arquitetônica (Ilustração 4.13). (Note-se que os dados
aqui utilizados são calculados por década, não por qüinqüênio. O número de
Estabelecida a existência das cadeias de mestre—pupilo, podemos nos vol- arquitetos vivos em uma década é necessariamente maior do que em um
tar agora para a consideração final de como tais encadeamentos geram a dinâ- qüinqüênio, simplesmente porque a unidade de tempo é maior.)
mica particular dos ciclos de cem anos encontrados no setor maior. Retornemos
a Bourdieu e lembremos que o habitus
das pessoas gera aspirações subjetivas,
de tal modo que elas aspiram ao que é possível, considerando seu lugar na
ordem social, um processo que ele intitula de modo um tanto canhestro de
22 P. Bourdieu, Distinction: A Social Critique of Taste, trad. R. Nice (Cambridge: Harvard University
expectativa subjetiva das probabilidades objetivas. O habitus, Press, 1984).
essência o todo da ordem social incorporado em nossas mentes, gera sendo em
natural- 23
De R. M. May, "Models for Single Populations", Theoretical Ecology, ed. R. M. May (Oxford:
131ackwell Scientific, 1981) 5-29.
vínculos frágeis entre si. Evidentemente, os arquitetos menores participam das
cadeias de mestre—pupilo que estruturam o setor principal, mas tendem mais a
ser pupilos do que pupilos e mestres, ocupando os nós terminais da rede em vez
de serem elos na corrente. Enquanto a metade dos arquitetos maiores possui
discípulos, apenas 18% dos arquitetos menores estão nessa condição. Quanto
às suas relações com o setor subordinado, os arquitetos menores não depen-
dem completamente dos fatores econômicos que regulam a demanda daquele
setor. Por exemplo, pode-se verificar a partir do caso americano (Tabela 4.6)
que os números do setor secundário são intermediários entre os setores princi-
pal e subordinado: eles não mostram o crescimento explosivo dos subordinados,
mas também não apresentam a constância dos maiores.
A ligação entre o setor principal e o secundário é muito fraca para gerar os
padrões de crescimento cíclico apresentados pelo primeiro e que iriam ocorrer
caso Os dois estivessem fortemente unidos. No entanto, essa ligação é forte o
suficiente para proteger o setor secundário do impacto total das forças econô-
micas às quais os subordinados devem se render. Assim como o limite de satu-
ração dos arquitetos maiores é determinado pelo tamanho do espaço da aten-
ção intelectual e aquele espaço depende, em última instância, do tamanho da
população, o setor secundário possui um limite de saturação também depen-
dente do tamanho da população. Tudo indica que a condição normal para esse
setor é ter sua população próxima da capacidade de sustento de seu ambiente.
Isso explica a permanência que esse setor experimentou nas fases moderna
Ilustração 4.13 inicial e moderna. O problema pode então ser reformulado como: por que a
População do setor maior em números absolutos de arquitetos vivos,
por década. A linha mais fraca corresponde aos dados brutos; a linha mais forte é a capacidade de sustentação de seu ambiente aumentou de repente, durante
equação de crescimento ajustada. a transição barroca, quase que dobrando?
A dinâmica social básica do setor secundário deve depender de algum
aspecto do sistema socioeconômico europeu, que apresentava um estado rela-
tivamente constante nos anos anteriores a 1700 (fase moderna inicial) e passou
A dinâmica do setor dos arquitetos menores por algum tipo de mudança fundamental (transição barroca), firmando-se em
novo sistema que tem permanecido mais ou menos estável desde então (fase
moderna). Não há causas políticas ou econômicas óbvias para tal mudança.
A história do setor secundário apresenta duas fases distintas, uma fase
"moderna inicial" e outra "moderna", em cada uma das quais os números de Com efeito, as duas transições enquadram-se no que o historiador econômico
arquitetos per capita David Fischer chamou de dois períodos de equilíbrio na história da economia
permanecem mais ou menos constantes, separados por global, mas não há outras transições em seus demais períodos de equilíbrio.24
um período de transição que ocorre em cinqüenta e tantos anos em torno de
1700. As perguntas interessantes são: por que o tamanho do campo, em uma
base per capita,
deveria ter permanecido tão constante naqueles dois períodos
e por que um salto tão espetacular ocorreu na ocasião em que ocorreu? Ver Fisher, The Great Wave. Ele identifica uma série de revoluções nos preços na economia
O setor secundário está 24

inserido em um ambiente intermediário, entre o global de 1200 até os dias de hoje, separadas por períodos de equilíbrio nos preços. Dois destes
mundo quase inteiramente simbólico do setor principal e o mundo quase inteira- períodos, o equilíbrio renascentista de 1400 a 1470 e o equilíbrio iluminista de 1660 a 1730,
correspondem às transições aqui indicadas. Porém, é difícil construir um mecanismo causal
mente econômico do setor subordinado. Os setores principal e secundário têm
ligando os dois fenômenos.
Eu sugeriria como explicação mais provável o sistema urbano europeu e as
transformações que sofreu em inícios do século XVII, transformações estas
muito mais importantes em vários aspectos do que aquelas que ocorreram no
século XIX. Neste ponto, baseio-me no abrangente estudo de De Vries sobre a
população urbana da Europa da época medieval até os tempos modernos."
Pelo menos do século XIV até princípios do século XVII, a Europa possuiu
vários centros urbanos importantes — nos Países Baixos, as cidades do norte da
Itália, Nápoles e Paris — correspondendo mais ou menos a uma espinha dorsal
da indústria, indo da Toscana através da Alemanha até Flandres (Ilustração
4.14). De Vries refere-se a esse conjunto como um sistema urbano "polinuclear".
Em seus aspectos essenciais, a paisagem urbana de 1600 era ainda medi-
eval, um mundo de cidades semi-independentes, corporativas e fechadas, do-
minadas por elites fundiárias locais, os centros da economia regional. A Itália e
os Países Baixos eram, de longe, as regiões mais urbanizadas, com cerca de
15% e 22% de suas respectivas populações vivendo em vilarejos de dez mil
habitantes ou mais, comparado com 8% para a Europa como um todo. Como
havia sido desde princípios da Idade Média, a população estava distribuída de
modo quase que equilibrado entre o litoral mediterrâneo (principalmente a Itália
e a Península Ibérica) e as regiões do Noroeste europeu. O "longo século
XVI" foi um período de expansão populacional e crescimento econômico. De
1400 a 1600 a Europa teve um crescimento populacional considerável e um au-
mento em seu grau de urbanização. Seus efeitos foram distribuídos com relativa
eqüidade, com os vilarejos se beneficiando tanto quanto as grandes cidades.
Entre 1600 e 1700, esse sistema urbano passou por uma reestruturação
fundamental. Nas primeiras décadas do século XVII a Europa foi varrida por
unia crise geral — monetária, militar e médica, com repercussões econômicas e ilustração 4.14 0 sistema urbano europeu em 1600. A área de cada círculo é proporcio-
nal à população da cidade que representa, e a escala empregada é a mesma neste e no
demográficas em todos os seus países: após um respeitável aumento de 17% próximo mapa (Ilustração 4.15). Cada mapa mostra as maiores cidades que, em conjunto,
nos cinqüenta anos anteriores a 1600, a região foi capaz de ter um crescimento são responsáveis por metade da população urbana européia à época. Em 1600, a maior
populacional de apenas um fraco 5% nos cinqüenta anos seguintes.26 A crise cidade é Nápoles, com 281 mil habitantes. (Dados extraídos de J. de Vries, European
atingiu primeiro e com mais força a região mediterrânea, da Espanha até a Urbanization 1500-1800 [Cambridge,
MA: Harvard University Press, 19841.)
Itália. O crescimento populacional desacelerou consideravelmente, as cidades
se despovoaram, os grandes centros mercantis de Veneza e Gênova e as indús-
trias têxteis — o principal setor manufatureiro da economia medieval — do Norte
da Itália entraram em colapso.27 Ainda que a crise tenha afetado a Europa toda, o mundo mediterrâneo
mostrou-se menos resistente para absorver o choque do que o Noroeste. Quando
a poeira assentou, o mundo medieval havia desaparecido e estabelecida a es-
25 J. de Vries, European Urbanization 1500-1800
trutura do mundo moderno. O centro industrial e demográfico da Europa esta-
(Cambridge: Harvard University Press, 1984). i va claramente se dirigindo para o norte ao longo do eixo 'foscana—Países Bai-
26 Ver McEvedy e Jones, Atlas of World Population Histmy.
27 Ver C. M. Cipolla, ed.,
The Fontana Economic Histoty ofEurope: The Sbcteenth and Seventeenth xos. A Itália e a Espanha não eram mais industrial e comercialmente
Centuries (Glasgow: Collins/Fontana, 1973); e J. significativas. Mais pertinente para a questão sendo aqui discutida, o antigo
de Vries,
Crisis 1600-1750 (Cambridge: Cambridge Univcrsity Press,Economy
1975).
of Europe in an Age of
sistema urbano polinuclear foi substituído por um sistema com um único centro,
J.00
uarry Stevens
O círculo privilegiado 189

localizado em torno dos Países Baixos, compreendendo o Norte da França e o


O colapso na importância do Mediterrâneo também é claramente mostra-
Sul da Inglaterra e voltado mais para o Atlântico e o mar do Norte do que para
do pelo declínio da proporção de arquitetos da Itália depois de 1600 e por um
o Mediterrâneo (Ilustração 4.15). Com essa reestruturação geográfica veio
correspondente crescimento da França e da Inglaterra. Antes de 1600, a Itália
uma redistribuição da população entre determinados tipos de cidades. O cres-
consistentemente produzia mais da metade da comunidade arquitetônica. Isso
cimento urbano havia se dado principalmente nas cidades maiores, em particu- declinou de modo rápido ao longo dos anos 1600, até que por volta de 1700
lar nos portos do Atlântico e nos centros administrativos dos novos Estados- apenas um quarto dos arquitetos europeus era italiano. Uma redistribuição na-
nação. As cidades menores, os antigos locais de comércio do interior, os centros cional de arquitetos ocorreu em paralelo com a redistribuição da população e
eclesiásticos e as cidades da indústria medieval estagnaram ou definitivamente
declinaram. da riqueza, precedendo a transição barroca.
Já em princípios do século XVIII, o antigo sistema urbano medieval havia
sido substituído por outro essencialmente moderno, um mundo cujas cidades
eram dominadas pelas necessidades de nações-estado, de administrações na-
cionais e de mercados internacionais, em vez de elites locais e mercados regi-
onais. Pode-se perceber os efeitos da internacionalização sobre o campo
arquitetônico pelo exame das nacionalidades dos arquitetos e das localizações
dos edifícios que projetaram. De 1400 até a transição barroca, a proporção de
edifícios projetados por arquitetos de fora da região do edifício raramente foi
superior a 10%. Após a transição, os arquitetos adquiriram mais mobilidade, e a
proporção tornou-se significativamente mais alta. (Ilustração 4.16).
-\\•
industriai 50%
Zona Né
k‘
40%
• Transição
barroca
30%

20%

Ilustração 4.15 0 sistema 10%


urbano europeu em 1700. A maior cidade é Londres, com 575
mil habitantes.

0%
1400 1500 1600 1700 1800 1900 2000

Ilustração 4.16 Proporção de edifícios projetados por um arquiteto de fora de sua


região.
A transição barroca
50%

Está claro que a reestruturação urbana da Europa deve ter sido um fator
significativo na transição barroca. Ela precedeu a transição em cerca de cin-
40%
qüenta anos ou em duas gerações arquitetônicas (isto é, quase duas vezes a
Rede Crise A Rede
idade média que separa mestre e discípulo, 22 anos), o que parece ser uma urbana moderna
renascentista
defasagem razoável de tempo. Devemos apontar ainda uma outra reestruturação
importante que estava ocorrendo, esta no encadeamento mestre—pupilo do cam- 30%

I
po. Podemos registrar cerca de 150 cadeias independentes para todo o setor
dominante. A maioria é muito curta, constituída apenas por duas, três ou quatro
gerações, mas elas estão interligadas por relacionamentos entre colegas. Essa 20%
característica amarra de fato todo o sistema, no caso dos arquitetos maiores.
1-lá duas cadeias particularmente importantes, uma da Renascença e uma que
se estende do Barroco até o presente. A extensão do último é extraordinária: Transição
10 barroca
possível traçar elos diretos de interação pessoal ao longo de quatrocentos anos,é 111
11
ligando Jacques Lemercier, que floresceu em inícios dos anos 1600, a Stanley
Tigerman (entre outros).
o --,00
Essas duas redes são a espinha dorsal do setor maior. Elas estão ligadas a 1600 1700 1900
1400 1500
outras redes por relacionamentos entre colegas. Uma análise do surgimento e
do progresso dessas duas redes-chave mostra como se relacionam com a tran- 4.17 Crescimento e declínio das duas redes principais de arquitetos. Os
Ilustração
sição barroca (Ilustração 4.17). A rede renascentista vai desaparecendo aos refletem a proporção de todos os arquitetos vivos em cada década que são
dados
poucos ao longo da transição, para ser substituída pela principal rede moderna, membros da rede.
que surgia ao mesmo tempo em que a primeira desaparecia.
28 Quase todos os
arquitetos no sistema mais antigo eram italianos. Quando a rede recomeça, por
volta de 1620, ela está localizada na França e na Inglaterra.
Estruturando o setor secundário estavam as cadeias de mestre—pupilo e as
A transição barroca é, portanto, mais do que uma mudança nas relações interligações entre colegas mantidos pelos arquitetos maiores. A grande rede
quantitativas entre arquitetos e o ambiente socioeconômico geral. Ela marca da fase moderna inicial compreendia um total de 133 arquitetos dos possíveis
também a destruição da série toda de relações pessoais que havia estruturado 222. Cerca de 60% de todos os arquitetos com pelo menos um vínculo de
a fase moderna inicial da arquitetura, a grande rede de relações que havia algum tipo com os demais estavam incluídos na rede. Essencialmente italiana,
reunido os arquitetos renascentistas em um todo. E minha explicação para a
essa rede entrou em colapso com o declínio da economia italiana ao longo dos
transição tem dupla face. Impulsionando a expansão do setor secundário esta-
anos 1600.
va a reestruturação urbana da Europa, a qual criou um novo tipo de ambiente Uma rede mestre—pupilo recomeçou em solos economicamente mais fér-
urbano constituído por grandes cidades, dirigidas por governos nacionais, de um teis do Noroeste europeu, mas quando isso ocorreu o ambiente urbano já era
gênero bem diferente do sistema medieval de vilarejos e pequenas cidades diferente daquele que havia sustentado o sistema arquitetônico italiano. Esse
regionalmente centralizadas. Esse ambiente era capaz de sustentar duas vezes ambiente oferecia bem mais recursos para os arquitetos menores sobrevive-
mais arquitetos secundários per capita
do que aquele da fase moderna inicial. rem. A força motriz que dirigiu a expansão nesse ambiente foi a formação de
uma nova rede mestre—pupilo. Ela foi capaz de criar e sustentar uma densidade
mais alta de vínculos, abrangendo cerca de 78% (1.169 de 1.496 indivíduos).
28
O declínio do sistema moderno após 1920 é resultado do declínio geral da população arquitetônica Com meios bem mais efetivos de transmissão de capital simbólico entre seus
mais ou menos na mesma época. membros, a rede pôde produzir mais arquitetos para o setor menor.
Compreendendo o ensino de
arquitetura

O novo sistema de reprodução do campo

Por quase toda a sua história, o campo da arquitetura contou, para se


reproduzir, com a transmissão de capital simbólico por meio de cadeias de mes-
tres c pupilo e de redes de contatos pessoais. Em princípios do século XIX, o
Estado francês criou um novo método de reprodução com a formação de uma
escola cuja finalidade era treinar arquitetos, a École des Beaux-Arts. Ao longo
dos 150 anos seguintes, o sistema de reprodução do campo foi sendo gradual-
mente inserido nos sistemas nacionais de educação superior. A Ilustração 5.1
mostra a expansão desse credenciamento no campo arquitetônico. Apesar de
ser um indicador das credenciais educacionais do setor mais de elite do campo,
reflete o crescimento no credenciamento como um todo.'
As conseqüências desse fato têm sido consideráveis.2 A primeira que po-
demos observar é sua interferência nos mecanismos tradicionais de reprodu-
ção. No capítulo anterior, ressaltei que o comportamento cíclico nas mudanças
dos números de grandes arquitetos perde sua definição no princípio do século

' Se tomarmos os arquitetos americanos como exemplo, em meados dos anos 1950 apenas 56%
tinham possuíam um diploma, porcentagem muito aproximada da proporção de engenheiros
diplomados. Em data tão tardia como 1975, um quarto dos arquitetos americanos não tinha um
diploma. Ver R. Collins, The Credential Society: An Historical Sociology of Education and
Stratification (Nova York: Academic Press, 1979); J. M. Mayo, "Dilemmas of Architectural
I: Education in the Academic Political Academy", Journal of Architectural Education 44, O 2
(1991): 80-89; e A. Derman, "Summary of Responses to the 1974 A1A/ACSA Teachers Seminar
Survey of the Concerns and Interest of Architectural Educators", Journal of Architectural
Education 28, no 1-2 (1975): 10-22.
2 Sou grato à Dra. Sylvia Ficher por ter enfatizado esta questão.
70%
Universidade -.o-- Satisfaz
as exigências de
60%

50%

40%

30% 4

20%

10%

0%
1800 1820 1840 1860 1880 1900 1920 1940 1960 1980

Ilustração 5.1 Porcentagem de arquitetos listados na MEA


que freqüentaram uma ins-
tituição educacional.
produzem

XX (ver Ilustração 4.8). Não é por coincidência que isso ocorre umas poucas Arquitetura
décadas após o aumento no número de arquitetos credenciados que se inicia 1
nos anos 1880.
Podemos compreender melhor todas as implicações da institucionalização Ilustração 5.2 Modelo-padrão do relacionamento entre as universidade, as escolas de
do sistema de reprodução do campo caso considerarmos a história do ensino de arquitetura e o corpo de seus praticantes. Produção e reprodução estão unidas.
arquitetura e reavaliarmos a opinião convencional sobre as escolas de arquite-
tura e suas relações com a profissão e com as universidades (Ilustração 5.2).
A idéia básica é que a arquitetura se reproduz por meio de um sistema formal de
ensino que está adequadamente localizado nas universidades. O Estado credencia que as escolas de arquitetura deveriam ter um relacionamento tão intenso tanto
os formados no campo da arquitetura, certificando-os formalmente como com- com a profissão como com as universidades. Os profissionais americanos e
petentes, outorgando a representantes profissionais seus o monitoramento da britânicos nunca foram reticentes em críticas aos departamentos, cuja deficiên-
qualidade dos programas educacionais. Por seu lado, os acadêmicos de arqui- cia fundamental e contínua é, em sua opinião, a incapacidade pura e aparente-
tetura, além de lecionar, produzem também pesquisa ou erudição, que são trans- mente perversa de preparar os estudantes para o verdadeiro mundo da práti-
mitidas em suas aulas e aumentam a base de conhecimentos da profissão. ca.3 O sistema de ensino em ateliês, dizem, é um mundo da fantasia no qual
professores incompetentes, que são o centro de cultos a personalidades mes-

A critica do ensino de arquitetura

Por mais direto que este modelo possa parecer, ele não pode ser uma H. L. Smith, "1984 — Architectural Education's Year of Challenge", Architectural Record,
janeiro de 1984, 43; e T. Fisher, "PIA Reader Poll: Education", Progressive Architecture,
representação correta da realidade, uma vez que não consegue explicar por
fevereiro de 1989, 15-17.
196
Ga rry Stevens O círculo privilegiado 197

quinhas, encorajam expectativas bizarramente irreais nos estudantes, Produção Campo Produção
mo ao mes- Campo doutoral
tempo em que evitam ensinar qualquer coisa que tenha de fato algo doutoral
a ver 72
com as duras realidades da vida.' Os estudantes não aprendem nada Química 480 Farmácia
outras atividades da indústria da construção.' Eles não são capazes de sobre Zoologia 217 História 63
nhar dese-
e não sabem nada sobre construções. Os remédios sugeridos Literatura 54
vão em Engenharia 196
geral no sentido de se introduzir mais matérias "pragmáticas", como
tração adminis- 140 Economia doméstica 29
e disciplinas técnicas, ou — mais significativo — de se buscar um Música
parcial a alguma forma de aprendizado por pupilagem.6 retorno 120 Jornalismo 15
Economia
aia 15
Com certeza não é difícil encontrar evidências de que a arquitetura Serviço Social 117 Artes
está conseguindo ter uma performance não
semelhante a outras disciplinas acadê- 101 Arquitetura 11
micas, Línguas
cuja função é tida, invariavelmente, como aquela de produzir 6
mento. conheci- Todas as disciplinas 100 Direito
A Tabela 5.1 mostra a produção de doutorados em comparação
com os Educação 79
graus profissionais menores em vários campos nos Estados Unidos. Um
valor
de cem indica que o campo concede graus de doutor na mesma proporção
que
o sistema de ensino superior como um todo. Se a arquitetura fosse tão Tabela 5.1 Proporção de doutorados em relação aos graus menores atribuídos em vários
da orienta-
para a pesquisa como uma disciplina universitária comum, produziria campos, comparado com a proporção para todos os campos (média = 100). (Fonte: S. E.
dez vezes mais doutores por ano do que de fato forma. Até mesmo economia
quase
Harris, A Statistical Portrait of Higher Education [Nova York: MacGraw-
Hill, 1972]. Os
doméstica, área que em geral não é considerada como das mais intelectualizadas, dados são para os Estados Unidos, 1965-1966.)
produz mais doutores. Durante todo o período de 1920 a 1974, as escolas ame-
ricanas graduaram apenas 56 doutores em arquitetura, o que é um número guisa; tanto eles como a profissão não consideram a atividade de pesquisa
insignificante.' Talvez um quarto dos professores americanos de arquitetura relevante.8 Por vezes, há mesmo uma clara hostilidade à própria idéia de se
tenha doutorado, título que em outros campos é mandatório até para posições desenvolver esta que é a atividade intelectual e acadêmica por excelência, uma
docentes mais secundárias. Os professores de arquitetura fazem pouca pes- vez que projetar edifícios — e não publicar trabalhos — aumenta o capital simbó-
lico do acadêmico de arquitetura. Conforme lamentou um deles:
4 A pesquisa arquitetônica sobrevive como um fenômeno ad hoc empregado
Para exemplos, ver J. Wines, "A Vivid Challenge to the Status Quo",
novembro de 1984, 51-57; M. Pawley, "Canterbury: The Architect's Tale",Architectural Record, quando necessário, permanecendo errática na maioria das áreas temáticas e,
Awhitects 'Journal,
12 de outubro, 1983, 68-70; R. D. Fox, "A Student's Long Path to Arcadia", em geral, não-monitorada e não-institu-cionalizada.9
Record,
abril de 1984, 53-57; M. S. Stubs, "Technical Education of Architects", Architectural
agosto de 1987, 73-77; T. Fowler, "What Are Students Concerned About?", Architecture, Aqueles envolvidos na atividade arquitetônica com certeza consideram a
Record, Architectural
maio de 1985, 61-63; R. Gutman, "Education and The World of Practice",
Architectural Education 40, n6 Journal of pesquisa como irrelevante ou redundante, porém seria de se esperar que seus
Journal, 26 de 2 (1987): 24-25; A. Rapoport, "Studious Questions",
Architects '
Education", outubro, 1983, 55-57; P. Carolin, "Expectation versus Reality in Architectural
Strategic Study of the Profession,
ed. F. Duffy (Londres: Royal Institute of British
Architects, 1992), 171-182; e T. G Heinlein, "Rethinking Architectural Education",
Technology, março/abril de 1981, 12. Architectural Ver os comentários em J. Musgrove et al., "Architectural Research: Problems of Organization
5 T. Muir, "All Together",
ArchitectsVournal, 20 de março, 1991, 32-35. and Funding in the United Kingdom", Journal ofArchitectural Research 4, 112
2 (1975): 41-47;
6 Ver H. N. Cobb, "Architecture and The University", Robinson, "Architectural Research, Incorporating Myth and Science", Journal of
Architectural Record, setembro de 1985,
J. W.
43-51; R. Filson, "Can Schools Span the Gap to Practice?", Architectural Education 44, n2 1 (1990): 20-32; M. J. Malecha, "Architectural Education",
Architectural Record, novembro de 0h Anniversary
1985; 59-63; e O. J. Mitchell, "ACSA —The Member Schools Should Celebrate Their Diversity", Ekistics,n2'328-330 (1988): 121-132; A. Rapoport, "Statement for the ACSA 75
Architectural Record, janeiro de 1984, 17-18. Journal of Architectural Education 40, n2 2 (1987): 65-66; e T.
(Jubilee) 1ssue of JAE",
7 L. H. Harmon,
Woolley, "Why Studio?", Architects' Journal, 20 de março, 1991, 46-49.
A Centwy of Doctorates: Data Analyses of Gr owth And Change Journal of
National Acaderny of Sciences, 1978). (Washington: 9 R. Plunz, "Comments on Academic Research in Architecture in the United States",
Architectural Education 40, n2 2 (1987): 62.
1925 Garry Stevens O círculo privilegiado 199

irmãos acadêmicos se interessassem mais por ela. Não é o que ocorre. A qualidade e a quantidade da produção de pesquisas, em geral materiali-
Pouquíssimas faculdades ou departamentos de arquitetura nos países de língua zadas como publicações acadêmicas, estão entre os indicadores principais da
inglesa produzem trabalhos eruditos em uma escala considerada normal para credibilidade institucional de universidades e de indivíduos na carreira acadêmi-
outras disciplinas universitárias.'° Bedford e Groak provaram que menos da ca em todas as disciplinas, exceto em arquitetura.16 Juan Pablo Bonta e outros
metade dos professores de arquitetura britânicos estava envolvida em ativida- já argumentaram que as universidades deveriam se conformar e aceitar a pe-
des de pesquisa, proporção que provavelmente deve ser semelhante no caso culiar falta desse tipo de produção na arquitetura, mas a tendência das univer-
dos Estados Unidos." Mais estudos sobre o meio ambiente construído são sidades é não concordar?' Como mostra o Relatório Boyer, elas têm dificulda-
realizados em centros governamentais de pesquisa e na indústria privada do de em compreender o que as faculdades de arquitetura querem dizer com "o
que nas próprias escolas e, portanto, fora das universidades?' A pesquisa de- serviço profissional e a aplicação de conhecimentos (...) constituem, juntos, a
senvolvida nas faculdades é fragmentada e ocorre mais em subdisciplinas es- maior parte da produção intelectual da arquitetura". I8 Essas atividades pare-
pecíficas (estudos sobre comportamento ambiental como um ramo das ciências cem ser adequadas para profissionais, mas não para acadêmicos. Nas últimas
sociais, pesquisas sobre iluminação como um ramo da física, da engenharia ou décadas, as universidades vêm pressionando as escolas de arquitetura para que
da fisiologia) do que no meio arquitetônico — a tal ponto que alguns estudiosos já se aproximem mais do lado acadêmico, obtenham verbas para pesquisa, esta-
manifestaram dúvidas sobre se de fato existe tal coisa como a pesquisa beleçam critérios de promoção de seus professores nos mesmos moldes que
arquitetõnica?' Isso não é uma surpresa, uma vez que os pesquisadores da outras disciplinas e façam um esforço para acatar normas e valores acadêmi-
área raramente são arquitetos que, tão-somente, decidiram não ser projetistas. cos." Não é surpresa alguma que as pressões para que se adaptem aos ideais
Na maioria dos casos, trata-se de migrantes de outras disciplinas, com graus acadêmicos da universidade sejam tão estressantes para as escolas.
variáveis de interesse nas atividades centrais das escolas de arquitetura. Por que as escolas acabam sendo ridicularizadas pela profissão e despre-
A maioria dos arquitetos e muitos dos acadêmicos de arquitetura classificariam zadas pelas universidades? Por que parecem inadequadas em suas duas fun-
o tipo de trabalho desenvolvido por tais pesquisadores como pesquisa em cons- ções cruciais de reprodução (da profissão) e produção (do discurso intelectu-
trução (não-arquitetônica) e bastante alheia à sua seara. E, em geral, acham al)?" Muitas das tensões no ensino arquitetônico vêm do fato de que seus
que pessoas que não possuam um diploma de arquitetura simplesmente não vários elementos foram extraídos de campos nacionais estruturados de formas
diferentes c levados para os campos britânico e americano fora de contexto.
deveriam estar nas escolas e vêem com apreensão a guerra aberta que existe
O método atual de treinar arquitetos em uma instituição que também desenvol-
entre os pesquisadores científicos — em sua opinião, presentes em número ex-
ve pesquisas e estudos sistemáticos em uma grande variedade de áreas inte-
cessivo — e aqueles que se dedicam à tarefa de ensinar os futuros arquitetos.'4
lectuais é muito recente e resultou da síntese dos sistemas educacionais de
As únicas áreas que são consideradas inequivocamente legítimas para a cele-
vários países. Da França, adotamos a noção de um ensino de arquitetura for-
bração arquitetônica são história, teoria e crítica?'

'° Musgrove et al., "Architectural Research". 16 W. J. Boyes, S. K. Happel e T. J. Hogan, "Publish or Perish: Fact or Fiction?", Journal of
Economic Education 15 (primavera de 1984): 135-141.
' ' M. Bedford e S. Groak, "Current Issues in UK Architectural Education", Journal of Architectural
3 (1983): 7-41. Architectural Education " 7 P. Bonta, "More on Faculty Publications and P&T Reviews",
J.
12 Education 39, no 2(1985): 28-29.
Mesmo assim, é muito pequena. A indústria da construção gasta urna quantia mínima em E. L. Boyer e L. D. Mitgang, Building Community (The Boyer Report) (Princeton: Carnegie
pesquisa comparada a outras indústrias. Parece estar entre metade a um décimo do nível de Foundation for the Advancement of Teaching, 1996), 54.
outros setores da economia. Ver G. D. Oberlender, "Development of Construction Research",
Journal of Construction Engineering and Management 110,104 1 " Mayo, "Dilemmas in Architectural Education", 80-89.
13 J. Templer, "Architectural Research",
(1984): 486-490. 20 Outros profissionais das artes encontram-se precisamente na mesma situação. Os professores
Journal of Architectural Education 44, n° 1 (1990): 3. de arte, por exemplo, não vêem nenhuma necessidade de contribuições de seus colegas envol-
Ver Robinson, "Architectural Research".
15
vidos em pesquisa e são severamente criticados por aqueles que estão no mundo comercial
Omiti referência ao projeto porque, enquanto o projeto é considerado o núcleo da academia como sendo insensíveis a suas necessidades. Ver J. LaChapelle, "Conflict between Research
arquitetônica, a maioria dos acadêmicos de arquitetura considera a "pesquisa de projeto" um and Practice In Art Education: A Social Perspective", Studies in Art Education 23, no 2 (1982):
conceito ridículo. Muitos consideram que projeto é algo simplesmente feito, não pesquisado.
56-64.
200 Garry Stevens O círculo privilegiado 201

mal e organizado; da Alemanha, o conceito de que há e deve haver um elo REPRODUÇÃO PRODUÇÃO
entre o ensino e a pesquisa e que isto ocorre nas universidades. Essas duas
idéias foram reunidas de um modo incongruente nos Estados Unidos, onde se 1
profissionais produzem --GN arquitetura
sobrepuseram a um sistema de aprendizado por pupilagem herdado da Grã-
Bretanha.21

I
Grã-Bretanha: O contrato de pupilagem tornam-se treinam sobre

Devemos começar pelo "método natural" de ensino no sistema profissio- 1


nal anglo-americano, que é o mecanismo auto-regulador da pupilagem (Ilustra- discurso
ção 5.3). Essa foi uma modificação introduzida no sistema de aprendizado pupilos
medieval, no qual um aprendiz pagava em trabalho a instrução que recebia do
mestre, uma vez que um pupilo com contrato pagava em dinheiro para ser I t
ensinado. Por volta de 1800, algo em torno da metade daqueles que estavam produzem
ingressando na atividade arquitetônica era treinada por meio da pupilagem, pro-
---
porção que estava aumentando rapidamente nas primeiras décadas do século
XIX em substituição a outros modos de acesso, tal como a ocupação na cons- universidades de elite) educam -o...! intelectuais
trução. Em geral, a pupilagem durava de cinco a seis anos e incluía a freqüên-
cia em alguma academia de arte local e, por vezes, viagens ao estrangeiro.22
A função de reprodução do campo estava firmemente entregue ao corpo
de praticantes da ocupação. O Reino Unido foi pioneiro no conceito de associa- Estado
não participa ou
ção profissional, que estruturou todo o nosso entendimento do que é uma pro- participa muito pouco,
fissão. Mais ainda, associações fortes eram as principais responsáveis pela tanto na reprodução
reprodução de suas respectivas ocupações. O sistema britânico de educação quanto na produção
profissional foi sempre dominado por praticantes, os quais conduziam suas ati-
vidades em escolas que podiam ou não estar associadas a universidades. Até Ilustração 5.3 0
modelo britânico de pupilagem. O corpo de praticantes cuida da repro-
hoje, o treinamento em algumas profissões, como o direito e a contabilidade, é dução e outros intelectuais cuidam da produção do discurso.
feito na maioria dos casos fora de universidades. Até tão recentemente como
cerca de 1979, não era necessário um diploma para ser advogado; e, na década
de 1950, os procuradores ingleses chegaram a se desassociar da aliança que nos anos 1970).23 As profissões britânicas desenvolveram-se como associa-
haviam feito com as universidades algumas décadas antes (eles retornaram ções de pessoas que realizam trabalhos similares e não, como no caso da Euro-
pa, de pessoas que possuem qualificações similares certificadas pelo Estado.
Oxford e Cambridge, as únicas universidades na Inglaterra no princípio do sé-
culo XIX, consideravam o conceito de treinamento vocacional ofensivo à pró-
'1 A Itália
não foi uma influência importante no desenvolvimento do ensino nos países de língua
inglesa. As academias de arte da Renascença e posteriores deixaram de ser modelos relevantes
após o declínio da arquitetura italiana no século XVII.
22 P. Davey, "Profession or Art?", M. Burrage, "From Practice to School-Based Professional Education: Patterns of Conflict and
Architectural Re.view, julho de 1989, 59-66; e M. Crinson 23
Lubbock, Architecture: Art or Profession? e J. Accommodation in England, France and the United States", The European and American
(Manchester, GB: Manchester University Press, Wittrock (Cambridge: Cambridge University
1993), 142-187. University since 1800, ed. S. Rothblatt e B.
Press, 1993) 142-187.
pria idéia de universidade e estavam mais que satisfeitas com o fato de as estavam em escolas politécnicas ou de arte, 22% em universidades propria-
novas profissões educarem seus membros; essas, por sua vez, estavam igual- mente e os demais estavam abrindo seu caminho trabalhando em escritórios.25
mente contentes em desenvolver um treinamento baseado na prática. As novas Os praticantes ainda dominavam o sistema educacional, mas por meio de sua
universidades demonstram interesse maior apenas marginalmente. Uns poucos associação profissional, o Royal Institute of British Architects (RIBA). Ainda
anos após sua fundação, a Universidade de Londres tinha dois professores de que qualquer um pudesse se autodenominar arquiteto antes do Architects'
arquitetura, que davam apenas algumas conferências ocasionais com o objeti- Registration Act de 1931, depois que o RIBA instituiu o exame para ingresso
vo de suplementar a pupilagem e não de oferecer qualquer tipo de ensino subs- em seus quadros em princípios dos anos 1880, todas as escolas passaram a
tantivo na disciplina. trabalhar no sentido de assegurar que seus alunos fossem aprovados nesse
Na Grã-Bretanha não se encontrava o sistema de certificação pelo Estado exame. O RIBA concedeu isenção parcial do exame à Universidade de Liverpool
que existia desde o século XVII na França e que foi introduzido, posteriormen urna década depois da fundação de sua escola e, após a década de 1920, pas-
te, na Alemanha. A certificação de competência era dada em uma base sou lentamente a conceder isenção total do exame para todas as escolas, à
facto, de
pela adoção de um sistema de concursos de seleção de projetos. medida que iam sendo criadas. Ao mesmo tempo, estabeleceu comissões de
O concurso era um meio muito comum para selecionar projetos na Grã-Bretanha as legislações sobre o registro profis-
inspeção para monitorar as escolas. Com
de meados do século XIX. Vencer um concurso após alguns anos de pupilagem sional, o RIBA obteve controle de fato sobre o licenciamento de indivíduos e o
era o rito de passagem que denotava que um jovem arquiteto era competente credenciamento de escolas, controle esse exercido com mão de ferro até hoje.
para exercer a ocupação por si próprio.24 As vantagens da pupilagem como meio de reprodução profissional são
A primeira escola no Reino Unido a oferecer um programa estruturado de três. Primeiro, ela permite um controle fino da oferta de novos praticantes da
instrução foi a Architectural Association (AA), fundada em 1847 por auxiliares ocupação. Em períodos de expansão, os escritórios aceitam pupilos e, em perío-
de ensino de arquitetura descontentes. Ela não estava vinculada à Universida- dos de recessão, livram-se deles. As imposições da demanda podem ser res-
de de Londres, então recém-estabelecida, e permanece até hoje sem vínculos pondidas rapidamente e a oferta regulada de modo a satisfazê-la. Em contras-
com qualquer universidade, ao mesmo tempo que mantém uma reputação de te, um sistema baseado em escolas ignora exigências do mercado e as substitui
excelência e inovação (e elitismo vanguardista). A AA formou apenas uma por sua própria lógica, relativamente independente e derivada do interesse das
proporção mínima de praticantes da ocupação durante o século XIX e passou a escolas em manter um fluxo contínuo de formados. Segundo, aqueles na práti-
oferecer um curso em tempo integral (com quatro anos de duração) apenas em ca definem o que deve ser aprendido e possuem um melhor entendimento da
1889. Aulas em período diurno só começaram a ser dadas a partir de 1901. demanda de competências específicas pelo mercado. Em terceiro lugar, o peso
Poucos anos depois, começaram a funcionar as primeiras escolas vinculadas a todo do capital social de um indivíduo é mais bem explorado no sistema de
universidades: o King's College da Universidade de Londres e a escola da aprendiz.
Universidade de Liverpool; ainda na virada do século foram criadas mais algu- A importância do capital social varia, tendo efeitos menores naquelas áre-
mas escolas. as que exigem certificação acadêmica formal e efeitos maiores em áreas
O sistema de contrato de pupilagem entrou em declínio à medida que eram desburocratizadas do espaço social, às quais o Estado não impõe regras e não
fundadas novas escolas, a tal ponto que na década de 1920 a maioria dos estu- controla. É evidente que o capital social que pode ser mobilizado por um indiví-
dantes de arquitetura estava recebendo algum tipo de treinamento formal duo das classes mais elevadas é bem maior do que o de alguém das classes
abrangente. Entretanto, este treinamento raramente se dava nos altos escalões mais baixas da estrutura de classe. Já foi confirmado que, no final do século
do mundo acadêmico. Quando, por ocasião da primeira discussão importante XIX, quando a pupilagem estava no auge, os aprendizes de arquitetura ingleses
sobre educação arquitetônica no Reino Unido após a Segunda Guerra (a Con- eram oriundos de classes mais elevadas do que aqueles da Alemanha, onde o
ferência de Oxford, em 1958), foi feito um apelo para transferir o ensino para o ensino arquitetônico era desenvolvido em universidades técnicas.26
âmbito das universidades, cerca de 63% de todos os estudantes de arquitetura

24 J. Bassin, Crinson e Lubbock, Architecture: Art or Profession?


Architectural Competitions in the Nineteenth-Centwy England T. B. Saunders, "Architectural Education: Germany (with Austria and Switzerland)",
Research Press, 1984). (Ann Arbor: UM1 26
Architectural Record 13 (1903): 178.
ner
A pupilagem permite que aqueles com melhores relações sociais coloquem
os filhos nas firmas de maior prestígio desde o começo de suas carreiras (na
verdade, antes mesmo que suas carreiras comecem), garantindo um início pre- Pois a arquitetura é uma arte impura, indissoluvelmente vinculada
coce impossível para os aspirantes oriundos de classes mais baixas, os quais - ao dinheiro e aos modos pelos quais o dinheiro se expressa. Vezes
incapazes de provar
qualquer talento, uma vez que não tiveram ainda a oportu- sem conta observamos jovens arquitetos iniciando suas carreiras com
nidade de mostrá-lo - não podem ter e não terão a oportunidade de demonstrar encomendas recebidas de membros ou amigos ricos de suas famílias;
valor suficiente. O sistema de aprendiz também oferece aos socialmente privi- em alguns casos, tais oportunidades são as mais substanciais que
legiados a possibilidade de sucesso por outros meios que não a competência jamais terão. Basta lembrar de James Renwick, personagem da alta
técnica ou a inclinação criativa. A história da prática arquitetônica está apinha- sociedade de Nova York que projetou a Grace Church aos 26 anos,
da de firmas que alcançaram sucesso combinando a habilidade arquitetônica e de William Delano, que recebeu a encomenda do projeto da Walters
de um sócio com a habilidade empresarial e social de um outro sócio. Uni Art Gallery, em Baltimore, com a mesma idade, quando era um recém-
projeta, o outro corteja os ricos para trazer as encomendas. formado e sequer havia projetado uma casinha de cachorro.
No modelo britânico, a produção intelectual cabia principalmente a intelec-
tuais sem vínculos institucionais. Na Europa e nas Américas, até meados do B. Gill, "Stanford White", Macmillan Encyclopeclia of Architects,
século XIX a vida intelectual era algo que acontecia fora das universidades. ed. A. Placzek (Nova York: Macmillan, 1982), 391.
A intelligentsia
era encontrada na aristocracia ociosa, na burguesia e nos mem-
bros de elite das profissões." Muitos desses intelectuais eram educados em Para evidências mais sistemáticas, deve-se consultar o estudo
universidades de elite, mas poucos eram empregados por elas. O debate contí- substancioso de Williamson sobre arquitetos americanos famosos:
nuo sobre a qualidade arquitetônica era conduzido em artigos para a imprensa
cultural, nas poucas revistas de arquitetura, em livros, em discussões, em Ao examinar o material biográfico encontrado na literatura so-
reuniões do AIA ou do RIBA ou em comunicações pessoais entre arquitetos e
críticos. bre a arquitetura, encontrei fatores que vinham à tona com surpreen-
dente regularidade. As vantagens de família, as escolas e as cone-
xões sociais - apesar de não serem exclusividade da arquitetura -
também são importantes. Na verdade, seria ingênuo não reconhecer
o ,fato de que, na maioria das carreiras, um contendor ávido por
A importância do capital social fama ou por sucesso financeiro muitas vezes obtém vantagens consi-
deráveis em razão de uma origem social que oferece contato natural
com os agentes do poder. Para os arquitetos, isto significa contato
A propriedade de capital social é e sempre foi de importância central
na arquitetura, um fato pouco agradável e pouco discutido tanto pelos com clientes potenciais ricos e com aqueles que tomam as decisões,
profissionais quanto pelos educadores, como neste raro reconhecimento tenham eles bases políticas ou sociais. Um grande número de arqui-
feito por Brendan Gill, em seu artigo sobre Stanford White na tetos famosos teve acesso a clientes graças aos contatos sociais de
MEÃ: suas famílias e porque freqüentaram escolas da Ivy League, onde
Que McKim, Mead e White, em seu apogeu, era o escritório da seus colegas de universidade incluíam futuros clientes potenciais.
moda na cidade é um fato que deve ser encarado com equanimidade. Alguns, como Wright, que não freqüentou uma dessas escolas, en-
contraram outras maneiras de alcançar clientes. Wright não só se
beneficiou do relacionamento com seu tio e sua congregação, como
também cortejou ativamente seus primeiros clientes associando-se a
27 suas organizações e atividades.
T. Render,
The "The Erosion of Public Culture; Cities, Discourses, and Professional Disciplines",
Authority ofExperts,
106. ed. T. L. Haskell(Bloornington: Indiana University Press, 1984), 84- R. K. Williamson, American Architects and the Mechanics of Fame
(Austin: University of Texas Press, 1991), 4.
França: o modelo de certificação pelo Estado
r_
o Estado
cria e santifica
1 Academie des Intelectuais
Se a educação profissional britânica era dominada por seus praticantes, na Beaux-Arts
os mecanismos de
França ela foi sempre dominada pelo Estado (Ilustração 5.4).29 A reforma do reprodução e produção
ensino superior na época de Napoleão estabeleceu duas características produzem
definidoras das profissões: o serviço para o estado e as credenciais acadêmi- controla produz
cas certificadas pelo Estado obtidas em uma das grandes écoles de elite. 1
Os praticantes da mesma ocupação na iniciativa privada, em especial aqueles
École des Discurso
que obtiveram seu treinamento em outras instituições, não possuíam a posição Beaux-Arts
ou os privilégios (e responsabilidades) que associaríamos a profissionais. As-
sim, por exemplo, um arquiteto tinha de ser registrado para poder projetar um produz
sobre
edifício governamental na França: qualquer um podia projetar edifícios para o
setor privado.
À medida que evoluiu ao longo do século XIX, o sistema de ensino superior Arquitetos de elite 1 Arquitetura
para o serviço —produzem --ipi-
permaneceu, e ainda permanece, com uma forte estratificação vertical. Na público civil
França, as ocupações que tradicionalmente dependem dos diplomados pelas
grandes écoles, os quais estão destinados para o serviço público (tais como
educação, engenharia e administração pública), gozam de um status muito mais
elevado do que as demais, cujos diplomados são treinados em universidades ou
Arquitetos do
Setor Privado
-produzem—~ L Edifícios
------- -

outras instituições. Mais ainda, o desenvolvimento de novas profissões de 1800


até os dias de hoje não ocorreu de baixo para cima, com indivíduos que fazem
trabalhos semelhantes se associando e solicitando a certificação ao Estado, *!1
recebem treinamento
mas sim de cima para baixo, com o Estado criando instituições para oferecer
treinamento especializado em novas ocupações. Com efeito, o Estado define
as profissões na França. O sistema de ensino superior francês fica ainda mais
complicado em razão da variabilidade da conexão entre a pesquisa e o ensino
nas diferentes instituições. A pesquisa é realizada seja em universidades pro-
vincianas, que focalizam suas atividades na pesquisa aplicada e na pesquisa PRODUÇÃO
voltada para as várias profissões não-estatais para as quais dão treinamento, REPRODUÇÃO

seja em instituições de pesquisa independentes que não estão associadas nem


às grandes écoles nem às universidades.29 Ilustração 5.4 O modelo francês. Os segmentos de elite de certas ocupações são licen-
Não é nenhuma surpresa, portanto, que a França tenha inventado o ensino ciados e definidos pelo Estado. Outras pessoas que fazem trabalhos semelhantes não
academizado de arquitetura com a École des Beaux-Arts. É aqui que podemos são licenciadas.
observar pela primeira vez o efeito no campo arquitetônico de um sistema de
ensino institucional. O campo arquitetônico francês estruturou-se de forma bem
diferente do inglês graças à existência da École e da Academie des Beaux- Arts. A reprodução ainda estava em parte nas mãos da profissão, mas muitos
arquitetos tinham algum tipo de educação de terceiro grau e as elites freqüen-
tavam a École. Dos arquitetos eminentes franceses do século XIX listados na
28 Ver Burrage, "From Practice to School-Based Professional Education".
cerca de 41% estudaram na École e 13% em outros lugares. Em compa-
MEA,
29 A. Abbott, The System of Professions: An Essay on the Division of Expert Labor
(Chicago:
ração, apenas 20% dos arquitetos eminentes ingleses tiveram algum tipo de
University of Chicago Press, 1988).
treinamento institucional.
208 Ga rry Stevens
O círculo privilegiado 209

A função de produção intelectual do campo era ainda conduzida pelas


elites urbanas, mas com uni elemento adicional ausente no sistema britânico: os Assim como as grandes écoles mesmo nos dias de hoje, a École des
Beaux-Arts não era uma organização educacional como as universidades mo-
oito membros da seção de arquitetura da Académie des Beaux-Arts. Nos ter-
dernas, nas quais a pesquisa é uma missão central, realizada sistematicamente
mos de Bourdieu, os augustos membros da Académie agiam como sacerdotes,
definindo o que é boa arquitetura e quais são os bons arquitetos." Seu poder por grande parte do corpo docente e dos estudantes mais avançados com a
era extraordinário: estabeleciam e marcavam todos os exames, decidiam quem expectativa de que seja filtrada para o ensino. Antes da fundação da Universi-
deveria ir para a Académie de France em Roma, aconselhavam o governo dade de Berlim, a pesquisa na Europa era concebida como um empreendimen-
sobre quem empregar, eram a face pública e reverenciada do campo. to estritamente privado, conduzido com meios financeiros privados apenas por
A École funcionava mais como um seminário, conduzindo o indivíduo através indivíduos particularmente talentosos. Da Idade Média até o Iluminismo, as
de um longo período de treinamento até o sacerdócio. Seu prestígio aumentava atividades intelectuais mantiveram sempre laços muito fluídos com as universi-
à medida que passava de ano para ano na École, ingressando em concursos dades, e a maior parte dos estudos eruditos era conduzida fora delas. A École
cuidadosamente estruturados, ganhando prêmios formais e honrarias, alcan- des Beaux-Arts, por exemplo, tinha uns cinco ou seis membros em tempo inte-
çando o Grand Prix e, talvez, a própria Académie.3 ' O sistema de ateliês, com gral - os professores - responsáveis pelas conferências, estritamente opcionais,
seus intensos rituais, sua criação de pseudofamílias de estudantes, a inculcação dadas para duzentos ou trezentos estudantes. Os professores dominantes eram
da mais profunda lealdade aos patrons,* os patrons, os líderes dos vinte ou trinta ateliês nos quais estavam distribuídos
ensinava os estudantes a amar as
hierarquias e a amar nelas ascender. os alunos e que representavam o centro de sua vida estudantil. Os patrons
Além disso, tais instituições eram mantidas e sancionadas pelo próprio eram, invariavelmente, arquitetos que exerciam a profissão e não indivíduos
Estado. A École e a Académie possuíam o poder total para consagrar, para dedicados à pesquisa em qualquer sentido da palavra.
definir alguns arquitetos como grandes e outros não: os de fora, como Labrouste
ou Viollet-le-Duc, não conseguiam penetrar no sistema." Essas instituições
construíram um monopólio da valorização do capital simbólico do campo. Na Alemanha: a pesquisa ingressa nas universidades
terminologia de Bourdieu, eles constituíram um apparatus,
mente dominante de dominação. Nunca existiu, e não existe hoje,uma forma total-
uma institui- O elo entre pesquisa e ensino - que hoje aceitamos como fundamental
ção com um tal volume de capital simbólico no mundo anglófono. Por essa para a missão das universidades - foi primeiro estabelecido em começos dos
razão, os anglo-americanos sempre estiveram mais predispostos a um politeísmo anos 1800 na Prússia, começando com a Universidade de Berlim, na qual se
teórico mais tolerante na arquitetura - o heterodoxo pode florescer mais facil- esperava dos professores que realizassem pesquisas eruditas e as transmitis-
mente quando não há uma ortodoxia centralizada se opondo a ele; por outro sem para as diversas audiências (Ilustração 5.5). A difusão do modelo alemão,
lado, a sua influência no discurso internacional da teoria arquitetônica é menor, ao longo do século XIX, criou um novo tipo de ocupação, a do pesquisador
precisamente porque não há um aparato unificado que possa colocar todo o seu trabalhando também como professor, e a comunidade de intelectuais e pesqui-
peso por detrás de uma ou outra teoria. sadores que até então estava fora das universidades transferiu-se quase que
totalmente para elas."
lienr Essa conexão pesquisa-ensino diferia daquela que prevalece hoje no ensi-
no superior anglo-americano, tanto em sua estrutura como em seu conteúdo.
"A
discussão de Bourdieu desses tipos de processos pode ser encontrada em Estruturalmente, as universidades alemãs eram organizadas como colégios de
P. Bourdieu, "The Market of Symbolic Goods", Poetics professores. A pesquisa era feita em institutos organizados como domínios pri-
14 (1985): 13-44; e P. Bourdieu,
"Intellectual Field and Creative Project", Social Science Information
3' J. P. Carlhian, "The École des Beaux-Arts: Modes and Manners", 8: 2 (1969): 89-119.
vados das cátedras. À moda tipicamente teutônica, o catedrático era conside-
Education 33, n*2 (1979): 17. Journal of Architectural rado como um representante da disciplina como um todo e os demais membros
* Cada ateliê da escola era dirigido por um patron,
T.). o arquiteto responsável por seu ensino (N. do
32
R. Chafee, "The Teaching ofArchitecture at the École des Beaux-Arts",
The Architecture ofthe
École des Beaux-Arts,
ed. A. Drex ler (Londres: Secker and Warburg, 1977), 61-110. 33 J. Ben-David, The Scientist's Role in Society: A Comparative Study (Englewood Cliffs, NJ:
Prentice-Hall, 1971).
do instituto eram pouco mais que assistentes, ajudando o catedrático a elaborar
Universidades ainda mais o sistema que havia desenvolvido» Um dos efeitos dessa organiza-
Estado
Institutos de Pesquisa ção é que os professores alemães tendiam a se considerar, em primeiro lugar,
como acadêmicos, constantemente envolvidos com a vida e a direção da uni-
Professores supervisionam
versidade, e, em segundo lugar, como membros de suas respectivas disciplinas.
No que diz respeito ao conteúdo, o único tipo de pesquisa realizada estava
financia e
certifica vinculado à missão básica das universidades — oferecer uma formação geral e
erudita — e a algumas poucas ocupações que exigiam treinamento universitário:
Assistentes medicina, direito, teologia e ensino secundário.
As profissões alemãs surgiram com o desenvolvimento de um serviço pú-
blico forte em fins do século XVIII, com o Estado empregando a maioria dos
integrantes dessas ocupações privilegiadas até a década de 1850. Até uma
data tão tardia como 1880, apenas 42% dos arquitetos alemães trabalhavam na
ensinam
produzem iniciativa privada.35 Ao contrário da França, onde o Estado controlava rigorosa-
mente todas as profissões, na Alemanha as profissões não-universitárias (tais
Ocupações como a engenharia, a contabilidade e a odontologia) desenvolveram-se, em
acadêmicas Pesquisa linhas gerais, como as anglo-americanas, com a criação de associações profis-
pura
sionais (na década de 1850, vinte anos antes das profissões estatais) e, mais
tarde, com seu estabelecimento nas escolas politécnicas, transformadas por
volta de 1900 em universidades técnicas com o direito de conceder diplomas.
Ocupações
Pesquisa A arquitetura era uma das ocupações ensinadas nessas instituições que não
livres
aplicada estavam voltadas para a pesquisa, as escolas politécnicas ou os liceus de artes
e oficios.

ensinam
produzem
Estados Unidos: uma síntese instável

Institutos de tecnologia Os Estados Unidos oferecem um terceiro modelo ao lado do sistema inglês
de ensino profissional dominado por seus praticantes e do sistema francês do-
minado pelo Estado. Deve-se apontar, em primeiro lugar, diferenças significati-
Acadêmicos
vas entre os sistemas de profissões, de resto semelhantes, das duas nações de
língua inglesa mais importantes. As maiores diferenças entre esses dois siste-
mas são a falta de continuidade histórica e a fraca tendência à formação de
associações no caso dos Estados Unidos. Na Inglaterra, as profissões
REPRODUÇÃO
PRODUÇÃO

34J. Galtung, "Structure, Culture and lntellectual Style: An Essay Comparing Saxonic, Teutonic,
Gallic and Nipponic Approaches", Social Science Information 20, ng 6 (1981): 817-856.
" V. Clark, "A Struggle for Existence: The Professionalization of Gennan Architects", German
Ilustração 5.5 O modelo alemão de universidade. Professions 1800-1950, cd. G Cocks e K. H. Jarausch (Oxford: Oxford University Press,
1990), 143-160.
arquetípicas do direito e da medicina mantiveram uma continuidade extraordi- 120
nária
com seus antepassados medievais, e seus poderes e privilégios são mais
ou menos os mesmos que há quinhentos anos. Depois da Revolução America-
na, 100
as profissões americanas perderam o apoio do Estado: até meados do sécu-
lo XIX não havia sistema algum de licenciamento tanto na medicina como no
direito; por sua vez, o arquiteto não precisava ser licenciado até 1897, quando o 80
estado de Illinois adotou legislação específica sobre o assunto. Seus sucessores
foram profundamente reorganizados nas décadas próximas à virada do século
XX.36 Os profissionais americanos encontraram dificuldades substanciais para 60

formar associações poderosas como as inglesas, em parte por esta


descontinuidade, em parte pelas dificuldades de comunicação e geografia e em 40
parte pela divisão de jurisdições entre o governo federal e os governos estadu-
ais. Ainda que vistas como poderosas pelos americanos, a American Medical
20
Association e a American Bar Association são muito fracas em comparação
com suas congêneres inglesas." No caso da arquitetura, a diferença fica visí-
vel quando se considera a proporção de arquitetos registrados que são mem- o I=
1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990
bros de suas respectivas associações profissionais: cerca de 66% pertencem
ao RIBA e 52% ao AIA. Ilustração 5.6 Número de estudantes de arquitetura americanos por milhão de habitantes.
A fraqueza das associações profissionais foi crítica na formação da edu-
cação profissional nos Estados Unidos. Antes da Guerra Civil, as universidades *si
americanas seguiam, em geral, o modelo Oxbridge, oferecendo uma educação meio do credenciamento." O AIA nunca exerceu um controle do ensino pro-
erudita e algum treinamento para religiosos e professores. O ensino profissio- fissional semelhante ao do RIBA: o National Architectural Accrediting Board,
nal começou nas universidades com apoio estadual no período do pós-guerra, que mantém poucos vínculos com o AIA, foi criado apenas após a Segunda
imposto não pelas demandas dos praticantes das diversas atividades, mas pelas Guerra Mundial, enquanto o RIBA exerce um controle de fato e direto sobre as
próprias universidades. A história do ensino profissional americano é aquela do escolas das universidades desde o momento em que são abertas.
aproveitamento por essas universidades das oportunidades de mercado para O esforço mais significativo da profissão para regulamentar o ensino foi feito
oferecer a educação padronizada que cada profissão era incapaz de prover por pelo Beaux Arts Institute of Design que, por duas ou três décadas de 1910 em
si mesma.38 Desse modo, as primeiras escolas de arquitetura encontraram abrigo
diante, dominou-o com sucesso por meio da promulgação e avaliação de pro-
em novas universidades (MIT, Cornell, Illinois), uns quarenta anos antes de gramas de cursos-padrão de projeto a serem usados pelas escolas.4° Mesmo
suas congêneres inglesas. Como observou Gutman, a expansão dos arquitetos isso fracassou com o declinio do classicismo beaux-arts e foi completamente
nos Estados Unidos deveu-se, inteiramente, ao aumento considerável no núme- destruído pela imigração dos modernistas europeus para as escolas americanas
ro de universidades oferecendo cursos de arquitetura (Ilustração 5.6); como nos anos anteriores à guerra.
em outras profissões, os praticantes têm conseguido influenciar o ensino ape- Comparada com o sistema britânico, dominado pela prática, ou o europeu,
nas de modo indireto, em geral com a cooperação das escolas de elite e por dominado pelo Estado, a educação profissional americana pode ser caracteri-
zada como dominada pela universidade. Quando as universidades americanas

36 Ver Abbott, The System of Professions.


37
M. Burrage, "Beyond a Sub-set: The Professional Aspirations of Manual Workers in France, " Ver Burrage, "From Practice to School-Based Professional Education", e R. Gutman,
The United States and Britain", Professions in Theory and Histoiy: Rethinking the Study of the
Professions, ed. M. Burrage e R. Torstendahl (Londres: Sage, 1990), 151-176. Architectural Practice: A Critical View (Princeton: Princeton Architectural Press, 1988).
38 Ver Abbott, The System of Professions. 40 Ver a história em The Architect at Mid-Century: Evolution and Achievement, ed. T. C. Bannister
(Nova York: Reinhold, 1954).
adotaram o ensino profissional, eram instituições bem diferentes das que temos Está claro que em arquitetura os procedimentos e os processos de projeto
hoje e seguiam ou o modelo de Oxbridge ou eram orientadas para as vocações. não são de modo algum objetivados (como atesta o fracasso desolador do mo-
A noção de que a pesquisa é uma missão fundamental da universidade surgiu vimento Design Methods)" e que a arquitetura, diferentemente da medicina ou
apenas com a importação do modelo alemão em fins do século XIX, com a da engenharia ou até mesmo do direito, exige não somente que se saiba alguma
criação da Universidade Johns Hopkins (1876), da Universidade de Clark (1887) coisa como também que se seja alguma coisa: aquela qualidade que coloquial-
e da Universidade de Chicago (1892).41 Várias mudanças importantes foram mente chamamos de "gênio". O ensino arquitetônico visa incutir uma certa
introduzidas nesse modelo quando cruzou o Atlântico. Em primeiro lugar, o
forma de habitus e oferecer uma forma de capital cultural corporificado gené-
sistema alemão de institutos e cátedras foi abandonado em favor de uma estru- rico, uma disposição "refinada". É evidente que os jovens arquitetos que se
tura de departamentos. O erudito autocrático alemão, dirigindo de perto as formam devem saber desenhar, é evidente que devem conhecer os códigos de
pesquisas de um grupo de assistentes, foi substituído por um sistema mais igua- edificação, os rudimentos do cálculo estrutural, os princípios de construção;
litário, no qual o chefe do departamento cuida da administração e das finanças porém, desde o primeiro momento em que se sentam à prancheta de seu pri-
para um grupo de acadêmicos que mais ou menos estabelece sua própria agen- meiro escritório até o dia em que se aposentam, a tranqüilidade ou a dificuldade
da intelectual. Em segundo lugar, enquanto os alemães haviam deixado a pes-
de suas carreiras será mediada pelo seu habitus agindo por meio de seu capital
quisa aplicada para a indústria e para as escolas politécnicas de menor status,
os americanos fizeram questão de trazê-la para as universidades.42 Em tercei- cultural. O habitus multiplica o capital educacional. Aqueles que possuem o
ro lugar, os acadêmicos dessas universidades, ao contrário do caso alemão, habites e o capital certos, aqueles com o senso do jogo, encontrarão as portas
abertas mais rapidamente, seus colegas e superiores os respeitarão mais facil-
tendiam a considerar como o seu ambiente principal não a universidade, mas
mente, os clientes os considerarão de modo mais favorável.
suas disciplinas ou profissões. Como ressalta Abbott, as profissões americanas Em épocas passadas, os educadores não apenas reconheciam sem titube-
mantiveram uma profunda ambivalência quanto à educação universitária, por-
ar, como positivamente elogiavam o fato de que a educação arquitetônica ser
que "estavam na universidade, mas não pertenciam a ela".43
uma educação refinada, que tinha por objetivo instilar o habitus adequado.
Escrevendo para os pais que mandavam seus filhos para ser pensionistas em
Como as escolas socializam Paris e freqüentar a Académie Royale d'Architecture em fins do século XVI,
Jacques-François Blondel garantia-lhes que iria proporcionar
Os mecanismos para a transmissão de capital simbólico de geração para
geração estão conferidos atualmente às faculdades de arquitetura localizadas esgrima, música e dança; exercícios aos quais se dá especial atenção, uma vez
em universidades. Muito tem sido escrito sobre as formas óbvias de transmis- que devem ser parte da educação de todas as pessoas bem nascidas que se
são desse capital — o conhecimento e a habilidade —, mas pouco sobre os capi- dedicavam à arquitetura e que estão destinadas a viver na melhor sociedade.45
tais corporificados, de crucial importância, que são transmitidos de uma forma
muito menos óbvia de inculcação. A importância do processo de inculcação no Ou, como a comissão de ensino do AIA colocou com grande clareza em
ensino depende do valor relativo do capital corporificado em comparação com 1906, "um arquiteto é um homem de cultura, estudo e refinamento", e o objeti-
o capital intelectual ou institucionalizado. Ele é de menor importância naqueles vo do ensino de arquitetura é "a criação de cavalheiros refinados"." A American
campos em que os procedimentos e os processos de produção e aquisição de
conhecimento estão objetivados em instrumentos, métodos e técnicas, e de
suma importância naquelas áreas em que a excelência é atribuída quase que ' ' Comparando o movimento Design Method ao Movimento Moderno, Grant comentou que os
totalmente aos dons naturais dos indivíduos, seus talentos em bruto. modernistas haviam sido visionários, porém pouco práticos, enquanto os metodologistas do
projeto haviam sido pouco práticos sem terem sido visionários. Ver D. P. Grant, "Aims and
Potentials of Design Methodology in Response to Social Changes", Design Methods and
Theories 20, ng 1 (1986): 389.
" Citado em Collins, "The 18"' Century Origins of Our System of Full-Time Architectural
4' R. L. Geiger, "The American University Research", University and Society,
ed. M. Trow e T.
Nybom (Londres: Jessica Kingsley, 1991), 200-215. School ing", 3.
42 Ver Ben-David, The Scientist:r Role in Society. 46
J. Draper, "The École des Beaux-Arts and the Architecture Profession in the United States:
43 Abbott, The System of Professions,
207. The Case ofJohn Galen Howard", The Architect, ed. S. Kostof (Nova York: Oxford University
Press, 1977), 232.
Garry Stevens

%VI
216 O círculo privilegiado 217

Academy em Roma empenhava-se em selecionar membros "apenas entre aque- O sistema de ensino de arquitetura atinge seus resultados de várias ma-
les que serão reconhecidos como cavalheiros por instinto e criação"» Hoje neiras:
em dia, não é mais político dizer tais coisas; mas elas permanecem, agora como
antes, como uma descrição apropriada, conforme observou John Morris Dixon • Os desfavorecidos eliminam-se a si próprios da educação arquitetônica.
nas únicas declarações publicadas que consegui encontrar, corajosas o bastan- • As escolas de arquitetura consagram o privilégio ao ignorá-lo.
te para discutir as origem de classe dos arquitetos." • As escolas aceitam a ideologia do talento.
O capital cultural objetivado sob a forma de diplomas educacionais é ape- • As escolas subestimam sua função de inculcação.
nas marginalmente útil na produção de indivíduos refinados que estão, de fato, • O sistema de ateliê favorece o habitus refinado.
tentando adquirir uma forma corporificada de capital. As escolas de arquitetura • As escolas privilegiam aqueles que as privilegiam.
desvalorizam o capital intelectual em comparação com o capital cultural
corporificado, urna vez que o capital intelectual simplesmente não é necessário
para alcançar o sucesso. Em seus momentos mais sarcásticos, alguns arquitetos A auto-eliminação dos desfavorecidos
vêem isto:
As pessoas tentam alcançar o que pensam ser possível. Os estudantes
A inteligência não é, em sentido algum, um fator maior na produção de arqui- com origens menos privilegiadas — aqueles que possuem pouco capital econô-
tetura de prestígio. A arrogância combinada com um sentimento de competi- mico e cultural — auto-selecionam-se para fora do sistema simplesmente dizen-
ção e um prazer pelo que está na moda e pelo que é exótico são muito mais do a si mesmos que não têm chances de sucesso. Pode-se observar tal efeito
importantes." em operação no sistema universitário, à medida que os estudantes se distribu-
em entre os vários campos, tendo por base seus capitais econômicos e culturais
do momento, de acordo com suas percepções de quão bem-sucedidos serão no
Privilegiando os privilegiados aumento desses capitais.
A Tabela 5.2 mostra a proporção de calouros nas várias faculdades (escolas
Ao disfarçar o que é, na realidade, um processo de seleção social que favo- ou colleges) de minha própria instituição, a Universidade de Sydney, que fre-
rece os privilegiados em um processo que parece ser puramente meritocrático qüentaram colégios particulares. A natureza da sociedade australiana é tal que a
e acadêmico, favorecendo somente o talento nato, o sistema de ensino freqüência a esse tipo de colégio é um indicador de capital cultural. Fica claro que
arquitetônico trabalha para preservar a estrutura social existente. Seu sucesso as áreas que reproduzem os produtores culturais (música, artes visuais, arquitetu-
é muitas vezes obscurecido pelo fato de que alguns indivíduos das camadas
mais baixas da sociedade conseguem fazer o curso de arquitetura. Disso, qual-
quer um poderia citar exemplos. Na verdade, há apenas o suficiente de tais
!
ra, demais artes) atraem aqueles que já possuem suficiente capital cultural para
obter uma boa taxa de retorno, enquanto os campos nos quais a posse de capital
cultural é menos relevante (enfermagem, odontologia, engenharia) atraem aque-
les que não o possuem. Dados sobre os Estados Unidos são muito raros: temos
exceções para nos fazer acreditar que o sistema é realmente justo. A função
apenas um estudo de trinta anos atrás, que classificou as disciplinas de acordo
primordial dessas exceções é precisamente fazer com que o sistema edu-
com a proporção de estudantes do último ano pertencentes à classe socioeconômica
cacional pareça ser meritocrático quando de fato não é.
mais alta. Direito, medicina e humanidades atraíam os estudantes mais privile-
giados (cerca de 70% dos que ingressaram naquele ano eram de classe eleva-
da), enquanto as ciências físicas, educação e engenharia atraíam os menos
privilegiados (cerca de 45%). Infelizmente, os dados não listam a arquitetura
47 S. B. Trowbridge, Annual Report ofthe American Academy In Rome (Roma: American Academy,
em separado, apesar de a classificação estar surpreendentemente próxima da
1919), 31.
48 J. M. Dixon, "A White Gentleman's Profession", Progressive Architecture, novembro de
minha própria universidade, a um oceano e trinta anos de distância."
1994, 55-61.
49 A. Balfour, "On the Characteristics and Beliefs of the Architect", Journal of Architectural

Education 40, n2 2 (1987): 2. 5 ° J. A. Davis, Undergraduate Career Decisions (Chicago: Aldine, 1965).
218 Garry Stevens O círculo privilegiado 219

As diferenças entre as classes manifestam-se mais não em taxas diferen-


ciais de aprovação nos cursos universitários, mas sim nas taxas de Campo Desvio (%)
ingresso Música +42
neles. Um exemplo específico que podemos citar é o das origens sociais dos
Direito +35
estudantes da Universidade de Londres que ingressam na Bartlett School of
Artes Visuais +30
Architecture (Tabela 5.3). Observamos, como mencionado, a mesma seleção
excessiva de estudantes das classes mais altas para a universidade como um Arquitetura +21
todo (coluna 2). Em seguida, a auto-seleção dos estudantes que se candidataram Artes +18
para a Bartlett (coluna 3). Aqueles com o menor capital cultural eliminaram-se Economia +17
a si próprios por não terem sequer se candidatado. Finalmente, a tendenciosidade Veterinária +11
da comissão de seleção no processo de entrevistas eliminou os que apresenta- Medicina +7
vam quantidades medíocres de capital e que não tiveram a elegância de elimi- Serviço Social +1
nar a si mesmos (coluna 4). O processo de entrevistas é, de fato, o mecanismo Todos o
mais eficiente para avaliar o capital cultural e o único meio para avaliar o capi- -2
Ciências
tal corporificado. E é especialmente comum nas instituições mais elitistas e -15
Engenharia
naquelas disciplinas em que tais capitais são mais importante para o sucesso. -22
Educação
Farmácia -32
Consagrando o privilégio ao ignorá-lo c Odontologia -43
Enfermagem -43
O sistema de educação superior, como um todo, tem a função essencial de
conservar e preservar a cultura da sociedade, de transmiti-la de geração para Tabela 5.2 Proporção de pessoas que ingressam na Universidade de Sydney que fre-
geração. É evidente que não transmite a totalidade da cultura de uma socieda- qüentaram uma escola secundária particular, expressa como um desvio da média para
de; ele transmite apenas aquelas parcelas que os dirigentes do sistema conside- toda a universidade, por Faculdade. (Fonte: análise realizada pelo autor com base nas
ram de valor para serem transmitidas, a cultura dos dominantes, sob o eufemis- estatísticas da universidade para o período 1991-1992.)
mo da "educação liberal". Há debates constantes, de veemência variável, sobre
o que deveria ser transmitido; porém essas são lutas internas de intelectuais e
acadêmicos, e ninguém, dentre eles, tem dúvidas de que há algumas coisas
que devem ser ensinadas na educação superior (letras, arquitetura) e outras Estudante de toda Candidatos Calouros
que não (conserto de automóveis, corte de cabelo). Ninguém acha que tudo é a Universidade de à Bartlett da Bartlett
ik Profissão do pai
digno de um diploma. Londres School School
Ao ensinar e transmitir apenas uma cultura, a das classes dominantes, e ao 64 68 78
Administração e Profissional
definir excelência e realização em termos daquela cultura, o sistema educacio- 9 29 20
Burocrata
nal necessariamente favorece os que já foram inculcados desde seu nascimen- 2
Trabalhador braçal habilitado 21 3
to, aqueles para quem a cultura dominante é tão natural, familiar e fácil como
6 O O
andar. Assumindo que os estudantes são, em termos gerais, homogêneos, exa- Trabalhador braçal não-habilitado
tamente iguais — algo em que ninguém acredita —, as instituições de ensino
superior privilegiam o privilegiado simplesmente por ignorar o seu privilégio. Ao Tabela 5.3 Classe social dos estudantes da Bartlett School of Architecture, Universida-
se referir genericamente a "estudantes", é possível esquecer que a experiência de de Londres (porcentagem de estudantes de cada classe social). (Fonte: M. L. J.
da vida universitária afeta de modo diferente os diferentes estudantes. Ingres- Abercrombie, S. Hunt e P. Stringer, Selection and Academic Performance of Students
sar na universidade é uma coisa para o estudante que sempre considerou a in a University School of Architecture [Londres: Society for Research into Higher
Education, 1969].)
220 Garry Stevens
O círculo privilegiado 221

universidade como um caminho natural para sua carreira, que possui vários'
membros da família com diplomas universitários, que conviveu com as anedo- lência em projeto, de trabalho artesanal superior, de sutileza e beleza de forma
tas dos dias de faculdade de seus pais, e outra para o estudante que ouviu falar e, ainda assim, perfeitamente funcional, uma vez que esse tipo de iate é bastan-
da vida na faculdade de terceira mão e que mal sabe o que esperar. Que abis- te comum em corridas amadoras.
mo deve ter existido na École des Beaux-Arts entre aqueles que vinham de O efeito simbólico diferencial que isto teve nos estudantes não foi preme-
famílias de arquitetos e os demais, quando "o filho de um arquiteto escutaria o ditado. Velejar pela baía é uma das atividades preferidas da elite de Sydney, à
qual pertencem os arquitetos mais bem-sucedidos da cidade. Muitos escritórios
conselho de seu pai [ao escolher um ateliê] e seguiria as inclinações pessoais,
as dúvidas ou as lealdades passadas de seu pai".5 ' E como devem ter se senti- de arquitetura possuem seus próprios veleiros, e o favorito é o skilfde 18 pés.
Há muitos anos realiza-se uma competição anual entre os arquitetos, e a parti-
do os estudantes de menor renda em uma escola de arquitetura americana dc
cipação dc uma firma no evento é um símbolo de que chegou ao topo. É prová-
hoje ao terem escutado a observação feita a um outro estudante, elogiado por
vel que quase todos os estudantes de origem privilegiada já tivessem alguma
seu projeto durante uma avaliação que ele ou ela "havia demonstrado urna
experiência de velejar e que membros de suas famílias fossem proprietários de
compreensão do desenho urbano de Roma e havia, obviamente, passado algum
tempo na Europa..."?" um desses barcos. Para eles, velejar era um passatempo cotidiano banal, e a
utilização pelo professor do barco como um exemplo de projeto era uma afir-
Estudantes podem desenvolver atividades idênticas sem aproveitar a ex-
mação implícita da qualidade daquela recreação, uma confirmação reconfor-
periência do mesmo modo. Dizer que dois estudantes trabalham meio expediente
tante do ajuste entre seu capital cultural e aquele exigido pela profissão. Para
como vendedores em urna loja mascara a distinção entre o aluno privilegiado
os estudantes com origens na classe média baixa, o skj era uma novidade
que trabalha nas butiques mais concorridas da cidade para ganhar um dinheiro
que os deixou pouco à vontade. De um modo muito mais forte e efetivo do que
extra e o de classe baixa que trabalha como caixa de um supermercado porque
poderia ter sido feito com meras palavras, o capital cultural da arquitetura ficou
precisa ganhar a vida." Dizer que a filha de um arquiteto e o filho de uni
identificado com experiências desconhecidas, e sua própria falta de familiari-
operário da construção são ambos bons fotógrafos esconde o fato de que com
dade e desembaraço com o iatismo os rotulava como menos preparados, me-
a mesma atividade a primeira se prepara para profissão que escolheu fotogra- nos familiarizados com aquela cultura e menos aceitáveis como futuros
fando cuidadosamente edifícios interessantes, enquanto o último registra uma
ingressantes na profissão.
história pessoal — aniversários, casamentos, formaturas, os momentos impor- Aqueles com origens mais privilegiadas devem ter se sentido satisfeitos ao
tantes na vida de sua família e dos amigos.
receber o programa, citado abaixo, de uma matéria da Faculdade de Arquitetu-
É com tal perspectiva que se pode interpretar um incidente ocorrido alguns ra da Universidade de Sydney, que enaltecia sua própria vocação e reafirmava
anos atrás na faculdade de Sydney. Um novo membro do corpo docente, um
sua superioridade em relação aos demais:
arquiteto eminente e bem-sucedido no cenário nacional, queria começar o ano
acadêmico com uma celebração que seria divertida e instrutiva. O evento du- Com urna dúzia de estudantes tendo de apresentar seus trabalhos ao longo
rou um dia inteiro e consistiu em uma série de palestras e exercícios para todo meã de um período de oito semanas e, dada a necessidade de dar tempo para que
o corpo discente, centrado física e metaforicamente em torno do skjde 18 apresentem a versão escrita antes de minha partida de Sydney por volta de 24
pés de comprimento de propriedade de seu escritório e que ele havia instalado Vf
de setembro (fui convidado para lecionar pennacultura no Nepal), teremos de
no pátio da escola. Sua intenção era usar o barco como um exemplo de exce- iniciar logo os seminários de apresentação.

Trabalho na suposição de que os estudantes de arquitetura não fazem coisas


apenas pelas notas; isto pode acontecer com estudantes de contabilidade ou
51
J. P. Carlhian, "The École des Beaux-Arts: Modes and Maners", 7. de odontologia ou até mesmo de engenharia, mas não com os de arquitetura."
52
L. L. Willenbrock, "An Undergraduate Voice in Architectural Education", Voices in Architectural
Education: Cultural, Polidas and Pedagogy, ed. T. A. Dutton (Nova York: Bergin & Garvey,
1991),100.
53 J. W. Getzels e M. Csikszentmihalyi, D. White, programa da disciplina "Gender and Built Environment"(Sydney: University of
The Creative Vision: A Longitudinal Study of Problem 54
Finding in Art (Nova York: John Wiley & Sons, 1976), 165. Sydney, 1995). Note-se que as disciplinas às quais White compara a arquitetura são as mesmas
que aquelas associadas com o capital cultural menor, conforme a Tabela 5.2.
Aceitando a ideologia do talento que nos desilude. Gostaríamos de acreditar que, ao menos em arte, o dinheiro
e o status não participam na determinação do succsso.)"
O sucesso, é claro, depende de se ter algum tipo de talento e habilidade
Os pesquisadores têm relutado em reconhecer as implicações de seus pró-
para a atividade escolhida. Em graus diferentes segundo as diferentes áreas, o
prios achados, delicadamente se recusando a olhar para a riqueza simbólica
sucesso depende também do desembaraço com que alguém pode adquirir a
que está por detrás do indivíduo e que o sustenta. O psicólogo Donald
cultura oferecida pelo sistema educacional. Aqueles com um habitus que os
MacKinnon, mencionado no Capítulo 1, descobriu que todos os seus arquitetos
predisponha a jogar o jogo no qual escolheram participar e a gostar de jogar tal mais criativos, quase sem exceção, vinham de famílias com capital cultural
jogo terão maiores chances do que aqueles que não o possuam. Os estudantes
elevado, ► nas não estava interessado em seguir um indicador tão óbvio.
oriundos de famílias refinadas, em especial de famílias com pesados investi-
mentos em capital cultural artístico ou arquitetônico, vão para a escola com um
habitus já pronto, ready-made, para receber a educação peculiar que é a ar-
quitetura. Tais estudantes parecem ser naturalmente talentosos, mas esse ta- Graça natural
lento natural também é — além de talento — o sentimento do jogo que seu habitus
lhes dá, uma "naturalidade naturalmente natural" que impressiona a todos que Baldassare Castiglione compreendeu a importância da graça natural,
a vêem corno desembaraço, graça, estilo e confiança naturais. Aqueles que do "ar de boa educação", quando escreveu, quinhentos anos atrás, que
dizem que "nasceram para ser arquitetos" de fato nasceram para ser arquite- um cortesão deve ser
tos, mas não no sentido em que o dizem.
A noção de que se nasce com dons naturais completamente independentes dotado por natureza não apenas de talento e de beleza de postura e
do privilégio de ser privilegiado por sua classe social é a "ideologia do talento", aparência, mas daquela graça que chamamos de um "ar", que o
fará à primeira vista agradável e querido por todos que o vejam; e
e não há campo em que tal crença seja mais forte do que em arte e arquitetura.
que isto seja um adorno inspirando e caracterizando todas as suas
Nenhuma pessoa que confie em seu próprio talento pode aceitar a desagradá-
ações, dando com sua aparência a promessa de que se trata de al-
vel idéia de que seu dom seja produto tanto da determinação não escolhida de
guém que está à altura da companhia e do favor de um grande se-
seu próprio meio social quanto da sua própria escolha indeterminada, conforme
nhor.. O cortesão deve acompanhar suas ações, seus gestos, seus
coloca Bourdieu. Se essa ideologia fosse verdadeira, seria de se esperar que se hábitos, em resumo cada movimento seu, com a graça. E me ocorre
pudesse encontrar algo em comum nas psicologias dos artistas ou dos arquite- que você precisa disto em tudo, como daquele tempero sem o qual
tos criativos e, inversamente, nenhum ponto em comum quanto às suas origens todas as demais propriedades e boas qualidades seriam de pouco
sociais. O que ocorre é exatamente o oposto. A ausência de um perfil psicoló- valor. E eu acredito sinceramente que todos se deixariam facilmente
gico em comum nos estudantes de arquitetura já derrotou vários pesquisadores persuadir disso porque; pelo próprio significado da palavra, pode-
em suas tentativas de estabelecer procedimentos de seleção que sejam melho-
1 se dizer que aquele que tem graça encontra graça. Porém, uma vez
res do que a mixórdia empregada pelas escolas em todo o mundo, como ressal- que você disse que isto é muitas vezes um dom da natureza e dos céus
tei no Capítulo 1. Se a análise aqui apresentada estiver correta, os pesquisado- e que, mesmo quando não seja inteiramente perfeito, pode ser au-
res deveriam mesmo é procurar estudantes de famílias com um elevado capital mentado pelo cuidado e pelo empenho, aqueles homens que nasce-
cultural. Talvez um tal critério — que se acredita que não poderia, de modo ram afortunados e tão ricos em tal tesouro como alguns que conhe-
algum, estar por detrás do sucesso criativo de um jovem futuro arquiteto — seja
tão repugnante para as faculdades como sua descoberta foi desanimadora para
dois psicólogos estudando jovens artistas:

Os dados deixam claro que, para alcançar sucesso como artista, ajuda ser de 55 J.W. Getzels e M. Csikszentmihalyi, The Creative Vision: A Longitudinal Study of Problem
uma família afluente, educada, de posição elevada. (Este é um pensamento Finding in Art (Nova York: John Wiley & Sons, 1976), 165.
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Não há ninguém minimamente imbuído das letras que não abrigue em seu íntimo
temos têm muito pouca necessidade, parece-me, de qualquer profes- a esperança de que logo se tomará um grande orador, mesmo que tenha vislum-
sor neste assunto, porque um tal favor benigno dos céus os eleva, brado a face da eloqüência apenas a distância. Mas quando se dá conta de que o
quase que apesar deles mesmos, mais alto do que eles próprios domínio dessa arte envolve muito mais dificuldades do que havia indolentemen-
haviam desejado e os faz não somente agradáveis, mas admiráveis te imaginado, ele se empenha para alcançar seu objetivo lendo todos os livros
para todos. disponíveis, como se pudéssemos adquirir nosso estilo apenas da leitura de
livros em vez de por nossos próprios e intensos esforços."
13. Castiglione, The Book of the Courtier,
trad. C. S. Singleton (Nova
York: Anchor, 1959 [1528]), 30, 41. Uma declaração mais recente, feita quase que exatamente nos mesmos
termos, pode ser encontrada no texto que Paul Cret escreveu em 1934 sobre a
_ faculdade de arquitetura da Universidade da Pensilvânia, na qual lecionava:

Todo ensino de belas artes (...) tem por objetivo principal o desenvolvimento
As escolas ignoram sua função de inculcação da personalidade do artista. Urna conseqüência é que tal resultado pode ser
obtido apenas por meio do esforço pessoal e não por meio da leitura de
Em geral, os educadores falam em tom depreciativo do processo de sociali- manuais."
zação que encaminha os estudantes para urna "cultura arquitetônica", como se
se tratasse de um efeito colateral acidental ou facilmente retificável pelo sim- Este é o ponto crucial da questão: o habitus refinado não pode ser adqui-
ples recurso de não lhes ensinar determinadas coisas. Venho argumentando rido por meio da dedicação ao estudo. Esse é o modo do pedante, do esforçado.
que o processo de instilação não é um mero epifenômeno, mas sim uma parte Deve-se ter não só a cultura certa, como também a relação certa com a cultu-
essencial do ensino de arquitetura. Este processo age em um nível muito mais ra, e tal relação depende de como essa cultura foi adquirida.59 A definição
profundo do que aquele implícito na noção de hidden curriculum.* dominante da maneira certa de adquirir cultura é pela experiência direta. Afi-
Não se nal, não aspiram todos os estudantes de arquitetura fazer um dia o Grand Tour,
pode manifestar refinamento pelo saber, mas pelo ser. Todos os signos sutis de
discernimento — pronúncia, modos, conduta, postura, roupas, atitudes, gostos, a viagem de estudo, a peregrinação para ver e vivenciar de fato os locais sa-
temperamento — não podem ser obtidos de segunda mão. Devem ser absorvi- grados da arquitetura? Como escreveu Spiro Kostof sobre as virtudes do ensi-
dos lentamente daquelas pessoas que já são refinadas. A importância do refina- no arquitetônico:
mento reside precisamente no fato de que ele não pode ser facilmente adquiri-
do. Se fosse prontamente obtido pela simples leitura de alguns livros ou pela
freqüência a algumas conferências, não teria o valor que tem. Sua aquisição é,
essencialmente, uma questão de vivência direta, de absorção de todas as pe- Architectural Education mostraria que — até pouco tempo, pelo menos — apenas um terço de
quenas coisas que ele abrange. Seu conteúdo também não pode ser enumera- seu conteúdo (isso sem desconsiderar sua excelência) trata de alguma forma de ensino. Pode-
do. Nenhum livro pode dizer que o refinamento é constituído por x,y ou z. Esse mos também compreender as tristes histórias de duas revistas mais especificamente voltadas
tipo de capital cultural não existe nas qualidades tácitas dos indivíduos.56 Como para a teoria educacional: Architectural Research and Teaching, posterior Journal ofArchitectural
Architectural
disse Alberti: Research, teve uma vida errática de 1970 a 1980; e a revista patrocinada pelo RIBA,
Education, sobreviveu apenas por quatro números em 1983-1984.
L. B. A lberti, Dinner Pieces (Intercenales), trad.l7. Marsh (Binghamton: Center for Medieval
And Early Renaissance Studies, State University of New York at Binghamton, 1987), 127.
Citado em J. Esherick, "Architectural Education in the Thirties and Seventies:
* A expressão hidden curriculum — A Personal View", The Architect, ed. Kostof, 274.
ou currículo oculto — tem sido usada para se referir a conheci-
mentos e comportamentos não-explícitos transmitidos no processo educacional (N. do R. T.). Ver P. Bourdieu e M. de Saint-Martin, "Scholastic Excellence and the Values of the Educational
ed.
System", Contemporary Research in the Sociology of Education,
56
É vulgar fazer um inventário dos atributos da cultura. Talvez isso explique por que os aproxima-
J. Eggleston (Londres: Methuen, 1974), 338-371; e P. Bourdieu, Homo Academicus, trad. R.
damente 2.900 professores de arquitetura em tempo integral que existem nos países de língua
inglesa têm tão pouco a dizer sobre o assunto: qualquer leitura mais detalhada do Nice (Stanford: Stanford University Press, 1988).
Journal of
Não há substituto para a experiência de viagem, que abre os olhos e constrói estruturas e construção embaixo. Quando os estudantes reclamam que uma
um acervo dc impressões... E para além disso, vêm a vida e o aprendizado.
disciplina não é relevante, quase sempre estão reclamando de disciplinas cujos
Compreendemos as necessidades dos outros apenas na medida em que te-
nhamos insistido em uma vida total para nós mesmos; podemos fornecer os exames os impedem de demonstrar seu refinamento. A hierarquia do prestígio
cenários das instituições sociais apenas na medida em que tenhamos tido curricular corresponde mais ou menos à hierarquia social dos estudantes, aque-
uma educação ampla, lido amplamente e recebido os meios para refletir sobre les com mais capital cultural saindo-se melhor nas matérias de maior prestígio;
o curso dos negócios humanos e explorar a extensão toda da realização hu- por essa razão, as tentativas de derrubar as primeiras encontram resistência
mana.6° por parte do corpo discente.
As objeções mais fortes às matérias que não estão voltadas para o projeto
Como meio de produzir um habitus refinado específico, a cultura virão daqueles indivíduos mais refinados do corpo discente. Eles acreditam
arquitetônica só pode ser inculcada de uma determinada maneira. Bourdieu faz mais na ideologia do talento e mais ainda em seu próprio talento, julgando-se a
uma distinção entre os modos escolástico e carismático de inculcação .61
si mesmos sempre com indulgência. Desse modo, rejeitarão uma nota baixa em
O modo escolástico é o que normalmente entendemos como pedagogia, o ensi- um trabalho de projeto pondo a culpa na incapacidade do avaliador de perceber
no formal e explícito de conhecimentos e habilidades formais e explícitos.
o seu talento e a manifestação deste em seu projeto. Tal racionalização é pos-
O modo carismático é o método informal e implícito de inculcação o qual é,
sível no ateliê, uma área famosa por suas avaliações controvertidas, mas im-
segundo Bourdieu, o único meio possível para se transferir capital cultural
possível no mundo controlado das estruturas ou da matemática. E, assim, o
corporificado. O primeiro modo pretende produzir conhecimento, o último pro-
privilegiado trata com desprezo aquelas áreas que considera banais, aquelas
duzir o ser. Daí a forte identificação entre obra e pessoa tão comum no projeto
em que o dom é irrelevante.
arquitetônico, ilustrada pela seguinte anedota: O ateliê de projeto é o lugar por excelência para o funcionamento de um
Um dia, um professor aproximou-se de mim para avaliar o andamento de um modo carismático de inculcação. Não é por um feliz acaso que o sistema de
projeto e apontou para a maquete que eu havia construído... "Isto é você?", ateliês sempre esteve no coração mesmo do ensino de arquitetura ao longo de
ele perguntou. Na tentativa de estabelecer um contato mais informal com toda a sua história. O sistema de ateliês é essencial para socializar os estudan-
esse professor, ainda jovem e um tanto duro, respondi brincando, apontan- tes com o habitus refinado. Como ressaltou a professora de arquitetura Kathryn
3 No
do para mim, "não, isto sou eu", e apontando para a maquete, "isto é a minha Anthony, o ateliê proporciona uma forma bastante peculiar de educação 6
maquete". "Não!", ele respondeu com firmeza, colocando sua mão em mi- ensino universitário convencional, os estudantes assistem anonimamente às aulas
nha maquete, "isto é você e isto é urna merda!" Era uma sensação incrível durante algumas horas por semana, trabalham sozinhos e beneficiam-se pouco
quando a unidade entre o ser e o trabalho nos trazia elogios, mas devasta-
dor quando nossos esforços eram insultados.62 da colaboração de outros estudantes ou de professores, os quais têm de ser
expressamente procurados para dar sua assistência. Os exames são feitos na
Aulas expositivas têm apenas um pequeno papel nesse processo e, mesmo forma de documentos escritos e realizados em particular. Os estudantes de
assim, apenas em algumas matérias. As áreas temáticas em arquitetura estão projeto estão rodeados por seus colegas durante muitas horas por semana,
fortemente estratificadas, com o projeto recebendo as maiores honrarias. Se muitas vezes dependendo de sua assistência. O professor de ateliê irá procurá-
fôssemos construir uma hierarquia do prestígio curricular, ela corresponderia los de moto próprio para fazer uma análise crítica, e os exames são públicos e
aproximadamente ao grau em que a matéria pode utilizar o capital cultural do feitos em apresentações orais.
estudante. Projeto, história e teoria estariam no topo, e ciências ambientais, O estudante não pode apresentar — e nem o professor pode avaliar — o
capital corporificado empregando os meios universitários habituais de aulas

6° S. Kostof, "The Education of the Musl im Architect", Architecture in the Islamic World:
Proceedings ofSeininar Ten in the Series Architectural Ti ansformations in the Islamic World K. H. Anthony, "Private Reactions to Public Criticisin: Students, Faculty, and Practicing
63
(Cingapura: Concept Media, 1986), 3. Architects State Their Views on Design Juries in Architectural Education", Journal of
Design Juries on Trial: The
61 P. Bourdieu, Thc Scholastic Point of View, Cultural Anthropology 5, ti', 4 (1990: 380-391).
Architectural Education 40, n0 3 (1987): 2-11; e K. H. Anthony,
62 Willenbrock, "An Undcrgraduate Voice in Architectural Education", 102.
Renaissance of the Design Studio (Nova York: Van Nostrand Reinhold, 1991).
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expositivas e exames escritos. O gosto e o refinamento não podem ser dete s perigos sempre presentes de contaminação são minimizados isolando-
minados por questões de múltipla escolha. Apenas o contato face a face e cialmente os estudantes de seus colegas de outras disciplinas e até mesmo
experiência imediata e pessoal podem fazer isto, permitindo ao examinador a família:
discernir a adequação do examinado por meio de todos os signos sutis de lin-
A interação prolongada e intensa ao longo de um semestre acadêmico pode
guagem corporal, vestimentas, conduta, postura e fluência verbal. Vale a pena
resultar em uma atmosfera familiar — com os melhores e piores aspectos da
reiterar este ponto: se o gosto e o refinamento pudessem ser objetivados,
vida familiar diariamente se manifestando. O contato intenso com os colegas
não teriam o valor que têm. A dificuldade de aquisição e a avaliação em de ateliê quase sempre dificulta a amizade dos estudantes com aqueles de
pessoa da pessoa são características essenciais e definidoras. Sem dúvida isso outros anos. Como muitos alunos admitiram, quanto mais anos eles passam
explica os tumultos que ocorreram na École des Beaux-Arts quando o governo estudando projeto, menos amigos têm que não sejam também estudantes de
tentou tornar compulsórias suas matérias expositivas. O governo recuou rapi- projeto. Enclausurados no cativeiro do ateliê, o ateliê demanda um papel cada
damente, e os estudantes de arquitetura retomaram alegremente sua velha prá- vez maior corno o centro de suas vidas sociais e, conseqüentemente, o mun-
tica de ignorar as aulas expositivas e de só dar importância aos ateliês.64 do externo ao ateliê se torna menos importante."
Ao saturar os estudantes com os objetos da cultura arquitetônica, ao lhes
apresentar pessoas modelares, exemplos vivos de capital cultural corporificado Essa forma de internamento produz um conjunto de indivíduos social e
(daí a insistência na importância de se ter arquitetos que exerçam a profissão mentalmente homogêneos, cuja homogeneidade reforça o processo de socia-
como professores), ao exibir nos mínimos detalhes de aparência, roupas e gos- lização e o fechamento do capital social, limitando as possibilidades de más
to que estão se tornando aquilo que desejam ser, os estudantes absorvem capi- alianças e lançando as fundações de padrões futuros de cooperação na carrei-
tal cultural do único modo possível, expondo ao olhar de seu professor de pro- ra," Insistindo em que todos os membros do corpo docente tenham um diploma
jeto todo o seu ser social. Basta observar a maneira estudada do professor de profissional em arquitetura, as faculdades também isolam intelectualmente seus
projeto, como no caso do papel representado pelo arquiteto de vanguarda Bernard alunos. No interior das escolas, esse isolamento é exacerbado denegrindo-se
Tschumi que se mostrou, ao menos para uma pessoa na platéia, como a própria as matérias expositivas e despreocupando-se de leituras que não aquelas que
corporificação do capital corporificado: sejam influências puramente arquitetônicas que o professor de ateliê quer que os
estudantes absorvam. Conforme as palavras de . um estudante relatadas por
Bernard Tschumi, também, tinha o ar de um homem que havia apostado no Anthony:
único bom cavalo da corrida. Ele ostentava uma conduta mais parisiense que
qualquer outra pessoa presente no simpósio, inclusive Derrida, proferindo A escola de arquitetura era como um campo militar: 12 horas por dia, sete dias
sua conferência usando o tipo de lenço de pescoço que os existencialistas por semana em projeto básico... Em retrospecto, foi o começo de uma mudan-
achavam chique quarenta anos atrás e falando no murmúrio baixo da ça radical em minha educação — um período totalmente antiintelectual de
interioridade, quebrado por explosões súbitas de assertivas, que é o modo 5 minha vida. Posso dizer, honestamente, que mal li um livro em meus três anos
ideal do pós-estruturalismo. Se ouvi bem, estávamos testemunhando uma na escola de arquitetura... A cada minuto, eu estava me sentindo corno se
"crise terminal do referente". Não havia limites: "habitamos um espaço frag- fosse um aluno de primeira série... Meu primeiro instrutor de projeto parecia
mentado feito de acidentes". Achei difícil imaginar algo menos acidental que um sargento. É mais ou menos como estar sendo domesticado."
Bernard Tschumi, com a caída de seu terno, o movimento de sua echarpe, o
tom estilizado de sua apresentação feita para uma parcela de nosso universo
estarrecido e sem objetivo em um auditório imerso na penumbra."

66 Anthony, Design Juries on Trial, 15.


67
L. J. D. Wacquant, "On the Tracks of Symbolic Power: Prcfatory Notes to Bourdicu's 'State
64 Chafee, "The Teaching of Architecture at The École des Beaux-Arts". Nobility'", Theory, Culture and Society 10 (1993): 1-17.
65 H. Jacobson, "Peering into the Abtme", Modern Painters 1, nç 2 (1988): 54. 68 Anthony, Design Jury on Trial, 15.
O sistema de ateliê favorece o habitas refinado As escolas favorecem quem as favorece

É mais fácil ter sucesso se já se está na metade do caminho para o suces- Todos os processos de enculturação devem conseguir duas coisas: em
so. O ateliê de projeto, ao confiar tanto na apresentação do eu para aqueles que primeiro lugar, enculturar com sucesso; em segundo lugar, remover aqueles
irão avaliar o eu, favorece os que vão para a arquitetura já conhecendo algu- que não vão ser enculturados. O objetivo é produzir indivíduos que queiram
mas das estratégias do jogo da cultura. A graça natural, o sentimento do jogo, jogar o jogo que escolheram (seja arquitetura ou direito, seja engenharia ou qual
que aqueles que são de famílias cultivadas — em especial de arquitetos — possuem, for), tenham prazer no jogo, acatem a integridade inerente do jogo e acreditem
faz com que estejam mais bem preparados para conviver com as peculiarida- que as dificuldades enfrentadas agora são apenas etapas necessárias no cami-
des da linguagem do projeto. Considere estes exemplos: A ação do processo de enculturação pode ser
nho a seguir daqui por diante.72
observada com mais clareza nas mudanças por que passam os estudantes em
A linguagem do professor tem um problema logístico inerente: é vaga. sua maneira de vestir e em seus modos ao longo de seu tempo na escola. Isso
A ambigüidade da linguagem do professor torna o estudante incapaz de não é urna mera transição da adolescência para a idade adulta. Como venho
discernir o bom do ruim, de ter um sentido de valor de seu próprio trabalho ou observando há muitos anos, os estudantes tomam-se mais parecidos no vestir,
do trabalho de qualquer outra pessoa.°
no gosto e na postura: eles se tomam mais homogêneos.
Há pouca comunicação efetiva do idéias nos julgamentos. Observações No interior do sistema educacional, os estudantes são mantidos em um
tangenciais são difíceis de ser aplicadas. O nível de abstração, a linguagem e
&estado quase que de submissão, o qual varia de lugar para lugar, de época para
as alusões vagas, o discurso elíptico e os comentários muitas vezes cáusti-
cos são barreiras para que se possa retirar qualquer coisa de útil da reação época e de disciplina para disciplina. Nas disciplinas em que a autoridade está
lar
dos jurados." fora do indivíduo (tais como as ciências físicas ou a engenharia), onde os crité-
delk